Arquivo do mês: dezembro 2007

Trovadorismo

Literatura Medieval – o Trovadorismo

Para conhecer a literatura medieval, precisamos, antes, conhecer um pouco da Idade Média, relembrar as aulas de História.

A Idade Média foi o tempo em que nasceram as nações européias como as conhecemos hoje. Para que isso ocorresse, foi necessário encerrar o período feudalista, em que o poder estava nas mãos dos senhores feudais, e restabelecer o poder dos reis, reconhecendo neles a autoridade de governo. Isso só foi possível graças ao Renascimento Comercial.

As viagens dos mercadores ao Oriente colocaram os europeus em contato com uma realidade diferente. No Oriente, havia cidades prósperas, bonitas, e um comércio intenso de produtos requintados há muito tempo ignorados pelos europeus. Ao poucos, os mercadores intensificaram o comércio com o Oriente, inicialmente pelo Mediterrâneo, a partir das cidades italianas de Gênova e Veneza. Por mar e por terra, as rotas comerciais se expandiram em todas as direções, fazendo surgir novas cidades e enriquecendo uma nova classe social: a dos burgueses comerciantes.

A força do dinheiro dos burgueses chamou a atenção dos reis, que logo se aliaram a eles, enfraquecendo o poder da nobreza (senhores feudais) e da igreja. Apoiados pelo dinheiro dos burgueses, recolhido na forma de impostos, os reis quiseram demonstrar a sua força: organizaram exércitos sob o seu comando, instituíram leis para todo o país, estabeleceram uma língua única e deram vida nova às suas cortes.

A formação de Portugal se deu numa época de transição em que se percebe o sistema feudal em crise e, em contrapartida, o crescimento das atividades mercantis em áreas urbanas. Como afirmam Oscar Lopes e Antônio J. Saraiva no livro História da literatura portuguesa: “Na época em que Portugal se constitui como estado independente, em meados do século XII, encerra-se a chamada “Idade das Trevas”, isto é, a idade em que a economia, a sociedade, a vida política e a cultura estiveram dominadas pela economia rural de auto-subsistência. Começa a desenvolver-se a economia mercantil; em face dos castelos brotam as vilas e cidades povoadas de “burgueses”. Os produtos da terra começam a ser lançados e procurados nos mercados pela gente citadina. Entre o senhor, que usufrui do rendimento da terra, e o servo que o produz, novas classes se instituem, quer ligadas ao trabalho rural, como os pequenos proprietários e os rendeiros livres, quer a novas atividades econômicas, como os mercadores e os negociantes de dinheiro.”

Muito característico também dessa época é o espírito de intensa religiosidade. Grande parte das atividades sociais estava relacionada à Igreja, o homem medieval vivia sob o medo e o temor de Deus, a produção cultural estava, pois, toda ela sujeita à aprovação do clero. Enfim, Deus estava no centro de todas as preocupações.
É por isso que se denomina essa época de teocêntrica.

Seria interessante, também, lembrar as relações de vassalagem entre o senhor feudal e os servos. Essa mesma rigidez e distanciamento vão ser transportados para o relacionamento amoroso na poesia, sob a denominação de amor cortês. Todas essas marcas estarão visíveis na produção artística da época, especialmente na literatura.

Cantigas e Trovadores

É nessa época que surgiram os primeiros textos literários: as cantigas trovadorescas, assim chamadas porque eram compostas e cantadas pelos trovadores, que eram acompanhados por instrumentos musicais como o alaúde, a flauta, a viola, a gaita etc.

Essas composições eram poesias feitas para serem cantadas nas feiras ou nos castelos, só mais tarde foram reunidas em cancioneiros, sendo os mais importantes: o da Ajuda, o da Biblioteca Nacional e o do Vaticano. (As cantigas têm um correspondente na arte popular brasileira: as trovas dos repentistas do Nordeste, que tanto divertem os turistas nas feiras e nas praias).

O texto mais antigo desse período, segundo Carolina Michaelis, é a Canção da Ribeirinha (também conhecida como Canção de Guarvaia), de Paio Soares de Taveirós.

Tipos

Compostas e cantadas no idioma galego-português (comum a Portugal e à Galícia, pois o português propriamente dito ainda não se desenvolvera), as cantigas se dividem em dois tipos: líricas (cantigas de amor e de amigo) e satíricas (de escárnio e maldizer).

As cantigas de escárnio e maldizer eram feitas para ridicularizar alguém, numa linguagem simples, popular e, muitas vezes, obscena.

As cantigas de amor tiveram origem em Provença, no sul da França. Chegaram a Portugal nos contatos entre as cortes e por meio dos romeiros e peregrinos em viagem aos lugares santos. Como se adivinha pelo nome, tratam do relacionamento amoroso e inauguram a forma do amor cortês, em que os trovadores declaram seu amor a uma dama (de posição social superior), pedindo-lhe que aceite sua devoção e colocando-se, submisso, à sua disposição – em uma relação muito parecida com a suserania e vassalagem, percebida na estrutura social medieval.

As cantigas de amigo, ao contrário, tiveram origem na própria Península Ibérica e apresentam uma diferença fundamental em relação à cantiga de amor, o trovador compõe sua cantiga como se fosse uma mulher contando o seu sofrimento à espera do namorado (chamado amigo). Nessa composição, os elementos da natureza (flores, árvores, praias etc.) aparecem assim como pessoas do ambiente familiar (mãe, amigas etc) atribuindo à cantiga um caráter popular. (Modernamente, Chico Buarque de Holanda, em muitas de suas composições, dá voz a uma mulher que canta seus sofrimentos de amor).

A TROVA

Segundo o trovador paranaense A. A. de Assis, a língua portuguesa nasceu cantando trovas, isso há mais de mil anos, na voz dos jograis e menestréis que iam de cidade em cidade espalhando os seus versos.Cultivara-se a trova inicialmente no sul da França, de lá se espalhando por toda a Europa, até encontrar na Espanha e, finalmente, em Portugal, o seu mais fértil canteiro.

Nas cortes portuguesas a trova alcançou grande esplendor. Era a poesia dos reis, como o célebre Dom Dinis; dela se serviram Gil Vicente e Camões; mais recentemente, cantaram em trovas Augusto Gil, Antônio Correia de Oliveira, Fernando Pessoa.

Ao Brasil a trova chegou nas caravelas de Cabral. Facilmente aclimatou-se, caiu no gosto do povo, e até hoje perdura, ganhando a cada dia mais adeptos. Cultivou-a José de Anchieta; passou por Gregório de Matos; pelos árcades (Tomás Antônio Gonzaga, Alvarenga Peixoto, Cláudio Manuel da Costa); pelos românticos (Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu, Castro Alves); pelos parnasianos (Olavo Bilac, Alberto de Oliveira, Vicente de Carvalho); pelos simbolistas (Cruz e Souza, Alphonsus de Guimarães; pelos modernistas (Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Carlos Drumonnd de Andrade)…

Mas a grande expansão da trova no Brasil, com repercussão imediata em Portugal, deu-se mesmo a partir de 1956, com o lançamento de “Meus irmãos, os trovadores”, uma coletânea de duas mil trovas organizada por Luiz Otávio, na época o trovador mais conhecido em todo o país. No livro aparecem, entre centenas de outros autores, alguns poetas já consagrados e que se especializaram em trovas: Adelmar Tavares (o primeiro trovador a ingressar na Academia Brasileira de Letras), Bastos Tigre, Belmiro Braga, Lilinha Fernandes.

Tamanho foi o sucesso da obra, que a trova ganhou espaço na maioria dos jornais e revistas e também em numerosos programas de rádio. Em 1959, Luiz Otávio e J. G. de Araújo Jorge, com apoio do jornal carioca “O Globo”, lançaram os I Jogos Florais de Nova Friburgo, ponto de partida para a consolidação do movimento literário mais amplo e bem organizado de que se tem notícia da literatura brasileira.

Os Jogos Florais foram muito populares na Idade Média. Era um torneio cultural promovido anualmente em Toulouse, França, inspirado em tradições originárias da Roma antiga. Por se realizar na primavera, esse torneio, que envolvia várias modalidades literárias, oferecia prêmios (troféus) em forma de flores, daí o nome “Jogos Florais”.

Os I Jogos Florais de Nova Friburgo constaram de um grande concurso de trovas, com o tema “amor”. A festa de premiação, em maio de 1960, reuniu na bela cidade serrana fluminense, além dos vencedores do concurso, outros ilustres intelectuais, entre os quais Antônio Olinto, Eneida, Jorge Amado, Manuel Bandeira. Dali por diante, dezenas de outras cidades passaram a promover torneios semelhantes, alguns com o nome de Jogos Florais, outros simplesmente como concursos de trovas. Na maioria dessas cidades, a festa hoje faz parte do calendário de eventos, constituindo importante atração turística.

O concurso de trovas propõe um ou mais temas, a partir dos quais trovadores de todo o Brasil e também de Portugal produzem seus versos. Ao final do prazo estabelecido para remessa dos trabalhos, uma comissão julgadora seleciona as trovas premiadas (vencedoras, menções honrosas e menções especiais).

Os autores das trovas contempladas são convidados a comparecer à cidade promotora do concurso para uma festa que dura de um a três dias. Nessa ocasião, além de passeios, recitais e outros programas, faz-se uma reunião solene para entrega dos prêmios (diplomas, troféus e medalhas). Não há prêmio em dinheiro. Quando há recursos disponíveis, os premiados ganham hospedagem e refeições, mas as despesas de transporte correm por conta de cada um. Por ser um movimento literário que se caracteriza pela fraternidade, tal costume é aceito tranqüilamente.

A União Brasileira de Trovadores tem seções e delegacias em todo o país, congregando cerca de 5 mil trovadores. A trova moderna define-se como um poema composto de quatro versos de sete sons (setissílabos), rimando o primeiro verso com o terceiro e o segundo com o quarto. Assemelha-se ao haicai, pela concisão; porém é mais acessível ao público geral, pela sua musicalidade e simplicidade. Adelmar Tavares a resumiu assim:

“Oh linda trova perfeita”,
que nos dá tanto prazer…
Tão fácil, depois de feita…
tão difícil de fazer!”

Classificam-se as trovas em três grupos principais: filosóficas, líricas e humorísticas.

Exemplo de trova filosófica:

Redimindo os pecadores,
conduzindo-os para a luz,
o maior dos sonhadores
morreu pregado na cruz!
Aparício Fernandes

Exemplo de trova lírica:

Eu vi minha mãe rezando
aos pés da Virgem Maria:
– Era uma Santa escutando
o que outra santa dizia!
Barreto Courinho

Exemplo de trova humorística:

Minha sogra não reclama
pelo trato que lhe dou.
Até de filho me chama…
só não diz que filho eu sou!

Elton Carvalho

O trovador carioca Sérgio Bernardo, em artigo A Trova: Origem, Trajetória, Rumos, enfatiza que a trova, desde sua origem até este início do séc. 21, tem estado presente em todos os movimentos literários surgidos. No Trovadorismo dos séc. 13 e 14, como visto, encabeçou os tipos poemáticos chamados cantigas (de amor, amigo e de escárnio e maldizer).

Nos séc. 15 e 16 eram compostas isoladamente ou retiradas do trovário popular — coleção de trovas anônimas — para que os poetas as glosassem, desenvolvendo poemas mais extensos, de várias estrofes, cujo conteúdo era centrado na temática da trova-mote. Os autores já não tinham de estar presos, porém, a temas fixos como nas cantigas, podendo os versos ser de exaltação a campanhas militares, feitos reais ou mesmo um relato da vida cotidiana das cidadelas fortificadas.

Ao tempo de Camões, Sá de Miranda e Diogo Fernandes, entre outros, as trovas eram largamente referidas por estes poetas, recolhidas do povo, como esta que critica a cessão de Portugal ao trono da Espanha, no séc. 16:

Viva El Rei Dom Henrique
Lá no inferno muitos anos,
Pois deixou em testamento
Portugal aos castelhanos!

A esta altura, com o surgimento do Brasil na geografia mundial, vem a trova na bagagem dos primeiros portugueses. Difícil é ser encontrada documentalmente, já que o governo português proibia a impressão gráfica na nascente colônia. Mesmo assim, há referência dela utilizada como estribilho em poemas de, por exemplo, José de Anchieta (1543-1597).

No séc. 17, já com uma literatura brasileira mais expressiva, surgem nossos primeiros livros, impressos em Portugal, um deles o Compêndio Narrativo do Peregrino da América, de Nuno Marques Pereira (1652-1734?), em que as trovas estão presentes. Historicamente, trata-se do primeiro livro brasileiro contendo trovas intencionais (isoladas).

Sem conta, peso ou medida,
vivo no mundo, de sorte
que não sei, chegando a morte,
que conta darei da vida.

Com o florescimento do Arcadismo, no século seguinte, imperaram as composições poéticas com metros e estrofes de maior extensão, mas muitas trovas podem ser derivadas, como esta que encerra um poema de Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), o célebre autor de Marília de Dirceu:

Não sei, Marília, que tenho,
depois que vi o teu rosto,
pois quando não é Marília
já não posso ver com gosto.

Antônio Bersane Leite, amigo de Bocage, que veio para o Brasil em 1807 e aqui morreu, foi outro que escreveu muitas trovas intencionais, sobretudo satíricas. O séc. 19 foi riquíssimo em movimentos literários — o Romantismo, Parnasianismo, Simbolismo — e em grandes vozes poéticas. Todos os poetas situados dentro destes períodos cederam aos encantos da trova, entre eles, Castro Alves (romântico):

As nuvens ajoelhadas
nos claustros ermos e vãos
passam as contas doiradas
das estrelas pelas mãos!

Ou Olavo Bilac (parnasiano):

O amor que a teu lado levas
a que lugar te conduz,
que entras coberto de trevas
e sais coberto de luz?

Ou ainda Alphonsus de Guimaraens (simbolista):

O cinamomo floresce
em frente do teu postigo…
Cada flor murcha que desce
morre de sonhar contigo!

Com a chegada do séc. 20, surgem os primeiros trovadores autênticos, começando a encarar a trova com mais seriedade e escrevendo-a conscientes de estar criando uma peça literária, com o cuidado formal e estilístico que esta merece. Destacam-se Américo Falcão, Belmiro Braga e Adelmar Tavares, primeiro trovador a pertencer à Academia Brasileira de Letras (ABL).

Também em letras de música — nas modinhas, lundus, chorinhos — a trova se fez presente.

Dos grandes poetas desse século, praticamente todos mostraram-se sensíveis à trova e em dado momento a produziram. Podem ser citados, entre tantos, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Cecília Meireles. Desta última ficou uma linda trova:

Em barca de nuvens sigo…
E o que vou pagando ao vento
para levar-te comigo
é suspiro e pensamento.

Em 1956, Luiz Otávio (1916-1977) compilou e publicou a antologia Meus irmãos, os trovadores, contendo 2 mil trovas de autores brasileiros e portugueses, de Gregório de Matos aos atuantes na época. Este livro é considerado o marco de criação do movimento trovadoresco atual, pois, a partir dele, trovadores e mais trovadores foram aparecendo por todo o Brasil, numa verdadeira febre pelas quadras de 7 sílabas. De tal porte foi este surto trovístico, que a ocasião tornou-se propícia para se criar o primeiro concurso de trovas com congraçamento de trovadores, os I Jogos Florais de Nova Friburgo, em 1960.

Daí por diante, outras cidades compraram a idéia e passaram a promover seus concursos e jogos florais, que foram se espalhando por todo o País, de Belém, PA, a Porto Alegre, RS. Centenas de milhares de trovas já foram escritas, milhares delas antológicas, a partir do que é possível reafirmar-se: a trova é o gênero poético de forma fixa mais cultivado hoje no Brasil. E talvez mesmo no mundo, podendo ser até que ganhe do haicai, poema de 3 versos originário do Japão e largamente produzido naquele país.

Rumos

Em pleno séc. 21, era da supremacia tecnológica, do comportamento globalizado e do vanguardismo a qualquer preço, a trova resiste e continua ativa, efervescente e fazendo brotar novos talentos. No País, a União Brasileira de Trovadores é a entidade responsável, administrativamente falando, pela sua consolidação, divulgação e perpetuação, através da coordenação de concursos ou realização de oficinas em escolas e instituições públicas, visando a despertar o interesse pela trova, sobretudo no tocante às novas gerações. Trovas escritas por jovens do ensino fundamental e médio, em muitas cidades brasileiras onde estas oficinas são ministradas, dão a certeza de que a UBT caminha em bom rumo. E de que a trova ainda tem muito a contribuir com nossa literatura poética, enquanto num mundo cada vez mais assediado pela máquina houver coragem para se falar de sentimento.

Fontes:
ASSIS, A.A. de. Falando sobre Trovas. Disponível em http://ubtportoalegre.portalcen.org/leitores.htm

BERNARDO, Sérgio. A Trova: Origem, Trajetória, Rumos. Disponível em http://www.falandodetrova.com.br/v5/atrovaorigem

SANTOS, Eberth. MOURA, Josana de. Literatura e Filosofia (Palavra em Ação). 2.ed. Uberlândia: Ed. Claranto, 2004.

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William Blake (1757 – 1827)

William Blake nasceu em Londres em 1757, onde viveu praticamente quase toda a sua vida, morrendo em 1827. Filho de um comerciante rico, desde criança gostava de ler e desenhar. Aos dez anos de idade, foi enviado à escola de desenho e, aos quatorze anos, tornou-se aprendiz do famoso gravador James Basire. Dois anos depois, Blake começou a estudar e desenhar as igrejas de Londres, particularmente Abadia de Westminster cuja estilo gótico grandioso impressionou e o fascinou muito.

William Blake foi o primeiro dos grandes poetas românticos ingleses, como também pintor, impressor, e um dos maiores gravadores da história inglesa. Suas imagens incluem o poeta do século 17, John Milton, descendo dos céus na forma de um cometa e caindo sobre o teto do pintor.

William Blake como tinha estado escrevendo poesia desde os onze anos, teve seus poemas impressos, em 1792, sob o título de ” Poetical Sketches “.

Os poemas eram expressão espontânea de um gênio original e visto como um prodígio. A métrica empregada por ele recorre em grande parte ao verso em branco que era uma característica criativa da era Elizabetana.

A partir de 1784, Blake começa a publicar vários de seus poemas: Song of Innocence” e ” The Book of Thel ” que foi seguido brevemente por ” The Marriage of Heaven and Hell “. Os livros eram todos gravados e impressos por ele com auxílio da esposa.

Blake foi um rebelde toda a vida; uma voz solitária contra a marcha da ciência e da razão. Talvez por isso tenha sido visto por seus contemporâneos como um lunático e tenha desfrutado de pouco sucesso quando vivo. Ele falava com anjos nas árvores e uma vez foi encontrado no jardim com sua mulher, ambos nus, brincando de Adão e Eva.

Ao longo de toda a sua vida, William Blake foi incomodado pela pobreza, sendo amenizada por alguns amigos. Reclamou sobre a falta de reconhecimento de seu trabalho, mas percebeu logo que não estava só.

A partir de 1794 dedicou-se a trabalhos mais poéticos e, entre eles, ” The Gates of Paradise ” e ” Song of Experience “. Ilustrava com aquarelas seus poemas e trabalhos de amigos.

A maioria das pinturas de Blake (como “The Ancient of Days” sobre a fachada para a Europe: a Prophecy ) é de fato impressões feitas de pratos de cobre que ele cauterizou em um método ele escreveu Ter sido revelado a ele em um sonho. Ele e a esposa coloriram estas impressões com cores de água. Assim cada impressão é uma obra de arte sem igual.

Blake freqüentemente é chamado de místico, mas isto não é realmente preciso. Ele escreveu deliberadamente no estilo dos profetas hebreus e escritores apocalípticos. Ele pressentiu que seus trabalhos eram como expressões de profecias, enquanto seguia nos passos de Milton. Na realidade, ele acreditou claramente que foi a incorporação viva do espírito de Milton.

Aos 67 anos William Blake começou os desenhos para o ” Inferno ” da Divina Comédia de Dante, e foi tão dedicado que aprendeu o italiano para aprofundar melhor no universo de Dante; trabalhando nestes desenhos até os últimos dias de sua vida.

O trabalho de Blake é a maioria das vezes analisado e julgado sob óticas pequenas. Mas os seus escritos iluminados e gravuras são todos, polegadas em tamanho, contudo, quando estudado, são detalhes meticulosos usados por ele, cada trabalho é visto como uma parte de um todo titânico, de um gênio.

A Importância de William Blake para o Mundo Moderno

William Blake viveu o final do décimo oitavo século e o início do décimo nono, era um poeta profundamente ativo, em grande parte, responsável por provocar o movimento Romântico em poesia; alcançando resultados notáveis com os meios mais simples; restabeleceu a musicalidade do idioma inglês.

A pesquisa de William Blake e a sua introspeção na mente humana e alma resultou em seu íntimo o que se chamou mais tarde de ” O Colombo da psique, ” e porque nenhum poeta existiu para descrever o que ele descobriu nas viagens interiores. Blake criou sua própria mitologia para descrever o que ele achou em sua alma. Ele era poeta realizado, pintor, e gravador.

Além todas essas realizações, Blake era um crítico social do próprio tempo e se considerou um profeta de tempos por vir. Toda sua poesia foi escrita como se estivesse a ponto de ter o impacto social imediato de um tempo novo.

Blake viveu durante um tempo de intensa mudança social. A Revolução americana, a Revolução francesa, e a Revolução Industrial aconteceram durante sua vida. Estas mudanças deram para Blake uma chance para ver um das fases mais dramáticas na transformação do mundo Ocidental de uma sociedade um pouco feudal, agrícola para uma sociedade industrial onde os filósofos e os pensadores políticos como Locke, Franklin, e Paine proclamaram os direitos do indivíduo. Algumas destas mudanças tiveram a aprovação de Blake, outras não.

Um exemplo da desaprovação de Blake de mudanças que aconteceram no seu tempo entra no poema “London” da obra: Songs of Experience. Em ” London “, que foi descrito como resumindo muitas implicações de Songs of Experience, Blake descreve as aflições da Revolução Industrial.

Um exemplo:
O narrador em “London” descreve o rio e as ruas da cidade londrina como controlada por interesses comerciais; referindo-se “mind-forged manacles“; Blake relaciona que a face de todo homem contém ” Marcas de fraqueza, marcas de aflição “; e ele discute o “every cry of every Man” e “every Infant’s cry of fear.” Blake conecta matrimônio e morte recorrendo a um “carro funerário” e descreve isto como “destruído com pestilência”. Ele também fala sobre “o suspiro “do Soldado infeliz e a maldição “da” Meretriz jovem e descreve “enegrecendo Igrejas” e palácios que escorrem em sangue ( “London“).

Em “London“, e muitos dos outros trabalhos, Blake que lida com um tema semelhante, particularmente esses das Songs of Experience, golpeiam um nervo particular para esses homens que estão vivendo em uma sociedade onde o custo de vida comparada com renda é continuamente crescente. Os poemas dessa fase ressonam para uma geração que tem que lidar com problemas de população exponencialmente crescente e com rapidamente demandas crescentes em nossas instalações de imigração e recursos. Eles golpeiam uma corda especial com uma nação que, devido aos problemas acima mencionado, a elevação de crime violento, e outras considerações, está se dessensibilizando rapidamente às “marcas de fraqueza, marcas de aflição” que nós estamos ficando acostumados a ver nas faces de todos transeuntes.

Blake aprovou algumas das medidas que os indivíduos e sociedades levaram ganhar e manter liberdade individual. Era liberal em políticas, sensível às medidas opressivas do governo e favoravelmente inspirado pela Guerra Revolucionária americana e a Revolução francesa. Blake escreveu muitas coisas positivas e apreciativas sobre o pensador político americano revolucionário Thomas Paine.

Blake também aderiu muitas outras noções com que nós estamos agora familiarizados. Por exemplo, em Jerusalem, Blake propõe a Fraternidade de Homem como a única solução para os problemas do mundo, individual e internacional. De acordo com Blake, nós somos todos os irmãos porque nós somos todos os filhos do Pai, e todos têm o Jesus (que simboliza freqüentemente Imaginação, Humanidade, e a fonte de tudo para Blake) em nós.

As visões de Blake em religião também são particularmente pertinentes para o mundo moderno. Blake substituiu o ateísmo árido ou deísmo tépido do enciclopedistas e seus discípulos com uma religião pessoal. Além de rejeitar ” ateísmo ” árido e ” deísmo tépido, ” Blake atacou também religião convencional.

Em The Marriage of Heaven and Hell escreveu sobre as religiões ” são construídas Prisões com pedras de Lei, Bordéis com tijolos de Religião ” e ” Como a lagarta escolhe as folhas para botar os ovos, assim o padre põe a maldição dele nas alegrias “. Em lugar de aceitar uma religião tradicional de uma igreja organizada, Blake projetou sua própria mitologia (baseada principalmente na Bíblia e na mitologia grega).

A religião pessoal de Blake era sua procura do Everlasting Gospel que ele acreditava, como escreveu: ” todos tiveram um idioma e uma religião originalmente. A religião de Blake era baseada na alegria do homem que ele acreditava ser Deus glorificado. Um das objeções mais fortes de Blake para o Cristianismo ortodoxo é que a doutrina encoraja a supressão de desejos naturais e desencoraja alegria terrestre; em A Vision of the Last Judgement, diz Blake que ” não são admitidos os Homens no Céu porque eles governam suas Paixões“.

A última linha do poema épico inacabado dele The Four Zoas é “as Religiões escuras são passadas e doce a Ciência reina .

Há inúmeras semelhanças entre nosso tempo e o de Blake. Ele teve a Revolução Industrial; nós estamos vivendo na idade da Revolução de Informação.

Blake viveu num tempo quando capitalistas da classe alta gananciosos exploraram a classe de trabalhadores para lucro pessoal, a coisa em nosso tempo se dá não como um grupo de pessoas, mas uma nação explorando outra.

Blake viveu em uma idade onde Deísmo, uma fé que negou qualquer possibilidade de experiência direta com Deus, tinha capturado as mentes das pessoas mais inteligentes; nós vivemos em uma idade de dúvida, enquanto procurando, rejeição de religião dogmática tradicional, e ciência sem experiência, a mística avança muitas vezes sem ética alguma.

Certamente as visões e os poemas de William Blake, não pertencem há um tempo passado, mas mergulham no futuro, na mitologia pessoal de cada um de nós, em busca de uma resposta para o nosso existir: O que fazemos aqui, no terceiro planeta de um pequeno sistema solar, num canto de um galáxia quase imperceptível no universo? A resposta, como queria William Blake: pode estar dentro de nós mesmos.

Fonte:
pt.wikipedia.com

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A Narração e sua estrutura

O QUE É NARRAÇÃO

A narração ou narrativa pode ser definida como um dos três modos literários, sendo os outros o lírico e o dramático; ou como um dos três modos básicos de redação, sendo as outras a descrição e a dissertação.

Basicamente narrar é contar uma história, e para tanto teremos personagens, cenários, conflitos, cenas. O estudo da narrativa e destes elementos é chamado de narratologia, comumente associado ao estruturalismo, mas com referências na Poética grega e no formalismo russo.

Roland Barthes, mestre no estudo da narrativa, afirma que “a narrativa está presente em todos os tempos, em todos os lugares, em todas as sociedades, começa com a própria história da humanidade; é fruto do gênio do narrador ou possui em comum com outras narrativas uma estrutura acessível à análise”.

Ação
A ação é o conjunto de acontecimentos que se desenrolam num determinado espaço e tempo. Aristóteles, em sua Poética, já afirmava que “sem ação não poderia haver tragédia”. Sem dificuldade se estende o termo tragédia à narração, e assim a presença de ação é o primeiro elemento essencial ao texto narrativo.

Estrutura da ação
A ação da narrativa é constituída por três ações: Intriga, Ação principal e Ação secundária.
•Intriga: Ação considerada como um conjunto de acontecimentos que se sucedem, segundo um princípio de causalidade, com vista a um desenlace. A intriga é uma ação fechada.
•Ação principal: Integra o conjunto de seqüências narrativas que detêm maior importância ou relevo.
•Ação secundária: A sua importância define-se em relação à principal, de que depende, por vezes; relata acontecimentos de menor relevo.

Seqüência
A ação é constituída por um número variável de seqüências (segmentos narrativos com princípio, meio e fim), que podem aparecer articuladas dos seguintes modos:
•Encadeamento ou organização por ordem cronológica
•Encaixe, em que uma ação é introduzida numa outra que estava a ser narrada e que depois se retoma
•Alternância, em que várias histórias ou seqüências vão sendo narradas alternadamente.

Tempo
•Tempo cronológico ou tempo da história – determinado pela sucessão cronológica dos acontecimentos narrados.
•Tempo histórico – refere-se à época ou momento histórico em que a ação se desenrola.
•Tempo psicológico – é um tempo subjetivo, vivido ou sentido pela personagem, que flui em consonância com o seu estado de espírito.
•Tempo do discurso – resulta do tratamento ou elaboração do tempo da história pelo narrador. Este pode escolher narrar os acontecimentos:
Por ordem linear
•(anacronia), recorrendo à analepse (recuo a acontecimentos passados) ou à prolepse (antecipação de acontecimentos futuros);
•(isocronia), como, por exemplo, na cena dialogada;
•(anisocronia), recorrendo ao resumo ou sumário (condensação dos acontecimentos), à elipse (omissão de acontecimentos) e à pausa (interrupção da história para dar lugar a descrições ou divagações).

Personagens
Roland Barthes, além de retomar a importância que os clássicos davam à ação, avança ao afirmar que “não existe uma só narrativa no mundo sem personagens”. Aqui se entende personagem não como pessoas, seres humanos. Um animal pode ser personagem (Revolução dos Bichos), a morte pode ser personagem (As intermitências da morte), uma cidade decadente ou uma caneta caindo podem ser personagens, desde que estejam num espaço e praticando uma ação, ainda que involuntária.

Relevo das personagens
•Protagonista, personagem principal ou herói: desempenha um papel central, a sua atuação é fundamental para o desenvolvimento da ação.
•Personagem secundária: assume um papel de menor relevo que o protagonista, sendo ainda importante para desenrolá-lo da ação.
•Figurante: tem um papel irrelevante no desenrolar da ação, cabendo-lhe, no entanto, o papel de ilustrar um ambiente ou um espaço social de que é representante.

Composição
•Personagem modelada ou redonda: dinâmica, dotada de densidade psicológica, capaz de alterar o seu comportamento e, por conseguinte, de evoluir ao longo da narrativa.
•Personagem plana ou desenhada: estática, sem evolução, sem grande vida interior; por outras palavras: a personagem plana comporta-se da mesma forma previsível ao longo de toda a narrativa.
•Personagem-tipo: representa um grupo profissional ou social.
•Personagem coletiva: Representa um grupo de indivíduos que age como se os animasse uma só vontade.

Caracterização
•Direta
•Autocaracterização: a própria personagem refere as suas características.
•Heterocaracterização: a caracterização da personagem é-nos facultada pelo narrador ou por outra personagem.
•Indireta: O narrador põe a personagem em ação, cabendo ao leitor, através do seu comportamento e/ou da sua fala, traçar o seu retrato.

Espaço
•Espaço físico: é o espaço real, que serve de cenário à ação, onde as personagens se movem.
•Espaço social: é constituído pelo ambiente social, representando, por excelência, pelas personagens figurantes.
•Espaço psicológico: espaço interior da personagem, abarcando as suas vivências, os seus pensamentos e sentimentos.

Final
Narrador
• Participação
• Heterodiegético: Não participante.
• Autodiegético: Participa como personagem principal.
• Homodiegético: Participa como personagem secundária.
• Focalização: É a perspectiva adotada pelo narrador em relação ao universo narrado.
• Focalização onisciente: colocado numa posição de transcendência, o narrador mostra conhecer toda a história, manipula o tempo, devassa o interior das personagens.
• Focalização interna: o narrador adota o ponto de vista de uma ou mais personagens, daí resultando uma diminuição de conhecimento.
• Focalização externa: o conhecimento do narrador limita-se ao que é observável do exterior.

Sucessão e Integração
Claude Bremond, ao definir narrativa, acrescentará a sucessão e a integração como essenciais para a narratividade: “Toda narrativa consiste em um discurso integrando uma sucessão de acontecimento de interesse humano na unidade de uma mesma ação. Onde não há sucessão não há narrativa, mas, por exemplo, descrição, dedução, efusão lírica, etc. Onde não há integração na unidade de uma ação, não há narrativa, mas somente cronologia, enunciação de uma sucessão de fatos não relacionados”.

Totalidade de significação
A totalidade de significação é apontada por Greimas como outro elemento fundamental da narrativa. Ainda que aparentemente o leitor não entenda um texto, há de ter nele uma significação para que se configure como história, como narração.

Em prosa e verso
Apesar de aparecer comumente em prosa, a narração pode existir em versos. Os exemplos clássicos são as epopéias, como a Odisséia, ou os romanceiros, como o Romanceiro da Inconfidência. Mas poemas como O Caso do Vestido e Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade, são verdadeiras narrativas em versos, com ação, personagens, sucessão, integração e significação.

Fonte:
Wikipédia, a enciclopédia livre.
pt.wikipedia.com

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O Trovador em Versos Diversos (Luiz Otávio)

QUEM FOI O TROVADOR LUIZ OTÁVIO?
por Carolina Ramos

O POETA

Gilson de Castro nasceu a 18 de julho de 1916, no Rio de Janeiro. Luiz Otávio foi o pseudônimo que ele adotou para assinar suas trovas, poesias e outras manifestações de seu talento literário. Era cirurgião-dentista, profissão que exerceu no Rio de Janeiro, onde se formou e mais tarde se transferindo para Santos no final de sua vida.

Começou a enviar seus versos para os jornais e revistas lá por 1938, ainda timidamente, oculto sob pseudônimo. Não pretendia misturar a vida literária com a profissional. As principais revistas e jornais da época começaram a divulgar poesias e principalmente trovas de Luiz Otávio, que podiam ser encontradas no “Correio da Manhã”, “Vida Doméstica”, “Fon-Fon”, “O Malho”, “Jornal das Moças”, revistas que, como “O Cruzeiro”, eram as mais lidas dos anos 1939, 40 e 41, etc. A revista “Alterosa” de Belo Horizonte, também o divulgou. Pouco a pouco, a Trova tomou conta do coração do poeta, assumindo Literalmente papel de Liderança na sua vida. E ele confessa:

A Trova tomou-me inteiro,
tão amada e repetida,
que agora traça o roteiro
das horas da minha vida!…

Para a ascensão da Trova na vida de Luiz Otávio, muito contribuiu sua amizade com Adelmar Tavares. Quem os aproximou foi o consagrado poeta A. J Pereira da Silva. Recuperava-se Luiz Otávio na Fazenda Manga Larga em Pati de Alferes, quando teve oportunidade de conhecer esse renomado poeta, da Academia Brasileira de Letras, com quem iniciou amizade edificante, solidificada pela Poesia; amizade que se estendeu até os derradeiros dias de A. J. Pereira da Silva que, naquele tempo, já passava dos sessenta, enquanto Luiz Otávio não galgara ainda o vigésimo segundo degrau de sua sofrida existência. Isto não perturbou as horas deliciosas de conversa amena e espiritualizada, em que a fina sensibilidade de ambos fazia desaparecer a diferença de idade, provando que um coração capaz de vibrar “de amor” e pulsar em ritmo de poesia, simplesmente não tem idade.

A viúva do acadêmico Antônio Joaquim Pereira da Silva, doaria posteriormente, a preciosa Biblioteca do poeta ao seu particular amigo, Luiz Otávio, que, por sua vez, ao transferir residência para Santos, em 1973, doou parte desse valioso acervo, juntamente com livros de sua própria estante – num total de mil exemplares devidamente catalogados – à Academia Santista de Letras, que só então teve formada sua Biblioteca. Na época, a A.S.L. era presidida pelo Dr. Raul Ribeiro Florido que se responsabilizou pelo transporte Rio-Santos. Com esta doação, Luiz Otávio não pretendia nada para si, como deixou bem claro em carta, (era de conhecimento geral sua quase aversão às Academias, em virtude do próprio temperamento). Mas pediu, por uma questão de justiça, que numa das estantes fosse colocada uma placa que levasse o nome de A. J Pereira da Silva. Luiz Otávio recebeu um carinhoso oficio de agradecimento do então Presidente da Academia. O atual Presidente, Dr. Nilo Entholzer. Ferreira, trovador de méritos, comprometeu-se a cumprir essa cláusula. Como já dito, A. J. Pereira da Silva foi quem levou Luiz Otávio até Adelmar Tavares, também da Academia Brasileira de Letras, em visita à sua casa, em Copacabana. Corria o ano de 1939. Adelmar Tavares sentia a idade pesar-lhe nos ombros, e, mais uma vez, um jovem poeta e um velho e consagrado mestre da Poesia uniam-se por laços afetivos dos mais duradouros. A principal responsável por essa união foi a Trova, que Adelmar Tavares cultivava e da qual Dr. Gilson de Castro já era profundo apaixonado, trazendo-a para o público sob o Pseudônimo, agora definitivamente adotado.

Luiz Otávio. Luiz, por ser bonito, melodioso, e combinar com Octávio, o nome do Pai, a quem, homenageava. Para atualizar o nome, o c foi cortado em acordo às regras ortográficas vigentes. A Poesia de Luiz Otávio ganhava espaço. Jornais de outros estados o acolhiam em suas páginas, tinha ao seu dispor colunas literárias de crítica poética, onde comentava livros, publicava trovas, poesias e arrebanhava fãs e admiradores de todas as idades. Daí ai constituir-se Líder de um Movimento Trovadoresco, era questão de um passo, muito embora isto viesse acontecer sem procura. Idealista, lírico, por excelência, com um profundo senso de organização, Luiz Otávio acumulava ainda outras qualidades indispensáveis ao “verdadeiro Líder”, seja lá do que for. Era simples, honesto, e sabia convencer sem forçar. Embora convicto e determinado, sabia humildemente ceder, se preciso fosse. Se persuadido da necessidade de uma renúncia, cedia, sim, porém, não facilmente, mesmo porque antes de propor algo, o fazia convicto de que aquilo era o certo, respondendo de antemão a todos os possíveis apartes – o que de certo modo desarmava, a priori, o opositor. Era bom, afável e acima de tudo, profundamente carismático. Um verdadeiro Príncipe!

O TROVADOR

Era, portanto, o campo fecundo onde a semente da Trova encontrou chão propício para deitar raízes, expandindo sua opulência por todo território nacional. O ritmo da Trova que embalava seus ouvidos desde os tempos de escoteiro, cresceu com ele, ganhando melodia ao som do violão de Glauco Vianna, mais tarde pertencente ao “Bando dos Tangarás”, seu colega de faculdade e de noitadas de seresta.

FINAL

Luiz Otávio sempre gostou de cantar e compor embora não conhecesse música. Aloysio de Oliveira, outro companheiro, também possuidor de um bom timbre vocálico, iria pertencer, no futuro, ao Bando da Lua, que tanto sucesso fez na terra de Tio Sam ao lado de Carmen Miranda. A influência destes dois amigos foi grande na iniciação poética de Luiz Otávio. Glauco tocava, Aloysio cantava e Luiz Otávio não apenas cantava como também compunha letras e músicas de canções, sambas, fox-trotes, valsas, etc. e continuou cantando e compondo até o final dos seus dias. Nascia o “Trovador” – assim carinhosamente chamado, já naquele tempo, antes mesmo do seu ingresso definitivo no Mundo da Trova.

Cada quadrinha que faço
em hora calma ou incalma,
é pequenino pedaço
que eu mesmo furto a minha alma.

Ó trovas – simples quadrinhas
que tem sempre um que de novo…
– Como podem quatro linhas
trazer toda a alma de um povo?!

Uma trova pequenina,
tão modesta, tão sem glória,
bem pouca gente imagina,
que também tem sua história.

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Nobel de Literatura 2001 – 2007

2007

Doris May Tayler, a Doris Lessing
(1919 – )

Escritora britânica nascida em Kermanshah, na Pérsia, atual Irã, que aos 87 anos tornou-se a pessoa mais velha a receber o Prêmio Nobel de Literatura (2007) e a 11ª mulher a ser agraciada com o prêmio, por transmitir a experiência épica feminina, que descreveu com ceticismo, paixão e força visionária a divisão da civilização. Filha de Alfred Cook Taylor, capitão da British Army durante a I Guerra Mundial, e da enfermeira britânica Emily Maude Taylor, mudou-se para a Rodésia do Sul, hoje Zimbábue, o que influenciou profundamente sua literatura, na qual discute tensões interraciais, violência contra crianças e movimentos feministas.

Teve uma infância pressionada pelo rigor puritano de sua mãe que impunha um severo sistema de criação, obcecada por criar uma filha que fosse uma dama. Aos sete anos foi internada em um colégio de freiras, onde ela vivia aterrorizada por ameaças e histórias sobre o inferno. Depois foi mandada para um colégio só de meninas, em Salisbury, mas abandonou-o rapidamente e aos 14 anos interrompeu sua educação formal e passou e ser autodidata. Aos 15, saiu de casa e arrumou um emprego como enfermeira, telefonista, secretária, estenógrafa e jornalista, enquanto lia livros sobre política e sociologia e escrevia pequenas histórias.

Casou duas vezes e teve três filhos. O primeiro casamento (1939-1943) foi com FrankCharles Wisdom, com quem teve um casal de filhos, John e Jean. Divorciada, fez um segundo (1945-1949) com Gottfried Lessing, que foi embaixador de Uganda e com quem teve um filho, Peter.

Divorciada novamente, passou a viver na Inglaterra (1949) com o filho Peter, onde publicou seu primeiro romance, The grass is singing, lançado em Londres (1949). Foi membro do British Communist Party (1952 /1956), onde lutou ativamente contra as armas atômicas. Seu compromisso político a levou a criticar abertamente os governos racistas de Rodésia e da África do Sul, sendo impedida de entrar nesses países (1956-1995). Também lançou livros de poesias e contos, além de volumes de ficção especialmente histórias em que naves espaciais colonizavam planetas distantes. The golden notebook (1962), foi o romance que a tornou famosa e depois consolidou sua fama com uma série de títulos de temática africana. Sua última obra publicada foi The cleft (2007). O prêmio valeu para a laureada uma medalha de ouro, um diploma e um cheque de 10 milhões de coroas suecas, cerca de 1,08 milhões de euros.

2006

Ferit Orhan Pamuk
(1952 – )

Escritor turco nascido em Istambul, o maior romancista turco da atualidade, com obras traduzidas em mais de trinta idiomas, e o ganhador do Prêmio Nobel de Literatura (2006) por buscar na alma melancólica da sua terra natal encontrar novas imagens espirituais para o combate e para o cruzamento de culturas.

De uma família rica de Istambul, estudou no estrangeiro engenharia, arquitetura e jornalismo, porém a partir dos seus 22 anos preferiu dedicar-se definitivamente à literatura.

Tornou-se polêmico ao acusar, num artigo de um jornal suíço, por si escrito, seu país de ter cometido genocídio contra o povo armênio, quando da decorrência da primeira guerra mundial e o assassinato de 30 mil curdos, a posteriori. O caso foi levado à justiça turca, e ele teve mesmo que prestar declarações em tribunal. este caso teve polêmica internacional e o romancista tornou-se conhecido um pouco por todo o mundo. Mas o que o levou para a fama mundial, foi o fato de ter sido galardoado com o Nobel de Literatura, o primeiro turco a receber esta honraria. Antes, porém, já havia recebido outros prêmios de renome internacional. Foram os seus textos sobre as vivências turcas, as desigualdades entre os cidadãos da Istambul atual e as comparações feitas entre a Turquia otomana e a Turquia moderna.

Entre seus romances mais célebres encontra-se o laureado Benim Adim Kirmizi (1998), traduzido como o Meu nome é vermelho, uma história de amor e mistério implacáveis, vividos na Turquia do Século XVI. Outros livros publicados foram Cevdet Bey ve Ogullari (1982), Sessiz Ev (1983), Beyaz Kale (1985), Kara Kitap (1990), Gizli Yuz (1992), Yeni Hayat (1995), Öteki Renkler (1999), Kar (2002), Istanbul: Hatiralar ve Sehir (2003), entre outros.

2005

Harold Pinter
(1930 – )

Dramaturgo e escritor inglês nascido no dia 10 de Outubro em Hackney, Londres, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura (2005) por descobrir em suas obras o precipício sob a banalidade quotidiana e entra com força nas salas fechadas da opressão.

Filho de judeus de origem no leste da Europa, foi educado em um colégio do bairro londrino de Hackney, a Hackney Grammar School. Foi aceito pela Royal Academy of Dramatic Art (1948), onde publicou seus primeiros poemas (1949-1950). Depois foi aceito pela Central School of Speech and Drama (1951) e passou a trabalhar para a companhia teatral de Anew McMaster e fez seu debut como teatrólogo com a peça The Room (1957), em Bristol. Sua primeira obra importante foi The bithday party (1958) embora seu sucesso só tenha aparecido depois de ter sido exibida na televisão.

De posições políticas controvertidas, opôs-se radicalmente à invasão do Iraque (2003) e às politicas belicistas de George Bush e Tony Blair enquanto considerava Slobodan Miloševic como o digno herói nacional da Sérvia. É um dos mais importantes renovadores do teatro do absurdo e as suas peças apresentam, num estilo característico a que se deu o nome de pinteresco, situações em que as personagens vêem repentinamente em perigo a segurança das suas vidas quotidianas.

Escreveu livros como Kullus (1949), The Dwarfs (1952-1956), The Black and White (1954-1955), Tea Party (1963), The Coast (1975), Girls (1995) e Voices in the Tunnel (2001), entre outros. Editou um livro de poesias War (2003) e no teatro destacou-se com peças como The Caretaker (1959), The caretaner (1960), A slight ache (1961), The homcoming (1964) e No Maris land (1975). Foi casado (1956-1980) com a atriz Vivien Merchant, e depois casou (1980) com a escritora Lady Antonia Fraser.

2004

Elfriede Jelinek
(1946 – )

Novelista e autora de peças de teatro austríaca nascida na cidade de Mürzzuschlag, décima mulher da história a ganhar o Prêmio Nobel da Literatura (2004) pelo fluxo musical de vozes e contra-vozes em suas novelas e dramas que revelam o absurdo dos clichês da sociedade e seu poder dominador.

Filha de um judeu tcheco e uma rica vienense, estreou no mundo literário com a publicação em Munique da coleção de poemas Lisas Schatten (1967), mas conseguiu projeção mundial graças ao filme A Professora de Piano (2001), do compatriota Michael Haneke, a história autobiográfica de uma pianista perturbada que se envolve com um aluno, de seu romance Isabelle Huppert in Malina (1991). Combativa política, militante do Partido Comunista Austríaco por mais de 15 anos, e autora de mais de 20 livros, de poemas, prosa e teatro, e tradutora para o alemão de autores como Thomas Pynchon.

Entre outras publicações, em sua obra figuram como destaque outros romances como Die Liebhaberinnen (1975), Die Ausgesperrten (1980), Die Klavierspielerin (1983) e Die Kinder der Toten (1995), e peças como Lust (1989), Totenauberg (1991), Ein Sportstück (1998), Macht nichts: eine kleine Trilogie des Todes (1999) e Bambiland (2004), esta uma crítica política que satiriza a invasão americana do Iraque. Uma seqüência deste trabalho foi a peça Babel (2005), tratando das torturas na prisão de Abu Ghraib e da mutilação de corpos de estadunidenses em Fallujah.

2003

John Maxwell Coetzee
(1940 – )

Escritor húngaro nascido em Cape Town, África do Sul, Prêmio Nobel da Literatura (2003) por retratar em sua obra, sob inumeráveis maneiras, o envolvimento surpreendente do estranho. O mais velho das duas crianças de uma professora de escola primária e de um advogado, e recebeu a educação primária em Cape Town e na cidade próxima de Worcester. Concluiu sua educação secundária no Marist Brothers, uma escola católica de Cape Town (1956). Entrou na Universidade de Cape Town (1957), e formou-se sucessivamente em inglês (1960) e matemática (1961).

Viveu três anos (1962-1965) na Inglaterra trabalhando como um programador enquanto pesquisava para uma tese sobre a novelista inglesa Ford Madox Ford., período em que também casou-se (1963) com Philippa Jubber (1939-1991) e com quem teria um filho, Nicolas (1966-1989), e uma filha, Gisela (1968-). Entrou como diplomado na University of Texas, em Austin (1965), onde obteve um Ph.D. em inglês, lingüística, e idiomas germânicos (1968). Nos três anos (1968-1871) foi professor assistente de inglês na State University of New York, em Búfalo, quando também começou a escrever ficção. Depois que seu visto de residência permanente nos United States, foi negado, voltou à África do Sul e exerceu uma séries de funções na University of Cape Town (1972-2000), o último deles como Distinguished Professor of Literature.

Durante este período e no subseqüente, ensinou também freqüentemente nos United States, especialmente nas universidades State of New York, Johns Hopkins, de Harvard, Stanford e de Chicago, onde durante seis anos ele foi membro do Committee on Social Thought. Seu primeiro livro, Dusklands, foi publicado na África do Sul (1974). Depois veio Heart of the Country (1977) com o qual ganhou o CNA Prize, então o principal prêmio literário da África do Sul, e que também foi publicado na Inglaterra e nos EEUU Mas foi com Waiting for the Barbarians (1980) que ganhou reputação internacional. Com Life & Times de Michael K (1983) ganhou o Booker Prize, na Inglaterra.

Outras importantes publicações de sua autoria foram Foe (1986), Age of Iron (1990), The Master of Petersburg (1994) e Disgrace (1999), que lhe deu um novo Booker Prize. No campo dos não ficcionais foram destaque Doubling the Point (1992), Boyhood (1997), Stranger Shores (2001), Youth (2002), Elizabeth Costello (2003). Também foi ativo como tradutor de holandês e literatura de holandês sul-africano e emigrou para a Austrália (2002) onde passou a viver com a família em Adelaide, e onde ocupa um cargo honorário na University of Adelaide.

2002

Imre Kertész
(1929 – )

Escritor húngaro nascido em Budapeste, sobrevivente do holocausto e Prêmio Nobel da Literatura (2002) por uma obra que trata da fragilidade da existência humana contra a bárbara arbitrariedade da história. Descendente de uma família judaica, foi deportado (1944) para Auschwitz e Buchenwald, sendo libertado pelas tropas norte-americanas (1945) e regressando a Budapeste como único sobrevivente de uma família inteira dizimada pelos nazistas.

De volta a Hungria trabalhou em Budapeste (1948-1951) como jornalista na publicação Világosság, do qual foi despedido quando o jornal passou a órgão do Partido Comunista Húngaro. Depois de ter cumprido serviço militar durante dois anos dedicou-se à escrita e a sua prestigiosa carreira literária, incluindo a tradução para húngaro de autores alemães como Nietzsche, Hofmannsthal, Schnitzler, Freud e Wittgenstein, entre outros, pelos quais foi fortemente influenciado. Sua primeira novela publicada foi Sorstalanság (1975), baseada em suas experiências em Auschwitz e Buchenwald e para o qual passou dez anos trabalhando.

Escreveu ainda musicais e teatro de diversão. Antes de consagrar-se com o Nobel ganhou muitos outrros prêmios entre os quais o Brandenburger Literaturpreis (1995), o Leipziger Buchpreis zur Europäischen Verständigung (1997), o Herder-Preis e o Welt-Literaturpreis (2000), o Ehrenpreis der Robert-Bosch-Stifung (2001) e o Hans Sahl-Preis (2002). Outros trabalhos seus foram A nyomkeresõ: Két regény (1977), Detektívtörténet (1977), A kudarc (1988), Kaddis a meg nem született gyermekért (1990), Az angol lobogó (1991), Gályanapló (1992), A holocaust mint kultúra: három elõadás (1993), Valaki más: a változás krónikája (1997), A gondolatnyi csend, amíg a kivégzõosztag újratölt (1998), A számuzött nyelv (2001) e Felszámolás (2003).

2001

Sir Vidiadhar Surajprasad Naipaul
(1932 – )

Escritor caribenho nascido em Chaguanas, Trinidad e Tobago, agraciado com o Prêmio Nobel da Literatura (2001) por ter unido a narrativa preceptiva e incorruptível nos seus trabalhos. De família indiana, foi educado em Porto Príncipe, capital do Haiti, e radicou-se na Inglaterra (1950) onde foi estudar, aos dezoito anos, apesar de ter passado a maior parte de sua vida viajando especialmente pela Índia e África. Na Universidade de Oxford, na Inglaterra, onde cursou literatura inglesa. Casou-se (1955) com Patricia Ann Hale, de quem enviuvaria (1996). Em um de seus primeiros grandes livros, A House for Mr Biswas (1961), descreveu a missão quase impossível dos imigrantes indianos de se integrarem à sociedade caribenha mantendo suas raízes. Hon. Fellow da University Coll., Oxford (1983), Hon. Dr Letters Columbia Univ., NY (1981), Hon. LittD. Cambridge (1983), London (1988) e Oxford (1992).

Além do Nobel recebeu outras honrarias como o John Llewelyn Rhys Memorial Prize (1958), o Somerset Maugham Award (1961), o Hawthornden Prize (1964), o W.H. Smith Award (1968), o Booker Prize (1971) e o British Literature Prize (1993). Assina seus livros como V. S. Naipaul e grande parte de seu trabalho fala sobre os traumas advindos das mudanças pós período colonial e entre suas obras alguns livros foram publicados no Brasil traduzidos para o português como O Sufrágio de Elvira (1958), Uma Casa para o Sr. Biswas (1961), Guerrilheiros (1975), um dos seus mais famoso livros, O Enigma da Chegada (1987) e Um Caminho no Mundo (1994).

A academia sueca chegou a cogitar a possibilidade de suspender a entrega do prêmio daquele ano por causa dos conflitos no Afeganistão, mas como este era o centenário da entrega do Nobel, eles resolveram seguir adiante. Casou-se novamente (1996) com Nadira Khannum Alvi.

Outras publicações, entre novelas, romances e outros, The Mystic Masseur (1957), The Suffrage of Elvira (1958), Miguel Street (1959), The Middle Passage (1962), Mr Stone and the Knights Companion (1963), An Area of Darkness (1964), The Mimic Men (1967), A Flag on the Island (1967), The Loss of El Dorado (1969), In a Free State (1971), The Overcrowded Barracoon, and other articles (1972), Guerrillas (1975), este um dos seus miores sucessos, India: a wounded civilisation (1977), A Bend in the River (1979), The Return of Eva Peron (1980), Among the Believers (1981), Finding the Centre (1984), The Enigma of Arrival (1987), A Turn in the South (1989), India: a million mutinies now (1990), A Way in the World (1994), Beyond Belief: Islamic Excursions (1998) e Letters (1999).

Fonte:
http://www.dec.ufcg.edu.br/biografias/

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O Trovador em Versos Diversos (Nei Garcez – Curitiba/PR)

Quem trabalha com grandeza
gera emprego no país;
põe comida em cada mesa…
Faz um povo mais feliz!

A nossa fisionomia
revelada no facial,
de tristeza ou de alegria,
é um idioma universal!

Quem esquece da saúde,
entregando-se a bebida,
tem por prêmio um ataúde
e uma herança dividida.

Pra evitar um acidente
atenção tenho que dar,
dirigindo mais consciente
sem usar meu celular.

A poetisa que poetiza
os seus poemas preferidos
só por eles se eterniza
ao passar dos tempos idos.

Quando uma mãe amamenta,
com seu leite maternal,
enquanto ao filho acalenta
cumpre a lei universal.

Só é livre de verdade
quem conhece o seu caminho
pra pensar com liberdade,
mas pensar por si sozinho.

Quem namora a vida inteira,
com a mesma namorada,
numa mão tem a bandeira
e na outra a sua amada.

Amizades que são boas
e atitudes tão singelas
é gostarmos das pessoas
bem assim como são elas.

Fontes:
http://www.clevanepessoa.net/visualizar.php?idt=173640
http://www.movimentodasartes.com.br/trovador/pop_062/060708a.htm
http://www.blocosonline.com.br/literatura/poesia/dd/ddpoe076.htm
http://www.caestamosnos.org/rev_caesperamosnos/revista08Ago.htm

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John Ronald Reuel Tolkien (1892 – 1973)

John Ronald Reuel Tolkien (Bloemfontein, 3 de Janeiro de 1892 — Bournemouth, 2 de Setembro de 1973) foi um escritor, professor universitário e filólogo britânico.

Tolkien nasceu na África do Sul e aos três anos de idade, com sua mãe e irmão, passou a viver na Inglaterra, terra natal de seus pais. Desde pequeno fascinado pela lingüística, cursou a faculdade de Letras em Exeter. Lutou na Primeira Guerra Mundial, onde começou a escrever os primeiros rascunhos do que se tornaria o seu “mundo secundário” complexo e cheio de vida, denominado Arda, palco das mundialmente famosas obras O Hobbit, O Senhor dos Anéis e O Silmarillion, esta última, sua maior paixão, que, postumamente publicada, é considerada sua principal obra, embora não a mais famosa.

Tornou-se filólogo e professor universitário, tendo sido professor de anglo-saxão (e considerado um dos maiores especialistas do assunto) na Universidade de Oxford de 1925 a 1945, e de inglês e Literatura inglesa na mesma universidade de 1945 a 1959. Mesmo precedido de outros escritores de fantasia, tais como William Morris, Robert E. Howard e E. R. Eddison, devido à grande popularidade de seu trabalho, Tolkien ficou conhecido como o “pai da moderna literatura fantástica”. Sua obra influenciou toda uma geração.

Católico fervoroso, foi grande amigo de C.S. Lewis, autor de As Crônicas de Nárnia, ambos membros do grupo de literatura The Inklings.

Biografia

A família Tolkien
Até onde se sabe a maioria dos parentes paternos de Tolkien eram artesãos. A família teve origem na Saxônia (Alemanha), mas viveu na Inglaterra desde o século XVII, tornando-se “rápida e intensamente inglesa (mas não britânica)” . O sobrenome Tolkien é um anglicismo de Tollkiehn (em alemão, tollkühn, temerário, imprudente, que em uma tradução etimológica deveria ser dull-keen, algo como estúpido-sagaz, uma tradução literal de oxímoro).

Mesmo sendo um Tolkien, considerava-se mais um Suffield (sua família materna) do que propriamente um Tolkien.

Aos três anos parte com sua mãe, Mabel Suffield, dona de casa, e seu irmão, Hilary Arthur Reuel Tolkien, para a Inglaterra, onde pretendiam passar apenas uma temporada devido a questões de saúde de Mabel e de seus filhos, mas devido à morte de seu pai, eles ali permaneceram por toda a vida. O pai, Arthur Tolkien, um bancário que trabalhava para o Bank of Africa, contraiu febre reumática e morreu em 1896 na África do Sul, antes de se juntar à família. Em 1900 a situação financeira da família se complicou. Mabel Suffield fazia parte da Igreja Anglicana, e quando tornou-se católica, sua família cortou a ajuda financeira que lhe dava, e assim ela morreu, por diabetes, sem tratamento na época. Tolkien, que considerava esse fato um sacrifício da mãe em nome da fé, converteu-se ao Cristianismo. Tolkien e seu irmão passaram então aos cuidados do Padre Francis Xavier Morgan, que Tolkien mais tarde descreveria como um segundo pai, e aquele que lhe ensinara o significado da caridade e do perdão.

Conheceu Edith Bratt em 1908, três anos mais velha que ele, e os dois começam a namorar escondido, mas seu tutor, o Padre Francis Morgan, descobre a situação e, acreditando que este relacionamento prejudicaria a educação do rapaz, proíbe-o de vê-la até que complete vinte e um anos, quando Tolkien alcançaria a maioridade. Na noite do seu vigésimo primeiro aniversário, Tolkien escreve a Edith, e a convence a casar-se com ele, apesar de ela já estar comprometida, e também a converte ao catolicismo. Juntos eles têm quatro filhos: John Francis Reuel Tolkien (1917–2003), Michael Hilary Reuel Tolkien (1920-1984), Christopher John Reuel Tolkien (1924-) e Priscilla Anne Reuel Tolkien (1929-). Muitos de seus descendentes e ascendentes podem ser vistos aqui.

Tolkien era um pai devotado. Essa característica mostrava-se bastante clara nos livros, muitas vezes escritos para seus filhos, como Roverandom, escrito quando seu filho perdeu um cachorrinho de brinquedo na praia. Além disso, Tolkien mandava todos os anos cartas do Papai Noel quando os filhos eram mais jovens. Havia mais e mais personagens a cada ano, como o Urso Polar, o ajudante do Papai Noel, o Boneco de Neve, Ilbereth (um nome semelhante ao da rainha Elbereth, a Valië), sua secretária, e vários outros personagens menores. A maioria deles contava como estavam as coisas no Pólo Norte. Mestre Gil de Ham foi uma história contada para entreter os filhos também.

A vida em sua obra

A infância de Tolkien teve duas realidades distintas: a vida rural em Sarehole, ao sul de Birmingham, lugar que inspirou o famoso Condado, e o período urbano na escura Birmingham, onde iniciou seus estudos. Nesta frase Tolkien fala sobre Sarehole:

A ancestral Sarehole há muito se foi, engolida pelas estradas e por novas construções. Mas era muito bonita na época em que vivi lá…

Ainda criança, mudou-se para King’s Heat, numa casa próxima a uma linha de trem. Foi aí que ele começou a desenvolver uma imaginação lingüística, motivada pelos estranhos nomes das paradas do percurso, tais como Nantyglo, Perhiwceiber e Seghenydd. Sua infância foi muito marcada pelos contos de fadas, que estimularam sua imaginação para o Faërie, Belo Reino, como ele se refere ao mundo dos seres fantásticos.

Em 1900 sua mãe abraçou a religião católica, fato que o influenciou profundamente, mesmo sem a menção direta de Deus em sua obra (Tolkien representa Deus por Eru, o qual cria todo universo e os seres que lá habitam). Tolkien disse que os mitos não-cristãos guardavam em si elementos do Grande Mito, o Evangelho, que adentraram o Mundo Primário, isto é, o mundo real, fato este que não vai contra a Igreja Católica.

Sua mãe Mabel apresentou a ele e a seu irmão os contos de fadas em línguas como o latim e o grego. Depois de sua morte, em 1904, por diabete, Tolkien e seu irmão foram deixados aos cuidados do padre Francis Morgan, sacerdote de Birmingham. A partir de então, o rapaz se dedicou aos estudos demonstrando grande talento lingüístico. Estudou grego, latim, línguas antigas e modernas, como o finlandês, que serviu de base para criação do idioma élfico Quenya e o galês, base para o outro idioma élfico, o Sindarin. Em 1905 os órfãos mudaram-se para a casa de uma tia em Birmingham. Em 1908, deu início à sua carreira acadêmica, ingressando no Colégio de Exeter, da Universidade de Oxford.

Em 1914, ano em que explode a Primeira Guerra Mundial, Tolkien fica noivo de Edith Bratt. No ano seguinte, recebe com honras o diploma de licenciatura em Literatura de Língua Inglesa. A graduação e os méritos não o libertam da convocação e em 1916, depois de se casar com Edith Bratt, é chamado à guerra. Tolkien sobrevive à batalha do Somme (província de Soma), uma mal sucedida incursão na França/Bélgica onde morreram mais de 500 mil combatentes. Em 1917 nasceu o seu primeiro filho, John Francis Reuel Tolkien (mais tarde padre John Tolkien) e no ano seguinte, depois de contrair febre da trincheira (tifo), J.R.R.Tolkien é enviado de volta à Inglaterra. Foi neste período que Tolkien iniciou o Livro dos Contos Perdidos (The Book of Lost Tales), que mais tarde se converteria em O Silmarillion, em 1919 quando ele retornou a Oxford.

Depois do fim da guerra Tolkien dedicou-se ao trabalho acadêmicos como professor, tornando-se um dos maiores filólogos do mundo. Nesta mesma época ingressou na equipe formada para preparar o New English Dictionary, o equivalente inglês do dicionário brasileiro Aurélio. O projeto já havia chegado à letra W, e seu supervisor, impressionado com o trabalho de Tolkien, afirmou que:

Seu trabalho [de Tolkien] dá provas de um domínio excepcional de anglo-saxão e dos fatos e princípios da gramática comparada das línguas germânicas. Na verdade, não hesito em dizer que nunca conheci um homem da sua idade que se igualasse a ele nesses aspectos.

Mas foi só em 1925, depois do nascimento de seus filhos Michael Hilary Reuel Tolkien (1920) e Christopher John Reuel Tolkien (1924) que Tolkien publicou seu primeiro livro, ao lado de E. V. Gordon: Sir Gawain & the Green Knight, baseado em lendas do folclore inglês. Sua filha caçula, Priscilla Anne Reuel Tolkien, nasceria dali a cinco anos.

Tolkien e as Sociedades

Tolkien foi muito ligado a sociedades. Nas que participou, a literatura era o tema fundamental, algo que o ajudou na criação de suas obras, pois nestas sociedades encontrou seu primeiro público e encorajadores.

Em sua juventude, sua primeira sociedade foi a T.C.B.S. (Tea Club, Barrowian Society), formada por Tolkien e três amigos. Não era dedicada apenas a literatura, mas ela estava presente. A Primeira Guerra Mundial dissolveu o grupo, matando Rob Gilson, e algum tempo depois G. B. Smith. Os dois restantes, Christopher Wiseman (inspiração para o nome do filho de Tolkien) e Tolkien, foram amigos até o fim da vida.

Anos depois, fundada por Tolkien, The Coalbiters se dedicava à literatura nórdica, muito apreciada por Tolkien, que incluía Beowulf e o Kalevala, por exemplo. Chamavam-se de Kolbitars, ou, “homens que chegam tão perto do fogo no inverno que mordem carvão”, o que originou no nome Coalbiters (mordedores de carvão). Entre seus membros estavam R. M. Dawkins, C. T. Onions, G. E. K. Braunholz, John Fraser, Nevill Coghill, John Bryson, George Gordon, Bruce McFarlane e C. S. Lewis.

Outro grupo de que participava era chamado The Inklings, também dedicado à literatura, que se reunia no pub The Eagle and Child (em português A Águia e a Criança) que os integrantes chamavam O Pássaro e o Bebê (The Bird and Baby em inglês). Os Inklings incluíam C. S. Lewis e seu irmão H. W. Lewis, Charles Williams, Owen Barfield, Nevil Coghill, Gervase Mathew e John Wain.

Quando Tolkien conheceu C. S. Lewis, este era agnóstico, e Tolkien logo se empenhou para convertê-lo ao catolicismo romano. No entanto, Lewis preferiu o anglicanismo, movimento protestante cristão no qual foi educado. Tal fato se tornou a raiz de desentendimentos (não tão sérios) dos dois. Tolkien inclusive não apreciou muito a obra de seu amigo, As Crônicas de Nárnia, por esta ser demasiadamente alegórica. A religião no livro de Lewis é bem explícita, ao passo que nos de Tolkien ela é oculta em personagens, lugares e até atitudes. Apesar dos desentendimentos Tolkien e Lewis foram grandes amigos, amizade essa explorada no livro O Dom da Amizade: Tolkien e C. S. Lewis. De fato, O Senhor dos Anéis provavelmente não existiria sem o incentivo de C. S. Lewis, que aliás foi o primeiro a ouvir a história, e As Crônicas de Nárnia também não existiriam não fosse a força de Tolkien.

Títulos

Tolkien fez uma longa e ilustre carreira, em que, com certeza, seus livros foram os mais admirados e reconhecidos. Porém ele não se resumia a isso. Além de ser chamados por muitos fãs de “mestre”, ou “professor”, em 1972 Tolkien foi agraciado com o título de Comendador do Império Britânico (Ordem do Império Britânico) e com o Doutor Honoris Causa em Letras, pela Universidade de Oxford.

O hobbit

A idéia de seu primeiro grande sucesso, O Hobbit, surgiu em 1928, enquanto Tolkien examinava documentos de alunos que queriam ingressar na Universidade e Tolkien contou que:

Um dos alunos deixou uma das páginas em branco – possivelmente a melhor coisa que poderia ocorrer a um examinador – e eu escrevi nela: Em um buraco no chão vivia um hobbit, não sabia e não sei por quê.

Foi a partir desta frase que ele começou a escrever O Hobbit, somente dois anos depois, mas o abandonou no meio.

Tolkien emprestou o manuscrito incompleto para a Reverenda Madre de Cherwell Edge na época, quando esta estava doente, e ele foi visto por Susan Dagnall, uma bacharel de Oxford , que trabalhava para Allen & Unwin (comprada em 1990 pela Editora Harper Collins) e analisado depois por Rayner Unwin (Filho de Stanley Unwin, fundador da Allen & Unwin, na época com 10 anos de idade) que ficou maravilhado pela história. Dagnall ficou tão encantada com o material que encorajou Tolkien para que ele terminasse o livro, e em 1937 é publicada a primeira edição de O Hobbit.

A saga do hobbit Bilbo – um ser baixo, pacato, de pés peludos e grandes, que se aventura na Terra Média ao lado do mago Gandalf e mais treze anões – teve tanto sucesso que Tolkien foi sondado para novas aventuras. Tolkien oferece O Silmarillion, que ele considerava sua principal obra, mesmo que, hoje, não a mais conhecida. Stanley Unwin prefere não arriscar e não publica a obra. Mesmo depois da recusa, Tolkien concorda em continuar a saga dos hobbits e começa a dar forma a uma nova obra, que lhe consome doze anos de trabalho desde os primeiros rascunhos até a sua conclusão, mas que o tornaria um dos mais cultuados escritores de todos os tempos: O Senhor dos Anéis.

O elo para a nova aventura surge no Anel que Bilbo rouba de Gollum em O Hobbit. Os primeiros rascunhos da obra datam de 1937, mas devido ao seu perfeccionismo, que o impelia a ter de fazer vários rascunhos para cada uma de suas obras, foi somente em 1949 que O Senhor dos Anéis foi para as mãos de sua editora. Durante este longo tempo, Tolkien também escreveu Leaf by Niggle em que o autor se manifesta de forma autobiográfica, projetando-se em Niggle, suas dúvidas sobre o trabalho que estava escrevendo, “O Senhor dos Anéis”, e sua relevância. Em princípio o texto foi recusado, pois a idéia de Tolkien era lançar dois volumes, sendo eles “O Silmarillion” e “O Senhor dos Anéis”, já que ele os considerava interdependentes e indivisíveis. Entretanto o editor da Collins, uma outra editora, havia gostado da idéia e começou a encorajar Tolkien a publicar os livros pela editora Collins. Depois de grande atraso na publicação, Tolkien perde a paciência e desiste do acordo. Posteriormente, após algumas conversas com Rayner Unwin (já adulto e trabalhando na empresa do pai, Rayner foi um dos que recebiam os rascunhos de “O Senhor dos Anéis” de Tolkien ao longo de sua composição), a decisão da Allen & Unwin foi reconsiderada e, em 1954, foram publicados os dois primeiros volumes (A Sociedade do Anel e As Duas Torres). Em 1955 foi publicado o terceiro e último volume (O Retorno do Rei). A idéia original era lançar a obra toda num único volume, mas para baratear os custos de impressão, foi dividida em três volumes.

Esse livro consolidava então o que Tolkien chamava de Mundo Secundário, com novas normas, novos povos, uma realidade à parte: Arda, o cenário de uma das maiores obras literárias de todos os tempos. “Arda” é a Terra, povoada por seres fantásticos, como os Valar, os Maiar, e os mais conhecidos, hobbits, elfos, anões, trolls, orcs e cercada de mistérios e magia:
[Criei] um Mundo Secundário no qual sua mente pode entrar. Dentro dele, tudo o que ele relatar é “verdade”: está de acordo com as leis daquele mundo. Portanto, acreditamos enquanto estamos, por assim dizer, do lado de dentro.

Apesar dos ataques da crítica, o livro teve grande sucesso dos dois lados do Atlântico, mas seus livros só alcançaram a classe de cult nos anos 60, devido ao fato de sua obra ter se tornado mania entre os universitários dos Estados Unidos com a chegada de uma edição pirata norte-americana neste país. O nome de Tolkien ganhou notoriedade mundial, fato este que provocava mais transtornos que prazer ao autor, pois visitantes excêntricos afluíam ao seu encontro: fãs norte-americanos telefonavam-lhe durante a madrugada sem se lembrar do fuso horário por exemplo. Tais fatos tiveram grande peso em sua decisão de se mudar para Bournemouth.

Tolkien era um homem apaixonado por idiomas. Quando criança se encantava com nomes galeses que via nos caminhões de carvão. Com suas primas aprendeu rapidamente uma língua artificial e bem simples criadas pelas garotas, chamada Animálico, com base nos nomes de animais. Juntos criaram outra língua, uma mistura de vários outros idiomas. Chamava-se Nevbosh, traduzido como Novo Disparate. Mais tarde criou o Naffarin, mais complexa e baseada na língua de seu tutor Francis Morgan: o espanhol.

Tolkien, em dezembro de 1910, tornou-se aluno do curso de literatura clássica na Universidade de Oxford, onde obteve uma bolsa de estudos do Exeter College, mas desinteressou-se por este curso e começou a gastar mais tempo no estudos de filologia, sendo orientado por Joseph Wright, um dos grandes pesquisadores britânicos desta ciência e grande conhecedor do tronco lingüístico indo-europeu. Pediu transferência para a Honour School of English Language and Literature, onde teve um notável melhora devido ao seu interesse pela filologia germânica.

O primeiro artigo da Declaração dos Direitos Humanos escrita nos caracteres Fëanorianos: as Tengwar. Desde criança já tinha em sua volta línguas clássicas como grego e o latim, e mais tarde com o espanhol, idioma de seu tutor, o padre Francis Morgan. Sempre achou o italiano muito elegante e, é claro, o inglês e o anglo-saxão o fascinavam. O francês não o cativava tanto, apesar de ser (como ainda é) aclamada como uma belíssima língua. Quando se deparou com a língua finlandesa ele se encantou, e usou sua gramática, junto com a galesa, como base para as línguas que mais tarde apareceriam em seus livros. Línguas de gramática complexa e vasto vocabulário. Línguas que seriam estudadas a fundo por muitos de seus fãs: o Quenya, cujo exemplo máximo é expresso pelo poema Namárië, e o Sindarin, este último baseado no galês, as Línguas Élficas, todas movidas pelo som bonito (eufonia) e pela estética, como o “Repicar dos sinos” dizia ele. Foi baseado nestas línguas que Tolkien começou a desenvolver seu mundo. Para ele, primeiro vinha a palavra, depois a história. A composição para ele não era um passatempo (como foi ‘acusado’ na época), mas um trabalho filológico. Ele criou um mundo onde suas línguas pudessem ser faladas, e lendas para rodeá-las.

Tolkien, consciente da língua como um organismo mutável, totalmente relacionado com as histórias de um povo, afirmou certa vez que:
O Volapuque, Esperanto, o Ido, o Novial, são línguas mortas, mais mortas do que antigas línguas sem uso, porque seus inventores jamais criaram lendas para acompanhá-las.

Criou várias outras línguas (como o Khûzdul e o Valarin), mas nenhuma tão elaborada quanto as duas élficas. Também desenvolveu alguns sistemas de escrita, as Angerthas (ou runas) e as Tengwar. Acreditava que uma língua bonita devia ter também um alfabeto elegante.

Além do inglês, Tolkien conhecia cerca de dezesseis outros idiomas (à exceção dos criados por ele mesmo) que eram os seguintes: grego antigo, latim, gótico, islandês antigo, sueco, norueguês, dinamarquês, anglo-saxão, médio inglês, alemão, neerlandês, francês, espanhol, italiano, galês e finlandês.

Quando O Hobbit foi traduzido para o islandês, Tolkien ficou encantado, porque, além de esta ser uma de suas línguas favoritas, ele achava que o livro combinaria muito com ela. Muitos nomes, como Gandalf, foram retirados do antigo islandês.[8]

Aversão à tecnologia

Se por um lado Tolkien exerceu grande influência na era da informática, por outro, isso bate de frente com a visão nostálgica e radical do autor. Ele sempre foi avesso a computadores, trens, automóveis, televisão e comida congelada, a indústria em si. Tolkien acreditava que essa dominação e controle que a tecnologia moderna exerce sobre o Homem, mesmo que usadas para o bem, “trazem sofrimento à criação” (referindo-se ao seu Mundo Secundário). Este ponto de vista foi criado devido a sua experiência como veterano da Primeira Guerra Mundial e pai de rapazes que lutaram na Segunda Guerra Mundial, e ele não alimentava mais ilusão papel benfazejo e salvador do desenvolvimento das tecnologias. Com esse pensamento, ele coloca o problema da tecnologia no coração de O Senhor dos Anéis. O Um Anel é o instrumento máximo do poder. Poder esse que até Gandalf preferiu não arriscar, deixando o fardo para Frodo. E cabe ao pequeno hobbit o dilema da saga: ter o poder não é possuir o Um Anel, e sim destruí-lo. Frodo deve então renunciar ao poder porque ele corrompe. Só assim ele será capaz de destruir Sauron. Mesmo assim, sua obra foi a inspiração que faltava para novos jogos de computados, para o cinema e a televisão.

Além de “O Hobbit” e “O Senhor dos Anéis”, foram publicados Sir Gawain & The Green Knight (1925), Mestre Gil de Ham (1949), As Aventuras de Tom Bombadil (1963), Smith of Wootton Major (1967) e Sobre Histórias de Fadas (1965) entre outros . O escritor então se aposenta e junto de sua mulher se muda para Bournemouth. Com a morte de sua esposa em 19 de novembro de 1971, após 55 anos de casamento, Tolkien refugiou-se na solidão em um apartamento na Universidade de Oxford. Numa carta ao seu filho Christopher, John Ronald Reuel Tolkien escreveu, sobre sua mulher Edith Bratt:
[…]o cabelo dela era preto e sedoso, a pele clara, os olhos mais brilhantes do que os que vocês viram, e sabia cantar… e dançar. Mas a história estragou-se, e eu fiquei para trás, e não posso suplicar perante o inexorável Mandos.[…].

No texto, Tolkien decide que no epitáfio de Edith estaria escrito Lúthien. Lúthien é uma personagem de “O Silmarillion” inspirada na esposa de Tolkien, como afirma o trecho da mesma carta:

É breve e simples [o epitáfio], a não ser por Lúthien, que tem para mim mais significado do que uma imensidão de palavras, pois ela era (e sabia que era) a minha Lúthien […] Nunca chamei Edith de Lúthien, mas foi ela a fonte da história que, a seu tempo, se tornou parte de O Silmarillion.

Lúthien era elfa, imortal, mas se apaixona por um mortal, Beren. Ela então desiste de sua imortalidade. Ambos enfrentam muito para ficar juntos e, quando ele morre, Lúthien vai até os Palácios de Mandos, o guardião das Casas dos Mortos. Beren a aguardava nos Palácios, e ela canta diante de Mandos que, então, se comove, a única vez em toda sua existência, e permite que ambos voltem, como mortais. E assim foi. No túmulo, abaixo do nome Edith Tolkien está escrito Lúthien, que, nas histórias, é a mais bela das elfas, a mais bela dos Filhos de Ilúvatar. A história dos dois está contada na Balada de Leithian.

Em 1972, J. R. R. Tolkien recebeu o Doutorado Honorário em Letras da Universidade de Oxford, e conseguiu seu último e mais importante título: a Ordem do Império Britânico pela Rainha Elizabeth, uma das maiores honras britânicas. Era agora Sir John Ronald Reuel Tolkien.

No dia 28 de agosto de 1973 Tolkien sentiu-se mal durante uma festa, e na manhã do outro dia foi internado, com úlcera e hemorragia. No sábado descobriu-se uma infecção no peito.

Aos 81 anos de idade, então, nas primeiras horas do domingo de 2 de setembro de 1973, J. R. R. Tolkien morre na Inglaterra. Enterrado junto com a esposa, no Cemitério de Wolvercote, no túmulo feito de granito da Cornualha, abaixo do seu nome há a inscrição Beren.

Após sua morte, seu filho Christopher editou e publicou “O Silmarillion” (em 1977), além de nos anos 80 e 90 lançar a série The History Of Middle-Earth (A História da Terra-Média), uma gigantesca coletânea dividida em doze volumes, e Unfinished Tales of Númenor and Middle-Earth (Contos Inacabados)

Em 1992, ano em que Tolkien completaria 100 anos, duas árvores foram plantadas em seu tributo em Oxford pela Tolkien Society e pela Mythopoeic Society, grupos de leitores e estudiosos de sua obra. Essas duas árvores fazem alusão às Duas Árvores de Valinor, que davam luz a Valinor nos Dias Antigos.

O Legado de Tolkien

Apesar de ter dado início em 1937 com O Hobbit, o livro infanto-juvenil que fez tanto barulho quanto Harry Potter em sua época, foi somente após o lançamento da trilogia de “O Senhor dos Anéis” (1954-1955) que Tolkien passou a ser cultuado por milhões de fãs. Em 1996, uma pesquisa feita pela livraria londrina Waterstone’s, que conta com mais de 200 lojas em toda Grã-Bretanha, em parceria com um canal de TV britânico, entre cerca de 25.000 leitores, coroou O Senhor dos Anéis como o melhor livro do século e O Hobbit entre os 20 melhores. Uma outra pesquisa mais recente, datada de 2003, feita pela BBC, perguntando às pessoas qual o livro favorito delas, “O Senhor dos Anéis” ficou em primeiro, e “O Hobbit” em 25°. São mais de 50 milhões de exemplares vendidos em vários países, traduzido para 34 idiomas, juntamente com legiões de fãs que se dedicam a ler e estudar a obra do autor.

Ao contrário de muitos escritores que contaram mais com a sorte do que com um respaldo acadêmico para a criação de suas obras, John Ronald Reuel Tolkien foi membro da diretoria do New English Dictionary (1918-1920), professor de Língua Inglesa na Universidade de Leeds, cátedra Rawlinson & Bosworth, posto ligado à Faculdade Pembroke (em Oxford) (1920-1925), professor de Anglo-Saxão (inglês arcaico) em Oxford (1925-1945) e professor de Língua e Literatura Inglesa em Merton (1945-1959), o que caracteriza um jeito próprio de lidar com os livros e a mitologia sempre presente em seus livros.

Mesmo com o sucesso de “O Senhor dos Anéis”, Tolkien só virou celebridade nos anos 60. Nessa época os fãs do autor se reuniam pelos campus das universidades com o único objetivo de discutir sua obra.

Estes fãs tiveram a mesma importância que os trekkers em Star Trek, os “star warriors” em Star Wars e os “excers” em Arquivo X para tornar a obra de Tolkien conhecida. Desde os encontros da primeira sociedade Tolkien, que se comunicava através de frases em cartazes no metrô de Nova York, a tolkienmania só cresceu e continua a influenciar muita gente. No auge da contracultura, a obra era considerada uma espécie de bíblia da Sociedade Alternativa. Com broches como “Frodo Vive” e “Gandalf para Presidente”, os fãs se reuniam para celebrar Tolkien. O público nessa época era composto, quase sempre, por geeks da computação e hippies. De certa maneira, esse público buscava justamente o que Tolkien queria: uma nova realidade (mas não a mesma visão dessa nova realidade).

A criação de mundos complexos como a Terra-Média também deram uma arejada à literatura ficcional, além de inaugurar um novo gênero literário, a literatura fantástica, algo de que Tolkien sentia falta na literatura. Muitos autores também criaram seus mundos próprios e essa realidade virtual criada por Tolkien foi o elemento-chave para a ficção científica de Duna (de Frank Herbert), para a fantasia de A Cor da Magia (de Terry Pratchett). Talvez até para o universo de Harry Potter de J. K. Rowling, autora que gosta muito da obra, a obra tolkieniana tenha servido de base, apesar de a autora ter declarado:

Penso que, se deixarmos de lado o fato de que os livros falam de dragões, varinhas mágicas e magos, os livros de Harry Potter são muito diferentes, especialmente no tom. Tolkien criou toda uma mitologia. Não penso que alguém possa dizer que eu tenha feito isso.

Não se pode deixar de citar também uma obra que é muitíssimo parecida com a de Tolkien: Eragon, de Christopher Paolini. Nela, os elfos são ainda criaturas belas e os anões os mineradores rabugentos também.

Muitas outras áreas sucumbiram ao poder dos Anéis. Em 1974, Gary Cygax e Dave Anerson arrumaram uma maneira de interagir com esta realidade e criaram o Role-Playing Game (RPG) Dungeons & Dragons, um jogo de personificações com temas fantásticos, claramente inspirados na Terra-Média de Tolkien. Com o RPG foi possível se aventurar no universo de orcs, anões, elfos, dragões e até os hobbits, os Halflings do D&D, que mantêm muitas características dos Hobbits com leves alterações (inclusive o próprio Tolkien usava o nome halfling para os seus hobbits). O RPG serviu de estímulo para o público explorar e conhecer novos mundos. A própria Terra-Média chegou a ter seu RPG, o MERP (Middle-Earth Role Playing), em 1982, só que o complexo sistema de regras e os freqüentes equívocos em relação à trama atrapalharam sua difusão, e o MERP não decolou.

Do papel para o computador foi um pulo. Na década de 70, um hacker fã de Tolkien deu uma ajuda ao programador do arcaico RPG Adventure. O jogo foi transformado, ganhou o nome de Zork e virou hit entre os usuários da Arpanet (embrião da Internet) porque estava cheio de referências ao mundo de Tolkien. Nos primórdios da rede, essas realidades virtuais ganharam uma versão em texto, batizadas de MUD (Multi-User Dungeon/Dimension, que em português soa algo do gênero Dimensão Múltipla de Usuários). Hoje, graças aos avanços da tecnologia, os MUD caíram em desuso e o que é sucesso são jogos multiplayer como EverQuest, Última Online, Asheron’s Call, Warcraft e Kingdom Under Fire. Todos têm em comum cenários fantásticos e referências às obras de Tolkien. A Internet teve papel importante na propagação dos trabalhos do autor. Através dela foi possível reunir fãs do mundo inteiro, que demonstram sua admiração e discutem a política, sociedade, as línguas, a biologia e a história da Terra-Média. Há milhares de sites dedicados aos trabalhos de Tolkien que trazem ensaios, poemas, fan-fictions (contos de ficção escritos por fãs), sátiras, críticas, notícias, grupos de estudos, de discussão, fóruns e, é claro, humor (vide Ligações externas).

Ao contrário dos trekkers e dos “star warriors” que aprovam e incentivam as seqüências das obras originais em livros, filmes, seriados, produtos e HQs, os fãs de Tolkien preferem manter seu próprio ponto de vista sobre a obra. Com uma visão muito pessoal e particular da saga de Frodo, os fãs não se arriscam a tocar na Terra-Média. E esse é um dos motivos que impediram uma proliferação ainda maior do legado do autor. A única exceção talvez seja o livro The Black Book of Arda, escrito por duas jovens russas no início dos anos 90, que recontavam os acontecimentos de O Silmarillion, só que do ponto de vista dos vilões.

A influência de Tolkien também pode ser percebida nas mais diversas formas de artes. Pintores como John Howe, Roger Garland, Ted Nasmith, Alan Lee, Tim Kirk e os irmãos Hildebrandt entre outros figuram em enciclopédias ilustradas e centenas de galerias de imagens na Internet. Eles retratam com primazia várias passagens dos livros. A obra do autor também aparece nas músicas de bandas como Led Zeppelin, Blind Guardian, a banda sueca Za Frûmi’s (que compôs uma música com uma versão modificada do idioma orc) entre várias outras influenciadas.

O cinema e a TV não poderiam ficar de fora, o desenho animado Caverna do Dragão e o filme Dungeons & Dragons (ambos baseado no RPG D&D) são claramente influenciados por Tolkien. Podem-se citar outras produções cinematográficas como O Cristal Encantado (1982), A História Sem Fim (1984), Labirinto (1986), A Lenda (1986), Willow – Na Terra da Magia (1988) e Coração de Dragão (1996).

Em 1978, o animador britânico Ralph Bakshi (o mesmo de Super Mouse e Gato Felix) tentou adaptar O Senhor dos Anéis para o cinema num longa-metragem de animação de duas horas. Mas o roteiro era fraco e mesmo usando uma técnica de animação interessante (a rotoscopia, onde os movimentos humanos são sobrepostos pelo desenho) a produção não agradou e parece terminar em algum ponto no meio de As Duas Torres. Outras duas obras de Tolkien viraram longas animados para a TV inglesa: O Hobbit (em 1978) e O Retorno do Rei (1980), ambas criadas para especiais de TV e dirigidas por Jules Bass, o mesmo produtor de Thundercats e Silverhawks e co-diretor do longa metragem Rudolph, a rena do Nariz Vermelho. Tolkien também marcou presença nas HQs. Há influência dele em Bone, a HQ fantástica de Jeff Smith e na megassérie Elfquest, que já tem mais de vinte anos de publicação e conta a história de um mundo recheado de elfos. Também existe Lodoss, uma série criada por fãs-japoneses de RPG, que durante anos, anotaram suas aventuras e transformaram em duas sagas animadas. A primeira é The Record of Lodoss War (de 1991) e a mais recente saga chama-se Chronicles of the Heroic Knight (de 1999), ambas trazem um mundo mágico de deuses, dragões, demônios, magos e guerreiros lutam pelo poder.

Com seus tentáculos se espalhando por todos os lugares, no início do século XXI a saga dos Anéis chega ao cinema. Graças a Peter Jackson, um antigo fã, isso se tornou realidade, e a realidade dos três filmes produzidos simultaneamente (divididos do mesmo modo que os livros, lançados em 2001, 2002 e 2003), rendeu 17 Oscar à série, 4 ao primeiro, 2 ao segundo e 11 concedidos ao terceiro, igualando-o aos recordes de Titanic e Ben-hur.

Fontes:
NOVA Enciclopédia Ilustrada Folha. volume 2. São Paulo: Empresa Folha da Manhã, 1996.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Tolkien
http://www.dec.ufcg.edu.br/biografias/JohnRRTo.html

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Literatura de Cordel (Nelly Novaes Coelho)

A literatura de cordel – poesia popular impressa em folhetos e vendida em feiras ou praças -, tal como é cultivada no Brasil até hoje (vésperas do Terceiro Milénio), teve origem em Portugal, onde por volta do séc. XVII se popularizaram as folhas volantes (ou folhas soltas) que eram vendidas por cegos nas feiras, ruas, praças ou em romarias, presas a um cordel ou barbante, para facilitar suas exposição aos interessados. Nessas folhas volantes, de impressão rudimentar, registavam-se fatos históricos, poesia, cenas de teatro (como o de Gil Vicente), anedotas ou novelas tradicionais, como A Imperatriz Porcina, Princesa Magalona ou Carlos Magno, textos que eram memorizados e cantados pelos cegos que os vendiam. Essas folhas volantes lusitanas, por sua vez, tiveram origem no grande caudal da Literatura Oral, tal como se arraigou na Península Ibérica, onde se formou o velho Romanceiro peninsular.

Desta fonte primeva, sairam inicialmente os pliegos volantes que circularam na Espanha desde fins do séc. XVI e, destes, as folhas volantes portuguesas. Ambas as formas tiveram, como antecessora, a littérature de colportage, pequenos libretos surgidos na França no início do séc. XVI, com popularização da imprensa. Eram folhetos impressos em papel de baixa qualidade, em cor cinza ou azul (daí o nome genérico de “Biblioteca Azul”). Seus textos eram velhos romances, cantigas, vidas edificantes, factos históricos … recolhidos da tradição oral e bastante simplificados em sua redacção.

Difundidos por toda a Europa, essa forma popular de literatura, chamada “de cordel”, foi transladada para o continente americano pela ação de seus descobridores espanhóis e portugueses, à medida em que se instalavam nas terras por eles conquistadas.

“Nas naus colonizadoras, com os lavradores, os artíficies, a gente do povo, veio naturalmente a tradição do Romanceiro, que se fixaria no Nordeste do Brasil, como literatura de cordel.” (Câmara Cascudo, 1973).

Nos países hispano-americano, essa literatura de cordel se difundiu com outros nomes: corridos (México, Venezuela, Nicarágua, Cuba …) e hojas ou pliegos sueltos (Argentina, Chile, Paraguai, Uruguai, Peru …). Textos esses em que predominava a forma poética.

Enquanto não se difudiu a tipografia, foi essa a forma que a poesia popular encontrou para se divulgar. Se na Idade Média, os jograis populares ou palacianos, cantados nas festas e animando o povo, constituíam a comunicação dessa poesia, com a transformação do tempo, tais formas também foram se transformando.” (Manuel Diégues Júnior)

Foi no Nordeste do Brasil (da Bahia ao Pará) que essa literatura de cordel se arraigou mais profundamente e continua como forma viva de comunicação, tornando-se uma das características diferenciadoras dos costumes dessa imensa região em relação às demais regiões brasileiras.

Pela interpretação do grande pesquisador que foi Câmara Cascudo, sabemos que, “No Nordeste, por condições sociais e culturais peculiares, foi possível o surgimento da literatura de cordel, da maneira como se tornou hoje em dia característica da própria fisionomia cultural da região. Fatores de formação social contribuíram para isso: a organização da sociedade patriarcal, o surgimento das manifestações messiãnicas, o aparecimento de bandos de cangaceiros ou bandidos, as secas periódicas provocando desequilíbrios económico e sociais, as lutas de família deram oportunidade, entre outros fatores, para que se verificasse o surgimento de grupos de cantadores, como instrumentos do pensamento coletivo e das manifestações de memória popular. (…) Se eram raras as obras impressas, vindas de Portugal ou dos centros mais adiantados do próprio Brasil, havia à mão os folhetos contando as velhas novelas populares, ás vezes, histórias de santos também. Não foi difícil à literatura de cordel introduzir-se neste ambiente. Tornou-se o meio de comunicação, o elemento propagador dos fatos ocorridos, servindo como que de jornal ao pôr a família ao corrente do que se passava: façanhas de cangaceiro, casos de rapto de moças, crimes, prejuízos da seca, efeitos das cheias, tanta coisa mais. Afinal de contas, no Brasil, o mesmo quadro era traçado por Bernardim Ribeiro ou Garrett, para Portugal.” (Manuel Diégues Júnior).

Devido à diversidade de assuntos ou temas cantados pela literatura de cordel, em todos os países ela tem sido classificada segundo seus “ciclos temáticos”. Tais classificações diferem bastante entre si, segundo os critérios usados pelos folcloristas. Em geral essas classificações abrangem duas grandes áreas-matrizes: a da Tradição (passado) e a das Circunstâncias (presente). Na Europa, existem importantes classificações, mas nenhuma definitiva. No Brasil, destacam-se as de Ariano Suassuna, Cavalcante Proença, Câmara Cascudo, Leonardo Mota, Manuel Diégues Jr., Orígenes Lessa e Roberto Câmara Benjamin. cada qual com sua contribuição, sem esgotar o problema.

Uma das classificações mais simples e abrangentes é a de Manuel Diégues Jr., que cataloga o imenso acervo popular ou foclórico em três ciclos temáticos:

I. Temas tradicionais:

a.) romances e novelas;
b.) contos maravilhosos;
c.) estórias de animais;
d.) anti-heróis/peripécias/diabruras;
e.) tradição religiosa.
Entre os exemplos mais famosos desse ciclo, estão: Proezas de Carlos Magno, Histórias dos Doze Pares de França, Cavaleiro Oliveiros, Cavaleiro Roldão, Roberto Diabo, Helena de Tróia, Histórias da Imperatriz Porcina, Donzela Teodora … e outros de origem bíblica: José do Egito, Sansão e Dalila, Judas e histórias da Virgem Maria, Jesus , São Pedro, São Paulo … No Catálogo da Casa Rui Barbosa, constam também contos maravilhosos: Ali Babá e os 40 Ladrões, Proezas de Malazartes, O Barba Azul, A Branca de Neve, A Bela Adormecida, O Ladrão de Bagdá e outros.

II. Fatos circunstanciais ou acontecidos:

a.) de natureza física (enchentes, cheias, secas, terremotos, etc.);
b.) de repercussão social (festas, desportes,novelas astronautas, etc.);
c.) cidade e vida urbana;
d.) crítica e sátira;
e.) elemento humano (figuras atuais ou atualizadas, como Getúlio Vargas, ciclo do fanatismo e misticismo, ciclo do cangaceirismo, tipos étnicos ou regionais, etc.

III. Cantorias e pelejas: Poemas que nascem oralmente, no calor dos “desafios” entre dois ou mais cantadores. Em geral, tais pelejas ou cantorias se perdem, pois ninguém se preocupa em registrá-las por escrito. Mas algumas, devido à memória prodigiosa dos cantadores (e agora com os recursos eletrônicos) acabam escritas em folhetos de cordel e se tornam famosas, inclusive, devido ao complexo virtuosismo da estrutura poética que, por vezes, apresentam. É principalmente nestes casos que a literatura de cordel deixa de ser anônima (como é natural na literatura popular), pois sempre leva os nomes dos cantadores responsáveis.

Segundo os pesquisadores, o Brasil é o maior produtor de literatura de cordel, no mundo ocidental: em cem anos publicou cerca de 20.000 folhetos, embora em pequenas tiragens (entre 100 e 200 exemplares cada). (Joseph M. Luyten).

Há cantadores e cordelistas famosos (Leandro Gomes de Barros, João Martins de Athayde, Cuíca de Santo Amaro, pseud. de José Gomes, Rodolfo Coelho Cavalcante Raimundo Santa Helena; Francklin Machado; Paulo Nunes Batista, entre outros) que, além de cantarem e imprimirem os textos tradicionais, inventam cantorias com temas gerados pelas circunstâncias de seu tempo, pelo dia-a-dia do povo, e que servem de informação, deleite do ouvinte ou leitor, ou denúncia dos mal-feitos em prejuízo de alguém. A maioria dos cordéis é ilustrada pela técnica da xilografia (gravação em madeira, depois estampada à tinta no papel, e que tem evoluído muito, em sutilezas técnicas). Arte regional (no início minimizada como rudimentar), hoje constitui, juntamente com as “cerâmicas de Mestre Vitalino”, uma das expressões mais características da arte popular brasileira.

Com o correr dos tempos e o progresso urbano que, embora devagar, atingiu o Nordeste brasileiro, muitos costumes antigos desapareceram, mas a literatura de cordel resistente, mantém-se viva até hoje, concorrendo com o rádio, o cinema e a televisão, para o entretenimento do povo nas praças, ruas, feiras, mercados ou em qualquer lugar em que haja um cantador e sua viola … Só que, cada vez com mais evidência, o interesse pelos cordéis antigos vem decrescendo em favor dos novos cordéis que falam dos heróis – muito mais, anti-heróis – dos dias de hoje, e mais denunciando ou zombando do que inventando acontecimentos do novo Brasil e suas circunstâncias.

BIBLIOGRAFIA: Horacio Jorge Beco, Cancioneiro Tradicional Argentino, Buenos Aires, 1960; Sol. Biderman, Messianismo e Escatologia na Literatura de Cordel, São Paulo, 1970; Théophilo Braga, O Povo Português nos seus costumes, crenças e tradições, 2 vols., Lisboa, 1885; Luís Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro, Rio de Janeiro, 1962; Mark J. Curran, A Sátira e a Crítica Social na Literatura de Cordel, Recife, 1960; Diccionario de la literatura hispanoamericana, 8 vols. Washington, 1958; Manuel Diègues Jr., “Literatura de Cordel”, in Revista do Livro, Rio de Janeiro, nº. 30, pp. 51-57 jul/set. 1969; id., “A Literatura de Cordel no Nordeste”, in Literatura Popular em verso, 2 vols., Rio de Janeiro, 1973; id., Literatura Popular em Verso-Catálogo, Rio de Janeiro, 1961; id., Literatura Popular em Verso-Antologia, Rio de Janeiro, 1964; Armando de Mária y Campos, La Revolución Mexiacana á través de los corridos, México, 1962; António José Saraiva, História da Cultura em Portugal, 2 vols., Lisboa, 1955; Marc. Soriano, “Littérature de Colportage”, in Guide de littérature pour la jeunesse, Paris, 1975.
http://www.sectec.rj.gov.br/redeescola/especialistas/portugues/tema04/por-tm04.html

P.S.: Revisão realizada por José Feldman. A grafia original do artigo era em português de Portugal.

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Literatura Gótica (Andrea Peixoto)

Expressão que designa um tipo específico de literatura emergente no século XVIII, que tem como fundador Horace Walpole e a sua obra The Castle of Otranto (1764). Caracteriza-se pelos ambientes sombrios, pelo uso do sobrenatural e é geralmente aplicada a um conjunto de romances escritos entre 1764 e 1820. É possível encontrar, ainda no século XX, romances com características deste tipo de literatura.

A palavra gótico tem origem numa tribo germânica, os Godos, que por volta do século II a.C. se tinham instalado nas margens do Báltico. Esta palavra entra no vocabulário significando germânico e mais tarde, com o Renascimento e o Iluminismo, medieval. Gótico seria tudo o que se diz a respeito da Idade Média, vista como a Idade das Trevas e associada à brutalidade, às superstições e ao feudalismo. Assim, e até ao século XVIII, a palavra era usada de forma depreciativa.

Em arquitetura, o estilo gótico surge em meados do século XII e prospera até ao século XVI. Este estilo expressava a essência da fé católica, preocupada em criar um ambiente onde se sentisse a presença de Deus, incorporando algum simbolismo pagão – as gárgulas são um bom exemplo disso. A arte e arquitetura góticas tinham por objetivo criar um efeito sobrenatural e mágico no espectador, evocando uma espécie de terror, vulnerabilidade, temor, o sentir-se à mercê de um poder superior – ponto de vista do mundo medieval – e é isso que é recuperado em muitos dos romances góticos. Desta forma, a ligação entre o termo artístico gótico e o termo literário, encontra-se na ênfase que ambos dão às emoções.

No Século XVIII, e ao mesmo tempo que o Romance se estabelecia como forma literária, houve, por parte de alguns autores, um interesse por tradições mais antigas e orais, pelas sagas e baladas islandesas e pela literatura da Idade Média. Isto seria uma reação contra algumas das ideias do Iluminismo. Muito do imaginário do que futuramente se denominaria literatura gótica, existia já nos elementos sobrenaturais das baladas e nos excessos dos romances de cavalaria medievais. É na primeira metade desse século que aparece também a Graveyard School of Poets. Poetas como Thomas Parnell, Thomas Gray e Edward Young, que escreviam longos poemas meditativos sobre a morte e a imortalidade da alma, normalmente passados em cemitérios, lançaram algumas das sementes do movimento gótico. Os principais objetos poéticos destes autores eram os cemitérios, a noite, as ruínas, as almas penadas, a morte, todos eles futuros temas do romance gótico.

O século XVIII foi o século do revivalismo gótico, primeiro na arquitetura e jardinagem e só depois na literatura. O Romantismo, como movimento literário, dava preferência ao esplendor, ao pitoresco, à felicidade dos tempos passados, ao sublime espetáculo da natureza, à paixão e à beleza extraordinária. Era considerado o oposto do clássico. O gótico distinguia-se pelo seu fascínio pelo horrível, pelo repelente, pelo grotesco e sobrenatural, pelas atmosferas de mistério e suspense, pelo medieval. A junção desses elementos faz com que surja o romance gótico.

O primeiro autor a referir-se ao termo gótico relacionado com literatura foi Addison nos seus ensaios. No entanto, utiliza este termo como sinónimo de bárbaro. A obra de Tobias Smollet Ferdinand Count Phantom (1753) também possui alguns dos elementos góticos. Mas é só a partir da obra The Castle of Otranto. A Story Translated by William Marshal, Gent. From the Original of Onuphrio Muralto (1764), da autoria de Sir Horace Walpole, que a verdadeira literatura de característica gótica entra nos círculos literários. Esta obra, apesar de todas as suas inverosimilhanças, teve uma grande influência para os autores que se seguiram. É a partir dela que se começa a utilizar o terror, o sobrenatural e o macabro como possíveis fontes de ficção. O submundo do inconsciente não entrava, porém, nas criações de Walpole. O uso que faz do termo gótico deve-se à sua preocupação em reconstituir o ambiente medieval – logo longínquo – que permitiria o uso da superstição, de ambientes misteriosos e terríficos.

A escola gótica inglesa demonstrou-se sempre fiel à preocupação didática do século XVIII, que justificava o uso da crueldade e da perversidade como forma de glorificar a virtude – que no final sempre triunfava. Na sua essência, este tipo de romance é, primeiramente, um romance sentimental onde intervém o sobrenatural. O seu esquema fundamental implica uma donzela virtuosa, um herói apaixonado e um vilão que não discerne meios para obter os seus fins. A isto acrescentam-se as forças ocultas do sobrenatural e um ambiente tenebroso. Alguns dos elementos que constituem este romance gótico são, entre outros, os seguintes: a existência de um antigo manuscrito; a magia; os fantasmas ou espectros; a loucura e os sonhos proféticos; um castelo antigo ou em ruínas; as obras de arte, armaduras e espadas ferrugentas; os crimes e imenso sangue; a religião católica; a Itália; e a Natureza como leit-motif.

O romance gótico fica estabelecido, e muitos autores viram no romance de Walpole uma boa fonte de inspiração, como é o caso de Clara Reeves com o romance The Champion of Virtue. A Gothic Story, publicado em 1777, mais conhecido pelo nome com que é reeditado no ano seguinte: The Old English Baron. A Gothic Story.

No século XVIII racionalista, a incongruência do romance gótico encontrava-se na intervenção do sobrenatural. Isto foi resolvido por Ann Radcliffe que, no final dos seus romances, explicava sempre o sobrenatural por elaboradas causas naturais. É com os romances de Radcliffe que o gótico, com os seus elementos de terror e suspense, se assume como uma moda literária. Dos seus seis romances góticos, o mais famoso é, sem dúvida, The Mysteries of Udolpho, de 1794. É também a partir de Ann Radcliffe que as histórias passam a ser góticas, não por serem passadas em tempos distantes e medievais, mas pelo seu cenário. Há uma tentativa de aproximação do romance aos tempos mais próximos.

Se com Radcliffe se concretizou o «terror» gótico, é com Matthew Gregory Lewis e o seu romance The Monk publicado em 1796, que a violência brutal e os pormenores macabros passam para o romance e se concretiza o «horror» gótico. Lewis é o mais alto expoente da influência da escola gótica alemã em Inglaterra. A preocupação com a glória da virtude não existiu nesta escola, deixando espaço para a criação de formas de terror mais violentas por parte de Lewis.

Já no século XIX, o gótico continua a proliferar e os romances góticos, tanto Ingleses como Alemães, continuam a aparecer em abundância, apesar da sua aparente mediocridade. Na América, Charles Brockden Brown é o responsável pela difusão do gótico, embora tenha transposto a acção dos seus romances para palcos mais familiares aos seus leitores. Em vez de castelos em ruína, usa como palco florestas e longínquas localidades, que, no entanto, possuem o mesmo espírito gótico.

A última grande figura do panorama gótico desse século é, indubitavelmente, Charles Robert Maturin que, com o romance Melmoth, the Wanderer (1820), faz com que o gótico atinja alturas nunca antes vistas, em que o medo sai do reino do convencional e desaba sobre a humanidade. O terror inspirado é ao nível do espírito.

É no teatro que o domínio do «negro» entra mais cedo. Na Inglaterra, já Shakespeare utilizara, nas suas peças, uma parte dos elementos que se encontram na escola gótica, como é o caso do fantasma em Hamlet, as bruxas em Macbeth ou o carácter distorcido de Ricardo III na peça com o mesmo nome. Na Alemanha, o movimento do Sturm und Drang – nome de uma peça de Klinger – difunde um novo gênero de drama. A sua influência em Shakespeare e suposta liberdade dos padrões clássicos, eram uma revolta contra as convenções e doutrina do classicismo francês. Os dramas eram de índole nacionalista, caracterizados pelo fervor, entusiasmo, retrato de grandes paixões, fortes experiências emocionais e lutas espirituais que irão influenciar o drama gótico. Todavia, as suas convenções foram estabelecidas pela literatura gótica.

O efeito da popularidade dos romances góticos fez com que as produções dramáticas fossem em grande número. Robert Jephson foi o primeiro dramaturgo gótico: The Count of Narbonne (1781) é uma dramatização de The Castle of Otranto. Jephson simplificou e reduziu muito do romance, omitindo alguns dos elementos sobrenaturais que teriam sido difíceis de colocar em palco. Joanna Baillie distinguiu-se, com a peça De Monfort (1800), pela representação da mulher no gótico. A sua peça é uma crítica aos vários modos convencionais de dramatizar a mulher. É um thriller psicológico, que utiliza cenários, personagens e atmosferas góticas. Porém, a escola gótica tinha-se afundado no absurdo sendo um alvo fácil para a sátira, como o comprova Jane Austen em Northanger Abbey (1817).

O romance gótico sucumbe perante a sua própria extravagância, mas os mecanismos e imaginário góticos continuam a assombrar a ficção de escritores como Edgar Allan Poe e Nathaniel Hawthorne. Há uma incorporação de alguns elementos góticos em obras posteriores e embora possam ser chamadas góticas, não são consideradas como parte desse cânone. Um bom exemplo disso é Dracula de Bram Stoker, publicado em 1897.

No século XX, a literatura gótica encontra ainda alguns seguidores. Na primeira metade do século autores como M. R. James, Algernon Blackwood e Daphne du Maurier são figuras de destaque e após os anos 80, Anne Rice, Poppy Z. Brite e Patrick McGrath continuam a utilizar alguns dos consagrados elementos góticos. Com este novo impulso há um reviver do gótico, por parte de uma geração à procura de identidade, passando, entretanto, a influência da escrita também para a música.

Bib.: Alaister Fowler “The Formation of Genres – Primary, Secondary, and Tertiary Stages” in Kinds of Literature – An Introduction to the Theory of Genres and Modes (1982); Bertrand Evans: Gothic Drama from Walpole to Shelley (1947); David B. Morris “Gothic Sublimity” in New Literary History (1985); David Punter “Gothic Origins: The Haunting of the Text” e “Gothic After/Words: Abuse and the Body Beyond the Law” in Gothic Pathologies: The Text, the Body and the Law (1998); David Punter The Literature of Terror: The Gothic Tradition (1996); Filipe Furtado A Construção do Fantástico na Narrativa (1980); Frederick R. Karl “Gothic, Gothicism, Gothicists”, in A Reader’s Guide to the Development of the English Novel in the 18th Century (1975); H. P. Lovecraft: Supernatural Horror in Literature (1973); Jeremy Hawthorn, “Types of Novel – The Roman Noir / Gothic Novel“, in Studying the Novel: An Introduction (1997); Louis Vax: A Arte e a Literatura Fantásticas (Lisboa: Editora Arcádia, 1972); Maria Leonor Machado de Sousa: A Literatura “Negra” ou de Terror em Portugal (1978); Pam Morris “Women and the Novel – A More Subversive Tradition?” in Dennis Walder (ed.): The Realist Novel (1995); Richard Davenport-Hines Gothic: 400 Hundred Years of Excess, Horror, Evil and Ruin (1998)

Revisão realizada para o blog por José Feldman, do original português de Portugal.

Fonte:
http://www.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/L/literatura_gotica.htm

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Arquivado em Teoria Literária

Estudos feministas e pós-coloniais (Prof. Dr. Thomas Bonnici)

Seminário Internacional Fazendo o Gênero – Univ. Federal de Santa Catarina (UFSC), 2006

PARA UMA TIPOLOGIA DA REPRESENTAÇÃO FEMININA NA LITERATURA PÓS-
COLONIAL EM INGLÊS

Thomas Bonnici
Universidade Estadual de Maringá

Sucesso incompleto

No auge do estruturalismo e pós-estruturalismo, as teorias feminista e pós-colonial têm percebido uma sensibilidade mútua. Indaga-se se a representação da mulher nos romances pós-coloniais teve um desenvolvimento significativo de acordo com as teorias veiculadas pelas duas disciplinas. Num planeta em diferentes fases de globalização, é inevitável que a mulher de 2006 seja muito diferente da mulher dos anos 1950 e 1960. Se há diferenças entre os personagens femininos em Things Fall Apart publicado em 1958 e Purple Hibiscus, publicado em 2003, por que muitos estudiosos do feminismo questionam ou problematizam o sucesso alardeado, enquanto outros contabilizam os prejuízos que o feminismo tem proporcionado à família e às mulheres em geral (Greer, 2001; Wolf, 2006).

O objetivo dessa pesquisa é uma tentativa para uma tipologia da representação feminina em romances pós-coloniais, escritos em inglês, através da análise das personagens femininas e suas respostas aos eventos do “Império”. Analisam-se alguns sujeitos femininos em Crossing the River (1993), do caribenho Caryl Phillips, em The Pickup (2001), da sul-africana Nadine Gordimer, em Fruit of the Lemon (1999) e Small Island (2005), da anglo-jamaicana Andrea Levy, em Disgrace (1999), de J.M. Coetzee, e em Purple Hibiscus (2003), da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. A escolha desses romances se justifica especialmente pela forte influência que o “novo imperialismo” tem exercido a partir de 1990 sobre as comunidades pós-coloniais e a subseqüente intervenção do sujeito feminino, representado nos romances, conforme as categorias de gênero e classe.

Personagens femininas da literatura pós-colonial

Destacam-se nesse período o envolvimento mais enérgico do feminismo negro e terceiromundista especialmente nas ex-colônias européias e a introdução de estudos femininos em praticamente todas as instituições de ensino superior e a publicação de obras de autoria feminina. Como havia previsto Fanon (1990), essa geração de autoras e de autores “politicamente correta” surgiu justamente no período em que a independência política não devolveu a liberdade, a igualdade e a libertação prometida porque a burguesia local, assumindo o poder, estancou a situação sociopolítica da maioria da população. Frequentemente, a diáspora, em todos os sentidos, tornou-se a característica transindividual nas ex-colônias durante as últimas décadas do século 20 e do início do século 21, afetando principalmente as mulheres (Spivak, 1996).

A análise dos romances acima mencionados mostrará como as produções literárias são inseridas nas estruturas sociais e históricas, as quais são refletidas na representação dos e na relação entre as personagens. A representação das personagens femininas, as quais tendem à desilusão e à decepção, mostrará ou a superação dos problemas, ou o auto-exílio, o enfrentamento da diáspora transnacional ou a liberdade de situações opressivas familiares. Embora em nível individual a representação do sucesso esteja à vista, a ambigüidade da situação é percebida na situação da maioria que ficou.

A agência da escrava “Martha

A secção “West” em Crossing the River (1994) narra a história de “Martha”, vendida pelo pai na costa africana em 1752, e sua trajetória, como escrava, do leste ao oeste dos Estados Unidos. A recepção deste romance acontece quando os Estados Unidos se consolidam como país hegemônico e quando o Caribe se aprofunda numa economia dependente devido às influências políticas aleijadoras dos países dominantes. A personagem Martha se caracteriza metonimicamente pela agência da contracultura iniciada e aprofundada pelo Negro nos Estados Unidos e no Caribe. Embora na década de 1990 o problema jurídico racial nos Estados Unidos já tivesse sido solucionado, pelo menos teoricamente, persiste ainda o preconceito de que o negro constitui uma “raça” no contexto da sociedade estadunidense ou uma classe de pessoas legitimamente excluídas. Phillips contrapõe-se a esse preconceito através da construção da comunidade e do trabalho a serviço da comunidade. A escrava “Martha”, encarando o ambiente senhoril, eurocêntrico e patriarcal como “inferno”, percebe essa tensão não apenas em nível étnico, mas, em nível classista e de gênero, já que o patriarcalismo é elemento integrante do colonialismo e do imperialismo. Sua autonomia pessoal será garantida numa comunidade negra cuja finalidade não é o ouro, mas a terra onde, através do trabalho, poderia alcançar a verdadeira subjetividade, longe dos brancos.

A história de Martha revela a tensão produzida pelo “ajustamento econômico” no Caribe, exigência do neoliberalismo, mesmo depois da independência política nos anos 1970 e 1980. À notícia da libertação dos escravos em 1865, Martha confessa que pouca diferença isso faria à população negra se persistissem o patriarcalismo e a mentalidade anticlassista e anti-racial. Phillips revela o difícil obstáculo, imposto pela comunidade branca, capitalista e excludente, aos negros nas comunidades-nações do Caribe, para os quais, frequentemente, o único caminho é a diáspora transnacional. Como “Martha” morre a caminho para a Califórnia, o sucesso do indivíduo caribenho em diáspora é ambíguo porque fica sujeito à política neoliberal e colonial.

A negra “Martha” poderia ser tipificada como (1) construtora da nação pelo trabalho, contrapondo-se às idéias de parasitismo e de ociosidade vigentes entre a população branca estadunidense; (2) formadora de inter-relacionamentos, contrapondo-se à globalização da exclusão, à maximização dos lucros, à minimização de atividades de colaboração; (4) sujeito num ambiente de patriarcalismo e de colonialismo contra os quais se rebela, embora seu sucesso seja marcadamente ambíguo.

Desafio para sul-africanas burguesas

Apesar de seu variado engajamento na luta anti-apartheid (Taubman, 1984; Glenn, 1994; Attwell & Harrow, 2000), Nadine Gordimer e J.M. Coetzee, de ascendência européia, concentram sua ficção pós-1990 sobre a situação sul-africana pós-apartheid e refletem sobre a utopia da construção de uma nação baseada nos princípios da reconciliação e da igualdade. Como Julie e Lucy, respectivamente protagonistas em The Pickup e Disgrace, pertencem à burguesia branca, num ambiente pós-apartheid, os dois romances parecem se identificar mais com a elite e a classe média que sofrem violência e sentem-se ameaçados do que com as massas de peões agrícolas e de trabalhadores urbanos.

Todavia, destacam-se e mediação e a interação entre essas forças sociais trans-individuais e as características das personagens. Embora The Pickup reflita a situação urbana do país, especialmente o patriarcalismo / colonialismo de sua família e a tutela do Estado pela população branca, a unheimlichkeit de Julie resulta numa situação própria da população deslocada e sua entrada numa cultura rural, religiosa, patriarcal, caracteristicamente prejudicial à mulher. A interação entre esses pólos antagônicos recria a mulher agente, conciliadora sem submissão, respeitada nas suas ações, e aparentemente reconciliada consigo mesma. A condição nova da África do Sul não satisfaz a Julie, enquanto o deserto, a vida simples e a vivência na comunidade lhe garantem a felicidade almejada. Destacando-se como sujeito, a diaspórica Julie constrói uma comunidade de amigas diante da investida do neoliberalismo na aldeia pobre de Ibrahim.

Semelhante a The Pickup, o romance Disgrace mostra a flexibilização na África do Sul pósapartheid imersa no neoliberalismo e na globalização. Revela também a implosão da desigualdade das classes, refletida principalmente no patriarcalismo e no patronato. Embora estuprada por uma gangue de negros, Lucy reforça a sua subjetividade quando recusa de incriminar os agressores, doa sua terra a Petrus, seu ex-empregado, e entra sob sua proteção. Essa atitude paradoxal é a utopia de uma reconciliação entre as etnias e as classes através de profundas mudanças na identidade, igualdade e cidadania. Parece que a atitude de Lucy indica as condições de reconciliação e de perdão que a África do Sul necessita nesse período pós-apartheid.

Na África do Sul pós-apartheid a representação da mulher branca poderia ser tipificada através do (1) aprofundamento da insatisfação e da ambigüidade, já que sua libertação ficou muito aquém de suas expectativas; (2) deslocamento, interno e externo, que, paradoxalmente lhe dá mais autonomia e agência frente às novas condições sociopolíticas; (3) aguçamento da responsabilidade para reverter, como primícias, através da construção da comunidade e da reparação, a histórica desigualdade e suas injustiças.

O desafio da mulher caribenha na diáspora

Lugar de dupla colonização no século 16 (Ashcroft, 1991) e de indentured labour após a Emancipação no século 19, a maioria dos países caribenhos se tornou politicamente independente somente em meados do século 20. Todavia, apesar de a mulher caribenha ter sido objetificada pelo patriarcalismo-colonialismo europeu e pelo patriarcalismo africano e asiático, a sua agência aumentou consideravelmente após 1980 devido a várias reformas sociais abrangentes. Em contraposição ressalta-se o novo controle que os Estados Unidos exercem na região, após 1950, o qual resultou na diáspora como uma condição transindividual constante no Caribe.

Fruit of the Lemon (1999) e Small Island (2004) são dois romances complementares: Small Island mostra o casal caribenho Hortense Roberts e Gilbert Joseph que emigra para a Inglaterra; Fruit of the Lemon revela as vicissitudes da britânica Faith Jackson, segunda geração caribenha, de volta à Jamaica.

Em Small Island Levy mostra, em retrospectiva, a formação individual de Hortense e Gilbert, pertencentes à classe social baixa, inseridos no regime colonial da Jamaica, sua emigração na Inglaterra e sua estada em Londres onde adotam uma criança negra nascida na Inglaterra. Aos olhos britânicos, a negra Hortense é estereotipada, objetificada racialmente, desqualificada como britânica, incapacitada em sua profissão, hierarquizada e rotulada como cidadã secundária.

No contexto histórico das décadas finais do imperialismo britânico e o início da diáspora caribenha, Hortense expõe o pioneirismo do sujeito colonial rejeitado em “sua própria casa” devido à etnia e à classe. Diante de profundos conflitos sociais a sua agência se sobrepõe quando toma a decisão de continuar vivendo na Inglaterra e adotar uma criança negra apesar do racismo e da ideologia classista vividos como mulher.

Em Fruit of the Lemon, a condição de nascida e criada na Inglaterra, mas de pais jamaicanos, não coloca Faith Jackson numa situação melhor daquela vivida por Hortense. No final da década de 1970, Faith Jackson negocia sua condição de ser negra no emprego e no ambiente multicultural e racista britânico. Vivendo uma crise de identidade, ela viaja para a Jamaica onde, através das histórias orais de parentes, se inteira das intricadas redes de parentesco construídas pelos colonizadores e colonizados no Caribe e, consequentemente, ela assume uma nova modalidade de ser. A experiência de Faith na Inglaterra e na Jamaica parece ser estritamente pessoal, mas o narrador constrói a condição da mulher diaspórica como o produto de profundas tensões sociais. Em Fruit of the Lemon, portanto, a convivência pacífica, o multiculturalismo, a suposta fácil ascensão social do migrante e o respeito entre britânicos nativos e pessoas oriundas das ex-colônias na sociedade britânica são denunciados como um mito.

A condição feminina em Small Island e Fruit of the Lemon mostra que (1) o progresso material da sociedade britânica não é sinônimo de diminuição de tensão inter-racial, especialmente quando o sujeito é mulher; (2) a agência feminina é um fato certo, apesar de tensões contra o patriarcalismo na família e no emprego num ambiente globalizado de exclusão e de valores não-comunitários; (3) a voz da mulher na sociedade tecnológica tem menos autoridade do que na comunidade do Terceiro Mundo; (4) a construção da comunidade através da tolerância e do multiculturalismo é caracteristicamente feminina e se contrapõe à competitividade e à exclusão dos países ricos.

Repressão e revide na Nigéria

Em Purple Hibiscus (2003) Adichie coloca a protagonista Kambili num ambiente de patriarcalismo, fundamentalismo religioso e resistência feminina, silenciosa e eficiente, na Nigéria infestada pela repressão. Essa situação revela as contradições individuais e as forças sociais transindividuais operando na construção da sociedade e as tensões inerentes a essas forças. Percebe-se o patriarcalismo e o neocolonialismo da “elite” da sociedade nigeriana que utiliza o poder em benefício próprio e não para o desenvolvimento cultural e tecnológico do povo da ex-colônia. Todavia, o silêncio de Kambili e o assassinato de Eugene pela esposa são revides preferíveis à tirania patriarcal

A condição feminina em Purple Hibiscus mostra (1) a íntima relação entre o patriarcalismo e a neocolonialismo formada pela burguesia nacional; (2) a opressão feminina naturalizada, sem nenhuma necessidade de explicações; (3) a liberdade física feminina como camuflagem para a carência da liberdade verdadeira; (4) os obstáculos profundos que as mulheres nas comunidades pós-coloniais encontram para conquistar a agência, apesar de sua participação nas lutas anticoloniais ou pela igualdade de gênero; (5) a reação feminina ambígua devido a sua semelhança à opressão do colonizador.

Caminhando ainda

O descompasso existente entre o conceito de libertação e o grau de igualdade e de heterogeneidade que se encontra em exercício no dia-a-dia da vida das mulheres nas últimas décadas do século 20 e no início do século 21 explica o senso de sua frustração nas sociedades pós-coloniais ou aquelas que, embora possuidoras de bens materiais, ainda estão hierarquizadas e fossilizadas em classes sociais e grupos étnicos excludentes, ou ainda quando a própria mulher, branca, cristã, financeiramente estável, carece consciência de que ela não representa todas as mulheres do mundo (Greer, 2001, p. 10-11).

Ademais, parece que o novo tipo de colonialismo pós-1990 é mais abrangente e mais corrosivo para as sociedades, apesar de estas são politicamente independentes e possuem as benesses da industrialização e uma extensa rede de comunicação. Embora não se possa dizer que os romances escolhidos revelem absolutamente a complexa tipologia da representação feminina pós-colonial, acredita-se que possam ser indicadores para retratar a condição feminina na literatura oriunda das ex-colônias britânicas. Em primeiro lugar, parece que os autores pós-coloniais preferem representar a mulher da classe média alta (Lucy, Julie, Kambili) e baixa (Hortense, Faith) à mulher estritamente operária (Martha), independente de sua opção sexual, profissão, etnia ou cor. Em qualquer status social a mulher enfrenta a ideologia patriarcal/colonial, representada ou por personagens concretas (pai, marido, empregadores, professores) ou pelo sistema capitalista e suas conseqüências (o racismo, os resquícios de apartheid, a exclusão, a subalternação). O deslocamento, característico da contemporaneidade, pode ser indicativo de frustração e insatisfação como também de busca para a ascensão social. Nesse último caso, a negra (Hortense, Faith) enfrenta problemas de emprego, moradia, aceitação social, competitividade, e de exclusão por causa de sua etnia e proveniência colonial. Por outro lado, apesar de sua condição social e étnica, Julie se integra na comunidade feminina árabe e encontra sua realização através da mística do deserto (realização pessoal) e do soerguimento educacional das mulheres árabes (realização comunitária).

A classe operária não se destaca nesses romances. A única exceção é a escrava Martha, consciente de que está construindo um novo tipo de sociedade baseada na cooperação, inclusão e trabalho enquanto rechaça e supera a sociedade excludente e em constante busca de lucro. O fato que só Martha retrata a condição operária pode ser indicativo da teoria de que a literatura é algo específico do capitalismo e baseia-se sobre a falsa supressão das condições materiais e ideológicas que a moldam.

Todavia, verifica-se que as personagens mostram um alto grau de agência apesar dos grandes obstáculos encontrados. A cor, a etnia, a classe, a religião não constituem mais impedimentos para elas se afirmarem como agentes autônomos e independentes, opondo-se às variadas restrições do colonialismo e do capitalismo. Apesar disso, o esforço e a luta para conseguir a agência não são iguais a todas, admitindo gradações: Hortense e Faith enfrentam o escárnio do racismo numa sociedade que finge ser democrática e inclusiva; Lucy enfrenta a inversão sociopolítica pós-apartheid pela escolha da reconciliação, do perdão e da auto-imolação; Kambili se opõe ao sadismo do pai e do regime ditatorial através da resignação ao assassinato.

O projeto utópico da construção da comunidade ainda está inacabado, muito embora vários romances vislumbrassem tal procedimento e conduto. Transpondo o olhar além do horizonte, Martha visualiza um mundo de reciprocidade, contrastando o “inferno” que o homem branco construiu no Novo Mundo; contra os horrores do ódio e da segregação, Lucy imagina na África do Sul uma comunidade heterogênea e reconciliada consigo mesma após séculos de hierarquização e binarismo; Hortense e Faith enfrentam a hostilidade britânica contra imigrantes negros e impõem sua cidadania. O sucesso preconizado pelas feministas é ambíguo, mas as respostas de tolerância, multiculturalismo, reciprocidade e agência contra o imperialismo e a dominação, as quais permeiam a literatura pós-colonial escrita em inglês, se encontram em toda parte. Talvez o horizonte da obra literária pós-colonial, especialmente aquela de autoria feminina e/ou em que a mulher é protagonista verifica-se no exato lugar descrito por Roy (2003, p. 112): “[A literatura] não deve apenas se opor ao Império, mas cercá-lo, sufocá-lo, envergonhá-lo, expô-lo ao ridículo. Com nossa arte, nossa música, nossa literatura, nossa teimosia, nossa exuberância, nossa alegria, nossa absoluta persistência e nossa capacidade de contar nossas próprias histórias. Histórias que são diferentes daquelas que eles tentam nos fazer engolir para nelas acreditar”.

Referências bibliográficas

ADICHIE, C.N. Purple Hibiscus. New York: Random House, 2003.
ASHCROFT, B; GRIFFITHS, G.; TIFFIN, H. The Empire Writes Back: Theory and Practice in
Post-colonial Literatures. London: Routledge, 1991.
ATTWELL, D.; HARLOW, B. South African Fiction after Apartheid. Modern Fiction Studies, v.
46, n. 1, 2000, p. 1-12.
COETZEE, J.M. Disgrace. London: Vintage, 2000.
FANON, F. The Wretched of the Earth. Harmondsworth: Penguin, 1990.
GLENN, I. Nadine Gordimer, J.M. Coetzee, and the Politics of Interpretation. The South Atlantic
Quarterly, v. 93, n. 1, 1994, p. 11-32.
GORDIMER, N. The Pickup. Farrar, Straus & Giroux, 2001.
GREER, G. A mulher inteira. Rio de Janeiro: Record, 2001.
LEVY, A. Fruit of the Lemon. London: Review, 1999.
LEVY, A. Small Island. New York: Picador, 2005.
PHILLIPS, C. Crossing the River. New York: Vintage, 1994.
ROY, A. War Talk. Boston: South End, 2003.
SPIVAK, G. Diasporas old and new. Textual Practice, v. 10, n. 2, 1996, p. 245-269.
TAUBMAN, R. Doris Lessing and Nadine Gordimer. In FORD, B. (Ed.). The New Pelican Guide
to English Literature: The Present, v. 8, 1984, p. 233-244.
WOLF, A. Working Girls. Prospect. April 2006.

Fonte:
http://www.fazendogenero7.ufsc.br/st_10_B.html

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Ciência e Ficção: o futuro antecipado (Rodrigo Cunha)

Diversos cientistas de hoje, para justificar o financiamento às suas pesquisas, fazem prognósticos dos possíveis benefícios que elas trarão à humanidade no futuro. Mas muitos avanços da ciência foram antes previstos em obras de ficção. “A capacidade do futuro de ocupar a imaginação tem sido uma característica permanente da condição humana, expressa nos mitos, em desenhos, rituais, produções literárias e filmes de ficção científica”, diz Alice Fátima Martins, da Universidade Federal de Goiás (UFG), que pesquisou em seu doutorado o cinema de ficção científica como expressão do imaginário social sobre o futuro. Segundo ela, um dos elementos que viabiliza esse imaginário social é o desejo de desbravamento e conquista de territórios desconhecidos, que também se expressa na literatura antes mesmo do surgimento do cinema.

O escritor francês Julio Verne, por exemplo, em seu livro De la terre à la lune (Viagem à lua), de 1865, previu não apenas que o homem conseguiria chegar ao satélite da Terra, mas também qual seria a velocidade necessária para essa jornada (11 km/s). Um editorial do The New York Times publicado um dia após o lançamento da espaçonave norte-americana Apollo 11 para a Lua, em 1969, reconhece que Verne estava certo ao afirmar que um foguete pode funcionar também no vácuo e não somente na atmosfera. Em Vinte mil léguas submarinas, de 1869, Verne também previu que os submarinos do futuro utilizariam um combustível muito eficiente e praticamente inesgotável. Os submarinos já existiam desde 1776, quando um aparato de madeira batizado de Turtle foi utilizado na guerra da independência dos Estados Unidos. Mas foi apenas em 1954 que submergiu o primeiro submarino da história movido por propulsão nuclear, batizado pelos norte-americanos de Nautilus, em homenagem ao veículo comandado pelo personagem capitão Nemo em Vinte mil léguas submarinas.

De acordo com Paul Saffo, do Institute of the Future, a exemplo dos construtores do submarino nuclear – leitores confessos de Julio Verne –, os cientistas e engenheiros de hoje responsáveis pela tecnologia que será utilizada daqui a vinte anos se inspiram lendo os livros de ficção científica mais populares do momento. E alguns pesquisadores, além de suas contribuições para a ciência, também são eles próprios consagrados autores de ficção científica. É o caso do britânico Arthur Clarke, autor de livros como a série Odisséia no espaço, que deu origem ao clássico filme 2001, de 1968, cujo roteiro ele assina junto com o diretor Stanley Kubrick. Desde 1951, Clarke publica livros de ficção com a temática do espaço, mas seis anos antes, ele já havia dado uma importante contribuição para as pesquisas espaciais: em artigo científico publicado no periódico Wireless World, Clarke – que era membro da Sociedade Interplanetária Britânica – propôs o conceito de satélites geoestacionários como ideal para as telecomunicações. Em 1957, os russos lançam na órbita da Terra o Sputnik, primeiro satélite de comunicação da história.

Para Ieda Tucherman, que pesquisa na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) a relação entre as novas tecnologias e a ficção científica, esta última seria descendente do imaginário técnico-científico da modernidade e teria sido um fértil celeiro de existências lógicas que se tornaram possíveis. Hoje, porém, os especialistas de áreas envolvendo tecnologia de ponta fazem previsões para um futuro próximo que para o leigo – ou cético – podem parecer ficção. “As declarações proferidas por cientistas dessas áreas de ponta das biotecnologias e da informática são muito mais ousadas do que as fantasias apresentadas pela ficção-científica, literária ou cinematográfica”, afirma Tucherman. “Restou à ficção a função de expressar a inquietação humana diante das novas possibilidades”, completa.

Em Digital people – from bionic humans to androids, publicado este ano, o físico norte-americano Sidney Perkowitz elenca aspectos dos robôs que têm como objetivo atingir diferentes níveis da capacidade humana. Nesse livro, o autor também apresenta um conjunto de microprocessadores e softwares como o equivalente ao cérebro humano em seres artificiais. O êxito de projetos que busquem essa equivalência, no entanto, é colocado em dúvida por pesquisadores da área de informática. “Será que os sistemas de software são confiáveis o suficiente para que os robôs e outros seres artificiais façam apenas aquilo para o que foram projetados?”, questiona Virgílio Fernandes Almeida, chefe do Departamento de Ciência da Computação da Universidade Federal de Minas Gerais. “A experiência com os complexos sistemas de software hoje existentes não nos permite ter certeza das respostas a essa questão”, avalia.

Dúvidas como essa aparecem em filmes como Inteligência artificial, de Steven Spielberg e Stanley Kubrick, de 2001. Nessa história, um casal com um filho praticamente desenganado – que permanece congelado pelo método criogênico – resolve acolher em casa a última novidade produzida pela Cybertronics Manufacturing: um meca-filho, robô idêntico a uma criança, programado para amar seus pais adotivos assim que eles lêem sete palavras previamente definidas pela empresa que o construiu. Quando o filho verdadeiro do casal supera as previsões médicas e se recupera, passa a disputar com o meca-filho o amor da mãe, que após diversos incidentes entre os dois, decide devolver o robô adotado para a Cybertronics. A empresa só o receberia de volta na condição de destruí-lo. Com pena da criatura que chegou a acolher como filho, a mãe adotiva resolve abandoná-lo em uma floresta. Daí em diante, a exemplo do personagem infantil Pinóquio, o meca-filho passa a tentar descobrir de forma incansável como fazer para se tornar humano.

A clássica história infantil As aventuras de Pinóquio, sobre o boneco de madeira que ganha vida após ser construído pelo mestre Gepeto, foi publicada pelo italiano Carlo Collodi em 1893. Quatro séculos antes, seu conterrâneo Leonardo Da Vinci, que viveu entre 1452 e 1519, já desenvolvia pesquisas sobre a anatomia humana que ajudariam na criação de articulações mecânicas. A partir dos estudos de Da Vinci, surgiram bonecos que moviam as mãos, os olhos e as pernas e conseguiam realizar ações simples como escrever ou tocar certos instrumentos musicais. A idéia de bonecos mecânicos de funcionamento previamente programado – como o robô do filme Inteligência artificial – só se desenvolveria após 1940, quando George Stibitz, da empresa Bell Labs, dos Estados Unidos, apresentou ao mundo o primeiro computador digital da história.

Leis fundamentais da robótica

Um robô nunca deve atacar a um ser humano, nem omitir socorro a um ser humano em perigo.

Um robô deve sempre obedecer às ordens dadas pelos seres humanos (a não ser que esta lei entre em conflito com a primeira).
Um robô nunca deve se auto-destruir e destruir a um dos seus (a não ser que esta lei entre em conflito com as duas primeiras).

O termo “robô” surgiu pela primeira vez em 1920, na peça do dramaturgo checo Karel Capek intitulada RUR (Rossum’s Universal Robots). Em 1926, o filme Metrópolis, de Fritz Lang, já apresentava um personagem com características de humanóide, meio máquina e meio mulher. Mas a robótica–como área de investigação científica–nasce de fato após o advento do computador, curiosamente, a partir da obra de um ficcionista (e também bioquímico): o russo naturalizado americano Isaac Asimov. O termo robótica aparece primeiro em uma pequena história sua, de 1942, intitulada Runaround. Em 1950, Asimov publica Eu, robô – cuja adaptação está atualmente em cartaz nos cinemas – uma coletânea de contos que mostra a evolução dos seres autômatos (os robôs), na qual ele postula as três leis fundamentais da robótica.

Essas leis propostas por Asimov sintetizam algumas inquietações humanas apontadas por Tucherman (UFRJ), expressas na ficção diante de novas possibilidades científicas e tecnológicas que não se restringem à área da robótica. No romance Frankenstein, publicado pela inglesa Mary Shelley em 1816, o personagem criado a partir da união de partes humanas retiradas de diversos corpos,acaba se voltando contra seu criador. Em A ilha do Dr. Moreau, de 1896,o também inglês H.G.Wells conta a história de um cientista que faz experimentos de hibridização de espécies animais com humanos, e as criaturas bestiais resultantes se revelam incontroláveis e também destroem quem as criou.Mais recentemente, inquietações como essa também aparecem em filmes como Blade Runner, de Ridley Scott, de 1982, onde andróides projetados por uma empresa de biotecnologia lutam para prolongar a sua vida, previamente programada para se extinguir em poucos anos; o líder dos andróides, diante da impossibilidade de conseguir seu objetivo, assassina o dono da empresa que os projetou. E no campo da informática, as preocupações de Asimov são centrais no filme 2001, uma odisséia no espaço, de Kubrik e Clarke: o supercomputador que comanda a espaçonave que realiza a odisséia acaba adquirindo vontade própria e passa a desobedecer os comandos humanos.

Rodney Brooks,do Laboratório de Inteligência Artificial do MIT,afirma que em 20 ou 30 anos,teremos capacidade tecnológica para construir um robô com a mesma capacidade de computação do cérebro humano, mas garante que a maior parte dos robôs que iremos construir não terá vontade própria. Parte da complexa capacidade de processamento do cérebro humano, no entanto,já foi igualada–e talvez até superada–por máquinas feitas pelo próprio homem. Em maio de 1997,o supercomputador Deep Blue da IBM,disputou com o campeão mundial Gari Kasparov uma série de seis partidas de xadrez. Kasparov venceu apenas a primeira, e houve três empates entre as duas vitórias do Deep Blue sobre o enxadrista russo na segunda e na sexta partida.

A ciência – esteja ela ancorada em afirmações ousadas, como a de Perkowitz, autor de Digital People, ou prudentes, como a de Brooks, do MIT – ainda não produziu máquinas ou seres que fugissem ao controle de seus criadores da forma como a ficção apresenta. Mas outras inquietações apresentadas na ficção acerca do futuro que não gostaríamos de ter suscitaram discussões que ajudam a mudar o curso da história. “Blade Runner, dentre outras questões relevantes que trata, mapeia inquietações e desdobramentos em termos das relações sociais a partir da queda vertiginosa da qualidade de vida em meio ao caos em que se tornaram as megalópolis”, exemplifica Alice Fátima Martins, da UFG. Segundo a pesquisadora, no filme de Ridley Scott já não há o entusiasmo com a fumaça das chaminés, que no cinema do início do século XX representava o prenúncio do progresso e a conquista do futuro.

Inteligência Artificial, de Spielberg e Kubrick, também vai além da questão filosófica acerca de seres previamente programados e reproduzidos em série: cidades costeiras como Nova Iorque, no futuro em que se passa o filme, estão totalmente alagadas em função do derretimento das calotas polares, um alerta para as discussões políticas envolvendo mudanças climáticas e aquecimento global (leia edição da ComCiência dedicada ao assunto). E obras clássicas da literatura, como Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, e 1984, de George Orwell, continuam sendo referência no debate sobre o risco de se ter uma sociedade totalitária – seja no futuro ou no presente.

Desde que o inglês H.G.Wells publicou o livro A máquina do tempo, em 1895, esse tema voltou a aparecer em diversas obras de ficção, incluindo filmes despretensiosos como De volta para o futuro (1989), de Robert Zemeckis, ou mais elaborados, como Os doze macacos (1995), de Terry Gilliam. E a partir da teoria da relatividade, elaborada por Einstein no início do século XX, a ciência também passou a encarar o tema com seriedade. Hoje já se sabe que um corpo que se move a uma velocidade próxima à da luz, como os raios cósmicos, pode atravessar uma galáxia em poucos segundos, embora para um observador terrestre essa travessia pareça levar milhares de anos.

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O Fantastico e a Fantasia (Jefferson Vasques Rodrigues)

O FANTÁSTICO E A FANTASIA
Jefferson Vasques Rodrigues

“O abismo sonha um grito nos olhos de quem o sente”.

O mundo real deve ser entendido, de um modo geral, como aquele conteúdo da consciência constituído, por um lado, pela imagem do mundo mediada pela percepção (objeto), e do outro, pelo conteúdo dessa imagem mediado pelo sentimento e pensamento inconscientes (“ímago”). Assim, as duas “realidades” que se apresentam, o mundo da consciência e o mundo do inconsciente, não disputam a supremacia, mas tornam-se mutuamente relativos. Ninguém se oporá com obstinação a idéia de que a realidade do inconsciente seja relativa; mas que a realidade do mundo consciente seja posta em dúvida, eis o que não será tolerado com a mesma facilidade. No entanto, as duas “realidades” são vivências psíquicas.

Não há realidade absoluta, de um ponto de vista crítico. Conhecemos o mundo externo e interno, consciente e inconsciente, através das imagens mentais, como observado pelo psiquiatra suíço, Carl Jung: “Longe, portanto, de ser um mundo material, esta realidade é um mundo psíquico que só nos permite tirar conclusões indiretas e hipotéticas acerca da verdadeira natureza da matéria. Só o psíquico possui uma realidade imediata, que abrange todas as formas, inclusive às idéias e pensamentos “irreais”, que não se referem a nada de exterior”.
Quando se torna ambígua a distinção da origem de uma imagem mental, se essa provém do mundo externo (percepções) ou interno (sensações, imaginação), surge o estado de hesitação e simultaneidade pelo qual se caracteriza, em termos psicológicos, a fantasia. Essa impossibilidade de distinção pode ocorrer em estados alterados de consciência ou então pela projeção: um complexo afetivo (libido) associado a um objeto invade a estrutura consciente devido a repressão unilateral (a paixão é um exemplo).
Essa hesitação real é a mesma hesitação representada para o leitor num texto fantástico, hesitação que Todorov explicitou como característica marcante da literatura desse gênero. A oscilação entre uma explicação racional e conhecida (consciente) e a aceitação irracional de um evento estranho às leis da natureza (inconsciente) acaba promovendo a simultaneidade desses aspectos. Além disso, para que exista a hesitação é necessário que o leitor “participe” do texto e ao mesmo tempo perceba seu papel de receptor. Portanto o leitor não poderia interpretar o texto alegoricamente, o que o colocaria muito distante da narrativa, nem poeticamente, o que impediria o distanciamento necessário. Essa forma de participação coincide com a maneira ideal de compreensão das fantasias, descrita pela psicologia analítica, nas palavras de seu fundador, Jung: “…porque para ser vivida de um modo completo a fantasia exige, não só a visão passiva, mas a participação ativa do sujeito”. Só assim a fantasia pode escapar à sina de se tornar um movimento esdrúxulo da imaginação (rejeitado) ou de ser analisada ao pé da letra, concretamente, o que deixaria de lado seu conteúdo simbólico (não se entenda símbolo como alegoria e sim como “representação” de aspectos in/conscientes).
Todorov esclarece que em muitos casos a história fantástica, que nasce da coexistência de dois universos, acaba se dissolvendo em um dos pólos dessa tensão, característica que esse crítico utilizou para sua classificação. O texto é dito fantástico-estranho quando os acontecimentos insólitos são explicados de forma racional e essa explicação é aceita pelos personagens no mundo ficcional. Se os acontecimentos sobrenaturais afirmam-se como inexplicáveis caracteriza-se o texto como fantástico-maravilhoso.
Para Todorov, a função do texto fantástico é “subtrair o texto à ação da lei e assim transgredi-la”. Com isso seria possível burlar a censura social permitindo a incursão por temas tabus para a coletividade como incesto, amor homossexual, necrofilia, sensualidade excessiva, doenças mentais e vícios. Já para a narrativa, a emersão de eventos sobrenaturais, movimentos extraordinários, permite a saída de um estado de equilíbrio ou desequilíbrio constantes dinamizando assim a realidade que até o momento se encontrava estabilizada. Verifica-se, aqui também, semelhança com as funções da fantasia: apresenta ao seu receptor-emissor imagens que procuram romper uma fixação consciente (lei) procurando dar fluxo a libido estagnada trazendo assim, aos olhos da consciência, uma outra face da realidade psíquica. Como já mencionado anteriormente, isso apenas é possível, segundo a psicologia analítica, se o emissor-receptor encarar a fantasia sem desprezo (distanciamento) ou entrega (alucinação). Deve haver a simultaneidade de estados. Posição equivalente a que Todorov defende com relação ao leitor da literatura fantástica.
É interessante notar a evolução dos textos fantásticos, a partir dos textos homéricos e lendas antigas, verificando uma mudança importante que só veio a se cristalizar a partir do século XVIII : a conscientização da situação fantástica pelo próprio narrador, indicando um maior aprofundamento no entendimento da realidade, pelo menos da realidade ficcional, como algo mutável e suscetível. E já no século XX, a literatura fantástica passa a assumir o fato insólito, típico desse gênero, como um acontecimento normal dentro da narrativa, não sendo necessária a torrente de explicações racionais que o texto fantástico, da época do iluminismo, exigia. Pode-se fazer um paralelo entre o processo de conscientização da ir/realidade do mundo ficcional ao processo de conscientização da ir/realidade do mundo real (psicológico).
Referindo-se a esse último, Jung disse: “Quanto mais limitado for o campo consciente de um individuo, tanto maior será o número de conteúdos psíquicos (“imagos”) que se manifestam exteriormente, quer como espíritos, quer como poderes mágicos projetados sobre vivos (magos, bruxas). Num estádio superior de desenvolvimento, quando já existem representações da alma, nem todas as imagens continuam projetadas (quando a projeção continua, até mesmo as árvores e as pedras dialogam); nesse novo estádio, um complexo ou outro pode aproximar-se da consciência , a ponto de não ser percebido como algo estranho, mas sim como algo próprio.” – é o que vem acontecendo ao longo do desenvolvimento da literatura fantástica –
“Tal sentimento, no entanto, não chega a absorver o referido complexo como um conteúdo subjetivo da consciência. Ele fica, de certo modo, entre o consciente e o inconsciente, numa zona crepuscular: por um lado, pertence ao sujeito da consciência, mas por outro lhe é estranho, mantendo uma existência autônoma que o opõe ao consciente. De qualquer forma, não obedece necessariamente a intenção subjetiva, mas é superior a esta, podendo constituir um manancial de inspiração, de advertência, ou de informação”.

Verifica-se portanto o espelhamento entre a realidade psíquica e a realidade ficcional, ambas questionando a realidade dos padrões estabelecidos exemplificando que esses mesmos padrões, sejam ficcionais ou “reais”, não podem simplesmente ser encarados como sinais que ocultam algo de geralmente conhecido, mas sim como símbolos verdadeiros: tentativa de elucidar mediante a analogia alguma coisa ainda totalmente desconhecida ou em processo. A literatura, como as artes, representa esse processo de descoberta e a literatura fantástica representa a própria consciência dessa processo, questionando portanto a própria literatura diante da realidade.

Inicialmente apresentando o desconhecido como soturno e demoníaco, vide o “ O Corvo” de Poe, o Fantástico, com o passar do tempo e o fluir da libido inconsciente, vem se tornando natural e presente como em “Cem anos de Solidão”.

Bibliografia:
POE, Edgard “O Corvo – A Filosofia da Composição”, São Paulo, Editora Expressão, 1986
JUNG, Carl ”A Natureza da Psique”, Rio de Janeiro,Vozes, 1997
JUNG, Carl “O Eu e o Inconsciente”, Rio de Janeiro, Vozes, 1997
MARQUES, Gabriel “Cem Anos de Solidão”
RODRIGUES, Selma “O Fantástico”, São Paulo, ed. Ática, 1988
TODOROV, T. “As Estruturas Narrativas”, São Paulo, ed. Perspectiva, 1979

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Literatura Colonial e Pós-Colonial (Tereza Pinto Coelho)

A literatura colonial, identificada com um conjunto de textos que inclui romance, poesia, narrativas de viagem, relatos de missionários, diários, livros de notas e outros que propagandearam a ideia de império sobretudo a partir do século XIX , tem origem em textos muito anteriores aos quais vai beber metáforas e imagens, como as descrições de selvageria de Heródoto, os relatos de Marco Polo, Mandeville ou Haklyut. Seria, contudo, na virada do século, com a expansão colonial como a Inglaterra e a França, que iria desenvolver-se. A África, continente redescoberto pelos europeus nos anos 80 do século passado, surge então como cenário de inúmeros textos de autores como H. Rider Haggard, John Buchan, Mary Kingsley, Florence Dixie ou Joseph Conrad em Inglaterra e Pierre Loti, Paul Vigne D’Octon ou Paul Bonnetain em França. Também o império britânico na Índia é tema de Rudyard Kipling, E. M. Forster, G. A. Henty ou Alice Perrin.

Quanto à literatura pós-colonial considera-se, em geral, que tem início após a II Guerra Mundial sendo definida por Elleke Boehmer como “a literature which identified itself with the broad movement of resistence to, and transformation of, colonial societies.” (Colonial & Postcolonial Literature. Migrant Metaphors, Oxford University Press, 1995, p. 184). Entre as duas barreiras temporais citadas encontra-se todo um conjunto de textos que registram diferentes atitudes face ao império e que não poderão enquadrar-se numa designação única, já que, segundo a mesma autora, “initiatives which we now call postcolonial first began to emerge before,the time of formal independence, and therefore formed part of colonial literature” (Op.cit., p.5). Na verdade, já em Conrad e Forster se registram atitudes de resistência ao poder colonial, as quais iriam também encontrar expressão nos anos 20 e 30 nas obras de autores como Léopold Sédar Senghor (Senegal), Aimé Cesaire (Martinica) ou Bernard Binlin Dadié (Costa do Marfim). Vivendo em Paris, estes escritores tornaram positiva a imagem de “negritude”, anteriormente identificada como negativa e inferior pelo colonizador, passando a celebrá-la enquanto símbolo do institivo e misterioso da África negra.

É, porém, o movimento anti-colonial que se sucede a 1945 que traz consigo a literatura pós-colonial de que são exemplos autores como: Chinua Achebe, George Lamming, Ana Ata Aidoo, Alice Munro, Margaret Atwood, Patrick White (Prémio Nobel, 1973), Wole Soyinka (Prémio Nobel, 1986), J. M. Coetzee, Peter Carey ou Nadine Gordimer (Prémio Nobel, 1992), apenas para citar alguns.

É de se salientar que a partir dos anos 70, grupos cujas obras não eram até então consideradas, passam a figurar na literatura pós-colonial. São eles as mulheres (Am Ata Aidoo, Bessie Head, Keri Hulme, Michelle Cliff, Erna Brodber) e os povos indígenas (p. ex., os australianos aborígenes Sally Morgan e Mudrooroo ou os neozelandeses maori Witi Ilhimaera e Patricia Grace).

A eles se junta um terceiro grupo, os chamados migrant writers. Por diferentes razões, que vão desde a opção profissional ao exílio político, autores de nações outrora colonizadas passam a residir em Boston, Nova Iorque, Londres e Paris. É o caso de Salmom Rushdie, Ben Orki ou V. S. Naipul.

É também nos anos 70 que tem início a crítica literária pós-colonial, nomeadamente em 1978 com a publicação de Orientalism de Edward Said também ele migrant writer nos EUA e também ele, como Rushdie, com as suas obras atualmente banidas na Palestina. Desde então, a obra de Said tem dado origem a uma vasta bibliografia de análise crítica às suas teorias, bibliografia que muito tem influenciado as várias “leituras” de que têm sido objecto os textos coloniais e pós-coloniais. O que é sobretudo posto em causa na perspectiva “orientalista” de Said é o fato de este dividir o mundo em dois – o do colonizado – afirmando que o Orientalismo, que não existe na realidade sendo antes fabricado pelo Ocidente, constituir uma afirmação de poder por parte do colonizador ocidental face ao colonizado, sendo o primeiro sempre dominante e privilegiado do ponto de vista discursivo, social e político. Afirmações como “Orientalism depends for its stategy on this flexible positional superiority, which puts the Westerner in a whole series of possible relationships with Orient without ever losing him the relative upper hand” (Orientalism, Penguinm 1985, p. 7) têm sido postas em causa por vários autores. De uma forma ou de outra, todos apontam o reducionismo da metodologia de Said. Como afirma Bart Moore-Gilbert: “What unites such critics is a perception that said unifies homogenises the identity and operationality of colonial discourse to an unwarranted degree”(“Writing India, Reorienting Colonial Discourse Analyses”, in Writin India 1757-1990. The Literature of British India, 1996, p. 5).

Entre os críticos de Said destacam-se Homi Bhabha e Gayatri Chakravorty Spivak. Partindo da psicanálise, Bhabha mostra como as relações entre colonizadores e colonizados não são homogêneas, mas marcadas pela “ambivalência” (palavra-chave retirada da psicanálise) pondo em relevo a esfera insconsciente das relações coloniais e mostrando de que forma o sujeito colonial se converte em objeto de fantasia e desejo por parte do colonizador. Quanto a Spivak, põe em relevo a(s) história(s) do(s) “subalterno”(s), conceito que deve ser entendido como a diversidade dos grupos dominados e explorados silenciados pelo ponto de vista hegemônico da historiografia académica. Assim, propõe-se dar voz aos excluídos, nomeadamente às mulheres nativas subalternas, cujo ponto de vista nunca é ouvido, vítimas que são da visão de superioridade do feminismo ocidental que a autora considera sinônimo dos comportamentos do colonizador face ao colonizado e, portanto, mera reprodução dos axiomas do imperialismo.

Outros autores têm criticado Said e proposto novas formas de abordagem teórica sem, contudo, note-se, rejeitarem na íntegra o modelo orientalista. Porém, p. ex., Robert Young não deixa de apontar outros caminhos fazendo notar que não existe um modelo metodólogico para a análise de impérios como o português ou o espanhol ou para espaços geográficos que não a Índia, nomeadamente a África.

Nos anos 90 as literaturas pós-coloniais encontram-se, tal como a metodologia crítica, numa fase de proliferação e mudança. Parece-nos que uma perspectiva comparatista poderia ajudar, já que é a que passou a ser adotada para a própria História do colonialismo, como significativamente mostra o livro de Mac Ferro Histoire des colonisations (notar a utilização do plural) recentemente traduzido para português e inglês.

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Jogos Florais

JOGOS FLORAIS

O período entre 28 de Abril e 13 de Maio do calendário romano marcava a celebração dos Jogos Florais (ou Florálias – do latim floralia, ium), assim denominados por se tratarem das festividades em honra de Flora, deusa da Primavera, das flores, dos cereais, das vinhas e das árvores frutíferas. A lenda diz que Flora é uma das divindades sabinas introduzidas em Roma por Tito Tácio e adorada pela populações itálicas, em geral. Desde então, associa-se o mel à deusa, como um dos presentes que esta terá concedido ao Homem, o mesmo acontecendo com todas as flores que conhecemos.
Segundo Brandão (1993), nesta data as cortesãs reuniam-se e dançavam ao som de trombetas, num concurso em que as vencedoras eram coroadas do flores, tal como era hábito fazer-se nas cerimónias de adoração da própria divindade. Por influência desta tradição romana, em toda a Península Ibérica, embora com especial incidência na zona do Algarve, ficou até aos nossos dias o costume de colocar nas portas e janelas das casas flores de giestas, também designadas por Maias (nome que provém do facto de florescerem em maior abundância do quinto mês do ano). Mais ainda, no início do século era habitual escolher-se nas aldeias uma jovem que, vestida de branco, era coroada de flores tal como a deusa.
Um pouco mais tarde, a partir do século XIII, esta celebração passou a abranger uma esfera mais alargada, agora enquanto concurso literário: os poetas e amantes da escrita, em geral, tinham nesta data a possibilidade de apresentar as suas produções num concurso.
Os Jogos Florais foram muito populares na Idade Média. Era um torneio cultural promovido anualmente em Toulouse, França, inspirado em tradições originárias da Roma antiga. Por se realizar na primavera, esse torneio, que envolvia várias modalidades literárias, oferecia prêmios (troféus) em forma de flores, daí o nome “Jogos Florais”.
Em Portugal, os procedimentos se regem por um regulamento com características específicas: os participantes podem optar por várias modalidades de escrita, sendo as mais comuns o poema lírico ou as quadra populares de tema livre, o soneto (tomando como inspiração um determinado assunto), poesia obrigada à utilização de um mote específico ou alegórica à própria cidade onde se realizam os Jogos e, finalmente, o tratamento de um adágio popular. O número de trabalhos por concorrente é ilimitado, sendo os seus autores obrigados a apresentar-se sob pseudónimo, para que os jurados não sofram qualquer tipo de influência durante a avaliação. Aos melhores trabalhos são oferecidos prémios, habitualmente três por modalidade. Por vezes, são ainda concedidas menções honrosas aos candidatos, cujos trabalhos, embora não sejam vencedores, são considerados dignos de destaque.
No Brasil, os I Jogos Florais de Nova Friburgo constaram de um grande concurso de trovas, com o tema “amor”. A festa de premiação, em maio de 1960, reuniu na bela cidade serrana fluminense, além dos vencedores do concurso, outros ilustres intelectuais, entre os quais Antônio Olinto, Eneida, Jorge Amado, Manuel Bandeira.
Dali por diante, dezenas de outras cidades passaram a promover torneios semelhantes, alguns com o nome de Jogos Florais, outros simplesmente como concursos de trovas. Na maioria dessas cidades, a festa hoje faz parte do calendário de eventos, constituindo importante atração turística.
O concurso de trovas propõe um ou mais temas, a partir dos quais trovadores de todo o Brasil e também de Portugal produzem seus versos. Ao final do prazo estabelecido para remessa dos trabalhos, uma comissão julgadora seleciona as trovas premiadas (vencedoras, menções honrosas e menções especiais).
Os autores das trovas contempladas são convidados a comparecer à cidade promotora do concurso para uma festa que dura de um a três dias. Nessa ocasião, além de passeios, recitais e outros programas, faz-se uma reunião solene para entrega dos prêmios (diplomas, troféus e medalhas). Não há prêmio em dinheiro. Quando há recursos disponíveis, os premiados ganham hospedagem e refeições, mas as despesas de transporte correm por conta de cada um. Por ser um movimento literário que se caracteriza pela fraternidade, tal costume é aceito tranqüilamente.

Junito de Sousa Brandão: Dicionário Mítico-Etimológico e da Religião Romana (1993); Silvério Benedito: Dicionário Breve da Mitologia Grega e Romana (2000); Almanaque 1996, ed. Ministério da Educação, Departamento de Educação Básica.

Fontes:
http://ubtportoalegre.portalcen.org/trovas.htm
www.folcloreonline.com/folhas/maio1.htm
www.italonet.com.br/mitologia/romana.htm
www.raizesdeportugal.com.br/cgomes/maios.htm
http://orbita.starmedia.com/~stargate2/proven.htm
http://www.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/J/jogos_florais.htm

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Concursos Literários

JOGOS FLORAIS DE ALMEIRIM
Apartado 29 – 2081-909 – Almeirim – Portugal
Tema: “Igualdade de oportunidade para todos”
a) Quadra (Trova) ; b) Soneto;
c) Poesia obrigada a mote:
“Entre grandes e pequenos
ficamos mais iguais,
dando a uns um pouco menos
e a outros, um pouco mais.”
Máximo: 2 trabalhos cada em 5 vias, com pseudônimos diferentes. Junto, pequeno envelope fechado, com a identificação por dentro.
Prazo: 20.01.2008

I JOGOS FLORAIS DE CAXIAS DO SUL
A/C de Alice Cristina Velho Brandão, Rua Dr. Mointaury, 919, apto. 101, Cep 95.020-190 – Caixas do Sul-RS.
TEMAS: Âmbito Nacional: “IMIGRANTE”
Âmbito Estadual: “VINHO” = Porto Alegre e Região Serrana: “VINDIMA”
Máximo de 03 trovas.
Prazo: até 10.01.2008.

XVIII CONCURSO NACIONAL E INT. DE TROVAS DE PINDAMONHANGABA
Biblioteca Pública Municipal “Ver. Rômulo Campos D’Arace”
Ladeira Barão de Pindamonhangaba, s/n – Bosque da Princesa
CEP: 12401-320 – Pindamonhangaba-SP
Temas:
Nível Regional: para trovadores domiciliados na cidade de Pindamonhangaba, demais cidades do Vale do Paraíba, Litoral Norte e Região Serrana (Mantiqueira, no Estado de São Paulo) – SEDUÇÃO.
Nível Nacional/Internacional: para os trovadores domiciliados nas demais cidades do Brasil e Exterior – APATIA.
XII Juventrova (para estudantes) – FICAR
Para todos os temas valem palavras cognatas.
Premiação = Dia: 05 de Julho de 2008.
Máximo de 3 trovas (líricas/filosóficas) por concorrente, datilografando acima da trova, o tema a que concorre.
Serão consideradas as trovas recebidas até 29 de fevereiro de 2008.
Sistema de envelopes.

XLVIII JOGOS FLORAIS DE NOVA FRIBURGO
Temas de âmbito nacional:
“ESCOLHA” (lírico/filosófica) “FEIRA” (humorística)
A/C Nádia Huguenin, Rua Emilia Barroso, 128-Cônego
Cep 28.621-290 – Nova Friburgo/RJ
Âmbito Municipal (apenas para Nova Friburgo)
Temas: “FEITIÇO” (lírico/filosóficas) e “CABELO” (humorísticas)
A/C João Freire Filho, Rua Parintins, 200, c/8, Cep 21.321-190 = RJ
ATENÇÃO: haverá ainda um concurso paralelo, tema: “Vinda de D.João VI e suas realizações no Brasil”. Enviar para o mesmo endereço dos concursos nacionais. Todos os concursos são pelo “Sistema de envelopes”, máximo de 03 trovas por tema. Prazo de chegada: até 29/02.2008.

XIV JOGOS FLORAIS DE CURITIBA – PR
Temas: Âmbito Nacional = MISTÉRIO (lírico/filosófica), PIPOCA (humor)
Enviar para Rua Itupava, 791-Alto da Rua XV, Cep 80.040-000, Curitiba.
Âmbito Estadual = ABRAÇO(lírico/filosófica), BATIDA (humor)
Enviar para Rua Graúna, 410-apto. 41, Cep 04513-002, São Paulo-SP
Máximo de 03 trovas por tema.
Prazo de recebimento: até 29/02/2008

III JOGOS FLORAIS DO BALNEÁRIO CAMBORIÚ
A /C de Gislaine Canales
Rua: 2700 – Nº 71 Ap. 302-Edifício Acácias – Bloco B – Centro
Cep 88.330-374 – Balneário Camboriú – SC
Tema nacional: LÁGRIMA
Tema estadual (SC): SORRISO
Países de língua espanhola: SONRISA
Máximo 3 (Lírico/Filosóficas)
Valerão trovas recebidas até 31-05-2008
Outras informações: gislainecanales@uol.com.br

XXXVIII JOGOS FLORAIS DE NITERÓI 2008
Caixa Postal 100.518, CEP 24001-970 – Niterói – RJ
Temas: Estadual (só trovadores RJ) = CORTINA
Nacional/Internaconal = VARANDA
Valem palavras derivadas.
Máximo de 03 trovas (líricas/filosóficas)
Prazo para remessa: 01/02/08 a 31/05/08
Festa de premiação marcada para 29 e 30 de novembro 2008.

I CONCURSO ESTADUAL / NACIONAL DE TROVAS DO SITE TROVA UNE VERSOS
REGULAMENTO
1. Para o concurso TROVA é a forma poética composta de quatro versos de sete sílabas métricas cada um deles, com ocorrência de rimas do 1º verso com o 3º e do 2º com o 4º, tendo o conjunto sentido completo;
2. As TROVAS, em nº de 02(duas), LÍRICAS OU FILOSÓFICAS, serão enviadas entre 01.12.07 a 29.02.08, EXCLUSIVAMENTE PELA INTERNET para trovauneversos@gmail.com; devendo ser inéditas e de autoria do poeta ou poetisa concorrente;
3. Serão acolhidas TROVAS somente em língua portuguesa, o que não exclui os trovadores de outros países, desde que se sirvam dessa língua;
4. Do e-mail deverão constar obrigatoriamente:
– Nome do autor (completo); – Endereço postal (completo);
– Nº do telefone (se houver); – E-mail;
– TROVAS (duas).
5. As TROVAS terão por temas: LENDA(S) – concorrentes domiciliados no estado do Rio Grande do Norte; SONHO(S) – à exceção do Rio Grande do Norte, para os demais estados do Brasil
e outros países;
6. A Comissão Julgadora escolherá em cada segmento 10 (dez) trovas, assim distribuídas:
– 1º, 2º e 3º lugares – Trovas Campeãs (Ouro / Prata / Bronze);
– 4º, 5º e 6º lugares – (Menções Honrosas);
– 7º, 8º, 9º e 10º lugares – (Menções Especiais).
7. Aos vencedores serão concedidos DIPLOMAS de acordo com a classificação;
8. O site TROVA UNE VERSOS anunciará o resultado em 20.04.08;
9. Trovas que estiverem em desacordo com os Artigos deste Regulamento serão excluídas automaticamente do Concurso e a remessa de mais de 02(duas) trovas resultará na desclassificação do(a) participante;
10) Pela simples remessa das TROVAS o(a) concorrente aceita as normas do presente regulamento;
11) Outros informes serão obtidos pelo site: http://www.trovauneversos.hpgvip.com.br (na seção Informativo); dúvidas pelo e-mail: trovauneversos@gmail.com .

PRÊMIO INTERNACIONAL DE POESIA “CASTELLO DI DUINO” 2008
O concurso é reservado aos jovens de até 30 anos de idade. A participação é gratuita. Participa-se só uma poesia inédita (Maximum 50 versos). O concurso é temático. O Tema Edição 2008 é: “Voz /Silê ncio”. As poesias podem ser enviadas na língua original dos concorrentes mas deverão ser acompanhadas por uma tradução em inglês e/ou italiano. Para as poesias escritas em língua original agradece-se, embora não seja obrigatório, a tradução em inglês. Um júri internacional de poetas e críticos, experto em muitas línguas, avaliará as poesias, se possível, nas línguas de origem das poesias. As poesias têm que chegar antes do 6 de janeiro de 2008. Podem ser enviadas:
a) por e-mail ao endereço: valera@units.it . O e-mail tem que conter o formulário de participação e as declarações devidamente preenchidos:
Formulário de participação:
Nome Apelido
Data de nascimento
Rua N°
Código Postal Cidade
Telefone Mail
Nacionalidade Título da poesia
Declaro que a poesia …(titulo da poesia)……. Com que participo no Prémio internacional “Castello di Duino” – é uma minha obra original, inédita e nunca foi premiada.
Consinto que seja eventualmente publicada ou presentada em público.
Declaro que sou/nao sou (escolha a opção correta) inscrito à SIAE ou a outra sociedade análoga para a tutela do direito de autor.
A poesia tem que ser enviada como anexo em formato word ou rtf.

b) por correio normal: a Gabriella Valera Gruber, Via Matteotti 21 I- 34138 Trieste, sem os dados do autor que serão declarados no formulário de participação (veja-se acima) devidamente preenchido e assinado. Faz fé o carimbo postal, mas nenhum texto poderá ser aceite si chegar quando o júri tiver começado o trabalho de selecção. As poesias têm que ser entregues ao júri sem os dados dos autores para garantir uma avaliação imparcial.
Prêmios: Primeiro, segundo, e terceiro prêmio de € 500 cada um (uma parte terá que ser devolvida para um fim humanitário à escolha do vencedor)
Publicação gratuita em edição bilingue (italiana e inglesa) com gravação em língua original em CD de todas as poesias recomendadas (editora Ibiskos de A. Risolo, patrocinador do Concurso). A ganância sobre as vendas do livro será devolvida à Fundaçao Luchetta-Ota-D’Angelo Hrovatin para as crianças vitimas da guerra http://www.fondazioneluchetta.org for children war victims. Recomendações especiais e prêmios menores às melhores poesias entre os jovens com menos de 16 anos que não passaram a selecção geral. Recomendações para as três melhores escolas que participaram com turmas inteiras.

CONCURSO BRASILEIRO DE CONTOS, CRÔNICAS E POESIAS 2008, EM GENEBRA
A Biblioteca da Associação Raízes em Genebra estará lançando de Janeiro à Março de 2008 o Sexto Concurso Brasileiro em Genebra de “Contos, Crônicas e Poesias”. Você que é brasileiro(a) e mora em Genebra ou na Europa, comece já a escrever sobre uma experiência pessoal ou algo fictício que brinca na sua mente, em forma de conto ou de poesia. Seja qual for a sua idade, o seu sexo e o seu nível de estudo entre na aventura da escrita! Libere a sua alma escrevendo o que dança na sua cabeça e participe assim do nosso concurso literário “Contos, Crônicas e Poesias”. Data limite para entrega dos trabalhos: 25 de abril de 2008. Entrega dos prêmios: 15 de Maio de 2008. Local: Sala da Biblioteca Municipal “de La Cité”. Categoria INFANTIL E JUVENIL: Contos e Crônicas: Tema “INFÂNCIA”. Poesias : tema livre. Categoria ADULTO: Contos e Crônicas: Tema “AQUI E LA, LA E AQUI”. Poesias: tema livre Para maiores informações :
concursoraizes@yahoo.fr ou concursoraizes@yahoo.fr
Telefone : +41 (0)22 349-7074 – Ignez Agra (organizadora)

Fontes
http://www.blocosonline.com.br/literatura/servic/serconc.htm
http://www.falandodetrova.com.br/v5/andamento
http://www.falandodetrova.com.br/v5/concursosvirtuais

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Revista Nova Consciência

O lançamento da revista Nova Consciência, da Editora Universo das Letras, é uma ótima notícia para quem esperava uma publicação desvinculada de religiões, mas com um forte apelo espiritualista e baseada na novíssima ciência idealista.

Física quântica, ética, medicina da alma, aspectos de Gaia, meio ambiente, reencarnacionismo, investigações psíquicas e do Universo, além das mais diversas tendências culturais ganham banho de racionalidade pelas mãos do psicoterapeuta Paulo Urban, coordenador editorial, e do pesquisador e jornalista Paulo Figueiredo, diretor de redação. A revista Nova Consciência agrada com louvor a todos aqueles que buscam um sentido maior no ato de existir. Inspiração e esperança não faltam na linha editorial. Na edição número 2, por exemplo, a revista traz Amit Goswami e a terapia da energia vital, espiritualidade no trabalho, alerta a respeito da contaminação do meio ambiente por pilhas, entrevista com um Xamã dos Andes, a alquimia e a nossa capacidade de voar, entre outras boas pautas.

Prefácio da edição nr. 1 – outubro 2007, por Paulo Urban
Mais do que uma revista, Nova Consciência é porta-voz de todo um movimento planetário, pleno de transformações que já se mostram presentes desde que ingressamos na Era de Aquário. A Nova Consciência anuncia o novo despertar da humanidade.

Verdadeira semente libertária, disposta a abandonar as amarras dos dogmas e das doutrinas, nossa Revista nasce em sintonia com a nova ordem de uma espiritualidade sem rótulos nem fronteiras.

É chegada, pois, a hora dos homens se abraçarem em torno do Planeta.

Bem sabemos que, milenarmente, ao longo de toda a história da civilização, a humanidade vive imersa em lutas e conflitos; sempre há povos e nações digladiando, envolvidos em guerras que se disseminam pelo Planeta. Tecnologicamente, porém, faz apenas meio século que a humanidade alcançou – com a conquista atômica – a possibilidade de extinguir-se a si própria, definitivamente. Basta, para isso, que se apertem os botões certos.

Mas não precisamos esperar que nosso fim sobrevenha de alguma guerra nuclear. Tola ingenuidade a nossa, a de aguardarmos temerosos por alguma catástrofe atômica, enquanto seguimos desrespeitando o ambiente com nossa estupidez cotidiana, sangrando a Terra, secando nossa água, extinguindo recursos naturais e provocando um cada vez maior efeito estufa.
Vale lembrar: em termos astronômicos, nossa condição climática é tão resistente quanto uma bolha de sabão. Nessa sua escalada inconseqüente, em pouco tempo a humanidade assistirá de camarote a seu próprio colapso.

Roga um dito popular da antiga tradição andina: “Não herdamos o mundo de nossos pais, senão que o tomamos emprestado de nossos filhos”. É preciso, pois, que, fazendo jus à nossa herança ancestral, estejamos realmente dispostos a abraçar a bandeira da paz e nos alçarmos em direção a estados transcendentes, no intuito de experimentar o amor incondicional, única chance de salvação de nossa espécie.

Especialmente atenta a isso, a Revista Nova Consciência reúne em seu bojo os esforços daqueles que desejam construir uma humanidade melhor, capaz de compartilhar de um mundo viável e socialmente mais justo. O que parece ser mera utopia, em verdade se encontra bem aqui ao nosso alcance; afinal, tudo o que fazemos à Terra, fazemos a nós mesmos, e nossas crianças colherão esses frutos.

O primeiro passo a ser dado em direção à cura planetária é muito simples: basta que acreditemos nela. Em seguida, é preciso realmente desejá-la, e agir para que esta cura se opere, tanto em nosso próprio nome como em benefício de nossos filhos. Se a Terra está enferma, é porque a humanidade obviamente adoeceu primeiro. E, decididamente, não é justo que as gerações vindouras sobrevivam apenas para pagar a conta deste nosso comportamento desmedido, desta arrogância própria do século XX, quando o ser humano, no afã de sua competitividade espúria, na insanidade de sua ganância econômica, resolveu desafiar a natureza.
Mas Nova Consciência nada tem a ver com as correntes messiânicas que prometem melhores tempos após o tão temível apocalipse. Não pretendemos salvar o mundo por meio de nenhum ato megalomaníaco; serenamente acreditamos que qualquer transformação maior em benefício do Planeta deva começar, antes de tudo, pelo coração dos homens; justamente aí, no particular templo de cada indivíduo, é que se encontra a matéria-prima a ser transmutada em prol de um mundo melhor e renascido.

Neste sentido, a Revista Nova Consciência assume um caráter alquímico, voltada que está para a paciente edificação de cada um de nós, perseverantemente orando e trabalhando para que o denso chumbo de nossos dias possa ser transmutado em ouro divinal.

Nova Consciência busca ainda a aproximação entre ciência e espiritualidade; propõe alcançar uma síntese possível entre a complexa indagação científica e a sabedoria perene das civilizações ancestrais. Nova Consciência reverencia, pois, as medicinas tradicionais (taoísta, ayurvédica, andina, hipocrática etc, também o saber indígena) bem como todas as culturas arcaicas que souberam enxergar nos ciclos da vida a dança da harmonia, concebendo a saúde como um estado de comunhão entre o homem e o Universo.

Nova Consciência é ainda uma Revista fundamentada no saber esotérico, particularmente centrada no saber iniciático das Antigas Escolas de Mistério e escorada na trípode do Hermetismo clássico, a compreender as assim chamadas ciências proibidas: magia, astrologia e alquimia. Resgata as grandes Tradições espirituais (Gnose, Cabala, Hinduísmo, Taoísmo, Xamanismo etc…) e valoriza os Evangelhos apócrifos, fontes de conhecimento capazes de provocar profundas reviravoltas nos milenares dogmas da cristandade.

Como todo movimento libertário, Nova Consciência descarta o ultrapassado para dar lugar ao novo. Entende a física contemporânea como um Universo inteiro de possibilidades vislumbrado além da tridimensionalidade da mecânica de Newton; considera os arquétipos de Jung como uma transcendência psíquica muito além do restrito mundo psicológico tateado pela psicanálise de Freud.

Enfim, Nova Consciência prefere a beleza dos paradoxos à ilusão de nossas mais arraigadas certezas. Afinal, quem somos nós? O que fazemos neste mundo? Para onde vamos?Enquanto essas milenares questões prevalecem sobre toda e qualquer especulação humana, a Nova Consciência se deleita em expressar-se, sobretudo, pelas artes. Estas sim, sempre à frente de seu tempo, fazem ressoar com ousadia os clarins que anunciam a chegada das épocas, o advento de novas transcendentais percepções. Só as artes sabem soprar ao intelecto dos homens aquilo que seu coração já intuiu estar por trás dos véus dos mistérios.

Afinal, as artes expressam antecipadamente aquilo que a História ou a ciência só encontrarão mais tarde; são as artes que nos guiam rumo às novas constelações, em direção a uma sempre Nova Consciência.

Vivemos, pois, à entrada deste Terceiro Milênio o momento cósmico mais crucial de toda a História da humanidade. Podemos hoje tanto explodir a Terra várias vezes como garantir sua cura e a sobrevivência de todos os que nela habitam. E tudo se resume a uma simples questão de escolha, também a uma complexa questão de compromisso. Está exclusivamente em nossas mãos a chance de entregarmos um mundo realmente melhor às gerações seguintes.

Se você já sentiu dentro de seu coração chamado semelhante, é porque deve estar em sintonia com este movimento. A Nova Consciência pede passagem, ela se constela em toda a Via Láctea e atravessa nosso chackra cardíaco, acrescentando Luz às estrelas e mais Amor ao coração dos homens, como previu o visionário poeta Fernando Pessoa.

E longe dos caprichos do acaso, se você está lendo este release, talvez seja porque já entendeu que está na hora de mudar, de ajudar a humanidade a evoluir rumo ao despertar de uma Nova Consciência!
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Nova Consciência tem Paulo Urban, médico psiquiatra e psicoterapeuta do Encantamento, como seu editor-chefe. Nova Consciência é uma publicação mensal da Editora Universo das Letras, com distribuição por todo o Território Nacional.

Assinaturas podem ser feitas em (11) 3879-3838 ou assinatura@novaconsciencia.com

Fontes:

URBAN, Paulo. Rumo à Nova Consciência. In: Revista Nova Consciência. São Paulo: Editora Universo das Letras. no 1. Outubro 2007, p.5.
http://www.amigodaalma.com.br/

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Estante de Livros (Folha Explica Vinicius de Moraes)

Livro retrata modernidade da obra de Vinicius de Moraes
A obra sobre Vinicius, assinada pelo também poeta Eucanaã Ferraz, busca abranger com equilíbrio a poesia escrita e a poesia cantada, formadas pelas letras de música vinicianas.
Clássicos como “O Dia da Criação” e “A Bomba Atômica” são observados a partir das relações entre seus jogos internos, suas faturas e seus sentidos, em interpretações objetivamente elucidadoras de seus mistérios. O mesmo se dá na detida exegese que ganham os versos que fizeram de Vinicius o maior sonetista brasileiro do século 20.
Eucanaã Ferraz, poeta e professor de literatura da UFRJ, lista ainda discografia e bibliografia do grande poeta e das parceria com Tom Jobim, com quem criou alguns clássicos da bossa-nova, e com Baden Powell, com quem criou os afro-sambas.
Eucanaã Ferraz é autor de “Martelo” (1997), “Desassombro” (2002), “Rua do Mundo” (2004), entre outros livros de poesia. Organizou “Letra Só”, livro de letras de Caetano Veloso (2002), e “Poesia Completa e Prosa”, de Vinicius de Moraes (2003).
“Folha Explica Vinicius de Moraes”
Autor: Eucanaã Ferraz
Editora: Publifolha
Páginas: 114
Quanto: R$ 17,90
Onde comprar: nas principais livrarias, pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Publifolha
Vinicius de Moraes (1913-80) é o caso típico do artista que, ao longo do tempo, foi sendo sobreposto à própria obra. Fala-se muito do poeta, mas lê-se insuficientemente sua poesia; sabemos de cor alguns de seus versos antológicos, mas não raro estancamos ali, sem seguir adiante, ou, se avançamos com a atenção devida, nem sempre nos arriscamos em textos menos consagrados; ao ouvir suas canções, somos tomados por uma tal beleza que nos parece desnecessário pensar sobre elas; repetimos uma série de opiniões de tal modo cristalizadas que parecem prescindir do confronto com a apreciação crítica da obra.
Acumulam-se casos sobre o personagem e, nesse sentido, Vinicius de Moraes é um poeta sob muitas histórias. Assim, chegar até ele exige atravessar a densa camada de narrativas que acabou por constituir uma espécie de mitologia: o homem e suas emoções desenfreadas, os muitos casamentos, os numerosos amigos, a boemia, seu desprendimento, seu romantismo, seus diminutivos carinhosos, seu desprezo pela gravata e por toda formalidade. Há os que se comovem e aderem ao mito; há os que o rejeitam. É necessário, no entanto, muito mais que isso.
Sem grande esforço, podemos considerar que tal mitologia resulta simplesmente da popularidade de Vinicius, e que esta é menos uma conseqüência de seu trabalho como poeta que o resultado de sua atuação como letrista. Em grande medida, a avaliação está correta. Valeria a pena observar, porém, que a popularidade foi o resultado excelente de um projeto interno da obra de Vinicius, que refez o curso inicial de sua poesia –marcada por certo isolamento aristocrático de ordem intelectual e moral– em direção a uma abertura afetiva e estética, próxima de seu tempo e de sua verdadeira inclinação para o diálogo.
Observando-se algumas opções dessa poesia já madura e decididamente moderna, e situando-a no quadro mais amplo da modernidade, concluímos que a poética de Vinicius preza mais a clareza que o hermetismo; não há uma busca pela inovação formal ininterrupta, mas a incorporação de formas e temas caros à tradição lírica ocidental; a fuga da realidade convive com o apreço pela experiência comum; o distanciamento da língua usual não impede, como contrapartida, a absorção de traços coloquiais, do vocabulário e da sintaxe correntes.
Seria um engano, porém, inferir que tais escolhas redundam num simples pacto de reconhecimento com o leitor, como se nos poemas nos assegurássemos do já sabido; ao contrário, a palavra de Vinicius instala um necessário processo de singularização das coisas, do tempo, do espaço, dos afetos, exigindo, por isso, uma percepção aguda e demorada. Mas também é certo que essa palavra, tanto no poema quanto na canção, reinstala o mundo de modo tão generoso e acolhedor que logo nos abrigamos nele, sem nos darmos conta, por vezes, de que estamos dentro de uma invenção, de uma linguagem para sempre nova, na qual predominam a imaginação e a transformação. E, de fato, corremos o risco de fruir apenas o que na paisagem nos parece confortável, sem atentar para o que ali é estranhamento, novidade, construção. Este risco, porém, é a conseqüência, ainda que não pretendida, de uma série de fatores e opções que alcançaram o seu ponto máximo de realização. Poetas que fizeram escolhas opostas às de Vinicius e chegaram à excelência ambicionada correram outros riscos. Enfim, toda leitura exige que se desconfie da comodidade.
Se o encaminhamento para a canção popular não era previsível, foi, no mínimo, bastante coerente com a atuação artística e intelectual de Vinicius de Moraes. E se a partir daí tudo se converteria em popularidade, sua figura tornou-se mais complexa, na medida em que frustrava expectativas, desmontava hierarquias socioculturais e fundia estratos diferenciados da cultura. A bossa nova e seus desdobramentos não tardariam, no entanto, a ratificar o alcance das escolhas de Vinicius, tendo em vista o quanto a canção popular incorporaria uma inteligência sofisticada, em diálogo com as experiências antes restritas à literatura. Hoje, quando avaliamos em conjunto a música brasileira e acumulamos um número expressivo de trabalhos críticos e teóricos voltados para a sua compreensão, praticamente perdemos de vista o destemor do poeta ao se converter em letrista e os juízos que despertou então.
A popularidade do compositor-cantor deve-se ainda, é preciso acrescentar, à sua presença em shows e nos meios de comunicação de massa, sobretudo nos anos 70. À época, quando a chamada MPB esteve intimamente associada ao movimento estudantil –alvos permanentes da vigilância dos órgãos de repressão da ditadura militar– Vinicius, ao lado de seu parceiro Toquinho, lotava os auditórios universitários. Boates, cervejarias e casas de espetáculo nacionais e internacionais também faziam parte do circuito da dupla, que instaurava, em meio às sombras daqueles tempos, um rastro de liberdade e alegria por onde passasse.
Este breve livro tenta uma visão equilibrada, focalizando a palavra do poeta nos poemas (capítulo 1) e nas canções (capítulo 2). No primeiro caso, abrindo mão de quadros amplos, fases, influências, vão-se examinar determinadas constantes e/ou variantes temáticas e formais, privilegiando-se a leitura de poemas. No segundo, a atenção estará voltada para determinados traços caracterizadores do cancioneiro de Vinicius, com destaque para os momentos que solidificaram sua prática composicional. A abordagem interpretativa privilegia, desse modo, pequenos sinais, elementos mínimos nos quais esperamos reconhecer alguns marcos de entrada na vasta obra de Vinicius. O convite, afinal, foi ele próprio quem nos fez, a todos, em “Poética (II)”: “Entrai, irmãos meus!”.

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O CONTO

A origem
O conto é a forma narrativa, em prosa, de menor extensão (no sentido estrito de tamanho), ainda que contenha os mesmos componentes do romance. Entre suas principais características, estão a concisão, a precisão, a densidade, a unidade de efeito ou impressão total – da qual falava Poe (1809-1849) e Tchekov (1860-1904): o conto precisa causar um efeito singular no leitor; muita excitação e emotividade. Podemos imaginar – precariamente, diga-se – várias fases do conto. Tais fases nada têm a ver com aquelas estudadas por Vladimir Propp no livro A morfologia do conto maravilhoso, no qual, para descrever o conto, Propp o desmonta e o classifica em unidades estruturais – constantes, variantes, sistemas, fontes, funções, assuntos etc. Além disso, ele fala de uma primeira fase (religiosa) e uma segunda fase (da história do conto). Aqui, quando falamos em fases, temos a intenção de apenas darmos um passeio pela linha evolutiva do gênero.

Logicamente a primeira fase é a oral, a qual não é possível precisar o seu início: o conto se origina num tempo em que nem sequer existia a escrita; as histórias eram narradas oralmente ao redor das fogueiras das habitações dos povos primitivos – geralmente à noite. Por isso o suspense, o fantástico, que o caracterizou originalmente.

A primeira fase escrita é provavelmente aquela em que os egípcios registraram O livro do mágico (cerca de 4000 a.C.). Daí vamos passando pela Bíblia – veja-se como a história de Caim e Abel (2000 a.C.) tem a precisa estrutura de um conto. O velho e novo testamento trazem muitas outras histórias com a estrutura do conto, como os episódios de José e seus irmãos, de Sansão, de Ruth, de Suzana, de Judith, Salomé; as parábolas: o bom samaritano, o filho pródigo, a figueira estéril, a do semeador, entre outras.

No século VI a.C. temos a Ilíada e a Odisséia, de Homero e na literatura Hindu há o Pantchatantra (século II a.C?). De um modo geral, Luciano de Samosata (125-192), é considerado o primeiro grande nome da história do conto. Ele escreveu O cínico, O asno etc. Da mesmo época é Lucio Apuleyo (125-180), que escreveu O asno de ouro. Outro nome importante é o de Caio Petrônio (século I), autor de Satiricon, livro que continua sendo reeditado até hoje. As mil e uma noites aparecem na Pérsia no século X da era cristã.

A segunda fase escrita começa por volta do século XIV, quando registram-se as primeiras preocupações estéticas. Giovanni Boccaccio (1313-1375) aparece com seu Decameron, que se tornou um clássico e lançou as bases do conto tal como o conhecemos hoje, além de ter influenciado gente como Shakespeare, Molière, Hans Sachs, Lope de Vega, Chaucer, Perrault, La Fontaine, entre outros. Miguel de Cervantes (1547-1616) escreve as Novelas exemplares. Francisco Gómez de Quevedo y Villegas (1580-1645) traz “Os sonhos”, satirizando a sociedade da época. Os Contos de Canterbury, de Geoffrey Chaucer (1340?-1400) são publicados por volta de 1700. Charles Perrault (1628-1703) publica O barba azul, O gato de botas, Cinderela, O soldadinho de chumbo etc. Jean de La Fontaine (1621-1695) é o contador de fábulas por excelência: A cigarra e a formiga, A tartaruga e a lebre, A raposa e as uvas etc.

No século XVIII o mestre foi Voltaire (1694-1778). Ele escreveu obras importantes como Zadig e Cândido.

Chegando ao século XIX o conto “decola” através da imprensa escrita, toma força e se moderniza. Washington Irving (1783-1859) é o primeiro contista norte-americano de importância. Os irmãos Grimm (Jacob, 1785-1863 e Wilhelm, 1786-1859) publicam Branca de Neve, Rapunzel, O Gato de Botas, A Bela Adormecida, O Pequeno Polegar, Chapeuzinho Vermelho etc. Os Grimm recontam contos que já haviam sido contados por Perrault, por exemplo. Eles foram tão importantes para o gênero que André Jolles diz que “o conto só adotou verdadeiramente o sentido de forma literária determinada, no momento em que os irmãos Grimm deram a uma coletânea de narrativas o título de Contos para crianças e famílias”, (“O conto” in Formas simples).

O século XIX foi pródigo em mestres: Nathaniel Hawthorne (1804-1864), Poe, Maupassant (1850-1893), Flaubert (1821-1880), Tchecov, Machado de Assis (1839-1908), Conan Doyle (1859-1930), Balzac, Stendhal, Eça de Queirós, Aluízio Azevedo. Não podemos esquecer de nomes como: Hoffman (um dos pais do conto fantástico, que viria influenciar Poe, Machado de Assis, Álvaro de Azevedo e outros), Sade, Adalbert von Chamisso, Nerval, Gogol, Dickens, Turguenev, Stevenson, Kipling, entre outros e outros e outros.

Preconceitos
Mesmo com tanta história para contar, o conto continua sendo alvo de preconceitos, chegando ao ponto de algumas editoras terem como política não publicar o gênero. É uma questão de mercado? O conto não vende? E, se não vende, quais os motivos? Sua excessiva banalização através de revistas e jornais? Ou a falsa idéia de que seria uma literatura fácil, secundária, menor?

Veja o que pensa Mempo Giardinelli: “Sustento sempre que o conto é o gênero literário mais moderno e que maior vitalidade possui, pela simples razão que as pessoas jamais deixarão de contar o que se passa, nem de interessar-se pelo que lhes contam bem contado”. “Comecei escrevendo contos, mas me vi forçado a mudar de rumo por pedidos de editores que queriam romances. Mas, cada vez que me vejo livre dessas pressões editoriais, volto ao conto… porque, em literatura, o que me deixa realmente satisfeito é escrever um conto” (René Avilés Fabila em Assim se escreve um conto).

Maupassant dizia que escrever contos era mais difícil do que escrever romances. Ele escreveu cerca de 300 contos e, segundo se diz, ficou rico com eles. Machado de Assis também não achava fácil escrever contos: “É gênero difícil, a despeito de sua aparente facilidade”, (citado por Nádia Battella Gotlib em Teoria do Conto). Faulkner (1897-1962) pensava da mesma maneira: “…quando seriamente explorada, a história curta é a mais difícil e a mais disciplinada forma de escrever prosa… Num romance, pode o escritor ser mais descuidado e deixar escórias e superfluidades, que seriam descartáveis. Mas num conto… quase todas as palavras devem estar em seus lugares exatos”, (citado por R. Magalhães Júnior em A arte do conto).
Numa entrevista ao jornal Folha de S. Paulo (de 4 de fevereiro de 1996, página 5-11), Moacyr Scliar (1937), mais conhecido como romancista do que como contista, revela sua preferência pelo conto: “Eu valorizo mais o conto como forma literária. Em termos de criação, o conto exige muito mais do que o romance… Eu me lembro de vários romances em que pulei pedaços, trechos muito chatos. Já o conto não tem meio termo, ou é bom ou é ruim. É um desafio fantástico. As limitações do conto estão associadas ao fato de ser um gênero curto, que as pessoas ligam a uma idéia de facilidade; é por isso que todo escritor começa contista”.

“Penso que, não por casualidade, a nossa época (anos 80) é a época do conto, do romance breve”, diz Italo Calvino (1923-1985) em Por que ler os clássicos. Num artigo sobre Borges (1899-1986), Calvino disse que lendo Borges veio-lhe muitas vezes a tentação de formular uma poética do escrever breve, louvando suas vantagens em relação ao escrever longo. “A última grande invenção de um gênero literário a que assistimos foi levada a efeito por um mestre da escrita breve, Jorge Luis Borges, que se inventou a si mesmo como narrador, um ovo de Colombo que lhe permitiu superar o bloqueio que lhe impedia, por volta dos 40 anos, passar da prosa ensaística à prosa narrativa.” (Italo Calvino, Seis propostas para o próximo milênio).
No decurso de uma vida devotada principalmente aos livros, tenho lido poucos romances e, na maioria dos casos, apenas o senso do dever me deu forças para abrir caminho até a última página. Ao mesmo tempo, sempre fui um leitor e releitor de contos… A impressão de que grandes romances como Dom Quixote e Huckleberry Finn são virtualmente amorfos, serviu para reforçar meu gosto pela forma do conto, cujos elementos indispensáveis são economia e um começo, meio e fim claramente determinados. Como escritor, todavia, pensei durante anos que o conto estava acima de meus poderes e foi só depois de uma longa e indireta série de tímidas experiências narrativas que tomei assento para escrever estórias propriamente ditas.” (Jorge Luis Borges, Elogio da sombra/Perfis – Um ensaio autobiográfico).

Espaço/Tempo
Está evidente a identificação do conto com a falta de tempo dos habitantes dos grandes centros urbanos, com a industrialização. Afinal, foi graças à imprensa escrita, que o gênero se popularizou no Brasil, no século XIX: os grandes jornais sempre davam espaço ao conto. Antônio Hohlfeldt em Conto brasileiro contemporâneo, diz que “pode-se verificar que, na evolução do conto, há uma relação entre a revolução tecnológica e a técnica do conto”.

Na introdução de Maravilhas do conto universal, Edgard Cavalheiro diz: “A autonomia do conto, seu êxito social, o experimentalismo exercido sobre ele, deram ao gênero grande realce na literatura, destaque esse favorecido pela facilidade de circulação em diferentes órgãos da imprensa periódica. Creio que o sucesso do conto nos últimos tempos (anos 60 e 70) deve ser atribuído, em parte, à expansão da imprensa”.

Além de criar o mercado de consumo e a necessidade de alfabetização em massa, a industrialização também criou a necessidade de informações sintéticas. No século passado essas informações vinham do jornalismo e do livro; neste século vêm do cinema, rádio e televisão. Assim, no seu início, o conto pegou uma carona na imprensa escrita; agora não tem mais esse espaço. Será que o conto se adaptará às novas tecnologias? TV, Internet etc?
De qualquer forma, no Brasil, o conto surgiu mesmo foi através da imprensa em meados do século XIX. Por isso, naquela época, quase todos os contistas eram jornalistas. E não foi só no Brasil que isso ocorreu.

Essa tecnologia é, também, em parte, culpada pelo preconceito em relação ao gênero. “A linha normativa gera uma série de manuais que prescrevem como escrever contos. E a revista popular propícia uma comercialização gradativa do gênero. Tais fatos são tidos como responsáveis pela degradação técnica e pela formação de estereótipos de contos que, na era industrializada do capitalismo americano, passa a ser arte padronizada, impessoal, uniformizada, de produção veloz e barata. Tais preocupações provocam, por sua vez, um movimento de diferenciação entre o conto comercial e o conto literário. Daí talvez tenha surgido o preconceito contra o conto…” (Nádia Battella Gotlib, op. cit.).

Esse fenômeno também foi notado no Brasil no início dos anos 70. As influências exercidas pela imprensa escrita, revistas, TVs, levaram o conto a um ponto de praticamente perder sua “identidade”: sendo “quase tudo”, passou a ser quase “nada”.

Na década de 20 temos os modernistas e o conto agora é essencialmente urbano/suburbano. Eles propuseram a renovação das formas, a ruptura com a linguagem tradicional, a renovação dos meios de expressão etc. Procura-se evitar rebuscamentos na linguagem, a narrativa é mais objetiva, a frase torna-se mais curta e a comunicação mais breve.

Nesta mesma linha, Poe, que também foi o primeiro teórico do gênero, diz: “Temos necessidade de uma literatura curta, concentrada, penetrante, concisa, ao invés de extensa, verbosa, pormenorizada… É um sinal dos tempos… A indicação de uma época na qual o homem é forçado a escolher o curto, o condensado, o resumido, em lugar do volumoso”, (citado por Edgard Cavalheiro na introdução de Maravilhas do conto universal).

Tamanho é documento?
Um dos pontos em que muita gente concorda diz respeito ao tamanho do conto: não deve ser muito longo – pois transformar-se-ia numa novela; nem tão curto – porque corre-se o risco de transformá-lo em anedota. Poe falava de tamanho em termos de tempo de leitura. Para ele o conto ideal ocuparia o leitor entre 30 minutos e duas horas. Que se pudesse, enfim, ler de uma assentada só.

Segundo outras defenições, o conto não deve ocupar mais de 7.500 palavras. Actualmente entende-se que pode variar entre um mínimo de 1.000 e um máximo de 20.000 palavras.
O romance Vidas secas, Graciliano Ramos (1892-1953), A festa, Ivan Ângelo e alguns romances de Bernardo Guimarães (1825-1884) e Autran Dourado, podem ser lidos como uma série de contos. Também Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba, Machado de Assis, O Processo, Kafka, são constituídos por pequenos contos. São os chamados romances desmontáveis.

Assis Brasil vai mais longe ao afirmar que Grande Sertão: veredas, Guimarães Rosa (1908-1967), é um conto alongado, pois o escritor tê-lo-ia como narrativa curta. O Grande Sertão, como sabemos, tem mais de 500 páginas. Todas essas colocações demonstram como é difícil definir o conto; mesmo assim, quem o conhece, não o confunde com outro gênero.

Neste século podemos incluir entre os grandes: O. Henry, Anatole France, Virgínia Woolf, Katherine Mansfield, Kafka, James Joyce, William Faulkner, Ernest Hemingway, Máximo Gorki, Mário de Andrade, Monteiro Lobato, Aníbal Machado, Alcântara Machado, Guimarães Rosa, Dalton Trevisan, Rubem Fonseca, Osman Lins, Clarice Lispector, Jorge Luís Borges, Lima Barreto.

Outros nomes importantes do conto no Brasil: Julieta Godoy Ladeira, Otto Lara Resende, Manoel Lobato, Sérgio Sant’Anna, Moreira Campos, Ricardo Ramos, Edilberto Coutinho, Breno Accioly, Murilo Rubião, Moacyr Scliar, Péricles Prade, Guido Wilmar Sassi, Samuel Rawet, Domingos Pellegrini Jr, José J. Veiga, Luiz Vilela, Nelson Rodrigues, Sergio Faraco, Victor Giudice, Lygia Fagundes Telles, entre outros. Em Portugal destaca-se, entre outros, Eça de Queirós.

Para um escritor que faz da sua escrita, arte, a trama/o enredo não têm muita importância; o que mais importa é como (forma) contar e não o que (conteúdo) contar. Borges dizia que contamos sempre a mesma fábula. Julio Cortázar (1914-1984) diz que não há temas bons nem temas ruins; há somente um tratamento bom ou ruim para determinado tema. (“Alguns aspectos do conto”, in Valise de cronópio). Claro que há que ter cuidado com o excesso de formalismos para não virar personagem daquela piada: um escritor passou a vida toda trabalhando as formas para criar um estilo perfeito para impressionar o mundo; quando conseguiu alcançá-lo, descobriu que não tinha nada para dizer com ele.

Conteúdo e forma
Forma: expressão ou linguagem; mais os elementos concretos e estruturados, como as palavras e as frases.

Conteúdo: é imaterial (fixado e carregado pela forma); são as personagens, suas ações, a história (ver Céu, inferno, Alfredo Bosi).

Há contos de Machado de Assis, de Katherine Mansfield (1888-1923), de José J. Veiga (1915), de Tchecov, de Clarice Lispector, por exemplo, que não são contáveis, não há nada acontecendo. O essencial está no ar, na atmosfera, na forma de narrar, no estilo. No livro Que é a literatura?, Jean-Paul Sartre (1905-1980) diz que “ninguém é escritor por haver decidido dizer certas coisas, mas por haver decidido dizê-las de determinado modo. E o estilo, decerto, é o que determina o valor da prosa”.

Do que precisa o conto?
Tensão, ritmo, o imprevisto dentro dos parâmetros previstos, unidade, compactação, concisão, conflito, início meio e fim; o passado e o futuro têm significado menor. O flashback pode acontecer, mas só se absolutamente necessário, mesmo assim da forma mais curta possível.

Final enigmático
O final enigmático prevaleceu até Maupassant (fim do século XIX) e era muito importante, pois trazia o desenlace surpreendente (o fechamento com “chave de ouro”, como se dizia). Hoje em dia tem pouca importância; alguns críticos e escritores acham-no perfeitamente dispensável, sinônimo de anacronismo. Mesmo assim não há como negar que o final no conto é sempre mais carregado de tensão do que no romance ou na novela e que um bom final é fundamental no gênero. “Eu diria que o que opera no conto desde o começo é a noção de fim. Tudo chama, tudo convoca a um final” (Antonio Skármeta, Assim se escreve um conto).

Neste gênero, como afirmou Tchecov, é melhor não dizer o suficiente do que dizer demais. Para não dizer demais é melhor, então, sugerir, como se tivesse de haver um certo silêncio entremeando o texto, sustentando a intriga, mantendo a tensão. Não é o que acontece no conto

“A missa do galo”, de Machado de Assis? Especialmente nos diálogos; não exatamente pelo que estes dizem, mas pelo que deixam de dizer.

Ricardo Piglia, comentando alguns contos de Hemingway (1898-1961), diz que o mais importante nunca se conta: “O conto se constrói para fazer aparecer artificialmente algo que estava oculto. Reproduz a busca sempre renovada de uma experiência única que nos permite ver, sob a superfície opaca da vida, uma verdade secreta”, (O laboratório do escritor). Piglia diz que conta uma história como se tivesse contando outra. Como se o escritor estivesse narrando uma história visível, disfarçando, escondendo uma história secreta. “Narrar é como jogar pôquer: todo segredo consiste em fingir que se mente quando se está dizendo a verdade.” (Prisão perpétua). É como se o contista pegasse na mão do leitor é desse a entender que o levaria para um lugar, mas, no fim, leva-o para outro. Talvez por isso, D.H. Lawrence tenha dito que o leitor deve confiar no conto, não no contista. O contista é o terrorista que se finge de diplomata, como diz Alfredo Bosi sobre Machado de Assis (op. cit.).

Segundo Cristina Perí-Rossi, o escritor contemporâneo de contos não narra somente pelo prazer de encadear fatos de uma maneira mais ou menos casual, senão para revelar o que há por trás deles (citada por Mempo Giardinelli, op. cit). Desse ponto de vista a surpresa se produz quando, no fim, a história secreta vem à superfície. No conto a trama é linear, objetiva, pois o conto, ao começar, já está quase no fim e é preciso que o leitor “veja” claramente os acontecimentos. Se no romance o espaço/tempo é móvel, no conto a linearidade é a sua forma narrativa por excelência.

“A intriga completa consiste na passagem de um equilíbrio a outro. A narrativa ideal, a meu ver, começa por uma situação estável que será perturbada por alguma força, resultando num desequilíbrio. Aí entra em ação outra força, inversa, restabelecendo o equilíbrio; sendo este equilíbrio parecido com o primeiro, mas nunca idêntico.” (Gom Jabbar em Hardcore, baseado em Tzvetan Todorov).

Em outras palavras: no geral o conto “se apresenta” com uma ordem. O conflito traz uma desordem e a solução desse conflito (favorável ou não) faz retornar à ordem – agora com ganhos e perdas, portanto essa ordem difere da primeira. “O conto é um problema e uma solução”, diz Enrique Aderson Imbert.

Diálogos (discurso das personagens)
Os diálogos são de suma importância; sem eles não há discórdia, conflito, fundamentais ao gênero. A melhor forma de se informar é através dos diálogos; mesmo no conto em que o ingrediente narrativo seja importante. “A função do diálogo é expor.” (Henry James, 1843-1916). Em alguns escritores o diálogo é uma ferramenta absolutamente indispensável. Caio Porfírio Carneiro, por exemplo, chega ao ponto de escrever contos compostos apenas por diálogos, sem que, em nenhum instante, apareça um narrador. Em 172 páginas de Trapiá, um clássico da década de 60, há apenas seis páginas sem diálogos. Vejamos os tipos de diálogos:
1) – Direto: (discurso direto) as personagens conversam entre si; usam-se os travessões. Além de ser o mais conhecido é, também, predominante no conto.
2) – Indireto: (discurso indireto) quando o escritor resume a fala da personagem em forma narrativa, sem destacá-la. Vamos dizer que a personagem conta como aconteceu o diálogo, quase que reproduzindo-o. Essas duas primeiras formas podem ser observadas no conto “A Missa do Galo”, Machado de Assis.
3) – Indireto livre (discurso indireto livre) é a fusão entre autor e personagem (primeira e terceira pessoa narrativa); o narrador narra, mas no meio da narrativa surgem diálogos indiretos da personagem como que complementando o que disse o narrador. Veja-se o caso de Vidas secas: em certas passagens não sabemos exatamente quem fala – é o narrador (terceira pessoa) ou a consciência de Fabiano (primeira pessoa)? Este tipo de discurso permite expor os pensamentos da personagem sem que o narrador perca seu poder de mediador.
4) – Monólogo interior (ou fluxo de consciência) é o que se passa “dentro” do mundo psíquico da personagem; “falando” consigo mesma; veja algumas passagens de Perto do coração selvagem, de Clarice Lispector. O livro A canção dos loureiros (1887), de Édouard Dujardin é o precursor moderno deste tipo de discurso da personagem. O Lazarillo de Tormes, de autor desconhecido, é considerado o verdadeiro precursor deste tipo de discurso. Em Ulisses, Joyce (inspirado em Dujardin) radicalizou no monólogo interior.

Focos narrativos (ou pontos de vista adotados pelo narrador)
1) – Primeira Pessoa: Personagem principal conta sua história; este narrador limita-se ao saber de si próprio, fala de sua própria vivência. Esta é uma narrativa típica do romance epistolar (século XVIII).
“…Isso aconteceu comigo, implantei todos os dentes da minha boca, um prodígio de engenharia odontológica. Estou cheio de dentes que não caem e nem ficam cariados, mas quando dou uma gargalhada na frente do espelho sinto saudade da minha boca antiga, agora meus lábios se abrem de um modo que eu não gosto.” (“Artes e ofícios”, Rubem Fonseca in O buraco na parede).
2) – Primeira Pessoa: Personagem secundária conta a história da personagem principal
Evidentemente, a convivência com Holmes não era difícil. Tinha hábitos tranqüilos e regulares. Era raro vê-lo em pé depois das dez horas da noite e invariavelmente já preparara seu pequeno almoço e saíra quando eu me levantava da cama.” (“Reimpressão das memórias do Dr. John H. Watson ex-oficial médico do Exército britânico”, Arthur Conan Doyle in Os melhores casos de Sherlock Holmes).

Nas histórias de Sherlock Holmes é Watson quem narra os acontecimentos. Umberto Eco também utiliza dessa artimanha em O nome da rosa.

3) – Terceira Pessoa: Escritor (analítico ou onisciente), conta a história; o narrador tudo sabe sobre a vida das personagens, sobre seus destinos, idéias, pensamentos. Como se narrasse de dentro da cabeça delas. Narrativa típica do romance Clássico (século XIX).
“Ah, somente agora ele via, mas estava completamente atônito, e se sentiu constrangido. Viu também que isso fez com que ela sentisse pena dele, como se a ilusão tivesse sido um erro. Levou algum tempo, todavia, para sentir que não fora um erro, por mais que tivesse sido uma surpresa. Depois daquele pequeno choque, o fato de ela saber, ao contrário, e ainda que fosse estranho, começou a lhe parecer agradável. Era a única outra pessoa no mundo a saber, e ela soubera durante todos aqueles anos, enquanto, para ele, se apagara inexplicavelmente a lembrança de lhe haver transmitido o seu segredo.” (A fera na selva, Henry James).

4) – Terceira pessoa: Escritor conta a história como observador; o narrador limita-se a descrever o que está acontecendo, “falando” do exterior, não nos colocando dentro da cabeça da personagem; assim não sabemos suas emoções, idéias, pensamentos. O narrador apenas descreve o que vê, no mais, especula. Narrativa típica do século XX, influenciada pelo cinema.
“Olhou através da janela. O vento e a paisagem. E o cata-vento, reflexos de espelho, além. Sentou-se, suspirou, deitou os olhos nos pés doridos e metidos nas botas empoeiradas da grande caminhada. O corredor abria-se lá para dentro. Via a ponta da mesa na sala de jantar. E as árvores frondosas, as mesmas, no quintal. Andou um pouco, paredes cobertas de retratos…” (“A ceia”, Caio Porfírio Carneiro in Os dedos e os dados).

Nos casos 1 e 2, o narrador funciona como personagem da história. Nos casos 3 e 4, ele se coloca fora dos acontecimentos, como observador.

Afinal, o que é o conto?
(A pergunta sem resposta ou com várias respostas)
Conto é a designação que damos à forma narrativa de menor extensão e que se diferencia do romance e da novela não só pelo seu tamanho, mas também por possuir características estruturais próprias. Ele possui os mesmos componentes do romance, mas evita análises, complicações do enredo e o tempo e o espaço são muito bem delimitados. O conto é uma narrativa linear, que não se aprofunda no estudo da psicologia das personagens nem nas motivações de suas ações. O conto é uma narrativa breve; desenrolando um só incidente predominante e um só personagem principal, contém um só assunto cujos detalhes são tão comprimidos e o conjunto do tratamento tão organizado, que produzem uma só impressão.

“Conselhos” para se escrever um bom conto
1) – Prender o interesse do leitor; evitar ser chato. Pense em Aristóteles, para quem a catarse, enquanto experiência vivida pelo espectador ou ouvinte, é condição fundamental para definir a qualidade de uma obra.
2) – Usar, se possível, frases curtas. A clareza vem do cuidado com a estruturação da frase: as intercalações excessivas prejudicam a compreensão da idéia. Pense em Barthes: “A narrativa é uma grande frase, como toda a frase constitutiva é, de certa forma, o esboço de uma pequena narrativa”, (Introdução à análise da narrativa).
3) – Capítulos e parágrafos curtos, para o leitor poder respirar. Evitar muitas personagens, descrições longas, rebuscamentos, adjetivações, clichês, repetir palavras.
4) – Trama/enredo/tema ou estilo, original. Pense em Ricardo Piglia: “Pode-se programar a trama, os personagens, as situações, conhecer o desenlace e o começo, mas o tom em que se vai contar a história é obra de inspiração. Nisso consiste o talento de um narrador”, (O laboratório do escritor).
5) – Se possível usar ironia, humor, graça e ser verossímil. Ser verossímil é importante, mas não devemos confundir verossimilhança com verdade; a história não tem de ser obrigatoriamente verdadeira, mas parecer que o é. Mesmo assim sua importância é discutível. Segundo Álvaro Lins, Graciliano Ramos tem como “defeito” justamente a inverossimilhança que, de acordo com o crítico, é mais “visível” em Vidas secas e São Bernardo, dois clássicos insuspeitos. No Vidas secas esse “defeito” estaria no discurso das personagens (discurso indireto livre), pois tal recurso teria provocado um excesso de introspecção das personagens, tão rústicas e primárias (até Baleia, a cadela do romance, tem seu “monólogo interior”). No São Bernardo o “problema” estaria no fato de um homem rústico, como Paulo Honório, construir uma narrativa tão perfeita em termos literários. Conta-se que uma vez Matisse mostrou a uma senhora um quadro em que havia pintado uma mulher nua; sua visitante retrucou: “Mas uma mulher nua não é assim”. E Matisse: “Não é uma mulher, minha senhora, é uma pintura”. Será que na sua análise em busca do perfeito, Álvaro Lins (que tinha Graciliano em alta conta) não teria percebido que Paulo Honório não é um homem, mas uma pintura?
6) – Ler, de preferência os clássicos. Não se é escritor sem ser leitor. Pense em Sartre: “Mas a operação de escrever implica a de ler… e esses dois atos conexos necessitam de dois agentes distintos. É o esforço conjugado do autor com o leitor que fará surgir esse objeto concreto e imaginário que é a obra do espírito”. (op. cit.) Pense também em Faulkner: ler, ler, ler, ler, ler… Em Escritores em ação, Georges de Simenon (1903-1989) dá a “fórmula” para se escrever uma boa prosa: “Corte tudo que for literário demais; adjetivos e advérbios e todas as palavras que estão lá só para causar efeito. Escrever é cortar. Escrever não é uma profissão, mas uma vocação para a infelicidade”. Estes conselhos são tão válidos quanto inválidos: “A maioria das regras e conselhos estão errados… nenhum contista novo deve dar a menor atenção aos princípios que os outros adotam. Pois que estes, ao deitarem tais regras, querem antes de tudo proteger a si próprios. É melhor mandá-los todos para o inferno”, (R. Magalhães Júnior, citando Pizarro Drumond, op. cit.).

Fonte: pt.wikipedia.com

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André Carneiro (Poesias)

MORO NA CARAVELA

Meu pai implantou
a ânsia das tarefas.
Acordo no tabuleiro pronto,
jogo contra o tempo.
Meu céu é vidro,
moro na caravela
no bojo da garrafa.
A mais de cem mil quilômetros por hora
viajo na cabine deste planeta
na mesma órbita.
0 fato sólido é vago
no cinema dos olhos.
Nazista dorme de farda,
um prisioneiro planeja,
o cogumelo gigante
calcinou lembranças eternas.
Verso deixa rastro,
anoto estratégias,
bebo absinto,
nem toco em asas douradas
dos besouros mexicanos.
0 amor é molhado,
as despedidas, secas.
Rejeições me matam,
mutante desesperado,
lambo escamas da sereia aflita
neste quarto.
No deserto, a formiga
prega a verdade para
um cristal de areia.
Procuro o sonho úmido
no púbis da memória,
acendo a pólvora das letras,
vôo em estilhaços no poema.

BARATAS SOBREVIVENTES

Invento a máquina
para trocar almas.
Você será eu
que serei você,
provisoriamente.
As circunvoluções
do seu labirinto cinzento,
sentirei “in loco”.
Serei absurdo com seus olhos meus,
você saberá porque me impaciento
com sua mente arbitrária.
Talvez o gratuito me fascine
e a lógica seja apenas palavras.
A minha será sua voz,
serei o outro lado
e o sol sofrerá impávido
até o resfriamento total,
exatamente dez bilhões de anos
no calendário romano,
quando as baratas sobreviventes
estarão contentes
em outros diálogos.

INTERVALOS
Há intervalo entre pulmão cheio e ar expulso.
Há intervalo quando pisco,
o mundo desaparece e renasce
em centésimo de segundo.
No relógio, repito itinerários,
volto na mesma cama mas não sou o mesmo.
Fabrico dez milhões de células diárias,
cada centímetro quadrado de minha carne
já não é aquela na sua carne.
Grãos de areia mudam a praia,
enquanto durmo, folhas novas
crescem com o vento da madrugada,
corações batendo pintam novos cenários.
Há um intervalo depois do orgasmo.
Paro nesta linha e penso,
de ato em ato, sou mais feito de intervalos
do que fatos na cotidiana engrenagem.
Nem parar o pensamento consigo.
faço versos como um cego,
apalpando abaixo da pele,
você nua, a dobrar roupas na cadeira,
enquanto o planeta (seio azul de água),
gira desesperado no cósmico intervalo
de um deus inexplicável.

Fonte: http://www.amigodaalma.com.br/

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André Carneiro

Biografia
André Carneiro considera a poesia sua principal atividade, entretanto, dotado de uma capacidade artística plenamente desenvolta, dedica-se à criação em várias artes.

Cineasta, criou e dirigiu filmes de pesquisa artística, premiados aqui e no exterior. Roteirista, foi premiado no Concurso Nacional para Roteiros, no Quarto Centenário de São Paulo. Seu filme Solidão representou o Brasil no Concurso Internacional para Filmes Artísticos, sendo premiado na Inglaterra em 1952,e exibido na França e Itália.

Seu conto O Mudo foi transformado em filme de longa metragem, dirigido por Júlio Xavier da Silveira em produção da Embrafilme.
Atuou no cinema publicitário dirigindo curtas metragens e comerciais na televisão.

Fotógrafo artístico, participou de vários salões nacionais e internacionais, tendo sido premiado no Brasil, Holanda e Itália.

Pintor e escultor, inovou a arte expondo seus trabalhos aos quais denomina “pintura dinâmica”, técnica na qual se vale de líquidos químicos imiscíveis ou não que tomam várias formas em compartimentos transparentes justapostos.
Também realizou exposições de “Poesia Colagem”, técnica com a qual criou capas de livros de vários autores.

Jornalista, foi editor e criador do conceituado jornal literário TENTATIVA, 1949, apresentado por Oswald de Andrade, para o qual colaboraram, na época, os maiores escritores nacionais, como Sérgio Milliet, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Vinícius de Morais e outros.

Como contista e romancista alcançou repercussão mundial. “André Carneiro deu o salto internacional,” afirmou o crítico Fausto Cunha. É o único escritor brasileiro de “science-fiction” traduzido na Espanha, Argentina, França, Inglaterra, Alemanha, Bélgica, ltália, Bulgária, Suécia, Japão etc. Considerado mestre internacional do gênero, foi destaque da importante editora norte-americana Putnam na antologia The Definitive Year’s Best Selection, de 1973, que editou os melhores contos de Ficção Científica do Mundo. Também tem seus contos publicados numa antologia universitária americana ao lado de nomes como Solzhenitsyn, Rafael Alberti, Gabriela Mistral, Anton Chekhov, Behold Brecht, Tagore, D.H. Lawrence, Jacques Prévert, Cisneiros, Huxley, etc.

Seu romance Piscina Livre, 1980, traduzido na Suécia, alcançou sucesso critico. A.E. Van Vogt (USA) o comparou a Kafka e Albert Camus. A Dictionary of Contemporary Brazilian Authors afirma que André escreve “a mais original F. C. do Brasil”. Também o crítico espanhol Augusto Uribe o considera o melhor autor em literatura fantástica da América Latina. Daniel Barbieri (Argentina) o cita como “o mais destacado escritor latino-americano do gênero”. Dinah Silveira de Queiroz o trata por “nosso mestre da F.C.”, e Carlos Drummond de Andrade afirmou que, “em Piscina Livre, André exercita de maneira brilhante a originalidade de ficcionista”.

Seu nome consta como verbete de enciclopédias nacionais e estrangeiras. É o único membro na América do Sul do Science Fiction & Fantasy Writers of América, entidade profissional de escritores americanos.

Estreou na poesia com o livro Ângulo & Face, 1949, editado por Cassiano Ricardo, que afirmou: “seu poder de comunicação chega a ser contundente, fere mais do que a sensibilidade à flor da pele”. Esse primeiro livro, assim como os demais, sempre são recebidos com elogios de toda a crítica brasileira. José Geraldo Vieira destacou que “somente alguns dos seus poemas já bastariam para o inserir entre as melhores expressões do modernismo”. Otto Maria Carpeaux destaca “os versos comoventes de Ângulo e Face”.

Em Portugal, A. Garibaldi afirma que André é “um dos grandes nomes da lírica brasileira”.

Ferreira Gullar lamenta que “a poesia sóbria e humana de André Carneiro passe despercebida do grande público: seus poemas são construídos arquiteturalmente, num equilíbrio de verbalismo e emoção”. “Poesia autêntica, sem ornatos inúteis, direta e bela” na opinião de Pascoal Carlos Magno. Lígia Fagundes Teles declarou: “Temos um verdadeiro poeta pela frente”. Cristovam Pavia, conhecido poeta português, considerou a poesia de A.C. “de originalidade admirável, profunda e madura”. Roger Bastide disse: “amei a pureza e o senso de escolha das imagens e seu valor no conjunto, confirmando o que Sérgio Milliet já me havia falado”. Carlos Drummond de Andrade, noutra oportunidade, reiterou que a poesia de André Carneiro “transfigura as coisas cotidianas”.

“Uma continuidade modelar do Modernismo numa renovada e luminosa expressão”, escreveu Oswald de Andrade.

André Carneiro é um dos dois maiores poetas vivos brasileiros, segundo Bernard Lorraine, poeta e critico francês.

Ganhou inúmeros prêmios nacionais como o Machado de Assis, do Estado da Guanabara, Melhor Livro do Ano,da Câmara Municipal de São Paulo, Prêmio Alphonsus de Guimaraens, em 1966,da Academia Mineira de Letras,e o Prêmio Nacional Nestlé, 1988,com o livro Pássaros Florescem, ed.Scipione.

Sua obra poética foi estudada durante anos pelo Prof. de Literatura da UNESP, Osvaldo C. Duarte,como motivo de sua dissertação de Mestrado O Estilo de André Carneiro,aprovada com nota máxima e louvor em 1996.O Prof. Duarte ainda escreveu o ensaio A Ciência na Obra Poética de André Carneiro(2001).

André sempre trabalhou com a hipnose,publicou livros a respeito do tema e participou dos primeiros Congressos Internacionais de Parapsicologia apresentando trabalhos nesta área, sendo considerado autoridade no assunto.

Críticos americanos, espanhóis e argentinos o classificam como o melhor autor de conto fantástico da América Latina. &A.E. Van Vogt, escreveu que ele “merece a mesma importância de um Kafka ou um Camus”. Ganhou vários prêmios com seus livros de poemas e prosa. Único membro da América do Sul do Science Fiction & Fantasy Writers of America. O crítico francês &Bernard Diez o considera o maior poeta vivo brasileiro. Foram escritas diversas teses acadêmicas de mestrado e doutorado sobre sua obra poética e sua prosa. André Carneiro escreveu também ensaios sobre Literatura e Hipnose Clínica. Vendeu recentemente para a Espanha os direitos para um filme do seu conto “Escuridão”, publicado nos EUA em antologia ao lado de ganhadores do Nobel de Literatura. Ao lado de Machado de Assis, Drummond, &Aluisio Azevedo etc, em Antologia no Brasil, editora Casa da Palavra, Rio. A Imprensa Oficial do Estado de São Paulo acaba de publicar uma coleção facsimilada do seu jornal Literário “Tentativa”, com titulo desenhado por Aldemir Martins e “Apresentação de Oswald de Andrade”.

Atualmente exerce, além da arte, sua atividade de Analista em Curitiba,PR.

Contatos com o André:
andrecarneiro77@hotmail.com ou no site http://www.amigodaalma.com.br

Livros Publicados
Ângulo & Face – poesia – Edart – SP – 1949
Diário da Nave Perdida – contos – Edart – SP – 1963
Espaçopleno – poesia – Clube de Poesia – SP – 1963
O Homem que Adivinhava – contos – Edart – SP – 1966
O Mundo Misterioso do Hipnotismo – ensaio – Edart – SP – 1963
Introdução ao Estudo da Ficção Científica – ensaio – Conselho Estadual de Cultura – SP -1967
Manual de Hipnose – ensaio – Ed. Resenha Universitária – SP – 1978
Piscina Livre – romance – Editora Moderna – SP – 1980
Pássaros Florescem – poesia – Ed. Scipione – SP – 1988
Amorquia – romance – Ed. Aleph – SP – 1991
A Máquina de Hyerônimus – contos – Universidade Federal de São Carlos -1997

Fonte: http://www.amigodaalma.com.br/

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Constelação de Trovas (Letra A)

A. A. DE ASSIS
Na biblioteca há mil sábios
a nosso inteiro dispor.
— Sem sequer mover os lábios,
cada livro é um professor.

AFONSO CELSO
A lutar com meu desejo,
comigo me desavim.
Contra mim mesmo pelejo…
Deus me defenda de mim!

ADOLPHO MACEDO
Foi tanta gente querida
residir na eternidade,
que a rua da minha vida
é asfaltada de saudade…

ALBA CHRISTINA CAMPOS NETTO
Brigas de amor têm segredos,
e eu juro que me comovo
ouvindo os nós dos teus dedos
batendo à porta de novo…

ALBA HELENA CORRÊA
Perdoa se fui ousado…
Não estou arrependido!
Quem ama, não tem pecado,
pecado… é o tempo perdido!

ALBERTINA MOREIRA PEDRO
Quem ama jamais se emenda…
Eu, que por ti chorei,
risquei teu nome da agenda,
mas a folha não rasguei!

ALCY RIBEIRO SOUTO MAIOR
Na paixão em que me abraso,
tanto sol tem minha estrada,
que eu não troco o meu ocaso
pela mais linda alvorada!

ALFREDO DE CASTRO
A bondade é um sábio meio
de ajudar-se e de ajudar:
— quem enxuga o pranto alheio
não tem tempo de chorar!

ALMEIDA CORRÊA
Em sepultura modesta
repousa quem foi meu bem;
isso é motivo de festa:
ela descansa… e eu também…

ALMERINDA LIPORAGE (TITA)
Nós tanto nos pertencemos,
nosso amor vai tão além,
que nós dois já nem sabemos
qual de nós é mais de quem!

ALMIRA GUARACY REBÊLO
Neste encontro inesperado,
vamos brindar a nós dois.
Primeiro, o beijo guardado…
O vinho eu peço depois!

ALONSO ROCHA
Louco artista é o trovador,
que o sofrimento renova
quando exibe a própria dor
no palco de sua trova.

ALYDIO C. SILVA
O forró foi bom de fato,
no sítio do manelão;
tinha mais casal no mato
do que dentro do salão!

AMALIA MAX
Relógio, fique parado!
Não deixe o tempo passar…
Eu quero ser enganado
quando a velhice chegar!

AMILTON MONTEIRO
Quem quiser bem conhecer
alguém em profundidade
basta só lhe conceder
um pouco de autoridade…

ANA MARIA MOTTA
Você nem sabe a ventura
que me traz seu bem-querer:
se é paixão ou se é loucura,
eu não quero nem saber!

ANGÉLICA VILLELA SANTOS
O bruxolear de uma chama
de vela, gasta e mortiça,
lembra o excluido que clama
por respeito e por justiça!

ANTONIO CARLOS T. PINTO
Se tu jamais foste minha,
se nunca fui teu também,
posso ir só, que irás sozinha…
Ninguém perde o que não tem!

ANTONIO CLARET MARQUES
Nos meus tempos de menino
tinha na palma da mão
a fieira do destino
nas voltas do meu pião!

ANTONIO DE OLIVEIRA
Entre aqueles que se querem,
nos momentos de emoção,
o que os lábios não disserem,
por certo os olhos dirão!

ANTONIO FACCI
Se de barro fomos feitos
nesta olaria divina,
somos dois corpos perfeitos,
partilhando a mesma sina!

ANTONIO JURACI SIQUEIRA
Nessa estrada em que trafego
nem sempre flores conquisto
pois sei que em terra de cego
quem tem um olho… é malvisto!

ANTÔNIO ROBERTO FERNANDES
Na bicicleta da vida
pedalei tanto, meu Deus,
mas no melhor da descida
furaram-se os dois pneus!…

ANTONIO SALES
Como uma voz que em segredo
reza em momentos de mágoa,
do coração do rochedo
sai gemendo um fio d’água.

ANTONIO SALOMÃO
Ao confessar que te amei
quando não eras tão minha,
não era ainda o teu rei,
porque nem eras rainha.

ANTONIO ZANETTI
A gente crê, não duvida,
a vida é combate ingente:
— a gente bate na vida
e a vida bate na gente.

APARÍCIO FERNANDES
Poucos sabem que não sabem
tudo o que dizem saber.
maiores saberes cabem
nos que sabem sem dizer.

APOLLO TABORDA FRANÇA
Adocei minha saudade,
Bem lembrando de você…
Pense em mim, tenha bondade,
Esquecer?… não sei por quê!

ARGEMIRA FERNANDES MARCONDES
A mentira é uma afronta,
começa pequena, leve…
Quando a gente se dá conta
já virou bola de neve.

ARIANE FRANÇA DE SOUZA
Nas terras aqui do sul,
com porte nobre e altaneiro,
plantado por gralha azul,
seu nome mesmo?… Pinheiro!

ARLENE LIMA
Lavrador, ao fim do dia,
após a lida no chão,
tua enxada rodopia
celebrando a produção!

ARLINDO TADEU HAGEN
Dos meus tempos de criança,
quase tudo se acabou;
restam restos de esperança
da esperança que restou!…

AUGUSTO GOMES
Saudade, minha saudade,
como é triste o teu cantar;
se não choro é por vaidade,
mas… é duro não chorar!

Fonte: www.falandodetrovas.com.br

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Alvaro de Campos (Poesia: Todas as Cartas de Amor)

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

Álvaro de Campos, 21/10/1935

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Mensagem (Walt Disney)

“E assim, depois de muito esperar, num dia como outro qualquer, decidi triunfar…
Decidi não esperar as oportunidades e sim, eu mesmo buscá-las.
Decidi ver cada problema como uma oportunidade de encontrar uma solução.
Decidi ver cada deserto como uma possibilidade de encontrar um oásis.
Decidi ver cada noite como um mistério a resolver.
Decidi ver cada dia como uma nova oportunidade de ser feliz.
Naquele dia descobri que meu único rival não era mais que minhas próprias limitações e que enfrentá-las era a única e melhor forma de as superar.
Naquele dia, descobri que eu não era o melhor e que talvez eu nunca tivesse sido.
Deixei de me importar com quem ganha ou perde.
Agora me importa simplesmente saber melhor o que fazer.
Aprendi que o difícil não é chegar lá em cima, e sim deixar de subir.
Aprendi que o melhor triunfo é poder chamar alguém de”amigo”.
Descobri que o amor é mais que um simples estado de enamoramento, “o amor é uma filosofia de vida”.
Naquele dia, deixei de ser um reflexo dos meus escassos triunfos passados e passei a ser uma tênue luz no presente.
Aprendi que de nada serve ser luz se não iluminar o caminho dos demais.
Naquele dia, decidi trocar tantas coisas…
Naquele dia, aprendi que os sonhos existem para tornar-se realidade.
E desde aquele dia já não durmo para descansar… simplesmente durmo para sonhar.”
(Walter Elias Disney 1901-1966)

Fonte:
http://www.pensador.info/autor/Walt_Disney/

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José Feldman (Conto: O Sábio)

Todo mundo admirava Epaminondas. Era um homem misterioso e ao mesmo tempo alguém que nos recebia sempre de braços abertos. Um sorriso nos lábios e um suco gelado de maçã.
Ele chegou por aqui na nossa cidade há uns 15 anos. Era uma pessoa fechada, mas quando começava a falar, com uma voz macia e relaxante, todos o escutavam. Parecia que tinha rodado o mundo inteiro, visto de tudo, e conhecido um pouco de tudo. Carregava em si uma enorme mala de sabedoria.
Às vezes, a gente sentava no alpendre de sua casinha modesta, de madeira, e ficávamos fumando cachimbo e jogando conversa fora. Para cada coisa que falávamos, o Epaminondas tinha uma resposta, um conselho, uma história para contar. Muitos de nós conversávamos com ele, e alguns diziam que se sentiam incomodados, porque parecia que o olhar dele atravessava nossa alma e olhava muito além do horizonte.
A minha amiga Priscila dizia que gostava de conversar com ele, mas quando ele a olhava, parecia que a via além de suas roupas. Às vezes se sentia nua na sua frente. Chegou até a imaginar que talvez ele fosse um tarado que tinha fugido de algum lugar.
César, meu vizinho ia sempre procura-lo, dizendo que estava passando por uma espécie de crise existencial, ou algo parecido, e o Epaminondas contava histórias da Índia, dos árabes, dos vikings, histórias engraçadas e, com isto, sentia ganhar nova vida e sentir-se disposto a enfrentar tudo o que viesse.
As raras vezes que saía, levava consigo seu cachorro, um pastor alemão, que apesar da aparência de bravo, era amigo de todos.
Ficávamos admirados com o seu conhecimento, com as suas viagens. Será que havia algum lugar na face da terra onde não tivesse passado? Será que havia algum livro que não houvesse lido? E seu olhar, seu olhar pairava em algum lugar, além de nossa compreensão. Como se algum anjo estivesse a fazer sinais para ele.
Quinze anos se passaram, e seu nome às vezes aparecia no jornal como o homem de maior visão que surgiu na cidade. Chegaram até a compará-lo a Budha, Julio Verne, Confúcio… Tinha gente que vinha de outras cidades para visitá-lo, e ele sempre tinha uma nova história para contar, um sorriso nos lábios, uma nova energia a oferecer a quem o viesse ver.
Já tinha 74 anos. Estava contando uma história, acho que era um conto das Mil e Uma Noites. Começava a ficar cansado quando falava. Estávamos eu, o César, a Priscila, a Tânia, o Teodorico, o prof. Eduardo, e mais uns três ou quatro que não recordo os nomes. O seu cachorro Mercuryo, deitado a seu lado como sempre. Em seu colo, Sidharta, seu gato angorá, branquinho como nove. Uma hora ele deu uma pausa e olhou para nós, sentimos como se estivesse enxergando dentro de nós, nossa alma. Deu um sorriso, fechou seus olhos por uns segundos, cansado. Aguardamos ansiosamente. Com a mesma tranqüilidade que falava conosco, nunca mais acordou.
Ele dizia que adorava ficar sentado em umas pedras, próximo a uma macieira, na beira do rio. E, lá ele foi enterrado. Mercuryo foi enterrado ao seu lado. Morrera menos de 1 hora depois dele.
Foi uma coisa bonita de se ver. Eu nunca vi tanta gente em um enterro. Acho que tinha mais gente no enterro, do que moradores na cidade. Os moradores da cidade, das cidades vizinhas prestaram suas últimas homenagens a ele. Até uma irmã dele que morava longe estava lá.
Reunimos-nos na casa onde ele morava, onde mostramos à sua irmã, contando a pessoa maravilhosa que o Epaminondas era. Como nos recebia, contava histórias de todos os lugares que viajou, via a todos nós, com sua humildade, sua calma.
A irmã emocionada nos ouvia, mas achou que estávamos gozando dela. Procuramos desfazer o mal entendido e saber a razão de sua incredualidade sobre o que contávamos. Ela disse simplesmente que não podia ser aquele Epaminondas que enterramos, apesar de que os pertences que havia na casa eram dele, pois o irmão dela era cego, e como eram pobres não tinham condição de sair para viajar. E, como ele não enxergava nada, só ouvia rádio e televisão, dia e noite, durante toda a sua vida…

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Estudos Literários (Tristão e Isolda)

Tristão e Isolda é a versão escrita de uma lenda celta cujas origens remontam ao século IX. Conta a história de um jovem casal que, após encontrar-se de forma inusitada, apaixona-se, mas se depara com diversos obstáculos políticos e sociais para permanecer juntos.
Os muitos estudos históricos discordam das origens reais de ‘Tristão e Isolda’, tornando impossível identificar uma origem em comum para a lenda. Porém, há ecos de sua narrativa em diversas culturas. As origens da lenda remetem ao início do século XII, e envolvem muitas fontes e versões, sendo as mais antigas do folclore celta do norte da França. Dois poetas da época, Thomas of Britain e Béroul detêm os primeiros textos mais conhecidos e, apesar de pequenas diferenças, ambos possuem a essência da história.
Versões
Na versão de Béroul, Tristão vai à Irlanda em busca de Isolda para que ela se case com seu tio Marke. Porém, no caminho de volta, os dois bebem uma poção mágica que faz com que se apaixonem perdidamente. Nesta versão, Tristão não é um nobre, apesar de ser um valente guerreiro.
Existem apenas 8 fragmentos da versão de Thomas of Britain, e que se referem à parte final da história. Historiadores acreditam que este trecho é somente um sexto da versão original. A história de Thomas é considerada pelos historiadores a primeira versão ‘nobre’ da lenda.
Na versão irlandesa, seus nomes são Grainne e Diarmat. No texto ‘A perseguição de Diarmat e Grainne’, o velho Rei irlandês Fionn mac Cumhail deseja se casar com a jovem Grainne, porém, na cerimônia de união, o guerreiro Diarmat se apaixona por ela. Grainne dá uma poção de sono aos presentes e foge com Diarmat. Há uma lenda persa do século XI, chamada ‘Vis and Ramon’ com estrutura similar.
Esta forma arquetípica de amor, honra e traição dentro da nobreza possui versões e pergaminhos em diversas línguas. A história de Tristão é popular na Itália, onde o guerreiro protagoniza diversas aventuras. Na Espanha, no século XIV, Arcipreste de Hita escreveu a sua versão da história de ‘Tristão e Isolda’. Na biblioteca nacional de Viena, há um fragmento de 130 linhas de uma versão em holandês da história de ‘Tristão e Isolda’ de Thomas of Britain.
No início a história de Tristão e Isolda não tinha relação alguma com a do Rei Artur. Porém, a partir do século XIII, este conto passa a se confundir com a literatura arturiana, que mostra o Rei Artur e o triângulo amoroso entre sua amada, Guinevere, e seu maior guerreiro, Lancelot. Em um texto chamado ‘vasta prosa de Tristão’, ele é um dos reis presentes à távola redonda, e participa da busca pelo santo Graal.

Influências
‘Romeu e Julieta’, a famosa obra de William Shakespeare, dramaturgo do século XVI, tem as suas origens em poemas como o de Arthur Brooke, de 1562, que, por sua vez, se inspirou em lendas e contos como o de ‘Tristão e Isolda’.

Entre 1857 e 1859, Richard Wagner, um dos maiores compositores alemães de todos os tempos, realizador entre outras da famosa ‘Cavalgada das Valquírias’, compõe ‘Tristão e Isolda’, ópera em 3 atos baseada na lenda Celta.
Em 1909, ‘Tristão e Isolda’ chega pela primeira vez ao cinema, no filme francês mudo ‘Tristan et Yseult’. Em 1948, Jean Delannoy dirige o filme francês “O Eterno Retorno”, com Madeleine Sologne e Jean Marais nos papéis principais. Apesar de seguir as versões francesas, o filme foi adaptado aos tempos modernos, daí destoar algo do mito, uma vez que este está associado à cavalaria ou mesmo ao medievalismo, a despeito de ser um mito celta. Em 2006, mais de 100 anos depois das primeiras versões de ‘Tristão e Isolda’ serem registradas, chega aos cinemas a versão produzida por Ridley Scott e estrelada por James Franco. Este último é um filme rico historicamente, pois podemos averiguar no contexto entre invasões e heróicas batalhas a história de muitos povos e o surgimento de uma língua. Na história da língua inglesa encontramos muitas referências aos povos e locais citados no romance e que são bem nítidos e definidos no filme, direcionando-nos a uma visão o mais próxima possível do que possa ter acontecido durante a dita Idade das Trevas ou seja, a Idade Média, com suas sangrentas batalhas por disputas de terras.

UMA LEITURA DE TRISTÃO E ISOLDA
Celuy Roberta Hundzinski Damasio
A obra Tristão e Isolda é originária de uma tradição oral popular. Várias são as versões que daí surgiram, as mais conhecidas são Roman de Tristan, do normando Béroul, que data de 1170 et Tristan de Thomas d’Angleterre, datada de 1175. A tradução que utilizaremos é do original intitulado Le Roman de Tristan et Iseut, escrita em 1900, par Joseph Bédier.

Esse romance entra na história da literatura no século XII, quando esta deixava de ser exclusivamente em latim, que poucos compreendiam, e começava a ser escrita nas línguas ditas “vulgares”. Nesse período tivemos um tipo de narração intitulada literatura cortês, caracterizada, entre outros, pelo “amor cortês” que, apesar da oposição, não deixava de possuir alguns traços do “amor dionisíaco”.

Amor cortês foi um conceito europeu medieval de atitudes, mitos e etiqueta para enaltecer o amor, e que gerou vários gêneros de literatura medieval, incluindo o romance. Ele surgiu nas cortes ducais e principescas das regiões onde hoje se situa a França meridional, em fins do século XI. Em sua essência, o amor cortês era uma experiência contraditória entre o desejo erótico e a realização espiritual, “um amor ao mesmo tempo ilícito e moralmente elevado, passional e auto-disciplinado, humilhante e exaltante, humano e transcendente”. (pt.wikipedia.org)

Este tipo de amor representa a relação apaixonada, comumente, entre uma dama casada e um homem solteiro, dito “jovem” neste contexto literário. Aí, em seu ápice, este sentimento tornou-se o terreno onde todas as perfeições morais e culturais floresceram. Devido a este estilo, o amante é puro e virtuoso.
Na época, o Teocentrismo e a Igreja, que detinha o poder, tinham uma influência muito forte sobre os atos e pensamentos humanos, como podemos observar nesse livro. É mostrado como as pessoas, tanto a plebe quanto os poderosos, vêem a religião que muitas vezes, era focalizada através do ponto de vista de um “Falso Poder”; porém, outras vezes a crença era, realmente, fortíssima.

A Igreja passou, nessa época, a considerar o casamento como um sacramento equivalente à ordenação eclesiástica. Conseqüentemente, a separação passou a ser proibida, e o conceito de indissolubilidade do matrimônio foi adotado. Todavia, para que fosse contraído, era obrigatório o consentimento dos noivos. Assim sendo, a mulher poderia ter a liberdade de escolher quem mais lhe agradasse ou quem fosse digno de conquistá-la.
A história nos conta que um jovem, chamado Tristão, filho do rei Rivalino e Brancaflor, ficou órfão e foi servir ao Rei Marcos que, por sua vez, ficou sabendo que Tristão era seu sobrinho, somente, quando a corte precisou de um homem forte, de família nobre, para derrotar um gigante que, já há muito tempo, estava atormentando seu castelo.
Tempos passaram e Tristão encontrou uma linda mulher, chamada Isolda, para que seu tio pudesse se casar, ganhando-a, para ele, em uma luta e, como o combinado, levou-a para Cornualha. Havia uma poção mágica, que deveria ter sido dada a Isolda e seu futuro marido, todavia, foi Tristão quem, por engano, a tomou e os dois se apaixonaram. Como Isolda era esposa do rei, eles se encontravam às escondidas.
Brangia a serviçal de Isolda foi a culpada pelo ocorrido e, com a consciência pesada, criava oportunidades para que o casal adúltero pudesse se encontrar. Mesmo correndo perigo de serem pegos nas emboscadas feitas pelos homens da corte, Tristão e Isolda se amaram até a morte.
Visamos, aqui, verificar, de maneira concisa, algumas características dos personagens, e os aspectos que nos ajudam entender a estrutura e sua importância, tais como: Ordálio, amor cortês e erótico, a religião e o valor que têm, na obra, as três Isoldas que ocupam um papel fundamental no desenrolar das ações.
Personagens
Podemos observar uma mudança de personalidade em Isolda e Tristão conforme o desenrolar da narrativa.
Falaremos, primeiramente, de Tristão, que morava com seus pais em Tintagel, até que um dia, com a morte destes, foi para a Cornualha a procura de seu tio Rei Marcos. Chegando lá, não se identificou como seu sobrinho e, mesmo assim, ganhou-lhe a confiança.
Tristão possuía as características que o definem muito bem como personagem da literatura cortês: um rapaz forte, inteligente e deveras habilidoso. Era muito confiante em si mesmo e, para provar a sua lealdade ao soberano e ao seu povo, usava desta qualidade (ser forte) para mostrar que era honesto e que jamais seria desleal.
Sendo muito esperto, disse que traiu Marcos porque estava sob efeito da poção. Ele pode ser considerado como um homem “normal”, ou seja, caracterizado como alguém que ama e um herói que luta. Entretanto, passou de fiel à infiel, coisa que era inadmissível para ele, no início da narração. A virtude, ocupando lugar de destaque nesse estilo literário, não permite que os protagonistas assumam sua culpa, direcionando-a sempre para fora de si. Enquanto herói, Tristão jamais foi traidor, tornando-se, desta forma, um mito adorado por todos.
É possível fazer uma analogia com o nome de Tristão, que seria o aumentativo de Tristeza, para assim designar a grandeza de seu sofrimento, na luta entre o amor cortês e dionisíaco, durante todo o romance.
Outra personagem central é Isolda, que morava na Irlanda, juntamente com seus pais, o Rei Gormond e Isolda (a mãe). Igualmente denotando particularidades do gênero literário cortês, era uma moça muito bonita, de cabelos loiros e, por isso, muito cobiçada por homens de todas as idades e posições sociais. Foi, juntamente com Tristão, para Cornualha, porque estava prometida a se casar com o Rei Marcos. Por causa de sua acompanhante, Brangia, que a colocou em um triângulo amoroso, a personalidade de Isolda, sofreu mudanças logo no início da história, assim prosseguindo até o final, onde já estava completamente diferente.
No começo do livro, ela era ingênua, não possuía a malícia de sair-se bem de certas situações; o convívio com sua serviçal, Brangia, e com a necessidade de ludibriar seu marido, acabou por tornar-se uma mulher sagaz, inteligente e por demais esperta, livrando-se da condenação, com grande astúcia.
Passaremos ao terceiro personagem: Marcos, o Rei de Cornualha. Vivia rodeado pelos membros da sua corte e nada fazia sem a aprovação deles. Talvez, por isso, tenha passado ao leitor, a idéia de não possuir personalidade própria. Deixava-se levar, sempre, pelas opiniões dos seus aliados. Por causa das idéias alheias, foi induzido, principalmente pelos barões, a desconfiar de sua esposa e sobrinho.
Seus conselheiros eram pessoas invejosas, calculistas e queriam ver Tristão longe da amada. Armavam todas as emboscadas para que o rei pudesse ver “com que tipo de mulher ele casara” e que seu sobrinho não era tão fiel quanto ele pensava. No entanto, a valentia destes “traidores” não durava muito quando eram postos à luta, pois eram os primeiros a darem desculpas para livrarem-se da situação.
Quanto a Brangia, possuía características psicológicas marcantes, porém, o que a distinguiu dos outros foi, justamente, seu caráter ter continuado forte desde o início até o final da história.
Serviçal de Isolda, era fiel à sua senhora e nunca demonstrou ser desleal. Causadora do triângulo amoroso, desde o ocorrido, nunca mais abandonou sua patroa. Querendo compensar sua negligência, sempre fez com que Isolda matasse seu desejo encobrindo o “pecado”. Uma das provas de fidelidade que Brangia deu à sua senhora, foi quando se deitou com Rei Marcos para fazer as vezes de sua esposa, sendo que ela ainda era virgem.
Assim como Brangia, temos Jorvenal que, também, foi fiel até a morte de seu senhor, Tristão. Ele nunca fez nada para que Tristão desconfiasse de sua lealdade. Por isso, sua personalidade se manteve estável durante toda a narração.
Ordálio
O Ordálio consistia a fazer o acusado passar diversas provas físicas com o objetivo de mostrar sua inocência. Isso acontecia diante da divindade tutelar da justiça que, por definição, não podia deixar o inocente sucumbir ou a injustiça triunfar.
Há quem afirme, por causa do caráter religioso e místico marcante, que era uma espécie de mandamento que a Igreja possuía para punir as pessoas que pudessem, naquela época, vir a cometer o adultério. Não obstante, sendo associado a uma violência extrema, representa, do ponto de vista teológico, um teste à bondade divina, o que é condenado claramente pela bíblia e pela Igreja Católica.
Tristão e Isolda viviam em constantes “provações e emboscadas” e, era através delas que o Rei Marcos passou a desconfiar da lealdade dois. A cada aproximação dos amantes, havia um “invejoso” que tentava mostrar a falta de Tristão, para que o tio visse, com seus próprios olhos, que estava sendo traído.
Sempre no momento em que os amantes estavam sendo emboscados, estes encontravam uma grande saída e, geralmente, eram obrigados a usar da mentira para que se livrassem dos apuros e, assim, do ordálio.
Após a noite de núpcias, Kariado, fiel de Marcos, com inveja dos amantes e desejando o lugar de Tristão perante o soberano, começou a lhe mostrar que estava sendo enganado pela própria mulher e sobrinho. O rei pôs em prova a lealdade da esposa, simulando uma viagem, onde Isolda se traiu pedindo que ficasse protegida pelo amado.
A estratégia, entretanto, não deu resultado porque Brangia os alertara sobre o perigo que corriam, avisando-os que Kariado maquinara tudo para que ela se entregasse. Quando o esposo veio testá-la pela segunda vez, ela já estava preparada para que não deixasse que as suspeitas levantadas pelo vassalo prosseguissem, e quando ele diz: “Bela amiga – disse -, nada me é tão profundamente caro como vós, e o pensamento de que nos vamos separar, …(p. 61). Isolda, em sua perspicácia, responde: “Em nome de Deus, ficai ou deixai-me, cativa, ir convosco”! (p. 61).
O rei achou esquisito a esposa ter mudado de idéia quanto a ficar sob a guarda de Tristão, mas, como ela sabia que estava sendo provada, prosseguiu a conversa citando-o:… Finge ser meu amigo porque matou o meu tio e lisonjeia-me para que não me vingue dele, pode no entanto ter isto por certo: todos os seus belos semblantes não me podem consolar da grande dor, da vergonha e do mal que causou a mim e a minha família. Se não fosse vosso sobrinho, há já muito tempo que o teria feito sentir a minha cólera. Queria nunca mais o ver, nunca mais lhe falar.(p. 61).
Kariado não se convenceu e pediu ao rei para experimentá-la pela terceira vez. Isolda, novamente, traiu-se, pois não queria que Tristão fosse embora. Tentou defender a ida do amante. Contudo, quando percebeu que estava, mais uma vez, sendo provada, soube persuadi-lo de que Tristão nada representava para ela.
As dúvidas de Marcos se foram. No entanto, a inveja que os homens da corte sentiam dos amantes não permitiu que os deixassem em paz. Assim, nova estratégia foi providenciada. Audret, outro vassalo, fez com que o soberano fosse testemunhar o encontro dos dois sob um grande pinheiro. Todavia, como Tristão era uma pessoa muito esperta, não se intimidou quando percebeu que estava em uma armadilha, soube sair-se sem deixar nenhuma dúvida de sua lealdade.
Foi armada uma quinta emboscada, em que colocaram farinha no chão pra que deixassem rastros. Tristão, tendo a característica cortês de jovem deveras astucioso, quase escapou, mas foi apanhado pelo seu próprio sangue. Desta vez, não houve saída e seu tio acabou presenciando o ocorrido.
O fato fez com que o casal amedrontado fugisse, desaparecendo por dois anos, quando o rei os encontrou deitados numa cabana na floresta e, ainda assim, mesmo depois de tudo, convenceu-se que não havia sido traído, pois os encontrou juntos, deitados como irmãos, com a espada de Tristão desembainhada entre os dois. Este ato significava “respeito” e, por conseqüência, acreditou na lealdade dos dois.
Desta forma, Isolda teve a permissão de permanecer no castelo, entretanto, Tristão teria que partir. Para que o esposo voltasse a confiar plenamente em Isolda, esta armou uma situação, onde jurou, perante o rei Arthur e a Deus, que nunca traíra seu marido. Porém, consciente de que este falso juramento seria pecaminoso, e demonstrando sua crença, usou de dúbias palavras para que não mentisse a Deus e, como sempre, saiu-se bem.
Tristão voltou a encontrar-se com Isolda, mas o rei desconfiou de sua presença e foi persuadido, pelos seus “fiéis”, a colocar lanças no chão, para mais uma tentativa de emboscada. Não obstante, a astúcia de Tristão foi maior e não se deixou pegar.
Podemos dizer que a maneira como é mostrado o Ordálio, foi feita uma crítica a um dos mandamentos da lei de Deus ou, mais especificamente, ao modo como se tentava impor e conservar o sacramento da Igreja Católica; pois, como já foi dito, sua finalidade era de punir os amantes em caso de adultério e traição.
Todo o desenrolar da obra, marcado pelas tentativas de desmascaramento e pela vitória dos “pecadores” quer mostrar que a punição não vem de Deus e este “mandamento” era a amostra de um “falso poder”: para os que mandavam (governavam) era mais fácil manter o poder fazendo com que as outras pessoas acreditassem que o Poderoso iria puní-los aqui mesmo, na terra. Este castigo, entre outros, era a fogueira. Uma vez que “Deus” fosse o responsável, a culpa deixava de ser humana.
Por outro lado, além de ser mostrado que existiam pessoas que se utilizavam da fé como uma simples forma de provar que era a lei de Deus que punia e não os homens, é apontado, também, que a fé que as pessoas desta época possuíam podia ser uma crença verdadeira ou, apenas, uma educação religiosa recebida dos pais.
A Religião e a Trindade das Isoldas
Observamos que a religião tem lugar de destaque, demonstrando a crença e o misticismo da época. Várias vezes é mencionado o nome de Deus ou falado claramente sobre a Igreja, santos, sinais religiosos ou, ainda, há muitas alusões a termos ou fatos bíblicos.
Disso, queremos destacar a trindade das Isoldas. São três mulheres de caráter bastante diferentes, mas com o mesmo objetivo: o “amor verdadeiro”. As características de cada uma destas personagens estão marcadas pelas suas ações e anseios. Poderia ser uma analogia ao Pai, Filho, Espírito Santo, cada um com suas características, todos chamados “Deus”, em busca de um mesmo alvo: não o amor verdadeiro, mas fazer conhecer esse AMOR que são eles próprios.
Tudo começou com Isolda, mãe, representando um ser mitológico que acreditava que, através da poção mágica, a sua filha iria se apaixonar pelo prometido e ser feliz. Ela estava preocupada com a preservação da família que a sua filha iria adquirir casando-se com o Rei Marcos.
Desejava, além disso, defender a moral de sua filha, pois se caso Isolda não viesse a gostar do soberano, seu casamento não iria dar certo, terminando, possivelmente, por um adultério e, conseqüentemente, pela separação. Naquela época isso seria inadmissível, escandaloso e imoral. Além do mais, Isolda, a mãe, queria a união das famílias nobres, ou seja, a união do reino Gormond com o reino de Marcos.
Isolda Loira (filha) era a imagem da sedução, sendo que todos os homens não conseguiam resistir à tal beldade. Era considerada como o símbolo da beleza. Uma mulher movida pelo amor carnal e pela paixão (o amor erótico). Amante e amada. Fiel a Tristão, pois por nada deixou de amá-lo, contudo, infiel ao Rei Marcos, porque jamais deixou de amar Tristão.
Tudo isto teve início por causa da poção mágica feita por Isolda mãe. Antes da poção, Isolda Loira possuía um amor cortês, que foi transformado no amor erótico, ou seja, o amor dionisíaco que é conduzido, não pela razão, mas por um feitiço. Um amor que se transforma numa louca paixão, onde os amantes estão sempre correndo riscos por causa dela. Assim era o sentimento entre os personagens principais. Todavia, veremos que, depois do efeito da poção, eles voltam ao estado inicial recuperando, racionalmente, o amor cortês.
Com o fim do sortilégio teve início o predomínio da razão. Tristão e Isolda Loira agora conscientes dos seus atos, não deixaram de se amar, mas sabiam que não poderiam continuar juntos ocorrendo, então, a separação.
Algum tempo depois que acabou o efeito da poção, Tristão conheceu outra Isolda, a das mãos brancas, e com ela, viveu um amor cortês. Esta Isolda era uma mulher bonita, ingênua, pura, leal e honesta. Foi iludida e aceitou a viver apenas com os carinhos de Tristão. O amor vivido por esses dois foi movido pela razão e eles acabaram se casando. Para ele, este casamento foi uma fuga, onde esperava esquecer a Isolda Loira. O amor carnal não foi concretizado e deu-se o amor cortês. Mas, esta união não deu em nada, fracassando.
Isolda das mãos brancas descobriu que estava sendo enganada e, impulsionada pelo ciúme, mentiu. A mentira levou Tristão e, em seguida, Isolda Loira à morte. A concretização do amor em Tristão e Isolda Loira só foi possível acontecer logo depois de suas mortes, sendo evidente, assim, que precisaram da terceira Isolda para que o amor perdurasse eternamente.
No túmulo de Isolda, a loira, plantou uma roseira vermelha e no de Tristão um cepo de nobre vinha. Os dois arbustos cresceram juntos e os seus ramos entrelaçaram-se tão intimamente que foi impossível separá-los; de cada vez que os podavam, tornavam a crescer com todo o vigor e confundiam a sua folhagem. (p. 175).
Constatamos que a reunião destas três Isoldas resultou na formação da “mulher comum”, que é a verdadeira deusa. Aquela que tudo faz pelos filhos e pelo amor quando se sente traída. As ações são causadas pelas três, e cada uma delas teve fundamental importância no romance. Importância que, até então, as mulheres não tinham nas obras literárias.
Temos, no livro, a ação proveniente dos atos heróicos de Tristão. Nota-se, claramente, que todo o desencadeamento das ações teve o seu início, propriamente dito, com a vitória de Tristão sobre o Norholt. O narrador procurou mostrar todo um mundo de ficção e magia, com intuito de deixar transparecer, claramente, o sentido e a capacidade heróica de Tristão.
Esta obra foi fundamental, para a época, por retratar mudanças ideológicas, culturais e sociais que estavam ocorrendo. A mulher começava a ter um papel mais relevante na literatura e isso influenciava em todo contexto. O papel da religião, também, estava sendo questionado. Podemos, conseqüentemente, afirmar que a obra foi um grande passo para os posteriores. A inovação, a partir dela, foi constante, sobretudo, no que se refere ao lugar que a mulher, a religião e o poder passam a ocupar, literariamente, daí em diante.
Fonte:
DAMASIO, Celuy Roberta Hundzinski. Uma leitura de Tristão e Isolda. In: Revista Espaço Acadêmico, Ano VII. no. 78 – Novembro de 2007. Maringá: UEM. Disponível em http://www.espacoacademico.com.br/078/78damasio.htm

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Adalgisa Nery (1905 – 1980)

Nasceu na cidade do Rio de Janeiro. Casou-se com o pintor Ismael Nery aos 16 anos de idade, passando a conviver com intelectuais da época, entre os quais Manuel Bandeira, Murilo Mendes, Aníbal Machado e Jorge de Lima. Com o falecimento de Ismael, inicia sua carreira Literária publicando seu primeiro trabalho em 1935, na Revista Acadêmica, passando a contribuir com vários periódicos. Em 1940, casou-se com Lorival Fontes, que foi nomeado embaixador do Brasil no México. Com isso, a escritora passou a freqüentar a elite intelectual daquele país, tendo sido retratada por Diogo Rivera e amiga de Frida Kalo. De volta ao Brasil, após sua separação, iniciou sua carreira como articulista política, tendo escrito, de 1954 a 1966, uma coluna diária no jornal Última Hora sob o título “Retratos sem retoque”. Foi eleita deputada por dois mandatos — 1962 e 1966. Foi cassada pela Junta Militar, em 1969. Deprimida, faleceu em um abrigo de idosos, no Rio de Janeiro. Algumas obras da autora: O jardim das carícias (1938), Mulher ausente (1940), Ar do deserto (1943), Cantos da angústia (1948), As fronteiras da quarta dimensão (1951) e A imaginária (1959).

Fonte:
http://www.releituras.com/anery_gargalhada.asp

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Expressões e Suas Origens (G, H, I)

por Deonísio da Silva

Ganharás o pão com o suor de teu rosto
Muito utilizada por oradores e por escritores de todos os tempos, e de uso bastante freqüente em alusão ao trabalhado, de acordo com o texto do Evangelho esta frase foi pronunciada originalmente por Deus ao expulsar Adão e Eva do paraíso terrestre. Ela foi dirigida ao primeiro homem, coroando um processo sumário conduzido por Deus que culminou em três sentenças gravíssimas. As outras duas foram dirigidas ao demônio, representado pela serpente, e a Eva. A serpente foi condenada a arrastar-se eternamente sobre o ventre, e as mulheres, a passar pelos sofrimentos no partos.

Glória a Deus nas alturas
O evangelista São Lucas foi o primeiro a registrar esta frase que teria sido, não apenas dita, mas também cantada por um anjo, acompanhado de milhares de vozes de coros celestes, na noite em que nasceu Jesus, diante de pastores maravilhados e um pouco medrosos com a aparição. Eles guardavam seus rebanhos naquele noite nas redondezas da gruta que depois seria transformada em basílica formosa. A partir do século XIII, quando São Francisco de Assis (1182-1226) construiu o primeiro presépio, a frase, juntamente com a represente da Sagrada Família, dos pastores e dos animais que rodearam a manjedoura naquela noite de frio, esteve sempre presente em todos os presépios em forma de faixa.

Habeas-corpus
A origem desta famosa frase latina, citada com muita freqüência, principalmente em tempos de perseguições políticas que levam à perda das liberdades individuais, encontra-se nas primeiras palavras de uma célebre lei inglesa, o Habeas Corpus Act, sancionada em 1679 por Carlos II (1630-1685), então rei da Inglaterra, Escócia e Irlanda. Hoje está incorporada aos sistemas jurídicos de quase todos os países. Seu significado é que tenhas teu corpo. O objetivo deste preceito é garantir ao acusado o direito de aguardar o julgamento em liberdade, sob fiança. O imperador que sancionou notabilizou-se, entre outras coisas, por assegurar a convivência entre católicos e protestantes num tempo de grandes rivalidades entre as duas religiões.

Houve muitos músicos famosos, mas apenas um Beethoven
Com esta frase, sempre repetida, Pelé explica, sem vaidade, a sua proclamada e reconhecida genialidade como maior jogador de futebol de todos os tempos. Excessiva humildade, vinda de nosso atraso socioeconômico, dera-nos, antes de 1958, o complexo de vira-latas, segundo Nelson Rodrigues. Pelé rejeitou toda modéstia, sagrando-se rei e desfrutando de sua majestade ainda hoje, sendo mais conhecido e reconhecido do que monarcas e presidentes. O glorioso camisa 10 não poderia, porém, ignorar que Beethoven e ele, na música e no futebol, sempre tiveram companhias à altura. Sem aqueles talentosos colegas, no Santos e na seleção, ele certamente não teria sido o mesmo. Sem contar que na Copa de 1962, Amarildo, Garrincha e os outros nove, e na de 1970, Gérson, Rivelino, Tostão e Jairzinho, fizeram-nos lembrar de que além de Beethoven, havia Mozart, Wagner, Vivaldi, Villa-Lobos, etc.

Houve muitos papas e um único Michelangelo
Esta frase foi pronunciada pela primeira vez pelo célebre pintor, escultor, arquiteto e poeta italiano Michelangelo Buonarotti (1475-1564), autor de algumas das principais obras-primas da arquitetura e da arte sacra em todos os tempos, entre as quais se destacam a cúpula da Basílica de São Pedro, em Roma, e os famosos afrescos da capela Sistina. O artista vivia às turras com o papa Júlio II (1443-1513), que, entretanto, protegeu, além de Michelangelo, outros grandes pintores e arquitetos, como Rafael (1483-1520) e Bramante (1444 -1514), e foi numa de suas brigas com o sumo pontífice que pronunciou a frase que ficaria famosa. Ao ouvir a frase, o papa deu uma bolacha na face do artista.

Independência ou morte
Esta frase foi pronunciada por Dom Pedro I (1978-1834), no dia 7 de setembro de 1822, por volta das quatro da tarde, em São Paulo, às margens do riacho Ipiranga, ao romper os laços coloniais que nos submetiam a Portugal e proclamar a independência do Brasil. O imperador estava montado quando a pronunciou, de acordo com a iconografia que consagrou o ato mais importante do Brasil como nação, tal como fez o pintor paraibano Pedro Américo (1843-1905) no mais famoso de seus quadros históricos, Grito do Ipiranga. Nossa independência tornou notáveis muitas pessoas. O próprio pintor teve seu retrato colocado na sala dos pintores célebres, na celebérrima Galeria Degli Uffizzi, em Florença, na Itália.

Inês é morta
Personagem histórica e literária, celebrada em Os lusíadas, de Luís de Camões (1524-1580), Inês de Castro (1320-1355) teve um caso com o príncipe Dom Pedro (1320-1367), com quem teve três filhos. Por reprovar o romance, a casa real condenou a dama castelhana que vivia na corte portuguesa à morte por decapitação. Ela literalmente perdeu a cabeça por um homem. Quando já era o oitavo rei de Portugal, Dom Pedro deu-lhe o título de rainha. Mas àquela altura logicamente isso de nada adiantava: Inês já estava morta. A frase passou a significar a inutilidade de certas ações tardais. É o título de romance do mineiro Roberto Drummond.

Fonte:
http://www.portrasdasletras.com.br/pdtl2/sub.php?op=curiosidades/docs/vempalavras1

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Adalgiza Nery (Conto: A Gargalhada)

— Não grita, por favor.

— Não estou gritando. Estou rindo.

— Falar alto ou gargalhar é a mesma coisa. É manifestação de animalidade que a minha natureza não suporta. Vocês conhecem a minha fascinação pelas mulheres. Nada para mim tem um poder de atração maior do que uma mulher. Porém a mulher mais linda, a mais perfeita, a mais fascinante, falando alto ou gargalhando, faz crescer em mim um ímpeto monstruoso e sinto que sou capaz de abrir com as mãos o seu pescoço. Fico desvairado; é uma repulsa incontida. Só os animais se expressam com alarido, só as criaturas desclassificadas, moral e espiritualmente, falam aos gritos e riem com a garganta. Já sabem, não gritem nem dêem gargalhadas perto de mim se não quiserem transformar-me num criminoso. Fico descontrolado com o barulho, seja ele qual for.

Gaspar e dois amigos conversavam num bar, de madrugada, onde a fumaça dos cigarros e o cheiro de álcool misturavam-se ao som de um piano tocado por dedos já. cansados e indiferentes ao ambiente.
André, de temperamento alegre, depois de tomar duas ou três doses de álcool, expandia-se em piadas de mau gosto, acompanhadas de estridentes gargalhadas.
O outro, Maurício, quase silencioso, observava demoradamente os freqüentadores do bar, Possuía um interesse especial por dois detalhes do corpo humano: mãos e nucas.

— Gaspar, você define e classifica as criaturas pelo falar alto e o gargalhar. Tem razão. Não pode haver inteligência nem condições espirituais numa pessoa que expressa suas alegrias e suas opiniões aos berros. Vocês dois criticam sempre a minha atitude quando em silêncio fico a maior parte do tempo com os olhos pregados nas mãos e na nuca das pessoas à minha frente. Eu explico. Gosto de definir, através das mãos e da nuca, a essência do indivíduo. Reparem, por exemplo, aquele sujeito sentado na mesa à nossa esquerda. Forçosamente tem de ser uma pessoa mesquinha, de fundo avarento, capaz de sujeiras freqüentes nas vinte e quatro horas do dia. Está acompanhado de uma mulher que chama a atenção unicamente pela tristeza do olhar. O resto é comum e insignificante. O seu modo de trajar é suburbano. O seu olhar, entretanto, carrega pesadas humilhações e penas. O homem que a acompanha não vê nada disso que esmaga a pobre mulher.

— E você, Maurício, verificou a tristeza da mulher e a mesquinhez do caráter do homem pelas mãos dele, só pelas mãos? — perguntou André.

— Sim, pelas mãos. Observem seus gestos e a forma das suas mãos curtas e gordas, achatadas, de unhas minúsculas enterradas na carne, dedos cabeludos, pulsos cabeludos. Suas mãos, quando paradas, assemelham-se a aranhas adormecidas. São mãos asquerosas, devem ter uma transpiração abundante. Sempre molhadas de suor. Reparem nos seus gestos em curvas pequenas em direção à sua barriga, Parecem trazer as migalhas da mesa para o seu estômago. Nada em seu físico define com mais segurança a sua mesquinha personalidade do que as suas mãos.

— Você o conhece, para marcá-lo assim de maneira tão positiva?

— Não, nunca o vi. Mas desde que cheguei notei a sua repelente personalidade pelas suas mãos cabeludas, curtas e de movimentos repulsivos.

Enquanto Maurício falava sobre as suas observações, o homem reclamava aos brados, do garçom, uma insignificante quantia adicionada à nota das despesas. Dava a entender que o pagamento daquele mínimo excedente iria obrigá-lo a voltar a pé para casa.

A mulher que o acompanhava, de olhos baixos, sentia a humilhação de quem contribuíra para um grave problema financeiro do companheiro que a trouxera para o bar; como se reclamasse o preço excessivo da sua presença ao seu lado, A mulher somava tristezas.

Maurício olhou para os amigos com ar vitorioso de quem acerta no objetivo. 0 homem de mãos curtas e cabeludas exibira a sua essência.

— Vejam também agora a nuca deste sujeito que está sentado de costas para nós. Nuca pálida, enxundiosa, com o nascimento do cabelo muito alto e semelhante a uma franja rala. Nuca de homem tem de ser com o nascimento do cabelo no meio do pescoço, de fios grossos marcando vitalidade e decisão de atitudes. Desconfiem de todo homem que possuir uma nuca que sobe até o meio da cabeça. Não escapará de ser um indivíduo desleal, traiçoeiro, com tendência à vida sórdida, vivendo da exploração de mulheres.

— Ora, isso é bobagem. E os que não têm pescoço, os que não têm nuca, os que têm a cabeça. Diretamente pregada nos ombros, como são? — perguntou André já bastante alcoolizado.

— Bem, esses são os burros teimosos. Teimosos e vaidosos. Esses são perigosos. Sentem-se um deus de sabedoria e, se têm uma parcela de poder ou uma fortuna assegurada, entendem que têm o direito de arrasar com a humanidade, e que as suas opiniões estão na razão direta do seu dinheiro, Como já disse, esses sem pescoço são perigosos para a coletividade.

Nesse instante, Maurício chamou a atenção dos companheiros para o homem da nuca flácida.

— Reparem o que ele está fazendo e vejam como os meus estudos são infalíveis!

O homem recebia, sob a toalha da mesa, das mãos da mulher que o acompanhava, o dinheiro com que iria pagar as despesas feitas.

— Qual é a sua finalidade, Maurício, ao estudar e observar a personalidade das criaturas através dos detalhes das mãos e da nuca?

— A de definir para conhecer a essência das coisas. É um estudo como outro qualquer. É um divertimento. Meus estudos e observações não impedirão o nascimento de homens mesquinhos, sórdidos e de vidas repugnantes, eu sei. Mas cada vez que acerto nas minhas observações, mais vontade tenho de observar para acertar. É uma espécie de jogo comigo mesmo. O princípio da ignorância humana é o definir aquilo que se fala ou o que se prefere falar, sobre o que ainda não se sabe e nem se pode definir. Eu falo do que ainda não se pode definir. Tento chegar à ignorância humana.

— Por exemplo, o descontrole de Gaspar ao ouvir alguém gritar ou dar gargalhadas, parece-me uma reação intimamente ligada à sua sensibilidade. As suas impressões, as suas visões ou os seus ímpetos inesperados devem variar dependendo da sua receptividade brutalizada por risos estridentes e barulhos fortes. A reação da sensibilidade de cada pessoa pode encaminhar-se para o estoicismo ou para o crime. Conheci um rapaz que desde menino perdia a fala quando cercado de conversas tumultuosas ou de ruídos agudos. Permanecia completamente mudo por várias horas. Mas mudo mesmo. Trancava-se no quarto e entregava-se à leitura. A família desorientava-se com a sua mudez prolongada e repentina. A medicina não oferecia maiores explicações. A sua mudez era total e a sua audição também seguia o mesmo processo. No dia seguinte aparecia com a fala e a audição perfeitamente normais. Assustava-se, terrivelmente, quando ao longe percebia o ronco dos motores de um avião no céu. Quando o telefone tocava, se ele estivesse perto, corria para o quarto como um animal batido. Diziam que era um desequilibrado, mas essa conclusão foi posta por terra quando a família resolveu enviá-lo para uma fazenda no interior, onde ele só tinha contato com o silêncio. A solução foi afastá-lo de tudo e de todos na medida do possível. Durante esse período falava e ouvia normalmente, Interessante é que cantava canções de acalanto e a sua voz tinha uma sonoridade maravilhosa, 0 tumulto, os gritos, as conversas misturadas, as risadas, extinguiam instantaneamente a sua voz e a sua audição, mas voltavam perfeitas na substância do silêncio. Era por isso considerado um tipo estranho e enigmático. Ora, Gaspar deve estar incluído, sem saber, entre os raros que sofrem desse mesmo fenômeno. Daí o seu descontrole, a sua angústia, quando alguém a ao seu lado fala aos gritos ou dá estrondosas gargalhadas. Nota-se em Gaspar uma imediata transformação fisionômica, um ar desvairado, e não deve ser sem fundamentos que ele afirma a possibilidade de tornar-se um criminoso ao ouvir uma gargalhada.

Gaspar ouvia sem interromper Maurício, parecendo concordar com o diagnóstico do amigo.

Um grande silêncio envolveu a mesa dos três. Ao longe, rompendo a densidade da fumaça e o enjoativo cheiro de álcool que dominava o bar, o piano continuava tateado por mãos cansadas e indiferentes àquelas vidas gastando-se na madrugada. Vinda de um canto do bar, passou pela mesa dos três amigos uma mulher jovem. Não era bela nem feia. Era uma mulher de bar. Gaspar segurou-lhe o braço e indagou se estava sozinha. A mulher respondeu afirmativamente.

— Para onde vai?

— Para casa.

— Espere, vou com você.

Saíram os dois.

Num hotel barato, os outros hóspedes ouviram a porta de um quarto fechar-se. Depois o murmúrio de vozes do casal. De repente, uma gargalhada inundou o corredor do hotel. Outra gargalhada. Depois o silêncio absoluto.

Pela manhã, quando a arrumadeira iniciou o seu serviço, ao passar pelo quarto ocupado pelo casal da madrugada, viu pela porta entreaberta uma mulher nua, deitada na cama, tendo sobre a cabeça um travesseiro.

O seu corpo morto deixava fora do lençol um seio alvo e volumoso.

Fonte:
http://www.releituras.com/anery_gargalhada.asp

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Expressões Potiguares (Rio Grande do Norte)

Abigobel – Leso, sem atenção.
Abilolado – Com o miolo mole, sem juízo.
Abufelado – Chateado, com raiva.
Abusado – Chato
Achinchelar – Usar o tênis como chinelo.
Acochar – Apertar.
Acolá – Ali.
Acunhar – Correr, fugir. “Acunha rapaz!”
Afolosar – Afrouxar.
Aí vareia – Depende.
Alpercata – Sandália de dedo.
Amarrado – Pão-duro, mesquinho.
Amuquecado – Quieto, desanimado.
Aparelho – Vaso sanitário.
Aperrear – Encher o saco, pertubar. “Deixe de aperreio aí!”
Apetrechada – Dotada de beleza física.
Apombalhado – Leso.
Arenga – Briga pequena.
Aresia – Conversa besta, sem fundamento.
Argueiro – Cisco no olho.
Ariado – Desnorteado.
Arremedar – Imitar.
Arretado – Algo muito bom.
Arrudiar – Dar a volta.
Arrumação – Tanto teimosia (“Menino! Deixa de arrumação!”) quanto agito.
Avexado – Com pressa.
Avia – “Venha, ande logo”.
Azougue – Ímã.
Bagana – Balas, biscoitos, chocolates, pirulitos, chicletes… Alimentos para um lanche rápido, para se comer no cinema, etc.
Baixa da égua – Lugar onde ninguém quer ir, lugar muito longe.
Baladeira – Estilingue, atiradeira.
Balaio de gato – Desorganização, confusão.
Baludo – Cheio da grana.
Banda – Pedaço de alguma coisa.
Bater a caçuleta – Morrer.
Biloca – Bola de gude.
Blimba – Estalo na orelha com o dedo.
Bôjo – Sanitário.
Bora li – Vamos ali.
Borréia – Sem qualidade.
Boyzinha – Menina novinha.
Bozó – Dados.
Breado – Sujo, melado.
Brecheiro – Sabe da vida alheia, observando às escondidas.
Brenha – Local longe de difícil acesso. “Rapaz, esse lugar é lá nas brenhas!”
Brocoió – Matuto, caipira.
Brotinho – Mocinha bonita.
Bruguelo – Bebê.
Bubu – Chupeta.
Bufa – Peido.
Bufento – Aquilo que perdeu a cor.
Buliçoso – Pessoa que mexe em tudo.
Cabido – Intrometido.
Caboré – Homem esquisito.
Cabreiro – Desconfiado.
Caga-lona – Quem anda na carroceria de uma caminhonete.
Cagado – Sortudo.
Cagado e cuspido – Muito parecido.
Cagou o cibazol – Errou, não teve sucesso.
Caixa bozó – Lugar muito longe.
Caixão e vela preta – O melhor, o máximo.
Califon – Sutiã, porta-peitos.
Cambada – Grupo de malandros.
Cambito – Perna fina.
Cangapé – Capotagem.
Cangote – Nuca, parte detrás do pescoço.
Cangueiro(a) – Aquele que não dirige bem.
Canhão – Mulher feia.
Caningar – Chatear.
Canjerê – Tumulto.
Cantiga de grilo – Algo repetitivo.
Cão chupando manga – Pessoa muito feia.
Capilé – Estalo com o dedo atrás da orelha.
Caquear-se – Gestos à procura de algo.
Caraca – Sujeira de nariz.
Carecer – Precisar.
Caritó – Moça velha que não casou.
Carregado – 1. Alimento que pode fazer mal ao organismo. 2. Comida “pesada”, que deixa a pessoa se sentindo muito cheia (alguns pratos da comida regional).
Cascaviar – Remexer, procurar.
Catinga – Mau cheiro.
Catoco – Pedaço de coisa.
Catôta – Sujeira de nariz.
Caxaprego – Lugar distante.
Cevado – Fortinho, quase gordo.
Cheio de onda – Pessoa com muita conversa, enrolação.
Cheio de toddynho – Bêbado.
Chulipa – Tapa na orelha com um dedo no sentido vertical.
Churumingar – Reclamar.
Cigarreira – Banca de revista.
Cipuada – Porrada, chibatada.
Cocorote – Cascudo.
Coisar – “Verbo” multifacetado utilizado sempre que uma palavra mais apropriada não é encontrada.
Coletivo – Ônibus.
Com a bexiga – Com raiva.
Comí que fiquei triste – Quando a pessoa comeu demais, até o limite.
Confeito – Balas, doces.
Corralinda – Coisa linda, pessoa bonita.
Corrida de ganso – O que não vale a pena.
Crica – Criança.
Cumê que ofende – Comida que pode provocar algum tipo de reação ou alergia.
Custar – Demorar. “O ônibus está custando muito”.
Danada – Pessoa inquieta, que não fica parada. “Ô menina danada!”
Dando siu – Chamando “psiu”.
Dar cabimento – Dar liberdade, intimidade.
Dar o grau – Caprichar ao fazer algo. “Eu vou dar o grau na sua casa”
Dar o prego – Enguiçar.
Dar pitaco – Dar opinião.
Dentequeiro – Dente siso.
Derradeiro – Último.
Derrubado – 1. Sem ânimo, doente; 2. Sem qualidade.
Desapartar – Separar.
Descansar – Parir, dar à luz.
Descatitar – Acelerar, correr.
Desembuchar – Confessar.
Desimbestar – Correr bastante.
Desmantelado – Maluco, muito doido.
Desmentir – Torcer o pé.
Desmilingüido – Muito magro, sem força.
Destrocar – Trocar dinheiro.
Deu um revestrés no buxo – Deu uma dor de barriga repentina.
Din-din – Sacolé, chupe-chupe, gelinho.
Dirlechado – Desorganizado, sem cuidado.
Doidim – Doidinho, pessoa simpática meio amalucada.
Dor de viado – Dor no baço.
É caixão! – É difícil, complicado.
É um porre! – Chato, péssimo.
Eita piula! – Interjeição de espanto.
Em riba – Em cima.
Embuchar – Engravidar.
Emburrado – Chateado, de cara feia.
Empanzinado – Quem comeu demais.
Encalifado – Desconfiado.
Encangado – Em cima, montado.
Encruado – Aquele que não cresceu.
Enfadado – Cansado.
Enfezado – Com raiva.
Engilhado – Enrugado.
Enguiçado – Quebrado.
Enredar – Entregar alguém. “Meu irmão me enredou para minha mãe”.
Ensacar – Pôr a blusa dentro da calça.
Entojo – Enjôo.
Enxerido – Assanhado.
Esbugalhado – De olhos bem abertos.
Escanchado – Montado em algo ou alguém.
Escangalhado – Quebrado.
Escapulir – Escapar, fugir.
Esgotar – Secar a fossa.
Esmolé – Mendigo.
Esmulecer – Desanimar, esmorecer.
Espichado – Esticado.
Espragatado – Pisado, amassado.
Estatalado – Caído e todo quebrado.
Estribado – Pessoa com muito dinheiro.
Estribuchar – Debater-se.
Estrompado – Arrombado, arregaçado.
Eu cegue – Eu aposto, eu dou minha palavra.
Farda – Uniforme escolar.
Fastiado – Sem fome.
Fazer sabão – Sexo entre lésbicas. “As duas estavam fazendo sabão lá na casa de praia”
Fechar a prova – Acertar toda a prova.
Fechicler – Zíper de calças, bolsas etc.
Fez mal – Engravidou alguém.
Filé de borboleta – Pessoa muito magra.
Folote – Folgado.
Frangote – Moleque, adolescente.
Frechado – Chato.
Friso – Grampo de cabelo.
Frivião de gente – Multidão.
Fuá – Um cantinho bagunçado.
Fubento – Sem cor, desbotado.
Fuinha – Rostinho engilhado.
Furdunço – Bagunça.
Furnido – Forte, robusto.
Gaia – Chifre.
Galalau – Rapaz alto.
Gale não – “Não faça essa sacanagem”.
Galinha à cabidela – Galinha ao molho pardo.
Gastura – Enjôo, mal-estar.
Ginga – Manjubinha, tipo de peixe.
Godela – Conseguir algo sem pagar.
Goipada – Cuspida.
Gorado – Ovo estragado.
Grade – Caixa de cerveja.
Graxa – Molho de carne.
Grosso que nem parede de igreja – Pessoa grosseira.
Ingembrado – Torto.
Jerimum – Abóbora.
Leriado – Conversa fiada.
Marmotento – Pessoa cheia de manias.
Melado – Bêbado.
Môco – Surdo, mouco.
Mói de chifre – Corno.
Mundiça – Gente pobre, “povão”. “Na praia só tinha mundiça”
Não dá um prego numa barra de sabão – Não faz nada, é um preguiçoso.
Ova de Curimatã – Prato típico feito com curimatã, que é um peixe de água doce.
Paçoca – Carne seca socada no pilão com farinha de mandioca e temperos.
Papel de enrolar prego – Pessoa grosseira.
Pastorar – Vigiar. “Pastore aí meu carro”
Pé de pau – Árvore.
Peba – De má qualidade.
Pedir penico – Desistir.
Pelejar – Tentar várias vezes.
Queima raparigal! – Grito de guerra, incentivo para as meninas agitarem.
Quenga – Prostituta.
Sibite baleado – Pessoa pequena (“sibite” é um pequeno pássaro).
Sustança – Energia dos alimentos. “Rapadura tem sustança”.
Torei a arriata da minha chinela – Quebrei minha sandália
Triscar – Tocar. “O menino triscou no bolo”
Varapau – Homem alto.
Vexado – Apressado.
Vexame – Aperreio, confusão.
Vigi! – Por pouco, quase!
Visse? – Certo? OK?
Vogar – Valer.
Xanha – Coceira na pele.
Xeleléu – Puxa-saco.
Xôxa – Sem graça, sem futuro.
Zambeta – De pernas tortas.
Zonar – Zombar, tirar um sarro, curtir com o outro.
Zuadento – Barulhento.

Fonte:

http://www.nataltrip.com/termos_regionais/Z

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Curiosidades de Nosso Brasil (Rio Grande do Norte)

O ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE

O Rio Grande do Norte é uma das 27 unidades federativas do Brasil. Está localizado na Região Nordeste e tem como limites a norte e a leste o Oceano Atlântico, ao sul com a Paraíba e a oeste com o Ceará. Ocupa uma área de 52.796,791 km², sendo pouco maior que a Costa Rica. Sua capital é a cidade de Natal. As cidades mais populosas são: Natal, Mossoró, Parnamirim, São Gonçalo do Amarante, Ceará-Mirim, Macaíba e Caicó. O território apresenta um relevo modesto, com mais de 80% de sua área possuindo menos de 300m de altura. Mossoró, Apodi, Açu, Piranhas, Potenji, Trairi, Jundiaí, Jacu, Seridó e Curimataú são os rios principais. Veja lista de rios do Rio Grande do Norte.

Embora o maior litoral dentre os estados brasileiros seja o da Bahia, o Rio Grande do Norte é o com maior projeção para o Atlântico, já que se situa em uma região onde o litoral brasileiro faz um ângulo agudo, a chamada “esquina do Brasil”. Foi por esse motivo, que os americanos decidiram estabelecer uma base aérea no estado durante a Segunda Guerra Mundial. Tal base, de tão importante que foi para o sucesso no desembarque na Normândia, foi apelidada na época de “Trampolim da Vitória”, devido ao grande “salto” que ela proporcionou para a frente aliada.
É impossível fixar com segurança a época exata em que foram pela primeira vez avistadas as costas do Rio Grande do Norte, e bem assim quem as avistou, sendo, como é, certo que antes de Cabral outros navegantes, de cujas viagens poucos conhecemos que haviam percorrido o litoral do Brasil, principalmente em sua parte setentrional e dentre os que o fizeram, são hoje constantemente apontados Alonso de Hojeda que em fins de Junho de 1499 navegando em companhia dos célebres pilotos Juan de La Cosa e Américo Vespucio, se encontravam com a terra na latitude de cinco graus ao sul da equinocial.

Vicente Pinzon que tinha como companheiro Colombo e o Capitão Nina em Janeiro de 1500 chegaram a um cabo que lhe denominaram de Santa Maria de La Consolacíon.
Se dirigiram para noroeste, passando além da foz do rio Amazonas. Posteriormente à notificação oficial do descobrimento do Brasil ao governos da Europa e atendendo aos pedidos da carta de Pero Vaz de Caminhas, foi enviada a primeira expedição portuguesa ao território brasileiro no ano de 1501, que ficou conhecida como a expedição exploradora de 1501 comandada por Gaspar de Lemos com a ajuda de Américo Vespucio que chegou à 16 de Agosto ao Cabo de São Roque na praia dos Touros, onde fixaram um marco de posse portuguesa em pedra branca contendo os brasões de Portugal.

A esta se seguiram muitas outras expedições portuguesas e espanholas ao Brasil, em diferentes viagens de exploração para a América Central, para o rio da Prata e para as Índias. E as expedições francesas que logo após a descoberta do Brasil começaram a tomar conhecimento das terras e de seus habitantes com os quais traficavam o pau-brasil até o falecimento de Dom Manuel, em 1521. Os contrabandistas franceses aproveitaram o intuito mercantil dos índios, estabeleceram estações de permuta nos portos visando lucros imediatos e especulações rendosas, e para combater-lhos, em 1530, Portugal enviou a primeira expedição colonizadora sob o comando de Martins Afonso de Souza.
Em 1532, o rei Dom João III resolveu dividir o Brasil em 15 lotes e entregá-los a 12 donatários, e na divisão das capitanias hereditárias, coube ao honrado Feitor da Casa de Mina e da Índia João de Barros através de uma carta de doação a do Rio Grande do Norte com 100 léguas de costa que ia da baia da tradição até as proximidades do rio Jaguaribe, a qual foi aglutinada com 50 léguas doadas a Aires da Cunha e 75 léguas doadas a Fernão Álvares de Andrade que perfizeram um total de 225 léguas de terras, e que devido a sua impossibilidade de participar da empreitada de ocupação de sua capitania em virtude de suas atividades burocratas nas cortes portuguesas, João de Barros autorizou que os seus filhos João e Jerônimo partissem de Lisboa no mês de novembro de 1535 com destino a capitania de Pernambuco onde receberam eficaz auxilio de Duarte Coelho e rumaram para a capitania do Rio Grande com o propósito de fundarem uma colônia.
Entretanto ao desembarcarem no Rio Grande encontraram forte oposição dos índios potiguares unidos aos corsários franceses.
Devido aos constantes ataques sofridos e pelas grandes perdas de colonos sofridas, resolveram partir do Rio Grande com isto deram grandes oportunidades para que os corsários franceses contrabandeassem livremente o pau-brasil, e no exato momento em que os três caravelões da expedição rumavam para a capitania do Maranhão, acabaram se desgarrando e Aires da Cunha acabou encontrando subitamente a morte no naufrágio de sua embarcação, e após vagarem vários dias perdidos no mar, e que acabaram sendo socorridos por um navio espanhol que os levou à ilha de São Domingos no Caribe onde acabaram sendo retidos por muito tempo como colonos, João de Barros, só à custa de muito trabalho e de muitas despesas e que pode reaver os seus dois filhos, quase arruinado financeiramente e diante da idéia de não fundar mais vãs esperanças em vir a ser rico, e assim resignou inteiramente toda a idéia de ser senhor donatário do Brasil, e o seu insucesso teve como conseqüência o abandono da donatoria e, mais tarde, a sua reversão à coroa portuguesa, que após ter explorado o litoral e as costas, precisavam firmar de vez os seus domínios ocupando a capitania, e com a consolidação da Paraíba e o interesse que já então despertava todo o norte do litoral brasileiro sob constantes assaltos de diversos povos estranhos especialmente dos franceses, que depois de expulsos do sul se voltaram para o comércio na região, especialmente a capitania do Rio Grande através da aliança firmada com os índios potiguares.
Em 1580, Portugal passou para o domínio espanhol, devido a problemas de sucessão após a morte do Cardeal Dom Henrique, e durante o período que ficou conhecido como união das coroas foi que o Rei da Espanha Felipe II mandou fundar o forte dos Reis Magos
E ao iniciar o seu governo no Brasil, em 1591, Dom Francisco de Souza, julgou imprescindível a conquista da capitania do Rio Grande do Norte, depois de reiteradas ordens da metrópole através das cartas régias de 1596 e 1597 para evitar a presença francesa na região foi que o governador geral organizou uma expedição armada, cabendo ao Capitão-mor de Pernambuco Manuel Mascarenhas Homem com ajuda de Feliciano Coelho que organizaram uma frota composta de seis navios e cinco caravelões sob o comando do Capitão-mor Francisco de Barros Rego que tinha em sua companhia o Almirante Antônio da Costa Valente e os Capitães João Paes Barreto, Francisco Camelo, Pedro Lopes Camelo e Manuel da Costa Calheiros que se juntaram a frota organizada na capitania da Paraíba, e por terra seguiram três companhias sob o comando dos Capitães Jerônimo de Albuquerque, Jorge de Albuquerque e Antônio Leitão Mirim e uma brigada de cavalaria sob o comando de Manuel Leitão, que levaram consigo o Padre Gaspar de São João Peres, que por ser grande arquiteto e engenheiro estava encarregado de traçar a fortaleza e a povoação, frei Bernardino das Neves grande perito na língua brasílica, e muito respeitado entre os índios potiguares que enfrentaram durante a marcha uma epidemia de varíola, que contaminou e dizimou muitos integrantes da expedição que devido ao fato teve que retornar. Quando ao chegar ao porto de Búzios a bordo de caravelão, o Capitão-mor Mascarenhas junto ao Capitão Jerônimo de Albuquerque avistaram algumas embarcações francesas comerciando junto aos índios potiguares imediatamente ordenou que se fizessem a abordagem e iniciasse a luta, que se desenrolou num clima de muita violência, da qual os franceses acabaram fugindo ao serem derrotados. De imediato Mascarenhas ordenou que fizessem um reconhecimento do local e atracou a armada, desembarcou o seu pessoal para dar inicio de imediato a construção de um abrigo seguro contra os ataques dos índios potiguares. Não tardou muito dias para que os potiguares acompanhados de alguns franceses que haviam ficado das naus do porto de Búzios, atacassem a fortificação, a qual sustentou o ataque inimigo com um violento contra ataque do qual os atacantes foram obrigados a recuarem desordenadamente e após a batalha da qual resultou em um grande número de perdas para ambos os lados, surgiu no rio uma jangada com o índio Surupibeba que vinha pregar a paz, de imediato os soldados do Capitão-mor Mascarenhas o prenderam e o levaram a sua presença, e que por persuasão dos padres da companhia, o Capitão-mor Mascarenhas soltou o índio na promessa que o mesmo traria todo o gentio de paz, apesar da opinião contraria do Frei Bernardino, que conhecia bem os índios potiguares, que um dia atacaram Bento da Rocha e sua patrulha dentro de um mangue, que ao se ver emboscado de imediato mandou pedir socorro a Mascarenhas, e com o decorrer do tempo os assédios dos potiguares se tornaram freqüentes, acabando por colocar em perigo a construção do forte. Em vista do perigo, Feliciano Coelho partiu em socorro da Paraíba na companhia dos Capitães Antônio Valadares e Miguel Álvares Lobo que no caminho atacaram algumas aldeias potiguares. Com o socorro recebido da Capitania da Paraíba, Mascarenhas tratou de acabar com a construção do forte e organizou uma expedição que atacaram uma aldeia potiguar perto da construção, e ao termino da obra do forte ele foi intitulado como Forte dos Reis e o seu comando foi entregue a Mascarenhas e a Jerônimo de Albuquerque, que logo após a partida de Feliciano Coelho foi atacado pelos índios potiguares em uma batalha sangrenta, onde a valentia do índio Tavira e de seus companheiros sustentaram a posse do Forte dos Reis até a chegada dos Capitães Rui de Aveiro e Bento da Rocha e seus soldados que forçaram os potiguares a desistirem da luta, porém alguns dias depois os potiguares retornaram a cercar o forte com um número bem maior que a guarnição ali estacionada, porém o soldado Henrique Duarte que era natural de Serra da Estrela defendeu o forte até a chegada do Capitão Bento da Rocha que foi morto na luta. Diogo de Siqueira, alferes do Capitão Rui de Aveiro Falcão ao ver a bandeira de Bento da Rocha jogada ao chão, a levantou, e se pôs a florear com ela no campo da luta entre as flechas dos potiguares em uma carga contra os atacantes, que fugiram desordenadamente do campo de batalha, e que pelo seu gesto foi agraciado pelo Capitão-mor Mascarenhas com o hábito de cavaleiro. Após a batalha onde se feriram o Capitão Miguel Álvares Lobo, Diogo Miranda, e deixaram muitos mortos estava concretizada a conquista da capitania do Rio Grande e a partir deste momento ia começar a obra de colonização, quando Capitão-mor Feliciano Coelho se foi com os seus para Pernambuco.
Diz a lenda que Jerônimo de Albuquerque, chegou a Pernambuco na companhia de seu cunhado Duarte Coelho, e que no final do ano de 1547 distinguiu-se nas famosas lutas que se seguiram ao início da colonização após ter derrotado os invasores de Olinda e Iguaraçu e que em Janeiro de 1548, caiu em poder dos indígenas que o condenaram ao sacrifico de antropofagia, todavia a filha de Arco Verde (Ubirã-Ubi), chefe da horda vencedora ao se apaixonar por Jerônimo de Albuquerque, conseguiu de seu pai o perdão do cativeiro e à vingança dos seus subordinados, e desta maneira “o rei do coração da enamorada filha do morubixaba” dominou por ela os selvagens, que vivendo em paz duradoura, deram mais tarde aos portugueses um apoio decisivo na conquista de todo o norte. Jerônimo de Albuquerque ao se casar com a filha de Arco Verde que ao se batizar recebeu o nome de Maria do Espírito Santo e que teve como filhas Catarina de Albuquerque que se casou com o fidalgo florentino Felipe Cavalcanti e, Brites de Albuquerque que se casou com o também fidalgo florentino Sibaldo Lins.
Jerônimo de Albuquerque que se tornou o primeiro Capitão-mor do Rio Grande e o conquistador do Maranhão, que cursou as aulas do Colégio dos Jesuítas em Olinda, onde aprendeu toda a sua instrução literária sem jamais esquecer a sua língua primitiva Tupi, que foi a de sua infância.
Nesta época os potiguares ocupavam a região do litoral compreendido entre os rios Paraíba e Jaguaribe, senhoreando portanto as costas do Rio Grande e com eles e que se deram os primeiros atritos dos colonizadores.
Nação forte e poderosa, inimiga dos Tabajaras e grande aliada dos franceses que os estimulavam para a guerra. Submetê-los era uma necessidade; apesar de não uma tarefa muito fácil, e para isto Jerônimo de Albuquerque tentou realizá-la com o auxilio do grande feiticeiro Ilha Grande que se encontrava preso e que dispunha de grande influência entre os indígenas e por conta disto Jerônimo de Albuquerque mandou solta-lo e que fosse induzir a paz entre os potiguares, que para os quais Ilha Grande falou-lhes a linguagem da prudência, os convencendo a conveniência de cessarem as hostilidades contra os portugueses. Dom Francisco de Souza ao se sentir tranqüilo quanto aos índios em conseqüência das pazes com eles celebradas, imediatamente determinou que a paz fosse solenemente celebradas e que Jerônimo de Albuquerque fundasse uma povoação nas proximidades do Forte dos Reis que tomou em 25 de Dezembro de 1599 o nome da Cidade de Natal, e em Janeiro de 1600 o Governador Geral Dom Francisco de Souza nomeou João Rodrigues Calaço para exercer os cargos de comandante do forte e capitão-mor que eram ocupados por Jerônimo de Albuquerque por delegação de Manuel Mascarenhas, e ao ser investido em suas funções,
João Rodrigues Calaço de acordo com as ordens do Governador Geral Dom Francisco de Souza imediatamente tratou de povoar o solo e de incentivar o cultivo das terras da capitania para a consolidação da conquista com largas concessões de sesmarias que atingiram pelo lado do sul o rio Curumatáu onde a corrente colonizadora era natural e lógica devido a derrota e expulsão dos potiguares e dos franceses, e pelos pontos já explorados pelas colunas expedicionárias de Feliciano Coelho e de Manuel Mascarenhas e pelo norte não iam além de duas a três léguas do Forte dos Reis, e para o seu desenvolvimento era necessário grandes esforços de seus conquistadores, e para o interior, estendiam-se ao longo das margens dos rios, e na cidade de Natal poucos foram os colonos que requereram as sesmarias do sitio da cidade e por conta disto pouco progrediu, e durante o seu governo Calaço teve em sua capitania um português que fora degredado para o Brasil pelo bispo de Leiria, que escreveu em sua sentença “vá para o Brasil donde tornará rico e honrado”.
Entre três de Julho e oito de Agosto de 1603 Jerônimo de Albuquerque retornou ao Brasil, após ter viajado para Lisboa onde pleiteou o cargo de capitão-mor efetivo e assumiu o exercício de suas funções por um período de seis anos, prazo este que excedeu, em virtude da patente real, com isto teve o tempo necessário para tomar mais fecunda a sua ação, a qual soube aproveitar maravilhosamente pois ordenou que percorressem todo litoral para o norte até às salinas de Macau, explorou a costa sul e organizou expedições exploradoras ao interior, e desta época e que se tem conhecimento dos primeiros engenhos de açúcar na capitania, os quais foram fundados nas sesmarias que Jerônimo de Albuquerque havia concedido a seus filhos Antônio e Matias Albuquerque em dois de Maio de 1604, as quais compreendiam cinco mil braças quadradas na várzea do Cunhaú e duas léguas na localidade de Canguaretama e que posteriormente foram consideradas como exorbitantes pelo rei, que por provisão de 28 de Setembro de 1612 mandou que fossem reduzidas pela metade apesar de Alexandre de Moura Capitão-mor de Pernambuco e o ouvidor que o executaram o cumprimento legal em 1614 de terem encontrado o engenho construído e as terras cultivadas, porém anos a metrópole reconsiderou o que fora disposto na citada provisão e confirmou integralmente a concessão primitiva pelo alvará de dois de Agosto de 1628.
Jerônimo de Albuquerque que mantinha a máxima preocupação em fortalecer a aliança com os índios potiguares, de alargar a área da colonização da capitania, e devastar o sertão e de concorrer para que as armas portuguesas levassem além das fronteiras de sua capitania em busca do extremo setentrional o prestigio de seu valor, viu em um de Abril de 1602 Dom Diogo Botelho assumir o governo geral do Brasil e ser substituído de seu cargo em 1607 por Dom Diogo de Meneses e Siqueira, que durante o seu governo se deu a nova divisão da colônia em dois governos gerais, quando ficou em sua jurisdição as capitanias do norte as quais administrou de maneira hábil, enérgico e operoso, o qual foi de grande importância para Jerônimo de Albuquerque pela assistência solicita que lhe dispensou, e através de uma carta patente de 21 de Agosto de 1609 Lourenço Peixoto Cirne assumiu o governo do Rio Grande no lugar de Jerônimo de Albuquerque até o ano de 1613 quando Francisco Caldeira Castelo Branco assumiu o governo da capitania e fez algumas concessões de sesmarias no sitio da cidade para aqueles que as quisessem povoar e cultivar as terras, todavia o seu governo não foi além de Junho de 1615, devido ter sido comissionado por Dom Gaspar de Souza para seguir no comando de uma frota armada em socorro a capitania do Maranhão aonde chegou em Santa Maria de Guaxemduba para firmar a trégua com La Ravardiere e dali seguiu para tratar dos negócios do governo em Portugal. E o seu sucessor a frente da capitania Rio Grande foi Estevão Soares de Albergania que permaneceu até 1617 quando foi substituído por Ambrósio Machado, que em sua administração terminou as obras da igreja matriz da capitania que havia sido iniciada nos tempos da conquista, e que no ano de 1621 foi substituído por André Pereira Temudo que em 1623 foi sucedido por Bernardo da Mota que não chegou a governar a capitania e seu substituto foi Francisco Gomes de Melo que em 1624 achava-se em Lisboa, quando da ocupação da Bahia pelos holandeses, fato este que alarmou o governo e o povo, por ser uma ameaça a todas as colônias espanholas e portuguesas da América, e para isto foi armada uma poderosa esquadra sob o comando de Dom Fradique de Toledo para socorrer a Bahia e as demais praças que se encontravam desaparelhadas para a resistência.
Em 26 de Maio de 1625 o Almirante holandês Hendriksoon, ao chegar a Bahia com uma poderosa esquadra para reforçar os seus compatriotas que ocupavam aquela cidade, obteve a noticia de que os forças holandesas ali estacionadas haviam se rendido
E que a cidade da Bahia estava em poder das forças restauradoras do domínio português; imediatamente o almirante batavo seguiu para o norte até a baia da Tradição onde fundeou sua esquadra e organizou diversas explorações pelo litoral até atingir o Engenho Cunhaú; ao ser informado das incursões holandesas à capitania do Rio Grande Matias de Albuquerque imediatamente ordenou que providenciasse o desalojamento dos batavos, e no ano de 1630 Pedro Mendes de Gouveia substituiu Domingos da Veiga Cabral que governava interinamente a capitania do Rio Grande, onde a corrente imigratória estava definitivamente encaminhada com persistentes e intensos trabalhos de desbravamento do solo pelos colonos em seus novos habitat, e as criação prosperando por todas as partes e os engenhos Ferreiro Torto e Cunhaú produzindo açúcar a todo vapor no principal núcleo de população da capitania onde viviam em relativa harmonia com os índios potiguares onde se constituía uma freguesia com juiz, câmara, escrivão e procurador do conselho, escrivão da fazenda e almoxarife procurador dos índios e escrivão das datas e demarcações, embora imperfeito também dispusesse de um aparelho governativo do qual era chefe o capitão-mor que também era o comandante do Forte dos Reis, e durante o seu governo a sua capitania foi ocupada em 1633 pela frota holandesa comandada pelo Almirante Linchthardt.
O abandono em que permaneceu o território do Brasil, logo após o seu descobrimento, desafiou a cobiça dos aventureiros e especuladores que procuraram lucrativas vantagens nos contrabando nas costas brasileiras.
Muitas vezes danosas, mas delas resultaram alguns benefícios como o conhecimento da terra ao percorrem o extenso litoral brasileiro obtendo roteiros seguros para a navegação, por outro lado não se pode dizer do corso, que acompanhando as alternativas e vicissitudes da política européia, que apesar de estar estabelecida desde o século XVI como medida de guerra, a que recorriam as nações que se achavam em lutas no continente, onde de disputavam o domínio dos mares, a fim de ferirem o inimigo em seus interesses comerciais, ele perdeu bem depressa esse caráter para ser uma constante ameaça às colônias e fonte de sobressaltos e inquietações para os seus habitantes, devido as diversas expedições organizadas com o objetivo de invadir e assaltar as povoações dos territórios desguarnecidos onde sempre pretendiam um quinhão na partilha das terras descobertas.
E em todas estas histórias dos primeiros tempos atesta essa tendência de vários povos que entre eles se destacaram os navegadores ingleses que não chegaram a exercer jurisdição territorial efetiva; mas de suas façanhas, e que culminaram nas crueldades de Thomas Cavendish
As quais ficaram-nos tristes e dolosas recordações, com os piratas franceses, que chegaram a constituir sério perigo à consolidação do domínio português, os quais foram obrigados a lutar para expulsarem a força do sul e do norte.
Todavia o que mais perturbaram a obra da conquista foram os holandeses, em cuja expulsão se desenvolveram prodígios de valor e de coragem em combates gloriosos e inolvidáveis. Com uma população de alguns milhões de habitantes que se estendiam pela região litorânea do mar do norte em diversos principados e soberania que eram regidos por leis e costumes particulares, assim e que se constituíam os países baixos, ligados sob o cetro dos Duques de Borgonha desde o século XIV, que após a morte de Carlos o Temerário na batalha de Nancy em 1477 passou à sua filha e herdeira única a Duquesa Maria, que, para resistir aos poderosos inimigos de sua dinastia, procurou amparo da Casa d`Áustria ao se casar com Maximiliano que subiu ao trono da Alemanha em 1493 e entregou o governo dos estados que Dona Maria trouxera em dote, a seus filhos Felipe e Belo, e no decorrer dos tempos o Rei Carlos V imperou na Alemanha e nos países baixos e nas duas Sicília e na Espanha, e por ocasião de sua abdicação em 1556 coube a seu irmão Fernando a coroa da Alemanha ficando o seu filho Felipe II os demais estados sobre os que reinava, e devido a grande rivalidade da igreja, trouxe os dissentimentos políticos; e a guerra da independência neerlandesa alimentada pela diversidade de crenças religiosas acabou por dilata-la por diversos anos até que o Tratado de Vestefália veio acabar com a rivalidade definitivamente em 1648. E durante essa guerra e que os holandeses hostilizaram mais vivamente as possessões ultramarinas da Espanha e de Portugal .
No período de 1580 a 1640 Portugal que estava sob o domínio espanhol, sofreu severas agressões por parte dos holandeses que invadiram o Brasil para garantir o comércio de açúcar, o qual dominavam em grande parte na Europa
Vencidos na Bahia, os holandeses foram tentar melhor fortuna em Pernambuco, quando a Companhia das Índias Ocidentais organizou uma poderosa armada que invadiu o grande centro açucareiro da época através da esquadra comandada por Weerdenburgh, que após 21 anos de domínio, em que de proveito nada fizeram, a não ser as lembranças deixadas pelas horríveis crueldades que os holandeses marcaram a terrível dominação chefiada pelo fiscal holandês Jacó Rabi. E com a resistência iniciada por Matias de Albuquerque e o apoio recebido da esquadra espanhola comandada pelo Conde Bagnuolo que trouxe em sua companhia Duarte de Albuquerque Coelho, que vinham comboiada pela esquadra do comandante Dom Antônio Oquendo que aportaram na Bahia em 13 de Julho de 1631, e que após desembarcar os reforços para aquela capitania, levantou ancora e seguiu à caça da frota holandesa do Almirante Adriaen Jancz Pater com quem se confrontou e venceu em um dos mais importante feito da época no dia 12 de Setembro de 1631. Com o grande triunfo obtido por Oquendo, além de privar o inimigo de um de seus mais bravos e destemido almirante que sucumbira na luta, e por este motivo, acabou levando aos holandeses ao abandono da Vila de Olinda e desviarem as suas incursões para rumos diferentes.
E por conta disto, em principio de Dezembro, acabaram se dirigindo para Paraíba onde foram violentamente repelidos com grandes perdas, após violentas refregas que os fizeram embarcar apressadamente para Pernambuco
De onde partiram no dia 21 de Dezembro sob o comando do General Teodoro Weerdenburgh para apoderar-se do Rio Grande do Norte, e que ao chegarem encontraram Matias de Albuquerque Maranhão, que ao ser informado dos planos dos invasores, se colocou a frente de três companhias em defesa da capitania, e no dia 5 de Dezembro de 1633 uma poderosa frota sob o comando do Almirante Lichthardt que transportava uma força de desembarque composta de 808 homens distribuídos em oito companhias e que levava embarcado o Delegado Van Ceulen que era um dos diretores da Companhia das Índias Ocidentais e que se fez ao mar com destino ao Rio Grande do Norte para o ataque ao Forte dos Reis Magos. Pelas 7 horas da manhã do dia 8 a esquadra confrontou-se com Ponta Negras e aproando à terra, transpôs a barra de Natal junto ao forte, cujas artilharia tentou inutilmente impedir a entrada da esquadra, enquanto o Almirante Lichthard sem grande dificuldade apoderou-se de duas caravelas portuguesas e ordenou a ocupação das dunas entre os povoados e o forte por uma companhia comandada pelo Major Vries, que de imediato iniciou a marcha sem encontrar qualquer tipo de resistência até penetrar no interior do povoado de Natal, que foi tomado sem qualquer ato de defesa, e após se estabelecerem os holandeses de imediato avançaram sobre o forte dos Reis Magos quando expediram algumas expedições exploradora ao longo do rio, que fizeram contato com os índios inimigos dos portugueses com intuito de firmarem uma aliança e ajudasse a estabelecer o sitio, e nas proximidades da Ponta do Morcego após ligeiras escaramuças, acabaram obtendo importantes informações sobre as condições de segurança do Forte dos Reis Magos, através de alguns prisioneiros.
Os batavos ao se estabelecerem em terra com um grande efetivo, montaram suas baterias nas colinas e dunas próximas ao forte, e devido a sua poderosa esquadra que estava preparada para atacar no momento desejado; entretanto para demonstrar lealdade militar, eles dirigiram ao Capitão-mor Pedro Mendes de Gouveia, uma carta ponderando que estavam dispostos a se apoderarem da fortaleza, porém não queriam atacar sem antes oferecer-lhes as melhores condições, caso se resolvesse a entregá-la. E como resposta, o capitão-mor Paulo Mendes de Gouveia lembrou que o forte estava confiado a sua guarda pelo rei de Portugal e só a ele ou a alguém de sua ordem, e que o forte seria entregue e a mais ninguém, pois preferia perder mil vidas a fazei-a entrega do forte. Pouco depois rompia o fogo entre o forte e as baterias holandesas de terra, secundadas pelos canhões dos navios de guerra em uma vigorosa batalha que durou mais de três horas, que após uma breve trégua, imediatamente recomeçaram o bombardeio com o mesmo rigor e intensidade do qual acabou causando graves danos a resistência do forte após árdua batalha até ao cair da noite, quando os holandeses se aproveitaram do enfraquecimento da resistência e suspenderam o bombardeio e passaram a noite se reforçando com mais um trincheira com os armamentos desembarcados. E ao amanhecer do dia, a guarnição do Forte dos Reis ostentou sobre os muros uma bandeira branca, e logo a seguir encaminharam um soldado com uma carta sem a assinatura do Capitão-mor Paulo Mendes de Gouveia que se encontrava gravemente ferido, aos comandantes holandeses solicitando para parlamentarem a respeito de um armistício, fato este que levou a Ceulen a não querer receber a carta encaminhada pelos sitiados, porém devido as alegações apresentadas pelo portador, de que, os que haviam assinado a carta se comprometiam em entregar o Forte dos Reis Magos após realizarem o acordo.
Após algumas ponderações o comandante Ceulen de imediato concedeu aos sitiados o armistício e concedeu um salvo conduto para quem fosse designado a acertar os detalhes da rendição, e para isto os portugueses enviaram o Capitão Sebastião Pinheiro Coelho e um ajudante, que após um breve debate acertaram que seria permitido que todos os soldados saíssem com as suas armas e bagagens do forte e que fossem conduzidos rio acima para Potigi, e que deveriam deixar a pavilhão do forte ao se retirarem. Assim que foi firmada a capitulação do Forte dos Reis Magos, de imediato foi expedido uma ordem para que navios holandeses se aproximarem do Forte dos Reis Magos a fim de receberem os soldados portugueses. Logo após ter sido efetuado o embarque de todos os soldados portugueses,
O Tenente-coronel Ceulen e o Comandante Carpentier de imediato penetraram no interior do forte, onde encontraram gravemente ferido o Capitão-mor Paulo Mendes de Gouveia, que ao entregar as chaves do forte em muito se queixou de que os seus soldados haviam entregado o forte contra a sua vontade.
Ao tomar o forte, o Tenente-coronel Ceulen de imediato tratou de conquistar a capitania, e para isto no dia seguinte a capitulação ordenou que os Capitães Maulpas e Hendrick Frederick seguissem até Jenipabu que ficava ao norte das proximidades da cidade de Natal, para efetuarem um expedição exploradora e que ao retornarem trouxeram algumas cabeças de gado para o abastecimento das forças de ocupação holandesas, e devido ao êxito alcançado na missão, o Tenente-coronel Ceulen de imediato organizou uma expedição com destino ao interior sob o comando do Major Cloppenburch que levou em sua companhia o Capitão Felior e o Capitão-tenente Cornélio Van Uxsel que seguiram pelo rio até o Passo do Potigi onde desembarcaram e seguiram por terra até a uma planície onde foram violentamente atacados pelos inimigos que com o decorrer da luta se puseram em fuga. E no prosseguimento da marcha, chegaram a um pântano nas proximidades do Engenho Ferreiro Torto que pertencia a Francisco Coelho, e que se localizava na margem direita do rio Jundiaí a uma pequena distância de Macaiba, onde foram violentamente repelidos.
Os holandeses sem desistir de seus sombrios e tenebrosos planos de dominação, foram buscar ajuda junto aos índios Tapuias das ferozes tribos dos Junduís que habitavam as ribeiras dos rios Jaguaribe e Açu
E que desceram ao primeiro chamado dos holandeses nos impulsos de suas barbaria estimuladas pela perversidade de seus requintes selvagens de Calabar sobre o engenho onde o Capitão Francisco Coelho e todos que ali haviam se refugiado acabaram sendo mortos com a mais revoltante crueldade. Logo após a conquista do Engenho Ferreiro Torto, Ceulen despachou para as autoridades em Recife o navio De Spieringh que era comandado pelo Capitão Jan Jansen Noorman com as noticias dos triunfos alcançados e transferiu o seu acampamentos para a cidade de Natal e deixou no Forte dos Reis Magos para sua defesa apenas uma companhia sob o comando do Capitão Gartsmann e tomou a resolução de fazer retornar a esquadra e as forças desnecessárias para Pernambuco.
A tarefa de conquistar a Capitania do Rio Grande do Norte estava realizada, e a partir deste momento passou a pesar a intolerante e desumana tirania militar que oprimiria, mais tarde a pequena população de colonos, dizimando-a em horríveis carnificinas praticadas após despojá-la pelos saques e roubos de seus poucos bens, e para isto o Capitão Gartsmann contava com o valioso auxílio das tribos indígenas aliadas, cujas proezas ficaram assinaladas pelos surtos de inenarráveis vandalismo praticado nos dois assaltos executados ao Engenho Ferreiro Torto, e ao ataque praticado junto ao Engenho de Cunhaú, quando surpreenderam e aprisionaram o Capitão Álvaro Fragoso junto com alguns de seus homens, após perder muitos de seus soldados na sangrenta luta realizada. Estando os holandeses, senhores da cidade de Natal e de terem destruídos os principais núcleos de população que eram os Engenhos de Ferreiro Torto e de Cunhaú, os invasores batavos puderam impor sem contrastes o seu inexorável jugo, dos quais os que não quiseram submeter-se ou pagaram com a vida pela sua rebeldia ou foram procurar abrigo no Arraial do Bom Jesus onde Matias de Albuquerque ainda se mantinha firme e inabalável na defesa da terra. O abandono da Capitania do Rio Grande do Norte seguir-se-ia meses depois, a capitulação da Paraíba e os repetidos desastres dos pernambucanos os quais acabaram forçando a retirada de todos para a Capitania de Alagoas, porém ao se aproximarem de Porto Calvo o confronto se tornou inevitável contra a forte e aguerrida guarnição holandesa do Comandante Picard, que após rigorosas escaramuças e sangrentas refregas, onde foi decisivo o auxilio de Sebastião de Souto para a rendição e capitulação que foi concedida ao Comandante Picard sob a condição de seguir com a sua gente para a Capitania da Bahia de onde foram conduzidos a Holanda. E desta capitulação, Calabar foi excluído, para ser sumariamente condenado a morrer enforcado e esquartejado como traidor aleivoso à sua pátria, logo em seguida as forças de Matias de Albuquerque deixaram a cidade de Porto Calvo, e três dias depois aquela vila que Duarte de Albuquerque denominara como Bom Sucesso era novamente ocupada pelos holandeses que haviam se refugiado em Pirapueira E em outros, obstando as comunicações com Pernambuco pela costa. Neste momento, as cortes de Lisboa reconhecendo a ameaça que a ocupação estrangeira representava para a integridade do domínio luso-espanhol, enviou uma expedição comandada por Dom Luis de Rojas y Borjas que ostentava o posto de mestre de campo e que deveria substituir Matias de Albuquerque no cargo de governador e superintendente na guerra. Esse socorro desembarcou em Jaraguá na capitania de Alagoas no dia 28 de Novembro de 1635 de onde seguiu para a capitania da Bahia conduzindo o novo Governador Geral Pedro da Silva que havia sido nomeado para suceder a Diogo Luis de Oliveira.
Dom Luis de Rojas y Borjas homem ardoroso e destemido, logo ao assumir o seu posto, foi morto no combate realizado em Mata Redonda e para substituí-lo foi nomeado o Conde de Bagnuolo que impulsionou a guerra contra os holandeses com bandos dirigidos por Felipe Camarão, Henrique Dias, Francisco Rebelo, Estevão Távora, Sebastião Souto e Vidal de Negreiros em incursões através de Serinharém, Ipojuca, Muribeca, Goiana, São Lourenço, Cabo, Itamaracá e outros povoados da região entre a Paraíba e Alagoas causando grandes inquietação entre os colonos que cansados de tanto sacrifício oscilavam indecisos entre os dois partidos em luta. Por este motivo os holandeses mudaram a maneira para de suas conquistas, de modo a torná-la compatível e conciliável com os sentimentos das populações conquistadas com o objetivo de consolidar a ocupação.
Diz a história que o Brasil holandês, que se principiou no ano de 1630 com a tomada de Olinda e do Recife e que terminou em 1654 com a capitulação nos Montes Guararapes. E com a chegada do Príncipe Maurício de Nassau o qual ocupou toda a costa do Rio Grande do Norte até ao Rio Formoso com sua administração que se iniciou no ano de 1637 e terminou no ano de 1642, e que verdadeiramente se iniciou o domínio holandês, quando tudo era desolação e miséria nas zonas conquistadas.
O Conde Maurício de Nassau para solucionar os problemas teve que ser severo para coibir os abusos, hábil para acalmar os espíritos, enérgico para estabelecer a ordem no serviço militar e civil.
E o que realçou o seu governo é a sua tendência liberal, foi o feitio de seu espírito sempre voltado ao culto pela natureza o seu amor apaixonado pelos mais elevados ideais da humanidade, e no ponto de vista militar, teve, a principio os maiores sucessos; mas a tentativa frustrada da tomada da Capitania da Bahia no ano de 1638, contribuiu decisivamente para amortecê-lo e para despertar nas cortes de Madri a necessidade de ser organizada uma poderoso esquadra com forças portuguesas e espanhola em socorro da colônia, a qual chegou em 23 de Janeiro de 1639 à cidade de Recife sob o comando do Conde da Torre Dom Fernando Mascarenhas, de onde obteve informações que a esquadra holandesa do Almirante Corneliszoon Loos se encontrava nas proximidades de Olinda,
E por conta disto o Conde da Torre imediatamente seguiu para aquele rumo e se encontrou com a esquadra holandesa na Ponta de Pedra em violenta batalha
Na qual o almirante holandês perdeu a vida. Jacob Huyghens Vice-almirante holandês ao assumir o comando da esquadra se defrontou com a esquadra do Conde da Torre ao norte de Goiana, nas costas da Capitania da Paraíba na altura de Cunhaú em um combate que se seguiu até a Ponta da Pipa, e que depois destas confrontações o Conde da Torre apesar de não ter tido nenhuma vitória decisiva, acabou abandonando o inimigo e fez-se ao mar. Luís Barbalho Bezerra ao desembarcar todos os seus soldados na localidade de Touros, imediatamente empreendeu uma marcha com destino a Bahia por caminhos totalmente desconhecidos e em territórios ocupados, até que sofrer a primeira resistência em Potengi por parte das tropas batavos comandadas por Gartsmann que a frente de seus soldados apoiados pelos índios Tapuias tentou impedir a sua marcha, e que ao derrotado acabou sendo conduzido a Capitania da Bahia. Novos obstáculos redobraram em seus caminhos, porém Barbalho comandando a sua tropa com grande fibra e decisão venceu as refregas que se sucederam nas localidades de Goiana e Serinhaém vingando em trucidações tão cruéis como as praticadas pelos invasores holandeses, até atravessarem o rio São Francisco e levar o reforço eficaz sob o seu comando até a Bahia.
A cinco de Junho, Dom Jorge Mascarenhas marquês de Montalvão assumiu o cargo de Vice-rei e Capitão-general de mar e terra e restauração da Bahia, ele foi o ultimo governador nomeado para o Brasil pelo rei Felipe IV, homem de grande valor que ao reconhecer a impossibilidade de auxiliar eficazmente os colonos de Pernambuco, acabou aceitando às tréguas que Maurício de Nassau insinuava aos padres e moradores católicos para tornar a guerra mais humana, essa trégua porém, mal encobriu o estado de hostilidade latente entre as duas partes envolvidas nas negociações, em virtude da desconfiança existente os contendores. Com a noticia chegada na Bahia em 15 de Dezembro de 1641 da restauração de Portugal, Dom Jorge Mascarenhas que antes já havia entrado em entendimentos com o Conde Maurício de Nassau sobre as incursões, viu a sua situação se tornar embaraçosa, devido ao seu desconhecimento a respeito das orientações que na Europa ditaria os atos do novo governo. E devido aos seus procedimentos perante aos holandeses, Dom Jorge Mascarenhas acabou desagradando aqueles que aspiravam à expulsão dos holandeses, e que por conta disto promoveram a sua substituição por uma junta composta pelo Bispo Dom Pedro da Silva e Sampaio, do Mestre de Campo Luís Barbalho Bezerra e do Provedor-mor Lourenço de Brito Correia com base nas intrusões trazidas de Lisboa pelo jesuíta Francisco de Vilhena, a deposição do Vice-rei Dom Jorge Mascarenhas, foi no entanto um desafogo de pequena duração, devido que ao fato de que o governo português precisava contemporizar com a Holanda, cujo interesse máximo era tirar proveito da situação e não restituir possessões, que naquele momento não poderiam ser reivindicadas pelas armas, por este motivo Portugal assinou um armistício por dez anos junto ao governo holandês, como reconhecimento das conquistas efetuadas pelos holandeses, que se valendo de vários pretextos e razões capciosas, acabaram se apoderando da Capitania de Sergipe e do Maranhão, assenhorearam-se de Luanda e da Ilha de São Tomé. Com essa expansão territorial o poder do governo holandês atingiu o seu apogeu, enquanto isto, em 26 de Agosto de 1642 chegava à Bahia o primeiro governador geral escolhido após a restauração, Antônio Teles da Silva que exerceu o mandado de seu cargo até 22 de Dezembro de 1647, no qual revelou grande méritos pessoais, quando soube aproveitar com rara habilidade a incapacidade da junta holandesa composta por Pieter Bas,Van Bulestrateu e Hamel que em seis de Maio de 1644 haviam substituído Nassau a frente do governo holandês na colônia.
Em Recife, dava-se o inicio as conspirações com Fernando Vieira reunindo os elementos necessários nos arredores da cidade em ações crescentes e avassaladoras que se avolumaram e alastraram-se de modo impetuoso, até que a conspiração foi denunciada, o que obrigou a que seus chefes se ocultassem nas matas existentes nas vizinhanças de Apipucos, Várzea e São Lourenço, de onde aguardaram a chegada dos negros do terço de Henrique Dias e os índios de Camarão e proclamaram o dia 13 de Junho para o inicio da sublevação organizada militarmente por Dias Cardoso com o apoio do Governador Geral Antônio Teles da Silva que em Recife desempenhava o seu papel de iludir as embaixadas que lhes eram enviadas com respeito as clausulas do tratado de armistício. No momento em que a junta holandesa em Recife, tomou conhecimento dos distúrbios existentes, de imediato expediu algumas expedições, para a Várzea seguiu sob o comando do Major Blaer, e para Ipojuca onde o proprietário do engenho Tabatinga Amador de Araújo havia se confrontado e vencido uma companhia de holandeses com Hendrick Van Haus a frente de um forte contingente, e para Paraíba e Rio Grande do Norte ordenou que Paul de Linge seguisse com a finalidade de manter a paz, quando os insurgentes fixados nos engenhos Camaragibe, Borralho e Maciape no interior da capitania rumavam para o engenho de São João de propriedade de Arnaldo de Holanda, de onde se dirigiram para o engenho Covas onde Dias Cardoso foi obrigado a conjurar o clima de dissentimentos pessoais reinava entre os chefes, e marcharam para os Montes das Tabocas no município de Vitória onde em três de Agosto se confrontaram e derrotaram em violentas lutas as poderosas forças do exército holandês comandado por Hendrick Vans Haus pelas magníficas manobras efetuadas por André Vidal de Negreiros e Martins Soares Moreno, e em assédios regulares, assaltos e batalhas campais que se estenderam de Pernambuco ao São Francisco os holandeses amargaram uma série de desventuras. Paul de Linge.
Para conservar o governo que lhe havia sido confiado, chamou em seu auxilio um grande número de índios selvagens é mortais inimigos dos portugueses que sob o comando de Jacob iniciaram as suas ferozes tropelias, quando invadiram à povoação de Cunhaú e convocaram os moradores para uma reunião na igreja, após a missa de domingo Jacob e os seus homens invadiram a igreja e massacraram todos ali presentes, inclusive o Padre André de Soveral, venerado e querido sacerdote, poupando da matança apenas as mulheres e as crianças que imediatamente espalharam a noticia do morticínio e, na Paraíba os moradores receosos da mesma sorte pegaram em suas armas sob o comando de Lupo Curado Garro, Francisco Gomes Muniz e Jerônimo Cadena que se juntaram a Antônio Vidal de Negreiros, Francisco Leitão, Simão Soares e Cosme da Rocha e os Capitães Couto do terço de Camarão e Henrique de Mendonça do terço de Henrique Dias que tinham a tarefa de organizar os sublevados em forças regulares com os armamentos que haviam levados de Pernambuco. Com o inicio da hostilização aos holandeses, Paul de Linge recolheu-se com suas tropas na fortaleza de Cabedelo, enquanto os índios aliados retrocediam para o Rio Grande do Norte onde iniciaram os seus ataques com grandes iras sangrentas e inominável perversidade, enquanto isto os moradores de Cunhaú se dirigiram em busca de abrigo na Paraíba e em Pernambuco onde se refugiaram no engenho de João Lostau Navarro onde se entrincheiraram ao construir um arraial, o qual em muito alarmou aos chefes holandeses que viram a possibilidade de ser aquele lugar um perigoso centro de resistência, e para isto de imediato o engenho foi violentamente assaltado por Jacob Rabbi e seus índios, que após sangrenta batalha onde empregaram todos os seus ardis, acabaram vencendo os sitiantes que receberam salvo condutos após entregarem as armas.
Os invasores holandeses que nutriam grande ódio dos colonos, e que os castigavam com horríveis carnificinas pelas suas rebeldia, em três de Outubro de 1645 por intermédio de João Bullestraten membros do supremo conselho que mantinha grande interesse nas cabeças de gados que povoavam as campinas rio-grandense.
Determinou que todos os colonos que se encontravam na fortaleza do Rio Grande do Norte fossem enviados rio acima para a localidade de Uruaçú sob a proteção holandesa contra os índios potiguares e tapuia e que ao chegarem, imediatamente receberam ordem de se despir e pôr-se de joelhos, e foram entregues aos bárbaros selvagens que os trucidaram. O aniquilamento da população que começava a desenvolver-se, serviu para que os holandeses ficassem senhores daquelas paragens, e livre por algum tempo da concorrência impertinente e incomoda na capitania do Rio Grande do Norte que nesta época possuía quatro freguesias e a cidade de Natal onde a sua câmara se localizava em Potingi e que tinha como principais portos o de Rio Grande e a barra de Cunhaú e mantinha pequenas baias onde serviam de ancoradouro para navios de pequenos portes, como a baia Formosa, ponta da Pipa, ponta dos Búzios, ponta Negra e baia Marten Tysson ao norte do Rio Grande, e seus moradores se ocupavam principalmente da criação de gado que era exportado para a Paraíba, Itamaracá e Pernambuco para trabalhos nos carros, nos engenhos e para corte, possuía três colégios dos escabinos que se localizavam em Serinhaém, Iguaraçu e Rio Grande.
Os índios brasilienses como eram chamados pelos holandeses os Potiguares e os demais índios Tupis, mortais inimigos dos portugueses e os verdadeiros donos das terras da capitania que viviam sem pouso certo e em contínuas migrações, e que nesta época estavam impondo as suas condições aos holandeses duramente, pois já haviam matado os seus algozes na capitania do Ceará para subtrair-se à condição de servo a que estavam reduzidos, e para solucionar a situação reinante, os membros do supremo conselho se reuniram na aldeia de Tupicerica com a finalidade de organizarem os potiguares para não perderem os preciosos auxílios por eles prestados nas lutas de extermínio praticadas pelos holandeses contra os insurgentes as concessões dadas aos Tapuias não surtiram os efeitos desejados, pois tomados de desvairamento e de delírio, sentiam-se fortes em suas alucinantes orgias de sangue, e para combate-los chegou ao Rio Grande do Norte no mês de Outubro o Capitão Barbosa Pinto, que se acampou com sua tropa no engenho de Cunhaú de onde saiu para atacar os potiguares que se encontravam fortificados em uma elevação no meio dos alagados é que ao aceitar o combate, acabaram repelindo as investidas do Capitão Barbosa Pinto que acabou se retirando para a Paraíba onde se juntou a Camarão e seu terço para atacarem e vencerem os Tapuias no mês de Dezembro e marcharam para Cunhaú. O supremo conselho holandês, vendo ameaçadas as campinas rio-grandenses de onde tiravam o gado e a farinha para o abastecimento de Recife, imediatamente organizaram um corpo de exército e enviaram para combater os insurgentes em 27 de Janeiro de 1646 no mesmo terreno em que se desenrolou a luta, onde a vitória mais uma vez sorriu para às armas insurgentes e que os holandeses tiveram grandes perdas de seus soldados e foram obrigados a recuarem para o forte Ceulen sem serem perseguidos pelos vencedores, que seguiram para a Paraíba de onde Camarão mandou o Capitão João de Magalhães a Pernambuco com a tarefa de levar armas e algumas cabeças de gado para aquela capitania onde Vidal de Negreiros a frente de seis companhia atacou e derrotou os holandeses e que após destroçar os indígenas e implantar a paz rumou para o Rio Grande do Norte com o grosso das forças pernambucanas onde se incorporou a Camarão, que de imediato ordenou ao Sargento-mor Antônio Dias Cardoso para invadisse o engenho Cunhaú onde os holandeses se encontravam entrincheirados, e para isto foi destacado o Capitão Cosme do Rego Barros que em 16 de Dezembro efetuou o assalto ao engenho e a todo o distrito, onde o inimigo resistiu bravamente até serem vencidos, Rego Barros após a batalha lançou fogo ao engenho e arrebanhou o gado disponível e rumou para a Paraíba de onde seguiu para o Arraial do Bom Jesus nas imediações de Recife conduzindo muitos prisioneiros, escravos foragidos e muitas mulheres as quais foram libertadas do cativeiro em que eram mantidas e seguindo a este desastre, aconteceu o assassinato de Jacob Rabi o feroz conselheiro e cúmplice dos Tapuias pelo Alferes Jacques Boulan e dois soldados no cumprimento das ordens recebidas do Coronel Gartsmann, a morte de Jacob Rabi incontestavelmente contribuiu para o afrouxamento da dedicação dos indígenas aos holandeses, cuja situação piorava a cada dia por toda a parte, proporcionando que os insurretos sitiasse os distritos do sul de Recife para baixo e que atacassem as capitanias da Paraíba e do Rio Grande do Norte através de Camarão e seus capitães da terra.
Os holandeses ao se convencerem de que a resistência tornara-se impossível, invocaram ao monarca português as delicadas relações políticas de Portugal com a Holanda, as quais não permitiram uma manifestação franca em favor do levante em andamento, e que pelo contrario, impunha a obrigação de abafar qualquer movimento. Imediatamente Dom João IV expediu ordens ao Governador Geral Teles da Silva para que retirasse os mestres de campo do cenário de batalha, porém Vidal de Negreiros junto ao seu terço não se submeteu as ordens recebidas, devido aos seus restos de patriotismo que não arrefecia nunca, e pouco mais de três meses depois, Vidal de Negreiros invadiu novamente o Rio Grande do Norte, onde se confrontou com o inimigo em Cunhaú, e após se juntar com as forças do Capitão Barbosa Pinto retornou a Pernambuco, e no dia 23 de Novembro Henrique Dias partiu com o seu terço e algumas companhia de Camarão para o sitio Guaraínas no Rio Grande do Norte onde os holandeses mantinham uma casa forte, que foi defendida com grande ardor nos renhidos combates ali travados com as forças de Henrique Dias, que após sangrentas batalhas conseguiu vencer a resistência dos holandeses.
Após se apoderar da casa forte, Henrique Dias imediatamente marchou para o engenho Cunhaú onde os holandeses se mantinham fortemente alojados, e ao colocar-se em frente ao inimigo, de imediato mandou uma mensagem ao chefe batavo para que se rendesse, porque em caso contrario atacaria como havia feito em Guaraínas, onde toda a guarnição havia sido morta. O comandante holandês ficou perplexo ao receber a intimação feita por Henrique Dias, e com palavras equívocas respondeu ao enviado, pensando ganhar tempo com sagacidade; porém Henrique Dias ao perceber o ardil, de imediato enviou uma segunda intimação ainda mais determinante, e como o comandante holandês demorasse em responder, Henrique Dias ordenou que fosse colocado fogo no reduto inimigo, e no exato momento em que o fogo começava arder, veio uma mulher portuguesa que era casada com um holandês até Henrique Dias para solicitar a rendição de todos os presentes a casa forte, o que foi concedido de imediato por Henrique Dias, que ordenou a ocupação do engenho e da fortificação.
Em 18 de Março de 1648 Schkkope foi investido como suprema autoridade na colônia como indicação de Maurício de Nassau, e a partir deste momento resolveu ativar a guerra em cumprimento as ordens vindas da Holanda, por seu lado Portugal substituiu o Governador Geral Antônio Teles da Silva pelo Conde de Vilapouca, Antônio Teles de Menezes que possuía um pequeno exército sob o comando do Mestre de Campo Francisco Figueiroa que recebeu importante auxilio de Francisco Barreto de Menezes no combate realizado nos Montes Guararapes o qual cobriu de louros as armas insurgentes, imediatamente a partir deste momento as cortes de Lisboa passou a repelir qualquer proposta que não excluísse a entrega das capitanias ocupadas pelos holandeses, que devido a derrota sofrida em Olinda diante a Francisco Barreto de Meneses, e as incursões sem sucesso em Santo Amaro e ao forte de Barreta e as noticias chegadas da Europa de que Salvador Correia de Sá havia retomado Angola e que a Ilha de São Tomé havia caído em poder dos portugueses, os deixaram tomar pelo desânimo. Para os holandeses neste momento só lhe restavam o mar, e por conta disto With se aventurou em algumas incursões pelo litoral até a criação da Companhia Geral do Comércio do Brasil que tinha o objetivo de colaborar no cerco exercido aos holandeses para sua evacuação definitiva do Brasil.
E por conta disto Francisco Figueiroa de imediato seguiu com sua tropa para tomar os fortes da Paraíba e do Rio Grande do Norte. E em Maio de 1654, o domínio português estava restaurado em todas as capitanias, anteriormente ocupadas pelos holandeses
Que haviam chegado ao Brasil para se apoderarem de uma colônia em franco desenvolvimento, e que nada fizeram como povo colonizador, e que sob o ponto de vista dos melhoramentos materiais, o legado holandês foi quase nulo, senão pela reconstrução de fortificação ou por algumas obras de conserto ou reparo efetuadas no Forte dos Reis Magos. E na terra gloriosa onde nasceu Camarão e que os invasores holandeses reduziram ao extremo de não ter um único escabino ou um colono que a representasse na assembléia que Nassau reuniu em Recife no ano de 1640, apenas restou como lembrança, o impagável jugo holandês e as provações praticadas ao povo do Rio Grande do Norte.
Após à expulsão dos holandeses e a restauração do domínio português, parte da capitania foi doada a Manuel Jordão que morreu na ocasião de seu desembarque, em 1689 a capitania foi novamente doada a Francisco Barreto que a administrou com o titulo de condado, e que mais tarde repassou a capitania a uma de suas filhas que se casou com o Almirante Lupo Furtado de Mendonça. Tendo em vista, que os donatários não aproveitaram a beneficência real, o território da capitania acabou se revertendo à coroa, e até o final do século XVIII ela foi efetivamente governada pelos capitães-mores sendo que o Rio Grande do Norte nesta época não passava de um vasto campo de devastação e de ruínas, onde a obra, da colonização, tão promissoramente iniciada antes da invasão holandesa, ia ser continuada com o governo de Antônio Vaz Gondim no período de 1656 a 1663 que como primeiro ato se deu a concessão de um lote de terra por carta foral na ribeira do Potengi e outro em Mipibu ao Capitão Francisco Mendonça Eledesma em Julho de 1659, e ao Padre Leonardo Tavares de Melo, vigário de Nossa Senhora da Apresentação do Natal, que em Janeiro de 1660 lhe foi concedido por sesmaria a ilha de Bom Sucesso na ribeira do Cunhaú, e no mês de Abril de 1660 nomeou o Sargento reformado Francisco Rodrigues para os ofícios de tabelião e escrivão dos órfãos, e a Francisco de Oliveira Banhos como escrivão das datas e sesmarias, e em Março de 1662 nomeou Domingos Vaz Coelho como escrivão do senado da câmara e em Abril de 1662 nomeou Francisco Lopes como provedor da fazenda real, no momento em que se achavam eleitos os elementos do senado da câmara, a província tinha por guarnição duas companhias de infantaria, sendo que uma assistia a fortaleza e a outra na cidade que abrigava mais de cento e cinqüenta moradores sob a subordinação do governo de Pernambuco.
Valentim Tavares Cabral ao ser nomeado pela patente real de Fevereiro de 1663 recebeu de Dom Vasco Mascarenhas, Conde de Óbidos entre outras providências a serem tomadas, a proibição de concessão de sesmarias, todavia Valentim Tavares concedeu a João Fernandes Vieira uma sesmaria de dez léguas de cumprimento, que começava na barra do Ceará-mirim e ia até a localidade de Touros e o dia 22 de Junho de 1666 o seu concessionário outorgou uma procuração ao Padre Leonardo Tavares de Melo no dia 4 de Setembro para tomar posse das terras perante o Provedor da Fazenda Real Diogo Fragoso Souto Maior que procedeu a concessão se baseando na carta do governador geral da qual ele autorizava a doação de terras devolutas que não tivessem donos. Em 21 de Janeiro de 1670 Valentim Tavares Cabral deixou o governo quando substituído por Antônio de Barros Rego, que se preocupou na construção de um novo templo, tendo em vista que durante a ocupação da capitania a primitiva matriz de Natal havia sido arrasada, e por isto os atos religiosos nesta época estavam sendo realizados em uma casa de taipa construída pelo Padre Leonardo Tavares de Melo em 1694, e para isto os moradores se cotizaram e levaram efeito a construção com a ajuda do capitão-mor.
O movimento colonizador que estava circunscrito a uma estreita faixa do litoral de Natal para o sul em terras compreendidas entre as ribeiras do Potengi e do Cunhaú, que, com as do Ceará-mirim, era onde o povoamento se desenvolvia, justamente nas melhores terras para as lavouras
E a partir deste momento, o movimento colonizador se acelerou com a penetração dos colonos para o interior em busca de compensadores vantagens ao seus esforços, e pela necessidade de conter o gentio, após constantes sublevações. Antônio Vaz Gondim ao assumir pela segunda vez a administração da capitania em substituição a Antônio de Barros Rego em 21 de Junho de 1673 pela patente real do dia 5 de Outubro de 1671 se demonstrou muito preocupou com as obras da igreja matriz e com os reparos que eram necessários no forte dos Reis Magos e com as concessões de sesmarias para o aumento da edificação da cidade, e no dia 21 de Maio de 1677 Francisco Pereira Guimarães ao substituir Vaz Gondim a frente do governo, se apresentou muito doente, e devido ao agravamento de seu estado de saúde, em dois de Novembro de 1678 veio a falecer no exercício de seu cargo, e durante o seu curto governo, o Rio Grande do Norte recebeu pela primeira vez a visita de um bispo, Dom Estevão Brioso de Figueiredo, primeiro bispo nomeado para a diocese de Olinda, após a sua criação por Bula do Papa Inocêncio XI.
Com a falecimento de Pereira Guimarães, o senado da câmara de Natal, assumiu o governo que em três de Abril de 1679 o transmitiu a Geraldo de Suny que foi nomeado como capitão-mor interino pelo Governador Geral Roque da Costa Barreto, e que durante o governo, Francisco de Almeida Vena, donatário de uma sesmaria nas costas de Touros, e que administrava uma aldeia indígena, procurou impedir que os colonos utilizassem o sal extraídos das salinas e que pescassem livremente nos rios da região, e por conta disto o senado da câmara em 20 de Novembro de 1680 deliberou representar ao governador geral contra a proibição e pediu a revogação da concessão a ele concedida.
Geraldo de Suny exerceu as suas funções até três de Setembro de 1681 quando entrou de licença de seu cargo, devido a uma moléstia adquirida, e por isto seguiu-se a interinidade de pouca duração do senado da câmara pelos seus oficiais Antônio Gonçalves Ferreira e Francisco Ferreira Coelho até a chegada de Antônio da Silva Barbosa nomeado pelo Governador Geral Roque da Costa Barreto para exercer o seu cargo por um período de pouco mais de sete meses, que durante o qual proveu Roque Nogueira de Souza ao posto de capitão de infantaria na ribeira do Ceará-mirim e Estevão Velho de Moura na ribeira do Açu, que com seus intensos trabalhos conseguiram efetuar as pazes com os gentios naquelas paragens sertanejas, e que em 22 de Novembro após requererem ao capitão-mor da capital, obtiveram uma data de sesmarias, consoante aos limites da patente de Estevão Velho, a qual foi confirmada em Fevereiro de 1682 pelo Governador Geral do Brasil Roque da Costa Barreto. A partir de 25 de Maio de 1682 chegou Manuel Muniz para substituí-lo após ser nomeado por patente do rei, e que ao tomar posse, de imediato prestou preciosas informações ao monarca sobre as condições em que se encontrava a capitania ao constatar a falta de guarnição suficiente para o Forte dos Reis Magos onde também faltava material de guerra, e os quartéis estavam arruinados e que os colonos moravam uns distantes dos outros, disseminados pelos sertões.
Onde estavam sujeitos à rebeldia dos índios que sempre traziam vivas lembranças dos holandeses
Somando a isto, as dificuldades se agravaram quando o seu sucessor Pascoal Gonçalves de Carvalho assumiu a administração em 30 de Agosto de 1685 após ser nomeado por patente real, e que a par do desenvolvimento da indústria pastoril que era a causa ocasional do definitivo povoamento dos sertões, se deparou com o fato de que durante a ocupação holandesa Antônio Paraupaba que era parente próximo de Camarão e que vivia na aldeia de Orange situada a poucas léguas da cidade de Natal, entre as ribeiras de Potengi e Jundiaí, e que após a expulsão dos invasores holandeses, em cujas mãos tinha sido instrumento passivo, retirou-se para os sertões do Ibiapaba com mais de quatro mil dos seus, de onde periodicamente descia em companhia de hordas selvagens que habitavam aquela região para atacar os estabelecimentos portugueses e perturbar a obra de reconstrução colonial, em represaria aos massacres executados pelos portugueses contra os indígenas, trazendo com isto grandes desordens a capitania que tão bem conhecia. Nesta época aconteceu que os potiguares que tinham servido ao exército libertador, esgotaram as suas autoridades para jugular a rebelião perante aos chefes de maior evidencia entre os Janduis, Caracarás, Aréas, Pegas, Paiacus, Canindés e dos Caicós, e com isto aconteceu a sublevação geral dos índios quando os potiguares que se concentravam nas várzeas próximas ao litoral e as demais tribos que dominavam as terras banhadas pelos rios Apodi, Upanema, Serido, Espinhas e o alto e baixo Piranhas atacaram e se apoderaram e colocaram tudo em desordem com suas crueldades empregadas nas ribeiras do Ceará-mirim, Apodi e do sertão do Açu.
Estando o forte dos Reis Magos sem guarnição disponível e não dispondo de recursos necessários para acudir aos pontos atacados, o senado da câmara de Natal se viu obrigado a solicitar ao Capitão-general de Pernambuco João da Cunha Souto Maior que enviasse com brevidade os socorros necessários a capitania, diante a rebelião dos índios que já haviam matado muitos moradores, destruído plantações e incendiado muitas casas, e com o passar dos dias, o mesmo pedido foi expedido a capitania da Paraíba, e no exato momento em que o Governador Geral Matias da Cunha tomou conhecimento dos fatos no dia 6 de Setembro, imediatamente determinou que o Coronel Antônio de Albuquerque Câmara reunisse todo o pessoal disponível das ordenanças e seguisse sem demora para se juntar as forças de Pernambuco e da Paraíba para combater as tribos sublevadas nas regiões de Arraial de Baixo até as praias de Manuel do Prado Leão, onde o Capitão de Infantaria Manuel Rodrigues Santiago se encontrava para garantir a situação de seus moradores. Diante o estado em que se encontrava a capitania, e devido a demora da chegada dos socorros solicitado, o senado da câmara de Natal resolveu enviar à Bahia um de seus oficiais.
Para isto Manuel Duarte de Azevedo viajou para se entender diretamente com o governador geral, que de imediato mandou seguir duas companhias dos terços de Camarão e de Henrique Dias e o maior número possível das forças da Paraíba.
As quais ficariam subordinadas ao Capitão-mor do Rio Grande do Norte, que em 18 de Janeiro de 1688 para conter o abandono da capitania por parte dos colonos baixou um edital, para que fossem denunciados todos aqueles traidores da causa que se ausentasse da jurisdição da capitania, que teriam como castigo, as suas terras confiscadas para cobrir as despesas da guerra, e alguns dias depois lançou um bando declarando que seriam perdoados de seus crimes todos aqueles que acudissem ao combate contra os índios, no exato momento em que o governador geral mandou seguir para o Rio Grande do Norte o Capitão-mor Manuel de Abreu Soares junto com alguns infantes da Praça de Olinda, e que o Capitão-mor da Paraíba enviasse o Capitão-mor dos índios com seus homens e alguns negros africanos, e deslocou o Governador das Armas Paulista Domingos Jorge Velho que se encontrava nas margens do Rio São Francisco com destino aos palmares, enquanto o capitão general de Pernambuco providenciou que Jorge Luís Soares se deslocasse da Paraíba com seus índios e negros africanos diretamente para Açu, onde estava estabelecida a base de operações.
Antônio de Albuquerque Câmara que desde o começo da luta combatia os índios revoltados, subiu até as cabeceiras do rio Piranhas, onde se juntaria ao Sargento-mor Manuel Silvério que se encontrava em uma casa forte em Cuó, onde foi violentamente atacado, cujo combate lhe deixou muito dos seus feridos e outros mortos, e que por este motivo não pode se deslocar em auxilio a Antônio de Albuquerque Câmara. O governador geral ao ser informado do que sucedera, de imediato publicou um bando convidando e perdoados de seus crimes, todos os fugitivos, degredados e criminosos, tanto da capitania do Rio Grande do Norte como de outras capitanias, para se incorporarem às forças do Coronel Antônio de Albuquerque no acampamento de Açu, e por conta disto em principio do ano de 1688 mais de seiscentos homens seguiram para o sertão para se juntar as forças regulares na luta contra os índios revoltosos.
Domingos Jorge Velho, governador das armas paulistas que marchara ao Rio Grande do Norte, travou violento combate durante quatro dias nas margens da lagoa do Apodi contra os índios rebelados que ofereceram vigorosa resistência até debandarem para o sertão após a prisão de seu chefe o Rei Canindé, ao deixar a direção da guerra com o Mestre de Campo Matias Cardoso de Almeida, rumou para combater Zumbi nos palmares.
No momento em que Agostinho César de Andrade, valente e brioso militar era retirado do comando da fortaleza das cincos pontes, no Recife para substituir Pascoal Gonçalves no governo da capitania do Rio Grande do Norte, que entre sustos e apreensões, levou as forças expedicionárias em numerosas e aguerridas perseguições sem trégua aos índios revoltados que opunham forte resistência, e por conta disto o senado da câmara em dois de Julho de 1688 enviou a Lisboa o Capitão Gonçalo da Costa Faleiro como procurador da capitania com um memorial relatando a real situação em que se encontrava a capitania devido aos ataques efetuados pelos índios. Incontestáveis foram os esforços desprendidos pelo Capitão-mor Agostinho César para vencer de todo a revolta; mas é também fato que o não conseguiu vencer, porém em virtude do agravamento da situação em 22 de Agosto de 1692, Sebastião Pimenta assumiu o governo da capitania, e seis dias após o senado da câmara dirigiu-se ao rei de Portugal um pedido de enviou de recursos para que fossem fundados quatros arraias nas localidades de Jaguaribe, Açu, Acauã e Curimatáu que seriam mantido e sustentados pelas gentes de Arco Verde e Camarão para povoamento do sertão em defesa da capitania, e durante o seu curto governo e a administração interina do senado da câmara, que se lhe seguiu, a situação permaneceu inalterável, levando com isto, que o governador geral determinasse em seis de Julho de 1694 a volta de Agostinho César de Andrade a capitania do Rio Grande do Norte no posto de capitão-mor, que em cumprimento as recomendações recebidas da metrópole colocou em pratica duas providências de indiscutível alcance, que foram as doações das terras fronteiras às regiões ocupadas pelos índios a pessoas que as pudessem povoar e cultivar as terras e que fundasse seis aldeias com guarnições militar em Açu, Piranhas e Jaguaribe, e para às medidas a serem adotadas pelo Capitão-mor Agostinho César de Andrade o senado da câmara ponderou contrariamente pela sua execução, pelo fato de que as terras da capitania já estavam doadas e por isto julgaram inoportuno o afastamento dos moradores da cidade para os arraias a serem fundado, pelo fato do enfraquecimento da defesa da cidade, porém Agostinho César resolveu que as terras a serem doadas seriam as mesmas já concedidas por sesmarias anterior, desde que ainda estivessem desabitadas e devolutas, e ponderou pela necessidade de obter à paz com os índios sem utilizar as batalhas sangrentas que vinham sendo realizadas continuamente de modo cruel, e para sua realização teria que vencer as fortes resistência das opiniões dominantes entre os colonos, das pessoas de relativas culturas as quais queriam que os índios fossem aniquilados por completo.
Dentro deste clima hostil, fracassaram os melhores propósitos de Agostinho César de Andrade que, em obediência a ordens superiores ou por orientação própria, desejou sinceramente restabelecer a paz na capitania, porém esta glória estava reservada ao seu sucessor, Bernardo Vieira de Melo, administrador hábil e capaz, que para alcançá-la, julgou imprescindível a sua ida até a localidade de Açu, onde no dia 24 de Abril de 1696 fundou um aldeamento que recebeu o nome de Nossa Senhora dos Prazeres, o qual assegurou com prudência e tato a consolidação permanente da obra de concórdia a qual assegurou o convívio pacifico entre colonos e indígenas, por isto o governo de Bernardo Vieira de Melo se tornou um sucesso completo com grande espírito de justiça e paz, e quando do termino de seu governo que tanto ilustrara, o senado da câmara ao interpretar os sentimentos do povo, solicitou ao governo de Lisboa que reconduzissem de volta ao posto o Capitão-mor Bernardo Vieira de Melo. E por intermédio da carta régia do dia 18 de Novembro de 1697 o rei de Portugal observando os feitos exercidos pelo Capitão-mor com muito zelo e disposição ao reduzir todo o gentio a uma universal paz em todo o sertão da capitania do Rio Grande do Norte onde a população vivia em sossego e desejosa pela sua continuação no exercício de seu trabalho por outros três anos, atendeu ao pedido a ele formulado pelo senado da câmara. Os atos praticados por Vieira de Melo, durante o seu segundo governo não desmentiram os do primeiro, pois a partir deste momento e que se acentuaram os grandes surtos da colonização, que atingiria no século seguinte o seu máximo de intensidade em conseqüência da exploração agrícola nas zonas próximas ao litoral, do encontro das duas correntes que, em entradas e bandeiras se tinham encaminhado para o interior da capitania e, o progressivo desenvolvimento da indústria pastoral que formalizou a sua cultura e o seu nível moral.
No inicio do século, o Rio Grande do Norte constituía uma capitania subalterna, e pela carta régia de 11 de Janeiro de 1701 deixou de ter subordinação direta do governo da Bahia, para ficar sujeita ao governo de Pernambuco. O capitão-mor era a autoridade suprema, muito embora os regimentos restringissem as suas atribuições à algumas tarefas, onde não tinha limites à sua liberdade de ação e dispunha de poderes civil e militar incontrastáveis onde a sua vontade era a única lei, para fazer executar as suas ordens, o capitão-mor contava com a guarnição da fortaleza, com o terço que assistia no Açu e com os regimentos de ordenanças que formavam a segunda linha, e no decurso do século, também teve o concurso dos capitães-mores das vilas e freguesias que foram criadas pela carta régia de 20 de Janeiro de 1699.
No Rio Grande do Norte existiam cinco capitanias menores localizadas nos distritos do sul e do norte da capital, a do Açu, a do Caicó e a da Portalegre, onde os capitães-mores de milícia exerciam o poder de policia com todos os seus arbítrios e violência, e auxiliados pelos capitães de mato, que andavam por todas as partes atrás de vadios e escravos.
Juridicamente, a capitania hereditária no dia 18 de Março de 1818 foi elevada a condição de comarca e pertencia à ouvidoria da Paraíba, criada por provisão régia de 12 de Dezembro de 1687 e que teve o Doutor Diogo Rangel Castelo Branco como seu primeiro ouvidor, nesta época na capitania do Rio Grande do Norte, havia os juizes ordinários, os almotacés e os juizes de vintema. Por decreto régio eram criado os cargos de juiz de fora, os quais eram nomeados pelo rei, dentre os bacharéis em direito e seus ordenados eram pagos pelos cofres reais e traziam por insígnias uma vara branca e exerciam jurisdições civil e criminal, e dentre eles e que o rei nomeava por um prazo de três anos, os ouvidores que tinham o seus ordenados pagos pela fazenda real, os ouvidores eram os corregedores de suas comarcas, onde davam audiências regularmente, em dia e lugar determinados, também tinham incumbências meramente administrativa, cuidavam das eleições das câmaras, e a administração municipal estava entregue às câmaras que publicavam posturas sobre tudo que interessasse ao bem comum, e normalmente eram compostas por homens ignorantes e rudes que muitas das vezes eram obrigadas a envolver-se nas lutas contra capitães-mores autoritários e de ouvidores gananciosos, e dentro do ponto de vista fiscal o provedor da fazenda era o posto mais elevado na hierarquia administrativa que era subordinada a capitania de Pernambuco onde se recolhia o dinheiro arrecadado dos impostos cobrados dos contratos de arrematação.
Antônio de Carvalho e Almeida ao substituir Bernardo Vieira de Melo na administração da capitania do Rio Grande do Norte em 1701 procurou manter a paz com os índios e acalmou a agitação reinante, que fora provocada pela subordinação da capitania a Pernambuco, e incrementou a criação e incentivou o movimento colonizador para o sertão até o final de seu governo no ano de 1705 quando foi substituído por Sebastião Nunes Colares que governou de Dezembro de 1705 até 30 de Novembro de 1708, com uma administração muito apagada, e que no ato de sua posse, aconteceu um fato inusitado: e que o senado da câmara, não foi comunicado a respeito de sua nomeação para o cargo de capitão-mor, por este motivo a mesma hesitou em dar lhe posse do posto e, só o fez em atenção a Carvalho de Almeida que desejava se retirar. André Nogueira da Costa que havia prestado bons serviços em Angola, Bahia e Pernambuco e havia se distinguido como capitão do rio São Francisco tomou posse por um período de três anos em 30 de Novembro de 1708, governou com uma administração sem nenhum realce para a capitania até ser substituído por Salvador Álvares da Silva em 30 de Novembro de 1711, e que ao assumir o governo encontrou uma séria revolta dos índios que avançaram com toda ira contra o arraial de Açu, e que para contelos foi necessário o auxilio dos índios Paiacus, os quais serviram de guias às bandeiras para descobrirem os inimigos nas serras onde se acolhiam. Domingos Amado ao ser empossado em 20 de Março de 1714 atendendo as reclamações por parte do senado da câmara, solicitou ao capital general de Pernambuco que fizesse retornar o terço dos paulista que haviam partido de Açu, para combater os índios que haviam retornado aos ataques ao arraial, e no mês de Julho de 1715 executou as ordens contida na carta régia que suspendia o bando que o Governador de Pernambuco Felix José Machado, mandara lançar para que todos os Tapuias de sete anos de idade para cima, lhe fossem remetidos para serem vendidos no Rio de Janeiro. No dia 23 de Janeiro de 1718 Luís Ferreira Freire, que era um soldado sem cultura, violento e voluntarioso que servira por muitos anos nas províncias do Minho, Beira, Trás-os-Montes e Alentejo, tomou posse como capitão-mor da capitania do Rio Grande do Norte.
E que durante o seu governo se deu a última rebelião geral dos índios em uma violenta batalha, em que os Tapuias invadiram o arraial de Ferreira Torto, matando e destruindo tudo.
Para se apoderarem da pólvora ali existente para levar a destruição e o pânico em toda a capitania, o que não conseguiram graças a pronta defesa da valorosa infantaria, que desta vez puniu rigorosamente os indígenas insubmissos, ao matarem muitos deles, e fazendo com que, os que escaparam à morte ou à escravidão se internassem nos altos sertões da Paraíba e do Ceará, de onde raramente vinham inquietar os moradores do Rio Grande do Norte com suas investidas que não mais ofereciam os perigos de outrora; com isto foi feito a extinção do terço dos paulistas. Ferreira Freire que era um homem de maus costumes, andou praticando alguns atos inadequado para o seu cargo, quando raptou uma moça e a fez de sua amásia, e tomou à força a escrava do Vereador Manuel de Melo Albuquerque e por conta destes fatos, o vereador recorreu à justiça, onde obteve um mandado para a entrega de sua escrava, do qual Freire tanto intimidou os oficiais de justiça que nenhum se quis prestar à execução do mandado, então o vereador recorreu ao Governador de Pernambuco Rolim de Moura, e por conta disto o capitão-mor mandou que Manuel de Melo fosse preso, no entanto o senado da câmara entendendo que a prisão arbitraria do vereador ofendia os seus privilégios, e por conta enviaram um comunicado ao governador de Pernambuco, que de imediato enviou uma ordem para que o capitão-mor soltasse o vereador. E após alguns dias em uma determinada noite o Capitão-mor Luís Ferreira Freire acompanhado de alguns soldados sob o comando do Capitão Francisco Ribeiro Garcia arrombaram a casa de Manuel de Melo e soltaram um de seus escravos e levaram a escrava que servia à casa,
Na noite de 22 de Fevereiro de 1722 o capitão-mor acabou sendo morto com diversos tiros, com isto o senado da câmara ficou a frente do governo da capitania e de imediato procedeu a abertura de uma devassa para descobrir o assassino do capitão-mor, da qual os resultados se tornaram infrutíferos, pois não se descobriu o autor dos disparos.
No dia 8 de Março de 1722, José Pereira da Fonseca foi empossado no exato momento em que a capitania ainda se encontrava sob a tensão do assassinato de seu antecessor, e para isto, ele determinou a abertura de duas devassas, sendo uma pelo juiz ordinário e outra pelo ouvidor geral, e que após muito trabalho não chegaram a nenhum resultado positivo sobre os nomes dos verdadeiros criminosos, o que gerou certa desconfiança entre o governador e a câmara do senado, mesmo depois que os vereadores foram substituído, e no decorrer de seu governo a frente da capitania, Pereira da Fonseca teve que conviver com um clima de insegurança, pois a todo instante havia um assassinato sem qualquer motivo, e nesta situação reinante a partir de 1723 a capitania começou a ser flagelada por uma devastadora seca, e como seu sucessor foi nomeado Domingos de Morais Navarro em 18 de janeiro de 1728.
Poucos dias depois de sua posse, o senado da câmara pediu ao governo de Lisboa que mandasse erigir um hospício na capital da capitania, para que os religiosos da Companhia de Jesus ou da Ordem de São Francisco pudessem residir e ensinarem gramática aos filhos dos moradores e para que fossem ordenado novos sacerdotes, dos quais padeciam de grandes faltas na capitania.
Por conta da manifesta má vontade do governador de Pernambuco em relação à capitania do Rio Grande do Norte, ele prestou as mais variadas informações desfavoráveis para construção do hospício, que acabou não sendo fundado, e ao tomar posse em 19 de Março de 1731 João de Barros Braga criou a primeira cadeira de gramática latina cuja falta fora reconhecida pelo bispo diocesano quando da visita pastoral na capitania em 1728, destacadamente fora o auxilio mais eficaz que os jesuítas encontraram para suas obras e o melhor defensor que os povoadores tiveram na capitania onde muitas das vezes supriu com mantimentos aos índios aldeados, porém quando mandou justiçar com a morte um índio Tapuia que havia assassinado o seu senhor e cometido outras mortes, João de Barros Braga incorreu no real desagrado, e não obstante os seus longos e preciosos serviços o rei mandou tirar uma devassa para o capitão-mor e ao ser sentenciado na relação do estado, que passou mandado de prisão contra ele através do ouvidor da Paraíba, que ficou impossibilitado de cumprir a ordem, devido a interferência do governador de Pernambuco que se negou a cumprir sob o pretexto de que o capitão-mor João de Barros Braga estaria sob suas mercê, e para isto escreveu ao rei para que esquecesse da punição imposta ao capitão-mor do Rio Grande do Norte, e advertiu a João de Barros Braga para que não voltasse a sentenciar outros delinqüentes.
João de Teive Barreto de gênio ativo e trabalhador que as vezes o levava a praticar incursões descabidas em esferas de atribuições que não eram de sua atribuição, entrou no exercício de seu cargo em 22 de Outubro de 1734 muito preocupado com a administração da capitania, que entre elas estava a conveniência de ser feita em Natal a arrematação dos dízimos, a dispensa da autorização do governador de Pernambuco para que fossem assentadas praças de soldados nas companhias existente na capitania, a falta de armas e munição e material de guerra, pela necessidade de construir um fortim em um ponto aberto, e a rigorosa observância do contrato para a construção de uma cadeia e da casa da câmara e outras mais. E Francisco Xavier de Miranda Henriques que o substituiu, serviu como capitão-mor de Dezembro de 1739 a Maio de 1751 com exemplar honestidade a frente da capitania, Henriques não tinha posses, era paupérrimo, e por conta disto, em certo dia foi-lhe preciso para matar a fome, pedir cem mil réis de empréstimos ao cofre dos órfãos, e se não fora a intervenção de seu secretário Caetano José Correia, o seu nome figuraria entre os daqueles que mendigavam ao governo, e em outra feita Miranda Henriques sustentou uma luta com o provedor, o quando ele contrariou ao apoiar os moradores da ribeira do Apodi que impediram a execução dos contratos celebrados com o arrematador Lourenço Correia de Lira que pedira garantia ao provedor que o atendeu e mandou notificar aos principais opositores, e como não conseguiu nada junto aos opositores, o arrematante viu-se na contingência de foragir-se. E por conta disto o provedor abriu uma devassa para o caso, onde foram pronunciada mais de vinte pessoas, e que entre os quais o Juiz Ordinário Matias Simões Coelho, que irritado por tal diligência de imediato recorreu ao capitão-mor, que atendendo ao pedido a ele formulado mandou abriu uma devassa do ocorrido, e para tal nomeou o juiz ordinário já comprometido na devassa feita pelo provedor, para semelhantes fins, e que por sua vez lhe solicitou as providências necessárias para que os contratos fossem executados. e que após ter sustentado a luta com o provedor ele foi repreendido e suspenso de suas funções durante quatro meses pelo governador de Pernambuco, devido as ordens recebida do governo de Lisboa. Após a suspensão Miranda Henriques continuou a governar por mais sete anos, e contra a longa duração de sua administração o senado da câmara em 23 de Abril de 1751 após ter conhecimento da nomeação de seu sucessor Pedro de Albuquerque e Melo, dirigiu-se ao rei reclamando que os governadores após três anos exercendo os seus cargos, acabavam criando grandes desconforto ao povo, porque se afeiçoavam a algumas pessoas e por razão destas, acabavam cometendo algumas injustiças, e quando da posse de Pedro Albuquerque e Melo em 30 de Maio de 1751, data a criação dos cargos de Juiz Ordinário e escrivão do Açu e Apodi e fez executar a mudança dos oficiais nos regimentos de milícia existente nas ribeiras do Açu, Apodi e na do Seridó, e de acordo com a descrição do Ouvidor Domingos Monteiro da Rocha em 27 de Julho de 1757 quase no final da administração de Pedro de Albuquerque e Melo a capitania do Rio Grande do Norte continha cento e dez léguas de cumprimento, pegando do Rio dos Marcos até a picada do Moxoró, e vinte e cinco léguas de largura que pegava da cidade de Natal até às cabeceiras do rio Apodi, e que em toda a capitania achavam-se as freguesias de Nossa Senhora da Apresentação onde se encontrava a cidade de Natal e que ao seu final tinha um lugar chamado de Ribeira que possuía um rio de água salgada de nome rio Grande e tinha sua barra onde se localizava a fortaleza da invocação dos santos reis magos, esta freguesia possuía algumas povoações com bastante moradores e se encontravam a de Ceará-mirim na parte norte da capitania que tinha o rio Ceará-mirim que nascia na serra de Cabugi, e rio Maxaranguape e o Punáu, outra povoação na parte norte era a de São Gonçalo que tinha o rio Potengi e para o sul tinha a povoação de Papari e a ribeira do Mipibu que tinha a capela de Nossa Senhora do Ó, e os rios Cururu e o Pirangi, a outra freguesia era a de Nossa Senhora dos Prazeres que possuía uma igreja matriz com bastante moradores na povoação de Goianinha e possuía o rio Cunhaú, a outra freguesia era a de São João na ribeira de Açu com igreja matriz e bem povoada e com quatro rios que eram os Água Mare, Tubarão, Manuel Gonçalves e o Açu, a freguesia de Nossa Senhora da Conceição estava localizada na ribeira do Apodi no lugar chamado Pau de Ferros com um igreja e muitos moradores e tinha o rio Apodi e a freguesia de Sant’ana estava localizada no lugar chamado de Caicó na ribeira do Seridó com duas povoações localizadas na matriz da freguesia e outra em Acari com uma capela e o rio Seridó.
Em quatro de Dezembro de 1757 ao tomar posse , João Coutinho de Bragança demonstrou que não escolhia meios para auferir avultados proveitos do cargo, pois em uma viagem que fez ao interior da capitania, a fim de passar revista aos regimentos do sertão, ele exigiu que cada componente lhe pagasse determinada quantia de acordo com o seu posto, sob pena de lhes não serem reconhecidos os postos em que tinham sido anteriormente providos, e acabou indo além, quando criou mediante propina dos indicados, novos postos em lugares onde não podia haver. Joaquim Felix de Lima governou de 14 de Junho de 1760 até 28 de Setembro de 1774, quando faleceu no exercício do cargo, e durante o seu governo, a Ordem dos Jesuítas já havia sido abolida em Portugal e nos seus domínios desde três de Setembro de 1759, e por conta disto, o Marquês de Pombal para por em pratica as medidas e providências necessárias a execução do ato, designou que viesse ao Rio Grande do Norte o Desembargador Bernardo Coelho da Gama Casco, para publicar o alvará e as leis que estabeleciam a liberdade das pessoas, o comércio dos índios, bem como o seu governo civil e a elevação a categoria de vila das aldeias indígenas e que fizesse cessar o governo temporal dos jesuítas nas aldeias de Extremoz e Arês, antigas missões de Guajiru e Guaraínas, que eram as únicas que se encontravam sob a direção dos jesuítas. Em nove de Dezembro de 1761 foi criada a vila do Regente e para ali foram transferido os índios da missão do Apodi, em 22 de Fevereiro de 1762 a vila de São José que era a antiga missão de Mipibu a que tinha sido incorporada aos Pegas, antigos habitantes da serra de Cipilhapa que foi arrematada em toda a sua extensão em 19 de Novembro de 1761 por João do Vale Bezerra, e logo depois na aldeia de Gramacio, foi fundada a vila Flor em homenagem ao Governador de Pernambuco Dom Antônio de Menezes, Conde de Vila Flor. Com a criação das novas vilas, desapareceram todas as missões, e os indígenas passaram a ser governados pelos diretores, que sucederam aos padres jesuítas e que exploraram, escravizaram e martirizaram aos índios que em grande parte voltaram à vida errante dos primeiros tempo, onde eram perseguidos e esmagados. E em três de Fevereiro de 1766, foi criada a freguesia das Várzeas do Apodi com sede na antiga missão, e com o falecimento do Capitão-mor Joaquim Felix de Lima a capitania foi governada na conformidade do alvará com força de lei de 12 de Dezembro de 1770 pelo Ouvidor José Batista Freire e os vereadores mais velhos durante o longo período desde a data da morte do capitão-mor até 12 de Agosto de 1791, quando assumiu interinamente o governo da capitania o novo Capitão-mor Caetano da Silva Sanches, que em sete de Fevereiro de 1798 teve ratificado a sua posse no governo da capitania do Rio Grande do Norte. E nesse dilatado período 1774 a 1800, de mais de um quarto de século a capitania do Rio Grande do Norte experimentou duas grandes secas nos períodos de 1777 a 1778 e o de 1791 a 1793 que foram extremamente desastroso para os moradores da ribeira de Apodi, onde existiam nesta época as freguesias de Apoli, Portalegre e Pau de Ferros, onde a lavoura era constituída pelo plantio da mandioca e possuíam um extraordinário desenvolvimento da indústria pastoril que alimentavam a lucrativa indústria das carnes secas estabelecidas em Mossoró e Açu. Convém entretanto salientar, que da extinção dessas indústrias em 1778, quando o Capitão-general de Pernambuco, passou a permitir o preparo das carnes secas do Aracati para o norte, que com isto, resultou em consideráveis prejuízos, que não foram exclusivamente da ordem econômica, pois também agravou a questão de limites entre as capitanias do Ceará e do Rio Grande do Norte.
O século XVIII foi o século do povoamento completo da capitania, que no seu início era formada por um só município e uma freguesia e que no ano de 1800 já contava com os municípios de Natal, São José de Mipibu, Arês, Vila Flor, Extremoz, Vila do Regente e as recém criadas Vila do Príncipe e a Vila da Princesa.
Que compreendiam outras tantas freguesias de que eram sedes e mais as freguesias do Apodi, Goianinha e Pau de Ferros que ainda não gozavam dos foros de vilas. Com a população disseminada por toda parte, atingindo as serras e os pontos mais remotos alargando a criação e fazendo da capitania uma região francamente pastoril onde o caráter salino do solo, a abundância de pastos suculentos e os campos agrestes que determinaram a multiplicação do gado vacum, o gado cavalar dava-se bem no sertão, mas nunca se multiplicava tanto como o vacum, em virtude da falta de forragem apropriada, o gado muar era quase que desconhecido no começo da capitania, em virtude da carta régia de 14 de Junho de 1761 em que proibia que fosse despachado mulas ou machos, e que fossem sacrificados os que entrassem na capitania depois da publicação da lei, e devido a decorrência deste fato, e que ocorreu a não existência do gado muar, as ovelhas e cabras somente foram criadas na capitania a partir do reconhecimento da superioridade de suas peles. As guerras, epidemias e as crises climáticas periódicas, acabaram levando a um desaparecimento quase completo dos povos naturais, de modo que, no cruzamento que se operou no Rio Grande do Norte entre as três raças que entraram na formação histórica, a raça primitiva forneceu o menor contingente, especialmente na zona agrícola, onde foram assimilados em maior números os negros e os mulatos, enquanto no sertão o coeficiente dos índios e mamelucos foi superior. Na capitania os colonos que tinham a vida bem apertada, pois os mesmos não eram os donos das sesmarias, eles consumiam principalmente a carne secada ao sol, ou do gado miúdo de preferência de ovelhas, no começo nada se plantava, pois julgavam o terreno estéril, porém mais tarde introduziram a cultura do feijão, milho, cana e da mandioca, e com os inventos mecânicos que revolucionaram a indústria dos tecidos que aumentaram o consumo do algodão, é que levou o plantio do algodão para terrenos mais afastados.
Nesta época no Rio Grande do Norte ocorria um fenômeno para aquela região, que era as feiras de gado, onde na maioria das vezes o gado era permutado por objeto, e elas deram origem a alguns povoados, os quais podemos observar algumas particularidades locais, tais como: as casas eram em geral de taipa, sendo que as dos colonos eram cobertas de capim ou de folhas de palmeiras a não ser nos povoados, viviam-se em isolamentos nos sertões onde o contato dos fazendeiros eram com os vaqueiros e agregados, nos engenhos com os lavradores, os moradores e os escravos, tempo depois foi que os fazendeiros e senhores de engenhos começaram a permanecer algum tempo nas cidades e nas vilas, especialmente por ocasião das festividades religiosas como procissões solene, as novenas, as festas do orago das freguesias ou em honra dos santos preferidos pelos devotos, e nas diversões populares como o, bumba-meu-boi, os fandangos, os batuques, as corridas à argolinha, o carnaval com os seus papangus e entrudo, as danças de cordas, e a congada às quais não compreendiam festas e alegrias populares sem tiros de roqueira ou de bacamarte.
Nos sertões, a festa por excelência era a das vaquejadas, nas zonas açucareira era as boladas dos engenhos. Nas famílias, os chefes tinham uma autoridade absoluta e incontestável, onde as suas resoluções não se discutiam, conversavam pouco com os filhos, que os respeitavam e temiam, as suas mulheres eram antes de tudo escravas do dever do que carinhosas e ternas companheiras nas provações da vida, que se trajavam com a maior simplicidade.
O comércio era a aspiração dos mais ativo e inteligentes, porque dava facilidades de vida e a consideração dos proprietários abastados, nivelando classes hostis: a dos mercadores e a dos senhores territoriais, quando estabelecidos em pequenas vendas que eram verdadeiros bazares que se abasteciam com as mercadorias vindas de Pernambuco, onde os mascastes também se abasteciam. E o ensino primário era ministrado pelos missionários nas aldeias dos índios e pelos vigários e capelães aos filhos dos moradores ricos das cidades, e no momento da extinção das missões o mestre-escola veio como uma necessidade para suceder os padres no papel de educadores.
Com a morte do Capitão-mor Caetano da Silva Sanches em 15 de Março de 1800, assumiram o governo da capitania o Comandante Antônio de Barros Passos e o Vereador Luís Antônio Ferreira até o ano de 1801.
Quando chegou o novo Capitão-mor Lupo Joaquim de Almeida Henriques, homem despótico e violento que cometeu toda a espécie de arbitrariedade, que acabou levantando o clamor popular devido aos absurdos por ele praticado, e que por isto chamou a atenção da corte de Lisboa que imediatamente ordenou a sua retirada para Pernambuco.
Sucederam-lhe interinamente o comandante Joaquim José do Rego Barros e o Vereador Luís Antônio Ferreira até a chegada de José Francisco de Paula Cavalcanti de Albuquerque no dia 23 de março de 1806 com grande interesse de guarnecer a capitania e, para isto dividiu a tropa em três divisões e subdividiu as divisões em círculos, e em 22 de Janeiro de 1812 foi substituído por Sebastião Francisco de Melo Povoas, que encontrou na capitania o gado vacum sendo a sua principal fonte de exportação, e a cultura do algodão começando a se desenvolver, e magníficos resultados com a plantação de mandioca, milho e arroz, e as salinas sendo exploradas com bom resultados, portanto nesta época havia no Rio Grande do Norte uma acentuada probabilidade de grandes surtos econômico. E a construção do quartel de Natal, data do governo de Melo Povoas que deixou o exercício do cargo de capitão-mor em 16 de Dezembro de 1816 ao ser sucedido por José Inácio Borges e que durante a sua administração rebentou em Pernambuco o movimento republicano de 1817 que teve o seu inicio em 1800, com intensas propaganda política exercidas pelas sociedades secretas de Pernambuco onde se doutrinavam os mais adiantados princípios liberais ou, como se dizia, a causa da liberdade, aonde alguns dos componentes, coerentes com as suas idéias chegaram às ultimas conseqüências ao pleitearem o estabelecimento do regime republicano, com as mais amplas franquias democráticas, onde outros queriam a independência e, com ela, uma constituição que assegurasse as garantias de ordens políticas e que delimitasse as atribuições dos poderes que fossem criados e reconhecesse os direitos dos cidadões e que refreasse as violências das autoridades constituída. André de Albuquerque que era filiado a uma daquelas sociedades secretas, logo se tornou o chefe dos que na capitania do Rio Grande do Norte ansiavam pela realização das reformas que correspondessem às aspirações do povo que estavam cansados da tirania e opressões. E ao se operar a revolução no Recife, logo se fez a republica, e André de Albuquerque a principio vacilou em aceitá-la, porém ao ser informado da real situação, de imediato promoveu o movimento em sua terra.
Com a confirmação da noticia dos sucessos alcançados em seis de Março em Recife, o Capitão-mor José Inácio Borges de imediato publicou uma proclamação a todas as câmaras e comandantes de distritos da capitania do Rio Grande do Norte, a respeitos dos acontecimentos ocorridos na vila de Santo Antônio do Recife em Pernambuco, em que resultou na imediata saída do governador daquela capitania para o Rio de Janeiro e que alguns facciosos haviam assumido e usurpado a jurisdição do governo, trazendo com isto a intranqüilidade para os seus habitantes, e por conta disto declarava que estava cortada as relações com qualquer governo ou autoridade levantada no momento em Pernambuco. José Inácio Borges hesitou em condenar o movimento, só o fazendo após se reunir com um conselho, que divergindo da opinião de André de Albuquerque deliberou por maioria de votos que ele fosse combatido e que fosse transferido para a fronteira sul da capitania para impedir que a mesma fosse invadida. André de Albuquerque imediatamente aceitou a comissão a ele imposta, pois era de seus propósitos ganhar tempo para organizar convenientemente as suas tropas e esperar a chegada de reforços que lhe tinham sido prometidos da Paraíba. No dia 16 de Março o Capitão-mor José Inácio Borges enviou uma correspondência ao para André de Albuquerque relatando a respeito do tumulto reinante na Paraíba e que ele deveria incorporar a sua tropa, com a gente da ordenança do Capitão-mor Vila Flores e Arês para defesa dos limites da capitania em Goianinha. André de Albuquerque em 18 de Março acusou o recebimento das instruções a ele enviada em sua resposta dada ao capitão-mor na qual demonstrou que já não mais se dedicava ao rei, e comunicou que as ordens enviadas já haviam sido cumpridas e que instalara o seu quartel no seu engenho em Cunhaú, onde recebeu o correio da Paraíba nas pessoas de Baltazar da Rocha e do Padre João Damasceno Xavier Carneiro que pertencia a freguesia do Uno em Pernambuco, que tinham o intuito de conseguir a adesão de André de Albuquerque a revolução e que após o encontro, abraçou francamente o partido dos republicanos. José Inácio Borges que não demonstrava nenhuma desconfiança, em 20 de Março tornou a escrever para André de Albuquerque solicitando maiores informações a respeito do número exato de homens que tinham sob a sua ordem, e devido as informações prestada em resposta pelo oficio do dia 22 de Março, o capitão-mor de imediato resolveu visitar o sul da capitania a fim de verificar pessoalmente o que ocorria e orientar-se acerca das dificuldades existentes. Na manhã do dia 24 de Março o capitão-mor se encontrou em Goianinha com André de Albuquerque onde conversaram sobre a situação reinante, e se retirou ao cair da tarde com destino ao engenho Belém, convencido pelas razões expostas por André de Albuquerque de que não daria seu apoio ao revoltosos de Pernambuco. Porém na madrugada do dia 25 José Inácio Borges foi cercado e preso por André de Albuquerque e pelo Capitão-mor das ordenanças da cidade da Paraíba João de Albuquerque Maranhão e alguns oficiais do regimento de cavalaria que se encontravam na fronteira e que na oportunidade o Padre João Damasceno Xavier Carneiro e Luís Manuel de Albuquerque Maranhão alardearam a glória dos libertadores de sua pátria, que dali mandaram chamar o comandante da companhia de linha, o provedor da fazenda real e o major de infantaria miliciano para conduzir o Capitão-mor José Inácio Borges a cidade, com ordem para assassinarem no caso de qualquer resistência, porém como não houve rebuliço, lhe foi permitido ir buscar a sua mulher para com ela ser conduzido a Pernambuco onde foi recolhido à fortaleza de cinco pontas. André de Albuquerque ao assumir definitivamente à causa da liberdade reuniu os oficiais militares e as principais pessoas do movimento e nomeou para compor o seu governo o Comandante de Linha Antônio Germano Cavalcanti de Albuquerque, o coronel Joaquim José do Rego Barros, o Capitão Antônio da Rocha Bezerra e o padre Feliciano José Dornelas que a principio se recusaram em aceitar os cargos, porém com as insinuações do Padre João Damasceno Xavier Carneiro, todos acabaram aceitando e assinaram as atas, editais e as ordens expedidas pelo governo revolucionário, que causaram a desaprovação e o ódio da opinião pública, e a indisposição da companhia de linha. E no exato momento em que a força paraibana sob o comando de José Peregrino saiu da cidade, rebentou a contra-revolução pelo povo instigado por decididos partidários da monarquia que de imediato receberam o apoio da companhia de linha que correram às armas aclamando a Dom João VI, cuja autoridade se pretendiam restabelecer no Rio Grande do Norte.
E em 24 de Abril sob a liderança do Comandante de Linha Antônio Germano, que animava a revolta e a insubordinação dos soldados, que imediatamente se colocam em marcha pela rua Grande em direção ao palácio do governo.
Ao sinal de nove badaladas no sino da matriz, um grupo dos mais resolutos dos monarquistas compostos pelo Capitão Antônio José Leite de Pinho, Capitão-mor José Alexandre Gomes de Melo, Capitão de segunda linha Francisco Felipe da Fonseca Pinto, Alexandre Felício Bandeira, João Alves de Quintal e do Alfaiate Manuel da Costa e de muitos outros que se reuniram com Antônio Germano ao galgarem de tropel as escadas do palácio e surpreenderam o indefeso André de Albuquerque sentado à mesa de trabalho. Então neste momento Antônio Germano intimou-lhe com voz de prisão, e o declara deposto no meio do alarma e dos gritos sediciosos de Viva o Senhor Dom João VI ! Morra a Liberdade !, e meio desta confusão André Albuquerque levantou-se e encaminhou-se a uma das janelas do palácio, como se quisesse por ela precipitar-se, preferindo talvez a morte desastrosa ao acabar nas mãos de seus inimigos. O Capitão Antônio João Leite prevendo a intenção de André de Albuquerque, cordialmente estendeu-lhe o braço sobre os ombros e exclamou: “Não faça isto, Senhor Coronel” no exato momento em que o Oficial Francisco Felipe da Fonseca Pinto, num golpe traiçoeiro cravou-lhe a espada em seu ventre. André de Albuquerque o mártir dos princípios liberais ao se sentir ferido e exausto de suas forças, cai ao chão ao ser sacrificado pela emancipação de sua terra, certo de que o sangue dos patriotas é a seiva mais fecunda da árvore da liberdade. Prostrado, e quase moribundo, foi-lhe imposto que desse Vivas ao Rei, fato que não conseguiram demovelo do obstinado silêncio, pois velara-lhe os lábios o sentimento da própria dignidade, e mesmo assim mortalmente ferido o desventurado André de Albuquerque é posto a ferros e conduzido por entre os insultos e apupos da gentalha para ser encarcerado na hedionda e solitária prisão da fortaleza dos Reis Magos, onde o reverendo Feliciano José Dornelas assisti aos seus últimos momentos na madrugada do dia 25 de Abril. E ao amanhecer do dia seguinte a companhia de linha que já estava em armas à testa do povo da cidade que haviam se levantado com eles, seguiram as reais bandeiras proclamando com grandes vivas a real soberania e marcharam para o sul da capitania com a finalidade de prender os parentes de André de Albuquerque que haviam se refugiado no engenho de Cunhaú fortemente armados, porém ao chegarem ao engenho não os mais encontraram, por este motivo lançaram algumas patrulhas pelo sertão em perseguição para prender aos revolucionários, com exceção de José Inácio de Albuquerque que se apresentou mais tarde, e do Padre Antônio de Albuquerque, Vigário de Goianinha que não foi alcançado; e pelo alvará de 12 de Dezembro de 1770 foi organizado um governo interino para administrar a capitania do Rio Grande do Norte, e para tal o senado da câmara escolheu o Capitão e Comandante da tropa de linha Antônio Germano Cavalcanti de Albuquerque e o Vereador André Álvares Pereira Ribeiro Cirne, que após constituírem o seu gabinete não encontraram grandes embaraços quando expediram os preciosos avisos às vilas das capitania, com exceção da vila de Portalegre aonde David Leopoldo Targini, emissário dos rebeldes naquela vila, à frente de um grupo armado prendeu os enviados do governo antes de chegarem ao seu destino, e que ao tomarem conhecimento dos acontecimentos.
De imediato marchou para a vila, onde se juntou ao Vigário João Barbosa Cordeiro e convocou a população para instalarem um governo formado pelo Vigário João Barbosa Cordeiro, o Tenente-coronel Leandro Francisco de Bessa, o Sargento-mor José Vieira de Barros, o Capitão Manuel Joaquim Palácio e do Tenente Felipe Bandeira de Moura.
Que marcharam junto à forças comandadas por Miguel César emissário dos rebeldes de Pernambuco contra as vilas onde se tivessem levantado as reais bandeiras e depois se encaminharam à capitania do Ceará, e nos primeiros dias de Maio, o governo interino da capitania do Rio Grande do Norte, ao tomar conhecimento do levante realizado por David Leopoldo na vila de Portalegre, imediatamente ordenou que marchasse da vila da Princesa um corpo de infantes para prender os membros do governo revolucionário e seus promotores, com exceção do Padre Gonçalo Borges de Andrade que fugira junto com David Leopoldo. E durante quatro anos, os réus pronunciados, permaneceram nos cárceres da Bahia, somente em 1821, logo após o estabelecimento da junta governativa, organizada em conseqüência da revolução portuguesa do ano anterior, e que após tomarem conhecimento do processo e das graves irregularidade nele contido, de imediato mandaram anular o processo e fizeram expedir os mandados de soltura dos presos. Assim desta maneira encerrou-se o episódio revolucionário de 1817 na capitania do Rio Grande do Norte, cuja figura máxima foi André de Albuquerque, que encarnou a república nos dias de triunfo e, aureolado pelo martírio que com ela sucumbiu, e dele não se registra lances de heroísmo e de intensidade dramática, mas, tão certo é que a violência não convence e que as idéias não morrem, que foi justamente em seguida ao seu esmagamento que se começaram a definir na capitania as correntes políticas que mais tarde, depois da independência, teriam perturbado por tanto tempo a vida da província.
Os processos adotados pelos portugueses na colonização e governo do Brasil nunca foram os mais próprios para ligar a metrópole e a colônia por uma larga corrente de simpatia e solidariedade, pois os capitães-mores em vez de procurarem atenuar e desvanecer habilmente as prevenções existentes desde a época da conquista, pelo contrario impunham-se mais pela violência e pelo arbítrio do que pela docilidade e brandura e as normas de moderação e justiça para a união necessária entre os dois povos, que deste modo se anulava antes as injustiças e desarrazoadas preferências dadas aos europeus, pois os brasileiros não passavam de mero instrumentos dos dominadores que se fixavam e desbravavam o solo exercendo as maiores extorsões e depauperando gananciosamente as populações rurais, criando com isto uma grande rivalidade que normalmente se degeneravam em lutas sanguinolentas.
E no momento em que Napoleão, dominou a França e avassalando toda a Europa com o fulgor de sua vitória. Acabou obrigando com que Dom João VI emigrasse para o Brasil em busca da salvação de sua coroa e de sua dinastia, fato este que mais tarde trouxe o declínio do poderio da metrópole, e que seria o ponto de partida para a emancipação política, cujas primeiras tentativas foram afogadas em sangue. Com a transferência da sede do governo para o Rio de Janeiro, o rei Dom João VI em 28 de Janeiro de 1808 ainda no caminho para o Brasil decretou interinamente e provisoriamente a abertura dos portos ao comércio das nações amigas, ao atender as exigências do governo inglês, e a este primeiro arrebol do lumiar da liberdade, outros atos de importância capital se seguiram para o Brasil, e com a ausência prolongada do rei nas cortes de Lisboa e na decorrência das revoluções que se alastravam por toda a Europa, desde o fim do século XVIII, acentuara a decadência de Portugal, onde se generalizava a aspiração por um outro regime mais compatível com a liberdade civil e política do povo, e devido ao movimento revolucionário do Porto em 24 de Agosto de 1820 onde o ideal de uma nova formula constitucional e a explosão de descontentamento do povo para um perfeito equilíbrio e a mais concreta harmonia dos direitos do soberano e de seus súbitos, acabou trazendo uma grave perturbação política para a metrópole em que acarretou o retorno de Dom João VI para Portugal e subseqüentemente a independência do Brasil com a emancipação completa da colônia com o governo de Dom Pedro I, que teve o seu inicio cheio de embaraços e dificuldades de todas as ordens.
E com a elevação das capitanias em províncias na conformidade do sistema espanhol, adotado pelo governo provincial de Portugal que desconheciam a autoridade de Dom Pedro I e por conta disto restringiram sensivelmente os poderes de que se achava investido, e como exemplo temos o fato do comandante da divisão portuguesa do Rio de Janeiro Jorge Avilez que a frente de uma guarnição militar promoveu uma manifestação armada, onde obrigou que Dom Pedro I jurasse as bases da constituição portuguesa antes de ser recebida a noticia oficial de Lisboa e que na mesma ocasião impôs ao regente a demissão do Conde dos Arcos e a eleição de uma junta que, com ele governasse o Rio de Janeiro, e para Dom Pedro I que tinha a insofrida paixão do poder, a demonstração de força imposta por Avilez tinha sido deprimente e agressiva, e para o fato Dom Pedro I não ocultou a sua mágoa e por conta disto, lançou-se abertamente nos braços dos partidos brasileiros imediatamente, pois a partir de 24 de Abril declarou todos os governos provinciais independentes do Rio de Janeiro, aprovou a desobediência à junta da Bahia, suprimiu os tribunais do Rio de Janeiro, e com o recebimento do decreto que ordenava o seu regresso a corte de Lisboa e que observasse as leis de Lisboa.
Fez transbordar em ímpeto irreprimível o descontentamento de Dom Pedro I que não hesitou e resolveu permanecer no Brasil, quando o dia do Fico de nove de Janeiro ficou simbolizado como o marco do rompimento deste com a metrópole e o inicio do movimento separatista.
Jorge Avilez em um movimento armado tentou esmagar o partido dos brasileiros quando tomou posição para tal ao ocupar o morro do Castelo, para onde Dom Pedro I a frente da resistência marchou e fez com que Avilez capitulasse e embarcasse para Lisboa em 15 de Fevereiro. E logo o fato imediatamente Dom Pedro I demitiu o seu ministério e nomeou um outro do qual José Bonifácio ocupou a pasta dos estrangeiros, e ao convocar o conselho de procuradores gerais de províncias, ordenou que nenhuma lei das cortes de Lisboa fossem obedecidas sem o seu consentimento e, proibiu o desembarque de qualquer tropa portuguesa no Brasil e no decorrer do tempo Dom Pedro I em sete de Setembro declarou a independência do Brasil, como comprovação de um fato, e a afirmação diante de outras nacionalidade, de que a obra da emancipação, há muito feita no espírito e no coração dos brasileiros estava concluída.
Após a contra-revolução de 1817, José Inácio Borges pessoalmente não tomou qualquer iniciativa de perseguição ou de vinganças, apenas se limitou a cumprir as ordens que recebia, em que muitas das vezes suavizava quanto possível a ação de sua autoridade, e devido ao seu procedimento a calma e a ordem voltou a reinar na capitania do Rio Grande do Norte, que com o fato se libertou da subordinação de Pernambuco, e juridicamente separada da Paraíba, para se constituir em uma comarca a parte pelo alvará de 18 de Março de 1818 e com o decorrer do tempo começaram a se manifestar as primeiras divergências entre os partidários da independência e os adeptos da política recolonizadora de Portugal, divergências estas que alimentadas pelos ódios das facções que produziram estéreis agitações e lamentáveis anarquia, e com a revolução iniciada no Porto e vencedora em Portugal com uma nova constituição que se ramificou com vários pontos do Brasil e que foi jurada em todas as província e, que no Rio Grande do Norte foi jurada perante a câmara municipal na presença do clero, da nobreza, do povo e do Governador José Inácio Borges que nesta época já era franco partidário da causa da independência, e se mantinha incompatibilizado com os recolonizadores que tinham no Ouvidor da Câmara José de Brito Lima o seu guia e inspirador, que pelas suas ações tendia para um congraçamento geral e uma preparação na província para uma remodelação política que no Brasil vinha sendo arrastado, como demonstrou na eleição da junta que o substituiu no governo, a qual foi composta em sua maioria pelos velhos e bons patriotas que, nos cárceres da Bahia, haviam sofrido inúmeros tormentos pelas suas co-participações no malogrado movimento de 1817, e que teve como presidente o Coronel Joaquim José do Rego Barros para o qual José Inácio Borges passou o governo da província.
E devido ao ódio e a rivalidade gerada pela luta em que havia empenhado com o ouvidor, que munido de provas esmagadoras de seus abusos e prevaricações, procurava comprometer José Inácio Borges perante as autoridades superiores do Rio de Janeiro, a junta foi empossada em três de Dezembro de 1821 e administrou por pouco mais de dois meses e que politicamente teve uma vida agitadíssima, pois em menos de um mês depois de instalada o povo reagiu contra ela por atos e fatos provocado por parte do ouvidor que obteve o apoio da força armada, por intermédio do batalhão de linha sob o comando de Antônio Germano Cavalcanti que em sete de Fevereiro de 1822 antes a ameaça de sua intervenção, obrigou ao senado da câmara a eleger um governo inteiramente dedicado aos elementos que lhe eram contrários sob o pretexto do fato de que a junta não ter sido eleita de acordo com as disposições do decreto expedido pelas cortes constituintes de 29 de Setembro de 1821 e sim de acordo com o expedido especialmente para Pernambuco, e por este motivo em quatro de Fevereiro, diversos cidadões dirigiram uma representação ao presidente da câmara, para realização de novas eleições dos membros da junta do governo, e como ela não produziu os efeitos desejados em virtude da energia como agiu o governo para o caso, os signatários imediatamente se dirigiram ao comando do batalhão de linha solicitando o seu apoio para a organização imediata de um novo governo temporário em virtude do despotismo praticado pelo governo e pela irregularidade com que fora constituída a junta. Antônio Germano Cavalcanti comandante do batalhão de linha, de imediato deu o seu assentimento ao plano subversivo dos sediciosos, e dirigiu um requerimento aos membros da câmara declarando que a tropa havia concorrido espontaneamente para a ação heróica e pacificadora, a fim de sustentar a causa constitucional e os direitos da nação, e por conta disto o senado da câmara ante a ameaça de uma intervenção violenta, tomou a resolução de cumprir o requerido, quando se dirigiu aos membros da junta, dizendo que se viu atacado pelo povo da cidade, ao requererem um governo temporário para a província na forma como determinava o decreto de 29 de Setembro de 1821, e para preservar a paz e sem força para resistir, imediatamente decretou que os eleitores escolhessem os novos membros do governo temporário, que foi constituído em sete de Fevereiro de 1822 com Francisco Xavier Garcia no cargo de presidente.
E no dia 8 de Fevereiro, o senado da câmara comunicou a todas as câmaras da províncias a instalação do governo temporário e marcou a data de 18 de Março para a eleição de um novo governo que o deveria substituir
Em resposta ao comunicado por ela enviado, a câmara da vila da Princesa se colocou contraria ao governo ora instalado, e que não reconhecia a sua legitimidade. O senado da câmara de Natal, julgando ofensiva a resposta da vila da Princesa, com a qual foram solidária as câmaras de Portalegre e Príncipe, de imediato oficializou ao governo temporário e a Dom João VI e representou contra ela, mas essa representação não teve deferimento, e por conta disto o governo temporário que sucedeu aquela junta foi obrigado a procurar a adesão das câmaras insubmissas, através de acordos e concessões, e o governo temporário que esteve à frente da administração no período de sete de Fevereiro a 18 de Março de 1822, não praticou qualquer ato que merecesse uma menção especial, pois apenas se limitou a dar providências sobre o processo que o governo havia instaurado contra o Ouvidor Mariano José de Brito Lima e o Capitão Joaquim Torquato Raposo da Câmara, que culminou com os acusados sendo soltos e reintegrados aos seus cargo que ocupavam, e de acordo com a convocação do senado da câmara de Natal, em 18 de Março se reuniram os eleitores da paróquia e elegeram a nova junta da qual o Padre Manuel Pinto de Castro figurou como presidente, e que foram empossados no mesmo dia, e como primeiro ato desta junta que objetivava o restabelecimento da harmonia, João Marques de Carvalho foi comissionado para ir as vilas do Príncipe, Princesa e Portalegre a fim de conciliar as divergências que haviam surgido quando da aclamação do governo temporário no exato momento em que por todo o país os países se congregavam em torno dos que se conservavam fiéis às cortes portuguesas e dos que abraçavam a causa da independência. Em seis de Julho a câmara de Natal reconheceu a regência de Dom Pedro I com a delegação do poder executivo do Brasil sem nenhuma restrição e do mesmo modo que Dom João VI o exercia em Portugal, e no dia 13 comunicaram aos chefes dos regimentos de milícias e os capitães-mores de ordenanças, para que perante as câmaras das vilas prestassem juramento igual ao que fora prestado em Natal, e dali em diante a ação da junta subordinou-se ao pensamento do governo de Dom Pedro I, cujas ordens começaram a ser executada fielmente, mas nem por isto cessaram as lutas políticas, e naqueles dias de indecisões e de dúvidas, onde o único poder real da província era o batalhão de linha cujo comandante Antônio Germano Cavalcanti fazia e desfazia à sua vontade, e que na ocasião das eleições para eleger o deputado para as cortes gerais do Brasil, e que Antônio Germano demonstrou ser um indivíduo hábil, que sabia manter-se jeitosamente, sem se comprometer de todo em favor de qualquer partido, pois quando lhe foi oferecido o lugar de comandante das armas, ele de imediato recusou, por haver um clima atribulado para boa ordem nas eleições, e no dia 11 de Novembro se realizou a eleição para eleger o deputado para as cortes gerais do Brasil, e perante o colégio eleitoral apareceu um requerimento do povo e outro da tropa da primeira linha para que fossem afastado João Marques Carvalho e Agostinho Leitão de Almeida da junta provisória, e que fosse convocado o senado da câmara para eleger os que deveriam sucede-los, e que pela pluralidade dos votos, foram eleitos o Padre João Francisco Fernandes Pimenta e José Correia de Araújo Furtado, e no dia 2 de Dezembro foi recebido pela câmara do senado de Natal a noticia oficial da aclamação de Dom Pedro I como Imperador do Brasil e no dia 11 o senado da câmara solenizou o acontecimento com uma missa e Te Deum que foi celebrado na matriz, enquanto isto as agitações políticas continuavam a dividir as facções nacionalistas e os racionarios e por causa disto o senado da câmara publicou um proclamação contra o governo de Dom Pedro I, pelo fato de ter recebido um oficio da secretaria de negócios do império prometendo providências para evitar toda e qualquer efusão de sangue na província, e que as mesmas não haviam sido dadas, e em conseqüência disto a junta convencida de que não viriam, estaria praticando todo tipo de violência, assim como a prisão dos Sargentos Manuel Pegado de Albuquerque e José Luís Soares e do Furriel Pedro José da Costa Barros por crimes imaginários e argüidos pelo comandante da armas com o apoio do imperador, a partir desta proclamação a posição de Antônio Germano Cavalcanti começou a decair, fato este que ele mesmo reconheceu, pois logo a seguir solicitou e obteve a sua reforma em 21 de Julho de 1823 no posto de Tenente coronel e pouco meses depois a junta era também obrigada a deixar o poder sem simpatia e sem dedicação, depois de ter ocupado sem cumprir às suas promessas no espaço de tempo entre 18 de Março de 1822 a 24 de Janeiro de 1824, quando foi substituída por Teixeira Barbosa um cidadão sem qualquer descortino administrativo e sem preparo necessário para o alto cargo que ia ocupar e que, apesar de suas boas intenções, acabou sendo nas mãos dos seus conselheiros, um instrumento de vinditas dispensáveis, em vez de ser o restaurador da concórdia, da paz, das agitações aparentemente sufocadas, que sobrevieram logo a seguir nas paixões locais sempre efervescentes e nas repercussões do que ocorria no Rio de Janeiro antes e depois da dissolução da constituinte, Teixeira Barbosa fraco e impotente para dominar a anarquia que alçava o solo do Rio Grande do Norte fazendo perigar em crises de opiniões divergentes, e por conta disto apelou para o concurso de Agostinho Leitão de Almeida, um dos membros da junta deposta em 1822, que ao assumir o exercício de seu cargo, procurou influir para que não agravasse a situação, incorrendo por isto no desagrado dos exaltados que estavam inclinados a acompanhar o movimento de reação em Pernambuco que terminou na Confederação do Equador.Tomas de Araújo Pereira, nomeado presidente da província em 25 de Novembro de 1823, receoso das desordens que lavravam pelo interior, de imediato procurou diversos pretexto para adiar a sua posse, para finalmente em cinco de Maio assumir o governo e como o seu antecessor, que era um simples soldado da segunda companhia do regimento de cavalaria miliciana, que iria lutar com insuperáveis dificuldades, apesar de gozar de uma grande popularidade na zona de Seridó, principalmente em Acari, apesar de tudo, Tomas de Araújo não era o homem indicado para governar a província, pois com sua idade avançada e de sua cegueira e as suas ligações políticas que tinha, fazendo-o partidário intransigente, o que constituía em uma qualidade que o contra indicavam a sua escolha para a função de que fora investido, e menos de três meses depois de empossado, o batalhão de linha na sua presença depões o seu comandante João Marques de Carvalho, a partir deste momento, o contágio revolucionário tornou-se contagiante com sérias perturbações da ordem com puro reflexo das convulsões revolucionarias de Pernambuco, e em oito de Setembro de 1824 Tomas de Araújo, estando sofrendo horrores das anarquias de que estava a província e ameaçado de sua autoridade e esbulhado de seus direitos por aqueles que deveriam sustentar e fazer respeitar a ordem, acabou renunciando à presidência e retornou para Acari, e no período de sua passagem pelo governo da província do Rio Grande do Norte compreendido entre cinco de Maio a nove de Setembro de 1824, em nada contribuiu para acalmar o estado de inquietações em que vivia a província, onde a força armada superpunha-se a tudo e a todos ao ditarem as leis pelas suas vontades e que as lutas de grupos pelo predomínio de pessoas continuaram a ser por muito tempo, conseqüências inevitáveis da aprendizagem que se fazia do regime constitucional, felizmente vencidos, sem que conseguissem constituir qualquer tipo de governo, com os entusiastas, teóricos e idealistas da Confederação do Equador, que viam na quebra da integridade nacional o remédio aos males das tendências separatistas.
Os notáveis acontecimentos que se desdobraram no Brasil desde a independência até ao meado do século XVIII, com exceção do período da regência que foi o ponto culminante da história política durante o império , poucos abalos produziram na província, que quase sempre se conservou alheia às intensas vibrações patrióticas, alimentadas em outros pontos do país pelas ardentes paixões que tumultuavam naquela época. A província do Rio Grande do Norte nos seus primeiros anos era uma província atrasadíssima, fora capitania subalterna até 1817, onde a identidade ou a diversidade de interesses era que ligava ou separava os homens cujas aspirações se limitavam ao predomínio e ao mando nos distritos de sua residência e poucos foram os que tiveram influência generalizada na província até à constituição definitiva dos partidos, a política se fazia em torno dos presidentes, o qual ninguém lhe recusava em apoiar, desde que suas preferências não fossem partilhadas pelos adversários e na subordinação humilhante e deprimente nunca pudera desenvolver as suas forças para uma vida de relativa autonomia sob instituições mais livre, que com a falta de resistência aos abusos do poder que burlava por completo todas as garantias constitucional.
No decênio de 1830 a 1840 as mudanças já foram mais sensíveis na capitania, devido a elevação de seus habitantes livres e escravos.
E a riqueza particular que fora reduzida devido ao efeito da seca de 1824 se refez significativamente e foram criado vários municípios e freguesia onde foram inaugurada diversas escolas e organizado alguns serviços e multiplicado os juizados de paz, politicamente também se operaram profunda modificações e com o falecimento de José Paulino de Almeida Albuquerque o Padre Francisco de Brito Guerra assumiu o seu cargo e se filiou à corrente triunfante onde se ligou estritamente ao Padre Diogo Feijó e a Evaristo da
Veiga e se colocou à frente dos moderados para repelir, por igual as tendências exclusivistas dos liberais exaltados e dos reacionários absolutista quando salvou o principio monárquico com o ato adicional identificado com a unidade da pátria. O Padre Francisco de Brito Guerra foi o representante da província mais gabaritado e amparado para intervir, e foi que, quando prestou os seus valiosos serviços de modo benéfico e eficaz durante alguns anos na política e na administração da capitania, e graça à sua iniciativa e que surgiu em Natal no ano de 1832 o primeiro jornal, O Natalense que foi impresso a princípio no Maranhão, Pernambuco e Ceará até o ano de 1837 quando deixou de ser publicado em tipografia para ser impresso em Natal, e no dia 22 de Fevereiro de 1835, de acordo com o ato adicional, os conselhos constituído por eleição e destinado a auxiliar os presidentes, foram substituídos pelas assembléias provinciais, e no Rio Grande do Norte, o Padre Francisco de Brito Guerra que era o visitador geral, nesta época a sua ascendência política tinha grande influência, por isto na primeira assembléia provincial composta, figuraram nove sacerdotes. Porém, pouco depois o seu prestigio começou a declinar pois em 16 de Dezembro de 1836 quando da realização da eleição senatorial para preenchimento da vaga aberta com a morte de Afonso de Albuquerque Maranhão, o Padre Francisco de Brito Guerra obteve apenas seis votos no colégio da capital, este fato demonstra o enfraquecimento do prestigio do Padre Francisco de Brito Cunha, perante a política praticada por Bernardo de Vasconcelos que era uma necessidade imperiosa para fortalecer o principio de autoridade e extinguir os fermentos revolucionários que punha em risco as instituições e dera origem à reação monárquica que obrigara ao Padre Diogo Feijó a renunciar nobremente as suas funções de regente, sendo Francisco de Brito Cunha amigo e correligionário do padre estadista e por isto foi afastado e levado ao ostracismo e ao isolamento na política local, ao assumir a presidência da província o Doutor Manuel Ribeiro da Silva Lisboa em 26 de Agosto de 1837 tomou como primeira medida a hostilização contra o Padre Francisco de Brito Guerra com brutais imposições ao forçar os partidários do ilustre rio grandense com os quais rompera e suspendera a publicação do jornal O Natalense, e durante o seu governo, Doutor Silva Lisboa cognominado Parrudo se tornou celebre pela sua prepotência e libidinagem,
E no dia 11 de Abril de 1838, acabou sendo assassinado na sua choupana no sitio Passagem em Natal, e segundo a tradição o assassinato não se deu por natureza política e sim de ordem pessoal, devido as ofensas recebida pelo Coronel Estevão José Barbosa de Moura as quais foram vingadas pelos seus familiares.
As idéias e tendências dos dois grandes partidos nacionais, os quais Os homens da província se congregavam em dois agrupamentos; os nortistas e sulistas ou saquaremas e luzias os quais correspondiam aos partidos conservador e liberal que começaram a desaparecer em 1853, no inicio do período de política de conciliação, o progresso material da província era quase que nulo, em conseqüência da baixa receita arrecadada na época a qual não permitia a execução de melhoramentos de grande vultos, por maior que fosse a capacidade administrativa dos presidentes, a após o grande período de seca, que durante a qual as devastações foram cruéis e que por conta disto experimentou profundas modificações econômicas, quando regiões quase que exclusivamente criadora que eram, passaram a ser também zona agrícola por excelência com o açúcar e o algodão avultando-se entre outros gêneros de sua produção agrícolas e industrial, trazendo com isto um aumento significativo em seu comércio. Nesta época as comarcas eram em número de três, que compreendiam a de Natal com o termo jurídico de capital, e as de Açu e Maioridade que eram sede de municípios e não se constituíam de termo jurídicos, os municípios em número de treze que compreendiam as de São Gonçalo, Extremoz, São José do Mipibu, Goianinha, Touros, Príncipe, Acari, Imperatriz, Portalegre, Apodi, Vila Flor, Santana do Matos, Macau e as povoações em número de seis eram as de Acrês, Papari, Pau de Ferro, Santa Cruz, Campo Grande e Mossoró, nesta época a província do Rio Grande do Norte possuía uma força policial de pouco mais de nove mil; homens composto entre a guarda nacional e um destacamento de forças de linha na capital, onde a instrução fizera algum progresso aonde o número de escola chegava a vinte e nove escolas publica com uma freqüência que regulava em cerca de oitocentos alunos, ao lado dos professores nomeados pelo governo, a instrução secundaria era ministrada no Ateneu que foi inaugurado em Dezembro de 1836 pelo Presidente Basílio Quaresma Torreão, e que constava com as cadeiras de latim, francês, geometria, história e filosofia, e a vida social aos pouco ia se modificando lentamente na capital da província, porém no interior o povo ainda não confiava nas ações das autoridades o que fazia aumentar a percentagem de crimes. No ano de 1850, quando da morte do Presidente da Província José Pereira de Araújo Neves, houve quem afirmasse que o seu falecimento, era resultado de um crime por envenenamento, porém desmentida e atestada pelas declarações de um médico da província, que a sua morte havia sido ocasionada por violento ataque de congestão cerebral, e ao assumir a administração da província João Carlos Wanderley que ocupava a vice-presidência em exercício e deputado à assembléia geral e no momento era o político de maior prestígio na província, e em conseqüência o alvo dos mais violentos ataques e agressões, ao abrir a sessão da assembléia provincial em três de Maio de 1850 contestou as insinuações a ele atribuída pela morte e João Pereira de Araújo Neves, e devido a sua intolerância partidária, em seis de Setembro de 1853 quando da divisão dos partidos no gabinete do Marquês de Paraná, criador da política de conciliação que interpôs a decadência dos partidos velhos e o aparecimento dos partidos novos que a inapreciável vantagem de romper a continuidade da cadeia de tradição, e de favorecer pela sua calma e por seu silêncio o trabalho interior de reorganização administrativa e industrial do país, João Carlos Wanderley foi vencido e nunca mais voltou a ocupar as posições que ocupava. No Rio Grande do Norte ela foi na realidade uma época de renascimento, de expansão, de recomeço, em que se renovou o antigo sistema político decrépito, em que se criou o aparelhamento moderno do governo que se dilatou extensivamente não só para a classe política mas para todas as classes sociais, e no ano de 1862 os conservadores genuínos se extremaram logo após o ministério do Visconde Itaboraí, e ao se juntarem com os moderados e os liberais deu o surgimento do partido progressista, que com isto amorteceu as lutas entre nortistas e sulista porém com a preponderância dos conservadores. E o ultimo gabinete de Zacarias de Góis teve uma duração precária e inglória, pelo fato de que Duque de Caxias à frente do exército brasileiro em operações na guerra do Paraguai impôs a sua retirada e o Imperador Dom Pedro I por um golpe de poder pessoal, convocou os conservadores e ordenou que provocasse a queda dos seus adversários que possuíam a maioria na câmara dos deputados, e para isto foi feita a nomeação do senador que deveria substituir Manuel de Assis Mascarenhas que havia falecido em 30 de Janeiro de 1867, o Imperador Dom Pedro I declarou o seu propósito de escolher Francisco de Sales Torres Homens, e por conta desta escolha Zacarias de Góis fez ver que a escolha não era acertada, pois o seu candidato que tinha a sua simpatia era Amaro Bezerra, e com a insistência do monarca, o ministro Zacarias de Góis acabou se demitindo do ministério, e na ocasião os dois grandes partidos nacionais se se reconstituíram com os governistas formando o conservador e os progressistas e um pequeno grupo de desinentes formaram partido liberal após aceitarem o programa republicano e pelo decreto de 18 de Julho a câmara foi dissolvida e Amaro Bezerra que fizera parte dela e sua nomeação para o senado servira de causa ocasional à solução da crise política, voltou à província do Rio Grande do Norte dizendo-se encarregado pelo centro liberal da corte para promover a instalação e organização do diretório do partido local, e por conta disto em 19 de Novembro de 1868, foi eleito o primeiro diretório com o Doutor Amaro Bezerra Cavalcante como presidente e para defenderem as suas idéias acabaram criando o jornal O Liberal do Norte que foi redigido por Amaro de Bezerra, Hermógenes Joaquim Barbosa Tinoco, Luís Rodrigues de Albuquerque e Jefferson Mirabean de Azevedo Soares e no ano de 1872 Moreira Brandão retirou-se para Pernambuco e o jornal passou-se a chamar-se simplesmente O Liberal, que funcionou como órgão do partido até o ano de 1883, e do lado oposto era o jornal O Conservador, fundado em 1869 e publicado até 1881 que sustentou como órgão de seu partido a orientação política dominante que tinha em Luís Gonzaga de Brito Guerra como primeiro vice-presidente da província e que havia inaugurado a situação conservadora na província, que tinha no Coronel Bonifácio Francisco Pinheiro da Câmara como seu chefe principal e que nem todos viam com bons olhos a sua preeminência e por causa disto, que na administração de Henrique Pereira de Lucena no período de 1872 a 1873 e que pôde sobrepor-se aos seus correligionários que abriram uma cisão entre eles e perturbaram a harmonia no seio do partido, porém fora do terreno da política a vida da província seguia o seu curso em perfeita calma e harmonia, afora alguns pequenos conflitos comuns durante as disputas dos pleitos eleitorais, como o que ocorreu na reação do povo, contra o novo sistema de pesos e medidas que foi adotado e que ficou conhecido como o quebra quilos, e o acontecimento mais grave que ocorreu na capitania do Rio Grande do Norte nesta época, foi as depredações ocorridas por um grupo de cangaceiros que eram chefiados por Jesuíno Brilhante.
Na província foram executados alguns melhoramentos, como a construção da estrada de ferro que ligava Natal a Nova Cruz com uma extensão de quarenta e um quilômetros que foi entregue ao tráfego em 28 de Setembro de 1881e nesta época um fato ameaçou a organização dos trabalhos no Rio Grande do Norte, que foi a grande necessidade que o exército brasileiro tinha para suprir as tropas que combatiam na guerra do Paraguai, e em virtude das medidas adotadas para preenchimento dos quadros do exército brasileiro, de imediato espalhou um pânico geral e a lavoura da província foi quase que abandonada, e para isto vieram os apelos vibrantes ao patriotismo da população para que ocorresse às bandeiras em defesa da pátria, e para secundar esse apelo Amaro Bezerra, ofereceu os seus serviços ao Presidente do Conselho Luís Barbosa da Silva e exortou ao povo norte rio grandense para se apresentar em defesa da pátria, o oferecimento de Amaro Bezerra que era deputado, não foi aceito pelo governo imperial, mas o seu exemplo estimulou a coragem e as energias cívicas do povo do Rio Grande do Norte, que em muito contribuiu para que não faltassem numerosos contingentes de norte rio grandense nas fileiras dos bravos que desafrontaram a honra brasileira ultrajada no estrangeiro.
No ano de 1878, os liberais subiram ao poder com o ministério de Sinimbu, que encontrou a província muito castigada pelas fatalidades climáticas e neste mesmo ano João Wanderley que se encontrava recolhido desde a conciliação de 1853, em sua terra natal redigindo o jornal Correio de Açu com tendência francamente liberal e que ao retornar a capital da província com sua tipografia, de imediato iniciou a publicação do jornal Correio do Natal em oposição aos seus correligionários dos quais havia se afastado e no ano de 1885 o seu jornal tornou-se órgão oficial dos conservadores até à extinção da monarquia e no dia 20 de Agosto de 1885 os conservadores assumiram o governo da província nos lugares até então ocupados pelos liberais que se apresentaram aparentemente coesos, porém que trabalhavam com profundas divergências em seus meios e que sempre eram conjuradas por José Bernardo de Melo, e quanto ao conservadores as coisas não corriam de modo diferente, pois cindiam as mais serias divergências de ordem pessoais entre os seus componentes, pois com o falecimento do Doutor Francisco Gomes da Silva e do Coronel Bonifácio Câmara, políticos de grande relevo na província com isto o centro de convergência da política se reverteram para os Deputados Doutor Tarquínio de Souza e do Padre João Manuel, que nem sempre se entendiam a contendo e que com as suas inclinações acabaram refletindo na província.
E o maior sucesso ocorrido no ultimo governo conservador foi o movimento abolicionista, feito fora e acima dos partidos, pelos ilustres cidadões norte rio grandense que se reuniram por iniciativa de Pedro Velho em um de Janeiro de 1888 no Teatro Santa Cruz localizado na cidade de Natal para tal finalidade e que na oportunidade fundaram a Libertadora Norte Rio Grandense que teve no Padre João Maria Cavalcanti de Brito como seu presidente, e era composta de duas comissões executivas que se localizaram na Cidade Alta e na Ribeira e que foram compostas por doze elementos com o objetivo de promover a extinção da escravidão na província, e para promover o movimento, foi criado o Boletim da Sociedade Libertadora Norte Rio Grandense que em seu primeiro número divulgou um manifesto dirigido a todos os municípios da província para que todos se empenhassem num compromisso solene e irrevogável para extinção da escravidão que não era somente uma aspiração e sim uma necessidade e uma exigência do espírito publico, o qual comprimia dolorosamente a alma e degredava e envergonhava o Rio Grande do Norte. O movimento foi rápido e fulminante com significativos apoio da imprensa política, através dos jornais A Liberdade de tendência liberal e dos jornais simpatizante dos conservadores que eram o Correio de Natal e a Gazeta de Natal que aplaudiram os redatores do Boletim da Sociedade Libertadora Norte Rio Grandense pelo movimento abolicionista e pela ação dos abolicionistas, e que puderam dizer com grande orgulho que ao ser promulgada.
A lei Áurea de 13 de Maio de 1888 pela Princesa Isabel, doze municípios, três cidades, nove vilas e vinte e duas povoações se encontravam livres e que pouco teve para fazer a grande lei que aboliu a escravidão no império.
O movimento abolicionista, promoveu em todo o país um grande efeito social e econômico e uma gigantesca repercussão de ordem política com a desagregação dos partidos dos conservadores e dos liberais, que no Rio Grande do Norte tinha entre os conservadores Tarquínio de Souza com um espírito ponderado, culto e que mantinha uma grande aproximação com os correligionários, e João Manuel com um temperamento impetuoso, lutador desassombrado com tendência para o liberalismo radical que combatia a realeza na câmara dos deputados no Rio de Janeiro, e por ocasião da organização do gabinete e ao programa de governo elaborado pelo Visconde de Ouro Preto em sete de Junho de 1889 que resultou na dissolução da câmara dos deputados no Rio de Janeiro, Tarquínio de Souza retirou-se para Pernambuco e João Manuel desligou-se inteiramente de seus partidários conservadores da província, onde nada se fazia sem o consentimento do liberal Amaro Bezerra que com isto cometeu gravíssimos erros em seu governo, que culminou com sua derrota no pleito realizado em 31 de Agosto.
No Rio Grande do Norte a alma do movimento republicano foi o Doutor Pedro Velho, que após concluir o seu curso de medicina no Rio de Janeiro em 1881, retornou ao Rio Grande do Norte e se dedicou à sua clinica e ao magistério e inteiramente alheio às competições dos partidos, porém em 27 de Janeiro de 1889 ao comparecer na residência de João Avelino Pereira de Vasconcelos no bairro da Ribeira, aonde se encontrava presente um grande número de correligionários que haviam aderido ao movimento para fundação do partido republicano e no exato momento em que o Doutor João de Albuquerque Maranhão que havia sido convidado para assumir a presidência da assembléia ofereceu a palavra ao Doutor Pedro Velho para expor aos presentes os fins da reunião e submeter à aprovação dos cidadões presente as bases da lei orgânica do partido, as quais foram imediatamente aceitas, e em seguida procedeu-se a eleição para constituírem uma comissão executiva provisória até que congresso do partido nomeasse um diretório anual, e uma outra que tinha por fim a constituição da diretoria do centro republicano da capital, e ao termino da reunião telegrafaram ao presidente do conselho federal no Rio de Janeiro sobre o resultado da reunião. A comissão executiva eleita em 27 de Janeiro, deliberou o Doutor Pedro Velho como presidente e em um de Julho publicou o primeiro número do Jornal Da Republica que tinha em Pedro Velho como seu redator chefe, que ofereceu um combate sem trégua à monarquia e aos seus servidores, os quais surtiram um grande efeito para o movimento dos republicanos, que com isto acabaram indicando Pedro Velho e José Leão como candidatos do partidos para à última eleição geral que se realizou na vigência do segundo reinado, sem alimentar a pretensão de conseguir o triunfo nas urnas, pois apenas queriam provar que existiam. No resultado apurado, os candidatos republicanos apenas conseguiram algumas dezenas de votos sufragados, porém atingiram o objetivo colimado, pois demonstraram que na província havia um partido que, sem pretender o poder pelo poder, e que se batia ostensivamente por um ideal superior de justiça e liberdade.
E na tarde do dia 15 de Novembro de 1889 a noticia da proclamação da republica chegou a Natal, e por conta disto Pedro Velho apressou-se em transmiti-la ao povo através do jornal Da Republica.
E no dia 17 em reunião realizada no palácio da presidência, os cidadões da província do Rio Grande do Norte de acordo com o movimento republicano do país, representado pelo governo provisório estabelecido no Rio de Janeiro, resolveram proclamar a Republica dos Estados Unidos do Brasil na província que na oportunidade se tornava Estado do Rio Grande do Norte e o Doutor Pedro Velho de Albuquerque Maranhão por aclamação foi nomeado como presidente do novo estado e chefe do poder executivo. Ao se estabelecer o regime republicano no Rio Grande do Norte os antigos partidos foram dissolvidos, e em torno de Pedro Velho se convergiram as maiores influências políticas da ex províncias, e dele só ficaram afastados os elementos que tinham acompanhado Amaro de Bezerra e se incompatibilizado com os representantes em evidência na nova situação, os quais vieram a se constituir na oposição e que se dividiram em dois grupos: sendo que o partido católico combateu o governo central, que decretara a separação da igreja e do estado através do jornal A Pátria. Pedro Velho soube manter firme a coesas as forças de que dispunha, e por conta disto se deu a vitória de sua chapa nas eleições da constituinte, e a vida política do estado se manteve sem grandes agitações até à eleição do primeiro presidente em Fevereiro de 1891 quando se dividiram os seus representantes na constituinte, com Pedro Velho e José Bernardo votando em Prudente de Morais e os outros senadores e deputados no Marechal Deodoro, e como conseqüência dos fatos, veio a mudança de orientação da política estadual com a nomeação do Doutor Francisco Amintas da Costa Barbos para o cargo de governador no lugar ocupado pelo Doutor Manuel do Nascimento Castro e Silva que em três de Março assumiu a administração com grande apoio dos deputados Antônio Garcia e Miguel de Castro, aos quais cabiam as maiores responsabilidade na nova situação reinante, e por conta disto os Senadores Amaro Cavalcante, Oliveira Galvão e o Deputado Almino Afonso abstiveram-se de intervir em assuntos de ordem local, enquanto isto Pedro Velho e José Bernardo enveredaram nobremente pelo caminho do ostracismo.
Em decorrência destes acontecimentos, a efervescência política no Rio Grande do Norte foi extraordinária, e que acabou resultando em uma profunda agitação partidária, que se generalizou por todo o estado do Rio Grande do Norte, onde a oposição em considerável maioria e confiante na vitória do congresso federal sob o governo da união criaram os mais sérios embaraços à administração local, que apesar de tudo, conseguiram através de seus poderes ditatoriais em 10 de Maio de 1891 que fossem eleitos os elementos do congresso constituinte que em 10 de Junho elegeram como presidente o Bacharel Miguel Joaquim de Almeida Castro e o Bacharel José Inácio Fernandes Barbos como vice-presidente e o Coronel Francisco Gurgel de Oliveira como segundo vice-presidente que votaram além de outras leis, a primeira constituição do Estado do Rio Grande do Norte, que foi promulgada em 21 de Julho de 1891, e em decorrência das lutas entre os poderes executivos e legislativo federal, que culminou com a dissolução do congresso nacional em três de Novembro de 1891, Pedro Velho que pertencia à oposição radical se encontrava em Pernambuco de imediato seguiu para Natal logo que se deu a revolução de 23 de Novembro,
E consequentemente após a renúncia do Marechal Deodoro e a posse Marechal Floriano Peixoto preparou e levou a efeito em 28 de Novembro o movimento de deposição do Doutor Miguel Castro ao prende-lo e o embarcar para o Ceará.
E de imediato foi aclamado pelo povo, pelo exército e pelos representantes da armada uma junta governativa composta do Coronel Francisco de Lima e Silva como presidente e dos Doutores Manuel do Nascimento Castro e Silva e Joaquim Ferreira Chaves Filho, e no dia 31 de Janeiro de 1892 foi realizada a eleição dos novos membros do congresso que no decorrer dos dias, em 20 de Janeiro de 1892 o congresso reunido e investido de poderes constituintes, promulgou a sete de Abril a nova constituição do Estado do Rio Grande do Norte e votou as diversas leis complementares. No dia 22 de Fevereiro marcou o termino do governo da junta e na oportunidade o Doutor Jerônimo Américo Raposo da Câmara assumiu a administração e o Doutor Pedro Velho foi eleito para o cargo de governador do qual exerceu com um brilho inexcedível as suas excepcionais qualidades de administrador e de chefe de partido até a sua morte pranteada como o maior e o mais benemérito dos filhos do Rio Grande do Norte
Devido à sua posição geográfica estratégica (é a costa mais próxima da Europa, pelo roteiro da África), o Rio Grande do Norte foi, por várias vezes, escolhido como local de experiências pioneiras da aviação transatlântica, ou base para abastecimento e apoio logístico a operações militares. Durante a II Guerra Mundial os norte-americanos construíram no tabuleiro do Parnamirim, uma grande base aérea, criando a “Ponte do Atlântico para a África”, de fundamental importância para a dominação do poderio nazista e a vitória dos aliados na guerra. Nesse período, a cidade de Natal adquiriu traços de metrópole cosmopolita, onde conviviam estrangeiros de várias origens. Durante o período em que as jazidas de tungstênio abasteciam os arsenais de guerra, a pobreza da região era atenuada.
Danças Folclóricas e Autos Populares: a manifestação cultural do Estado
O Folclore do Rio Grande do Norte é bastante rico em Autos e Danças Populares. Manifestações como o Côco, o bumba-meu-boi, a Embolada, os Presépios e os Fandangos são alguns dos formadores da identidade cultural do Estado.
Muito comuns por todos os municípios nos séculos XIX e XX, atualmente estas formas de expressão estão cada vez mais difíceis de encontrar, reservando-se a espetáculos folclóricos e eventos comemorativos. Muito dessa extinção deve-se ao “progresso” e ao advento das grandes cidades. A televisão e o cinema têm ocupado cada vez mais espaço na formação cultural da população, e as danças típicas perdem espaço para as mais modernas.
As danças populares podem ser classificadas em dois tipos: o mais importante é o dos Autos Populares, uma espécie de ópera, onde há uma dramatização específica para cada um dos Autos; e também as Danças Populares puras, sem qualquer dramatização envolvida, onde o que as diferencia é o ritmo envolvido.
Os maiores exemplos de Autos encontrados no Rio Grande do Norte são os Fandangos, Cheganças, e Bois. Nos dois primeiros, o Auto tem inspiração marítima e é encenado com os participantes vestidos de marinheiros, sendo que no fandango são celebradas as conquistas marítimas, e na Chegança há a encenação de uma luta entre cristãos e mouros. Já o Boi (há vários tipos de Boi: Bumba-meu-boi, Boi-de-Reis, Boi-calemba) é uma das principais e mais famosas festas folclóricas populares do Brasil, sendo o foco da dramatização a história da morte e ressurreição de um boi, o personagem principal da trama.
Já as Danças Folclóricas mais famosas no Estado são os Cocos, Bambelôs, Emboladas, Bandeirinhas e Capelinhas-de-melão. Estas duas últimas são características das Festividades Juninas. Os Cocos e Bambelôs são danças típicas de roda. A grande diferença dos Autos é que não há caracterização e todos podem participar. Hoje ainda há apresentações de artistas folclóricos em festivais e eventos culturais em Natal e em cidades do interior do Estado.
Impossível falar do Folclore no Rio Grande do Norte sem falar de Câmara Cascudo, o maior folclorista do Brasil. O escritor potiguar, nascido em 30 de Dezembro de 1898 registrou a história das Danças Populares no RN desde a primeira apresentação oficial de uma dança folclórica em Natal, em 1812. Dentre suas obras, está o famoso Dicionário do Folclore Brasileiro, a maior obra sobre os personagens do imaginário popular brasileiro.
Desde a origem do seu nome, o forró já gera controvérsia: alguns creditam o nome à um anglicismo proveniente da pronúncia do termo “for all”, que em inglês significa “para todos”, e é como eram chamados os bailes promovidos aos engenheiros ingleses e aos soldados americanos nos fins de semana, no início do século, e que tinham entrada liberada for all, principalmente nos estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Alagoas.
Outra versão, mais verossímil, apoiada por historiadores como Câmara Cascudo, é a de que Forró é derivado do termo africano “forrobodó”, que significa “divertimento pagodeiro”, “festa”, “bagunça”. Era uma festa que foi transformada em gênero musical, tal seu fascínio sobre as pessoas.
O que podemos afirmar é que este ritmo que nasceu no nordeste brasileiro, originado de influências africanas e européias, encanta pessoas de todas as idades e classes sociais, não só no Brasil, mas em todos os lugares do mundo.
No início, o Forró sofreu com o preconceito, por se tratar de um gênero de massas. Com o tempo, foi conquistando o público e saindo das periferias das cidades nordestinas e estabelecendo-se como ritmo predominante também nos bairros nobres das capitais.
São muitas as variações derivadas do forró original. A princípio, conta-se que nasceu o baião. A falta de registros impede uma cronologia mais acertada, mas acredita-se que tenha sido em meados do século XIX.
Dele surgiram os ritmos distintos entre si: o xote, o xaxado, o coco, o vanerão e as quadrilhas juninas. Hoje em dia, é fácil identificar outras variações, tais como o forró malícia (com suas letras picantes ou com duplo sentido), o lambaforró e o oxentemusic. Estas últimas surgiram com influência da Lambada, e incorporaram ao forró um pouco do ritmo e passos da dança. Também elementos como guitarra elétrica, bateria e teclados (no lugar da sanfona) fazem parte destas vertentes mais modernas.É uma festa originalmente da periferia que tomou conta de todo o Brasil e certamente possui um estilo adequado ao gosto de cada público e região do país. Nomes consagrados como Luiz Gonzaga, Genival Lacerda, Dominguinhos, Chiquinho do Acordeom, Jackson do Pandeiro, e Sivuca convivem em harmonia com os atuais Calcinha Preta, Mastruz com Leite, Frank Aguiar e Falamansa. Cada público encontra o forró que preferir, do baião e pé-de-serra ao oxentemusic.
Por causa desta influência indígena, os artesãos do Rio Grande do Norte dominam como poucos a arte de tecer redes de dormir, inclusive exportando para outros estados e até países. E ainda existem por lá pessoas que são exímias na arte de consertar punhos de rede, de bordá-las de acordo com o gosto do freguês, algo não muito comum em outros estados nordestinos, que também têm no tear uma das fontes de artesanato. A renda renascença no estilo belga é encontrada no estado, diferente de outros tipos de rendas e bordados oriundos do Nordeste. As tramas em palha, outra influência indígena, mostra-se de forma delicada.
A LENDA DO LABATUT
Como em qualquer lugar do mundo, o Rio Grande do Norte também tem suas lendas. Algumas são compartilhadas com outros estados nordestinos e outras pertencem apenas a um determinado lugar. Uma das lendas próprias é a do Labatut, um monstro que veio do fim do mundo e viveria na região do Apodi, na fronteira com o Ceará.
Teria forma humana, mas com pés redondos, mãos compridas, cabelos bem longos, corpo todo cabeludo, dentes grandes como os de um elefante e apenas um olho, situado no meio da testa, um ciclope. Este monstro comeria carne humana, especialmente a de crianças, cuja carne é mais macia. A grande curiosidade: o nome Labatut, que foi dado ao tal monstro é uma “homenagem” ao general Pedro Labatut, que morou naquela divisa com o Ceará pelos idos de 1800. Dizem que ele era hostil, cruel e muito violento. Portanto, o apelido dado ao monstro faz todo sentido.
COMIDAS TÍPICAS
O Rio Grande do Norte tem vários pratos típicos que são comuns em outros estados nordestinos, com pequenas mudanças. Porém, alguns dizem que vem de lá a melhor carne-de-sol de toda a região. Com um bom corte de carne, ela é salgada e deixada ao sol (como diz o próprio nome) para que seja curtida, compondo vários pratos típicos e sendo também parte do dia-a-dia da dieta regular de muitos nordestinos. Porém, há algumas curiosidades: o mungunzá, comida de milho reparada em quase todos os estados brasileiros (também conhecida como canjica, no Sul e Sudeste do país) não é doce, mas salgada e pode levar até ingredientes como toucinho, lingüiça e outros itens que fazem uma espécie de feijoada, onde o feijão é substituído pelo milho – mas isso existe no sertão de outros estados nordestinos também. O mais típico do estado, porém, é a sopa de jerimum (abóbora), feita com leite e com o nome de “alambica”.

A bandeira do Rio Grande do Norte foi desenhada por Luís da Câmara Cascudo, apresenta os elementos básicos que melhor representam o Rio Grande do
Norte. O coqueiro à esquerda, a carnaubeira à direita, a cana-de-açúcar e o algodão representam a flora. O mar, com a jangada, representa a pesca e a extração de sal.

O brasão de armas do Estado do Rio Grande do Norte foi desenhado por Corbiniano Villaça, constituído de um escudo de campo aberto, dividido a dois terços de altura, tendo no plano inferior o mar, onde navega uma
jangada de pescadores, que representam as indústrias do sal e da pesca. No terço superior, em campo de prata, duas flores aos lados e ao centro dois capulhos de algodoeiro. Ladeiam o escudo, em toda sua altura, um coqueiro á direita e uma carnaubeira à esquerda, tendo os troncos ligados por duas canas de açúcar, presas por um laço com as cores nacionais. Tanto os móveis do escudo, como os emblemas, em cores naturais, representam a flora principal do Estado. Cobre o escudo uma estrela branca, simbolizando o Rio Grande do Norte na União Brasileira.

Hino do Rio Grande do Norte, de autoria do poeta Norteriograndense Dr. José Augusto Meira Dantas e música de José Domingos Brandão.

Fontes:
http://www.rn.gov.br/principal/simbolos.asp
http://www.sogeografia.com.br/Conteudos/Estados/RioGrandedoNorte/
http://www.geocities.com/rgn1945/CONQUISTA.htm
http://www.geocities.com/rgn1945/DOMINIO.htm
http://www.geocities.com/rgn1945/INICIO.htm
http://www.geocities.com/rgn1945/XVIII.htm
http://www.geocities.com/rgn1945/XIX.htm
http://www.geocities.com/rgn1945/PROVINCIA.htm
http://www.geocities.com/rgn1945/REPUBLICANO.htm
http://www.mre.gov.br
http://www.facilnordeste.com.br/curiosidades_nordestinas.html

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Artur da Távola (Cronica: Entes e Duendes dos meus Cinemas)

ENTES E DUENDES DOS MEUS CINEMAS
Dentre tantas alegrias a vida reservou-me uma dor: ver a demolição de muitos cinemas: Rian, Ipanema, Pirajá, Astória, Azteca, aqueles dois da Praia do Flamengo, Alvorada, Ritz, Metro Copacabana, Metro Tijuca. Tantos… Demo-lição. Será o ato de demolir uma lição do demo, o (im) popular demônio? Uma demo-lição? Talvez. O demônio agita-se oculto no que tomba para ser trocado por algo de menor sentido. E cinema que acaba é alegria que roubada.
Em cada cinema que morreu eu vi, no último dia da demo-lição os olhos enormes de Maureen O’Hara a chorar saudades da beleza; a sedução de Greta Garbo; os ideais de Glauber, Cacá Diégues e Davi Neves; a cultura cinematográfica de Walter Lima Júnior; o mau humor do Arnaldo Jabor: Sinto a perda da pele e dos olhos das faces e das costas de Ingrid Bergman e ouço o grito da garotada quando o mocinho, enfim, superou a maldade do bandido. Sim, os fantasmas das atrizes e as luzes dos ideais dos cineastas perduram na atmosfera sofrida de um cinema que tomba comido pela voragem da especulação imobiliária ou substituído por salas pequeninas, telas apertadas, cheiro de desinfetante e o irritante barulho dos sacos de pipoca que a má educação contemporânea timbra em mastigar durante a projeção…
Pode ser que antes de cair a última pedra de um cinema que tomba, a alma dos celulóides dele escape de madrugada e possa haver um grande e generoso baile com quem habitou suas telas ou poltronas com emoção. Eu posso dançar a valsa com Ingrid Bergman e roçar, deslumbrado, os dedos em suas costas largas e sedutoras. Você poderá namorar à vontade Gary Grant, ó jovem cinqüentona de meus tempos, ou consolar o Marlon Brando pela perda machucante da filha. Quanta gente que ama cinema poderá se ver, rever, trocar idéias, o Paulo Perdigão com a Paulette Goddard. O Fernando Ferreira com o Frank Capra a conversar. Humberto Mauro a discorrer, generoso, sobre o que foi sentar as bases do cinema no Brasil. Glauber Rocha a proclamar sua última tese sobre as afinidades entre o céu e o inferno como síntese verdadeira de uma dualidade falsa que sempre atormentou a humanidade. Orizon Muniz poderá enfim namorar em paz a Ruth Roman. Arlindo Coutinho rever películas com a Alberta Hunter, João Luiz Albuquerque mudar o fim de “Casablanca”, vale dizer, tudo o que sentimos de bom e melhor pelo cinema e seus personagens de sonho e realidade poderemos encontrar no grande baile noturno das últimas horas de cada um, onde todos juntos dançaremos ao som do La Valse de Ravel.
Só esta doce alegria imaginária compensa a dor de ver a cidade grande engolir os cinemas de meu amor e da nossa nostalgia.
Fonte:

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Ingles de Sousa (1853 – 1918)

Herculano Marcos Inglês de Sousa (Óbidos, 28 de dezembro de 1853 — Rio de Janeiro, 6 de setembro de 1918) foi um professor, advogado, político, jornalista e escritor brasileiro, introdutor do Naturalismo na literatura brasileira e um dos membros fundadores da Academia Brasileira de Letras. Escreveu inicialmente sob o pseudônimo Luiz Dolzani.
Era filho do desembargador Marcos Antônio Rodrigues de Sousa e de Henriqueta Amália de Góis Brito, membros de tradicionais famílias paraenses.
Em 1876 publicou dois romances, O cacaulista e História de um pescador, aos quais seguiram-se mais dois, todos publicados sob o pseudônimo Luís Dolzani. Com Antônio Carlos Ribeiro de Andrade e Silva publicou, em 1877, a Revista Nacional, de ciências, artes e letras.
Foi o introdutor do Naturalismo no Brasil, mas seus primeiros romances não tiveram repercussão. A principal característica de sua obra é o enfoque no homem amazônico, acima da paisagem e do exotismo da região.
Compareceu às sessões preparatórias da criação da Academia Brasileira de Letras (ABL), onde fundou a Cadeira n. 28, que tem como patrono Manuel Antônio de Almeida.
Nesse grupo que deu inicio à ABL também participou outro obidense ilustre, José Veríssimo, que, juntamente com Araripe Júnior, Artur de Azevedo, Graça Aranha, Guimarães Passos, Joaquim Nabuco, Lúcio de Mendonça, Machado de Assis, Medeiros e Albuquerque, Olavo Bilac, Pedro Rabelo, Rodrigo Otávio, Silva Ramos, Visconde de Taunay e Teixeira de Melo, realizaram a sétima e última sessão preparatória em 28 de janeiro de 1897.
Nessa sessão foram incorporados como membros aqueles que haviam comparecido às sessões preparatórias anteriores: Coelho Neto, Filinto de Almeida, José do Patrocínio, Luís Murat e Valentim Magalhães. Foram convidados para participar como fundadores, e aceitaram, Afonso Celso Júnior, Alberto de Oliveira, Alcindo Guanabara, Carlos de Laet, Garcia Redondo, Pereira da Silva, Rui Barbosa, Sílvio Romero e Urbano Duarte.
Tornou-se conhecido com O missionário (1891), que, como toda sua obra, revela influência de Zola. Nesse romance, descreve com fidelidade a vida numa pequena cidade do Pará, revelando agudo espírito de observação, amor à natureza, fidelidade a cenas regionais.
Inglês de Sousa fez os primeiros estudos no Pará, no Maranhão e no Rio de Janeiro.
Em 1870 foi para a cidade de Recife para preparar o concurso para a entrada na Faculdade de Direito do Recife, que cursou de 1872 a 1875.
Em 1875, com a nomeação de seu pai como juiz de direito em Santos, foi buscar as irmãs que estavam no Para e partiu em 1876 para São Paulo para completar o curso de direito inscrevendo-se para o quinto (e último ano) na Faculdade de Direito de São Paulo onde formou-se em 4 de novembro de 1876.
Em 1878, quando ainda morava na cidade de Santos onde era jornalista no Diário de Santos, de propriedade de João José Teixeira, militava ativamente no então Partido Liberal, em oposição ao Partido Conservador. Em 5 de janeiro de 1878 subiu ao poder o Partido Liberal, sob a presidência do Conselheiro João Lins Vieira Cansansão de Sinimbu e com ele Carlos Leôncio da Silva Carvalho para a pasta do Império, que nomeou Inglês de Sousa Secretario da Relação de São Paulo em 18 de maio de 1878.
Foi eleito deputado Provincial (equivalente dos atuais deputados estaduais) para a Assembléia Provincial de São Paulo (hoje Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo) na 23ª e 24ª legislaturas (1880 a 1883).
Foi nomeado presidente da Província de Sergipe (hoje Estado) por Carta Imperial de 2 de maio de 1881 e tomou posse em 17 de maio de 1881. Sua missão consistia em controlar uma rebelião da guarnição militar local e supervisionar a aplicação da recém promulgada Lei Saraiva em Sergipe. Após controlar a situação e supervisionar as eleições de 1881, pediu exoneração do cargo que foi concedida pelo decreto de 28 de janeiro de 1882, governando até 22 de fevereiro de 1882.
Após a sua exoneração de Sergipe, foi nomeado Presidente da Província do Espírito Santo por Carta Imperial de 11 de fevereiro de 1882 e tomou posse em 3 de abril de 1882.
Pediu exoneração do posto e deixou o cargo em 9 de dezembro de 1882 para tomar posse como deputado provincial da 24a legislatura (1882 a 1883) da Assembléia da Provincial de São Paulo.
A partir de 1892, fixou-se no Rio de Janeiro, como advogado, banqueiro, jornalista e professor de Direito Comercial e Marítimo na Faculdade Livre de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro.
A publicação de Os Títulos ao Portador assegura-lhe projeção nacional e o torna jurisconsulto de fama e prestigio, sendo indicado para diretor da Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro e Presidente do Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB) de 1907 a 1910, qualidade na qual presidiu o Primeiro Congresso Jurídico Nacional.
Convidado, mais de uma vez, para o supremo Tribunal, não aceitou a indicação, “por motivos de ordem pessoal”. E convidado pelo Ministro Rivadavia Correia para organizar o novo Código Comercial, apresenta-o, dentro de 11 meses, com notáveis emendas aditivas, que o transformam em Código uno de direito privado, de que era convicto partidário. Realiza Inglês de Sousa a primeira codificação integral de todo o direito privado.
Inglês de Sousa morreu na capital da República e foi sepultado no Cemitério São João Batista no dia 7 de setembro de 1918 com “um dos maiores acompanhamentos de que há memória”, segundo registrou o jornal “O País” no dia seguinte.
Fonte:

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Ingles de Souza (Conto: O Gado do Valha-Me-Deus)

A literatura brasileira, sabidamente pobre, tem-se dado ao luxo de esquecer autores e obras, ao longo de seus poucos séculos de existência. É o caso de Gregório de Matos, Pedro Kilkerry e Sosígenes Costa. Herculano Marcos Inglês de Sousa, entretanto, não foi esquecido. Seu nome figura na galeria literária brasileira graças ao romance “O Missionário”, publicado em 1888.

É “O Missionário” um grande romance? Não. Trata-se apenas de mais um romance de tese, exatamente ao figurino naturalista, que a moda de Émile Zola trouxera ao Brasil naquela época (segunda metade do século 19). O tema, levemente escandaloso para então – o de um padre que sucumbe ante os encantos do sexo – talvez lhe tenha assegurado fama.

Depois disso, em 1893, o autor fez editar um livro de contos que parece ter passado despercebido a público e crítica, e que não conheceu até hoje uma segunda edição. “Contos Amazônicos”, porém, em que se insere o excelente “O Gado do Valha-me-Deus”, se lido com o devido cuidado, resgataria o nome de Inglês de Sousa para a historiografia da literatura brasileira, colocando-a ao lado de um Aluísio de Azevedo e próximo a Machado de Assis.

O livro, além de refletir sobre aspectos sociais da realidade amazônica, faz interessante interpretação da história recente do Brasil de então, como no conto “O Voluntário”, que mostra o recrutamento forçado do batalhão de Voluntários da Pátria para a Guerra do Paraguai, apresentando ainda curiosos experimentos com a linguagem, que é o caso do conto que se vai ler. (Antonio Carlos Oliveiri).
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Sim, para além da grande serra do Valha-me-Deus, há muito gado perdido nos campos que, tenho para mim, se estendem desde o Rio Branco até as bocas do Amazonas! Já houve quem o visse nos campos que ficam pra lá da margem esquerda do Trombetas, de que nos deu a primeira notícia o padre Nicolino, coisa de que alguns ainda duvidam, mas todos entendem que, a existir tal gado, nessas paragens, são reses fugidas das fazendas nacionais do Rio Branco. Cá, o tio Domingos tem outra idéia, e não é nenhuma maluquice dos seus setenta anos puxados até o dia de S. Bartolomeu, que é isso a causa de todos os meus pecados, ainda que mal discorra; tanto que se querem saber a razão desta minha teima, lá vai a história tão certa como se ela passou, que nem contada em letra de fôrma, ou pregada do púlpito, salvo seja, em dia de sexta-feira maior. O tio Domingos Espalha chegou à casa dos setenta sem que jamais as unhas lhe criassem pintas brancas, e os dentes lhe caíram todos sem nunca haverem mastigado um carapetão, isso o digo sem medo de que traste nenhum se atreva a chimpar-me o contrário na lata.

Pois foi, já vão bons quarenta anos ou talvez quarenta e cinco, que nisto de contagem de anos não sou nenhum sábio da Grécia, tinha morrido de fresco o defunto padre Geraldo, que Deus haja na sua santa glória, e cá na terra foi o dono da fazenda Paraíso, em Faro, e possuía também os campos do Jamari, onde bem bons tucumãs-assu eu comi no tempo em que ainda tinha mobília na sala, ou, salvo seja, dentes esta boca que nunca mentiu, e que a terra fria há de comer.

Padre Geraldo fez no seu testamento uma deixa da fazenda ao Amaro Pais que levava toda a vida de pagode em Faro, e aqui em Óbidos, e nunca pôde contar as milhares de cabeças que o defunto padre havia criado no Paraíso, e que passavam pelas mais gordas e pesadas de toda esta redondeza.

Não que o visse, não senhores, eu não vi; mas todos gabavam o asseio com que o padre criava aquele gado, que era mesmo a menina dos seus olhos, a ponto de passar quinze anos de sua vida sem comer carne fresca, por não ter ânimo de mandar sangrar uma rês. Quando fui contratado para a fazenda, já o defunto havia dado a alma a Deus por causa dumas friagens que apanhara embarcado e de que lhe nascera um pão de frio, bem por baixo das costelas direitas, não havendo lambedor, nem mezinha que lhe valesse, porque, enfim, já chegaram a sua hora, lá isso é que é verdade.

Havia um ano que a fazenda Paraíso estava, por assim dizer, abandonada, porque o Amaro nunca lá aparecia, senão para se divertir, atirando ao gado, como quem atira a onças e fazendo-se valente na caçada dos pobres bois, criaturas de Deus, que a ninguém ofendem, porque, enfim, isso lá duma pequena marrada de vez em quando é para se defenderem e experimentarem o peito do vaqueiro, porque o boi sempre é animalzinho que embirra com gente maricas. As proezas do Amaro Pais tinham feito embravecer o gado, que, por fim, já ninguém era capaz de o levar para a malhada, e ainda menos de o meter no curral, o que era pena para um gadinho tão amimado pelo padre Geraldo, um verdadeiro rebanho de carneiros pela mansidão, que era mesmo de se lavar com um bochecho para não dizer mais, e a alma do padre lá em cima havia de estar se mordendo de zanga, vendo as suas reses postas naquele estado pelo estrompa do herdeiro, que fazia dor de coração.

Não pensem que eu agora digo isto para me gabar, pois quem pensar o contrário não tem mais do que perguntar aos moleques do meu tempo a razão porque me deram o apelido de Domingos Espalha, que era porque nenhum vaqueiro da terra, do Rio Grande, ou de Cavena me agüentava no repuxo da vaqueação; eu era molecote ainda, mas quando se tratava de alguma fera difícil, era o Domingos Espalha que se ia buscar onde estivesse, porque ninguém melhor do que ele conhecia as manhas do gadinho, e segurava-se melhor na sela sem estribos nem esporas, à moda da minha terra, donde vim pequeno mas já entendido nestes assados.

Pois para a festa de S. João, que o Amaro Pais ia passar na vila, queria ele uma vaca bem gorda para comer, e me incumbia a mim e ao Chico Pitanga, de tomarmos conta da fazenda, assinalar o gado orelhudo, e remeter a vaca a tempo de chegar descansada nas vésperas da festa, o que me parecia a mim que era a tarefa mais à toa de que me encarregara até então, embora os outros vaqueiros me dissessem que havia de perder o meu latim com o tal gadinho de uma figa.

O Chico Pitanga e eu entramos na montaria, levando um par de cordas de couro feitas por mim mesmo com corredeiras de ferro, um paneiro de farinha e um frasco de cachaça da boa, feita de farinha de mandioca, que era de queimar as goelas e consolar a um filho de Deus.

Abicamos ao porto do Paraíso às seis horas da tarde, recolhemo-nos à casa por ser já tarde para procurar o gado, que, entretanto, ouvíamos mugir a pequena distância, e parecia estar encoberto por um capão de mato. Fizemos a nossa janta de pirarucu assado e farinha, não mostramos cara feia à aguardente de beiju e ferramos num bom sono toda a noite até que pela madrugada saímos em busca do gado, montando em pêlo dois cavalos da fazenda que encontramos pastando perto do curral. Qual gado, nem pera gado! Batemos tudo em roda, caminhamos todo o santo dia, e eu já dizia pra o Chico Pitanga que a fama do Espalha tinha espalhado a boiama, quando lá pelo cair da tarde fomos parar à ilha da Pacova-Sororoca, que fica bem no meio do campo, a umas duas léguas da casa-grande. Bonita ilha, sim senhores, é mesmo de alegrar a gente aquele imenso pacoval no meio do campo baixo, que parece um enfeite que Deus Nosso Senhor botou ali para se não dizer que quis fazer campo, campo e mais nada. Bonita ilha, sim senhores, porém muito mais bonita era a vaca que lá encontramos, deitada debaixo de uma árvore, mastigando, olhando pra gente muito senhora de si, sem se afligir com a nossa presença, parecia uma rainha no seu palácio, tomando conta daquela ilha toda, com um jeito bonzinho de quem gosta de receber uma visita, e tem prazer em que a visita se assente debaixo da mesma árvore, goze da mesma sombra, e descanse como está descansando.

Não, senhores, não tinha nada de gado bravo a tal vaquinha, grande, gorda, roliça de fazer sela, negra da cor da noite, com um ar de tão boa carne que o diacho do Chico Pitanga ficou logo de água da boca, e vai-não-vai prepara laço para lhe botar nos madeiros, com perdão da palavra. Me bateu uma pancada no coração, dura como acapu, de não sei que me parecia ofender aquela vaca tão gorda e lisa, que ali estava tão a seu gosto, querendo meter a gente no coração com os olhos brandos e amigos, sem cerimônia nenhuma e muito senhora de si, e disse pra o Chico que aquilo era uma vergonha pra eu ser mandado como o vaqueiro mais sacudido a amansar aquele gado bravo, e por fim de contas segurar a primeira vaca maninha que encontrava, como qualquer curumim sem prática da arte; mas o tinhoso falou na alma de meu companheiro que, sem mais aquela atirou o laço e segurou os cornos da vaca. Ela, coitadinha, se empinou toda, deixando ver o peito branco, com umas tetinhas de moça, palavra de honra! E eu para não parecer que receava o lance, botei-lhe a minha corda também. Olhem que corda tecida por mim é dura de arrebentar, pois arrebentaram ambas como se fossem linha de coser, só com um puxão que a tal vaquinha lhes deu, e vai senão quando com a força, cai a vaca no chão e fica espichada que nem um defunto.

Cá pra mim que conheço as manhas do povo com que lido, disse logo que aquilo era fingimento, e botei-me pra ela pra a sujeitar pelos chifres, que para isso pulso tinha eu, não é por me gabar. Mas qual fingimento, nem meio fingimento! A vaca estava morta e bem morta, como se a queda lhe tivesse arrebentado os bofes, apesar de eu a ter visto, havia tão pouco tempo, viva e sã como nós aqui estamos, mal comparado, o que mostra que o homem não é nada neste mundo.

Mas era tão nova a morte, e havia já mais de uma semana, que não comíamos senão pirarucu seco, que aquela gordura toda me fez ferver o sangue, me deu uma fome de carne fresca, que parecia que já tinha o sal na boca, da baba que me caia pelos beiços abaixos; trepei acima da vaca, e sangrei-a na veia do pescoço, e logo o Chico Pitanga lhe furou a barriga, rasgando-a dos peitos até as maminhas, com perdão de vosmecês. O diacho da vaca, dando um estouro, arrebentou como uma bexiga cheia de vento, e em vez de aparecer a carne fresca, era espuma e mais espuma, uma espuma branca como algodão em rama, que saia da barriga, dos peitos, dos quartos, do lombo, de toda parte enfim, pois que a vaca não era senão ossos, espuma e couro por fora, e acabou-se; e logo (me disse depois o Chico Pitanga) o demônio da rês começou a escorrer choro pelos olhos, como se lhe doesse muito aquela nossa ingratidão.

Largamos a rês no campo, e como já se ia fazendo tarde, voltamos de corrida para a casa, onde dormimos sabe Deus como, sem cear, é verdade, porque a malvada espuma me tinha revirado as tripas, que tudo me fedia.

Mal veio a madrugada, fomos caminho da ilha da Pacova-Sororoca, à procura da vacada, levando cada um o seu saquinho cheio de farinha d’água, e outro de sal, para a demora que houvesse, e vimos uma grande batida de gado, em roda do lugar onde havíamos deixado na véspera o corpo da vaca preta, mostrando que eram talvez para cima de cinco mil cabeças, mas não achamos uma só rês, nem mesmo a tal vaquinha assassinada por nós.

Me ferveu o sangue, e eu disse pra o Chico Pitanga:

– Isto também já é demais. Ou eu hei de encontrar os diabos das reses, ou não me chame Domingos Espalha.

E botando-nos no campo, busca daqui, bate de lá, vira dali, corre pra cá, até que pela volta do meio-dia descobrimos o rasto, uma imensa batida, com as pegadas no chão, que se estava vendo que o gado passara ali naquele instantinho, e tivemos certeza de que eram mais de cinco mil cabeças, pois a estrada era larga como o Amazonas aqui defronte, e as pegadas unidas miúdo, miúdo, de gado muito apertado que foge a toda a pressa, com os cornos no rabo uns dos outros: e vosmecês desculpem esta minha franqueza, que eu nunca andei na escola. A batida ia direito, direito para o centro das terras, e vai o Chico Pitanga disse: “Seu Espalha, a bicharia passou ainda agorinha”. E nos botamos a toda a brida, seguindo o rastro, sempre vendo sinais certos da passagem da vacada, mas sem encontrar vivalma no caminho.

Já estávamos cansados da vida, mais mortos do que outra coisa, nos apeamos e sentamos à beira do Igarapé dos Macacos para nos refrescarmos com um pouco de chibé. Vinha caindo a noite, e do outro lado do Igarapé, no meio de um capinzal de dez palmos de altura, ouvíamos mugir o gado, tão certo como estarem vosmecês me ouvindo a mim, com a diferença que nós tivemos um alegrão, e tratamos de dormir depressa para acordarmos cedo, bem cedinho, e irmos cercar os bois do Amaro País que daquele feito não nos haviam de escapar, ainda que tivesse eu de botar os bofes pela boca fora, ficando estirado ali no meio do campo.

Eu nunca na minha vida passei nem hei de passar, com perdão de Deus, uma noite tão feia como aquela! Começou a chover uma chuvinha miúda, que não tardou em varar as folhas do ingazeiro que nos cobria, de forma que era o mesmo que estarmos na rua; os pingos d’água, rufando no arvoredo, caíam duros e frios nas nossas roupas já úmidas de suor, e punham-nos a bater queixo, como se tivéssemos sezões; logo começou a boiada a uivar, paresque chorando a morte da maninha, que fazia um berreiro dos meus pecados, com a diferença que era um choro que parecia de gente humana, e nos dava cada sacudidela no estômago que só por vergonha não solucei, ao passo que o maricas do Chico Pitanga chorava como um bezerro, que metia dó. Aquilo estava bem claro que a vaca preta era a mãe do rebanho, e como nós a tínhamos assassinado, havíamos de aguentar toda aquela choradeira.

Por maior castigo ainda os cavalos pegaram medo daquele barulho, romperam as cordas, e fugiram tão atordoados que nos deram grande canseira para os agarrar, e nisso levamos a noite toda, sem pregar olho nem descansar um bocado. Quando vinha a madrugada, passamos o Igarapé dos Macacos e entramos no capinzal, que era a primeira vez que avistávamos aquelas paragens, que já nem sabíamos quantas e quantas léguas estávamos da fazenda Paraíso, navegando naquele sertão central. Era um campo muito grande que se estendia a perder de vista, quase despido de árvores, distanciando-se apenas de longe em longe no meio do capinzal verde as folhas brancas das embaúbas, balançadas pelo vento para refrescar a gente no meio daquela soalheira terrível, capaz de assar um frango vivo.

Vimos perfeitamente o lugar onde o gado passara a noite, um grande largo, com o capim todo machucado, mas nem uma cabecinha pra remédio! Já tinham os diachos seguido seu caminho sempre deixando atrás de si uma rua larga, aberta no capinzal, em direção à Serra do Valha-me-Deus, que depois de duas horas de viagem começamos a ver muito ao longe, espetando no céu as suas pontas azuis. Galopamos, galopamos atrás deles, mas qual gado, nem pera gado, só víamos diante da cara dos cavalos aquele imenso mar de capim com as pontas torradas por um sol de brasa, parecendo sujas de sangue, e no fundo a Serra do Valha-me-Deus, que parecia fugir de nós a toda a pressa. Ainda dormimos aquela noite no campo, a outra e a outra, sempre seguindo durante o dia as pegadas dos bois, e ouvindo à noite a grande choradeira que faziam a alguns passos de distância de nós, mas sem nunca lhes pormos a vista em cima, nem um bezerro desgarrado, nem uma vaquinha preguiçosa!

Eu já estava mesmo levado da carepa, anojado, triste, desesperado da vida, cansado na alma de ouvir aquela prantina desenfreada todas as noites, sem me deixar pregar o olho, e o Chico Pitanga cada vez mais pateta, dizendo que aquilo era castigo por termos assassinado a mãe do gado; ambos com fome, já não podíamos mover os braços e as pernas, galopando, galopando por cima do rasto da boiada, e nada de vermos coisa que se parecesse com boi nem vaca, e só campo e céu, céu e campo, e de vez em quando bandos e bandos de marrecas, colhereiras, nambus, maguaris, garças, tuiuiús, guarás, carões, gaivotas, maçaricos e arapapas que levantam o vôo debaixo das patas dos cavalos, soltando gritos agudos, verdadeiras gargalhadas por se estarem rindo do nosso vexame lá na sua língua deles. E os cavalos cansados, trocando a andadura, nós com pena deles, a farinha acabada, de pirarucu, nem uma isca, sem arma para atirar nos pássaros, nem vontade para isso, sem uma pinga da aguardente, sem uma rodela de tabaco, e a batida do gado espichando diante de nós, cada vez mais comprida, para nunca mais acabar, até que uma tarde, já de todo sem coragem, fomos dar com os peitos bem na encosta da Serra do Valha-me-Deus, onde nunca sonhei chegar, e bem raros são os que se têm atrevido a aproximar-se dela.

Mas o diacho das pegadas do gado subiam pela serra acima, trepavam em riba uma das outras até se perder de vista, por um caminho estreito que volteava no monte e parecia sem fim. Ali paramos, quando vimos aquele mundo da Serra do Valha-me-Deus, que ninguém subiu até hoje, nos tapando o caminho, que era mesmo uma maldição; pois se não fosse o diacho da serra, eu cumpriria a minha promessa ainda que tivesse de largar a alma no campo.

Nunca vi cachorro mais danado do que eu fiquei. Voltamos para trás, moídos que nem mandioca puba em tipiti, curtindo oito dias de fome da farinha e sede de aguardente, até chagarmos à fazenda Paraíso, e só o que eu digo é que: nunca encontrei gado que me desse tanta canseira.
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Robert Louis Stevenson (Conto: A Porta e o Pinheiro)

O conde detestava certo barão alemão, forasteiro em Roma.
Não importam as razões desse ódio, mas, como tinha o firme propósito de vingar-se, com o mínimo de perigo, ele as manteve secretas até do barão. De fato, tal é a primeira lei da vingança, já que ódio revelado é ódio, impotente.

O conde era curioso e minucioso; tinha algo de artista; executava tudo com uma perfeição tão exata que se estendia não só aos fins como também aos meios ou instrumentos. Certo dia cavalgava ele pelas regue iras e chegou a um caminho lamacento que se perdia nos pântanos que circundam Roma. À direita havia uma antiga tumba romana; à esquerda uma casa abandonada no meio de um jardim de sempre-vivas. Esse caminho conduziu-o a um campo de ruínas, em cujo centro, no declive de uma colina, viu uma porta aberta e, não muito longe, um solitário pinheiro atrofiado, não maior que um arbusto. O local era deserto e secreto; o conde pressentiu que algo favorável o espreitava na solidão; amarrou o cavalo ao pinheiro, acendeu a luz com o isqueiro e penetrou na colina. A porta dava para um corredor de construção romana; este corredor, a uns vinte passos, se bifurcava. O conde tornou pela direita e chegou, tateando na escuridão, a uma espécie de barra que ia de uma parede à outra. Avançando o pé, encontrou uma borda de pedra polida, e logo depois o vácuo. Interessado, juntou uns galhos secos e acendeu o fogo. À sua frente havia um poço profundissimo; sem duvida algum aldeão, que o havia usado para tirar água, teria colocado a barra. O conde apoiou-se na roldana e olhou o poço, demoradamente. Era uma obra romana e, como todas as desse povo, parecia construída para a eternidade. Suas paredes eram lisas e verticais: o desditoso que caísse no fundo não teria salvação. “Um impulso me trouxe a este lugar”, pensava o conde. “Com que fim? Que consegui eu? Por que fui enviado a olhar este poço?” A roldana cedeu; o conde esteve a ponto de cair. Saltou para trás, para salvar-se, e apagou com o pé as ultimas brasas do fogo. Fui enviado para aqui a fim de morrer?”, disse com temor. Teve uma inspiração. Arrastou-se até a boca do poço e levantou o braço, tateando: duas hastes estavam sustentando a roldana; agora esta pendia de uma delas. O conde a repôs de modo que cedesse ao primeiro apoio. Saiu à luz do dia, como um doente. No outro dia, enquanto passeava com o barão, mostrou-se preocupado. Interrogado pelo barão, admitiu finalmente que o havia abatido um estranho sonho. Queria interessar ao barão – homem supersticioso que fingia desdenhar as superstições. O conde, instado pelo seu amigo, disse-lhe abruptamente que se precatasse, porque havia sonhado com ele. Como é obvio, o barão não descansou até que lhe contaram o sonho.

— Pressinto —disse o conde com aparente tristeza— que esta narração será infausta; algo me diz. Entretanto, se para nenhum dos dois pode haver paz até que você a ouça, carregue você com a culpa. Este era o sonho: Vi-o cavalgando, não sei onde, mas devia ser perto de Roma; de um lado havia um antigo sepulcro, outro um jardim de sempre-vivas. Eu o chamava, voltava a gritar que não prosseguisse, em uma espécie de transe de terror. Ignoro se você me ouviu, porque seguiu para frente. O caminho levou-o a um local deserto entre ruínas, onde havia uma porta numa ladeira e, perto da porta, um pinheiro disforme. Você apeou-se (apesar de minhas suplicas), ateou o cavalo ao pinheiro, abriu a porta e entrou resolutamente. Dentro estava escuro, mas no sonho eu continuava vendo-o e pedindo-lhe que voltasse. Você seguiu a parede da direita, dobrou outra vez pela direita e chegou a uma câmara na qual havia um poço e uma roldana. Então, não sei por que, meu alarme cresceu e tornei a gritar-lhe que ainda estava em tempo e que abandonasse o vestíbulo. Essa foi a palavra que empreguei no sonho e então lhe atribui um sentido preciso; mas agora, acordado, não sei o que significava para mim. Você não escutou minha suplica; apoiou-se na roldana e olhou demoradamente a água do poço. Então lhe revelaram alguma coisa. Não creio haver sabido do que era, mas o pavor me arrancou do sonho, e acordei chorando e tremendo. E agora lhe agradeço de coração o haver insistido. Este sonho estava-me oprimindo, e, agora que o narrei à luz do dia, parece-me terrível.
— Talvez —disse o barão.

— Tem alguns pormenores estranhos. Revelaram-me alguma coisa, disse você? Sim, é um sonho raro. Divertirá os nossos amigos.

— Não sei —disse o conde. — Estou quase arrependido. Esqueçamo-lo. — De acordo —disse o barão.

Não falaram mais do sonho. Daí a poucos dias, o conde convidou-o a sair a cavalo; o outro aceitou. Ao regressar a Roma o conde sofreou o cavalo, tapou os olhos e deu um grito.

— Que aconteceu? —disse o barão.

— Nada —gritou o conde. — Não é nada. Voltemos depressa a Roma.

Mas o barão havia olhado a seu redor e, à mão esquerda, viu um caminho lamacento com uma tumba e um jardim de sempre-vivas.

— Sim —respondeu com a voz mudada. — Voltemos a Roma imediatamente. Temo que você se ache indisposto.

— Por favor —gritou o conde. — Voltemos a Roma, quero me deitar.
Regressaram em silencio. O conde, que fora convidado para uma festa, deitou-se, alegando que tinha febre. No dia seguinte, o barão havia desaparecido; alguém achou seu cavalo atado ao pinheiro. Isto foi um assassínio?
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Robert Louis Stevenson — Escritor inglês, nasceu em Edimburgo em 1850 e morreu em Samoa, em 1894. Começou escrevendo para jornais e revistas. Depois de percorrer toda a França, viajou para a Califórnia, onde se casou com Mrs. Osbourne, imediatamente após o divorcio desta. Em virtude de seu precário estado de saúde, resolve voltar para a Inglaterra, visitando, mais tarde, a França, novamente, e Taiti e as ilhas circunjacentes, fixando-se em Samoa, onde escreveu a maioria de seus romances e dois volumes de poesias. Seu enteado, Lloyd Osbourne, colaborou em alguns de seus romances. Stevenson exerceu influencia considerável no movimento literário dos paises de língua inglesa. Entre suas obras destacam-se: Memórias e aventuras de David Balfour, o Príncipe Otto, Nos Mares do Sul, Edimburgo, Notas Pitorescas, O Dinamitador, Contos, A Ilha do Tesouro, O Medico e o Monstro, e muitos outros trabalhos. Da extensa obra de Stevenson, foram mais difundidos entre o nosso publico A Ilha do Tesouro e o Medico e o Monstro, ambos os romances aproveitados pelo cinema.

Fontes:

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Paulo Urban (Poesias e Biografia)

Biografia
Paulo Urban nasceu em São Paulo a 10 de fevereiro de 1965. Em 1989, formou-se em medicina pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Especializou-se em psiquiatria no Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo, tendo sido aluno do eminente psiquiatra, Dr. Carol Sonenreich.Aos 29 anos tornou-se Diretor Clínico do Hospital Psiquiátrico Casa de Saúde de São João de Deus, da Ordem Hospitaleira de mesmo nome, dirigindo-o por seis anos.
É articulista da Revista Planeta, publicação mensal da Editora Três, e escreve matérias sobre diversos assuntos: psiquismo, mitologia, ocultismo (alquimia e magia), religiões, sonhos, simbolismo, filosofia, antropologia, arte, literatura e outros. Mantém contato aberto e permanente com seus leitores, e tem realizado nos últimos anos palestras sobre os mais diversos temas no Brasil e no exterior.
Há anos prepara uma obra, longe de acabar, sobre o Profeta Nostradamus, tendo realizado para tanto pesquisas no Instituto Histórico e Geográfico de Provence.
Tem livros publicados nas áreas de história, acupuntura, esoterismo e está com outros em processo de publicação, um dos quais sobre Magia.
Paulo Urban é criador de sua própria abordagem terapêutica, a Psicoterapia do Encantamento, de referencial analítico (junguiano) e que explora técnicas respiratórias de hiperventilação e ritos de passagem propiciadores de um novo psiquismo.
Em sua clínica médica, atende como psiquiatra, psicoterapeuta e acupunturista. Também pratica desde 1992 a Hipnose Clínica.
Desenvolve pesquisas sobre Estados Alterados de Consciência e Xamanismo. Regularmente se encontra com o Xamã Carlos Prado, de quem tem recebido in loco lições de medicina natural e cosmovisão andina.
Possui trabalhos acadêmicos publicados nas áreas de filosofia, medicina (alguns premiados), acupuntura e parapsicologia. Interessa-se também por física quântica e astrofísica.
Paulo Urban torna disponível parte de sua obra, inclusive seus sonetos, textos e pesquisas, aqui no http://www.amigodaalma.com.br ,site que compartilha junto da amiga Monica Facó, artista plástica, no qual pretendem abrigar companheiros que são os verdadeiros amigos da alma de todos nós.

Z O R R O

Por trás de negra máscara se oculta
um rosto apaixonado em seu ardor,
em meio à capa preta esconde o ator
a língua de um florete bela e inculta,
a mesma que te corta, urente, exulta
teus sentimentos todos, teu sabor…
A cicatriz não sabe o que é a dor
que cresce com o amor e que o sepulta
Esgrimista ágil, teço escaramuça…
Se à noite em meu cavalo sangro o céu,
de dia me recolho atrás do véu;
não pressupõe minh’arte te ferir,
nem sei se julgo justo este esgrimir
de um coração que é lâmina e te aguça.
decassílabos heróicos
15/08/2001

MANUSCRITOS DO BAÚ INTERMINÁVEL LIVRO IV – PERGAMINHO III – ORIGEM

Densas horas castigam esta esfera
Incrustada na curva do passado,
Não orbita, e seu tempo, enclausurado,
É presa deste instante de uma era.
Devora-lhe a mandíbula de um lado,
D’outro a gula de um Cronos feito fera;
Goela adentro é o segredo que se encerra
Tenebroso, voraz, bem disfarçado.
Digerido, o planeta se transforma,
Lançando pelo Cosmos sua essência;
Traz consigo o artifício da reforma,
Tão tênue, tão precisa sua ciência;
Do veneno ao remédio numa dose,
Faz do tempo a total metamorfose.
09/07/1997

Fontes:
http://www.amigodaalma.com.br/conteudo/sonetos/zorro.htm
http://www.amigodaalma.com.br/conteudo/sonetos/mbi_origem.htm
http://www.amigodaalma.com.br/conteudo/trajetoria.htm

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Nações Indígenas (Guaranis)

GUARANIS, OS FILHOS DO VENTO
“Singular e assombroso o destino de um povo como os Guarani!
Marginalizados e periféricos, nos obrigam a pensar sem fronteiras
Tidos como parcialidades, desafiam a totalidade do sistema.
Reduzidos, reclamam cada dia espaços de liberdade sem limites
Pequenos, exigem ser pensados com grandeza.São aqueles primitivos cujo centro de gravitação já está no futuro.
Minorias, que estão presentes na maior parte do mundo.”(Bartomeu Meliá)
Guarani quer dizer: guerreiro indomável, filho de “Curupi” com Céa-Yari, povo livre com tempestade, que se espalha irregularmente pela vasta planície das várzeas lamacentas dos três grandes rios do Prata (o Paraná, o Paraguai e o Uruguai), atingindo quase toda a Bolívia e grande parte da Argentina até as mesetas da Patagônia.
Com o objetivo de reivindicar o que se supõe deveria ser na história o verdadeiro sentido da civilização guarani, surgiu, entre alguns escritores, uma corrente que inaugurou uma série de discussões polêmicas.
Uma destas correntes entende que pertence ao patrimônio histórico da raça guarani a invejável civilização dos astecas do México e dos Incas do Peru e que todo esse monumento de glórias, criminosa e miseravelmente destruído pelos espanhóis, foi roubado a essa família indígena.
Obedecendo esta ordem de idéias, concebe ela que os guaranis chegaram a fundar, nos demais recantos da América do Sul, uma considerável civilização pré-colombiana e que os europeus a destruíram com tal habilidade que até os vestígios desapareceram.
A Grande Confederação Guaranítica compreendeu inúmeras nações esparramadas pelo Continente Sul Americano, sendo a capital dessa civilização uma grande cidade denominada “Mbaeveraguasú”. Imaginam os defensores dessa corrente, que os guaranis eram comunistas puros, organizados em Estado, com feição altamente civilizada. Para eles a palavra “guarani”, tinha um sentido amplo e compreendia todos os indígenas de mais da metade do continente americano, excluindo-se, algumas raças que reputavam inferiores, sem as qualidades que ornam o caráter e a inteligência das múltiplas nações guaranis.
Há, entretanto, algumas tribos, que não sendo guaranis, acomodaram-se aos costumes destes, em uma fusão regular, sendo por isso mesmo seus parentes, ou vassalos, como aconteceu com os “Aruacás”, que acompanharam os “Caraivés”, desde as Antilhas, como seus escravos.
Percebe-se, portanto, que os guaranis correspondem ao homem sul-americano por excelência.
COMO TUDO COMEÇOU…
Para nos assenhorarmos dos verdadeiros pendores que dominam a alma coletiva de tão curiosa civilização, teremos que buscar recursos na história.
A nação guarani à luz do “descobrimento” conglomerava diversos povos. Com a chegada dos espanhóis (1537 em Assunción), foram diferentes as formas de contato e distintas as adaptações histórico-culturais da nação guarani. Podemos dividi-los a partir deste momento, em três grupos, ou três trajetórias.
1. O indígena que sofreu o impacto imediato do colonialismo. Encontramos aqui o índio “civilizado” e o escravo encomendado. Os índios civilizados foram aqueles que lhes foi roubada a felicidade e convencidos à força de que os donos da civilização era os europeus. Estes foram os que mais sofreram adaptações. Já o índio encomendado, era aquele entregue ao espanhol para a catequese e conversão. Doutrinavam os índios em troca da utilização de seu trabalho. Na verdade, tal troca, acobertava uma disfarçada escravidão. Desse grupo, sobraram muito poucos, pois conduzidos a um cativeiro desumano, acabaram dizimados, pela intensidade do trabalho forçado ou pelas inúmeras doenças trazidas pelos conquistadores.
2. Os guaranis reduzidos ou missioneiros, que buscavam refúgio da sanha colonial nas reduções jesuíticas. As reduções se constituíam em um Estado dentro do Estado. Nestes aldeamentos fechados, os índios aprenderam ofícios tornando-se artesãos, marceneiros, carpinteiros e músicos, o que lhes permitiu dirigirem-se para os centros urbanos, como Montevidéu, Buenos Aires e Santa Fé, após a expulsão dos jesuítas das colônias ibéricas.
No inicio da civilização, os colonos sentiram a necessidade imprescindível do auxílio do missionário para a pacificação indígena. Mas, aos poucos o homem branco, emancipou-se daquela dependência e aliando-se com o mameluco, organizaram-se em bandeiras e, armados em verdadeiros exércitos, passaram a caçar o índio, para explorar e corromper. Eram invencíveis, sobretudo em uma luta com missionários e índios inermes. Ao desejo de enriquecer aliava-se a sede de glória, iniciando-se deste modo, um genocídio. Poucos foram os que conseguiram bater em retirada, único meio de fugir aquela ameaça de destruição. Mas, mesmo experimentando grande regozijo de escapar à sanha de seus agressores, tiveram os heróicos retirantes de enfrentar muitos perigos e sofrimentos durante a sua longa cruzada de fuga.
Alguns se dirigiram para o Paraguai, onde o Guarani Paraguaio é hoje falado por cerca de 3 milhões de pessoas; para a Bolívia, onde o Guarani Boliviano (ou Chiriguano) é falado por cerca de 50 mil pessoas e para o norte da Argentina. Dos índios capturados, alguns se tornaram escravos dos bandeirantes (séc. XVIII) e outros tornaram-se empregados de fazendeiros brasileiros e paraguaios, que iniciaram a ocupação destas terras com a extração da erva-mate.
3. O terceiro grupo a salientar, é o guarani que permaneceu fora do alcance da fome colonial, mantendo-se escondido nas densas florestas paraguaias. Os Caaguá foi um grupo que logrou manter sua cultura quase que intacta. Dele descendem os Guaranis Mbya, Chiripá ou Ñandeva e os Paitvyterã ou Kaiowá. Eles foram raramente visitados por algum viajante no século XIX e conseguiram passar para o século XX, sem interferências exteriores.
OS MESTRES DAS MISSÕES
Nas reduções, o índio guarani aprendeu a ser pintor, escultor, marceneiro, serralheiro e fundidor. Um padre suíço, Charles Franck, ensinou-lhes até mesmo a fabricar relógios primitivos, mas que funcionavam perfeitamente. E a primeira oficina de impressão que se tem notícia em toda a América Latina foi instalada na República Guarani: ali eram impressos catecismos, dicionários, livros de canto e até mesmo alguns trabalhos sobre os dialetos dos índios. Quase tudo isso foi queimado pelos “civilizadores”, os mesmos que hoje puxam o revólver (ou o talão de cheques) quando ouvem falar na palavra cultura.
Os índios seguiam essa ou aquela profissão, de acordo com suas inclinações e tendências. A maioria dedicou-se à agricultura ou ao pastoreio, porém os que tinham a chamada veia artística podiam cultivar a música, através da harpa, instrumento ainda hoje em moda no Paraguai, ou de violões, violinos, guitarras, tambores, pandeiros espanhóis e até castanholas.
De certa forma, cada missão especializou-se num determinado ramo de produção artística. Em Loreto fizeram-se as melhores esculturas, mas foi em San Francisco Javier que se elaboraram os mais finos tapetes e as mais graciosas rendas. De San Juan vinham os mais perfeitos instrumentos musicais, mas foi em Apósteles que se fundiram os melhores sinos.
As primeiras reduções propriamente ditas são fundadas pelos padres Simón Maceta e José Cataldino. Um velho missionário, de nome Lorenzama, fundou a redução do Paraná.
Mas o grande idealizador do Estado Jesuíta, aquele que era conhecido como o “caminhoneiro de Chaco” e que no futuro seria nomeado o Superior Geral da República Guarani, foi Antonio Ruiz de Montóya.
Nos primeiros anos as coisas foram muito difíceis, pois a vida das reduções jesuítas não atraia os índios Guarani. Muitas divergências surgiram e até mesmo alguns missioneiros, como o padre Rodriguez, foram executados. Este, depois de discutir com o cacique Niazú, teve sua cabeça espatifada com um golpe de manacá. Na verdade o que levou os índios a se dirigirem para o interior das missões, foi o fato de terem percebido que só elas constituíam um refúgio, um abrigo, uma defesa, uma segurança contra os ataques brutais e escravagistas dos espanhóis e portugueses.
E as reduções cresceram e se multiplicaram: Arcángel, San Tomé, Los Reyes, Tpaes, Yapeyú. Logo se tornou imprescindível que todas elas tivessem governos, tribunais de justiça e até mesmo sistemas rudimentares de contabilidade.
O SOCIALISMO MISSIONEIRO
Em uma espécie de congregação superior eram selecionados os futuros magistrados, sacerdotes e executivos. Existiam arquivos, atas e contabilidade, embora um dia tudo viesse a ser reduzido a cinzas pelos “civilizados”.
Apesar das diferenças culturais que sempre existiram, e sempre existirão, em todas as sociedades, a igualdade material era quase completa. Todos se vestiam da mesma maneira.
O trabalho tinha uma jornada de seis a oito horas, com um período de descanso após o almoço. Quase todos os índios eram lavradores e durante a época de colheita todas as demais atividades eram suspensas. Iniciava-se um “mutirão”, mutirim, ou pichirum, tradição do trabalho coletivo, ou seja, um ajudando o outro numa alegre animação.
Não havia dinheiro, nem comércio e a profissão de mercador ou traficante era punida com uma surra de vara de marmelo. Praticavam a troca, mas não havia moeda nem usura. O ouro e a prata serviam apenas para enfeitar os altares sagrados.
O principal produto era a erva-mate, que servia de referência para trocas e barganhas. Eram exportadores e muitos produtos demandavam o exterior, principalmente o Prata. Fumo, algodão, açúcar, rendas, artesanatos, esculturas, arreios, rosários, cruzes, vasilhames, ponchos, peles, chapéus, barbicachos, cerâmicas, tijolos, gamelas, tudo isso era conduzido em lombo de burro ou em canoas para as colônias dos europeus onde seria trocado pelos produtos importados de que mais necessitavam.
Mas tudo pertencia à comunidade. Os bens eram indivisíveis. Chamavam-se “tupam-baé (campo de Tupã): eram propriedade do Deus. Não existia o direito de herança e por isso a terra era indivisível. E os padres jesuítas eram os primeiros a dar o exemplo: a eles nada pertencia, tudo era dos índios (Abámba-é).
É claro que os invasores ibéricos, que haviam construído a riqueza de suas nações sobre montanhas de cadáveres indígenas, não poderiam aceitar, em suas “fronteiras ideológicas”, a existência da república utópica dos índios Guarani e dos padres jesuítas.
De tanto lidarem com aquelas crianças índias, demasiada e ingenuamente acabou por povoar os sonhos dos filhos de Santo Ignácio de Loyola. Fizeram com que os índios Guarani ficassem brincando de “Cavalhada” entre mouros e cristãos, enquanto o inimigo afiava suas adagas em forma de meia lua levantina e encilhava seus cavalos árabes.
Ensinaram os pequenos selvagens a representar em palcos improvisados os dramas que o santo padre José de Anchieta desenhava à beira-mar, enquanto os propostos coloniais do Marquês de Pombal carregavam seus mosquetes nas barrancas do lado direito do Uruguai.
Trabalhavam, brincavam, amavam, jogavam bola, faziam acrobacias, cantavam e compunham guarânias, enquanto os descendentes de Borba Gato preparavam as longas cordas com as quais iriam manoteá-los.
Tudo desapareceu, até mesmo as igrejas monumentais de pedra talhada e madeira ricamente esculpida foram incendiadas, tendo seus ornamentos de ouro e pratarias roubados por bandidos que se diziam “soldados cristãos”.
Porém, a memória dos homens, que sempre sobrevive à noite dos tempos e às madrugadas do demônio, pode dar fé. Mas, o veredicto foi implacável e o povo Guarani se tornou o mais miserável de toda a América do Sul. Mas, apesar de tudo, foi o único povo americano que conseguiu escapar à sanha do colonizador durante longo tempo.
Eles deixaram gravada, nas ruínas de suas Reduções, a maior ata de condenação que se possa fazer aos que enlouqueceram na miragem de riquezas alucinantes. Sua sociedade foi e será estudada por muitos séculos. É uma história dolorosa, que foi assinada com sangue antes que eles submergissem de novo, e para sempre, na floresta virgem das várzeas lamacentas dos rios que formam o Prata.
As ruínas que ainda estão de pé são testemunha de acusação. E o preço do resgate de sua memória será um dia reconhecido!
A ALMA GUARANI
O guarani é um indivíduo profundamente espiritual. Embora haja muitos sub-grupos, todos compartilham de uma religião que enfatiza a terra. O conceito de terra para eles está relacionada a idéia de Terra-Sem-Males, na concepção de “bem viver”, um lugar onde se vive o “ñanderekó” (jeito de ser). Ou seja, não concebem a terra em sua materialidade, mas a consideram como necessária para ser construída e arada culturalmente.
Seguindo mensagens de Nhanderú, eles buscam o que acreditam ser a “Terra Sem Males”, um lugar onde não falta caça, pesca e muita paz. A sua procura, localizada no imaginário dos Guarani, para além do Atlântico, por si só, não minimiza as responsabilidades dos brancos sobre os poucos espaços territoriais que sobraram para esses índios. A sua perambulação, organizados em pequenos grupos familiais, por estradas e rodovias do Sul e Sudeste do país, é uma face trágica dessa diáspora.
O MITO DA TERRA-SEM-MAL
O grupo com o qual Nimuendaju (Curt Unkel, 1883-1945, etnólogo alemão) teve contato, guardou em seu imaginário mitológico a iminência da destruição do mundo por um incêndio e um dilúvio e a entrada em uma terra onde não haveria mais sofrimento, nem morte.
Conta este mito dos Guarani, “quando Ñamandu ( nosso grande Pai) resolveu acabar com a terra, devido à maldade dos homens, avisou antecipadamente Guiraypoty, o grande pajé, e mandou que dançasse. Esse obedeceu-lhe, passando toda a noite em danças rituais.
E quando Guiraypoty terminou de dançar, Ñamandu retirou um dos esteios que sustentam a terra, provocando um incêndio devastador. Guiraypoty, para fugir do perigo, partiu com sua família para o Leste, em direção ao mar. Tão rápida foi a fuga, que não teve tempo de plantar nem de colher mandioca. Todos teriam morrido de fome, se não fosse o seu grande poder que fez com que o alimento surgisse durante a viagem. Quando alcançaram o litoral, seu primeiro cuidado foi construir uma casa de tábuas, para que quando viessem as águas, ela pudesse resistir. Terminada a construção, retomaram a dança e o canto.
O perigo tornava-se cada vez mais iminente, pois o mar, como que para apagar o grande incêndio, ia engolindo toda a terra. Quanto mais subiam as águas, mais Guiraypoty e sua família dançavam.
E para não serem tragados pela água, subiram no telhado de casa. Guiraypoty chorou, pois teve medo. Mas sua mulher lhe falou:
” Se tens medo, meu pai, abre teus braços para que os pássaros que estão passando possam pousar. Se eles sentarem no teu corpo, pede para nos levar para o alto.”E, mesmo em cima da casa, a mulher continuou batendo a taquara ritmadamente contra o esteio da casa, enquanto as águas subiam.
Guiraypoty entoou então o nheengaraím, o canto solene Guarani. Quando iam ser tragados pela água, a casa se moveu, girou, flutuou, subiu… subiu até chegar à porta do céu, onde ficaram morando.
Esse lugar para onde foram chama-se YvY marã eÿ ( a “Terra Sem Males”). Aí as plantas nascem por si próprias, a mandioca já vem transformada em farinha e a caça chega morta aos pés dos caçadores. As pessoas nesse lugar não envelhecem e nem morrem, e aí não há sofrimento.”
Durante diversos espaços de tempo e de formas variáveis, grupos guarani reviveram historicamente este mito. Relatado por Curt Nimuendaju (nome que significa “homem que abriu seu próprio caminho”), no início do século XX, os pajés dos Guarani Apapocuva, buscaram a Terra-Sem-Mal no leste. Em todas as viagens apontadas para esta direção, o mito se fez história.
A Terra-Sem-Mal era uma dádiva a ser encontrada, localizada à leste, além do oceano e no alto.
TRAJETÓRIA E OBJETIVO DA MIGRAÇÃO
A causa do êxodo Guarani sempre foi a imperativa necessidade de encontrarem um lugar onde possam viver em segurança, segundo seu antigo modo de ser, ou seja, a busca da “Terra-Sem-Males”.
“Os primeiros que abandonaram a sua pátria, migrando para o leste foram os vizinhos meridionais dos Apapocuva: a horda dos Tañyguá, sob a liderança do pajé chefe Ñanderyquyní, que era temido feiticeiro. Subiram lentamente pela margem direita do Paraná, atravessando a região dos Apapocúva, até chegar à dos Oguauíva, onde seu guia morreu. Seu sucessor, Ñanderuí, atravessou com a horda do Paraná – sem canoas, como conta a lenda – , pouco abaixo da foz do Ivahy, subindo então pela margem esquerda deste rio até a região de Villa Rica, onde cruzando o Ivahy, passou-se para o Tibagy, que atravessou na região de Morro Agudos.
Rumando sempre em direção ao leste, atravessou com seu grupo o rio das Cinzas e o Itararé até se deparar,finalmente com os povoados de Paranapitinga e Pescaria na cidade de Itapetinga, cujos primeiros colonos nada melhor souberam fazer que arrastar os recém-chegados a escravidão. Eles porém, conseguiram fugir, perseverando tenazmente em seu projeto original, não de volta para o oeste, mas para o sul, em direção ao mar. Escondidos nos ermos das montanhas da Serra dos Itatins fixaram-se então, a fim de se prepararem para a viagem milagrosa através do mar à terra onde não mais se morre.” Os Guarani Mbya, começaram a chegar, ao que se sabe, a partir do início do século XX. Em 1921, Nimuendaju, na época funcionário da antigo SPI, teve a ventura de acompanhar de perto a migração de um pequeno grupo Mbya rumo ao mar.
Esta fantástica experiência não modificou apenas o modo desse antropólogo alemão encarar a sociedade Guarani, como a partir de então, iria influenciar de maneira decisiva, o modo como a maioria dos antropólogos passaria a ver os Guarani.
Dizimados por doenças e obcecados com a fuga da destruição do mundo, Nimuendaju alcançou-os perto de Itanhaém/SP. Quando chegaram ao litoral, termina sua viagem horizontal e histórica. Inicia-se então a caminhada que deveria, através da dança, tomar um rumo vertical. Dançaram três dias até a exaustão e então veio a terrível decepção: o fracasso. “Havia ocorrido algum erro, que anulara toda a magia e que, fechara para sempre o caminho para o Além aos peregrinos”. A maioria dos Guarani convenceu-se que já não poderiam alcançar a “Terra-Sem-Mal”, pela falta de um instrumento e pela interpretação incorreta do mito.
Depois partiram “na direção do noroeste, convencidos de que a Terra-Sem-Mal se localizava, não além do oceano e sim no centro da Terra”. Segundo Egon Scahden, somente poderiam ir em sua busca, aqueles que guardavam intactas suas crenças originais.
Hoje existem “aqueles que acreditam que só sua alma retornará a Nhanderú retã.” Mas há ainda aqueles, que acreditam conseguir atravessar o oceano com corpo e alma e superando a prova da morte, serem testemunho da tradição.
Uma alucinada tentativa de alcançar a qualquer custo a Terra-Sem-Mal, pode ser observada entre os Guarani e Kaiowá no Mato Grosso do Sul. Nos anos entre 1986 a 2000, 337 índios das áreas de Dourados, Amambaí, Caarapó, Porto Lindo e Takuapery, cometeram suicídio. A ampla espoliação de seu território físico e espiritual e a falta de perspectiva de encontrarem a sua prometida Terra-Sem-Mal, os levaram a depressão profunda, o que concorreu para a concretização de tão trágico fim.
Na utopia da Terra-Sem-Mal, o imediatismo histórico ficou frustrado.
Em busca da “Terra-Sem-Mal”, vivem hoje os Guarani, ameaçados do Mal sem Terra, em conseqüência do avanço das fazendas sobre os habitantes indígenas originários.
ÍNDIOS GUARANIS NA ALDEIA CANTAGALO (VIAMÃO/RS)
A comunidade ocupa uma área de 286 hectares, onde residem 40 famílias (300 moradores no total).
Possuem uma escola bilíngüe, localizada dentro da aldeia, denominada: Karai Arandu. Entretanto, para o índio guarani, o local de resgate de sua cultura pode ser o colo da mãe ou o pátio da aldeia e não uma escola tão rígida como à nossa. A escola, portanto, deveria se adequar mais à metodologia indígena e não retratar a estrutura tradicional da sociedade branca.
“Respeito às pessoas e à natureza”, esse é o lema os índios guaranis, por isso, suas crianças são tratadas com muito carinho. Elas, desde cedo, recebem os ensinamentos de sua cultura pelos pais e depois pelo cacique, que lhes explica que os guaranis foram eleitos pelo Deus Nhanderú para serem os guardiões das almas dos seres humanos.
A religião é ensinada, pelo karaí, que é o líder espiritual. Ele cuida dos doentes, recomendando os remédios e curando através da fé, pois, para eles, a doença nada mais é do que uma conseqüência da falta desta.
O artesanato é o maior sustento dessa aldeia. A cestaria e as esculturas de animais são perfeitas e vendidos pelos indígenas no litoral, na temporada de verão. Os índios, além disso, plantam milho, feijão e ervas medicinais.
As crianças guaranis que fazem parte do coral “Nhanderú Jepoverá” (Raio Sagrado de Deus), gravaram um CD em 2005 , que reúne 15 cantos sagrados.
Os guaranis cantam quando rezam, quando brincam, quando acalentam os filhos, quando plantam, quando colhem, quando curam, quando falam com seus deuses. Ninguém canta como eles, e ninguém ouve como eles, porque certamente seus cânticos fazem muito mais sentido em sua cultura.
Mito Guarani da Criação
A figura primária na maioria das lendas Guaranis da criação é Yamandú (ou Nhanderú ou Tupã), o deus Sol e realizador de toda a criação. Com a ajuda da deusa lua Arasy, Tupã desceu à Terra num lugar descrito como um monte na região do Aregúa, Paraguai, e deste local criou tudo sobre a face da Terra, incluindo o oceano, florestas e animais. Também as estrelas foram colocadas no céu nesse momento.
Tupã então criou a humanidade (de acordo com a maioria dos mitos Guaranis, eles foram, naturalmente, a primeira raça criada, com todas as outras civilizações nascidas deles) em uma cerimônia elaborada, formando estátuas de argila do homem e da mulher com uma mistura de vários elementos da natureza. Depois de soprar vida nas formas humanas, deixou-os com os espíritos do bem e do mal e partiu.

Primeiros Humanos
Os humanos originais criados por Tupã eram Rupave e Sypave, nomes que significam “Pai dos povos” e “Mãe dos povos”, respectivamente. O par teve três filhos e um grande número de filhas. O primeiro dos filhos foi Tumé Arandú, considerado o mais sábio dos homens e o grande profeta do povo Guarani. O segundo filho foi Marangatú, um líder generoso e benevolente do seu povo, e pai de Kerana, a mãe dos sete monstros legendários do mito Guarani (veja abaixo). Seu terceiro filho foi Japeusá, que foi, desde o nascimento, considerado um mentiroso, ladrão e trapaceiro, sempre fazendo tudo ao contrário para confundir as pessoas e tirar vantagem delas. Ele eventualmente cometeu suicídio, afogando-se, mas foi ressuscitado como um caranguejo, e desde então todos os caranguejos foram amaldiçoados para andar para trás como Japeusá.
Entre as filhas de Rupave e Sypave estava Porâsý, notável por sacrificar sua própria vida para livrar o mundo de um dos sete monstros legendários, diminuindo seu poder (e portanto o poder do mal como um todo).
Crê-se que vários dos primeiros humanos ascenderam em suas mortes e se tornaram entidades menores.
Os Sete Monstros Legendários
Kerana, a bela filha de Marangatú, foi capturada pela personificação ou espírito mau chamado Tau. Juntos eles tiveram sete filhos, que foram amaldiçoados pela grande deusa Arasy, e todos exceto um nasceram como monstros horríveis. Os sete são considerados figuras primárias na mitologia Guarani, e enquanto vários dos deuses menores ou até os humanos originais são esquecidos na tradição verbal de algumas áreas, estes sete são geralmente mantidos nas lendas. Alguns são acreditados até tempos modernos em áreas rurais. Os sete filhos de Tau e Kerana são, em ordem de nascimento:
Teju Jagua, deus ou espírito das cavernas e frutas.
Mboi Tu’i, deus dos cursos de água e criaturas aquáticas.
Moñai, deus dos campos abertos. Ele foi derrotado pelo sacrifício de Porâsý sesta, único dos sete a não aparecer como monstro.
Kurupi, deus da sexualidade e fertilidade.
Ao, deus dos montes e montanhas.
Luison, deus da morte e tudo relacionado a ela.
Outros Deuses ou Figuras Importantes
Angatupry, espírito ou personificação do bem, oposto a Tau
Pytajovái, deus da guerra.
Pombero, um espírito popular de travessura.
Abaangui, um deus creditado com a criação da lua; pode figurar somente como uma adptação de tribos Guaranis remotas.
Jurupari, um deus de adoração limitada aos homens, em geral apenas para tribos isoladas no Brasil.
CONCLUSÕES FINAIS
A batalha dos Guarani pela sobrevivência física e cultural continua nos dias atuais, no Paraguai, Argentina e Brasil (Maranhão, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul). A luta pela demarcação ou reconquista de suas terras confundem-se com a recuperação de sua identidade étnica.
A história indígena não é de vencidos, mas uma história viva e presente de avanços e resistência, de fazer renascer um mundo mais humano para todos, irmanados com a nossa Mãe Terra.
Os Guarani somam hoje, aproximadamente, cem mil pessoas em todo o território brasileiro.
Com esta pequena contribuição, viso despertar a curiosidade do leitor à tudo que se refere à civilização do índio sul-americano que até nossos dias permanece como objeto de acurado estudo. Enfatizo também, meu carinho e respeito pelas tradições deste povo, guardando como relíquia preciosa tudo o que evoca sua história e anima a lembrança de seus dias mais remotos.

“America Ameríndia,
ainda na Paixão:
um dia tua Morte
terá Ressurreição!”
Fontes:

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FOLCLORE: LENDAS INDIGENAS

BARTIRA
Na encantadora ilha de Urubuquiçaba, que fica entre os formosos montes Mandubas e verdes montanhas Japuís, perto da lendária Porchá, costumava banhar-se nas claras águas da branca, praia, em frente a grande planície, a jovem Bartira.
A linda guerreira, filha de Tibiriça, fizera da lendária ilha o seu ponto preferido. Sem saber, caminhava a jovem para a imortalidade, pois a parte do mundo onde nasceu, iria chamar-se Piratininga. Um dia, quando a guerreira despertou, já caminhava no meio do céu o sagrado deus Guaraci, nenhum vento rude soprou, a bela região lhe sorria pacífica e o Senhor do Dia, brilhava majestoso no céu azul. A donzela ergue-se e virando-se viu surgir um guerreiro branco, apresentado musculoso corpo e belo aspecto, não devendo nada aos sacros deuses.
Deixando a sombra dos angicos, o estranho disse à Bartira, que já estava vivendo ali há muitos dias e que gostaria imensamente de conversar com ela e beijando-lhe inocentemente a meiga mão da virgem, atingindo assim seus puros desejos. Logo, o jovem branco e Bartira, amaram-se apaixonadamente e, empreenderam muitos feitos heróicos e várias vezes demonstraram grande bravura.
No planalto de Piratininga, dominava naquele tempo, Tibiriçá, irmão de Tapiro, que preparava para a deusa Aracy, o delicioso Tapicurú, aí, Bartira em companhia de seu marido e seus dois irmãos, Ítalo e Ará, muitas batalhas venceu. Ítalo tinha os olhos verdes e pela vontade de Inochiné, seu padrinho, ele podia enxergar de qualquer distância, mesmo através de sólidas rochas. Ará, o valente, conforme era chamado por todos, tinha tanta força que, certo dia arrancou um grande pé de ipê do solo e o arremessou violentamente por sobre as águas do fundo Tietê.
Certa vez, o cruel Inhampuambucú com seu irmão Piqueputipuá, raptaram as duas primas de Bartira e esconderam-nas em uma funda caverna em meio a uma densa floresta. Então, Ítalo que caçava no monte Jaraguá subiu no alto de um pinheiro, olhou por toda a planície e rochedos descobrindo numa caverna perto de Tremembé, as duas irmãs. Avisada, Bartira partiu até lá e antes que os raptores presentissem, a guerreira com valentia e impetuosidade atirou-se sobre eles e, arremessando a lança contra o peito de Inhampuambuçu, o fez cair no chão sem vida. Então rapidamente precipitou-se sobre Piqueputipuá e com uma flecha certeira, atravessou-lhe as entranhas e ele cambaleou, caindo em seguida ao solo perecendo.
Todos os dias, quando não estava no planalto Bartira nadava nas verdejantes águas da ilha de Urubuquiçaba e durante muitas luas, Tibiriça desceu nestas belas praias, onde foram realizadas com grande celebrações as lendárias.
Os filhos de Bartira e João Ramalho foram: Jundá, que abateu o cruel Coandú; Cari, o cantor e Jati, que ergueu o primeiro cercado no planalto de Piratininga.
Estes são os filhos heróis da grande tribo Guaianás, que foram chefes e conselheiros nas terras do alto Paraná e no fecundo planalto de Piratininga, antes da chegada dos brancos Lusitanos. Foram: Puambú, descendente do sábio Tuperi, que foi naqueles tempos remotos o oitavo pajé da nação Tupi. E Puambú que foi pai de Tori. E estes são os filhos de Tori que lhe nasceram do seu primeiro casamento com Jurema: Anhã, Guiá, Membira e Ipojuçá, o mortífero. E Guaiá foi amante de Repoti filho de Igape e teve de Repoti a Mirá que foi esposa de Itajubá. E Itajubá tomou para a sua mulher a bela Arumã e ela lhe deu dois filhos, Piquerobi e Tibiriça.
Tibiriça casou com Potira. E os filhos de Potira foram: Ítalo, Ará, Pirijá, Aratá, Toruí e Bartira que foi esposa de João Ramalho. Esta é a descendência de Tibiriça segundo as suas gerações e espalharam-se por todo o imenso Brasil. Alguns foram viver entre os intrépidos Tupiniquins, já outros se uniram aos valorosos Tupinambás. Todavia, Tibiriça e Bartira fizeram aliança com os homens brancos, ficando no planalto de Piratininga e viram o início da glória do fecundo império.
A índia-guerreira Bartira é o arquétipo da Deusa Ártemis, sexualmente resolvida e portanto, ela traz consigo uma integração com o masculino. Ela representa a liberdade e a independência que foram negadas às mulheres por longos anos.
Ártemis/Bartira é uma mulher forte, equilibrada e aberta à convenções sociais e códigos de comportamento. Ela tem a tendência de vivenciar fortemente suas causas e princípios.
Este mito de mulher-guerreira incorpora os mistérios mais profundos da natureza, representando o “ser essencial”. Este arquétipo foi reverenciado no matriarcado, quando era reconhecido como a Grande Mãe. Ela contempla a possibilidade de várias manifestações. Nas antigas sociedades matriarcais se cultivava o íntimo contato com o ciclo das estações e os ritmos naturais.
Ártemis/Bartira é a conexão que media os aspectos pessoais e coletivos da vida. Estabelece um aponte sobre o horizonte da consciência individual e o reino primordial do imaginário, através de suas imagens, idéias e emoções. Representa ainda, a natureza instintiva que trabalha as reações emocionais. É entendendo e ocupando-se com os ritmos da natureza que saberemos viver melhor com eles e também extrair-lhes mágicos ensinamentos.
Algumas mulheres nativas americanas começam a despontar como mestras poderosas e influentes, permitindo que sua sabedoria luminosa e muito necessária atinja aqueles que tanto anseiam pela visão espiritual do aspecto desta deusa, conhecida pelos gregos como Ártemis. Nesta tradição, a Grande Mãe é chamada da Mulher de Cobre. Ela é eterna e assume múltiplas formas, tendo muitas filhas e netas que transmitem diferentes aspectos de seus ensinamentos.
BOITATÁ, O PROTETOR DOS CAMPOS
Acreditavam os tupis-guarani num espírito que protegia os campos contra aqueles que o incendiavam. E, conservavam esta crença, dando-lhe a forma de uma serpente ígnea que residia na água. Algumas vezes torna-se um tronco em brasa, denominado “méuan”, que fazia morrer todo aquele que tentasse inutilmente incendiar o campo.
Boitatá, em guarani significa: “mboi” (cobra) e tatá (fogo). Sofreu entre nós diversas alterações tanto no sentido como na forma:
MBAETATÁ – que se julga ser a sua forma primitiva;
MBOITATÁ – influxo de “mboi”, cobra;
BOITATÁ – também influxo de “mboi”, cobra;
BOITATÁ – influxo de boi, palavra portuguesa;
MBOYTATÁ – influxo africano
A forma “mbaetatá” (mbae, coisa) é dada como a mais remota, por nos ter sido apresentada pelo padre Anchieta. A forma “boitatá” é a resultante da influência exercida pela palavra homonímica da língua portuguesa. Em muitos pontos do país o guarani cedeu lugar a ela. Em São Paulo é conhecido pelo termo “bitatatá” e os roceiros de Minas o chamavam de “batatal” e afirmavam que ele morava em uma caverna.
O Boitatá é um mito universal. Na Inglaterra é conhecido como “Jack with a lantern” (Jack com uma lanterna), na Alemanha é “Irlicht” (a luz louca), na França é “Moine des marais” (assombração dos pântanos) e nos países que se fala espanhol é “Luz mala” ou “Víbora de Fuego”.
No Rio Grande do Sul, porém, o mito universal, originou uma lenda, o que, aliás, é muito comum, o mito lobisomem, por exemplo já originou dezenas de lendas locais.
Do Boitatá, no Sul, se conhece três versões: a primeira mostra-o com os olhos ferventes. Nas trevas distingue tudo, porém na luz nada vê. Quando as águas tomaram conta da campanha (Dilúvio), alagando caminhos, várzeas e coxilhas, ela foi para o lugar mais alto que encontrou. Tanto furou, que conseguiu fazer um buraco muito fundo e escuro. Recolhe-se neste local e esperou até que as águas baixassem. A necessidade de distinguir nas trevas, a obrigou a arregalar os olhos. Mas ela arregalou tanto…, que elas passaram a brilhar como duas tochas de fogo. São os olhos de Boitatá, assim transformados, que o gaúcho se depara à noite, quando passeia pelos campos.
A segunda versão, corrente entre os estanceiros gaúchos, é que durante a noite ao cavalgar ou viajar à noite, avistam um fogo volante, às vezes em forma de cobra, outras vezes em forma de pássaro, voando na frente do cavaleiro e impedindo-lhe a marcha. Há uma crendice popular que Boitatá se deixa atrair pelo ferro. E, então um meio de se livrar de seu ataque, consiste em desatar o laço e arrastá-lo pela presilha. Ele acompanhará o ferro da argola do laço e ao se passar por um arbusto, ele se desmancha todo. Até que se recomponha, a pessoa tem tempo de fugir.
A terceira versão nos foi transmitida por J. Simões Lopes Neto. Ele nos relata que numa noite muito escura iniciou-se o grande dilúvio. A água cobriu todas as coxilhas, inundou as sangas e arroios, encheu todas as tocas dos animais, inclusive a de uma cobra grande chamada de “boiguaçu” que dormia quieta. Acordando com o frio da água, encheu-se de susto. Saiu para fora e apertada de fome começou a comer só os olhos dos animais que encontrava a sua volta. Como os animais sofrem influência do alimento que comem, a Boiguaçu não escapou a regra, sua pele tornou-se muito fina e ficou luminosa pelos mil olhos que devorou.
Os homens quando voltaram à vê-la, não a reconheceram e pensaram tratar-se ser de uma nova cobra, por causa de seu aspecto deram-lhe o nome de Boitatá, ou seja, cobra de fogo.
Passado certo tempo, a Boitatá morreu de pura fraqueza, porque só os olhos que comeu não a alimentaram o suficiente. Ao decompor-se, a luz que estava presa dentro dela esparramou-se pelos brejos e pode tomar a forma tanto de cobra como de boi. O povo da campanha adverte, ao vê-la deve-se ficar imóvel, de olhos fechados, sem respirar, até que ela resolva ir embora.
Há muitos outros casos e lendas, o povo do País de Gales tinham o seu “Jack com uma lanterna” e atribuem-lhe a intenção de espírito zombeteiro, que ensina o caminho errado aos que se perdem pelos prados. O budismo nipônico admite entre os seus “gakis”, o “Shinen-Gaki”, que aparece à noite, sob a forma de fogo errante. E justifica historicamente o caso remontado aos celtas, que tinham o “fogo dos Druidas” e à antiguidade clássica, onde encontramos o fogo de Helena.
Na região missioneira, adquiriu Boitatá uma função disciplinadora de castigo entre pessoas que se estimam e consideram. Para conservar o respeito que deve haver entre compadre e comadre e levando em conta a fragilidade humana, existia a lenda de Mboitatá (Víbora de Fogo) que se reduz ao seguinte: se os compadres esquecerem-se do sacramento que os une, não fazerem caso dele, faltando a comadre a seus deveres conjugais com seu compadre, de noite se transformarão os culpados em Mboitatá, ou seja, em grandes serpentes ou pássaros que possuem em vez da cabeça uma chama de fogo. Eles brigarão toda a noite, lançando chamas e queimando-se mutuamente até o final da madrugada, para tornar a fazer tal feito na noite seguinte, assim por séculos e séculos, mesmo depois de mortos.
Segundo a ciência, todas estas lendas surgiram da mera observação de um fenômeno comum que ocorre sempre em há algo ou pessoa em estado adiantado de decomposição. É conhecido pelo nome de fogo-fátuo, inflamações espontâneas emanadas em virtude da enorme quantidade de gases que se desprendem das ossadas dos animais dispersos pelos pampas.
São estes fogos-fátuos desprendidos de lugares pantanosos, de coxilhas onde encontramos animais decompostos, nas estrumadeiras, nos campos de folhagens apodrecidas, os grandes geradores de tais lendas.
Este mito não é exclusivamente aborígine, porque há nas lendas cosmogônicas dos Fans da África a imagem de Mboya, representando na floresta um “acham” errante à procura de Bingo, o filho a quem Nzamé atirara ao precipício. Existe também no Maranhão, um mito mais aproximado do da tribo dos Fans do que do Boitatá. É o que se conhece pelo nome de kuracanga. Quando uma mulher tem sete filhas, a última vira kuracanga, isto é, a cabeça sai do corpo, à noite e, em forma de bola de fogo, gira à toa pelos campos, apavorando a quem encontrar nessa estranha vagabundeação. Há, porém, meio infalível de sustar-se esse horrível fadário, é fazer com que a filha mais velha seja madrinha desta caçula.
Está na natureza de todos nós, seres humanos, projetarmos nossos medos em fantasmas ou em criaturas que circundam nosso universo, nomeando-os e identificando-os. Realmente nada é pior e mais terrificante do que o desconhecido, o invisível, o inominável…
Todo e qualquer tipo de monstro deve nascer para depois ser amordaçado, ou melhor, deve ser reconhecido, pois na verdade, ele faz parte de nós. Essa estranha e terrível faceta de nossa personalidade deve tomar corpo e vida.
“Todos os dragões de nossa vida são talvez princesas que esperam ver-nos belos e corajosos. Todas as coisas terrificantes não são talvez, mais que coisas sem socorro que esperam que nós as socorramos.”
SIMBOLISMO
A serpente troca de pele de tempo em tempos. Este ciclo de transformação simboliza viver, morrer e renascer. Na Grécia a serpente é representada como arco-íris. Ela simboliza o poder de cura. Duas serpentes entrelaçadas num bastão de madeira ou metal formam o caduceu, símbolo da paz. A serpente gera o fogo. Essa energia atua no plano material, na paixão, na vitalidade e na procriação. Nos mitos, a serpente é mediadora dos deuses e do conhecimento.
Mensagem: É o momento de transformar pensamento, desejos e encararmos nossos medos para nos integrarmos com o Todo.
Boitatá pode ser considerado um ser feérico que mescla o elemental do fogo com o ar, já que adota a forma de uma luz que serpenteia no céu, atravessando a selva em grande velocidade. Gosta de perseguir as pessoas e assustá-las com seu fogo que não queima. Entretanto, pode trazer perigo para o homem, que ao fitá-lo nos olhos, pode ficar cego.
ARUANÃ, LENDA E RITUAL DE DANÇA
Aruanã, filho de Aruá e primo dos Lendários Arumanás, vivia solitário e triste dentro das fundas águas do imenso Araguai.
Ele era um eterno enamorado da vida terrestre, particularmente da vida do homem.
Um dia, a poderosa Jururá-Açú, deusa das chuvas, do orvalho e irmã de Iara, impelida por sagrado desejo, chamou em meio das águas, os angás, os arumaçás e seus filhos, para irem honrar o poderoso Boto, senhor das águas, na funda Loca onde habitava o deus marinho. Todos os seres das águas do volumoso e imenso Araguaia correram para o fundo do rio, a fim de erguerem suaves preces entre cantos e louvores. Somente Aruanã não conseguiu com a turba e exclamou:
-“Pobre de mim, nas águas nasci, nas águas me criei, contudo já não tenho felicidade!”
Assim falou o valente Aruanã e colocando a cabeça fora da água, continuou:
-“Ó pai Tupã, se a ti próprio te apraz, a felicidade de um pobre mortal, se propício a mim, faze-me um ser humano e, se algum dia eu tenho que morrer, não me deixe nestas águas, tira-me delas.”
Tanto suplicou Aruanã que sua prece acabou sendo ouvida. No aprazível e sagrado monte Ibiapaba, Tupã observou com seus olhos divinos e compadecidos o que estava se passando nas margens do rio Araguaia.
-“Vai tu Polo e satisfaz os desejos de Aruanã.”
Obedecendo as ordens do supremo, o deus do vento, aproximou-se do local onde estava o formoso peixe e tomando-o levou-o para o verde campo.
-“És tu, um valente guerreiro, Tupã mais do que dele esperavas!”
Assim disse Polo, o deus dos ventos e desapareceu.
Ó maravilha! Ali estava um homem! Então vieram, por ordem do criador, as belas e divinas Parajás deusas da honra, do bem e da justiça e assim falaram:
-“Aruanã, peixe foste tu; Aruanãs hás de chamar-te daqui para o futuro.”
E, foi deste modo que nasceram os valentes Aruanãs e habitaram as margens do lendário rio Juruá. Eram uma tribo poderosa, laboriosa, resistente e reconhecida.
Deles vieram mais tarde os Aruaques, que foram habitar nas Antilhas, os Aruãs que ficaram na ilha de marajó; os Arucuinas, que habitaram nas fronteiras do Brasil com a lendária Guiana Francesa; os Arumás, que foram viver nos altos do rio Parú, os conservadores e canoros Karajás, que foram habitar as margens do Araguaia, onde todos os anos organizam o sagrado Ritual do Aruanã, com suaves danças e divinos cantos, em homenagem ao inesquecível Aruanã, pai da nação Karajá.
O mundo Karajá é habitado por um grande número de personagens mais ou menos fantásticos, os aõni e outros seres que os Karajá distinguem como habitantes do céu (biuludu) da terra (suuludu) e da água (beeludu). Grande parte desses seres, principalmente os celestes, semelhantes aos pássaros que voam ou diversos Ijasó, são “pessoal” do Xiburè, imahãdu, ou “criação dele”, ou seja, são seres animados por Xiburé. São formas diferentes que Xiburè assume; mas todas elas são Xiburè.
Grande parte ou a totalidade dos animais valorizados pelos Karajá e que existem aqui na terra são pertencentes, ou parte dos ijasò que vivem nas profundezas.
RITUAL DO ARUANÃ
Os Karajá vivem no Brasil central, nas margens do rio Araguaia, o Berohokã – que significa a água grande, e é neste rio que está a sua mais importante fonte de subsistência. A vida cultural dos Karajá está também estreitamente ligada ao Berohokã. Os acontecimentos do cotidiano, assim como o período de plantação, colheita e caça, como também as festas e os rituais sagrados, acompanham os períodos das estações de chuva e seca, isto é, da vazante e das cheias do rio Araguaia. Em princípio, as datas dos eventos são marcadas pelo Xamã, pois os índios dizem que só ele é capaz de enxergar e entender as mensagens dos seres sobrenaturais, seus ancestrais que vivem no fundo do rio.
A estrutura ritual dos Karajá tem dois grandes rituais como referências: o rito de iniciação masculina, o Hetohoky, e a Festa de Aruanã, que apresentam ciclos anuais, baseando-se na subida e descida do rio Araguaia.
Durante a encenação do ritual de dança, os Aruanã transmitem, cantando, as mensagens dos seres sobrenaturais que vivem debaixo da água do rio Araguaia. Os dançarinos ficam praticamente imperceptíveis; vestem-se de palha de buriti, cobrindo a cabeça até abaixo dos joelhos, mas se mantêm com os braços de fora. As palhas são colocadas formando dois grandes saiotes. Um deles, amarrado na cintura e o outro, preso em cima da cabeça. Na parte superior da cabeça é montado um adereço no formato de cartucho cilíndrico completando-se com penachos. Esses cilindros são decorados com desenhos simétricos coloridos que inicialmente eram feitos de plumagem, mas hoje são realizados com pedaços de pano ou papel grosso colorido. As máscaras também fazem parte das vestimentas. Este assunto é envolvido em mistérios, cujas informações os índios passam com muitas reservas.
As dançarinas usam uma tanga feita da entrecasca da madeira de adehyre, e enrolam nos braços, tornozelos e joelhos enfeites confeccionados de algodão tingido de urucu. O enfeite dos joelhos é um pouco mais largo e tem alguns fios pendurados. No rosto e algumas áreas bem definidas do corpo desenham motivos geométricos, sendo que as mais jovens se adornam com colares confeccionados com miçanga coloridas.
ENCENAÇÃO
Os Aruanã começam o Ritual de Dança saindo da Casa dos Homens. Depois passam a cantar e dançar cada música durante três voltas, percorrendo a estrada entre o pátio masculino e o feminino. Na segunda volta duas dançarinas saem andando do pátio feminino, indo se encontrar com os Aruanã no meio da estrada. Colocam-se à sua frente e, juntos, dançando, retornam ao pátio feminino. Na última volta, isto é, na terceira, os Aruanã param de cantar quando atingem o pátio feminino, e em total silêncio retornam, sem dançar, ao espaço masculino, para então recomeçar a dança com outra música. Considerando também os conteúdos simbólicos e culturais dos Karajá foi possível chegar à imagem do princípio, isto é, à estrutura da coreografia da dança, como uma representação simbólica do universo Karajá: os três mundos, o do fundo das águas, onde vivem os Aruanã, o do meio, onde vivem os humanos Karajá e o mundo do céu.
Os cantos apresentam sempre dois temas, que os Karajá chamam de primeira e segunda música. À primeira, denominam “Iumy”, (corpo), e à segunda, “Ito ou Iòwòna”, (subida). Cantam primeiro três vezes o tema A, depois o tema B uma, duas ou três vezes, isto sem sair do espaço masculino. Quando começam a dançar pela estrada retornam ao tema A, cantando até alcançar o meio da estrada. Aí então voltam a cantar o tema B, que também podem cantar uma, duas, ou três vezes, conforme a disposição da permanência neste espaço. Ao retornarem à dança prosseguem pela estrada, com o tema A, que vão cantando até atingir o pátio feminino, onde passam a cantar o tema B. E assim sucessivamente, até completarem três voltas, que fazem durante todo o percurso de cada música. Porém, na última volta, ainda no espaço feminino, depois de cantarem o tema B com suas devidas repetições retornam sempre ao tema A para finalizar. Assim sendo, de certa maneira o tema A está associado ao gênero masculino, assim como o tema B ao feminino.
Como se vê, esta representação estética obedece a uma ordenação, e expõe características que priorizam certos elementos simétricos enfatizados por tríades. Esses elementos configuram a seguinte forma:
A 3 vezes (No espaço masculino)B 1,2,ou 3 vezes (Ainda no espaço masculino)A Sucessivamente (Na estrada)B 1,2,ou 3 vezes (No meio da estrada)A Sucessivamente (Na estrada)B 1,2,ou 3 vezes (No espaço feminino)A 3 vezes (No espaço feminino, cantam para retornar à estrada, ou para finalizar).
A IMPORTÂNCIA DO MITO PARA O POVO INDÍGENA:
Segundo Samuel Yriwana Karajá:
“O mito é quando agente está próximo da nossa origem. Quando a gente conhece o nosso mito de origem agente se aproxima da nossa origem. O mito é importante nesse momento que agente está vivendo para a gente não perder a nossa origem porque sem ele agente perderia totalmente a nossa origem. O mito conta a história do nosso povo. Essas explicações nós não encontramos em nenhum outro lugar, é só no mito que encontramos essa explicações. Para nós Karajá, os nossos mitos têm força espiritual, porque no mito encontramos a história do povo Karajá, a história de outros povos, a história dos animais, a história das plantas. Para os Karajá, o mito é uma coisa viva, porque ele conta a história do povo. O mito é muito importante na comunidade porque ele é contado e os Karajá considera como uma realidade porque ele foi contado antigamente. Então a raiz do índio está no mito e se agente não guardar o que vai valer é a lei do branco. As mulheres também contam os mitos e as histórias “.
Concluímos que para os Karajá, o mito é fundamental importância, porque ele conta a história do povo, conta a história de outros povos, dos animais, das plantas. Além disso, o mito tem força espiritual. É através do mito e da celebração de rituais que os Karajá lutam para preservar e revitalizar sua história, sua língua, enfim, suas tradições culturais.
“Olhem as árvores acompanhando o movimento da tempestade, elas preservam seus ramos tenros. Se quiserem erguer-se contra o vento, são carregadas, com raiz e tudo.”
LENDA DO AGUAPÉ
Inô, o mais velho pajé da nação Guaianás, possuía uma filha tão bela que até mesmo, o próprio Tupã lá do alto do monte Ibiapaba, contemplava com seu poderoso olhar a linda guerreira.
Em certa manhã, passeava a doce virgem feliz, pelos verdes campos, junto as margens do Anhangabaú, rio lendário que atravessava Piratininga. Então o Senhor dos Deuses ficou possuído de grande amor por ela e, sob a forma de um valente guerreiro, principiou a tentá-la com meigas palavras de fascinação:
-“Bela e graciosa jovem, muito feliz será o homem que for teu esposo; bem sei que poucos poderiam possuir-te. Tu mereces ser amada por um Deus!”.
A moça ficou encantada com as belas palavras do deus. E ele continuou:
-“Não temas, pois eu sou o Deus dos Deuses, o Senhor dos Céus, dos trovões, dos raios e da terra.”
Nesse momento, a jovem foi envolvida pelo medo, caindo em poder do tonante Deus. Desta união nasceu uma linda menina.
Foi tão comentado o nascimento da linda criançinha e neta de Inô, que o poderoso Morubixaba Pojucã, os sagrados Pajés; Ini, Jaça, Ubi, Itaú, Jurumá e Araranguá, os sábios Abarés; Runá, jaguá, Itajaí, Taió, os conselheiros Moacaras; Canicrã, Jarú, Murim e Tubá e, os valentes guerreiros; Jaguarê, Anhá, Taca, Canitú, Inê e Canherú, se reuniram para escolher o nome que a menina deveria ter.
Depois de uma prolongada reunião, o grande Inô, caminhando lentamente até a oca de sua filha disse:
-” O Conselho dos Sábios Guaianás escolheram o nome de tua filhinha, ela se chamará Uberlã”.
No alto do monte Ubiapaba, Jací, a poderosa Deusa Lua, mãe da noite e esposa de Tupã, cheia de raiva com a traição do marido, jurou vingar-se, do primeiro homem que amasse Uberlã. A Deusa não poderia despejar todo o seu ódio na inocente criança, pois despertaria a ira de Tupã e sabe-se lá o poderia fazer com ela.
A menina foi crescendo em beleza e graça, além disso, recebeu do seu velho avô, grande instrução e muitos conhecimentos sobre as regras e preceitos que constituem a bela história, a arte e os maravilhosos cantos dos Tupis.
Em uma ensolarada tarde, refrescando-se nas águas límpidas do rio, Uberlá viu pela primeira vez sua beleza no espelho das águas. E, ao contemplar tão linda face, estremeceu de felicidade, pois realmente ela muito mais bela do que sua própria mãe!
Perto dali, passeava o valente pajé Maraí, que exercia o sagrado ofício de sacerdote na Ocara de Tupã. Maraí, que segundo a lenda era poderoso, dominou por algum tempo toda a nação dos Cariris, fez muitos trabalhos de pedra e deixou escritas famosas histórias em língua Tupi e era filho da própria nação Cariri. Fora ele o construtor do famoso açude de pedra para prender as águas do lendário rio Cariri, nas terras de Jatí no Ceará. Fora ainda ele, que um dia, quando passeava pela baixada úmida do Ipiranga, onde os Tupis cultivavam a linda gramínea Chamada capim-de-planta, plantou ali, a bela morácea que, abençoada por Tupã, atravessou os anos e ainda lá permanece, ficando conhecida pelo nome de “Árvore das Almas”.
Pois foi nesta tarde, enquanto Uberlã encantada contemplava a imagem de sua beleza refletida nas águas do rio Tietê, perto de uma imensa floresta, que a moça foi vista pelos surpresos olhos de Maraí. Esse apaixonou-se perdidamente ao primeiro olhar e através de muitas súplicas falou de seu amor para a moça. Porém, Uberlá desprezou-lhe as palavras e saiu às pressas, fugindo do desejoso homem.
O pajé sem hesitação começou a perseguir a bela donzela e quando chegaram à margem do fundo Tietê, vendo-se perdida, a neta de Inô, suplicou ajuda da Deusa Guerreira Sumé, sua protetora, pedindo que a imortal se compadecesse dela e metamorfoseasse o seu perseguidor. Nesse momento chegou o pajé e já se apoderava da jovem, quando seu corpo foi se modificando em um verde e formoso aguapé, que é uma linda planta aquática.
Foi desse modo que a Deusa Jací vingou-se do primeiro homem que amou Uberlã, e a bela planta acabou sendo levada pelas águas.
Esta lenda é um pequeno frasco dos múltiplos perfumes da sabedoria indígena!
O aguapé, para quem desconhece, possui a propriedade de promover reduções de nitrogênio e fósforo, sólidos suspensos, carbono dissolvido e coliformes encontrados na água. Por esta razão, é muito utilizado no tratamento do esgoto doméstico, assim como no industrial. Além disso, é uma planta muito usada em paisagismo, por sua grande beleza.
Nossos irmãos índios se beneficiavam dela por ser também, uma planta medicinal. Suas folhas úmidas eram utilizadas contra a febre e insolação. Aproveitadas ainda em infusões, serviam como um poderoso sedativo para dores em geral.
Para os nossos queridos índios, que já estiveram em total harmonia com a natureza, sempre buscavam uma mágica explicação, tanto para o “ser” quanto para o “estar” neste universo. E nosso índio está coberto de razão, pois a magia está no ar, na terra e no coração humano que possui a capacidade de comover-se com a simplicidade.
Muitos são os estudiosos que buscam interpretar os mitos e lendas indígenas, mas poucos são os que realmente conseguiram elucidar o verdadeiro significado do pensamento e da espiritualidade indígena.
A sociedade brasileira encontra-se distanciada da cultura indígena, porque ainda hoje, está presa à preceitos herdados dos europeus. Mas, felizmente, a cultura é adaptativa e permite que todo e qualquer indivíduo se ajuste a seu cenário e adquira meios de expressão criadora.
CRIAR para MUDAR, estas são as palavras chaves. Então, porque não criar um Brasil que atenda as necessidades das culturas variáveis que aqui co-habitam?
Mas as mudanças só acontecerão quando houver a conscientização de que nosso país é nossa gente. E gente, antes de tudo é cultura.
É através desta brecha cultural que o Brasil poderá reencontrar sua cara e seu jeito originalmente índio de ser. Só uma “nova” consciência criará um mundo novo capaz de enterrar a miséria e a exclusão social para todo o sempre.

Fontes:

http://www.rosanevolpatto.trd.br/lendabartira.html
http://www.rosanevolpatto.trd.br/lendaboitata.html
http://www.rosanevolpatto.trd.br/aruana.htm
http://www.rosanevolpatto.trd.br/aguape.htm

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Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
(1902 – 1987)

(…) Pois de tudo fica um pouco.Fica um pouco de teu queixono queixo de tua filha.De teu áspero silêncioum pouco ficou, um pouconos muros zangados,nas folhas, mudas, que sobem.
Ficou um pouco de tudono pires de porcelana,dragão partido, flor branca,ficou um poucode ruga na vossa testa,retrato.
(…) E de tudo fica um pouco.Oh abre os vidros de loçãoe abafao insuportável mau cheiro da memória.
(Resíduo)
Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira do Mato Dentro – MG, em 31 de outubro de 1902. De uma família de fazendeiros em decadência, estudou na cidade de Belo Horizonte e com os jesuítas no Colégio Anchieta de Nova Friburgo RJ, de onde foi expulso por “insubordinação mental”. De novo em Belo Horizonte, começou a carreira de escritor como colaborador do Diário de Minas, que aglutinava os adeptos locais do incipiente movimento modernista mineiro.
Ante a insistência familiar para que obtivesse um diploma, formou-se em farmácia na cidade de Ouro Preto em 1925. Fundou com outros escritores A Revista, que, apesar da vida breve, foi importante veículo de afirmação do modernismo em Minas. Ingressou no serviço público e, em 1934, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde foi chefe de gabinete de Gustavo Capanema, ministro da Educação, até 1945. Passou depois a trabalhar no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e se aposentou em 1962. Desde 1954 colaborou como cronista no Correio da Manhã e, a partir do início de 1969, no Jornal do Brasil.
O modernismo não chega a ser dominante nem mesmo nos primeiros livros de Drummond, Alguma poesia (1930) e Brejo das almas (1934), em que o poema-piada e a descontração sintática pareceriam revelar o contrário. A dominante é a individualidade do autor, poeta da ordem e da consolidação, ainda que sempre, e fecundamente, contraditórias. Torturado pelo passado, assombrado com o futuro, ele se detém num presente dilacerado por este e por aquele, testemunha lúcida de si mesmo e do transcurso dos homens, de um ponto de vista melancólico e cético. Mas, enquanto ironiza os costumes e a sociedade, asperamente satírico em seu amargor e desencanto, entrega-se com empenho e requinte construtivo à comunicação estética desse modo de ser e estar.
Vem daí o rigor, que beira a obsessão. O poeta trabalha, sobretudo com o tempo, em sua cintilação cotidiana e subjetiva, no que destila do corrosivo. Em Sentimento do mundo (1940), em José (1942) e, sobretudo em A rosa do povo (1945), Drummond lançou-se ao encontro da história contemporânea e da experiência coletiva, participando, solidarizando-se social e politicamente, descobrindo na luta a explicitação de sua mais íntima apreensão para com a vida como um todo. A surpreendente sucessão de obras-primas, nesses livros, indica a plena maturidade do poeta, mantida sempre.
Várias obras do poeta foram traduzidas para o espanhol, inglês, francês, italiano, alemão, sueco, tcheco e outras línguas. Drummond foi seguramente, por muitas décadas, o poeta mais influente da literatura brasileira em seu tempo, tendo também publicado diversos livros em prosa.
Em mão contrária traduziu os seguintes autores estrangeiros: Balzac (Les Paysans, 1845; Os camponeses), Choderlos de Laclos (Les Liaisons dangereuses, 1782; As relações perigosas), Marcel Proust (La Fugitive, 1925; A fugitiva), García Lorca (Doña Rosita, la soltera o el lenguaje de las flores, 1935; Dona Rosita, a solteira), François Mauriac (Thérèse Desqueyroux, 1927; Uma gota de veneno) e Molière (Les Fourberies de Scapin, 1677; Artimanhas de Scapino).
Alvo de admiração irrestrita, tanto pela obra quanto pelo seu comportamento como escritor, Carlos Drummond de Andrade morreu no Rio de Janeiro RJ, no dia 17 de agosto de 1987, poucos dias após a morte de sua filha única, a cronista Maria Julieta Drummond de Andrade.

1902 – Nasce em Itabira do Mato Dentro, Estado de Minas Gerais; nono filho de Carlos de Paula Andrade, fazendeiro, e D. Julieta Augusta Drummond de Andrade.
1910 – Inicia o curso primário no Grupo Escolar Dr. Carvalho Brito, em Itabira (MG).
1916 – Aluno interno no Colégio Arnaldo, da Congregação do Verbo Divino, Belo Horizonte. Conhece Gustavo Capanema e Afonso Arinos de Melo Franco. Por problemas de saúde, interrompe seus estudos no segundo ano. 1917 – Toma aulas particulares com o professor Emílio Magalhães, em Itabira.
1918 – Aluno interno no Colégio Anchieta, da Companhia de Jesus, em Nova Friburgo; é laureado em “certames literários”. Seu irmão Altivo publica, no único exemplar do jornalzinho Maio, seu poema em prosa “ONDA”.
1919 – Expulso do Colégio Anchieta mesmo depois de ter sido obrigado a retratar-se. Justificativa da expulsão: “insubordinação mental”.
1920 – Muda-se com a família para Belo Horizonte.
1921 – Publica seus primeiros trabalhos na seção “Sociais” do Diário de Minas. Conhece Milton Campos, Abgar Renault, Emílio Moura, Alberto Campos, Mário Casassanta, João Alphonsus, Batista Santiago, Aníbal Machado, Pedro Nava, Gabriel Passos, Heitor de Sousa e João Pinheiro Filho, todos freqüentadores do Café Estrela e da Livraria Alves.
1922 – Ganha 50 mil réis de prêmio pelo conto “Joaquim do Telhado” no concurso Novela Mineira. Publica trabalhos nas revistas Todos e Ilustração Brasileira.
1923 – Entra para a Escola de Odontologia e Farmácia de Belo Horizonte.
1924 – Escreve carta a Manuel Bandeira, manifestando-lhe sua admiração. Conhece Blaise Cendrars, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e Mário de Andrade no Grande Hotel de Belo Horizonte. Pouco tempo depois inicia a correspondência com Mário de Andrade, que durará até poucos dias antes da morte de Mário.
1925 – Casa-se com a senhorita Dolores Dutra de Morais, a primeira ou segunda mulher a trabalhar num emprego (como contadora numa fábrica de sapatos), em Belo Horizonte. Funda, junto com Emílio Moura e Gregoriano Canedo, A Revista, órgão modernista do qual saem três números. Conclui o curso de Farmácia, mas não exerce a profissão, alegando querer “preservar a saúde dos outros”.
1926 – Leciona Geografia e Português no Ginásio Sul-Americano de Itabira. Volta para Belo Horizonte, por iniciativa de Alberto Campos, para trabalhar como redator-chefe do Diário de Minas. Heitor Villa Lobos, sem conhecê-lo, compõe uma seresta sobre o poema “Cantiga de Viúvo”.
1927 – Nasce, no dia 22 de março, mas vive apenas meia hora, seu filho Carlos Flávio.
1928 – Nasce, no dia 4 de março, sua filha Maria Julieta, quem se tornará sua grande companheira ao longo da vida. Publica na Revista de Antropofagia de São Paulo, o poema “No meio do caminho”, que se torna um dos maiores escândalos literários do Brasil. 39 anos depois publicará “Uma pedra no meio do caminho – Biografia de um poema”, coletânea de críticas e matérias resultantes do poema ao longo dos anos. Torna-se auxiliar de redação da Revista do Ensino da Secretaria de Educação.
1929 – Deixa o Diário de Minas para trabalhar no Minas Gerais, órgão oficial do Estado, como auxiliar de redação e pouco depois, redator, sob a direção de Abílio Machado.
1930 – Publica seu primeiro livro, “Alguma Poesia”, em edição de 500 exemplares paga pelo autor, sob o selo imaginário “Edições Pindorama”, criado por Eduardo Frieiro. Auxiliar de Gabinete do Secretário de Interior Cristiano Machado; passa a oficial de gabinete quando seu amigo Gustavo Capanema substitui Cristiano Machado.
1931 – Falece seu pai, Carlos de Paula Andrade, aos 70 anos.
1933 – Redator de A Tribuna. Acompanha Gustavo Capanema quando este é nomeado Interventor Federal em Minas Gerais.
1934 – Volta a ser redator dos jornais Minas Gerais, Estado de Minas e Diário da Tarde, simultaneamente. Publica “Brejo das Almas” em edição de 200 exemplares, pela cooperativa Os Amigos do Livro. Muda-se, com D. Dolores e Maria Julieta, para o Rio de Janeiro, onde passa a trabalhar como chefe de gabinete de Gustavo Capanema, novo Ministro de Educação e Saúde Pública.
1935 – Responde pelo expediente da Diretoria-Geral e é membro da Comissão de Eficiência do Ministério da Educação.
1937 – Colabora na Revista Acadêmica, de Murilo Miranda.
1940 – Publica “Sentimento do Mundo” em tiragem de 150 exemplares, distribuídos entre os amigos.
1941 – Assina sob o pseudônimo “O Observador Literário”, a seção “Conversa Literária” da revista Euclides. Colabora no suplemento literário de A Manhã, dirigido por Múcio Leão e mais tarde por Jorge Lacerda.
1942 – A Livraria José Olympio Editora publica “Poesias”. O Editor José Olympio é o primeiro a se interessar pela obra do poeta.
1943 – Traduz e publica a obra Thérèse Desqueyroux, de François Mauriac, sob o título de “Uma gota de veneno”. 1944 – Publica “Confissões de Minas”, por iniciativa de Álvaro Lins.
1945 – Publica “A Rosa do Povo” pela José Olympio e a novela “O Gerente”. Colabora no suplemento literário do Correio da Manhã e na Folha Carioca. Deixa a chefia de gabinete de Capanema, sem nenhum atrito com este e, a convite de Luís Carlos Prestes, figura como editor do diário comunista, então fundado, Imprensa Popular, junto com Pedro Mota Lima, Álvaro Moreyra, Aydano do Couto Ferraz e Dalcídio Jurandir. Meses depois se afasta do jornal por discordar da orientação do mesmo. É chamado por Rodrigo M.F. de Andrade para trabalhar na Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, onde mais tarde se tornará chefe da Seção de História, na Divisão de Estudos e Tombamento.
1946 – Recebe o Prêmio pelo Conjunto de Obra, da Sociedade Felipe d’Oliveira. Sua filha Maria Julieta publica a novela “A Busca”, pela José Olympio.
1947 – É publicada sua tradução de “Les liaisons dangereuses”, de Choderlos De Laclos, sob o título de “As relações perigosas”.
1948 – Publica “Poesia até agora”. Colabora em Política e Letras, de Odylo Costa, filho. Falece Julieta Augusta Drummond de Andrade, sua mãe. Comparece ao enterro em Itabira que acontece ao mesmo tempo em que é executada no Teatro Municipal do Rio de Janeiro a obra “Poema de Itabira” de Heitor Villa-Lobos, composta sobre seu poema “Viagem na Família”.
1949 – Volta a escrever no jornal Minas Gerais. Sua filha Maria Julieta casa-se com o escritor e advogado argentino Manuel Graña Etcheverry e passa a residir em Buenos Aires, onde desempenhará, ao longo de 34 anos, um importante trabalho de divulgação da cultura brasileira.
1950 – Vai a Buenos Aires para o nascimento de seu primeiro neto, Carlos Manuel.
1951 – Publica “Claro Enigma”, “Contos de Aprendiz” e “A mesa”. É publicado em Madrid o livro “Poemas”.
1952 – Publica “Passeios na Ilha” e “Viola de Bolso”.
1953 – Exonera-se do cargo de redator do Minas Gerais, ao ser estabilizada sua situação de funcionário da DPHAN. Vai a Buenos Aires para o nascimento de seu neto Luis Mauricio, a quem dedica o poema “A Luis Mauricio infante”. É publicado em Buenos Aires o livro “Dos Poemas”, com tradução de Manuel Graña Etcheverry, genro do poeta.
1954 – Publica “Fazendeiro do Ar & Poesia até agora”. Aparece sua tradução para “Les paysans”, de Balzac. Realiza na Rádio Ministério de Educação, em diálogo com Lya Cavalcanti, a série de palestras “Quase memórias”. Inicia no Correio da Manhã a série de crônicas “Imagens”, mantida até 1969.
1955 – Publica “Viola de Bolso novamente encordoada”.
1956 – Publica “50 Poemas escolhidos pelo autor”. Aparece sua tradução para “Albertine disparue”, de Marcel Proust.
1957 – Publica “Fala, amendoeira” e “Ciclo”.
1958 – Publica-se em Buenos Aires uma seleção de seus poemas na coleção “Poetas del siglo veinte”. É encenada e publicada a sua tradução de “Doña Rosita la soltera” de Federico García Lorca, pela qual recebe o Prêmio Padre Ventura, do Círculo Independente de Críticos Teatrais.
1960 – Nasce seu terceiro neto, Pedro Augusto, em Buenos Aires. A Biblioteca Nacional publica a sua tradução de “Oiseaux-Mouches orthorynques du Brèsil” de Descourtilz. Colabora em Mundo Ilustrado.
1961 – Colabora no programa Quadrante da Rádio Ministério da Educação, instituído por Murilo Miranda. Falece seu irmão Altivo.
1962 – Publica “Lição de coisas”, “Antologia Poética” e “A bolsa & a vida”. É demolida a casa da Rua Joaquim Nabuco 81, onde viveu 36 anos. Passa a morar em apartamento. São publicadas suas traduções de “L’Oiseau bleu” de Maurice Maeterlink e de “Les fouberies de Scapin”, de Molière, esta última é encenada no Teatro Tablado do Rio de Janeiro. Recebe novamente o Prêmio Padre Ventura. Aposenta-se como Chefe de Seção da DPHAN, após 35 anos de serviço público, recebendo carta de louvor do Ministro da Educação, Oliveira Brito.
1963 – É lançada sua tradução de “Sult” (Fome) de Knut Hamsun. Recebe os Prêmios Fernando Chinaglia, da União Brasileira de Escritores, e Luísa Cláudio de Sousa, do PEN Clube do Brasil, pelo livro “Lição de coisas”. Colabora no programa Vozes da Cidade, instituído por Murilo Miranda, na Rádio Roquete Pinto, e inicia o programa Cadeira de Balanço, na Rádio Ministério da Educação. Viaja, com D. Dolores, a Buenos Aires durante as férias.
1964 – Publica a primeira edição da “Obra Completa”, pela Aguilar.
1965 – São lançados os livros “Antologia Poética”, em Portugal; “In the middle of the road”, nos Estados Unidos; “Poesie”, na Alemanha. Publica, em colaboração com Manuel Bandeira, “Rio de Janeiro em prosa & verso”. Colabora em Pulso.
1966 – Publica “Cadeira de balanço”, e na Suécia é lançado “Naten och rosen”.
1967 – Publica “Versiprosa”, “Mundo vasto mundo”, com tradução de Manuel Graña Etcheverry, em Buenos Aires e publicação de “Fyzika strachu” em Praga.
1968 – Publica “Boitempo & A falta que ama”. Membro correspondente da Hispanic Society of America, Estados Unidos.
1969 – Deixa o Correio da Manhã e começa a escrever para o Jornal do Brasil. Publica “Reunião (10 livros de poesia)”.
1970 – Publica “Caminhos de João Brandão”.
1971 – Publica “Seleta em prosa e verso”. Edição de “Poemas” em Cuba.
1972 – Viaja a Buenos Aires com D. Dolores para visitar a filha, Maria Julieta. Publica “O poder ultrajovem”. Jornais do Rio, São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre publicam suplementos comemorativos do 70º aniversário do poeta.
1973 – Publica “As impurezas do branco”, “Menino Antigo – Boitempo II”, “La bolsa y la vida”, em Buenos Aires, e “Réunion”, em Paris.
1974 – Recebe o Prêmio de Poesia da Associação Paulista de Críticos Literários. Membro honorário da American Association of Teachers of Spanish and Portuguese, Estados Unidos.
1975 – Publica “Amor, Amores”. Recebe o Prêmio Nacional Walmap de Literatura e recusa, por motivo de consciência, o Prêmio Brasília de Literatura, da Fundação Cultural do Distrito Federal.
1977 – Publica “A visita”, “Discurso de primavera e algumas sombras” e “Os dias lindos”. Grava 42 poemas em dois long plays, lançados pela Polygram. Edição búlgara de “UYBETBO BA CHETA” (Sentimento do Mundo). 1978 – Publica “70 historinhas” e “O marginal Clorindo Gato”. Edições argentinas de “Amar-amargo” e “El poder ultrajoven”.
1979 – Publica “Poesia e Prosa”, 5ª edição, revista e atualizada, pela editora Nova Aguilar. Viaja a Buenos Aires por motivo de doença de sua filha Maria Julieta. Publica “Esquecer para lembrar – Boitempo III”.
1980 – Recebe os Prêmios Estácio de Sá, de jornalismo, e Morgado Mateus (Portugal), de poesia. Edição limitada de “A paixão medida”. Noite de autógrafos na Livraria José Olympio Editora para o lançamento conjunto da edição comercial de “A paixão medida” e “Um buquê de Alcachofras”, de Maria Julieta Drummond de Andrade; o poeta e sua filha autografam juntos na Casa José Olympio. Edição de “En rost at folket”, Suécia. Edição de “The minus sign”, Estados Unidos. Edição de “Gedichten” Poemas, Holanda.
1981 – Publica “Contos Plausíveis” e “O pipoqueiro da esquina”. Edição inglesa de “The minus sign”.
1982 – Ano do 80º aniversário do poeta. São realizadas exposições comemorativas na Biblioteca Nacional e na Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. Os principais jornais do Brasil publicam suplementos comemorando a data. Recebe o título de Doutor honoris causa pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Edição mexicana de “Poemas”. A cidade do Rio de Janeiro festeja a data com cartazes de afeto ao poeta. Publica “A lição do amigo – Cartas de Mário de Andrade a Carlos Drummond de Andrade”, com notas do destinatário. Publicação de “Carmina drummondiana”, poemas de Drummond traduzidos ao latim por Silva Bélkior.
1983 – Declina do troféu Juca Pato. Publica “Nova Reunião (19 livros de poesia)”, último livro do poeta publicado, em vida, pela Casa José Olympio.
1984 – Despede-se da casa do velho amigo José Olympio e assina contrato com a Editora Record, que publica sua obra até hoje. Também se despede do Jornal do Brasil, depois de 64 anos de trabalho jornalístico, com a crônica “Ciao”. Publica, pela Editora Record, “Boca de Luar” e “Corpo”.
1985 – Publica “Amar se aprende amando”, “O observador no escritório” (memórias), “História de dois amores” (livro infantil) e “Amor, sinal estranho”. Edição de “Frän oxen tid”, Suécia.
1986 – Publica “Tempo, vida, poesia”. Edição de “Travelling in the family”, em New York, pela Random House. Escreve 21 poemas para a edição do centenário de Manuel Bandeira, preparada pela editora Alumbramento, com o título “Bandeira, a vida inteira”. Sofre um infarto e é internado durante 12 dias.
1987 – No 31 de janeiro escreve seu último poema, “Elegia a um tucano morto” que passa a integrar “Farewell”, último livro organizado pelo poeta. É homenageado pela escola de samba Estação Primeira de Mangueira, com o samba enredo “No reino das palavras”, que vence o Carnaval 87. No dia 5 de agosto, depois de 2 meses de internação, falece sua filha Maria Julieta, vítima de câncer. “E assim vai-se indo a família Drummond de Andrade” – comenta o poeta. Seu estado de saúde piora. 12 dias depois falece o poeta, de problemas cardíacos e é enterrado no mesmo túmulo que a filha, no Cemitério São João Batista do Rio de Janeiro. O poeta deixa obras inéditas: “O avesso das coisas” (aforismos), “Moça deitada na grama”, “O amor natural” (poemas eróticos), “Viola de bolso III” (Poesia errante), hoje publicados pela Record; “Arte em exposição” (versos sobre obras de arte), “Farewell”, além de crônicas, dedicatórias em verso coletadas pelo autor, correspondência e um texto para um espetáculo musical, ainda sem título. Edições de “Moça deitada na grama”, “O avesso das coisas” e reedição de “De notícias e não notícias faz-se a crônica” pela Editora Record. Edição de “Crônicas – 1930-1934”. Edição de “Un chiaro enigma” e “Sentimento del mondo”, Itália. Publicação de “Mundo Grande y otros poemas”, na série Los grandes poetas, em Buenos Aires.
1988 – Publicação de “Poesia Errante”, livro de poemas inéditos, pela Record.
1989 – Publicação de “Auto-retrato e outras crônicas”, edição organizada por Fernando Py. Publicação de “Drummond: frente e verso”, edição iconográfica, pela Alumbramento, e de “Álbum para Maria Julieta”, edição limitada e fac-similar de caderno com originais manuscritos de vários autores e artistas, compilados pelo poeta para sua filha. A Casa da Moeda homenageia o poeta emitindo uma nota de 50 cruzeiros com seu retrato, versos e uma auto-caricatura.
1990 – O Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) organiza uma exposição comemorativa dos 60 anos da publicação de “Alguma Poesia”. Palestras de Manuel Graña Etcheverry, “El erotismo en la poesia de Drummond” no CCBB e de Affonso Romano de Sant’Anna, “Drummond, um gauche no mundo”. Encenação teatral de “Mundo, vasto mundo”, com Tônia Carrero, o coral Garganta e Paulo Autran, sob a direção deste no Teatro II do CCBB. Encenação de “Crônica Viva”, com adaptação de João Brandão e Pedro Drummond, no CCBB. Edição da antologia “Itabira”, em Madrid, pela editora Visor. Edição limitada de “Arte em exposição”, pela Salamandra. Edição de “Poésie”, pela editora Gallimard, França.
1991 – Publicação de “Obra Poética”, pela editora Europa-América, em Portugal.
1992 – Edição de “O amor natural”, de poemas eróticos, organizada pelo autor, com ilustrações de Milton Dacosta e projeto gráfico de Alexandre Dacosta e Pedro Drummond. Publicação de “Tankar om ordet menneske”, Noruega. Edição de “Die liefde natuurlijk” (O amor natural) na Holanda.
1993 – Publicação de “O amor natural”, em Portugal, pela editora Europa-América. Prêmio Jabuti pelo melhor livro de poesia do ano, “O amor natural”.
1994 – Publicação pela Editora Record de novas edições de “Discurso de primavera” e “Contos plausíveis”. No dia 2 de julho falece D. Dolores Morais Drummond de Andrade, viúva do poeta, aos 94 anos.
1995 – Encenação teatral de “No meio do caminho…”, crônicas e poemas do poeta com roteiro e adaptação de João Brandão e Pedro Drummond. Lançamento de um selo postal em homenagem ao poeta. Drummond na era digital, publicação de uma pequena antologia em cinco idiomas sob o título de “Alguma Poesia”, no World Wide Web , Internet, na data de seu 93º aniversário. Projeto do CD-ROM “CDA-ROM”, que visa a publicar, em ambiente interativo e com os recursos da multimídia, os 40 poemas recitados pelo autor, uma iconografia baseada na coleção de fotografias do poeta, entrevistas em vídeo e um curta-metragem.
1996 – Lançamento do livro Farwell, último organizado pelo poeta, no Centro Cultural do Banco do Brasil do Rio de Janeiro, com a apresentação de Joana Fomm e José Mayer. Esse livro é ganhador do Prêmio Jabuti.
1997 – Primeira edição interativa do livro “O Avesso das Coisas”.
1998 – Inauguração do Museu de Território Caminhos Dummondianos em Itabira. No dia 31 de outubro é inaugurado o Memorial Carlos Drummond de Andrade, projeto do arquiteto Oscar Niemeyer, no Pico do Amor da cidade de Itabira. Prêmio in memorian Medalha do Sesquicentenário da Cidade de Itabira.
1999 – I Forum Itabira Século XXI — Centenário Drummond, realizado na cidade de Itabira. Lançamento do CD “Carlos Drummond de Andrade por Paulo Autran”, pelo selo Luz da Cidade.
2000 – Inaugurada a Biblioteca Carlos Drummond de Andrade do Colégio Arnaldo de Belo Horizonte. Lançamento do CD “Contos de aprendiz por Leonardo Vieira”, pelo selo Luz da Cidade. Estréia no dia 31 de outubro o espetáculo “Jovem Drummond”, estrelado por Vinícius de Oliveira, no teatro da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade e Itabira (Secretaria de Cultura do Município). Lançamento do CD “História de dois amores – contadas por Odete Lara”, pela gravadora Luz da Cidade. Encenação pela Comédie Française da peça de Molière Les Fourberies de Scapin, com tradução do biografado, nos teatros Municipal do Rio de Janeiro e Municipal de São Paulo. Lançamento do projeto “O Fazendeiro do Ar”, com o “balão Drummond”, na Lagoa Rodrigo de Freitas – Rio de Janeiro. II Fórum Itabira Século XXI — Centenário Drummond, realizado em outubro na cidade de Itabira. Homenagem in memoriam Medalha comemorativa dos 70 anos do MEC. Homenagem dos Ex-Alunos da Universidade Federal de Minas Gerais.

BIBLIOGRAFIA
POESIA
– Alguma poesia. 1930.
– Brejo das almas. 1934.
– Sentimento do mundo. 2000.
– Poesias (Alguma poesia, Brejo das almas, Sentimento do mundo, José). 1942.
– A rosa do povo. 1945.
– Poesia até agora. (Alguma poesia, Brejo das almas, Sentimento do mundo, José, A rosa do povo, Novos poemas). 1948.
– A máquina do mundo (incluído em Claro enigma). 1949 (exemplar único).
– Claro enigma. 1951.
– A mesa (incluído em Claro enigma). 1951 (70 exemplares).
– Viola de bolso. 1952.
– Fazendeiro do ar & Poesia até agora. (Alguma poesia, Brejo das almas, Sentimento do mundo, José, A rosa do povo, Novos poemas, Claro enigma, Fazendeiro do ar) 1954.
– Viola de bolso (incluindo Viola de bolso novamente encordoada) 1955.
– Soneto da buquinagem (incluído em Viola de bolso novamente encordoada). 1955 (100 exemplares).
– Ciclo (incluído em A vida passada a limpo e em Poemas). 1957. (96 exemplares).
– Poemas (Alguma poesia, Brejo das Almas, Sentimento do mundo, José, A rosa do povo, Novos poemas, Claro enigma, Fazendeiro do ar, A vida passada a limpo). 1959.
– Lição de coisas. 1964.
– Obra completa. (Estudo crítico de Emanuel de Moraes, fortuna crítica, cronologia e bibliografia). 1964 (publicada pela mesma editora sob o título Poesia completa e prosa (1973), e sob o título de Poesia e prosa (1979).
– Versiprosa. 1967.José & Outros (José, Novos poemas, Fazendeiro do ar, A vida passada a limpo, 4 Poemas, Viola de bolso II). 1967.- Boitempo & A falta que ama. 1968.
– Nudez (incluído em Poemas). 1979 (50 exemplares).
– Reunião (Alguma poesia, Brejo das almas, Sentimento do mundo, José, A rosa do povo, Novos poemas, Clara enigma, Fazendeiro do ar, A vida passada a limpo, Lição de coisas, 4 Poemas). 1969.
– D. Quixote (Glosas a 21 desenhos de Cândido Portinari). 1972.
– As impurezas do branco. 1973.- Menino antigo (Boitempo II). 1973.
– Minas e Drummond. 1973 (500 exemplares).
– Amor, amores. 1975 (423 exemplares).
A visita (incluído em A paixão medida). 1977 (125 exemplares).
– Discurso de primavera e algumas sombras. 1977.
– O marginal Clorindo Gato (incluído em A paixão medida). 1978.
– Esquecer para lembrar (Boitempo III). 1979.- A paixão medida. 1980. (643 exemplares).- Nova Reunião – 19 livros de poesias. 1983
– O elefante. Coleção Abre-te Sésamo, 1983.
– Caso do vestido. 1983 (adaptado para o teatro por Aderbal Júnior).
– Corpo. 1984.
– Mata Atlântica (texto de Alceo Magnani). 1984.
– Amor, sinal estranho. 1985 (100 exemplares).
– Amar se aprende amando. 1985.
– Pantanal (texto de Alceo Magnani). 1985.
– Boitempo I e II (Reunião de poemas publicados anteriormente nos livros Boitempo, Menino antigo e Esquecer para lembrar). 1986.
– O prazer das imagens (legendas inéditas de Carlos Drummond de Andrade). 1987 (500 exemplares).
– Poesia Errante: derrames líricos, e outros nem tanto ou nada. 1988.
– Arte em Exposição. 1990.
– O Amor Natural. 1992.
– A Vida Passada a Limpo. 1994.
– Rio de Janeiro Liechtenstein: Verlag Kunt und Kultur, 1994.
– Farewell. 1996.-
A Senha do Mundo. 1996; (reeditado em 1998, pela Record, com o título de Verso na Prosa, Prosa no Verso).
– A Cor de Cada um. (reeditado em 1998, pela Record, com o título de Verso na Prosa, Prosa no Verso).
– José & Outros. 2003; (reunião dos livros José, Novos Poemas e Fazendeiro do ar).

CRÔNICA
– Fala, amendoeira. 1957.
– A bolsa & a vida. 1962.
– Cadeira de balanço. 1966.- Caminhos de João Brandão. 1970.
– O poder ultrajovem. 1972.
– De notícias & não notícias faz-se a crônica. 1974.
– Os dias lindos. 1977.
– Crônica das favelas cariocas. edição particular, 1981.- Boca de luar.
– Crônicas de 1930/1934 (Crônicas assinadas com os pseudônimos: Antônio Crispim e Barba Azul). 1984. [Reeditado em 1987 pela Secretaria da Cultura de Minas Gerais].
– Moça deitada na grama. 1987.
– Auto-Retrato e Outras Crônicas. Seleção Fernando Py. 1989.
– O Sorvete e Outras Histórias1993.
– Vó Caiu na Piscina. 1996.
– Quando é dia de futebol. 2002.

CONTO
– O gerente (incluído em Contos de aprendiz). 1945.
– Contos de aprendiz1951.
– 70 historinhas. 1978. (Seleção de textos dos livros de crônicas: Fala amendoeira, A bolsa & a vida, Cadeira de balanço, Caminhos de João Brandão, O poder ultrajovem, De notícias & não notícias faz-se a crônica e Os dias lindos).
– Contos plausíveis 1981.
– O pipoqueiro da esquina (Desenhos de Ziraldo1981.
– História de dois amores (Desenhos de Ziraldo). 1985.
– Criança dagora é fogo. 1996.

ENSAIO
– Confissões de Minas. 1944.
– Passeios na ilha. 1952.
– Minas Gerais (Antologia). R1967. Coleção Brasil, Terra & Alma.
– A Lição do amigo (cartas de Mário de Andrade – introdução e notas de CDA1982.
– Em certa casa da rua Barão de Jaguaribe (ata comemorativa dos 20 anos do Sabadoyle). 1984.
– O observador no escritório (Memória). 1985.
– Tempo, vida, poesia (entrevistas à Rádio MEC). 1986.
– Saudação a Plínio Doyle. 1986.
– O avesso das coisas (Aforismos1987.

ANTOLOGIA
– Neste caderno… In: 10 Histórias de bichos (em colaboração com Godofredo Rangel, Graciliano Ramos, João Alphonsus, Guimarães Rosa, J. Simões Lopes Neto, Luís Jardim, Maria Julieta,Marques Rebelo, Orígenes Lessa, Tristão da Cunha). 1947 (220 exemplares).
– 50 poemas escolhidos pelo autor. 1956.
– Antologia poética. 1962.- Quadrante (em colaboração com Cecília Meireles, Dinah Silveira de Queiroz, Fernando Sabino, Manuel Bandeira, Paulo Mendes Campos e Rubem Braga). 1962.
– Quadrante II (em colaboração com Cecília Meireles, Dinah Silveira de Queiroz, Fernando Sabino, Manuel Bandeira, Paulo Mendes Campos e Rubem Braga). 1963.
– Antologia poética (seleção e prefácio de Massaud Moisés). 1965. Coleção Poetas de Hoje.
– Vozes da cidade (em colaboração com Cecília Meireles, Genolino Amado, Henrique Pongetti, Maluh de Ouro Preto, Manuel Bandeira e Raquel de Queirós). 1965.
– Rio de Janeiro em prosa & verso (antologia em colaboração com Manuel Bandeira). 1965. Coleção Rio 4 Séculos.
– Uma pedra no meio do caminho (biografia de um poema). Apresentação de Arnaldo Saraiva. 1967.
– Seleta em prosa e verso (estudo e notas de Gilberto Mendonça Teles). 1971.
– Elenco de cronistas modernos (em colaboração com Clarice Lispector, Fernando Sabino, Manuel Bandeira, Paulo Mendes Campos, Raquel de Queirós e Rubem Braga). 1971.
– Atas poemas. Natal na Biblioteca de Plínio Doyle (em colaboração com Alphonsus de Guimaraens Filho, Enrique de Resende, Gilberto Mendonça Teles, Homero Homem, Mário da Silva Brito, Murilo Araújo, Raul Bopp, Waldemar Lopes). 1974.
– Para gostar de ler (em colaboração com Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Rubem Braga). 1977-80.
– Para Ana Cecília (em colaboração com João Cabral de Melo Neto, Mauro Mota, Odilo Costa Filho, Ledo lvo, Marcus Accioly e Gilberto Freire). 1978.
– O melhor da poesia brasileira (em colaboração com João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira e Vinícius de Moraes). 1979.
– Carlos Drummond de Andrade. Seleção de textos, notas, estudo biográfico, histórico-crítico e exercícios de Rita de Cássia Barbosa. 1980.
– Literatura comentada. 1981.- Antologia poética. 1982.
– Quatro vozes (em colaboração com Rachel de Queiroz, Cecília Meirelles e Manuel Bandeira). 1984.
– 60 anos de poesia. (organização e apresentação de Arnaldo Saraiva). 1985.
– Quarenta historinhas e cinco poemas (leitura e exercícios para estudantes de Português nos EUA). University of Florida, 1985.
– Bandeira – A vida inteira (textos extraídos da obra de Manuel Bandeira e 21 poemas de Carlos Drummond de Andrade – fotos do Arquivo – Museu de Literatura da Fundação Casa Rui Barbosa). 1986.
– Álbum para Maria Julieta. Coletânea de dedicatórias reunidas por Carlos Drummond de Andrade para sua filha, acompanhado de texto extraído da obra do autor. 1989.
– Obra poética. Portugal: Publicações Europa-América, 1989. Rua da Bahia (em colaboração com Pedro Nava). 1990.
– Setecontos, setencantos (em colaboração com Caio Porfírio Carneiro, Herberto Sales, Ideu Brandão, Miguel Jorge, Moacyr Scliar e Sergio Faraco – organizado por Elias José).
– Carlos Drummond de Andrade (org. de Fernando Py e Pedro Lyra). 1994.
– As palavras que ninguém diz. (Seleção Luzia de Maria). 1997, (Mineiramente Drummond).
– Histórias para o Rei. (Seleção Luzia de Maria). 1997 (Mineiramente Drummond).
– A palavra mágica. (Seleção Luzia de Maria). 1997 (Mineiramente Drummond).
– Os amáveis assaltantes. 1998.

EM OUTRAS LÍNGUAS
Alemão; Búlgaro; Chinês; Dinamarquês; Espanhol; Francês; Holandês; Inglês; Italiano; Latim; Norueguês; Sueco; Tcheco

TRADUÇÕES
– Uma gota de veneno (Thérèse Desqueyroux), de François Mauriac. 1943.
– As relações perigosas (Les Liaisons dangereux), de Choderlos de Laclos. 1947.
– Os camponeses (Les Paysans), de Honoré de Balzac. In: A comédia humana. 1954.
– A fugitiva (Albertine disparue), de Marcel Proust. 1956.
– Dona Rosita, a solteira ou a linguagem das flores (Dona Rosita la soltera o el lenguaje de lãs flores), de Federico García Lorca. 1959.
– Beija-Flores do Brasil (Oiseaux-mouches Orthorynques du Brésil), de Th. Descourtilz. 1960.
– O pássaro azul (L’Oiseau bleu), de Maurice Maeterlinck. 1962.
– Artimanhas de Scapino (Les Fourberies de Scapin), de Molière. 1962.
– Fome (Sult), de Knut Hamsun. 1963.

LIVROS EM BRAILE:
– Boca de luar. São Paulo: Fundação para o Livro do Cego no Brasil, 1985.
– Corpo. São Paulo: Fundação para o Livro do Cego no Brasil, 1990.
– Sentimento do mundo. São Paulo: Fundação Dorina Nowill para Cegos, 2000.

Fontes:

NOGUEIRA JR., Arnaldo. Carlos Drummond de Andrade. Disponível em http://www.releituras.com/drummond_menu.asp

SANTOS, Eberth. MOURA, Josana de. Literatura e Filosofia (Palavra em Ação). 2.ed. Uberlândia: Ed. Claranto, 2004.

Foto = http://www.agenciariff.com.br

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Mario de Andrade (Conto: Será o Benedito!)

A primeira vez que me encontrei com Benedito, foi no dia mesmo da minha chegada na Fazenda Larga, que tirava o nome das suas enormes pastagens. O negrinho era quase só pernas, nos seus treze anos de carreiras livres pelo campo, e enquanto eu conversava com os campeiros, ficara ali, de lado, imóvel, me olhando com admiração. Achando graça nele, de repente o encarei fixamente, voltando-me para o lado em que ele se guardava do excesso de minha presença. Isso, Benedito estremeceu, ainda quis me olhar, mas não pôde agüentar a comoção. Mistura de malícia e de entusiasmo no olhar, ainda levou a mão à boca, na esperança talvez de esconder as palavras que lhe escapavam sem querer:

— O hôme da cidade, chi!…

Deu uma risada quase histérica, estalada insopitavelmente dos seus sonhos insatisfeitos, desatou a correr pelo caminho, macaco-aranha, num mexe-mexe aflito de pernas, seis, oito pernas, nem sei quantas, até desaparecer por detrás das mangueiras grossas do pomar.

***
Nos primeiros dias Benedito fugiu de mim. Só lá pelas horas da tarde, quando eu me deixava ficar na varanda da casa-grande, gozando essa tristeza sem motivo das nossas tardes paulistas, o negrinho trepava na cerca do mangueirão que defrontava o terraço, uns trinta passos além, e ficava, só pernas, me olhando sempre, decorando os meus gestos, às vezes sorrindo para mim. Uma feita, em que eu me esforçava por prender a rédea do meu cavalo numa das argolas do mangueirão com o laço tradicional, o negrinho saiu não sei de onde, me olhou nas minhas ignorâncias de praceano, e não se conteve:

— Mas será o Benedito! Não é assim, moço!

Pegou na rédea e deu o laço com uma presteza serelepe. Depois me olhou irônico e superior. Pedi para ele me ensinar o laço, fabriquei um desajeitamento muito grande, e assim principiou uma camaradagem que durou meu mês de férias.

***
Pouco aprendi com o Benedito, embora ele fosse muito sabido das coisas rurais. O que guardei mais dele foi essa curiosa exclamação, “Será o Benedito!”, com que ele arrematava todas as suas surpresas diante do que eu lhe contava da cidade. Porque o negrinho não me deixava aprender com ele, ele é que aprendia comigo todas as coisas da cidade, a cidade que era a única obsessão da sua vida. Tamanho entusiasmo, tamanho ardor ele punha em devorar meus contos, que às vezes eu me surpreendia exagerando um bocado, para não dizer que mentindo. Então eu me envergonhava de mim, voltava às mais perfeitas realidades, e metia a boca na cidade, mostrava o quanto ela era ruim e devorava os homens. “Qual, Benedito, a cidade não presta, não. E depois tem a tuberculose que…”

— O que é isso?…

– É uma doença, Benedito, uma doença horrível, que vai comendo o peito da gente por dentro, a gente não pode mais respirar e morre em três tempos.

— Será o Benedito…

E ele recuava um pouco, talvez imaginando que eu fosse a própria tuberculose que o ia matar. Mas logo se esquecia da tuberculose, só alguns minutos de mutismo e melancolia, e voltava a perguntar coisas sobre os arranha-céus, os “chauffeurs” (queria ser “chauffeur”…), os cantores de rádio (queria ser cantor de rádio…), e o presidente da República (não sei se queria ser presidente da República). Em troca disso, Benedito me mostrava os dentes do seu riso extasiado, uns dentes escandalosos, grandes e perfeitos, onde as violentas nuvens de setembro se refletiam, numa brancura sem par.

Nas vésperas de minha partida, Benedito veio numa corrida e me pôs nas mãos um chumaço de papéis velhos. Eram cartões postais usados, recortes de jornais, tudo fotografias de São Paulo e do Rio, que ele colecionava. Pela sujeira e amassado em que estavam, era fácil perceber que aquelas imagens eram a única Bíblia, a exclusiva cartilha do negrinho. Então ele me pediu que o levasse comigo para a enorme cidade. Lembrei-lhe os pais, não se amolou; lembrei-lhe as brincadeiras livres da roça, não se amolou; lembrei-lhe a tuberculose, ficou muito sério. Ele que reparasse, era forte mas magrinho e a tuberculose se metia principalmente com os meninos magrinhos. Ele precisava ficar no campo, que assim a tuberculose não o mataria. Benedito pensou, pensou. Murmurou muito baixinho:

— Morrer não quero, não sinhô… Eu fico.

E seus olhos enevoados numa profunda melancolia se estenderam pelo plano aberto dos pastos, foram dizer um adeus à cidade invisível, lá longe, com seus “chauffeurs”, seus cantores de rádio, e o presidente da República. Desistiu da cidade e eu parti. Uns quinze dias depois, na obrigatória carta de resposta à minha obrigatória carta de agradecimentos, o dono da fazenda me contava que Benedito tinha morrido de um coice de burro bravo que o pegara pela nuca. Não pude me conter: “Mas será o Benedito!…”. E é o remorso comovido que me faz celebrá-lo aqui.

Fonte:
ANDRADE, Mário de. Será o Benedito!, Editora da PUC-SP, Editora Giordano Ltda. e Agência Estado Ltda.- São Paulo, 1992, pág. 66. Disponível em http://www.releituras.com/mario andrade_menu.asp.

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Carlos Drummond de Andrade (Conto: Depois do Jantar)

Também, que idéia a sua: andar a pé, margeando a Lagoa Rodrigo de Freitas, depois do jantar.

O vulto caminhava em sua direção, chegou bem perto, estacou à sua frente. Decerto ia pedir-lhe um auxílio.— Não tenho trocado. Mas tenho cigarros. Quer um?

— Não fumo, respondeu o outro.

Então ele queria é saber as horas. Levantou o antebraço esquerdo, consultou o relógio:

— 9 e 17… 9 e 20, talvez. Andaram mexendo nele lá em casa.

— Não estou querendo saber quantas horas são. Prefiro o relógio.

— Como?

— Já disse. Vai passando o relógio.

— Mas …

— Quer que eu mesmo tire? Pode machucar.

— Não. Eu tiro sozinho. Quer dizer… Estou meio sem jeito. Essa fivelinha enguiça quando menos se espera. Por favor, me ajude.

O outro ajudou, a pulseira não era mesmo fácil de desatar. Afinal, o relógio mudou de dono.— Agora posso continuar?

— Continuar o quê?

— O passeio. Eu estava passeando, não viu?

— Vi, sim. Espera um pouco.

— Esperar o quê?

— Passa a carteira.

— Mas…

— Quer que eu também ajude a tirar? Você não faz nada sozinho, nessa idade?

— Não é isso. Eu pensava que o relógio fosse bastante. Não é um relógio qualquer, veja bem. Coisa fina. Ainda não acabei de pagar…

— E eu com isso? Então vou deixar o serviço pela metade?

— Bom, eu tiro a carteira. Mas vamos fazer um trato.

— Diga.

— Tou com dois mil cruzeiros. Lhe dou mil e fico com mil.

— Engraçadinho, hem? Desde quando o assaltante reparte com o assaltado o produto do assalto?

— Mas você não se identificou como assaltante. Como é que eu podia saber?

— É que eu não gosto de assustar. Sou contra isso de encostar o metal na testa do cara. Sou civilizado, manja?— Por isso mesmo que é civilizado, você podia rachar comigo o dinheiro. Ele me faz falta, palavra de honra.— Pera aí. Se você acha que é preciso mostrar revólver, eu mostro.

— Não precisa, não precisa.

— Essa de rachar o legume… Pensa um pouco, amizade. Você está querendo me assaltar, e diz isso com a maior cara-de-pau.

— Eu, assaltar?! Se o dinheiro é meu, então estou assaltando a mim mesmo.

— Calma. Não baralha mais as coisas. Sou eu o assaltante, não sou?

— Claro.— Você, o assaltado. Certo?

— Confere.— Então deixa de poesia e passa pra cá os dois mil. Se é que são só dois mil.

— Acha que eu minto? Olha aqui as quatro notas de quinhentos. Veja se tem mais dinheiro na carteira. Se achar uma nota de 10, de cinco cruzeiros, de um, tudo é seu. Quando eu confundi você com um, mendigo (desculpe, não reparei bem) e disse que não tinha trocado, é porque não tinha trocado mesmo.

— Tá bom, não se discute.

— Vamos, procure nos… nos escaninhos.

— Sei lá o que é isso. Também não gosto de mexer nos guardados dos outros. Você me passa a carteira, ela fica sendo minha, aí eu mexo nela à vontade.

— Deixe ao menos tirar os documentos?

— Deixo. Pode até ficar com a carteira. Eu não coleciono. Mas rachar com você, isso de jeito nenhum. É contra as regras.

— Nem uma de quinhentos? Uma só.

— Nada. O mais que eu posso fazer é dar dinheiro pro ônibus. Mas nem isso você precisa. Pela pinta se vê que mora perto.

— Nem eu ia aceitar dinheiro de você.

— Orgulhoso, hem? Fique sabendo que tenho ajudado muita gente neste mundo. Bom, tudo legal. Até outra vez. Mas antes, uma lembrancinha.

Sacou da arma e deu-lhe um tiro no pé.

Fonte: ANDRADE, Carlos Drummond de. Os dias lindos. Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1977, p.54. Disponível em http://www.releituras.com/drummond_menu.asp

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Oswald de Andrade (Poesia: Canto de Regresso à Pátria)

Minha terra tem palmares
Onde gorjeia o mar
Os passarinhos daqui
Não cantam como os de lá

Minha terra tem mais rosas
E quase que mais amores
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra

Ouro terra amor e rosas
Eu quero tudo de lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá

Não permita Deus que eu morra
Sem que volte pra São Paulo
Sem que veja a Rua 15
E o progresso de São Paulo

Fonte: http://www.releituras.com/oandrade_menu.asp

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O Singrando Horizontes

Levo a prosa e a poesia,
através de um boletim,
e também toda a magia
que elas trazem para mim.

Na condição de literato e pesquisador da literatura, no Estado do Paraná, Brasil, apaixonado pela matéria, me propus a elaborar um boletim sobre os muitos literatos de nossa história, escritores, poetas e trovadores, no sentido de deixar acesa a chama da cultura entre aqueles que comungam desta mesma idéia. Este é o objetivo do boletim

Dentro desta realidade
de sentido universal,
eu avoco, na verdade
o intercâmbio cultural.

Nada obsta, contudo, uma parceria cultural com os demais pesquisadores literatos que, de uma forma ou outra, quiserem participar, mesmo à distância, destes estudos culturais.

Escrever é um simples conto,
que não é grande epopéia,
maiúscula mais o ponto,
e no meio só a idéia!

O hábito da escrita é que faz eternizar a nossa história, e nós somos os verdadeiros agentes desta grande missão em prol da cultura entre os povos e nações. Cada geração se eternizará de acordo com a sua cultura, e as futuras gerações se alicerçarão nestes esplendorosos patamares, rumo à evolução. Adotemos pois, a boa leitura, a escrita e a reflexão, como maiores fontes da sabedoria universal.

Respeitosamente,
José Feldman

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