Arquivo do mês: fevereiro 2008

Curso Gratuito de Redação e Gramática da USP

O Projeto Redigir – curso gratuito de redação e gramática da Universidade de São Paulo (USP) – está com inscrições abertas até sábado, 10. São 120 vagas abertas à comunidade. O curso é destinado às pessoas de baixa renda, que estão cursando ou já concluíram o 3º ano do Ensino Médio em escola pública.

Durante dois semestres (de março a julho e de agosto a dezembro), os estudantes terão uma aula por semana, com duração de duas horas e meia. As aulas começam na segunda-feira (12).

As inscrições deverão ser feitas pessoalmente pelo candidato, no Centro Acadêmico Lupe Cotrim, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. Até sexta (9), o atendimento vai das 10 às 20 horas. No sábado, das 9h30 às 13h30.

Os interessados devem levar os seguintes documentos: uma cópia do RG, do comprovante de escolaridade e dos comprovantes de renda de todas as pessoas de sua residência que trabalham. A seleção levará em conta critérios socioeconômicos, e não a ordem de chegada.

Cidadania – O Projeto Redigir existe desde 1999. Surgiu com a proposta de oferecer uma atividade de extensão gratuita e de qualidade às pessoas de baixa renda. Os professores são estudantes e profissionais voluntários formados pela própria ECA.

Além das aulas de redação e gramática, os alunos terão acesso à biblioteca circulante e participarão dos seguintes eventos: ciclo de palestras Como não ser enganado pela mídia (aberto à comunidade), atividades culturais, visitas ao centro de São Paulo e aos assentamentos de sem-terra.

SERVIÇO

Projeto Redigir – curso gratuito de redação e gramática da USP. Inscrições no Centro Acadêmico Lupe Cotrim, da ECA, que fica na Av. Professor Lúcio Martins Rodrigues, 443, Cidade Universitária, capital. Mais informações pelo telefone (11) 3091-4013.

http://www.servidorpublico.net/noticias/2007/03/08/inscricao-para-curso-de-redacao-da-usp-termina-sabado

Fonte:
Colaboração de Douglas Lara
SOROCABA dia e noite
http://www.vejosaojose.com.br/sorocabadiaenoite.htm

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Escrever Bem não é o que se Pensa

Nem só escritores e jornalistas vivem de escrever. Nas repartições públicas, nos escritórios das empresas e nas escolas, há gente redigindo memorandos, cartas, pareceres, relatórios e redações.

A função desses textos é informar, comunicar ordens, obter respostas, orientar decisões, prestar contas. Supõe-se, então, que duas devem ser suas qualidades: clareza e concisão, nomenclatura velha que traduzimos por objetividade e rapidez na comunicação.

Classificando com rigor, há dois tipos de redator: o que finca o lápis no papel (ou os dedos no teclado) e espera que o começo caia do teto, e o que “redige bem”, na base de vocabulário aprendido em antologias ou fazendo pareceres mudando apenas os dados da “chapa”.

Há também os que sabem escrever.

Os do bloco “o difícil é começar” pecam pela falta de organização do pensamento, decorrente do desábito de leitura e da ausência de preparação específica. Os do outro grupo atrapalham o leitor, que necessita apenas de informação, por procurarem um estilo que os aproxime dos que eles consideram os bons autores.

Há diferença (bastante grande) entre língua literária e linguagem informativa.

A PALAVRA É O PONTO

A literatura pretende, por meio da palavra, causar um prazer no leitor. Por isso é que na leitura de um texto literário se valoriza a palavra. Mais numas épocas que em outras. Muito no tempo de Vieira, ou no de Bilac, Coelho Neto e Rui Barbosa. Na poesia, onde a intenção do prazer é mais clara, a seqüência vocabular pode não ter nem sentido lógico, vale pelo impacto visual ou pela impressão sonora.

Limitando com exagero, poderíamos descobrir duas tendências na prosa de hoje: a dos escritores que procuram prolongar o prazer estético pela dificuldade da palavra – James Joyce, Guimarães Rosa, e a daqueles que, seguindo uma linha que vem do Modernismo, buscam diminuir a distância entre a linguagem artística e a linguagem cotidiana, para tornar a arte mais verdadeira porque mais próxima do povo, origem e fim da arte, segundo pensam.

O fato é que, na literatura, a palavra tem vida independente, vale por si.

A PALAVRA DA COMUNICAÇÃO

Quando lemos um jornal, não paramos nas palavras para saber se são bonitas, precisas ou sugestivas; o assunto chega ao nosso conhecimento numa relação imediata.

O texto informativo é compacto, nós o percebemos como um todo, junto com a idéia.

Isto porque a linguagem cotidiana é automática. Da mesma maneira que não pensamos na perna que devemos movimentar cada vez que damos um passo, não escolhemos a palavra na hora de falar. O movimento das pernas já é “conhecido” do cérebro, e se realiza sem que precisemos conscientizá-lo. Da mesma forma, o vocabulário da linguagem corrente é constituído de termos conhecidos. Isto é que nos faz compreender imediatamente o que nos dizem, como se fôssemos direto à idéia e não houvesse a palavra entre a pessoa que fala e a que ouve.

O vocabulário corrente está longe de ser a maior parte do léxico. Há uma limitação, embora não haja estratificação. Exceto de certas expressões que se desgastam com o uso excessivo, viram bagaço; ditas a todo momento, nada mais significam. Por isso é que o redator-chefe de um jornal lembre aos focas que “nem toda chuva é torrencial, nem todos os lábios ficam entreabertos, não é todo mundo que se entrega de corpo e alma a determinada tarefa, nem todo olhar é penetrante, etc”. É o lugar-comum.

EXPRESSIVIDADE

Certas pessoas e alguns escritores têm um modo especial de falar – ou de escrever – que nos atrai e os faz agradáveis. Não é preciso perspicácia maior para perceber que a linguagem deles difere da comum por algum motivo. Eles nos atingem com muito mais intensidade. A qualidade pela qual a linguagem capta de imediato o interesse do leitor é a expressividade. Pode ser a força do detalhe na ironia de Eça, a antítese humorística de Machado de Assis, ou a parentela e a gíria de um Stanislaw Ponte Preta.

SIMPLICIDADE

Originalidade na linguagem não significa pedantismo; pelo contrário. A palavra falada é de certa forma incompleta. A mímica, os objetos à vista, as situações que falam por si, tornam a fala econômica, ficando a frase muitas vezes pelo meio, sem que isto comprometa o entendimento.

Já a palavra escrita procura modelos. Sua tendência é estar sempre atrasada em relação às necessidades expressivas. Principalmente a cravejada de adjetivos, rechonchuda de advérbios, trôpega de possessivos, demonstrativos e artigos.

Os vocábulos de fraque e chapéu coco que se intrometem na comunicação diária – entrementes, alhures, outrossim, consoante, consubstanciar e quejandos – tiram-lhe a atualidade, atrasam a leitura e a compreensão, enchem-na de um ranço incompatível com a dinâmica de hoje.

Os telegramas custam caro, as rotativas imprimem o resultado do trabalho de centenas de pessoas, o tempo no rádio e na televisão é medido em cifras: um adjetivo enfeitando aqui, uma conjunção rara mostrando sapiência ali, são desperdício e tornam a comunicação pastosa, tiram-nos o prazer que poderíamos sentir ao ler um relatório.

O mundo moderno é muito rápido. A velocidade do presente não admite mais o ornamental na comunicação. A não ser que tenhamos preocupações falsamente artísticas, a redação deve ser simples e objetiva.

JORNAL E COMUNICAÇÃO BUROCRÁTICA

Parece-nos que a técnica de redação de jornal é aconselhável para as comunicações de serviço. Não há diferença da boa redação de uma noticia para a de um relatório.

O primeiro parágrafo de uma reportagem é um resumo conciso das principais informações, e procura responder ao maior número das perguntas: quê? quem? quando? onde? por quê? Os demais são ordenados conforme o interesse.

Nada de palavras difíceis ou adjetivos desnecessários. Melhor: todo o dispensável é abandonado. Algumas palavras são verdadeiros tropeços. Cuidado com elas: possessivos, demonstrativos, artigos, e as terminadas em -ão e -mente. O quê, pelo grande número de funções que desempenha, atravanca freqüentemente a frase.

Não é demais lembrar a vigilância sobre a repetição demasiada de palavras.

A frase ideal da comunicação é curta, incisiva, sem rodeios.

“No cemitério enterrei $189.000 – pagamento ao coveiro e conservação.” Parece linguagem de relatório? Pois é. E de homem bastante sério, Graciliano Ramos, na prestação de contas que fez ao governador de Alagoas, quando o escritor era prefeito de Palmeira dos Índios.

Embora não se pretenda ensinar a redigir em dez lições sem mestre, as notinhas abaixo podem ajudar bastante.

ARRUMAÇÃO

– Procure escrever rascunhos claros e limpos. Você ganha tempo,

– Escreva de um só lado da folha com espaçamento razoável (às vezes a gente tem de “enxertar” alguma coisa),

– Numere as folhas se tiver mais de uma,

– No alto de cada página, à direita, escreva uma palavra ou frase que identifique o texto,

– Não comece parágrafo na última linha,

– Ponha ao lado o dicionário, se possível. De preferência um que contenha as instruções que orientam a ortografia oficial.

AGORA ESCREVA

– Antes, reuna o maior número possível de informações sobre o assunto,

– Na verdade, o que temos a dizer sempre caberia numa frase. Para evitar fugir do assunto, pense no tema em cada parágrafo;

– Ocupe o primeiro com as informações mais importantes do texto, respondendo ao maior número das perguntas quê? quem? onde? quando? como? por quê?

– Ordene o restante de acordo com a importância dos pormenores,

– Use parágrafos curtos,

– Conserve a ordem direta. Na medida do possível,

– Reduza ao necessário o emprego de artigos, demonstrativos e possessivos,

– Procure evitar:
a repetição desnecessária de palavras. Principalmente não comece períodos ou parágrafos com a mesma palavra,
palavras chulas, e expressões de gíria não incorporadas à linguagem geral, também termos preciosos
o excesso de advérbios terminados em -mente;
o clichê – fórmulas e expressões generalizadas (a tarde morria silenciosa, não resistindo aos padecimentos, indigitado criminoso, calor senegalesco, etc.).

NOTÍCIA QUASE PERFEITA

Apliquemos as regrinhas a uma notícia quase perfeita.

“A decantada capacidade de reação do Vasco não foi suficiente para deter o novo América na tarde de ontem no Maracanã, que assistiu entusiasmado aos três gols do Diabo: dois de Eduardo e um de Edu. O Vasco ainda fez um, por Paulo Bim, ao apagar das luzes, quando as bandeiras vermelhas do América já tremulavam comemorando a nova vitória do virtual vencedor da Taça Guanabara. Privilegiado pela sua condição de colíder – junto com o Botafogo -, ao América caberá apenas aguardar o resultado do próximo jogo do alvinegro com o Bangu, quarta-feira, para saber se poderá usar as primeiras faixas deste ano. Caso o Botafogo vença, ganhará o direito de disputar uma partida extra com o América, em data ainda a ser marcada. No sábado, o Flamengo tirou o Bangu da taça, ao empatar por 1 x 1, em jogo onde três atletas quebraram a cabeça: Jaime, Itamar e Del Vecchio.” (Última Hora)

a) Informações: no mínimo, treze.
1 – o Vasco tem capacidade de reação já tradicional;
2 – o América se apresenta renovado;
3 – o jogo se realizou no estádio do Maracanã;
4 – a data do jogo;
5 – o América venceu por 3 x 1;
6 – os autores dos gois;
7 – o América é o virtual vencedor da Taça Guanabara;
8 – o Botafogo é colíder;
9 – se o Botafogo perder para o Bangu, o América já é campeão;
10 – a data do encontro Botafogo x Bangu;
11 – as possibilidades diante de uma vitória do Botafogo;
12 – por que o Bangu não é mais aspirante à taça;
13 – um acidente curioso.

b) A noticia poderia se resumir a: O América venceu o Vasco de três a um e é o virtual campeão da Taça Guanabara.

c) As perguntinhas estariam assim respondidas: quê? – um jogo; quem? – o América venceu o Vasco; onde? – no estádio Maracanã; como? -de três a um, em clima de entusiasmo; por que? – porque a renovação do América o fez um grande time.

d) Ordem de importância: vitória do América, sua situação diante do colíder, o afastamento do Bangu, o acidente.

e) A não abertura de parágrafos deve-se ao aproveitamento de espaço de primeira página, onde a noticia saiu.

f) Observe a ordem no primeiro parágrafo.

g) Escorregou apenas nos dois clichês: ao apagar das luzes (mas que faz
parte da gíria do futebol) e bandeiras tremulavam.

O QUE É BOM

A linguagem burocrática deve ser fluída e livre de tentativas “literárias” em lugar impróprio e das excessivas repetições de fórmulas emboloradas.

É claro que uma notícia é uma notícia e uma redação é uma redação. Cada qual tem desenvolvimento diferente. Mas a finalidade é a mesma: informar e orientar com rapidez e correção. O espírito deve ser o mesmo.

O que é bom para a notícia é bom para uma redação.

Fonte:
Santos Jr., Silvio (seleção). E-learning 3 (CD-Rom) São Paulo: Digerati

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Processo de Redação

No processo de redação existe um plano estruturado para ligação lógica do que o emissor codificador quer transmitir ao receptor ou decodificador da mensagem, ou melhor, temos uma sequência de idéias que geram um diálogo entre duas pessoas (escritor e leitor/ vestibulando e examinador) por meio de idéias que são tecidas por meio do tema proposto e delimitado.

Formamos um plano de trabalho lógico ao leitor: a Introdução, que é o início de uma idéia geral e importante (objeto principal do trabalho). Construímos o núcleo-frasal que será desenvolvido; o Desenvolvimento que é a manifestação do tema em todos os seus elementos “actions” (afirmação ou negação). Nele se desenvolvem os elementos extrínsecos ou formais e os intrínsecos (conceitos e argumentos) observando a clareza e a concisão do parágrafo. Conclusão é o sintetizador do desenvolvimento e criador do elo final com a idéia geral mencionada na introdução. Ordene esta redação e veja se é uma dissertação.

Você somente aprende escrevendo e sendo examinador do texto mas nunca deixe de consultar seu professor de redação e gramática. Não se esqueça de visitar as Dicas de Português e Literatura. As minhas Dicas nada valem sem o entendimento da Gramática e dos estilos de redação.

FORTALECENDO IDÉIAS

Usando a idéia de processos de expressividade, o professor e conferencista ALPHEU TERSARIOL dedica ao leitor um excelente roteiro de trabalho em sua obra: Manual Prático de Redação e Gramática, da LI-BRA Empresa Editorial Ltda.

Para trazer curiosidade à leitura, busco seu conceito sobre as formas de redação: “… Dissertar tem por objetivo instruir e instruir-se, através de raciocínio e reflexão…”; “…narração é uma sequência de episódios… é colocar os fatos numa devida ordem, sem repetir os acontecimentos e circunstâncias…”; “…Descrição é a reprodução visual da natureza, dos fenômenos dos fatos, objetos e sensações…”Ela abrange diversos aspectos no mundo exterior e às vezes do íntimo…”

Aconselho aos vestibulandos ler este manual, principalmente, nas observações e conselhos sobre recursos de expressividade que enriquecem sua redação dissertativa como o exemplo que o autor expõe sobre desarmamento infantil.

A ordenação no Desenvolvimento do Parágrafo pode acontecer

a) por indicações de espaço : “… não muito longe do litoral…”.Utilizam-se advérbios e locuções adverbiais de lugar e certas locuções prepositivas, e adjuntos adverbiais de lugar;
b) por tempo e espaço: advérbios e locuções adverbiais de tempo, certas preposições e locuções prepositivas, conjunções e locuções conjuntivas e adjuntos adverbiais de tempo;
c) por enumeração: citação de características que vem normalmente depois de dois pontos;
d) por contrastes: estabelece comparações, apresenta paralelos e evidencia diferenças; Conjunções adversativas, proporcionais e comparativas podem ser utilizadas nesta ordenação;
e) por causa-consequência: conjunções e locuções conjuntivas conclusivas, explicativas, causais e consecutivas;
f) por explicitação: esclarece o assunto com conceitos esclarecedores, elucidativos e justificativos dentro da idéia que construída.

Fonte:
Guimarães, Débora Miura (seleção). E-learning 6 (CD-Rom) São Paulo: Digerati

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Dissertação

DISSERTAÇÃO

Dissertar é discutir assuntos, debater idéias, tecer opiniões, delimitando um tema dentro de uma questão ampla e defendendo um ponto de vista, por meio de argumentos convincentes. É um tipo de texto lógico-expositivo – colocamo-nos criticamente perante alguma dimensão da realidade e, mais do que isso, fundamentamos nossas idéias; explicitamos os motivos pelos quais pensamos o que pensamos.

Já se tornou um aborrecido lugar-comum afirmar que o Brasil possui dimensões continentais. Os ufanistas que tanto repisaram essa fórmula para receitar esperança no futuro do país talvez não tenham previsto que a quantidade e a variedade de problemas desse “gigante” infelizmente também teriam grandezas igualmente continentais.
Folha de São Paulo,14.04.96

Produção de texto dissertativo

Ao produzir um texto é preciso que se pense sobre: Tema, objetivo, argumentos e dados.

a) TEMA: é o assunto da minha redação (Sei alguma coisa sobre ele? Já li ou vi algo a respeito? Já conversei sobre esse assunto?)

b) OBJETIVO: é a meta da minha redação ( onde quero chegar com o meu texto? Quero concordar? Discordar? Denunciar? Questionar? Comparar? Opor? Enumerar? Interessante é observar que a união entre dois ou mais objetivos se encaminha para uma meta maior: denunciar e questionar; concordar e enumerar; discordar e opor…)

c) ARGUMENTOS: é o conjunto de idéias que justificam o objetivo do meu texto ( Com base em que eu me posiciono de um modo ou de outro na redação?)

d) DADOS: é a exemplificação dos meus argumentos ( Os dados ilustram e sustentam mais ainda o objetivo da redação.)

O início da redação

DECLARAÇÃO INICIAL
“O hábito de correr, benéfico para o coração, os pulmões e a manutenção da forma física, também origina sérios problemas, principalmente ortopédicos.”

INTERROGAÇÃO
“De que maneira uma nação pode conciliar seu desenvolvimento com uma pesada dívida externa?”

OMISSÃO DE DADOS
“De uns tempos para cá, tem surgido um elemento novo no cenário nacional.Extremamente movediço, ele sempre aparece onde não se espera. Se o espreitamos, ele se esconde em hibernação cautelosa.”

COMPARAÇÃO
“O uso de drogas é como um vôo solitário e cego. É como visitar um mundo novo em cada viagem e sempre ter como pouco a depressão, porto escuro e frio.”

TIPOS DE CONCLUSÃO

Conclusão proposta: aponta soluções para o problema tratado, ou seja, procura saídas, medias que possam ser tomadas. Em suma, é uma conclusão que aponta para o futuro.

Como se nota pela dimensão do problema, algumas medidas fazem-se urgentes: é necessário investir em projetos de recuperação dos rios, tal como se fez na Inglaterra com o rio Tamisa; por outro lado, devem-se desenvolver projetos que visem ao reaproveitamento dos esgotos. Ao lado, disso, devem-se fazer maciças campanhas educativas para a população. Finalmente, há necessidade de uma ampla fiscalização por parte das autoridades responsáveis.”

Conclusão resumo: a forma mais comum de concluir o texto. Resumem-se os aspectos abordados no desenvolvimento e apresenta-se (ou reforça-se) a tese.

Dessa maneira, observamos que o problema da poluição nos rios envolve uma série de variáveis que incluem a população, as indústrias e o Estado“.

Conclusão surpresa: Possibilita uma maior liberdade de criação por parte quem escreve. Citações, pequenas histórias, um fato curioso, uma piada, um final poético, são conclusões inesperadas que surpreendem o leitor.

Talvez um dia casos como o do garoto C.A.C.M., não ocorram mais. Cabe a todos nós lutar por isso.”

TEMA: Shopping center: o espaço social dos jovens de hoje.

ASSUNTO Shopping center

DELIMITAÇÃO -Objetivo (para quê?) O espaço social dos jovens de hoje

INTRODUÇÃO Citar o assunto e a delimitação

DESENVOLVIMENTO 1 Desenvolver o tema: shopping center
DESENVOLVIMENTO 2 Desenvolver a delimitação: espaço social dos jovens de hoje
CONCLUSÃO Idéia reservada do banco

MODELO

Primeiro passo INTRODUÇÃO

Um dos fenômenos constatados dos anos 90 é o do “shopping center”. Esse local de consumo, com segurança e com ambiente climatizado, exerce um outro papel para o qual não foi diretamente criado: centro de encontros de jovens.

Segundo passo BANCO DE IDÉIAS

ASSUNTO
O “shopping center” virou moda nos grandes centros urbanos;
os atrativos desse centro de compras são segurança, conforto e variedade de lojas no mesmo lugar;
o “shopping” incrementou o hábito de consumo da classe média;
associado às compras, esses locais transformaram-se em verdadeiros centros de lazer.

DELIMITAÇÃO
na falta de outros centros de convivência, o “shopping” tornou-se em espaço de jovem;
antigamente os jovens buscavam nos locais públicos (nas praças) um espaço de convivência;
entre outros motivos, a segurança tornou-se a principal razão da busca desse local pelos jovens;
o “shopping” expressa bem o jovem dos anos 90, colorido,luminoso, ágil, agitado, nervoso e repleto de outros jovens.

Terceiro passo REDIGIR O RASCUNHO

DESENVOLVIMENTO 1

Os “shoppings” viraram moda nos grandes centros urbanos. As razões desse fenômeno mostram-se simples: segurança, conforto e grande variedade de lojas centralizadas. Um paraíso de consumo, esses locais acabam criando novos hábitos – comprar, além de necessidade, é prazer. Associado a isso, os “shoppings” criaram parques de diversão para as crianças e um verdadeiro arsenal de comidas nas praças de alimentação.

DESENVOLVIMENTO 2

Na falta de outros espaços de convivência, esses locais foram adotados pelos jovens dos anos 90. Esse desejo de agregação é comum ao adolescente de qualquer geração, e isso pode ser observado em outros tempos, em que eles se encontravam nas praças das cidades. Mas a violência urbana tomou conta dos grandes centros e mudou muitos hábitos do homem atual. O jovem pode divertir-se, encontrar-se com os amigos e conversar nos “shoppings” sem ter preocupações com assaltos, e os pais ficam bem mais tranqüilos diante disso.

CONCLUSÃO

Assim, se o argumento da violência não basta para explicar o sucesso desses centros de compras junto aos jovens, vale lembrar que esses locais possuem a expressão mesma dos adolescentes: agilidade, nervosismo e inquietação. Os mais saudosos talvez lembrem com nostalgia os tempos de jogo de bola no meio da rua – outros tempos sem dúvida.

Dicas de redação
# Não fique “enrolando”, enrole seu(sua) namorado(a), tenha clareza e concisão. Objetividade é muito importante.

# Fuja do lugar-comum (clichês) como o diabo foge da cruz; evite: inflação galopante, entregar-se nas mãos das drogas, duas faces de uma mesma moeda, dar a volta por cima, abrir com chave de ouro, agradar a gregos e troianos, alto e bom som, apertar os cintos(…)

# O Ricardão está com sua namorada. Não atropele a língua, você pode brigar sem motivo. Olhe a ambigüidade, a namorada é dele ou sua?

# Se você quiser fazer vestibular para um grupo de pagodeiros use: A decisão da eleição não causou comoção na população. Agora, se seu objetivo é outro corra do ECO.

# Caro deputado, nunca gaste dinheiro com bobagens. Alguns políticos, realmente tem “emporcalhado” a situação brasileira, mas não faça o mesmo com seu texto. Cacófatos é prejudicial à escrita.

# Organize bem seu texto: centralize o título, solte uma linha entre ele e o início da redação, respeite as margens (tanto esquerda quanto direita), faça letra cursiva ou de forma (mas diferencie bem maiúsculas de minúsculas). Em caso de erro passe apenas um trasso traço sob a palavra.

# Os verbos DAR, FAZER, SER e TER, têm alta incidência em texto. Para evitar o uso repetitivo troque-os por outras palavras que expressem a mesma idéia: O governo não tem alternativas (possui).

# Não condene todos os bandidos à morte, nem diga que todos os políticos são ladrões, ou seja, não radicalize.

# Não “estique” sua redação usando adjetivos desnecessários : mansão luxuosa (toda mansão é luxuosa)

# Não caia na “doença do queísmo”, evitando repeti-lo. Você pode fazer uso das orações reduzidas.

# Escreva o texto sem se preocupar com os erros; corrija-os apenas ao terminar toda a redação.

# Não esqueça o título. Para não esquecer, escreva na folha de rascunho, bem grande, NÃO ESQUECER O TÍTULO.

APRESENTAÇÃO DA REDAÇÃO

A estética

Sua redação não é a “baranga” da sua vizinha, por isso não precisa de penduricalhos, faça-a o mais simples possível.

Título: Centralize-o. Entre o título e o texto deixe uma ou duas linhas. Use o ponto final caso o título seja uma frase. Evite título com apenas uma palavra (ex. O adolescente, A crise…) Procure utilizar no título a mesma letra do corpo de sua redação.

Pode-se grafar o título das seguintes maneiras:
Festa na Aldeia Global
O mundo Cão da TV Brasileira
ou
Festa na aldeia global
O mundo cão na tv brasileira (não precisa grifar)

Parágrafos: devem adentrar a linha dois centímetros e iniciarem-se sempre à mesma altura. O número de parágrafos varia de acordo com a extensão da redação. Procure fazer o mínimo de três parágrafos; o máximo dependerá do número de linhas pedidas. Não faça parágrafos muito extensos para evitar mistura de idéias. Apenas o primeiro parágrafo pode ser constituído de um período.

Rasuras: redação bem apresentável não deve conter rasuras, para isso você receberá um rascunho. Não rabisque e principalmente não use corretivos. Caso erre no original passe apenas um traço sobre a palavra erada errada. Não assine seu texto, mesmo que ele se pareça com uma obra de arte.

Letra: poderá ser letra cursiva ou de forma, neste último caso, desde que fique bem claro a diferença entre iniciais maiúsculas e minúsculas. A legibilidade do texto é de extrema importância, o corretor não é um Sherlock Homes para tentar decifrar o enigma da caligrafia. Caderno de caligrafia não é só para crianças, treine.

Correção: o texto estará correto se seguir as normas da Gramática. Se você as acha “chatas”, cuidado, pois agora elas poderão jogar sua nota em redação no lixo. Não aprendemos Gramática apenas para satisfazer ao “mala” do professor de português. Aprendemos para aplicá-las em nossas atividades redacionais. Portanto, fique atento:

Concordância: verifique se o sujeito está concordando com o verbo, ou se adjetivos e substantivos concordam entre si. Cuido com os advérbios, pois eles não variam (Maria está meia triste ou meio triste? Use o segundo). Períodos longos quase sempre dificultam a concordância como também a ordem inversa de frases, por isso reduza-os e escreva de forma simples.
Regência: cuidado com os verbos de regência mais complicada, principalmente aqueles que mudam de significado quando TD ou TI [Assisti ao filme (ver – VTI) – Assisti o doente (ajudar – VTD)]. Lembre também que o LHE(s) sempre será OI e O(s), A(s) sempre OD.
Colocação pronominal: Não é tão condenável, mas há casos exagerados do uso brasileiro que precisam ser evitados: iniciar frases com pronome oblíquo –Me disseram que você viria -. Frases em que aparecem antes do verbo palavras negativas, pronomes indefinidos e relativos, advérbios, conjunções, essas atraem o pronome oblíquo para antes do verbo. É condenável o uso de pronome oblíquo depois do verbo particípio – Vocês tinham desgastado-se muito – o correto é tinham se desgastado -.
Grafia: erro ortográfico não é aceitável. Não se faça de Carla Perez: “a palavra se escreve com i de ´iscola´”. Se tiver dúvida em alguma palavra troque por outra de mesmo sentido. fique atento á acentuação gráfica.
Cuidado com a ambigüidade: “Doutor a paciente está aqui com a sua mãe” (mãe de quem? Do médico ou da paciente).
Cuidado com pleonasmos: “check-up geral, mergulhar dentro d´água, entrar para dentro…” Esse uso quase sempre faz sua nota “descer para baixo”.
Cuidado com cacófatos: “nosso hino é lindo; entregue um por cada” (a turma do chiqueiro agradece, mas o corretor!), “Espero que o governo nunca gaste mais que arrecadar” (governo que gasta mais do que arrecada faz o que insinua o cacófato), “Fez por razões que desconheço” (Que grosseria! Para que esse palavrão?)
Evite clichês: “Atualmente, nos dias de hoje” (são quase sempre dispensáveis); “estamos desnorteados, sem rumo”(sua redação! Sem comentários.); “entregar-se nas mãos de Deus” (aproveite e entregue sua redação a Ele);”duas faces de uma mesma moeda”(compro sua redação, mas com uma moeda de um centavo).
Clareza: seu texto deve ser compreensível: lembre-se que você não está ao lado do corretor para explicar o que você queria dizer. Utilize frases curtas. Não seja esnobe empregando palavras “difíceis”, o uso de vocabulário simples, porém culto, evita o risco do seu texto não ser compreendido.
Concisão: é a qualidade de expressar um fato, uma opinião com o menor número possível de frases e palavras. Mas cuidado com o excesso de concisão, pois pode acarretar em obscuridade. No trecho abaixo as palavras destacadas são dispensáveis:

“Há algumas ocasiões em que é melhor ficar calado do que falar besteira. Eu posso contar um caso recente que me aconteceu há pouco. Eu saí de casa rumo ao bar para beber alguma coisa. Percebam vocês que não tinha nada planejado, apenas queria beber um pouco e ficar a observar os habitantes da noite, os boêmios. Foi então que algo totalmente inesperado aconteceu…”

INICIANDO A REDAÇÃO

Dados retrospectivos: As primeiras manifestações de comunicação humana, nas eras mais primitivas, foram traduzidas por sons que expressavam dor, alegria, espanto, Mais tarde…

Citação: A partir das palavras de “…” podemos afirmar que “…”
Cena descritiva: Edifícios altíssimos e cinzentos cobrem a metrópole. Cinzas também são as nuvens que quase diariamente cobrem o céu e despejam uma torrente que logo traz caos à cidade. Uma insuportável sinfonia de buzinas inunda o ar. É mais um dia em São Paulo.
Pergunta: Será o futebol brasileiro realmente o melhor do mundo, se os melhores jogadores do país não disputam os campeonatos locais, pois partem para os clubes europeus assim que possível?
Dado geográfico: Em Criciúma, no Sul de Santa Catarina, oito mil homens vivem uma aventura todos os dias. A aventura do carvão. São os mineiros, homens que quase nunca vêem o sol.
Dados estatísticos: Numa típica cidade brasileira, que tenha, digamos… habitantes, cerca de…. não possuem escolaridade completa até o 2º grau, o que denota o desprestígio do ensino perante a classe dirigente.
Narrativa: Em Abril de 1964 foi deposto o presidente João Goulart e dado início à ditadura
militar, que governou o país durante mais de vinte anos.
Idéias contratantes: Enquanto nos restaurantes caros pessoas elegantes gastam até duzentos reais numa refeição que segue cozinhas renomadas, os marginais da sociedade morrem de fome nas ruas.
Uma frase nominal seguida de explicação: Uma tragédia. Essa é a conclusão da própria Secretaria de Avaliação e Informação Educacional do Ministério da Educação e Cultura sobre o desempenho dos alunos do 3º ano do 2º grau submetidos ao Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica), que ainda avaliou estudantes da 4ª série e da 8ª série do 1º grau em todas as regiões do território nacional.

Quanto ao desenvolvimento do tema: podemos usar citação, dados estatísticos, justificativas, exemplos, comparações, causa e conseqüência….

Quanto à conclusão: retoma-se a introdução e os argumentos e fecha o texto. Sem apresentar dados novos. A conclusão pode conter uma idéia humorística, surpreendente, taxativa, sugestiva.

Fonte:
RESENDE, José Antonio Oliveira de. Curso de Produção de Texto. FUNREI.
Guimarães, Débora Miura (seleção). E-learning 6 (CD-Rom) São Paulo: Digerati

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Aluísio de Azevedo (1857 – 1913)

ALUÍSIO TANCREDO GONÇALVES DE AZEVEDO nasceu em São Luís do Maranhão a 14 de abril de 1857 e faleceu em 21 de janeiro de 1913 em Buenos Aires.

Era filho do vice-cônsul português David Gonçalves de Azevedo e de D. Emília Amália Pinto de Magalhães e irmão mais moço do comediógrafo Artur Azevedo. Sua mãe havia casado, aos 17 anos, com um comerciante português. O temperamento brutal do marido determinou o fim do casamento. Emília refugiou-se em casa de amigos, até conhecer o vice-cônsul de Portugal, o jovem viúvo David. Os dois passaram a viver juntos, sem contraírem segundas núpcias, o que à época foi considerado um escândalo na sociedade maranhense.

Da infância à adolescência, Aluísio estudou em São Luís e trabalhou como caixeiro e guarda-livros. Desde cedo revelou grande interesse pelo desenho e pela pintura, o que certamente o auxiliou na aquisição da técnica que empregará mais tarde ao caracterizar os personagens de seus romances. Em 1876, embarcou para o Rio de Janeiro, onde já se encontrava o irmão mais velho, Artur que já fazia sucesso com suas peças teatrais. Matriculou-se na Imperial Academia de Belas Artes, hoje Escola Nacional de Belas Artes. Para manter-se fazia caricaturas para os jornais da época, como O Figaro, O Mequetrefe, Zig-Zag e A Semana Ilustrada. A partir desses “bonecos” que conservava sobre a mesa de trabalho, escrevia cenas de romances. (Consta que, mais tarde , ao abandonar o desenho pela literatura, Aluísio Azevedo manteve o hábito de , antes de escrever seus romances, desenhar e pintar, sobre papelão, as personagens principais mantendo-as em sua mesa de trabalho, enquanto escrevia).

A morte do pai, em 1878, obrigou-o a voltar a São Luís, para tomar conta da família. Ali começou a carreira de escritor, com a publicação, em 1879, do romance Uma lágrima de mulher, típico dramalhão romântico. Ajuda a lançar e colabora com o jornal anticlerical O Pensador, que defendia a abolição da escravatura, enquanto os padres mostravam-se contrários a ela. Em 1881, Aluísio lança O mulato, romance que causou escândalo entre a sociedade maranhense pela crua linguagem naturalista e pelo assunto tratado: o preconceito racial. O romance teve grande sucesso, foi bem recebido na Corte como exemplo de naturalismo, e Aluísio pôde retornar para o Rio de Janeiro, embarcando em 7 de setembro de 1881, decidido a ganhar a vida como escritor.

Quase todos os jornais da época tinham folhetins, e foi num deles que Aluísio passou a publicar seus romances. A princípio, eram obras menores, escritas apenas para garantir a sobrevivência. Depois, surgiu nova preocupação no universo de Aluísio: a observação e análise dos agrupamentos humanos, a degradação das casas de pensão e sua exploração pelo imigrante, principalmente o português. Dessa preocupação resultariam duas de suas melhores obras: Casa de pensão (1884) e O cortiço (1890). De 1882 a 1895 escreveu sem interrupção romances, contos e crônicas, além de peças de teatro em colaboração com Artur de Azevedo e Emílio Rouède.

Em 1895 ingressou na diplomacia. O primeiro posto foi em Vigo, na Espanha. Depois serviu no Japão, na Argentina, na Inglaterra e na Itália. Passara a viver em companhia de D. Pastora Luquez, de nacionalidade argentina, junto com os dois filhos, Pastor e Zulema, por ele adotados. Em 1910, foi nomeado cônsul de 1ª. classe, sendo removido para Assunção. Buenos Aires foi seu último posto. Ali faleceu, aos 56 anos. Foi enterrado naquela cidade. Seis anos depois, por uma iniciativa de Coelho Neto, a urna funerária de Aluísio Azevedo chegou a São Luís, onde o escritor foi sepultado.

Foi membro fundador da Academia Brasileira de Letras (Cadeira 4). Simpatizante da Escola Realista, pode ser considerado como o iniciador dessa corrente literária, no Brasil. Arguto observador social, soube descrever com elegância e exatidão os costumes do povo. Aos quarenta anos entrou para a carreira diplomática, servindo como cônsul do Brasil na Espanha, Inglaterra, Japão, Argentina e Itália. Seus romances são do tipo naturalista, tendo realizado o romance experimental.

“0 Mulato” explora a questão racial, embora isso não se coadunasse com os postulados do naturalismo. Sua obra mais expressiva é, sem dúvida, “0 Cortiço”. Em “0 Cortiço” sobressaem com mais vigor e as qualidades excelentes de Aluísio Azevedo. É uma obra-prima de observação pormenorizada. 0 escritor revela a influência de Eça nos tipos mais caricaturais que apresenta; focaliza as aglomerações residenciais da ralé dos pobres do Rio, semelhantes às nossas favelas atuais.

Aluísio não criou tipos, pois, não se detinha a analisar as almas de seus personagens, nem enveredou pela psicologia Individual, mas limitou-se a lidar com as massas. Nesta obra, são freqüentes os diálogos e observa-se nela o relacionamento dos episódios. Condensou variados aspectos da sociedade da época: o português ambicioso, o fidalgo burguês, o negro, o mestiço, a luta pela vida num ambiente tipicamente brasileiro. Aluísio Azevedo pode ser chamado realista objetivo em busca da realidade externa. Escreveu, também, obras para o teatro e contos, mas é no romance que se destaca o verdadeiro narrador.

Da infância e adolescência no Maranhão, ficaram algumas influências , permanente na obra de Aluisio Azevedo:

A. A aproximação com o falar português , os arcaísmos e lusitanismos, freqüentes em O Mulato, O Cortiço, Casa de Pensão , etc., decorrem do fato de que o Maranhão era , na época , a mais portuguesa das províncias brasileiras, com fortes resíduos da colonização e permanente intercâmbio com Lisboa; além disso , os pais de Aluísio eram portugueses.
B. A crítica à hipocrisia da vida provinciana parece também decorrente do fato de que a sociedade conservadora de São Luís hostilizou duramente os pais de Alísio, que não eram casados e viviam juntos. Em O Mulato, Aluísio parece vingar-se de São Luís.
C. A técnica do pintor e do caricaturista que Aluísio desenvolveu, posto que sua primeira inclinação foi para as artes plásticas, reflete-se na capacidade de , através da escrita, “visualizar” rapidamente as personagens e cenas, captando, de imediato, seus traços mais exteriores. Se , por um lado, essa propensão para a caricatura faz as personagens de Aluísio bastante esquemáticas, reduzidas a “tipos” , sem profundidade psicológica, por outro, possibilitou ao autor movimentar em seus romances centenas de tipos, habilitando-o para o romance de coletividade de multidão.

Escreveu:
“Uma Lágrima de Mulher” (1880); “Memórias de um Condenado” , (1882); “Filomena Borges”, (1884); “0 Homem”, (1887); “0 Esqueleto”, (em colaboração com Olavo Bilac) “A Mortalha de Alzira”, (1894); “Livro de uma Sogra”, (1895); “A Girândola de Amores” ou “O Mistério de Tijuca” (1900); “Condessa Vesper, (1901), etc.

Para o teatro produziu:
“Os Doidos”, “Casa de Orates”, “Flor de Lis”, “Em Flagrante”, “Caboclo”, “Um Caso de Adultério”, “Venenos que Curam” e “República”.

Obras consideradas de maior valor literário: – “0 Mulato” (1881); “0 Cortiço” (1890) -, e principalmente “Casa de Pensão” (1894). Imensa foi a repercussão que este último livro obteve no seio da sociedade fluminense, devido ao desenlace ocorrido numa dessas casas de habitação coletiva.

Além disso, no romance se movem tipos de perfeito desenho ao natural, característica peculiar ao seu poderoso engenho retratista. Como jornalista redigiu o “Pensador”.

Suas obras têm ocasionado as opiniões mais desencontradas da crítica especializada. Mas, o grande público continua lendo seus livros sempre com grande curiosidade.

Aluísio de Azevedo foi um observador dos costumes de sua época, procurando retratar a burguesia e estudando os seus tipos, como o mau sacerdote, a mulher histérica, o preconceito de cor na figura do mulato. Seu romance não é psicológico; caricatura as pessoas, as coisas e as cenas.

“0 Cortiço”, “0 Mulato” e “Casa de Pensão” são os seus romances mais significativos, bastante o primeiro deles para lhe assegurar o título de principal representante do Naturalismo em nosso país.

Fontes:
http://www.sitedoescritor.com.br/
http://www.academia.org.br/

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Aluísio de Azevedo (O Cortiço)

Resumo

João Romão, português, bronco e ambicioso, ajuntando dinheiro a poder de penosos sacrifícios, compra pequeno estabelecimento comercial no subúrbio da cidade (Rio de Janeiro). Ao lado morava uma preta, escrava fugida, trabalhadeira, que possuía uma quitanda e umas economias. Os dois amaziam-se, passando a escrava a trabalhar como burro de carga para João Romão.

Com o dinheiro de Bertoloza (assim se chamava a ex-escrava), o português compra algumas braças de terra e alarga sua propriedade. Para agradar a Bertoleza, forja uma falsa carta de alforria. Com o decorrer do tempo, João Romão compra mais terras e nelas constrói três casinhas que imediatamente aluga. O negócio dá certo o novos cubículos se vão amontoando na propriedade do português. A procura de habitação é enorme, e João Romão, ganancioso, acaba construindo vasto e movimentado cortiço.

Ao lado vem morar outro português, mas de classe elevada, com certos ares de pessoa importante, o Senhor Miranda, cuja mulher leva vida irregular. Miranda não se dá com João Romão, nem vê com bons olhos o cortiço perto de sua casa. No cortiço moram os mais variados tipos: brancos, pretos, mulatos, lavadeiras, malandros, assassinos, vadios, benzedeiras etc. Entre outros: a Machona, lavadeira gritalhona, “cujos filhos não se pareciam uns com os outros”; Alexandre, mulato pernóstico; Pombinha, moça franzina que se desencaminha por influência das más companhias; Rita Baiana, mulata faceira que andava amigada na ocasião com Firmo, malandro valentão; Jerônimo e sua mulher, e outros mais. João Romão tem agora uma pedreira que lhe dá muito dinheiro.

No cortiço há festas com certa freqüência, destacando-se nelas Rita Baiana como dançarina provocante e sensual, o que faz Jerônimo perder a cabeça. Enciumado, Firmo acaba brigando com Jerônimo e, hábil na capoeira, abre a barriga dó rival com a navalha e foge. Naquela mesma rua, outro cortiço se forma. Os moradores do cortiço de João Romão chamam-no de “Cabeça-de-gato”; como revide, recebem o apelido de “Carapicus”. Firmo passara a morar no “Cabeça-de-Gato”, onde se torna chefe dos malandros. Jerônimo, que havia sido internado em um hospital após a briga com Firmo, arma uma emboscada traiçoeira para o malandro e o mata a pauladas, fugindo em seguida com Rita Baiana, abandonando a mulher.

Querendo vingar a morte de Firmo, os moradores do “Cabeça-de-gato” travam séria briga com os “Carapicus”. Um incêndio, porém, em vários barracos do cortiço de João Romão põe fim à briga coletiva. O português, agora endinheirado, reconstrói o cortiço, dando-lhe nova feição e pretende realizar um objetivo que há tempos vinha alimentando: casar-se com uma mulher “de fina educação”, legitimamente. Lança os olhos em Zulmira, filha do Miranda. Botelho, um velho parasita que reside com a família do Miranda e de grande influência junto deste, aplaina o caminho para João Romão, mediante o pagamento de vinte contos de réis. E em breve os dois patrícios, por interesse, se tornam amigos e o casamento é coisa certa. Só há uma dificuldade: Bertoleza. João Romão arranja um piano para livrar- se dela: manda um aviso aos antigos proprietários da escrava, denunciando-lhe o paradeiro. Pouco tempo depois, surge a polícia na casa de João Romão para levar Bertoleza aos seus antigos senhores. A escrava compreende o destino que lhe estava reservado, suicida-se, cortando o ventre com a mesma faca com que estava limpando o peixe para a refeição de João Romão.

Observações Importantes e Textos

O ROMANCE SOCIAL
Desistindo de montar um enredo em função de pessoas, Aluísio atinou com a fórmula que se ajustava ao seu talento: ateve-se à seqüência de descrições muito precisas, onde cenas coletivas e tipos psicologicamente primários fazem, no conjunto, do cortiço a personagem mais convincente do nosso romance naturalista.” (Alfredo Bosi).

Todas as existências se entrelaçam e repercutem umas nas outras. O Cortiço é o núcleo gerador de tudo e foi feito à imagem de seu proprietário, cresce, se desenvolve e se transforma com João Romão.

A CRÍTICA DO CAPITALISMO SELVAGEM

O tema é a ambição e a exploração do homem pelo próprio homem. De um lado João Romão que aspira à riqueza e Miranda, já rico, que aspira à nobreza. Do outro, a gentalha”, caracterizada como um conjunto de animais, movidos pelo instinto e pela fome.

“E naquela terra encharcada o fumegante, naquela umidade quente e lodosa, começou a minhocar, a fervilhar, a crescer um mundo, uma coisa viva, uma geração que parecia brotar espontânea, ali mesmo, daquele lameiro e multiplicar-se como larvas no esterco. “

“As corridas até a vende reproduziam-se num verminar de formigueiro assanhado.”

“Daí a pouco, em volta das bicas era um zunzum crescente; uma aglomeração tumultuosa de machos e fêmeas. “

A redução das criaturas ao nível animal (zoomorfização) é característica do Naturalismo e revela a influência das teorias da Biologia do Século XIX (darwinismo, lamarquismo) e do determinismo (raça, meio, momento).

“.. depois de correr meia légua, puxando uma carga superior às suas forças, caiu morto na rua, ao lado de carroça, estrompado como uma besta.

‘Leandra… a ‘Machona’, portuguesa feroz, berradora, pulsos cabeludos e grossos, anca de animal do campo

“Rita Baiana… uma cadela no cio”.

A FORÇA DO SEXO

O sexo é, em O Cortiço, força mais degradante que a ambição e a cobiça. A supervalorização do sexo, típica do determinismo biológico, e do naturalismo, conduz Aluísio a buscar quase todas as formas de patologia sexual, desde o “acanalhamento” das relações matrimoniais, adultério, prostituição, lesbianismo, etc. Observe esta, descrição de Rita Baiana, e do fascínio que exercia sobre o português Jerônimo:

“Naquela mulata estava o grande mistério, a síntese das impressões que ele recebeu chegando aqui. ela era a luz ardente do meio-dia; ela era o calor vermelho das sestas de fazenda; era o aroma quente dos trevos e das baunilhas, que o atordoara nas matas brasileiras, era a palmeira virginal e esquiva que se não torce a nenhuma outra planta; era o veneno e era o açúcar gostoso, era o sapoti mais doce que o mel e era a castanha do caju, que abre feridas com o seu azeite de fogo; e/a era a cobra verde e traiçoeira, a lagarta viscosa, e muriçoca doida, que esvoaçava havia muito tempo em torno do corpo dele, assanhando-lhe os desejos, acordando-lhe as fibras, embambecidas pela saudade de terra, picando-lhe as artérias, para lhe cuspir dentro da sangue uma centelha daquele amor setentrional, uma nota daquela música feita de gemidos de prazer, uma larva daquela nuvem de cantáridas que zumbam em tomo da Rita Baiana o espalhavam-se pelo ar numa fosforescência afrodisíaca.”

OS TIPOS HUMANOS

João Romão

E seu tipo baixote, socado, de cabelos à escovinha, a barba sempre por fazer, ia o vinha de pedreira para a venda, de vende As hortas é ao capinzal, sempre em mangas de camisa, tamancos, sem meras, olhando para todos os lados, com o seu eterno ar de cobiça, apoderando-se, com os olhos, de tudo aquilo de que ele não podia apoderar-se logo com as unhas”.

“.. possuindo-se de tal delírio de enriquecer, que afrontava resignado as mais duras privações. Dormia sobre o balcão da própria venda, em cima de uma esteira, fazendo travesseiro de um saco de estepe cheio de palha”.

Albino

“Fechava a fila das primeiras lavadeiras, o Albino, um sujeito afeminado, fraco, cor de aspargo cozido e com um cabelinho castanho, deslavado e pobre, que lhe caía, numa só linha, até o pescocinho mole e tino. “

Botelho

“Era um pobre-diabo caminhando para os setenta anos, antipático, cabelo branco, curto e duro como escova, barba e bigode do mesmo teor, muito macilento, com uns óculos redondos que lhe aumentavam o tamanho de pupila e davam-lhe à cara uma expressão de abutre, perfeitamente de acordo com o seu nariz adunco e com a sua boca sem lábios: viam-lhe ainda todos os dentes, mas, tão gastos, que pareciam limados até ao meio … foi lhe escapando tudo por entre as suas garras de ave de rapina “.

Você tem nestes trechos excelentes exemplos de descrição realista e objetiva.

A SITUAÇÃO DA MULHER

As mulheres são reduzidas a três condições: primeira, de objeto, usadas e aviltadas pelo homem: Bertoloza e Piedade; segunda, de objeto e sujeito, simultaneamente: Rita Baiana; terceira, de sujeito, são as que se independem do homem, prostituindo-se: Leonie e Pombinha.

O DESFECHO DO ROMANCE

Delatada por João Romão, os antigos donos de Bertoleza diligenciam para capturar a escrava fugida. Procurada pelos policiais, a negra se suicida.

Observe o exagero da cena, e a ironia do desfecho.

A negra, imóvel, cercada de escamas e tripas de peixe, com uma das mãos espalmada no chão e com a outra segurando a faca de cozinha, olhou aterrada para eles, sem pestanejar.
Os policiais, vendo que ela se não despachava, desembainharam os sabres. Bertoleza então, erguendo-se com ímpeto de anta bravia, recuou de um salto, e entes que alguém conseguisse alcançá-la, já de um só golpe certeiro e fundo rasgara o ventre de lado a lodo.
E depois emborcou para a frente, rungindo e esfocinhando moribunda numa lameira de sangue.
João Romão fugira até o canto mais escuro do armazém, tapando o rosto com os mãos.
Nesse momento parava à porta da rua uma carruagem. Era uma comissão de abolicionistas que vinha, de casaca, trazer-lhe respeitosamente o diploma de sócio benemérito.”

Fonte:
Guimarães, Débora Miura (seleção). E-learning 6 (CD-Rom) São Paulo: Digerati

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Machado de Assis (O Enfermeiro)

O Enfermeiro é um conto redigido em primeira pessoa, muito humano, porém com um toque de ironia típica machadiana e se da inicialmente como trecho de um diálogo com alguém que não se manifesta no livro, mas que deseja que o narrador redija um episódio de sua vida a ser publicado. O narrador deixa bem claro que nada deve ser divulgado antes de sua morte.

Ele se despede e pede para que o leitor o queira bem, embora seus atos passados não tenham sido gloriosos, longe disso. Abrindo um despertar de curiosidade no leitor, que agora anseia por saber o que se passou com a vida do sujeito, que pede para que o perdoem “o que lhe parecer mal” e que “não maltrate muito a arruda, se lhe não cheira a rosas”.

Procópio, o narrador, então começa a contar o episódio de 1860. Aos seus 42 anos formou-se em teologia e a pedido de um vigário, sem titubear, foi servir de enfermeiro ao Coronel Felisberto mediante um bom ordenado. Porém ao chegar na vila descobriu que esse coronel não era uma pessoa nada fácil de lidar, muito pelo contrário, teve péssimas referências a respeito dele, o que deixa o leitor mais curioso ainda pelo o que está por vir.

Porém o velho não lhe recebeu mal, embora seu jeito grosseiro ficasse muito evidente, “acontece que vivemos uma lua de mel de sete dias”. Após essa semana Procópio começou a sofrer como cão nas mãos do velho coronel doente, não dormia, não comia, apenas escutava suas lamúrias e impertinências da moléstia. Procópio decidiu que iria embora e diria ao velho na próxima oportunidade. Assim, três bengaladas na cabeça e ele se demitiu, porém o coronel foi ter com ele e lhe pediu que não o deixasse, “estou na dependura, Procópio”, e acabou ficando.

Foi passando o tempo e apenas as bengaladas melhoraram, pois o resto ia de mal a pior, os insultos, as injúrias. Tentou sair novamente, mas acabou ficando a pedido do vigário. Mesmo assim não havia acabado a vontade de ir embora e também, havia guardado um bom dinheiro e queria gastá-lo.

“Já por esse tempo, havia eu perdido a escassa dose de piedade que me fazia esquecer os excessos do doente; trazia dentro de mim um fermento de ódio e aversão”.

Decidiu então, que em um mês sairia de lá, não importando o estado em que o coronel se encontrasse.

Na noite de vinte e quatro de agosto, o coronel teve um acesso de raiva, ameaçou-o de tiro e atirou-lhe um prato de mingau. Após esse episódio o velho foi se deitar e Procópio ao ler um livro, adormeceu ao lado.

“Acordei aos gritos do coronel (…) e acabou por lançar mão da moringa e arremessá-la contra mim. Não tive tempo de desviar-me e a moringa bateu-me na face esquerda, e tal foi à dor que não vi mais nada; atirei-me ao doente, pus-lhe as mãos ao pescoço, lutamos e esganei-o”.

Procópio ficou atordoado e começou a ouvir vozes. “Senti-me com o crime nas costas e vi a punição certa”. Abotoou a camisa do coronel e foi dar a notícia de que o homem tinha morrido.

Fonte:
http://pt.shvoong.com

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Ligia Simoneli (A influência da imigração italiana na Literatura Brasileira)

O objetivo principal desta comunicação é levantar a questão de como a imigração italiana é tratada na Literatura Brasileira e sua respectiva influência, baseando o estudo da temática nas obras: Brás, Bexiga e Barra Funda, de António de Alcântara Machado. O Quatrilho, de José Clemente Pozenato e Anarquistas, Graças a Deus de Zélia Gattai.

Primeiramente, é imprescindível um esclarecimento do contexto histórico durante a imigração no Brasil e suas causas, com maior enfoque à imigração italiana nas regiões de maior influência, onde as obras citadas foram ambientadas. Partindo das causas da imigração e posteriormente para a imigração italiana no estado de São Paulo e Rio Grande do Sul.

Durante o século XIX o Brasil tem um período de grande expansão cafeeira no Sudeste, pelo grande consumo dos E.U.A. e Europa e com a crise dos produtores asiáticos os preços mantêm-se em alta. Em 1850, D. Pedro II proíbe o tráfico africano, e, em 1888 a princesa Isabel cede as pressões inglesas e assina a abolição. A solução encontrada é a atração de imigrantes estrangeiros, com o apoio oficial. (Almanaque Abril: 1998, 34).

Além da preocupação de obter mão-de-obra existia o interesse de povoar o sul do Brasil, evitando o risco de alguma invasão, atrair população branca oprimindo os negros e mestiços que eram obrigados a concorrer com os trabalhadores imigrantes em regime de parceria, recebendo por produção ou como assalariados. (Almanaque Abril: 1998, 92).

No século XX, países como Alemanha e Itália, em pleno desenvolvimento do capitalismo, geravam um excedente populacional sem terra e sem trabalho, provocando uma tensão social. A emergência da indústria e desarticulação do trabalho industrial contribuíram para a expulsão da população, juntamente com o processo de unificação de alguns países, conflitos civis aumentavam o número de camponeses arruinados. Através de propagandas de incentivo à imigração milhares de imigrantes foram atraídos para o Brasil, enfrentando viagens marítimas em porões de navios cargueiros, encontraram uma realidade muito diferente no país de destino. Os imigrantes italianos chegaram ao Brasil com pequenas quotas em 1836, 1847, 1852 e 1853, crescendo expressivamente a partir de 1877, tornando-se o segundo principal contingente estrangeiro, depois dos portugueses (Diégues Júnior: 1972, 107). Alguns rumam para lavouras de café em São Paulo, com o intuito de tornarem-se independentes ou, na maioria das vezes, irem para a cidade para trabalhar em indústrias. No Rio Grande do Sul, os imigrantes italianos chegaram a partir de 1875, em situação de desvantagem perante a imigração alemã, que chegaram 50 anos antes (Pesavento: 1985, 50).

Nas primeiras décadas do século XX, com a consolidação da República de inspiração positivista o Brasil revezava paulistas e mineiros no poder com a política café-com-leite. Neste início de século, ao lado dos imigrantes espanhóis, os italianos tem grande influência nos grupos anarco-sindicalistas nas áreas industriais de São Paulo e Rio Grande do Sul, participando na massa operária, a frente de greves sangrentas reinvidicando seus direitos e mais tarde obtendo a Legislação Trabalhista, esta influência é enfraquecida com a presença de grupos menos reinvidicadores e a repressão política, que culmina com a proibição da entrada dos imigrantes em 1932 (Bastilde: 1973, 201-2) e (Pesavento: 1985, 80-2).

A etnologia brasileira sempre centrada no estudo do índio, no início deste século também dirige suas atenções ao elemento branco, principalmente os grupos entrados com a imigração e a existência ou não de assimilação por determinado grupo em outro (Diégues Júnior: 1972, 14-24), passando para o campo literário, durante o período Romântico o índio é a grande fonte de inspiração como forma de acentuar o nacionalismo, já no Realismo as atenções são voltadas para os problemas político-sociais e grupos marginalizados, como o negro, mas é apenas no pré-modernismo que o tema da imigração é tratado com Graça Aranha em Canaã, retratando as primeiras experiências da imigração alemã no estado do Espírito Santo, através de dois personagens centrais, Milkau o imigrante que acredita na “Canaã” e Lentz voltado para a superioridade de sua raça sem adaptar-se a realidade brasileira. Segundo Alfredo Bosi:

“(…) E o contraste entre o racismo e o universalismo, entre a “lei da força” e a “lei do amor” que polariza ideologicamente, em Canaã, as atitudes do imigrante europeu diante da sua nova morada.” (in Nicola: 1998, 265).

Brás, Bexiga e Barra Funda.

Em 1927, o cronista e contista António de Alcântara Machado, com a publicação desta obra composta por onze contos, trata do tema da imigração italiana e a primeira geração de ítalo-brasileiros em ascensão na capital paulista. Aristocrata e de família tradicional paulista, mesmo não participando da Semana de Arte Moderna de 1922, este escritor da primeira geração moderna sob seu estilo impressionista, irônico, utilizando uma linguagem “macarrônica” mistura do português com o italiano, baseado nas crônicas de Juó Bananére retratando a comédia diária e os dramas dos imigrantes italianos dos três bairros – título, transmite a “xenofobia” das famílias tradicionais paulistas perante os imigrantes italianos na década de 20 modificando a paisagem e trazendo seus costumes, buscando a ascensão social, mesmo com a procura de neutralidade expressa no Artigo de fundo:

“(…) Este livro não nasceu livro: nasceu jornal. Estes contos não nasceram contos: nasceram notícias. E este prefácio portanto também não nasceu prefácio: nasceu artigo de fundo” (Alcântara Machado: 1997, 27).

A ascensão social do imigrante é retratada nos contos: A sociedade, Armazém progresso. A busca de assimilação da cultura brasileira pelo imigrante, em: Nacionalidade e Tiro de guerra nº. 35. A família numerosa e miserável, em Lisetta. É a primeira vez em nossa literatura, que a imigração italiana é tratada, mesmo sobre o ponto de vista de um aristocrata brasileiro da época, de uma forma caricatural, como fizera em suas crônicas Juó Bananére (Alexandre Ribeiro Marcondes Machado) da luta, dos costumes destes imigrantes, transmitindo a reação das famílias tradicionais brasileiras perante a imigração italiana.

Anarquistas, Graças a Deus

Em 1979, a escritora ítalo-brasileira publica esta obra em que faz uma rememoração de episódios de sua infância e adolescência, agora o tema da imigração italiana é tratado sob a visão de uma filha de imigrantes italianos na capital paulista iniciando a narrativa em 1910. Baseada em fatos verídicos, a saga da família de seus pais nos transmite a imigração italiana e a realidade vivida pelos imigrantes, desde a saída do país de origem até sua estabilidade na capital, nos episódios: Seu Ernesto conta uma história, A Colônia Cecília, Dr. Giovanni C. Gárdias, Começo da viagem, Serviço de imigração e saúde, Bandeira Vermelha e Preta e Fim da Colônia Cecília retratam a propaganda de atração de imigrantes feita na Itália, as péssimas condições de viagem, a realidade brasileira sob a visão e realidade do imigrante estrangeiro. Já em suas narrações Zélia Gattai retrata a primeira geração de ítalo-brasileiros surgindo à procura de ascensão social e busca de assimilação da cultura brasileira como são evidentes nos episódios que envolvem discussões entre Wanda e Ernesto sobre o quadro anarquista, Angelina e suas filhas que criticam os costumes e a linguagem da mãe. As lutas anarquistas e socialistas e as repressões políticas que os imigrantes sofriam são retratadas nos episódios: Vizinhança Nova e estado novo, imigração italiana, as classes laboriosas, conde Fróla. A confusão de identidade nacional é presente nas falas de Angelina, uma mistura de porturês com dialeto da região italiana de onde sua família provinha.

A escritora faz um paralelo entre a saga de imigrantes italianos, sua chegada no Brasil no século XIX e a primeira geração de ítalo-brasileiros em São Paulo no início da industrialização, sob uma visão realista de uma filha de imigrantes mostrando a imigração e a realidade encontrada pelos imigrantes.

O Quatrilho

Em 1985, o escritor ítalo-brasileiro José Clemente Pozenato publica este romance com a trama principal o desvario amoroso de dois casais jovens de imigrantes italianos, mostrando a vida rude, difícil e o poder da religião sobre os imigrantes no ambiente rural.

A história se passa em Caxias do Sul – RS no período de 1908 à 1930. Na colônia de Santa Corona, Angelo Gardoine casa com Teresa, prima de Pierina, casada com Massimo Boschini. Em serões na casa de parentes Teresa e Massimo se apaixonam. Com o nascimento de Rosa (filha de Angelo e Teresa) Angelo volta a colônia e propõe sociedade à Massimo na compra de uma propriedade em San Giuseppe, mesmo com o preço exorbitante fazem negócio com Batiston. Os dois casais passam a morar na única casa, enquanto Massimo constrói o moinho, Angelo é responsável pela lavoura. Massimo e Teresa tornam-se amantes e três meses depois fogem com Rosa. Pierina permanece com seus dois filhos e Angelo na casa, dispostos a continuar os negócios, com o tempo o casal passa a viverm em concubinato. Pierina grávida é o alvo dos preconceitos moralistas de Padre Gentile, com o desentendimento com Angelo, Gentile manipula os habitantes da colônia para ignorar o casal e seus negócios, levando Angelo a continuar trabalhando em outras cidades. Pierina enfrenta Padre Gentile durante uma missa. Passados vinte anos o mesmo padre aparece na casa do casal, agora com nove filhos e situação abastada, “redimindo-se” de seus preconceitos. Teresa envia uma carta à padre Giobbe e sua mãe com sua fotografia com Massimo e seus três filhos, em São Paulo.

Importante observar nesta obra, a reafirmação das raízes da colonização italiana no Rio Grande do Sul feita pelo escritor, procurando retratar a realidade sofrida pelo imigrante italiano no Brasil e no ambiente rural, sob a visão do imigrante. Nas reflexões de Angelo, relata a fuga do imigrante de seu país de origem e situação de miséria, e chegada em um país ainda “jovem”. Nesta obra, a linguagem também é recheada de expressões em dialeto vêneto e não em italiano oficial como faz António de Alcântara Machado na fala de seus personagens, considerando que entre a maioria dos imigrantes italianos predominavam o dialeto regional usado inclusive pelos analfabetos no país de origem. A dificuldade de aprender a nova língua encontrada pelo imigrante e o medo de assim ser trapaceados por negociantes brasileiros é mostrado no episódio que Angelo encontra dois fazendeiros brasileiros afirmando sua dificuldade de entendê-los em português (cap. 2 – Segunda Contagem) . A caracterização das personagens é muito interessante abrangendo temas sobre a religião, o casamento, a submissão da mulher, a repressão ideológica. Os padres Giobbe e Gentile demonstram a hipocrisia e o moralismo clerical. Giobbe é o imigrante que para fugir da miséria ingressou no seminário e questiona em suas reflexões o moralismo ensinado pela igreja e a realidade dos colonos. Gentile é o religioso hipócrita e manipulador. Angelo é o imigrante em busca de ascensão no meio rural. Pierina mulher rude, submissa alvo de preconceitos por viver em concubinato. Teresa é a mulher que não encontra amor no casamento mas na traição. Scariot o anarquista marginalizado que contesta a exploração e submissão dos colonos, a manipulação da Igreja.

Pozenato e Zélia Gattai representam a geração de ítalo-brasileiros em busca de suas raízes retratando com realismo o lado do imigrante italiano na imigração, sua saga, sofrimento fuga da miséria, sua contribuição dada ao novo país sem reduzir a história de um povo e sua imigração à sátira de seus costumes trazendo uma visão esteriotipada, ou como o enfoque norte-americano que traz obras transportadas ao cinema que pouco se trata da contribuição dos imigrantes italianos reduzindo a Comunidade italiana naquele país a máfia, caracterizando como um povo desprovido de valores éticos e morais, oprimido e marginalizando um povo e sua imigração.

Portanto, a influência da imigração italiana na Literatura Brasileira é caracterizada basicamente em dois momentos. O primeiro, marcado pela reação das famílias tradicionais brasileiras perante o imigrante italiano em seu processo de adaptação, sua dualidade de nacionalidade transformando a paisagem e a etnia brasileira nas primeiras décadas o século XX, retratada pela obra Brás, Bexiga e Barra Funda do contista António de Alcântara Machado sob uma visão caricatural de um aristocrata da época. O segundo é caracterizado pela nova geração de ítalo-brasileiros e seus descendentes em busca de suas raízes, identidade cultural mostrando a imigração sob a visão e vivência dos imigrantes italianos, sua história, sua saga, suas contribuições ao desenvolvimento do país em que se estabeleceu retratada pelos escritores ítalo-brasileiros José Clemente Pozenato em O Quatrilho e Zélia Gattai em Anarquistas, Graças a Deus, sem esquecer das repressões políticas e a marginalização feita pela aristocracia brasileira aos imigrantes, não muito diferente daquela sofrida pelos negros e índios no Brasil.

Fonte:
Extraído de
Ligia Simoneli
A influência da imigração italiana na Literatura Brasileira

Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Campo Mourão – FECILCAM
XIII Seminário do CELLIP (Centro de Estudos Linguísticos e Literários do Paraná) 21-23 out 1999 – Campo Mourão. Maringá: Depto.de Letras da UEM, 2000 (Org. Thomas Bonnici)
(CD-Rom)

P.S. Com o intuito de preservar os direitos autorais da autora, as referências bibliográficas foram propositalmente retiradas, o que não afeta em hipótese alguma a veracidade e importância do documento.

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Gercina Isaura da Costa Bezerra (Considerações sobre o Material de Leitura)

A leitura enquanto exercício da cidadania exige um leitor crítico que, além de construir a significação global do texto, seja capaz de transpor os limites do texto incorporando-o reflexivamente aos seus conhecimentos para melhor compreender a realidade que o cerca. Uma sociedade realmente democrática, preocupada com a superação das diferenças sociais, certamente estaria comprometida com a formação desse leitor. Mas essa responsabilidade tem cabido à escola, como se ela sozinha fosse capaz de executar essa tarefa. O mais grave é que dentro do espaço escolar, o desenvolvimento das habilidades de leitura e escrita parece caber apenas ao professor de língua materna. Não é raro a cobrança da proficiência dos alunos nessas habilidades por parte dos professores das demais disciplinas. São também inúmeros os estudos e as análises dos textos veiculados nas aulas de língua portuguesa. Exagerando, temos a impressão de que as atividades de leitura e escrita só acontecem nas aulas de língua materna. Certamente isso não é verdade. Temos conhecimento de análise de textos didáticos das demais disciplinas, mas ao que parece, a grosso modo, essas análises estão voltadas para a adequação das definições e conceitos, bem como para as ideologias e preconceitos presentes nos textos.

Nossa prática tem nos mostrado, que o desconhecimento dos processos de leitura pelos professores de outras disciplinas, os leva a selecionar textos que dificultam a compreensão dos alunos, levando-os a decorar conceitos sem entendê-los.

Assim, esse trabalho objetiva demonstrar que a escolha inadequada do material de leitura pode comprometer sua compreensão. Devido ao reduzido espaço, selecionamos apenas o capítulo 6 do livro “Os seres vivos” para exemplificar algumas dessas inadequações. A razão de tal escolha deveu-se ao fato de ser um texto tradicionalmente adotado na sexta série e a dificuldade que os alunos apresentaram para compreendê-lo.

O título do capítulo é “A biodiversidade da terra”, a expectativa despertada seria para um texto que tratasse da variedade de formas de vida do planeta, bem como de seus habitats, comunidades e ecossistemas formados pelos organismos. Além disso, seria possível incluir considerações sobre seu potencial econômico e sua importância social, cultural, ecológica etc. Mas o capítulo trata mesmo é da classificação dos seres vivos, que na diagramação do texto aparece como um subitem. Assim, se o leitor iniciante (Nesse texto denominamos leitor iniciante aquele indivíduo que ainda está desenvolvendo suas estratégias de leitura. Ao leitor que ainda não é proficiente) tiver um idéia do que seja biodiversidade terá sua expectativa de leitura fustrada, por outro lado, se desconhecer a palavra acabará por associá-la a classificação dos seres, podemos afirmar que o título se constitui numa pista falsa para a compreensão do texto.

Textos mais longos têm além do tópico principal, outros subtópicos de unidades menores como o parágrafo. O tópico e os subtópicos constituem uma estrutura em que uns se subordinam aos outros, todo esse sistema deve ser facilmente percebido pelo leitor, pois a percepção da relação e da hierarquia que se estabelece entre eles é um componente essencial da compreensão textual. No texto analisado falta uma explicitação geral e objetiva dessa hierarquia, a presença excessiva de figuras, títulos e itens entrecortando o texto, prejudica o seu fluxo e dificulta a percepção do mesmo como um texto único, uma vez que sua articulação encontra-se fragmentada. Um exemplo disso é o trecho em que os autores explicam o que é gênero e como vários gêneros constituem uma família temos a intercalação de um subtópico com sete parágrafos, e que se constitui numa informação secundária (“O nome científico dos seres vivos é escrito em latim”) que poderia estar diluída no corpo do texto sem desviar a atenção do leitor do seu assunto principal. Por isso não fica claro para o leitor que a classificação é feita a partir de sucessivos agrupamentos até formar um conjunto maior, segundo o critério de características semelhantes. Esses são apenas alguns exemplos das inadequações que encontramos no texto.

Há professores que, desconhecendo os processos de desenvolvimento da leitura e seus mecanismos, esperam do aluno do segundo ciclo uma eficiência leitora que ainda está em processo. Ler é mais que decifrar, a decodificação é apenas um primeiro estágio da leitura eficiente. Não se pode alcançar a um comportamento praticando um hábito contrário a ele. Decifrar obriga a ter um comportamento diante da escrita que é o oposto daquele indispensável para um bom leitor. A escrita é uma linguagem para os olhos e não para os ouvidos; ler não é traduzir o escrito em oral para chegar a compreensão. A capacidade de compreender supõe a possibilidade de antecipar, no caso da leitura, a decifração impede a antecipação, ou a dificulta, no melhor dos casos.

A leitura consiste numa busca de índices mínimos e não na investigação total dos signos escritos. Um bom leitor compreende um texto em um tempo mínimo, sem se preocupar com cada uma das palavras do texto. Isso porque o sentido de uma frase não é a soma dos sentidos das palavras que a compõe, mas é determinado pelo texto e pelo contexto, nos quais estão inseridas. Da mesma forma que, a percepção isolada dos elementos que compõe uma paisagem impedem a visão global da mesma, a decifração não leva a compreensão do texto porque não se concentra na percepção do todo.

Essa percepção não se restringe ao registro passivo de estímulos exteriores, mas resulta de uma reorganização da estrutura do conhecimento, diante de um novo estímulo. Assim, a percepção é uma aprendizagem que depende das experiências anteriores daquele que aprende, isso é importante a medida em que dirige nossa atenção para o papel das vivências do aprendiz e de suas experiências de vida.

Dessa forma, podemos dizer que a leitura resulta da interação entre as informações visuais que estão no texto, e as informações não visuais que se constituem das experiências anteriores armazenadas na memória do leitor.

Nesse sentido, o papel de todo professor, seja de que nível for, não se resume a transmitir conhecimento, seu papel é o de instrumentalizar o aluno de forma a dar-lhe condições de ampliar o seu entendimento da realidade que o cerca, tornando-o capaz de atuar nessa realidade. Sendo o texto principal fonte de veiculação do conhecimento, e instrumento de trabalho daqueles que ensinam, faz-se necessário que estejamos comprometidos com a formação desse leitor crítico, propiciando ao aluno condições para tal.

Ao selecionar ou ao produzir um texto para trabalhar com os alunos, o professor ou o autor do manual deve considerar que a compreensão de um texto não depende apenas da competência lingüística do aluno, mas também das condições que o texto oferece, a observação de alguns aspectos, na seleção do texto, podem contribuir para que o aluno desenvolva suas estratégias de leitura.

O texto é o elemento simples da comunicação escrita, pois é a sua organização de conjunto que, por si mesma, contém o significado; e a comunicação escrita diz respeito ao relacionamento intertextual. Assim, o leitor iniciante deve confrontar-se com textos completos, que funcionem como tal e que se remetam uns aos outros, pois sendo unidade mínima da escrita, é também a entrada mais fácil para o sentido ancorado no contexto no qual esse texto funciona.

Desde o início, deve-se apresentar textos significativos utilizados em situações concretas de comunicação, centrados nos interesses e necessidades daquele que aprende, enfim autênticos.

Muitas vezes, acreditando estar “facilitando” a aprendizagem, a maioria os manuais costumam utilizar uma linguagem artificial, tentando dar ao texto escrito características da linguagem oral. No texto analisado por exemplo, na página 46 encontramos:

“Aquilo que você fez com os animais representados no quadro, os cientistas fizeram com todos os seres vivos da natureza, mas usando outros critérios.”

Acontece que o aluno não fez absolutamente nada no referido quadro, porque já estava feito. Isso era necessário para se garantir o uso de critérios que atenderiam às intenções dos autores. Não há possibilidade de no texto escrito se estabelecer uma interação imediata, salvo no contexto da internet. O problema está no fato dos autores tentarem dar ao texto escrito características da linguagem oral, o que causa confusões com relação aos referenciais principalmente. Os parágrafos também são substituídos por itens, descaracterizando a estrutura do texto, havendo inclusive supressão de elementos coesivos que garantiriam uma legibilidade maior do texto. O uso da ilustração como bengala, pode até ser que em alguns casos auxilie na compreensão, mas no caso do texto analisado podemos afirmar que as imagens foram mal utilizadas. Essas inadequações, codificam um discurso artificial, perdido entre a linguagem oral e a linguagem escrita, não favorecendo ao aluno a utilização do seu conhecimento prévio, nem o auxilia no conhecimento sobre como ler.

Para facilitar a aprendizagem não é necessário descaracterizar o texto, pode-se alcançar essa “facilitação” por meio de uma seleção gradual e criteriosa, observando além da autenticidade e da relevância, a estrutura formal do texto.

É assim que, FULGÊNCIO et LIBERATO (1992: 37), apontam a identificação do tópico de um texto como indispensável para a compreensão do mesmo. O que as autoras definem como tópico discursivo é o assunto principal do texto, por isso afirmam que, a dificuldade de identificar o tópico de um texto compromete a sua legibilidade. Isso acontece porque é essa identificação que estabelece o quadro de referência, a partir do qual o leitor passa a criar expectativas que guiam a sua interpretação, auxiliando-o inclusive a desfazer possíveis ambigüidades. As autoras acreditam que o aparecimento do tópico na primeira sentença, ou ainda, a referência reiterada a um mesmo elemento, podem facilitar a identificação de tópicos. De acordo com as autoras,

“os lingüistas têm chamado atenção para a estrita correlação – (…) – entre ser tópico e ocupar uma posição inicial. Essa correlação parece natural: é de se esperar que a ordem das palavras enunciadas reflita a ordem em que seus correspondentes psicológicos (seus referentes) se organizam no processo cognitivo.” (FULGÊNCIO et LIBERATO, 1992: 29).

Elas também demonstram por meio de exemplos, que a má sinalização ou a representação inadequada do tópico compromete a legibilidade dos textos. Assim, aquele que escreve ou seleciona material de leitura para o leitor-aprendiz, deve preocupar-se em oferecer textos nos quais a identificação do tópico não se constitua numa dificuldade.

Para as autoras, um outro aspecto importante da organização textual é a paragrafação. Baseando-se nas teorias de REHFELD, consideram que a divisão do texto em parágrafos funciona para o leitor como uma pista sinalizadora da estruturação do texto; pois “o leitor desenvolve uma estratégia de processamento que o leva a prever, nos pontos onde há mudança de parágrafo,(…), uma quebra na uniformidade de um bloco de texto, e o início conseqüentemente de uma nova unidade.”(Id. ibid., p.56).

A compreensão do texto é facilitada à medida em que a divisão dos parágrafos corresponda às expectativas do leitor e vá de encontro às suas estratégias de leitura. Dessa forma, a organização dos parágrafos deve funcionar como um elemento que revela a estruturação semântica, formal e discursiva do texto, evidenciando as unidades em torno das quais se organiza.

A teoria da paragrafação pode parecer, a princípio, que não atinja diretamente o leitor iniciante, mas apresenta implicações importantes com relação a aprendizagem da estratégia da paragrafação. Pois, se uma paragrafação adequada facilita a leitura no caso de leitores eficientes, por outro lado, ela possibilita ao leitor inexperiente a dedução das bases da organização dos parágrafos, levando-o a internalizar essa estratégia. Assim, uma forma de levar o aluno a adquiri-la, é colocá-lo em contato com textos que apresentem uma divisão de parágrafos que reflita a estruturação semântica, formal e discursiva do texto, de modo que evidencie as unidades em torno das quais é constituído.

Além desses aspectos, FULGÊNCIO et LIBERATO, apoiadas nos estudos de CHAFE, chamam atenção para a necessidade de se oferecer ao leitor iniciante, textos que possuam um equilíbrio entre informações dadas e novas. As autoras consideram informação dada, àquela que o emissor presume que esteja presente na mente do receptor no momento da comunicação; e informação nova, àquela que o emissor presume que está introduzindo na mente do receptor no momento da comunicação. O equilíbrio entre esses dois elementos é que possibilita a progressão do texto, garantindo sua compreensibilidade. Um texto só com informações dadas torna-se redundante e circular, por outro lado, um texto só com informações novas também torna-se incompreensivo, pois o processo de compreensão depende de um conhecimento anterior para que as informações novas sejam processadas. É a progressão resultante do equilíbrio desses dois tipos de informação, que garante a coerência do texto, por isso o professor deve considerar esse aspecto ao selecionar ou ao produzir textos para seus alunos.

CONCLUSÃO:

A análise exaustiva do texto não foi nosso objetivo aqui, muito menos pretendemos esgotar todos os aspectos que podem auxiliar o leitor no desenvolvimento da compreensão. Foi nosso desejo despertar a atenção daqueles que ensinam para a importância de avaliar técnica e criticamente o material com o qual se está trabalhando, isso porque muitas vezes é esse fator que está dificultando a aprendizagem de nossos alunos. Para melhor auxiliar nossos alunos a desenvolver suas estratégias de leitura, é necessário que àquele que o orienta tenha conhecimento e reflita sobre as condições necessárias para promover este processo. Uma consideração importante e que pode fazer diferença é a sensibilidade do professor com relação ao conhecimento prévio e interesses dos alunos, a maneira utilizada para envolvê-los no planejamento e seleção do material de leitura, considerando o grau de motivação desses.

Relacionamos aqui, alguns itens que consideramos importantes para facilitar a legibilidade do texto:

– Os professores devem propiciar condições para que o aluno desenvolva estratégias de leitura que viabilizem a compreensão textual;

– Deve-se elaborar materiais de leitura que facilitem a aquisição de estratégias por parte dos alunos, enfatizando as pistas fornecidas pelo texto de forma relevante;

– Os educadores devem levar em consideração o conhecimento prévio dos alunos, a partir do qual se estabelece a formulação de hipóteses.

São inúmeras as sugestões que caberiam aqui no intuito de tornar nosso aluno um leitor mais proficiente. O importante é ter em mente que ler exige que haja interação entre autor/texto/leitor; no caso de haver deficiência em algum destes elementos, a compreensão textual não se efetuará.

Enfim, foi nossa principal intenção neste artigo chamar a atenção para o fato de que quando o material de leitura oferece pistas inadequadas ou ineficientes seu entendimento estará comprometido.

Fonte:
Gercina Isaura da Costa Bezerra (Mestrado UNESP)
Considerações sobre o Material de Leitura

XIII Seminário do CELLIP (Centro de Estudos Linguísticos e Literários do Paranpa) 21-23 out 1999 – Campo Mourão . Maringá: Depto. de Letras da UEM, 2000 – Org. Thomas Bonnici (CD-Rom)

P.S. Com o intuito de preservar os direitos autorais da autora, as referências bibliográficas foram propositalmente retiradas, o que não afeta em hipótese alguma a veracidade e importância do documento.

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Margarida da Silveira Corsi (Do Romance ao Palco, do Palco ao Romance: uma reflexão a ser feita)

Este trabalho faz parte de nossa pesquisa de mestrado que trata da reversibilidade ocorrida nas obras de Alexandre Dumas Fils (La dame aux Camélias, do romance para peça) e de José de Alencar (da peça As asas de um anjo para o romance Lucíola), e é uma tentativa de conceituação da reversibilidade, prática bastante comum no século XIX.

Este problema, sempre nos veio à mente como uma difícil missão, pois, quando nos deparamos com a confecção de suas possíveis respostas, descobrimos a importância de alguns pré-requisitos para essa conceituação. Para afirmarmos exatamente o que é reversibilidade, precisamos saber, em primeiro lugar, quando ocorreu, que razões levaram os autores a praticá-la e qual é o seu contexto histórico-literário. Tendo em vista estes questionamentos, começaremos, então, por buscar tais dados na historiografia literária e por visualizar um período em que os autores europeus e brasileiros, buscando ganhar espaço no meio literário, dividiam-se entre mais de um gênero; prática que, acreditamos, ter dado origem à reversibilidade.

Durante o século XIX, essa prática dos autores dividirem suas atividades criadoras entre gêneros literários diferentes, trabalhando em princípio com aquele que lhes assegurasse um sucesso ou reconhecimento imediato, para em seguida dedicar-se àquele ao qual direcionavam seu talento e preferência, tornou-se comum durante o período de ascensão do teatro e da prosa ficcional, na França. Assim, muitos autores que se destacaram na historiografia literária com o cultivo de um gênero literário específico, começaram suas carreiras com outro ou dividindo seu tempo entre dois gêneros literários diferentes.

No Brasil, essa divisão de talento entre dois gêneros é tão comum quanto na França, no entanto, a primeira opção dos autores brasileiros é pela produção dramatúrgica o que se dá em função da rápida ascensão que o teatro podia lhes proporcionar e de um espírito renovador que intuía a recriação da dramaturgia nacional.

Esse interesse dos autores brasileiros pelo teatro intensificou-se ainda mais após de 1855 com a inauguração do Teatro Ginásio Dramático que, inspirado no Théâtre Gymnase Dramatique de Paris, inovara o teatro brasileiro, dando um grande salto para o aprimoramento da nossa dramaturgia, introduzindo na corte o teatro realista francês que passaria a ser o estilo escolhido pelos grandes escritores do teatro nacional. É o que confirma João Roberto Faria ao dizer que “ A 12 de abril de 1855, no pequeno teatro de 256 lugares, rebatizado com o nome de Teatro Ginásio Dramático – inspirado certamente no Gymnase Dramatique de Paris -, a nova empresa inaugurou seus trabalhos, sem saber que dava o primeiro passo de uma importante renovação teatral, que logo se cristalizaria.” E acrescenta que “O Ginásio não só introduziu a nova escola francesa (realista) entre nós como despertou o interesse de uma jovem geração de intelectuais para o gênero dramático” Como podemos perceber através das palavras de João Roberto Faria, a abertura do Teatro Ginásio Dramático é um dos passos mais significativos para impulsionar uma vasta produção teatral no país e, por conseqüência para estimular nossos autores a produzirem para o teatro, sobretudo aqueles que se iniciavam na arte literária.

Nesse momento, muitos de nossos autores buscaram na dramaturgia uma maneira mais fácil e rápida para ascender-se no meio literário, por isso, muitos deles que preferiam a prosa de ficção ou a poesia trabalharam conjuntamente dois gêneros (dramaturgia e prosa ficcional). Dentre os autores brasileiros que buscavam sobressair como escritores, produzindo textos para o teatro, estão Joaquim Manuel de Macedo, José de Alencar e Machado de Assis, que foram atraídos pela possibilidade de destacar-se enquanto autor de uma comédia ou de uma tragédia encenada no teatro dramático do Rio de Janeiro. Essa atração dos escritores pelo texto teatral fez da arte dramática um dos gêneros prediletos do Romantismo brasileiro. Nesse período, era natural que “todo escritor, fosse qual fosse a sua vocação, tentasse adquirir no teatro o seu certificado de proficiência ficcional. Escrever romances era facultativo. Escrever peças praticamente obrigatório”.

Diferentemente dos autores brasileiros, os franceses tiveram desde o início a opção de escrever tanto para a dramaturgia quanto para a prosa de ficção, pois os dois gêneros estavam no auge de popularidade no contexto francês do início do século XIX, enquanto no Brasil o romance dava seus primeiros passos e o teatro buscava reerguer-se. Isso porque “a palavra romantismo, na França, aplica-se a toda uma época, mais exatamente, a todas as obras escritas dentro dela e que se inspiraram no espírito do século novo, traduzindo suas exigências” O Romantismo francês foi uma época de gênios e de obras-primas, nas artes da poesia, do romance e do teatro; portanto, uma época de vastas produções em todos os gêneros literários. Foi também um período de afirmação do valor literário, de mudanças progressivas na cultura, na sociedade e, por conseqüência, na dramaturgia e na prosa de ficção.

Assim, tanto a dramaturgia quanto a prosa ficcional eram sinônimo de trampolim para a conquista de um espaço na sociedade intelectual da França do século XIX. No entanto, houve épocas de predileção por um ou outro gênero. Durante o início do Romantismo, ou melhor num período que podemos chamar de pré-romantismo, era muito interessante para os literatos investirem na tragédia, a qual era muito incentivada pelo imperador. Depois do surgimento do drama romântico, o próprio público incentivou o cultivo de peças centradas na liberdade de expressão e na valorização dos conceitos burgueses. Entre 1840 e 1850, o folhetim perdurou como o gênero almejado por todo escritor. Entretanto, apesar da existência de momentos mais interessantes para um ou outro gênero, a dramaturgia e a prosa ficcional sempre foram gêneros bem estruturados na França e, por isso, eram sinônimo de grande expressão literária perante os autores renomados e aqueles que desejavam alcançar o sucesso por meio da literatura.

Data-se de 1827 (prefácio de Cromwell) e de 1830 (Hernani) a brutal irrupção do teatro romântico”. É, principalmente, nesse momento que a dramaturgia ganha novos rumos, pois o novo público, associado ao desejo de inovação dos gêneros literários, faz surgir uma nova forma de produção teatral, não mais centrada nos moldes clássicos, mas em busca de modernidade. Assim, “Os novos senhores do país freqüentavam o teatro: lacaios enriquecidos, fornecedores do exército, beneficiários da agiotagem ou da especulação sobre os bens nacionais, burgueses promovidos a altos cargos” os quais não apreciavam o teatro clássico, ao modelo de Corneille ou Racine, e davam mais atenção aos melodramas que pareciam mais convenientes para um público iletrado que desejava divertir-se.

Os dramas de Victor Hugo, Vigny e Alexandre Dumas Père, as tragédias de Delavigne e as comédias de Escribe marcaram um momento de evolução do teatro francês e predominaram durante um bom tempo nos teatros parisienses. As fases diferentes porque passou o teatro francês do início do século XIX testemunham a ascensão de muitos autores e de muitos estilos dramáticos. Foram a tragédia, o drama, as peças da école du bon sens, as comédias de costumes, o teatro de variedades, os vaudevilles e por fim o teatro realista, todos surgidos em decorrência de um desejo de inovação e de afirmação do talento de seus autores.

Paralelamente ao desenvolvimento da arte dramática, no início do século XIX, a prosa de ficção também sofreu transformações importantes para o seu aprimoramento enquanto forma literária. Popularizou-se através dos folhetins, a partir de 1840(É importante esclarecer que, segundo Marlyse Meyer, o folhetim surgiu em 1836, mas popularizou-se a partir de 1840), e ganhou novas formas com o romance social, o romance histórico, o romance negro. Depois de sua inserção nos periódicos, passa a ser uma das formas mais populares da representação literária francesa, levando aos periódicos escritores já renomados no teatro e também aqueles que buscavam alcançar a fama através das tiras fatiadas.

Mas, apesar da dupla possibilidade de produção que os autores franceses tiveram, os motivos que os levaram, no início de suas carreiras, à produção dramatúrgica não diferem daqueles dos autores brasileiros, pois ambos desejavam uma ascensão mais rápida e, como o teatro era uma maneira de o autor apresentar-se diretamente ao público, eles procuravam mostrar seus talentos nos palcos dos grandes teatros parisienses para depois partirem para a produção romanesca e, em, muitos casos, como o de Balzac e de Dumas Père, dirigirem-se depois de renomados para a publicação em folhetins que, além da glória, eram vantajosos financeiramente.

Assim, essa busca de afirmação e reconhecimento no meio literário fez grandes autores do contexto francês dividirem seu tempo de criação entre os dois gêneros literários mais reconhecidos e apreciados pelo público da época: dramaturgia e prosa de ficção. Victor Hugo (1802-1885), apesar de durante algum tempo de sua carreira ter se dedicado à poesia e de ter sido um grande poeta, dividiu grande parte de seu tempo de criação entre a dramaturgia e a prosa de ficcional.

E, de acordo com Jean Gaumier “o teatro projetava sua glória recente e o romance contribuía para desenvolvê-la entre o grande público” Alexandre Dumas Père (1802-1870) também iniciou sua carreira escrevendo mais de um tipo de texto, eram versos, comédias e dramas, e, depois de já ser reconhecido pelo pelo público, perferiu a prosa de ficção e passou a publicar em folhetins. É o que afirma Jean-François Josselin: “On connaît les mensurations impressionnantes de l’oeuvre de Dumas – plus gigantesque que celle de ses contemporains Balzac et Hugo: trois cents volumes au moins repartis entre le théâtre, le roman (surtout), les contes, les nouvelles, les traités, e bien sûr les memoires.” Honoré de Balzac (1799-1850), apesar de ser conhecido quase que exclusivamente como romancista, também começou sua carreira dividindo seu poder criador entre a dramaturgia e a prosa de ficção. Escreveu no início o drama Cromwell e o romance Sténie, mas, apesar de ter buscado o sucesso imediato no teatro, mostrou-se, desde o princípio mais propenso à prosa de ficção do que à dramaturgia, por isso sua passagem pelo teatro foi rápida e pouco fecunda em relação à sua produção romanesca. Alexandre Dumas Fils (1824-1895), seguindo os passos do pai, dividiu-se desde o princípio de sua carreira entre a dramaturgia e a prosa de ficção.

Em 1846, publicou Aventures des quatre femmes et d’un Perroquet e levou ao palco a peça Le bijou de la reine. Nos primeiros anos teve intensa produção de romance, sem nunca ter abandonado a dramaturgia. Mas foi somente a partir da encenação de La Dame aux Camélias que passou a dedicar-se mais às produções teatrais em detrimento da prosa de ficção. Sua obra compõe-se de 30 peças e 15 romances. A dedicação simultânea a esses dois gêneros fez com Dumas adaptasse seu texto escrito em princípio em prosa de ficção para o teatro. Composto e publicado em 1848, o romance La Dame aux Camélias obteve, desde o início, um grande sucesso com o público leitor e, depois de adaptado ao teatro, em 1852, foi aclamado pelo público parisiense, por sua inovação e pelo cunho realista que apresentavam suas cenas. Como vemos, essa experiência de Dumas foi positiva para o público e para a crítica que já haviam apreciado o romance e que terminaram por consagrar a peça como chef-d’oeuvre de um novo estilo dramatúrgico: o teatro realista francês.

Dentre os “romancistas-teatrólogos” ou “teatrólogos-romancistas” brasileiros, Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882) é quem mais obteve sucesso com a dramaturgia. Escreveu durante seu tempo de dedicação ao teatro 15 peças de teor e estilos variados, são comédias farsescas, dramas românticos, uma burleta, um drama sacro, uma comédia realista e um drama realista. A dedicação paralela entre o drama e o romance não impediu que o autor de Luxo e Vaidade e de A Moreninha fosse apreciado, durante o Romantismo, tanto por ser um autor iniciador da prosa de ficção no Brasil quanto por seu bom desempenho na dramaturgia. Machado de Assis (1839-1908), depois de dar os primeiros passos de sua carreira, escrevendo resenhas críticas e algumas poesias, também dedicou-se algum tempo ao teatro. Neste período, escreveu 12 peças, dentre as quais está Forcas Caudinas, que fora mais tarde transformada no conto Linha Reta, Linha Curva.

Da leitura de seus textos teatrais Quintino Bocaiúva dissera: “São para serem lidos e não representados”. A prova disso é que, ao efetuar a reversibilidade de sua peça para conto, o autor precisou apenas modificar a estrutura do texto, passando do discurso direto para o indireto e dando voz a um narrador já perspicaz que conhece as personagens interiormente. Alencar (1829-1877), assim como Macedo e Machado, também dividiu seu poder criador entre o teatro e a prosa de ficção, e apesar de ter iniciado sua carreira publicando três folhetins de sucesso, decidiu dedicar-se, por algum tempo, ao teatro em detrimento da prosa ficcional. Esta escolha inicial, feita em função da importância que a dramaturgia tinha na época e do desejo de Alencar de contribuir para o aprimoramento e para a afirmação do teatro realista no Brasil, não foi em vão, pois, durante algum tempo, sobretudo depois da inauguração do teatro Ginásio Dramático do Rio de Janeiro, a dramaturgia realista brasileira, baseada na nova estética teatral francesa, ganhou espaço, pouco a pouco, nos palcos cariocas.

Alencar só retornou à ficção romanesca depois do fracasso de O Crédito, em 1857, e da proibição de sua peça As Asas de um anjo, em 1858. Depois de decepcionar-se com o teatro, retomou a prosa ficcional, quando publicou o romance Lucíola em 1864, o qual apresentava o mesmo tema da peça As Asas de um anjo. Daí em diante, apesar de não abandonar por completo a produção teatral, passa a dedicar-se muito mais à produção de romances. Pode-se dizer que o tempo que Alencar trabalhou com a dramaturgia não foi somente importante por sua contribuição à renovação teatral brasileira, mas também porque a partir de sua experiência teatral, valorizou a estrutura de seus romances, atribuindo-lhes elementos característicos da dramaturgia. Além dessa influência interna nos textos, Alencar, assim como Dumas Fils, fez uso da reversibilidade, quando transformou sua peça As Asas de um anjo no romance Lucíola. O resultado dessa adaptação foi um romance bem trabalhado e que respondia às expectativas do público-ledor e da crítica moralista que havia rejeitado a peça em função de sua temática e das cenas realistas que apresentava.

É interessante acrescentar que, no momento da reversibilidade, a opção dos autores que se dedicaram às duas modalidades narrativas acaba direcionando-se para o gênero de sua preferência, ao qual demonstra possuir mais aptidão e talento, sobretudo, quando isso significa ter mais oportunidade de afirmação pessoal no meio literário. Essa predileção pela modalidade a que os autores acreditavam ter mais predileção pode ter contribuído para a opção de Dumas Fils e de Alencar para a transformação de seus textos iniciais, pois, coincidentemente, os dois autores transformaram seus textos originais em gêneros diferentes que atestavam suas preferências por um determinado gênero. Dumas partiu do romance para o teatro e Alencar do teatro para o romance. Escolhas que podem ter sido impulsionadas pelas vantagens que cada modalidade podia oferecer ao escritor, no dado momento de sua produção ou de sua transformação.

Dumas escreveu e publicou seu romance num momento em que a prosa de ficção estava no auge de sua produção no contexto literário francês, durante o advento do folhetim (É preciso esclarecer que Dumas publicou seu romance em volumes, mas não deixou de ser favorecido pelo advento do folhetim que impulsionou toda a prosa ficcional desse momento), e sua peça foi ao palco num momento de decadência, ou melhor, de proibição da inserção do romance nos jornais, quando o teatro mostrava-se como a melhor forma de ascensão para o literato, e Alencar escreveu sua peça-teatral, em 1857, exatamente quando o teatro brasileiro se reerguia e transformou-a em romance no momento mais culminante da prosa de ficção nacional.

Os dois autores, além do amor pela produção teatral ou romanesca, tiveram senso de oportunismo, escrevendo suas obras nos gêneros que acreditavam ser os mais adequados para o primeiro momento e as transformaram também quando era mais coerente para alcançarem o apoio do público e da crítica, sem é claro deixar de considerar suas preferências.

Diríamos, então, que a reversibilidade, além de transformação, adaptação e conversão de um texto em outro, é decorrência de uma prática que intuía a realização pessoal do autor e que testemunhava sua capacidade de criação, pois, para tanto, era preciso que ele estivesse apto a usar de sua pena criadora tanto para a produção dramática quanto para a ficcional. É, além de tudo isso, prova de que a arte literária pode manifestar-se da maneira que for mais conveniente ao escritor, desde que continue sendo uma forma de representação social que diverte e instrui sem deixar de atender aos desejos da sociedade que representa ou que intenta agradar. Assim, a transformação de um romance em uma peça-teatral ou de uma peça-teatral em romance testemunha o desejo do autor de atender às preferências do público-leitor ou dos espectadores.

Ao executar a reversibilidade, esse autor, além de apresentar o texto no gênero narrativo de preferência do seu receptor atual, retira os elementos que lhes são desagradáveis e insere outros de sua preferência, tornando-o mais agradável ao público e à crítica. Dessa forma, a reversibilidade é positiva tanto para o público-receptor quanto para o literato, uma vez que este ganha com a conquista de novos leitores ou espectadores e aquele com o prazer que sente ao ler um texto ou ao ver uma peça que respeite seus limites morais ou sociais.

Fonte:
Margarida da Silveira Corsi (mestrado-UNESP-Assis)

Do Romance ao Palco, do Palco ao Romance: uma reflexão a ser feita
XIII Seminário do CELLIP (Centro de Estudos Linguísticos e Literários do Paranpa) 21-23 out 1999 – Campo Mourão
Maringá: Depto. de Letras da UEM, 2000 – Org. Thomas Bonnici (CD-Rom)

P.S. Com o intuito de preservar os direitos autorais da autora, as referências bibliográficas foram propositalmente retiradas, o que não afeta em hipótese alguma a veracidade e importância do documento.

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Arlete Piedade (1956)

Arlete Piedade Louro Daniel (Fada das Letras) nascida a 19 de Junho de 1956, numa pequena aldeia do distrito de Santarém – Portugal, onde passou a sua infância, até ir estudar em Santarém onde fez o curso da escola secundária, e iniciou a sua vida profissional numa seguradora com a idade de 17 anos incompletos.

Em 1980 por motivos de ordem pessoal, passa a residir e trabalhar na zona de Lisboa, onde se manteve até 1994, ano em que regressa a Santarém para cuidar dos negócios da família.

Já na infância e adolescência se manifestava o seu interesse pela leitura e escrita, ficando célebres as suas composições na escola primária e secundária. Mas com a entrada na idade adulta, o início das responsabilidades familiares e o nascimento dos dois filhos, apenas na leitura se refugiava por vezes para viver em fantasia realidades alternativas á vida monótona do dia a dia de uma grande cidade.
Com a volta a Santarém e os filhos já crescidos, continua a refugiar-se na leitura até que com a descoberta do mundo virtual e incentivada por amigos encontrados nesse novo meio, começa então a escrever poesia como forma de expressão de sentimentos, de início apenas no romantismo, e recentemente com crónicas, contos e poesia de intervenção social.

Destaca-se entre os amigos referidos, Roberto Oliveira, seu grande incentivador que a convidou para participar no seu site Mundo Poeta, no início da sua formação em 2003, dando origem a uma amizade que se tem mantido ao longo dos anos.

Nas crónicas, os seus temas preferidos são a cultura do seu povo e a sua cidade de Santarém – Portugal, as quais publicou no Jornal Ecos até á suspensão deste e também no Recanto das Letras.

Convidada por Victor Jerónimo poeta e escritor português radicado no Brasil, a participar das cirandas de temas sociais do seu grupo Ecos da Poesia e da Antologia Poética, Dois Povos, Um Destino, pela primeira vez teve a oportunidade de transpor os seus poemas das telas do computador para o formato escrito em livro.

Mais notícias sobre esta obra em: http://www.ecosdapoesia.net/noticiasliterarias/ecos1.htm

Faz parte do movimento poético com sede em Santiago do Chile e que espalhou por todos os continentes, Poetas del Mundo pelo qual foi nomeada cônsul na cidade de Santarém – Portugal.

Idealizou e promoveu as seguintes cirandas:

Ciranda do Mundo Poeta, publicada em: http://www.mundopoeta.net/ciranda/

Ciranda dos Namorados, publicada em:

http://www.mundopoeta.net/fadadasletras/cirandas/index.htm

Ciranda Línguas em conjunto com a poetisa brasileira Deth Haak, publicada em: http://www.ferool.info/ciranda.htm

Ciranda Basta, em conjunto com Victor Jerónimo e Efigénia Coutinho, publicada em: http://www.avspe.eti.br/cirandas/basta/indice.html

Fez parte do Júri convidado para a Ciranda-Concurso “Cartas” publicada em:
http://www.cirandasdeletras.cantodapoesia.net/ciranda_concurso_cartas.htm

Além destas, tem participado em várias cirandas publicadas em diversos sites na Internet.
O seu poema “Quisera” ganhou uma Menção Honrosa no III Concurso Literário de Contos e Poesias da Editora Guemanisse de Teresópolis no Brasil, em Outubro de 2006, pelo que foi incluído na Antologia “Convergentes”;

O seu conto de natal “A Chegada” foi classificado em quinto lugar no concurso de Contos de Natal do Centro de Estudos Culturais de Petrópolis no Brasil em Dezembro de 2006.

Em Fevereiro de 2007 publica o seu primeiro livro a solo, em edição de autor, “Sonetos da Fada das Letras”

Em Maio de 2007 participou na Antologia Poética “Poetas de Santarém” a convite da direcção do Jornal “O Mirante” um dos maiores órgãos regionais da zona Centro de Portugal.

Em Março de 2007 dá início a encontros poéticos ao vivo, que até o momento tiveram lugar em instituições de apoio a idosos, em conjunto com poetas amigos com vista a estreitar o convívio, divulgar a poesia e mitigar a solidão de quem assiste.

Em Junho de 2007 funda em conjunto com Alexa Wolf e Edyth Teles de Menezes, a associação cultural ULLA – União Lusófona das Letras e das Artes, para promoção e divulgação de escritores e artistas que se expressam em português.

Fonte:
http://www.joaquimevonio.com/

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Arlete Piedade (Conto: A Chegada)

Era já noite alta, as estrelas brilhavam no céu escuro e límpido, iluminado pelo brilho das constelações e nebulosas que se recortavam claramente naquele firmamento esplendoroso de luz e quietude.

José caminhava desde há vários dias e noites apenas com pequenas paragens para os animais descansarem, e sua esposa e o Menino comerem algum parco alimento que lhe permitisse prosseguir naquela viagem, cujo fim ele esperava alcançar nos dias seguintes.

As suas pernas cansadas prosseguiam no entanto com um ritmo próprio como se não pertencessem ao mesmo corpo e fossem comandadas por algum mecanismo desconhecido de um tempo futuro, ou talvez passado, José não sabia, mas sentia que elas não lhe pertenciam e alguma força superior as comandava em seu lugar e lhe fazia sentir aquela urgência em prosseguir sem descanso até o Menino estar seguro em terra egípcia.

Olhou para trás brevemente, alertado por algum ruído diferente e quase imperceptível e viu sua esposa que dormitava sentada no burro exausto que no entanto ia também arrastando as suas patinhas desabituadas daquele piso, e envolvido na manta que o protegia do frio noturno do deserto, o pequeno vulto do filho de Maria, mas a quem ele amava com um amor tão forte que sentia que daria a sua vida para o proteger e a sua mãe.

Um pequeno vulto negro no céu, se destacou por breves momentos contra o brilho da noite estrelada e José pensou que fosse uma ave noturna e em breve esqueceu, enquanto prosseguia incansável rumo ao sol nascente cujos clarões da aurora já começavam a pincelar o céu com rosas e violetas sob um fundo dourado.

Em breve o sol esplendoroso e ardente iria subir rapidamente no céu e cada dia era mais difícil prosseguir viagem sob o calor sufocante.

José sabia que mais á frente existia um pequeno oásis com algumas árvores e um pequeno poço que servia há várias gerações para os caminhantes do deserto sobreviverem naquelas paragens inóspitas matando a sua sede e dos animais e esperava alcança-lo antes do sol ficar a pino sob as suas cabeças para pararem um pouco e descansarem da fadiga.

Enquanto o sol se erguia rapidamente ofuscando o brilho das estrelas, José viu que sua esposa quase tombava da montada, devido ao extremo cansaço e lutava para aconchegar a sua preciosa carga, ao seu colo cansado.

Parando a sua marcha José acorreu e tomou para o seu colo, o menino que dormia ainda, embora desse sinais de em breve despertar, pois que entreabria os seus olhinhos escuros e curiosos, mas depois os voltava a fechar devido á luminosidade ardente.

José colocou-o sentado sob os seus ombros e o menino colocou os bracinhos á volta da sua cabeça para se segurar, depois de José lhe ter ajeitado o seu turbante para o proteger do calor ardente.

Foram prosseguindo e José ia falando com o seu filho para o distrair da fome e da sede e do calor, contando histórias que ouvira a sua pai, de homens de outros tempos e das lutas que travavam no deserto contra leões e bandidos, e como guerreiros, sempre venciam, depois de lutas muito difíceis e demoradas, cheias de ciladas e armadilhas.

O menino ouvia com interesse debruçado sobre a sua cabeça para melhor ouvir, e assim foram caminhando com Maria dormitando atrás sob o burrinho até que alcançaram o oásis.

No entanto o velho poço estava quase entulhado com pedras derrubadas que algum vândalo sem respeito pelos outros caminhantes, ou alguma tempestade ou luta, tinham originado.

José olhou para os odres em pele, onde só uma pequena gota restava, quente e salobra, e retirando o menino de sob os seus ombros, coloco-o cuidadosamente sentado á sombra de uma tamareira, que no entanto por não ser a época, não tinha frutos, dizendo-lhe: – Jesus meu filho, fica aqui sentado que eu vou ajudar tua mãe a desmontar para descansar também um pouco aqui junto de ti.

O menino sorriu em silêncio acenando com a cabeça afirmativamente e José aproximou-se de sua esposa ajudando-a a descer da montada e retirando do alforje, uma manta resistente, estendeu-a á sombra da árvore e lá acomodou os dois seres mais importantes da sua vida para um breve descanso enquanto prendia com um laço comprido, o burrinho á árvore também.

No entanto o pobre animal também exausto deixou-se cair junto a seus donos e assentou a sua cabeça entre as patas para também descansar.

Então José despindo a sua túnica aproximou-se do poço entulhado e com esforço começou a tentar remover as pedras enormes que o tapavam, o que parecia ser tarefa superior ás suas forças humanas, dado a tamanho e o peso das mesmas.

Mas José não era homem de desistir, quando estava em causa a sobrevivência da sua família e ficou olhando em volta, concentrando-se e procurando uma solução para o problema.

Reparou então numa árvore mais afastada do poço e que devido á falta de água
estava quase seca, e indo ao seu alforje de lá retirou uma foice com uma lâmina afiada e curva que tinha levado para acudir a alguma emergência no deserto.

Aproximando-se da árvore com aquela ferramenta rudimentar, começou a cortar o seu tronco pacientemente, para fazer uma alavanca que lhe permitisse remover as pedras do poço.

Ergueu os olhos ao céu numa prece silenciosa e tomado de um súbito vigor ao olhar para o seu filho que brincava com um pequeno tronco fazendo desenhos na areia, atacou com força redobrada a pequena árvore, que em breve estava decepada sob os seus golpes certeiros.

Então aproximando-se do poço, começou a manobrar a sua ferramenta improvisada e as pedras começaram a ceder, e a serem levantadas pela habilidade do homem conjugada com a ferramenta rudimentar e intemporal que também lhe iria servir de cajado se resistisse pois o seu tinha-se partido ao escalar uma encosta pedregosa.

Em breve a água escura e fresca estava á vista e José mergulhando os seus odres na água, os encheu completamente e os levou a seu filho que bebeu cuidadosamente e a sua esposa que ainda mais parcamente bebeu a sua porção de líquido vital á vida.

Desdobrando um recipiente em pele que traziam no alforje, colocaram também um pouco de água que o animal sorveu com evidente satisfação e até se levantou como se quisesse continuar a caminhada, mas na verdade procurava algo para comer.
Comida, José procurou no fundo do alforje e encontrou um pouco de pão seco, que molhou com um pouco de água fazendo uma açorda tosca que deu a comer a sua esposa e seu filho, e também um pouco para o animal.

Para ele próprio, apenas algumas gotas de água para lhe umedecerem a boca ressequida e a pele abrasada do calor do sol, enquanto se sentava por momentos junto aos seus á sombra da árvore raquítica.

A sua cabeça tombou por breves momentos e Maria disse-lhe com ternura para que descansasse algum tempo, que o Egito já estava á vista e que estavam livres da perseguição do inimigo.

José fechou os seus olhos e uma visão estranha por breves momentos de sono sobressaltado o assaltou, e viu uma cruz alta erguendo-se contra um céu escuro em que nuvens de tempestade e raios se entrecruzavam e compreendeu num relance que a sua missão estava longe de estar concluída, mas de momento podia descansar um pouco.

O sol declinava no horizonte, quando todos retomaram a marcha e em breve o céu estrelado onde um cometa com uma longa cauda, fez a sua aparição, recordou a José que naquela noite se completavam três anos do nascimento do menino em Belém, e que uma estrela assim brilhante lhe tinha indicado o estábulo e que agora lhe indicava de novo o caminho seguro para nessa noite cruzarem a fronteira do Egito e ficarem em segurança na terra prometida.

Guiado pela estrela, José foi caminhando sem desfalecer sentindo uma presença benéfica junto de si, guiando os seus, e quando o sol se reergueu de novo, iluminou uma paisagem nova e diferente onde verdes planícies se avistavam ladeando um rio de água azul tão brilhante que corria preguiçosamente através dos campos circundantes e ao longe estranhos edifícios pontiagudos, ou mesmo montanhas, José não sabia, se erguiam por detrás de uma cidade magnífica cujos minaretes rebrilhavam como jóias ao sol da manhã.

Tinham chegado! Era o Egito, a terra prometida! José tinha cumprido a primeira parte de sua missão de pai e protetor do seu filho e da sua esposa.

Esta obra concorreu e venceu o “IV Concurso Historias de Natal”, cuja premiação ocorrera no dia 20/12/2006 no Teatro Municipal de Petrópolis/RJ, Brasil,

Fonte:
http://www.mundopoeta.net/fadadasletras/a_chegada.asp.htm

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Arlete Piedade (Poesias: Oh Mar! – Acesa)

Oh Mar!

Oh mar azul que serves de união,
entre duas margens tão distantes,
áqueles que saturados de paixão,
vivem com promessas de amantes…

acima, o firmamento e as estrelas
e os espíritos dos que, saudosos,
nas noites longas, como caravelas
navegam no céu, buscando amorosos!

Oh! Insondáveis mistérios humanos,
que no vale de lágrimas,vagueiam,
unidos na incerteza desse porvir…

por sobre o mar, ao longo de anos,
buscam esse contacto, que anseiam
num tempo do futuro,ainda por vir!

Acesa

Vou fazer um poema que será teu
sem mostrar ao mundo meu sentir
para que brilhe na noite de breu
e te mostre ao longe meu sorrir

para que na madrugada sonolenta
te acompanhe ao saires de casa
e saibas que o coração acalenta
a paixão rubra e acesa em brasa

no entanto a vida passa e foge
e o que era ardente, esfria hoje
sem o sabor dos beijos fumegantes

não me deixes só, á espera perdida
assim envelhecendo sem ter guarida
sem beijos, e carinhos de amantes!

Fonte:
http://www.joaquimevonio.com/

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Pedro Valdoy (1937)

Francisco Pedro Curado Neves nasceu em Estremoz a 25 de Março de 1937.
– Fez o ensino secundário em Lisboa e o curso de Máquinas Marítimas na Escola Náutica Infante Dom Henrique, considerado superior.
– De 1955 a 1958 esteve em Lourenço Marques a trabalhar na Repartição de Finanças e como jornalista com o pseudónimo de Pedro Valdoy. Nunca concorreu a prêmios literários por ser contra os seus princípios.
– Em Agosto de 1958 regressou a Lisboa, onde permanece até agora.
– Durante seis anos navegou em navios Paquetes como Oficial Engenheiro de Máquinas, em especial pelo continente africano.
– Devido ao casamento, pôs as viagens de lado.
– Desde os oito anos que adora escrever. Quando estudante, fundou o jornal de Parede O GAVIÃO .
– No fim da década de 50 foi jornalista em Lourenço Marques.
– Conviveu com Reinaldo Ferreira, filho do repórter X, Moura Coutinho e José Craveirinha, então diretor do BRADO AFRICANO.
– Tem poemas publicados em vários jornais de Moçambique, Ilha da Madeira e Portugal Metropolitano.
– Participou nos Encontros de Poesia realizados em Vila Viçosa, em 1988. Colaborou em diversas antologias de poesia.
– Em 1990 publica o livro de poemas, POEMAS DO ACASO. Em 1991 edita mais um de poesia, HÁ CANDEIAS NO FIRMAMENTO. Em 2001 NO SILÊNCIO DE UMA PALAVRA.
– Tem mais três livros virtuais editados pela AVBL (Academia Virtual Brasileira de Letras) – http://www.avbl.com.br/
– Presta colaboração nos jornais POETAS & TROVADORES e ARTES & ARTES.
– Foi Secretário da Direção da Associação Portuguesa de Poetas, durante dois mandatos.
– Pertence à Tertúlia Rio de Prata
– Esteve na direção do Cenáculo Literário e Cultural Marquesa de Valverde.
– Foi Diretor do jornal Literário HORIZONTE.
– Profissionalmente é engenheiro.

Fonte:
http://www.joaquimevonio.com/espaco/pedro_valdoy/pedrovaldoy.htm

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Pedro Valdoy (Poesias: Minhas Janelas – Minha Flor)

Minhas Janelas

Minhas Janelas
abrem-se para o futuro
com o brilho do Sol
com o sorriso de uma flor

Através delas sonharei
como poeta que sou
por entre os arbustos
da floresta do amor

Sentirei meu corpo leve
através da beleza e da magia
no encanto das flores
que derramam suas pétalas a meus pés

Mas o inesperado surge
por entre uma brisa suave
na beleza de uma princesa
com o seu belo sorriso

As árvores entoavam cânticos
com aquele novo amor
na sensualidade pura
para um novo amor.

Minha Flor

Minha flor do campo
tuas pétalas
são o sorriso da minha alma

São a ternura
dos sessenta por entre
a brisa de um passado

A sensualidade
de teu corpo irrequieto
desliza pelas ondas do mar

O amor eterniza-se
nas árvores frondosas
do nosso bosque

A tua sensibilidade
comoveu meu coração
na concha entreaberta

As borboletas
dançavam por entre as nuvens
recheadas do teu afecto

O passado longínquo
alargou nossos sentimentos
levados pelo vento

Agora o teu regresso
ao correr das pétalas
neste mundo presente

Fonte:
http://www.joaquimevonio.com/espaco/pedro_valdoy/pedrovaldoy.htm

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O Barroco

O final do século XVI, em Portugal, era vivido num clima de insatisfação e intranquilidade. A Igreja, inconformada com a expansão do protestantismo, se armou para contra-atacar com a contra-Reforma. O estado português, que no início do século vivera seu período de maior glória com as conquistas ultramarinas e o sucesso do comércio com o oriente, via-se, nessa época, em plena decadência, no período mais negro de sua história.

É nesse período de inquietações e tensões que veremos surgir o Barroco, estilo que será praticado por todas as formas de arte.

Em Portugal, o Barroco teve início em 1580, com a unificação da Península Ibérica em razão do desaparecimento de D. Sebastião, rei de Portugal, na batalha de Alcácer-Quibir, no norte da África. O Barroco se estenderá até 1756, com a fundação da Arcádia Lusitana em pleno século XVIII.

No Brasil, o Barroco teve início com a publicação de Prosopopéia, de Bento Teixeira, em 1601, uma das muitas imitações de Camões na literatura brasileira. O final do Barroco ocorrerá em 1768 com a fundação da Arcádia Ultramarina e a publicação do livro Obras Poéticas, de Cláudio Manuel da Costa. O barroco, portanto, floresceu entre dois classicismos: o do século XVI (Renascimento) e o do século XVIII (Arcadismo).

Desde o começo da reforma Luterana, a Europa vivia em permanente tensão. Nunca as questões religiosas tiveram tanta importância. Foi uma época em que muitos morreram perseguidos por crenças e religiões.

Os países que adotaram outras religiões romperam com a Igreja Católica interessados não apenas nas questões religiosas, mas, também, na econômica. Ao manifestarem sua independência, eles puseram as mãos em muitos dos bens da Igreja em seu território.

A Igreja, que já perdia influência desde o Renascimento Comercial, resolveu não tolerar mais esta afronta e contra-atacou em duas frentes: no Concílio de Trento (1545 a 1563) e com a Companhia de Jesus (1534). A Companhia de Jesus, por meio de seus jesuítas, tornou-se inimiga da sociedade burguesa, das monarquias absolutas, dos protestantes e judeus. Foram cem anos de batalhas religiosas em que muitos foram mortos em revoltas e nas fogueiras da Inquisição. O comércio Português com as Índias encontrava-se em declínio e Portugal, que se endividara pensando exclusivamente nessas conquistas, não tinha outra atividade que lhe rendesse o necessário (a agricultura tinha sido completamente abandonada).

Para piorar ainda mais o quadro econômico, surgiu um problema político: D. Sebastião, rei de Portugal, desaparecera em Alcácer-Quibir, deixando o trono sem herdeiros portugueses que o substituíssem. Temos, então, a unificação da Península Ibérica sob o comando do rei espanhol Henrique II.

Sob o domínio da Espanha, rapidamente chegava a Portugal e ao Brasil a influência da Escola Espanhola ou Barroca.

No Brasil, aconteciam a invasão dos holandeses, o apogeu e a decadência do ciclo da cana-de-açúcar.

Marcado pelas lutas religiosas e pela crise econômica, surgia o Barroco, combatendo a forma abstrata, idealizadora e equilibrada do Renascimento e colocando em cena a luta entre pólos opostos: o homem e Deus, o pecado e o perdão, a religiosidade medieval e o paganismo renascentista, o material e o espiritual. Tentando fugir da realidade, o autor barroco sobrecarrega a poesia de figuras como a metáfora, a antítese, a hipérbole e a alegoria. A arte assume, então, uma tendência sensualista, que se traduz num exagerado rebuscamento.

O termo barroco denominou todas as manifestações artísticas do século XVII e XVIII: a literatura, a música, a pintura, a escultura e a arquitetura.

A origem da palavra remete-nos a vários sentidos:
• Forma de raciocínio em que, de duas premissas iniciais, se infere uma
conclusão;
Ex.:
I) todos os homens são mortais
II) Pedro é homem
III) logo, Pedro é mortal.

• Pérola defeituosa, de formação irregular;
• Terreno desigual, assimétrico.

Qualquer desses significados é bom e estabelece relações com a estética barroca, a qual apresenta jogo de idéias, rebuscamento, assimetria.

Mesmo considerando o Barroco como o primeiro movimento literário e Gregório de Matos nosso primeiro poeta realmente brasileiro, ainda não se pode isolar o Brasil de Portugal. Como afirma Alfredo Bosi: “No Brasil, houve ecos do Barroco europeu durante os séculos XVII e XVIII: Gregório de Matos, Botelho de Oliveira, Frei Itaparica e as primeiras academias repetiram motivos e formas do barroquismo ibérico e italiano”. Além disso, os dois principais autores do Barroco, Gregório de Matos e Padre Vieira, tiveram suas vidas divididas entre Portugal e Brasil. Por essas razões, não estudaremos separadamente o Barroco português e brasileiro.

Cultismo e conceptismo

Podemos notar dois estilos no barroco literário: o Cultismo e o Conceptismo.

Cultismo é o estilo barroco caracterizado pela linguagem rebuscada, culta, extravagante; pela valorização do pormenor mediante jogos de palavras, com visível influência do poeta espanhol Luís de Gongora; daí o estilo ser conhecido, também, por Gongorismo. Eis o soneto mais famoso desse estilo:

Enquanto, em vão, de ouro bunido brilhar
O sol já suplantado em seu cabelo,
E tua branca fronte, enquanto a um lírio
Ardente mira ao prado, mas sem vê-lo,

E enquanto aos lábios teus seguindo vão
Mais do n´alva ao cravo muitos olhos,
E enquanto anula com desdém loução
Cristais sem par seu desdenhoso colo,
Goza o cabelo, o colo, o lábio, a fronte,
Antes que enfim não só tua era dourada,
Tu também, mais cravo e sol luzente
Em prata se envelheçam, flor de ontem
E disso ainda caias transformada
Em fumo, em terra, em pó, em sombra, em nada

Luís de Gongora

Paráfrase


Enquanto o sol brilha tentando competir com seus cabelos;
Enquanto a brancura do teu rosto olha com desprezo a brancura do lírio, porque o seu rosto é mais branco;
Enquanto teus lábios vermelhos são cobiçados por mil olhares e dão inveja ao cravo da manhã que ninguém vê;
Enquanto teu colo ofusca o brilho do cristal
Enquanto, moça, tens toda essa beleza, aproveita antes que te transformes em terra, em fumo, em pó, em sombra, em nada.

Conceptismo: é o estilo barroco marcado pelo jogo de idéias, de conceitos, seguindo um raciocínio lógico, racionalista, que utiliza uma retórica aprimorada. Um dos principais seguidores do Conceptismo foi o espanhol Quevedo.

Uma crítica conceptista ao estilo cultista

Se gostas da afetação e pompa de palavras e do estilo que chamam de culto, não me leias.

Quando este estilo florescia, nasceram as primeiras verduras do meu; mas valeu-me tanto sempre a clareza, que só porque me entendiam comecei a ser ouvido. (…) Este desventurado estilo que hoje se usa, os que o querem honrar chamam-lhe de culto, os que o condenam chamam-lhe de escuro, mas ainda lhe fazem muita honra. O estilo culto não é escuro, é negro, e negro boçal e muito cerrado. É possível que somos portugueses, e havemos de ouvir um pregador em português, e não havemos de entender o que diz?!
Padre Antonio Vieira

Fonte:
Santos, Eberth Santos. Moura, Josana. Literatura em ação. 2. ed. Uberlandia, MG: Claranto, 2004. p.60-63

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Padre Antonio Vieira (1608 – 1697)

Vieira foi um escritor cuja genialidade assombra até mesmo os leitores de hoje. Foi um homem do seu tempo, participante não só dos problemas da religião, mas, também, da política e dos acontecimentos em geral.

Nasceu em Lisboa, em 1608, e morreu em Salvador em 1697. Com sete anos veio para a Bahia. Entrou para a Companhia de Jesus. Foi pregador régio, conselheiro de D. João IV, embaixador na França, na Holanda e em Roma. Para defender o capitalismo judaico e os cristãos-novos, tinha contra si a pequena burguesia cristã e a Inquisição; por defender o monopólio comercial, irritou os pequenos comerciantes; por defender os índios, teve que ir contra os administradores e colonos. Pela defesa dos judeus e cristãos novos foi condenado pela Inquisição e ficou preso de 1665 a 1667.

Vieira falava para o mundo e seu estilo estava ainda acima do barroquismo de seus contemporâneos. Ele via a história como ela deveria ser…

A definição do Pregador é a vida, e o exemplo. Ter nome de Pregador ou ser Pregador de nome não importa nada: as ações, a vida, o exemplo, as obras, são as que convertem o mundo. O melhor conceito que o Pregador leva ao púlpito, qual cuidais que é? É o conceito que de sua vida têm os ouvintes. Antigamente, convertia-se o mundo: hoje, por que não se converte ninguém? Porque hoje pregam-se palavras e pensamentos, antigamente pregavam-se palavras e obras. Palavras sem obras são tiros sem bala, atiram mas não ferem. (”Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda”).

António Vieira foi um religioso, escritor e orador português da Companhia de Jesus. Um dos mais influentes personagens do século XVII em termos de política, destacou-se como missionário em terras brasileiras. Nesta qualidade, defendeu infatigavelmente os direitos humanos dos povos indígenas combatendo a sua exploração e escravização. Era por eles chamado de “Paiaçu” (Grande Padre/Pai, em tupi).

António Vieira defendeu também os judeus, a abolição da distinção entre cristãos-novos (judeus convertidos, perseguidos à época pela Inquisição) e cristãos-velhos (os católicos tradicionais), e a abolição da escravatura. Criticou ainda severamente os sacerdotes da sua época e a própria Inquisição.

Na literatura, seus sermões possuem considerável importância no barroco brasileiro e as universidades frequentemente exigem sua leitura.

Biografia

Nascido em lar humilde, e mulato, na Rua do Cónego, perto da Sé, em Lisboa. Seu pai serviu a Marinha Portuguesa e foi, por dois anos, escrivão da Inquisição, tendo mudado-se para o Brasil em 1609, para assumir cargo de escrivão em Salvador, na capitania da Bahia. Em 1614 mandou vir a família para o Brasil. António Vieira tinha seis anos. Aplica-se-lhe a frase que ele mesmo escreveu: “os portugueses têm um pequeno país para berço e o mundo todo para morrerem.”

Estudou na única escola da Bahia: o Colégio dos Jesuítas em Salvador. Consta que não era um bom aluno no começo, mas depois tornou-se brilhante. Juntou-se à Companhia de Jesus com voto de noviço em maio de 1623. Obteve o mestrado em Artes e foi professor de Humanidades, ordenando-se sacerdote em 1634.

Em 1624, quando da Invasão Holandesa de Salvador, refugiou-se no interior, onde se iniciou a sua vocação missionária. Um ano depois tomou os votos de castidade, pobreza e obediência, abandonando o noviciado. Não partiu para a vida missionária. Estudou muito além da Teologia: Lógica, Física, Metafísica, Matemática e Economia. Em 1634, após ter sido professor de retórica em Olinda, foi ordenado e em 1638 já ensinava Teologia.

Quando da segunda invasão holandesa ao Nordeste do Brasil (1630-1654), defendeu que Portugal entregasse a região aos Países Baixos, pois gastava dez vezes mais com sua manutenção e defesa do que o que obtinha em contrapartida, além do facto de que os Países Baixos eram um inimigo militarmente muito superior na época. Quando eclodiu uma disputa entre Dominicanos (membros da inquisição) e Jesuítas (catequistas), Vieira, defensor dos judeus, caiu em desgraça, enfraquecido pela derrota de sua posição quanto à questão do Nordeste do Brasil.

Após a Restauração da Independência em (1640), em 1641, iniciou a carreira diplomática pois integrou a missão que veio a Portugal prestar obediência ao novo monarca. Impondo-se pela viveza de espírito e como orador, foi nomeado pelo rei pregador régio. Em 1646 foi enviado à Holanda no ano seguinte à França, com encargos diplomáticos. Era embaixador (o pai, antes pobre, foi nomeado pensionista real) para negociar com os Países Baixos a devolução do Nordeste. Caloroso adepto de obter para a coroa a ajuda financeira dos cristãos-novos, entrou em conflito com a Inquisição mas viu fundada a Companhia de Comércio do Brasil

O povo de Portugal não gostava de suas pregações em favor dos judeus. Após tempos conturbados acabou voltando ao Brasil, de 1652 a 1661, missionário no Maranhão e no Grão-Pará, sempre defendendo a liberdade dos índios.

Diz o Padre Serafim Leite em “Novas Cartas Jesuíticas”, Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1940, página 12, que Vieira tem “para o norte do Brasil, de formação tardia, só no século XVII, papel idêntico ao dos primeiros jesuitas no centro e no sul», na «defesa dos Indios e crítica de costumes”. “Manoel da Nóbrega e António Vieira são, efectivamente, os mais altos representantes, no Brasil, do criticismo colonial. Viam justo – e clamavam!”

Voltou para a Europa com a morte de D. João IV, tornando-se confessor da Regente, D. Luísa de Gusmão. Com a morte de D. Afonso VI, Vieira não encontrou apoio.

Abraçou a profecia sebástica e por isso entrou de novo em conflito com a Inquisição que o acusou de heresia com base numa carta de 1659 ao bispo do Japão, na qual expunha sua teoria do Quinto Império, segundo a qual Portugal estaria predestinado a ser a cabeça de um grande império do futuro. Expulso de Lisboa, desterrado e encarcerado no Porto e depois encarcerado em Coimbra, enquanto os jesuítas perdiam seus privilégios. Em 1667 foi condenado a internamento e proibido de pregar, mas, seis meses depois, a pena foi anulada. Com a regência de D. Pedro, futuro D. Pedro II de Portugal, recuperou o valimento.

Seguiu para Roma, de 1669 a 1675. Encontrou o Papa à morte, mas deslumbrou a Cúria com seus discursos e sermões. Com apoios poderosos, renovou a luta contra a Inquisição, cuja atuação considerava nefasta para o equilíbrio da sociedade portuguesa. Obteve um breve pontifício que o tornava apenas dependente do Tribunal romano.

Regressou a Lisboa seguro de não ser mais importunado. Quando, em 1671, uma nova expulsão dos judeus foi promovida, novamente os defendeu. Mas o Príncipe Regente passara a protetor do Santo Ofício e o recebeu friamente. Em 1675, absolvido pela Inquisição, voltou para Lisboa por ordem de D. Pedro, mas afastou-se dos negócios públicos.

Decidiu voltar outra vez para o Brasil, em 1681. Dedicou-se à tarefa de continuar a coligir seus escritos, visando à edição completa em 16 volumes dos seus Sermões, iniciada em 1679, e à conclusão da Clavis Prophetarum. Possuía cerca de 500 Cartas que foram publicadas em 3 volumes. Suas obras começaram a ser publicadas na Europa, onde foram elogiadas até pela Inquisição.

Já velho e doente, teve que espalhar circulares sobre a sua saúde para poder manter em dia a sua vasta correspondência. Em 1694, já não conseguia escrever de próprio punho. Em 10 de junho começou a agonia, perdeu a voz, silenciaram-se seus discursos. Morre a 17 de Junho de 1697, com 89 anos, na cidade de Salvador, Bahia

Obra

Deixou obra complexa que exprime suas opiniões políticas, sendo não propriamente um escritor e sim um orador. Além dos Sermões redigiu o Clavis Prophetarum, livro de profecias que nunca concluiu. Entre os inúmeros sermões, alguns dos mais célebres: o “Sermão da Quinta Dominga da Quaresma”, o “Sermão da Sexagésima”, o “Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda”, o “Sermão do Bom Ladrão”,”Sermão de Santo António aos Peixes” entre outros.

Vieira escreveu profecias, entre elas a que previa o retorno de D.Sebastião a Portugal; Cartas sobre o relacionamento entre Portugal e Holanda, sobre os cristãos novos, a Inquisição e a situação da Colônia; e os sermões, suas melhores obras.

Seus melhores sermões foram:
• o Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda;
• o Sermão de Santo Antonio aos peixes;
• e o Sermão da Sexagésima.

Sermão da Sexagésima

Será por ventura o estilo que hoje se usa nos púlpitos? Um estilo tão dificultoso, um estilo tão afetado, um estilo tão encontrado a toda arte e a toda natureza? Boa razão é também esta. O estilo há de ser muito fácil e muito natural. Por isso, Cristo comparou o pregar ao semear. Compara Cristo o pregar ao semear, porque semear é uma arte que tem mais de natureza do que de arte.

Já que falo contra os estilos modernos, quero alegar por mim o estilo do mais antigo pregador que houve no Mundo. E qual foi ele? O mais antigo pregador que houve no Mundo foi o Céu. Suposto que o Céu é pregador, deve ter sermões e deve ter palavras. E quais são estes sermões e estas palavras do Céu? _ As palavras são as estrelas, os sermões são a composição, a ordem, a harmonia e o curso delas. O pregar há de ser como quem semeia como quem ladrilhar ou azulejar. Não fez Deus o céu em xadrez de estrelas, como os pregadores fazem o xadrez de palavras. Se de uma parte está branco, de outra há de estar negro; se de uma parte está dia, de outra há de estar noite? Se de uma parte dizem luz; da outra hão de dizer sombra; se de uma parte dizem desceu, da outra hão de dizer subiu. Basta que não havemos de ver num sermão duas palavras em paz? Todas hão de estar sempre em fronteiras com o seu contrário?

Mas dir-me-eis: Padre, os pregadores de hoje não pregam do Evangelho, não pregam das Sagradas Escrituras? Pois como não pregam a palavra de Deus: _ Esse é o mal. Pregam palavras de Deus, mas não pregam a Palavra de Deus.”

Lendas

Existem muitas lendas sobre o padre António Vieira, incluindo a que afirma que, na juventude, a sua genialidade lhe fora concedida por Nossa Senhora, e a que, uma vez, um anjo lhe indicou o caminho de volta à escola quando estava perdido.

Fontes:
Santos, Eberth Santos. Moura, Josana. Literatura em ação. 2. ed. Uberlandia, MG: Claranto, 2004. p.65-66

Vieira, Padre Antônio. Vieira – Sermões. 2ªed. Rio de Janeiro, Agir, 1960. p.107

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Gregório de Matos (1623 ou 1633 – 1696)

Gregório de Matos e Guerra (Salvador, 7 de abril de 1623 ou 1633 — Recife, 26 de novembro de 1696), alcunhado de Boca do Inferno ou Boca de Brasa, foi um advogado e poeta brasileiro da época colonial. É considerado o maior poeta barroco do Brasil e um dos maiores poetas de Portugal.

Gregório nasceu numa família de proprietários rurais, empreiteiros de obras e funcionários administrativos (seu pai era natural de Guimarães, Portugal). De facto, a nacionalidade de Gregório de Matos é portuguesa, na medida em que o Brasil só se tornou independente no século XIX.

Em 1642 estudou no Colégio dos Jesuítas, na Bahia. Em 1650 continua os seus estudos em Lisboa e, em 1652, na Universidade de Coimbra onde se forma em Cânones, em 1661. Em 1663 é nomeado juiz de fora de Alcácer do Sal, não sem antes atestar que é “puro de sangue”, como determinavam as normas jurídicas da época.

Em 27 de Janeiro de 1668 teve a função de representar a Bahia nas cortes de Lisboa. Em 1672, o Senado da Câmara da Bahia outorga-lhe o cargo de procurador. A 20 de Janeiro de 1674 é, novamente, representante da Bahia nas cortes. É, contudo, destituído do cargo de procurador.
Em 1679 é nomeado pelo arcebispo Gaspar Barata de Mendonça para Desembargador da Relação Eclesiástica da Bahia. D. Pedro II nomeia-o em 1682 tesoureiro-mor da Sé, um ano depois de ter tomado ordens menores. Em 1683 volta ao Brasil.

O novo arcebispo, frei João da Madre de Deus destitui-o dos seus cargos por não querer usar batina nem aceitar a imposição das ordens maiores, de forma a estar apto para as funções de que o tinham incumbido.

Começa, então, a satirizar os costumes do povo de todas as classes sociais bahianas (a que chamará “canalha infernal”). Desenvolve uma poesia corrosiva, erótica (quase ou mesmo pornográfica), apesar de também ter andado por caminhos mais líricos e, mesmo, sagrados.
Entre os seus amigos encontraremos, por exemplo, o poeta português Tomás Pinto Brandão.
Em 1685, o promotor eclesiástico da Bahia denuncia os seus costumes livres ao tribunal da Inquisição (acusa-o, por exemplo, de difamar Jesus Cristo e de não mostrar reverência, tirando o barrete da cabeça quando passa uma procissão). A acusação não tem seguimento.
Entretanto, as inimizades vão crescendo em relação direta com os poemas que vai concebendo.

Em 1694, acusado por vários lados (principalmente por parte do Governador Antônio Luís Gonçalves da Câmara Coutinho), e correndo o risco de ser assassinado é deportado para Angola.

Como recompensa de ter ajudado o governo local a combater uma conspiração militar, recebe a permissão de voltar ao Brasil, ainda que não possa voltar à Bahia. Morre em Recife, com uma febre contraída em Angola.

Alcunha

A alcunha boca do inferno foi dada a Gregório por sua ousadia em criticar a Igreja Católica, muitas vezes ofendendo padres e freiras. Criticava também a cidade da Bahia, como neste soneto:

A cada canto um grande conselheiro.
que nos quer governar cabana, e vinha,
não sabem governar sua cozinha,
e podem governar o mundo inteiro.
Em cada porta um freqüentado olheiro,
que a vida do vizinho, e da vizinha
pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha,
para a levar à Praça, e ao Terreiro.
Muitos mulatos desavergonhados,
trazidos pelos pés os homens nobres,
posta nas palmas toda a picardia.
Estupendas usuras nos mercados,
todos, os que não furtam, muito pobres,
e eis aqui a cidade da Bahia.

Em honra do poeta, o título Boca do Inferno foi adoptado para as crónicas humorísticas de Ricardo Araújo Pereira, outro humorista português que critica vários aspectos culturais, muitas vezes a Igreja.

Obra

A sua obra tinha um cunho bastante satírico e moderno para a época, além de chocar pelo teor erótico, de alguns de seus versos.

Entre seus grandes poemas está o “A cada canto um grande conselheiro”, na qual critica os governantes da “cidade da Bahia” de sua época. Esta crítica é, no entanto, atemporal e universal – os “grandes conselheiros” não são mais que os indivíduos (políticos ou não) que “nos quer(em) governar cabana e vinha, não sabem governar sua cozinha, mas podem governar o mundo inteiro”. A figura do “grande conselheiro” é a figura do hipócrita que aponta os pecados dos outros, sem olhar aos seus. Em resumo, é aquele que aconselha mas não segue os seus preceitos.

Fonte:
http://pt.wikipedia.org/

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Irmãos Grimm (Wilhelm 1786-1859) (Jacob 1785-1863)

Os irmãos Grimm (em alemão Brüder Grimm), Jacob e Wilhelm Grimm, nascidos em 4 de Janeiro de 1785 e 24 de Fevereiro de 1786, respectivamente, foram dois alemães que se dedicaram ao registro de várias fábulas infantis, ganhando assim grande notoriedade. Também deram grandes contribuições à língua alemã com um dicionário (O Grande Dicionário Alemão – Deutsches Wörterbuch) e estudos de lingüística, e ao estudo do folclore.

Infância e estudos

A família é originária da cidade de Hanau no estado de Hesse. Os avós e bisavós eram protestantes. Os pais, Philipp Wilhelm e Dorothea Grimm, tiveram nove filhos dos quais apenas Ferdinand, Ludwig Emil, Charlotte, Jacob e Wilhelm Karl sobreviveram. A casa onde os irmãos nasceram está localizada na antiga praça das armas da cidade de Hanau. Em janeiro de 1791, Philipp foi nomeado funcionário na sua cidade natal, Steinau, em Kinzing, onde a família instala-se. Em 1796 o pai deles morre com 45 anos de idade. A mãe, a fim de assegurar ao filho mais velho todas as chances de conseguir avançar na carreira jurídica, envia os dois filhos para junto de sua tia em Kassel. Jacob freqüenta a Universidade de Marburg e estuda Direito, como o pai,enquanto seu irmão junta-se a ele um ano depois no mesmo curso. Um dos seus professores, Friedrich Carl von Savigny, abriu sua biblioteca privada para os jovens estudantes ávidos pelo saber e amantes de Goethe e Schiller, para fazê-los descobrir os escritores românticos e os minnesang. Savigny que trabalhava em uma História do Império Romano, encaminha-se para Paris em 1804 para suas pesquisas. Em janeiro de 1805, ele convida Jacob a ajudá-lo, o que este faz sem demora. Na qualidade de ajudante, ele se volta durante vários meses para a literatura jurídica. Desta época data o seu afastamento de temas jurídicos. Em sua correspondência,ele fala querer apenas consagrar-se à pesquisa sobre a “magnífica literatura da Alemanha antiga”. Ambos já se interessavam pela língua e pela literatura.

Primeiros escritos

Os irmãos decidiram dedicar-se aos estudos de história e lingüística, recolhendo diretamente da memória popular, as antigas narrativas, lendas ou sagas germânicas, conservadas pela tradição oral.

Jacob Grimm retornou a Kassel aonde entrementes sua mãe tinha vindo se instalar. No ano de 1806, Wilhelm Grimm termina seus estudos em Marburg. Eles vivem com a mãe em Kassel. Jacob consegue um cargo de secretário na escola de guerra de Kassel. A seguir às guerras napoleônicas contra a Prússia e a Rússia, que começam pouco depois da sua nomeação e que colocam Kassel sob a influência de Napoleão, a escola de guerra é reformada e ele torna-se o encarregado do abastecimento das tropas combatentes, o que o desagrada e o leva a abandonar seu posto. Wilhelm Grimm, de saúde frágil, estava na época sem emprego. Desse período nebuloso, mas que os encontra muito motivados, datam as primeiras compilações de contos e histórias que nos chegaram hoje.

Após o falecimento da mãe em 27 de maio de 1808, Jacob, na qualidade de primogênito, ficou encarregado de toda a família. Ele aceita então um cargo de diretor da biblioteca privada de Jérome Bonaparte (irmão de Napoleão recentemente feito rei do jovem reino da Vestfália) e ocupa durante o ano de 1809 um cargo de assessor no conselho de Estado, ainda que não tenha sido obrigado a essa posição e dedicasse grande parte de seu tempo aos estudos.

Em 1809, por causa de sua doença, Wilhelm faz um tratamento em Halle que deve ter sido financiado por Jacob. Ele passa a residir no castelo de Giebichenstein (que pertenceu ao compositor Johann Friedrich Reichardt) e enfim em Berlim onde encontra Clemens Bretano através de quem ele conhece escritores e artistas berlinenses como, por exemplo, Ludwig Achim von Arnim. Durante a volta para Kassel, Wilhelm encontra também Johann Wolfgang von Goethe que aprova os seus “esforços em prol de uma cultura vasta e esquecida”.

Desde 1806, os irmãos Grimm tinham reunido contos e desde 1807 tinham publicado artigos em revistas sobre mestres trovadores. A partir de 1810, os irmãos Grimm encontram-se novamente juntos em Kassel e em 1811, Jacob publica sua primeira obra sobre os “mestres cantores alemães” (Über den altdeutschen Meistergesang).

Depois da batalha de Leipzig em 1813, o reino da Vestfália foi desfeito e o colégio eleitoral de Hesse restaurado. Jacob Grimm perde, por isso, seu cargo de diretor da biblioteca real, mas logo encontra um emprego junto ao príncipe-eleitor, como secretário da legação. Nessas novas funções diplomáticas, ele retorna a Paris em 1814, onde emprega seu tempo livre em novas pesquisas na biblioteca. Se ele gostava das viagens, sentia, contudo o afastamento das pesquisas literárias no seu país por causa dos afazeres.

Coletores de contos e lendas

Wilhelm Grimm nesse meio tempo havia publicado o seu primeiro livro em 1811,traduções de lendas dinamarquesas antigas (Altdänische Heldenlieder). A primeira obra comum dos dois irmãos, sobre o Hildebrandslied e o Wessobruner Gebet, foi publicada em 1812 e foi seguida em dezembro do mesmo ano da primeira coletânea, Contos da Criança e do Lar (Kinder und Hausmärchen), com tiragem de 900 exemplares. O primeiro manuscrito da compilação de histórias data de 1810 e apresentava 51 narrativas. Os dois irmãos escreviam também uma edição alemã do Eddas, assim como uma versão alemã do Romance de Renart (o Reineke Fuchs), um conjunto de poemas medievais trabalhos que ficaram, no entanto, durante muito tempo, incompletos. De 1813 á 1816, os irmãos contribuíram igualmente para a revista Altdutsche Wälder, dedicada à literatura alemã antiga, mas que só dura três números.

Em 1814, Wilhelm Grimm torna-se secretário da biblioteca do museu de Kassel e instala-se no Wilhemshöher Tor um alojamento pertencente à casa do príncipe-eleitor de Hesse, onde Jacob se junta a ele quando volta de Paris. Em 1815, Jacob Grimm assiste ao Congresso de Viena na qualidade de secretário da delegação de Hesse e em seguida, retorna a Paris para uma missão diplomática em setembro de 1815. Logo depois, abandona a carreira diplomática para poder dedicar-se exclusivamente ao estudo,a classificação e ao comentário da literatura e da história. Neste mesmo ano, ao lado de uma obra de estudos mitológicos (Irmentraâe und Irmensäule), ele publica uma seleção de antigos romances espanhóis (Silva de romances viejos).

Em 1815, os irmãos Grimm produzem o segundo volume dos Contos da Criança e do Lar, reimpresso em forma aumentada em 1819. As notas sobre os contos dos dois volumes foram publicadas em 1822. Uma nova publicação que condensava os outros três volumes em um único surge em 1825 e contribui grandemente para a popularidade dos contos. Essa edição foi ilustrada pelo irmão deles Ludwig Emil Grimm. A partir de 1823 apareceu uma edição inglesa ilustrada dos Contos da Criança e do Lar. Durante a vida dos dois irmãos apareceram sete impressões da edição completa em três volumes dos contos e dez da edição reduzida a um volume único. A qüinquagésima edição, última com os autores vivos, já totalizava 181 narrativas. Algumas dessas histórias são de fundo europeu comum, tendo sido também recolhidas por Charles Perrault, no século XVII, na França, o que remete à existência de uma fonte comum.

Seguem-se, entre os anos de 1816 e 1818, os dois tomos de lendas recolhidas (Deutsche Sagen). Os dois irmãos haviam recolhido indiferentemente contos e lendas. É difícil separá-los sob critérios temáticos e os irmãos não os fizeram de maneira seguida. No entanto, os contos remontam no essencial a fontes orais, enquanto as lendas foram terminadas mais ou menos ao mesmo tempo, desde 1812. A demora de seis anos da publicação se explica pelo trabalho de composição de um texto publicável. O conjunto de lendas não conseguiu grande sucesso e não foi, portanto, reimpresso durante a vida dos irmãos.

Na idade de 30 anos, Jacob e Wilhelm já haviam conseguido uma posição de destaque por suas numerosas publicações. Eles viviam juntos em Kassel, com o modesto salário de Wilhelm durante um tempo. Apenas em abril de 1816, Jacob tornou-se segundo bibliotecário em Kassel, ao lado de Wilhelm que já trabalhava há dois anos como secretário. O trabalho deles consistia em emprestar, procurar e classificar as obras. Simultaneamente a suas funções oficiais, eles podiam realizar as próprias pesquisas, que foram condecoradas em 1819 por um doutorado honoris causa da Universidade de Marbourg.

Eles não teriam podido publicar tanto durante estes anos sem encorajamento nem proteções. Primeiramente eles foram sustentados pela princesa Wilhelmine Karoline de Hesse. Depois de sua morte em 1820 e a do príncipe eleitor em 1821, os irmãos mudaram-se com a irmã deles, Charlotte, para um alojamento mais simples, entre uma caserna e uma forja, não sem conseqüências embaraçosas para o trabalho deles. “Lotte”, que até então ficava com a família, se casaria pouco depois, deixando os dois irmãos que se mudariam várias vezes e levariam uma vida de solteiros durante muitos anos ainda.

A paixão pela língua

É nesse período criativo que se dá o trabalho de Jacob na sua Gramática Alemã. O primeiro tomo tratava da flexão, o segundo da formação das palavras, Jacob trabalha nela com furor, sem deixar um manuscrito completo, fazendo imprimir folha após folha à medida que escrevia texto suficiente. A impressão do primeiro tomo se estendeu de janeiro de 1818 ao verão de 1819, a duração exata do trabalho dele em sua obra. Até 1822, ele trabalhará novamente no primeiro tomo de maneira a incluir apenas estudo dos sons. Como anteriormente, ele escreve e faz imprimir as páginas, princípio que ele segue também para o segundo tomo, surgido em 1826. Wilhelm tinha publicado durante esse período vários livros sobre as runas e os cantos heróicos alemães (Deutsche Heldensage), considerados como suas obras primas, surgidos em 1829.
Foi apenas após o casamento de Wilhelm Grimm com Henrietta Dorothea Wild em 1825 que o curso da vida dos dois irmãos veio a ter alguma estabilidade. Eles continuaram a viver juntos apenas até o nascimento das crianças de Wilhelm e “Dortchen”. Em 1829, depois de respectivamente 13 e 15 anos de serviço na biblioteca de Kassel, os dois irmãos demitem-se. Depois da morte do diretor, o príncipe-eleitor de Hesse, Guilherme II de Hesse não entregou o posto a Jacob e os irmãos responderam à proposta da biblioteca da Universidade de Göttingen em Hanôver.

Eles vivem novamente juntos, Jacob trabalhava como professor titular, Wilhelm como bibliotecário e, a partir de 1835,também como professor. Jacob publica dois tomos suplementares de sua gramática até 1837. Ele também pôde terminar em 1834 o trabalho começado em 1811 sobre o Reineke Fuchs, e compôs uma obra sobre a mitologia germânica (Deutsche Mythologie, 1835). Wilhelm encarregou-se sozinho da terceira impressão dos Kinder und Hausmärchen em 1837.

Nesse mesmo ano, o rei de Hanôver, da Grã-Bretanha e da Irlanda, Guilherme IV morre, e a coroa de Hanôver passa para seu irmão Ernest August I. De tendências autoritárias, este rapidamente revoga a constituição relativamente liberal que havia sido instituída pelo seu predecessor, à qual os funcionários haviam prestado juramento. Sete professores da universidade de Göttingen, entre os quais Jacob e Wilhelm, assinam uma carta de solene protesto. O rei replica exonerando os professores e exilando três deles de seu estado, entre os quais, Jacob Grimm e graças a isto, Os Sete de Göttingen (o Göttinger Sieben) ganham grande repercussão na Alemanha.

Grande dicionário alemão

Os irmãos retornam a Kassel onde ficam sem emprego até que o rei Frederico Guilherme IV da Prússia convida-os para trabalhar como membros da academia de ciências e professores na Universidade Humboldt. Os dois aceitam essa oferta e se instalam definitivamente em Berlim. Jacob empreendeu, no entanto diversas viagens ao estrangeiro, e foi depois deputado no Parlamento de Frankfurt em 1848 junto com vários de seus antigos colegas de Göttingen.

Durante esse período berlinense, os dois irmãos consagraram-se principalmente a uma obra colossal: a escrita de um dicionário histórico da língua alemã, que apresentaria cada palavra com sua origem, sua evolução, seus usos e sua significação. Mas os dois haviam subestimado o trabalho a ser feito. Ainda que tenham começado essa tarefa em 1838, após a volta de Göttingen, o primeiro volume aparece apenas em 1854 e apenas alguns volumes puderam ser editados durante a vida deles. Várias gerações de germanistas darão continuidade a esta obra, e cento e vinte e três anos depois, em 4 de janeiro de 1961, o trigésimo segundo volume do dicionário foi enfim publicado. Em 1957, uma nova revisão desta obra gigantesca foi iniciada e o primeiro volume do trabalho, publicado em 1965. Em 2004, o conjunto do dicionário foi editado em forma de CD-ROM pela Edições Zweitausendeins (Frankfurt am Main).

Wilhelm Grimm morreu em 16 de dezembro de 1859. A academia de Berlim escrevia em janeiro de 1860: “No dia 16 do último mês faleceu Wilhelm Grimm, membro da Academia, que fez brilhar seu nome à designação de lingüista alemão e coletor de lendas e poemas. O povo alemão está também habituado a associá-lo a seu irmão mais velho Jacob. Poucos homens são honrados e amados como são os irmãos Grimm, que no espaço de meio século ampararam-se reciprocamente e fizeram-se conhecidos por um trabalho comum”. Jacob sozinho deu continuidade à obra deles até morrer em 20 de setembro de 1863. Os dois irmãos descansam juntos no cemitério de Matthäus em Berlim-Schöneberg.

Obras

As obras comuns mais significativas de Jacob e Wilhelm Grimm são: a reunião de contos para crianças,a coleção de lendas,assim como o dicionário. Jacob Grimm trouxe contribuições de primeira importância para a lingüística alemã então nascente, que ajudaram a fundar a gramática histórica e comparada. É na segunda edição de sua Gramática Alemã que Jacob descreve as leis da fonética que regulam a evolução das consoantes nas línguas germânicas, conhecidas depois sob o nome de Lei de Grimm. Ele é também o autor de uma História da Língua Alemã (Geschichte der deutschen Sprache).

Buscando encontrar as origens da realidade histórica de seu país, os pesquisadores encontram a fantasia, o fantástico, o mítico em temas comuns da época medieval. Com suas pesquisas, tinham dois objetivos básicos: o levantamento de elementos lingüísticos para fundamentação dos estudos filológicos da língua alemã e a fixação dos textos do folclore literário germânico, expressão autêntica do espírito nacional. De qualquer forma, surge uma grande literatura infantil para encantar crianças de todo o mundo.

O compositor Richard Wagner inspirou-se em várias lendas recolhidas pelos dois irmãos para a composição de suas óperas, assim como da Deutsche Mythologie de Jacob Grimm para sua Tetralogia.

Características dos contos

Na tradição oral, as histórias compiladas não eram destinadas ao público infantil e sim aos adultos. Foram os irmãos Grimm que as dedicaram às crianças por sua temática mágica e maravilhosa. Fundiram, assim, esses dois universos: o popular e o infantil. O título escolhido para a coletânea já evidencia uma proposta educativa. Alguns temas considerados mais cruéis ou imorais foram descartados do manuscrito de 1810.

O Romantismo trouxe ao mundo um sentido mais humanitário. Assim, a violência presente nos contos de Charles Perrault, cede lugar a um humanismo, onde se destaca o sentido do maravilhoso da vida. Perpassam pelas histórias, de forma suave, duas temáticas em especial: a solidariedade e o amor ao próximo. A despeito dos aspectos negativos que continuam presentes nessas histórias, o que predomina, sempre são a esperança e a confiança na vida. É possível observar essa diferença, confrontando-se os finais da história de Chapeuzinho Vermelho em Perrault, que termina com o lobo devorando a menina e a avó, e em Grimm, onde o caçador abre a barriga do lobo, deixando que as duas fiquem vivas e felizes enquanto o lobo morria com a barriga cheia de pedras que o caçador ali colocou.

Os Contos de Grimm não são propriamente contos de fadas, distribuindo-se em:

– Contos de encantamento (histórias que apresentam metamorfoses, ou transformações, a maioria por encantamento);

– Contos maravilhosos (histórias que apresentam o elemento mágico, sobrenatural, integrado naturalmente nas situações apresentadas);

– Fábulas (histórias vividas por animais);

– Lendas (histórias ligadas ao princípio dos tempos ou da comunidade e onde o mágico aparece como “milagre” ligado a uma divindade);

– Contos de enigma ou mistério (histórias que têm como eixo um enigma a ser desvendado);

– Contos jocosos (humorísticos ou divertidos).

A característica básica de tais narrativas (qualquer que seja sua espécie literária) é a de apresentar uma problemática simples, um só núcleo dramático. A repetição, ou reiteração, juntamente com a simplicidade de problemática e da estrutura narrativa, é outro elemento constitutivo básico dos contos populares. Da mesma forma que a simplicidade da mente popular, ou da infantil, repudia as estruturas narrativas complexas (devido à dificuldade de compreensão imediata que elas apresentam), também se desinteressam da matéria literária que apresente excessiva variedade, ou novidades que alterem continuamente as estruturas básicas já conhecidas.

Essa reiteração dos mesmos esquemas na literatura popular-infantil vai, pois, ao encontro da exigência interior de seus leitores: apreciarem a repetição de situações conhecidas, porque isso permite o prazer de conhecer, por antecipação, tudo o que vai acontecer na história. E mais, dominando, a priori, a marcha dos acontecimentos, o leitor sente-se seguro interiormente. É como se pudesse dominar a vida que flui e lhe escapa.

Vários críticos afirmam serem as histórias dos Grimm incentivadoras do conformismo e da submissão. Ainda assim, a permanência dessas narrativas, oriundas da tradição popular, justifica o destaque conferido a estes autores alemães.

Contos mais famosos
Branca de Neve;
Cinderela;
João e Maria;
Rapunzel;
A Protegida de Maria;
O Ganso de Ouro;
O Alfaiate Valente;
O Lobo e as Sete Cabras;
Os Sete Corvos;
As Aventuras do Irmão Folgazão;
Os Músicos de Bremen.

Essas histórias não são de autoria dos Irmãos Grimm, apenas foram compiladas por eles.

Fonte:
pt.wikipedia.org

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Cristiane Madanêlo de Oliveira (Irmãos Grimm entre 1785 e 1863)

Jacok e Wilhelm Grimm

Inseridos num contexto histórico alemão de resistência às conquistas napoleônicas; os Irmãos Grimm recolhem, diretamente da memória popular, as antigas narrativas, lendas ou sagas germânicas, conservadas por tradição oral. Buscando encontrar as origens da realidade histórica germânica, os pesquisadores encontram a fantasia, o fantástico, o mítico em temas comuns da época medieval. Então uma grande Literatura Infantil surge para encantar crianças de todo o mundo.

Tinham dois objetivos básicos com a pesquisa:
– levantamento de elementos lingüísticos para fundamentação dos estudos filológicos da língua alemã;
– fixação dos textos do folclore literário germânico, expressão autêntica do espírito da raça.

O primeiro manuscrito da compilação de histórias data de 1810 e apresentava 51 narrativas. Em sua primeira edição, a compilação foi entitulada “Histórias das crianças e do lar” e já contava com mais algumas histórias. A qüinquagésima edição, última com os autores vivos, já totalizava 181 narrativas. Algumas dessas estórias são de fundo europeu comum, tendo sido também recolhidas por Perrault, no séc. XVII, na França (o que remete à existência de uma fonte comum).

Na tradição oral, as histórias compiladas não eram destinadas ao público infantil e sim aos adultos. Foram os Irmãos Grimm que dedicaram-nas às crianças por sua temática mágica e maravilhosa. Fundiram, assim, esses dois universos: o popular e o infantil. O título escolhido para a coletânea “Histórias das crianças e do lar” já evidencia uma proposta educativa. Alguns temas considerados mais cruéis ou imorais foram descartados do manuscrito de 1810.

O Romantismo trouxe ao mundo um sentido mais humanitário. Assim, a violência (presente nos Contos de Perrault) cede lugar a um humanismo, onde se destaca o sentido do maravilhoso da vida. Perpassam pelas histórias, de forma suave, duas temáticas em especial: a solidariedade e o amor ao próximo. A despeito dos aspectos negativos que continuam presentes nessas estórias, o que predomina, sempre, é a esperança e a confiança na vida.

Ex: Confrontando os finais da estória do “Chapeuzinho Vermelho”; em Perrault (que termina com o lobo devorando a menina e a avó) e em Grimm (onde o caçador chega, abre a barriga do lobo, deixando que as duas vivam vivas e felizes; enquanto o lobo morria com a barriga cheia de pedras que o caçador ali colocou…).

Vários críticos afirmam serem as histórias dos Grimm incentivadoras do conformismo e da submissão. Ainda assim, a permanência dessas narrativas, oriundas da tradição oral, justificam o destaque conferido a estes autores alemães.

Nos Contos de Grimm não há, propriamente, contos-de-fadas, distribuem-se em:
– contos-de-encantamento (estórias que apresentam metamorfoses, ou transformações, por encantamento, a maioria);
– contos maravilhosos (estórias que apresentam o elemento mágico, sobrenatural, integrado naturalmente nas situações apresentadas);
– fábulas (estórias vividas por animais, algumas);
– lendas (estórias ligadas ao princípio dos tempos, ou da comunidade, e onde o mágico aparece como “milagre” ligado a uma divindade);
– contos de enigma ou mistério (estórias que têm como eixo um enigma a ser desvendado);
– contos jocosos (humorísticos ou divertidos).

A característica básica de tais narrativas (qualquer que seja sua espécie literária) é a de apresentar uma problemática simples: um só núcleo dramático.

A repetição, ou reiteração, juntamente com a simplicidade de problemática e da estrutura narrativa, é outro elemento constitutivo básico dos contos populares. Da mesma forma que a elementaridade, ou simplicidade da mente popular, ou da infantil, repudia as estruturas narrativas complexas (devido à dificuldade de compreensão imediata que elas apresentam), também se desinteressam da matéria literária que apresente excessiva variedade, ou novidades que alterem continuamente as estruturas básicas já conhecidas.

Essa reiteração dos mesmos esquemas, na literatura popular-infantil, vai, pois, ao encontro da exigência interior de seus leitores: apreciarem a repetição das “situações conhecidas”, porque isso permite o prazer de conhecer, por antecipação, tudo o que vai acontecer na estória. E mais, dominando, a priori, a marcha dos acontecimentos, o leitor sente-se seguro interiormente. é como se pudesse dominar a vida que flui e lhe escapa …

Fonte:
Cristiane Madanêlo de Oliveira. “Irmãos Grimm: Jacob e Wilhelm (entre 1785 e 1863)”
Disponível http://www.graudez.com.br/litinf/autores/grimm/grimm.htm

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Irmãos Grimm (Os Sete Corvos)

Era uma vez um homem que tinha sete filhos, todos meninos, e vivia suspirando por uma menina. Afinal, um dia, a mulher anunciou-lhe que estava mais uma vez esperando criança.

No tempo certo, quando ela deu à luz, veio uma menina. Foi imensa a alegria deles. Mas, ao mesmo tempo, ficaram muito preocupados, pois a recém-nascida era pequena e fraquinha, e precisava ser batizada com urgência. Então, o pai mandou um dos filhos ir bem depressa até a fonte e trazer água para o batismo.

O menino foi correndo e, atrás dele, seus seis irmãos. Chegando lá, cada um queria encher o cântaro primeiro; na disputa, o cântaro caiu na água e desapareceu. Os meninos ficaram sem saber o que fazer. Em casa, como eles estavam demorando muito, o pai disse, impaciente:

– Na certa, ficaram brincando e se esqueceram da vida!

E, cada vez mais angustiado, exclamou com raiva:

– Queria que todos eles se transformassem em corvos!

Nem bem falou isso, ouviu um ruflar de asas por cima de sua cabeça e, quando olhou, viu sete corvos pretos como carvão passando a voar por cima da casa. Os pais fizeram de tudo para anular a maldição, mas nada conseguiram; ficaram tristíssimos com a perda dos sete filhos. Mas, de alguma forma, se consolaram com a filhinha, que logo ficou mais forte e foi crescendo, cada dia mais bonita. Passaram-se anos.

A menina nunca soube que tinha irmãos, pois os pais jamais falaram deles. Um dia, porém, escutou acidentalmente algumas pessoas falando dela:

– A menina é muito bonita, mas foi por culpa dela que os irmãos se desgraçaram…

Com grande aflição, ela procurou os pais e perguntou- lhes se tinha irmãos, e onde eles estavam. Os pais não puderam mais guardar segredo. Disseram que havia sido uma predestinação do céu, mas que o batismo dela fora a inocente causa. A partir desse momento, não se passou um dia sem que a menina se culpasse pela perda dos irmãos, pensando no que fazer para salvá-los.

Não tinha mais paz nem sossego. Um dia, ela fugiu de casa, decidida a encontrar os irmão onde quer que eles estivessem, nesse vasto mundo, custasse o que custasse. Levou consigo apenas um anel de seus pais como lembrança, um pão grande para quando tivesse fome, um cantil de água para matar a sede e um banquinho para quando quisesse descansar.

Foi andando, andando, se afastando cada vez mais, e assim chegou ao fim do mundo. Então, foi falar com o sol. Mas ele era assustador, quente demais e comia crianças. A menina fugiu e foi falar com a lua. Ela era horrorosa, mais fria que o gelo, e também comia crianças. Quando viu a menina, disse com um sorriso mau:
– Hum, hum… que cheirinho bom de carne humana!

A menina se afastou correndo e foi falar com as estrelas. Encontrou–as sentadas, cada uma na sua cadeirinha. Todas elas foram bondosas e amáveis com ela.

A Estrela D’alva ficou em pé e lhe deu um ossinho de frango, dizendo:
– Sem este ossinho, você não poderá abrir a Montanha de Cristal, e é na Montanha de Cristal que estão seus irmãos.

A menina pegou o ossinho, embrulhou-o num pedaço de pano, e de novo se pôs a andar. Andou, andou e afinal chegou na Montanha de Cristal. O portão estava fechado; quando desembrulhou o paninho para pegar o osso, ele estava vazio! Ela havia perdido o presente da estrela… E agora, o que fazer? Queria salvar os irmãos, mas não tinha mais a chave da Montanha de Cristal.

Sem pensar muito, meteu o dedo indicador dentro do buraco da fechadura e girou-o, mas o portão continuou fechado. Então, pegou uma faca em sua trouxinha, cortou fora um pedaço do dedo mindinho, meteu o pedaço do dedo na fechadura: felizmente, o portão se abriu.

Assim que ela entrou, um anãozinho veio a seu encontro:

– O que esta procurando, minha menina?

– Procuro meus irmãos, os sete corvos.

– Os senhores corvos não estão em casa e vão se demorar bastante. Mas, se quiser esperar, entre e fique à vontade.

Assim dizendo, o anãozinho foi para dentro e voltou trazendo a comida dos corvos em sete pratinhos, e a bebida em sete copinhos. A menina comeu um bocadinho de cada prato e bebeu um golinho de cada copo, mas deixou cair o anel que trouxera dentro do último copinho. Nesse momento, ouviu-se um zunido e um bater de asas no ar.

– São os senhores corvos que vêm vindo – explicou o anãozinho. Eles entraram, quiseram logo comer e beber e se dirigiram para seus pratos e copos. Então um disse para o outro:

– Alguém comeu no meu prato! Alguém bebeu no meu copo! E foi boca humana!

E quando o sétimo corvo acabou de beber a última gota de seu copo, o anel rolou até o seu bico. Ele reconheceu o anel de seus pais e exclamou:

– Queira Deus que nossa irmãzinha esteja aqui! Então, estaremos salvos!

Ao ouvir esse pedido, a menina, que estava atrás da porta, saiu e foi ao encontro deles. Imediatamente, os corvos recuperaram sua forma humana. Abraçaram-se e se beijaram na maior alegria e, muito felizes, voltaram todos para casa.

Fonte:
http://www.logoslibrary.eu/

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Irmãos Grimm (Rumpelstichen)

Era uma vez um moleiro muito pobre, que tinha uma filha linda. Um dia ele se encontrou com o rei e, para se dar importância, disse que sua filha sabia fiar palha, transformando-a em ouro.

– Esta é uma habilidade que me encanta – disse o rei. – Se é verdade o que diz, traga sua filha amanhã cedo ao castelo. Eu quero pô-la à prova. No dia seguinte, quando a moça chegou, o rei levou-a para um quartinho cheio de palha, entregou-lhe uma roda e uma bobina e disse:

– Agora, ponha-se a trabalhar. Se até amanhã cedo não tiver fiado toda esta palha em ouro, você morrerá! – Depois saiu, trancou a porta e deixou a filha do moleiro sozinha.

A pobre moça sentou-se num canto e, por muito tempo, ficou pensando no que fazer. Não tinha a menor idéia de como fiar palha em ouro e não via jeito de escapar da morte. O pavor tomou conta da jovem, que começou a chorar desesperadamente. De repente, a porta se abriu e entrou um anãozinho muito esquisito.

– Boa tarde, minha linda menina – disse ele. – Por que chora tanto?

– Ah! – respondeu a moça entre soluços. – O rei me mandou fiar toda esta palha em ouro. Não sei como fazer isso!

– E se eu fiar para você? O que me dará em troca?

– Dou-lhe o meu colar. O anãozinho pegou o colar, sentou-se diante da roda e, zum-zum-zum: girou-a três vezes e a bobina ficou cheia de ouro. Então começou de novo, girou a roda três vezes e a segunda bobina ficou cheia também. Varou a noite trabalhando assim e, quando acabou de fiar toda a palha e as bobinas ficaram cheias de ouro, sumiu.

No dia seguinte, mal o sol apareceu, o rei chegou e arregalou os olhos, assombrado e feliz ao ver todo aquele ouro. Contudo, seu ambicioso coração não se satisfez. Levou a filha do moleiro para outro quarto um pouco maior, também cheio de palha, e ordenou-lhe que enchesse as bobinas de ouro, caso quisesse continuar viva. A pobre moça ficou sentada olhando a palha, sem saber o que fazer. “Ah… se o anãozinho voltasse…”, pensou, querendo chorar. Nesse instante a porta se abriu e ele entrou.

– O que você me dá, se eu fiar a palha? – perguntou.

– Dou-lhe o anel do meu dedo. Ele pegou o anel e se pôs a trabalhar. A cada três voltas da roda, uma bobina se enchia de ouro. No outro dia, quando o rei chegou e viu as bobinas reluzindo de ouro, ficou mais radiante.

Mas ainda dessa vez não se contentou. Levou a moça para outro quarto ainda maior, também cheio de palha e disse:

– Você vai fiar esta noite. Se puder repetir essa maravilha, quero que seja minha esposa. O rei saiu, pensando: “Será que ela é mesmo filha do moleiro? Bah! O que importa é que vou me casar com a mulher mais rica do mundo!” Quando a moça ficou sozinha, o anãozinho apareceu pela terceira vez e perguntou:

– O que você me dá, se ainda dessa vez eu fiar a palha?

– Eu não tenho mais nada…

– Se é assim, prometa que me dará seu primeiro filho, se você se tornar rainha. “Isso nunca vai acontecer”, pensou a filha do moleiro. E não tendo saída, prometeu ao anãozinho o que ele quis.

Imediatamente ele se pôs a trabalhar, girando a roda a noite inteira. De manhãzinha, quando o rei entrou no quarto, encontrou prontinho o que havia exigido. Cumprindo sua palavra, casou-se com a bela filha do moleiro, que assim se tornou rainha.

Um ano depois, ela deu à luz uma linda criança. Já nem se lembrava mais do misterioso anãozinho. Mas naquele mesmo dia, a porta se abriu repentinamente e ele entrou.

– Vim buscar o que você me prometeu – disse. A rainha ficou apavorada e ofereceu-lhe todas as riquezas do reino, se ele a deixasse ficar com a criança. Mas ele não quis.

– Não! Uma coisa viva vale muito mais para mim que todos os tesouros do mundo! A rainha ficou desesperada; tanto chorou e se lamentou, que o anãozinho acabou ficando com pena.

– Está bem – disse. – Vou lhe dar três dias. Se no fim desse prazo você adivinhar o meu nome, poderá ficar com a criança. A rainha passou a noite lembrando os nomes que conhecia e mandou um mensageiro percorrer o reino em busca de novos nomes. Na manhã seguinte, quando o anãozinho chegou, ela foi dizendo:

– Gaspar, Melquior, Baltazar- e assim continuou, falando todos os nomes anotados. Mas a cada um deles o anão respondia balançando a cabeça:

– Não é esse meu nome! No segundo dia, a rainha pediu às pessoas da vizinhança que lhe dessem seus apelidos, e fez uma lista dos nomes mais esquisitos, como: João das Lonjuras, Carabelassim, Pernil-mal-assado e outros. Mas a todos a resposta do anão era a mesma:

– Não é esse meu nome! No terceiro dia, o mensageiro que andava pelo reino à cata de novos nomes voltou e disse:

– Não descobri um só nome novo. Mas eu estava andando por um bosque no alto de um monte, onde raposas e coelhos dizem boa-noite uns aos outros, quando vi uma cabana. Diante da porta ardia uma fogueirinha e um anão muito esquisito, pulando num pé só ao redor do fogo, cantava:

– Hoje eu frito! Amanhã eu cozinho! Depois de amanhã será meu o filho da rainha! Coisa boa é ninguém saber Que meu nome é Rumpelstichen! Pode-se imaginar a alegria da rainha, quando ouviu esse nome. E quando um pouco mais tarde o anãozinho veio e perguntou:

– Então, senhora rainha, qual é meu nome? Ela disse antes:

– Será Fulano?

– Não!

-Será Beltrano?

– Não!

– Será por acaso Rumpelstichen?

– Foi o diabo que te contou! – gritou o anãozinho furioso. E bateu o pé direito com tanta força no chão, que afundou até a virilha. Depois, tentando tirar o pé do buraco, agarrou com ambas as mãos o pé esquerdo e puxou-o para cima com tal violência, que seu corpo se rasgou em dois. Então, desapareceu.

Fonte:
http://www.logoslibrary.eu/

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Em Tempo (Feira de Livros e Evento Multi-Midia em Sorocaba)

Dia 08 de março ocorrerá no Centro de Estudos Filosóficos Iluminattis (Rua Riachuelo, nº 437 – Vergueiro – Sorocaba / SP) um evento multi-mídia com a presença do escritor Valdecy Alves e do cineasta Flavio Alves. Ambos, cearenses de nascimento, viveram em Sorocaba entre a década de 1980 a 1990, tendo uma importante atuação na cena cultural sorocabana com a criação de grupos teatrais, jornal Cultural “Pedaços”, intervenções artísticas de rua, edição de livros, produção de vídeos entre outros. Na oportunidade será lançado oficialmente o cordel “A HIstória de Preto Pio e a fuga de escravos de Capivari, Porto Feliz e Sorocaba”
.
O evento do dia 08 de março contará com exibição de vídeos, exposição, debates e uma feira de livros.
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O evento tem ainda o apoio do CCTN (Centro de Cultura e Tradições Nordestinas) de Sorocaba.
Para participar da Feira de Livros o autor deve doar um exemplar para a Biblioteca do Centro de Estudos ILuminattis. Para cada livro vendido o Centro Iluminattis cobrará 15% de comissão. Os livros ficarão expostos durante todo o mês de março.
Os amigos que queiram participar, por favor entrem em contato através do e-mail: anafranco@idealguia.com.br (com Ana) ou pelo telefone: 3234 3940 (com Regina ou Ana).
Carlos Carvalho Cavalheiro.

Fonte:
Acontece em Sorocaba – Últimas Notícias
Douglas Lara (15) 3227-2305
http://www.sorocaba.com.br/acontece

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Cristiane Mandanelo de Oliveira (Infância e velhice atadas pela literatura infantil)

O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. (Machado de Assis)

A velhice é um tema antigo e recorrente na literatura infantil, entretanto esse momento da vida não é representada da mesma maneira, sendo influenciada por fatores sociais, culturais, políticos e, principalmente, econômicos. Por estar retratada de forma multifacetada, o tema torna-se de grande potencial para estudos que investiguem as diferentes representações de senilidade nos textos literários. Este trabalho percorre essa vereda à luz da teoria das representações sociais com base num corpus de 70 obras literárias infantis brasileiras contemporâneas.

Nos últimos anos, o conceito de representação social tem aparecido com grande freqüência em diversas áreas, pois é uma temática que perpassa todas as ciências humanas. Com sua origem nos estudos sociológicos de Emile Durkheim, é na Psicologia Social que a teoria das representações sociais vai ser desenvolvida.

Serge Moscovici lança em La Psycanalyse, son image, son public, publicado em 1961 a matriz da teoria das representações sociais, que só receberá ênfase a partir do início dos anos 80. A proposta é trabalhar com o pensamento social de maneira dinâmica e em sua diversidade, a fim de entender como os indivíduos constroem-se a partir da inserção social e como tornam-se agentes da constituição de sua própria realidade (MOSCOVICI, 1978: 35).

Moscovici conceituou representação social como processo de assimilação e construção da realidade pelos indivíduos. Dessa forma, ele estabelece uma relação maior entre indivíduo e sociedade, não considerando representação social como uma imposição como propusera Durkheim. À luz do mito da caverna de Platão, toda representação (tornar presente de novo) é uma forma de visão da realidade, uma interpretação. As representações sociais são culturalmente construídas, mas não são estáticas uma vez que os atores sociais podem interagir nesse processo.

As pessoas também criam representações individuais, que podem ratificar ou não as representações socialmente constituídas. Por conta disso, deve-se entender os leitores (tomados aqui em seu sentido mais amplo – leitores do mundo) como seres críticos e aptos à assimilação e também à mudança em relação a esses paradigmas sociais.

Na literatura, as representações podem ser consideradas como produção cultural, na medida em que realçam os signos de uma sociedade e determinam limites entre o desejável e o indesejável. Por isso mesmo tornam-se um dos elementos mais significativos para a formação do ideário nacional, porque atuam na sua construção, difusão e alteração. Com essa dimensão, percebe-se a íntima relação entre palavra e poder, porque as representações sociais podem manter e/ou reforçar uma posição determinada por um grupo específico dominante ou até mesmo transformá- las.

Entre os séculos XVI e XVII, houve o nascimento da sociedade moderna e com ela o surgimento do status de infância. Até então, as crianças eram somente adultos em miniatura, sem distinções de sinais culturalmente reconhecidos como roupas ou atividades especiais, por exemplo. Já a literatura infantil apareceu durante o século XVII, época em que há mudanças na estrutura da sociedade, com a ascensão da família burguesa. A emergência dessa literatura associa-se, desde as origens, a uma função utilitário-pedagógica, já que as histórias eram elaboradas para se converterem em divulgadoras dos novos ideais burgueses.

Até bem pouco tempo, a literatura infantil era considerada como um gênero secundário, vista pelo adulto como algo pueril (nivelada ao brinquedo) ou útil (forma de entretenimento). A valorização da literatura infantil, como formadora de consciência dentro da vida cultural das sociedades, é bem recente. Com base nessas considerações, pode-se depreender o poder da literatura infantil, pois apresenta um potencial de manipulação de ideologias em formação.

Essa literatura esteve durante praticamente todo seu percurso histórico a serviço de ratificar as representações sociais canônicas que valorizavam a heterossexualidade, os princípios ocidentais sobretudo europeus, o capitalismo, a cor branca, a religião católica e a busca da eterna juventude. É nesse sentido que Simone de Beauvoir denuncia a “conspiração do silêncio” de alguns grupos sociais que perpetuam uma imagem da velhice como fase temida e apavorante da vida (BEAUVOIR, 1990: 79).

O conceito de velhice depende de vários fatores, notadamente de referencial social e psicológico. No Brasil, a faixa etária limite para ingresso oficial na categoria 3ª idade é de 65 anos. A humanidade, por seu ideal de eterna juventude, acaba por dividir a vida em ser mais ou menos jovem, negando a velhice e evitando-a o quanto mais, numa associação com a morte.

A população idosa mundial tem crescido de modo significativo, redesenhando o perfil etário dos países e, conseqüentemente, promovendo adaptações sociais necessárias. No caso de países em desenvolvimento, como o Brasil, a pirâmide etária revela um aumento significativo de pessoas idosas. Os indicadores sociais denunciam graves problemas estruturais no Brasil para lidar com esse novo perfil etário. Tal situação agrava a idéia de afastamento da senilidade, pois tem sido o lugar ocupado pelo sujeito no sistema de produção que espelha a posição social que cada um detém.

Em função da crescente preocupação com a velhice, as obras literárias espelham a pluralidade de papéis sociais assumidos pela chamada terceira idade. A constituição da idéia de velhice no Brasil está em franco processo e reflete-se em todas as manifestações do pensamento humano, inclusive a literatura. Diante da análise do corpus, foi possível identificar algumas representações a que a velhice está associada na literatura infantil brasileira. Serão propostos os principais papéis depreendidos:

1) SOZINHO E COMPANHEIRO DE AVENTURAS

Muitos idosos brasileiros vivem sós enquanto outros estão em companhia de suas famílias, mas essa condição não é garantia de satisfação. Isso se deve ao fato de a pessoa de mais idade não ter garantidos sua autonomia e seu papel dentro da família. Muitos são tratados como agregados aos quais não cabe qualquer poder de decisão perante a família.

Manoel de Barros em seu livro Fazedor de amanhecer (2001) fala do abandono em um poema chamado “Avô”:

Meu avô dava grandeza ao abandono.
Era com ele que vinham os ventos a conversar
Sentava-se o velho sobre uma pedra nos fundos do quintal
E vinham as pombas e vinham as moscas a conversar.
Saía do fundo do quintal pra dentro da casa
E vinham os gatos a conversar com ele.
Tenho certeza que o meu avô enriquecia a palavra abandono
Ele ampliava a solidão dessa palavra.

O livro Molecagens do vovô, de Márcio Trigo (1998), é um exemplo desse papel. Em função de não possuírem voz, avô e neto tornam-se muito próximos, amigos íntimos, cúmplices de molecagens. A história mostra bem a questão do sustento sendo usada contra a velhice como uma garantia de poder e de voz. A fuga do avô para não causar mais problemas à filha e ao genro assemelha-se às atitudes infantis. O único que dá atenção ao idoso da casa, entende suas dificuldades, oferece-lhe apoio é o neto e grande parceiro de brincadeiras.

Para não se sentirem sós, muitos idosos vivem em função de animais de estimação ou à espera da visita dos netos com sua vivacidade. Assim, há todo um ritual de confecção de doces, construção de brinquedos e concessões para as crianças. São muitos os livros que mostram esse processo de preparação e ansiosa espera. Nesse sentido, a casa dos avós torna-se uma espécie de parque de diversões, com o fascínio infantil pelo culto à memória de cada objeto que guarda uma história. Os livros Casa de vó (1994), de Guiomar Paiva Brandão, A cristaleira (1999) de Graziela Bozano Hetzel e Bisa Bia, bisa Bel (1985), de Ana Maria Machado, registram bem esse mundo fascinante.

Vovó quer namorar (1990) de Maria de Lourdes Krieguer tematiza a vaidade da avó Frosina e a repressão da filha que diz não serem hábitos de “velha de respeito” cuidar da aparência e enfeitar-se. A neta de Frosina redescobre em sua avó uma grande companheira que não morreu para a vida, menos ainda para o amor.

2) SÁBIO E CONTADOR DE HISTÓRIAS

Com o advento da sociedade burguesa, a representação de extrema sabedoria associada à velhice foi perdendo o ar de sacralidade. A partir do referencial histórico, essa representação da velhice sábia remonta aos contos tradicionais como um resgate da imagem do contador de histórias (Contos da Mamãe Gansa). Apesar da extrema valorização da informação e com as mudanças tecnológicas constantes, essa imagem da velhice como fonte de sabedoria se mantém presente na literatura.

Nessa linha, não se pode deixar de resgatar D. Benta de Lobato e a Velha Totônia de José Lins do Rego, exímias contadoras de histórias a quem cabe a função indireta de educadoras. Com seus conselhos e conversas, a velhice assume o papel difusor das tradições e mantenedor do referencial cultural daquele grupo social. Diante da corrida da vida moderna, o tempo dos adultos para ouvir as fabulosas histórias da família torna-se cada vez menor. As crianças desejam inserir-se nessas histórias familiares, deixar também sua marca naquele grupo a que pertencem para virarem histórias no futuro. Então faz-se a união perfeita: quem tem muitas memórias a reviver e tempo para contá-las com quem está ávido por ser e ter memórias e tem tempo para ouvi-las.

O livro Por parte de pai, de Bartolomeu Campos de Queirós (1995), revela a admiração de um menino do interior por seu avô, que registrava a história da cidade nas paredes. Tatiana Belinky em seu livro autobiográfico Bidínsula e outros retalhos (1990) estabelece um elo entre os momentos vividos e pedaços de retalhos que integram uma grande colcha de retalhos que é a vida. Em Minha avó foi um bebê (2000) de Paula Sandroni, a neta faz uma verdadeira viagem ao passado através das fotografias da avó e resgata os costumes daquela época, como também faz No tempo de meus avós (2000), de Nye Ribeiro.

Como a imigração faz parte da constituição social brasileira, há também alguns títulos que enfatizam as referências culturais dos países de origem de idosos. As histórias de outras culturas são um convite à imaginação dos netos desses imigrantes como ocorre em Uma vovó italiana (1996) e Vovô nasceu em Portugal (1998), ambos de Guilherme Del Campo e Marilda Del Campo.

3) REGISTRO E PERDA DE MEMÓRIA

Ecléa Bosi em Memória e sociedade: lembrança de velhos (1987) trata a relação do envelhecimento com as sociedades de forma bastante competente. Nesse livro de referência para estudos sobre memória e velhice, a autora entende a função social da velhice com o lembrar associado ao aconselhar – “memini moneo” – portanto a memória é o grande tesouro da velhice.

Segundo o conceito freudiano de memória, o passado retomado é recriado onde atuam componentes imaginativos, daí a necessidade de verbalizar as histórias por parte dos velhos. Percebe-se, além da preocupação de manutenção dessa memória cultural, uma preocupação com a perda da capacidade de relembrar fatos passados.

Henri Bergson distingue memória hábito ou orgânica, ligada a ações habituais, e memória-lembrança ou psíquica, ligada às emoções que retoma o passado mediante ligações. A grande preocupação na velhice é a perda dessa memória-lembrança e todos os elos afetivos que ela representa. O livro Colcha de retalhos (1995) de Conceil Corrêa da Silva e Nye Ribeiro Silva conta a história de um menino e sua avó que criam uma colcha-memória, daquelas que não se encontra a venda em lojas. A afetividade é o elo entre infância e velhice juntas na empreitada de registrar fora dos limites do psíquico a memória que se quer guardar como um tesouro precioso.

Há livros que retratam também a agonia da perda paulatina da capacidade mnemônica, como A vovó distraída (1991) de Regina Lúcia Pires Nemer. O eufemismo na escolha do adjetivo “distraída” não dramatiza a questão na história dessa senhora que é chamada de louca porque confunde um cão com um leão que leva para passear. Os netos não se abalam com os esquecimentos e freqüentes trocas da avó, até se divertem com eles. É esse mesmo adjetivo “distraída” que Tatiana Belinky usa em A alegre vovó Guida que é um bocado distraída (1988), para retratar as trocas que a senhora faz no seu cotidiano: coloca leite no sapato, peruca no pé, óculos na sopa etc. Tais confusões também não são apresentadas como um problema e sim como um motivo de galhofa.

4) BRUXOS E MISTERIOSOS

A imagem de várias bruxas dos contos tradicionais povoam o imaginário desde os contos tradicionais da Idade Média. Perrault e os Irmãos Grimm em diversas histórias registraram essas figuras perigosas e assustadoras, como a bruxa de João e Maria ou a madrasta de Branca de Neve.

No livro A mãe da mãe da minha mãe (1988) de Terezinha Alvarenga, a imagem da velhice associada a uma bruxa é desfeita com a aproximação da menina de 5 anos e sua bisavó. A figura da querida bisa assusta: “De casaco escuro, saia preta, meias grossas, sapatos de lã fechados, mais curvada que galhos de café, surgiu das sombras uma corcunda de tanto tempo e cabelos enrolados em coque. (…) aqueles olhos brilharam no escuro” (ALVARENGA, 1988: 13).

Parece haver uma construção social de medo até em imagens de cultura popular como o velho do saco, daí a dificuldade de visualização. Em O velho que trazia a noite (1995) de Sérgio Capparelli, a figura do velho é sinistra e conta com uma perna de pau. A mãe do menino diz ser esse velho que traz a noite e o menino associa essa figura ao tal velho do saco da cultura popular. Quando há um eclipse e a morte do velho, o menino se emociona com a noite e acredita que o velho tinha razão em trazer a noite e seus mistérios.

Na cultura ocidental, a morte não é recepcionada com naturalidade e sim como uma perda, fonte de sofrimento. Com essa preocupação, várias obras infantis problematizam a morte de pessoas mais velhas, em especial os avós. O inconformismo diante do afastamento dos avós é bem vivificado no livro Anúncio de jornal (1996), de Regina Siguemoto. O menino coloca um anúncio no jornal para procurar a avó porque sente saudades, mesmo tendo a mãe dito que a avó agora está morando no céu. As frases finais são permeadas da tristeza da perda diante de um passado feliz que ficou na memória do neto: “Eu ainda não cresci muito, não sei das coisas como você. Volta, Vó!” / “Vó, agora vou parar, pra você eu conto, tô chorando…” (SIGUEMOTO, 1996: 17)

Essa problemática de enfrentamento da morte pela criança acaba recebendo uma conotação poética em muitos textos. É o que acontece em Uma vez uma avó (1992) de Luís Pimentel, história reveladora de uma figura enrugada, de peitos murchos com o sorriso sem dentes mais bonito do ocidente. A senhora ativa em afazeres, cuida de galinhas, porcos e cabras, maneja enxada e ainda toma conta dos netos. A narração da morte da velha é bem simbólica e as frases finais revelam esse viés: “No dia que a avó se tornar uma vez, fica mais perto de vocês” (PIMENTEL, 1992: 11).

Ana Maria Machado problematiza essa representação social mística associada à velhice e que gera medo nas crianças em seu livro A velha misteriosa (1994). Um grupo de meninos ficava em frente à casa da senhora e viram-na mexendo um caldeirão. Como um reflexo dessa imagem culturalmente construída, associaram a senhora a uma bruxa de imediato. Só se desfaz essa imagem quando uma das crianças resolve ir à casa da senhora, pois afirma que não conhece uma velha que não seja boazinha. No final, descobre-se que Tia Dolinha era uma doceira que aumentava sua renda com essa atividade que dependia do caldeirão. Os meninos passam a ajudá-la na árdua tarefa e partilham do prazer de saborear os excelentes doces e as histórias que Dolinha tem a oferecer. Indiretamente, percebe-se o registro de que a velhice ainda trabalha durante a aposentadoria para complementar a renda da aposentadoria.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O objetivo da literatura infantil, se é que se pode restringir com qualquer adjetivo essa forma de arte, pelo seu papel de iniciar o ser humano no mundo literário, deve ser um instrumento para a sensibilização da consciência, para a expansão da capacidade de analisar o mundo, sem estar a serviço de qualquer interesse.

A partir dessas representações das pessoas idosas, constrói-se um imaginário social em que a velhice associa-se às perdas a ela relacionadas, ou transmite bondade e candura, com uma relação muito próxima com a infância. De um modo geral, tomando por base o corpus estudado, conclui-se que os valores apresentados pela literatura infantil refletem-se na formação de uma representação com conotações positivas.

Muito há que se fazer para se erradicar a “conspiração do silêncio” levantada por Simone de Beauvoir, mesmo junto ao público infantil. Livros que criam estereótipos da velhice sempre feliz e sem problemas não levam a uma visão crítica do que representa a velhice para a sociedade brasileira. Mesmo com a falta de senhoridade que muitas vezes se impõe à velhice, crê-se que é imprescindível resgatar o papel social da chamada terceira idade. Para isso, a literatura infantil oferece autores de sensibilidade para conciliar os problemas reais vividos nessa fase da vida com a fantasia, indispensável ao universo infantil.

Imaginar que livros de temática de morte não devem ser lidos por crianças para que sejam poupadas só afasta a infância de sua outra ponta, que Bentinho-Casmurro tanto queria atar na casa de Matacavalos. Com efeito, a principal colaboração desta investigação foi mostrar que a literatura infantil reflete essa afinidade entre velhice e infância. O desejo principal que fica aqui como um registro é de que se permita ao ser da velhice ocupar com honra o espaço que sempre foi seu: sabedoria por experiência. No desejo de que preservemos esse tesouro da memória coletiva, fica como registro uma frase de um africano para nossa reflexão: “Na África, quando um velho morre, é uma biblioteca que se queima”.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALVARENGA, Terezinha. A mãe da mãe da minha mãe. Belo Horizonte: Miguilim, 1998.
ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. Rio de Janeiro: Aguilar, 1959.
BARROS, Manoel de. O fazedor de amanhecer. Rio de Janeiro: Salamandra, 2001.
BELINKY, Tatiana. A alegre vovó Guida que é um bocado distraída. São Paulo: Editora do Brasil, 1988.
__________. Bidínsula e outros retalhos. São Paulo: Atual, 1990.
BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembrança de velhos. São Paulo: T. A. Queiroz – Editora da Universidade de São Paulo, 1987.
BRANDÃO, Guiomar Paiva. Casa de vó. Belo Horizonte: Lê, 1994.
CAMPO, Guilherme Del e Marilda Del Campo. Uma vovó italiana. Sâo Paulo: Paulinas, 1996.
__________ . Vovô nasceu em Portugal. São Paulo: Paulinas, 1998.
CAPPARELLI, Sérgio. O velho que trazia a noite. Porto Alegre: Kuarup, 1995.
HETZEL, Graziela Bozano. A cristaleira. Rio de Janeiro: Ediouro, 1999.
KRIEGUER, Maria de Lourdes. Vovó quer namorar. São Paulo: FTD, 1990.
MACHADO, Ana Maria. Bisa Bia, bisa Bel. Rio de Janeiro: Salamandra, 1985.
__________ . A velha misteriosa. Rio de Janeiro: Salamandra, 1994.
MOSCOVICI, Serge. A representação social da psicanálise. Rio de Janeiro. Zahar, 1978.
NEMER, Regina Lucia Pires. A vovó distraída. Rio de Janeiro: Ed. Didática e Científica, 1991.
PIMENTEL, Luís. Uma vez uma avó. Belo Horizonte: Lê, 1992.
QUEIRÓS, Bartolomeu Campos. Por parte de pai. Belo Horizonte: RHJ, 1995.
RIBEIRO, Nye. No tempo de meus bisavós. São Paulo: Editora do Brasil, 2000.
SANDRONI, Paula. Minha avó já foi um bebê! São Paulo: Global, 2000.
SIGUEMOTO, Regina. Anúncio no jornal. São Paulo: Editora do Brasil, 1996.
SILVA, Conceil Corrêa da e Nye Ribeiro Silva. A colcha de retalhos. São Paulo. Ed. Do Brasil, 1995.
TRIGO, Márcio. Molecagens do vovô. São Paulo: Ática, 1998.

Fonte:
Cristiane Madanêlo de Oliveira. “Infância e Velhice Atadas pela Literatura Infantil”
Disponível na internet via WWW URL: http://www.graudez.com.br/litinf/trabalhos/ufrj1.htm

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Richard Wagner (O Anel do Nibelungo: Parte 1: O Ouro do Reno)

Dando início a série “Literatura na Música”, discorreremos sobre algumas óperas famosas.

O ciclo de óperas O Anel do Nibelungo (Der Ring des Nibelungen) é uma das obras mais importantes de Richard Wagner. É baseado na mitologia nórdica, semelhante à germânica e mais documentada. Música e libretto foram escrito por Wagner entre 1848 e 1874.
A obra é constituída das óperas:
Das Rheingold (O ouro do Reno) – prólogo
Die Walküre (A Valquíria)
Siegfried
Götterdämmerung ou Ragnarök (O Crepúsculo dos Deuses)

1 – O OURO DO RENO

Ato Único – Cena 1.

Nas Águas do Reno, três ninfas, as irmãs “ondinas” – uma espécie de “sereias de água doce” (sem cauda de peixe), jovens guardiãs do “Ouro do Reno” – nadam, em ágeis movimentos. As mais afoitas, Wellgunde e Woglinde, brincam de correr atrás uma da outra, como crianças travessas. A terceira, Floßhilde, mais ajuizada, repreende as irmãs por sua brincadeira excessiva e seu descuido na vigilância do “Ouro”. Sem ser visto pelas três, um gnomo, o “nibelungo” Alberich, sobe a um rochedo e as observa, encantado. Dirigindo-se às jovens, elogia-lhes a graça, manifestando o desejo de tê-las para si. Elas, a princípio, assustam-se, mas logo passam ao gracejo, ante a investida apaixonada do feio e repulsivo gnomo. Maliciosamente – na típica malícia da implicância infantil – elas fingem ceder a suas tentativas, mas logo fogem, e caçoam dele. As três alternam-se, uma a uma, nessa maldosa brincadeira, despertando a raiva de Alberich, que, por fim, pára, exausto e furioso, erguendo, impotente, o punho cerrado.

Neste momento, começa algo a brilhar, de dentro das águas, num fulgor dourado que intensifica-se até ocupar todo o ambiente. As três ninfas param de brincar e divertir-se à custa do nibelungo, e passam a reverenciar aquela irradiação esplêndida, a que chamam “Ouro do Reno”: “Ouro do Reno! Ouro do Reno! Luminoso júbilo!”- Intrigado e curioso, o gnomo pergunta às meninas “o que é aquilo que tanto brilha”. Elas demonstram incredulidade perante o fato de alguém desconhecer “a esplêndida luz do fundo do rio, que reluz, sublime, através das águas”. Convidam o gnomo a participar de sua alegria, banhando-se, com elas, na luminosidade que se faz. Alberich não compreende o devoção das ninfas àquele “ouro”, que para ele nada significa. Woglinde e Wellgunde, empolgadas, deixam escapar comentários sobre o poder do ouro, “de cuja beleza o gnomo não faria pouco caso, se conhecesse a sua magia: aquele que do Ouro do Reno forjar um anel tornar-se-á senhor do mundo.”

Floßhilde, na prudência que lhe é peculiar, adverte as irmãs, que falam demais, pondo em risco a segurança do Ouro. As outras riem-se de seus cuidados, uma vez que “só aquele que renunciar ao amor” poderá apossar-se do Ouro, e o gnomo, lascivo que é, jamais se disporia a tal privação. Floßhilde concorda e despreocupa-se. As três voltam a convidar Alberich a participar do seu júbilo. Ele, porém, numa atitude totalmente mudada, olha fixamente para o Ouro e manifesta um resto de dúvida – talvez simulada – quanto ao poder mágico mencionado pelas jovens: “Estais brincando! Vou entrar no vosso jogo!” E salta ao rochedo onde está o Ouro. As meninas movimentam-se em algazarra, e, ainda sem perceber a intenção de Alberich, voltam a caçoar do nibelungo. Mas ele conclui seu objetivo: chega ao cume do rochedo, leva a mão ao Ouro e, após proferir: “Assim eu amaldiçôo o Amor!”, foge com sua prenda. As águas baixam, imergindo consigo as ondinas, que escutam, vinda do subsolo, a terrível gargalhada de Alberich, e gritam por socorro pelo Ouro roubado. A luminosidade anterior dá lugar a densa escuridão; as águas continuam baixando.

Ato Único – Cena 2.

A cena altera-se ante nossa vista, à medida em que as águas assumem o aspecto de nuvens, que transformam-se gradualmente numa névoa diáfana, sob uma claridade matinal, e vemo-nos diante de um espaço amplo nas montanhas. A luz solar, cada vez mais viva, torna visível um imponente castelo, sobre um cume rochoso. Num ponto da cena, sobre um terreno florido, dormem Wotan, o Rei dos Deuses, e sua mulher, Fricka, a Deusa do Matrimônio.

Esta acorda e tenta despertar o marido, que não acorda de imediato, e põe-se a falar, em sonho, sobre seu contentamento pelo castelo, cuja construção acaba e ser concluída: “A beatífica mansão do fausto, cujas portas e ameias hão de guardar-me; a honra do homem e o poder eterno, que elevam-se à glória imperecível!” Fricka, irritada, sacode-lhe o corpo, forçando-o a despertar: “Deixa de devaneios! Acorda e pensa!

Ao despertar e erguer-se, Wotan manifesta a mesma disposição de ânimo, e contempla, extasiado, “o mais augusto, o mais magnífico edifício!” Fricka o repreende por sua fixação na imponência da fortaleza, pois há um porém: “Esqueces, acaso, o preço que prometeste pagar?” O pagamento combinado é justamente Freia, a Deusa da Juventude, irmã de Fricka, e os construtores do castelo, a quem foi prometida a cunhada de Wotan, são os gigantes Fasolt e Fafner.

Wotan, displicente e sereno, responde a Fricka, como dando a entender que ela não deve imiscuir-se neste assunto: “eis a fortaleza, erguida, graças aos fortes gigantes; quanto ao pagamento, não te preocupes”. A deusa, revoltada, reprova a atitude do marido, “leviano, irônico”; diz que, fosse ela avisada a tempo, teria impedido aquele acerto, “mas vós, homens, tudo ocultam às mulheres, para que possam cometer sossegados os vossos desatinos; assim pusestes à venda minha querida irmã, tudo por causa da avidez que vós, os varões, têm pelo poder!

Sempre fleumático, Wotan argumenta, perguntando à mulher se ela é mesmo tão isenta de “semelhante avidez”, já que fôra ela própria que sugerira a construção do castelo. A resposta de Fricka – cujas palavras e a bela temática musical expressam nitidamente seu caráter caseiro e familiar – esclarece que “desejando a fidelidade de meu esposo, fui tola e julguei que um lar aconchegante e belo poderia sossegá-lo dentro de casa; mas a casa para ti nada mais significou que soberania e poder; o castelo só serviu para aumentar o tormento.” Seguindo a mesma linha melódica, um tanto alterada, Wotan – que é dado a freqüentes e longas ausências, e nada tem de marido fiel – replica, em tom de riso, que seria inútil aos intentos da mulher mantê-lo dentro da fortaleza, pois, mesmo apartado do mundo, ele disporia dele, à distância. Fricka volta a repreendê-lo com veemência, acusando-o de não respeitar nem valorizar as mulheres. Ele, agora sério, responde com severidade à acusação da esposa: “Para obter-te como mulher, perdi um de meus olhos;” – pois, de fato, lhe falta um olho – “que tola censura acabas de fazer!” E acrescenta que, quanto a Freia, não a dará em pagamento aos gigantes: jamais levara a sério aquele acordo. Fricka, então, exige-lhe atitude: “Trata, pois, de protegê-la agora!” A própria Freia então surge, a correr aflita, pedindo socorro à irmã e ao cunhado, pois “Fasolt já se aproxima, e vem buscar-me!

Wotan, na sua costumeira e irritante calma, dá a entender que não importa; pergunta a Freia se ela não viu Loge (o Deus do Fogo). Ao ouvir o nome de Loge, Fricka fica ainda mais aflita e furiosa, pois não entende a confiança que Wotan vota “àquele ardiloso”; Wotan argumenta que pode agir sozinho, sempre que bastam força e coragem; mas precisa do esperto Loge quando é necessária a astúcia, para vencer o inimigo. “Ele me estimulou a este acordo, e tudo agora depende dele.” Fricka reage: “É! E ele te deixa sozinho! Lá vêm os gigantes, e onde anda o teu experto auxiliar?” Freia grita pelos irmãos – Donner e Froh, Deuses do Trovão e do Sol – , e Fricka diz-lhe, soturnamente: “Primeiro te traem com um pacto imoral, e agora se escondem todos.

No exato momento, ao som, pela orquestra, de um tema estrondoso, repetitivo e pesado, entram Fasolt e Fafner, os dois irmãos gigantes, vestidos de peles cruas e portando rústicas e pesadas clavas. Fasolt, mais dado ao diálogo que Fafner, cujo temperamento é mais bruto e taciturno, dirige-se a Wotan: “Enquanto dormias serenamente, nós erguíamos o castelo, em árduo trabalho, jamais relaxando; e ei-lo de pé, levantado por nós. Faz agora a tua parte: paga-nos!

Hipocritamente, Wotan pergunta: “Sim, meu povo, dizei vosso preço.” Fasolt replica, ingenuamente: “Ora, já temos um preço; não te lembras? Freia, a bela; Holda, a livre;” (Holda é outro nome de Freia; os dois termos estão associados aos vocábulos “Frei”, livre, e “Holde”, bela) “tal foi o pagamento contratado; levá-la-emos, pois, para nossa terra.” Wotan responde, com brusquidão: “Estais loucos?! Solicitai outra paga! Freia não está à venda!” Fasolt, então, emudece, sem poder acreditar no que ouve, mas, por fim, reage: “O que? Tu, o próprio Wotan, estás pensando em trair um contrato?!”, e seu irmão, Fafner, escarnece dele, chamando-o de “imbecil”, por ter acreditado na trapaça de Wotan.

(Um dos atributos de Wotan é a condição de legislador, que ele exerce por meio de pactos de honra, ou seja, os tratados ou contratos, aos quais ele próprio deve rija fidelidade; sobre o cabo de sua inseparável lança, um arquétipo de seu poder, estão gravadas as Runas, caracteres teutônicos com os quais são selados os pactos. É, pois, indiscutivelmente cabível a indignação de Fasolt, ante esta atitude recalcitrante do “Deus dos Tratados”.) Com sua peculiar dignidade, Fasolt reprova o comportamento de Wotan, dizendo que é seu dever “guardar fidelidade aos tratados”, e que, ainda que Wotan seja sábio “mais do que os gigantes possam ser apenas astutos”, é exatamente um tolo gigante que lhe dá esta lição de moral, e que “maldito seja aquele que, sendo o guardião dos tratados, ainda assim é capaz de ser infiel aos mesmos.” Wotan, em crescente descaso aos argumentos do ogro, retruca: “Como pudeste levar a sério um contrato feito por pura brincadeira? De que pode valer a vós, brutos que sois, os encantos da bela e radiosa deusa?”

Fasolt, ofendido com a alusão à inferioridade que Wotan atribui aos gigantes, expressa-se, agora, em tom de mágoa: “Zombas de nós, não é? Que injustiça! Os luminosos deuses servem-se do trabalho dos rudes, prometendo-lhes uma bela e terna mulher, e agora invalidas o contrato?” Fafner, irritado com as simplórias instâncias do irmão, interrompe-o rispidamente: “Para com isso! Não vai adiantar! E a posse de Freia é de pouca valia para nós!” E, em tom mais baixo: “O único interesse que podemos ter com ela é o enfraquecimento dos deuses, que nutrem-se das maçãs douradas, que só ela sabe cultivar.” (Freia, a Deusa da Juventude, cultiva maçãs mágicas, douradas, que fornece aos seus parentes, os quais, ingerindo-as, são dotados de juventude eterna.

A falta dessas frutas causaria o envelhecimento e a fraqueza dos deuses, o que interessa aos gigantes, pois, de tal sorte, ficariam livres de seu jugo.) Wotan demonstra impaciência com a demora de Loge, do qual ele espera uma alternativa para o pagamento dos construtores. Fasolt exige uma pronta resolução, e só aceita Freia, nada mais! Os dois gigantes fazem menção de levar a deusa à força, quando irrompem Donner e Froh, os dois irmãos de Freia e Fricka. Ambos intentam impedir a investida dos gigantes, e Donner os ameaça com seu martelo (um martelo de grande porte, atributo do Deus do Trovão). Wotan reprime sua agressividade, interpondo, imperiosamente, a lança entre os inimigos: “Nada pela força! Minha lança guarda os pactos.

Todos estão desolados, quando, finalmente, aparece Loge. Em seus típicos movimentos “flamejantes” e ágeis, ele chega, e, irônico, parece zombar das aflições dos outros deuses. Ao ser argüido por Wotan sobre a solução “que fora buscar para corrigir o mau negócio”, ele torna: “De que negócio falas? Acaso te referes ao pacto que acertaste com os gigantes?” Começa, então, a tagarelar a respeito de suas características pessoais. Ele é um andarilho, que movimenta-se como bem entende; não é como os outros deuses, que desejam casar-se e gostam de “casa e lareira”. A eles, certamente, aquele castelo vem a calhar: uma imponente construção, como quer Wotan, agora pronta e sólida. Ele próprio fora fiscalizar as estruturas, e estavam perfeitas: “Fasolt e Fafner estão de parabéns!”

Wotan interrompe sua sarcástica eloqüência, e lembra-lhe a promessa que ele fizera de conseguir livrar Freia, promessa esta que fôra a única razão de ter ele, Wotan, aceito o seu conselho de firmar aquele contrato com os construtores da fortaleza. Loge, com ironia, diz que não: “O que eu prometi foi tentar achar um modo de livrá-la. Uma tentativa, sim, eu prometi. Mas como posso prometer encontrar, de fato, uma coisa que não existe?” Todos os deuses revoltam-se contra Loge, e ameaçam-no. Wotan ordena calma e defende “seu amigo”. Os gigantes tornam a exigir a solução, e Wotan dirige-se energicamente a Loge: “Vamos, seu cabeça-dura, cumpre o que prometeste.”

Loge, num simulacro de mágoa, diz que todos lhe são ingratos, e que só para resolver o problema de Wotan correu mundo atrás de um substituto para Freia que bem satisfizesse aos gigantes. Mas tudo em vão. Ninguém soube apontar nada mais interessante ao homem que “o amor e o prazer que a mulher pode proporcionar”. Loge prolonga-se nesse discurso desanimador, até que insinua que “há um, apenas um que renunciou ao amor e à mulher, optando pelo poder que lhe proporcionara o ‘ouro reluzente’”; este era Alberich, o nibelungo que roubara das “cristalinas crianças do Reno“ seu amado Ouro. Todos, sobretudo Wotan, ficam interessados; até os gigantes tendem a admitir uma mudança de idéia, caso lhes seja possível obter o ouro mágico. Inclusive o fato de estar em poder do traiçoeiro Alberich é mais uma razão para o cobiçarem, pois o gnomo, com ele, poderá escravizar e arruinar a todos. Fafner, por fim, sugere autoritariamente ao irmão que aceite o Ouro em lugar de Freia.

Fasolt concorda, a contragosto. (Diferentemente de Fafner, que é prático e objetivo, Fasolt, menos rude que o irmão, é um tanto romântico e está apaixonado por Freia. Seu único interesse para com ela é, realmente, tê-la como mulher.) Fafner, decidido, dirige-se a Wotan e declara que os gigantes abrirão mão de Freia, se, em lugar dela, lhes for entregue o tesouro do nibelungo. Wotan exaspera-se: “Como posso dar-vos aquilo que não tenho?” Fafner diz que, se o castelo foi construído a duras penas, nada custará a Wotan conseguir, pela astúcia, subjugar o gnomo, coisa que eles, os gigantes, jamais conseguiriam pela força.

Como Wotan tenta ainda recusar o que eles pedem, Fasolt e Fafner decidem levar Freia como garantia, dizendo que “voltaremos ao anoitecer, e se lá não estiver o tesouro, pronto para nós, Freia nos pertencerá para sempre”. Freia é levada, aos gritos. Donner e Froh querem reagir, olham para Wotan, como a pedir consentimento, mas o patriarca não dá ordem alguma. Eles ficam. Loge põe-se a observar, à distância, a grotesca marcha dos gigantes, que carregam Freia. Comenta, zombeteiro, cada etapa do percurso, conforme observa. Depois, olhando para os deuses, nota como eles envelhecem rapidamente. Escapa-lhes o vigor.

O coração de Froh baqueia, o martelo de Donner pende-lhe da mão, Wotan está encanecido, todos sentem-se fracos e desencorajados. Todos, menos Loge. Ele compreende o que está ocorrendo. Privados das maçãs de Freia, os deuses perdem o vigor da juventude; eles são dependentes das maçãs. Ele não. Loge é um “meio-deus”, sua natureza é outra, e Freia sempre lhe fôra avara, concedendo-lhe menos maçãs que aos outros. “Debilitada e submetida ao sarcasmo do mundo” – escarnece ele – “a estirpe dos deuses perecerá.” Fricka lamenta-se, repreendendo Wotan por sua irresponsabilidade. Wotan, tomando uma decisão súbita, ordena a Loge que o conduza ao “País dos Nibelungos” (Nibelheim), para que juntos apossem-se do Ouro do Nibelungo. Loge, ironicamente, pergunta-lhe se pretende devolvê-lo às ninfas do Reno. Wotan esbraveja com ele, e diz que o Ouro é para a libertação de Freia. Ordena aos outros que esperem até à noite.

Enquanto Donner, Froh e Fricka expressam votos de boa sorte, Loge e Wotan imergem numa fenda sulfurosa, rumo às cavernas onde vivem os nibelungos, sob a tirania de Alberich.

Ato Único – Cena 3.

Vemos uma passagem rochosa interna, movendo-se verticalmente, o que dá a entender uma descida ao subterrâneo. Surge o interior de uma furna. Saindo de uma estreita abertura, vem Alberich, arrastando brutalmente pelas orelhas um outro nibelungo, Mime, seu irmão. Alberich cobra do outro um artefato cuja confecção lhe ordenara. Mime tenta ludibriar Alberich, dizendo não estar certo da boa compleição da peça, mas, ante a atitude ameaçadora do irmão, acaba cedendo, por medo, e lhe entrega um objeto metálico. Alberich, constatando a perfeição do trabalho, castiga Mime, por perceber que ele tentava enganá-lo, no intuito de ficar com o artefato para si. (O artefato é o “Tarnhelm”, um elmo mágico que dá a quem o use o poder de invisibilidade ou de qualquer transformação desejada).

Para testar a eficiência mágica da peça, Alberich experimenta tornar-se invisível, o que dá certo, e, sem ser visto, surra Mime com uma chibata, rindo e escarnecendo do irmão: “Obrigado, estúpido! Fizeste um bom trabalho!” Ele vocifera, impondo sua tirania a todo o seu povo: “Nibelungos todos! Curvai-vos ante Alberich!” (Desde que do Ouro do Reno, obtido por roubo, forjara um anel mágico, Alberich tem a todos os nibelungos como seus escravos, que agora trabalham para ele na mineração do ouro, cujo acúmulo aumenta a cada dia.) Chegam, finalmente, Loge e Wotan, vindos das alturas das montanhas.

Loge percebe Mime, que, caído ao chão, está gemendo e se lamentando pelos golpes que recebera de Alberich. Cinicamente, Loge o cumprimenta, e pergunta o motivo de seus lamentos. O gnomo desventurado reage: “Deixa-me em paz!” Loge diz que pretende ajudá-lo, ao que Mime demonstra incredulidade, comentando a situação em que se encontra, sob a senhoria cruel do próprio irmão. Loge, então, dá início a uma série de perguntas sobre tal estado de coisas, às quais Mime vai respondendo, até que, intrigado, pergunta quem são os dois forasteiros. Loge responde: “Amigos teus. Aqui viemos para libertar-te, e aos demais nibelungos, deste jugo.” Mas, como percebe a aproximação de Alberich, Mime recomenda-lhes cuidados. Os dois forasteiros postam-se à espera do tirano, que chega, mais uma vez impondo terror e submissão a seu povo.

Reparando na presença dos dois estranhos, dirige a Mime interrogações ameaçadoras, mas, sem esperar resposta, fustiga-o a chicote, forçando-o a juntar-se aos outros servos. Por fim, exibindo ameaçadoramente o anel, profere, mais uma vez, sua expressão de déspota: “Tremei e obedecei prontamente ao senhor do anel!” Todos os nibelungos dispersam-se, apavorados, dirigindo-se aos diversos fossos, onde trabalham. Ficando a sós com os forasteiros, Alberich os interroga, com desconfiança: “O que quereis aqui.” É Wotan que responde, citando uma série de rumores que ouvira falar sobre “as maravilhas que estariam sendo operadas por Alberich, em Nibelheim.”

Envaidecido, o gnomo diz que “a inveja é que os atrai a seus domínios.” Loge intervém, reprovando a falta de hospitalidade e a ingratidão de Alberich, que “deve a ele o fogo do qual precisa para iluminação e aquecimento das frias cavernas onde vive, e para alimentação de suas forjas”; Alberich alude à “falsa amizade de Loge”. Este procura conduzir a conversa de modo a fazer com que Alberich revele detalhes sobre seu poderio e riqueza. Envaidecido e seguro de si, o nibelungo nada oculta; afirma que, tão logo o tesouro atinja um grande acúmulo, ele poderá assenhorar-se do mundo inteiro. Fingindo indiferença, Wotan pergunta-lhe de que modo começará seu empreendimento dominador. Alberich responde que será justamente lá nas alturas onde eles, os deuses, vivem. Entra em detalhes a respeito de seus planos que despertam a fúria do temperamental Wotan, que ameaça golpeá-lo mortalmente.

Alberich parece não perceber sua investida, prontamente bloqueada pelo astuto Loge. Este dá prosseguimento a seus estratagemas, tecendo efusivos elogios às conquistas de Alberich, cuja vaidade, cada vez mais inflada, leva-o a fazer mais e mais revelações. Fala sobre o “Tarnhelm”, que lhe confere a possibilidade de “vigiar tudo sem ser visto”. Loge manifesta incredulidade quanto a esse poder. Alberich desdenha: “Achas que sou fanfarrão como tu?” Loge exige uma prova, ao que o vaidoso Alberich assente. Colocando o Tarhelm sobre a cabeça, profere a fórmula mágica, e logo transforma-se numa serpente monstruosa. Loge simula pavor, suplicando à serpente que “não o devore”. Wotan, por sua vez, ri-se e faz um elogio hipócrita à façanha de Alberich, que, voltando à sua forma original, pergunta desafiadoramente aos “sábios” se acreditam nele agora. Ainda fingindo medo e admiração, Loge se dá por convencido, mas interpela-lo novamente, perguntando-lhe se “assim como pudeste crescer, podes também diminuir?” Refere-se Loge a uma eventual necessidade de escapulir, o que faria necessário tornar-se pequeno, de modo a que pudesse escapar por qualquer mínimo espaço. “Mas creio que isto seja muito difícil”, conclui Loge, despertando ainda mais o exibicionismo de Alberich, que ri-se de tamanha “estupidez”, e pede-lhe que ordene a que proporção quer que ele encolha. Loge insinua a dimensão do corpo de um sapo.

Usando novamente o elmo, e proferindo a invocação, Alberich assume justamente a forma de um sapo. Pronto: Loge alcançou seu intento. Com o pé, Wotan imobiliza o metamorfoseado Alberich; Loge retira-lhe o elmo mágico. Alberich volta ao normal, esbravejando, e, sendo amarrado com uma corda, é carregado por Wotan e Loge, pelo mesmo caminho que os trouxera à caverna.

Ato Único – Cena 4.

De volta à mesma região montanhosa onde ocorreram os incidentes com os gigantes, os triunfantes Wotan e Loge trazem Alberich, aprisionado. Loge zomba dele, que responde com impotentes ameaças. Wotan declara que sua libertação tem um preço. Ao que Alberich continua a ameaçar, Loge lembra-lhe que “só pagando o preço exigido, poderá ficar livre e vingar-se”.

Sem alternativa, o nibelungo pergunta o que lhe cobram. Wotan exige o tesouro. Contrafeito, Alberich cede, lembrando que, se o anel continua em seu poder, poderá recuperar tudo depois. Conclama seus escravos para que tragam para cima todo o ouro acumulado. À medida em que eles obedecem, Alberich manifesta a vergonha que sente ao ver-se naquele estado (atado em cordas) diante de seus servos. Estes concluem o transporte do tesouro, e Alberich ordena-lhes, com sua usual arrogância, que voltem ao trabalho, que ele logo regressará para vigiá-los. Julgando ter cumprido a exigência de seus carcereiros, o nibelungo exige que o deixem ir, e que lhe devolvam o Tarnhelm. Loge diz que o elmo também faz parte do preço, e junta-o ao tesouro. Mais uma vez indignado, Alberich, no entanto, torna a ponderar, supondo que o mesmo que lhe confeccionara o artefato (Mime) far-lhe-á outro igual.

Alberich exige novamente que o libertem. Loge pergunta a Wotan se pode soltá-lo, ao que o outro responde que ainda falta o anel, que o gnomo também deve entregar. Ante a alusão de perder o anel, fonte de todo o seu poder, Alberich sobressalta-se: “A vida, mas não o anel!” Wotan replica, autoritário: “Eu quero o anel; quanto à tua vida, faz dela o que quiseres!” Desesperado, Alberich grita que o anel é tão próprio dele o quanto o são as partes do seu corpo.

Com iracunda veemência, Wotan acusa: “Chamas o anel de ‘tua propriedade’. Estás variando, desprezível gnomo? Pergunta às Filhas do Reno se elas de bom grado te ofereceram o ouro!” Alberich vocifera, ocultando uma interna súplica, pelo que tenta manter seu tom de exigência, expondo argumentos que não comovem nem convencem Wotan, que, por fim, arranca-lhe o anel da mão, à força. Alberich emite um grito de desespero, após o que profere um lamento arrasado, ao passo que Wotan exprime seu triunfo. Loge torna a perguntar a Wotan se pode libertá-lo. Wotan consente. Após ser desamarrado por Loge, que, ironicamente, o declara livre, o nibelungo, no auge do ódio, exclama: “Estou livre agora?” – emite um riso curto e furioso – “Realmente livre? Pois eis a vós minha primeira saudação de homem livre: Assim como por maldição me foi útil, amaldiçoado esteja este anel!” Profere, então, a famosa e longa praga, pela qual determina a desgraça a todo aquele que venha a possuir o anel, até que o mesmo “volte à sua mão”. Vai-se embora, a correr. Dirigindo-se a Wotan, Loge faz uma lacônica referência à maldição de Alberich. Wotan responde com indiferença. Olhando à distância, Loge informa que os gigantes estão chegando, com Freia.

À medida em que a névoa se dispersa, aparecem Froh, Donner e Fricka, que vêm ao encontro dos recém chegados, ansiosos por saber como se haviam saído. Wotan tranqüiliza-os, mostrando o tesouro que libertará Freia. Donner comenta a aproximação dos esperados, e Froh, num belíssimo andamento melódico, exprime seu contentamento: “Que adorável ar volta a soprar sobre nós! Deleitosa sensação que invade os sentidos! Trágico seria a todos nós ficarmos para sempre apartados da juventude eterna e isenta de infortúnios, que nos concede o prazer jubiloso.” Clareia-se, aos poucos, o ambiente.

Chegam Fasolt e Fafner, trazendo Freia. Fricka tenta aproximar-se da irmã, mas é detida por Fasolt, que adverte-a sobre a condição ainda cativa da jovem deusa, pois ainda não foi pago o resgate. Wotan esclarece os gigantes, indicando o tesouro: “Eis aí o resgate. Seja, pois, devolvida Freia.” Fasolt, que, como sabemos, é apaixonado por ela, dirige-se a Wotan e, com tristeza, lembra ao deus o quanto lhe será penoso renunciá-la. Diz que, para esquecê-la, será preciso que o tesouro – isto é, a prenda que a substitui – seja empilhado ante a jovem, até que ele, Fasolt, não mais a veja. Wotan ordena que assim se faça.

Os dois gigantes fincam suas respectivas clavas ao solo, a cada lado de Freia. Wotan ordena aos outros que façam o trabalho, “demasiado repugnante para ele próprio”. Começa a deposição do tesouro, por Loge, que pede ajuda a Froh, passando ambos à desagradável tarefa, acompanhada de incômodas intervenções de Fafner, o qual acha que “aqui e ali” o acúmulo está mal compactado. Loge o repele, com impaciência, mas o gigante continua a exigir mais coesão. O trabalho é entremeado de comentários indignados de Wotam, Fricka e Donner. Este último quase provoca Fafner a uma briga, mas Wotan intervém, observando que, segundo parece, o acúmulo já perfaz a altura de Freia. Fafner diz que os cabelos da deusa “ainda brilham”, e exige o Tarnhelm para ocultá-los. Loge tenta argumentar, porém Wotan ordena a entrega do artefato. Após arremessar o elmo sobre o tesouro, Loge diz aos gigantes que o trabalho está feito. Fasolt, em seu peculiar sentimentalismo, lamenta-se ainda pela perda de Freia. “Tenho mesmo que deixá-la?” E, num súbito arroubo de paixão, percebe que ainda vê “o raiar dos olhos” de sua amada. Afirma que não a deixará enquanto ainda o veja. Fafner exige o fechamento da lacuna pela qual seu irmão enxerga aquele brilho. Loge argumenta que “já foi tudo entregue”. Fafner discorda: “Não, meu caro! Na mão de Wotan reluz ainda um dourado anel!”

Ante a hipótese de privar-se do anel, Wotan, reage, indignado. Loge tenta contemporizar, dizendo aos gigantes que o anel pertence às Filhas do Reno, a quem Wotan o devolveria. Num misto de indignação e sarcasmo, Wotan ridiculariza o argumento de Loge, dizendo que o anel lhe pertence, uma vez que o obtivera com dificuldade. Todos tentam, em súplicas, convencê-lo a abrir mão do anel, sem o que Freia permanecerá em poder dos gigantes. Wotan é categórico: “Deixai-me! Não cederei o anel!” De repente, ouvimos um forte, grave e profundo acento da orquestra, anunciando o que segue: após novo escurecimento da cena, emerge, de uma fenda na rocha, uma luz azulada, em meio à qual surge, a meio corpo, Erda, uma forma feminina de aspecto nobre, envolta em sua basta cabeleira negra. (Esta misteriosa personagem é – como veremos a seguir, e em próximas passagens da Tetralogia – a “mulher original”, uma espécie de “mãe universal”, detentora de todo o conhecimento e sabedoria, chamada às vezes de “Deusa da Terra”, pois vive nas profundezas, num eterno sono, em cujos sonhos acumula conhecimento. Sua existência “subterrânea” talvez seja uma representação simbólica do inconsciente, que tudo absorve e guarda; ou, mais amplamente, um símbolo do contexto espiritual do homem, ou mesmo do Universo, ao(s) qual(is) o inconsciente está ligado.

O despertar de Erda, isto é, o momento em que ela acorda e emerge à superfície, parece uma alusão aos raros momentos em que, altamente inspirada, nossa consciência percebe elementos profundos, que ordinariamente ignoramos, embora sejam inerentes a nosso espírito.) Num lento e sugestivo andamento melódico, Erda dirige-se a Wotan, numa firme e zelosa advertência: “Cede, Wotan, cede! Foge à maldição do anel!” A “mulher primeva”, sempre no mesmo tom profundo, avisa a Wotan que o anel lhe levaria à ruína “tenebrosa e irremissível”. Impressionado, Wotan dirige-se a ela: “Quem és tu, admoestadora mulher?” Em resposta, Erda expõe a grandeza de seus atributos: “Enxergo tudo o que foi, o que é e o que está para ser”.

A mulher primordial do Eterno Mundo é quem adverte o teu espírito. Três filhas primevas que meu ventre gerou, as Nornas, costumam dizer-te à noite o que eu vejo. Porém, hoje, um grande perigo obrigou-me a vir-te em pessoa. Ouve! Ouve! Ouve! Tudo o que existe acaba. Um dia sombrio se abaterá sobre os deuses: eu te aconselho: renuncia ao anel!” Enquanto ela imerge lentamente, de volta ao subterrâneo, Wotan, tocado pelas profundas palavras de Erda, pede-lhe que fique e lhe conceda mais ensinamentos. Erda, concluindo sua imersão, responde que basta a Wotan o aviso que ela acaba de lhe dar, e que ele reflita “com ânsia e temor”. Acaba de imergir completamente, e Wotan tenta ainda segui-la, ao que é contido por Fricka e Froh. Donner, por sua vez, percebendo que a decisão está consumada, dirige-se aos gigantes, avisando-lhes que o anel lhes será entregue. Todos fitam Wotan, que, após ficar pensativo por momentos, chama Freia para junto de si, e, aos gigantes: “Eis vosso anel!” E lança a jóia sobre o tesouro. Fasolt e Fafner libertam Freia, que corre a abraçar os outros deuses. Fafner, tomando a iniciativa, abre um enorme saco, no qual começa a introduzir as peças do tesouro. Fasolt, percebendo que o irmão está armazenando para si uma parcela exagerada, o que resultaria numa partilha desigual, e que ele, Fasolt, ficaria em prejuízo, reclama com Fafner, dizendo que aquilo não está direito.

Fafner, arrogante, responde com um argumento absurdo: “És um janota, a quem me foi difícil convencer a aceitar o ouro em lugar da garota. Se ficasses com ela, não a dividirias com ninguém; é justo, portanto, que seja minha a maior parte do tesouro.” Indignado, Fasolt pede aos deuses que atuem como árbitros daquela questão. Wotan dá-lhe as costas, com desprezo, e Loge tem a idéia de sugerir a Fasolt que fique com o anel e deixe o resto todo para Fafner. Fasolt, então, exige o anel, alegando que a jóia corresponde aos olhos de Freia. Fafner, no entanto, não quer ceder o anel, e os dois irmãos passam da discussão à luta corporal; Fasolt toma o anel à força, mas Fafner dá-lhe um golpe mortal com a clava.

Fasolt cai por terra, e, enquanto ainda agoniza, Fafner retira-lhe do dedo o anel, e diz, com desprezo: “Agora sonha com a tua Freia; no anel nunca mais porás a mão”. Fasolt morre, e enquanto Fafner conclui o ensacamento do tesouro, ocorre uma forte comoção entre os deuses, após a cena de fraticídio que acabaram e presenciar. Wotan entende, então, a força da maldição de Alberich, que acabara de apresentar seu primeiro efeito. Fricka procura acalmar Wotan, e Donner, também abalado, decide convocar suas servas, as nuvens, para provocar uma tempestade que purifique o céu e o ambiente. Após subir a uma rocha, brande seu martelo e profere a célebre invocação: “He da! He da! He do! A mim, nevoeiro! Vapores, a mim! Donner, vosso amo, convoca-vos!” .

Donner conclui suas ordens, e, com um sonoro golpe do martelo sobre a rocha, brada a Froh: “Aqui, irmão! Mostra o caminho da ponte!” Faz-se o arco-íris, ao qual Froh convida os demais a passar, rumo ao castelo, agora pronto para ser ocupado. Wotan pronuncia uma longa saudação à fortaleza, e fala a Fricka, como um cônjuge cordial: “Vem, mulher, viver comigo no ‘Walhall’” (ou “Walhalla”, nome que Wotan acaba de dar a seu castelo). Fricka indaga-lhe pelo significado de tal nome. Wotan responde que o sentido daquele termo “será dado a ela pela coragem de Wotan, que soube inspirá-lo, vitoriosa sobre o medo” (é, sem dúvida, uma explicação enigmática). Entrementes, Loge os acompanha e observa à distância, fazendo um comentário crítico. (Por ser mais realista que seus companheiros, Loge não incide no erro deles, que tendem a ocultar de si mesmos a série de fatores e eventos negativos ou indignos, pelos quais tornara-se possível a conjuntura desse momento, que tranqüiliza e alegra a todos.) Diz o Deus do Fogo: “Envergonha-me cooperar com eles. Sinto o belo desejo de transformar-me de novo na chama tremulante, para consumir estes que um dia puseram-me entre cegos para que eu acabasse como um parvo. Assim os deuses seriam mais divinos!

Entretanto, faz-se ouvir, das profundezas, o lamento das Filhas do Reno, por seu Ouro perdido. Wotan pergunta a Loge o que é aquilo. Loge esclarece, e Wotan, irritado, ordena-lhe que as repreenda. O outro obedece, sugerindo às jovens um ridícula compensação: “Se vosso Ouro não mais brilha, Wotan quer que, a partir de agora, fiqueis felizes com o novo esplendor dos deuses!” Os deuses riem. As ondinas reiteram seu lamento, ao passo que os deuses continuam a caminhar sobre a ponte. Cai o pano.

Fontes:

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Lourdinha Leite Barbosa (A Arte de Engolir Palavras)

Com o livro A arte de engolir palavras, constituído de 20 peças, Lourdinha Leite Barbosa estreou no gênero conto. No ensaio intitulado “Sobre A arte de engolir palavras e outras artes”, aposto ao volume como posfácio, a professora Vicência Maria Freitas Jaguaribe faz minuciosa análise da obra, que poderia deixar os críticos sem mais nada a dizer. Assim, vê na coletânea cinco narrativas fantásticas, sendo as demais “de natureza mimética ou realista, no sentido mais geral desse termo”.
Algumas histórias da coleção tratam de pequenos dramas pessoais, quase sempre femininos ou na visão feminina (personagem-narradora), em reduzido número de parágrafos curtos, fundados no recurso da narração, com breves diálogos. Como também observa Vicência Jaguaribe, “o narrador de terceira pessoa desse conto, como o de muitos outros, parece um mero recurso da autora para emprestar à narrativa uma ilusão de objetividade, pois quem na realidade acaba filtrando os fatos para o leitor é a própria protagonista, por meio da técnica do discurso indireto livre, que soa quase como um monólogo”.
A maioria das peças do volume foi construída como narrações em terceira pessoa. Personagens-narradores encontram-se em “Nó cego”, “Poça dágua”, “Flores de papel”, “Medo” e “Encantamento”. Na primeira, uma das mais longas do livro, uma mulher conta a sua desilusão amorosa: flagra o marido com outro homem, em “beijo profundo, prolongado”, sem deixar claro ao leitor a identidade do outro, talvez para dar ao conto um ar de mistério. Na segunda narrativa, de feitio fantástico, outra mulher narra o próprio desespero, como num pesadelo. O leitor, entretanto, só percebe o perfil feminino no desfecho, quando a personagem observa: “Sei que estou ferida, mas não sinto dor”. Na terceira história desse tipo, a protagonista Zefa, a moça doida, desenvolve a narração no presente, em monólogo interior. “Medo” tem como narrador um homem, embora também pudesse ser mulher. Nas primeiras linhas ele se diz desesperado. No último dos contos em primeira pessoa um menino apaixonado pela bailarina do circo conta a história.
Raríssimas vezes a contista se vale do flagrante, dando o narrador pequenos saltos no tempo, a cada parágrafo. Em “Bumerangue” a protagonista, sem nome explícito, chega a uma fazenda. Em flash-back a narração se volta para a partida da personagem (“Partira escorraçada e humilhada”). Seguem-se breves narrações-descrições do ambiente (“cozinha larga e clara”; “colheita do feijão”; “as chuvas trouxeram à fazenda”). Após meia dúzia de frases, apresenta o segundo ser fictício, “um rapazola franzino, de olhar manso e fala pouca”. E novo conflito se instaura, até o desfecho, quando a mulher, “resignada, partiu em busca de um novo refúgio, como a fechar uma porta sem fim”. Dessa forma, Lourdinha Leite Barbosa consegue pintar a protagonista por dentro, bem como o ambiente onde ela vive e o tempo dos seus embates interiores, tudo em pouco mais de 30 linhas. Em “A Valsa Proibida” esta técnica se repete, com algumas variações: os flashes-backs são mais longos, o tempo narrado se encurta, a personagem tem nome explícito, Mirta, e o desfecho parece feliz.
Às vezes o tempo se dilata, enquanto o espaço da ação se restringe. Em “Vida em três tempos”, como o próprio título indica, Marília se revê em três momentos de sua vida. Pensa, rememora. O conflito é interior; a protagonista se acha em casa, a olhar para “o porta-retrato em cima da mesinha de cabeceira”. Ao final, “enrodilhou-se na velha poltrona”, a dizer ao leitor que dali não saiu, ao longo da narração. Outras vezes o espaço se amplia. Em “Aqui, ali, acolá”, como o título mostra, a ação se dá em diversos lugares: no campo (árvores, pedras, estrada); na cidade (“avenida larga e movimentada”), uma pousada, um hospital. Em “Uma paisagem quase perfeita” as personagens habitam um casarão antigo, com seu porão escuro e o grande quintal cheio de árvores: uma paisagem quase perfeita. Como nos contos de fadas, as moças sonham e sofrem de solidão. “Os dias escorriam tão lentos quanto o rosário que eram obrigadas a rezar todas as noites”. E ocorre a transgressão no tempo e no espaço: a monotonia é suspensa por um acontecimento inesperado – a chegada de um jardineiro. A figura masculina penetra no mundo feminino. “Apenas no quintal e jardim”. Daí por diante tudo se transforma no casarão e nas donzelas, que vão, uma a uma, murchando, amarelando, morrendo.
Há também histórias folclóricas, que não deslustram o conjunto, como “Flores de papel”, em linguagem regional: cabaça, tomar tenência, indagorinha, mangar de mim, fazer mangoça, pataca. A intertextualização com as cantigas de roda dá à obra um quê de arte literária. Essa localização da trama no espaço rural ou da cidade pequena ocorre em diversas peças do volume. Em “Penitente” o protagonista anda por ruas desertas, pelo átrio da matriz, vai ao açude, embrenha-se no mato, banha-se na cacimba. Não se tratam, porém, de narrativas regionalistas, quer pela manipulação da linguagem, quer pela estruturação do enredo. A contista não cansa o leitor com diálogos intermináveis de matutos e muito menos com descrições enfadonhas de paisagens e topografias.
Os personagens de Lourdinha Leite Barbosa são apenas os que participam diretamente da trama: o protagonista e o antagonista. Raras vezes aparece terceiro ou quarto ser fictício. Isso faz com que o conto seja curto e não se desdobre em mais de uma história ou apresente um enredo dentro de outro. Mesmo no clássico triângulo amoroso, o terceiro personagem não passa de sutil lembrança. Em “Bumerangue” a protagonista faz breve referência ao ex-marido, sem sequer mencionar o nome: “Até ameaça de morte ele fizera”. Apenas “ele” e nada mais. Em “A Decisão”, Hortência lembra do ex-marido em uma frase capital: “ele confessou que tinha outra”. Essa outra não chega a ser personagem. Em “A Valsa Proibida” pode-se ver uma só ser fictício, Mirta, “mulher idosa, vestisda de princesa”. Seu pai e sua mãe são apenas referidos, em fato remoto de sua vida. Os amigos são como bibelôs, objetos: “Mirta recebia os amigos com um largo sorriso”. São apenas “homens e mulheres, em traje de festa”. Com tanta economia de personagens, é natural que os conflitos não aflorem. Pois a trama é quase sempre pessoal, individual, interior. O enredo por pouco não é abolido nas narrativas de Lourdinha. Veja-se “Vida em três tempos”, que pode ser o exemplo mais claro disso: a protagonista Marília vive com Dirceu, que, no entanto, não passa de personagem morto, passado. “Já não eram um. Calada. Sem nada a dizer. Fingindo não ver, não ouvir. Brigar para quê?” Ou seja, o outro, Dirceu, não passava de um ser apático, sem reação, incapaz de participar de um conflito.
Vistos os contos em alguns dos fundamentos do gênero, resta-nos avaliar a linguagem da contista. Em primeiro lugar, a concisão e a precisão, presentes na maioria das histórias. Em conseqüência, a riqueza de sugestões e a economia dos detalhes, tão bem percebidas por Vicência Jaguaribe. Ou seja, Lourdinha Leite Barbosa consegue realizar a arte de engolir palavras em sua primeira coleção de peças ficcionais, enquanto muitos escritores passam a vida expelindo palavras e terminam sufocados pela própria verborragia.

Fonte:
Nilto Maciel.

Diario do Nordeste (Fortaleza, Ceará) 20.03.2005
http://www.revista.agulha.nom.br/nilto29.html

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Lourdinha Leite Barbosa ( A narrativa de Pedro Salgueiro)

Os fatos se organizam num enredo de estrutura simples obedecendo à ordem lógica de causa e conseqüência. Do mesmo modo que ocorreu com a protagonista de ´Fotografia´, a personagem viaja com o amado, volta sozinha depois de dois dias, enclausura-se em um quarto nos fundos da casa e cala-se para sempre. De acordo com o narrador, o motivo da ruptura jamais será revelado. As lacunas existentes neste conto são menores e dizem respeito somente aos dois dias de duração do casamento, cujo fracasso o narrador já havia antecipado para o leitor (não só pela maneira como se conheceram, por meio de um anúncio em revista de novela, mas também por suas vivências opostas: ele, no mar a maior parte dos dias e ela, numa cidadezinha perdida no interior).

Olhos de Cão e Rasga-Mortalha são contos que seguem a mesma técnica narrativa das lacunas e dos hiatos. Nos dois casos um narrador externo sabe menos que as personagens. Em Olhos de Cão, o acontecimento se dilui e o espaço cede lugar a uma atmosfera onírica e alucinante. Composto de um só parágrafo compacto, inicia-se com a descrição de uma cena captada por uma câmera pequena e escura (o narrador parece encontrar-se num plano superior ou por trás da câmera) que descontrolada rasteja pelas coxias, sobe muros, telhados e focaliza pessoas que saem assustadas de becos escuros. Pode-se dizer que duas cenas compõem a narrativa: uma noturna, em que pessoas sorrateiras tiram velhos papéis dos bolsos e os pregam em paredes de casarões em ruínas e outra diurna (´… afugentadas pelos primeiros raios de um sol laranja e orvalhado´), na qual uma pequena multidão se forma em torno dos papéis disputando-os a cotoveladas (´e as pessoas voltavam a ter sombras´). Para dar uma maior ilusão de realidade, o autor situa o acontecimento num espaço real: as ruas do Benfica, espaço freqüentado pelo cineasta (já falecido) Eusélio de Oliveira a quem o conto é oferecido.

Logo de início, o leitor de Rasga-Mortalha percebe que tempo, personagens e objetos não se encaixam:

Sempre no início da madrugada, se observava o estacionar de carros: seus passageiros, impecavelmente vestidos, traziam consigo estranhos objetos. (p. 25)

E o estranhamento cresce, à proporção que ele toma conhecimento dos objetos: um antigo arado enferrujado e sujo de barro, um pássaro enorme que tinha os pés metidos num saco de plástico e o bico amarrado com tiras de pano. A casa também lembra os cenários das histórias fantásticas de Théophile Gautier, nas quais o antigo e decrépito propiciam a ocorrência do inexplicável:

A casa desabitada fazia muitos anos preservava em seus jardins galhos secos e retorcidos sobre os muros. Na cumeeira, um ninho de rasga mortalha, de quando em vez um rufar de asas saindo pela clarabóia. (25)

Para completar o clima de mistério, existe uma figura sinistra: um homem alto, de cabelos grisalhos, barba rala e olhar profético. Está tudo preparado, mas falta o fenômeno insólito e a narrativa termina sem que o narrador descubra o que acontece dentro da casa.

Por tudo que foi exposto, podem-se considerar esses contos como narrativas de mistério.

Dos contos fantásticos

O primeiro conto fantástico dessa primeira divisão é ´Invasão´, que tem, como a maioria dos contos de mistério e fantásticos do livro, um narrador de primeira pessoa, o mais indicado, segundo Todorov, para a construção do gênero fantástico.

Tendo como espaço uma cidade grande, com suas ruas iluminadas e seus altos edifícios, o ambiente não sugere qualquer acontecimento sinistro, embora seja madrugada, por isso o personagem narrador caminha tranqüilamente, pensando nas coisas que, de tão conhecidas, não são realmente notadas. Tomado por esses pensamentos ele pára em frente a seu edifício e observa-o demoradamente. De repente, vê passar por sua janela aberta ama silhueta magra, fica intrigado com aquela presença em sua sala de visitas e senta-se no meio fio para pensar. Nisso percebe que as coisas familiares estão diferentes: a cor do prédio em frente; na esquina, ao invés da farmácia, há uma floricultura. Essas mudanças o deixam inseguro e perplexo.

O conto nos leva a refletir sobre a incerteza do real, sobre a veracidade do que vemos. Ou como afirma Barine (Arvède Barine – Poetes et névrosés, Paris: Hachette, 1908) ´Quando a ciência nos ensina que uma ligeira alteração de nossa retina faria o mundo para sempre descolorido, ela sugere a todos o pensamento de que o mundo real poderia bem não ser senão uma aparência, como já os filósofos o sabiam´.

´A Passagem do Dragão´, baseado em acontecimento real – a comprovação da Teoria da Relatividade Geral, de Albert Einstein, por pouco não se tornou apenas um exemplo do fantástico-estranho. Logo no primeiro parágrafo, o narrador introduz o fenômeno insólito: o horror vivido pelos habitantes de um povoado, quando, em plena tarde, o sol tornou-se pálido e desapareceu de vez e, durante a escuridão, ouviu-se um forte bater de asas atravessando o vilarejo. Domina todo o texto um sentimento de estranheza, principalmente pela presença de três grupos de forasteiros, que chegaram ao lugar uma semana antes do acontecimento, trazendo enormes caixas, das quais foram retiradas estranhas máquinas que apontavam para o céu.

O conto termina com os estrangeiros comemorando e tentando explicar ao povo o acontecido. Essa explicação do fato insólito caracteriza o estranho, mas a incerteza é reintroduzida pelo comentário do narrador: ´… porém não souberam explicar de onde surgiu e para onde foi o imenso pássaro que sobrevoou a vila na escuridão´.

Como o discurso pode desvanecer o fantástico a qualquer momento, Salgueiro, ao colocar a nota de roda pé explicando a origem do conto, pôs em risco o gênero.

Brincar com Armas, conto que dá título a uma outra obra de Salgueiro, também é um fantástico atenuado, quase um estranho, porque o narrador, após o fim da narrativa, acrescenta um P.S. explicando por que a arma estava carregada. Um leitor menos atento, não leva em conta a retificação, entre parênteses, de que o morto levara dois tiros no pescoço, quando a arma só havia disparado uma vez.

´A festa´ é a variação de uma história bastante conhecida: o narrador usa a primeira pessoa do plural nós, para contar como ele e sua companheira, durante uma viagem tiveram que ficar para o réveillon e, durante a festa, observaram algumas pessoas, que destoava das demais, tinham caras tristes e usavam roupas fora de moda, pareciam penetras. Ao perceberem que eram observadas por eles, foram desaparecendo. No dia seguinte, a dona da casa mostrou-lhe um velho álbum de fotografias de seus antepassados mortos e, para surpresa do casal, lá estavam todas aquelas pessoas estranhas, vestidas exatamente como estavam na festa.

Em Acontecimento, o narrador encontra-se dentro de um ônibus, numa cidade movimentada e quente. É nesse espaço do cotidiano que vai emergir o sobrenatural. Ele levanta a cabeça para desatar o nó da gravata e, apesar do sol forte ofuscar-lhe a visão, vê algo que o deixa tão aflito, que ele chega a perder a voz: ´Um nó na garganta me impediu de gritar´. A personagem reage, tenta se comunicar com os vizinhos que se mantêm indiferentes. Utilizando o referido recurso da insuficiência de informação, o narrador não confessa o que viu, como se tivesse medo de nomear o extranatural. Diante da indiferença dos demais, o narrador hesita, já não tem certeza do que viu: ´… e agora eu duvidava de tudo: do ônibus que parecia irreal, das pessoas que deviam ter saído de um sonho, desse calor infernal e daquele prenúncio de tudo o que estava para acontecer´. A personagem tenta fugir através do sono, mas quando desperta vê que nada mudou: a senhora gorda está se desmanchando, outros passageiros tornando-se avermelhados e ele vê subir de seus próprios ombros uma fumaça preta. Diante do impacto da estranha realidade, o narrador entrega-se às forças do sobrenatural. Como vemos, o narrador nega informações essenciais ao leitor, mas o acontecimento insólito deixa conseqüências.

Dos contos realistas

Dos dezessete contos desta primeira divisão, apenas seis são realistas: ´Procissão´, ´No Carnaval´, ´Esquecimento´, ´Asas ao Vento´, ´Todo Domingo às Três ou Balada de Consolo para Altino do Tojal´ e ´Pânico´. Também são realistas quase todos os contos da última divisão, ´Soluço Antigo´, com exceção de ´A rua do cemitério´, cujo humor dissipa o fantástico, pois a razão não permite que o gênero sobreviva, mas restam alguns resquícios de incerteza, e ´Jeremias ou o Vampiro da Rua das Flores´, em que o narrador, ao longo do conto nega e confirma os fatos a respeito da personagem, deixando o leitor confuso; no final, entretanto, ele jura ter escutado choro de crianças ou latido de cães e a dúvida volta a rondar o leitor.

Nos contos realistas, os acontecimentos se organizam numa ordem lógica de causa e conseqüência, sem grandes rupturas, no máximo uma volta ao passado, e estão vazados, quase sempre, numa linguagem padrão ou coloquial, com alguns regionalismos: alpercata de rabicho, caviloso, lamparina, boquinha da noite, a caneca de alumínio no beiço do pote.

Na última divisão, predominam os temas relacionados à velhice, como a solidão, a senilidade, a ambição familiar, o desamor, a morte. Vale ressaltar a capacidade de concisão conseguida pelo autor em ´Soluço Antigo´, o conto que denomina a divisão. O narrador, nas três primeiras linhas, cria uma atmosfera fantástica que subverte o real, e nas duas seguintes, ao transcrever a fala da empregada, desfaz a natureza insólita do acontecimento e traz o leitor de volta à realidade que o circunda.

Da recorrência de temas, motivos e elementos narrativos.

Pode-se afirmar que a intratextualidade é uma das características marcantes do texto de Salgueiro, seus contos mantêm uma constante relação dialógica entre si, seja em relação ao tema, seja em relação ao espaço, ou mesmo à atitude de um personagem, o certo é que temos a impressão de já ter lido aquela passagem. Para exemplificar essa recorrência nos valeremos de contos da segunda e da terceira divisão da obra.

A maioria das narrativas tem como espaço cidades do interior, com sua igreja, sua estação, sua bandinha, sua gente simples que costuma sentar embaixo de árvores depois do almoço e na calçada à noitinha.

O conto fantástico ´O Jogo de damas´ apresenta um costume muito comum entre pessoas que vivem em pequenas cidades, que não oferecem muita diversão: jogar damas. Por ser um jogo popular que pode ser realizado em espaços abertos ou fechados e que não exige esforço físico, esse tipo de entretenimento, assim como o gamão, tem a preferência das pessoas mais idosas. Aliás, Salgueiro demonstra grande interesse por essa faixa etária que é o leitmotiv da terceira divisão do livro. Em várias passagens o jogo de damas está presente, exemplo disso são os contos ´Ausência´ (´O tabuleiro de damas continua empoeirado em cima da mesinha de cabeceira´) e ´Em Família´ (´Há anos deixou de jogar damas e já nem se lembrava mais das infindáveis partidas que ajudavam a vencer a quentura da tarde´).

O trem e a estação também são motivos recorrentes, talvez por ser o meio de transporte mais utilizado na época em que se passam as histórias. O certo é que há sempre um personagem descendo de um trem, como em ´A Viagem´ que se inicia com a seguinte frase: ´Dom Eugênio descia do trem, pequena mala de viagem à mão e caminhava devagarinho pela rua empoeirada´. Em ´Elefante´ quem chega à cidadezinha é Gumercindo Freire: ´Desde que avistou os primeiros telhados pela janela do trem, sentia-se perdido (…)´. Estes dois contos têm como tema o retorno à cidade natal e há trechos em que julgamos tratar-se da mesma cidade. ´Madrugada´ repete o motivo do trem (´Nesses dias eu escuto, com o ouvido colado à parede, o barulho do trem chegando ao povoado´) e descreve a mesma paisagem desolada já descrita em ´A Viagem´, comparemos: ´Aproximou-se da estação, o capim cobrindo tudo´ (p.48) e ´A estação vazia, o capim cobrindo a plataforma´ (p.62).

Não se pode esquecer a predileção do autor por narrativas que tratam de crimes, principalmente crimes que têm por motivo a vingança: ´O olhar´, ´A longa espera´, ´Elefante´, ´Procissão´, ´Pânico´.

Dois contos, ´Pânico´ e ´A Rosa Encarnada´, mantêm um intenso diálogo entre si e levam o leitor, intrigado e seduzido, a uma releitura. Neles Salgueiro mostra, através de sua excelente técnica narrativa, como transformar um conto fantástico em um conto estranho.

Dos valores do inimigo oferece inúmeras possibilidades de leitura, esta é apenas uma delas, espera-se que outras venham contribuir para a compreensão da obra de Pedro Salgueiro.

Fonte:
Diario do Nordeste (Fortaleza, Ceará) 06.11.2005
http://www.revista.agulha.nom.br/
www.equipadeafrica.com/asp/equipa.asp

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Lourdinha Leite Barbosa (Florbela Espanca: sonetos de amor e dor)

Primorosa na construção do soneto, a poetisa Florbela Espanca pôs, em cada um de seus versos, a plenitude da alma. Foi a primeira mulher, num meio literário absolutamente masculino, a inscrever, de modo definitivo, o seu nome no panorama da literatura portuguesa. A função emotiva da linguagem constitui uma das marcas essenciais de sua expressão poética. Nesta edição, vamos percorrer alguns dos labirintos entranhados em seu discurso.

Para que se possa compreender melhor a poesia de Florbela e o motivo pelo qual a crítica ignorou sua obra durante longos anos, faz-se necessário o conhecimento de alguns dados importantes de sua vida.

Flor Bela de Alma da Conceição Espanca nasceu em Vila Viçosa (Alentejo), cidade muito antiga que ainda conserva o Palácio Ducal, residência de férias da Coroa Portuguesa, em 8 de dezembro de 1894. Filha ilegítima de João Maria Espanca, boêmio e aventureiro, anarquista, avesso a qualquer formalidade, introdutor do cinematógrafo em Portugal, e de Antônia da Conceição Lobo, cuja profissão na época denominava-se ´criada de servir´. João Espanca que não tinha filhos com sua mulher, Mariana do Carmo Ingleza convence-a, não se sabe por quais meios, a criar a menina. Três anos mais tarde, nasce Apeles, da mesma união ilegítima, a quem Florbela dedica um amor filial, ambos apóiam-se mutuamente.

A formação

Tendo iniciado os estudos em Vila Viçosa, em 1908, a jovem muda-se com a família para Évora, a fim de fazer o curso secundário no famoso Liceu de André Gouveia, que há pouco tempo passara a admitir classes mistas, mas ainda permanecia um forte preconceito contra a presença feminina. São dessa época os poemas publicados postumamente no volume Juvenília (1931).

Em 1913, no dia de seu aniversário, Florbela casa-se com Alberto Moutinho, seu colega de escola desde 1904. Em 1917, ingressa na Faculdade de Direito de Lisboa, curso que abandonará em 1920. Em 1918, vai a Quelfes tratar-se das conseqüências de um aborto involuntário. Em 1919, publica, às custas do pai, o primeiro livro de poemas: Livro de Mágoas. Já separada do marido há algum tempo, consegue o divórcio em 1921, e, após dois meses, casa-se novamente com Antônio Guimarães, alferes de Artilharia da Guarda Republicana. Nesse mesmo ano, João Maria Espanca divorcia-se de Mariana Ingleza, madrinha e mãe adotiva de Florbela e, em 1922, casa-se com uma ex-empregada. Em janeiro de 1923, vem a lume sua segunda coletânea de sonetos, mais uma vez às expensas do pai: Livro de Sóror Saudade. Os poemas são alvo de críticas absurdas por parte do diretor do jornal A Época, que pretendia atingir antes de tudo o comportamento da autora, considerado inadequado pela sociedade conservadora de então.

A tragédia existencial

Vítima da maledicência, doente e amargurada, Florbela afasta-se do convívio social e cerca-se de uns poucos amigos. Um segundo aborto espontâneo vem complicar ainda mais sua precária saúde. O médico chamado para socorrê-la é Mário Lage, homem culto de quem ela se torna inseparável. Pressentindo o rumo que toma a relação, Antônio Guimarães decide partir para a África por dois anos e pede o divórcio. O processo litigioso prolonga-se por mais de um ano e desencadeia uma crise na família Espanca, que não aceita o novo relacionamento. A situação se agrava quando, em 1925, três meses depois do divórcio, ela casa-se com Mário Lage, com quem já vivia desde 1924, e recolhe-se a Matosinhos, porto marítimo a norte de Portugal, em busca de melhoras para sua saúde.

Em 1927, inicia a tarefa de tradutora e tudo parecia ir bem, mas a morte do irmão, num desastre de avião, desencadeia uma depressão sem precedentes. Os dois sempre haviam sido inseparáveis, depois que Antônia Lobo morreu e Apeles veio morar na casa do pai, Florbela tornou-se uma espécie de mãe para ele.

O último casamento parecia ter chegado ao fim e Florbela mostrava-se cansada, os problemas de saúde agravavam-se e, além da dificuldade pulmonar, tinham surgido outras complicações. Na madrugada de 7 para 8 de dezembro de 1930, falece durante o sono, por excesso de barbitúricos, não se sabe ao certo se por acidente ou suicídio. Consta que já teria tentado o suicídio anteriormente usando soporíferos, em agosto de 1928, por ter-se apaixonado por Luiz Maria Cabral, médico e pianista.

Fonte:
Diario do Nordeste 24 fev 2008
http://diariodonordeste.globo.com/

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Lourdinha Leite Barbosa (Florbela Espanca: a tessitura da poetisa)

Totalmente ignorada em vida, Florbela foi resgatada do esquecimento, anos depois, por alguns críticos, dentre eles Jorge de Sena (1947, Florbela Espanca ou a Expressão do Feminino na Poesia Portuguesa) e José Régio (1950, estudo crítico – prefácio dos Sonetos Completos) que lamentaram, em textos densos, o silêncio da crítica em relação às primeiras manifestações da autora. José Régio confessa que, se tivesse conhecido mais cedo a obra de Florbela, com certeza teria percebido que sua poesia é flagrante exemplo do que os presencistas denominavam poesia viva, propósito sustentado pela revista ´Presença´ em seu primeiro número: ´Literatura Viva´.

De fato é de estranhar não terem eles se dado conta do valor dessa escritora que, hoje, é considerada uma das maiores figuras da poesia feminina portuguesa, comparada a Sóror Mariana Alcoforado, outra alentejana, pelas sinceras confissões de mulher que desnuda sua alma apaixonada. A escrita de Florbela tem o ritmo de sua pulsação e o corpo de sua poesia confunde-se com seu próprio corpo, aí está sua originalidade: expressar, com extrema sensibilidade, estados d´alma contraditórios, nascidos de seu drama humano.

A essência da temática

Os estudiosos de sua obra falam em ´caso humano´, ´conflito interior´, ´dualismo físico-psíquico´, ´um verdadeiro diário íntimo´, não importa a denominação, o importante é que todos afirmam que sua poesia é o extravasamento de uma angustiante experiência sentimental. Bendita intuição criadora capaz de transformar um inferno interior em poesia, pois, na verdade, sua superioridade está em saber trabalhar o signo lingüístico, construindo imagens inusitadas, através de jogos de palavras, reiterações (de sons, de estruturas verbais), comparações e de inúmeros outros recursos. Sonetos (1982) reúne os quatro livros de sonetos da poetisa (Livro de Mágoas, Sóror Saudade, Charneca em Flor e Reliquiae), revela vivências e sentimentos contraditórios: exaltação, desencanto, dispersão, sensualidade, egolatria, vaidade exacerbada, humildade, insatisfação, ânsia de absoluto, solidão.

A angustiante experiência sentimental dessa mulher superior transforma-se numa poesia-confissão, que se inicia sob a indisfarçável inspiração de Antônio Nobre. Nos volumes Juvenília e Livro de Mágoas (1919), em que se destacam o narcisismo e o culto literário da Saudade e da Dor, o nome do poeta romântico é repetidamente invocado: ´Poeta da Saudade, ó meu poeta q´rido, ´ó Anto! Eu adoro os teus estranhos versos´, ´os males d´Anto toda a gente os sabe!/ Os meus… ninguém… A minha Dor não cabe/ Nos cem milhões de versos que eu fizera!…´.

Nessas primeiras produções, Florbela parece estar em busca de um caminho próprio, que em breve será encontrado. No Livro de Sóror Saudade, já se percebe uma dicção própria, que chega ao ápice com Charneca em Flor e Reliquiae: os poemas alcançam uma rara pureza expressiva e extraordinária força de comunicação.

Amor e Dor, ambos com letra maiúscula, percorrem toda a obra de Florbela. O amor, em suas diversas formas, principalmente a sensual, é a força que impele essa alma vibrante. Encontra-se, em seus sonetos, uma variedade de estados emocionais derivados do amor, desde a exaltação dos sentidos até os sentimentos mais puros e elevados. A busca constante do amor e a incapacidade de encontrá-lo levam o eu lírico à dor, à depressão e à angústia, mas também ao narcisismo, à dispersão e à fome de Absoluto. Marcados por um erotismo impetuoso, seus versos desvelam, sem qualquer espécie de preconceito ou falso pudor, as mais íntimas emoções da alma feminina, exemplo, o soneto ´Volúpia´ ( p. 143): (Texto 1)

O eu lírico oferece seu corpo, num frenesi de sentidos: impressões visuais, táteis e gustativas unem-se nesse ofertório em que o corpo transforma-se em vinho, sombra e nuvem. A explosão de desejo é capaz de mudar o destino (´Neste êxtase pagão que vence a sorte´) e de prolongar o tempo, retardando a hora final, enquanto os beijos de volúpia e de maldade, os círculos dantescos, os gestos felinos e as unhas cravadas no peito do amante sugerem uma certa perversidade, por seu caráter de transgressão.

Essa pulsão vital apresenta, ao longo de sua obra, múltiplas faces; embora predomine o erotismo dos corpos, também podem ser encontrados o erotismo do coração e o sagrado, como comprova a singeleza dos trechos a seguir: ´A noite sobre nós se debruçou… / Minha alma ajoelha, põe as mãos e ora!/ O luar pelas colinas, nesta hora/ É água dum gomil que se entornou…´ ou ´Amor! Anda o luar, todo bondade,/ Beijando a Terra, a desfazer-se em luz…/ Amor, são os pés bancos de Jesus/ Que anda pisando as ruas da cidade´ ou ´Amo as pedras, os astros e o luar/ Que beija as ervas do atalho escuro,/ Amo as águas de anil e o doce olhar/ dos animais, divinamente puro´. Florbela sabe-se superior, por sua sensibilidade e inteligência, seus versos de orgulho manifestam esta superioridade de mulher que nasceu artista: (Veja-se o texto 2 )

Vinga-se daqueles que a condenam por suas atitudes e idéias e querem calar sua voz feminina. Florbela manteve sempre um grande desdém e desprezo à hipocrisia social, às maledicências e às discriminações sexuais que limitavam o espaço da mulher.

Inúmeras passagens de sua obra revelam uma inclinação para o narcisismo e para certo donjuanismo, exemplo disso é o soneto ´Passeio ao Campo´, em que o eu lírico feminino procura atrair o amado exibindo sua beleza sua beleza e valorizando-se aos olhos dele ( p.121): (Leia-se o texto 3)

O eu lírica invoca o amado, pela repetição da mesma estrutura frasal (´Meu Amor! Meu Amante! Meu Amigo!´), cujos substantivos, grafados com letras maiúsculas, revelam o desejo de Absoluto, enquanto reiteração do possessivo (´Meu´) e do ponto de exclamação denuncia egolatria e urgência amorosa. Há uma preocupação em aproveitar o momento presente. A mulher compraz-se em indicar ao amante suas qualidades, que são as mesmas nomeadas por Florbela em várias passagens: cintura fina, pele de alabastro, mãos delicadas. Nos tercetos, uma aura de panteísmo transborda do texto e derrama-se sobre a terra.

VERSOS DE FLORBELA

Texto 1

No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frêmito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido à morte!
A sombra entre a mentira e a verdade…
A nuvem que arrastou o vento norte…
– Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!
Trago dálias vermelhas no regaço…
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!
E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente em voluptuosas danças…

Texto 2

O mundo quer-me mal porque ninguém
Tem asas como eu tenho! Porque Deus
Me fez nascer Princesa entre plebeus
Numa torre de orgulho e de desdém.
(…)
Porque o meu Reino fica para além…
Porque trago no olhar os vastos céus
E os oiros e clarões são todos meus!
Porque eu sou Eu e Eu sou alguém!
(Versos de Orgulho -Charneca em Flor, 1930)

Texto 3

Meu Amor! Meu Amante! Meu Amigo!
Colhe a hora que passa, hora divina,
Bebe-a dentro de mim, bebe-a comigo!
Sinto-me alegre e forte! Sou menina!
Eu tenho, Amor, a cinta esbelta e fina…
Pele doirada de alabastro antigo…
Frágeis mãos de madona florentina…
– Vamos correr e rir por entre o trigo!
Há rendas de gramíneos pelos montes…
Papoilas rubras nos trigais maduros…
Água azulada a cintilar nas fontes…
E à volta, Amor… tornemos, nas alfombras
Dos caminhos selvagens e escuros,
Num astro só as nossas duas sombras…

Fonte:
Diario do Nordeste (Fortaleza, Ceará) 24 fev 2008
http://diariodonordeste.globo.com/

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Lourdinha Leite Barbosa (Os signos do Discurso Amoroso de Florbela Espanca)

Florbela mostra preferência por alguns signos desencadeadores do processo amoroso e sensual, como mãos, boca, olhos e braços: (Veja-se o texto 4)

Segundo José Régio, as mãos e os olhos, partes do corpo que parecem mais agradar à poetisa, são também as que ela mais canta no amado, como se nele se espelhasse e procurasse a si mesma. Desse modo, em vários de seus sonetos de amor, a própria Florbela é que seria, ela mesma, o verdadeiro motivo e o amado apenas um pretexto: ´Teus olhos borboletas de oiro, ardentes/ Borboletas de sol, de asas magoadas/ Poisam nos meus, suaves e cansados,/ Como em dois lírios roxos e dolentes…´ (´Crepúsculo´, p. 97) ou ´Olhos do meu Amor! Infantes loiros/ Que trazem os meus presos, endoidados!´ (´Teus olhos´, p. 159).

Talvez a egolatria, o orgulho desmedido sejam produtos de um exacerbado clima de sonho e fantasia, desenvolvido pelas leituras da adolescente. Sabe-se que Florbela fascinava a juventude de Évora ´… distinguia-se, sobretudo, pelo ar moreno de cigana, de olhos garços, pestanudos e rasgados, escuros como o cabelo, braços magníficos, mãos afiladas e magritas´, mas, segundo os biógrafos, eram as leituras que a seduziam, nacionais e estrangeiras. Concentrada no mundo literário que criara para si, quiçá Florbela não estivesse preparada para a pequenez circundante.

A ilusão de uma plenitude, reiteradamente buscada, vai-se desvanecendo e deixando em seu lugar a frustração do desencontro, como se vê nos seguintes versos: ´Em toda nossa vida anda a quimera/ tecendo em frágeis dedos frágeis rendas… /- Nunca se encontra Aquele que se espera!…´.

As constantes decepções amorosas e as conseqüentes recaídas resultam na consciência da impossibilidade de um amor duradouro (´Amar-te a vida inteira eu não podia/ A gente esquece sempre o bem de um dia./ Que queres, meu Amor, se é isto a vida!… ´), na insaciabilidade (´Dize que mão é esta que me arrasta?/ Nódoa de sangue que palpita e alastra…/ Dize de que é que eu tenho sede e fome?!´), na negação do amor humano e no desejo de absoluto: ´O amor dum homem? – Terra tão pisada,/ Gota de chuva ao vento baloiçada…/ Um homem? – Quando eu sonho o amor de um Deus! …´

Mesmo um Deus não resolveria o conflito, pois, ainda assim, a insatisfação persistiria. O que Florbela anseia é o absoluto, o infinito, tantas vezes sugerido em seus versos: ´Mais alto, sim! Mais alto! A Intangível/ Turris Ebúrnea erguida nos espaços,/ À rutilante luz dum impossível!´

Essa ânsia de querer mais e mais a leva à sensação de ser vária, de já ter vivido outras vidas, em outros mundos, de ter sido personagem de lendas ou figura imortalizada por poetas e romancistas, conforme os excertos a seguir, presentes no Texto 5

Florbela julga-se, desse modo, uma forasteira no mundo em que vive e sofre por ter-se desligado do lugar de origem, onde ela podia dissolver-se em tudo, numa espécie de indistinção primordial: ´Sou chama e neve branca e misteriosa´, ´E a noite sou eu própria! A noite escura!!´

Maria Lúcia Dal Farra afirma que a dor sentida por Florbela é cósmica e supõe que provém do desligamento da mãe primordial, por isso, em seus poemas, o nascimento é muito doloroso, como se vê no seguinte trecho do soneto ´Deixai entrar a Morte´ (p. 201): ´Ó Mãe! Ó minha Mãe, pra que nasceste?/ Entre agonias e em dores tamanhas/ Pra que foi, dize lá, que me trouxeste´.

O conflito e a angústia, provenientes do acúmulo de tensão gerado pela luta entre contrários, Eros e Thanatos, são tamanhos que a possibilidade de paz só pode ser encontrada na morte: ´Dona Morte dos dedos de veludo,/ Fecha-me os olhos que já viram tudo!/ Prende-me as asas que voaram tanto!´

Obras sobre Florbela Espanca

ALEXANDRE, Madalena T. A busca da identidade na poesia de Florbela Espanca. In: A planície e o abismo, p. 69-73. Évora: Vega, 1997.
AMORA, Antônio Soares. Presença da literatura portuguesa: Simbolismo. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1974.
BELLODI SILVA, Zina. Florbela Espanca: o discurso do outro e a imagem de si. Cadernos de Teoria e Crítica Literária, nº 19. Araguaia: Unesp, 1992.
CENTEN, Yvette K. Prefácio. In: ESPANCA, F. O dominó preto. Amadora: Bertrand, 1982, p. 9-21.
DAL FARRA, M. Lúcia. Florbela: os sortilégios de um arquétipo. Boletim Bibliográfico da Biblioteca Mário de Andrade, v. 43, nº ¾, p. 43-8. São Paulo: PMFSP, 1982.
DUARTE, Zuleide. Florbela Espanca: a flor-paixão. In: PAIVA, J. Rodrigues de (Org). Estudos sobre Florbela Espanca. Recife: Associação de Estudos Portugueses Jordão Emerenciano, 1995, p. 117-27.
HAAG, Carlos. Livro traz a pura poesia de Florbela Espanca. O Estado de S. Paulo. São Paulo: Caderno 2, 16/3/1997, p. D2.
IANNONE, C. Alberto. Bibliografia de Florbela Espanca. Separata de A Cidade de Évora. Amadora: Bertrand, 1965-1967.
JUNQUEIRA, Renata S . Sob os sortilégios de Circe: ensaio sobre máscaras poéticas de Florbela Espanca. Dissertação de Mestrado. Campinas: Unicamp, 1992.

Fonte:

Diario do Nordeste (Fortaleza, Ceará) 24 fev 2008
http://diariodonordeste.globo.com/

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Lourdinha Leite Barbosa ( O Discurso Poético de Florbela Espanca)

Em seu discurso poético, aspirou, essencialmente, a uma revelação de si mesma, concentrando, sobretudo, no estranhamento, isto é, um eu que se confronta com um cotidiano que lhe parece inóspito. Nesse sentido, em sua escritura, há, como motivo recorrente, a presença de um eu que, poema a poema, tem construído o seu retrato, não como uma forma definitiva, mas como um leque de possibilidades. Desse modo, traduz ao leitor a sensação de deparar uma poética que se estilhaça, num desdobramento permanente do inconsciente.

Acerca desse traço revelador da poética de Florbela Espanca, observe-se o seguinte: ´Um imaginário poético que se estrutura na recorrência da função emotiva, como sendo esta a vertente nuclear de sua expressão, […] sente-se, na escritura de Florbela, um ímpeto que condiz com um certo sentimento de libertação. […] A prática subjetiva, assumida como anseio de libertação, vem suprir a lacuna deixada por um lirismo reprimido e se investir da voz de trovador que reverte a direção da mensagem. Urge trazer à tona os desejos evocados em sonoridades e cores esfuziantes, além daquilo que esses objetos encerram no sentido da busca de ombrearem-se com os que se expressam nas vozes masculinas, até então, quase exclusivas na recepção dos valores literários da época.´ (NORONHA, Luzia Machado Ribeiro de. Entreretratos de Florbela Espanca: uma leitura biografemática. São Paulo: Annablume / Fapesp, 2001, p.44)

O seu discurso poético, portanto, é, antes de tudo, um estado de sensibilidade; – e este é, simultaneamente, o próprio ser desgostado de si mesmo e de uma civilização em crise. Evola-se, por fim, a consciência de um estado de decadência social e cultural: a vida materializada, a sociedade injusta, a destruição da beleza: a sensação de que a vida é um beco sem saída; e se saída houver, é falsa.

VERSOS DE FLORBELA

Texto 4

Ó meu Deus, ó meu dono, ó meu senhor,
Eu te saúdo, olhar do meu olhar,
Fala da minha boca a palpitar,
Gesto das minhas mãos tontas e amor.
(Escrava, p.189)
Viver!… Beber o vento e o sol!… Erguer
Ao céu os corações a palpitar!
Deus fez os nossos braços pra prender,
E a boca fez-se sangue pra beijar!
(Exaltação, p. 108)

Texto 5

Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida…
(p.42)
Fui cisne, e lírio, e águia, e catedral!
E fui, talvez, um verso de Nerval,
Ou um cínico riso de Chamfort…
(p.83)
Ficaram meus palácios moiros,
Meus carros de combate destroçados,
Os meus diamantes, todos os meus oiros
Que eu trouxe d´Além-Mundos ignorados!
(p. 159)

Fonte:
http://diariodonordeste.globo.com/

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Rodrigo Volponi Leal (1979)

Nome: Rodrigo Volponi Leal
Apelido: Volponi, Volps, Volpa e variantes
Idade: 28 (05/09/79)
Time: Timão (é que nem gonorréia: passa de pai pra filho) e Linense (o Elefante da Noroeste)
Formação: 4-4-2 (e Publicidade na ECA)
Ocupação, por obrigação: webdesigner/webmaster/webslave
Ocupação, por interesse: testador de bugs do SimCity, pseudo-tocador de violão, mas prefiro ocupar mesmo é a rede (não a web, a de dormir).
Livro de cabeceira: Pequeno Príncipe. Veríssimo, Veríssimo, Veríssimo. Guimarães. Rubem Fonseca, Mário Prata, João Ubaldo. Saramago, Cortázar, Calvino.
Influências: Veríssimo, Jorge Ben, BB King, Natural Born Killers, O Mistério do Cinco Estrelas, Papai Papudo, Corra Lola, Corra, There’s Something About Mary. South Park, Picapau. Doce de abóbora da vovó.
Se você fosse Presidente da República, qual seria sua primeira medida?
90 de busto, 60 de cintura e 90 de quadril.
Se você fosse chefe do Comando Vermelho, qual seria sua primeira medida?
Dar uma variada nas cores do Comando. Monocromatismo dá sono. Poderíamos montar uma bela paleta de cores, mesclando a impetuosidade do vermelho, a força do preto, a leveza do…

Volponi por Rafael da Paixão Uyeda:
Esse é o cara. Se tudo vai mal, ele vai bem. Se tá triste, fica alegre. O coisa ruim é pra frentex (e no cabelo só gourmex). Incomunmente inteligente. Às vezes a inteligência para em um copo americano de cerveja, mas ninguém é de ferro! Sorriso largo, jeito bonachão (sempre quis dizer isso de alguém), é um cara alegre, um rapaz alegre (sem versões em inglês). Volponi, inteligente alegria que vai por aí ….

Volponi por Paulo Coelho:
O Volpa é o nosso candidato a integrante do STOMP. Às vezes, tenho certeza que batucar é para ele tão necessário quanto o ar para nós. E como em qualquer batuqueiro que se preze, sobra agitação e empolgação. Mesmo a tristeza, quando aparece, fica menos séria. Esse nosso amigo é um batuque animado e inquieto, muito mais interessante do que samba enredo e… Ô… Ei…. Especialmente amarrado na cadeira! Quer parar de batucar e me deixar escrever?

Volponi por Volponi
Que coisa ! Sei lá como eu sou. A gente é a gente e pronto, certo? Então… só conseguimos saber como é uma pessoa (e nós mesmos!) por partes. Sempre em pedacinhos, sempre de uma forma fragmentada. Não tente reunir esses cacos: o mosaico é sempre mais belo que o vidro plano, transparente e sem graça. Eu também sou vários pedacinhos ao mesmo tempo: às vezes, um cara que corre pro interior (Lins) pra curtir um sossego, os amigos e um churrasco. Outras vezes, um cara ansioso que não pára de se mexer (e de batucar, e de falar, e de escrever, e etcéteras…). Outras vezes ainda, um cara que quer só ficar no seu cantinho, curtindo um Guimarães na buena. Ou South Park. Ou discutindo a força da mídia. Ou querendo ser radical contra conformismos e hipocrisias. Outras vezes sendo conformado e hipócrita. Mas o que importa é ir tocando o barco pra frente, de uma maneira leve e aproveitando o que a vida tem de bom ou ruim. Tá, tudo isso é um papo meio chato, meio babaca, mas pôxa! Vamos rir e chorar (principalmente rir) à vontade…

Fonte:
http://www.cronistasreunidos.com.br/quemsomos/volponi/

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Rodrigo Volponi Leal (Confecções Saxofone)

Esta é uma história verídica, sobre uma loja que realmente existe, chamada “Confecções Saxofone Ltda”. Só o resto é que é fictício, claro. Ou você consegue imaginar como esse nome ridículo foi escolhido para uma lojinha? Pura obra de ficção.

Digamos que o nosso personagem se chame Carlos. Não, Lucas. Melhor: Lálio. Isso, Lálio é sonoro, aliterante, perfeito. Vejamos. Ele tem mulher, dois filhos, talvez um cachorro. E é desempregado. Por que desempregado? Bom, já que estamos imaginando uma história do dono das “Confecções Saxofone”, nada mais óbvio de que esse cara tem que ser um desempregado para escolher um nome desses. Portanto, desempregado. Ou artista. Melhor: desempregado e aspirante a artista. Aspirante a artista é quase o mesmo que desempregado, mas você entende a diferença semântica entre o que ele acha que é e o que a mulher acha dele.

Ótimo, agora já temos até um começo de trama: a mulher o chama de desempregado. E ele sempre retruca dizendo que é um aspirante a artista, que ela não entende, que ele um dia vai fazer sucesso. “Não existe tocador de timba melhor do que eu num raio de 2 quilômetros!”, dizia ele. Temos que explicar a você, leitor, para que esta história faça um pouco de sentido, que Lálio não é apenas o tocador de timba do grupo, que se chama, vejamos, Ótica do Samba. Lálio é um aspirante a músico. Por isso, além de timba, ele toca cavaquinho, pandeiro e até bateria, quando os vizinhos estão viajando. Sua casa respira música. Bom, pelo menos o Lálio respira música, porque sua mulher respira o cheiro de cachaça e cigarro da roupa dele.

— Lálio, seu vagabundo! Estava de novo no Knex’s Bar com “aqueles” amigos ?
— Calma, querida, estava só ensaiando para o novo sucesso do Ótica do Samba.
— Sucesso, Ótica do Samba, cachaça… você pensa que eu sou idiota? Precisamos de sustento, e a grana que veio do falecido ja-já acaba. Quando é que vai começar a trabalhar, hein?
— Vai dar certo, desta vez vai dar certo.
— Sei, sei… como aquela vez, daquele coral idiota, como é que se chamava?
— Cobra Coral.
— E olha o nome, meu Deus, olha o nome!
— Você queria o quê? Era o coral de ex-recrutas do Batalhão! E a gente até cantava afinadinho…

Um dia, o grupo se desfez. O Carlinhos, que comandava o bumbão, desistiu. Foi vender Bíblia no centro. Espírita. Justo ele, que era primo do dono do Knex’s, o boteco dos ensaios. Agora não haveria novos ensaios. E o bairro da Suprema Caixeta não tinha mais o Ótica do Samba como grupo oficial.

Lálio sentia-se desolado. Como poderia sair dessa? Agora ele se via sem trabalho, sem grupo de pagode, sem desconto no bar e sem o maço de cigarros, que ele perdeu. Tomou uma atitude inesperada. “Vou comprar cigarros”. E foi. Depois do décimo-terceiro cigarro, veio-lhe a idéia: comprar um saxofone. Um saxofone dourado, reluzente, o som dos céus. Era o instrumento que sempre desejara tocar. Um saxofone seria o símbolo do prestígio que coroaria sua carreira de aspirante a artista. E pensar que ele tinha começado lá no Knex’s, batucando caixa de fósforo recheada de pedrinhas. Primeiro o pessoal do grupo tentou agredi-lo, mas viram que não adiantaria e deixou Lálio fazer parte, contanto que ele dançasse no ritmo. Foi difícil, mas ele conseguiu. E o saxofone deixaria todo mundo morrendo de inveja do seu talento.

Correu até a mulher para contar a brilhante idéia. Ela o esperava carinhosamente, de braços cruzados e com um enorme martelo de amaciar bife na mão esquerda. Por uma estranha razão que Lálio não compreendeu, a mulher não gostou da proposta. Para ela, um saxofone seria um absurdo, e essa “palhaçada” só faria sentido na cabeça de alguém que era, numa tradução livre de sua fala, um “bêbado desempregado que chega em casa cheirando a cigarro e que não quer nada da vida, seu vagabundo”. Ela tinha uma idéia muito, muito melhor, mais pé no chão. Abriria uma lojinha de roupas para gatos, copiando a madame da revista “Excêntricos Per Si” que tinha um siamês vestido de marinheiro. E eles ficariam ricos, e Lálio poderia ajudar na loja como um vendedor atencioso, limpo e cheiroso, bem diferente desse músico de “um quarto de tigela”.

— Mas Martifestana – era esse o nome da mulher -, meu amor !!! Que idéia absurda é essa? Roupa pra gato?
— Melhor que gastar o dinheiro com um saxofone, pra nada!
— E quem é que quer vestir gato?
— Ué, não comida pra gato? Não tem cama pra gato? Não tem médico pra gato? Só falta roupa e cabeleireiro…

No fim, não foi uma coisa nem outra. Martifestana viu que os únicos possíveis clientes roubavam o bife da cozinha, e esses não tinham dono algum para vesti-los. Ainda mais com a última tendência da moda. A “Miau Confecções” não saiu do papel. Mas o saxofone saiu, graças ao empenho de Lálio. Está lá, na plaquinha na frente da garagem da casa. “Confecções Saxofone”, onde Lálio finalmente aprendeu as diferenças entre “robe” e “bustiê”.

Fonte:
publicado em 17/07/2001 em
http://www.cronistasreunidos.com.br/volponi/2001/07/confeccoes-saxofone/

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Paulo Coelho (Como Andar de Bicicleta)

– Numa boa, eu já te falei o que é isso.
– O que?
– Estamos ficando velhos.
– Isso é bobagem. Temos só 30 anos. Não é o suficiente para causar todo esse estrago. Ou é?
– É isso sim. Para sobrevivermos aos 40 temos que nos mexer já.
– E vamos fazer o que?
– Exercício. Chega de ser sedentário.
– Putz, não tem outro jeito não?
– Que outro jeito?
– Sei lá. Um comprimido, uma massagem, ou uma injeção que seja.
– Caramba. Você prefere tomar uma injeção do que fazer exercício?
– Claro. Todo mundo. Você vê, de graça, até injeção na testa, mas nada de correr na esteira…
– Faz sentido.
– Todo.
– Mas não tem jeito não. Nosso problema só se resolve com exercício. Escolhe um aí.
– Ah, sei lá. Qual que tem?
– Como qual que tem? Você quer o que? Um cardápio de exercícios?
– É assim que entendo o mundo. Cardápios ou catálogos.
– Bem, então vai ter que aprender uma coisa ou outra agora. Não se precisa de cardápio para fazer exercício, está em nossa natureza.
– Cara, numa boa, minha ligação mais próxima com a natureza é o tabaco do meu charuto.
– Ok. Vou facilitar pra você. Você pode correr.
– Correr de que? Pra onde?
– Só correr.
– Mas por qual motivo?
– Pra fazer exercício.
– Não faz sentido. Se for correr tem que ser para algum lugar.
– Não precisa. Você pode correr na esteira.
– Ah sim, agora faz sentido. Vou ficar me matando de correr para não sair do lugar.
– Ta bom , ta bom. Então nada.
– Nada? Ótimo, isso eu sei fazer bem.
– Palhaço. Natação. É o exercício mais completo que existe.
– Ah, eu não acredito em natação. Acho que não é exercício.
– Como assim?
– Não acredito num exercício que não te faz suar.
– Mas você está dentro da água, como poderia suar.
– Não me importa. Só é exercício quando sua. Isso eu sei. Vi na ESPN.
– Falaram isso na ESPN?
– Não. Mas é a única fonte que lembrei.
– Numa boa. Chega.
– Ótimo, paramos com essa besteira então.
– Paramos vírgula. Você parou. Eu vou fazer exercício.
– Pó.
– Pó o que?
– Achei que estávamos juntos nessa.
– Nessa o quê?
– Ah, nessa. De morrer com 40.
– Não, eu tenho muito o que fazer ainda depois dos 40.
– O que por exemplo?
– Escrever um livro, plantar uma árvore, ter um filho…
– Blé. Bando de coisa sem graça.
– Pagar mais barato por ser idoso.
– Hummm. Verdade.
– É.
– Me convenceu. Me ajuda aí. Eu faço exercício. Faço o que você fizer. É só falar.
– Vou andar de bicicleta.
– Ah, isso eu não posso. Já faz muito tempo que não ando. Esqueci como faz. Melhor deixar pra lá.

Fonte:
Disponível em http://www.cronistasreunidos.com.br/paulocoelho/arquivo.htm
acesso em 23 de fevereiro de 2008.

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Larissa Evelyn de Oliveira (Nossas Lendas, Nossos Medos)

Nasceu no dia 01/10/94 em Taquarituba, SP. Gosta muito de ler e é “freguesa de carteirinha” da Biblioteca Municipal. Seu gosto pela leitura começou desde cedo e aos 10 anos já tinha lido diversos livros de Richard Bach. Ela adora Hemingway, porém, lê também escritores nacionais. Já fez alguns cursos de teatro e de pintura em telas. Gosta de ler e escrever poesias. Parece que em suas veias corre um sangue literário, pois ela é irmã da jovem escritora Ana Paula de Cássia, também colunista no Sorocult.com. Seu passatempo predileto é desenhar, o que ela faz com grande desenvoltura e prazer.
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Nossas Lendas, Nossos Medos

Eu não deveria mas vou te contá
Pois com toda certeza
Nessa história você não vai acreditá
Foi numa noite de rara de beleza
Depois de um barulho algo fui avistá
O bicho era feio, assustei-me com sua braveza
E de tanto medo comecei a gaguejá
Foi então que percebi que aquela criatura era o famoso boi-tá-tá

Sai dali desesperada
E o que aconteceu vou contá para você
Ao passar por uma encruzilhada
Minhas pernas bambearam e eu não consegui corrê
Seitei-me e o que vi deixou-me mais apavorada
Minha voz se calou, nada eu consegui dizê
Pois ali do meu lado estava o danado do Saci-pererê

Depois disso acho até que desmaiei
E já era madrugada quando eu acordei
Tentei andá, pois dali eu teria que ir embora
O perigo era grande, tinha que sair dali agora
Pois atrás de uma árvore, olhando para mim, eu vi uma Caipora

Fiquei chorando e nem imaginei que o meu susto derradeiro
Fosse um susto tão bom, pois avistei aquele cavaleiro
Que ao passar por mim disse: vamos, pois eu não sou um menino arteiro
Eu sou apenas um garoto do bem,
sou conhecido como o Negrinho do Pastoreiro

Fonte:
Sorocultinho. Disponível em
http://www.sorocult.com/

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Joaquim Evónio (1938)

Joaquim Evónio Rodrigues de Vasconcelos nasceu na Freguesia de Santa Maria Maior, Funchal, Madeira, a 3 de Setembro de 1938.

– Licenciado em Ciências Militares – Coronel de Infantaria na situação de Reforma Extraordinária. -Licenciado em Ciências Sociais e Política Ultramarina pela UT de Lisboa.
– Auditor do Curso de Defesa Nacional – CDN 83
– Certificado de “Proficiency in English” – British Institute – Lisboa.
– Aposentado como Assessor Principal do Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil (SNBPC).
– Condecorado com a Medalha de Prata de Serviços Distintos com Palma
– Grau de Comendador da Ordem Heráldica da Paz Universal (Brasil).
– Medalha de Ouro Pacificador da ONU Sérgio Vieira de Melo, do Parlamento Mundial para Segurança e Paz, Palermo.
– Honorary Knight of the Royal Order of the Lion of Rwanda (atribuída pelo Rei KIGEL V).

– Gera, desde Fev 04, a “Varanda das Estrelícias – Uma Ponte sobre o Atlântico” seu site – http://www.joaquimevonio.com – onde promove a difusão da língua e cultura lusófonas, (artes plásticas, poesia e prosa).

• Associações a que pertence:
– Associação Portuguesa de Escritores (APE)
– Associação Cultural SOL XXI (extinta recentemente)
– Instituto Açoriano de Cultura (IAC)
– Sócio honorário da Ordem Nacional de Escritores do Brasil (ONE)
– Associação Escadote Cultural
– Associação de Música e Artes dos Arquipélagos (A.M.i.M.A.R)
– Associação de ex-Auditores dos Cursos de Defesa Nacional
– Associação de Deficientes das Forças Armadas (ADFA)
– Sociedade Portuguesa de Engenharia Sísmica (SPES)
– Núcleo de Apoio ao Centro Desportivo Universitário de Lisboa (NACDUL)

• Publicações:
POEMAS

ESBOÇOS PESSOANOS – Poemas sobre desenhos de José Jorge Soares – Ceres Editora, Lda., Ponte de Lima, 1994.
• Poesia:

CONTOS:
SOMBRA EM CLAVE DE SOL , Universitária Editora Lda., Lisboa, 1999. Desenhos de José Jorge Soares.

PREFÁCIOS:
MARCELLO E SPÍNOLA – A RUPTURA (1.ª edição), Manuel Bernardo, Edições Margem, Lisboa, 1994.

MATA-COUROS OU AS “GUERRAS” DO CAPITÃO AGOSTINHO, Carlos Gueifão, Universitária Editora Lda., Lisboa, 1998.

A ÚLTIMA ESTAÇÃO – Simone Maia, Gráfica Expressão, S. Paulo, Brasil – Copyright 2004 by Simone Maia, Fundação Biblioteca Nacional sob o n.º 332 218

MARGENS DO ATLÂNTICO – (Antologia internacional) – PROJECTO ABRALI – Curitiba, Brasil, Março 2006

ENSAIOS:
A FUNÇÃO UNIFICADORA DO CONFLITO Trabalho apresentado no âmbito do Curso de Sociologia (1.º ano, pós-graduação, 1.º Semestre) na disciplina “História dos Conflitos Sociais”, Universidade Livre de Lisboa – 1981

A AZENHA E AS TECNOLOGIAS TRADICIONAIS Trabalho apresentado no âmbito da Cadeira Semestral do Curso conducente ao Mestrado em Ciências Antropológicas, ISCSP, “Tecnologias Tradicionais Peninsulares”, regida pelo Prof. Doutor João Pereira Neto, 1983/84

DIÁRIO DE CAMPO – As Azenhas do Rio Boição Trabalho apresentado no âmbito da Cadeira Semestral do Curso conducente ao Mestrado em Ciências Antropológicas, ISCSP, “Planeamento de Trabalhos de Campo em Antropologia” regida pelo Prof. Manuel Alfredo Morais Martins, 1983/84

O SISTEMA DE PARENTESCO COMO FACTOR DE SOBREVIVÊNCIA Trabalho apresentado no âmbito da Cadeira Semestral do Curso conducente ao Mestrado em Ciências Antropológicas, ISCSP, ” Sistemas de Parentesco ” regida pelo Prof. Manuel Alfredo Morais Martins, 1983/84 A

SOCIOBIOLOGIA E O SISTEMA DE CRENÇAS Trabalho apresentado no âmbito da Cadeira Semestral do Curso conducente ao Mestrado em Ciências Antropológicas, ISCSP, “O modelo biológico”, regida pelo Prof. Dr. Luís E. Franco Ré, 1983/84

LIVROS COLETIVOS:
-INDIVIDUALISMO E SOLIDARIEDADE HOJE – compilação dos trabalhos premiados nos VI Jogos Florais, edição da Junta de Freguesia de Amora, 1994.

-CÂNTICO EM HONRA DE MIGUEL TORGA – Fora do Texto – Cooperativa Editorial de Coimbra – Coimbra, 1996.

-ANTOLOGIA DE CONTOS, Edição SOL XXI, Carcavelos, 1997.

-FLORILÉGIO DE NATAL, pelos poetas da Tertúlia “Rio de Prata”, Universitária Editora Lda., edições de 1997, 1998 e 1999.

100 ANOS – FEDERICO GARCÍA LORCA – Antologia, Homenagem dos Poetas portugueses, Universitária Editora Lda., Lisboa, 1998.

-RIMBAUD – Révue Semestriel Internacional de Création Littéraire, Editeur John Donne & Cie., France, 1998.

-Homenagem a FERREIRA DE CASTRO, pelos escritores da Tertúlia “Rio de Prata”, Universitária Editora Lda., Lisboa, 1998.

-GABRAVO – colectânea – ARTDOMUS, S. Pedro de Sintra, 2002

-NA LIBERDADE – Antologia Poética – 30 anos – 25 Abril – Coordenadores: Jorge Velhote, Nicolau Saião e Nuno Rebocho – Garça editores.

-Homenagem a TEIXEIRA de PASCOAES – pelos escritores da Tertúlia “Rio de Prata” e convidados – Execução Gráfica: E. Santos – Artes Gráficas, Lda.

Antologia de Escritas 2, Organização de José Félix, Impressão Quilate, Lda.

Antologia de Escritas 3, (Homenagem ao Poeta José António Gonçalves), Organização de José Félix, Impressão Quilate, Lda.

-CASANOVA Ferreira – A Marecida Homenagem – Uma filha convida uma vintena de Amigos a depor sobre o Homem. O Livro surge de surpresa no almoço do seu 75.º. aniversário.

-CANTOS DO MUNDO – Antologia Literária Internacional – Versos e Prosa – -PROJECTO ABRALI, Curitiba, Brasil, Março 2006

-POETÂNEA 5, Coordenação de Julião Bernardes, 1.ª edição, Setembro de 2006)

COLABORAÇÃO:
em poesia e/ou prosa nas revistas:
SOL XXI, VIOLA DELTA, ATLÂNTIDA, GAZETA DE POESIA, ARTES & ARTES e LÍMIA.

Recensões e apresentações de obras literárias:

Diversas Revisões tipográficas:

Diversas obras literárias e textos avulsos em poesia e prosa

Fonte:
www.sorocult.com

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Joaquim Evónio (Carta-Poema do Amor Universal)

foto de Martos Ribeiro
Não invoque meus poderes soberanos… depois não os poderá controlar… nem a eles, nem aos efeitos que provocam sobre nós!

Deixe-os descansar na concha em que dormem desde épocas remotas…

Vamos brindar aos tempos antigos em que nossas almas desnudas passeavam por entre as flores do paraíso… e os corações revoltos ansiavam asas para ganharem eternidades…

Momentos em que o mais ligeiro e efêmero afago epidérmico era um vulcão de primavera florida, transpondo almas e corações para o apex do universo…; numa transmutação que já não se sabia onde começava ou acabava, exatamente porque não tinha princípio nem fim…

Também não tinha morada, era mudança em andamento perpétuo, órbita estelar em movimento, beijos caídos do espaço e recolhidos nas taças quentes dos seios sequiosos…

Vôos sem pássaros ou borboletas dentro, apenas harmonia ou música sem pauta ou instrumento, melodia ou som flutuante sem apoio material, beijo sem lábios ondulantes caído nas mãos seduzidas duma amante amada para sempre abraçada ao seu amor…

Sem braços, sem corpo, só alma… chuva na ausência de tempestade sobre o sensível orvalho brotante em gotas de gineceu… à espera do fecundo néctar vindo do sidério, puro e filtrado pelas nuvens caprichosas de todos os céus, para descansar finalmente naquelas pétalas abertas, quase receosas mas abertas, altar iluminado à espera do amor…

Aproveita o silêncio da campina e faz dele o sino desta noite, bebamos o maná que brota de nós e trocamos de forma só nossa e profunda, transforma toda a canção em emblema de amor… E voa… Voemos como prosélitos que somos, por entre as nuvens de flocos brancos ou cinzentos, qualquer côr serve à limpidez dos sentimentos que nos enlevam e transportam por esse espaço etéreo…

Não fales, deixa selar de beijos esses lábios cansados da vida de mágoas, guardá-los num recôndito espaço do meu coração grande e forte, ali ficarão para sempre como recordação de toda a ternura da vida, até que a vida dure…

E enquanto formos capazes de voar, haverá juventude nestes corações ágeis e turbulentos, criadores e aventureiros, navios nos desertos dos ares ou gigantes contra todas as agruras que se lhes deparem….

Navegadores somos para sempre, objetivos temos e os buscamos com ardor, havemos de descobrir todas as terras por descobrir, e os céus também, e os espaços… e o que para além deles porventura ficar…

Somos os argonautas da amanhã porque já de ontem viemos e construímos um ninho de amor donde nasceram estes pássaros viandantes capazes de descortinar futuros inesperados e de lançar olhares de fogo sobre as madrugadas receosas de amanhecer para os corações apaixonados…

Viajaremos à vela ou apenas impulsionados pelo vento do amor… chegaremos ao nosso Shangri-lá e aí repousaremos e meditaremos para continuar a viagem eterna a que nos propusemos a bem da humanidade que acreditou em nós!…

Lá em baixo, aquela aldeiazinha é cada vez mais pequena, liliputiana, quase tão ridícula como as disputas dos homens, e aqui vamos nós, supernos e viajantes, nautas de hoje e de sempre, espargindo pelo universo o que somos e o que queremos…

A missão é grande mas ao nosso alcance, precisa de força, de muita força, daquela que só as sinergias do amor podem recolher para distribuir por todos quantos dela precisam para nos acompanharem nesta navegação de rumo certo e decidido!

Deram-se as mãos, entrelaçaram-se os corações, a humanidade ficou mais forte! Que poderá recear? Está mais do que nunca pronta para enfrentar o futuro. Este é o desconhecido e o desconhecido é o amanhã. Para lá chegar é indispensável ter aprendido o ontem e dissecado o hoje… Temos a certeza, porque não estamos sós, de que lá chegaremos….

O nosso objetivo, qualquer forma que revista do ponto de vista formal, só pode ter um nome, pois foi prosseguido e consolidado por nós. Esse nome só pode ser VITÓRIA!

Março de 2006

Fonte:
Site Varanda das Estrelícias
http://www.joaquimevonio.com/

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Douglas Lara (Uma Reserva no Meio da Noite)

Acordei recordando claramente de um sonho que tive. Nele, recebi um telefonema de uma mulher desejando reservar uma mesa. Seria a primeira vez que ela iria a um de nossos bailes e sempre que isto acontece damos atendimento especial. Este atendimento poderá resultar num novo/a sócio/a. Cuidadosamente, disse a ela que não sabia se ainda tínhamos mesas disponíveis, mas que, com certeza, daríamos um jeito. Na realidade, eu estava preocupadíssimo porque não saberia se poderíamos acomodar uma mulher na festa. Sendo assim, procurei saber um pouco mais daquela senhora, fazendo algumas perguntas para obter mais detalhes.

Neste sábado especial do mês – afinal é dia do baile mensal do Clube da Amizade de Sorocaba – acordei recordando claramente de um sonho que tive. Nele, recebi um telefonema de uma mulher desejando reservar uma mesa. Seria a primeira vez que ela iria a um de nossos bailes e sempre que isto acontece damos atendimento especial. Este atendimento poderá resultar num novo/a sócio/a.

Cuidadosamente, disse a ela que não sabia se ainda tínhamos mesas disponíveis, mas que, com certeza, daríamos um jeito. Na realidade, eu estava preocupadíssimo porque não saberia se poderíamos acomodar uma mulher na festa. Sendo assim, procurei saber um pouco mais daquela senhora, fazendo algumas perguntas para obter mais detalhes.

– Você vem só ou acompanhada?

Ela, sem me dizer seu nome, respondeu:

– Gostaria de ir acompanhada do meu amor, só que ele é casado e num sábado não pode deixar a família para sair só à noite…

Pensei: aí tem treta. Então arrisquei:

– Se não tem a possibilidade de dançar com seu amor, venha com seu marido mesmo!

Sabia que estava sendo abusado, só que o diálogo no sonho era tão amigável que achei que poderia continuar sendo mais atrevido nas minhas perguntas, e, repentinamente, tentar lhe proporcionar um bom divertimento, mesmo que fosse com o marido. Então continuei:

– Senhora, caso não venha com o marido, pode dançar com um ‘free-dancer’.

– Moço, chamou-me perguntando, o que é este tal de ‘free-dancer’?

Expliquei-lhe que como existem alguns cavalheiros disponíveis para mulheres desacompanhadas no baile, para que estas não fiquem sem dançar.

– Moço, com jeito dúbio indagou-me, e isto não custa nada a mais?

Era óbvio ela perguntar sobre isso. Tudo se paga hoje em dia! Se bobear, daqui um tempo estará pagando para respirar. E ela precisava saber o que estava comprando, senão depois agüenta o Código de Defesa do Consumidor! E ela tinha o direito de saber. Mas o que mais me intrigava era tudo isso num sonho! Deve ser o subconsciente. Disse a ela que no preço do convite já estava incluído o ‘free-dancer’, aproveitando para informar que ela podia dançar a vontade sem limite de contra-danças.

Mas minha curiosidade era forte e resolvi sair da passividade e perguntar, afinal telefone sempre nos dá mais coragem, não estamos olhando para o rosto da pessoa mesmo!

– Quando a senhora beija, costuma beijar de olhos fechados ou abertos?

Ela mudou o tom de voz na mesma hora e voltou à formalidade. Parou de chamar de moço. Deve ter pensado “respeito é bom e eu gosto, não acha que tais perguntas devem ser feitas apenas quando temos intimidade?”. Fiquei sem graça e pedi que esquecesse esta questão, apenas perguntei por perguntar.

Decidi ser um pouco mais objetivo e menos abusado nas perguntas.

– Senhora, por gentileza, a mesa e convites são para quantas pessoas?

Ela, que deveria estar perdida até mesmo em saber o que queria, respondeu “ainda não sei”.

Esta venda dura de fazer!!! Parti para outra pergunta, tentando direcionar a conversa e resolver o problema da dançarina.

– E a senhora costuma dançar de rosto colado?

– Lá vem o senhor novamente com perguntas inconvenientes!! Por quê? Neste baile não se pode dançar de rosto colado?

– Pode sim, desde que seja com respeito! – retruquei.

– Senhor, perguntou-me finalmente, por que tantas perguntas?

– A senhora está desde o início dizendo que gostaria de vir ao baile e dançar com seu amor, só que ele é casado! Estou apenas tentando acomodar uma situação que a maioria das pessoas que vem ao baile tem. Desculpe. Não vejo problema em a senhora beijar e dançar com olhos fechados. Não importa que seu parceiro não seja seu amor. Dance e beije de olhos fechados, imaginando estar dançando e beijando seu amado. Dá no mesmo!

Precisava terminar aquela conversa e desligar o telefone, então disse:

– Senhora, preciso desligar, pois tenho outro interessado esperando na outra linha. Pense e telefone mais tarde e diga qual foi a decisão. Terei o maior prazer em fazer a reserva.

Acordei com o telefone tocando. Atendi, ainda meio dormindo, pensando que seria a mulher novamente. Não era, não. Era um dos diretores: “Douglas, acorde e venha ajudar a preparar o clube para o baile de hoje à noite, estamos precisando de você”.

Fonte:
http://www.sorocult.com/

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O êxito do Código da Vinci (Umberto Eco)

Todos os dias vem parar em minhas mãos um novo comentário sobre O Código da Vinci, de Dan Brown. Se quiserem uma informação atualizada sobre todos os artigos a respeito do tema, basta visitar o site da Opus Dei. Podem confiar, mesmo se forem ateus. Quando muito – como veremos – a questão talvez seja por que o mundo católico se azafama tanto para arrasar o livro de Dan Brown; mas quando a parte católica explica que todas as informações que o livro contém são falsas, podem acreditar.

Que fique claro. O Código da Vinci é um romance, e como tal, teria direito de inventar o que quisesse. Além disso é escrito com habilidade e o lemos de um só fôlego. Nem é grave que o autor de início diga que o que nos conta é verdade histórica. Só faltava essa! O leitor profissional está acostumado a esses apelos narrativos à verdade, fazem parte do jogo ficcional. A encrenca começa quando percebemos que um grande número de leitores ocasionais acredita realmente nessa afirmação, da mesma forma que no teatro de marionetes siciliano os espectadores insultavam Gano de Maganza, o traidor.

Para desmontar a suposta veracidade histórica do livro, bastaria um artigo razoavelmente breve (e já andaram escrevendo uns ótimos) que diga duas coisas: a primeira é que todo o episódio de Jesus que se casa com Maria Madalena, de sua viagem à França, da fundação da dinastia merovíngia e do Priorado de Sion é tudo quinquilharia que já circulava há décadas numa pletora de livros e livrinhos para os devotos das ciências ocultas, desde aqueles de Gérard de Sède sobre Rennes- le-Chateau ao O Santo Graal e a linhagem sagrada de Baigent, Leigh e Lincoln.

Ora, que tudo isso contivesse uma longa série de lorotas já foi dito e demonstrado há um bom tempo. Além disso, parece que Baigent, Lincoln e Leigh ameaçaram (ou realmente iniciaram) uma ação judicial contra Brown, por plágio. Como assim? Se eu escrever uma biografia de Napoleão (narrando eventos reais), depois não posso processar por plágio alguém que tenha escrito outra biografia de Napoleão, ainda que romanceada, narrando os mesmos eventos históricos? Se eu fizer isso, então me queixo do roubo de uma originalíssima invenção minha (ou seja fantasia, ou lorota, como preferirem). Brown dissemina seu livro de inúmeros erros históricos, como aquele de ir buscar informações sobre Jesus (que a igreja teria censurado) nos pergaminhos do Mar Morto – os quais não falam nunca de Jesus, mas de assuntos hebraicos como os Essenes. É que Brown confunde os manuscritos do Mar Morto com aqueles de Nag Hammadi. Ora, acontece que a maioria dos livros que aparecem sobre o caso Brown, mesmo e especialmente aqueles bem feitos, para poder alcançar o número de páginas suficiente para fazer um livro, contam tudo o que Brown saqueou, tintim por tintim. Esses livros, em alguma medida perversa, embora sejam escritos para denunciar falsidades, contribuem para fazer circular e recircular todo aquele material oculto. Assim (assumindo a interessante hipótese que O Código seja um complô satânico), toda refutação que se lhe faz reproduz as insinuações, e com isso acabam se tornando seu megafone.

Por que, mesmo quando é contestado, O Código se autoreproduz? Porque as pessoas têm sede de mistérios (e de complôs) e basta que se lhes ofereça a possibilidade de pensar sobre mais um mistério (e até no momento em que você lhe diz que era a invenção de alguns espertinhos) e pronto, todos começam a acreditar naquilo.

Acho que seja isso o que preocupa a igreja. A crença no Código (e em outro Jesus) é um sintoma de descristianização. Quando as pessoas não acreditam mais em Deus, dizia Chesterton, não é que não acreditem em mais nada, mas acreditam em tudo. Até nos meios de comunicação de massa.

Fiquei impressionado com a figura de um jovem imbecil que, na praça São Pedro, enquanto uma multidão imensa aguardava a notícia da morte do Papa, ele, de celular no ouvido, dava tchauzinho para a câmara de TV. Por que é que estava ali (e por que estavam ali tantos outros como ele, enquanto talvez milhões de verdadeiros crentes estavam em suas casas, e orando)? Em sua espera de um sobrenatural midiático, não estaria ele pronto a acreditar que Jesus tenha se casado com Madalena e estivesse mística e dinasticamente ligado pelo Priorado de Sion a Jean Cocteau?

Fonte:
Revista Entrelivros. edição 6 – Outubro 2005
http://www2.uol.com.br/entrelivros/

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Entrevista com Gonçalo M. Tavares (Joca Terron)

Gonçalo M. Tavares é um abalo sísmico no panorama da literatura portuguesa atual. Após estrear em 2001 com Livro da dança, publicaria no ano seguinte nada menos do que outros quatro títulos de poesia, teatro e ficção. Na época, foi recebido pelo decano ensaísta Eduardo Prado Coelho como já “um dos maiores poetas para o século XXI”. O escritor português nascido em Angola tem cumprido a sina: em tão pouco tempo, lançou 21 livros em 12 países e é bem recebido pela crítica.

No Brasil sua fulminante trajetória não é diferente: apenas nos últimos meses saíram Um homem: Klaus Klump (Companhia das Letras), seu primeiro romance, além de O senhor Juarroz, O senhor Kraus e O senhor Calvino, habitantes da série O Bairro (Casa da Palavra) que vieram se juntar a O senhor Brecht, publicado em 2005. Tamanha proficiência é coroada agora com a seleção deste último e do romance Jerusalém ao prêmio Portugal Telecom, ao qual ambos concorrem como finalistas.

Autor de obra caracterizada não somente pela exuberância criativa, mas também por rigorosos jogos de lógica que misturam poesia e filosofia sem nunca deixar de divertir o leitor, Gonçalo M.Tavares revela alguns de seus enigmas. Livros, para ele, têm principalmente a missão de aumentar a lucidez.

ENTRELIVROS – Qual era a sua disciplina para escrever no período que antecedeu a publicação de seus primeiros 14 livros, vindos à luz incrivelmente em apenas três anos?

GONÇALO M. TAVARES – Escrevo desde muito cedo, mas as coisas ficaram sérias a partir, talvez, dos 20 anos. E publiquei o meu primeiro livro só aos 31. Sempre foi meu desejo não publicar antes dos 30; uma fixação como qualquer outra. Queria ter um percurso anterior que me desse grande confiança. Bem, nesses dez, 11 anos – entre os 20 e os 30 – levantava-me muito cedo, uma obsessão, e normalmente às 6h30 da manhã já estava a ler e a escrever. Esses dois atos estavam e estão ainda muito ligados: lia-escrevia. Fazia isto todas as manhãs, com uma ou outra exceção, mas rara. E o que aprecio mais no meu percurso é mesmo este período; foi necessário muita disciplina, autodomínio. Às vezes pergunto-me como fui capaz de seguir essa disciplina. Agora é bem mais difícil.

EL – E havia tempo para viver? Como você concilia o mergulho na escrita com o convívio com os seus?

TAVARES – Sim, havia e há muito tempo para viver. Mas antes de continuar, deixe-me dizer-lhe que a pergunta pressupõe que ler-escrever não é viver; mas acho que é viver sim, e muito, de uma forma muito intensa. Ler e viver são experiências de vida claramente, e experiências humanas. Não são experiências de extraterrestre ou exteriores à vida. Não saímos da vida para ir ler, e depois voltamos. Não sei por exemplo se é possível hierarquizar a experiência de fazer uma viagem importante e a experiência de ler um livro como O homem sem qualidades, de Musil, ou Os irmãos Karamazov, de Dostoiévski. São coisas diferentes, mas ambas fortes. Voltando à sua pergunta: como me levantava muito cedo, às 11 h, 11h30 estava no resto da vida, por assim dizer, e mergulhava nela por completo. Fiz o que tinha a fazer nessa idade, viajei bastante, sofri o suficiente – não quero mais disso, tenho a minha dose.

EL – Você era um ávido leitor na infância? Ainda é na mesma proporção?

TAVARES – Sempre li bastante, mas na infância não era daqueles meninos que ficam de lado a olhar para os outros. Passei a minha infância, parte dela, na rua a jogar a bola com amigos, ao soco por vezes, nos namoricos, vivi muito no exterior. Comecei a ler cada vez mais e a certa altura percebi que a leitura era um eixo central na minha vida. Li e leio constantemente, e sinto, tal como para a escrita, falta de alguma coisa quando não leio um único dia. Tornou-se uma coisa muito biológica, orgânica. Preciso de ler. Tal como necessito de escrever. Por vezes, quando não escrevo fico irritado como se não tivesse ainda almoçado e já tivesse passado a hora para isso. É algo muito fisiológico. Mas não se deve romantizar a coisa: claro que posso passar sem escrever ou ler; mas se o fizer sinto falta.

EL – Há um poema de Juan José Saer que diz “Bem-aventurados os que estão na realidade/e não confundem suas fronteiras”. Há, na sua opinião, alguma distinção drástica entre a vida que escritores e leitores vivem nos livros e a vida supostamente real?

TAVARES – Bem, como lhe disse, considero-me um bom leitor – estou atento, tento ler o que é bom, se alguém que eu respeito me fala de um autor que eu não conheço no dia seguinte estou a ler esse autor, mas, apesar disso, estou bem metido no real. Dou aulas numa universidade, o que me faz estar em contato com alunos, com gerações de rapazes e raparigas de 20 e poucos anos e isso é muito bom – obriga-me a não estar fechado. Por outro lado, tenho uma robusta família: tenho três filhos: conhece maior chamamento à realidade do que esse? Aí, não há que inventar, e a imaginação não resolve problemas: é a vida real no seu sentido mais urgente. Os filhos exigem de nós tudo e dependem de nós, desde a comida, às frases que lhes dizemos, aos contatos corporais; tudo é importante e muito real. Felizmente, tenho filhos porque realmente o perigo era ficar como Dom Quixote, louco dos livros e da escrita. Eles são o real, que está mesmo ao pé de mim. Se estão com fome, preciso agir.

EL – Há algo de verdadeiramente novo no panorama da literatura portuguesa, além da pouca idade de alguns de seus praticantes mais recentes? Há ainda a possibilidade do novo em literatura?

TAVARES – Bem, em primeiro lugar só se pode fazer o novo se se conhecer o velho. Como posso saber se estou a fazer algo de novo se não sei o que os outros fizeram? Daí que um escritor, para mim, tenha de ser, primeiro, um leitor. Há escritores que escrevem sem ler nada e depois pensam que fizeram coisas muito novas. Como leram pouco não podem saber que milhares de escritores já fizeram aquilo. Os chineses têm um ditado que é ao mesmo tempo uma maldição: “Não te atrevas a escrever um livro antes de ler mil”, parece-me sensato. Quanto a fazer o novo, acho que é isso: temos de saber o que já se fez e o que se faz, tal como um investigador em física conhece as investigações de física dos séculos passados e também as actuais. Depois, sim, pode-se investigar a sério, tentar algo novo.

EL – Parece surgir uma voga de autores cujas imaginações não se limitam aos limites geográficos de seus países. Você se sente um autor português?

TAVARES – Julgo que o mais importante quando se escreve é a língua e por isso é evidente que me sinto um autor português e, mais importante que isso, um autor de língua portuguesa. Penso que a língua deve ser o mínimo denominador comum. O que julgo não fazer sentido é falar-se em “temas portugueses”. Os temas que me interessam pertencem ao homem, não ao homem português. Interessa-me perceber o medo, o mal, a violência, mas também os gestos surpreendentemente bondosos; interessa-me ainda a lógica da linguagem etc. Não são temas portugueses, são temas humanos. Mas, de qualquer maneira, um escritor ao utilizar a língua portuguesa tem logo uma ligação inatacável à sua origem. Repare que um artista plástico, português ou brasileiro, aí, sim, pode fazer, no limite, obras de que não saibamos identificar a origem ou a nacionalidade. Eu escrevo em língua portuguesa, portanto é fácil identificar a minha origem. E tenho orgulho em escrever nesta língua.

EL – Da mesma forma, seguindo a derrocada das linhas geográficas, o hibridismo de gêneros literários é uma constante em sua obra. A que isso se deve e como se configura?

TAVARES – Os gêneros literários são quase sempre definidos pelo receptor e não pelo emissor, digamos assim. O que me parece preocupante é que o emissor, o escritor, antes de escrever já se submeta às lógicas de recepção, e portanto se sente na cadeira a pensar: agora vou escrever um romance, agora um poema, agora um conto. Penso que o ponto de partida de um escritor não é um gênero literário qualquer, o ponto de partida é o alfabeto. Há letras e com elas formo palavras, mas posso escrever o que quiser, ir por qualquer caminho. O alfabeto não tem gênero literário. Por isso, por mim, tento sentar-me e escrever, simplesmente. E às vezes sai de uma maneira, outras vezes sai de outra e realmente há livros que eu não sei classificar: são
ensaio, um romance? Por exemplo, eu designo alguns livros que fiz como “bloom books”, outros como “investigações”. Enfim, tento por vezes dar-lhes o nome que me parece mais próprio. Mas alguns textos não sei mesmo o que são. O importante é que façam pensar, aumentem a lucidez do leitor, provoquem se possível reações, outras criações etc.

EL – Suas ficções fazem uso de uma linguagem poética. Gonçalo M. Tavares é essencialmente um poeta?

TAVARES – Não, eu acho que sou um escritor. Escrevo. Depois saem livros muito diferentes entre si. Julgo é que tudo pertence a uma mesma massa de instinto, racionalidade, angústias, ironia etc.

EL – Da mesma forma, sua poesia trava intenso diálogo com a filosofia. É possível filosofar em português? Quando surgirá um livro seu de filosofia pura?

TAVARES – Tenho muito respeito pela filosofia e pelos filósofos. Sou um leitor atento de ensaios. Mas precisamente por esse respeito tenho de dizer que é evidente que não sou um filósofo. Penso que a filosofia e as idéias são muito importantes para a escrita, não gosto de livros que não pensam e não nos fazem pensar. Acho sinceramente que isso é um desperdício. Se neste século a literatura não nos fizer pensar, o que é que nos vai fazer pensar? A televisão, o teatro, o cinema, as artes? Bem, eu acho que tudo isto pode ajudar-nos a pensar, mas, apesar de tudo, penso que a literatura ainda é, e deve ser cada vez mais o espaço por excelência do pensamento, da reflexão, enfim, da lucidez. E não precisa de ser pensamento filosófico, nada disso. Através de uma história podemos fazer pensar. Mas claro que não é uma historieta qualquer, não pode ser novela porque aí a televisão faz melhor. A literatura é outro mundo, é o mundo em que alguém está a ler um livro e pára, se necessário, numa linha, numa frase e interrompe a leitura e a partir dessa frase, se necessário, reflete ou põe em causa toda a sua vida. A literatura tem um tempo que dá ao leitor; na literatura o tempo é do leitor, acho isso muito importante. O mesmo livro de 100 páginas pode ser lido em duas horas, em dois meses, ou em dois anos. E nenhum tempo de leitura é melhor do
que outro. É o leitor que o define.

EL – É raro um autor ter tão organizada sua produção na forma de séries. Sua forma de conceber a literatura é tão racional como essa idéia de serialização sugere?

TAVARES – Não, não sou assim tão racional. Aliás, acho que a organização dos meus livros por linhas e séries é uma maneira de eu tentar colocar alguma ordem na desordem do que vou fazendo. Interesso-me por muitas coisas de várias maneiras e depois de fazer algo tento organizar, até para facilitar a vida do leitor.

EL – Qual a importância dos exercícios lógicos em sua obra? Gonçalo M. Tavares seria um leitor de Lewis Carroll e Georges Pérec?

TAVARES – Sou leitor desses autores,como de autores completamente diferentes, Jünger ou Musil ou Thomas Mann. Acho que o que me caracteriza como leitor é partir para um livro para receber o que ele me quer dar e não para exigir que ele me dê o que eu quero receber. Se eu ler Borges, por exemplo, é evidente que ele não me dá coisas que me dá Dostoiévski. Da mesma forma,se eu ler Dostoiévski à espera que ele me dê coisas que Borges ou Calvino dão, vou sair frustrado. Nenhum autor dá tudo o que precisamos na nossa vida, em todos os momentos. O maior dos autores não nos dá tudo, e ainda bem. Por isso, tento receber o que o livro quer dar. Mas em relação à lógica e aos paradoxos, julgo que isso é uma das linhas que me interessam, apenas uma das linhas. A esse nível, é um pouco como se investigássemos os limites do mundo e da linguagem. E, por exemplo, os paradoxos lógicos são muito importantes a esse nível: mostram-nos as limitações da nossa forma de ver o mundo.

EL – Há em Um homem: Klaus Klump uma cena de violação sexual (no capítulo 11) de extrema violência e ao mesmo tempo narrada de forma poética. A poesia pode ser violenta? Quais são os poetas contemporâneos que o agradam?

TAVARES – O que eu julgo importante é não ver o mundo como se fosse claro/escuro. O mal e o bem são coisas que estão misturadas e muitas vezes se confundem. Tal como a beleza e o horror. Julgo que a lucidez passa muito por chamar a atenção de que a beleza esconde por vezes coisas terríveis e que no terrível há por vezes coisas que merecem ser olhados com atenção e que nos ensinam muito.

EL – Não há nos senhores de O Bairro uma relação direta de seus nomes (o senhor Brecht, o senhor Kraus, o senhor Juarroz, o senhor Valéry) com suas biografias. São as idéias que conformam esses personagens ou eles seriam apenas homônimos?

TAVARES – O Bairro, no seu conjunto, e quando estiver todo pronto, é um projeto enorme. Vai durar toda a minha vida. Acho que no final vai ficar algo como se fosse uma história da literatura, mas em ficção. É, se calhar, a minha forma de fazer ensaios. São personagens que, embora guardando um pouco o espírito do nome que levam – quer seja pelo tema, pela lógica de pensamento, escrita etc. –, são ficcionais, autônomas, personagens que fazem o seu caminho.

EL – A recepção crítica ao seu trabalho tem sido formidável, apesar dos matizes inegavelmente experimentais nele presentes. Como se dá isso? E a recepção do público, acompanha a da crítica?

TAVARES – É bem agradável ser bem recebido por críticos; é fundamental para um escritor ser acompanhado no que vai fazendo e críticas inteligentes permitem que o escritor por vezes esclareça na sua cabeça coisas do seu próprio trabalho. Uma crítica de qualidade é fundamental; considero, no geral, não falando no meu caso pessoal, que os críticos são muito, muito importantes. E é assim com muita pena que vejo em Portugal a diminuição drástica do espaço que os jornais dão à crítica literária. Cada vez há menos espaço, os críticos, agora, têm dois parágrafos para escrever sobre um livro. Isso é terrível. Não sei se está a acontecer o mesmo no Brasil, espero que não, mas em Portugal os suplementos literários dos grandes jornais estão a desaparecer e o espaço para a reflexão pensada está também a evaporar-se. Quanto à recepção do público é também bastante simpática, mas tenho a consciência absoluta de que os meus livros não são best-sellers, nada disso. Mas o relevante é que entre os leitores há belos leitores e há ainda outros criadores. Das coisas mais agradáveis é ver artistas plásticos, pessoas do teatro, do cinema etc. fazerem obras a partir dos meus livros. Isso é muito bom. É a sensação de que há uma corrente eléctrica que me ligou antes a outros autores e continua agora ligando outros autores aos meus livros.

EL – Jerusalém recebeu alguns dos mais importantes prêmios da literatura portuguesa e agora é finalista do Portugal Telecom no Brasil. Devemos nos fiar no atestado de excelência que os prêmios dão? E qual seria esse atestado?

TAVARES – A qualidade dos prêmios depende, antes de tudo o mais, da qualidade dos que dão o prêmio, dos jurados. Se pessoas de qualidade me dão prêmios fico contente. Quanto ao resto, eu considero- me muito filho de Sêneca. As Cartas a Lucílio, de Sêneca, é talvez o livro que mais marcou a minha vida. Tenho uma parte estóica: guardo alguma distância em relação ao que vai acontecendo. O importante é fazer o meu caminho. Prêmios são agradáveis, claro, mas apesar de tudo são coisas laterais ao nosso trabalho.

EL – Em certa ocasião, Paulo Leminski disse que, dada a pouca representatividade no mundo de hoje, escrever em português ou não escrever é a mesma coisa. Como você espera ultrapassar as barreiras impostas por uma língua não majoritária?

TAVARES – Bem, apesar de tudo o português é falado por muitos, muitos milhões de pessoas. Não é assim tão minoritário. Há dias estive com escritores eslovenos, e aí a coisa é mais dura. A língua eslovena é falada por 2 milhões em todo o mundo. Isso é mesmo minoritário. Mas é evidente que faz sentido o que Paulo Leminski diz, pois todas as línguas são de certo modo provincianas face à língua inglesa, que é mesmo o centro. De qualquer maneira, felizmente, os meus livros estão a começar a ser muito traduzidos, a uma velocidade pouco comum. Estão a sair, em 12 países, 17 livros diferentes – é bom. Mas, claro, escrever diretamente em inglês é ganhar 50 anos em relação a quem escreve noutra língua.

EL – Você tem sofrido alguma “pressão” para que haja algum habitante lusitano em O Bairro?

TAVARES – Tenho sofrido pressões para várias entradas (risos). Mas em relação ao habitante lusitano ele já lá está, no desenho do projeto do bairro. É o sr. Pessoa, mora no prédio do sr. Pirandello.

EL – Da mesma forma, os leitores brasileiros podem ter esperança de terem um compatriota vivendo em lugar tão ilustre? Um senhor Machado ou uma senhora Clarice, por exemplo? Por falar nisto, os habitantes de O Bairro não sentem falta de mulheres por lá?

TAVARES –O meu Bairro de senhores é um bairro como outro qualquer: há pessoas que se podem mudar para lá, e há outras que podem sair. O senhor Machado era muito bem-vindo ao Bairro, e daria uma grande personagem, tenho a certeza, tal como a senhora Clarice. Aliás, a senhora Clarice tenho a sensação de que se vai mesmo mudar para lá… e, sim, senhoras fazem sempre falta, mas já vivem lá a sra. Wolf e a sra. Bausch. Inédito: O país ingênuo `A tristeza era tanta que os sorrisos passaram a ser pagos. Alguns funcionários do Estado, disfarçados, diluídos na multidão das cidades, observavam os poucos cidadãos sorridentes que passavam, e, discretamente, mandavam-nos parar.

Apresentavam-se: Funcionários do Estado!, diziam, e pediam depois a identificação do sorridente. Registavam nome e morada.

Ao fim do mês, os referidos cidadãos recebiam o cheque. Durante o mês de fevereiro foi visto três vezes a sorrir na rua – estava escrito – com data e hora – no pequeno documento que acompanhava o dinheiro.

A quantia dada por cada sorriso não era uma fortuna, mas digamos que ser visto pelo Estado a sorrir nove vezes durante um mês dava perfeitamente para viver sem dificuldades.

Pois bem, em pouco tempo o clima emocional do país alterou- se por completo. Seja por avidez ou pela própria natureza das coisas o país em dois anos tornou-se conhecido pelo “permanente e impressionante optimismo dos seus cidadãos”, como se dizia numa agência de notícias internacional.

Os subsídios do Estado aos sorrisos terminaram pouco tempo depois; mas como ninguém informou os cidadãos eles mantiveram aquele sorriso estúpido, repugnante, desadequado, inútil, sem razão de ser.´

Fonte:
Revista Entrelivros. edição 29 – Setembro 2007
Gonçalo M. Tavares: “Ler para ter lucidez”.
http://www2.uol.com.br/entrelivros/

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Em Tempo [Lançamento de Livro de Alexandre Castanheira]

No próximo dia 28 do corrente mês (fevereiro), quinta-feira, às 21h 30m, no Salão de Festas da Sociedade Filarmónica Incrível Almadense, haverá o lançamento do livro de poesia Tempo Meu, de Alexandre Castanheira, um dos mais conceituados escritores, comendador da Ordem da Liberdade (uma forma de reconhecimento público e institucional pelo seu empenho na conquista dos valores da Democracia). Mas esta é, também, a data do 80.º aniversário deste “poeta da liberdade”.

Passe um serão poético e musical que, decerto, não esquecerá. E traga um amigo consigo (ou vários).

Fonte:

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Alexandre Castanheira (1928)

Alexandre Castanheira nasceu em 1928.
Licenciou-se no curso Histórico-Filosóficas da Faculdade de Letras de Lisboa.
Poeta, desde sempre se interessou pela divulgação da poesia, fazendo recitais em escolas, colectividades, festas em todo o País.
Perseguido pela PIDE, devido às suas actividades políticas, partiu para o exílio em França, onde casou com Madeleine Nennig, uma jovem comunista francesa que o acompanhou na clandestinidade. Ao longo da sua vida esteve sempre ligado ao Partido Comunista Português.
Exilado em França, licenciou-se em Literatura Moderna e alarga a divulgação da poesia moderna e contemporânea aos círculos de portugueses imigrados em França. Regressado a Portugal, começa finalmente a publicar a sua obra, em que se destacam, em poesia, os volumes Poesia… sem Distanciação e Desilusão Optimista a par de outros livros como teatro, crônicas, ensaio e contos. Com o ensaio “Camões, Nosso Contemporâneo” ganha o Concurso Literário do IV Centenário de Camões, promovido pela Câmara Municipal de Almada. Multiplicam-se em seguida os recitais de poesia não só em Portugal como na Galiza (Vigo, Baiona, Universidade de Santiago de Compostela) e as conferências-recital dedicadas a Antero de Quental, Guerra Junqueiro, Mário Sá-Carneiro, Manuel da Fonseca, Sidónio Muralha, Fernando Pessoa, entre outros.
Professor na Escola Superior de Educação Jean Piaget, de Almada, cidade de onde é natural, nos vários cursos do Básico 2.º Ciclo e no de Animadores Socioculturais, participou com comunicações em quase todos os encontros e congressos organizados pelo Instituto Piaget.
ALEXANDRE CASTANHEIRA é professor efetivo do Instituto Piaget, tendo lecionado na Escola Superior de Educação Jean Piaget de Almada, onde continua ligado ao cancioneiro e à Unidade de Investigação em Antropologia.

Fontes:
http://www.ipiageteditora.com.br/
http://naoapaguemamemoria2.blogspot.com/

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Rodamundinho 2008 (Coletânea Infanto-Juvenil até 15 anos de idade)

Quem quer ser escritor?

O Rodamundinho 2008 é uma coletânea infanto-juvenil que reunirá 25 autores (textos de crianças e adolescentes) de até 15 anos de idade. Será uma antologia (seleção de textos) reunindo poesias, contos e crônicas com o objetivo de estimular a leitura e a escrita aos jovens sem que eles precisem pagar nada por isso. Cada autor terá quatro páginas para mostrar seu talento que será publicado num belíssimo livro de 100 páginas.

Para participar é preciso ter até 15 anos de idade completos até o dia 31 de julho de 2008 e ter textos de sua autoria que sejam inéditos e digitados. Podem participar jovens de todas as localidades.

Os textos (crônicas e/ou contos) devem conter 100 linhas para preencher três páginas do livro. As poesias podem ter o número menor de linhas porque cada poesia receberá uma página do livro. Lembrando que, as somas de todos os textos não devem ultrapassar a quantidade de linhas discriminada acima.

Junto aos textos, deverá ser entregue um currículo do autor contendo nome completo e assinatura, nome e assinatura do responsável, endereço, telefone, e-mail (se possuir), escolaridade e outras informações que sejam complementares para a sua biografia que será publicada na primeira página antecedendo os textos do autor.

A seleção dos textos para a coletânea será feita por experientes escritores.

Os textos e os currículos deverão ser entregues das 09 às 12h e das 13 às 16h dos dias 03, 04, 05, 06, 07 e 08 de março de 2008 na Fundec – Fundação de Desenvolvimento Cultural, na Rua Brigadeiro Tobias, nº 73 – Sorocaba/SP.

No momento da entrega, os participantes receberão um recibo contendo o mesmo número do envelope onde ficarão guardados em sigilo os seus textos.

O recebimento e os envelopes estarão sob a responsabilidade da jornalista Cintian Moraes.

Até o dia da entrega dos textos pode-se obter mais informações no horário comercial pelo telefone (15) 3226.4178.

O Rodamundinho 2008 é um projeto do escritor Douglas Lara e do editor Mylton Ottoni, tem o apoio do suplemento infanto-juvenil Cruzeirinho do jornal Cruzeiro do Sul, do Gabinete Sorocabano de Leitura e da Fundec – Fundação de Desenvolvimento Cultural. (Página 9 do Cruzeirinho de 10 de fevereiro de 2007)

Contatos:
Cintian Moraes
cintian.moraes@yahoo.com.br

http://www.cruzeirodosul.inf.br/materia.phl?editoria=31&id=58388

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EM TEMPO (Nota de Falecimento de Altimar de Alencar Pimentel)

Faleceu ALTIMAR DE ALENCAR PIMENTEL, presidente da Comissão Paraibana de Folclore, dia 21 de fevereiro de 2008, às 18h30, em João Pessoa.
O corpo foi velado na Academia Paraibana de Letras.
Se guardará de ALTIMAR PIMENTEL a lembrança do notável administrador público que dirigiu o Theatro Santa Roza, fez aparecer os projetos de conservação e segurança dos edifícios públicos da Paraíba, engrandeceu a cultura popular ao dirigir o Departamento de Extensão Cultural do Estado e a rádio Correio da Paraíba.
A Universidade Federal da Paraíba, da qual foi professor do Departamento de Artes, sempre lhe será reconhecida pela atuação na criação e coordenação do Núcleo de Pesquisa e Documentação da Cultura Popular e na introdução dos estudos de Comunicação Social.
Sua dimensão nacional se afirmou quando secretariou o conselho consultivo de alto nível do Instituto Nacional do Livro e, ao mesmo tempo, prestou assessoria ao Congresso Nacional. Os folcloristas que o conheciam, dele guardam a lembrança do reconhecido e extraordinário mestre da arte de fazer amigos.
A profa. Paula Ribeiro, presidente da Comissão Nacional de Folclore, recomendou que dissesse do seu pesar e que apresentasse condolências à família de ALTIMAR, que o perde e também, à Comissão Paraibana de Folclore e ao Estado da Paraíba que estão de luto.
Dona Cleide Rocha Pimentel, sua viúva, recebe correspondência eletrônica pelo endereço altimarpimentel@hotmail.com
O sepultamento de ALTIMAR DE ALENCAR PIMENTEL se deu em João Pessoa, dia 22 de fevereiro, às 10:00 horas da manhã, no cemitério de Santa Catarina, no bairro Treze de Maio.
Fonte:
comunicação enviada por Douglas Lara (Sorocaba/SP)
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Em nome da União Brasileila dos Trovadores – UBT/PR, partilho dos pêsames por esta perda, pela sua obra realizada para as novas gerações que estão engatinhando e que ainda virão. A saudade que deixa, gostaria de estende-la por meio de versos de nossos colegas trovadores.
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Saudade, ponte encantada
entre o passado e o presente,
por onde a vida passada
volta a passar novamente!
Archimimo Lapagesse

Quando a saudade me embala,
o teu nome a repetir,
o silêncio tanto fala,
que não me deixa dormir!
Carolina Ramos

Não há palavra nenhuma
tão grande quanto “saudade”,
que em sete letras resuma
a dor e a felicidade!
Diamantino Ferreira
Saudade, momento onírico;
saudade, momento trágico;
saudade, momento lírico;
saudade, momento mágico!
J. J. Germano

A saudade às vezes fala
e até grita – quem diria! –
quando a rede, a sós, se embala
numa varanda vazia…
Miguel Russowsky

Lembra a saudade uma estrela
nas águas de um ribeirão
que fica sempre a retê-la,
enquanto as águas se vão…
Luiz Antônio Pimentel

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Assim será sempre Altimar, uma estrela a brilhar nas águas de nossas vidas, elas correrão, mas ele sempre estará presente em nossos corações.
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José Feldman
Ubiratã/PR

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Altimar de Alencar Pimentel (1936 – 2008)

Altimar de Alencar Pimentel nasceu a 30 de outubro de 1936 na cidade de Maceió, capital de Alagoas. Filho do comerciante Altino de Alencar Pimentel e Maria das Neves Batista Pimentel, Altimar aos nove anos, em 1945, perdeu o pai, sendo ele o primeiro dos seis irmãos órfãos. Sua mãe, paraibana, logo em seguida voltou para João Pessoa, onde arrostando dificuldades criou sua prole.

Altimar foi casado com Dª. Cleide Rocha da Silva Pimentel, formada em Letras, de cuja união tem os seguintes filhos: Tatiana, economista; Altino, advogado; e Hilda, titulada em letras e informática.

Iniciou seus estudos primários ainda na capital alagoana, concluindo o ginasial e o clássico no Colégio Estadual da Paraíba. Pela Universidade Federal da Paraíba, em 1971, concluiu o curso de Licenciatura em Letras – Vernáculo e pelo Centro de Ensino Unificado de Brasília, bacharelou-se em Comunicação Social – Jornalismo, em 1976.

Dedicado ao teatro, Altimar fez curso de especialização em Direção Teatral na Federação das Escolas Isoladas do Rio de Janeiro e na Universidade Federal da Paraíba, em 1978.

Ainda em 1975 ingressou no magistério do 2° grau, tornando-se professor de Educação Artística no Colégio Estadual da Paraíba e em Cabedelo. Daí foi um passo para ingressar no magistério superior, lecionando as disciplinas Evolução do Teatro e Dança (1977) e Introdução às Técnicas de Comunicação (1979), na Universidade Federal da Paraíba.

Foi Diretor do Teatro Santa Roza, Diretor do Departamento de Extensão Cultural do Estado, Coordenador do Núcleo de Pesquisa e Documentação da Cultura Popular da UFPB e Diretor da Rádio Correio da Paraíba.

Participou de vários colegiados, entre eles o Conselho Estadual de Cultura, a Comissão Executiva do IV Centenário da Paraíba, o Conselho da Lei Viva a Cultura, na Paraíba, e foi Secretário do Conselho Consultivo de Alto Nível do Instituto Nacional do Livro, no Rio de Janeiro. No jornalismo também sua atuação foi brilhante.

Como teatrólogo foi autor de inúmeras peças, muitas delas consagradas nacionalmente. Presidente da Comissão Paraibana de Folclore, Altimar Pimentel tem 17 livros publicados sobre temas folclóricos. Dedicou-se, também, à história paraibana, com vários livros publicados, o último dos quais – Cabedelo – alcançou grande receptividade nos meios culturais.

Bastante premiado por seus trabalhos, era natural seu ingresso como sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, o que ocorreu no dia 22 de novembro de 2002, quando passou a ocupar a cadeira n° 10, sucedendo ao historiador José Pedro Nicodemos, sendo saudado pelo consócio Guilherme Gomes da Silveira d’Avila Lins.

Além das publicações em revistas e jornais, lançou dezenas de livros. No Folclore, destacam-se: O Coco Praieiro – Uma Dança de Umbigada, Editora Universitária, João Pessoa, 1ª. ed., 1966, 2ª. ed., 1968; O Diabo e Outras Entidades Míticas no Conto Popular, Coordenada Editora, Brasília, 1969; O Mundo Mágico de João Redondo, Serviço Nacional do Teatro, Rio de Janeiro, 1971; Saruâ, lendas de árvores e plantas do Brasil, Editora Cátedra, Rio de Janeiro, 1977; Sol e Chuva: ritos e tradições, Thesaurus, Brasília, 1981; O Mundo Mágico de João Redondo, 2ª edição revista e ampliada, Ministério da Cultura, Rio de Janeiro, 1988; Incantations, Thesaurus Publishing Co., Miami, Flórida, 1995; Contos Populares de Brasília, Editora Thesaurus, Brasília; Estórias de Luzia Teresa, vol. I, Editora Thesaurus, Brasília, 1995 e vol. II, Editora Thesaurus, Brasília, 2001; Barca, Bois de Reis e Coco de Roda, João Pessoa, FIC, 2005.

No Teatro, entre as peças de sua autoria já encenadas na Paraíba e outros Estados, registramos 20 peças, entre elas Auto da Cobiça, Auto de Maria Mestra, Viva a Nau Catarineta, Lampião vai ao inferno buscar Maria Bonita, Coiteiros. Registramos um destaque especial para a peça Como nasce um cabra da peste, adaptação da obra homônima de Mário Souto Maior, a qual conquistou mais de 40 prêmios em festivais na Paraíba, Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo, Ceará e realizou vinte apresentações em Portugal e uma em Cabo Verde. Possui dez peças inéditas.

Em História, o destaque é sua obra Cabedelo, em dois volumes, publicados em 2001 e 2002.

Pesquisador, Diretor de Teatro, jornalista, Altimar pertenceu a várias entidades culturais e recebeu, por sua vitoriosa carreira, elogiosas críticas, prêmios e condecorações.

Exerceu inúmeras funções, entre elas: diretor do Teatro Santa Roza (João Pessoa); na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), além de professor, foi diretor do Departamento de Extensão Cultural da Paraíba, coordenador do Núcleo de Pesquisa e Documentação de Cultura Popular (NUPPO) e assessor cultural da Pró-Reitoria para Assuntos Comunitários; diretor da Rádio Correio da Paraíba, assessor cultural do Instituto Nacional do Livro (Rio de Janeiro), assessor administrativo da Câmara dos Deputados (Brasília, 1980), membro do Conselho Estadual de Cultura da Paraíba (1963) e Membro do Conselho Fiscal e sócio fundador da Associação dos Dramaturgos do Nordeste e Membro da Academia Paraibana de Letras.

Exercia o cargo de Secretário de Cultura do Município de Cabedelo, Paraíba, antes de falecer.

Fonte:
http://ihgp.net/memorial4.htm
http://www.paraiba.com.br/noticia.shtml?62034

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Altimar de Alencar Pimentel (O Alimento Doce e a Bebida Ardente)

Era verão. O sol, àquela hora, tornava-se abrasador. O calor insuportável martirizava quem passasse por aquela estrada marginada de vegetação rarefeita e ressequida. Nenhuma árvore havia que oferecesse frutos ou abrigo ao viajante. Também não se vislumbrava rio, riacho ou poço com água.

Mas, a sagrada missão daquele homem levava-o a todos os lugares onde a sua palavra fosse necessária à salvação das almas. E, no cumprimento dessa missão, Jesus seguia solitário, passos trôpegos, sob o sol abrasador.

Padecia fome, sede e cansaço.

Foi quando avistou um canavial. Seguiu em sua direção. Ali refrescou o seu corpo e matou a fome e a sede com alguns gomos de cana.

Ao retirar-se do canavial, recuperado e agradecido, Jesus estendeu as mãos sobre as canas e as abençoou:

— Eu as abençoo por me haverem alimentado e aplacado minha sede. De vocês o homem tirará um alimento bom e doce.

O canavial abençoado por Jesus recebeu, no outro dia, a visita do diabo.

À mesma hora, saiu o diabo de sua morada no inferno e lá vem galopando, desembestado, pela dita estrada.

— Um canavial! — exclamou ao ver as canas. — Vou-me refrescar que o calor das caldeiras do inferno hoje estava muito forte. Queimou-me o rabo e os chifres!

E mergulhou, estabanadamente, entre as canas.

Estas, aborrecidas com o importuno, atingiram o corpo do diabo com os seus pêlos. Ao sentir o comichão, o diabo começou a coçar-se.

Além do calor e da sede, a coceira! Agoniado, o diabo quebrou uma cana e começou a chupá-la com tal sofreguidão que o caldo, azedo, caiu-lhe no goto e abrasou-lhe as goelas. Ele atirou a cana. fora e praguejou:

— Maldição! De vocês o homem há de tirar uma bebida tão ardente como as caldeiras do inferno!

Assim é que da cana, graças à bênção de Nosso Senhor, o homem extrai o açúcar e, em virtude da maldicão do diabo, a cachaça.

Fonte:
Pimentel, Altimar de Alencar. Saruã; lendas de árvores e plantas. Rio de Janeiro, Livraria Editora Cátedra / Brasília, Instituto Nacional do Livro, 1977.
Disponível em http://www.jangadabrasil.com.br/setembro49/especial23.htm

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Paulo V. Pinheiro (Todos os Dias)

Gota a gota o copo enche, assim como também esvazia.
Letra a letra as palavras vão cumprindo os seus papéis.
Dizer por dizer é como soletrar só letras.
É ruim para quem diz, pior para quem lê.
Fazer sem sentido é construir o incompreensível.
Ousar não é só se expor.
Usar e expor… um sentido supor… palavras em tintas tão nobres… extensas, sucintas… claro e escuro…

Ensurdecer com palavras escritas.
Dizer apenas o que se deve ouvir.
Criar um chão para que a razão se assente.
E se rir da própria vaidade,
de todo imprópria.

Sentidos…
ouvir dizer, sem saber quem diz;
ler sem saber o que;
cantar sem ter a razão;
unir letras sem o sabor das palavras que criam;
inalar todo prosa mal sã fantasia.

Palavras criam. O quê? Criam…
Expressar é regurgitar sentimentos com razão ou não.

Uma expressão fria é, ainda, uma expressão.
Fria, porque não?

Um jogo de contrastes.
A palavra busca atingir, muita vez, o contrário.
Faz sorrir os que choram.
Faz chorar os que riem.
Onde está a razão? Onde está o autor? Onde está o ator? Onde está o objetivo?

Para quem se escreve?
Para si mesmo?
Para alguém ler? Ou ninguém?
Qual o papel do autor?
Que não seja só a vaidade e se for que seja.

Fonte:
Paulo Vieira Pinheiro. 8 agosto 2007. paulovinheiro.blogspot.com

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Em Tempo (Café com Literatura)

Mais um encontro dos amantes da literatura aconteceu em nossa cidade. O Movimento Médico Paulista do Cafezinho Literário – MMCL é uma reunião que acontece em várias cidades do estado e que reúne pessoas interessadas em literatura não científica. O Movimento foi criado em cinco de maio de 2005, pelo Professor Dr. William Moffitt Harris, auxiliado pela coordenadora Profa. Dra. Alitta Guimarães Costa Reis.

Trata-se de uma organização informal, alegre, democrática, sem custos, sem registro oficial, sem estatuto próprio ou regras rígidas e isento de corporativismo de qualquer espécie. Em sua 69ª Tertúlia que aconteceu na cidade de Sorocaba, reuniu 13 profissionais, entre eles médicos, atrizes, um professor, um administrador, um corretor de seguros, uma locutora, uma jornalista.

Todos os participantes amantes da literatura levaram a sua presença através de contos, crônicas, poesias e ensaios. Entre eles haviam poesias sobre o amor, a mulher, a morte e contos sobre experiências de vida, saúde e família. Esses encontros têm como objetivo a troca de conhecimento e traz principalmente a oportunidade de expor os trabalhos dos participantes em público, e claro aquecidos por um cafezinho paulista.

O próximo evento do MMCL será o I Congresso Paulista Comunitário de Letras que acontecerá na cidade de Santos entre os dias 2 a 4 de maio de 2008 com entrada franca. Será na sede da Associação dos Médicos de Santos – AMS na Avenida Ana Costa 388, Gonzaga – Santos/SP. Informações Dr. Willian M. Harris wmharris@terra.com.br

Fonte:
Notícia veiculada pelo colega Douglas Lara sob nome Sorocaba Dia e Noite 22 de fevereiro. Disponivel em http://www.vejosaojose.com.br/sorocabadiaenoite.htm

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Epigramas e Trovas

De Corrêa de Almeida a Millôr Fernandes

Epigrama: poesia breve, satírica; dito mordaz e picante.

Trova: composição lírica ligeira e mais ou menos popular; quadra popular.

Corrêa de Almeida:
Dedicatória

— É esta a cara cediça
do tal Corrêa de Almeida:
é padre que não diz missa,
poeta — sem ter Eneida…

(Em retrato oferecido a um amigo)

Laurindo Ribeiro:
Para mostrar que é mui sábio
E filho de boa gente,
E dos passados ministros,
Ser em tudo diferente,
Sua excelência da Guerra
Em tudo que der à luz,
Em vez de assinar o nome
Pretende assinar em cruz.

(visava ao ministro da Guerra, Cel. Manuel Felizário de Sousa e Melo)

***
Cabeça, triste é dizê-lo!
Cabeça, que desconsolo!
Por fora não tem cabelo,
Por dentro não tem miolo!

Martim Francisco:
Ó caso feio! Ó caso extraordinário!
Caso que me entrou fundo na lembrança!
Tem o vigário a cara da criança,
Tem a criança a cara do vigário!

***
O Moura-Bule é ilustrado,
Mas quase sempre se esquece
quando se usa de — s —
quando de c cedilhado

(visava ao deputado J.Ferreira de Moura, apelidado Moura-Bule pela atitude constante que assumia, de mãos nas cadeiras)

Belmiro Braga:
— Vi teus braços… que ventura!
teu colo… as pernas… que gosto!
Agora, tira a pintura,
Que eu quero ver o teu rosto.
***
— Na noite de núpcias. O Gama
encontra a esposa envolvida
num lindo roupão e exclama:
— Posso, enfim, ver-te vestida!
***
— Mui decentes eu não acho
teus vestidos minha prima:
são altos demais em baixo,
são baixos demais em cima!
***
— A beleza não te atrai?
Só te casas por dinheiro?
Tu pensas como teu pai,
Que morreu velho e… solteiro.

Roberto Correia:
Se espichas (vou ser-te franco)
os teus cabelos, ó João,
tu pretendes é ser branco,
ao menos em comissão…
***
Político e sempre graúdo,
De moço a quase senil,
Do Brasil tem tido tudo!
Nada tem dado ao Brasil…

Antônio Sales:

— Passa na estrada um camelo
e um corcunda palpitante
de alegria, disse ao vê-lo:
— “Mas que animal elegante!”
***
Um demagogo exemplar,
Com uma violência louca,
Levou a vida a clamar,
E só deixou de gritar,
Quando lhe encheram a boca!

Victor Caruso:
A um matemático

Jaz aqui um matemático.
Se dele queres saber
Pede à historia que to diga:
Sendo do cálculo amador fanático
Teve para morrer um meio prático
E resolveu morrer
De cálculos na bexiga…

Bocage:
A Moléstia e a Cura

Aqui jaz um homem rico
nesta rica sepultura;
escapava da moléstia,
se não morresse da cura.

Pe. Celso de Carvalho:

Natural que os noivos digam:
“Nosso ninho…” É bom sonhar!
Mas as aves, quando brigam,
xingam seus ninhos… de lar!
***
Se toda ilusão frustrada
se tornasse assombração,
que casa mal assombrada
não seria o coração!
***
Vá que se louve a formiga,
e à cigarra se condene…
Mas, quem teceu essa intriga
foi a cigarra — La Fontaine!

Vão Gogo (Millôr Fernandes):

Quando a garota morena
mergulha assim tão segura,
não sei por que lembro a frase
“água fria na fervura”.
***
Namorar, minha menina,
é andar de caminhão:
a gente só passa à frente
se andar na contra-mão.
***

Epitáfio

Aqui jaz minha mulher
que partiu para o Além.
Agora descansa em paz
e eu também.

Fonte:
Textos extraídos de
“Antologia de Humorismo e Sátira”, Editora Civilização Brasileira – Rio de Janeiro,1957 (seleção de R. Magalhães Júnior), e “Humor e Humorismo – Poesias e versos”, Editora Brasiliense – São Paulo, 1961,(seleção de Idel Becker). Disponível em http://www.releituras.com/

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Trovas (Autores Desconhecidos)

Você diz que sabe muito,
há outros que sabem mais;
há outros que tiram pomba
do laço que você faz.

Quem é pobre, sempre é pobre,
quem é pobre, nada tem;
quem é rico sempre é nobre
e às vezes não é ninguém…

Tenho tosse no cabelo,
dor de dentes no cachaço,
sinto canseira nas unhas,
não vejo nada de um braço.

Encontrei o dá e toma
na rua do toma lá;
inda não vi dá sem toma,
nem toma sem deita cá.

Se onde se mata um homem
pôr uma cruz é preceito
tu deves trazer, Maria,
um cemitério no peito.

Os rapazes de hoje em dia
são falsos como melão:
tem de se partir um cento
para se encontrar um são.

O amor dum estudante
não dura mais que uma hora:
toca o sino, vai pra aula,
vêm as férias, vai-se embora.

Eu não quero, nem brincando,
dizer adeus a ninguém:
quem parte, leva saudades,
quem fica, saudades tem.

Vou deitar a despedida,
por hoje não canto mais;
já me dói o céu da boca
e o coração inda mais.

.
Eu já fui à sua casa
E já sei o que ela é.
A fartura que vi nela
Foi pulga e bicho de pé.

Adeus, para sempre adeus!
Ingrata sem coração:
Tu és pia de água-benta
Onde todos põem a mão.

Eu recuso mulher nova,
Que é espelho dos enganos:
Quero uma velha bem velha
De vinte, ou vinte e dois anos

Tanto limão, tanta lima,
Tanta silva, tanta amora,
Tanta menina bonita…
Meu pai sem ter uma nora!

Quem quiser ter vida longa
Fuja sempre que puder
De médico, boticário,
Melão, pepino e mulher!

Eu jurei de nunca mais
Dizer adeus a ninguém.
Quem parte leva saudades,
Quem fica não vai no trem.

Todo sujeito sensato
Sabe a verdade de cor:
A mulher bela, de fato,
Sem fato fica melhor.

Vou-me embora, vou-me embora,
Para aqui não volto mais,
Que eu não sou bonde da Light,
Que vai pra diante e pra trás.

Quem fala de mim, quem fala
Quem fala de mim, quem é?
É algum chinelo velho
Que não me serve no pé.

Quero cantar, ser alegre
Que a tristeza não faz bem;
Inda não via tristeza
Dar de comer a ninguém.

Trovas de autores desconhecidos, extraídas do livro “Humor e Humorismo”, de Idel Becker, Editora Brasiliense – São Paulo, 1961. Disponível em http://www.releituras.com

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