Dorothy Jansson Moretti (Trovas ao Vento)

Tecendo trovas ao vento
nascidas do coração,
num pouco de luz e alento,
Eu disfarço a solidão.
***
Que bela seria a vida
se, acima de ódios mortais,
uma ponte fosse erguida
unindo margens rivais!
***
Ora eloqüente, ora mudo,
teu olhar é uma charada:
promessa sutil de tudo,
no fútil revés de um Nada.
***
Somos tão bem afinados,
que, em termos gramatical,
podíamos ser chamados
“encontro consonantal”!
***
Meus pobres sonhos, tão fracos,
a vida em escombros fez,
mas, teimosa, eu junto os cacos…
e eis-me sonhando outra vez!
***
“Para sempre!” Será mesmo?
Não importa a duração;
é promessa feita a esmo,
mas aquece o coração.
***
A lua, em passo indeciso,
muda o andante da sonata,
pondo pausas de improviso
nas pentagramas de prata.
***
Em bando sutil, as garças,
pontilhando o lamaçal,
são quais pérolas esparsas,
adornando o pantanal.
***
A brisa afasta a cortina,
e uma nesga de luar,
fugindo à fria neblina,
vem aos meus pés se abrigar.
***
Chá da tarde, requintado…
Mas, em teus gestos, servindo…
Com jeitinho e com agrado
Tu me descartas, sorrindo
***
Os erros que fiz na vida
Quero apagar sem alarde
Mas, a consciência revida
E, aos brados, me diz: é tarde!
***
Em cada tarde a cair,
Vejo a vida em agonia,
Aos poucos se despedir
Na morte de mais um dia.
***
Eu me faço de blindado
Amor? Bobagem… Pieguice…
Meu medo é que, apaixonado
Eu me envolva na tolice.
***
O amor ao término da vida
Deixa na pauta apagada
Uma só nota sentida
Canto do cisne, mais nada.
***
A existência é definida
Não por azar, mas por sorte
Quanto mais cheios da vida
Mais perto estamos da morte.
***
Do coveiro, a noiva, rente
É tão magra o estrupício
Que ele diz, literalmente:
Casei com os ossos do ofício.
***
Na taça de cada dia,
a transbordar de amargura,
cai um pingo de alegria,
e o fel se torna doçura.
***
Do que agitou nossas almas
restam sonhos calcinados,
cingindo as crateras calmas
de dois vulcões apagados.
***
Nossa terra e a terra lusa,
Na doce língua que as liga,
São cordas nas mãos da musa,
Cantando a mesma cantiga.
***
O alto-falante anunciava
a valsa de um “querer-bem”,
e o parque inteiro aguardava
ouvir seu nome, também.
***

(Centenário de Mário Quintana)
Marotinho, molecote
Irriquieto e turbulento
Parece um mini Quixote
Perseguindo um cata-vento.
***
Trem-de-ferro, o teu apito
lembra-me um sino plangente:
tanta mágoa no seu grito,
Tanta saudade na gente!
***

Trovas Infantis
Por que é que eu te chamo, Nei,
de ‘porquinho’ … faz favor?
É que ainda eu não cheguei
ao tamanho do senhor…
***
“Que tanto estudas, Leal?”
“Geografia, Seu Garcês.”
“Humm… e onde está Portugal?”
“Na página cento e três.”
***
“Ao céu vai o bem dotado.
E o criminoso aonde vai?”
Diz o filho do advogado:
“Não sei… isso é com meu pai…”
***
“O canivete, meu bem”,
diz ao garoto o vizinho,
“é teu! Vai ver o que tem
dentro do teu tamborzinho!”
***
Pancada de chave inglesa
amontoou o Garcês,
que para a própria surpresa,
acordou falando inglês!
***
Guri do boné virado,
estilingue… palavrão…,
hoje, vigário ordenado:
– Pax vobiscum, meu irmão!
***
“Vovô, feche os olhos já!
Vi papai dizendo à Guida
que quando você fechá,
vamo ficá bem de vida!”

Fontes:
Ruy Albuquerque. Chá da Tarde com Dorothy . 16 agosto 2006
http://www.bomdiasorocaba.com.br/

José Ouverney. Trovas de todos os recantos.
http://www.falandodetrova.com.br/

http://sorocult.com/el/talentos/djm.htm

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Arquivado em Literatura Brasileira, Sorocaba, Trovas

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