Arquivo do mês: março 2008

André Carneiro em Ação

No fim do ano passado uma pesquisa internacional selecionou 24 fotógrafos artísticos considerados “Pioneios na Criação de uma Arte Fotografica Modernista, no Brasil”. André foi incluído, com destaque para uma foto “Trilhos” premiada nacionalmente em 1949. A Galeria de Arte de S. Paulo Madalena mais a Galeria Bergamin, fizeram exposições dessas fotos em S. Paulo e no Rio de Janeiro. Tambem estão vendendo (só os direitos de reprodução da foto), até para exposições de galerias estrangeiras como “Tate Galery of London”. Essa noticia provocou o interesse de uma editora que esta fazendo capas de uma grande Editora com fotos abstratas de sua autoria.

Em 2007 praticamente publicou três livros: O fac-símile do seu jornal Literário “Tentativa”, apresentado por Oswald de Andrade e titulo desenhado por Aldemir Martins, considerado o melhor do Brasil naquela época, além da maior coletânea de contos de Ficção Científica até hoje publicada, “Confissões do Inexplicável”, com 600 páginas, mais a Antologia Poética “Quânticos da Incerteza”, extraida de sua obra de 700 poemas inéditos, por Osvaldo Duarte, editado por Araceles Stamatiu e impresso na Imprensa Oficial de São Paulo.

Seu conto “Escuridão”, vendido a um cineasta espanhol está com seu roteiro quase terminado.

A Oficina de Literatura e Poesia orientada por André, em Curitiba, continua em alto nivel, já com dois “oficinados” Dr. Mustafá Ali Kanso e Dr. Bertoldo Schnadey ganhadores do Primeiro Lugar em Concurso Nacional de Contos.

A Oficina esta com um livro pronto para ser lançado, com o titulo: “Proibido Ler de Gravata”.

Nos últimos 12 meses em Antologias dos melhores contos Brasileiros e outros sairam meia dúzia de contos do André Carneiro.

.
Fontes:
E-mail enviado pelo André Carneiro.

Deixe um comentário

Arquivado em Em Tempo, Lançamento, Notícias

Origenes Lessa (1903 – 1986)

Orígenes Lessa nasceu em Lençóis Paulista, a 12 de julho de 1903.
– Colaborou e trabalhou em diversos veículos de comunicação, tendo feito sua estréia nos jornaizinhos escolares, com 12 ou 13 anos.
– Tentou, sem continuidade, diversos cursos superiores. Ingressou como tradutor no Departamento de Propaganda da General Motors, que teria grande influência na sua vida profissional: tornar-se-ia um dos publicitários de maior renome do País.
– Tomou parte ativa na Revolução Constitucionalista em 1932.
– Em 42, fixou-se em Nova York trabalhando no Coordinator of Inter-American Affairs, tendo sido redator da NBC em programas irradiados para o Brasil.
– Regressou ao Rio de Janeiro em meados de 43. Escritor, com uma obra bastante extensa, publicou, entre outros: Rua do Sal (Prêmio Carmen Dolores Barbosa — romance); O Escritor proibido (contos); Garçon, Garçonette, Garçonnière (menção honrosa da Academia Brasileira de Letras); O Feijão e o Sonho (romance — Prêmio António de Alcântara Machado, 15 edições com mais de 200.000 exemplares vendidos); 9 Mulheres (contos — Prêmio Fernando Chinaglia); O Evangelho de Lázaro (romance — Prêmio Luíza Cláudia de Souza do Pen Club do Brasil, 1972); e Beco da Fome.
– Incursionou pela literatura infanto-juvenil com muito sucesso, publicando oito ou dez volumes, um dos quais, Memórias de um Cabo de Vassoura, bateu a vendagem de O Feijão e o Sonho. Seus contos têm sido traduzidos para o inglês, espanhol, romeno, tcheco, alemão, árabe, hebraico, e várias vezes radiofonizados, não só no Brasil, mas também na Polônia.
– Foi eleito em 9 de julho de 1981 para a Cadeira n. 10 da Academia Brasileira de Letras, na sucessão de Osvaldo Orico. Casado com Elsie Lessa, jornalista, é pai do escritor Ivan Lessa.
– Faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 13 de julho de 1986.

Fonte:
http://www.releituras.com/olessa_calu.asp

Deixe um comentário

Arquivado em Biografia, Escritor, Literatura Brasileira

Adriana Maria Toniolo Jacon (As várias faces da escritura lessiana)

Em um de seus artigos, Josué Montello, falando de Orígenes Lessa em virtude de seu octogésimo aniversário, pergunta-se:

“Que fez Orígenes Lessa para as nossas palmas em redor de sua mesa, e para a festa da Casa de Rui Barbosa? Fez livros. Ou melhor, romances, contos, novelas, livros para crianças, artigos de jornal…”

Porém, mais do que palmas, talvez falte ao escritor Orígenes Lessa ter suas obras conhecidas e estudadas de maneira mais aprofundada, pois como se lê no artigo de Josué Montello, foi significativa a contribuição de seu trabalho para a cultura e para a literatura brasileira. O autor que nasceu em Lençóis Paulista em doze de julho de 1903 e faleceu em treze de julho de 1986, aos oitenta e três anos ainda se encontrava em plena atividade profissional. Sua obra chama a atenção pela variedade e qualidade de material. Tanto nas narrativas curtas, quanto nos romances, o autor elabora o enredo de forma a obter um resultado que revela expressão e estilo singulares, ou seja, uma linguagem do cotidiano, bem próxima do leitor, o que permitiu que suas obras fossem bem recebidas pela crítica e pelo público que com elas tiveram contato.

Henrique L. Alves, em texto escrito para a revista da Academia Brasileira de Letras, reproduziu uma opinião de Genolino Amado sobre o estilo de Orígenes Lessa, afirmando:

Orígenes Lessa – segundo Genolino Amado – é um desses olhares excepcionais que sabem surpreender a novidade das coisas ou dos homens vulgares e o humanismo oculto nos temas aparentemente mais sisudos.

Ao desenvolver esse aspecto da obra lessiana, Henrique L. Alves, acrescenta uma pista de leitura sobre a linguagem de Orígenes Lessa:

Escritor que sabe manejar situações irônicas com verve descontraída. Procura flagrantizar o cotidiano, diversificando temas, catalisando frases fáceis, sem preciosismos ou busca de palavras inacessíveis ao leitor.

Pedro Bloch, leitor, amigo e estudioso das obras de Orígenes Lessa, ressaltou a importância da escritura de Lessa pelo fato de ser constituída pela observação de acontecimentos triviais que acabam por encontrar ressonância em quem a lê. Afirma o crítico: “Orígenes Lessa conduz sua narrativa com aquela fluidez, segurança e originalidade que lhe são próprias.” E, completando, ressalta as características da escritura de Orígenes Lessa:

…quando, ao voltar do México, alguém lhe perguntou se tinha falado com Cantinflas ou Diego Rivera, ouviu: ‘Não, mas falei com mendigos, gente de rua, prostitutas.’ Seus episódios de viagem estão repletos de seres humildes, de vida colorida. É por isso que seus contos traduzem tanta humanidade, pulso tomado na alma de cada um.

Dr. Marcos Almir Madeira, em uma homenagem póstuma a Orígenes Lessa, ratificou todas as opiniões anteriores sobre o estilo de Orígenes Lessa, ao afirmar:

…escritor em cuja obra personalíssima o contista, o romancista, o novelista puseram singularidades de temática e de forma, de conteúdo e expressão – um estilo de narrador diferente.

No entanto, o fato de as obras de Orígenes Lessa serem fruto de uma observação do cotidiano não quer dizer que sejam desprovidas de talento artístico. Muito pelo contrário, as obras lessianas demonstram a capacidade do autor em criar histórias que sejam compreendidas pelo público, o que não significa pobreza de linguagem. O feijão e o sonho, por exemplo, foi reelaborado em várias edições.

Quanto à capacidade artística de Orígenes Lessa, Olney Borges Pinto de Souza do Jornal Correio da Manhã, afirmou:

… o notável contista logrou compor toda uma série de narrações, em que seu talento, jogando com uma riqueza extraordinária de cenário, esparzindo humor ou colhendo uma funda movimentação anímica, lança toda uma galeria de tipos humanos a realizar-se plenamente no centro de cada história, com todos os atributos de legitimidade artística.

A primeira obra, editada em 1929, o livro de contos O escritor proibido , foi muito bem recebida por Medeiros e Albuquerque, João Ribeiro, Menotti del Picchia e Jorge Amado, este último, admirador do trabalho de Lessa, como fica claro na reportagem de Bella Jozef publicada no Jornal O Estado de São Paulo , em 31 de julho de 1983 ao reproduzir as palavras do autor de Os Velhos Marinheiros:”Sempre fui de opinião que Orígenes Lessa é um dos maiores contistas de toda a nossa história.”

No entanto, confirmando a afirmação de Peri Augusto sobre Orígenes Lessa:”Difícil asseverar, entre o romancista e o contista, qual o melhor.”, torna-se difícil dizer em qual gênero literário Lessa se sobressai, pois tanto nos contos quanto nos romances, sabe tecer seus textos que estabelecem um diálogo com o leitor, favorecendo a recepção e a apreciação de suas obras, sejam elas histórias curtas ou não.

Dos trabalhos realizados por Orígenes Lessa e citados por Josué Montello no Jornal do Brasil, como vimos na citação do início deste capítulo, não foi mencionado o trabalho como publicitário, iniciado em 1928. A essa faceta desconhecida, acrescenta-se a de tradutor, no período em que trabalhou na General Motors (1931). Outro trabalho realizado por Lessa foi o de padrinho da Biblioteca Municipal de Lençóis Paulista, que leva o seu nome, para a qual solicitou a doação de obras de escritores renomados, com autógrafos e dedicatórias. O acervo dessas obras chega, atualmente, a oitenta e quatro mil volumes, sendo que a cidade possui por volta de sessenta mil habitantes, ou seja, mais de um livro per capita, o que fez com que Arnaldo Niskier em discurso na Academia Brasileira de Letras afirmasse:

Qual é a singularidade de Lençóis Paulista? É a cidade que tem mais livros do que habitantes. Seguramente dos quatro mil e duzentos municípios brasileiros, Lençóis Paulista deve ser exemplo único da cidade pequena, no interior paulista, em que os livros são mais numerosos do que os habitantes. Isso revela o interesse cultural que transbordou da simples presença de Orígenes Lessa para ser uma preocupação dominante em toda sua população.

Orígenes Lessa também obteve consagração como escritor de literatura infantil e infanto-juvenil, tendo-se iniciado nesta vertente quando solicitado para palestrar sobre O feijão e o sonho em uma escola para crianças. Acabrunhou-se com isso, pois, para ele, este romance era uma leitura para adultos como fica claro na reportagem do Jornal Correio do Povo:

Orígenes Lessa confessou que sempre escreveu para as crianças com extremo temor e mesmo pavor, pois sente imensa responsabilidade, tendo fugido muito a um encontro cara a cara com elas desde que soube que elas liam seu livro O feijão e o sonho.

Assim escreveu, em menos de quinze dias, Memórias de um cabo de vassoura , editado em 1971 e, a partir daí, devido ao sucesso com o público infantil, não parou mais de escrever para crianças, sem deixar, porém, de escrever para adultos.

Em entrevista concedida a Edilberto Coutinho, Orígenes Lessa, questionado quanto ao seu relacionamento com as crianças, declarou sentir-se mais jovem, depois de ter-se dedicado à literatura infantil e juvenil.

Fantástico. Incrível…Quando cheguei aos 60 anos, pensei que estava velho. Aos 70, me sentia mais jovem. Acho que devo isto, em parte, aos meus livros infantis e juvenis. Com eles, parece que liberto o menino que há em mim.

Contudo, sua maior preocupação foi com o leitor. Nos textos de literatura infanto-juvenil Lessa demonstrou para com o leitor a mesma preocupação já existente na sua literatura para adultos, pois tinha consciência da estreita relação entre autor, obra e leitor, o que pode ser lido nas declarações feitas ao Jornal Estado de Minas:

Escrever para crianças é muito gostoso se a gente acerta o gosto delas, mas é uma barra muito pesada, pois seremos os responsáveis pelas suas futuras preferências. Daqui a algum tempo seremos os culpados ou não pela receptividade da leitura pelos adolescentes.

O sucesso com o público infanto-juvenil fez com que Maria Antonieta Antunes Cunha estabelecesse uma comparação entre Orígenes Lessa e Monteiro Lobato, ressaltando as características que os aproximam, como a comicidade e o humor, elementos que prendem a atenção das crianças, além de certo olhar crítico diante da vida. Essa criticidade se apresenta de forma lúdica e atinge um alto nível de comunicação com o público infantil. Tanto Lobato quanto Lessa tinham a qualidade de exímios contadores de histórias, porém cada um possuía, apesar das semelhanças, as suas peculiaridades estilísticas, ainda que ambos produzissem obras voltadas para a esperança, revelando fé em um mundo melhor. Maria Antonieta Antunes Cunha observou em seu estudo semelhanças entre os dois autores, o que a levou a tecer o seguinte comentário: “Na literatura infantil é legítimo sucessor de Monteiro Lobato. As mesmas emoções a criança experimenta na leitura de um e de outro.”

A afirmação de Maria Antonieta Antunes Cunha leva-nos à questão das leituras de Orígenes Lessa e da presença lobatiana em suas obras. E, assim como ela, outros estudiosos também viram nas obras de Orígenes Lessa certa similaridade com as de Lobato. Francisco de Assis Barbosa afirmou:

Seguis a mesma trilha, senhor Orígenes Lessa, sem pretender o lugar deixado por Lobato. Vossa mensagem é bem diferente, sem agressividade, espírito polêmico ou depreciativo.

Ainda sobre a comparação de Lessa com Lobato, a reportagem do jornal Tudo é Diálogo de Porto Alegre, também apontou semelhanças entre os dois autores, no que diz respeito ao interesse do leitor pela obra.

Como autor de obras destinadas ao público infanto-juvenil, Orígenes Lessa talvez só possa ser nivelado em nosso país, com seu co-estaduano, o genial Monteiro Lobato. De fato, cada um com suas características fundamentais no modo de realizar a narrativa, ambos conseguiram que suas criações, suas histórias e suas personagens prendessem a atenção dos leitores não só dos jovens, mas igualmente dos adultos.

O interesse do público permitiu que se comparasse Orígenes Lessa a Monteiro Lobato. Porém, em entrevista cedida a Jorge de Aquino Filho para o especial da Revista Manchete o autor de O feijão e o sonho afirmou ser apenas um admirador de Monteiro Lobato, não tendo a pretensão de substituí-lo:

-É possível observar na sua obra características que o aproximam de Monteiro Lobato, como a presença da fantasia, da aventura, do humor e da comicidade, além da preocupação em não dissociar no seu texto o entretenimento da reflexão sobre a vida humana. Você se considera o legítimo sucessor de Monteiro Lobato?

– Nunca tive essa pretensão. Admirei Monteiro Lobato a vida inteira. Foi o autor da minha adolescência. Foi um escritor extraordinário. Não tenho capacidade para substituí-lo(…) Monteiro Lobato tem o lugar dele, que é dele. Há em mim uma grande admiração destituída de qualquer pretensão em substituí-lo.

Outra face de Orígenes Lessa revela o estudioso da Literatura de Cordel, pois chegou a publicar estudos sobre o assunto, e obteve, com essas publicações, repercussão internacional.

Depois de ter participado da Revolução de 1932, e ter sido preso, experiência que resgata em Não há de ser nada em 1932 e Ilha Grande em 1933, foi para os Estados Unidos, onde morou, no início da década de quarenta. Lá trabalhou, em 1942, como coordenador de assuntos internacionais e foi repórter e entrevistador de Charles Chaplin, Sinclair Lewis, Langston Hughes, John Steinbeck, figuras que colaboraram para a formação de sua bagagem intelectual.

Toda essa vivência com escritores estrangeiros, o aprendizado e o contato com outras leituras foram importantes. Ainda nos Estados Unidos, escreveu reportagens sobre brasileiros que lá viviam, surgindo então OK América em 1945, obra jornalística que revela em sua escritura, o autor de literatura. Na biografia de Noel Nutels, trabalho jornalístico e crítico sobre a vida deste médico nascido em Odessa na Rússia e que se preocupava com a saúde dos índios, intitulada O índio cor-de-rosa e editada em 1978,Orígenes Lessa pôde revelar sua habilidade artística .

Os primeiros exercícios de linguagem têm origem na infância, pois ainda criança tentava desvendar o mundo através da linguagem, queria aprender a ler para escrever com carvão nos muros e calçadas, como faziam as outras crianças. Quando, enfim, começou a aprender a ler, isso aos seis anos, ensaiou escrever alguns textos, parte deles copiados, mesmo sem entendê-los, do livro de grego do pai que era professor e pastor protestante. Depois disso, escreveu o que para ele foi o primeiro livro, conforme se lê na entrevista concedida a Cláudia Miranda e Luiz Raul Machado: “Foi em São Luís que escrevi meu primeiro ‘livro’, aos seis anos: A bola.”

Após ser alfabetizado, tido como mau aluno, era, no entanto, um leitor ávido. Lia tudo. Na adolescência, leu mais de duzentos livros e foi nesta época que, na escola, por volta dos seus treze e quatorze anos, tendo aguçada a sua criticidade por meio de tantas leituras, fundou o jornal escolar O beija-flor , que se tornou o primeiro degrau na sua escalada como jornalista, chegando a trabalhar, mais tarde, no Jornal Folha da Manhã em 1931.

Fica, então, a questão: quem nasceu primeiro, o escritor de literatura ou o jornalista?

Se respondermos a esta pergunta, tendo como ponto de vista o profissional, responderemos que foi o jornalista. Mas, se analisarmos do ponto de vista da linguagem de seus textos e das conclusões a que chegamos após ler as entrevistas, diremos que foi o escritor que, desde criança, já ensaiava as primeiras letras.

Em estudo sobre o autor, Reynaldo Valinho Alvarez chega a sugerir que o tripé jornalista-publicitário-escritor forma o eixo da obra de Orígenes Lessa:

Como jornalista e publicitário, Orígenes Lessa tinha o sentido da comunicação objetiva, direta, imediata, precisa bastante para a clareza da mensagem, mas ambígua na isca dos subentendidos com que a publicidade atrai e fisga o consumidor.

Nas entrevistas concedidas por Orígenes Lessa, pode-se observar o desejo inato de ser escritor, ainda que para isso tivesse que fazer o percurso do jornalismo e da publicidade.

– Sempre fui muito vadio, mas sempre quis ser escritor. No começo creio não ter manifestado a menor vocação. Meu irmão Vicente, sim (somos seis irmãos). Mais de um deles tinha muito mais jeito para as letras do que eu. Mas, mesmo pequeno, eu tinha a mania da coisa. Queria aquilo e sabia que queria.

Desenvolvendo suas habilidades escriturais enquanto jornalista e publicitário, Orígenes Lessa ia em busca do sonho: tornar-se escritor. Não chegou a formar-se em curso superior, mas pode ser chamado, como o foi Machado de Assis, de autodidata, pois desde muito jovem, a exemplo do pai, cultivava o hábito da leitura de clássicos da literatura, da filosofia e , embora se tivesse afastado da religião na década de vinte, era um estudioso da Bíblia.

Os temas abordados na obra lessiana contemplam os dramas humanos vividos no cotidiano, com ênfase ao drama do homem como vítima do contexto social e econômico que aniquila o sentimento e a sensibilidade. Orígenes Lessa trabalha esses dramas num misto de tristeza e alegria, uma sátira dos sofrimentos beirando a ironia. Fantasia, humor, amor, misturados ao cômico e à tristeza, tudo que compõe o vasto universo interior do homem está presente na obra de Orígenes Lessa, levando-nos a refletir criticamente sobre situações diversas: tudo pode ser pensado e repensado pelo leitor que encontra nos textos a constância dos erros e acertos do homem, vítima das paixões individuais e dos problemas existentes na sociedade, levando-nos a reflexões sobre questões universais, filosóficas, sobre o ser e o estar no mundo. Esse enfoque foi analisado por Mário da Silva Brito em um de seus textos sobre Orígenes Lessa:

Às pesquisas formais, Orígenes Lessa tem preferido, ao longo de sua carreira de narrador, a preocupação do conteúdo ficcional. Em vez da aparência pretende a essência. Daí interessá-lo, na prática literária, o drama humano, pequeno ou grande, profundo ou intenso, extenso ou raso.
Homero Senna, ao tecer comentários sobre os contos de Orígenes Lessa, compara-o a Wilde e Maupassant, afirmando:

Como são os contos de Orígenes Lessa? São maliciosos, irônicos, mordazes, não raro pungentes. Sabendo, como leitor de Wilde, que a vida, freqüentemente, é mais inverossímil do que a arte, inspira-se em fatos e figuras do viver cotidiano, procurando fazer de suas histórias, como queria o mestre Maupassant, uma fatia da vida.

Embora, segundo Mário da Silva Brito, Lessa tenha-se utilizado, também, do aprendizado de técnicas narrativas de autores como Luigi Pirandello, Franz Kafka, Gilbert Keith Chesterton e James Joyce, no entanto, aproveitou-se dessas “raízes inspiradoras” para compor “a seiva de sua própria e pessoal dicção literária.”

Orígenes Lessa foi criador de seu próprio estilo e, embora não tenha desprezado todas as propostas literárias surgidas entre os idealizadores da Semana de Arte Moderna, como o uso de uma linguagem extremamente brasileira, sem resquícios e ornamentos eruditos, manteve-se fiel às suas próprias tendências. A escritura de Orígenes Lessa conduz o leitor mansamente como as águas calmas de um rio conduzem seu fluxo à grandiosidade do mar.

Artur Eduardo Benavides, em artigo publicado na Revista Leitura, refere-se ao defeito da imitação, isentando Orígenes Lessa de tal defeito. Segundo seu ponto de vista, o autor é:

…simples e liberto de qualquer defeito de imitação de mestres ou de escolas, qualidades essas que se manifestam em todas as suas páginas, algumas das quais podem ser consideradas verdadeiramente antológicas.

A dramaticidade da vida humana proposta nas obras de Lessa, assim como de obras de autores do seu repertório de leitura tem, como pano de fundo, a realidade urbana, com personagens e ambientes bem próximos da vida real, figuras do dia-a-dia, quase sempre de uma vida moderna que são flagrados e trabalhados pelo autor. Orígenes Lessa retirava do mundo as mais diversas situações e transformava-as em arte, algo que só alguém que viveu às voltas com a escritura, num trabalho de dedicação para com as letras, e tem uma base intelectual como a sua, pode fazer.

Francisco de Assis Barbosa, escritor e membro da Academia, no discurso de posse de Orígenes Lessa na Academia Brasileira de Letras, parece ter fechado a questão em relação ao trabalho do jornalista que teria contribuído para a produção literária de Orígenes Lessa, ao afirmar: “Viestes do jornal, uma universidade.”

Sem dúvida, o estilo literário de Orígenes Lessa tem muita relação com o estilo jornalístico e publicitário de que herdou a construção instantânea de frases de impacto, juntamente com a experiência na escolha e uso de determinadas palavras, adquirindo versatilidade e agilidade.

Orígenes Lessa aprendeu no jornalismo e na publicidade a ser conciso, sem por isso dizer pouco. Exercitou o trabalho de lapidador, retirando o excesso que pode sobrepujar em textos de autores inexperientes, conferindo à sua literatura características difíceis de serem alcançadas: precisão e arte, com o emprego certo das palavras certas, um trabalho de artesão da escrita, o que fica patente na reelaboração de seus textos. As peculiaridades inerentes à profissão de jornalista e propagandista, Lessa conseguiu transportar para a de ficcionista. O compromisso de escrever por encomenda, como escrever para uma determinada campanha, para uma data também determinada, foi mantido na construção da ficção, como Lessa mesmo ressaltou: “…eu gosto mais daquilo que estou fazendo naquele momento. Ou então, escrever por encomenda…”

Escrever por encomenda não desmerece quem domina a técnica da linguagem. Nos textos jornalísticos, publicitários e literários, a linguagem se faz de maneira natural, consolidando beleza e utilidade, aumentando o poder de comunicação.

Mas Orígenes Lessa sabia que, assim como na publicidade, na ficção, apenas o uso da palavra não garante público. Na propaganda, ele dizia ser necessário não só argumentar, mas criar no anúncio a necessidade no comprador pelo produto anunciado.

Na literatura, o processo de cativar o leitor não se dá de forma diferente. Suas obras vão ao encontro dos anseios e necessidades de cada leitor, possibilitando a fruição da obra, num jogo de perguntas e respostas que envolvem o escritor e o leitor na dialética do texto. A literatura de Lessa é, para usar um termo de Mário da Silva Brito, escritor e amigo pessoal de Orígenes Lessa, “de comunhão” e, porque não dizer, de diálogo com seu leitor que se vê envolvido pela ficção. Um diálogo velado, de forma indireta, que ocorre por meio do diálogo das próprias personagens do qual o leitor participa vivendo, encarnando seus problemas, tomando partido, envolvendo-se e opinando.

O diálogo, uma constante nas obras de Lessa, que fez render-lhe o título de “mestre do entrecho e do diálogo”, embora usado demasiadamente, não afeta a qualidade dos textos, pois o autor sabe dosá-lo com equilíbrio às situações, às tramas e às personagens, tornando favorável a adaptação de seus textos para o teatro, cinema e novelas de rádio e T.V. como aconteceu com Noite sem homem em 1968, O feijão e o sonho em 1976, e Juca Jaboti, Dona Leôncia e a super-onça em 1976 e fez render a Orígenes Lessa uma crítica favorável, quanto ao enredo de suas obras, pelo crítico Hugo Barcellos:”Machado de Assis, Orígenes Lessa e outros contistas brasileiros forneceram, afinal, aquilo que estava faltando ao cinema pátrio – enredo.”

O uso do diálogo confere às personagens lessianas uma vivacidade, dá alma aos seres ficcionais e constitui um elemento importante para o entendimento do processo criador de Orígenes Lessa e da recepção de sua obra pelo leitor.

Os artifícios utilizados por Lessa na criação de suas obras sempre foram frutos de sua preocupação com o leitor, seja ele adulto, infantil ou juvenil.

Orígenes Lessa merece toda a atenção dos educadores e dos pais com toda a segurança da maior seriedade e do maior carinho para com a formação conveniente de seus pequenos patrícios.

Daí a busca de uma perfeição, almejada por ele, quando fez mais de quinhentas alterações da quarta para a quinta edição de O feijão e o sonho e a humildade em dizer que não seria leitor de suas próprias obras. Isso faz parte de um comprometimento com o leitor e de uma visão perfeccionista de quem é capaz de afirmar:

Não gostei de nenhuma de minhas obras, não gostei porque sempre procuro escrever outras em busca da perfeição.

E ainda:

Gostaria de encontrar tempo para fazer uma grande varredura em tudo que escrevi.

O feijão e o sonho conta com mais de sessenta edições e teve repercussão nacional e internacional e, mesmo assim, Orígenes Lessa foi capaz de dizer que com esse romance teve sorte. Segundo Orígenes Lessa, O feijão e o sonho foi escrito em três semanas num escritório de propaganda, o que fez sofrer, nas novas edições, cortes e correções: “Cortar é mais importante e difícil do que acrescentar. Da quarta para quinta edição fiz mais de 500 modificações.”

As vendas do romance aumentaram muito após a apresentação da novela pela T.V. Rede Globo, conforme a comprovação pelo bilhete enviado em dez de outubro de 1976 por Orígenes Lessa ao amigo Clóvis Pacheco que o publicou, mais tarde, no jornal de São Carlos de nome A Tribuna: “Clóvis, com a novela na T.V. Globo, saíram cinco edições sucessivas num total de 88.000 exemplares. Valeu o risco… Um abraço do Orígenes.”

Contudo, a obra já havia sido lida por muitas pessoas e editadas várias vezes, antes mesmo do sucesso na televisão, o que mostra que não foi a obra televisiva que favoreceu a literatura, uma vez que esta já havia conquistado seu espaço por si própria, pois uma obra sem sucesso não seria adaptada para a televisão. Ao ser adaptado, o romance sofreu muitas alterações e Lessa nem quis ler o script antes de ir ao ar. Apenas acompanhou a reação do público que consumiu, só das Edições de Ouro, mais de 80 mil exemplares.

No ano de 1988, O feijão e o sonho foi traduzido para o Braille. Porém, com tanto sucesso obtido pelo romance, Orígenes Lessa se viu descontente com sua repercussão no meio infanto-juvenil com o qual, talvez, o enredo se identificasse, o que favoreceu a leitura, mas a contragosto de Lessa que via no romance uma leitura destinada a um público mais amadurecido, fugindo por muito tempo de um encontro direto com as crianças e adolescentes, quando convidado para dar palestras nas escolas.

Lessa afirmava não ser O feijão e o sonho sua obra preferida, embora fosse a do público. Dizia gostar mais de Rua do Sol editado em 1955,que trazia lembranças de sua infância e de Evangelho de Lázaro editado em 1972,que tinha muita relação com suas crises existenciais. Mas, sendo este o primeiro romance do autor, ficou evidente, seguindo o sucesso com seus livros de contos O escritor proibido editado em 1929 e Passa-três editado em 1935, a qualidade de romancista e “senhor da carpintaria do romance”, devido à habilidade no trato com as palavras e na construção de textos, o que lhe conferiu valor como escritor de literatura.

Por todo este vasto trabalho no campo da escrita, Orígenes Lessa foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras no dia nove de julho de 1981 e, para encerrarmos estes apontamentos, voltemos às palavras de Josué Montello que termina seu artigo sobre Orígenes Lessa dizendo:

Todos nós temos duas datas para o ponto de partida de nossa biografia: a do dia em que nos puseram no berço, aos gritos, e a do dia em que tomamos conhecimento da vida e do mundo. A primeira é a que efetivamente conta para a banalidade usual de nossa cronologia; a segunda, mais importante para o ser humano, é aquela em que nos inserimos na vida consciente, começando a recolher as impressões lúcidas e indeléveis que nos acompanharão por toda a existência e com as quais criamos o nosso próprio mundo.

A data de partida da biografia de Orígenes Lessa, além da primeira, a de seu nascimento, aquela que os anos se encarregaram de levar, é, também, a de sua primeira escrita, que começou aos seis anos com o seu provável primeiro livro, A bola, momento a partir do qual Lessa foi despertado para a arte literária e não parou mais, despertando em nós, seus leitores, o prazer pela literatura, pela arte e a consciência da vida.

Fonte:
Adriana Maria Toniolo Jacon. trecho de Dissertação de Mestrado apresentada à Unesp-Assis, em julho de 1999, ORÍGENES LESSA: A LETRA E O SONHO. Disponível em
http://www.lencoispaulista.sp.gov.br/bmol/CURIOSIDADES/_AS_VARIAS_FACES_DA_ESCRITURA_/_as_varias_faces_da_escritura_.html

Deixe um comentário

Arquivado em Artigos, Dissertação de Mestrado

Origenes Lessa (O Natal de tia Calu)

Tia Calu deixara a porta semi-aberta, para não correr a todo instante a receber os rapazes. Maria Augusta, sozinha, não daria conta do recado. Eram salgadinhos de toda sorte, delicados pastéis, empadinhas apimentadas, camarões recheados, canapés de salmão importado, caprichosas invenções do seu reconhecido gênio culinário. Entre os presentes recebidos àquela manhã havia dois vidros grandes de caviar. Seriam a surpresa da noite. Cortava, amassava, picava, colocava, com requintes de decoradora, trabalho amoroso e sutil, em que punha a alma. Naquela noite todos viriam! Pela primeira vez todos estariam em sua casa, na doce festa de Natal.
Soaram passos na sala.

— Vai ver quem chegou, Maria Augusta.

A preta espiou à porta, viu um jovem oficial, de malinha na mão, contemplando risonho a grande árvore, fulgurante de luzes.

— Tem um que eu não conheço. Está fardado.

— Fardado?

Seu rosto subitamente se fechou. Tia Calu, em suas festas, não gostava que eles viessem de uniforme e todos sabiam disso. O uniforme era a lembrança viva do perigo permanente, da ceifadora implacável.

Tia Calu, em silêncio, lavou as mãos à torneira, enxugou-as lentamente.

— Você, meu filho?

— Pois é, tia Calu — disse o rapaz, alegre, ligeiramente constrangido. — Tenho que estar no campo às cinco horas. Vou para Assunção. Posso dormir aqui, depois da festa?

— Claro, seu pirata! — disse tia Calu abrindo-lhe os braços, beijando-o na testa.

E já brincalhona:

— Mas quem não trabalha não come e não dorme. Venha ajudar na cozinha, que está tudo atrasado e às dez horas a Maria Augusta vai-se embora. Tem festa também…

O capitão deixou a malinha a um canto, sacou fora o dólmã, arregaçou as mangas da camisa.

— Assim que eu gosto. Soldado enfrenta o inimigo em qualquer terreno. E se adapta… A capacidade de adaptação é tudo…

— Eh! Eh! Eh! — riu Maria Augusta, feliz. Ela gostava daquela rapaziada porque topava tudo, não tinha orgulho. Onde é que já se viu um capitão cheio de medalhas botar pastel na frigideira e ficar todo salpicado de gordura?

— Eh! Eh! Eh! Essa Dona Calu tem cada idéia! Mas já havia rumor novo na sala.

— Ô de casa! Pode-se entrar?

— Rua! — disse tia Calu aparecendo, os claros dentes abertos num sorriso. — Rua! Isto aqui não é casa da sogra! — Rua! Rua!

Estava com as mãos cheias de pacotinhos, que os dois lhe passavam.

— Vocês são umas crianças! Pra que essa bobagem?

E colocou, numa alegria de mãe feliz, os pacotes junto ao embrulhinho que o capitão auxiliar de cozinha depositara timidamente sobre um móvel.

— Vocês são impossíveis!

— Sabem que hoje não vai faltar ninguém?

— Não diga! — exclamou surpreso um dos recém-chegados.

— Não falta ninguém! O Guilherme chegou hoje do Pará. Já me telefonou. O Oto conseguiu habeas-corpus da família. Prometeu que vem. E até o Mesquita. Ele me telegrafou de Bagé. Conseguiu licença. Deve estar chegando…

E já dona-de-casa:

— Vão se servindo. Uísque tem à bessa.

— Uísque? Com os preços que andam por aí?

— Ora! Pra que é que a tia Calu trabalha? Não é pra vocês? Sobe o preço do uísque eu subo o preço das aulas, ora essa! Eu acompanho a marcha do câmbio…

Voltaram-se os três. Dois braços apontavam na porta, cada um terminando por uma garrafa de uísque. Tia Calu sorriu de novo:

— E depois, nem era preciso. Eu trabalho com um corpo incansável de contrabandistas… Eles não falham nunca!

Abraços e gargalhadas festejaram a aparição dos braços e garrafas.

— Gelo é só buscar lá dentro!

Voltou à cozinha:

— Vai fazer sala, capitão de bobagem. Seus companheiros estão chegando. Aqui você serve só para atrapalhar.

Vozes e exclamações festivas animavam a sala. Duas horas da manhã!

— Um uísque só — pediu o oficial que chegara primeiro.

— Guaraná, capitão. Hoje você é donzela. Também, pra que é que foi aceitar serviço para a manhã de Natal? É guaraná, se quiser. Você tem de voar muitas horas. E não amola, não, que daqui a pouco eu te ponho na cama…

Tia Calu se mirava amorosa nos doze rapazes. Estavam todos! Não faltava nenhum. Uma juventude magnífica, alguns prematuramente graves, alguns melancólicos, a família longe. O Heitor, um dos bravos da campanha na Itália, fumava muito sério, o copo de uísque na mão esquerda. No mundo, só tinha tia Calu. O único irmão perecera num desastre, dois anos antes, nas margens do Guaporé. Subira num avião obsoleto, que ele sabia sem condições de vôo. Dois outros recordavam uma viagem por Mato Grosso, em que o avião caíra. Haviam escapado por milagre. O mecânico desaparecera.

Tia Calu contemplava a sua macacada, como sempre dizia.

— Vocês não podiam respeitar um pouco esta casa? Isto é família, tá bem?

— Ora, tia Calu, não chacoalha — sorna um rapaz moreno, de sobrancelhas espessas.

Estava a contar ao amigo a história de uma garota conhecida em Anápolis.

E continuando, já alto de uísque:

— Você não faz idéia! Nunca vi criatura mais clara, cabelos mais louros! Mas louro natural, entendeu? Uma coisa maravilhosa! Custei a acreditar que fosse goiana. A gente sempre acha que goiano tem de ser índio…

— O Lauro era goiano e parecia alemão — disse tia Calu.

Ouve um silêncio pesado. Rápido. Lauro caíra seis meses antes. O motor falhara. O avião fora descoberto uma semana depois, quatro homens carbonizados em plena floresta. Tia Calu sentiu um arrepio. Ouvia ainda as três descargas em funeral, diante da cripta dos aviadores, no São João Batista. Vinte e oito anos.

(— Estou ficando velho, tia Calu. Parece que vou ficar pra semente…)

Tia Calu ergueu o copo de uísque à altura dos lábios. Sorria para o Capitão Eduardo:

— Está com inveja, hem, seu boboca? É pra você não aceitar vôo em véspera de Natal, tá bem?

O rapaz fez um muxoxo infantil:

— Ora, tia Calu.

— É pra aprender, entendeu? Olha, prova esses camarões… Trabalho de mestre… Duvido que você já tenha comido coisa melhor… Alguém cantarolava na cozinha, procurando mais gelo.

— Pára com essa taquara rachada — ordenou uma voz, ligeiramente engrolada.

Tia Calu se ergueu, dirigiu-se para o interior. Voz tinha o Meira. Estava agora em Pistóia. Tia Calu mordeu os lábios. Meira deixara um filhinho, tinha agora oito anos.

(— O que é que você vai ser quando homem, Vadinho?

— Ué! Aviador, tia Calu!)

Ela já estava na cozinha, um amontoado de bandejas, pratos, panelas, garrafas.

— Puxa! Você não presta nem pra tirar gelo, Simão. Nunca vi cara mais sem jeito! Escorre um pouco de água em cima, que eles se desprendem .

O rapaz olhou-a, atarantado. Tia Calu aproximou-se, em voz baixa:

— Você não tinha arranjado uma colocação no Ministério?

— Falhou, tia Calu.

Ela ficou séria, olhando a testa larga, os olhos ingênuos do moço. Fazendo viagens longas, voando em ferro velho, a mulher esperando bebê. Era o mais imprudente de todos. Na escola, até os instrutores tinham medo de subir com ele. Fora várias vezes censurado, até punido. Adorava os malabarismos no espaço. Ficava possuído, ao subir, de verdadeiro delírio. Dos malucos da turma, dos tidos como malucos, era o único sobrevivente. Por que não tivera ainda a sorte de cair e ficar inutilizado para os vôos, arranjando sinecura numa base qualquer, pegando uma promoção, livrando-a daquela agonia permanente?

— Vai ser menino ou menina?

— Pelo jeito, menina.

— Graças a Deus — disse tia Calu, arrumando uns canapés.

Voltou para a sala com a bandeja. O grupo cantava, agora, um dos sambas do pré-carnaval. Tia Calu parou à porta, contente de ver aquela sadia despreocupação. Eram o seu orgulho, aqueles rapazes. Caíam como pássaros atingidos em bando, por invisíveis caçadores. Tinham filhos, mãe, esposa, irmãs, gente que vivia em terra, sempre de coração pequenino. Voavam sempre, os nervos de aço, a vontade inquebrantável. Pela primeira vez os tinha todos ao mesmo tempo em casa. Rapazes de escol, exemplares raros de coragem, de saúde física, de saúde moral. Era como se fossem filhos. Nunca mãe nenhuma tivera tantos filhos, tantos filhos tão jovens, tão fortes, tão belos. Pena que não estivessem todos como Carlos. Ah! antes estivessem! E o coração apertado, pousou os olhos enternecidos em Carlos. Somente Carlos não cantava. Levava aos lábios um pastel de camarão. Uma entrada profunda no frontal, que lhe deformava a cabeça, garantia que Carlos não voaria mais.

Olhou o relógio de pulso.

— Duas e meia, capitão! Berço! Chega de guaraná! Vai dormir! Quer que eu te chame a que horas?

O rapaz, que cantava também, quis protestar.

— Não tem choro não. Vai dizendo boa-noite, dá um beijo na mamãe, vai dormir.

O capitão se ergueu, obedeceu docilmente. Pouco depois, um a um, o grupo se dispersava.

— Bom Natal, tia Calu.

Quando se viu só — o capitão ressonava. Maria Augusta saíra às dez horas, o apartamento em silêncio — tia Calu olhou a sala. Parecia um campo de batalha. Precisava pôr em ordem tudo aquilo, senão Maria Augusta resmungaria o dia inteiro. Começou a reunir os copos numa bandeja. Treze copos, doze de uísque, um dela, e o de guaraná, do capitão que ressonava. Aproximou-se, na mão a bandeja, ficou a observar-lhe o sono vagamente atormentado. A seguir, voltou e, a bandeja sempre na mão, atulhada de copos, enfrentou o retrato do filho na parede principal da sala, medalhas e citações ao lado. Durante toda a noite passara despercebido. Havia como que um acordo tácito. Tia Calu agora encarava o filho. Depois, os olhos enxutos, agitou a cabeça:

— E pensar que vocês eram setenta e oito, tenente, setenta e oito!

Fonte:
Balbino, Homem de Mar, Livraria José Olympio Editora — Rio de Janeiro, 1960, e extraído do livro Entrevero, publicação da L&PM Editores — Porto Alegre, especialmente para a MPM Propaganda, pág. 264. Disponível em http://www.releituras.com/olessa_calu.asp

Deixe um comentário

Arquivado em Cronicas - Contos, Magia das Palavras, O Escritor com a Palavra

Osman Lins (Lisbela e o Prisioneiro)

Osman Lins participou da vida literária e cultural do Brasil entre 1955, quando publicou seu primeiro romance, O visitante, até sua morte, a 08 de julho de 1978. Autor de uma obra vasta e variada (contos, romances, novelas, peças de teatro, livros de viagem, poesias, casos especiais para televisão, ensaios e artigos), este pernambucano de Vitória de Santo Antão sempre deixou claro que a menina de seus olhos era a ficção narrativa.

De fato, contos e romances foram objeto de extrema dedicação, imune a concessões que garantiriam a Osman Lins sucesso de público, mas que o desviariam de seu projeto literário, direcionado pela idéia de encontrar uma forma específica para dar conta da visão de mundo a que chegara em sua maturidade. Visão expressa literariamente a partir de Nove, novena (1966).

Além do romance inaugural já mencionado, antecederam este livro composto por nove narrativas, Os gestos (contos1957) e O fiel e a pedra (romance, 1961). Todos gravitam em torno da narrativa tradicional e demonstram um feliz domínio de fusão de técnica e estilo, regado por frases com ritmos adequados, por palavras exatas, por acertadas e belas imagens.

Os mesmos tipos de personagens de seus primeiros livros (velhos, doentes, crianças, adolescentes, mulheres em situações prosaicas da vida, em geral, em solo nordestino) se mantêm ao longo de sua obra, num registro lírico de literatura introspectiva, marcada pela solidão, mas também impregnada de problemática de ordem social, às vezes com sutileza, outras, com tintas mais fortes. Nove, novena e os romances Avalovara (1973) e Rainha dos Cárceres da Grécia (1976) diferenciam-se, no entanto, de seus primeiros livros pela quebra da ilusão da realidade com a rarefação e a dispersão do enredo, por novos processos de composição da personagem e por alta dose de reflexão sobre o romance, o que lhes permite representarem um “momento de decisiva modernidade”, na Literatura Brasileira dos anos de 1970. A fidelidade de Osman Lins à busca de uma expressão própria na ficção, decorrente de uma recusa à cômoda retomada do já conquistado e de uma fé inabalável no poder criador da palavra, foi reconhecida e admirada pela crítica brasileira e estrangeira, com raras exceções. No entanto, ele é um autor ainda pouco difundido. Por isso é oportuna esta publicação de Lisbela e o prisioneiro.

O reaparecimento desta obra é especial porque permite ao público entrar em contato com o texto, no registro dramático, de um autor meticuloso no uso da palavra e na arquitetura da peça. Além disso, revela um aspecto decisivo de sua personalidade literária e cultural no sentido de procurar dar o melhor de si, mesmo na esfera que, a rigor, não é a de sua preferência. Consciente e cioso de seu ofício com a palavra, tudo o que dispõe para seus leitores é fruto de um período de preparação.

Para escrever Lisbela e o prisioneiro, Osman Lins não demorou dez anos de exercício constante até atingir a configuração harmoniosa como ocorrera com seu livro de contos Os gestos. Ao contrário, iniciou-a em 25 de julho e a concluiu a 9 de setembro de 1960, tendo se dedicado às modificações que lhe pareceram necessárias nos dias restantes do referido mês, conforme seu depoimento, publicado no programa distribuído por ocasião da primeira temporada de encenação da peça pela Companhia Tonia, Celi, Autran (CTCA) no Teatro Mesbla, no Rio de Janeiro, em 1961.

No entanto, Lisbela e o prisioneiro é fruto de um meticuloso trabalho preparatório, pois Osman Lins já tinha obtido menção honrosa no I Concurso Nacional da Cia. Toni-Celi-Autran, com a peça, O vale sem sol, em 1958. Insatisfeito com sua incursão como dramaturgo, considerando-a deficiente, matricula-se, nesse mesmo ano, no Curso de Dramaturgia da Escola de Belas Artes de Recife, onde vem a ser aluno de Joel Pontes, de Hermilo Borba Filho e de Ariano Suassuna. Numa entrevista, Osman Lins mencionará este último como professor da disciplina de play-writer, que teria exercido uma possível influência sobre ele, no que diz respeito às normas de composição de Lisbela e o prisioneiro.

Ao concluir o curso, em 1959, escreve um drama em três atos, Os animais enjaulados. No ano anterior, solicitado por uma de suas filhas, compusera num só dia um auto de Natal, O cão do segundo livro, em dois atos. Depois deste paciente exercício, assumido com humildade (Osman Lins já tinha publicado dois livros de ficção, reconhecidos e premiados, quando se tornou aluno no Curso de Dramaturgia), o obstinado escritor pernambucano obteve o primeiro lugar de comédia no 2 Concurso Nacional da Cia. Tônia , Celi , Autran.

Outras peças serão ainda escritas por Osman Lins: Guerra do cansa-cavalo (prêmio Anchieta, 1965; encenada em 1971, na inauguração do Teatro Municipal de Santo André); peça infantil, Capa Verde e o Natal (prêmio Narizinho, da Comissão Estadual de Teatro, 1965); Mistério das figuras de barro (dirigida pelo autor e encenada pelos alunos da Faculdade de Marília, em 1974); Santa, automóvel e soldado (coleção de três peças, publicadas em 1975); Romance dos soldados de Herodes (encenada no Rio Grande do Sul e em São Paulo, em 1977).

Lisbela e o prisioneiro foi sua primeira peça a ser encenada, com retumbante sucesso. E com certeza é a que até hoje teve mais alcance de público. Se muito da fama de uma peça deve ser creditado ao trabalho de direção, ao desempenho dos atores, à cenografia, ao figurino, à iluminação, ao som; outro tanto pelo menos também deve ser atribuído ao texto do dramaturgo.

No caso específico desta peça, adensa-se a função do texto porque se inscreve no ideário do teatro tradicional, sob a pena de um autor obsessivo com a arquitetura da estória e com a atenção à palavra. Desse modo, trata-se de uma peça que também pode ser lida com prazer tanto pelo leitor que se contenta apenas com o divertimento como por aquele mais exigente, que busca, além da fruição, incursões em diferentes níveis de significação que a obra lhe oferece.

Lisbela e o prisioneiro é uma comédia de caracteres, embora as ações desenvolvidas na cadeia de Vitória de Santo Antão desempenhem uma função considerável na sua estrutura tradicional, com exposição, desenvolvimento, falso clímax, clímax, desfecho de situações, vivenciadas por personagens nordestinas e muito bem amarradas.

Lisbela, filha do Tenente Guedes, delegado da Cadeia de Santo Antão, forma par amoroso com o funâmbulo Leléu, um Don Juan nordestino. Esse casal anticonvencional assume riscos em nome de sentimentos intensos. Lisbela foge com Leléu, no dia de seu casamento com Dr. Noêmio, advogado vegetariano, por isso mesmo personagem destoante do meio em que se encontra, prestando-se a alvo de muitas tiradas cômicas. Ao marido, doutor, representante do estabelecido e da segurança, a jovem prefere Leléu, o artista de circo preso, com tudo o que este significa de risco e subversão dos valores vigentes em seu meio.

A peça é dominada pela presença de personagens masculinas. Além das já referidas, atuam na cadeia de Vitória de Santo Antão, Jaborandi, soldado e corneteiro, afeiçoado a fitas em série; Testa-Seca e Paraíba, outros presos; Juvenal, outro soldado; Heliodoro, cabo de destacamento, casado, já com uma certa idade, apaixonado por uma jovem, o qual chega a forjar um falso casamento para possui-la; Tãozinho, vendedor ambulante de pássaros, que rouba a mulher de Raimundinho; Frederico, assassino profissional, à procura de Leléu, que deflorou sua irmã Inaura,e que por ele é salvo, sem saber, de um ataque de boi; Lapiau, artista de circo, amigo de Leléu, que participa da farsa de casamento de Heliodoro com a jovem; Citonho, o velho carcereiro, esperto e dinâmico, cúmplice, no final, de Lisbela e de Leléu e mais dois soldados, personagens mudas.

Lisbela, a única filha do tenente Guedes, é também a única mulher que atua em cena; as outras são apenas mencionadas nos diálogos. E atua com força, porque enfrenta a autoridade patriarcal, representada pelo pai e pelo noivo, ao tomar iniciativa para colaborar com a fuga de Leléu da prisão e a se dispor a abandonar o marido no dia de seu casamento para aventurar-se na vida com o equilibrista. Como se não bastasse isso, é ela quem livra Leléu da morte, ao atirar, aparentemente, em Frederico, o assassino profissional, quando este lhe apontava a arma, pouco antes do desfecho da peça. Parece e julga-se tornar-se uma criminosa, colocando o pai numa situação incômoda. Para livrar a própria filha da cadeia, este usará expedientes comprometedores para a lisura de uma autoridade, com o fito de embaralhar ou ocultar a autoria do suposto crime, pois no desfecho da peça revela-se que Frederico morreu de morte natural. Por suas ações, Lisbela não apenas renega os mesquinhos valores, mas também expõe as fraturas da sociedade patriarcal.

O gênero comédia aliado ao perfil anticonvencional da dupla protagonista foi muito bem escolhido por Osman Lins para pôr em cena, no contexto de uma região de valentias, de sentimentos exaltados, de honra e vinganças, um crime inesperado, porque aparentemente cometido pela jovem Lisbela. Inesperado, mas plenamente justificado, se tivesse ocorrido.

Atitudes que causam surpresa também compõem Leléu, que nada tem de prisioneiro em termos dos valores estabelecidos, garantidores de acomodada segurança, mas negadores da “flama da vida”. Volúvel nos amores, experimentador de várias profissões, portador de diferentes identidades, afeiçoado a riscos e deslocamentos, o circence Leléu, que tanto quer e tanto faz para sair das grades da cadeia de Vitória de Santo Antão, não hesita a ela retornar, só para ficar próximo de Lisbela, quando fracassa o plano de fuga dos dois. O paradoxal retorno à prisão é mais um movimento desta personagem para a libertação das amarras de valores que lhe são menores do que os impulsos da vida. Ele vive sempre com fervor seu minuto de aflição ou de alegria, como bem acentuou o próprio Osman Lins, ao apontar para o efeito contaminador de sua ”flama”, no programa da primeira temporada desta comédia: Leléu acende, mesmo na cadeia, as apagadas chamas de Lisbela e desperta em Citonho, o velho carcereiro, o herói escondido.

Aliás, essa personagem é uma daquelas que mais se destacam na peça e atraem a atenção e a conivência do leitor, porque de velho caduco e fraco, propício a gozações dos mais jovens e fortes, ele não tem nada. Com maestria, Osman Lins desvela na personagem octogenária, enfraquecida, em tese, pela faixa etária e pela categoria da função exercida, a mais desqualificada do contexto da peça, sua perspicácia, lucidez, força e coragem. O velho solitário considerado caduco pelo tenente Guedes é o que, de todos os seus submissos, mais o enfrenta: toma partido de Lisbela e de Leléu, em prol do amor libertário, com todos os seus riscos, e age com esperteza para proteger a jovem da suposta autoria de seu crime. Enfim, do velho também emanam vida e movimento.

Essa poética do avesso contribui ainda para relativizar o lado antipático do tenente Guedes, representante da polícia. Apesar de suas atitudes condenáveis, como os desmandos, a prepotência, a conivência com o crime, o delegado mostra-se humano quase todo o tempo. Por causa de sua função, não consegue se desvencilhar do “encarceramento profissional” e se vê obrigado a tomar atitudes contrárias a seu temperamento. Eis um dos motivos pelos quais está sempre a afirmar que “a autoridade é um fardo”. Bordão com efeitos cômicos, de acordo com as situações nas quais é proferida. No fundo, o tenente Guedes é mais prisioneiro de sua profissão que todos seus subalternos.

Dentre estes, merece menção especial o soldado e corneteiro, Jaborandi, que vive fugindo do local de trabalho, para assistir fitas em série no cinematógrafo, interrompendo seus momentos de fantasia, na hora que tem de tocar a corneta. Em meio a idas e vindas, ele vive entre o sonho e a realidade, mas uma realidade na qual sua função, tocar corneta, é desprovida de sentido conseqüente, a não ser o de acentuar a sua falta de sentido naquele contexto: para quê tocar corneta numa prisão? No mínimo, tais cenas provocam o riso, cumprindo sua função na comédia, e abrem brechas para o próprio Jaborandi e outras personagens estabelecerem ligação entre as estruturas das fitas em série (filmes de bandido e mocinho) e os episódios da comédia, além de interiorizarem na própria peça alusões às relações entre a vida e a fantasia.

Por mais despretensioso que tenha sido Osman Lins na composição simples e direta desta comédia, quando se encontrava ainda na fase da busca de caminhos próprios para sua ficção e para seu teatro, como ele próprio afirmou em entrevista concedida em 1961, o fato é que Lisbela e o prisioneiro é uma peça de um autor seguro, engenhoso e talentoso, que tem muito ainda a dizer em nossos dias, desde o que se refere aos desmandos e à conivência da polícia com o crime até questões de ordem existencial.

O regionalismo de Lisbela e o prisioneiro, fundado no aproveitamento de incidentes testemunhados por amigos, por familiares e por Osman Lins bem como apoiado na transposição de ditados, expressões populares e dísticos encontrados em pára-choques de caminhões, é transfigurado sob a pena de seu autor. Matéria e linguagem re-elaboradas tecem esta peça, regada por uma equilibrada dosagem de leveza, comicidade e ternura, e assentada em valores libertários em prol da vida, o que lhe abre as portas para outros tempos e outros espaços.

O Filme
Lançado no Brasil em 2003, por Natasha Filmes / Fox Film do Brasil / Globo Filmes / Estúdios Mega. Direção: Guel Arraes. Elenco: Selton Mello (Leléu); Débora Falabella (Lisbela); Virginia Cavendish (Inaura); Bruno Garcia (Douglas); Tadeu Mello (Cabo Citonho); André Mattos (Tenente Guedes); Lívia Falcão (Francisquinha); Marco Nanini (Frederico Evandro)

Premiações
Ganhou 2 prêmios no Grande Prêmio Cinema Brasil, nas seguintes categorias: Melhor Ator (Selton Mello) e Melhor Trilha Sonora. Recebeu ainda outras 10 indicações, nas seguintes categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante (Bruno Garcia e Tadeu Mello), Melhor Atriz Coadjuvante (Virginia Cavendish), Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Figurino, Melhor Maquiagem, Melhor Montagem e Melhor Som.

Curiosidades
– Lisbela e o Prisioneiro é o primeiro longa-metragem do diretor Guel Arraes feito especificamente para o cinema. Seus filmes anteriores, O Auto da Compadecida e Caramuru – A Invenção do Brasil, eram adaptações de miniséries exibidas pela Rede Globo.

– Antes de levar Lisbela e o Prisioneiro aos cinemas, Guel Arraes adaptou o texto de Osman Lins para um especial de 50 minutos exibido pela Rede Globo e ainda uma peça teatral.

– Foi o 7º filme mais visto em 2003 no Brasil, tendo levado 3.146.461 pessoas aos cinemas.

Fontes:
Sandra Nitrini. Planeta, junho de 2003
http://www.portrasdasletras.com.br/pdtl2/sub.php?op=resumos/docs/lisbela

Deixe um comentário

Arquivado em Análise da Obra, Estante de Livros e Revistas, Resumos

Érico Veríssimo (Um Lugar ao Sol)

Vasco caminha pela vida numa incansável e persistente busca: de emprego, de amor, de dias melhores… Mas não importa. Já se habituou a viver em constante contradição. Busca as aventuras da boemia e descobre os prazeres de um viver regrado. Como será o amanhã? Não se sabe… Há dificuldades imensas, mas é certo que também existe Clarissa, sua paixão, o elo que o prende à realidade. A vida ainda vale a pena! Permanecer e lutar ou ganhar mundo com seu pai, num percurso solitário? Erico Verissimo consegue, neste livro contundente e atual, mostrar que, apesar dos pesares que marcam o destino inexorável do homem, todos nós temos direito a Um Lugar ao Sol. Neste livro, o escritor consegue elaborar de modo impecável um retrato vivo da complexidade do ser humano e das questões que o inquietam. Reunindo personagens já conhecidas de suas obras anteriores, coloca-as a nu, com uma linguagem sincera e comovente, criando situações em que o cotidiano se impõe sempre, implacável. Assim, à miséria e à violência que marcam o destino do homem, somam-se aspectos do mais profundo humanismo: a solidariedade irrestrita, a esperança de uma vida melhor, a amizade, a paixão.

Sempre crítico, o autor analisa a sociedade procurando compreendê-la de forma realista, isenta. E as personagens, vivendo o presente intensamente, ao sabor dos acontecimentos, não se preocupam com o amanhã. É melhor “seguir ao acaso, como os barcos antigos, sem bússula nem porto certo, guiados apenas pelas estrelas”. Com uma temática atual e forte, o enredo envolve o leitor e leva-o a refletir sobre o próprio destino, seus encantos e desencantos, sua impotência e pequenez frente à vida.

Fontes:
http://www.coladaweb.com/resumos/lugarsol.htm
http://www.traca.com.br/ (figura)

Deixe um comentário

Arquivado em Estante de Livros e Revistas, Resumos

José Saramago (A Jangada de Pedra)

O romance se inicia com a narração de alguns casos insólitos – Joana Carda e a vara de negrilho, Joaquim Sassa e o arremesso de uma pedra ao mar, José Anaiço e os estorninhos e Pedro Orce e o tremor da terra e Maria Guavaira e o fio de lã – onde são interligados mais adiante na narrativa. A Península Ibérica acaba por se soltar do continente europeu. Joaquim Sassa fica sabendo do fenômeno ocorrido com José Anaiço, indo em sua procura para saber a correlação desses fatos com a desagregação da Península. Joaquim Sassa e José Anaiço partem em Dois Cavalos ( carro de Joaquim Sassa ) rumo à Venta Micena (Espanha) à procura de Pedro Orce , que sente constantemente a terra tremer. As autoridades, comprovando tal fenômeno, e, embora não consigam explicá-lo, pedem a Pedro Orce que não comente isso com ninguém. No encontro dos três, viajam à região fronteiriça da Espanha com a França para verem o fenômeno. Decidem por ir à Lisboa. A caminho da capital portuguesa, fazem uma pequena estada em Albufeira. O caos nesta e noutras cidades se torna generalizado. A população, sem ter moradia, começa a invadir os hotéis, que estão vazios por falta de turistas. Choques entre o povo e as tropas do governo geram um clima de intranqüilidade.

A parcela rica da Península ibérica acaba por abandoná-la, levando consigo boa parte de seus capitais por receio dos movimentos populares que aconteciam. Ao chegarem à Lisboa, hospedam-se no Hotel Bragança. O fenômeno dos estorninhos chama a atenção da imprensa, que descobre os nossos protagonistas. Manchetes nas redes de televisão, rádios e jornais levam as autoridades a buscarem Joaquim Sassa e Pedro Orce para averiguações. Joana Carda vai ao encontro do grupo por ser portadora de outro fenômeno (aludido no início do enredo). Joana Carda hospeda-se no Hotel Borges. O grupo empreende uma viagem à Ereira, onde Joana passou a viver depois de separada e se dá o fenômeno da vara de negrilho. Inicia-se um romance entre Joana e José Anaiço. Ao chegarem ao local do risco, encontram o Cão Constante, carregando um fio de lã azul à boca, que se junta ao grupo, afeiçoando-se a Pedro Orce. Os quatro seguem o cachorro que os leva à região da Galiza, hospedando-se no caminho na casa de Joaquim Sassa no Porto.

O destino do grupo é a casa de Maria Guavaira, viúva há três anos, portadora de outro fenômeno: “… não fiz mais do que desmanchar uma meia velha, dessas que serviam para guardar dinheiro, mas a meia que desmanchei daria um punhado de lã, ora o que aí está corresponde à lã de cem ovelhas, e quem diz cem diz cem mil, que explicação se encontrará para este caso,…”. Começa um idílio amoroso entre Maria Guavaira e Joaquim Sassa . O rádio noticia a probabilidade de colisão entre a Península e o arquipélago de Açores. Inicia-se outra etapa da viagem, em direção ao oeste peninsular. A viagem é feita pelo grupo em uma galera, pois Dois Cavalos não funcionara mais. Maria Guavaira conduz a galera que é puxada inicialmente por um, posteriormente por dois cavalos (Pigarço e Alasão). A evacuação do leste português é generalizada, deixando cidades abandonadas e a população em desespero.

Os governos português e espanhol se mostram ineficientes quanto ao amparo desse grande contigente de emigrantes. Já distantes da Europa, os Estados Unidos e o Canadá se preparam para dar as boas vindas à Península, começando a idealizar as novas relações estrangeiras entre esses dois grupos. Acontece o inesperado – a Península acaba por se desviar do arquipélago de Açores, mudando naturalmente seu curso ao norte. Todos reiniciam o retorno às suas casas. Nossos viajantes, entretanto, resolvem continuar viajando – agora em direção aos Pirineus. As duas mulheres do grupo acabam por ter relações com Pedro Orce, o que provoca um clima instável nos viajantes. Os viajantes permanecem juntos,mesmo com um certo ressentimento que predominava. Chegam ao fim da Península, extasiados com o espetáculo natural que presenciam. A Jangada de Pedra pára. Portugal fica voltado aos Estados Unidos e a Espanha para a Europa.

Pedro Orce ainda afirma que a terra treme, o que acaba por se confirmar com a retomada do movimento peninsular, que fica a girar em torno de seu próprio eixo durante um mês. “Dois Cavalos seguia devagar (…), agora os viajantes demoravam-se nos lugares (…)”. Por essa ocasião, as mulheres percebem que estão grávidas, não sabendo ao certo sobre a paternidade. O grupo encontra Roque Lozano, o qual viera em seu burro ( Platero) para ver o desregramento. Roque Lozano junta-se aos viajantes para retornar à sua casa (Zufre), como era idéia de todos. A Península começa a vagar rumo ao sul. Os Estados Unidos perdem o interesse de antes pelos povos peninsulares, onde “todas” as mulheres ficam grávidas. Joana Carda tem pressentimentos quanto a Pedro Orce . Este morre no momento em que a galera pára e ele não sente mais o tremor da terra. O grupo descansa para retomar a viagem.

O tempo da narrativa é psicológico. Embora haja referências cronológicas, elas não predominam, além de serem em grande parte imprecisas.

O espaço é a Península Ibérica a vagar pelo Oceano Atlântico.

Os narradores são múltiplos e alternados (variando entre 10 pessoa do singular e plural e 30 pessoa ), o que anula um pouca a presença do narrador tradicional.

Personagens principais: Joana Carda Portuguesa divorciada que mora na região de Ereira. Ao riscar o chão com uma vara de negrilho, os cachorros de Cerbère começam a ladrar, ação que não faziam a séculos. Joaquim Sassa Português (Porto), trabalha em um escritório, estando de férias por uma praia ao norte de Portugal. Lança uma pesada pedra no mar, espantando-se com a grande distância que ela vem a tomar antes de afundar. José Anaiço Português (Ribatejo) com o ofício de professor que fica sendo acompanhado constantemente por uma nuvem de estorninho. Pedro Orce Próximo dos sessenta anos, espanhol da região de Orce, farmacêutico no vilarejo de Venta Micena. Ele sente a terra tremer enquanto que os sismógrafos não conseguem detectar nenhum tremor. Maria Guavaira Habitante da região rural da Galiza, puxa um fio azul de lã de uma meia que se multiplica exageradamente em comprimento. É este fio, através do cão Constante, que traz os outros personagens acima à sua casa.

Linguagem e o estilo da obra O autor se utiliza de períodos e parágrafos muito longos (estes chegando às vezes a uma página ou mais). Há uma total erradicação dos sinais de pontuação (usando predominantemente a vírgula e o ponto). As falas de narrador e personagens são às vezes confundidas, onde o uso do discurso indireto livre é bastante influenciador. A metalinguagem também se faz presente no romance, onde se percebe leves doses de ironia. Dividida em 23 capítulos, a obra preserva o português lusitano (imposição do autor aos países de língua portuguesa), fazendo-se valer de expressões populares típicas de Portugal.

Fonte:
http://www.coladaweb.com/resumos/jangadapedra.htm

Deixe um comentário

Arquivado em Análise da Obra, Estante de Livros e Revistas, Resultados

Edmond Rostand (Cyrano de Bergerac)

O Valente espadachim e romântico poeta Cyrano de Bergerac não é fruto da imaginação criativa de Edmond Rostand : Saviniano Hércules Cyrano de Bergerac nasceu em Paris em 1619. Aos 19 anos abraça a carreira militar, tornando-se cadete da Guarda de Paris. Participa de várias batalhas, inclusive do cerco de Arras , onde recebe forte golpe na garganta, o que encerra sua vida militar. Em 1653, passa a trabalhar na casa do duque de Arpajon, instalando-se no palácio de Marais, onde é ferido na cabeça devido à queda de um pedaço de madeira do teto. Em 1655, pressentindo a morte, vai para a casa de uma prima- a baronesa de Neuvillette-, vindo a falecer cinco dias depois. Cyrano talvez não tenha tido a coragem, o heroísmo e a nobreza do personagem de Rostand. Mas era um homem polêmico e dedicado à cultura. Foi escritor, teatrólogo, filósofo, ensaísta, comediante e boêmio. E parece que tinha realmente um enorme nariz, motivo de zombarias que o levavam a bater-se em duelo com muita freqüência. Sua obra é pouco expressiva, mas curiosa. Escreveu um volume de Cartas, muitas contendo ataques vigorosos a personalidades da época; uma comédia, Le pédant joué, onde critica seus antigos chefes militares; uma tragédia. A morte de Agripina, citada na peça de Rostand; e uma obra audaciosa, chamada O outro mundo. Muitos dos fatos e personagens incluídos em Cyrano de Bergerac são verídicos, como a batalha de Arras e o inimigo Montfleury.

O famoso escritor Moliér foi realmente contemporâneo de Cyrano, e parece Ter sofrido alguma influência dele ( na peça , é acusado de plagiá-lo). Rostand cita também personagens de outros autores do século XVII, como por exemplo D’Artagnan, o conhecido herói da obra Os três mosqueteiros, de Alexandre Dumas. Quanto a Roxana, teria sido a prima que acolheu Curano pouco antes de sua morte. Não se sabe , porém, se a devotada paixão do célebre narigudo era real, nem tão intensa. Na peça , a jovem aparece como uma “preciosa”, uma típica mulher da sociedade parisiense de meados do século XVII, que frequentava salões mundanos, usando linguagem rebuscada e artificial. Embora Molière as tenha satirizado em sua peça As Preciosas ridículas, Rostand não apresenta uma Roxana caricatural, apesar de ela se mostrar um tanto frívola e fascinada pela literatura empolada de Cyrano. Cyrano de Bergerac foi representada em inúmeros paises. No Brasil foi traduzida em 1907 por Carlos Porto Carreiro, cujo trabalho admirável é uma verdadeira proeza de habilidade lingüística.

Fonte:
http://www.coladaweb.com/resumos/cyrano.htm
www.soundtrackcollector.com (figura)

Deixe um comentário

Arquivado em Estante de Livros e Revistas, Resumos

Henry Rider Haggard (As Minas do Rei Salomão)

As minas do Rei Salomão, publicado originalmente em 1885, é um best-seller escrito por Henry Rider Haggard, escritor vitoriano de aventuras e fabulista. O livro narra uma jornada ao coração da África feita por um grupo de aventureiros liderados por Allan Quatermain em busca de lendária riqueza que diz-se estar oculta nas minas que dão nome ao romance. É considerado o primeiro romance de aventura a se passar na África e é considerado o precursor do gênero literário “mundo perdido”, em que se descobre um novo mundo, daí sua importância.

Tornou-se um imediato best-seller. No final do século XIX, exploradores estavam descobrindo civilizações perdidas em volta do mundo, como o Vale dos Reis no Egipto, a cidade de Tróia, o Império Assírio. A África ainda era largamente inexplorada e “As minas de Salomão” foi o segundo romance de aventura africana publicado em inglês, capturando a imaginação do público. O primeiro foi Cinco Semanas em Um Balão, publicado em 1863 pelo escritor francês Júlio Verne.
O “Salomão” do título do livro é, claro, o rei bíblico renomado tanto por sua sabedoria quanto por sua riqueza. Um número de locais foi identificado como sendo o lugar onde estariam localizadas as minas de Salomão, incluindo Timna (pequena cidade no Iêmen) perto de Éilat, e muitos lugares “fictícios”.

Haggard conhecia bem a África, pois havia penetrado no continente como um jovem de dezenove anos envolvido com a guerra Anglo-Zulu e a Primeira Guerra Bôer, as quais forneceram sua base e inspiração para esta e muitas outras histórias.

Análise

Conta-se que o livro surgiu como resultado de uma aposta de Haggard com seu irmão, a saber, que ele não conseguiria escrever um romance com a metade da qualidade da “A Ilha do Tesouro” (1883) de Robert Louis Stevenson.

Como “A Ilha do Tesouro”, a maior parte do livro foi escrita com a perspectiva em primeira pessoa como em um diário de viagens, relatando a aventura, em contraste com a maioria das ficções vitorianas que tinha adotado a perspectiva em terceira pessoa, onisciente, favorecida por escritores influentes como Charles Dickens, Wilkie Collins e Anthony Trollope.

“As Minas do Rei Salomão” foi bastante influente, originando o gênero “mundo perdido”, seguido depois por Edgar Rice Burroughs em “A terra que o tempo esqueceu”, “O mundo perdido” de Arthur Conan Doyle, “King Kong” de Edgar Wallace e “O homem que queria ser rei” de Rudyard Kipling.

O livro ganhou pelo menos quatro adaptações para o cinema. A obra homónima do escritor português Eça de Queirós, mais que uma mera tradução, constitui uma obra com valor próprio.

Resumo do enredo

Allan Quatermain, um caçador e aventureiro inglês, morando em Durban, África do Sul, é abordado por um aristocrata inglês, Sir Henry, e seu amigo, Capitão Jhon, buscando a ajuda de Quatermain para encontrar o irmão perdido de Sir Henry, visto pela última vez viajando pelo interior em direção ao norte, em uma busca pelas lendárias minas do rei Salomão. Quatermain havia obtido, anos antes, um mapa que levava às minas, sem nunca tomá-lo a sério, mas concorda em liderar uma expedição em troca de parte do tesouro, ou uma pensão para seu filho, se ele for morto no caminho. Ele tem poucas esperanças de retornar vivo. Eles também levam um misterioso nativo, Umbopa, que parece ter uma maneira de falar mais educada e ser mais majestoso e bonito que a maioria dos carregadores, mas que está muito ansioso para juntar-se ao grupo.

Viajando em bois e em carruagens, eles chegam aos limites de um deserto. O mapa de Quatermain mostra um oásis a aproximadamente 96 quilômetros de distância, ou a metade do caminho, e eles continuam a pé, quase morrendo de sede, antes de chegar até ele. Eles completam a segunda metade do deserto sem incidentes e chegam ao sopé de uma cordilheira. Eles sobem até o topo e entram em uma caverna aonde encontram o corpo seco e congelado de José Silvestre, o explorador português do século XVI que havia desenhado o mapa de Quatermain. Eles cruzam as montanhas em direção a um vale cultivado e exuberante, habitado por uma tribo de nativos conhecida como Kukuanas, que são militarmente bem organizados e falam um antigo dialeto Zulu.

Eles são levados para ver o rei Twala, que comanda seu povo com implacável violência. Ele assumiu o poder anos antes quando assassinou seu irmão, que seria rei, e exilou a esposa e o filho de seu irmão, supostamente mortos no deserto. O rei Twala é apenas um rei de fachada, pois o verdadeiro cérebro por trás dele é uma velha embusteira chamada Gagool.

Secretamente é revelado que o majestoso servente que veio com os ingleses é, na verdade, o filho exilado do rei assassinado. Uma rebelião tem início e em maior número, os rebeldes obtêm sucesso em derrubar Twala e, de acordo com a tradição Kukana, Sir Henry mata Twala em um duelo. Os ingleses capturam a malvada Gagool e ela promete guiá-los para a montanha onde estão localizadas as minas de Salomão. Ao achar o tesouro, Gagool engana os ingleses e uma pedra gigante os prende dentro da montanha. Sem luz e com pouca água, eles preparam-se para morrer. Com sorte, encontram uma rota de fuga, trazendo consigo, do enorme tesouro, apenas uns poucos bolsos cheios de diamantes, mas ainda o suficiente para fazê-los ricos.

O grupo deixa o vale e retorna ao deserto, tomando uma rota diferente, na qual acham o irmão de Sir Henry “encalhado” em um oásis com uma perna quebrada, incapaz de ir em frente ou de voltar. Todos voltam para Durban e, por fim, para a Inglaterra, ricos o suficiente para viver confortavelmente.

Fonte:
http://pt.wikipedia.org

Deixe um comentário

Arquivado em Estante de Livros e Revistas, Resumos

Cláudio Willer (1940)

Poeta, ensaísta e tradutor. Sua formação acadêmica é como sociólogo e psicólogo. Depois de ocupar outros cargos e funções em administração cultural, foi assessor na Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, responsável por cursos, oficinas literárias, ciclos de palestras e debates, leituras de poesia, de 1994 a 2001. Dezenas de participações em congressos, seminários, ciclos de palestras, apresentações públicas de autores etc., no Brasil e no exterior.

Presidente da União Brasileira de Escritores, UBE, eleito em março de 2000 para o cargo que já exerceu em dois mandatos anteriores, entre 1988 e 92; reeleito em março de 2002; além disto, também secretário geral da UBE em outros dois mandatos (1982-86), e presidente do Conselho da entidade (1994-2000).

Livros publicados

  1. Anotações para um Apocalipse, Massao Ohno Editor, 1964, poesia e manifesto.
  2. Dias Circulares, Massao Ohno Editor, 1976, poesia e manifesto.
  3. Os Cantos de Maldoror, de Lautréamont, 1ª edição Editora Vertente, 1970, 2ª edição Max Limonad, 1986, tradução e prefácio.
  4. Jardins da Provocação, Massao Ohno/Roswitha Kempf Editores, 1981, poesia e ensaio.
  5. Escritos de Antonin Artaud, L&PM Editores, 1983 e sucessivas reedições, seleção, tradução, prefácio e notas.
  6. Uivo, Kaddish e outros poemas de Allen Ginsberg, L&PM Editores, 1984 e sucessivas reedições, seleção, tradução, prefácio e notas; nova edição, revista e ampliada, em 1999; edição de bolso, reduzida, em 2.000.
  7. Crônicas da Comuna, coletânea sobre a Comuna de Paris, textos de Victor Hugo, Flaubert, Jules Vallés, Verlaine, Zola e outros, Editora Ensaio, 1992, tradução.
  8. Volta, narrativa em prosa, Iluminuras, 1996.
  9. Lautréamont – Obra Completa – Os Cantos de Maldoror, Poesias e Cartas, edição prefaciada e comentada, Iluminuras, 1997.
  10. Estranhas experiências (poesia). Editora Lamparina. Rio de Janeiro. 2004.
  11. Poemas para leer en voz alta (antología poética). San José, Costa Rica: Ediciones Andrómeda, 2007. [traducción de Eva Schnell]

Como crítico e ensaísta, colaborou em suplementos e publicações culturais:

  • Jornal da Tarde,
  • Jornal do Brasil,
  • revista Isto É,
  • jornal Leia,
  • Folha de São Paulo,
  • revista Cult,
  • Correio Braziliense,
  • Xilo etc,

    Projetos da imprensa alternativa como Versus e revista Singular e Plural.

    Filmografia e videografia, com destaque para Uma outra cidade, documentário de Ugo Giorgetti com os poetas Antonio Fernando de Franceschi, Rodrigo de Haro, Roberto Piva, Jorge Mautner, Claudio Willer, exibido na TV Cultura, São Paulo e na Rede Pública de TV, disponível em vídeo, produção SP Filmes e TV Cultura de São Paulo.

Textos seus foram incluídos em antologias e publicações coletivas, como por exemplo:

  • Folhetim – Poemas Traduzidos, org. Nelson Ascher e Matinas Suzuki, ed. Folha de S. Paulo, 1987, com uma tradução de Octavio Paz;
  • Artes e Ofícios da Poesia, org. Augusto Massi, ed. Artes e Ofícios – Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, 1991;
  • Sincretismo – A Poesia da Geração 60, org. Pedro Lyra, Topbooks, 1995;
  • Antologia Poética da Geração 60, org. Álvaro Alves de Faria e Carlos Felipe Moisés, Editorial Nankin, 2.000;
  • 100 anos de poesia brasileira – Um panorama da poesia brasileira no século XX, Claufe Rodrigues e Alexandra Maia, organizadores, O Verso Edições, Rio de Janeiro, 2001;
  • Paixão por São Paulo – Antologia poética paulistana (comemorativa dos 450 anos de fundação da cidade), Luiz Roberto Guedes, organizador, Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2004.
  • Narradores y Poetas de Brasil, coletânea de Floriano Martins, revista Blanco Móvil, primavera de 1998, México, DF;
  • Un nuevo continente – Antologia del Surrealismo en la Poesía de Nuestra América, antologia de poesia surrealista latino-americana, organização de Floriano Martins, vários tradutores, Ediciones Andrómeda, San José, Costa Rica, 2004.
    entre outros.
  • Bibliografia crítica formada por ensaios, resenhas, reportagens e citação em obras de consulta por Afrânio Coutinho, Alfredo Bosi, José Paulo Paes, Luciana Stegagno-Picchio, entre outros.

    Fonte:
    Revista de Cultura Agulha – 2000 – 2008 Disponível em http://www.revista.agulha.nom.br/ageditores.htm

Deixe um comentário

Arquivado em Biografia, Escritor, Literatura Brasileira

Claudio Willer (Brasil e Portugal: nossa língua, nossas literaturas)

O texto a seguir é uma versão ampliada e atualizada do que foi lido por mim, seguindo-se debate, em uma mesa no Salon du Livre de Paris que teve Portugal como tema central, a 18 de março de 2000. Naquela sessão sobre lusofonia, intitulada “Je t’aime; moi non plus”, tive a companhia, também como expositores, da escritora brasileira Betty Milan (que teve a idéia do debate), e dos autores portugueses Maria Isabel Barreno e Eduardo Prado Coelho. Foi mais uma oportunidade para falar da necessidade de ampliar nosso contato com a literatura de Portugal e dos demais países de língua portuguesa (e também, reciprocamente, deles conosco), conforme o que havia dito e publicado em outras ocasiões. [CW]

Em abril de 1998, no jornal Folha de S. Paulo, Eduardo Prado Coelho comentou lacunas no conhecimento de quase todos os campos da produção artística e, em especial, da literatura, entre Brasil e Portugal. Em outubro daquele ano, no ciclo de palestras intitulado Nossa Língua – Nossa Literatura, realizado pela Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo sob minha coordenação, Alçada Batista também se manifestou, entendendo a língua, acertadamente, não como reflexo da realidade, mas como produtora da cultura. De modo enfático, declarou que, se não pensarmos a língua de Portugal, do Brasil e, hoje, de mais seis países, como sendo a mesma, então desapareceremos, culturalmente.

Esses pronunciamentos, corroborados por outros participantes daquele evento, tanto brasileiros como portugueses, não são apocalípticos. A propósito, quando, como presidente da UBE – União Brasileira de Escritores, em fevereiro de 1989, participei da coordenação do Primeiro Congresso de Escritores de Língua Portuguesa, já considerava essa iniciativa como estratégica, instrumento para ativar relações entre países de língua portuguesa. Pela mesma razão, compareci ao ato de criação do Instituto da Língua Portuguesa pelos chefes de estado dos países lusófonos, em novembro daquele ano. Em várias ocasiões, através de artigos na imprensa, pronunciei-me em favor da aproximação cultural e, nesse contexto, do Acordo Ortográfico entre os países de língua portuguesa.

A propósito desse Acordo Ortográfico, valerá a pena trazer de volta a ruidosa discussão sobre a conveniência de suprimir o caráter oficial das duas ortografias distintas? O tema é irresistível, nem que seja para lembrar que Brasil e Portugal são os únicos países do planeta que, com a mesma língua, resolveram institucionalizar umas poucas diferenças ortográficas. Se hispano-americanos houvessem seguido por esse caminho, teriam uma babel de ortografias: em cada país, o mesmo livro teria que ser refeito para adaptar-se à ortografia local. Se alemães e austríacos convertessem em escrita oficial os modos pelos quais se expressam um típico vienense e um berlinense, teriam que resolver o destino, não só, como em nosso caso, de algumas consoantes e acentos, mas das vogais, cujo valor fonético varia bastante, conforme o lugar. E o Instituto Goethe teria que desistir de trazer autores austríacos contemporâneos, ou de promover sessões sobre Rilke, Kafka e outros colossos da literatura de língua alemã. Iria cavar-se um fosso entre Thomas Mann e seus interlocutores vienenses.

Em 1991, em resposta a um artigo meu em favor do Acordo Ortográfico (no Jornal da Tarde de São Paulo), um leitor afirmou que concordava com meus argumentos, exceto pelo seguinte: o português de Portugal e do Brasil já seriam línguas diferentes. Devia ter-lhe perguntado qual dicionário utilizava para ler Fernando Pessoa.

Estou dando um exemplo extremo? Não: a existência de duas línguas, portuguesa e brasileira, tem sido sustentada por especialistas. Sua argumentação, apontando diferenças no modo de expressar-se nos dois países, não leva em conta a diferença entre língua e fala, langue e parole, entre o corpus de uma língua e a diversidade e riqueza de seus modos de uso. Claro: para o relativismo sócio-cultural, com efeitos tão devastadores em nosso ensino, com sua contribuição tão decisiva para que no Brasil tenhamos 70% de analfabetos funcionais, norma culta é imposição autoritária, pois língua é aquela usada ou praticada pelo grupo, “comunidade”, tribo urbana. O erro seria legítimo, expressão da identidade de cada um… E assim avançamos, por obra desse populismo rasteiro, na rota do desentendimento.

Releiam Mário de Andrade: não é evidente que aqueles de seus textos escritos em “brasileiro” são os mais datados, anacrônicos? Ninguém, aqui, está querendo o retorno ao purismo beletrista dos Rui Barbosa ou dos Laudelino Freire. Mas é inegável que a dinâmica dos modos coloquiais é outra; a própria mudança acelerada da sociedade contribui para seu tempo de vida mais curto. Institucionalizá-las como indícios de língua autônoma será, sempre, burocratizá-las.

Há qualquer coisa de preconceituoso em invocar modos de uso e diferenças vocabulares para justificar a insularidade do Brasil e Portugal, transformando em problema que ultrapasse os exercícios de humor onde deveria permanecer, a hilaridade brasileira diante do significado de estar em uma bicha, tomar uma bica e comer um prego em Portugal, e vice-versa. Essa estranheza diante das diferenças revela ignorância de um vocabulário também nosso, da língua que é nossa. São amostras do que ainda não conhecemos ou do que esquecemos, enquanto vamos desaprendendo a nos ver, ao deixarmos de nos traduzir uns para os outros. Uma vez alguém nos esclarecendo o significado desses vocábulos, deixam de oferecer dificuldade. Podem ensinar-nos palavras norueguesas ou gregas à vontade: isoladamente, isso não nos fará avançar no domínio desses idiomas.
* * *
Quando apresentei essas observações em Paris, em 2000, a polêmica fervia. Na véspera de nossa mesa no Salon, saíra no Le Monde um artigo de Antonio Tabucchi, secundando os ataques de Lobo Antunes a Saramago, defensor da lusofonia. O argumento de Tabucchi: unidade da língua portuguesa seria coisa de velhos salazaristas, nostálgicos do império. Representaria uma ameaça à alofonia, às línguas locais. Bobagem – em que pese todo o respeito literário que merecem Tabucchi e, especialmente, Lobo Antunes. Nós nos expressarmos em português ou “brasileiro” não altera em um milímetro a situação de nossos indígenas. Para os dialetos e crioulismos, o papiamento, ou então o portunhol e o brasiguaio sustentados por Saúl Ibargoyen e Wilson Bueno, tanto faz a língua oficial ser uma ou outra. Idem, para nosso principal dialeto (e talvez língua matricial), o galego. E, nos países nos quais efetivamente se fala mais de um idioma, é evidentemente legítimo adotar o bilingüismo ou plurilingüismo. No Paraguai, fala-se duas línguas, espanhol e guarani; na Bolívia, com toda justiça, o quéchua e o aimara foram oficializados. Mas uma coisa nada tem a ver com a outra: Cabo Verde é bilíngüe: tem língua crioula e português; para os naturais desse país, lúcidos e pragmáticos, o português deveria ser aquele de todo o mundo lusófono.

Notem bem: nada disso significa concordância plena com este acordo agora aprovado, e em implantação. Talvez tenham avançado o sinal, unificando e ao mesmo tempo modernizando. Bastava revogarem o absurdo, a dupla oficialização da mesma língua, e tomarem as diferenças como aquilo que são, meras variantes. É o que fazem os anglófonos, mais pragmáticos, menos burocráticos neste e em outros aspectos.
* * *
Para ajudar a entender a relação entre língua e difusão literária, examinei, no texto de apresentação daquele evento Nossa Língua, Nossa Literatura, o caso das literaturas espanhola e hispano-americanas do século XX. Lembrei algumas relações que se iniciaram em um modernismo influenciado pelo nicaragüense Rubén Darío. Que viajante, que personagem transnacional, passando com naturalidade da Nicarágua à Guatemala e El Salvador, ao sabor do mercado de trabalho, da conveniência política e do grau de reconhecimento de seus poemas de juventude (ah, se o mundo de hoje fosse assim, como seria melhor), para atuar no Chile e, depois de seu estágio simbolista francês, consagrar-se como modernista, interlocutor de Lugones e outros inovadores, através do trabalho em jornais de Buenos Aires. Tal cosmopolitismo foi possível por haver uma comunidade de autores da mesma língua, acima das nacionalidades.

Um capítulo decisivo dessas relações transnacionais foi a consagração de García Lorca em Buenos Aires, em 1932, não evitando, porém, que Jorge Luis Borges o antagonizasse e chamasse de “andaluz profissional”. Borges, por sua vez, freqüentava grupos literários argentinos de vanguarda, influenciados por Darío. Na ocasião, Lorca acolhia Neruda, que reconheceria a importância desse encontro em sua Ode a García Lorca. Neruda, por sua vez, hostilizava César Vallejo, acusando ainda Vicente Huidobro de contribuir para essa ruptura. No início da guerra civil espanhola, emergia para a vida literária Octavio Paz, em um momento em que se confundiam criação e resistência antifascista. Por conta de divergências na organização de uma antologia de autores hispano-americanos, Paz e Neruda acabariam pegando-se em um banquete (o registro desse e outros episódios, em Sombras de Obras de Paz).

Uma geração de espanhóis influenciada por um nicaragüense; o poeta de maior prestígio dessa geração hostilizado por um argentino, o que não o impediu de fascinar a um chileno rompido com um peruano, em um ambiente literário que logo receberia a um mexicano. Tais episódios podem parecer um registro menor, da petite histoire. Mas a série de aproximações e afastamentos entre poetas de diferentes países, porém da mesma língua, do começo do século XX até hoje, constitui uma rede de afinidades e antagonismos, atração e distanciamento, de evidente relevância. Decisiva para que Octavio Paz, a uma dada altura de Os Filhos do Barro, pudesse declarar: Meu ponto de vista é parcial: é o ponto de vista de um poeta hispano-americano. Note-se: poeta hispano-americano, e não apenas mexicano.

E nem falei dos prosadores, e os modos de escrever em língua castelhana que devem muito ao guatemalteco Astúrias, a cubanos, a pelo menos um colombiano, a argentinos, a peruanos, a… Ampliaria o inventário de relações simpáticas e idiossincráticas, da qual não escapou nenhum país de língua espanhola.

Há um poema de Octavio Paz, Carta a León Felipe, publicado em Ladera Este, que serve, a meu ver, como símbolo desses relacionamentos cosmopolitas entre literaturas e escritores. Nele, o mexicano então residente na Índia escreve uma carta sobre um desencontro que foi um encontro, um poema sobre a poesia, para o espanhol exilado no México. É o diálogo através de dois continentes, e entre duas gerações, pois Felipe foi contemporâneo e amigo de Lorca. Cidadãos do mundo, ambos; integrantes de um corpus literário no qual, de tantos modos, se combinam o universal e o regional. O trânsito de textos e dos seus autores ajudou a converter cidades em metrópoles literárias: Madri, Cidade do México, Buenos Aires, por sua vez em contato com outros pólos mundiais, Paris, Londres ou Nova Iorque. Emblema da mesma convivência de literaturas e autores é, também, uma das fotos que ilustram o livro de entrevistas de Octavio Paz, Solo a dos voces, que contém observações sobre a importância de Borges. Nela, lado a lado, o próprio Paz e Julio Cortázar: o argentino que se instalou em Paris, o mexicano que já havia estado na Paris dos surrealistas, com tanto em comum e outro tanto de divergência, fotografados em 1967 na Índia.

Seria incorreto associar tais relações apenas a escritores partilharem a mesma língua. A afirmação contrária, ou recíproca, de que a comunidade lingüística hispano-americana se consolidou graças ao trânsito entre literaturas e autores, também é verdadeira. As diásporas desde o início do século, passando pela fuga de latino-americanos frente a tantos caudilhos, daquela de espanhóis da ditadura de Franco, até os terrores argentino, uruguaio e chileno (entre outros) dos anos de 1970-80, também foram decisivas para o diálogo literário e interlocução pessoal. Obrigados ao cosmopolitismo, como exilados e auto-exilados, como diplomatas, pesquisadores, ou alternadamente em todas essas condições, instalaram-se nos países de língua espanhola e em boa parte do restante do mundo.

Por essas razões, uma vez saído do anonimato, tornando-se literariamente conhecido, o espanhol, peruano, boliviano, equatoriano, nicaragüense, cubano, argentino, chileno, etc, dirige-se à comunidade de língua castelhana. O boom hispano-americano de 1970 em diante teve, como ponto de partida, esse grande mercado constituído por leitores em sua própria língua. Começaram internacionalizados, com uma circulação de livros que ultrapassava fronteiras nacionais.

O mesmo vale para alemães e austríacos, ingleses e norte-americanos, franceses e francófonos. Podia falar da quantidade de americanos que, desde Henry James, passando por Pound e Eliot, beberam na fonte britânica. Da língua alemã, mencionaria Rilke, para mostrar que a língua é maior que a nacionalidade. Contudo, é a língua francesa que nos dá os melhores exemplos, pelo modo como autores das ex-colônias, inclusive os expoentes francófonos da negritude, Senghor, Césaire, Depestre, Saint-Aude, Glissant, se incorporaram a seu corpus, assim podendo ser universais sem perder a particularidade.
* * *
Essa modalidade de relação foi se enfraquecendo ao longo do século XX, entre Brasil e Portugal. Houve a influência da narrativa realista brasileira dos anos 30, notadamente de Graciliano Ramos, sobre um realismo literário português. E o impacto da descoberta de Fernando Pessoa em gerações de poetas brasileiros, graças, reconheçamos, à contribuição de intelectuais portugueses que ali se instalaram durante a vigência do salazarismo, os João Gaspar Simões, Jorge de Senna, Adolfo Casais Monteiro, João Alves das Neves e outros. Ninguém negará que o Brasil lê, hoje, poesia portuguesa da primeira metade do século XX: Pessoa, Sá Carneiro, Florbela Espanca. Prosadores portugueses, não apenas Saramago, mas Cardoso Pires e Lobo Antunes, foram publicados com êxito no Brasil. E, mais recentemente, poetas como Herberto Helder.

Mas, coligindo nossos exemplos de aproximação e antagonismo, ainda ficamos muito aquém do que houve entre hispânicos desse século. Talvez o formato bipolar da relação Brasil-Portugal, contrastando com a multipolaridade hispânica, seja determinante desse quadro. E, ao traçá-lo, jamais fugirei à responsabilidade especificamente brasileira. Nosso modernismo, através de Mário de Andrade e outros defensores da incorporação de uma fala coloquial à criação literária, acabou identificando língua, nacionalidade e cultura autóctone. Em alguns momentos, uma língua brasileira foi apresentada como um anti-português de Portugal, desconhecendo a renovação que era empreendida naquele país, movida pela mesma influência futurista e vanguardista.

Pela mesma razão, não eximirei ninguém de omissões brasileiras na política cultural, mencionando oportunidades recentes de aproximação desperdiçadas. Nunca deveria ter sido interrompida a implantação do Instituto da Língua Portuguesa. Presidindo a União Brasileira de Escritores, insisti, em todas as ocasiões em que isso coube, na retomada desse projeto. E não deviam ter obliterado Portugal em 98, no Salon du Livre de Paris, cujo tema central foi o Brasil; ainda mais em um ano de eventos alusivos a navegações e descobrimentos.

Seria ingênuo querer que um acordo ortográfico e mais alguns encontros de escritores venham, por si só, a criar o tipo de comunidade linguístico-literária das nações de língua castelhana. E utópico esperar que, de uma hora para outra, apareça um mercado de livros tão forte. Resultados no plano editorial passarão por mudanças na política educacional. A propósito, em meu tempo Machado e Eça, Alencar e Herculano chegavam juntos aos bancos escolares. Hoje, estuda-se “literatura brasileira” como algo distante de Portugal. Isso, no Brasil; leitores de língua portuguesa em outros lugares, sabe-se o que acontece – em Budapeste, biblioteca de literatura de língua portuguesa provavelmente continuará sendo uma biblioteca de literatura portuguesa. Em L’Aquila, Itália, conheci uma exceção: um dedicado professor que dava literatura brasileira… Nem preciso dizer o quanto a inércia de nossas delegações culturais, com adidos que, na maior parte dos casos, nem estão aí, contribui para esse lamentável estado de coisas.

Reconheço, finalmente, que muito já foi feito através das entidades e instituições culturais, em favor da circulação do livro e da literatura no âmbito da lusofonia. O Centro de Estudos Portugueses da Universidade de São Paulo, criado por Antônio Soares Amora, ampliou, e muito, sua atividade. Há mais encontros universitários dedicados à lusofonia; e a revista Crioula, da USP, especializada. Houve as publicações de autores africanos lusófonos, a boa circulação dos Mia Couto e Agualusa, estimuladas pelo trabalho pioneiro da recém-falecida Maria Aparecida Santilli. As pioneiras antologias (lá e cá) de Carlos Nejar. Arnaldo Saraiva promoveu a publicação de autores brasileiros, como Álvaro Alves de Faria, e de antologias. Nicolau Saião publica brasileiros em revistas e coletâneas.

A internet veio para mudar, no sentido de melhorar, esse estado de coisas: no TriploV de Maria Estela Guedes, dialogam brasileiros e portugueses. E também aqui, em Agulha. Herberto Helder saiu, desde 2000, por três editoras distintas (Iluminuras, Azougue, Girafa). Novas edições de Lobo Antunes, Lídia Jorge, Cardoso Pires e outros foram bem recebidas. Mia Couto, o público letrado já sabe quem é. O mais importante, e merecedor, seguramente, de maior atenção: uma coleção como a Ponte Velha, da Escrituras Editora, agora sob coordenação de Floriano Martins, com a publicação de autores do calibre de Cruzeiro Seixas, Rosa Alice Branco, Isabel Meyrelles, António Barahona, João Barrento, Ana Hatherly, Armando Silva Carvalho, Luiz Pacheco. Agora em 2008 serão publicados, dentre outros, Luiza Neto Jorge, Fernando Echevarría, Luiz Carlos Patraquim e José Luis Tavares – estes dois últimos de países afro-portugueses (ampliando assim o universo da coleção). Essa coleção tem apoio da DGLB: cadê a recíproca brasileira?

A todos esses trabalhadores da cultura, os que vêm contribuindo para a consolidação da lusofonia, minhas homenagens. Pessoas são barradas em guichês de aeroportos. Mas que a língua e a literatura continuem a circular, cada vez mais livremente.

Fonte:
Revista de Cultura Agulha – n. 62 – março/abril de 2008
Disponível em http://www.revista.agulha.nom.br/ag62willer.htm
Figuras: do artista colombiano Alfredo Vivero

As figuras não foram colocadas exatamente como no texto original, propositadamente.

Deixe um comentário

Arquivado em Artigos - Estudos, O Escritor com a Palavra

1º Concurso Trova Une Versos (Resultado Nacional e Estadual)

Resultado Nacional

Tema Sonho

Trovas: 135
Estados / Paises Participantes:
(SP – 20) (SC – 02) (RJ – 09)

(PR – 09) (RS – 06) (PE – 04)

(PA – 01) (CE – 03) (MG – 03)
(Portugal – 09) (Argentina – 01) (USA – 01)

(França – 02)

Trova Ouro – 1º Lugar
( Miguel Russowsky – SC)
A primavera, suponho,
que tendo sonhos de amor,
faz, sim,com que cada sonho
nasça em forma de uma flor.

Trova Prata – 2º Lugar
(Regina Célia de Andrade – RJ)
Aquele que firme avança,
sem receio de fracassos,
mantém consigo a esperança
levando o sonho nos braços.

Trova Bronze – 3º Lugar
(Renata Paccola – SP)
Não há nada que retalhe
os poemas que componho,
pois cada verso é um detalhe
do tamanho do meu sonho!

Menção Honrosa

1ª menção honrosa
(João Paulo Ouverney – SP)
Poeta, és velho coreto
onde, na noite estrelada,
teus sonhos fazem dueto
com a voz da madrugada…

2ª menção honrosa
(Alba Christina Campos Netto – SP)
Morre o sonho, e as nossas vidas,
antes, caminhos iguais,
são duas trilhas perdidas
que não se cruzam jamais.

3ª menção honrosa
( Marina Gomes de Souza Valente – SP)
Pelas ruas, no passado,
nos realejos risonhos,
o periquito amestrado
passava vendendo sonhos.
——————————-
Menção Especial

1ª menção especial
(Marisa Vieira Olivaes – RS)
Se o mar da vida, tristonho,
faz meu sonho naufragar,
iço as velas de outro sonho
e outra vez volto p’ro mar!

2ª menção especial
(Renato Alves – RJ)
O sonho mais belo e ardente
da minha infância querida
virou cinzas, de repente,
nas fogueiras desta vida!

3ª menção especial
(Milton Sebastião Souza – RS)
Sonhar é o jeito mais certo
de dar um passo gigante:
o sonho traz para perto
o que parece distante.

4ª menção especial
(Domingos Freire Cardoso – PORTUGAL)
Trago um sonho pequenino
Guardado dentro do peito
Que é morar sempre um menino
Neste corpo de homem feito…

Resultado Estadual (RN)

Tema Lenda

38 Trovas Participantes

Trova Ouro – 1º Lugar:
(Ieda Lima – Caicó/RN)
O bilro, velho instrumento,
que entrelaçou tantas rendas,
tece, agora, num momento,
as rimas de minhas lendas.

Trova Prata – 2º Lugar:
(José Lucas de Barros – Caicó/RN)
Mais do que fadas e mitos,
num cernário encantador,
tenho sonhos tão bonitos,
que viram lendas de amor!

Trova Bronze – 3º Lugar
(José Lucas de Barros – Caicó/RN)
Juntei os sonhos dispersos
no chão da realidade
e pus na lenda dos versos
um poema de verdade.
________________
Menções Honrosas

1ª Menção Honrosa:
(Ademar Macedo – Natal/RN)
Arquivei na minha mente
lendas que trazem saudades,
e eu as vivo, simplesmente,
como se fossem verdades.

2ª Menção Honrosa:
(Mara Melinni de Araújo Garcia – Caicó/RN)
Tempo que reparte a vida,
faz o meu destino assim:
Vida é lenda dividida…
Parte é começo, outra é fim!

3ª Menção Honrosa
(Fabiano de Cristo Magalhães Wanderley – Natal/RN)
Confirmando as suas lendas,
por capricho, o velho mar,
cobre as areias de rendas,
quando a praia, vem beijar…
______________________
Menções Especiais

1º Menção Especial:
(Francisco Neves Macedo – Natal/RN)
Eu vou trilhando esta senda
tão difícil da poesia,
e nela quero ser lenda,
eis meu “sonho fantasia”!

2ª Menção Especial:
(Joamir Medeiros – Natal/RN)
Mesmo vencendo a contenda,
e os medos da tenra idade,
o lobisomem é a lenda
que vive em minha saudade!

3ªMenção Especial
(Paulo Roberto da Silva – Caicó/RN)
Há na mente da criança
um ideal tão fecundo,
que toda desesperança
torna-se lenda no mundo.

4ªmenção Especial
(João Medeiros – Caicó/RN)
De formas tão diferentes,
entre ritos e oferendas…
do imaginário das gentes
surgiram mitos e lendas!

Fonte:
Colaboração por e-mail de
Helio Alexandre (Natal/RN)

Deixe um comentário

Arquivado em Concursos, Resultados, Trovas

Izo Goldman (Trovas de quem Ama a Trova)

Izo Goldman, um dos maiores talentos trovadorescos da atualidade, no Brasil, e a maior “enciclopédia ambulante” sobre o assunto, lançou, com grande repercussão, em São Paulo, no ano passado, o seu livro “TROVAS DE QUEM AMA A TROVA”.

São 311 trovas, incluindo prólogo, etc., de um verdadeiro gênio da arte de fazer poesia em quatro versos de sete sílabas.

Eis algumas delas:
Se a gente fosse dar crédito
ao que diz a maioria,
só de “autor de livro inédito”
tinha uns mil na Academia!…

No seu biquini apertado,
Maria me deixa mudo,
pois nunca vi “tanto nada”
cobrindo, tão pouco …”tudo”…

Marcando suas fronteiras
as bandeiras eram trapos,
e, os trapos eram bandeiras,
na Querência dos Farrapos!

Quem morreu naquela Cruz,
foi o Corpo e nada mais:
ninguém apaga uma Luz
crucificando ideais!

Quando pergunta o burrinho,
diz a mula envergonhada:
– “Tu nasceste, meu filhinho,
por causa de uma…burrada!…”

Eu sou príncipe tristonho
porque, na história real,
não há, na escada do sonho,
sapatinhos de cristal!…

Na briga que o meu cabelo,
e a careca estão travando
lamento ter que dizê-lo,
a careca está ganhando…

Com seu valor aumentado,
saudade é a restituição
do que já nos foi cobrado
pelos sonhos e a ilusão…

– ” O trabalho é que enobrece!”
Dizem todos ao Raul.
E ele responde: – “Acontece,
que eu detesto sangue azul!”

A saudade não me poupa,
desenhando, fio a fio,
o perfil da tua roupa
no guarda-roupa vazio…

O teu gesto de ternura,
na minha vida sofrida,
foi um copo de água pura
matando a sede da vida! …

Uma devota a rezar
é o que a rendeira parece,
faz da almofada um altar,
de cada renda, uma prece!

Cara cheia…Perna bamba,
ele mesmo se conforta,
olha a rua e diz: – “Caramba!”
Nunca vi rua mais torta!…

Ficou rico o Zé Maria
na seca do Juazeiro,
vendendo “fotografia
de chuva”…por “dois cruzeiro”…

Vendo alguém varrer o chão,
ele deita de comprido,
e, dá logo a explicação:
– “Quero ser…doido varrido…”

“Casamento… – alguém já disse –
é chegar à encruzilhada
onde acaba a criancice
e começa…a criançada…”

Todo “barbeiro” sustenta
que a “batida” foi assim:
-“Veio um poste a mais de oitenta,
na contra-mão, contra mim!…”

Sai do museu, braço dado
com sua sogra, o Sinfrônio:
e o guarda grita, alarmado:
– “Tão roubando o patrimônio!”

O pai da moça, que é mau,
Chega em casa e acaba o “baile”…
É que o Zé, “cara de pau”,
tava namorando em…”braile”!!!

-“Vem aí um furacão!!!”,
avisa a rádio, – “Cuidado!!!”
e o genro por …precaução…
põe a sogra…no telhado!!!

Tomou Viagra…Fracasso…
Foi cobrar de quem vendeu:
– “E agora, como é que eu faço???”
– “Enterra! Que já morreu!!!”

.
Fontes:
GOLDMAN, Izo. Trovas de quem ama a trova. São Paulo: BMG, 2007.
http://www.tribunadonorte.net/edicoesanteriores/030807/cultura.htm
http://trovasecia.blogspot.com/ (capa do livro)

Deixe um comentário

Arquivado em Estante de Livros e Revistas, Trovas

Trilussa (Coisas da Alta Sociedade)

Uma das fábulas mais traduzidas, de Trilussa, é a que se refere ao porco desejoso de abandonar a vida do chiqueiro e que tentou adaptar-se ao luxo nos salões da alta sociedade. A melhor dessas traduções é a da lavra de Paulo Duarte:

O PORCO

Um velho porco disse, um dia, à vaca:
– À minha vida suja vou dar fim.
Para isso, é só meter-me na casaca,
E a cartola, a luneta e o borzeguim

farão o resto. Vou para a cidade,
onde me insinuarei no alto escol,
em meio à nata e a flor da sociedade,
que isto aqui não vale um caracol.

Com tal coisa metida na cabeça,
se bem disse, melhor o porco fez.
Ao chá dançante foi, de uma condessa,
onde bebeu, dançou, falou francês.

Metendo-se no meio da alta roda,
e com ela gozando o vinho e o amor,
vários dias o porco andou na moda,
parecendo um autêntico senhor.

Mas…não se sabe que reviravolta
Houve, que regressou dias depois.
– Como? – pergunta a vaca – já de volta?
Outra vez entre porcos e entre bois?

Não se deu bem com a aristocracia?
O que vi, ninguém pode calcular,
respondeu, – pois vi tanta porcaria
que não pude por lá me acostumar.

====================================================
Trilussa (pseudônimo do fabulista romano Carlos Alberto Salustri) (Roma, 26 de outubro de 1871 — 21 de dezembro de 1950) foi muito conhecido e aplaudido em todo o mundo, principalmente no Brasil, na década de 30 do século passado. Sua ironia mordaz não poupava as vaidades e as pretensões humanas do seu tempo, evidentes e reconhecíveis sob a máscara de bichos humanos e selváticos. Advogados, magistrados, diplomatas, religiosos, políticos, governantes e governados – eram o alvo certeiro de suas sátiras bem imaginosas, escritas em dialeto romanesco, uma espécie de gíria da capital italiana.
=====================================================
Fonte:
SOUSA, Sávio Soares de. Novas fábulas de Trilussa. Seção Nozes & Vozes. in Revista Bali – ano XIX – nr 201 – novembro de 2007 – Itaocara, RJ – p.3 e 5

Deixe um comentário

Arquivado em Fabulas, O Escritor com a Palavra

Paraná em Luto

Morre presidente da Academia Paranaense
de Letras, Odilon Túlio Vargas.

O ex-deputado federal, ex-secretário de Justiça do Paraná, procurador aposentado do Estado e presidente da Academia Paranaense de Letras, Túlio Vargas, de 78 anos, morreu nesta madrugada vítima de fibrose pulmonar, no Hospital Nossa Senhora das Graças, em Curitiba, onde estava internado desde sábado.

Lauro Grein Filho, presidente em exercício da Academia Paranaense de Letras, e amigo pessoal de Túlio Vargas disse que só tem elogios à fazer. “Ele era uma pessoa muito autêntica, muito correta, muito fiel. Como político teve um comportamento educado, além de ser um amigo dileto por muitos anos“, salientou Grein.

Luto oficial

O governador Roberto Requião decretou luto oficial de três dias pela morte do presidente da Academia Paranaense de Letras, Túlio Vargas. “Perco um bom amigo e o Paraná perde um paranaense ilustre, um intelectual competente, um homem sério e correto que deu grande contribuição ao Paraná contemporâneo”, disse Requião, pela assessoria de imprensa.

Vargas deixa a mulher Lílian e dois filhos. O corpo será sepultado hoje no Cemitério Parque Iguaçu.

Fontes:
http://www.atarde.com.br/
Gazeta do Povo – 27 de março de 2008.

Deixe um comentário

Arquivado em Em Tempo, Nota de Falecimento

Túlio Vargas (1929 – 2008)

Odilon Túlio Vargas nasceu em Pirai do Sul, Paraná, no dia 28 de junho de 1929. Túlio Vargas era filho do deputado Rivadavia Vargas e de Dalila Rolim Vargas, é bisneto do célebre sertanista, revolucionário e político Telêmaco Borba. Frequentou escolas do ensino fundamental em cidades do interior de São Paulo e graduou-se pela Faculdade de Direito da Universidade Federal do Paraná (UFPR) em 1954. Depois de formado mudou-se para Maringá, Noroeste do Paraná, onde se elegeu presidente da Associação dos Advogados e fundou o partido Democrata Cristão. Foi o partido pelo qual se elegeu deputado estadual, em 1961, e se reelegeu na legislatura seguinte.

Advogado e escritor, Túlio Vargas foi deputado estadual, federal e secretário de estado. Em 1970 elegeu-se para Câmara dos Deputados, em Brasília (DF). Em 1974 foi nomeado secretário de estado de Justiça, no governo Canet Júnior, e posteriormente nos governos de Ney Braga e Hosken de Novais. Ainda na década de 70, em 1978, foi o candidato mais votado na eleição para o Senado Federal.

Ainda como político, Túlio Vargas também exerceu a presidência do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul e foi nomeado procurador-geral do estado junto ao Tribunal de Contas do Paraná, cargo em que se aposentou.

Locutor Esportivo
Tulio começou a gostar de rádio aos quinze anos de idade, quando se instalou uma emissora em Itararé, São Paulo, onde ele morava com a sua família. Aquela novidade deixou o jovem empolgado e ele começou a sonhar em ser um locutor de rádio.

Foi, no entanto, em Itapeva, uma cidade próxima onde passou a estudar, que Túlio Vargas teve suas primeiras experiências como profissional do microfone, trabalhando como locutor num serviço de alto-falante. Os serviços de alto-falantes eram muito comuns nos anos 40 e neles começaram suas carreiras outros radialistas de sucesso, entre eles Haroldo de Andrade, Vicente Mickosz, Nicolau Nader e Herrera Filho.

Vindo para Curitiba, Túlio assumiu a chefia de esportes da Rádio Clube Paranaense em abril de 1947, quando Epaminondas Santos era o proprietário da emissora e Jacinto Cunha era o Gerente. Foram seus colegas de atividade nos programas esportivos Castro Pereira, Machado Neto, Arthur de Souza, Eolo César de Oliveira, entre outros. Naquela época a Rádio Clube Paranaense apresentava seus programas de esporte apenas nos estúdios. Túlio Vargas criou uma série de inovações, lançou as transmissões externas e entrevistas nos mais variados locais, inaugurando uma nova fase na radiofonia do Paraná. Valério Hoerner Júnior, em seu livro “RÁDIO CLUBE PARANAENSE – A PIONEIRA DO PARANÁ”, referindo-se a Túlio Vargas escreve:
O primeiro jogo por ele narrado foi Coritiba X Botafogo,no Estádio Belfort Duarte, hoje Couto Pereira. Nessa época começou a ser conhecido como “o mais novo locutor esportivo“.

Ainda no livro de Valério encontramos:
Como já foi dito, seu programa principal foi “Bola na Trave”, em que promovia entrevistas ao vivo, especialmente geradas do Bar Stuart, ainda na esquina da rua Voluntários da Pátria com a avenida Luiz Xavier, na Praça Osório.

Túlio criou, também, um programa sindical e político, o que demonstrava, já naquela época, a sua tendência para a carreira como homem público, na qual foi brilhante.

Em 1947, recebendo tentadora proposta da recém-fundada Rádio Guairacá (hoje Iguaçu), que andava explodindo no Ibope da época, Túlio deixou a Bedois e passou a atuar na nova emissora. Na Guairacá, participou das transmissões esportivas, trabalhando com Rocha Braga, João Féder, e outros, numa fase áurea da “voz nativa da terra dos pinheirais”.

Túlio Vargas, um dos pioneiros das transmissões esportivas do Rádio paranaense, foi um grande inovador. No final dos anos 40, ele introduziu na Bedois as transmissões externas de eventos esportivos em caráter contínuo. Antes dele, essas transmissões eram feitas eventualmente.

Certa vez, no começo da sua carreira, num daqueles improvisos dos quais é farta a atuação dos locutores esportivos, ele foi dar uma notícia sobre os jogadores campeões do Rio de Janeiro. Então, por distração, quando ele foi dizer CAMPEÕES CARIOCAS, o que saiu foi CAMPEÕES CARECAS. Causou surpresa, pois naquele tempo os jogadores de futebol eram cabeludos, ainda não surgira a moda de rapar a cabeça.

Durante muito tempo o Túlio Vargas teve que ouvir a gozação de seus familiares e amigos.

Vida cultural

Tulio Vargas começou a interessar-se pela pesquisa histórica há 10 anos, ao escrever uma biografia de seu bisavô materno, Telêmaco (Augusto Enéas Morocine) Borba (1840-1918), que mereceria o livro “O Indomável Republicano”, transformado em calamitosa opereta e cujos prejuízos ainda se fazem sentir. Depois, Tulio pesquisou a vida do Barão do Serro Azul, Ildefonso Pereira Correia (1848-1894), cujo livro biográfico lançou antes de trocar a confortável cadeira de deputado federal pela incômoda Secretaria da Justiça.

Na área de história publicou 26 livros ao longo de sua vida, além de “A última viagem do Barão do Cerro Azul” (transformado no filme “O Preço do Paz”), “O Conselheiro Zacarias”, e “História Biográfica da República no Paraná”, entre outros.

Para escrever seus livros Tulio fez demoradas pesquisas em jornais e documentos da época, procurando levantar registros que permanecem inéditos.

Teve vários artigos publicados no jornal Gazeta do Povo e desde 1994, era presidente da Academia Paranaense de Letras, mas estava afastado, devido à fibrose pulmonar, doença com a qual conviveu por cerca de dois anos.

Em 1974 foi eleito para a cadeira No. 23 da Academia Paranaense de Letras da qual foi eleito presidente em 1994.

Fontes:
http://www.millarch.org/
http://www.ulustosa.com/

Deixe um comentário

Arquivado em Biografia, Escritor, Paraná

Túlio Vargas (alguns livros)

O Conselheiro Zacarias: (1815 – 1877

Jamais deixou o nobre Conselheiro
de utilizar seu mágico talento,
ao defender com garra e prazenteiro
tudo que fosse justo cem por cento.

Se alguém quisesse ser seu companheiro,
indispensável ter discernimento
a distinguir do falso o verdadeiro,
fosse qual fosse a causa, ou o evento.

O timoneiro e magistral Visconde
de São Lourenço enalteceu-lhe a fama
e frente a Cotegipe brada e exclama:

As águias que criei voam por onde
o turvo sol dos néscios mal se esconde
e a luz de Zacarias se derrama.

A Ùltima Viagem do Barão do Serro Azul

Última Viagem do Barão do Serro Azul, A Inspirado neste livro, o produtor Maurício Appel levou para as telas dos cinemas, sob o título de “O Preço da Paz”, a tragédia do Barão do Serro Azul. Libelo contra a violência, a intolerância e a perfídia, o longa-metragem recompõe a imagem fascinante do Barão em meio ao tumulto das paixões que sacudiram aqueles tempos revolucionários. Premiado no Festival de Cinema de Gramado(RS) nas categorias Júri Popular, Produção de Arte e Montagem Técnica, o filme revelou para o Brasil os grandes avanços do Paraná nesse campo, tanto na qualidade técnica ou no primoroso roteiro, quanto na temática instigante e atraente. Serro Azul foi sempre uma figura singular. A desventura aumentou-lhe aquela auréola de encantamento e brilho, que tem causado impacto em sucessivas gerações. Mártir ou herói, tanto o livro, quanto o filme, permitem uma reflexão ou uma revisão sobre o papel que ele desempenhou nessa quase lendária história de pica-paus e maragatos. Então será possível entender as causas determinantes desse drama épico que lhe arrebatou a vida.

Laertes Munhoz: o Mestre Sublime
“Ninguém melhor que o autor, advogado, homem público e historiador de escol, poderia escrever com naturalidade, precisão, beleza e sentimento sobre o grande tribuno, jurista de imensa erudição, que foi Laertes Munhoz. O retrato, que saiu da sua pena, é de assinalada profundidade psicológica. Das páginas do livro, escritas com muita afeição, surgem bem nítidos os traços inconfundíveis de quem foi orador exemplar, conferencista e advogado militante. Ouso apontar entre as circunstâncias a influir na sua decisão de escrever essa biografia, o fato de ter ouvido de primeira mão o testemunho de seu pai, deputado Rivadávia Vargas, também outro homem público de exemplar conduta parlamentar, correligionário e contemporâneo do biografado.”

.
Fonte:

Deixe um comentário

Arquivado em Estante de Livros e Revistas

Vânia Moreira Diniz

Vânia Moreira Diniz é natural do Rio de Janeiro (RJ) – 21/10.
Residente e domiciliada na cidade de Brasília-DF Escritora, Humanista e Pesquisadora, Fundou o Centro de Treinamento de Línguas em Brasília e dirigiu-o durante 10 anos. Formada em Letras com pós graduação em Educação. Palestrante nas áreas de educação, humanas e literária Colaboradora da Revista “Mirante” em Santos e “Estalo” em Belo-Horizonte

Orientadora de teses e monografias. Autora de diversas obras,

Co-autora do livro Manual da Saúde Física e Mental do Servidor Público com o tema DROGAS: Pesquisa e Contextualização.
Autora dos e-books pela e-B Maytê.
Participante de 9 antologias.
Participante da Equipe Fixa de Blocos online e colaboradora em mais de 10 sites.
Co editora da Revista virtual Poética Social.
Promotora de sites de literatura.
Co-fundadora e Co-editora do jornal/ecos- http://www.jornalecos.net.
Co-fundadora e Co-editora da Revista Honoris Causa.

Fonte:
http://sorocult.com/el/colunas.htm

Deixe um comentário

Arquivado em Biografia, Literatura Brasileira, Sorocaba

Vânia Moreira Diniz (O Sonho Inesperado)

Ele estava ali a dois passos.Não poderia mais fazer mal. Eu estava gloriosamente vigorosa, em meus conceitos, corajosamente defendendo tudo que um dia pequenina, não pudera fazer. Ele estava alquebrado pela idade, pela consciência a atormentá-lo, pela solidão em que o deixara seus amigos e parentes. Seus olhos lacrimejavam cinzentos, os mesmos olhos que me apavoraram um dia, as mãos que me machucaram, o rosto que me fizera dar gritos de horror.

“Tudo era denso naquele lugar, não existiam outras pessoas, mesmo assim eu não sentia medo. Não sentia…O que conseguia divisar era uma luz e uma faixa colorida que me separava de qualquer violência. O céu estava fantasticamente azul, um lago manso e calmo, a superfície macia, sem atritos, meus pés pela primeira vez descalços caminhavam por um chão aveludado e perfeito.

“Meus olhos avistavam beleza em todas as suas formas e um pequeno palco centralizava o ambiente infinito. Com suavidade eu dançava em movimentos cadenciados e ligeiros, sentindo um aroma embriagadoramente delicioso.

“As paredes de cor suave me convidavam a uma paz harmoniosa, as flores vermelhas e amarelas, viçosas e frescas. Os frutos com o sabor delicioso jamais experimentado.

“Circunvagueei o olhar por tudo que se me apresentava , não acreditando no que via, sensibilizada de uma forma desconhecida.

“E quando olhei novamente o vi, alquebrado, abatido , debilitado tanto exterior como interiormente. E retrocedi, há muitos anos passados, eu tão pequenina, ele tão forte e cruel em seus instintos os mais descontrolados possíveis. O horror que transbordava em meu coração, a sensação de repulsa a me dominar e os gritos que ele abafava.

“Vendo-o um trapo humano senti uma pena desmedida do meu algoz , achando que nenhum ser humano merecia ficar no estado que ele se encontrava. Como se a dignidade humana, a coisa mais substancial da vida tivesse fugido completamente dele e marcado profundamente sua alma , transparecendo no físico devastado.

“Sempre que pensava nele uma náusea me dilacerava mas jamais desejei presenciar cena tão macabra e destruidora.

“Senti o contraste da minha vida, das alegrias que se apresentavam, da ternura que contornava o dia-a-dia alvissareiro que se impunha todas as manhãs, das tristezas passageiras mas que faziam parte do contexto do viver.

“E compreendi porque tinha sobrevivido daquele dia remoto da minha infância.Entendi que acima de tudo havia o sentimento verdadeiro que se impõe acima de qualquer momento de desgraça ou dor.

“E quando chegava a essa conclusão penalizada pela miséria moral, maldade, fria indiferença, vulgaridade ou violência, abri os olhos e entorpecida verifiquei que acordava de um sonho que me mostrara o subconsciente a concordar com o que eu sempre pensara: que o perdão é a mais bela forma de uma consciência tranqüilizadora.

“Senti-me intacta a submergir em minha própria alma agradecendo a força que tirei dela….

Fonte:
http://sorocult.com/el/colunas.htm

Deixe um comentário

Arquivado em Cronicas - Contos, Magia das Palavras, O Escritor com a Palavra, Sorocaba

Vânia Moreira Diniz (Dia da Poesia)

Dia 14 de março, aniversário de nascimento do nosso grande poeta baiano Castro Alves e em homenagem a ele é comemorado o “Dia Nacional da poesia” e dia 21 festejamos o “Dia Mundial da Poesia”.

Nestas datas comemoramos a poesia em todos os níveis. Aquela que sai da pena dos grandes ou desconhecidos, reflete a beleza do mar, o canto dos pássaros, os espaços luminosos ou a escuridão lírica, onde os namorados fazem suas juras de amor, nas noites enluaradas em que se canta a paixão e até nos momentos lúgubres em que a alma se obscurece e subjetivamente pede socorro e anseia por ternura.

O dia da Poesia retrata a criatura, com sensações, sorrisos, meiguice, o olhar em contemplação ou o sentimento abstratamente real de quem ama. Por isso é uma data especial, em que não há exclusividade nem influência do sucesso ou fama, mas que penetra na alma universal do mais desconhecido ser humano.

Nele a natureza transcende qualquer idéia descritiva para se alojar na beleza, encantamento, fascínio que domina o universo, em suas potencialidades intrínsecas, no infinito de suas revelações e não se refere à criatura somente, mas ao planeta no sentido mais abrangente.

O dia da poesia se manifesta na criança que nasce sofrendo o oxigênio que o inunda, na simplicidade de alguém emanando eflúvios de bondade espontânea, nas crianças à procura do alimento, nos pais chorando a tristeza de não poderem resguardá-lo, na simplicidade dos gestos, ternura dos olhares, reflexos do sol aquecendo o dia ainda frio, na solicitude dos que estendem a mão universalmente e no beijo, máxima expressão de afeto e de carinho.

Nele a bondade é seu maior atributo, generosidade que chega de mansinho sem que faça ruído, solidariedade que se manifesta no aconchego amigo, vaidade que é capaz de apartar seus próprios interesses e olvidar a presença do ego exigente para se doar em transe na presença do ser humano mais próximo.

A esperança se faz realidade, o dia explode em claridade ofuscante, o horizonte chamuscado de cores e projetados pela sombra amarelada espera passos cada vez mais céleres na busca do sonhos ali abrigados e a estrada amacia os pés que a percorrem, saltitantes e ansiosos.

O dia da Poesia é único e encontra os liames da razão que ordena o minuto de paz, contorna a realidade e absorve o lirismo para que seja divulgado em letras de harmonia a todos que desejam dele se aproximar.

Nele a terra gira impondo química e sentimento enquanto o poeta compõe o que a inspiração sugere radiante em cada momento de suspense ou nos instantes que não se repetirão com a mesma força e realidade. Nele a poesia lidera onipotente e somos instrumentos, expectadores apreciando a força do mundo que naquele momento só poesia infunde.

O dia da Poesia é a conscientização da formosura, vida e alegria, das flores multicores e dos movimentos inconscientes da natureza, dos embalos inesperados, do amor surgindo, da amizade reiterando e das sensações que transmitem a sua origem.

Mas verdadeiramente não há dia específico para a poesia, porque ela existe independente de tempo e hora ou data, constantemente em todas as situações. Dias de poesia são consecutivos, plenos, absorventes e inspiram ao poeta a hora certa de transmiti-los.

Na verdade todos os dias nos levam à poesia de uma maneira ou de outra, por intermédio da natureza, do amor, da generosidade ou do carinho, do olhar de uma criança, do perdão, da compreensão, da saudade e da união de todos os seres humanos.

E nessa edição deixamos de fazer reflexões sobre o mundo e seus conturbados problemas para dirigir nosso pensamento e coração à poesia que amamos tanto porque ela é universal e a fonte de inspiração da literatura.

Fonte:
http://sorocult.com/el/colunas.htm

Deixe um comentário

Arquivado em Cronicas - Contos, Magia das Palavras, O Escritor com a Palavra, Sorocaba

Yoko Oshima Franco

Yoko tem 48 anos
Possui graduação em Farmácia pela Universidade de São Paulo (1982), mestrado e doutorado em Farmacologia pela Universidade Estadual de Campinas (1997 e 2001, respectivamente). Atualmente é professor horista da Universidade Metodista de Piracicaba e professor titular da Universidade de Sorocaba (40 horas semanais). Faz parte do corpo docente permanente do Mestrado Stricto sensu em Ciências Farmacêuticas da Universidade de Sorocaba. Tem experiência na área de Farmacologia, linha de pesquisa em neurofarmacologia, com ênfase em Toxinologia (venenos ofídicos) e plantas medicinais.
Colunista do site Sorocult.com, de Sorocaba e Região.
É casada também com um farmacêutico e docente. É mãe de três filhos.

Fontes:
http://sorocult.com/el/colunas.htm

Currículo Lattes.

Deixe um comentário

Arquivado em Biografia, Literatura Brasileira, Sorocaba

Yoko Oshima Franco (Crônica da vida)

A vida me é tão óbvia. Cenas de emoções vividas. Dócil, seguia os passos de minha mãe, desviando dos capins mais altos que denunciavam a despedida de uma noite chuvosa, à medida que me esbarrava nas folhas e observava as gotinhas de chuva caírem. O frescor da manhã com sua leve brisa, o sol calmo anunciando um lindo dia e eu ali, simplesmente seguindo minha mãe. Não me importava para onde íamos, o que faríamos, nem por que. Girinos agitados nas poças de água causavam-me maravilha e minha imaginação voava, pois na minha sabedoria já sabia que se tornariam sapos. E da feiúra do sapo também já era conhecedora. Sentia-me completa ali, nada a desejar, simplesmente encantada com a natureza, com tudo o que ela continha, com tudo ao meu redor.

E este mundo foi crescendo, que festa jubilosa quando aprendi a ler e escrever. Como me sentia grandiosa podendo ler o nome das lojas da pequena cidade, quando descobri a aventura que os livros traziam e me permitiam as mais distantes viagens, por mundos e mundos povoados pelos meus sonhos. Sonhos perturbados por uma fase de angústia, de vazio, de perguntas… sem respostas! Ah, aquela amiga que todos têm, que nos ajuda nessa travessia, como se estivéssemos em um barco sem remo, perdidos num mar turbulento. Que presente a vida nos oferece para nos mostrar que não estamos sós.

E que desalento foi descobrir que era preciso algo mais para dar completude à existência. Hoje, sei que tudo o que precisamos está dentro de nós. E rio internamente, pois esta parte é a mais engraçada e, ao mesmo tempo, a mais comovente. Ela move o mundo. Ela inspira os poetas, os dramaturgos, os cineastas, os musicistas… a arte enfim! E quanta arte existe em nossa vida. Outro dia, vendo minha filha caçula sofrer de amor, disse: “veja, agora eu não lhe basto como antigamente”. Ela sorriu com tais palavras. E silêncio se fez e ambas percebemos que o tempo havia passado rápido.

Completude é um sentimento que só a paz oferece. E paz só se alcança se permitirmos a criança renascer em nós. Se isto não fizer sentido, seremos adultos (muitas vezes infelizes) buscando no outro (alguém, emprego, objeto…) a felicidade, talvez pais sofredores quando os filhos se tornarem adolescentes e a troca pelos amigos (ou namorados/esposos e esposas) se tornar insuportável. Podaremos os seus sonhos (em nome de sabermos o que é melhor para eles. Será?) e desejaremos que realizem os nossos (aqueles que não conseguimos realizar). Como se fosse possível delegar a nossa vida a alguém.

Mas a vida é eterna fonte de aprendizagem. E oferece oportunidade para ampla revisão, para quem ainda não tem olhos de ver. O corpo envia mensagens sábias e necessárias. Um exemplo. Foi incrível ouvir o desabafo de um professor: “Já tinham me avisado que ‘chegar aos quarenta’ era difícil, mas nunca me avisaram dos ‘quarenta e cinco!”. Digo incrível, pois a manutenção da aparência tem sido uma milenar preocupação feminina (por inúmeros fatores, a que não cabe aprofundamento no momento). Contrariando a natureza, o envelhecimento é algo inaceitável para a grande maioria (arrisco dizer, sem paz). Renegam sua expressão facial (é preciso extinguir urgente este vinco entre as sobrancelhas, ah e essas bolsas debaixo de meus olhos, o que é isso?), suas manchas nos braços, a perda da elasticidade da pele. Renegam a vida vivida. Pior, esquecem de viver o presente e a beleza de cada fase da existência.

Observando a bisavó, o bisnetinho exclamou, “isto pendurado no seu braço é gordura?” Risada gostosa se seguiu entre os presentes e veio a resposta da bisa “é pelanca mesmo!”. O biso completou “Idade não se esconde mesmo!”. Refleti sobre a questão. Quanta verdade havia na frase. E escondê-la para quê? Esta pergunta não deveria ser calada.

Muito tempo atrás, conversando com meu então vizinho, ele confessou, aos seus 86 anos: “sabe, chega uma hora em que viver torna-se enfastiante”. Não conseguia entender aquela frase. O tempo se passou e pude ver quantos cuidados necessitava a vózinha, ‘bisa’. O que vem depois de bisa? (Sim, pois era o caso) Entendi o seu João (meu vizinho). Aos 105 anos, a vózinha não mais andava, depois de sua última queda que lhe rendeu cirurgia no fêmur; suas mãos ágeis que foram – habilidosas no crochê, não mais se abriam; não havia mais lente de óculos possível para trazer-lhe novamente a visão, cujas cirurgias de cataratas tinham sido realizadas no passado; era preciso gritar para que ela ouvisse alguma coisa; o lado esquerdo era mais sensível, era preciso tocá-la com cuidado, pois qualquer pressão na sua pele provocava hematomas (parecia papel que se rasgava); necessitava de todos os cuidados imagináveis que iam da higiene à alimentação. A vózinha não tinha doença, seus exames de sangue sempre normais, sua mente saudável, lembrava-se mais de coisas do passado que recentes. A vózinha tinha apenas velhice. E um sorriso sempre estampado no rosto. A vózinha voltou a ser criança, conduzida apenas. Saberia para onde iria, o que faria, por quê? Tornou-se apenas uma espectadora da vida.

E, num determinado dia, partiu. Integrou-se à natureza. As lágrimas de despedida foram de paz. Viveu (o suficiente?) para dissipar rancores e angariar perdões. Hoje a palavra paz é uma das que me trazem maior significado. Tão curta e tão intensa. O amor? Por que não digo que é o amor? Ah, ainda não temos maturidade espiritual para entendermos o amor (em nome do amor se mata e muitas vezes ele é carregado de sofrimento). O amor é sentimento de liberdade e não de posse (para exemplificar, as pessoas diriam “eu amo você, mas respeito o fato de não ser correspondida, logo, como meu amor por você não tem limites e quero unicamente a sua felicidade, você é livre para seguir o seu caminho”!). Quanto à paz… ah este sentimento sublime! A paz é aceitação da vida (com todas as surpresas que ela encerra, boas e más). É integração com a natureza. É bem-estar. É tranqüilidade nas decisões. É desapego (amar as coisas sem possuí-las).

Quantas vezes olhamos as crianças e perguntamos “o que será que elas estão pensando, o que desejam, o que esperam da vida etc?”. Desafio alguém que ainda não tenha pensado nisso. Só se nunca observou uma criança. Elas têm paz. Por isso vejo a vida tão óbvia. Buscar a paz é sabedoria, não importa em qual fase de vida estamos. Bem, mas se ainda assim nada do dito aqui fizer sentido, vamos apenas viver. Um dia de cada vez, saboreando cada momento. O tempo revela o necessário, aos poucos e generosamente…

Fonte:
http://sorocult.com/el/colunas.htm

Deixe um comentário

Arquivado em Cronicas - Contos, Magia das Palavras, O Escritor com a Palavra, Sorocaba

Artur da Tavola (Conversando com Deus)

Nestes tempos de loucura guerreira, a gente deve buscar refúgio também nas crianças. Elas são sempre a conseqüência trágica das guerras. Mesmo quando não estão no campo das mesmas. Fui criança em 1940 e hoje, sessenta anos depois ainda me recordo do rádio de meu pai, com notícias da Segunda Guerra Mundial e do meu susto pois não sabia o que queria dizer “lá longe”. Acreditava que “longe” era o que ficava além do Túnel Novo.

Mas recebi de um mensageiro da Internet chamado Müller (não deu outras informações acerca de si mesmo) esta deliciosa tradução de algumas frases de crianças. Nada tem a ver com a guerra. É só para vermos como são criativas as crianças e pensarmos nas que morrem por causa dos delírios humanos, o maior dos quais é a guerra e seu estúpido cortejo de destruição.

CARTINHAS PARA DEUS: cartas reais para Deus escritas por crianças
(traduzidas de original em inglês):

1. Querido Deus, Eu não pensava que laranja combinava com roxo até que eu vi o pôr-do-sol que Você fez terça- feira. Foi demais! (Eugene)

2. Querido Deus, Você queria mesmo que a girafa se parecesse assim ou foi um acidente? (Norma)

3. Querido Deus, Em vez de deixar as pessoas morrerem e ter que fazer outras novas, porquê você não mantêm aquelas que você tem agora? (Jane)

4. Querido Deus, Eu fui a um casamento e eles beijaram dentro da igreja. Tem algum problema com isso? (Neil)

5. Querido Deus, Obrigado pelo meu irmãozinho, mas eu orei por um cachorrinho. (Joyce)

6. Querido Deus, Choveu o tempo todo durante as nossas férias e como meu pai ficou zangado! Ele disse algumas coisas sobre você que as pessoas não deveriam dizer, mas eu espero que você não vá machucá-lo. Seu amigo (mas eu não vou dizer quem eu sou)

7. Querido Deus, Por favor, me mande um poney. Eu nunca te pedi nada antes, Você pode checar. (Bruce)

8. Querido Deus, Eu quero ser igualzinho ao meu pai quando eu crescer, mas não com tanto cabelo no corpo. ( Sam)

9. Querido Deus, Eu penso em Você de vez em quando, mesmo quando não estou orando. (Elliott)

10. Querido Deus, Eu aposto que é muito difícil para você amar a todas as pessoas no mundo. Na nossa família tem só quatro pessoas e eu nunca consigo… (Nan)

11. Querido Deus, Meus irmãos me falaram sobre nascer de novo, mas soa muito estranho. Eles estão só brincando, não é? (Marsha)

12. Querido Deus, Se Você olhar para mim na igreja domingo, eu vou te mostrar meus sapatos novos. (Mickey)

13. Querido Deus, Nós lemos que Thomas Edison fez a luz. Mas na escola dominical nós aprendemos que foi Você. Eu acho mesmo que ele roubou sua idéia. Sinceramente, (Donna)

14. Querido Deus, Eu não acho que alguém poderia ser um Deus melhor que você. Bem, eu só quero que saiba que não estou dizendo isso porque você já é Deus. (Charles)
15. Querido Deus, Talvez Caim e Abel não matassem tanto um ao outro se eles tivessem seu próprio quarto. Isso funciona com meu irmão. (Eddie)

Fonte:
http://intervox.nce.ufrj.br/~jobis/a-conv.html

Deixe um comentário

Arquivado em Cronicas - Contos, Magia das Palavras, O Escritor com a Palavra

Fernando Sabino (Ela Lava e Ele Enxuga)

Como já tive ocasião de contar (Aventura do Cotidiano – 4, em “A Falta que Ela me Faz”), eram três solteirões que viviam com o pai viúvo naquela casa do interior de Minas. Um dia o mais novo, e já não tão novo, conheceu uma moça, gostou da moça, acabou se casando com a moça.

Casou e mudou.

Tempos depois, indo visitar o pai e os irmãos, não escondeu seu entusiasmo:

— Gente, vocês não sabem como mulher é bom! Serve para tanta coisa…

Não deixa de ser uma definição do casamento, como era concebido antigamente. Hoje em dia, prevalece mais a que decorre do comentário feito por aquele outro, depois que se casou:

— Então quer dizer que casamento é isso? Ela lava e eu enxugo?

— Pois comigo agora vai ser diferente — pensava ela, ao deixar o trabalho. Em vez de ir direto para casa fazer o jantar do marido, foi ao cabeleireiro mudar o penteado.

Depois de vários meses sem cozinheira, chegara enfim o dia de não encostar a barriguinha no fogão, como ele costumava gracejar, aliás sem graça nenhuma

Em vão ela havia tentado avisar, telefonando-lhe para o escritório, que queria jantar fora naquela noite: não está na sala, está em reunião, ainda não chegou, já saiu. Onde diabo estaria? Nenhuma ponta de ciúme chegou a se manifestar na sua irritação por não encontrá-lo: parece até que está fugindo de mim, pensou apenas, indo finalmente para casa.

— Eu hoje quero jantar fora — foi declarando, categórica, quando ele lhe abriu a porta.

— Onde você andou? — perguntou ele, dando-lhe passagem.

— Fui ao cabeleireiro. E você? Tentei te avisar o dia todo.

— Me avisar o quê?

— Que eu queria jantar fora.

— Vim mais cedo para casa. Como não te encontrei…

— Nem podia encontrar, pois eu estava no cabeleireiro.

— Eu sei, você já falou. Não te encontrei, e estava com fome…

Que é que ele queria dizer? Que já havia jantado?

— Jantado, propriamente, não. Como estava com fome, fritei um ovo, e tinha um resto de arroz na geladeira… Não achei mais nada.

— Não achou nada porque eu não vim fazer o jantar.

— Estou sabendo. Foi ao cabeleireiro.

— Isso mesmo. Fui e hoje eu quero jantar fora — insistiu ela: — Não venha me dizer que você não vai me levar só porque comeu um ovo.

— Calma, minha filha — fez ele, evasivo: — Jantar onde? Você nem acabou de chegar da rua e já quer sair de novo. Que diabo de penteado é esse?

O comentário final foi a gota d’água — ela, que esperava dele um elogio pelo penteado.

— Não pensa que você me leva na conversa — protestou, indignada: — Eu quero saber se vai me levar para jantar. Se não vai, diga logo, que eu vou sozinha.

Um tanto temerária, aquela afirmativa, admitiu ela para si mesma: jantar sozinha como? onde? com quem? e pagar com quê?

— Estou com fome… — choramingou, para ganhar tempo.

Ele fora sentar-se diante da televisão, indiferente, enquanto ela ficava por ali, lamuriando a sua fome.

— Vê se encontra aí qualquer coisa para comer, como eu fiz — ele se limitou a dizer.

Ela botou as mãos na cintura e sacudiu com raiva a cabeça, ao risco de desmanchar o penteado:

— Olha bem para mim e vê se me acha com cara de arroz com ovo.

— Ovo, só tinha um — ele ria, o cínico! — E o arroz já era.

Num impulso de revolta, ela se voltou para a porta:

— Não preciso de você. Na casa da mamãe deve ter sobrado alguma coisa do jantar.

— Ridículo — ele se limitou a suspirar, e voltou a se distrair com a televisão.

Em vez de sair, ela partiu batendo os saltos em direção à cozinha. Pôs-se a remexer ruidosamente em tudo, devassando a geladeira, abrindo latas e destampando panelas. Acabou encontrando duas bolachas e, no armário sobre a pia, uma simples, única e solitária cebola. Começou a descascá-la, já em lágrimas, soluçando alto para que ele ouvisse lá da sala. Em pouco ele vinha bisbilhotar:

— Que é que você está fazendo? Está chorando por quê? Por causa dessa cebola?

— Não seja estúpido — reagiu ela, enxugando as lágrimas com as costas da mão: — Estou chorando porque estou sem comer! Quando me casei com você jamais pensei que ainda ia acabar passando fome.

— Amanhã te levo para jantar fora — concedeu ele.

— Não preciso de você. Se eu quiser, eu sei como encontrar alguém que me leve ainda hoje.

O sorriso irônico dele não animava a prosseguir nesse caminho: não encontraria ninguém, ainda mais assim de repente — nem ao menos uma amiga tão infeliz quanto ela. Descobrindo no armário um tablete de caldo de carne, animou-se e com deliberação pôs-se a preparar uma sopa de cebola, enquanto ele voltava para a televisão.

Levou a bandeja com a sopa para tomar na sala, com as duas bolachas, como se fosse o melhor dos jantares, esperando que o cheiro que dela emanava, realmente apetitoso, provocasse nele alguma fome. Se tal aconteceu, ele não deu mostras: em pouco desligava a televisão e, espreguiçando, ia para o quarto dormir.

Como era de esperar, passaram a noite de costas um para o outro. Pela manhã nenhum dos dois tomou a iniciativa de romper o silêncio. E em silêncio partiu cada um para o seu trabalho. O que mais doía nela era o detalhe do penteado-que fez questão de desfazer durante o banho.

Ao longo do dia não se telefonaram, como costumavam fazer.

À tarde, quando ela regressou, teve a surpresa de sua vida: encontrou a mesa posta, com o que havia de melhor a esperá-la para o jantar dos dois. Até mesmo, como sobremesa, aquela tortinha de mil-folhas de que gostava tanto.

Ao lado do prato, um bilhete: “Para que você hoje não passe fome.”

— Como é que você fez tudo isso? — exclamou, ao vê-lo surgir do quarto.

— Encostando a barriguinha no fogão.

— Encomendou no restaurante — ela concluiu, encantada.

Ele a abraçou, afagou-lhe os cabelos:

— Ficam tão mais bonitos assim, ao natural.

Findo o jantar, ele quis levá-la em seguida para o quarto, mas ela pediu que esperasse: ia primeiro tirar a mesa e lavar os pratos.

— Eu lavo e você enxuga — disse, com doçura. Mais tarde, já na cama, ao tê-la nos braços, ele admitiria para si mesmo:

— Como mulher é bom! Serve para tanta coisa…

Fonte:
SABINO, Fernando. No Fim Dá Certo. Rio de Janeiro: Record, 1998, Disponível em http://www.releituras.com/fsabino_elalava.asp

Deixe um comentário

Arquivado em Cronicas - Contos, Magia das Palavras, O Escritor com a Palavra

Plínio Marcos (O pranto e o canto pelo anjos caídos)

O seco olhar do velho indio, seco como o olhar de um corpo sem alma, correu pelo chão seco da triste aldeia e parou na gente seca de sua outrora tão gloriosa tribo. Gente seca que, com as mão secas de almas sem esperança, teciam, a duras penas, vergados sob o peso da indolência, seus ofícios aviltantes, nesses secos tempos, tempos dos tempos da raça. E o ofício ali exercido por gente seca, de mãos secas de almas sem esperança, lhes foi generosamente legado por seus bravos antepassados, por seus venerados antepassados, que foram bravos e foram venerados justamente porque exerceram esses ofícios orgulhosamente em seus tempos, em foram muitos tempos, tempos bastantes para os fundamentos da tribo serem plantados, tempos bastantes pra vida da tribo ser honrada por várias gerações.

E o seco olhar do velho indio, seco como o olhar de um corpo sem alma, já turvo por tantos tempos de sua existência seca, começava a bem ver, ver de ver, ver de perceber, ver de penetrar nas entranhas das coisas, ver de enxergar o essencial. E o seco olhar do velho indio, seco como o olhar de um corpo sem alma, via, via pela primeira vez que o arco, a flecha, o tacape e os cocares de penas multicoloridas, que as mãos secas de almas sem esperança dos lamentáveis indios sem cor, sem brilho, sem cantos arrematavam, vergados ao peso da indolência, jamais seriam as armas de valor provado em tantas batalhas, como aquelas que, em outros tempos, empunhadas por bravos guerreiros, foram guardiãs da honra da tribo, da liberdade da tribo, do respeito da tribo por si mesma. E o seco olhar do velho indio, seco como o olhar de um corpo sem alma, via, via pela primeira vez que o barro, amassado sem nenhum encantamento pelas secas índias, de mamas secas, de ventre apodrecido, parideiras de uma prole sem cor, sem brilho, sem cantos, prole que não encarnava o bravo espírito dos bravos guerreiros de outrora, jamais seria a cuia das doces bebidas que os deuses ensinaram os bravos índios a beber pra terem sempre seus ânimos renovados para os duros combates da preservação. E o olhar seco do velho indio, seco como o olhar de um corpo sem alma, via, via, via, pela primeira vez, que a mandioca batida pelas secas mãos de almas sem esperança jamais seria a farinha da nutrição da gente seca de sua outrora tribo. O seco olhar do velho indio, seco como o olhar de um corpo sem alma, via, via, via que jamais, jamais, jamais o trabalho feito pelas mãos secas de almas sem esperança seria o nobre trabalho que dignifica o homem. Que o arco, a fecha, o tacape, o cocar de penas multicoloridas, o barro, a farinha jamais seriam distendidos, moldados, consumidos pela liberdade, pela honra, pelo auto-respeito da tribo, gente seca, de mão secas de almas sem esperança.

O arco, a flecha, o tacape, o cocar de penas multicoloridas, o barro, a farinha, feitos pela geração enferma da outrora gloriosa tribo seriam levados pelos tristes índios sem cor, sem brilho, sem canto, com passos trôpegos, ao posto comercial dos brancos cidadãos contribuintes e seriam trocados pela branca aguardente dos brancos cidadãos contribuintes. E a branca aguardente dos brancos cidadãos contribuintes envenenaria o sangue, a energia, o trabalho, a fé, a esperança do índio. Envenenaria o índio, e o arco do índio, e a flecha do índio, e o cocar de penas multicoloridas, e o barro do índio, e a farinha do índio, e a cor, e o brilho, e o canto do índio, e a honra, e a liberdade, e o respeito do índio por si mesmo, e todos os fundamentos da tribo do índio, e o ventre apodrecido das mulheres da tribo, que geraria cada vez mais a mais miserável das descendências do índio.

E o arco, a flecha, o tacape, e o cocar de penas multicoloridas, e a cuia iriam enfeitar as brancas paredes das brancas moradas dos brancos cidadãos contribuintes. E o olhar seco do velho índio, seco como o olhar de um corpo sem alma, via, via, via, pela primeira vez, que esse comércio já há tanto tempo praticado por sua gente, por ele mesmo e por seus antepassados, com os brancos cidadãos contribuintes, lhes envenenava o sangue, os fundamentos recebidos por herança, os gritos de guerra de toda uma raça, o sonho, a energia, o trabalho, a ânsia de liberdade, sobretudo a ânsia de liberdade. E o seco olhar do velho índio, seco como o olhar de um corpo sem alma, via, via, via que era o tempo dos tempos de sua raça. Via, via, via, o olhar seco do velho índio, seco como o olhar de um corpo sem alma, que era a grande hora de dor da sua tribo. E sentia que era chegado o seu momento-limite de cacique, o momento de tomar a decisão mais corajosa de todos os tempos da tribo. Era o momento doloroso da escolha.

Era a hora do crepúsculo. Era a hora do crepúsculo da tribo e também era crepúsculo de mais um dia de triste trabalho da outrora gloriosa tribo. O Sol se punha por trás das montanhas e a primeira estrela brilhava no infinito. E o seco olhar do velho índio, seco como o olhar de um corpo sem alma, se fixou nessa estrela. E seu pensamento se elevou até os grandes espíritos e se fez a magia. E o velho índio, com a visão imemorial, viu com coragem todos os tempos da sua tribo. Correu pelas matas com a alma virgem dos bravos índios que plantaram os fundamentos da tribo, quando as matas eram virgens das patas dos brancos cidadãos contribuintes. E depois viu chegarem as brancas caravelas, de brancas velas, com a tripulação branca de cidadãos contribuintes, que tinham brancas armas que matavam à distância. E o velho índio viu e reviu que seus antepassados se deslumbravam diante da branca feitiçaria dos brancos cidadãos contribuintes, mas não se deixavam subjugar. E os brancos cidadãos contribuintes em vão tentaram subjugar os bravos índios, com suas brancas armas. Não se subjuga um bravo.

Nem o ferro, nem o fogo, nem a chibata subjuga um bravo que sonha o sonho mais lúcido do espírito, que é a liberdade. Liberdade pra ser caminheiro em busca de luz, da síntese do amor e do tempo. E, esgotados os recursos das armas, os brancos cidadãos contribuintes vieram com os brancos truques da branca tecnocracia. E o velho índio, com sua visão imemorial, viu chegarem no meio de sua gente os falsos filhos dos deuses, os falsos homens do fogo, os falsos filhos do trovão, reles lacaios brancos dos brancos cidadãos contribuintes que assombraram os índios com seus brancos truques tecnocratas. Assombravam os índios os brancos truques da branca tecnocracia dos brancos cidadãos contribuintes, mas não os subjugavam. Os bravos índios, assim como todos os bravos, com todo o vigor das almas puras, ingênuos no fervor de suas crenças, podem ser acabados pelo furor das armas, podem ser enganados, mas não se subjugam suas almas livres, nem com o ferro, nem com o fogo, nem com a chibata. Não se prende o espírito, nem o espírito se apaga, quando ele retém, mesmo que inconsciente, a chama geradora da virilidade. E os ingênuos, no fervor de suas crenças, sempre retêm a sagrada chama. E o índio não podia ser escravo pelo peso das armas, ele que já era escravo dos fundamentos da sua tribo, por querência, por respeito a si mesmo, por honra, pelo desejo lúcido do espírito de ser livre. Não se escraviza quem se escravizou espontaneamente no fervor de uma fé. E o índio de alma pura não se submeteu nem ao ferro, nem ao fogo, nem à chibata, nem aos assombrosos truques tecnocratas dos brancos cidadãos contribuintes escravocratas, mesquinhos escravos da própria ganância. E a visão imemorial do velho viu, viu, viu bem o peito de seus bravos antepassados serem rasgados pelo fogo e pelo trovão dos brancos cidadãos contribuinte. Viu, viu, viu, com a visão imemorial, o sangue generoso dos seus bravos antepassados regar o solo de terra firme, consagrada por toda uma raça que se nutria de honra e se multiplicava em bravos. E o velho índio viu, viu, viu, com a visão imemorial, que não se ganha nas armas a alma de um bravo, ingênuo no fervor de sua crença. Mas, o velho índio, pálido de espanto, viu, viu, viu que um bravo, mesmo ingênuo no fervor de sua crença, mesmo forte no fervor de sua crença, pode ser seduzido com a hipócrita palavra, com o hipócrita paternalismo, com hipócritas presentes. Com a lábia.

O velho índio, com sua visão imemorial, viu, viu, viu pálido de espanto, descerem das brancas caravelas dos brancos cidadãos contribuintes brancos sacerdotes que, viajando sem bandeira, em nome do grande Deus branco dos brancos cidadãos contribuintes, foram pacientemente, com agrados, ensinado a língua estrangeira, os costumes estrangeiros, a religião estrangeira, a cultura estrangeira ao índio. E foram desarmando o índio dos seus fundamentos, dos fundamentos da sua tribo, foram descaracterizando o índio e entregando o índio, desarmado dos seus fundamentos e de suas crenças, aos brancos cidadãos contribuintes. O homem sem os seus fundamentos de origem se corrompe, se vicia. E os brancos sacerdotes dos brancos cidadãos contribuintes, com a pose de pais magnânimos, corromperam o espírito do índio nos seus fundamentos. E os brancos cidadãos contribuintes viciaram a carne do índio, geração após geração. E foi fácil para os brancos cidadãos contribuintes, com suas brancas armas tecnocratas, matarem os poucos índios que não se degeneraram, que não se desvincularam dos fundamentos da tribo, que não se descaracterizaram. E aí chamaram os índios desarmados dos seus fundamentos, adoecidos de corpo e alma, para o comércio. Comércio feito sempre na língua branca dos brancos cidadãos contribuintes, com pesos e medidas dos brancos cidadãos contribuintes, peritos em trocar suas quinquilharias supérfluas pelos gêneros vitais dos índios. E os brancos cidadãos contribuintes chamaram o índio, desarmado dos seus fundamentos, desarmado do fervor de sua crença, doente de corpo e alma, empobrecido por um comércio sórdido, para fazer acordos territoriais. E os acordos foram feitos na branca língua dos brancos cidadãos contribuintes, com os pesos e as medidas dos brancos cidadãos contribuintes. E foram limitados os espaço do índio, e foram limitados os sonhos do índio, e foram apagados os fundamentos da tribo do índio. E o índio, ao ser desligado dos seus fundamentos, como qualquer povo que se desliga do seus fundamentos, perdeu o fervor ingênuo em sua crença, se tornou enfermo de corpo e alma, adquiriu os brancos vícios dos brancos cidadãos contribuintes, ficou desfibrado, indolente, sem coragem pra se rebelar. E o velho índio viu, com a visão imemorial anos e anos a fio, sua tribo, sua raça inteira se degenerar no contato social, religioso, cultural, comercial com os brancos cidadãos contribuintes. E viu o velho índio, viu, viu, viu quantas vezes quis ou teve coragem. Viu tudo com visão imemorial. E entendeu o velho índio que a sua outrora gloriosa tribo começou a morrer quando aprendeu a fala branca dos brancos cidadãos contribuintes. Que começou a morrer quando aceitou o grande Deus branco do branco cidadão contribuinte. Que os brancos cidadãos contribuintes, em nome da religião, da filosofia, da cultura, da tecnocracia, mataram a religião, a filosofia, a cultura e todos os fundamentos da tribo e da raça.

E o velho índio voltou para si mesmo. Era a hora grande, hora de todos os espíritos, de uma noite de Lua cheia. A aldeia estava em silêncio, os índios dormiam o sono sem repouso das almas secas de sonho. Era a hora grande, hora de todos os espíritos, de uma noite de Lua cheia, mas era também a grande hora de uma tribo inteira. E o seco olhar do velho índio, seco como o olhar de um corpo sem alma, correu pelo seco chão da triste aldeia dos lamentáveis índios sem cor, sem brilho, sem canto e encontrou o sagrado tambor de guerra, há muito tempo mudo por não poder ser tocado por mãos secas de alma sem esperança. E o velho índio de seco olhar, como é seco o olhar de um corpo sem alma, tocou o tambor, tocou o tambor, tocou o tambor. Tocou o toque guerreiro de toda a sua tribo, tocou o toque dos fundamentos de toda sua raça, tocou o toque de honra, o toque do auto-respeito, o toque sublime dos sublimes anseios de liberdade de um povo. Dentro da noite soou forte o toque de guerra da tribo do velho índio, o toque dos fundamentos da tribo do velho índio, o toque dos anseios de liberdade de toda a raça do velho índio. Mas, os lamentáveis índios, sem cor, sem brilho, sem canto, estavam arreados pela indolência num sono sem repouso das almas secas de sonho. Nenhum respondeu aos apelos do toque do tambor guerreiro batido pelo velho índio. Nenhum escutou o toque dos fundamentos da tribo e da raça, batidos no tambor guerreiro pelo velho índio.

E o seco olhar do velho índio, seco como o olhar de um corpo sem alma, se encheu de lágrimas. Ele via, via, via tudo com clareza. Mas era tarde. Ele não tinha mais a cor, o brilho, o canto para convocar pra labuta da vida uma gente que se amesquinhou no aviltante trabalho de mãos secas de almas sem esperança. Já não tinha, o velho índio, a cor, o brilho, o canto. A sua pele encardida, o seu sangue apodrecido, seu espírito vacilante já não tinham a cor, o brilho, o canto para convocar sua gente de pele encardida, de sangue apodrecido, de espírito vacilante, para a labuta da vida que dignifica a existência. E já não tinha a cor, o brilho, o canto para convocar sua gente sem cor, sem brilho, sem canto para a morte honrosa que dignifica a existência. E o velho índio compreendeu que toda a sua raça estava surda aos próprios fundamentos da raça. E compreendeu que, quando um povo já não pode ser convocado para a labuta da vida, que é o que dignifica a existência, quando um povo já não pode ser convocado para a morte honrosa, que é o que dignifica a existência, é o tempo final desse povo, é o tempo dos tempos desse povo. E, compreendendo tudo isso, o velho índio chamou a sua tribo para o centro da triste aldeia. E vieram todos, sonados, arrastando seus corpos cansados de almas sem esperança, e pararam diante do velho índio.

O velho índio de olhar seco, como seco é o olhar de um corpo sem alma, olhou os lamentáveis índios sem cor, sem brilho, sem canto, de uma tribo em degeneração total e, com a voz firme, ordenou serenamente que se matassem todas as mulheres da tribo nascidas daquela lua em diante. Ordenou serenamente, com a voz firme de um grande cacique, ordenou com ternura, ordenou certo de ser obedecido, e se afastou. Foi sentar-se num tronco seco de uma outrora frondosa árvore e, com os olhos secos, como são secos os olhos de um corpo sem alma, ficou espiando o nada, o vazio, esperando o fim de toda sua raça.

Fonte:
Publicado na Folha de S.Paulo, domingo, 3 de abril de 1977. Neste texto foi mantida a grafia original
http://almanaque.folha.uol.com.br/plinio_marcos_o_pranto.htm

Deixe um comentário

Arquivado em Cronicas - Contos, Magia das Palavras, O Escritor com a Palavra

III Feira Nacional do Livro e 2o. Festival Literário de Poços de Caldas

Após percorrer pouco mais de 240 mil quilômetros de estradas por este Brasil afora, e doar em torno de 145 toneladas de mais de 80.000 livros de histórias infantis, o Projeto Idéia Fixa por um Sertão 100 Fome, volta a ser destaque. E desta vez durante um dos eventos de sucesso realizado pela GSC Eventos Especiais, a 3ª Feira Nacional do Livro que acontecerá na cidade de Poços de Caldas (MG), entre os dias 02 e 06 de abril.

A III Feira Nacional do Livro de Poços de Caldas, acontecerá de 02 a 06 de abril de 2008.Mais informações acesse: http://www.feiradolivropocosdecaldas.com.br/“> ou pelo fone: 35 3713 9901

Grandes nomes da Literatura Brasileira já confirmaram a participação na Feira do Livro e no Festival Literário. A patronesse, uma das maiores especialistas em lingüística textual do Brasil, Ingedore Villaça Koch, será homenageada e, oficialmente, abrirá o 2º Festival Literário Nacional da cidade a palestra “O Texto e seus Segredos”.

Entre os dias 02 e 06 de abril, nas dependências do Palace, os visitantes poderão contar com a presença de outros escritores renomados, como Telma Guimarães (02/04, manhã/tarde); MV Bill, autor do livro Falcão – Meninos do Tráfico (02/04, às 19h50); Jonas Ribeiro (02 e 03/04, manhã/tarde); Elias José (03/04, manhã/tarde); André Ribeiro com a oficina: Reportagem Biográfica (03/04 – às 14h); Julio Emilio (04/04, manhã e tarde); Gabriel O Pensador (03/04, às 19h50); Márcia Nehemy Bittar e Beth Nanni – autoras do livro “Os Deuses e o Amor” (04/04, às 17h); o antropólogo Roberto DaMatta (04/04, às 19h50); Lino de Albergaria (05/04, manhã e tarde); Walter Alvarenga, escritor do livro “Cinco Crianças” (05/04, às 16h); e o poeta Fabrício Carpinejar (05/04, às 19h50). Todos já têm a presença confirmada.

Peças teatrais escolares e profissionais, murais de poesias, concursos de redação, contadores de histórias, exposições de escritores mirins, tardes de autógrafos, e recreação com os monitores do SESC/MG e o Cinearte Sarau Petrobras Brasil Adentro são outras atividades que enriquecerão a programação desse grande evento literário.

As escolas já podem agendar a visita entrando em contato pelo telefone (35) 3713-9901. Esse evento é uma realização da GSC Eventos com a parceria da Prefeitura Municipal de Poços de Caldas, Secretaria de Educação e Cultura, Secretaria de Turismo, com o patrocínio oficial da Petrobras, patrocinadores Alcoa GBS e CBA, e apoio da Cia. Bella de Artes, Renovias, Câmara Brasileira do Livro, Hotel Minas Garden, Unimed, SESC e SENAC.

Fontes:
Colaboração de Douglas Lara, em Acontece em Sorocaba – Últimas Notícias
http://www.sorocaba.com.br/acontece
http://www.feiradolivropocosdecaldas.com.br/

Deixe um comentário

Arquivado em Congressos - Eventos, Literatura Brasileira

Gabriel, o Pensador na 2o. Festival Literário Nacional

Está confirmada a presença do cantor de rap e escritor, Gabriel – O Pensador para o dia 03 de abril, às 19h50, no 2º Festival Literário Nacional de Poços de Caldas, que acontecerá no Palace Casino.

Gabriel O Pensador, é autor dos livros “Diário Noturno” e do livro que lhe concedeu o prêmio Jabuti de melhor livro infantil, “Um Garoto Chamado Rorbeto”.

Além de escritor, é um dos maiores nomes do rap brasileiro, diferenciou-se de boa parte de seus pares (e chegou a ser por eles criticado) por ser garoto branco de classe média alta. Mas desde o começo fez das letras de crítica social o seu “cavalo de batalha”, como convém ao melhor rap.

Filho da jornalista Belisa Ribeiro, ele apareceu no fim de 1992, quando ainda era estudante de comunicação na PUC do Rio, com a música “Tô Feliz, Matei o Presidente”. O personagem da letra era Fernando Collor de Mello, que tinha acabado de renunciar ao cargo frente a um processo de impeachment (e de quem Belisa tinha sido assessora).

Contratado pela Sony Music por causa do sucesso da música, Gabriel lançou em 1993 seu primeiro e homônimo disco, que ganhou as rádios com as ácidas, mas bem-humoradas “Lôraburra” e “Retrato de um Playboy”.

Em 1995, ele saiu com o feroz “Ainda É Só o Começo”, que provocou polêmica com as músicas “Estudo Errado” e “FDP ao Cubo”, mas não repetiu o sucesso do primeiro álbum. Dois anos depois, Gabriel voltou à carga com a irreverente e pop “2345meia78”, que seria a primeira faixa de trabalho do disco “Quebra-Cabeça”. “Cachimbo da Paz” e “Festa da Música” estouraram depois, levando o CD a ultrapassar a marca do um milhão de cópias vendidas.

Sucesso em Portugal, atração escolhida pela banda irlandesa U2 para fazer a abertura de seus shows brasileiros em 1998, Gabriel deu prosseguimento aos seus trabalhos com o disco “Nádegas a Declarar”, lançado no fim de 1999.

Em 2003, Gabriel lança seu registro acústico “MTV ao Vivo” com os seus maiores sucessos, como “Lôraburra”, “Festa da Música” e “Cachimbo da Paz”, e destaca as participações especiais de Lulu Santos (Astronauta), Aninha Lima (FDP³) e Titãs (na faixa inédita, “Cara Feia”).

Cavaleiro Andante é o sétimo disco de Gabriel O Pensador, lançado em 2005. No novo trabalho, o rapper recria “Pais e Filhos”, sucesso da Legião Urbana, em “Palavras Repetidas”, apresentando ainda mais dez composições marcadas por suas letras fortes e elaboradas. “Tudo na Mente”, “Sem Neurose” e “Tempestade” são outros destaques do CD.

Para participar do bate-papo literário com Gabriel O Pensador . Será necessário trocar um livro, em bom estado, por um ingresso. As trocas serão realizadas na GSC Eventos Especiais (Rua Prefeito Chagas, 305 – Sala 308 – 3º andar – informação: (035) 3713-9901) e na Livraria Libertas (informação: (035) 3721-0908) e/ou na Secretaria do Evento, durante o período da Feira. A quantidade de ingresso é limitada.

.
Fonte:

Deixe um comentário

Arquivado em Congressos - Eventos, Literatura Brasileira

Patativa do Assaré (1909 – 2002)

As penas plúmbeas, as asas e cauda pretas da patativa, pássaro de canto enternecedor que habita as caatingas e matas do Nordeste brasileiro, batizaram poeta Antônio Gonçalves da Silva, conhecido em todo o Brasil como Patativa do Assaré, referência ao município que nasceu. Analfabeto “sem saber as letra onde mora “, como diz num de seus poemas, sua projeção em todo o Brasil se iniciou na década de 50, a partir da regravação de “Triste Partida”, toada de retirante gravada por Luiz Gonzaga.

Filho do agricultor Pedro Gonçalves da Silva e de Maria Pereira da Silva, Patativa do Assaré veio ao mundo no dia 9 de março de 1909. Criado num ambiente de roça, pequena propriedade rural de seus pais em Serra de Santana, município de Assaré, no sul do Ceará, seu pai morrera quando tinha apenas oito anos legando aos seus filhos Antônio, José, Pedro, Joaquim, e Maria o ofício da enxada, “arrastar cobra pros pés” , como se diz no sertão. Filho mais velho entre os cinco irmãos, começou a vida trabalhando na enxada.

Casou-se com D. Belinha, e foi pai de nove filhos.
A sua vocação de poeta, cantador da existência e cronista das mazelas do mundo despertou cedo, aos cinco anos já exercitava seu versejar. A mesma infância que lhe testemunhou os primeiros versos presenciaria a perda da visão direita, em decorrência de uma doença, segundo ele, chamada “mal d’olhos”.

Sua verve poética serviu vassala a denunciar injustiças sociais, propagando sempre a consciência e a perseverança do povo nordestino que sobrevive e dá sinais de bravura ao resistir ao condições climáticas e políticas desfavoráveis. A esse fato se refere a estrofe da música Cabra da Peste:

“Eu sou de uma terra que o povo padece
Mas não esmorece e procura vencer.
Da terra querida, que a linda cabocla
De riso na boca zomba no sofrê
Não nego meu sangue, não nego meu nome.
Olho para a fome , pergunto: que há ?
Eu sou brasileiro, filho do Nordeste,
Sou cabra da Peste, sou do Ceará.”

Embora tivesse facilidade para fazer versos desde menino, a Patativa do município de Assaré, no Vale do Cariri, nunca quis ganhar a vida em cima do seu dom de poeta. Mesmo tendo feito shows pelo Sul do país, quando foi mostrado ao grande público por Fagner em finais da década de 70, até hoje se considera o mesmo camponês humilde e mora no mesmo torrão natal onde nasceu, no seu pedaço de terra na Serra de Santana.

Do Vale do Cariri, que compreende o Sul do Ceará e parte Oeste da Paraíba, muitas famílias migraram para outras regiões do Brasil. A própria família Gonçalves , da qual faz parte o poeta, se largou do Crato , de Assaré e circunvizinhanças para o Sul da Bahia, em busca do dinheiro fácil do cacau, nas décadas de 20 e 30.

Seus livros foram publicados ocasionalmente por pesquisadores e músicos amigos e, parceria com pequenos selos tipográficos e hoje são relíquias para os colecionadores da literatura nordestina.

Publicou Inspiração Nordestina, em 1956. Cantos de Patativa, em 1966. Em 1970, Figueiredo Filho publicou seus poemas comentados

A estréia do vate cearense em vinil se deu no ano de 1979, quando gravou o LP “Poemas e Canções”, lançado pela CBS . As gravações foram realizadas em recital no Teatro José de Alencar, em Fortaleza. Cantando para seu povo brincou poeticamente com o fato de estar sendo gravado em disco na abertura A dor Gravada:

“Gravador que está gravando
Aqui no nosso ambiente
Tu gravas a minha voz,
O meu verso e o meu repente
Mas gravador tu não gravas
A dor que meu peito sente”.

O recital fez parte de uma revisão cultural que a nova classe intelectual ligada á musica e ao cinema faz sobre o obra dos grandes poetas populares cearenses como Cego Oliveira, Ascenso Ferreira e o próprio Patativa. Artistas como Fagner , o cineasta Rosemberg Cariri e outros, se encarregaram de produzir em vídeo e película documentários com finalidade de registrar ar um pouco da cultura em seu molde mais genuíno.

Do mesmo disco é a destemida Senhor Doutor, que em pleno governo do general Ernesto Geisel falava em baixos salários numa posição de afronta em relação à situação da elite, representada pela figura do doutor. Assim vocifera o bardo do Assaré, com seu ressonante gogó:

Sinhô Dotô não se enfade
Vá guardando essa verdade
E pode crê, sou aquele operário
Que ganha um pobre salário
Que não dá para comer.”

Após a gravação do primeiro LP o recitador , fez uma série de shows com seu discípulo Fagner . Em 81 a apresentação da dupla no Festival de Verão do Guarujá ganha ampla repercussão na imprensa. Nesta mesma ocasião gravou seu segundo LP “A Terra é Naturá”, também pela CBS. Patativa sempre cantou as saudades da sua terra, embora não tenha deixado o seu Cariri no último pau-de-arara, como diz a letra. Seu lamento arrastado e monocórdico acalanta os que se retiraram e serve de ombro aos que ficam.
.
A toada-aboio “Vaca Estrela e Boi Fubá” que narra a saudade da terra natal e do gado foi o sucesso do disco em versão gravada por Fagner no LP “Raimundo Fagner”, de 1980.

Eu sou filho do Nordeste, não nego o meu naturá
Mas uma seca medonha me tangeu de lá pra cá
Lá eu tinha o meu gadinnho, num é bom nem imaginar
Minha linda Vaca Estrela e o meu belo Boi Fubá.
Quando era de tardezinha eu começava a aboiar
“.

Outro ponto alto do disco “A Terra é Naturá” que foi lançado em CD pela 97 é a poesia Antônio Conselheiro que narra a saga do messiânico desde os dias iniciais em Quixeramobim, no Ceará até o combate final no Arraial de Belo Monte, na Fazenda Canudos, em 1897. Patativa, como muitos dos cantadores, registram na memória as histórias que boiam no leito da tradição oral, contadas aqui e ali, reproduzidas pelos violeiros e pelos cordéis.

“A Terra é Naturá” foi produzido por Fagner , tendo o cineasta Rosemberg Cariri entrado como assistente de produção artística. O acompanhamento é feito por Manassés, músico especialista em violas que se revelou juntamente com o Pessoal do Ceará, e pelo violonista Nonato Luiz, violonista de mão cheia. A presença do rabequeiro Cego Oliveira, fazendo o introdutório das músicas ajuda a consolidar a reputação de indispensável ao LP.

O lirismo dos versos de Mãe Preta, poema dedicado à sua mãe de criação cuja morte é narrada em versos contundentes e simplórios ao mesmo tempo, apresenta uma densidade poética que só os que cantam com pureza d’alma atingem.

Mamãe, com muito carinho, chorando um beijo me deu
E me disse : meu filhinho, sua Mãe Preta morreu.
E outras coisa me dizendo, senti meu corpo tremendo,
Me considerei um réu. Perdi da vida o prazer,
Com vontade de morrer pra ver Mãe Preta no céu”

Depois deste disco Patativa voltou para o seu roçado na Serra de Santana, em Assaré.

De lá saia esporadicamente para alguns recitais mas é no seu pé-de-serra, que recebe a inspiração poética.

Em 9 de março de 1994 o poeta completou 85 verões e foi homenageado com o LP “Patativa do Assaré – 85 Anos de Poesia”, sendo este seu mais recente lançamento, com participação das duplas de repentistas Ivanildo Vila Nova e Geraldo Amâncio e Otacílio Batista e Oliveira de Panelas. Como narrador do progresso nos meios de comunicação expôs em Presente Disagradável suas convicções autênticas, sobre o aparelho de televisão:

“Toda vez que eu ligo ele
No chafurdo das novela
Vejo logo os papo é feio
Vejo o maior tumaré
Com a briga das mulhé
Querendo os marido alheio
Do que adianta ter fama?
Ter curso de Faculdade?
Mode apresentar programa
Com tanta imoralidade !”

Em reconhecimento a seu trabalho, que é admirado internacionalmente, foi agraciado, no Brasil, com o título de doutor “honoris causa” por universidades locais. Tem inúmeros folhetos de cordel e poemas publicados em revistas e jornais. Sua memória está preservada no centro da cidade de Assaré, num sobradão do século XIX que abriga o Memorial Patativa do Assaré. Em seu livro Cante lá que eu canto cá, Patativa afirma que o sertão enfrenta a fome, a dor e a miséria, e que “para ser poeta de vera é preciso ter sofrimento“.

O poeta faleceu no dia 08/07/2002, aos 93 anos.

Discografia
Patativa do Assaré – (CBS – 79)
A Terra é naturá – (CBS – 81)
85 Anos de Poesia
(Som Zoom – 95)

Fontes:
Cláudio Carvalho Moreira e Zezão Castro. Patativa do Assaré e seus 90 verões de gorjeio poético. Disponível em http://www.facom.ufba.br/pexsites/musicanordestina/patati.htm

http://www.releituras.com/patativa_poetclassicos.asp

Deixe um comentário

Arquivado em Biografia, Literatura Brasileira, Poeta

Patativa do Assaré (Saudade)

Saudade dentro do peito
É qual fogo de monturo
Por fora tudo perfeito,
Por dentro fazendo furo.

Há dor que mata a pessoa
Sem dó e sem piedade,
Porém não há dor que doa
Como a dor de uma saudade.

Saudade é um aperreio
Pra quem na vida gozou,
É um grande saco cheio
Daquilo que já passou.

Saudade é canto magoado
No coração de quem sente
É como a voz do passado
Ecoando no presente.

A saudade é jardineira
Que planta em peito qualquer
Quando ela planta cegueira
No coração da mulher,
Fica tal qual a frieira
Quanto mais coça mais quer.

Fonte:
“Ispinho e Fulô”, Universidade Estadual do Ceará/Prefeitura Municipal de Assaré, 2001, pág. 138. Disponível em http://www.releituras.com/patativa_saudade.asp

Deixe um comentário

Arquivado em Literatura de Cordel, O poeta no papel, Poesia

Patativa do Assaré (Aos poetas clássicos)

Poetas niversitário,
Poetas de Cademia,
De rico vocabularo
Cheio de mitologia;
Se a gente canta o que pensa,
Eu quero pedir licença,
Pois mesmo sem português
Neste livrinho apresento
O prazê e o sofrimento
De um poeta camponês.

Eu nasci aqui no mato,
Vivi sempre a trabaiá,
Neste meu pobre recato,
Eu não pude estudá
No verdô de minha idade,
Só tive a felicidad
De dá um pequeno insaio
In dois livro do iscritô,
O famoso professô
Filisberto de Carvaio.

No premêro livro havia
Belas figuras na capa,
E no começo se lia:
A pá — O dedo do Papa,
Papa, pia, dedo, dado,
Pua, o pote de melado,
Dá-me o dado, a fera é má
E tantas coisa bonita,
Qui o meu coração parpita
Quando eu pego a rescordá.

Foi os livro de valô
Mais maió que vi no mundo,
Apenas daquele autô
Li o premêro e o segundo;
Mas, porém, esta leitura,
Me tirô da treva escura,
Mostrando o caminho certo,
Bastante me protegeu;
Eu juro que Jesus deu
Sarvação a Filisberto.

Depois que os dois livro eu li,
Fiquei me sintindo bem,
E ôtras coisinha aprendi
Sem tê lição de ninguém.
Na minha pobre linguage,
A minha lira servage
Canto o que minha arma sente
E o meu coração incerra,
As coisa de minha terra
E a vida de minha gente.

Poeta niversitaro,
Poeta de cademia,
De rico vocabularo
Cheio de mitologia,
Tarvez este meu livrinho
Não vá recebê carinho,
Nem lugio e nem istima,
Mas garanto sê fié
E não istruí papé
Com poesia sem rima.

Cheio de rima e sintindo
Quero iscrevê meu volume,
Pra não ficá parecido
Com a fulô sem perfume;
A poesia sem rima,
Bastante me disanima
E alegria não me dá;
Não tem sabô a leitura,
Parece uma noite iscura
Sem istrela e sem luá.

Se um dotô me perguntá
Se o verso sem rima presta,
Calado eu não vou ficá,
A minha resposta é esta:
— Sem a rima, a poesia
Perde arguma simpatia
E uma parte do primô;
Não merece munta parma,
É como o corpo sem arma
E o coração sem amô.

Meu caro amigo poeta,
Qui faz poesia branca,
Não me chame de pateta
Por esta opinião franca.
Nasci entre a natureza,
Sempre adorando as beleza
Das obra do Criadô,
Uvindo o vento na serva
E vendo no campo a reva
Pintadinha de fulô.

Sou um caboco rocêro,
Sem letra e sem istrução;
O meu verso tem o chêro
Da poêra do sertão;
Vivo nesta solidade
Bem destante da cidade
Onde a ciença guverna.
Tudo meu é naturá,
Não sou capaz de gostá
Da poesia moderna.

Deste jeito Deus me quis
E assim eu me sinto bem;
Me considero feliz
Sem nunca invejá quem tem
Profundo conhecimento.
Ou ligêro como o vento
Ou divagá como a lesma,
Tudo sofre a mesma prova,
Vai batê na fria cova;
Esta vida é sempre a mesma.

Fonte:
O texto acima foi extraído de livreto de cordel de mesmo título, sem dados para identificação.
http://www.releituras.com/patativa_poetclassicos.asp

Deixe um comentário

Arquivado em Literatura de Cordel, O poeta no papel, Poesia

Osman Lins (1924 – 1978)

  • – Osman Lins nasceu a 5 de julho de 1924, em Vitória de Santo Antão (PE).
  • – Publicou seu primeiro romance, O visitante, em 1955 e, em 1957, Os gestos.
    – Em 1960, concluiu o curso de dramaturgia na Escola de Belas Artes, da Universidade do Recife.
    – Estreou peça de sua autoria, Lisbela e o prisioneiro, no Rio de Janeiro, em 1961. No mesmo ano, editou o romance O Fiel e a Pedra. Em seguida viajou para a Europa como bolsista da Alliance Française.
    – Em 1962, transferiu-se para São Paulo.
    – Publicou, em 1966, Nove, novena, narrativas e Um mundo estagnado, ensaios sobre livros didáticos de português e a peça Guerra do “Cansa-Cavalo” .
    – Em 1970, ingressou no ensino superior como professor de Literatura Brasileira.
    – Em 1973, publica Avalovara, romance, traduzido posteriormente para o espanhol, francês e alemão.
    – Obtém o grau de Doutor em Letras pela Faculdade de Filosofia e Letras de Marília (1973), com a tese “Lima Barreto e o espaço romanesco”, publicada em 1975.
    – Foi professor titular de Literatura Brasileira na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Marília (SP) até 1976, quando deixa o ensino universitário dedicando-se exclusivamente à atividade de escritor.

    Obras do autor:
    O visitante (1955) romance,
    Os gestos (1957) contos,
    O fiel e a pedra (1961) romance,
    Marinheiro de primeira viagem (1963) notas de viagem,
    Lisbela e o prisioneiro (1964) teatro,
    Nove, Novena (1966) narrativas,
    Um mundo estagnado (1966) ensaio,
    “Capa Verde” e o Natal (1967) teatro infantil,
    Guerra do “Cansa Cavalo” (1967) teatro,
    Guerra sem testemunhas: o escritor, sua condição e a realidade social (1969) ensaio,
    Avalovara (1973) romance,
    Santa, automóvel e soldado (1975) teatro,
    Lima Barreto e o espaço romanesco (1976) ensaio
    A Rainha dos Cárceres da Grécia (1976), romance.

    Seu conto “A ilha no espaço” foi adaptado e apresentada no programa Caso Especial da TV Globo.

    A partir de 1976, começa a colaborar ativamente na imprensa e a escrever para televisão, além de redigir ensaios em colaboração com Julieta de Godoy Ladeira: Do Ideal e da Glória e Problemas Inculturais Brasileiros.
    Prêmios literários:
    “Fábio Prado” (SP),1955,
    “Monteiro Lobato” (SP),
    “Coelho Neto”, da Academia Brasileira de Letras (1955),
    “Vânia Souto Carvalho” (Recife), 1957,
    “Nacional de Comédia”,
    “Mário Sette” (Recife), 1962
    “José de Anchieta” (SP), 1965.

  • Faleceu em São Paulo a 8 de julho de 1978.

    Fonte:
    http://www.releituras.com/osmanlins_menu.asp

Deixe um comentário

Arquivado em Biografia, Literatos, Literatura Brasileira

Osman Lins (A Partida)

Hoje, revendo minhas atitudes quando vim embora, reconheço que mudei bastante. Verifico também que estava aflito e que havia um fundo de mágoa ou desespero em minha impaciência. Eu queria deixar minha casa, minha avó e seus cuidados. Estava farto de chegar a horas certas, de ouvir reclamações; de ser vigiado, contemplado, querido. Sim, também a afeição de minha avó incomodava-me. Era quase palpável, quase como um objeto, uma túnica, um paletó justo que eu não pudesse despir.

Ela vivia a comprar-me remédios, a censurar minha falta de modos, a olhar-me, a repetir conselhos que eu já sabia de cor. Era boa demais, intoleravelmente boa e amorosa e justa.
Na véspera da viagem, enquanto eu a ajudava a arrumar as coisas na maleta, pensava que no dia seguinte estaria livre e imaginava o amplo mundo no qual iria desafogar-me: passeios, domingos sem missa, trabalho em vez de livros, mulheres nas praias, caras novas. Como tudo era fascinante! Que viesse logo. Que as horas corressem e eu me encontrasse imediatamente na posse de todos esses bens que me aguardavam. Que as horas voassem, voassem!

Percebi que minha avó não me olhava. A princípio, achei inexplicável ela fizesse isso, pois costumava fitar-me, longamente, com uma ternura que incomodava. Tive raiva do que me parecia um capricho e, como represália, fui para a cama.

Deixei a luz acesa. Sentia não sei que prazer em contar as vigas do teto, em olhar para a lâmpada. Desejava que nenhuma dessas coisas me afetasse e irritava-me por começar a entender que não conseguiria afastar-me delas sem emoção.

Minha avó fechara a maleta e agora se movia, devagar, calada, fiel ao seu hábito de fazer arrumações tardias. A quietude da casa parecia triste e ficava mais nítida com os poucos ruídos aos quais me fixava: manso arrastar de chinelos, cuidadoso abrir e lento fechar de gavetas, o tique-taque do relógio, tilintar de talheres, de xícaras.

Por fim, ela veio ao meu quarto, curvou-se:

— Acordado?

Apanhou o lençol e ia cobrir-me (gostava disto, ainda hoje o faz quando a visito); mas pretextei calor, beijei sua mão enrugada e, antes que ela saísse, dei-lhe as costas.
Não consegui dormir. Continuava preso a outros rumores. E quando estes se esvaíam, indistintas imagens me acossavam. Edifícios imensos, opressivos, barulho de trens, luzes, tudo a afligir-me, persistente, desagradável — imagens de febre.

Sentei-me na cama, as têmporas batendo, o coração inchado, retendo uma alegria dolorosa, que mais parecia um anúncio de morte. As horas passavam, cantavam grilos, minha avó tossia e voltava-se no leito, as molas duras rangiam ao peso de seu corpo. A tosse passou, emudeceram as molas; ficaram só os grilos e os relógios. Deitei-me.

Passava de meia-noite quando a velha cama gemeu: minha avó levantava-se. Abriu de leve a porta de seu quarto, sempre de leve entrou no meu, veio chegando e ficou de pé junto a mim. Com que finalidade? — perguntava eu. Cobrir-me ainda? Repetir-me conselhos? Ouvi-a então soluçar e quase fui sacudido por um acesso de raiva. Ela estava olhando para mim e chorando como se eu fosse um cadáver — pensei. Mas eu não me parecia em nada com um morto, senão no estar deitado. Estava vivo, bem vivo, não ia morrer. Sentia-me a ponto de gritar. Que me deixasse em paz e fosse chorar longe, na sala, na cozinha, no quintal, mas longe de mim. Eu não estava morto.

Afinal, ela beijou-me a fronte e se afastou, abafando os soluços. Eu crispei as mãos nas grades de ferro da cama, sobre as quais apoiei a testa ardente. E adormeci.

Acordei pela madrugada. A princípio com tranqüilidade, e logo com obstinação, quis novamente dormir. Inútil, o sono esgotara-se. Com precaução, acendi um fósforo: passava das três. Restavam-me, portanto, menos de duas horas, pois o trem chegaria às cinco. Veio-me então o desejo de não passar nem uma hora mais naquela casa. Partir, sem dizer nada, deixar quanto antes minhas cadeias de disciplina e de amor.

Com receio de fazer barulho, dirigi-me à cozinha, lavei o rosto, os dentes, penteei-me e, voltando ao meu quarto, vesti-me. Calcei os sapatos, sentei-me um instante à beira da cama. Minha avó continuava dormindo. Deveria fugir ou falar com ela? Ora, algumas palavras… Que me custava acordá-la, dizer-lhe adeus?

Ela estava encolhida, pequenina, envolta numa coberta escura. Toquei-lhe no ombro, ela se moveu, descobriu-se. Quis levantar-se e eu procurei detê-la. Não era preciso, eu tomaria um café na estação. Esquecera de falar com um colega e, se fosse esperar, talvez não houvesse mais tempo. Ainda assim, levantou-se. Ralhava comigo por não tê-la despertado antes, acusava-se de ter dormido muito. Tentava sorrir.

Não sei por que motivo, retardei ainda a partida. Andei pela casa, cabisbaixo, à procura de objetos imaginários enquanto ela me seguia, abrigada em sua coberta. Eu sabia que desejava beijar-me, prender-se a mim, e à simples idéia desses gestos, estremeci. Como seria se, na hora do adeus, ela chorasse?

Enfim, beijei sua mão, bati-lhe de leve na cabeça. Creio mesmo que lhe surpreendi um gesto de aproximação, decerto na esperança de um abraço final. Esquivei-me, apanhei a maleta e, ao fazê-lo, lancei um rápido olhar para a mesa (cuidadosamente posta para dois, com a humilde louça dos grandes dias e a velha toalha branca, bordada, que só se usava em nossos aniversários.

Fonte:
“Os Gestos”, Editora Melhoramentos — São Paulo, 1975 e “Os cem melhores contos brasileiros do século”, seleção de Ítalo Moriconi, Editora Objetiva — Rio de Janeiro, 2000, pág. 190. Disponível em
http://www.releituras.com/osmanlins_menu.asp

Deixe um comentário

Arquivado em Contos, O Escritor com a Palavra

Lygia Fagundes Telles (Venha ver o Pôr do Sol)

ELA SUBIU sem pressa a tortuosa ladeira. À medida que avançava, as casas iam rareando, modestas casas espalhadas sem simetria e ilhadas em terrenos baldios. No meio da rua sem calçamento, coberta aqui e ali por um mato rasteiro, algumas crianças brincavam de roda. A débil cantiga infantil era a única nota viva na quietude da tarde.

Ele a esperava encostado a uma árvore. Esguio e magro, metido num largo blusão azul-marinho, cabelos crescidos e desalinhados, tinham um jeito jovial de estudante.

– Minha querida Raquel.

Ela encarou-o, séria. E olhou para os próprios sapatos.

– Vejam que lama. Só mesmo você inventaria um encontro num lugar destes. Que idéia, Ricardo, que idéia! Tive que descer do táxi lá longe, jamais ele chegaria aqui em cima

Ele sorriu entre malicioso e ingênuo.

– Jamais, não é? Pensei que viesse vestida esportivamente e agora me aparece nessa elegância…Quando você andava comigo, usava uns sapatões de sete-léguas, lembra?

– Foi para falar sobre isso que você me fez subir até aqui? – perguntou ela, guardando as luvas na bolsa.
Tirou um cigarro. – Hem?!

– Ah, Raquel… – e ele tomou-a pelo braço rindo.

– Você está uma coisa de linda. E fuma agora uns cigarrinhos pilantras, azul e dourado…Juro que eu tinha que ver uma vez toda essa beleza, sentir esse perfume. Então fiz mal?

– Podia ter escolhido um outro lugar, não? – Abrandara a voz – E que é isso aí? Um cemitério?

Ele voltou-se para o velho muro arruinado. Indicou com o olhar o portão de ferro, carcomido pela ferrugem.

– Cemitério abandonado, meu anjo. Vivos e mortos, desertaram todos. Nem os fantasmas sobraram, olha aí como as criancinhas brincam sem medo – acrescentou, lançando um olhar às crianças rodando na sua ciranda. Ela tragou lentamente. Soprou a fumaça na cara do companheiro. Sorriu. – Ricardo e suas idéias. E agora? Qual é o programa?
Brandamente ele a tomou pela cintura.

– Conheço bem tudo isso, minha gente está enterrada aí. Vamos entrar um instante e te mostrarei o pôr do sol mais lindo do mundo.

Perplexa, ela encarou-o um instante. E vergou a cabeça para trás numa risada.

– Ver o pôr do sol!…Ah, meu Deus…Fabuloso, fabuloso!…Me implora um último encontro, me atormenta dias seguidos, me faz vir de longe para esta buraqueira, só mais uma vez, só mais uma! E para quê? Para ver o pôr do sol num cemitério…

Ele riu também, afetando encabulamento como um menino pilhado em falta.

– Raquel minha querida, não faça assim comigo. Você sabe que eu gostaria era de te levar ao meu apartamento, mas fiquei mais pobre ainda, como se isso fosse possível. Moro agora numa pensão horrenda, a dona é uma Medusa que vive espiando pelo buraco da fechadura…

– E você acha que eu iria?

– Não se zangue, sei que não iria, você está sendo fidelíssima. Então pensei, se pudéssemos conversar um instante numa rua afastada…- disse ele, aproximando-se mais. Acariciou-lhe o braço com as pontas dos dedos. Ficou sério. E aos poucos, inúmeras rugazinhas foram se formando em redor dos seus olhos ligeiramente apertados. Os leques de rugas se aprofundaram numa expressão astuta. Não era nesse instante tão jovem como aparentava. Mas logo sorriu e a rede de rugas desapareceu sem deixar vestígio. Voltou-lhe novamente o ar inexperiente e meio desatento -Você fez bem em vir.

– Quer dizer que o programa… E não podíamos tomar alguma coisa num bar?

– Estou sem dinheiro, meu anjo, vê se entende.

– Mas eu pago.

– Com o dinheiro dele? Prefiro beber formicida. Escolhi este passeio porque é de graça e muito decente, não pode haver passeio mais decente, não concorda comigo? Até romântico.

Ela olhou em redor. Puxou o braço que ele apertava.

– Foi um risco enorme Ricardo. Ele é ciumentíssimo. Está farto de saber que tive meus casos. Se nos pilha juntos, então sim, quero ver se alguma das suas fabulosas idéias vai me consertar a vida.

– Mas me lembrei deste lugar justamente porque não quero que você se arrisque, meu anjo. Não tem lugar mais discreto do que um cemitério abandonado, veja, completamente abandonado – prosseguiu ele, abrindo o portão. Os velhos gonzos gemeram. – Jamais seu amigo ou um amigo do seu amigo saberá que estivemos aqui.

– É um risco enorme, já disse . Não insista nessas brincadeiras, por favor. E se vem um enterro? Não suporto enterros.

– Mas enterro de quem? Raquel, Raquel, quantas vezes preciso repetir a mesma coisa?! Há séculos ninguém mais é enterrado aqui, acho que nem os ossos sobraram, que bobagem. Vem comigo, pode me dar o braço, não tenha medo…

O mato rasteiro dominava tudo. E, não satisfeito de ter se alastrado furioso pelos canteiros, subira pelas sepulturas, infiltrando-se ávido pelos rachões dos mármores, invadira alamedas de pedregulhos esverdinhados, como se quisesse com a sua violenta força de vida cobrir para sempre os últimos vestígios da morte. Foram andando vagarosamente pela longa alameda banhada de sol. Os passos de ambos ressoavam sonoros como uma estranha música feita do som das folhas secas trituradas sobre os pedregulhos. Amuada mas obediente, ela se deixava conduzir como uma criança. Às vezes mostrava certa curiosidade por uma ou outra sepultura com os pálidos medalhões de retratos esmaltados.

– É imenso, hem? E tão miserável, nunca vi um cemitério mais miserável, é deprimente – exclamou ela atirando a ponta do cigarro na direção de um anjinho de cabeça decepada.- Vamos embora, Ricardo, chega.

– Ah, Raquel, olha um pouco para esta tarde!

Deprimente por quê? Não sei onde foi que eu li, a beleza não está nem na luz da manhã nem na sombra da tarde, está no crepúsculo, nesse meio-tom, nessa ambigüidade. Estou lhe dando um crepúsculo numa bandeja e você se queixa.

– Não gosto de cemitério, já disse. E ainda mais cemitério pobre.

Delicadamente ele beijou-lhe a mão.

– Você prometeu dar um fim de tarde a este seu escravo.

– É, mas fiz mal. Pode ser muito engraçado, mas não quero me arriscar mais.

– Ele é tão rico assim?

– Riquíssimo. Vai me levar agora numa viagem fabulosa até o Oriente. Já ouviu falar no Oriente? Vamos até o Oriente, meu caro…

Ele apanhou um pedregulho e fechou-o na mão. A pequenina rede de rugas voltou a se estender em redor dos seus olhos. A fisionomia, tão aberta e lisa, repentinamente escureceu, envelhecida. Mas logo o sorriso reapareceu e as rugazinhas sumiram.

– Eu também te levei um dia para passear de barco, lembra?

Recostando a cabeça no ombro do homem, ela retardou o passo.

– Sabe Ricardo, acho que você é mesmo tantã…Mas, apesar de tudo, tenho às vezes saudade daquele tempo. Que ano aquele! Palavra que, quando penso, não entendo até hoje como agüentei tanto, imagine um ano.

– É que você tinha lido A dama das Camélias, ficou assim toda frágil, toda sentimental. E agora? Que romance você está lendo agora. Hem?

– Nenhum – respondeu ela, franzindo os lábios. Deteve-se para ler a inscrição de uma laje despedaçada: – A minha querida esposa, eternas saudades – leu em voz baixa. Fez um muxoxo.- Pois sim.

Durou pouco essa eternidade.

Ele atirou o pedregulho num canteiro ressequido.

Mas é esse abandono na morte que faz o encanto disto. Não se encontra mais a menor intervenção dos vivos, a estúpida intervenção dos vivos. Veja- disse, apontando uma sepultura fendida, a erva daninha brotando insólita de dentro da fenda -, o musgo já cobriu o nome na pedra. Por cima do musgo, ainda virão as raízes, depois as folhas…Esta a morte perfeita, nem lembrança, nem saudade, nem o nome sequer. Nem isso.

Ela aconchegou-se mais a ele. Bocejou.

– Está bem, mas agora vamos embora que já me diverti muito, faz tempo que não me divirto tanto, só mesmo um cara como você podia me fazer divertir assim – Deu-lhe um rápido beijo na face. – Chega Ricardo, quero ir embora.

– Mais alguns passos…

– Mas este cemitério não acaba mais, já andamos quilômetros! – Olhou para trás. – Nunca andei tanto, Ricardo, vou ficar exausta.

– A boa vida te deixou preguiçosa. Que feio – lamentou ele, impelindo-a para frente. – Dobrando esta alameda, fica o jazigo da minha gente, é de lá que se vê o pôr do sol. – E, tomando-a pela cintura: – Sabe, Raquel, andei muitas vezes por aqui de mãos dadas com minha prima. Tínhamos então doze anos. Todos os domingos minha mãe vinha trazer flores e arrumar nossa capelinha onde já estava enterrado meu pai. Eu e minha priminha vínhamos com ela e ficávamos por aí, de mãos dadas, fazendo tantos planos. Agora as duas estão mortas.

– Sua prima também?

– Também. Morreu quando completou quinze anos. Não era propriamente bonita, mas tinha uns olhos…Eram assim verdes como os seus, parecidos com os seus. Extraordinário, Raquel, extraordinário como vocês duas…Penso agora que toda a beleza dela residia apenas nos olhos, assim meio oblíquos, como os seus.

– Vocês se amaram?

– Ela me amou. Foi a única criatura que…- Fez um gesto. – Enfim não tem importância.
Raquel tirou-lhe o cigarro, tragou e depois devolveu-o

– Eu gostei de você, Ricardo.

– E eu te amei. E te amo ainda. Percebe agora a diferença?

Um pássaro rompeu o cipreste e soltou um grito. Ela estremeceu.

– Esfriou, não? Vamos embora.

– Já chegamos, meu anjo. Aqui estão meus mortos.

Pararam diante de uma capelinha coberta de alto a baixo por uma trepadeira selvagem, que a envolvia num furioso abraço de cipós e folhas. A estreita porta rangeu quando ele a abriu de par em par. A luz invadiu um cubículo de paredes enegrecidas, cheias de estrias de antigas goteiras. No centro do cubículo, um altar meio desmantelado, coberto por uma toalha que adquirira a cor do tempo. Dois vasos de desbotada opalina ladeavam um tosco crucifixo de madeira. Entre os braços da cruz, uma aranha tecera dois triângulos de teias já rompidas, pendendo como farrapos de um manto que alguém colocara sobre os ombro do Cristo. Na parede lateral, à direita da porta, uma portinhola de ferro dando acesso para uma escada de pedra, descendo em caracol para a catacumba.

Ela entrou na ponta dos pés, evitando roçar mesmo de leve naqueles restos da capelinha.

– Que triste é isto, Ricardo. Nunca mais você esteve aqui?

Ele tocou na face da imagem recoberta de poeira.

Sorriu melancólico.

– Sei que você gostaria de encontrar tudo limpinho, flores nos vasos, velas, sinais da minha dedicação, certo?

– Mas já disse que o que eu mais amo neste cemitério é precisamente esse abandono, esta solidão. As pontes com o outro mundo foram cortadas e aqui a morte se isolou total. Absoluta.

Ela adiantou-se e espiou através das enferrujadas barras de ferro da portinhola. Na semi-obscuridade do subsolo, os gavetões se estendiam ao longo das quatro paredes que formavam um estreito retângulo cinzento.

– E lá embaixo?

– Pois lá estão as gavetas. E, nas gavetas, minhas raízes. Pó, meu anjo, pó- murmurou ele. Abriu a portinhola e desceu a escada. Aproximou-se de uma gaveta no centro da parede, segurando firme na alça de bronze, como se fosse puxá-la. – A cômoda de pedra. Não é grandiosa?

Detendo-se no topo da escada, ela inclinou-se mais para ver melhor.

– Todas estas gavetas estão cheias?

– Cheias?…- Sorriu.- Só as que tem o retrato e a inscrição, está vendo? Nesta está o retrato da minha mãe, aqui ficou minha mãe- prosseguiu ele, tocando com as pontas dos dedos num medalhão esmaltado, embutido no centro da gaveta.

Ela cruzou os braços. Falou baixinho, um ligeiro tremor na voz.

– Vamos, Ricardo, vamos.

– Você está com medo?

– Claro que não, estou é com frio. Suba e vamos embora, estou com frio!

Ele não respondeu. Adiantara-se até um dos gavetões na parede oposta e acendeu um fósforo. Inclinou-se para o medalhão frouxamente iluminado:

– A priminha Maria Emília. Lembro-me até do dia em que tirou esse retrato. Foi umas duas semanas antes de morrer… Prendeu os cabelos com uma fita azul e vejo-a se exibir, estou bonita? Estou bonita?…- Falava agora consigo mesmo, doce e gravemente.- Não, não é que fosse bonita, mas os olhos…Venha ver, Raquel, é impressionante como tinha olhos iguais aos seus.

Ela desceu a escada, encolhendo-se para não esbarrar em nada.

– Que frio que faz aqui. E que escuro, não estou enxergando…

Acendendo outro fósforo, ele ofereceu-o à companheira.

– Pegue, dá para ver muito bem…- Afastou-se para o lado.- Repare nos olhos.

– Mas estão tão desbotados, mal se vê que é uma moça…- Antes da chama se apagar, aproximou-a da inscrição feita na pedra. Leu em voz alta, lentamente.- Maria Emília, nascida em vinte de maio de mil oitocentos e falecida…- Deixou cair o palito e ficou um instante imóvel – Mas esta não podia ser sua namorada, morreu há mais de cem anos! Seu menti…
Um baque metálico decepou-lhe a palavra pelo meio. Olhou em redor. A peça estava deserta. Voltou o olhar para a escada. No topo, Ricardo a observava por detrás da portinhola fechada. Tinha seu sorriso meio inocente, meio malicioso.

– Isto nunca foi o jazigo da sua família, seu mentiroso? Brincadeira mais cretina! – exclamou ela, subindo rapidamente a escada. – Não tem graça nenhuma, ouviu?

Ele esperou que ela chegasse quase a tocar o trinco da portinhola de ferro. Então deu uma volta à chave, arrancou-a da fechadura e saltou para trás.

– Ricardo, abre isto imediatamente! Vamos, imediatamente! – ordenou, torcendo o trinco.- Detesto esse tipo de brincadeira, você sabe disso. Seu idiota! É no que dá seguir a cabeça de um idiota desses. Brincadeira mais estúpida!

– Uma réstia de sol vai entrar pela frincha da porta, tem uma frincha na porta. Depois, vai se afastando devagarinho, bem devagarinho. Você terá o pôr do sol mais belo do mundo.

Ela sacudia a portinhola.

– Ricardo, chega, já disse! Chega! Abre imediatamente, imediatamente!- Sacudiu a portinhola com mais força ainda, agarrou-se a ela, dependurando-se por entre as grades. Ficou ofegante, os olhos cheios de lágrimas. Ensaiou um sorriso. – Ouça, meu bem, foi engraçadíssimo, mas agora preciso ir mesmo, vamos, abra…

Ele já não sorria. Estava sério, os olhos diminuídos. Em redor deles, reapareceram as rugazinhas abertas em leque.

– Boa noite, Raquel.

– Chega, Ricardo! Você vai me pagar!… – gritou ela, estendendo os braços por entre as grades, tentando agarrá-lo.- Cretino! Me dá a chave desta porcaria, vamos!- exigiu, examinando a fechadura nova em folha. Examinou em seguida as grades cobertas por uma crosta de ferrugem. Imobilizou-se. Foi erguendo o olhar até a chave que ele balançava pela argola, como um pêndulo. Encarou-o, apertando contra a grade a face sem cor. Esbugalhou os olhos num espasmo e amoleceu o corpo. Foi escorregando.

– Não, não…

Voltado ainda para ela, ele chegara até a porta e abriu os braços. Foi puxando as duas folhas escancaradas.

– Boa noite, meu anjo.

Os lábios dela se pregavam um ao outro, como se entre eles houvesse cola. Os olhos rodavam pesadamente numa expressão embrutecida.

– Não…

Guardando a chave no bolso, ele retomou o caminho percorrido. No breve silêncio, o som dos pedregulhos se entrechocando úmidos sob seus sapatos. E, de repente, o grito medonho, inumano:

– NÃO!

Durante algum tempo ele ainda ouviu os gritos que se multiplicaram, semelhantes aos de um animal sendo estraçalhado. Depois, os uivos foram ficando mais remotos, abafados como se viessem das profundezas da terra. Assim que atingiu o portão do cemitério, ele lançou ao poente um olhar mortiço. Ficou atento. Nenhum ouvido humano escutaria agora qualquer chamado. Acendeu um cigarro e foi descendo a ladeira. Crianças ao longe brincavam de roda.
===================

Biografia de Lygia postada em 21 de fevereiro de 2008
Conto O Moço do Saxofone postado em 2 de janeiro de 2008
===================
Fonte:
TELLES, Lygia Fagundes Telles. Antes do Baile Verde. Editora Livraria José Olympio. Disponível em
<
http://www.beatrix.pro.br/literatura/pordosol.html>

Deixe um comentário

Arquivado em Contos, Literatura Brasileira, O Escritor com a Palavra

Ariano Suassuna: O criativo e polêmico mestre das Letras no Nordeste

Eu vi a Morte, a moça Caetana,/ com o manto negro, rubro e amarelo./ Vi o inocente olhar, puro e perverso,/ e os dentes de Coral da desumana// Eu vi o Estrago , o bote, o ardor cruel(…) Ela virá, a Mulher aflando as asas,/ com os dentes de cristal , feitos de brasas (…) só assim verei a coroa da Chama e Deus, meu Rei, / assentado em seu trono do Sertão”.
Ariano Suassuna (Sonetos: “A Moça Caetana” e “A Morte”)

Uma análise da obra teatral de Ariano Suassuna nos faz mergulhar nas nossas origens culturais. Num recuo positivo em direção às sucessivas fontes que nos fizeram quem somos hoje: misto de regional e universal.

Os primeiros colonizadores trouxeram para cá a cultura européia, transmitida oralmente. Assimilada pelos nordestinos, desenvolveram-se as influências ibéricas e mediterrâneas.

Uma das influências que Ariano sofreu foi a dos escritores Gil Vicente, português, e do espanhol Calderón, ambos homens de teatro na época das grandes descobertas. Suassuna pratica o entrecruzamento de textos, adaptando várias obras populares (do cordel ao teatro europeu) ao seu modo. Conserva a língua popular, mas, com grafia e correção gramatical eruditas. Prepara o espectador para uma moral conforme o cristianismo. É muito comum em suas peças a cena de um “juízo final”(juiz-acusador-defensor-réu).

Além de usar textos alheios, recriando-os, Ariano pratica a intertextualidade , refazendo cenas de suas peças(exemplo: “O auto da Compadecida”) e enxertando-os em outras (em “A pena e a lei”).

Suas fontes vão de Shakespeare até a Bíblia. A intertextualidade ( “comunicação entre textos”) era prática comum desde a Idade Média. Ariano a mantém, utilizando o cordel, o bumba-meu-boi, o mamulengo e também mistura o popular ao erudito(Cervantes, Moliére), fazendo tudo às claras, muito bem explicado em prefácios , palestras e aulas.

PEÇAS PRINCIPAIS:

O AUTO DA COMPADECIDA(1955): Como sabemos, um “AUTO” é o teatro medieval de alegorias(pecado, virtude, etc.) . Personagens como santos, demônios. É um teatro de construção simples ,ingenuidade na linguagem, caracterização exacerbada e intenção moralizante, podendo conter o cômico. Para escrever esta peça, Suassuna baseou-se em folhetos populares – primeiro e segundo atos baseiam-se em, respectivamente, ” O Enterro do Cachorro” e “A História do Cavalo que defecava dinheiro “, textos de Leandro Gomes. O terceiro ato é uma mistura de “O castigo da sabedoria”, de Anselmo Vieira e “A peleja da alma”, de Silvino Pirauá Lima. A invocação de João Grilo à Maria e o nome “Compadecida” também são inspirados em textos populares. João Grilo é o herói picaresco, passou fome e mente para ganhar o que quer, seu amigo Chicó também é mentiroso. A infidelidade da mulher do padeiro, a mesquinhez deste, o anticlericalismo e o cangaço são analisados por Suassuna num julgamento presidido por Maria, Jesus (negro) e atiçado por uma figura diabólica. No final, João Grilo volta à vida depois de morto.

A FARSA DA BOA PREGUIÇA(1955): Escrita em versos livres, tem trechos cantados. Cita a Bíblia e Camões, poeta da Renascença portuguesa. Cada ato tem uma certa independência um do outro (“O peru do cão coxo”, “A cabra do cão caolho” e “O rico avarento”). A inspiração de Suassuna desta vez recai sobre a arte do mamulengo, teatro de bonecos do Nordeste, com suas pancadarias e mestres, sua trama simples , como por exemplo, o patrão sempre é culpado. A história do diabo que quer levar uma mulher e um homem para o inferno. A exploração do homem pelo homem. A falta de caridade , a preguiça, a prova imposta à mulher, a vitória, seres celestiais disfarçados de pedintes e seres infernais oferecendo o pecado são temas que mais uma vez nos remetem à referida simplicidade medieval que apontamos no início deste estudo.

O CASAMENTO SUSPEITOSO(1957) : É uma comédia de costumes. Trata do tema casamento por dinheiro. A ação se passa na casa da matriarca de uma família, dona Guida. Travestimentos, cenas de pancadaria e sátira aos membros da igreja e da justiça compõem esta peça. Cancão (figura tomada emprestada do bumba-meu-boi) é o empregado esperto e também faz lembrar alguns personagens das comédias de Molière (autor de comédias, francês).

O SANTO E A PORCA(1957), o casamento da filha de um avarento. O “santo ” em questão é Santo Antônio e a “porca” é um cofrinho, símbolo do acúmulo de dinheiro (tão protetor quanto o santo).

A PENA E A LEI(1959) : Aqui Suassuna reaproveitou cenas de seus textos “Torturas de um Coração” e da “Compadecida”, numa encenação que vai do boneco irresponsável ao ser humano pleno diante de Deus (Benedito, Mateus, Cheiroso e Cheirosa intensificam o cômico). A peça diverte mas também analisa as questões sociais: trabalho na usina, reivindicações dos trabalhadores, companhias estrangeiras, fome, prostituição em cenas curtas e de muita movimentação. A preocupação com a moral está sempre presente e o trágico é diluído pelo cômico . São personagens estereotipados . Suassuna também se utiliza das cantorias nordestinas.

RESUMINDO: a comédia da antigüidade, o teatro religioso, a arte popular do Nordeste e seus folguedos são as salutares influências deste mestre das letras que é o paraibano Ariano Suassuna, Ex-aluno do Colégio Americano Batista do Recife (dos 10 aos 15 anos, uma fase de sua vida que sempre recorda com saudade), professor de Filosofia, foi secretário de cultura do governo Arraes e que também é autor de três romances: “Fernando e Isaura” (sobre um amor impossível”, ) , “Romance d´A pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e Volta” .(Ed. José Olympio. RJ. 1970), sobre um poeta que na década de 30 sonha em escrever um épico nordestino e acaba preso como comunista e “História d´O Rei Degolado nas Caatingas do Sertão: Ao sol da onça Caetana”, suas lembranças de infância e do pai, mescladas num sertão mítico.

Ariano é fundador do MOVIMENTO ARMORIAL , reafirmando no nordeste a influência ibérica, africana e indígena.

A musicalidade dos textos de Ariano é agreste. Sua poesia rebrilha à luz ardente do Nordeste.

“Não faço distinção entre a cultura popular e a erudita. A cultura brasileira, a cultura popular brasileira, não está ameaçada . Ela é resistente. Estão tentando matá-la, mas não conseguirão” , diz Ariano e nos convida ao deleite com pérolas do cancioneiro ibérico, a arquitetura africana, as cores da África, textos de José de Alencar, de Aluízio Azevedo. E é no Romanceiro popular que Ariano mais se inspira. Nas novelas de cavalaria, nos amores incríveis, nos heróis picarescos (zombeteiros) que permeiam as histórias que o povo conhece. Ele chega a usar um mesmo texto várias vezes como base para sua recriação. “A novela da Renascença é picaresca. O personagem principal é a Fome”. Emigra para o Brasil o herói pícaro ibérico, o astucioso que difere do opressor que é o lado ruim . Ao comentar o Brasil antes de Cabral, Ariano reafirma nossa cultura milenar : “Existia teatro indígena antes da chegada dos jesuítas . É absurdo centralizar a origem do teatro. O teatro japonês não nasceu na Grécia. Tem outra origem. O teatro indígena é um teatro de máscaras e excelentes figurinos e enredos fascinantes que envolvem sua religiosidade. Eu queria que um cineasta brasileiro fizesse com este tipo de teatro brasileiro o que o cineasta japonês Kurosawa fez com o antigo teatro japonês, o teatro Nô e com o Kabuki . Injustiça social não é base para a arte popular. Ela também não é primitiva. Os violeiros vêem televisão, os artistas populares transformam as informações universais em linguagem com temática local. Temos que fortalecer nossa cultura”. Para isso, Ariano usa seus conhecimentos de Filosofia, História e Literatura, trabalhando o belo de forma dialética, unindo-o ao cômico misturando o espírito intelectual com a esperança no homem, fundindo nossa herança barroca com um espírito neoclássico .

Análise do “Romance d´A Pedra do Reino” (1970) : Ariano recheia seu livro “Romance d´ A Pedra do Reino” com humor malicioso e exibe sua perícia na selva das palavras. Mistura nobres e pobres num processo criativo ímpar. Os colonizadores do Brasil aparecem como bravos que tiveram coragem de matar para estabelecer novos rumos. Ariano traz para a narrativa suas experiências com o teatro e a poesia, brinca com a metalinguagem, expõe os “mistérios” da criação. O tema central do romance são as artimanhas de Quaderna e a trágica história dos seus antepassados na cidade de São José do Belmonte, interior de Pernambuco. Ariano, através da narração em primeira pessoa (Quaderna), descreve paisagens e situações alucinantes, reinventa a cronologia, adapta fatos históricos à sua ficção ( a magia das grandes navegações, as cruzadas, os romances de cavalaria, as revoluções. Se Alencar foi exuberante mas não ousou exibir um herói picaresco, Ariano, com seu Regionalismo natural, busca as interseções entre o popular e o erudito, misturando a poética aristotélica com Romantismo e buscando o êxtase criativo num realismo que alguns intelectuais rotulam de mágico, fantástico. O encatatório, o mítico, o exótico vão delineando o espaço criativo que traça o painel do sonho de uma monarquia de esquerda , sonho que Ariano alimentou durante algum tempo. Obcecado em criar uma epopéia nordestina, o narrador torna- se cômico e o recurso Deus ex machina (sobrenatural) surge para resolver as inquietações da alma que perturbam a raça humana. Outro mito recorrente é o sebastianismo.

Podemos até arriscar em julgar o discurso de Ariano como um discurso maniqueísta que recusa a polifonia. Mestre na arte literária, ele criou um herói bufão numa espécie de circo fantasioso e hedonista em busca de um sentido , de dignidade, num emaranhado de “causos” alinhados por uma escrita competente que se utiliza do pictórico (xilogravuras) para reforçar seu discurso que, no fundo, transforma o interior de Pernambuco numa espécie de Camelot da caatinga, onde humor e malícia unem-se ao ingênuo, à lenda do cavaleiro que enfrenta as instituições (representadas no texto pelo Corregedor) e o imaginário supera o racional na reinvenção do passado histórico, através da alquimia verbal típica de Suassuna que rompe a linearidade, enxertando a todo instante várias tramas secundárias à narrativa central, numa colagem que redimensiona a obra em pequenos contos. O julgamento de Quaderna é a espinha dorsal do texto que vai buscar nos poetas populares (cordel e emboladores ) suas referências. Depois de trair seus amigos covardes, Quaderna busca a imortalidade através da Literatura , quer ser fidalgo. Quer louvar sua estirpe. Tenta reiventar Homero , a sua Odisséia é através do Atlântico nordestino e sua Ilíada tem como palco o sertão, ali está a Onça Caetana( a morte, a vida , o amor, a nacionalidade). Seres fantásticos pululam ao lado de personagens estilizados numa narrativa explosiva recheada de situações absurdas .
.

Fonte:
Moisés Neto
Professor com pós-graduação em Literatura, escritor, membro da diretoria do SATED
http://www.moisesneto.com.br/estudo05.html

Deixe um comentário

Arquivado em Estudos Literários, Literatura Brasileira

Leon Eliachar ( 1922 – 1987)

Leon Eliachar nasceu na cidade do Cairo, no Egito, no dia 12 de outubro de 1922. Veio muito pequeno para o Brasil e se tornou um dos melhores jornalistas de humor da imprensa falada e escrita, após ter atingido a idade
da razão — ou do disparate, como costumava dizer. Era tão brasileiro como qualquer brasileiro, embora conste que nunca tenha se naturalizado.

Jornalista desde os 19 anos de idade, trabalhou em diversos jornais e revistas, fixando-se, por último, na “Ultima Hora”, onde, seguindo o exemplo de Aporelly (o Barão de Itararé) nos tempos de “A Manhã” com “A Manha”, mantinha uma página, às vezes reduzida a meia, com o título de “Penúltima Hora”. Justificava o nome da página com a legenda “Um jornal feito na véspera”.

Colaborador (arrependido, segundo o autor) dos argumentos de dois filmes carnavalescos, foi autor de programas de rádio e secretário da revista “Manchete”.
Em 1956 foi laureado com o primeiro prêmio (“Palma de Ouro) na IX Exposição Internacional de Humorismo realizada na Europa — Bordighera, Itália, por sua definição de humor acima citada, e uma historieta, “O Judeu” (leia em “Contos”, no Releituras), sobre o qual afirmou ter podido escrever sem parecer anti-semita, pois ele próprio era judeu.

Há pouquíssimo material sobre o biografado. A maior parte são artigos escritos por ele e por amigos, todos muito bem humorados, cheios de nonsense, o que bem demonstra o espírito do biografado.

Leon Eliachar foi assassinado na cidade do Rio de Janeiro, em 29 de maio de 1987. Segundo o noticiário da época, a mando de um rico fazendeiro paranaense com cuja esposa o autor vinha mantendo um romance.

POR ALTO, BIOGRAFIA

Nasci no Cairo, fui criado no Rio; sou, portanto, “cairoca”. Tenho cabelos castanhos, cada vez menos castanhos e menos cabelos. Um metro e 71 de altura, 64 de peso, 84 de tórax (respirando, 91), 70 de cintura e 6,5 de barriga.

Em 1492, Colombo descobriu a América; em 1922, a América me descobriu. Sou brasileiro desde que cheguei (aos 10 meses de idade), mas oficialmente, há uns dois anos; passei 35 anos tratando da naturalização. Minha carreira de criança começou quando quebrei a cabeça, aos dois anos de idade; minha carreira de adulto, quando comecei a fazer humorismo (passei a quebrar a cabeça diariamente). Tive vários empregos: ajudante de balcão, ajudante de escritório, ajudante de diretor de cinema, ajudante de diretor de revista, ajudante de diretor de jornal. Um dia resolvi ajudar a mim mesmo sem a humilhação de ingressar na Política: comecei a fazer gracinhas — fora da Câmara. Nunca me dei melhor. Meu maior sonho é ter uma casa de campo com piscina, um iate, um apartamento duplex, um corpo de secretárias, um helicóptero, uma conta no banco, uma praia particular e um “short”. Por enquanto já tenho o “short”.

Sou a favor do divórcio, a favor do desquite e a favor do casamento. Sem ser a favor deste último não poderia ser dos primeiros. Sou contra o jogo, o roubo, a corrupção e o golpe; se eu fosse candidato isso não deixaria de ser um grande golpe.
O que mais adoro: escrever cartas. O que mais detesto: pô-las no Correio. Minha cor preferida é a morena, algumas vezes a loura. Meu prato predileto é o prato fundo. O que mais aprecio nos homens: suas mulheres – e nas mulheres, as próprias. Acho a pena de morte uma pena.

Não sou supersticioso, mas por via das dúvidas, evito o “s” depois do “r” nessa palavra. Se não fosse o que sou, gostaria de ser humorista. Trabalho 20 horas por dia, mas, felizmente, só uma vez por semana; nos outros dias, passo o tempo recusando propostas — inclusive de casamento. Acho que a mulher ideal é a que gosta da gente como a gente gostaria que ela gostasse — isso se a gente gostasse dela. Para a mulher, o homem ideal é o que quer casar. Mas deixa de ser ideal logo depois do casamento, quando o ideal seria que não deixasse. Mas isso não impede que eu seja, algum dia, um homem ideal.

Leon Eliachar, no livro “O Homem ao Quadrado”, Livraria Francisco Alves/Editora Paulo de Azevedo Ltda., Rio de Janeiro, 1960 (orelhas da capa e contracapa.)

AUTOBIOGRAFIA DE UM FÔLEGO SÓ

Meu nome é esse mesmo, Leon Eliachar, tenho 44 anos, mas me orgulho de já ter tido 43, 42, 41, 40, 39, idades que muitas mulheres de 50 jamais atingiram, sou humorista profissional peso-leve, pois detesto as piadas pesadas, consegui atingir o chamado “preço teto” da imprensa brasileira, quer dizer, cheguei a ganhar um salário com o qual nunca pude adquirir um teto, sou a favor do casamento, sou a favor do divórcio, sou a favor do desquite e sou a favor dos que são contra tudo isso que eles devem ter lá os seus motivos, fui fichado com dificuldade no Instituto Félix Pacheco não pelo atestado de bons antecedentes, mas pelas dificuldades com que se tira um atestado, já fiz de tudo nessa vida, varri escritório, fiz entrega de embrulho, crítica de cinema, crônica de rádio, comentário de televisão, secretário de redação, colunismo social, reportagem policial, assistente de direção, peça de teatro, show de boate, relações públicas, corretagem de anúncios, script de cinema, entrevista política, suplemento feminino, até chegar ao humorismo, ainda não sei se o humorismo foi o princípio ou o fim da minha carreira, acho que ninguém faz nada por necessidade mas por vocação, isto é, por vocação da necessidade, tenho experiência bastante pra saber que não sou experiente, minha capacidade de compreensão chega exatamente no ponto em que ninguém mais me pode compreender, as mulheres tiveram forte influência na minha vida desde a minha mãe até à minha mulher, com escalas naturalmente, tive duas grandes emoções na vida, a primeira quando minha mulher disse “sim” e a segunda quando seus pais disseram “não”, sou a favor das camas separadas, principalmente pra quem se casou com separação de bens, não guardo rancor por absoluta falta de espaço, uma das coisas que mais aprecio é Nova York coberta de neve – quando estou em Copacabana tomando sol, o melhor programa do mundo é ir ao dentista – pelo menos para o dentista, não vou a casamento de inimigo, muito menos de amigo, desde criança faço força pra ser original e o máximo que consigo é ser uma cópia de mim mesmo, meu grande complexo é não saber tocar piano, mas muito maior deve ser o complexo de outros homens que também não sabem tocar e são pianistas, meus autores favoritos são os que me caem nas mãos, escrevo à máquina com vinte dedos porque minha secretária passa a limpo, gosto de televisão às vezes quando ligo às vezes quando desligo, num enterro fico triste por não saber fingir que estou triste, aprecio as quatro estações, mas prefiro o verão no inverno e o inverno no verão, passei fome várias vezes e agora estou de dieta, acho a rosa uma mensagem definitiva porque custa menos que um telegrama e diz muito mais, sou a favor da pílula anticoncepcional porque ela resolve o problema da metade da população do mundo, acho que deviam inventar a pílula concepcional pra resolver o problema da outra metade, cobrador na minha casa não bate na porta perguntando se pode entrar, eu é que bato perguntando se posso sair, sou um homem pobre porque toda vez que batem à minha porta mando dizer que estou, meu cartão de visitas não tem nome nem telefone, assim ninguém sabe quem sou nem onde posso ser encontrado, prefiro o regime da ditadura porque não tenho trabalho de ensinar meu filho a falar, posso dizer com orgulho que sou um humilde, sou o único sujeito do mundo que dá o salto mortal autêntico, mas nunca dei, leio quatro jornais por dia e a única esperança que encontro são os horóscopos cercados de desgraças por todos os lados, acredito mais nos inimigos do que nos amigos porque os inimigos estão sempre de olho, minha maior alegria foi quando venci num concurso internacional de humorismo, em Bordighera, Itália, obtendo o primeiro e o segundo prêmios entre os participantes de 16 nações concorrentes, fiquei sabendo que havia humoristas piores do que eu, procuro manter sempre o mesmo nível de humor, mas a culpa não é minha: tem dias que o leitor está mais fraco.

LEON ELIACHAR, em “O Homem ao Zero”. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1968.

RETRATOS 3 x 4 DE AMIGOS 6 x 9

Por mais que procure ser excêntrico, Leon é concêntrico. Pois em matéria de conclusões consigo próprio ele confia apenas em consigo mesmo. Carioca cairoca (nasceu no Cairo, capital de Tel-aviv), tem uma idade indefinível, entre os 25 e os 250 anos. Uns dizem que ele nasceu depois da Segunda Guerra Mundial, outros afirmam que foi no momento em que ele nasceu que a briga começou. Promotor nato, veio ao mundo por uma gentileza especial do Todo-poderoso e só pretende sair com a Bomba, isto é, numa queima geral de todo o estoque. Dizem que ele não só sugeriu ao Criador a idéia dos dois sexos (a idéia do terceiro sexo foi do Sérgio Porto) como insistiu ainda para que o sexo masculino fosse feito em gás néon, coisa que o Senhor achou de um exibicionismo excessivo (Que pena!).

Aos três anos de idade Leon queria ser Presidente da República. De lá pra cá sua ambição não parou. Jogador de pôquer, para combater o típico pocker-face, ele inventou a própria cara, tão enigmática que ficou conhecida como Leonfauce. A verdade é que nele a natureza colocou o primeiro olho com zoom. Aliás, muitos consideram sua cara a sua maior piada; mas parece que a piada saiu sem querer numa noite em que papai e mamãe Eliachar estavam de bom humor. É o único escritor brasileiro que conseguiu ter um livro anunciado no Maracanã, junto com a irradiação da renda. Com isso a renda do livro ultrapassou a do estádio. Sua famosa campanha “Ponha um Leon na sua estante” deixou o tigre da Esso com a pulga entre as pernas e o Leon da Metro com o rabo atrás da orelha. Este ano Leon fez um programa pro Chico Anísio que acabou fazendo parte do programa. Ator de cinema, teatro e televisão, acredita que a água do mar é salgada e só não vende mais que a água potável por falta de promoção. Acha que todo mundo deve se promover até atingir a própria importância. Aliás, gosta tanto de gente importante que só lê Enciclopédia, porque ali gentinha não entra. Organizadíssimo, fez até seguro contra milicianos transviados e, seguríssimo, só vai a médico quando este está realmente em estado grave. Sua conversa ao telefone é tão interessante, que determinadas autoridades já gravaram várias. É o primeiro a rir das próprias piadas; antes que algum infeliz o faça. Os inimigos o consideram o maior humorista do Oriente Médio, mas a verdade é que sem o seu humorismo nenhum gabinete dentário pode se considerar completo. Os admiradores acham que, quando ele morrer, deixará uma lacuna impreenchível. Conhecendo Leon como conheço, garanto que não vai deixar lacuna alguma — leva a lacuna com ele.

Millôr Fernandes, que tem, dentre outras qualidades, a de ser o melhor profissional de humor brasileiro, escreveu uma série de artigos denominados “Retratos 3×4 de alguns amigos 6×9”. Publicado originalmente na Revista Veja, em 1969, o texto acima foi extraído de seu livro “Trinta anos de mim mesmo”, Editora Nórdica – Rio de Janeiro, 1972, pág.181.

APRESENTAÇÃO

Leon Eliachar de Aljubarrota nasceu na quinta do Alverde, casa 5, lado esquerdo. Cresceu em meio às benesses da primavera. Aos 14 anos de idade, sofreu um acidente de velocipídico, machucando o dedão do pé esquerdo. Mais tarde, escreveria uma ode a esse respeito.

Leon Eliachar de Aljubarrota custou muito a encontrar a rota. Mas acabou encontrando, isto aos quarenta e sete anos (mais ou menos), no quilômetro 46 da estrada Rio—São Paulo. Encontrou e não devolveu. Sendo assim, publicou os seguintes livros: O Homem ao Quadrado (1927), O Homem ao Cubo (416 a.C.), Por que me ufano do meu país (1870, com a colaboração do Conde de Afonso Celso), O Homem ao Zero (1939, infelizmente destruído pelas hordas paraguaias que nessa data fatídica invadiram o Uruguai); Quarup, by Antônio Callado; Os Sertões, de Euclides da Cunha; Listas Telefônicas Brasileiras, de vários autores e assinantes; Brás, Bexiga e Barra Funda, de Vinícius de Moraes; A Nova Constituição Brasileira, 1964, autor desconhecido; Leon Eliachar par lui même, by Leon Eliachar; Os Olhos Dourados de Ódio, edição conjunta (digo bilíngüe) com Rubem Braga; O Homem Nu, variação de O Homem ao Cubo; e assim por diante. Maiores detalhes, biblioteca do Museu da Imagem e do Som, Rua Bartolomeu Mitre, 16, sobreloja.

José Carlos Oliveira fez esta apresentação (um exemplo de nonsense) do biografado no livro “10 em Humor”, Editora Expressão e Cultura, Rio de Janeiro, 1968, pág. 24.

NECROLÓGICO

O meu quem faz sou eu, que não sou bobo. Detesto a pressa dos jornalistas que querem fechar a página do jornal de qualquer maneira e acabam enchendo o espaço com os lugares-comuns do sentimentalismo. Nada de “coitadinho era um bom rapaz” nem que “era tão moço”, porque há muito deixei de ser um bom rapaz e nem sou tão moço assim. Quero que o meu necrológio seja sincero, porque de nada me valerá a vaidade depois de eu morrer – a não ser a vaidade de estar morto. Fui mau filho, mas isso não quer dizer que meus pais fossem melhores filhos que eu se fosse eu o pai. Não fui mau marido e acredito que seja porque não tivesse chance de ser, vontade não me faltou. Nunca roubei, nunca menti: esses os meus piores defeitos. Minha grande qualidade era ter todos os outros defeitos. Fui egoísta toda vida, como todo mundo, mas nunca revelei nada a ninguém, como todo mundo. Passei a vida tentando fazer os outros rirem de si mesmos: é possível que agora riam de mim. Fui valente e fui covarde, só tive medo de mim mesmo o que prova a minha valentia. Nunca amei ao próximo como a mim mesmo, em compensação nunca ninguém me amou como eu mesmo. Tive milhões de complexos e venci-os todos, um por um, com exceção do complexo de morrer: esse morre comigo. Nunca dei nem tomei nada de ninguém, mas faço questão de deixar tudo o que não tenho para os que têm menos do que eu. Nunca cobicei a mulher do próximo: só a do afastado. Jamais entendi perfeitamente o que era o “bem” e o “mal”, embora a maioria das pessoas me achasse um homem de bem e este era o mal. Defendi a minha vida como pude, mas nunca arrisquei a vida para defendê-la. Nunca me preocupei com dinheiro, pois sempre tive pouco. Acreditei mais nos inimigos do que nos amigos, porque os amigos nem sempre se preocupam com a gente. Jamais tive um segredo, passei todos adiante Conquistei muitas mulheres, algumas com os olhos, outras com os lábios e outras com o braço. Tive pavor dos médicos, porque eles sempre descobrem as doenças que a gente nem sabia que tinha há tanto tempo. Me orgulho de ter vivido oitenta anos em apenas quarenta: finalmente me livrei dessa maldita insônia.
Leon Eliachar em “O Homem ao Cubo”, José Álvaro Editor – Rio de Janeiro, 1964, (orelhas da capa e da contracapa.)

No dia 21/06/2007, Leon Eliachar foi homenageado pela Casa de Rui Barbosa, na cidade do Rio de Janeiro (RJ), onde estão os arquivos do humorista. Participaram do evento o cirurgião plástico Ivo Pitanguy e o cartunista Jaguar, amigos de Leon, e Sérgio Eliachar, filho do escritor.

BIBLIOGRAFIA:
– O Homem ao Quadrado (1960) – capa e desenhos de Cyro del Nero.
– O Homem ao Cubo (1963) – capa e paginação de Fortuna.
– A Mulher em Flagrante (1965) – capa executada por Juarez Machado; desenhos e paginação de Fortuna.
– O Homem ao Zero (1967) – capa de Gian.
– 10 em Humor (1968) – em conjunto com Millôr Fernandes, Stanislaw P. Preta, Fortuna, Ziraldo, Jaguar, Claudius, Zélio, Henfil e Vagn.

Fonte:
http://www.releituras.com/leoneliachar_bio.asp

Deixe um comentário

Arquivado em Biografia, Humorismo, Literatura Brasileira

Leon Eliachar (O Homem ao Quadrado)

Definição de Humorismo:

– Humorismo é a arte de fazer cócegas no raciocínio dos outros. Há duas espécies de humorismo: o trágico e o cômico. O trágico é o que não consegue fazer rir; o cômico é o que é verdadeiramente trágico de se fazer.

Dicionário de bolso:

– ADIAR – é essa atitude que estamos sempre tomando daqui a pouco.

– BUZINA – é esse ruído que irrita o motorista da frente quando o de trás já está irritado.

– CABOTINO – é esse sujeito que consegue transformar qualquer assunto numa auto-biografia.

– TÉCNICO – sujeito que se especializa em não entender nada de apenas uma matéria.

– ZAROLHO – sujeito que tira uma pequena para dançar e saem as duas.

– Datilógrapha conservadora é a que não se conphorma com a ortographia moderna.

– Dalitófraga estrábica é a que passa o dia inreito trocadno as lestra e as síbalas.

– Datilgfa pregç n/ precis nem compl as plavras.

– Datilógrafa de kolunixta çossial tem de comtar mezmu é com a revizãu.

Cartas:
— Sou branca, meu marido é branco e tivemos um filho preto. Como o senhor explica isso?
(Jandira – Ceará)

— Lamento muito, mas quem tem de se explicar é a senhora. Vocês que são brancos que se entendam.

Acidente:
Leocádia era dessas que tinha verdadeira alucinação por “lingerie”. Pra ela, o mais importante na linha da elegância era a roupa de baixo. Todos os dias, chegava em casa, abria os embrulhos na frente do marido, exibia calcinhas com bordadinhos e rendinhas de todas as cores e de todas as qualidades de tecidos. O marido não entendia:

— De que adianta tudo isso, se ninguém vê?

Ela sorria orgulhosa:

— É o que você pensa. Pode dar um ventinho na rua, sabe lá?

Um dia ele estava no escritório, quando o chamaram ao telefone. Era do Hospital dos Acidentados, pra lhe comunicar que a sua mulher havia sofrido um desastre. Correu pra lá e assim que fez a descrição da mulher, um enfermeiro disse pro outro:

— Ei, você aí. Leve este senhor naquele quarto. Está procurando aquela senhora sem calça.

Teve um troço, foi medicado ali mesmo. Duas semanas depois de Leocádia ter alta, ele continuou no Hospital, em convalescença.

Fonte:
O Homem ao Quadrado
http://www.releituras.com/leoneliachar_homem.asp

Deixe um comentário

Arquivado em Humorismo, Literatura Brasileira

Leon Eliachar (Conheça-se a si mesmo)

VOCÊ É NERVOSO?

1 – Você buzina uma fração de segundo após abrir o sinal, porque acha que o carro da frente não quer andar?

2 – Você acha que o sujeito de trás é um imbecil, quando se dá o inverso: isto é, quando você está na frente e ele buzina atrás?

3 – Você tem vontade de sair do carro e massacrar o motorista de cada táxi que lhe dá uma “fechada”?

4 – Você acha realmente que todo pedestre que atravessa na frente de seu carro é um idiota?

5 – Você tem vontade de abandonar o carro pro resto da vida, quando fura um pneu no meio da estrada?

CONCLUSÃO: Se respondeu “sim” a todas as perguntas, você não é, absolutamente, um nervoso, mas simplesmente um motorista. Se respondeu “não” a qualquer das perguntas, siga este conselho: por que não compra um carro?

VOCÊ É MEDROSO?

1 – Quando alguém fica batendo com o pé na sua poltrona, num cinema você evita reclamar por que aí mesmo é que o sujeito pode insistir?

2 – Quando o elevador enguiça entre dois andares e a campainha de emergência não funciona, você grita por socorro ou senta calmamente e espera que o porteiro descubra que o elevador enguiçou?

3 – Quando o dono da casa abre a porta pra você entrar, você vai logo perguntando se tem cachorro?

4 – Quando você está acompanhado de uma moça, evita passar no meio de um grupo de rapazes, com receio que dêem piadinhas para ela e você tenha de tomar uma atitude?

5 – Quando você vai à praia e vê, no posto, uma bandeirinha vermelha, deixa de cair n’água?

CONCLUSÃO: Se você respondeu “sim” a todas estas perguntas, desculpe, mas é muito chato. Se respondeu “não” é mais chato ainda, parque demonstrou que não teve nem coragem pra responder “sim”.

VOCÊ TEM COMPLEXO DE INFERIORIDADE?

1 – Quando você vê na praia um atleta, pensa intimamente que, amanhã vai começar a fazer ginástica?

2 – Quando sua calça rasga-se na rua, fica constrangido por que podem pensar que você já saiu com ela assim de casa?

3 – Quando você vê uma mulher muito bonita, pensa logo na sua – que não é tanto – mas fica satisfeito mesmo com a que tem, por que acha que não pode ter melhor?

4 – Quando você se olha no espelho, de manhã, procura se justificar de que a que vale mesmo é a simpatia?

5 – Se você é casado, deixa de confessar isso, num grupo de solteiros, com vergonha que pensem que você é otário, ou se é solteiro, também esconde, com receio que pensem que você não conseguiu casar?

CONCLUSÃO: Se você respondeu “não” a todas estas perguntas, não se preocupe, você não tem complexo de inferioridade; se respondeu “sim”, pode começar a se preocupar, porque se você não tinha complexos vai começar a ter, agora.

VOCÊ TEM BOA MEMÓRIA?

1 – Você se lembra em que dia da semana conheceu sua mulher?

2 – Você se lembra do número do telefone da sua primeira namorada?

3 – Você se lembra do número de páginas que tinha o primeiro livro que você leu?

4 – Você se lembra com quantos dias de atraso recebeu o seu primeiro ordenado?

5 – Você se lembra de que cor era o vestido de sua tia mais velha, no dia em que você caiu da bicicleta pela primeira vez?

CONCLUSÃO: Respondeu-se “sim” a todas as perguntas, esteja certo: você é um fenômeno. Mas se você argumentar que não pôde responder por que nunca leu um livro, sempre recebeu em dia e nunca levou tombo de bicicleta, então esteja mais certo ainda: Você é um fenômeno muito maior.

VOCÊ É DISTRAÍDO?

1 – Você costuma reparar quando sua mulher, noiva ou namorada põe um vestido novo?

3 – Você costuma se lembrar, exatamente, em que pedaço do filme chegou ou tem que ver mais um pedacinho?

5 – Você costuma, todo ano, cair no dia primeira de abril?

2 – Você tem o hábito de atravessar a rua sem olhar para os dois lados?

4 – Você costuma conversar com uma pessoa durante horas, sem prestar atenção, tentando descobrir de onde é mesmo que você a conhece?

CONCLUSÃO: Se você respondeu “sim” ou “não” a qualquer destas perguntas, isso não tem a menor importância; mas se você não reparou que a numeração deste último teste está completamente alterada, então, meu caro, você não é um distraído, é mais que isso: é um ceguinho. E daí, vai bater?

Fonte:
Conheça-se a Si Mesmo
http://www.releituras.com/leoneliachar_conheca.asp

Deixe um comentário

Arquivado em Cronicas - Contos, Humorismo, Literatura Brasileira, Magia das Palavras

Deonisio da Silva (Expressões e Suas Origens L – M – N)

Lamber os dedos
As origens desta expressão prendem-se ao costume de dispensar talheres para as refeições. Tomando os alimentos nas mãos, alguns lambiam os próprios dedos, para aproveitar os últimos restinhos do sabor. Usamos a frase para indicar estado de grande satisfação, recordando na prática antiga de prolongar os prazeres da boa mesa. O dramaturgo Gil Vicente (1465-1536), fundador do teatro português, foi um dos primeiros a registrá-la, na Farsa dos físicos. Outro português, Garcia de Resende (1470-1536), também a transcreveu nuns versos em que alude a uma mulher “que lambeu o dedo depois de gostar”. Em antigas cortes muitos foram os soberanos que recusaram o uso de talheres, em nome do paladar.

Ler nas entrelinhas
Esta frase dá conta de uma das mais sutilezas da escrita, indicando que num texto até o que não está escrito deve ser lido, pois o sentido vai muito além das palavras, situando-se no contexto, para que não se perca o espírito da coisa, expressão criada para identificar uma lacuna de interpretação. Entre os que primeiro registraram a frase está o escritor francês Charles Augustin Saint-Beuve (1804-1869) que depois de publicar vários poemas e apenas um romance, dedicou-se inteiramente à crítica literária, gênero em que se consagrou como um dos maiores de todos os tempos, lendo nas entrelinhas os autores que comentou.

Levou um puxão de orelhas
A origem desta frase, expressão que significa repreender, está ligada a antigas tradições populares, que a recolheram de usos e costumes nem sempre vagos, já que inspirados também em documentos jurídicos. As Ordenações Afonsinas prescrevem que os ladrões tenham as orelhas cortadas. O grande navegador português Vasco da Gama (1469-1524) relatou o corte de 800 delas. E Gomes Freire de Andrade, o conde de Bodadela (1685-1763), governador e capitão-geral do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo, personagem do filme Xica da Silva, de Carlos Diegues, recebeu 7800 delas. Depois as orelhas deixaram de ser cortadas e foram somente puxadas. Por fim, tudo virou apenas metáfora de admoestação.

Libertas quae sera tamen
Os escritores envolvidos no primeiro projeto de Independência do Brasil, a Inconfidência Mineira, em 1792, três anos depois da Revolução Francesa, cunharam o lema Libertas quae sera tamen, tirado de um verso da Primeira Égloga, do poeta latino Virgílio: Libertas quae tamen respexit inertem (a liberdade que tardia, todavia, apiedou-se de mim em minha inércia. O lema, como foi adaptado, é esdrúxulo: a liberdade que tardia, todavia…sic). Para o que queriam os inconfidentes, bastava Libertas quae sera. Ainda assim, o lema, com este erro de transcrição e de tradução, continua nas bandeiras de Minas Gerais e do Acre.

Livre nasci, livre vivo, livre morrerei
O autor desta frase famosa, Pietro Aretino (1492-1556), tornou-se célebre por seus versos satíricos, licenciosos e cheios de erotismo. Apesar de ter escrito e publicado muito, apenas duas de suas obras passaram à posterioridade: os Diálogos e os Sonetos luxuriosos. Aretino era filho de um sapateiro de Arezzo, na Itália. Foi contemporâneo de célebres renascentistas, entre os quais o pintor Ticiano Vercellio (1490-1576), que o imortalizou numa tela, hoje exposta na famosa Galeria Pitti, em Florença. Um dos maiores poetas de seu tempo, o escritor, como tantos outros que tomaram a sexualidade com tema preferencial, foi perseguido por causa da audácia de suas críticas aos poderosos.

Mas isto fala!
Exclamação atribuída a Dom Pedro II ao experimentar o aparelho apresentado pelo físico e professor de surdos-mudos Alexandre Grahan Bell (1847-1922), um dos inventores do telefone, em 1876. Nosso último monarca e também o derradeiro da América costumava dar uma curiosa atenção às novas tecnologias, ciências e letras no meio século em que governou e reinou no então Império do Brasil. Mas ficou com o telefone quase só para ele, de tão interessante que o considerou.

Mateus, primeiro aos teus
Esta frase, mandando aos importunos e chatos que se ocupem primeiro de suas próprias coisas, para só depois nos amolar a paciência, tem sua origem nos Evangelhos. Mateus, antes de tornar-se discípulo de Jesus, era odiado por ser cobrador de impostos em Cafarnaum. A profissão já era hostilizada naquele tempo, e o povo abominava esses funcionários do fisco romano que, conquanto judeus, serviam aos dominadores estrangeiros, além de extorquir taxas pessoais dos contribuintes. Na literatura oral de quase todos os países fixada está esta repulsa, depois recolhida por escritores, como nos versos de um sátira de Gustavo Barroso (1888-1959) no livro Ao som da viola, dando conta de que na vida eterna eles serão condenados.

Meu reino por um cavalo
O dramaturgo e poeta inglês William Shakespeare (1564-1616) criou um teatro cheio de reis dramáticos. Em suas peças, o poder está sempre presente e os elementos políticos cumprem funções decisivas. São célebres muitas frases proferidas por seus personagens, como “Ser ou não ser, eis a questão” , “Há algo de podre no reino da Dinamarca” e “Meu reino por um cavalo”. Esta última é pronunciada duas vezes pelo rei usurpador, em suas duas únicas falas na cena quatro do quinto ato da peça Ricardo III, ao perder seu cavalo e ser derrotado pelo duque de Richmond na batalha de Bosworth.

Misturar alhos com bugalhos
Frase que sintetiza confusão, é de uso corrente na linguagem coloquial desde os tempos dos primeiros cultivos do alho, erva de que se aproveita o bulbo, principalmente como tempero. Os namorados, entretanto, procuram evitar pratos com tal condimento, já que o beijo fica mais adequado ao trato com vampiros e não com os amados, dado ao cheiro pouco agradável advindo de sua metabolização no organismo. Com o sentido de coisas desconexas e trapalhadas, foi registrada por João Guimarães Rosa num de seus contos: “O senhor pode às vezes distinguir alhos de bugalhos, e tassalhos de borralhos, e vergalhos de chanfalhos, e mangalhos… Mas, e o vice-versa?” Com sua escrita plena de complexidades e sutilezas, o maior escritor brasileiro do século XX misturou muito mais do que alhos com bugalhos, criando novas palavras ao manter alho como sufixo de diversas outras, aproveitando a coincidência fonética de ‘bugalho’, do celta bullaca (conta grande de rosário, noz), rimar com alho, além de designar coisa parecida na forma.

Morro pela minha pátria com a espada na mão
Última frase pronunciada pelo estadista, ditador e militar paraguaio Francisco Solano López (1826-1870), à beira do riacho Aquidabam, ferido de morte pelo soldado brasileiro Chico Diabo e antes de receber o tiro de misericórdia, disparado pelo gaúcho João Soares, contrariando ordens de seu superior, que ordenou a seus comandados que a capturassem vivo. A frase foi pronunciada no dia 1º de março de 1870 e marcou o fim da Guerra do Paraguai. A espada de Solano López estava com a ponta quebrada, curiosidade que foi registrada pelo comandante-chefe das operações, o Conde d’Eu (1842-1922), em carta enviada a Dom Pedro II (1825-1891), de quem era genro, pois era casado com a princesa Isabel (1846-1921). Curiosidade maior marcou o fim dos vencedores: o pai, a filha e o genro morreram no exílio, sem espadas na mão e desprezados pela pátria que haviam adotado, o Brasil.

Morro porque não morro
Esta frase tornou-se famosa por muitos motivos, entre os quais está o de sintetizar em poucas palavras o estado de espírito dos místicos. É de autoria do mais famoso deles, João da Cruz (1542-1591), patrono dos poetas espanhóis, doutor da Igreja e autor dos deslumbrantes poesias em que extravasa sua união mística com Deus, desconcertantes para leitores não-cristãos, dadas as redes de metáforas, paradoxos e outras figuras de linguagem cujo valor ultrapassa o literário. Ele reformou a ordem dos carmelitas e foi por isso perseguido e aprisionado por seus irmãos de hábito. Suas obras, traduzidas para muitas línguas, têm sido objeto de muitos estudos e foram transpostas para o cinema e o teatro muitas vezes.

Nada temos a temer, exceto as palavras
O escritor Rubens Fonseca (72) não era ainda o admirável romancista, autor de tantos livros de sucesso, quando incrustou esta frase em seu romance de estréia, O caso Morel, publicado em 1973. Até então ele tinha publicado apenas livros de contos, muito elogiados pela crítica. A frase está repetida insistentemente ao longo de uma narrativa marcada por violência e erotismo combinados, sobretudo nas relações amorosas de alguns personagens. Parecia premonição, pois seu livro seguinte, de contos, intitulado Feliz Ano Novo, e publicado em 1975, ficou proibido 13 anos, de 1976 a 1989. Inconformado com o veto do então ministro da Justiça do presidente Ernesto Geisel, o autor foi aos tribunais. O processo arrastou-se até 1989, quando em grau de recurso, no Tribunal Regional Federal, o livro foi finalmente liberado. Houve muitas cópias piratas e edições clandestinas em fac-símile enquanto o livro estava proibido.

Não entendo patavina
Esta frase, que significa declaração de ignorância total sobre determinado assunto, originou-se em certos descuidos gramaticais do historiador romano Tito Lívio (59 ou 64 a.C.-17 d.C.), nascido em Pádua, em italiano Padova, e em latim, Patavium. Outros escritores latinos, tidos por mais cultos, reprovaram suas expressões, próprias do dialeto da região em que o historiador viveu, o que dificultava o entendimento. Alguns estudiosos dão como explicação o fato de os portugueses terem dificuldade para entender os mercadores e os frades franciscanos patavinos, isto é, originários de Pádua. O próprio Santo Antonio de Lisboa (1195-1231) é o mesmo Santo Antonio de Pádua. Quem não compreende bem certos usos e costumes religiosos, não entende patavina disso também.

Não foi para isso que eu o inventei
Frase lendária que teria sido pronunciada por Alberto Santos Dumont, ao ver, em São Paulo, o uso do avião nos combates fratricidas da Revolução Constitucionalista de 1932. Seu engenho mais famoso foi o 14-Bis, a bordo do qual realizou o seu primeiro vôo documentado na história da aviação. Foi Marechal-do-ar, é patrono da Aeronáutica e da força Aérea Brasileira, além de imortal da Academia Brasileira de Letras. A única homenagem que de nada lhe serviu foi a efígie na antiga nota de dez mil cruzeiros. A inflação, como fez com outras figuras célebres, liquidou essa homenagem à sua memória.

Não lamento morrer, mas deixar de viver
Esta frase foi dita e escrita pelo célebre piloto francês François Mitterrand (1906-1995), que levou o socialismo ao poder na França, por meios democráticos, em 1981, tornando-se presidente da República em eleições livres. Ele foi um dos grandes personagens políticos deste século, tendo destacada atuação também durante a Segunda Guerra Mundial. Na sua gestão como presidente da República, a educação e a cultura receberam atenção especial e boas dotações orçamentárias. Um dos marcos foi a construção de um novo prédio para a Biblioteca Nacional, que custou cerca de 11 bilhão de dólares. Por obras como essa é que ele não será esquecido, esta outra forma que temos de morrer.

Não me cheira bem
A intuição está presente nesta frase, muito comum no Brasil, dando conta de que há uma compreensão para além das palavras. Neste caso, afora o sentido da audição, entra o do olfato, posto que em forma de metáfora, para aguçar nosso entendimento. Os cristão primitivos criaram a expressão odor de santidade para caracterizar o estado de uma pessoa virtuosa, já santa em vida. Mas seu contrário, muito mais freqüente, seria um odor desagradável, exalado de pessoas desonestas ou de situações inconvenientes. Um dos que a registraram literalmente foi o escritor português Camilo Castelo Branco, em diálogo onde um personagem comenta um famoso impostor.

Não posso interpretar um perdedor: não me pareço com um.
Frase pronunciada muitas vezes por Rock Hudson (1925-1985), famoso galã romântico de Hollywood, diante de roteiristas, diretores, colegas e jornalistas. Depois de servir na Marinha dos Estados Unidos, de 1944 a 1946, tornou-se ator, estrelando vários filmes na década de 50, como Sublime Obsessão, Assim caminha a humanidade e Confidências à meia-noite, em que contracenou com a linda e pura Doris Day. Nas décadas seguintes, fez jus ao grande prestígio que tinha juntado ao público feminino, desempenhando sempre papéis de rapaz namorador e divertido. O que as fãs não sabiam é que Rock Hudson, na vida real, preferia os homens. Poucos antes de morrer, o ator anunciou que havia contraído o vírus da Aids.

Não sabe nem o dó, ré, mi
Para tachar alguém da analfabeto, diz-se que “não sabe nem o ABC”. A frase serve para designar quem nada entende de música. As denominações para as notas foram dadas pelo musicólogo italiano Guido D’Arezzo (990-1050), que se inspirou nas primeiras sílabas de um hino a São João, o Evangelista, composto em latim por um cantor de igreja que estava resfriado. Nele o cantor pedia ao santo que lhe devolvesse a voz. Os seis versos começavam com ut, re, mi, fa, sol, la. A primeira nota mudou para dó, permanecendo ut apenas para os eruditos. E a última, si, foi formada com as iniciais do nome do santo em latim: Sancte Joannes. Em latim, o ‘jota’ tem som de ‘i’. A oração tem o seguinte teor: “Ut queant laxis/ Resonare fibris/ Mira gestorum/ Famili tuorum/ solve polluti/ Labii reatum/ Sanctre Joannes” (“Purifica os nossos lábios culpados, a fim de que teus servos possam celebrar a plena voz as tuas maravilhas, ó São João”).

Não se pode governar um país que tem 246 variedades de queijo
Esta frase foi pronunciada pelo general Charles de Gaulle (1890-1970), notável militar na Segunda Guerra Mundial e célebre estadista francês. Foi por duas vezes presidente da República, renunciando a 28 de abril de 1969. Atribui-se também a De Gaulle uma outra frase famosa: “o Brasil não é um país sério”, mas a autoria desta última não pôde ser comprovada, como ocorrem com outras verdades sobre nosso país, atacado de tempos em tempos por ufanismo contagioso ou pessimismo sem motivos claros, a não ser, evidentemente, aqueles patrocinados por nossos governantes. Pode ser difícil governar um país com tantas variedades de queijo, mas os franceses, famosos pela atenção que dão à culinária, reclamaram muito de De Gaulle e pouco dos queijos que sempre produziram. No resto do mundo, De Gaulle e os queijos franceses foram sempre mais elogiados do que criticados.

Não suba o sapateiro acima da sandália
Apeles (século IV – século III a.C.), o famoso pintor grego que retratou Alexandre, o Grande, costumava expor suas pinturas em praça pública, escondendo-se atrás dos quadros para ouvir a opinião dos que por ali passavam. Concordando com as críticas, retirava suas obras, refazia-as e voltava a exibi-las para novos comentários. Certa vez um sapateiro notou um defeito na chinela de uma figura principal. Apeles corrigiu seu quadro. No dia seguinte, vendo que havia sido atendido, o mesmo sapateiro atreveu-se a criticar também a perna da figura. Apeles saiu de trás do quadro e pronunciou a frase memorável, dando conta de que há limites para a crítica. O padre Manuel Bernardes, um dos melhores estilistas da língua portuguesa, está entre os que registraram a frase famosa.

Não verás país nenhum
Esta frase tem origem num verso de Olavo Bilac: “criança, não verás país como este!” Mas foi o escritor Ignácio de Loyola Brandão quem a resgatou, em 1981, com o lançamento de um romance cujo título reduziu o verso para Não Verás país nenhum. Antecipando os graves problemas que adviriam da destruição ecológica, o livro foi bem aceito por crítica e público. Depois de numerosas edições brasileiras, foi traduzido para mais de dez línguas e seguido de um outro, documental, intitulado O verde violentou o muro (1984), em que o escritor aludia à queda do muro de Berlim, que só veio a ocorrer em 1989, quando os alemães deixaram de ver um outro país, a Alemanha Oriental.

Nas revoluções, o difícil é salvar a porcelana
Esta frase é de autoria do político francês Georges Clemenceau (1841-1929), deputado-chefe da esquerda radical a partir de 1875, senhor de uma eloqüência arrebatadora. No primeiro decênio deste século, já presidente do conselho de ministro, rompeu com os socialistas. Era temido também por ser um derrubador de ministério e, dada a sua notável valentia, recebeu o apelido de Tigre. Deposto, voltou ao poder em 1917, dedicando-se à continuação da Primeira Guerra Mundial. Depois da vitória, tornou-se muito popular e negociou o Tratado de Versalhes. A frase indica que em mudanças radicais, como é o caso das revoluções, alguma coisa muito preciosa se perde. Em geral, a porcelana é a liberdade.

Navegar é preciso, viver não é preciso
A expressão já foi creditada a Caetano Veloso, porque muitos de nossos jovens iletrados, mas bons de ouvido, somente a aprenderam da boca de seu ídolo. Entretanto, o próprio baiano já admitiu que a leu em Fernando Pessoa. A autoria não cabe, porém, nem ao poeta português, nem ao compositor baiano. Quem a tornou famosa foi o general romano Pompeu (106 a.C.-48 d.C.) para persuadir marinheiros a zarpar com os navios carregados de alimentos, mesmo em meio a uma tempestade, porque havia muita fome em Roma. Somente o circo, como sabiam os imperadores, não era suficiente para conter rebeliões, se faltasse o pão. Pompeu a pronunciou num latim desjeitoso, segundo nos informa Plutarco: navigare necesse, vivere non necesse, mas a frase já existia também em grego

Noblesse Oblige
Esta frase, nascida de um trecho do filósofo, estadista e poeta latino Anício Mânlio Severino Boethius (480-524), mais conhecido como Boécio, está presente em muitas línguas, incluindo a portuguesa, segundo a síntese elaborada pelos franceses, sem alteração na grafia e do significado: nobreza obriga, isto é, a aristocracia e a boa educação devem levar o indivíduo a comportar-se como um cavalheiro. Se não a primeira, a segunda. Originalmente, a frase foi escrita em latim e está embutida num período mais longo, usual no estilo de Boécio, de seu livro O consolo da filosofia.

Nós, as mulheres, não somos tão fáceis de conhecer!
Esta frase ficou famosa por seu conteúdo e por sua autoria. As mulheres sempre desconcertaram e surpreenderam os homens. Sigmund Freud (1856-1939), o fundador da psicanálise, reconheceu não saber o que queriam as mulheres. Ocorre, porém, que a frase é de autoria de uma mulher formosa, culta e apaixonada, Santa Teresa de Ávila (1515-1582). Sua sabedoria foi ainda mais admirada depois que o papa Paulo VI (1897-1978) a declarou doutora da Igreja. A santa morreu a 4 de outubro e foi enterrada no dia seguinte, 15. Não é erro de data. No dia de sua morte foram subtraídos 10 dias de ano civil para adequá-lo ao ano solar. Os que lêem a vasta obra da santa, porém, podem mais facilmente entender as mulheres.

Fonte:
SILVA, Deonísio da. Expressões e suas origens.

Deixe um comentário

Arquivado em Curiosidades de Nossa Língua, Planeta Literário

Literatura em Luto (Falecimento de Arthur C. Clarke)

ARTHUR CHARLES

CLARKE

( 1917 – 2008)

O escritor e inventor britânico Arthur C. Clarke morreu aos 90 anos, em sua casa em Colombo, capital do Sri Lanka, em 19 de março de 2008, onde será enterrado, sem rito religioso, a seu pedido.

“Ele teve um ataque cardiorrespiratório”, disse Rohan de Silva, secretário pessoal de Clarke, segundo a Reuters.

Sir Arthur Charles Clarke morreu à 1h30 de quarta-feira (18h de Brasília desta terça-feira, 19 de março de 2008) de insuficiência respiratória.

Entre suas obras, “A Sentinela” é um grande destaque. O texto serviu de inspiração para o roteiro do filme “2001 – Uma Odisséia no Espaço” (1968), dirigido por Stanley Kubrick (1928-1999). O roteiro do filme é assinado por Kubrick e Clarke.

Clarke escreveu mais de 80 livros e centenas de contos e artigos durante sua carreira. O escritor mencionou nos anos 40 que o homem chegaria à Lua por volta do ano 2000, algo que especialistas afirmaram ser um absurdo na época.

Quando Neil Armstrong pisou no satélite em 1969, os Estados Unidos divulgaram que Clarke providenciou a direção intelectual que levou o país à Lua.

No último dezembro, Clarke afirmou que gostaria de ver sinais de extraterrestres ainda enquanto estivesse vivo. O escritor nasceu em 16 de dezembro de 1917.

Últimos desejos

Em dezembro de 2007, o escritor listou três desejos para o seu aniversário de 90 anos: que o mundo adotasse fontes de energia limpas, que a paz fosse estabelecida no lugar onde ele vivia, o Sri Lanka, e que fossem apresentadas evidências de seres extraterrestres.

“Eu sempre acreditei que nós não estamos sozinhos no universo”, disse ele na época, em um discurso para um pequeno grupo de cientistas, astronautas e oficiais, na cidade de Colombo, no Sri Lanka. Os humanos estão à espera de que seres extraterrestres “nos chamem ou nos dêem um sinal”, disse o escritor. “Não temos como adivinhar quando isso vai acontecer. Espero que aconteça antes que seja tarde demais.”
Clarke também é creditado como um dos pioneiros no uso do conceito de satélites de comunicação, falando deles em 1945, anos antes de a tecnologia ter sido inventada. Ele se juntou ao jornalista Walter Cronkite como comentarista da expedição lunar da Apollo no final dos anos 60.

Deixe um comentário

Arquivado em Ficção Cientifica, Literatura Inglesa, Nota de Falecimento

Arthur Charles Clarke (1917 – 2008)

Arthur Charles Clarke nasceu em Minehead em Somerset, Inglaterra em 16 de dezembro de 1917. Em 1936 junto com a família mudou para Londres, onde ingressou na Sociedade Interplanetária Britânica (BIS-British Interplanetary Society), no BIS ele começou seus experimentos com astronáutica e tudo que envolvia o assunto espaço e comunicações, ele também começou a escrever boletins para a Sociedade Interplanetária, tanto científicos como de ficção.

Durante a Segunda Guerra Mundial, ele foi oficial da RAF (Força Aérea Real), e foi encarregado do primeiro radar de transmissão de rádio , ele tinha o cargo de controlador e era responsável por seu funcionamento, durante os experimentos com esse radar ele desenvolveu paralelamente seu dom de escrever e criou uma tese científica em forma de novela chamada (Glide Path) “Trajeto do Planador”, inspirado nestes anos de trabalho com o radar de comunicação terra-ar.

Em 1945 volta a Londres e ao BIS, onde foi presidente de 1946 a 1947 e depois em 1950 a 1953. Ele publica nesta época (Extraterrestrial Relays), “Reles Extraterrestres”, que fala sobre o papel técnico dos princípios da comunicação de satélites com órbitas geoestacionárias numerosas, ele estudou muito este assunto e foi um dos pioneiros em criações de satélites de comunicação deste tipo esta sua descoberta lhe rendeu várias honras científicas. Hoje a órbita geoestacionária em 42.000 km é nomeada a Órbita de Clarke pela União de Astronômica Internacional.
Cronologia de sua vida:

1927 – Faz seu primeiro vôo com sua mãe em um biplano British Avro 504.
1930 – Construiu um transmissor de ondas junto com seu Tio George.
1931 – Seu pai morre em um hospital em Bristol.
1934 – Entra para o BIS fundado por Phillip E. Cleator e outros em Liverpool.
1941 – Engajado na RAF (Royal Air Force) (Segunda Guerra Mundial)
1945 – Em março deste ano ele escreve “Rescue Party”, que apareceria em maio de 1946 na Astouding Science.
1948 – Obteve honras de primeiro aluno no King’s College em Londrês em sua turma de Física e Matemática , se formando com méritos.
1953 – Casou-se com Marilyn Mayfield em 15 de junho deste ano, para se separar seis meses depois, isso era prova para ele dizer que não era homem de casar.
1954 – Clarke visita pela primeira vez o Sri Lanka conhecendo a capital, Colombo onde vive atualmente.
Neste ano também ele troca sua paixão pelo espaço se entregando ao mar com sessões de mergulho e descobertas submarinas.
1961 – Passa um final de semana em Boston em companhia de Jacques Cousteau. Neste ano também em dezembro recebe a visita de Yury Gagarin em sua casa no Ceilão atual Sri Lanka.
1962 – Escreve (Profiles of the future), “Perfis do Futuro”, neste livro ele descreve suas três leis científicas.
Primeira lei : Quando um distinto e experiente cientísta diz que algo é possível, ele está praticamente certo, quando ele diz que algo é impossível, ele esta muito provavelmente errado.
Segunda lei: O único caminho para desvendar os limites do possível e através do impossível.
Terceira lei : Qualquer avanço tecnologico é indistinguível da mágica.
1964 – Neste ano começa a trabalhar com Stanley Kubric em um filme que revolucionária a Ficção Científica no cinema. 2001: Uma Odisséia no Espaço.
1985 – Publicou a sequência de 2001. 2010 a Odisséia II e trabalhou com Peter Hyams na versão do filme, mas não obteve tanto sucesso quanto 2001.
Clarke é famoso por muitas outras obras de Ficção Científica e também é considerado um dos Grandes Mestres da Ficção Científica junto com Asimov, Heinlein e Herbert. Suas obras mais famosas são “Childhood’s End”, “2001: A Sapce Odyssey” e “The Nine Billion Names of God”. Foi ganhador dos prêmios Hugo em 1956, 1974, 1980 e Nebula em 1972,1973, 1979 e Ganhador do Prêmio Nebula para os Grandes Mestres em 1985.

Bibliografia apenas das obras de Ficção.

1951 – As Areias de Marte.
1952 – Ilhas no Céu.
1953 – O Fim da Infância (Childhood’s End)
1953 – Contra a Sombra da Noite.
1953 – Expedição para a Terra.
1955 – Luz terrestre
1956 – Cidade das Estrelas.
1956 – Ao alcance do amanhã.
1957 – Caminho Profundo.
1958 – O outro lado do céu.
1959 – Através de um mar de Estrelas.
1961 – A queda da poeira lunar.
1962 – Do oceano e das Estrelas.
1962 – Lendas de dez mundos.
1963 – Ilha do Golfinho.
1964 – 2001 : Uma Odisséia no Espaço (Início da obra)
1965 – Prelúdio Marciano (Prelúdio Espacial e As areias de Marte)
1967 – Nove Bilhões de Nomes de Deus.
1972 – O tempo e as Estrelas.
1972 – O Vento do Sol (revisada em 1987)
1973 – Rendezvous com Rama (Hugo e Nebula)
1975 – Terra Imperial
1979 – As fontes do paraíso (Hugo e Nebula)
1982 – 2010: A Odisséia II
1983 – O Sentinela.
1986 – As músicas da Terra Distante.
1988 – Encontro com Medusa.
1988 – 2061: Odisséia III
1990 – Lendas do Planeta Terra.
1991 – O fantasma que vem da grande barreira.
1991 – Mais do que um Universo.
1993 – O Martelo de Deus.
1997 – 3001: A Odisséia Final.

Deixe um comentário

Arquivado em Biografia, Ficção Cientifica, Literatura Inglesa

Arthur C. Clarke (Entrevista para a Revista Veja)

Entrevista com Arthur C. Clarke na Revista Veja de 13/11/96

O Futuro Está Aí
por Fabíola de Oliveira

Aos 78 anos, o inglês Arthur C. Clarke é um dos mais populares autores de ficção científica deste século. Já escreveu cerca de oitenta livros. O mais novo, 3001 – A Odisséia Final, chega às livrarias no começo do ano. É uma seqüência do roteiro do filme 2001 – Uma Odisséia no Espaço, dirigido por Stanley Kubrick, que o tornou mundialmente famoso em 1968. Entre os cientistas, Clarke é respeitado por um outro motivo. Em 1945, com apenas 28 anos, ele escreveu um artigo que é considerado a base teórica para os modernos satélites de comunicação.

Clarke vive no Sri Lanka, antiga colônia britânica ao sul da Índia, para onde se mudou há quarenta anos em busca de sossego. Não conseguiu. Sua casa vive sitiada por turistas. O escritor paga 1000 dólares mensais só de fax recebidos e enviados para o mundo todo. “Sou um recluso fracassado”, diz. Hoje sofre de uma doença conhecida como síndrome de pós-polio, que o obriga a andar em cadeira de rodas. Semanas atrás, ao participar de uma conferência em Pequim, ele falou a VEJA:

Veja – Na época em que o senhor escreveu 2001 – Uma Odisséia no Espaço, parecia que na virada do século as viagens interplanetárias seriam uma rotina. O que deu errado com seu futuro?

Clarke – Em primeiro lugar, eu nunca previ o futuro. Tudo o que fiz foi escrever ficção. Seis de minhas histórias tratam do fim do mundo. Ainda bem que esse futuro não aconteceu, não é? As viagens interplanetárias só não ocorreram até hoje por culpa de eventos como a Guerra do Vietnã, o caso Watergate e tantas outras crises políticas e econômicas que têm destruído o desejo americano de investir mais na exploração do espaço. Além disso, o fim da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a antiga União Soviética, embora tenha sido um acontecimento bom para a humanidade, derrubou um elemento essencial na corrida ao espaço, que era a competição entre as duas potências. É inacreditável que tenhamos chegado à Lua e abandonado esse projeto cinco anos mais tarde.

Veja – A paz é ruim para o avanço da ciência e da tecnologia?

Clarke – Em alguns casos, sim. A I Guerra Mundial tornou a aviação possível e abriu caminho para que em pouco tempo ela se tornasse comercialmente viável. A II Guerra foi a porta de entrada para a conquista espacial. Os foguetes V1 e V2, desenvolvidos pelos alemães para o lançamento de bombas no início dos anos 40, antecederam os foguetes lançadores até hoje utilizados para a colocação de satélites em órbita da Terra. A Guerra Fria trouxe os satélites artificiais, as primeiras viagens de astronautas e cosmonautas e a chegada do homem à Lua.

Veja – O senhor quer dizer que um novo grande conflito mundial seria bom para a retomada das viagens espaciais?

Clarke – Absolutamente não. Agora, é preciso demonstrar que o espaço também pode trazer grandes retornos econômicos. Vôos espaciais custam muito dinheiro Por essa razão, a humanidade precisa ter um bom motivo para viajar para outros planetas. No passado, foi a competição entre as potências. Hoje, pode ser puramente econômico. Atualmente, as atividades que giram em torno dos satélites de aplicação comercial movimentam cerca de 50 bilhões de dólares por ano. É por isso que o mercado de satélites de uso civil cresce cada vez mais, enquanto o de satélites militares tende a ser desativado. No momento em que se descobrir que aplicações práticas podem resultar das viagens e pesquisas em outros planetas, a exploração espacial acontecerá num piscar de olhos.

Veja – Como será a exploração comercial do espaço?

Clarke – As possibilidades são quase infinitas. O problema por enquanto é o custo dos foguetes para a colocação de naves fora do campo gravitacional da Terra. A boa notícia vem da Finlândia e do Instituto Max Plank, da Alemanha, onde alguns cientistas conseguiram, quase por acaso, realizar um experimento que criou um campo antigravitacional. Os fãs da série Jornada nas Estrelas sabem que é essa a fonte de energia usada para deslocar a nave Enterprise. Se isso for confirmado, poderemos estar na trilha de um novo tipo de veículo que, em vez de usar combustível de propulsão, como os foguetes atuais, vença a barreira gravitacional e se desprenda da Terra com grande facilidade e a custos baixíssimos. Aí, tudo vai fluir automaticamente.

Veja – Que tipo de mudanças o senhor prevê?

Clarke – A principal é o advento do turismo espacial, algo inimaginável aos custos atuais. Acredito que isso acontecerá em algum momento do início do próximo século, e então teremos o envolvimento do público em geral com o espaço. Nas viagens espaciais, os foguetes lançadores representarão o mesmo papel que os balões tiveram no início da aviação. Antigamente, especulava-se sobre a possibilidade de levar passageiros em longas viagens com balões. Era comum no século passado as revistas publicarem desenhos malucos de balões enormes carregando centenas de pessoas, mas é claro que os aviões chegaram e acabaram com o sonho do balonismo comercial. Da mesma forma, algum tipo de veículo espacial apropriado para passageiros deverá surgir no início do século XXI, tornando as viagens espaciais acessíveis a quase todo mundo. Marte vai ser um grande destino turístico no próximo século.

Veja – Países em desenvolvimento, como o Brasil, devem investir em atividades espaciais ou deixar esse assunto para as potências mais ricas?

Clarke – Nações em desenvolvimento podem tirar proveitos até maiores da tecnologia espacial do que os países ricos. Investir em atividades espaciais não é só tentar ir à Lua ou a Marte. É também produzir melhorias concretas na vida das pessoas aqui na Terra mesmo. As aplicações espaciais são imprescindíveis nas áreas de comunicação, monitoramento de recursos terrestres e previsões meteorológicas. Os satélites já ajudaram a salvar milhares de pessoas em lugares como Bangladesh e outras regiões da Ásia e da África que sofrem com fenômenos da natureza. No caso das comunicações, sabemos que atualmente cinqüenta países com metade da população do planeta ainda não tem acesso a uma linha de telefone. No mundo de hoje é praticamente impossível o desenvolvimento cultural, educacional e comercial sem um sistema eficiente de comunicações. Para tanto, é preciso ter satélites.

Veja – Em agosto, cientistas da NASA anunciaram ter encontrado sinais de vida bacteriana num meteorito de Marte que caiu na Antártica. Qual sua opinião sobre essa descoberta?

Clarke – Estou levando essa pesquisa muito a sério. Certamente não é uma prova decisiva da existência de vida em Marte, mas é uma possibilidade bastante sugestiva. Se eu tivesse 1 dólar para apostar, colocaria 75 centavos na mesa. Esse índice de probabilidade é mais do que suficiente para que a descoberta seja investigada a fundo. Outra sugestão interessante seria observar os meteoritos oriundos de Europa, uma das luas de Júpiter, que é coberta por uma camada de gelo. A possibilidade de vida nos oceanos de Europa é um dos temas dos meus três livros sobre odisséias no espaço. Fico fascinado com as imagens maravilhosas desse satélite de Júpiter enviadas pelas sondas espaciais Voyager e Galileu.

Veja – Seu próximo livro vai-se chamar 3001 – A Odisséia Final. Por que final?

Clarke – Porque eu não quero continuar nesse assunto. A história se passa em Júpiter e suas luas. Lá encontramos velhos amigos, como o HAL 9000, o computador que, na primeira odisséia, a de 2001, enlouquece e mata os tripulantes da nave espacial Discovery. Na nova história, HAL aparece agora como um herói. Só não vou contar em que circunstâncias para não estragar a surpresa de meus leitores.

Veja – Por que 3001 e não uma outra data qualquer?

Clarke – A idéia original era escrever uma odisséia espacial para o ano 20001. O problema é que, mesmo no campo da ficção científica, fica difícil imaginar como estará o mundo até lá. Mas em 1000 anos acho que algumas coisas poderão ser reconhecidas. Eu me diverti bastante escrevendo esse livro.

Veja – O senhor acha que a ciência um dia será capaz de resolver mistérios como a origem do universo e da vida?

Clarke – No passado havia questões que pareciam jamais ter explicação e hoje estão bem respondidas pela ciência. Um bom exemplo é a forma como a vida evoluiu na Terra. A ciência também consegue explicar quase todos os fenômenos celestes e meteorológicos que antigamente eram considerados mistérios. Ainda assim, acredito que existem questões para as quais a ciência nunca terá respostas. Acho difícil, por exemplo, que um cientista consiga explicar por que o universo está aqui e qual é a razão da vida. Gosto muito de uma frase escrita por J.B.S. Haldane: “O universo não é apenas mais estranho do que imaginamos; ele é mais estranho do que podemos imaginar”.

Veja – O senhor acredita em Deus?

Clarke – De um ponto de vista científico, acreditar em Deus é tão inócuo quanto não acreditar. É questão puramente de fé. O que posso dizer é que não rejeito por completo a idéia de Deus. Uma vez eu disse a um representante do Papa que não acredito em Deus, mas sou muito interessado Nela. Quem garante que Deus não seja uma entidade feminina?

Veja – para o senhor qual é o maior de todos os mistérios?

Clarke – Sem dúvida, os ETs. Não consigo imaginar nada mais desafiador do que investigar a possibilidade de vida extraterrestre. Se de fato nós estivermos sós, significa que não somos apenas os herdeiros do universo. Somos também os seus únicos guardiões. Seria inacreditável. Portanto, as duas possibilidades, a de estarmos sós ou não, são igualmente fascinantes.

Veja – O senhor se preocupa muito com a própria morte?

Clarke – É óbvio que, aos 78 anos, eu tenho pensado mais nesse assunto do que antes. Mas não é minha maior preocupação. Só espero que eu não sofra muito quando a hora chegar. Estou mais preocupado hoje com as pessoas e os animais que amo do que comigo mesmo.

Veja – Pelo que o senhor mais gostaria de ser lembrado?

Clarke – Fico muito feliz ao ver que hoje as pessoas chamam a órbita estacionária dos satélites de “Órbita Clarke”, em razão de um artigo que escrevi em 1945. Para mim, já é mais do que suficiente.

Veja – O artigo a que o senhor se refere enunciava a teoria básica dos atuais satélites de comunicação. O senhor se arrepende de nunca ter patenteado essa idéia, que poderia fazê-lo milionário?

Clarke – Gosto muito de uma frase segundo a qual “uma patente é apenas uma licença para ser processado pela Justiça”. E eu não gostaria de passar a vida correndo atrás de advogados. Além disso, se eu tivesse adquirido a patente, ela provavelmente já estaria caduca no ano em que foi lançado o primeiro satélite de comunicação, no início da década de 60, embora eu deva admitir que não imaginei que isto ocorreria tão cedo.

Veja – Depois dos satélites de comunicação, qual será o próximo grande passo tecnológico da humanidade?

Clarke – Ele já está acontecendo. É o telefone pessoal. O fim do telefone como um instrumento fixo vai provocar uma das maiores revoluções na vida das pessoas neste século. Começou com o celular, mas extrapolará todos os limites com a chegada do telefone que se comunica diretamente com o satélite não importa em que lugar do planeta a pessoa estiver.

Veja – Na semana passada, havia 60000 referências ao seu nome na Internet, a rede mundial dos computadores. Mas o senhor não gosta de divulgar seu endereço eletrônico. Por que?

Clarke – Eu tenho evitado entrar na Internet como se foge de uma praga. É como você tentar beber toda a água das Cataratas de Niágara. Diante de tantas informações e possibilidades, é preciso ser seletivo e controlar a ansiedade.

Veja – Se o senhor tivesse nascido depois da chegada do homem à Lua e fosse hoje um jovem de vinte e poucos anos, o que estaria fazendo?

Clarke – Eu provavelmente estaria ansioso para chegar a Marte. É uma viagem que, na minha idade, eu provavelmente nunca farei. Se tivesse nascido em 1970, talvez tivesse uma chance.

Veja – Na sua opinião, quais são os grandes problemas da humanidade atualmente?

Clarke – O maior de todos é o excesso de população. Já há pessoas demais para os recursos limitados do planeta. O resultado é a poluição e a rápida degradação do meio ambiente. Há bilhões de pessoas vivendo na miséria, sem acesso às mais elementares conquistas da ciência e da tecnologia neste século. Acredito que a população ideal do planeta seja inferior a 1 bilhão de pessoas. Outro problema que muito preocupa é o da educação.

Veja – O que está errado com a educação?

Clarke – No futuro, não muito distante, haverá poucos empregos para pessoas altamente educadas e bem-preparadas. Não haverá chances para todo mundo. A qualidade do ensino é precária no mundo inteiro e isso terá graves conseqüências. Em especial, a educação científica é deplorável. Em quase todo o mundo os professores ainda são mal remunerados e a qualidade do ensino de ciências é muito deficiente. Para mim, este é um dos piores problemas que enfrentamos atualmente, causador de muitas desgraças. No início deste século, o escritor H.G. Wells dizia que “o futuro será uma corrida entre a educação e a catástrofe”. No momento, acho que estamos perdendo a corrida.

Fonte:
http://galaxiabr.vilabol.uol.com.br/

Deixe um comentário

Arquivado em Entrevista, Ficção Cientifica

Arthur C. Clarke (Previsões além de 2001)

NINGUÉM pode ver o futuro. O que tento fazer é esboçar “futuros” possíveis, embora invenções e acontecimentos completamente inesperados possam tornar absurdas as previsões depois de apenas alguns anos. Exemplo clássico é a declaração feita no fim dos anos 40, pelo então presidente da IBM, de o mercado mundial de computadores seria de apenas cinco unidades. Só no meu escritório, tenho mais do que isso.
Talvez eu não esteja em condições de criticar: em 1971, previ o primeiro pouso em Marte para 1994; hoje, será sorte se conseguirmos até 2010. No entanto, em 1951, achei que estava sendo muito otimista ao sugerir uma missão à Lua em 1978. Neil Armstrong e Edwin Aldrin me surpreenderam quase uma década antes. Mas me sinto orgulhoso pelo fato de os satélites comunicações terem sido postos nos locais que sugeri em 1945, e de nome “Órbita Clarke” ser empregado com freqüência (mesmo que apenas por ser mais fácil de dizer do que “órbita geostacionária”). Alguns dos episódios relacionados aqui – as missões espaciais, em particular – já estão programados. Acredito que todos os outros possam acontecer, embora muitos esperam que não.

AS PREVISÕES DE ARTHUR C. CLARKE
2001 – A sonda espacial ‘Cassini’ (lançada em 1977) começa a exploração dos satélites e anéis de Saturno. A sonda Galileu (lançada em 1989 continua as inspeções de Júpiter e suas luas. Parece cada vez mais provável que haja vida nos oceanos cobertos de gelo de uma delas, Europa.
2002 – O primeiro dispositivo comercial que gera energia limpa e segura por meio de reações nucleares de baixa temperatura entra no mercado, anunciando o fim da Era do Combustível Fóssil.
2003 – São concedidos cinco anos para que a indústria motriz substitua todos os instrumentos que queimam combustível pelo novo dispositivo energético. Neste mesmo ano, é lançada a nave Mars Surveyor, da NASA.
2004 – Primeiro clone humano (admitido publicamente).
2005 – Primeira amostra enviada à Terra pela Mars Surveyor.
2006 – Fechada a última mina de carvão.
2008 – Uma cidade num país do Terceiro Mundo é devastada pela explosão acidental de uma bomba atômica em seu arsenal. Após breve discussão na ONU, todas as armas nucleares são destruídas.
2009 – Criados os primeiros geradores de ‘quantum’ (para processar energia espacial). Disponíveis em modelos portáteis e domésticos – a partir de alguns quilowatts -, podem gerar eletricidade sem limite. Estações centrais de energia são fechadas: termina a era das torres de transmissão.
A monitorização eletrônica praticamente elimina da sociedade os criminosos profissionais
2011 – Filmado o maior animal vivo: um polvo de 75 metros, próximo às Ilhas Marianas. Por curiosa coincidência, animais ainda maiores são descobertos quando as primeiras sondas por controle remoto perfuram o gelo da lua Europa.
2012 – Aviões aeroespaciais começam a operar na área comercial.
2013 – O príncipe Harry é o primeiro membro da Família Real britânica a voar no espaço.
2014 – A construção do Hotel Hilton Orbital começa com a adaptação dos gigantescos tanques de combustível abandonados pelos ônibus espaciais – tanques que, originalmente, deveriam cair de volta na Terra.
2015 – Um subproduto inevitável do gerador de quantum é o controle absoluto da matéria no nível atômico. Em poucos anos, por serem mais úteis, o chumbo e o cobre passam a custar duas vezes mais do que o ouro.
2016 – As moedas vigentes são abolidas. O “megawatt-hora” torna-se a unidade de troca.
2017 – Ao completar 100 anos no dia 16 de dezembro, sir Arthur C. Clarke é um dos primeiros hóspedes do Hilton Orbital.
2019 – Ocorre um grande impacto meteórico na calota de gelo do pólo norte. As enormes ondas resultantes causam danos consideráveis nas costas da Groelândia e do Canadá. O tão discutido “Projeto Guarda Espacial”, que serviria para indentificar e desviar cometas e asteróides potencialmente perigosos, é enfim ativado.
2020 – A inteligência artificial chega ao nível humano. De agora em diante, há duas espécies inteligentes na Terra, uma delas evoluindo de modo muito mais acelerado do que a biologia jamais permitiria.
2021 – O homem chega a Marte.
2023 – Fac-símiles de dinossauros são clonados a partir de DNAs criados em computador. Apesar de alguns lamentáveis acidentes iniciais, ferozes minidinossauros começam a substituir os cães de guarda.
2024 – São detectados sinais infravermelhos vindos do centro da Galáxia, produto evidente de uma civilização tecnologicamente avançada. Falham todas as tentativas de decifrá-los.
2025 – Pesquisas no campo neurológico enfim permitem compreender os nossos cinco sentidos, tornando possível a “ligação direta”, que dispensa a intermediação de ouvidos, olhos, pele, etc. O resultado é um capacete metálico, o “chapéu cerebral”. Qualquer pessoa que coloque na cabeça esse apertado capacete pode desfrutar de todo um universo de experiências – reais e imaginárias – e até interagir com outras mentes. O chapéu cerebral é uma dádiva para os médicos, que agora podem vivenciar (apropriadamente atenuados) os sintomas do paciente. Também é um avanço no campo jurídico, pois a mentira deliberada não é mais possível.
2040 – O ‘replicador universal’, baseado na nanotecnologia, é aperfeiçoado: qualquer objeto, por mais complexo que pareça, pode ser criado – desde que se disponha da matéria-prima necessária. Diamantes e delícias culinárias podem ser, literalmente, feitos do barro. Como resultado, a indústria e a agricultura chegam ao fim – assim como o trabalho. Há uma explosão nas artes, no lazer e na educação. Sociedades primitivas, baseadas na caça e na coleta, são recriadas, uma vez que enormes áreas do planeta – agora não mais necessárias para a produção de alimentos – podem retomar seu estado natural.
2045 – A casa móvel totalmente auto-suficiente (imaginada quase um século antes por Buckminster Fuller) é consumada. Qualquer suplemento de carbono necessário para síntese dos alimentos pode ser obtido extraindo-se gás carbônico do ar.
2050 – Entediadas com a vida nesses tempos de tanta paz, milhões de pessoas resolvem usar a preservação criônica com vistas a emigrar para o futuro em busca de aventura. Grandes “hibernáculos” são criados na Antártida e em regiões de noite eterna nos pólos lunares.
2057 – No dia 4 de outubro – centenário do Sputnik 1 -, a aurora da era espacial é comemorada pelo homem na Terra, na Lua, em Marte, Europa, Ganimedes e Titã, além de na órbita de Vênus, Netuno e Plutão.
2061 – O Cometa Halley volta e o homem pousa nele pela primeira vez. A sensacional descoberta de formas de vida tanto ativas quanto latentes comprova a centenária hipótese, de Wickramasinghe e Hoylem, de que existe vida no espaço.
2090 – A queima de combustíveis fósseis realizada em grande escala é retomada, a fim de restituir o gás carbônico extraído do ar e, por intermédio do aquecimento do planeta, tentar retardar a Era Glacial que se aproxima.
2095 – A criação de uma verdadeira ‘força espacial’ – um sistema de propulsão que reage contra a estrutura do espaço-tempo – torna obsoleto o foguete e garante velocidades próximas à da luz. Exploradores terráqueos partem para galáxias vizinhas.
2100 – Começa a História…

Fonte:
© 1999 ARTHUR C. CLARKE. CONDENSADO DE THE DAYLY TELEGRAPH (21 DE FEVEREIRO DE 1999
http://galaxiabr.vilabol.uol.com.br/

Deixe um comentário

Arquivado em Ficção Cientifica, Literatura Inglesa, Previsões

Arthur C. Clarke (Resumo de Alguns Livros)

Expedição para a Terra

Durante a Segunda Guerra Mundial, Arthur C. Clarke trabalhou na operação dos primeiros radares desenvolvidos pelos Aliados e pouco mais tarde escreveu o artigo “Extraterrestrial relays”, que lançaria a idéia por detrás do satélite de comunicações geosincrônico – uma das bases da moderna rede de telecomunicações. Ao mesmo tempo que ajudava ao Aliados a detectar a chegada dos foguetes V-2 do Eixo, ele sonhava com o desenvolvimento da viagem espacial. A mistura de conhecimento tecnológico prático, o sonho de explorar as Estrelas e a percepção aguda da época em que vivia daria origem na década de 50 aos contos que fazem parte de “Expedição para a Terra”. Contos em que o pesadelo da guerra nuclear divide espaço com a esperança e os perigos da exploração espacial.

No primeiro conto, “Second Dawn (Segunda Aurora)”, nós visitamos um mundo alienígena, onde a guerra entre duas raças inteligentes dotadas de grande inteligência e poderes mentais, os Atheleni e os Mithraneans, chegou ao fim com a vitória dos Atheleni… ao custo do desenvolvimento de uma técnica de destruição da mente tão poderosa e ao mesmo tempo tão simples que mais cedo ou mais tarde os antigos inimigos a descobririam e uma guerra definitiva ocorreria… a não ser que algo mudasse suas civilizações tão radicalmente que tornaria a própria guerra absurda. A resposta vêm de uma raça atrasada, os Pheleni, mas dotados de algo que as poderosas mentes dos dois povos não podem ter devido as limitações de seu próprio corpo: habilidade manual e a capacidade de moldar o mundo ao seu redor. Guiados pelos Atheleni, os Pheleni começam a desenvolver uma tecnologia surpreendente… mas será que a mesma capacidade de mudar o mundo para melhor não descobriria algo tão terrível quando a técnica da Loucura: o Poder Atômico?

Um garoto acompanha seu pai em uma peregrinação pela Lua no lírico “If I Forget Thee, Oh Earth …” (Se eu esquece-la, Oh Terra…), quando a lembrança do antigo planeta, agora destruído por uma guerra nuclear, e o desejo de retornar para casa, se tornam a razão da humanidade continuar em frente.

Com uma temática parecida com o futuro “Maelstrom II”, porém com desenvolvimento completamente diferente, “Breaking Strain” (filmado com o titulo de “Acidente Espacial” (Trapped in Space)) narra o duelo psicológico e emocional entre os dois tripulantes da nave Star Queen, o capitão Grant e o engenheiro de bordo McNeil, quando um meteoro atinge os reservatórios de oxigênio da nave, deixando com apenas 20 dias de ar, quando ainda faltam trinta dias para chegar em Vênus. As leis da mecânica celeste não permitem quaisquer mudanças no ritmo da viagem… ambos estarão mortos em vinte dias. Mas espere um pouco, o ar durará vinte dias para *dois* homens, mas se houve apenas *um*… A realização desse fato levará tanto o rigido Grant quanto o hedonistico McNeil a pensarem o impensável… e talvez tentarem o inconcebível.

Em “History Lesson” (Lição de História), Clarke narra o desaparecimento de nossa civilização devido a uma futura Era Glacial e as descobertas feitas por arqueólogos venusianos ao examinar talvez o único registro que eles poderiam entender: um rolo de filme… mas qual filme? Nós descobrimos isso ao final, numa tremenda brincadeira com as nossas tentativas de entender nosso próprio passado.

Um conto de space-opera que critica a lógica da Guerra Fria e a tendência humana de não questionar as conseqüências de suas tecnologias, “Superiority” (Superioridade) é o relato do comandante das forças armadas de um império estelar derrotado, explicando que sua derrota não ocorreu devido as virtudes de seu adversário, mas devido a própria superioridade militar de seu império. Como tal paradoxo é possível? O comandante explica muito bem, terminando com um pedido para Corte, que devido ao relato se torna hilário.

Em “Exile of the Eons”, um ditador tenta fugir de seus inimigos usando a técnica da animação suspensa para restabelecer seu império cem anos no futuro. Porém com uma ajudinha da Lei de Murphy e de um filosofo com poderes telepáticos exilados nos últimos dias do Sistema Solar, a justiça tarda… mas não falha, ironizando a ambição e a sede de poder.

Após uma caçada, um homem começa a contar, em “Hide and Seek” (esconde-esconde) um caso que é rir para não chorar: quando o misterioso agente K.15, em uma roupa espacial, escapa da mais poderosa nave do inimigo, ao brincar uma versão planetária de esconde-esconde…

Cientistas de um império estelar que se destruindo encontram um planeta com seres idênticos a eles mesmos, se bem que em um estado extremamente primitivo. As questões que o contato traz, assim como se esses seres que só agora começam a erguer uma civilização, seram capazes de evitar os erros cometidos por seus visitantes dá a “Expedição para a Terra” um toque lírico e melancólico ao conto.

A civilização marciana percebe que os terráqueos começam a desenvolver a tecnologia espacial e o poder atômico. Preocupados que aqueles seres atrasados poderiam ser uma ameaça para sua civilização, os marcianos lançam um ultimato para que a humanidade abandone a pesquisa espacial… só que eles não contavam com uma brecha legal nas Leis da Fisica em “Loophole” (Fenda).

Em “Inheritance” (Herança), descobre-se a razão da confiança de um piloto de teste num fenômeno que lembra muito uma das peças do enredo de “O Fim da Infância”… só que talvez o piloto não tenha entendido muito bem o que sua visão queria dizer…

Durante as primeiras explorações lunares, um geólogo – ou melhor, um selenogista – encontra algo incrível, um artefato claramente artificial, uma pirâmide protegida por um campo de força. Obra de uma antiga civilização selenita ou de alienígenas bem mais antigos e avançados que nós? O descobridor da pirâmide nos conta as suas próprias idéias sobre a função da pirâmide… parece familiar?

Os contos do livro são claramente inspirados na space-opera que dominava o gênero da Ficção Científica na época, só que ao mesmo tempo, mostram um humor e uma critica sutil à sociedade e as tendências da humanidade, raramente vistas na space-opera de então. São contos escritos em uma época que um homem podia temer o amanhã e ao mesmo sonhar com as Estrelas…

A ESTRELA

A Estrela é um conto de ficção científica de Arthur Charles Clarke datado de 1956, que se desenrola depois de uma expedição em visita de uma estrela transformada em supernova milhares de anos antes.

Após observarem o astro percebem um planeta girando a sua volta numa órbita muito distante o que o teria preservado do pior da explosão, e notam os restos de algumas construções artificiais em sua superfície. Ao analisarem de perto estes restos, os pesquisadores concluem que são os últimos vestígios de uma antiga civilização que existia antes da estrela explodir e que, incapazes de escapar do destino fatal, deixaram no último planeta o máximo de informações possíveis a respeito de sua cultura.

Um padre que vai na expedição, se impressiona com a humanidade dos indivíduos daquela civilização e presume que estes seriam seres pacíficos que tiveram um cruel destino, sua compaixão porém se transforma em desespero quando, após vários cálculos, descobre que a estrela em questão era a estrela de Belém, fazendo com que o anunciamento do messias no qual ele acreditava e devotou a vida fosse um ato de genocídio de toda uma espécie inteligente. O conto foi considerado o melhor de 1956.

O SENTINELA
Publicada em 1951 que inspirou 2001 – Uma odisséia no Espaço.

O livro conta a história de uma estrutura piramidal descoberta na Lua que se revela ser uma espécie de radiotransmissor deixado por uma raça alienígena em tempos remotos, a qual havia percebido a possibilidade de se desenvolver na Terra vida inteligente e civilização. Devido à resistência de seus materiais, os terráqueos são obrigados a destruí-la para poderem analisá-la, o que faz com que ela pare de enviar sinais para seus construtores, revelando para estes a presença de mais uma espécie inteligente no universo: os seres humanos (VEJA O CONTO COMPLETO NA POSTAGEM ABAIXO)

A Muralha das Trevas
Escrito em 1949, que narra uma história passada num estranho universo composto de apenas um sol e um planeta.

Este planeta possui uma face tórrida eternamente voltada para o sol e outra, gelada, eternamente na escuridão, na fronteira entre os dois lados, numa estreita faixa de terra circundando o planeta, o clima possibilita a vida de uma civilização onde habita um homem intrigado desde a juventude com o maior mistério de seu mundo: uma imensa muralha negra que circunda todo o planeta impedindo sequer a visão do seu lado escuro, quanto mais o acesso a ele.

Durante toda sua juventude coletou histórias sobre o que existiria além da mesma e porque foi construída, mas encontrava apenas relatos míticos e lendários, como por exemplo, que lá era onde todos iriam após a morte ou onde ficavam antes de nascer, e ainda que fora feito para encerrar algum horror terrível. Já na idade adulta decide por fim junto com um amigo seu arquiteto, construir uma escadaria que levaria até o topo da muralha permitindo ver o que havia atrás dela. Após o término da construção ele chega ao alto da mesma e controlando o medo começa a caminhar em direção a outra borda, no caminho existe uma névoa que impede de ver além e faz com que com o seu avanço o sol atrás dele vá sumindo também até desaparecer de todo, mas quando isso acontece um outro sol idêntico ao que havia sido deixado para trás aparece na sua frente em meio a neblina e conforme vai andando, este novo astro fica mais nítido até aparecer por completo junto com o outro lado, e o protagonista para sua enorme surpresa descobre que é o mesmo lado de onde havia partido, o seu mundo na verdade é uma superfície de um lado só, mesmo sendo de três dimensões, não havendo portanto um outro lado da muralha, que foi construída para proteger da loucura todos os que fossem até aquele ponto, impedindo de verem diretamente um paradoxo espacial.

As Canções da Terra Distante
Conto onde narra o encontro entre os habitantes de uma isolada colônia terrestre no planeta Thalassa e os passageiros de uma imensa nave espacial que aporta no planeta devido a um defeito técnico.

Na história uma jovem de Thalassa apaixona-se de um dos ocupantes da nave, que promovem um choque cultural, porém seu amor é sem esperança por causa do comprometimento do rapaz com uma mulher que jaz congelada dentro da nave a espera do destino final da viagem, 200 anos-luz de distância.

2001: A Space Odyssey, ou 2001: Uma odisséia no espaço
É para muitos críticos, um dos melhores filmes de ficção científica de todos os tempos. Foi realizado em 1968 pelo cineasta Stanley Kubrick, natural dos Estados Unidos da América.
Este filme, com uma duração total de 139 minutos e apenas 40 de diálogo, analisa a evolução do Homem, desde os primeiros hominídeos capazes de usar instrumentos, até à era espacial e para além disso. Foi baseado nas obras de Arthur C. Clarke The Sentinel e 2001: A Space Odyssey, esta última escrita simultaneamente com as filmagens.

Uma das personagens principais do filme é o computador inteligente HAL 9000, uma das máquinas mais famosas da História do Cinema. A crítica viu no nome do computador uma referência velada à IBM, pois as letras da sigla precedem em uma casa a denominação da conhecida empresa estado-unidense do sector informático. Kubrick, no entanto, desmentiu essa tese, dizendo que isso não passou de uma coincidência.

Outros destaques do filme são os seus efeitos especiais pioneiros, e a sua trilha sonora, composta entre outras por obras de Richard Strauss (Assim Falou Zaratustra), e Gyorgy Ligeti (Lux Aeterna), sendo este último repetente nos filmes de Kubrick. Uma curiosidade sobre a trilha sonora do filme: Kubrick solicitou ao seu colaborador em Spartacus, Alex North, que compusesse a trilha sonora para a película. Depois de escutar o resultado, o diretor de “2001…” não ficou satisfeito e optou pela música clássica para dar vida às famosas cenas no espaço. North só soube que sua trilha tinha sido jogada no lixo no dia da estréia do filme, e ficou furioso.

Posteriormente foi lançado o livro “Mundos Perdidos de 2001” (The Lost Worlds of 2001), no qual Clarke conta a história do filme, a do livro e outras inéditas. No Brasil foi lançado pela editora Expressão e Cultura em 1972. Em 1984 foi lançada a sequência 2010: O ano que faremos contato, baseado na obra homônima de Arthur C. Clarke, lançada em 1982.

2010 – Uma Odisséia no Espaço II (2010: Odyssey Two)
Também levado às telas. Com o título de 2010 – O Ano em que faremos contato, Na verdade uma continuação do filme e não do livro. O ambiente para a narração é uma missão binacional (soviéticos e americanos) a bordo da nave espacial Cosmonauta Alexei Leonov que parte em direção a Júpiter, a bordo encontra-se o cientista Heywood Floyd. Propõe-e a responder algumas das questões deixadas em aberto em 2001. Tais como: Quais são os objetivo ocultos por trás do monolito? O que aconteceu com a Discovery e sua tripulação? O que aconteceu em especial a David Bowman? Quem, ou o que, era a criança-estrela do final do filme? O climáx ocorre com a tranformação de Júpiter em um mini-sol e o início de um novo tempo para a Humanidade num mundo sem noite.

2061 – Uma Odisséia no Espaço III (2061: Odyssey Three)
Heywood Floyd, agora com 103 anos, volta a cena. Ele parte numa nave em missão turística ao Cometa de Halley, mas acaba indo parar em Europa, o satélite proibido quando uma nave cai alí com seu neto a bordo. O monolito volta a mostrar seu poder a serviço de uma suprema força alienígena que decidiu que a Humanidade terá que, forçosamente, desempenhar um papel fundamental na evolução da Galáxia.

3001 – A Odisséia Final. (3001 – The Final Odissey)
Lançado em 1997, é aquele que pretende encerrar a saga iniciada em 2001 e dar as respostas finais. Principia com a descoberta do corpo do astronauta Frank Poole, que havia sido abandonado no espaço por uma manobra do computador HAL-9000. Poole é ressuscitado com as técnicas da época, onde a rigor a morte não existe mais.

O fim da Infância (Childhood’s End – 1953)
A chegada de seres alienígidas na Terra é seguida com o próximo passo na evolução humana em direção a “inteligência cósmica”. Esta raça alienígena tem uma incrível semelhança com demônios (vermelhos, chifres, caudas em seta…) e vem para anunciar o fim da infância para a espécie humana.

O Outro Lado do Céu (The other side of the sky – 1958)
Coletânea de contos onde estão incluídos dois dos maiores clássicos em matéria de contos de ficção científica: Os Nove Trilhões de Nomes de Deus e A Estrela.

Os Náufragos do Selene (A Fall of Moondust – 1961)
Selene é uma nave de turismo que, devido a um acidente na poeira lunar, submerge no Mar da Sede. Em seu interior vinte pessoas lutam para sobreviver à custa de todas as possiblidades.

Sobre o Tempo e as Estrelas (Of Time and Stars – 1972)
Coletânea de contos que reune contos publicados entre 1949 e 1962.

Encontro com Rama (Rendez-vous with Rama – 1973)
No final do século XXI após uma tragédia ocorrida com a queda de um meteoro, a Terra cria um sistema de proteção que em 2130 a Terra, detecta uma nave espacial alienígena de 50 quilômetros de extensão penetrando no sistema solar e aproximando-se de nosso planeta. Uma nave é enviada com missão de interceptar e explorar a gigantesca nave e descobrir quais são os desígnios por trás de sua aparição. Serão hostis invasores ou arautos de uma nova era para a espécie humana? Mistério e beleza se fundem neste maravilhoso livro que nos leva a refletir sobre a importância do homem e da espécie humana como um todo na ordem do universo. Um clássico vencedor dos prêmios Hugo e Nebula.

O Enigma de Rama (Rama II)

Continuação de Encontro com Rama, narra as aventuras de uma nova expedição destinada a descobrir qual os propósitos ocultos atrás da segunda aparição de Rama.

O Jardim de Rama (The Garden of Rama)
Dando seguimento a saga de Rama, o livro narra a viagem dos tripulantes da segunda expedição (O Enigma de Rama) que são deixados para trás quando o resto da tripulação abandona Rama às pressas. Parte dos propósitos de Rama é finalmente revelado.

A Revelação de Rama
Último livro da série, aqui finalmente os propósitos dos construtores de Rama é decifrado.

O berço dos Super-Humanos (Cradle – 1988)
Escrito a duas mãos por Arthur C. Clarke e Gentry Lee, narra a história de três aventureiros em busca de um míssil secreto desaparecido encontram uma gruta submarina vigiada por baleias que parecem drogadas. Inicia-se assim uma aventura que o conduzirá pelos mistérios de um planeta com dois sóis, três luas, fantásticas criações e uma assombrosa revelação sobre o destino reservado para a humanidade.

Terra Imperial (Imperial Earth)
A narrativa se passa em Titã uma das luas de Saturno e colônia da terra e conta a história de um homem nascido na era interplanetária. Sua primeira peculiaridade é ter nascido sob um novo processo, já que não teve mãe, apenas pai. Já homem retorna à Terra. A ação de passa no século XXIII e decorre em ambiente cheio de enigmas e mistérios.

A Cidade e as Estrelas (The City and the Stars)
Passaram-se um bilhão de anos, o homem alcançou as estrelas, constituíu um império galático, mas vieram os invasores e o homem foi obrigado a abandonar todas as suas conquistas e refugiar no seu planeta de origem, e assim o homem volta e passa a habitar na última cidade do mundo, Diaspar. Uma sociedade fechada e imutável, com um bilhão de anos.

O Vento Solar
Coletânea de contos. Inclui o premiado conto Encontro com Medusa.
O Terceiro Planeta
Coletânea de artigos e crônicas, que se inicia com um conto bastante interessante e elucidativo quanto aos parâmetros que são adotados pela ciência, intitulado Relatório Sobre o Planeta Três, onde tal documento é encontrado numa expedição arqueológica a Marte, revelando as razões para a não existência de vida na Terra.
As fontes do paraíso
Considerado pelo próprio Arthur Clarke como seu melhor romance.

Deixe um comentário

Arquivado em Estante de Livros e Revistas, Ficção Cientifica, Resumos

Arthur C. Clarke (O Sentinela)

A próxima vez que olhar a Lua encher no alto, para o sul, olhe com atenção o seu rebordo à direita e deixe a seu olho viajar para cima ao longo da curva do disco. Ao redor do dois do relógio, observará um círculo pequeno e escuro. Qualquer com uma visão normal o encontrará com bastante facilidade. Trata-se da grande planície murada, uma das melhores da Lua e que se conhece como Mare Crisium, o Mar das Crises. De uns quinhentos quilômetros de diâmetro e quase rodeada por completo por um anel de magníficas montanhas, não tinha sido nunca explorada até que entramos nela a finais do verão de 1996.

Nossa expedição era bastante importante. Tínhamos dois pesados cargueiros que haviam trazido em vôo nossos fornecimentos e equipe da base lunar principal situada no Mare Serenitatis, a uns oitocentos quilômetros dali. Havia também três pequenos foguetes previstos para transportes de escasso rádio de ação sobre aquelas regiões que nossos veículos de superfície não pudessem cruzar. Por sorte, a maior parte do Mare Crisium é completamente plaina. Não existe nenhuma das grandes gretas tão freqüentes e perigosas em outras partes e são muito poucas as crateras ou montanhas de qualquer tamanho. Por isso, sabíamos, nossos poderosos tratores larva não teriam a menor dificuldade em nos levar aonde quiséssemos.

Eu era geólogo, ou melhor dizendo selenólogo, se deseja ser pedante, ao mando do grupo de exploração da zona sul do Mare. Tínhamos percorrido já, em uma semana, uns cento e cinqüenta quilômetros, bordeando as saias das montanhas ao longo da borda do que em um tempo foi um mar, uns mil e milhões de anos atrás. Quando a vida se iniciava na Terra, aqui já se achava moribunda. As águas se retiravam dos flancos daqueles estupendos penhascos, para o vazio coração da Lua. Pelo território que cruzávamos, aquele oceano sem marés tinha tido um dia mais de trinta quilômetros de profundidade e agora o único vestígio de umidade era a geada que às vezes se encontrava em cavernas nas que a ardente luz do sol não penetrava jamais.

Tínhamos começado nossa viagem a primeira hora do lento amanhecer lunar e faltava ainda uma semana, segundo o tempo da Terra, para que caísse a noite. Meia dúzia de vezes ao dia devíamos abandonar nossos veículos e sair com os trajes espaciais em busca de minerais interessantes, ou a colocar marcas que servissem de guia a futuros viajantes. Tratava-se de uma rotina monótona. Não existe nada perigoso, nem sequer excitante, em uma exploração lunar. Podíamos viver com toda comodidade durante um mês em nossos tratores pressurizados e, se nos enfrentávamos com algum problema, sempre podíamos recorrer ao rádio para pedir ajuda e esperar até que qualquer espaçonave fosse a nos resgatar.

Acabo de dizer que não há nada excitante na exploração lunar; mas, naturalmente, isso não é certo. A gente pode chegar a cansar-se daquelas incríveis montanhas, muito mais escarpadas que as da Terra. Enquanto rodeávamos os cabos e promontórios daquele mar desaparecido, não sabíamos jamais que novos esplendores nos revelariam. Toda a curva sul do Mare Crisium forma um vasto delta onde, em um tempo, uma série de rios abriu caminho para o oceano, alimentados talvez pelas chuvas torrenciais que deveram bater as montanhas na breve era vulcânica quando a Lua era jovem. Cada um daqueles antigos vales era um convite, nos desafiando a subir por eles para as desconhecidas terras altas que se achavam mais à frente. Mas tínhamos que cobrir ainda uns cento e cinqüenta quilômetros e só podíamos olhar com desejo aquelas alturas que outros escalariam.

A bordo do trator, conservávamos o horário da Terra. E, às 22.00 em ponto, tínhamos que enviar a mensagem de rádio à Base e fechar o contato por esse dia. Fora, as rochas arderiam ainda sob um sol quase vertical; entretanto, para nós, seria de noite até que despertássemos de novo oito horas depois. Logo, um dos que estávamos ali prepararia o café da manhã, escutar-se-ia um grande ronronar de barbeadores elétricos e algum conectaria a rádio de onda curta emitida da Terra.

Do mesmo modo, quando o aroma das salsichas fritas começasse a encher a cabine, resultaria difícil acreditar que não nos achávamos de retorno em nosso próprio mundo. Até tal ponto era tudo tão normal e caseiro, se deixávamos de lado a sensação de ter diminuído de peso e a pouco natural lentidão com que caíam os objetos.

Tocava-me preparar o café da manhã no rincão da cabine principal, que fazia as vezes de cozinha. Depois de tantos anos, posso recordar aquele momento de uma forma muito vívida, posto que na rádio acabavam de tocar uma de minhas melodias favoritas, a antiga toada galesa do David na Rocha Branca. Nosso condutor já estava fora, com seu traje espacial, inspecionando nossas bandas. Meu ajudante, Louis Garnett, encontrava diante, na posição de controle, realizando algumas notas no Jornal do dia anterior.

Enquanto me achava de pé ao lado da frigideira, aguardando, como qualquer dona-de-casa terrestre, a que se dourassem as salsichas, deixei que meu olhar errasse ocioso pelas paredes da montanha que cobriam todo o horizonte sul e se estendiam, até perder-se de vista, para o Este e o Oeste, por debaixo da curva da Lua. Pareciam estar a só uns três quilômetros do trator; entretanto, eu sabia que a mais próxima se achava a trinta quilômetros. Naturalmente, na Lua não se perdem os detalhes com a distância, pois não existe nenhuma das quase imperceptíveis neblinas que, na Terra, peneiram e às vezes desfiguram as coisas longínquas.

Aquelas montanhas tinham três mil metros de altura e ascendiam abruptamente da planície, como se umas eras atrás alguma erupção subterrânea as tivesse arrojado para o céu através da fundida casca. Inclusive a base da mais próxima ficava oculta pela curvadíssima superfície da planície, já que a Lua é um mundo muito pequeno e, de onde eu me encontrava, o horizonte se achava a só uns três quilômetros.

Elevei os olhos para os picos aos que não tinha ascendido jamais nenhum homem; umas cúpulas que, antes do princípio da vida terrestre, tinham contemplado os oceanos em retirada afundando-se sombriamente em suas tumbas e levando consigo a esperança e a promessa do amanhã de um mundo. A luz solar se estrelava contra as cúpulas com um esplendor que fazia machuco à vista; só um pouco por cima delas, as estrelas iluminavam com firmeza em um céu mais negro que em qualquer noite invernal da Terra.

Estava já me voltando, quando meu olho captou um reflexo metálico no alto da aresta de um grande promontório que se projetava por volta do mar, uns cinqüenta quilômetros para o Oeste.

Tratava-se de um ponto de luz impreciso, como se uma estrela tivesse sido arrancada do céu por um daqueles cruéis picos; e imaginei que alguma polida superfície rochosa captava a luz solar e fazia as vezes de um heliógrafo diretamente para meus olhos. Coisas deste tipo não eram estranhas. Às vezes, quando a Lua se encontra em seu segundo quarto, os observadores da Terra vêem as grandes cordilheiras do Oceanus Procellarum arder com uma iridiscência de um azul esbranquiçado, pois a luz do Sol cintila desde suas saias e salta de novo de um mundo a outro. Não obstante, tive curiosidade por saber que classe de rocha podia brilhar ali com tanta intensidade. Subi à torre de observação e fiz girar para o Oeste nosso telescópio de dez centímetros; vi o suficiente para ficar tentado. Muito claro e nítido no campo de visão, os picos da montanha pareciam encontrar-se a menos de um quilômetro; Mas aquilo que apanhava a luz solar era muito pequeno para ser captado.

Entretanto, parecia possuir uma simetria elusiva. E a cúpula sobre a que descansava era curiosamente plana. Contemplei aquele resplandecente enigma, forçando durante um bom momento meus olhos para o espaço, até que um aroma de queimado procedente da cozinha me disse que nossas salsichas para o café da manhã tinham efetuado em vão uma viagem de mais de quatrocentos mil quilômetros.

Toda aquela manhã estivemos discutindo durante nosso percurso através do Mare Crisium, enquanto as montanhas orientais se elevavam cada vez mais para o céu. Inclusive quando procurávamos nossos trajes espaciais, a discussão continuou por rádio. Era de todo seguro, argumentavam meus companheiros, que jamais se viu nenhuma forma de vida inteligente na Lua. As únicas coisas viventes que tivessem podido existir ali eram algumas novelos primitivas e seus um pouco menos degenerados antepassados. Sabia tudo aquilo; entretanto, há ocasiões nas que um cientista não deve ter medo a fazer um pouco o ridículo.

– Me escutem – disse-lhes ao fim. – Vou ali, embora só seja para ficar tranqüilo. Essa montanha tem menos de quatro mil metros de altura; quer dizer, só setecentos segundo a gravidade terrestre, e posso fazer o percurso no máximo em vinte horas. Sempre desejei, por outra parte, escalar essas montanhas e isto me proporciona uma desculpa excelente.

– Se não te romper o pescoço – respondeu Garnett – te converterá no bobo da expedição quando retornarmos à Base. E, a partir de agora, essa montanha começa a chamar-se Loucura do Wilson.

– Não me romperei o pescoço – repliquei com firmeza. – Quem foi o primeiro homem que subiu o Pico Helicon?

– Mas não foi bastante mais jovem naquela época? – perguntou Louis em tom amável.

– Isso – repliquei com dignidade – é uma razão tão boa como qualquer outra para desejar ir.

Aquela noite nos deitamos cedo, depois de levar o trator até um quilômetro do promontório. Garnett viria comigo pela manhã. Era um bom alpinista e me tinha acompanhado com freqüência em façanhas daquele tipo. Nosso condutor ficou muito agradado de que o deixássemos ao mando da máquina.

À primeira vista, aqueles escarpados pareciam por completo inescaláveis; entretanto, para qualquer que tenha uma cabeça firme que resista às alturas, é fácil subir em um mundo onde todos os pesos são só de uma sexta parte de seu valor normal. O perigo autêntico no montanhismo lunar radica na excessiva confiança. Uma queda de duzentos metros na Lua, pode te matar exatamente igual a uma de trinta na Terra.

Fizemos nossa primeira parada em um amplo suporte a uns mil e trezentos metros por cima da planície. A ascensão não tinha sido difícil; mas tinha os membros um pouco enrijecidos à causa do desacostumado esforço e me alegrou poder descansar. Ainda víamos o trator como um pequeno inseto metálico, muito afastado ao pé do escarpado e informamos de nosso avanço ao condutor antes de começar a seguinte etapa de ascensão.

No interior de nossos trajes reinava um confortável frescor, posto que as unidades de refrigeração lutavam contra o implacável sol e eliminavam o calor corporal de nosso esforço. Não nos falávamos, exceto para nos passar instruções a respeito da ascensão e para discutir o melhor plano de ascensão. Não sabia o que pensava Garnett. Provavelmente, que aquela era a aventura mais descabelada em que jamais se embarcou. Eu estava mais que pela metade de acordo com ele; mas a alegria da ascensão, saber que nenhum homem tinha pisado aquele caminho antes e o entusiasmo que proporcionava a paisagem ao ampliar-se cada vez mais ante nós, ia concedendo toda a recompensa que desejava.

Não acredito haver sentido uma particular excitação ao ver diante de nós a parede de rocha que tinha inspecionado pela primeira vez com o telescópio de uma distância de cinqüenta quilômetros. Elevava-se a uns vinte metros por cima de nossas cabeças e ali, na meseta, encontrar-se-ia a coisa que me tinha levado até esse lugar por aquelas desoladas paragens. Certamente não se trataria mais que de uma rocha estilhaçada muitíssimos anos atrás pela queda de um meteorito e que conservava seus planos de cisão ainda frescos e brilhantes naquela quietude incorruptível e imutável.

Não havia na parte dianteira da rocha nenhum lugar onde agarrar-se com as mãos e teríamos que empregar um gancho de ferro. Meus cansados braços pareceram recuperar nova força ao fazer girar sobre minha cabeça a âncora metálica tridentada e lançá-la na direção das estrelas. A primeira vez não agarrou e caiu com lentidão ao atirar da corda. Ao terceiro intento, os dentes se cravaram com firmeza e o peso dos dois juntos já não foi capaz de arrancá-los.

Garnett me olhou com ansiedade. Pareceu-me que queria ser o primeiro, mas lhe sorri do cristal de meu casco e meneei a cabeça. Muito devagar, tomando tempo, empreendi a ascensão final. Inclusive com meu traje espacial, aqui só pesava uns vinte quilogramas. Içava-me com uma mão atrás de outra, sem me preocupar de empregar os pés. Ao chegar ao bordo, fiz uma pausa e um gesto a meu companheiro, depois do qual acabei de subir pelo fio. Pus-me de pé e olhei ante mim.

Devem compreender que, até este momento, tinha estado convencido quase por completo de que ali não haveria nada estranho ou fora do corrente. Quase. Mas não por completo. Aquela tentadora dúvida era a que me tinha impulsionado a seguir adiante. Pois agora já não havia dúvida; mas o mistério só acabava de começar.

Achava-me de pé em uma meseta como de uns trinta metros de diâmetro. Em um tempo tinha sido lisa por completo (muito lisa para ser natural); mas as quedas de meteoritos tinham marcado e perfurado sua superfície através de imensuráveis buracos. Tinham-no aplanado para suportar uma estrutura reluzente e mais ou menos piramidal, que dobrava em altura a um homem e que se achava embutida na rocha como uma jóia gigantesca e de múltiplos facetas.

Provavelmente, naqueles primeiros segundos, nenhuma emoção encheu absolutamente minha mente. Logo senti uma euforia imensa e uma alegria estranha e inexpressável. Em realidade, amava a Lua e agora soube que o mofo rasteiro do Aristarco e Erastóstenes não tinha sido a única vida que albergou durante sua juventude. O velho e desacreditado sonho dos primeiros exploradores era certo. A fim de contas, tinha existido uma civilização lunar e eu era o primeiro que a tinha encontrado. Ter chegado talvez com um centenar de milhões de anos de atraso não me turvava o mais mínimo. Era suficiente ter podido chegar.

Minha mente começou a funcionar com normalidade, para analisar e expor perguntas. Tratava-se de um edifício, um santuário, ou algo para o que meu idioma carecia de denominação? Se era um edifício, por que o tinham construído em um lugar tão pouco acessível? Perguntei-me se aquilo seria um templo e imaginei aos adeptos de alguma estranha fé clamando a seus deuses para que os salvassem enquanto a vida da Lua refluía junto com os agonizantes oceanos; e apelando em vão a suas deidades…

Avancei uma dúzia de passos para examinar aquilo desde mais perto. Mas um sentido de precaução me conteve de me aproximar muito. Sabia um pouco de arqueologia e tratei de deduzir o nível cultural da civilização que tinha limado aquela montanha e elevado aquelas superfícies reluzentes de espelho que ainda me deslumbravam os olhos.

Pensei que os egípcios poderiam ter feito algo assim, se seus operários houvessem possuído alguns materiais mais estranhos que os empregados por aqueles arquitetos muito mais antigos. Pelo reduzido daquela coisa, não me ocorreu que pudesse estar contemplando a obra de uma raça muito mais avançada que a minha. A idéia de que na Lua tivesse havido inteligência era muito tremenda para captá-la e meu orgulho não me permitia dar o último e humilhante salto.

Logo precavi-me de algo que me produziu um calafrio na nuca, uma coisa tão corriqueira e tão inocente que muitos jamais se teriam fixado nisso. Já expliquei que a meseta apresentava as cicatrizes produzidas pelos meteoritos; mas estava também revestida de uns centímetros de pó cósmico, algo que sempre se filtra à superfície de qualquer mundo onde não há ventos que o perturbem. Entretanto, o pó e as cicatrizes terminavam de repente em um amplo círculo que rodeava a pequena pirâmide, como se uma parede invisível a protegesse das inclemências do tempo e do lento mas incessante bombardeio do espaço.

Algo gritava em meus auriculares e me dava conta de que Garnett me tinha estado chamando desde fazia momento. Andei vacilante até o bordo do penhasco e lhe fiz sinais para que se reunisse comigo, pois não confiava em mim o suficiente para expressá-lo com palavras. Logo retornei para o círculo no pó. Recolhi um fragmento de rocha estilhaçada e o lancei com suavidade contra o brilhante enigma. Se o calhau se desvanecesse naquela invisível barreira não me tivesse surpreso; mas pareceu alcançar uma superfície semiesférica. E suave deslizou meigamente até o chão.

Soube que estava olhando algo que não podia comparar-se com a antiguidade de minha própria raça. Não era um edifício, a não ser uma máquina, e que se protegia com umas forças que tinham desafiado à eternidade. Aquelas forças, fossem as que fossem, operavam ainda e talvez me tinha aproximado já muito. Pensei em todas as radiações que o homem tinha apanhado e domesticado durante o século passado. Segundo meus conhecimentos, podia muito bem me achar condenado de forma irrevogável, como se tivesse penetrado, sem levar amparo, na aura mortífera de uma pilha atômica.

Lembrança que então me voltei para o Garnett, que se tinha reunido comigo e que se achava de pé e imóvel a meu lado. Parecia como esquecido de mim. Não quis lhe incomodar e me dirigi ao bordo do escarpado, em um esforço por ordenar meus pensamentos. Lá, debaixo de mim, jazia o Mare Crisium (precisamente o Mar das Crises), estranho e esranho para a maioria dos homens; mas familiar e tranqüilizador para mim. Elevei os olhos para o crescente da Terra, que jazia entre seu berço de estrelas e me perguntei o que haviam visto suas nuvens quando aqueles desconhecidos construtores finalizaram sua tarefa. Encontrava-se na selva cheia de vapores do Carbonífero, na desolada costa sobre a qual tinham subido os primeiros anfíbios para conquistar a terra, ou mais cedo ainda, na larga solidão que precedeu à chegada da vida?

Não me perguntem por que não adivinhei antes a verdade, essa verdade que agora me parece tão óbvia. Na primeira excitação de meu descobrimento pensava, é óbvio, sem pô-lo em tecido de julgamento, que aquela aparição cristalina a tinha construído alguma raça pertencente ao passado remoto da Lua. Mas, de repente e com uma força entristecedora, tive a convicção de que se tratava de alguém tão alheio à Lua como eu mesmo.

Durante vinte anos não tinha encontrado o menor traçado de vida exceto algumas novelo degeneradas. Nenhuma civilização lunar, qualquer que tivesse sido seu destino, podia ter deixado algo mais que um simples testemunho de sua existência.
Olhei de novo a reluzente pirâmide, e me pareceu mais remota que qualquer outra coisa que tivesse algo que ver com a Lua. De repente, estremeci-me com uma louca e histérica risada, produto da excitação e do esforço. Tinha-me imaginado que aquela pequena pirâmide me falava e me dizia:

– Sinto muito, mas eu também sou um estranho aqui.

Demoramos vinte anos em quebrantar esse invisível escudo para chegar à máquina que se encontrava dentro daquelas paredes cristalinas. O que não podíamos entender, rompemo-lo ao fim com a força selvagem da energia atômica e agora vi os fragmentos daquela coisa formosa e resplandecente que encontrei no alto da montanha.

Não têm o menor sentido. O mecanismo, se é que se tratava de algum mecanismo, da pirâmide pertence a uma tecnologia que se encontra muito além de nosso horizonte; talvez seja a tecnologia própria das forças parafísicas.

O mistério nos obceca muito mais agora que se chegou aos outros planetas e que sabemos que só a Terra foi o lar da vida inteligente em nosso Universo. Tampouco nenhuma civilização perdida de nosso próprio mundo pôde construir essa máquina, posto que a grossura do pó espacial que havia sobre a meseta nos permitiu calcular sua idade. Depositou-se em cima da montanha antes de que a vida emergisse dos oceanos da Terra.

Quando nosso mundo tinha a metade de sua idade atual, «algo» procedente das estrelas, passou através do sistema solar, deixou aquele sinal de seu passo e seguiu seu caminho. Até que a destruímos, essa máquina seguiu cumprindo a missão de seus construtores. Quanto a qual era essa missão, hei aqui o que conjeturo:

Há perto de cem mil e milhões de estrelas que giram no círculo da Via Láctea e faz muito tempo outras raças nos mundos de outros sóis deveram ter alcançado e superado as alturas que nós alcançamos agora. Pensem nessas civilizações, muito afastadas no tempo, no mortiço resplendor que seguiu à Criação, donos de um Universo tão jovem que a vida só tinha chegado a uns quantos mundos.

Deviam achar-se em uma solidão que não podemos imaginar; a solidão dos deuses que olham através do infinito e que não encontram a ninguém com quem compartilhar seus pensamentos.

Deviam ter estado procurando nos amontoados de estrelas, quão mesmo nós procuramos nos planetas. Em todas as partes existiriam mundos; mas vazios ou povoados de coisas sem mente que se arrastavam. Assim era nossa própria Terra, com a fumaça dos grandes vulcões manchando ainda os céus, quando a primeira nave dos povos do amanhecer se deslizou dos abismos de além de Plutão. Passou os sorventes mundos exteriores, sabendo que a vida não poderia desempenhar nenhum papel em seus destinos. Deteve-se entre os planetas interiores, esquentando-se com o Sol e aguardando que começassem suas histórias.

Aqueles vagabundos deveram olhar para a Terra, que girava a salvo na estreita zona entre o fogo e o gelo, e deveram pensar que era a favorita dos filhos do Sol. Em um futuro distante, haveria ali inteligência; mas tinham ainda incontáveis estrelas ante eles e talvez não voltassem nunca mais por este caminho.

Deixaram, pois, um sentinela, um dos milhões que tinham esparso através do Universo, para que vigiasse todos os mundos nos que havia uma promessa de vida. Era um farol que, através de todas as idades, esteve assinalando em silêncio o fato de que ninguém o tinha descoberto ainda. Talvez entenderão agora por que a pirâmide de cristal se elevou sobre a Lua em lugar de elevar-se sobre a Terra. Seus construtores não se preocupavam das raças que ainda se esforçavam desde seu estado selvagem. De nossa civilização só podia lhes interessar que demonstrássemos aptidão para sobreviver, para cruzar o espaço e escapar da Terra, nosso berço. Este é o desafio ao que todas as raças inteligentes devem fazer frente mais tarde ou mais cedo. Trata-se de uma provocação dupla, porque depende a sua vez da conquista da energia atômica e da última eleição entre a vida e a morte.

Uma vez tivéssemos superado aquela crise, só seria questão de tempo que encontrássemos a pirâmide e a abríssemos. Agora seus sinais cessaram e aqueles cujo dever seja esse, voltarão suas mentes para a Terra. Talvez desejem ajudar a nossa jovem civilização. Mas devem ser já velhos, muito velhos, e os anciões sentem muitas vezes um ciúmes doentios dos jovens. Agora já não posso olhar para a Via Láctea sem me perguntar desde qual daquelas compactas nuvens de estrelas virão os emissários. Se me perdoarem um lugar comum muito ocorrido, direi que temos quebrado o cristal do alarme contra incêndios e quão único temos que fazer é aguardar.

Mas não acredito que devamos esperar muito.

Fonte:
http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros

Deixe um comentário

Arquivado em Contos, Ficção Cientifica, Literatura Inglesa

O. Henry (1862 – 1910)

William Sydney Porter, contista estadunidense nascido em Greensboro, Carolina do Norte, cuja produção de contos romantizados, muitas vezes com finais imprevistos que se tornaram sua marca registrada e o tornaram um dos autores mais populares do seu tempo. De família culta e abastada, sua mãe morreu tuberculosa quando ele tinha três anos e foi criado por uma tia. Começou a trabalhar como aprendiz de boticário aos quinze anos e depois mudou-se para o Texas (1882) onde trabalhou em uma fazenda de gado.

Casou e empregou-se como caixa num Banco de Austin, tentando ao mesmo tempo escrever comédia. Comprou um jornal, a revista de humor The Rolling Stone (1894), porém o projeto fracassou e ele passou a trabalhar como repórter, colunista e cartunista no Houston Post.

Acusado de um desfalque no Banco (1896), fugiu sozinho para Honduras, mas voltou a Austin passados três anos, ao saber da doença terminal da esposa. Viúvo, foi condenado a cumprir três anos de prisão numa penitenciária do Ohio, período em que escreveu contos sob vários pseudônimos até definir-s por O. Henry.

Em liberdade mudou-se para New York (1902), onde continuou escrevendo praticamente um conto por semana e militando na imprensa e, embora extremamente popular, viveu o resto da vida recluso, para não ser reconhecido como William Sydney Porter.

Faleceu alcoólico e na miséria, em New York, deixando várias coletâneas de contos, entre elas Cabbages and Kings (1904), The Four Million (1906), Heart of the West (1907), The Voice of the City (1908) e The Gentle Grafter (1908).

Fontes:
http://www.brasilescola.com/biografia/william-sydney.htm
http://www.releituras.com/ohenry_menu.asp

Deixe um comentário

Arquivado em Biografia, Literatura Norte Americana

O. Henry (Os Caminhos que Tomamos)

Vinte milhas para oeste de Tucson o rápido parou ao pé de um depósito para tomar água. Além deste líquido, porém, a máquina daquele comboio adquiriu também outras coisas que lhe não convinham.

Enquanto o fogueiro estava baixando a mangueira de alimentação, o Bob Tidball, o Dodson Tubarão e um índio de raça cruzada chamado João Cão Grande treparam para a máquina e apresentaram ao maquinista os orifícios de três canos de revólver. As possibilidades desses orifícios a tal ponto impressionaram o maquinista que ergueu logo ambas as mãos num gesto do gênero do que acompanha a exclamação: “Conta lá!” ·

À ordem brusca do Dodson Tubarão, que era o comandante da força, o maquinista desceu ao chão e desligou a máquina e o tender. Então o João Cão Grande, empoleirado no carvão, sorriu por trás de dois revólveres apontados ao ajudante e ao fogueiro, lembrando que corressem a máquina cinqüenta metros pela linha abaixo e ali aguardassem novas ordens.
O Dodson Tubarão e o Bob Tidball, desdenhando proceder à limpeza de minério tão baixo como os passageiros, dedicaram-se ao veio magnífico que era o vagão de valores. Encontraram o guarda envolto na crença firme de que a máquina não estava tomando nada mais forte que água pura. Enquanto o Bob lhe tirava esta idéia da cabeça por meio de uma coronha de revólver, o Dodson Tubarão ocupava-se em ministrar uma dose de dinamite ao cofre do vagão.

O cofre explodiu no sentido de trinta mil dólares, ouro e notas. Os passageiros espreitaram vagamente pelas janelas a ver de onde vinha a trovoada. O condutor puxou a correia que lhe ficou lassa e caída na mão. O Dodson Tubarão e o Bob Tidball, com o espólio numa saca de lona forte, saíram do vagão e correram pesadamente, com suas botas altas, até à máquina.

O maquinista, amuado, mas prudente, correu velozmente a máquina, obedecendo às ordens, para longe do comboio parado. Mas antes que isto estivesse feito, o guarda do rápido, tendo despertado do argumento com que o Bob Tidball lhe tinha imposto a neutralidade, saltou do vagão com uma Winchester e entrou no jogo. O sr. João Cão Grande, empoleirado no carvão, perdeu a vasa pelo processo involuntário de imitar perfeitamente um alvo. O guarda caçou-o. Com uma bala exatamente entre as espáduas, o cavalheiro de cor e indústria caiu para o chão, aumentando assim automaticamente em um sexto o quinhão de cada um dos camaradas.

A duas milhas do depósito deu-se ordem ao maquinista que parasse.

Os ladrões gritaram um adeus de desafio e enfiaram pelo declive abaixo para os bosques que marginavam a linha férrea. Cinco minutos de caminho difícil através de uma mata de chaparral trouxe-os a um bosque mais aberto, onde estavam três cavalos, presos a ramos baixos. Um esperava o João Cão Grande, que nunca mais andaria a cavalo de dia ou de noite. A este animal tiraram os ladrões a sela e o freio, e puseram-no em liberdade. Montaram nos outros dois, estendendo o saco sobre a maçã da sela de um deles, e seguiram depressa mas discretamente através da floresta e por uma garganta primitiva e solitária acima. Aqui o animal que levava Bob Tidball escorregou num pedregulho musgoso e partiu uma das pernas dianteiras. Mataram-no com um tiro na cabeça, e sentaram-se para realizar um conselho de fuga. Seguros por enquanto, em virtude do caminho tortuoso que haviam tomado, já a questão de tempo os não apoquentava tanto. Havia já muitas horas e léguas entre eles e a mais rápida perseguição que se pudesse organizar. O cavalo do Dodson Tubarão, de corda arrastada e freio caído, resfolegava e comia com agrado da erva à margem do riacho da garganta. Bob Tidball abriu o saco, tirou às mãos ambas maços de notas e um saco único de ouro, e riu com uma alegria de criança.

— Olha lá, meu grande pirata — disse ele rindo para Dodson —, bem dizias tu que a coisa se conseguia. Tens uma cabe~ a de financeiro que deixa atrás tudo no Arizona.

— O que é que a gente vai fazer a respeito de um cavalo para ti, Bob? A gente não pode esperar aqui muito tempo. Logo de madrugada, com a primeira luz, os tipos estão na nossa pista.

— Oh, aquele teu bicho tem que levar dois um bocado — respondeu Bob com otimismo. Deitamos a mão ao primeiro bicho que encontrarmos por aí. Caramba, que fizemos bom negócio, hein? Aqui pelos sinais nas cintas e no saco temos trinta mil dólares — quinze mil a cada bico!

— É menos do que eu esperava — disse o Dodson Tubarão, dando pontapés leves nos pacotes. Depois olhou meditativamente para os flancos suados da sua montada.

— O Bolívar, coitado, está quase que não pode mais disse ele devagar —. Que pena que o teu bicho se estropiasse!

— Ninguém tem mais pena do que eu — disse o Bob sem abatimento —, mas o que é que se há de fazer? O Bolívar é rijo, e pode bem com nós dois até arranjarmos outras montadas. Raios me partam, ó Tubarão, mas não me passa da idéia a piada que tem um tipo do leste como tu vir para aqui ensinar-nos a nós do oeste a dar cartas no negócio de salteador! De que parte do leste é que és?

— Estado de Nova Iorque — disse o Dodson Tubarão, sentando-se num toro e mastigando um fio de erva —. Nasci numa herdade do distrito de Ulster. Fugi de casa quando tinha dezessete anos. Foi um acaso eu vir para oeste. Eu ia pela estrada fora com a roupa numa trouxa a caminho de Nova Iorque, da cidade. A minha idéia era ir para lá e ganhar muito dinheiro. Uma tarde cheguei a um ponto onde a estrada fazia garfo, e eu não sabia por que caminho havia de tomar, estive para aí meia hora a estudar o caso, e depois tomei pelo da esquerda. Nessa noite mesmo fui dar ao acampamento de um circo do oeste que andava dando espetáculos nas várias terras, e segui para oeste com eles. Muitas vezes tenho pensado se não teria dado em qualquer coisa muito diferente se tivesse tomado o outro caminho.

— Hum, a minha idéia é que davas mais ou menos no mesmo — disse Bob Tidball, com uma filosofia alegre —. Não são os caminhos que a gente toma, é o que está dentro de nós, que faz que a gente dê no que vem a dar.

O Dodson Tubarão levantou-se e encostou-se a uma árvore.

— Tomara eu que aquela tua montada se não tivesse estropiado, Bob — tornou a dizer, com uma certa tristeza.

— E dois! — concordou o Bob —. Era um belo bicho. Mas o Bolívar tira-nos aos dois da alhada. Olha lá, e o melhor é a gente ir-se pondo a mexer, hein? Vou meter isto tudo outra vez no saco, e ala para outra terra!

O Bob Tidball repôs o espólio no saco, e apertou a boca deste, com força, com uma corda. Quando levantou a cabeça, a coisa mais notável que viu foi o cano da pistola do Tubarão visando-lhe sem tremer o centro da testa.

— Deixa-te de piadas, rapaz — disse o Bob sorrindo —. A gente tem é que se pôr a mexer.

— Está quieto — disse o Tubarão —. Tu não te vais pôr a mexer para parte nenhuma, Bob. Tenho pena de te dizer, mas não há saída senão para um de nós. O Bolívar, coitado, está muito cansado, e não pode levar dois.

— Temos sido camaradas, eu e tu, Tubarão, há uns três anos — disse o Bob com sossego —. Muita e muita vezes arriscou a gente a vida juntos. Sempre te tenho tratado às direitas, e julgava que eras um homem. Já ouvi coisas que contavam de ti, de como tinhas matado um ou dois homens de uma maneira esquisita, mas nunca acreditei. Ora agora, se estás a brincar comigo, desvia lã a pistola e vamo-nos embora. Mas se queres atirar, atira, filho de um lacrau!

A cara de Dodson Tubarão tinha uma expressão de profunda mágoa.

— Não imaginas que pena eu tenho — suspirou ele — a respeito daquele desastre que aconteceu ao teu cavalo, Bob. A expressão no rosto do Dodson mudou de repente para uma de ferocidade fria mista de inexorável cupidez. A alma do homem mostrou-se de repente uma cara sinistra à janela de uma casa honrada.

E, na verdade, nunca Bob Tidball se poria mais a mexer para parte nenhuma. Falou a pistola do amigo falso, enchendo a garganta de um estrondo que os seus muros devolveram indignadamente. E o Bolívar, cúmplice inconsciente, levou depressa para longe o último dos salteadores do rápido sem ter que “levar dois”.

Mas à medida que o Dodson Tubarão galopava parecia que os bosques se esfumavam e desapareciam; o revólver na mão direita converteu-se no braço curvo de uma cadeira de mogno: a sela estava extremamente estofada, e ele abriu os olhos e viu seus pés, não em estribos, mas pousados alto na ponta de uma secretária rica.

Estou contando aos senhores que o Dodson, da Dodson & Decker, corretores de Wall Street, abriu os olhos. Peabody, o empregado de confiança, estava de pé a seu lado, hesitando em falar. Lá em baixo havia um ruído confuso de rodas, e ao pé o sussurro acariciador de uma ventoinha elétrica.

— Hum, Peabody — disse o Dodson, piscando os olhos . Então não adormeci! Tive um sonho muito curioso. O que é que há?

— É o sr. Williams, sr. Dodson, de Tracy & Williams, que está ali fora. Vem liqüidar aquilo daquelas ações. A alta caiu-lhe em cima, lembra-se o sr. Dodson?

— Sim, lembro-me. Como está isso cotado hoje, Peabody?

— Cento e oitenta e cinco, sr. Dodson.

— Então é isso que ele paga.

— O sr. Dodson dá licença… — disse Peabody, com uma certa hesitação —. Desculpe-me falar nisso, mas estive a falar com o Williams. Ele é um velho amigo seu, e o sr. Dodson pode-se dizer que tem na mão todo este papel. Pensei se o sr…., isto é, pensei que o sr. talvez se não lembrasse que ele lhe vendeu o papel a noventa e oito. Se ele líqüida ao preço do mercado, vai-se-lhe tudo quanto tem e ainda por cima, coitado, tem que vender a casa, e a mobília e tudo, para lhe poder entregar as ações.

A expressão no rosto do Dodson mudou de repente para uma de ferocidade fria mista de inexorável cupidez. A alma do homem mostrou-se de repente como uma cara sinistra à janela de uma casa honrada.

— Cento e oitenta e cinco é que ele paga — disse o Dodson —. O Bolívar não pode levar dois.

Fonte:
http://www.releituras.com/ohenry_menu.asp

Deixe um comentário

Arquivado em Contos, Literatura Norte Americana, O Escritor com a Palavra

O. Henry (Memórias de um Cachorro Amarelo)

Não creio que a nenhum de vós incomode ler o que diz um cão. Kipling e muitos outros demonstraram que os animais podem expressar-se num inglês sofrível e, hoje em dia, não se imprime revista alguma que não publique a história de um animal; somente as revistas mensais de feição antiga continuam pintando os horrores de Bryan e Monte Pelado.

Entretanto, não deveis procurar aqui literatura aborrecida, como a do urso, do tigre ou da serpente da selva antilhana. Pode-se esperar qualquer surpresa de um cachorro amarelo que passou a maior parte de sua vida num sobrado barato de Nova Iorque, dormindo num canto sobre um velho vestido de cetim: o mesmo em que a dona derramou vinho do Porto, em banquete oferecido por Senhora Longshoremen.

Vim ao mundo como um cachorrinho amarelo. A data, local, genealogia e peso me são desconhecidos. O que primeiro me recordo é que uma velha me tinha metido numa cesta, e que estava em entendimentos de me vender a uma robusta dama da Broadway.

A velha, mamãe Hubard, enaltecia-me, dizendo que eu era um fox-terrier da Pomerânia – hambletoniano – irlandês roxo – Conchinchina – Stoke – Pogis.

A dama gorducha esgravatou entre amostras de moleton que levava em sua bolsa até que encontrou uma nota de cinco, e entregou-lha. Desde aquele momento fui o favorito mimado da dama gorducha. Diga-me, gentil leitor: alguma vez em tua vida, uma gorducha de 200 libras de peso, de hálito misto de queijo Camembert e couro te levantou no ar e bamboleou, enquanto esfregava teu corpo com o nariz, dizendo ao mesmo tempo palavrinhas como: Amor! Encanto! Riqueza! etc.?

De cachorrinho amarelo de raça fui crescendo até me converter num cão amarelo vira-latas, parecendo descender do cruzamento de gato angorá com caixa de limões. Porém, minha dona jamais hesitou: sempre imaginou que os dois primitivos cães que Noé meteu na arca pertenciam a um ramo colateral de meus antecessores. Fiz com que dois guardas impedissem que minha proprietária me apresentasse no jardim do Madison Square para que eu concorresse ao prêmio dos podengos siberianos.

Vou contar algo a respeito daquele pavimento. A casa era como o são ordinariamente em NY: de mármore no porão e seixos nos pavimentos superiores. Ao nosso, era preciso trepar ao invés de ascender. Minha dona o alugou desmobiliado, e instalou nele uma antiga sala de estar estofada, de 1903, umas oleo gravuras com gueixas numa casa de chá, plantas artificiais e o marido.

Eis um bipede que me causava tristeza! Era um homem pequeno, de cabelos amarelados como os meus. Era um dominado, um boneco que enxugava a louça e escutava a mulher falar mal da vizinha do segundo, de quem dizia que usava capa de peles de esquilo mas que a roupa interior era barata e esfarrapada e tinha a ousadia de exibi-la, pendurando-a a secar. E todas as noites, enquanto ela ceava, fazia com que o esposo me levasse a passeio, amarrado à ponta de uma corda.

Se os homens soubessem como passam o tempo as mulheres quando estão sozinhas em casa, nunca se casariam! Laura não fazia mais do que comer bombons e tomar sorvetes de amêndoa, falar com o orchateiro durante meia hora, ler um maço de cartas antigas, comer uns quantos picles, beber duas garrafas de cerveja maltada e passar as horas mortas olhando para o andar da frente através de um buraco feito na cortina. Vinte minutos antes da hora em que o marido devia regressar do trabalho, começava ela a pôr tudo em ordem, inclusive sua dentadura postiça, e tirava uma porção de roupa a fim de passá-la em dez minutos.

Eu, naquela casa, levava uma vida de cachorro. A maior parte do dia passava deitado no meu canto, observando como a gorducha matava o tempo. Algumas vezes dormia, e sonhava que perseguia gatos até fazê-los desaparecer nos portões, e que rosnava a todas as velhas que usavam luvas negras com os dedos de fora: coisas próprias de um cachorro. Depois, a dona me dava palmadinhas com melosa bajulação e me beijava no focinho. Porém, que podia eu fazer? Um cachorro não pode comer pedra.

Comecei a compadecer-me de Hubby, o marido; pareciamo-nos tanto, que a gente o manifestava quando saíamos juntos. Em amável companhia visitávamos as ruas que percorre o carro de Morgan, e pisávamos as últimas neves que dezembro deixava nas vielas habitadas pela gente pobre.

Uma noite, quando passeávamos assim, enquanto procurava adotar a aparência de um são – bernardo premiado e meu amo tratava de parecer um homem incapaz de assassinar o primeiro organista que executou a marcha nupcial de Mendelssohn, levantei para ele a cabeça e disse-lhe, a meu modo:

– Por que tendes esse gesto de amargura? Ela não vos beija. Não tendes que sentar-vos sobre seu regaço nem escutar sua tagarelice, essa tagarelice capaz de fazer que a letra duma opereta pareça o livro de máximas de Epíteto. Deveis agradecer por não seres um cachorro. Dai o fora na melancolia.

Aquela infelicidade conjugal desceu até mim os olhos, quase com inteligência canina em seu semblante.

– Que há, cachorrinho? Olha-me como se fosses capaz de falar. Que é que há? Gatos?

E claro que não podia compreender-me. Aos humanos é vedada a linguagem dos animais. O único terreno comum de comunicações em que homens e cachorros estão de acordo é o da ficção.

No andar em frente ao nosso morava uma dona que tinha um fox-terrier com manchas negras e marrons. O marido daquela senhora punha-lhe a corrente e levava-o a passear também todas as noites, mas sempre regressava a casa satisfeito e assobiando. Um dia juntei meu focinho com o do fox-terrier malhado e pedi-lhe que fizesse um esclarecimento.

– Escuta – disse-lhe eu – já sabes que é coisa imprópria de verdadeiros homens fazer o papel de ama-seca com um cachorro em público. Eu nunca vi um que, indo com o cachorro, não pareça senão querer bater em quantos olham para ele. Porém teu amo volta a casa todos os dias tão galhardo e bem posto como um prestidigitador diletante que fizesse o truque do ovo. Como faz isso? Não me venhas dizer que lhe agrada.

– Ele – respondeu o fox-terrier – usa o Próprio Remédio da Natureza. Quando saímos de casa é tímido como um coelho. Mas depois de termos passado por umas oito tavernas, tanto se lhe dá que o que leva na extremidade da corrente seja um cachorro ou um peixe. Já perdi duas polegadas de cauda entre as portas de vaivém desses estabelecimentos.

Pus-me a meditar sobre o que me disse o fox-terrier.

Uma tarde, lá pelas seis horas, minha ama ordenou ao seu marido que desse banho em seu Amante. Ocultei até agora meu nome, porém era assim que eu me chamava. Aquele nome era para mim uma espécie de lata amarrada ao rabo do meu próprio respeito.

Num lugar tranqüilo de certa rua, soltei a corda de meu guardião em frente a uma atraente e refinada taberna. Empurrei com a cabeça as portas, ladrando como um cão que avisa urgentemente à família que a pequena Alice caiu ao arroio quando estava colhendo flores.

– Ou estou cego, disse meu amo, fazendo um muxoxo – ou este bicho me está dizendo que tome um gole. Há quanto tempo não gasto as solas dos meus sapatos pisando o chão destes estabelecimentos! Se…

Vi que era meu. Tomou assento a uma mesa e serviram-lhe uísque quente. Ali esteve uma hora tomando goles. Permaneci ao seu lado, batendo com a cauda para que o empregado acudisse, comendo uma rica merenda, jamais igualada pelos condimentos caseiros que mamãe Hubbard comprava numa tendinha oito minutos antes de papai chegar em casa.

Quando se esgotaram os produtos da Escócia, exceto o pão de centeio, o velho me desamarrou da perna da mesa e tirou-me dali como um pescador tira os salmões. Já fora da casa, arrancou-me a coleira e atirou-a a rua.

– Pobre cachorrinho! Já não te beijará mais essa sem-vergonha! Vai-te, cachorrinho! Corre, e sê feliz!

Não quis abandoná-lo e comecei a traquinar e pular em volta dele, contente como um luluzinho sobre um tapete.

– Mas não vês, cabeça de bobo, imbecil, que não quero deixar-te? Não compreendes que ambos somos os meninos perdidos no bosque e que tua mulher é o tio cruel, que nos persegue, a ti, com o pano de cozinha e a mim, com a pomada para matar pulgas e a fita encarnada para me enfeitar a cauda? Por que não cortas de uma vez essas coisas pela raiz e seremos camaradas toda a vida?

Direis talvez que não me compreenderia; talvez assim fosse. Mas ficou pensativo um pouco, ereto, apesar dos goles que levava no corpo, e disse-me:

– Cachorrinho, nesta vida ninguém vive mais de uma dúzia de vidas. Eu não quero voltar para casa, e se tu o quiseres, apesar do muito que te aborrece minha mulher, mereces que a carrocinha te leve.

Eu não estava amarrado; mas continuei junto do meu amo, saltando, até a estação ferroviária. E os gatos que achei no trajeto viram que tinham razão para agradecer por terem sido dotados de unhas afiadas.

Ao chegar à janelinha, meu amo disse a um desconhecido que estava comendo bolo com passas de Corinto:

– Meu cachorro e eu vamos para as Montanhas Rochosas.

Porém, o que mais me agradou foi que o velho, puxando-me as orelhas até me fazer gritar, disse:

– Oh, cachorrinho vulgar, cabeça de macaco, rabo de rato e cor de enxofre. Qual é teu nome?

Eu, pensando no nome Amante, soltei um triste lamento.

– Vou chamar-te Pedro – disse meu amo; e ao ouvir aquilo, ainda que tivesse cinco caudas, ter-me-iam parecido poucas para agitá-las em ação de graças, fazendo justiça ao acontecimento.

Fontes:
http://www.gargantadaserpente.com/coral/contos/oh_cachorro.shtml

Deixe um comentário

Arquivado em Contos, Literatura Norte Americana, O Escritor com a Palavra

Isaac Asimov (1920 – 1992)

Isaac Asimov, (Petrovichi, 2 de Janeiro de 1920 — Nova Iorque, 6 de abril de 1992) foi um escritor e bioquímico famoso como popularizador da ciência e como autor de ficção científica, sendo suas séries mais populares Fundação e Robôs. Nesta última criou as famosas Três Leis da Robótica.

Asimov é autor de livros de divulgação sobre praticamente todos os campos do conhecimento e foi um dos homens mais cultos do século XX. Seu QI foi estimado em cerca de 175. Sabe-se que obteve um escore 135 no teste Eisenck, mas resolveu o teste inteiro na metade do tempo. Foi presidente honorário da Mensa, uma associação para pessoas superdotadas que conta com membros de 100 países.

Sua obra de ficção destaca-se por introduzir ao leitor leigo conhecimentos científicos e a idéia do método científico.

Biografia

Asimov nasceu entre 4 de Outubro de 1919 e 2 de Janeiro de 1920 em Petrovichi shtetl ou Óblast de Smolensk, RSFSR (agora Província de Mahilyow, Bielorrússia). A mãe foi Anna Rachel Berman Asimov e o pai Judah Asimov, um moleiro de uma família de Judeus. A sua data de nascimento não pode ser precisada por causa das diferenças entre o Calendário Gregoriano e o Calendário hebraico e por causa da falta de registros. Asimov celebrou sempre o seu aniversário a 2 de Janeiro. A família deriva o nome de ?????? (ozimiye), uma palavra da língua Russa que significa um cereal de inverno em que o seu bisavô negociava, ao qual o sufixo paterno foi adicionado. A sua família emigrou para os EUA quando ele tinha só 3 anos de idade. Como os seus pais falavam sempre hebraico e Inglês com ele, ele nunca aprendeu russo. Enquanto crescia em Brooklyn, New York, Asimov aprendeu por si próprio a ler quando tinha cinco anos, e permaneceu fluente em ídiche assim como em Inglês. Os seus pais tinham uma loja de doces, e toda a gente da família tinha de lá trabalhar. Revistas baratas de banda desenhada sobre ficção científica eram vendidas em lojas, e ele começou a lê-las. Por volta dos onze anos ele começou a escrever histórias próprias, e por volta dos dezenove anos, tendo-se tornado fã de ficção científica, ele começou a vender a vender as suas histórias a revistas. John W. Campbell, o editor de Astounding Science Fiction, foi uma forte influência formativa e tornou-se um amigo.

Asimov foi aluno das New York City Public Schools, inclusive a Boys’ High School, em Brooklyn, New York. A partir daí ele foi para a Universidade de Columbia, da onde se graduou em 1939, depois tirando um Ph. D. em bioquímica em 1948. Entretanto, passou três anos durante a Segunda Guerra Mundial a trabalhar como civil na Naval Air Experimental Station do porto da Marinha em Philadelphia. Quando a guerra acabou, ele foi destacado para o U.S. Army, tendo só servido nove meses antes de ser honrosamente retirado. Durante a sua breve carreira militar, ele ascendeu ao posto de cabo baseado na sua habilidade para escrever à máquina, e escapou por pouco de participar nos testes da bomba atômica em 1946 no atol de Bikini.

Depois de completar o seu doutoramento, Asimov entrou na faculdade de Medicina da universidade de Boston, com que permaneceu associado a partir daí. Depois de 1958, isto foi sem ensinar, já que se virou para a escrita full-time (as suas receitas da escrita já excediam as do salário acadêmico). Pertencer ao quadro permanente significou que ele manteve o título de professor associado, e em 1979 a universidade honrou a sua escrita promovendo-o a professor catedrático de bioquímica. Os arquivos pessoais de Asimov a partir de 1965 estão arquivados na Mugar Memorial Library da universidade, à qual ele os doou a pedido do curador Howard Gottlieb. A coleção preenche 464 caixas em setenta e um metros de prateleira.

Asimov casou com Gertrude Blugerman (1917, Canadá–1990, Boston) em 26 de Julho de 1942. Tiveram duas crianças, David (n. 1951) e Robyn Joan (n. 1955). Depois da separação em 1970, ele e Gertrude divorciaram-se em 1973, e Asimov casou com Janet O. Jeppson mais tarde no mesmo ano.

Asimov era um claustrofilo; ele gostava de espaços pequenos fechados. No primeiro volume da sua autobiografia, ele conta um desejo infantil de possuir uma banca de jornal numa estação de metro no New York City Subway, dentro da qual ele se fecharia e escutaria o ruído das carruagens enquanto lia.

Asimov tinha aviophobia, só o tendo feito duas vezes na vida inteira (uma vez durante o seu trabalho na Naval Air Experimental Station, e uma vez na volta para casa da base militar em Oahu in 1946). Ele raramente viajava grandes distâncias, em parte por causa da sua aversão a voar adicionada as dificuldades logísticas de viajar longas distâncias. Esta fobia influenciou varias das suas obras de ficção, como as historias misteriosas de Wendell Urth e as novelas sobre Robôs em que entrava Elijah Baley. Nos seus últimos anos, ele gostava de viajar em navios de cruzeiro, e em varias ocasiões ele fez parte do “entretenimento” no cruzeiro, dando palestras baseadas em ciência em navios como os RMS Queen Elizabeth 2. Asimov era sabia entreter muitíssimo bem, prolífico, e procurado como discursador. O seu sentido de tempo era fantástico; ele nunca olhou para um relógio, mas falava invariavelmente precisamente o tempo acordado.

Asimov era um participador habitual em convenções de ficção cientifica, onde ficava amável e disponível para a conversa. Ele respondia pacientemente a dezenas de milhares de perguntas e outro tipo de correio com postais, e gostava de dar autógrafos. Embora ele gostasse de mostrar o seu talento, ele raramente parecia levar-se a si próprio demasiado serio.

Ele era de altura mediana, forte, com bigode e um obvio sotaque Brooklyn-Hebreu. A sua motricidade física era bastante limitada. Ele nunca aprendeu a nadar ou andar de bicicleta; no entanto, ele aprendeu a conduzir um carro depois de se mudar para Boston. No seu livro de humor Asimov Laughs Again, ele descreve a condução em Boston como “anarquia sobre rodas”. Ele demonstrou o seu amor por conduzir na sua short story de ficção cientifica, ‘Sally’, sobre carros robô. Um leitor atento reparara que ele faz uma descrição detalhada de um dos carros a que chama ‘Giuseppe’, de Milan – o que significa que Giuseppe era um Alfa Romeo. Asimov não especificou nenhum outro tipo de veiculo em nenhuma das suas historias, o que levou muitos fãs a considerara que ele foi empregue por aquela marca de automóvel.

Os interesses variados de Asimov incluíram, nos seus anos tardios, a sua participação em organizações devotadas à opereta de Gilbert and Sullivan e em The Wolfe Pack, um grupo de seguidores dos mistérios de Nero Wolfe escritos por Rex Stout. Ele era um membro proeminente da Baker Street Irregulars, a mais importante sociedade a volta de Sherlock Holmes. De 1985 ate a sua morte em 1992, ele foi presidente da American Humanist Association; o seu sucessor foi o amigo e congênere escritor Kurt Vonnegut. Ele também era um amigo próximo do criador de Star Trek, Gene Roddenberry, e foram-lhe dados créditos em Star Trek: The Motion Picture pelos conselhos que deu durante a produção (dando a Paramount Pictures a impressão que as idéias de Roddenberry eram legitima especulação de ficção cientifica).

Asimov morreu em 6 de Abril de 1992. Ele deixou a sua segunda mulher, Janet, e as crianças do primeiro casamento. Dez anos depois da sua morte, a edição da autobiografia de Asimov, It’s Been a Good Life, revelou que a sua morte foi causada por SIDA; ele contraiu o vírus HIV através de uma transfusão de sangue recebida durante a operação de bypass em Dezembro de 1983. [1] A causa especifica de morte foi falha cardíaca e renal como complicações da infecção com o vírus da SIDA. Janet Asimov escreveu no epílogo de It’s Been a Good Life que Asimov o teria querido fazer publico, mas os seus médicos convenceram-no a permanecer em silencio, avisando que o preconceito anti-SIDA, se estenderia aos seus familiares. A família de Asimov considerou divulgar a sua doença antes de ele morrer, mas a controvérsia que ocorreu quando Arthur Ashe divulgou que ele tinha SIDA convenceu-os do contrario. Dez anos mais tarde, depois da morte dos médicos de Asimov, Janet e Robyn concordaram que a situação em relação à SIDA podia ser levada a publico.

No livro Escolha a Catástrofe, Asimov disserta sobre os futuros problemas que poderiam levar a humanidade à extinção e como a tecnologia poderia salvá-la. Em certa parte do livro, ele fala sobre a educação e como ela poderia funcionar no futuro.

“Haverá uma tendência para centralizar informações, de modo que uma requisição de determinados itens pode usufruir dos recursos de todas as bibliotecas de uma região, ou de uma nação e, quem sabe, do mundo. Finalmente, haverá o equivalente de uma Biblioteca Computada Global, na qual todo o conhecimento da humanidade será armazenado e de onde qualquer item desse total poderá ser retirado por requisição.”

“…Certamente cada vez mais pessoas seguiriam esse caminho fácil e natural de satisfazer suas curiosidades e necessidades de saber. E cada pessoa, à medida que fosse educada segundo seus próprios interesses, poderia então começar a fazer suas contribuições. Aquele que tivesse um novo pensamento ou observação de qualquer tipo sobre qualquer campo, poderia apresentá-lo, e se ele ainda não constasse na biblioteca, seria mantido à espera de confirmação e, possivelmente, acabaria sendo incorporado. Cada pessoa seria simultaneamente um professor e um aprendiz.”
Isaac Asimov – 1979

Asimov pretendia escrever 500 livros e, por pouco, não atingiu essa marca; escreveu 463 obras. Mas somando todos os livros, desenhos e coleções editadas totalizam-se 509 itens em sua bibliografia completa. Asimov pode ter escrito Opus 400, que seria uma comemoração de 400 publicações; contudo a lista de comemorativos da bibliografia vai apenas até o Opus 300.

Memórias de Asimov

À Gertrude, com a qual estive casado, muito satisfatoriamente, durante oito anos, um mês, duas semanas, um dia, duas horas, 45 minutos e alguns segundos“.

A dedicatória que abre uma de suas obras parece mais a afirmação do divórcio de Isaac Asimov. Asimov deu fim a sua vida matrimonial com Gertrude em suas Memórias, atrevendo-se por fim a expressar algumas opiniões não tão positivas e triunfantes como tinha por costume. Para Janet, sua segunda esposa, a quem dedica um livro, tem em troca, umas belas palavras: “minha companheira de vida e pensamento”. Confessou que lhe foi infiel e de seus dois filhos tidos com ela, Robyn era sua preferida. Adorava-a e sentia-se muito mal porque ele morreria e Robyn sofreria com isso. De seu outro filho, David, apenas umas linhas. De forma estranha confessa que seu matrimônio com Gertrude durou doze anos porque tinha dois filhos. É interessante somar-se à sua vida familiar a sinceridade com que Isaac trata este assunto e porque está muito longe da imagem de triunfador nato e otimista da que tanto lhe gostava se ostentar.

Asimov havia escrito outros dois livros de memórias. Terminou em 1990 e Janet teve que se encarregar de sua edição, que ocorreu dois anos depois, mesmo que Isaac nunca o tenha visto publicado. Seu último livro, escrito em 1991, foi “Asimov sorri de novo”, e depois apenas teve forças para realizar algum outro artículo periódico. Desde agosto de 1991, até a sua morte, em 6 de abril de 1992, sofreu um grande declive físico e teve constantes hospitalizações. De acordo com o que relata Janet, pelo menos, morreu em paz, em companhia de Robyn e dela mesma.

Alguns dos aspectos mais insuspeitos de Isaac Asimov se somam em suas memórias. Acostumado com seu excelente humor, sua megalomania simpática e sua hiperatividade contagiosa, neste último texto, o escritor reconhece que algumas matérias como a economia eram-lhe indigeríveis – Pág.54: “Não seria de nada escutar o professor nem estudar o tema. Pela primeira vez em minha vida tropecei com uma barreira mental, algo que não podia fazer entrar na minha cabeça” – e que seus estudos de licenciatura foram um fracasso: escolheu a química para doutorar-se por simples eliminação. Pág.83: “Eliminada a zoologia tive que escolher entre química ou física. Eliminei a física porque era muito matemática. Depois de muitos anos resolvendo a matemática facilmente, cheguei finalmente ao cálculo integral e me choquei contra uma barreira. Dei-me conta de que havia chegado o mais longe possível, e até hoje nunca pude ir mais além“.

Entre outros aspectos, tinha vertigem, odiava viajar, era um adicto ao trabalho e eludia qualquer situação incômoda (quando Janet esteve internada para ser operada de um câncer de mama, ele estava viajando!). Tudo isso foi compensado, como qualquer admirador sabe, com uma fé em si mesmo inquebrável e um conhecimento claro de quais eram seus talismãs. Pág. 84: “Começava a dar-me conta de que eu não era um especialista, de que em qualquer campo do conhecimento haveriam muitos que saberiam muito mais do que eu e que, talvez, poderiam ganhar vida e alcançar a fama nesse campo, enquanto eu não. Eu era um generalista, tinha conhecimentos consideráveis sobre quase tudo. Haviam muitos especialistas de cem ou de mil classes diferentes, mas, eu disse a mim mesmo, só haveria um Isaac Asimov“. E assim foi. É o escritor mais popular de ficção científica e de divulgação científica, até o ponto de seu nome ser garantia de vendas para qualquer livro do gênero. As editoras sabem e exploram isso. O escritor se perpetua assim, interminavelmente.

O grande orador que gostava de falar em público, era um amigo fiel e grato, que nunca deixou desamparados seus amigos.

Asimov estava apaixonado por si mesmo e encerrou estas Memórias com uma das frases mais tristes que só um homem que sabe que vai morrer pode confessar: “Não espero viver para sempre, não me aflijo por isso, mas sou fraco e gostaria de ser recordado eternamente“.

OBRAS

Série Fundação
Os romances dessas três séries foram publicados como histórias independentes. Mais tarde, Asimov sintetizou-os em uma simples e coerente ‘história’ que apareceu na extensão da série fundação.

Série Robô:
Caça aos Robôs (1954) (primeiro romance de ficção científica com Elijah Baley)
Os Robôs (1957) (segundo romance de ficção científica com Elijah Baley)
Os Robôs do Amanhecer (1983) (terceiro romance de ficção científica com Elijah Baley)
Os Robôs e o Império (1985) (seqüência da trilogia Elijah Baley)
O Homem Positrônico (1993) (com Robert Silverberg, um romance baseado no antigo conto de Asimov “The Bicentennial Man”)

Série Império Galáctico:
827 Era Galática (1950)
Poeira de Estrelas (1951)
As Correntes do Espaço (1952)

Trilogia Fundação:
Fundação (1951)
Fundação e Império (1952)
Segunda Fundação (1953)

Extensão da série Fundação:
Fundação II (em Portugal “No Limiar da Fundação”) (1982)
Fundação e a Terra (1986)
Prelúdio à Fundação (1988)
Crônicas da Fundação (em Portugal “Notas Para um Império Futuro”) (1993)

Romances que não fazem parte de séries
Fim da Eternidade (1955)
Viagem Fantástica (1966) (uma novelização do filme apresentando uma equipe de cientistas viajando dentro do corpo humano)
Despertar dos Deuses (1972)
Viagem Fantástica: Rumo ao cérebro (1987) (não é uma seqüência do primeiro Fantastic Voyage, mas sim uma história independente).
Nemesis (1989)
O Cair da Noite (1990) (com Robert Silverberg, um romance baseado em um conto mais antigo).
The Ugly Little Boy (1992) (com Robert Silverberg, um romance baseado em um conto mais antigo).
(Ainda que essencialmente independentes, alguns desses romances têm relações mínimas com a série “Fundação”.)

Coletâneas de pequenas histórias
Lista de pequenas histórias de Isaac Asimov
I, Robot – Eu, Robô (1950)
The Martian Way and Other Stories (1955)
Earth Is Room Enough (1957)
Nine Tomorrows (1959)
The Rest of the Robots (1964)
Nightfall and Other Stories (1969)
The Early Asimov (1972)
The Best of Isaac Asimov (1973)
Buy Jupiter and Other Stories (1975)
The Bicentennial Man and Other Stories (1976)
The Complete Robot (1982)
The Winds of Change and Other Stories (1983)
Robot Dreams (1986)
Azazel (1988)
Gold (1990)
Robot Visions (1990)
Magic (1995)

Mistérios
Romances
The Death Dealers (1958) (republicado mais tarde como A Whiff of Death)
Murder at the ABA (1976) (republicado mais tarde como Authorized Murder)

Coletâneas de pequenas histórias
Black Widowers and others
Asimov’s Mysteries (1968)
Tales of the Black Widowers (1974)
More Tales of the Black Widowers (1976)
Casebook of the Black Widowers (1980)
Banquets of the Black Widowers (1984)
The Best Mysteries of Isaac Asimov (1986)
Puzzles of the Black Widowers (1990)
Return of the Black Widowers (2003) contains stories uncollected at the time of Asimov’s death, in addition to contributions by Charles Ardai and Harlan Ellison

Não-ficção
Ciência popular
Adding a Dimension (1964)
Asimov on Numbers (1959)
Asimov’s Chronology of Science and Discovery (1989, second edition extends to 1993)
Asimov’s Chronology of the World (1991)
The Chemicals of Life (1954)
Choice of Catastrophes (1979)
The Clock We Live On (1959)
The Collapsing Universe (1977) ISBN 0-671-81738-8
The Earth (2004, revised by Richard Hantula)
Exploring the Earth and the Cosmos (1982)
The Human Brain (1964)
Inside the Atom (1956)
Isaac Asimov’s Guide to Earth and Space (1991)
The Intelligent Man’s Guide to Science (1965)
Jupiter (2004, revised by Richard Hantula)
Life and Energy (1962)
The Neutrino (1966)
Our World in Space (1974)
Quasar, Quasar, Burning Bright (1977)
Science, Numbers and I (1968)
The Secret of The Universe (1990)
The Solar System and Back (1970)
The Sun (2003, revised by Richard Hantula)
The Sun Shines Bright (1981)
The Universe: From Flat Earth to Quasar (1966)
Venus (2004, revised by Richard Hantula)
Views of the Universe (1981)
Words of Science and the History Behind Them (1959)
The World of Carbon (1958)
The World of Nitrogen (1958)

Guias
Asimov’s Guide to the Bible, vols I and II (1981)
Asimov’s Guide to Shakespeare
Outros
Opus 100 (1969)
The Sensuous Dirty Old Man (1971)
Asimov’s Biographical Encyclopedia of Science and Technology (1972)
Opus 200 (1979)
Isaac Asimov’s Book of Facts (1979)
The Roving Mind (1983) (collection of essays). Nova edição publicada por Prometheus Books(1997)

Conferência de Isaac Asimov na Universidade do Estado de Michigan (MSU) em 1974

“Quando eu publiquei meu primeiro livro, me fizeram muitas perguntas, como: ‘Bem, é bom? ’ – e eu realmente não sabia o que dizer. ‘O que dizem os corretores? ’ – e haviam muito mais perguntas.
E muito rápido me dei conta, que só havia uma maneira de solucionar aquilo. Eu rapidamente me sentei, e escrevi mais de 145 livros, e agora ninguém pergunta os nomes, ninguém pergunta se são bons, ninguém me pergunta… ninguém me pergunta nada!

Eles só dizem: ‘146 livros, uau! ’. Porque… porque você sabe, se você se detém pensando nisso. ‘Que diferença há se são bons ou ruins? Você já tentou escrever 146 livros ruins? ’.
Então a pergunta: ‘Bem, como você faz… como você faz para escrever tanto? ’.
Eu constantemente me pergunto. ‘Como faço para escrever todos esses livros? ’.
E a resposta é muito simples. Eu jogo fora os pensamentos, as dúvidas.
Você diz que você não acredita em mim, verdade? Mas é a verdade.
Você compreende quantos livros não são escritos por pensar-se?
Isto é, você escreve a primeira frase: ‘Era uma noite escura e chuvosa? ’.
E isso está bem! E você deveria seguir em frente, mas você não o faz.
Você comete o erro fatal de pensar e diz: ‘Não é suficientemente dramático’.

E você escreve… corrige, e volta a escrever de novo: ‘Uma noite escura e chuvosa, isso é o que era’.
E então você pensa: ‘Não, é muito dramático’.
Talvez você queira abrir um ar de incerteza: ‘Era uma noite escura e chuvosa? ’

E então você pensa um pouco mais, e você diz: ‘Não, não, eu… eu estou estropiando-o, isto é o anticlímax’. E você diz: ‘Era uma noite chuvosa e escura! ’. Bem, isto continua assim sempre, e você nunca escreve o livro?

Agora, bem, eu não faço isto. Eu começo com a promessa de que a maneira que eu escrevo na primeira vez é a certa. Como resultado, eu odeio os críticos literários. Eles podem observar, estudar e analisar, mas eles não podem fazê-lo.”

Fonte:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Isaac_Asimov

Deixe um comentário

Arquivado em Biografia, Ficção Cientifica, Literatura Norte Americana

Isaac Asimov (A Sensação de Poder)

“Em meu conto “A Sensação de Poder”, publicado em 1957, lancei
mão de computadores de bolso, cerca de dez anos antes de tais
computadores se tornarem realidade. Cheguei mesmo a
considerar a possibilidade de eles contribuírem para
que as pessoas acabassem perdendo a capacidade
de fazer operações aritméticas à maneira antiga.”
(Introdução – Isaac Asimov)

Jehan Shuman estava acostumado a lidar com os homens responsáveis pelas tropas espalhadas pela Terra. Era apenas um civil, mas tinha criado os programas que possibilitaram o surgimento dos mais avançados computadores automáticos de guerra. Consequentemente, os generais ouviam sua opinião. Os líderes das comissões parlamentares também.

Havia um militar e um político no salão especial do Novo Pentágono. O general Weider tinha um rosto bronzeado pelos raios de muitos sóis, e sua pequena boca, cheia de rugas, quase não aparecia. O deputado Brant tinha um rosto suave e olhos claros. Ele fumava um charuto denebiano com a segurança de alguém cujo patriotismo era tão notório que podia se permitir certas liberdades.

Shuman, alto, distinto, um típico programador de elite, encarou-os destemidamente.

– Cavalheiros – disse ele -, esse é Myron Aub.
– É aquele que tem um talento incomum, que você descobriu por acaso – disse Brant, sereno. – Ah. – Ele estudou o pequeno homem de cabeça oval e careca com uma curiosidade cordial.

Em resposta, o homenzinho torceu os dedos de suas mãos ansiosamente. Nunca tinha visto homens tão importantes em sua vida. Era um técnico envelhecido e sem importância, que há muito tempo tinha fracassado em todos os testes destinados a selecionar as pessoas talentosas da humanidade e se acomodara numa rotina de trabalhos não especializados. Tinha apenas um passatempo que, de pois de descoberto pelo grande programador, acarretara todo esse estardalhaço.

– Acho infantil esse clima de mistério – disse o general Weider.

– Vai deixar de achar em um minuto – disse Shuman. – Esse é o tipo de coisa que não pode vazar para qualquer um… Aub! Havia um pouco de autoritarismo na sua maneira de pronunciar esse nome monossilábico, mas, nesse caso, era o grande programador falando para um simples técnico. – Aub! Quanto é nove vezes sete?

Aub hesitou um pouco. Seus olhos pálidos brilharam, ligeiramente ansiosos.

– Sessenta e três – disse ele.

O deputado Brant levantou as sobrancelhas.

– Ele acertou?

– Veja você mesmo, deputado.

O deputado tirou seu computador de bolso, apertou as teclas duas vezes, olhou para a superfície na palma de sua mão e guardou-o.

– É esse o talento que você trouxe para nos mostrar? Um ilusionista?

– Mais que isso, senhor. Aub decorou algumas operações e com elas faz cálculos num papel.

– Um computador de papel? – disse o general. Ele parecia aflito.

– Não senhor – disse Shuman pacientemente. – Não é um computador de papel. É um simples pedaço de papel. General, o senhor faria a gentileza de sugerir um número?

– Dezessete – disse o general..

-E o senhor, deputado?.

– Vinte e três.

– Ótimo. Aub, multiplique esses números e, por favor, mostre a esses cavalheiros como você faz isso..

– Sim, programador – disse Aub, fazendo uma reverência com a cabeça. Tirou um bloco de um dos bolsos da camisa e do outro uma caneta de bico fino. Sua testa se enrugava enquanto desenhava meticulosamente no papel..

O general Weider interrompeu-o bruscamente..

– Deixe-me ver isso.

Aub entregou-lhe o papel..

– Bem, isso parece com o número dezessete – disse Weider..

O deputado Brant balançou a cabeça..

– Parece sim, mas eu acho que qualquer um pode copiar as figuras de um computador. Talvez até eu possa fazer um dezessete razoável, mesmo sem prática..

– Se vocês deixarem Aub continuar, cavalheiros – disse Shuman, sem se perturbar..

Aub continuou com as mãos um pouco trêmulas. Depois de algum tempo, disse em voz baixa:.

– A resposta é trezentos e noventa e um..

O deputado Brant checou de novo o computador. – Por Deus, é isso mesmo. Como ele adivinhou?

– Ele não adivinhou, deputado – disse Shuman. – Ele calculou o resultado nesse pedaço de papel..

– Conversa furada – disse o general, impaciente. – O computador é uma coisa, desenhos no papel são outra..

– Explique, Aub – pediu Shuman..

– Pois não, programador. Bem, eu escrevo dezessete, embaixo dele, escrevo vinte e três. Depois, digo comigo mesmo: sete vezes três.…

– Só que o problema é dezessete vezes vinte e três interrompeu-o o deputado, cortês..

– Sim, eu sei – disse o pequeno técnico, num tom sério. Mas eu começo por sete vezes três, porque é assim que funciona. Agora, sete vezes três são vinte e um..

– Como é que você sabe isso? – perguntou o deputado..

– É uma questão de memória. É sempre vinte e um no computador. Já conferi um monte de vezes..

– Isso não quer dizer que vai ser assim para sempre, não? disse o deputado..

– Talvez não – gaguejou Aub. – Não sou matemático. Mas as minhas respostas sempre estão certas..

– Continue..

– Sete vezes três é vinte e um, então eu escrevo vinte e um. Depois, um vezes três é três e, então, escrevo o três embaixo do dois de vinte e um.

– Por que embaixo do dois? – perguntou de pronto o deputado..

– Porque… – Aub olhou desesperado para o seu superior, como se estivesse pedindo ajuda. – É difícil de explicar..

– Se vocês aceitarem o seu trabalho por um momento, podemos deixar os detalhes para os matemáticos..

Brant se acalmou..

– Três mais dois é igual a cinco – disse Aub. – Então o vinte e um vira cinqüenta e um. Você deixa isso de lado um pouquinho e começa de novo. Você multiplica sete por dois, que é catorze e um por dois, que dá dois. Se você colocá-los assim, isso vai dar trinta e quatro. Agora coloque o trinta e quatro embaixo do cinqüenta e um dessa forma e faça a soma, então terá a resposta final, que é trezentos e noventa e um..

Houve um momento de silêncio..

– Não acredito nisso – disse o general Weider. – Ele vem com essa conversa furada e desenha os números, multiplica e soma dessa maneira, mas não acredito. Isso é muito complicado. Não passa de um truque..

– Não, senhor – disse Aub, ansioso. – Só parece complicado porque o senhor não está acostumado. Na verdade, as regras são muito simples e funcionam com qualquer número..

– Qualquer número, hein? – disse o general. – Então, vamos ver. – Pegou o seu computador (um modelo GI de estilo austero)e apertou-o ao acaso. – Escreva cinco sete três oito no papel. Isto é cinco mil, setecentos e trinta e oito..

– Sim, senhor – disse Aub, pegando uma folha em branco..

– Agora – mais toques no seu computador – sete dois três nove. Sete mil, duzentos e trinta e nove..

– Sim, senhor..

– Agora, multiplique esses dois números..

– Isso vai demorar um pouco – disse Aub, com uma voz trêmula..

– Fique à vontade – disse o general..

– Vá em frente, Aub – disse Shuman, incisivo..

Aub pôs-se a trabalhar, inclinando-se para baixo. Virou outra página e mais outra. O general pegou o relógio e viu as horas..

– Você já terminou o seu número de magia, técnico?.

– Estou terminando, senhor. Aqui está, senhor. Quarenta e um milhões, novecentos e trinta e sete mil, trezentos e oitenta e dois. Ele mostrou o resultado rabiscado no papel..

O general Weider sorriu amargamente. Ele pressionou o botão de multiplicação do seu computador e deixou os números rodopiarem até parar. Então ele olhou o resultado e gritou surpreso. – Grande Galáxia, esse cara está certo..

O Presidente da Federação Terrestre tinha adquirido uma expressão macilenta devido à longa permanência nos escritórios; nas audiências, ele permitia que uma expressão vagamente melancólica tomasse conta de suas feições. A guerra denebiana, depois de um breve começo de grande agitação e muita popularidade, tinha se restringido a uma sórdida questão de manobras e contramanobras, com o descontentamento crescendo continuamente na Terra. Provavelmente também estava crescendo em Deneb..

E agora, o deputado Brant, líder do importante Comitê de Apropriações Militares, estava alegre e entusiasmadamente desperdiçando a sua audiência falando barbaridades..

– Calcular sem um computador – disse o presidente, impaciente – é absolutamente impossível..

– Calcular – disse o deputado – é apenas um sistema de manipulação de dados. Uma máquina pode fazer isso, da mesma forma que a mente humana. Deixe-me dar-lhe um exemplo. E, usando as novas habilidades que tinha aprendido, desenvolveu somas e produtos até que o presidente, a despeito de sua desconfiança, se mostrou interessado. – Isso sempre funciona?.

– Sempre, Sr. Presidente. É infalível..

– É difícil de aprender?.

– Passei uma semana até pegar o macete. Acho que o senhor precisaria de menos tempo..

– Isso é um joguinho interessante – disse o presidente, depois de pensar um pouco. – Mas qual a sua utilidade?.

– Qual a utilidade de um bebê recém-nascido, Sr. Presidente? Por enquanto, não tem nenhuma utilidade, mas o senhor não vê, isso aponta o caminho que libertará a máquina. Pense bem Sr. Presidente. – O deputado se levantou e sua voz profunda automaticamente assumiu algumas das entonações que usava nos debates. – A guerra denebiana é uma guerra de computador contra computador. Os computadores deles produzem um escudo impenetrável de contramísseis contra os nossos mísseis, assim como os nossos fazem contra os deles. Quando modernizamos nossos computadores, eles também modernizam os deles, e há cinco anos existe um equilíbrio precário e inútil..

Agora temos em nossas mãos um método para ir além do computador, pular por sobre ele, ultrapassá-lo. Combinaremos a mecânica do computador com o pensamento humano; teremos o equivalente aos computadores inteligentes; bilhões deles. Não posso prever detalhadamente quais serão as conseqüências, mas elas serão incalculáveis. E, caso os denebianos se antecipem a nós nesse aspecto… o resultado pode ser uma catástrofe..

– O que podemos fazer? – disse o presidente, preocupado..

– Colocar o poder da administração em favor de um projeto secreto de computação humana. Chame-o de Projeto Número, se quiser. Posso me responsabilizar pelo meu comitê, mas vou precisar do apoio da administração..

– Mas até onde a computação humana pode ir?.

– Não há limites. De acordo com o programador Shuman, que me apresentou essa descoberta.…

– Já ouvi falar de Shuman, é claro..

– Sim. Bom, o Dr. Shuman me disse que, teoricamente, não há nada que um computador faça que não possa ser feito pela mente humana. O computador apenas processa um número finito de dados e opera um número finito de operações a partir deles. A mente humana pode reproduzir esse processo..

O presidente pensou um pouco..

– Se Shuman diz isso, estou inclinado a acreditar nele… em teoria. Mas, na prática, como alguém pode saber como um computador funciona?

Brant sorriu cordialmente..

– Sr. Presidente, eu fiz a mesma pergunta. Ao que parece, houve uma época em que os computadores eram projetados diretamente pelos seres humanos. Eram computadores simples; antecederam a época em que o uso racional dos computadores fez com que eles projetassem computadores mais avançados.

– Sim, sim. Continue.

– Aparentemente, o técnico Aub conseguiu, por puro lazer, reconstituir alguns desses velhos esquemas, estudou os detalhes do seu funcionamento e descobriu que podia copiá-lo. A multiplicação que acabei de fazer para o senhor é uma imitação do funcionamento de um computador.

– Surpreendente!

O deputado tossiu educadamente.

– Se posso fazer mais uma observação, Sr. Presidente… quanto mais pudermos desenvolver essa coisa, mais poderemos desviar nosso esforço federal da produção de computadores e de sua manutenção. Assim que o cérebro humano assumir o poder, nossas melhores energias poderão ser canalizadas para procurar a paz, e a influência da guerra nos homens comuns será menor. Isso será mais vantajoso para o partido no poder, é claro.

– Ah – disse o presidente. – Entendo o que você quer dizer. Bem, sente-se, deputado, sente-se. Preciso de algum tempo para pensar. Enquanto isso mostre-me esse truque da multiplicação de novo. Deixe ver se eu consigo pegar o macete. O programador Shuman não tentou apressar o assunto. Loesser era conservador, muito conservador, e gostava de lidar com os computadores da mesma forma como seu pai e seu avo. Mesmo assim, ele controlava o monopólio de computadores do oeste europeu; se conseguisse entusiasmá-lo com o Projeto Número, um passo muito grande seria dado.

Mas Loesser continuava com um pé atrás

– Não sei se gosto da idéia de afrouxarmos as nossas rédeas sobre os computadores. A mente humana é uma coisa caprichosa. O computador sempre nos dará a mesma resposta para o mesmo problema. Qual a garantia que temos de que com a mente humana será assim?

– A mente humana, Loesser, apenas manipula os fatos. Não importa se a mente humana ou a máquina faz isso. Elas são apenas instrumentos.

– Sim, sim. Acompanhei sua engenhosa demonstração de que a mente humana pode imitar o computador, mas isso me parece um pouco vago. Aceito a teoria, mas que razão n6s temos para achar que a teoria será confirmada na prática?

– Acho que temos uma razão, senhor. Afinal de contas, os computadores não existiram sempre. O homem das cavernas, com suas trirremes, machados de pedra e estradas de ferro, não tinha computadores .

– E provavelmente não sabia calcular.

– Você sabe muito bem que sim. Até a construção de uma estrada de ferro ou de um zigurate requeria algum tipo de cálculo, e, como nós sabemos, isso foi feito sem computadores.

– Você está sugerindo que eles calculavam da mesma maneira que você me mostrou?

– Provavelmente não. Afinal de contas, esse método, que, a propósito, chamamos de “grafítico”, da velha palavra européia graphos, que quer dizer “escrita”… esse método foi desenvolvido a partir dos próprios computadores, portanto não pode ter sido usado pelos primitivos. Ainda assim, o homem das cavernas deve ter tido algum método, não?

– Artes perdidas! Se você está falando de artes perdidas…

– Não, não é isso. Não sou um entusiasta das artes perdidas, embora não afirme que não exista nenhuma. Afinal, o homem comia cereais antes de aprender a fazer culturas hidropônicas, e se os primitivos comiam cereais, eles deviam cultivá-los no solo. De que outra forma poderiam ter conseguido?

– Não sei, mas só acreditarei em terra cultivada quando vir algum grão crescer no chão. Também só acreditarei que se faz fogo esfregando uma pedra na outra no dia em que me mostrarem que isso é possível.

Shuman tentou ser conciliador.

– Bem, vamos nos ater aos graníticos. Isto tudo faz parte do processo de eterificação. O transporte por meio de pesados equipamentos está sendo substituído por transferência direta de massa. Os instrumentos de comunicação se tornam cada vez mais leves e mais eficientes. Por causa disso, compare seu computador de bolso com aquelas engenhocas pesadas de mil anos atrás. Então, por que não dar também o Ultimo e definitivo passo, e abolir os computadores? Vamos, senhor, o Projeto Número é inevitável; ele está progredindo rapidamente. Mas queremos sua ajuda. Se o patriotismo não for suficiente para engajá-lo, pense na aventura intelectual que está em jogo.

– Que progresso? – disse Loesser com ceticismo. – O que você pode fazer além de multiplicar? Pode integrar uma operação transcendental?

– Dentro em breve, senhor, Dentro em breve. No mês passado, aprendi a dividir. Posso determinar, e corretamente, quocientes inteiros e quocientes decimais.

– Quocientes decimais? De quantas casas?

O programador Shuman tentou manter um tom natural.

– Qualquer número!

Loesser ficou de queixo caído.

– Sem um computador?

– Faça um problema.

– Divida vinte e sete por treze. Em seis casas.

Cinco minutos depois, Shuman disse:

– Dois, vírgula, zero sete meia nove dois três.

Loesser conferiu.

– Isso é realmente fantástico. A multiplicação não me impressionou muito porque, afinal, isso envolvia números inteiros e acho que uma hábil manipulação pode conseguir isso. Mas decimais…

– E isso não é tudo. Há uma nova pesquisa em curso que até agora é ultra-secreta e que, falando sinceramente, não posso revelar. Mesmo assim… estamos perto de aprender a fazer uma raiz quadrada.

– Raiz quadrada?

– Ainda tem algumas coisas pendentes e não conseguimos acertar na mosca, mas o técnico Aub, o homem que inventou essa ciência e que tem uma incrível sensibilidade para a coisa, assegura que está prestes a resolver o problema. E ele é apenas um técnico. Um homem como o senhor, um matemático talentoso e tarimbado, não encontraria tanta dificuldade.

– Raiz quadrada – resmungou Loesser, encantado.

– Raiz cúbica também. E então? Está conosco?

Loesser levantou a mão rapidamente.

– Pode contar comigo.

O general Weider marchava de um lado para o outro da sala e se dirigia aos ouvintes à sua frente como se fosse um professor ranzinza diante de uma turma de estudantes indóceis. Pouco lhe importava se eram os cientistas civis que coordenavam o Projeto Número. O general era um líder em todos os lugares e assim se comportava em todos os momentos de sua vida.

– Nenhum problema com as raízes quadradas, então – disse ele. – Eu mesmo não sei como fazê-las, mas já estão concluídas. Mesmo assim, não vamos interromper o projeto só porque já solucionamos os problemas que alguns de vocês consideram essenciais. Vocês podem fazer o que quiserem com os grafíticos depois que a guerra acabar, mas, nesse exato momento, temos problemas específicos que precisam ser solucionados.

Num canto distante, o técnico Aub ouvia aflito. É claro que há muito tempo deixara de ser um técnico, tendo sido dispensado de suas tarefas e convocado a participar do projeto, com um título pomposo e um ótimo salário. Mas é claro que as diferenças sociais permaneciam e os líderes científicos, altamente classificados, jamais o aceitariam em seu meio ou o tratariam em pé de igualdade.

E Aub tampouco desejava isso. Sentia-se tão incomodado entre eles como eles se sentiam incomodados na sua presença.

– Nós só temos uma meta, cavalheiros – estava dizendo o general. – Substituir os computadores. Uma nave que possa viajar pelo espaço sem um computador a bordo pode ser construída em um quinto de tempo e por um décimo dos custos de uma nave computadorizada. Poderíamos ter frotas especiais cinco ou dez vezes maiores do que as de Deneb se eliminássemos os computadores. E até vejo mais além disso. Talvez agora pareça loucura ou um simples sonho. Mas no futuro eu posso ver mísseis tripulados .

Houve um instantâneo murmúrio por parte da platéia.

O general prosseguiu:

– No momento, nosso problema principal é que a inteligência dos mísseis é limitada. O computador que os controla não pode alterar o rumo programado e, por essa razão, eles sempre acabam sendo detidos por antimísseis. Poucos mísseis, se é que algum consegue chegar a seu objetivo, e a guerra de mísseis está prestes a acabar; felizmente, tanto para o inimigo, como para nós.
Por outro lado, um míssil com um ou dois homens dentro, controlando o vôo com graníticos, seria mais leve, mais ágil e mais inteligente. Isso nos daria uma vantagem que pode significar a vitória. Além disso, cavalheiros, as necessidades da guerra nos obrigam a lembrar de uma coisa. Um homem é mais descartável do que um computador. Mísseis tripulados podem ser lançados em maior número e sob circunstâncias que nenhum general empreenderia se usasse mísseis computadorizados.

Ele discorreu sobre muito mais coisas, mas o técnico Aub não esperou. O técnico Aub, na intimidade dos seus aposentos, elaborou cuidadosamente sua carta de despedida. Ela dizia o que se segue: “Quando comecei a estudar o que agora chamam de graníticos, isso não passava de um passatempo. Nada mais do que um agradável passatempo, um exercício para a cabeça.

Quando o Projeto Número começou, achava que as pessoas fossem mais esclarecidas do que eu e que os graníticos poderiam ser usados para ajudar a humanidade, apoiando a modernização dos instrumentos necessários à transferência de massas. Mas agora vejo que ele só será usado para a morte e a destruição.

Não posso suportar a responsabilidade de ter inventado os grafíticos.

Depois, virou contra si o foco do despolarizador de proteínas e morreu instantaneamente.
Eles se reuniram em torno do túmulo do pequeno técnico para prestar-lhe honra por sua notável descoberta.

O programador Shuman fez uma reverência com a cabeça, junto com os outros, mas continuou imóvel. O técnico tinha dado sua contribuição e não era mais necessário. Ele podia ter começado os graníticos, mas agora que o projeto já estava em andamento, iria se desenvolver automaticamente até triunfar, tornando os mísseis tripulados uma realidade, juntamente com tantas outras coisas.

Nove vezes sete, pensou Shuman com orgulho, sessenta e três. Não precisava mais que um computador lhe dissesse isso. Sua própria cabeça era um computador. E isso lhe dava uma fantástica sensação de poder.

Fonte:

ASIMOV, Isaac. Sonhos de Robô. Rio de Janeiro, Ed. Record, 1991. p. 320/330
http://sobral.tripod.com/poder/poder.html

Deixe um comentário

Arquivado em Contos, Ficção Cientifica, Literatura Norte Americana

Isaac Asimov (As Leis da Robótica)

As Leis da Robótica foram criadas por Isaac Asimov, e primeiramente existiam apenas 3Leis, mas depois elas foram ampliadas para 4. As Leis da Robótica são:

Lei Zero (criada posteriormente, por um robô que a intuiu no romance “Os Robôs e o Império”): Um robô não pode causar mal a humanidade ou, por omissão, permitir que a humanidade sofra algum mal, nem permitir que ela própria o faça.

Primeira Lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal.

Segunda Lei: Um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos que em tais ordens contrariem a Primeira Lei.

Terceira Lei: Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira e a Segunda Lei.

Curiosidades

A expressão robô não é de Asimov. Apareceu em 1920, na obra de teatro de Karel Capek R.U.R. Robôs Universais de Rossum, ainda que a palavra em si se deve ao seu irmão Joseph, já que “robô é trabalhador”. Apesar de tudo que se acreditava, na obra de teatro não é um robô, e sim um andróide. Em troca, inventou-se a expressão robótica, ou seja, a ciência que estuda os robôs.

Apesar de ser um autor de muito êxito, Isaac Asimov também teve fracassos; talvez o maior deles fosse a revista Asimov’s SF Adventure Magazine, que iniciou sua publicação no ano de 1978, e terminou-a no mês seguinte, ou seja, publicou só um número.

Asimov sempre demonstrou preocupação com o dinheiro. A obra pela qual recebeu menos foi “O sentido secreto”, pela qual lhe pagaram pouco, mas também foi a qual pagaram mais por palavra: 2,50 $, já que o editor afirmava que só havia comprado-a pelo seu nome: Isaac Asimov.

Outra de suas manias era não desperdiçar nada. Se um relato era desprezado por um editor, Asimov o apresentava a outro. Em uma edição do ano de 1955, “O Plano dos 1000 anos” foi renomeado para “Fundação”.

Apesar da crença de algumas pessoas, Asimov não foi o escritor mais produtivo da história. Quem tem o recorde é Josef Ignacy Kraszewski, um escritor do século XIX, que escreveu mais de 600 livros.

Entre outros cargos, Asimov foi vice-presidente do Club Mensa, uma associação cujos sócios tem que superar certas provas de inteligência para serem admitidos.

Asimov sofria de acrofobia, medo de altura. Só voou em dois aviões em toda a sua vida, e as viagens de barco também não eram seu forte, ele enjoava com muita facilidade. Nesta acrofobia muitos viram certo paralelismo com a agorofobia, que faz sofrer os habitantes da Terra nas novelas iniciais do Ciclo de Trantor.

Asimov odiava ver seu nome escrito errado. Esse foi um dos seus motivos para escrever, em 1957, o relato: “Meu nome se escreve com S”. Os erros mais notáveis foram produzidos nas etapas da revista Galáxia, de Novembro de 1952; e no Prêmio Nebula, outorgado por O homem bicentenário, em 1976.

Mesmo tendo nascido no seio de uma família judia, e conhecendo bem a Bíblia, Asimov escreveu “Guia de Asimov sobre a Bíblia”, e “A história de Ruth”. Asimov era ateu; se considerava um humanista, ou seja, acreditava que os avanços da Humanidade eram responsabilidade dos humanos, e não de seres sobrenaturais.

A idéia da novela Viagem Fantástica não é original de Asimov. Foi escrita baseada em um guia cinematográfico escrito por Otto Klement e Jay L. Biby, e Asimov escreveu tão rápido que o livro apareceu seis meses antes da estréia do filme. Asimov nunca esteve contente com este trabalho. Na dedicatória do livro, ele colocou: “a Mark e Márcia, que me ‘obrigaram’ a escrever este livro”. Asimov tentou corrigir algumas falhas do guia original, mas apesar da oportunidade de escrever sobre anatomia e fisiologia, motivo que no começo o atraiu, ele nunca considerou essa obra um trabalho próprio.

A Companhia de Robôs e Homens Mecânicos dos Estados Unidos, mais conhecida como U.S. Robôs implanta a todos os robôs positrônicos as Três Leis da Robótica, que regem seu comportamento.”

Quando Asimov desenhou os robôs positrônicos criou três leis para proteger o homem, e permitir sua aceitação, salvando-os do chamado Complexo de Frankenstein. Diversos especialistas opinam que se algum dia chegarem a criar seres metálicos desta complexidade, sem dúvida eles levarão implícitas essas normas ou algumas regras de comportamento equivalentes, a fim de superar o medo que podem gerar os robôs. A intuição de Asimov sobre o futuro pode ir desde buscar água no espaço até a cirurgia microcelular.

Os Robôs

Os robôs têm estrutura cerebral positrônica, formada por circuitos semicondutores, que transmitem as informações processadas na placa mãe, feita de silício, aos equipamentos responsáveis pelas funções do robô. Sua estrutura é atômica, de ferro, e não molecular como as estruturas orgânicas. Os robôs não morrem, simplesmente podem ser destruídos por um ser humano sem relutarem. A maioria dos robôs são feitos para uma função específica, mas existe uma minoria que é composta de um cérebro positrônico mais bem elaborado, podendo desenvolver várias atividades, inclusive apresentando criatividade nessas atividades.

O papel social dos Robôs

O robô foi desenvolvido para servir e proteger o homem. Todo robô é por natureza escravo. Se o robô for versátil, apresentando uma logística menos automática, ele tem condições de se tornar livre. Porém, mesmo livre, o robô está sujeito a obedecer aos 3 mandamentos da robótica, tendo sido essa a sua condição inicial de existência e a primeira informação armazenada em sua memória. Se o robô não cumpre com competência os deveres para os quais foi designado, ele deve ser substituído.

Vantagens dos robôs
– O robô apresenta uma inteligência superior a de qualquer ser humano.
– O robô pode executar qualquer tarefa que lhe for dada, e dependendo de sua placa positrônica, pode executar apenas uma tarefa com perfeição incontestável.
– O robô não morre naturalmente, somente nas mãos do homem.
– Um robô de cérebro positrônico complexo e em boas condições pode mudar de corpo mecânico, quando o seu estiver em mau estado.
– O robô, além de extremamente inteligente também é muito forte, podendo essa força durar intacta até 25 anos em uma mesma estrutura mecânica.

Desvantagens dos robôs
– Os robôs são eternos escravos do homem.
– Mesmo os robôs mais complexos têm de cumprir os 3 mandamentos, pois foram programados para isso.
– A vida do robô está na mão do ser humano, de preferência o seu proprietário.
– Os robôs não têm sentimentos e a maioria não apresenta pensamento criativo.
– Os robôs são discriminados em razão do medo que a raça humana tem deles.
– Um robô pode ser facilmente reconhecido e vítima de preconceito em razão da sua estrutura de ferro.
– Mesmo quando é livre, e seu corpo apresenta estrutura biológica, o robô não pode ser considerado um homem, e sim um andróide, por causa de seu cérebro positrônico.
– Se o robô modificar a estrutura do seu cérebro positrônico para a estrutura de um cérebro biológico, ele fica vulnerável e morre facilmente.

Utilidades dos robôs
– Tarefas domésticas simples.
– Indústrias.
– Pesquisas científicas.
– Exploração espacial.
– Testes nucleares.

Tipos de robôs

Comuns – são aqueles que realizam uma tarefa específica com perfeição.
Versáteis – são aqueles que têm uma estrutura cerebral positrônica complexa, podendo fazer diversas tarefas com perfeição, chegando até a apresentar alguma criatividade.
Andróides – são os robôs versáteis em uma estrutura biológica comum.

Isaac Asimov é conhecido por suas histórias de robôs, seres dotados com cérebros positrônicos, que os conduzem a situações inesperadas e surpreendentes.

Fontes:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Isaac_Asimov
Império de Isaac Asimov. Disponível em
http://anglopor8a09.vilabol.uol. com.br/index.htm

Deixe um comentário

Arquivado em Artigos, Ficção Cientifica