Arquivo do mês: maio 2008

Academia de Letras de Maringá (Convocação)

OLGA AGULHON, presidente da Academia de Letras de Maringá, no uso de suas atribuições, CONVOCA os membros da Academia para a reunião ordinária a ser realizada no dia 1º (primeiro) de junho do ano em curso, às 20 horas, no Bristol Metrópole Hotel.

Em pauta:

01 – Relato das últimas atividades da ALM.

02 – Relação dos candidatos às cadeiras vagas.

03 – Distribuição dos convites para a palestra de Laurentino Gomes.

04 – Palestra / apresentação do escritor José Feldman.

05 – Outros assuntos.

06 – Momento literário.

07 – Sociais.

Olga Agulhon
presidente

Fonte:
E-mail enviado por acadêmico da ALM

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Paulo V. Pinheiro (Um sempre na noite clara)

Como sempre, numa noite de fazer tremer, como se as outras não fizessem, as pessoas se unem e tramam o dia de amanhã.

Seja em oficinas, nas ruas, nos colégios, nos nos… como eu diria… nos lugares onde a gente anda… trama… pensa ou projeta a vida…, como se nesta ânsia a gente pudesse fazer que os sonhos se transformassem em vida.

A pessoa tem medo do amanhã. Como tem medo da morte e da escuridão. Tem medo mais ainda do desconhecido, da demência, do mal que não vê e que circunda a cada inalação ou baforada de um cigarro que não fuma, mas que sente a sua presença. Os crepitares do silêncio e a aurora que teima em adiar os seus raios, rasos, flácidos e… a gente se agarra a uma sobra do agora como os bêbados se agarram aos seus copos e garrafas ou coisas assim.

Fascinações de uma página, não mais. Um fascínio tal que dá angústia quando se sabe que quem escreve quer o contrário. O acordar do real pesadelo. O pesadelo de se ver a si, como se isso sempre tivesse de ser ruim. Como se isso tivesse de não ser bom.

O agora fascina e faz tremer. É onde a gente se olha de frente vê o verdadeiro tamanho que conquistou até o segundo anterior. Tal soma pode ser do maravilhoso ao esfarrapado e a maioria procura na embriaguês a celebração deste encontro. Peço perdão aos sóbrios a generalização.

O ordinário é buscar a luz como buscam as mariposas antes de morrerem. Ficam embriagadas nas luzes que não são delas e queimam suas patas e asas e quando algumas escolhem uma fogueira é um crepitar da valentia estúpida. Ébrios e heróis andam de braços dados…

Fontes:
http://paulovinheiro.blogspot.com
http://aghatadafne.loveblog.com.br (imagem)

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Paulo V. Pinheiro (A Volta que Virá)

Hoje, rebuscando papéis, jornais e afins, um pouco da minha história e de meus lixos, encontrei lembranças que nada me diziam e outras que até muito.
Remexendo nos meus emails e apagando algumas atenções revi amigos de hoje e de ontem, mas nada traduz sentidos como meus papéis.

Interessante essa teoria da memória tátil. Como podem ficar sabores de há tantos anos, odores de “não me engano”, cores que não desbotam?

Neste meu mundinho que afago, com a ponta de meus dedos, vejo as fotografias e as lembranças de dias que não têm fim.

Reflito: independente da razão comprometida, no que será das gentes que vêem o mundo sem sabores, nem as cores, nem odores, nem os papéis que tanto pesam.

Acho que alguns que têm substituído as páginas por imagens plasmadas em telas e eletrônica, por completo, sem chance para certas sensibilidades, podem sofrer e fazer sofrer em seus mundos, tanto interno quanto externo, de um tipo de resfriamento estranho e esquizofrênico.

Tenho, com atenção, analisado o mundo que me circunda. Meu estranhamento se dá não com o que vejo e sim de certas ausências. Nós humanos (ou quase), não nos espantamos mais, isto é, fomos convencidos a esterilizar os sentimentos superiores.

Verdadeiras obras de arte no mundo, em desvão, amontoadas em um canto, fechado, úmido e sombrio. Onde estão os nossos viniles (lps), os nossos Bergman’s, em preto-e-branco, e lindas outras coisas que se desusa… uma a uma. Saudosismo? Não, mas a busca de um lugar no lugar comum.

Volto aos meus papéis que teimam em não desvanecer.

Fecho minha gaveta.

Até breve.

Fonte:
http://paulovinheiro.blogspot.com
http://papagaio.wordpress.com (imagem)

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Rápidas

SECRETARIA DE CULTURA REALIZA ENCONTRO DE ESCRITORES E POETAS DE VOTORANTIM E REGIÃO. A proposta é conhecer e divulgar os trabalhos de poetas da cidade e da região.
Nesta próxima sexta-feira (30) de maio, às 20h00 será realizado a sexta edição do Sarau Literário, o evento tem como proposta reunir escritores, poetas e pessoas que se interessam pelo gênero literário. Realizado pela Secretaria de Cultura em parceria com a Sociedade dos Poetas Vivos o projeto promete trazer novidades ao público.
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REUNIÃO DA ORDEM NACIONAL DOS ESCRITORES E DO PORTUGALCLUB
Cumprindo o calendário pré estabelecido, efectuou-se no dia 11 do corrente em São Paulo -das 18H00 às 21H30 – a anunciada reunião conjunta da Ordem Nacional dos Escritores e do Portugalclub, com representantes do Parlamento Mundial Para Segurança e Paz, dos Elosclub, e do Ministro da Cultura, cujo membro de seu gabinete, Dr. Paulo Oliver, encerrou de forma brilhante a reunião, quando já passava das 23H00.
http://www.mundolusiada.com.br/COMUNIDADE/comu06_mai021.htm
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7º COLÓQUIO ANUAL DA LUSOFONIA E II PRÉMIO LITERÁRIO DA LUSOFONIA
Participe, Comente e divulgue também o 7º Colóquio Anual da Lusofonia em Bragança (Portugal) de 1 a 4 de outubro. O tema deste ano é “Língua Portuguesa e Crioulos: um enriquecimento biunívoco
chrys gmail dr informa :
Pela presente vimos solicitar a todos os especialistas no tema que apresentem trabalhos no 7º Colóquio Anual da Lusofonia em Bragança (Portugal) de 1 a 4 de outubro. O tema deste ano é
“Língua Portuguesa e Crioulos: um enriquecimento biunívoco
http://lusofonia2008.com.sapo.pt/
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PALESTRA SOBRE O NOVO ACORDO ORTOGRÁFICO DA LÍNGUA PORTUGUESA
A Universidade do Livro, vinculada à Fundação Editora da Unesp, promove no dia 13 de junho (sexta-feira), das 10h às 12h, palestra sobre O Novo acordo ortográfico da língua portuguesa. Aprovado pelo parlamento português no dia 16 de maio, o acordo visa unificar a ortografia do idioma lusófono. No Brasil, as mudanças nos livros didáticos serão feitas até 2010
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‘PEQUENOS’ DO COLÉGIO ELVIRA BRANDÃO (SÃO PAULO) ESCREVEM ‘AUTOBIOGRAFIA’

Atividade é incentivada com a leitura da biografia de grandes nomes da cena brasileira como Chico Mendes, Machado de Assis, Monteiro Lobato e Portinari.

O objetivo é incentivar o amor às letras, aos livros e às artes e, não necessariamente, descobrir talentos literários precoces – embora isso, é claro, não esteja fora de questão.

Os pequenos alunos do Colégio Elvira Brandão, da Zona Sul da capital, com idades entre 6 e 7 anos, em processo de alfabetização, trabalham firme de agora até o final do ano movidos pelo desafio de redigir uma obra no mínimo incomum nessa faixa etária: sua autobiografia.

Isso mesmo, os jovens estudantes, que nem bem foram alfabetizados, receberam a missão de preparar uma autobiografia para presentear os pais na ‘formatura’ do final de ano, com a ‘obra’ encadernada e produzida.

A iniciativa da escola, senão inédita pouco comum nos colégios paulistanos, foi pensada ‘para promover o amor aos livros, às artes e outras coisas boas do Brasil, além de estimular progressos no processo de alfabetização’, segundo Camila Rocha, diretora pedagógica do Elvira Brandão. ‘Só mesmo assistindo a uma aula para ver como os resultados superam as nossas expectativas’.

Antes de partir para os textos sobre suas vidas, os pequenos alunos estudam em casa e sala de aula textos contendo as biografias de alguns dos maiores nomes da cena brasileira, como Cândido Portinari, Chico Mendes, Machado de Assis, Monteiro Lobato, Paulo Freire e outros.

De acordo com Camila, o projeto pedagógico é complementar ao processo de alfabetização adotado no colégio e parte do princípio de que os alunos se dedicam mais ao aprendizado se a este, sobretudo nos primeiros anos escolares, a escola ‘encurtar o caminho para o conhecimento e a informação de qualidade’. Em torno de 40 crianças participam do projeto atualmente.

O Colégio Elvira Brandão Fundado há mais de cem anos, o Colégio Elvira Brandão fica no bairro Chácara Santo Antonio, Zona Sul de São Paulo. Atua em todos os níveis de ensino, conta com quase 100 professores e aproximadamente de 600 alunos. De suas salas de aula saíram nomes de peso dos segmentos artístico, empresarial, financeiro e esportivo.

Fonte:
Douglas Lara. Disponível em
http://www.sorocaba.com.br/acontece

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Vânia Maria Souza Ennes

Vânia Maria Souza Ennes, nasceu em Curitiba, Capital do Estado do Paraná, onde realizou seus estudos fundamentais no Colégio Sacré Coeur de Jésus e estudos médios na Escola Comercial Colegial de Educação Familiar. Cursou a faculdade de Administração de Empresas com habilitação em Comércio Exterior pela Fundação de Estudos Internacionais do Paraná. Realizou pós-graduação da língua francesa no Collège International de Cannes, Établissement D’Enseignement Supérieur Prive, na França. Efetivou Curso de Formação Política pelo PPB-Partido Progressista Brasileiro-Fundação Milton Campos. Efetuou Curso de Leitura Dinâmica e Memorização, Leitura Veloz, Técnica de Audiência e Método de Estudo, pela Exata Treinamentos S/C. Concluiu curso de Informática pela Interlux Informática e cursa, atualmente, o 4º ano do Curso de Direito, na Universidade Radial.

É filha do poeta-trovador, advogado, procurador do Estado do Paraná e ex-combatente da Força Expedicionária Brasileira Hely Marés de Souza e da professora e trovadora Ariane Maria França de Souza. Neta do político e industrial Astolpho Macedo Souza e Marina Marés de Souza e do poeta, sonetista e trovador, advogado, industrial, fundador da Federação das Indústrias do Estado do Paraná, seu 1º presidente por 14 anos consecutivos Heitor Stockler de França e Brasília Taborda Ribas de França, dos quais trouxe do berço o gosto pelo trabalho, pela poesia e pela arte.

Aos 9 anos teve sua primeira poesia “Divagando” publicada em jornal e aos 10 anos estreou na Rádio PRB2, em Curitiba, numa entrevista com o ilustre Jornalista carioca Ibraim Sued, durante sua passagem por Curitiba.

Amante da natureza foi escoteira, por quatro anos, na tropa feminina do Grupo Santos Dumont e chefe de sua patrulha.

Foi sócia proprietária por quase dez anos da rede de lojas Buscapé Calçados Infantis Ltda. estabelecidas nos bairros do Batel, Juvevê, Centro e Shopping Mueller. Por quase 20 anos dedicou-se à caprinocultura. Manteve um criatório de cabras da raça Saanen, às margens da represa do rio Passaúna, denominado Capril Passaúna, juntamente com a empresa Capríssima Indústria e Comércio de Cosméticos Ltda., onde desenvolveu trabalhos com tecnologia e qualidade, a base de leite de cabra. É sócia com seu marido da Interportos Engenharia e Empreendimentos Ltda., empresa especializada na construção de obras de arte especiais, portos, saneamento e terminais de carga.

Foi presidente da Associação dos Caprinocultores do Paraná-CAPRIPAR, eleita por unanimidade por dois mandatos.

Foi representante dos médios animais da União Paranaense de Criadores-UPAC. Foi membro do Conselho Fiscal da Federação Paranaense de Criadores-FEPAC.

Foi conselheira da Confederação Nacional da Pecuária-CONAPEC, com sede em São Paulo.

Foi Coordenadora da Comissão de Agropecuária da Business Profissional Women-BPW de Curitiba.

Assinou a página social do jornal “Mulher sempre Mulher”, mensalmente, durante dois anos, órgão oficial da Associação das Mulheres de Negócios e Profissionais de Curitiba-BPW.

Assinou a coluna de Trovas na Revista Novos Rumos, órgão oficial da Associação dos Magistrados do Paraná, em publicação mensal, com tiragem de 2000 exemplares, durante dois anos.

Foi conselheira não governamental do Conselho Municipal da Condição Feminina, órgão da Prefeitura Municipal de Curitiba, na atuação do Prefeito Cássio Tanigushi.

Foi vice-presidente da Sociedade Eunice Weawer do Paraná-SEW mantenedora do Educandário Curitiba, na assistência dos filhos sadios de hansenianos.

Foi presidente da União Brasileira de Trovadores-UBT Seção de Curitiba, por três gestões consecutivas.

Foi nomeada delegada do Portal CEN – Cá Estamos Nós, para o Estado do Paraná, entidade literária com sede na cidade de Marinha Grande, Portugal.

É membro efetivo do Círculo de Estudos Bandeirantes, da Academia de Cultura de Curitiba-ACCUR, do Elos Clube de Curitiba, do Instituto Histórico e Geográfico de Palmeira como, também, da Academia Paranaense da Poesia, onde ocupa a cadeira patronímica número 8, cujo patrono é Emiliano Perneta.

É atual vice-presidente do Centro de Letras do Paraná, atual Conselheira do Conselho da Mulher Executiva da Associação Comercial do Paraná e presidente Estadual da UBT no Estado do Paraná.

Recebeu o prêmio de “Mulher Destaque na Agropecuária”, na Feira Internacional do Paraná, no Parque Castelo Branco, concedido pela Associação das Mulheres de Negócios e Profissionais de Curitiba-BPW.

Sua empresa Capríssima Indústria e Comércio de Cosméticos Ltda. foi vencedora do “Top Comercial” prêmio concedido pela Associação Comercial do Paraná e T.V. Iguaçu canal 4, Grupo Paulo Pimentel, por ter apresentado idéias, experiências e resultados, que contribuíram para a valorização e crescimento do meio empresarial paranaense..

Recebeu “Certificado de Reconhecimento” pelo empreendedorismo e trabalho realizado pela BPW – Business Professional Women de Curitiba.

Foi agraciada com a Comenda “Dama Rouge” conferida pela Boca Rouge por relevantes serviços prestados à comunidade.

Recebeu do Centro de Letras do Paraná “Carta de Louvor” e agradecimentos, pela excelente contribuição durante as comemorações do Dia do Folclore.

Recebeu Troféu da União Brasileira de Trovadores Seção de Porto Alegre/RS, em Cerimônia Solene, na Assembléia Legislativa de Porto Alegre/RS.

Recebeu “Diploma de Mérito”, conferido pela Assembléia Legislativa de São Paulo/SP através do Elos Clube de Curitiba, em reconhecimento à sua dedicação e trabalho cívico-cultural permanente, realizado sob o signo do humanismo, na preservação da história e dos ideais da língua portuguesa.

Recebeu “Diploma Comemorativo” e como Presidente da União Brasileira de Trovadores, recebeu “Diploma de Louvor” do Movimento Pró–Paraná, em comemoração aos Sesquicentenários das Elevações da Comarca de Curitiba à Província do Paraná, da Cidade de Curitiba à Capital da Província do Paraná, no ano em que Curitiba foi consagrada internacionalmente como a Capital Americana da Cultura, pelo relevo especial que conferiu às comemorações daquelas magnas efemérides históricas, mediante a meticulosa e magistral programação dos XVIII Jogos Florais de Curitiba, aqui congregando a elite dos Trovadores Brasileiros.

A Câmara Municipal de Curitiba consignou na ata de seus trabalhos, o requerimento do Ver. Ângelo Batista “Voto de Louvor”, pelo destaque que deu a Curitiba, na área da cultura, diante do cenário poético no âmbito Nacional, pelo brilhante desempenho de seu 3º mandato frente a Presidência da UBT, com votos de congratulações e aplausos.

Agraciada com Diploma pela Câmara Municipal de Curitiba pelo brilhantismo de sua participação na Tribuna Livre em Seção Ordinária.

Homenageada pela União Brasileira de Trovadores de Niterói/RJ, onde recebeu nome de troféu para os cinco prêmios mais votados da categoria, cabendo-lhe a entrega dos mesmos, em cerimônia de gala.

No “Dia Internacional da Mulher” recebeu o “Prêmio Mulheres de Destaque” do Shopping Novo Batel em parceria com o conselho da Mulher Executiva da ACP e Associação de Mulheres de Negócios e Profissionais-BPW.

Por consideração unânime recebeu da Legião Paranaense do Expedicionário e dos integrantes do 1º Grupo de Caça da FAB, na Itália, a Medalha “Tenente Max Woff Filho”, durante as comemorações da Tomada de Monte Castelo, pelos relevantes serviços prestados à entidade, em Solenidade Militar.

Em Sessão Solene comemorativa ao aniversário de Curitiba, na Câmara Municipal de Curitiba-Palácio Rio Branco, foi agraciada com o “Prêmio Cidade de Curitiba” por proposição de diversos vereadores, pelos importantes serviços prestados a cidade, em âmbito nacional.

Laureada pelo presidente da Assembléia Legislativa do Estado do Paraná, deputado Hermas Brandão, na festividade aos 150 anos de emancipação política do Paraná, pilastra representativa da sociedade paranaense.
Em sessão solene na Câmara Municipal de Curitiba-Palácio Rio Branco, foi condecorada com a Medalha de Mérito Fernando Amaro por indicação da vereadora Nely Almeida do PSDB. Esta honraria deu-se através de projeto de Decreto Legislativo, como profissional de literatura por ter contribuído para a evolução das áreas de educação e cultura.
Recebeu Diploma em Homenagem Especial do Presidente Milton Nunes Loureiro, da UBT da Seção de Niterói/RJ.

Recebeu do Vereador Jair César “Diploma de Louvor” com votos de congratulações e aplausos pelo incentivo que dispensa na área da cultura.

Homenageada com “Diploma Especial” pelo alto desempenho, em todas as suas gestões, como Presidente da União Brasileira de Trovadores–Seção de Curitiba por Yaramara de Castro Araújo.

Diplomada pela UBT-Seção de Curitiba, em sinal de reconhecimento por seu destacado trabalho como Presidente da entidade, durante três gestões, como expressão de agradecimento pela dedicada contribuição ao engrandecimento da trova e da cultura curitibana e paranaense.

Diplomada no Encontro de Escritores Luso-Brasileiros do Portal CEN “Cá Estamos Nós” no Museu Histórico do Exército, no Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro/RJ.

Vencedora no concurso internacional de trovas Brasil-Portugal promovido pelo Elos Clube Internacional da Comunidade Lusíada, sob o tema “água” e pela UBT Seção de Curitiba/PR sob o tema “mulher”.

Participou de vários Congressos, Feiras, Encontros, Seminários e Simpósios Nacionais e Internacionais na América do Norte, Europa e Ásia.

Vânia, casada com Ceciliano José Ennes Neto, engenheiro civil e físico, é empresária de coragem, otimista e empreendedora, que consegue conciliar essa gama de obrigações profissionais e culturais com a administração do lar e a educação dos seus quatro filhos: Guilherme-engenheiro civil, Cassiano-engenheiro civil, Cecília–bio-química e farmacêutica e Caetano–acadêmico de direito e servindo o Exército Brasileiro.
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Fontes:
Portal CEN.
http://www.caestamosnos.org
http://www.cmc.pr.gov.br (foto)

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Entrevista com a presidente da União Brasileira de Trovadores / Paraná Vânia Maria Souza Ennes

Lairton: Qual o seu nome completo, onde nasceu e reside?

Vânia: Meu nome é Vânia Maria Souza Ennes e sou natural de Curitiba – Paraná, cidade onde resido.

Lairton: Sente-se feliz na cidade, onde vive? O que a leva a sentir-se assim?

Vânia: Sou feliz por ser curitibana e sinto muito orgulho por ter nascido aqui, terra dos meus antepassados, tanto do lado materno quanto paterno. Ambos bandeirantes, procedentes das 13 famílias que vieram de São Paulo para colonizar esta região, quando, em 1693, foi chamada de Vila Nossa Senhora da Luz dos Pinhais e, anos mais tarde, foi denominada Curitiba.
Quando penso nisto, fico imaginando a coragem, a disposição, a abnegação e o talento construtivo desses pioneiros empreendedores.
Sinto-me muito bem aqui porque hoje, 313 anos após sua fundação, Curitiba é uma cidade onde, ainda, se respira o verde.
Posso dizer que vivemos numa cidade organizada e, devido à boa imagem que conquistou nacional e internacionalmente, foi reconhecida como “Capital Americana da Cultura/2003”.
Curitiba possui 26 parques e cerca de 81 milhões de metros quadrados de área verde preservada. São 55 metros quadrados de área verde por habitante, três vezes superior ao índice recomendado pela Organização Mundial de Saúde e, por isso, possui o título de “Capital Ecológica”.

Lairton: Qual a sua formação universitária, e que profissão desempenha?

Vânia: Sou formada em Administração de Empresas com habilitação em Comércio Exterior e, no momento, estou cursando o 3º ano do Curso de Direito. Desempenho minha profissão na área administrativa empresarial.

Lairton: Como foi a sua iniciação na poesia e na trova?

Vânia: Neta, sobrinha e filha de poetas, trouxe do berço o gosto pela poesia, literatura e pela arte. Aos 9 anos tive minha primeira poesia publicada em jornal, e, aos 10 anos, fui convidada para entrevistar, na Rádio PRB2, o ilustre Jornalista carioca Ibraim Sued, por ocasião da sua passagem por Curitiba.

Lairton: Sente-se suficientemente realizada?

Vânia: Sim, a vida me deu muito mais do que havia imaginado.

Lairton: Em sua opinião, por que a trova tem tanto destaque na história do povo luso-brasileiro?

Vânia: O destaque na história do povo luso-brasileiro é porque a “nossa” trova, de hoje, passou pela quadra portuguesa. E por ser uma composição curta, leve, agradável, tão ao gosto do povo, ela se difundiu entre nós, refletindo-se, por exemplo, nas quadras populares, nas cantigas de roda, nos folguedos e na arte repentista.
E assim, foram surgindo quadras bem elaboradas e tão apreciadas que ganharam espaço, elevando-se a uma categoria literária mais formal.
Embora pareça fácil, a boa trova requer muita arte e a verve de um verdadeiro poeta, combinando a perfeição da forma com a beleza do conteúdo em apenas 28 sílabas métricas.
Cabe ressaltar, aqui, que o termo “trovador” se reporta aos poetas portugueses da Idade Média, que ao som da lira recitavam nos palácios dos nobres. Suas criações poéticas eram as chamadas “cantigas”, e nada tinham de comum com o aspecto formal da nossa trova de hoje.
Rememorando, no Brasil, após a revolução nas Letras, com a Semana da Arte Moderna, em 1922, duas formas de poesia clássica resistiram e continuam intensamente cultivadas até hoje, Uma delas é a trova; a outra, o soneto.
Como sabemos, a trova é um poema curto, composto de uma única estrofe. Esta estrofe é uma quadra, isto é, formada de quatro versos paralelos. Cada verso contém sete pés, ou sete sílabas métricas. Pois bem! Para uma quadra ser considerada trova, dentro desse conceito atual, deve ser única, independente, sem título e – eis o mais importante – deve ter sentido completo.
Parece fácil, mas a boa trova deve ser bem elaborada, de forma perfeita e excelente conteúdo.

Lairton: Apesar da grandeza da trova e da sua popularidade, nota-se aqui um paradoxo: Porque, nas escolas, a trova ainda não é estudada na mesma proporção das outras formas literárias? O que fazer para resolver esta questão?

Vânia: Na minha visão, a trova não é estuda como deveria, por falta única e exclusiva de interesse, aliado à falta de maior atenção à realidade literária presente, por parte dos dirigentes educacionais. Tem-se, ainda, descaso, ou mesmo ignorância das entidades governamentais, em melhor desenvolver a criatividade mental do ser humano.
A solução definitiva, para esta questão, é apresentar um projeto, demonstrar e convencer o Ministro da Educação e Cultura, Secretários da Educação e Cultura e outros, dos inúmeros benefícios dessa modalidade poética. Fazê-los entender que a Trova, através da poética dos versos com bons pensamentos, com princípios de integridade moral, de civismo e da ética, pode educar, distrair, aumentar o vocabulário, desenvolver o raciocínio, intensificar a criatividade e ensinar a humanidade sobre conceitos, idéias e ideais jamais imaginados, em apenas quatro versos. E com que facilidade! E com que rapidez!
Para isso tornar-se realidade, bastaria incluir a Trova, de forma obrigatória, na Grade Curricular de Ensino em todo o Brasil. Poderia ser na área de Literatura ou na de Ensino da Língua Portuguesa.

Lairton: Tendo se tornado Presidente da UBT do Paraná, já teve a felicidade de realizar feitos importantes em favor da trova. Qual a meta prioritária da sua administração?

Vânia: Fui presidente por três gestões consecutivas da UBT Seção de Curitiba/PR e tive a oportunidade de empreender, juntamente com uma brilhante diretoria, grandes projetos em favor da Trova.
O maior deles foi a brilhante parceria da UBT Curitiba com a Brasil Telecom, ao colocar no mercado 440.000 cartões de telefones públicos, com trovas de renomados trovadores paranaenses.
A Brasil Telecom investiu na Trova e no Trovador, consciente da importância do seu papel educativo no desenvolvimento do nosso estado e, principalmente, no aprimoramento do povo brasileiro. Essa parceria resultou num passo gigantesco em prol da Cultura e da Cidadania do nosso Estado e do nosso País.
Entre outras, uma grande realização foi em parceira com a URBS de Curitiba S/A, quando trovas educativas de trânsito invadiram as ruas de Curitiba. Foram colocadas nas esquinas, em cima das placas indicativas do nomes das ruas e Curitiba virou uma antologia de Trovadores.
Já, na qualidade de Presidente da UBT Estadual do Paraná, cargo assumido em março de 2006, juntamente com uma eficiente diretoria, estamos trabalhando no sentido de aumentar, significativamente, o número de Novas Seções e Delegacias no Estado. O saldo é positivo. Quando assumimos, éramos 6 (seis) entre Seções e Delegacias. Hoje, cinco meses depois, somos 14 (quatorze). Já lançamos o Boletim Informativo nº 1, ano 1, para melhor integração dos trovadores paranaenses com o resto do País.
A meta prioritária, agora, é crescer muito, muito mais.

Lairton: É autora do CEN – “Cá Estamos nós”? – O que o CEN representa para você?

Vânia: Sim. O CEN é um brilhante e árduo trabalho de incentivo e democratização da cultura e da arte literária que une intelectuais, no âmbito internacional. Uma progressão geométrica fantástica!

Lairton: Tem algum projeto literário para o futuro?

Vânia: Sim, tantos que não encontro tempo para realizá-los.

Lairton: Já editou ou pretende editar algum livro e/ ou livro eletrônico? Cite-nos seus títulos.

Vânia: Já editei opúsculos referentes a genealogia de minha família, pelo lado paterno. São eles: “Resgatando o Passado da Família Marés de Souza I, II, III, IV e V”.
Tenho, ainda, vários outros em andamento para publicação.

Lairton: No universo de leitores, muitos adolescentes irão ler esta entrevista. Que incentivo daria a eles, a fim de que, respeitando seus pendores, venham a ser (quem sabe?) trovadores brilhantes?

Vânia: O assunto é muito vasto. O que eu melhor posso dizer é que a Trova, sendo um jogo de palavras inteligentes, mantém nossos neurônios ocupados, ativa nosso cérebro, estimula a agilidade dos nossos pensamentos, desconhece fronteiras mentais e dá mais colorido à nossa vida.
Pela força e riqueza de seu conteúdo de fácil memorização, pode-se chegar, até, mudar a mentalidade de um povo ou de uma nação, conforme a popularidade que é possível alcançarmos em seus quatro versos.
Entendo que a trova opera milagres!

Lairton: Na conclusão desta entrevista, escreva-nos algumas trovas de sua autoria, e agradecemos muito a sua importante participação. Um grande abraço!

Vânia:
Eu não mudo de país,
nem de cidade ou estado,
porque aqui sou bem feliz…
exatamente… ao seu lado!!!

Romântico e apaixonado,
meu pensamento flutua,
vai ao céu… volta zoado:
Vive no mundo da lua!

Acalmar gesto impulsivo
num conflito sem razão:
Medicinal… curativo…
é a humildade e o perdão!

Reconheço que a razão
me exerce extremo fascínio,
mas, se acerta o coração…
perco o rumo e o raciocínio!

Mãos que orientam crianças,
seja na escrita ou leitura,
mostram sinais de alianças
de nobreza e de ventura!

Educação e cultura,
seriedade e competência
é alvo certo de ventura
que aguardamos com urgência!

Quero um planeta perfeito,
sem guerra, sem corrupção.
Povo justo e satisfeito,
respeitando seu irmão!

Fonte:
ANDRADE, Lairton Trovão de Andrade. Falando de Trovas e Trovadores. Portal CEN. n. 1. Agosto de 2006. Disponível em: http://www.caestamosnos.org/rev_trovasetrovadores/revistatrovasetrovadores01Ago.htm

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Clarice Lispector (A Língua do P)

Maria Aparecida – Cidinha, como a chamavam em casa – era professora de inglês. Nem rica nem pobre: remediada. Mas vestia-se com apuro. Parecia rica. Até suas malas eram de boa qualidade.
Morava em Minas Gerais e iria de trem para o Rio, onde passaria três dias, e em seguida tomaria o avião para Nova Iorque.

Era muito procurada como professora. Gostava da perfeição e era afetuosa, embora severa. Queria aperfeiçoar-se nos Estados Unidos.

Tomou o trem das sete horas para o Rio. Frio que fazia. Ela com casaco de camurça e três maletas. O vagão estava vazio, só uma velhinha dormindo num canto sob o seu xale.

Na próxima estação subiram dois homens que se sentaram no banco em frente ao banco de Cidinha. O trem em marcha. Um homem era alto, magro, e bigodinho e olhar frio, o outro era baixo, barrigudo e careca. Eles olharam para Cidinha. Esta desviou o olhar, olhou pela janela do trem.

Havia um mal-estar no vagão. Como se fizesse calor demais. A moça inquieta. Os homens em alerta. Meu Deus, pensou a moça, o que é que eles querem de mim? Não tinha resposta. E ainda por cima era virgem. Por que, mas por que pensara na própria virgindade?

Então os dois homens começaram a falar um com o outro. No começo Cidinha não entendeu palavra. Parecia brincadeira. Falavam depressa demais. E a linguagem parecia-lhe vagamente familiar. Que língua era aquela?

De repente percebeu: eles falavam com perfeição a língua do “p”. Assim:

– Vopocê reperaparoupou napa mopoçapa boponipitapa?

– Jápá vipi tupudopo. Épé linpindapa. Espestápá nopo papapopo.

Queriam dizer: você reparou na moça bonita? Já vi tudo. É linda. Está no papo.

Cidinha fingiu não entender: entender seria perigoso demais. A linguagem era aquela que usava, quando criança, para se defender dos adultos. Os dois continuaram:

– Queperopo cupurrapar apa mopoçapa. Epe vopocêpê ?

– Tampambémpém. Vapaipi serper nopo tupunelpel.

Queriam dizer que iam currá-la no túnel…O que fazer? Cidinha não sabia e tremia de medo. Ela mal se conhecia. Aliás nunca se conhecera por dentro. Quanto a conhecer os outros, aí e que piorava. Me socorre, Virgem Maria! Me socorre! Me socorre!

– Sepe repesispis tirpir popodepemospos mapatarpar epelapa.

Se resistisse podiam matá-la. Era assim então.

– Compom umpum pupunhalpal. Epe roupoubarpar epelapa.

Matá-la com um punhal. E podiam roubá-la.

Como lhes dizer que não era rica? Que era frágil, qualquer gesto a mataria. Tirou um cigarro da bolsa para fumar e acalmar-se. Não adiantou. Quando seria o próximo túnel? Tinha que pensar depressa, depressa, depressa.

Então pensou: se eu me fingir de prostituta, eles desistem, não gostam de vagabunda.

Então levantou a saia, fez trejeitos sensuai s- nem sabia que sabia fazê-los, tão desconhecida era de si mesma – abriu os botões do decote, deixou os seios meio à mostra. Os homens de súbito espantados.

– Tápá dopoipidapa.

Está doida, queriam dizer.

E ela a se requebrar que nem sambista do morro. Tirou da bolsa o batom e pintou-se exageradamente. E começou a cantarolar.

Então os homens começaram a rir dela. Achavam graça na doideira de Cidinha. Esta desesperada. E o túnel?

Apareceu o bilheteiro. Viu tudo. Não disse nada. Mas foi ao maquinista e contou. Este disse:

– Vamos dar um jeito, vou entregar ela pra polícia na primeira estação.

E a próxima estação veio.

O maquinista desceu, falou com um soldado por nome José Lindalvo. José Lindalvo não era de brincadeira. Subiu no vagão, viu Cidinha, agarrou-a com brutalidade pelo braço, segurou como pôde as três maletas, e ambos desceram.

Os dois homens às gargalhadas.

Na pequena estação pintada de azul e rosa estava uma jovem com uma maleta. Olhou para Cidinha com desprezo. Subiu no trem e este partiu.

Cidinha não sabia como se explicar ao polícia. A língua do “p” não tinha explicação. Foi levada ao xadrez e lá fichada. Chamaram-na dos piores nomes. E ficou na cela por três dias. Deixavam-na fumar. Fumava como uma louca, tragando, pisando o cigarro no chão de cimento. Tinha uma barata gorda se arrastando no chão.

Afinal deixaram-na partir. Tomou o próximo trem para o Rio. Tinha lavado a cara não era mais prostituta. O que a preocupava era o seguinte: quando os dois homens haviam falado em currá-la, tinha tido vontade de ser currada. Era uma descarada. Epe sopoupu upumapa puputapa. Era o que descobrira. Cabisbaixa.

Chegou ao Rio exausta. Foi para um hotel barato. Viu logo que havia perdido o avião. No aeroporto comprou a passagem.

E andava pelas ruas de Copacabana, desgraçada ela, desgraçada Copacabana.
Pois foi na esquina da rua Figueiredo Magalhães que viu a banca de jornal. E pendurado ali o jornal “O Dia”. Não saberia dizer por que comprou.

Em manchete negra estava escrito: “Moça currada e assassinada no trem”.

Tremeu toda. Acontecera, então. E com a moça que a despreazara.

Pôs-se a chorar na rua. Jogou fora o maldito jornal.

Não queria saber dos detalhes. Pensou:

– Épé. Opo despestipinopo épé impimplaplacápávelpel. O destino é implacável.

Fonte:
LISPECTOR, Clarice. A via crucis do corpo. Ed. Rocco. Disponível em
http://www.beatrix.pro.br/literatura/ linguap.htm

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Cecília Meirelles (Mar Absoluto)

A nossa poetisa Cecília Meirelles apresentava traços fortes e profundos que sua origem genética açoriana não nega. Como dizia Vitorino Nemésio, ao falar do ilhéu, tinha ‘uma universal inquietude’ e uma visão poética influenciada pela raiz cultural e mística, passada pela avó micaelense que a criou. A consciência ancestral e depressiva da fragilidade humana, a fatídica preocupação em demonstrar o mutável, o efêmero da vida. Buscava no mar, de uma forma sublimada, a sua raiz, seu caminho. Neste poema vemos o espírito ilhéu de Cecília
Maria Eduarda Fagundes
Uberaba, 27/05/08
Mar Absoluto

Foi desde sempre o mar,
E multidões passadas me empurravam
como o barco esquecido.

Agora recordo que falavam
da revolta dos ventos,
de linhos, de cordas, de ferros,
de sereias dadas à costa.

E o rosto de meus avós estava caído
pelos mares do Oriente, com seus corais e pérolas,
e pelos mares do Norte, duros de gelo.

Então, é comigo que falam,
sou eu que devo ir.
Porque não há ninguém,
tão decidido a amar e a obedecer a seus mortos.

E tenho de procurar meus tios remotos afogados.
Tenho de levar-lhes redes de rezas,
campos convertidos em velas,
barcas sobrenaturais
com peixes mensageiros
e cantos náuticos.

E fico tonta.
acordada de repente nas praias tumultuosas.
E apressam-me, e não me deixam sequer mirar a rosa-dos-ventos.
‘Para adiante! Pelo mar largo!
Livrando o corpo da lição da areia!
Ao mar! – Disciplina humana para a empresa da vida!’
Meu sangue entende-se com essas vozes poderosas.
A solidez da terra, monótona,
parece-mos fraca ilusão.
Queremos a ilusão grande do mar,
multiplicada em suas malhas de perigo.

Queremos a sua solidão robusta,
uma solidão para todos os lados,
uma ausência humana que se opõe ao mesquinho formigar do mundo,
e faz o tempo inteiriço, livre das lutas de cada dia.

O alento heróico do mar tem seu pólo secreto,
que os homens sentem, seduzidos e medrosos.

O mar é só mar, desprovido de apegos,
matando-se e recuperando-se,
correndo como um touro azul por sua própria sombra,
e arremetendo com bravura contra ninguém,
e sendo depois a pura sombra de si mesmo,
por si mesmo vencido. É o seu grande exercício.

Não precisa do destino fixo da terra,
ele que, ao mesmo tempo,
é o dançarino e a sua dança.

Tem um reino de metamorfose, para experiência:
seu corpo é o seu próprio jogo,
e sua eternidade lúdica
não apenas gratuita: mas perfeita.

Baralha seus altos contrastes:
cavalo, épico, anêmona suave,
entrega-se todos, despreza ritmo
jardins, estrelas, caudas, antenas, olhos, mas é desfolhado, cego, nu, dono apenas de si,
da sua terminante grandeza despojada.

Não se esquece que é água, ao desdobrar suas visões:
água de todas as possibilidades,
mas sem fraqueza nenhuma.

E assim como água fala-me.
Atira-me búzios, como lembranças de sua voz,
e estrelas eriçadas, como convite ao meu destino.

Não me chama para que siga por cima dele,
nem por dentro de si:
mas para que me converta nele mesmo. É o seu máximo dom.
Não me quer arrastar como meus tios outrora,
nem lentamente conduzida.
como meus avós, de serenos olhos certeiros.

Aceita-me apenas convertida em sua natureza:
plástica, fluida, disponível,
igual a ele, em constante solilóquio,
sem exigências de princípio e fim,
desprendida de terra e céu.

E eu, que viera cautelosa,
por procurar gente passada,
suspeito que me enganei,
que há outras ordens, que não foram ouvidas;
que uma outra boca falava: não somente a de antigos mortos,
e o mar a que me mandam não é apenas este mar.

Não é apenas este mar que reboa nas minhas vidraças,
mas outro, que se parece com ele
como se parecem os vultos dos sonhos dormidos.
E entre água e estrela estudo a solidão.

E recordo minha herança de cordas e âncoras,
e encontro tudo sobre-humano.
E este mar visível levanta para mim
uma face espantosa.

E retrai-se, ao dizer-me o que preciso.
E é logo uma pequena concha fervilhante,
nódoa líquida e instável,
célula azul sumindo-se
no reino de um outro mar:
ah! do Mar Absoluto.

http://www.tvcultura.com.br (desenho)

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Conferência ‘Oswald de Andrade: poesia, alegria, antropofagia’

Neste sábado, 31 de maio, às 16 horas, a pesquisadora e escritora Míriam Cris Carlos realiza a conferência ‘Oswald de Andrade: poesia, alegria, antropofagia’. Na ocasião, Míriam será apresentada à Academia Sorocabana de Letras pela Professora doutora Maria Virgília Frota Guariglia, que irá falar a respeito da trajetória da pesquisadora, Míriam Cris Carlos, que assume a cadeira Oswald de Andrade.

Segundo Míriam, a criação da cadeira Oswald de Andrade representa o reconhecimento, pela Academia Sorocabana de Letras, e a valorização da contribuição realizada na literatura e na cultura brasileira pelos modernistas, em especial por Oswald. Essa tendência já foi iniciada com a criação da cadeira Mário de Andrade, assumida pela pesquisadora Cleide Riva Campelo. Há ainda a intenção de fortalecer a Academia como um espaço de pesquisa, troca e construção do conhecimento nos estudos da literatura brasileira.

Oswald de Andrade, segundo Míriam Cris Carlos, exerceu um papel fundamental na construção da proposta modernista. Além de um poeta atemporal, de extrema sensibilidade, escreveu para teatro, foi jornalista e ensaísta. Seus manifestos e ensaios descrevem uma teoria da cultura brasileira, visionária, pois que já apontava para preocupações que hoje são atualíssimas, como as defendidas pelos Estudos Culturais das décadas de 80 e 90. O trânsito entre as culturas, a diluição entre o conceito de popular, erudito e massivo, a intersemiose / intertextualidade são aspectos amplamente trabalhados pela obra oswaldiana e que hoje estão no centro das discussões sobre literatura e comunicação.

Criar uma cadeira Oswald de Andrade, por parte da Academia Sorocabana de Letras, significa uma feliz ousadia. Oswald brigou contra todas as instituições, mas sempre quis o reconhecimento de sua contribuição: ‘a sociedade ainda vai comer do biscoito fino que fabrico’, afirmava. Com a criação de mais um espaço para a discussão da obra oswaldiana, indissociável de sua vida, a Academia promove um arejamento saudável, a retomada de uma utopia que prevê a alegria, a poesia e a ética como formas de intervenção social, como modo de percepção e ação crítica na cultura em que estamos inseridos.

Míriam Cris Carlos é doutora em Comunicação e Semiótica pela PUCSP, apresentadora do Provocare TV (exibido pela TV COM, canal 7 da NET). É professora universitária e pesquisadora do Mestrado em Comunicação e Cultura da Universidade de Sorocaba. Recentemente publicou ‘Arteiras Sorocabanas’ e ‘Comunicação e Cultura Antropofágias’, pelas editoras Sulina / Eduniso, estudo sobre a obra de Oswald de Andrade.

A conferência acontece no Transamérica Flats, situado à Avenida Professora Izoraida Marques Peres, 193, em Sorocaba

Fonte:
Douglas Lara. Disponível em http://www.sorocaba.com.br/acontece

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Paraná em Luto

Caríssimos amigos, poetas, trovadores!

Em nome da diretoria da UBT- Estadual do Paraná, vimos comunicar, consternados, a morte repentina do grande poeta, trovador, sonetista e escritor CECIM CALIXTO, hoje, em Tomazina-Paraná, onde será sepultado.
Ainda inconformados e sob o impacto desta triste notícia, lamentamos profundamente a perda deste expressivo e respeitável talento poético-cultural, delegado municipal da UBT de Tomazina, membro do Centro de Letras do Paraná e da Academia Paranaense da Poesia, entre outras representatividades.

Figura exemplar, deixa-nos importantes referências poéticas, no âmbito nacional, por sua inteligência, criatividade e rara inspiração.

Infelizmente, não deu tempo de publicar o seu mais novo livro de sonetos que escreveu, recentemente, e deixou pronto para publicação.

Segundo o saudoso Túlio Vargas, Cecim nasceu poeta! Era um apaixonado pela vida, pela família e a natureza, um romântico em essência, cujas figuras de retórica o aproximavam também do simbolismo.

Na impossibilidade de acompanharmos nosso querido poeta Cecim à sua eterna morada, devido a distância de viagem que nos separa, rogamos a Deus que lhe conceda suas bênçãos e o mantenha sob Sua eterna glória!

Paraná, a passarela,
das riquezas do Brasil.
Estado que a estrutura
valoriza o seu perfil.
Cecim Calixto-Tomazina/PR
==================
Nunca morre o trovador,
se afasta fisicamente…
Sobrevive trova e autor,
no dia-a-dia da gente!
Vânia Maria Souza Ennes

==================

Apresentamos nossos sentimentos e nossa solidariedade à sua querida esposa Gilda extensivos aos filhos e netos!

Vânia Maria Souza Ennes
Presidente Estadual do Paraná

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Cecim Calixto (1926 – 2008)

Cecim Calixto nasceu em Pinhalão, Paraná, a 28 de julho de 1926, onde fez seus primeiros estudos, transferindo-se aos treze anos para Curitiba, a cidade sorriso. Trabalhando e estudando, diplomou-se em contabilidade na Faculdade de Ciências Econômicas De Plácido e Silva. Já formado em contabilidade adotou a cidade de Tomazina, PR, onde começou a exercer sua profissão. Tornou-se bancário e passou boa parte de sua vida às voltas com orçamentos, balanços contábeis, planilhas de custos, planos de aplicação financeira desbravando várias regiões do Norte Novo do Paraná, trabalhando no banco Bamerindus.

Fora da vida prosaica sua alma de poeta nunca deixou de escrever poesia, especialmente nas horas de folga, exercitando com maestria a poesia clássica. Tornou-se um magnífico sonetista, premiado em vários concursos literários de São Paulo, Rio Grande do Sul e Paraná, entre outros. Publicou em 1951 seu primeiro livro com o título de “NINFAS”, cuja segunda edição saiu em 1967.

Em 1997 com 99 sonetos publicou “EMOÇÕES” pela editora Editek & Cia Ltda ME, no qual demonstra toda inspiração que um poeta precisa ter para compor, criar e arrebatar corações sensíveis que amam o belo. No soneto OBSESSÃO, diz: “A fé perfeita que a meu ser importa/ dá-me mais força para abrir a porta/ e entrar no reino que o amor produz. Desprezo os pomos do pomar alheio/ pois, na verdade, o meu maior anseio/ é pelos frutos divinais da luz”. Ou ainda nestes dois tercetos do soneto ORATÓRIO: “A liberdade que me inspira tanto/ dá-me o conforto que jamais me falta/ enquanto a sós e a caminhar medito. Na solidão em que sozinho canto/ minha oração que dispensou voz alta/ possui mais força que estrondoso grito”.

Assim, Cecim Calixto consagrou-se como um dos melhores e maiores poetas de nosso tempo no Paraná e no Brasil, ao lado de nomes como Apolo Taborda França, Emílio Sounis, Harley Clóvis Stocchero, José Wanderlei Resende, Leonardo Henke, Moacir Antonio Bordignon, Oldemar Justus, Orlando Woczikosky, Paulo Leminski e Vasco José Taborda.

Os versos do poeta paranaense agradam aos ouvidos do mais exigente leitor, porque são escritos com musicalidade, espontaneidade, inspiração e em português escorreito. O livro “A VOZ DO AMOR” veio à luz da publicidade em 2000 pela Juruá Editora, de Curitiba, onde o poeta mais uma vez esbanja o seu perfeccionismo, com outro conjunto de 99 sonetos impecáveis. Estudioso, aprimorou sua técnica e após sua aposentadoria, pôde então dedicar-se à Literatura, como sempre desejou.

Com razão o poeta quando escreve em seu soneto A VOZ DO AMOR, que abre o livro com este mesmo título:
“Esfrio a guerra congelando mágoas
aqueço as almas como esfrio as águas
em mutações que a própria mente enseja.
Abro caminho aos vegetais floridos
e encho de vida os corações feridos
porque sou tudo que o mortal deseja”.

Conquistou o 2º lugar no 14º Concurso Nacional de Poesia, Categoria Especial Paraná, promovido pela Secretaria de Estado da Cultura, Governo do Paraná, em 2003, com o soneto O Rival:

Você de novo colibri teimoso,
roubando a seiva da singela rosa!
Morro de inveja do rival airoso
que suga o mel da minha flor mimosa.

A minha rosa tem o olor gostoso
que até perturba a vizinhança prosa.
E sem modéstia o menestrel brioso,
todo orgulhoso, sempre a fez ditosa.

Cedo levanto e para a rosa eu canto
e com carinho vou secar o pranto
da noite fria, que seu bojo aninha.

Mas… meu rival, de novo mais ligeiro,
logrou a mim e a bajulou primeiro,
sugando a gota que era toda minha”.

Pertenceu ao Centro de Letras do Paraná, Academia Paranaense de Poesia, UBT-PR, Academia de Letras “José de Alencar” e Círculo de Estudos Bandeirantes. Além dos livros já publicados, como “NINFAS”, 1951 e 1967 – 2ª edição, “EMOÇÕES”, 1997 e “A VOZ DO AMOR”, 2000, o vate de Pinhalão, Paraná, tinha pronto para publicação novo livro de sonetos, sem título ainda e o seu primeiro livro de trovas, “TROVAS & SONHOS”. Participou também da Antologia SETE POETAS, ao lado de grandes nomes da poesia paranaense. É verbete da ENCICLOPÉDIA DE LITERATURA BRASILEIRA, de Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa, edição do MEC, 1990, com revisão de Graça Coutinho e Rita Moutinho Botelho, edição revista e atualizada em 2001.

Opiniões sobre o trabalho excepcional do intelectual Cecim Calixto:
Quem tiver oportunidade de ler seus sonetos verificará, desde logo, o poeta rico de emoções e sentimentos, que sabe cantar a dor, a paixão e a nostalgia, com rara elegância e distinção”. (Paschoal A. Pítsica – Presidente da Academia Catarinense de Letras).
Sonetos de Mestre que demonstram sua naturalidade de poeta”, diz Eno Theodoro Wanke, Poeta/RJ.
Emoções são, de fato, uma constante na vida do poeta e sua sensibilidade o induz a criar e viver um mundo onírico de Beleza e Paz”. (Horácio Ferreira Portella – Centro de Letras do Paraná).

Segundo Sérgio Reis (Profissional de Marketing), Cecim Calixto poeta paranaense. Artista que domina a arte dos sonetos. Uma linguagem poética das mais difíceis. “O soneto é o traje a rigor do pensamento”, já dizia Paulo Bonfim, poeta paulista. Os sonetos no talento de Cecim Calixto brotam naturalmente. São como a nascente de águas que nascem nas montanhas e vêm descendo morro abaixo, criando sons únicos, ritmos, métricas, linguagem que encanta e penetra o coração do ouvinte com simplicidade e prazer.
E canta a vida, o amor, canta Deus, a fé, a família, a natureza, canta a experiência humana.
Falar de Cecim Calixto me lembra aos 25 anos que juntos vivemos no Bamerindus.
Ele já estava lá 20 anos antes. E ajudou a fazer a maior empresa paranaense até o século XX. Cecim foi um dos inúmeros pioneiros chamados por Avelino Vieira ao início do Banco, que teve sua origem em Tomazina, com sua antiga praça, com seus bancos amigáveis junto ao rio das Cinzas que Cecim costuma decantar em seus versos.
Sou testemunha do que estes homens simples e maravilhosos fizeram, escrevendo a história, armados apenas pela fé, pelo trabalho intenso, pelo conhecimento, pela honradez e pela vontade suprema de servir, ajudaram a construir um novo Paraná, um novo Brasil entre os anos de 1950 a 1990.

.
“Sinto que o verbo é semelhante ao sino
que ao espargir o agudo tom Divino,
desperta a fé no coração Humano”
Nos ensina o homem e o poeta Cecim Calixto
================
Fontes:
Filemon F. Martins. Cecim Calixto: o poeta do amor. Disponível em http://www.usinadeletras.com.br/
Sérgio Reis. Disponível em http://www.jurua.com.br/

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Entrevista com Cecim Calixto

A Revista virtual “Falando de Trovas e de Trovadores”, tendo por representante o grande trovador Lairton Trovão de Andrade tem o imenso prazer de entrevistar o eminente escritor Cecim Calixto que enriquece, com galhardia, o universo literário paranaense, trazendo à luz preciosos sonetos e trovas, poemas de elevado brilho literário, além de ser um dos expoentes raros da UBT-Paraná, o que muito nos orgulha e nos honra.

Lairton: Prezado Cecim, queira nos dizer onde nasceu e reside?

Cecim: Nasci no dia 17 de julho de 1926, em Pinhalão, conforme consta em todas as minhas publicações; terceiro filho de Abrão Calixto e Izahia Cecim, libaneses que constituíram uma prole de onze filhos.
Resido em Tomazina, onde iniciei a minha vida profissional, recentemente formado em Técnico em Contabilidade, pela faculdade de Ciências Econômicas “Plácido e Silva” de Curitiba.

Lairton: Apesar de ter nascido na vizinha cidade de Pinhalão, por que adotou Tomazina como sua cidade natal?

Cecim: Não tive sucesso profissional em Pinhalão, bem por isto eu com meu irmão mais velho, prático em contabilidade, transferimo-nos para a vizinha cidade de Tomazina. Na época a primeira Comarca da região, com nível social acima das outras. Com circunstâncias favoráveis: Banco comercial, algumas indústrias, Coletoria Estadual e Federal, sede de Juiz de Direito e Promotor Público. A prefeitura local administrava as vizinhas cidades de Pinhalão, Jaboti e japira. Na época, Tomazina registrava um volume de 28 mil habitantes (hoje com nada mais que 10 mil). Atualmente, outras cidades da região têm a primazia do desenvolvimento, como Ibaiti, Siqueira Campos, Wenceslau Braz etc.. Mesmo assim, perdurou nossa querência por Tomazina, por fatos de natureza fraterna. Nesta cidade, conheci minha atual esposa, criatura única e divina, a razão da minha vida e a minha eterna inspiradora – companheira inseparável que me deu, ainda nesta cidade, três filhos maravilhosos nascidos na terra da amada mãe.
Nunca deixei de amar e de criar especial afeto pela terra que me viu nascer, onde meus pais viveram por cinqüenta anos. Inesquecível minha infância em Pinhalão, onde fiz o curso no Grupo Escolar, andei descalço, nadei pelado na abençoada água desse ribeirão. Andei de calças curtas e de suspensórios feitos por minha mãe. E aí também conheci e gozei as alegrias do primeiro amor na puberdade.

Lairton: Fale-nos algo mais sobre a cidade de Tomazina.

Cecim: Necessário dizer que toda a beleza de Tomazina foi engenhosamente criação exclusiva da providência de Deus. É a beleza natural e deslumbrante.
Aqui me casei, aqui construí meu primeiro lar. Aqui tive a felicidade de conhecer o maior banqueiro deste país: Avelino A. Vieira, um idealista que fundou um pequeno Banco que se tornou o terceiro do Brasil, e que o deixou aos herdeiros com 1.340 agências espalhadas pelo território nacional. O mundo inteiro ouviu falar o nome desse humilde tomazinense e também o nome de sua cidade natal.

Lairton: Hoje, você curte a vida na turística cidade de Tomazina. Entretanto, por muitos anos, residiu em Curitiba, capital do Estado do Paraná. O que o levou a viver tanto tempo naquela Metrópole?

Cecim: Não vivi tanto na Capital. A minha vida foi reservada ao pioneirismo em Norte Novíssimo do Paraná. Ocupei a gerência do primeiro departamento bancário naquela região. Agi e administrei várias agências. Abri incontáveis departamentos nas cidades daquela região, muitas recentemente fundadas e invadidas por plantadores de café. Ocupei e administrei a maior região produtora de café do Brasil. Todos obtiveram espetaculares sucessos. Pelo êxito obtido, fui promovido a Diretor Regional. Em seguida, Diretor de um novo banco adquirido pelo Bamerindus. Atuei no setor de Crédito Imobiliário, no de Turismo e em muitos ligados à alta Direção do Banco.

Lairton: Como foi o início da sua vida no mundo fantástico das musas?

Cecim: Eu nasci poeta. Sempre vi a beleza de forma especial. Tudo da criação do Onipotente me deslumbrava. Minha aposentadoria e a minha maturidade fizeram-me voltar todo meu potencial de criação para as harmoniosas e divinas letras poéticas. Gostava de ler e, com tempo disponível, apenas lia e escrevia. Sempre tive às mãos um livro de poesia. Adorava os sonetistas e foi por aí que eu resolvi adotar a forma mais difícil na literatura poética: Sonetos.
Meu primeiro livro veio à luz nas vésperas do meu casamento. Recebi elogios e conselhos benéficos. No período bancário, nada publiquei, mas não deixei de rabiscar e guardar belos pensamentos. Aposentado, voltei à lide dos livros de poesias. Publiquei EMOÇÕES – A VOZ DO AMOR – LAMPEJOS – SETE POETAS (Antologia) e, por último, TENDA DE ESTRELAS, todos com noventa e nove sonetos. Meu último livro ultrapassou as minhas expectativa. Verdadeiro sucesso. Tenho ainda, na gaveta, para serem publicados, o livro de sonetos ecológicos e também o de trovas – Quadras e Sonhos.

Lairton: O primeiro livro marca sempre o início de possível caminhada no fantástico mundo da Literatura. Que lembrança incentivadora conserva sobre “Ninfas”, seu primeiro livro publicado?

Cecim: Foi maravilhoso ter em mãos o meu primeiro livro. Publiquei-o sem conhecer a técnica engenhosa da poesia. Recebi muitos elogios, conselhos e ensinamentos.

Lairton: Que importância tem a trova no contexto da Literatura Portuguesa?

Cecim: A trova é e será sempre sublime. Definitivamente vencedora. O resumo e a sua sensibilidade impressiona o mais insensível coração. No contexto da literatura, a trova ultrapassou as barreiras da predileção, levando em conta as características de pureza, inspiração e seu predicado maior: simplicidade.

Lairton: A UBT – União Brasileira de Trovadores – é o abrigo natural dos trovadores. Como ingressou na UBT ?

Cecim: O aroma exalado da casa dos trovadores inebria todo o poeta que ousar adentrá-la, mesmo por simples curiosidade. Assim aconteceu comigo.

Lairton. Que avaliação faz da UBT-Paraná?

Cecim: É a mais atuante do Brasil. A Presidente Vânia Ennes a elevou aos píncaros da sublimidade. Sou fã incondicional do seu eminente trabalho e capacidade de compor.

Lairton: Cecim Calixto foi sempre de incrível responsabilidade em tudo. Diante disso, que instituições literárias têm-no como membro atuante?

Cecim: CENTRO DE LETRAS DO PARANÁ, ACADEMIA PARANAENSE DA POESIA, UNIÃO BRASILEIRA DE TROVADORES, CENTRO DE ESTUDOS BANDEIRANTES.

Lairton: Do movimento trovista do Brasil, sobretudo da UBT – o que mais lhe agrada?

Cecim: Agrada-me o entusiasmo marcante dos trovadores do Paraná, mormente os residentes no interior: Dedicados, operantes, inspirados e, sobretudo, amistosos.

Lairton: O poeta não é dono de si mesmo. De quando em quando, sente necessidade de manifestar suas inspirações. Por isso, que projeto literário tem para o futuro?

Cecim: Muitos. Alguns surgirão brevemente.

Lairton: Neste número, a revista virtual “Falando de Trovas e de Trovadores” presta homenagens ao grande escritor pinhalonense, Elias Domingos. Você o conheceu muito bem. Fale-nos algo sobre Elias Domingos.

Cecim: Graças a Deus, Pinhalão se lembrou do seu filho mais ilustre. Notável professor da língua portuguesa. Autoditada por excelência. Perfeito conhecedor do idioma pátrio. Poucos escritores conheci com o potencial lingüístico de ELIAS DOMINGOS (Aliês A. Muchaile Mereb). Não deverá jamais ser olvidado pelos nossos conterrâneos dessa cidade que eu amo, como ele próprio a amava.

Lairton: Cecim Calixto escreveu muito sobre os mais diversos temas. Valeu a pena ter escrito tantos poemas, tantos sonetos, tantas trovas?

Cecim: A resposta a este item revela-se pelos prêmios inumeráveis pendurados nas paredes do meu escritório (minha preciosa TENDA). Em destaque, prêmios:
CONCURSO NACIONAL DE POESIA “HELENA KOLODY” – premiado duas vezes; CÂMARA MUNICIPAL CTBA – “MEDALHA DE MÉRITO FERNANDO AMARO”; ACADEMIA PARANAENSE DA POESIA – CADEIRA Nº11; PREFEITURA DE SÃO JOSÉ DOS PINHAIS – CONCURSO “PINHEIRO DO PARANÁ” – primeiro lugar (soneto); CENTRO DE INFORMÁTICA DEFICIENTES VISUAIS – HONRA AO MÉRITO – inclusão de sonetos em obra editada em braille-Projeto luz e saber; UNIÃO BRASILEIRA DE TROVADORES – NOMEADO DELEGADO EM TOMAZINA; ROTARY CLUBE ALTO DA GLÓRIA – Melhor livro do ano “LAMPEJOS”; BRASIL TELECON- PRÊMIO RECEBIDO REPRESENTADO POR 40.000 CARTÕES TELEFÔNICOS ESPALHADOS POR TODO O BRASIL (trova). Outros que serão enumerados oportunamente.

Lairton: A revista “Falando de Trovas e de Trovadores” é editada, através do Portal CEN – Cá Estamos Nós – uma extraordinária ponte literária entre Portugal e o Brasil, cujo presidente é o escritor Carlos Leite Ribeiro. Gostaria de conhecer melhor o Portal CEN? Para tanto, forneça-nos seu endereço eletrônico (e-mail).

Cecim: Gostaria muito de conhecer e manter contato com autores portugueses. Parabéns aos mantenedores dessa inteligente revista “FALANDO DE TROVAS E DE TROVADORES DO PORTAL CEN – CÁ ESTAMOS NÓS”. Um cordial abraço ao confrade e delegado da UBT de Pinhalão.
E-mail – cecim@ifinit.com.br

Lairton: Agradecemos a atenção que nos deu nesta entrevista e solicitamos algumas trovas de sua autoria. Um grande e fraterno abraço.

Cecim:

Se me tens em teu regaço,
no descanso desta lida,
invalidas meu cansaço
e os fracassos desta vida.

Sei agora onde é a nascente
da almejada inspiração.
Nasce e chega de repente
dos filões do coração.

No horizonte da fazenda,
quando a lua apareceu
todo o céu se fez em renda
e cobriu o colo teu.

Nunca vi tanta beleza
estampada num só rosto.
Quem o vê tem a certeza
ser de Deus tamanho gosto.

A tudo que hoje acontece
vale o ditado que aplico:
de fome o pobre padece
e o rico fica mais rico.

Fonte:
http://www.caestamosnos.org/

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Hergé (As Aventuras de Tintim)

As Aventuras de Tintim (Les aventures de Tintin, em francês) é o título de uma série de histórias em quadrinhos (banda desenhada, em Portugal) criada pelo autor belga Georges Prosper Remi, mais conhecido como Hergé. Localizadas em um mundo meticulosamente examinado que muito tem em comum com o nosso, As Aventuras de Tintim apresentam vários personagens em cenários distintos. As séries foram as favoritas dos leitores e também dos críticos por mais de 70 anos.

O herói das séries é o personagem epônimo Tintim, um jovem repórter e viajante belga. Ele é auxiliado em suas aventuras desde o começo por seu fiel cão Milu (Milou, em francês). Os dois apareceram pela primeira vez em 10 de janeiro de 1929, no Le Petit Vingtième, um suplemento do jornal Le Vingtième Siècle destinado aos jovens. Mais tarde, o elenco foi expandido com a adição do Capitão Haddock e outros personagens pitorescos.

Esta série de sucesso era publicada em semanários e, ao término de cada história, os quadrinhos eram reunidos em livros (23 no total, em 2008). Ela ganhou uma revista própria de grande tiragem (Le Journal de Tintin) e foi adaptada para versões animadas, para o teatro e para o cinema. As séries são uma das histórias em quadrinhos européias mais populares do século XX, sendo traduzidas para mais de 50 línguas e tendo mais de 200 milhões de cópias vendidas.

As séries de histórias em quadrinhos são há muito admiradas pelos desenhos claros e expressivos, com o estilo ligne claire, típico de Hergé. O autor emprega enredos bem elaborados de gêneros variados: aventuras Swashbuckler com elementos de fantasia; mistério; espionagem; e ficção científica. As histórias nas séries de Tintim caracterizam-se tradicionalmente pelo humor em cenas de atividade, o que equivale em álbuns posteriores à sofisticada sátira e comentários político-culturais.

Descrição

Tintim é apresentado como um repórter: Hergé usa tal artifício para apresentar o personagem numa série de aventuras ambientadas em períodos contemporâneos àquele em que ele estava trabalhando (mais notavelmente, a insurreição bolchevique na Rússia e na Segunda Guerra Mundial e a alunissagem). Hergé criou também um mundo de Tintim, que conseguiu reduzir a um simples detalhe, mas reconhecível e com representação realista, um efeito que Hergé foi capaz de alcançar com referência a um bem mantido arquivo de imagens.

Apesar de as Aventuras de Tintim serem padronizadas – apresentando um mistério, que é, então, logicamente resolvido – Hergé encheu-as com o seu próprio senso de humor, e criou personagens de apoio que, embora sejam previsíveis, apresentaram-se com um certo encanto que permitiu ao leitor se engajar com eles. Esta fórmula de uma confortável e bem–humorada previsibilidade é semelhante a da apresentação do elenco na tira Peanuts ou em Three Stooges Hergé também teve um grande entendimento da mecânica dos quadrinhos, especialmente de seu andamento, uma habilidade demonstrada em As Jóias de Castafiore, um trabalho que pretende ser envolvido com a tensão de que nada realmente acontece.

Hergé inicialmente improvisou na criação das aventuras de Tintim, exceto como Tintim iria escapar de qualquer situação que aparecia. Somente após a conclusão de Os Charutos do Faraó, Hergé foi incentivado a reformular e a planejar suas histórias. O impulso veio de Zhang Chongren, um estudante chinês que, sabendo que Hergé iria mandar Tintim à China na sua próxima aventura, instou–o a evitar que perpetuassem a visão que europeus tinham da China no momento. Hergé e Zhang trabalharam juntos na série seguinte, O Lótus Azul, que foi citado pelos críticos como a primeira obra-prima de Hergé.

Outras alterações à mecânica de Hergè criar as tiras se deram a partir de influências por parte de acontecimentos externos. A Segunda Guerra Mundial e a invasão da Bélgica pelos exércitos de Hitler determinaram o encerramento do jornal no qual Tintim era republicado. Os trabalhos foram interrompidos em Tintim no País do Ouro Negro, e os já publicados Tintim na América e A Ilha Negra foram proibidas pela censura nazista, que não concordou com sua apresentação da América e da Grã-Bretanha. No entanto, Hergé foi capaz de continuar com As Aventuras Tintim, publicando quatro livros e relançando mais duas aventuras no Le Soir, jornal licenciado pelos alemães.

Durante e após a ocupação alemã, Hergé foi acusado de ser um colaborador, por causa do controle nazista do jornal, sendo detido brevemente após a guerra. Alegou que estava simplesmente realizando um trabalho sob a ocupação, como um canalizador ou carpinteiro. Sua obra desse período, ao contrário do seu trabalho anterior e posterior, é politicamente neutra e resultou nas aventuras histórias clássicas, como O Segredo do Licorne e O Tesouro de Rackham o Terrível, mas a apocalíptica A Estrela Misteriosa reflete o sentimento de Hergé durante esse período político incerto.

A escassez do papel no pós-guerra exigiu mudanças no formato dos livros. Hergé geralmente desenvolvia suas histórias de forma que o tamanho fosse adequado à história, mas agora com o papel de dimensão reduzida, os editores Casterman pediram a Hergé para ele considerar a utilização de menores dimensões e adotar um tamanho estipulado de 62 páginas. Hergé continuou e aumentou sua equipe (os dez primeiros livros foram feitos por ele e sua esposa), surgindo assim os Studios Hergé.

A adoção de cor permitiu que Hergé expandisse o alcance das suas obras. Sua utilização da cor era mais avançada do que a dos quadrinhos norte-americanos da época, com valores que permitiam uma melhor combinação das quatro impressões tons e, conseqüentemente[carece de fontes?], uma abordagem cinematográfica em relação à iluminação e sombreamento. Hergé e seu estúdio permitiriam que as imagens enchessem meia página ou, mais simplesmente, mostrassem detalhadamente e acentuassem a cena, usando cores para realçar pontos importantes. Hergé cita este fato, declarando que “Considero minhas histórias como se fossem filmes. Sem narração, sem descrições, a ênfase é dada às imagens.” A vida pessoal de Hergé também afetou a série, com Tintim no Tibete sendo fortemente influenciada pelo seu colapso nervoso. Seus pesadelos, descritos por ele como sendo “todos em branco”, se refletem em paisagens cheias de neve. O enredo tem Tintim patinando em busca de Tchang Chong-Chen, previamente encontrado em O Lótus Azul, e a peça não tem vilões e uma pequena lição de moral, com Hergé até se recusando a se referir ao Homem das Neves do Himalaia como “abominável”.

A conclusão das aventuras de Tintim ficou incompleta. Hergé morreu em 3 de março de 1983 e deixou a 24ª aventura, Tintim e a Alph-Art, inacabada. O enredo viu Tintim embrenhar-se no mundo da arte moderna, e a história é interrompida no momento em que Tintim está aparentemente prestes a ser assassinado para ser transformado em uma estátua de acrílico a ser vendida.

Álbuns originais de Hergé

Tintin au pays des Soviets (Tintim no País dos Sovietes) 1930
Tintin au Congo (Tintim na África ou Tintim no Congo) 1931
Tintin en Amérique (Tintim na América) 1932
Les cigares du pharaon (Os Charutos do Faraó) 1934
Le lotus bleu (O Lótus Azul) 1936
L’oreille cassée (O Ídolo Roubado ou A Orelha Quebrada) 1937
L’île noire (A Ilha Negra) 1938
Le sceptre d’Ottokar (O Ceptro de Ottokar ou O Cetro de Ottokar) 1939
Le crabe aux pinces d’or (O Caranguejo das Tenazes de Ouro ou O Caranguejo das Pinças de Ouro) 1941
L’étoile mysterieuse (A Estrela Misteriosa) 1942
Le secret de la Licorne (O Segredo do Unicórnio) 1943
Le trésor de Rackham le Rouge (O Tesouro de Rackham o Terrível) 1944
Les sept boules de cristal (As Sete Bolas de Cristal) 1948
Le temple du soleil (O Templo do Sol) 1949
Tintin au pays de l’or noir (Tintim no País do Ouro Negro) 1950
Objectif Lune (Rumo à Lua ou Objectivo Lua) 1953
On a marché sur la Lune (Explorando a Lua ou Pisando a Lua) 1954
L’affaire Tournesol (O Caso Girassol) 1956
Coke en stock (Perdidos no Mar ou Carvão no Porão) 1958
Tintin au Tibet (Tintim no Tibete) 1960
Les bijoux de la Castafiore (As Jóias de Castafiore) 1963
Vol 714 pour Sydney (Vôo 714 para Sydney) 1968
Tintin et les picaros (Tintim e os Tímpanos ou Tintim e os Pícaros) 1976
Tintin et l’Alph-Art (Tintim e a Alph-Art) 1986, reeditado em 2004 (incompleto)

Projetos inacabados e jamais editados
La piste indienne (1958) Projeto inacabado no qual Hergé desejava tratar da problemática dos ameríndios com mais seriedade do que em Tintim na América.
Nestor et la justice (1958) Projeto de aventura na qual Nestor é acusado de morte.
Les pilules (1960) Com pouca inspiração, Hergé pede para Greg lhe escrever um roteiro. Este foi abandonado, pois Hergé decidira ter a liberdade de criar sozinho suas histórias.
Tintin et le Thermozéro (1960) Continuação, novamente com Greg, do projeto Pilules, retomando a trama deste último. Igualmente abandonado pelas mesmas razões. Um pouco menos de dez pranchas esboçadas foram desenhadas.

Entre 1967 e 1975 (à época do coquetel de apresentação de Vôo 714 para Sidnei em Paris)
Jacques Bergier propõe a Hergé voltar à ativa . “Aprenderia-se um dia que Girassol substituiu Einstein na Universidade de Princeton, e que lá daria uma aula de semiologia, a ciência da ciência, a ciência da expressão. Eu apresentaria o professor Girassol homenageando-lhe, e este poderia ser o ponto de partida para novas aventuras na descoberta da ciência absoluta.”

Un jour d’hiver, dans un aéroport (1976 – 1980 — data exata desconhecida) Projeto de aventura que se desenrolaria unicamente em um aeroporto, freqüentado por vários personagens pitorescos. Abandonado em proveito de Tintim e a Alph-Art.

Álbuns adaptados de filmes
Tintim e o Mistério do Tosão de Ouro – (Tintin et le mystère de la Toison d’Or) 1962
Tintim e as Laranjas Azuis – (Tintin et les oranges bleues) 1965
Tintim e o Lago dos Tubarões – (Tintin et le lac aux requins) 1972

Tintim
Tintim é um jovem repórter que se envolve em casos perigosos e realiza ações heróicas para salvar o dia. Quase todas as aventuras retratam Tintim trabalhando, empenhado em suas investigações jornalísticas. Ele é um jovem de atitudes mais ou menos neutras e é menos pitoresco que o elenco secundário.

Milu
Milu é um cão terrier branco, o companheiro quadrúpede de Tintim. Eles regularmente salvam um ao outro de situações perigosas. Milu freqüentemente “fala” com o leitor por meio de seus pensamentos (muitas vezes mostrando um humor um tanto seco), que supostamente não são ouvidos pelos personagens da história.

Como o Capitão Haddock, Milu tem gosto pelo uísque Loch Lomond, e suas ocasionais “bebedeiras” tendem a colocá-lo em problemas, assim como sua intensa aracnofobia. O nome francês “Milou” foi largamente atribuído como uma referência indireta a uma namorada da juventude de Hergé, Marie-Louise Van Cutsem, que tinha o apelido de “Milou”.

Existe outra explicação para as origens dos dois personagens. Foi afirmado que Robert Sexé, um fotógrafo-repórter, cujas proezas eram recordadas na imprensa belga entre a metade e o fim da década de 1920, foi uma inspiração para o personagem Tintim. Sexé tinha notadamente uma aparência similar a de Tintim, e a Fundação Hergé na Bélgica admitiu que não é difícil imaginar como Hergé poderia ter sido influenciado pelas proezas de Sexé. Naquele tempo, Sexé estivera viajando pelo mundo em uma motocicleta feita por Gillet de Herstal. René Milhoux era um campeão do Grand-Prix e detinha o recorde de motocicleta da época, e, em 1928, enquanto Sexé estava em Herstal falando com Leon Gillet sobre seus projetos futuros, o Sr. Gillet o colocou em contato com seu novo campeão, Milhoux, que acabara de deixar motocicletas prontas para Gillet de Herstal. Os dois rapidamente iniciaram uma amizade, e passavam horas falando sobre motocicletas e viagens; Sexé explicando suas dificuldades e Milhoux oferecendo seu conhecimento sobre mecânica e motocicletas pequenas trabalhando acima de seus limites. Graças a essa união de conhecimento e experiência, Sexé partiria em numerosas viagens por todo o mundo, escrevendo incontáveis relatos jornalísticos. O secretário geral da Fundação Hergé na Bélgica admitiu que não é difícil imaginar como o jovem George Rémi, mais conhecido como Hergé, poderia ter sido inspirado pelas bem publicadas proezas desses dois amigos, Sexé com suas viagens e documentários, e Milhoux com seus triunfantes registros, para criar os personagens de Tintim, o famoso repórter viajante, e seu fiel companheiro Milu.

Capitão Archibald Haddock
Capitão Archibald Haddock, um capitão navegador de origem discutível (pode ser de origem inglesa, francesa ou belga), é o melhor amigo de Tintim, e foi introduzido em O Caranguejo das Tenazes de Ouro. Haddock foi inicialmente descrito como um personagem fraco e alcoólatra, tendo mais tarde, porém, se tornado mais respeitável. Ele evoluiu para se tornar genuinamente heróico e até mesmo da alta sociedade, depois de encontrar um tesouro de seu ancestral Sir Francis Haddock (François de Hadoque em francês), no episódio O Tesouro de Rackham o Terrível. A natureza rude do capitão e seu sarcasmo representam uma contradição ao freqüente e improvável heroísmo de Tintim; ele sempre rompe com um comentário seco ou satírico quando o repórter parece demasiado idealista. O Capitão Haddock vive em sua luxuosa mansão chamada Moulinsart.

Haddock usa uma série de pitorescos insultos e maldições para expressar seus sentimentos: “com mil milhões de mil macacos”, “com mil raios e trovões”, “trogloditas”, “cleptomaníaco”, “anacoluto”, “iconoclasta”, mas nada que seja realmente considerado uma grosseria. Haddock é um beberrão, particularmente chegado ao uísque Loch Lomond, e sua embriaguez é freqüentemente usada para propósitos cômicos.

Hergé afirmou que o sobrenome de Haddock deriva-se de um “peixe inglês triste que bebe muito”. Haddock permaneceu sem um nome próprio até a última história completa, Tintim e os Tímpanos (1976), quando o nome Archibald foi sugerido.

Personagens secundários
Os personagens secundários de Hergé já foram mencionados como muito mais desenvolvidos que os principais, cada um imbuído de força de temperamento e personalidade que se comparam aos personagens de Charles Dickens. Hergé usava os personagens secundários para criar um mundo realista onde colocar os protagonistas das aventuras. Para mais realismo e continuidade, os personagens voltariam às séries. Foi conjeturado que a ocupação da Bélgica e as restrições impostas a Hergé forçaram-no a focar-se na caracterização para evitar o surgimento de situações políticas incômodas. A maior parte dos personagens secundários foi desenvolvida nesse período.

Dupond e Dupont
São dois detetives desajeitados que, mesmo não tendo nenhum parentesco, parecem ser gêmeos, tendo uma única diferença física: a forma de seus bigodes. Eles muito contribuem no humor da série, devido às suas antístrofes e incopetência. Os detectives foram, em parte, baseados no pai e no tio de Hergé, gêmeos idênticos.

Trifólio Girassol
O Professor Trifólio Girassol é um cientista quase surdo, que entende e age diante de tudo de maneira equivocada como resultado de sua deficiência auditiva. É um personagem menor mas que aparece regularmente nas aventuras de Tintim. Estreou em O Tesouro de Rackham o Terrível, sendo baseado, parcialmente, em Auguste Piccard.

Bianca Castafiore
Bianca Castafiore é uma cantora de ópera, a quem o capitão Haddock absolutamente despreza. Contudo, ela constantemente aparece de súbito onde quer que eles estivessem, junto com sua criada Irma e o pianista Igor Wagner. Seu nome significa “flor branca e pura”, algo que o Professor Girassol entende quando oferece uma rosa branca à cantora pela qual é secretamente apaixonado em As Jóias de Castafiore. Ela foi baseada nas grandes cantoras de ópera em geral (de acordo com a percepção de Hergé), na tia de Hergé’s, Ninie, e, no pós-guerra, em Maria Callas.

Outros pesonagens secundários: o General Alcazar, um ditador sul-americano; Mohammed Ben Kalish Ezab, um emir, e seu filho Abdallah; Serafim Lampião, um vendedor de seguros; Tchang Chong-Chen, um menino chinês; o Doutor J.W. Müller, um maléfico médico alemão; Nestor, o mordomo; Roberto Rastapopoulos, o responsável pelos crimes; Oliveira da Figueira; o Coronel Sponsz; Piotr Szut; Allan Thompson; além do açougue Sanzot, que é um local recorrente na série.

Críticas
Muito se tem escrito sobre a ideologia da série. A obra é objeto de polêmica, em grande parte graças à contínua reedição das aventuras, que foram concebidas há muitos anos, em um contexto inteiramente diferente. Já se acusou Hergé de propagar em seus álbuns violência, crueldade para com os animais, pontos de vista colonialistas, rascistas e até mesmo fascistas; foi acusado também de suposta misoginia, dado que quase não aparecem mulheres na série. Essas acusações se referem apenas a aspectos pontuais da série, não podendo-se dizer que sejam pontos de vista predominantes da série. Nesse sentido, há uma certa “lenda negra” de Tintim, devido ao fato de Hergé ter publicado algumas histórias em um jornal aprovado por nazistas, o Le Soir, durante a ocupação alemã na Bélgica.

Tintim surgiu no periódico Le Petit Vingtième. Ainda que a Fundação Hergé tenha tomado tais acusações por ingenuidade do autor, e que certos pesquisadores como Harry Thompson afirmem que “Hergé fazia o que lhe dizia o abade Wallez (o diretor do jornal)”, o própio quadrinista sentia que, visto suas origens sociais, não poderia escapar de preconceitos: “Ao conceber Tintim no Congo e Tintim no País dos Sovietes, estava sustentado por preconceitos do meio burguês no qual vivia. (…) Se tivesse de refazê-los, refazer-los-ia de outro modo, certamente.”

Em Tintim no País dos Sovietes, os bolcheviques são descritos como personagens maléficos. Hergé se inspirou num livro de Joseph Douillet, antigo cônsul da Bélgica na Rússia, Moscou sans voile, que era extremamente crítico ao regime soviético. Hergé inseriu isto no contexto afirmando que para a Bélgica da época, uma nação devota e católica, “tudo o que fosse bolchevique era ateu”. No álbum, os chefes bolcheviques são motivados apenas por interesses pessoais, e Tintim descobre, enterrado, “o tesouro escondido de Lênin e Trotsky”. Mais tarde, Hergé assimilou os defeitos desses primeiros álbuns a “um erro de minha mocidade”. Mas hoje, parte de sua maneira de representar a URSS da época pode ser considerada aceitável. Em 1999, o jornal The Economist publicou que “retrospectivamente, a terra da fome e da tirania desenhada por Hergé estavam estranhamente corretas”.

Tintim no Congo foi acusado de representar os africanos como seres ingênuos e primitivos. Na primeira versão do álbum, em preto-e-branco, vemos Tintim diante de uma lousa dando aula a crianças africanas. “Meus caros amigos”, diz ele, “hoje, vou lhes falar de sua pátria: a Bélgica”. Em 1946, Hergé redesenhou o álbum, transformando esta cena numa aula de matemática. “Sobre o Congo, eu conhecia apenas o que contavam na época: ‘os negros são como grandes crianças, sorte deles estarmos lá!’, etc. E desenhei os africanos de acordo com estes critérios, no mais puro espírito paternalista, que era o da época na Bélgica”, explicou-se Hergé.

Em 1988, no jornal britânico Mail on Sunday, Sue Buswell resumiu os problemas evidenciados nesse álbum: “lábios grossos e pilhas de animais mortos”, em referência à maneira como foram desenhados os africanos e aos animais que Tintim caça (atividade muito em voga na época em que o álbum foi feito). Todavia, Harry Thompson nota que tal citação pode ter sido tomada “fora de seu contexto”.

Transpondo uma cena de Les Silences du Colonel Bramble, livro de André Maurois, Hergé apresenta Tintim como um caçador, abatendo quinze antílopes, sendo que apenas um já seria o bastante para se alimentar. O grande número de animais mortos ao longo da história levou o editor dinamarquês dos álbuns Tintim a exigir algumas modificações. Hergé teve de substituir uma cena em que Tintim faz um furo no dorso de um rinoceronte para depositar uma dinamite e explodir o animal.

Em 2007, a Comissão pela Igualdade Racial (Commission for Racial Equality), órgão britânico, exigiu que o álbum fosse retirado das prateleiras de livrarias após uma reclamação, afirmando ser “triste saber que haja ainda hoje livreiros que aceitem vender e divulgar Tintim no Congo”. Em 23 de julho de 2007, um estudante congolês fez uma queixa em Bruxelas, capital da Bélgica, na qual considera a obra um insulto para o seu povo. O caso é investigado, mas o Centro para a Igualdade de Oportunidades e Combate ao Racismo (Centre pour l’égalité des chances et la lutte contre le racisme, instituição belga), advertiu que não se tome uma “atitude hiper-politicamente correcta”.

Vários dos primeiros álbuns de Tintim foram alterados por Hergé em edições subseqüentes, geralmente a pedido das editoras. Em Tintim na América, por exemplo, os traços caricatos dos personagens negros foram redesenhados como sendo brancos ou de etnia indefinida, incitado pelos editores americanos. Em a Estrela Misteriosa, um vilão americano tinha originalmente o sobrenome judeu Blumenstein. Isto era controverso, tanto que o personagem tinha exactamente o aspecto esteriotipado de um judeu. Blumenstein foi alterado para Bohlwinkel, sobrenome menos etnicamente específico. Em edições posteriores, o personagem foi novamente alterado, desta vez para sul-americano, de um país ficcional chamado São Rico. Mais tarde, Hergé descobriria que Bohlwinkel também é um sobrenome judeu.

Outro álbum apontado como racista é Perdidos no Mar (também conhecido como Carvão no Porão), de 1958. Ainda que a história seja uma denúncia da escravidão, na qual Tintim e Haddock defendem claramente os mais fracos, um artigo publicado em 1962 na revista Jeune Afrique criticou duramente a representação dos africanos, especialmente a forma de falarem. Hergé rebateu as críticas e, em 1967, reescreveu alguns diálogos.

A idéia do fascismo da série pode estar relacionda à atitude do autor na época da Segunda Guerra e ao seu vínculo inicial com o abade Norbert Wallez, homem de extrema-direita e anticomunista assumido. Vale notar que os álbuns publicados durante a guerra são histórias nas quais não há nenhuma alusão política.

Álbuns como O Ceptro de Ottokar, de 1939, desmentem a suposta simpatia de Hergé pelo fascismo. Nessa história, há críticas evidentes à política expansionista de Hitler. “Creio que todos os totalitarismos são nefastos, sejam eles de direita ou de esquerda.” disse o autor.

Hergé jamais negou suas idéias conservadoras. Talvez por esse motivo, Tintim seja a favor da ordem estabelecida, o que não o impede de dar atenção aos menos favorecidos, e, em muitas ocasiões, tomar o partido destes. Ao longo de suas viagens, Tintim demonstra um verdadeiro interesse e respeito pelas culturas não-européias, o que se manifesta também na vontade de Hergé pesquisar meticulosamente para a realização dos álbuns.

Adaptações
Hergé era favorável às adaptações da série, feitas para diversas mídias. Ele encorajava sua equipe a participar dos projetos de animação de suas histórias. Após sua morte, os Estúdios Hergé se tornaram responsáveis pelos direitos autorais da obra.

Tintim no cinema
Foram realizados cinco filmes baseados em As Aventuras de Tintim. O primeiro, Le crabe aux pinces d’or de 1947, teve roteiro escrito pelo próprio Hergé baseado no álbum O carangueijo das tenazes de ouro. É um filme de animação com marionetes, e foi dirigido por Claude Misonne. Durante certo tempo a versão em francês foi considerada perdida, restando apenas a versão dublada em inglês. Porém, atualmente, no site oficial, os membros pagantes do clube de Tintim têm acesso a uma cópia do filme em francês.

O segundo filme, Tintin et le mystère de la Toison d’Or (Tintim e o mistério do Tosão de Ouro), de 1961, com cenários e atores reais, foi dirigido por Jean-Jacques Vierne. É considerado pelos fãs como um dos melhores filmes com o personagem.

O terceiro, Tintin et les oranges bleues (Tintim e as laranjas azuis), de 1964, também contou com atores reais, e foi dirigido por Philippe Condroyer. Não teve o mesmo sucesso que o filme que o antecedeu.

O quarto, Tintin et le temple du soleil (Tintim e o templo do sol), de 1971, é um filme de animação dirigido por Eddie Lateste e com roteiro baseado em Les sept boules de cristal e Le temple du soleil.

O quinto e último filme, Tintin et le lac aux requins (Tintim e o lago dos tubarões), de 1972, também um filme de animação, foi dirigido por Raymond Leblanc, e o roteiro não se baseou em nenhuma história original de Hergé.

Filmes previstos: Trilogia Tintim
Steven Spielberg comprou uma opção sobre os direitos autorais de Tintim pouco antes da morte de Hergé, em 1983. Entretanto, naquele momento era incerta uma adaptação de Tintim para o cinema, já que Hergé recusara a assinar qualquer contrato.

Finalmente, em novembro de 2002, a Dreamworks comprou os direitos cinematográficos de toda a série. Em 15 de maio de 2007, Steven Spielberg e Peter Jackson oficializaram a realização de uma trilogia adaptada das histórias, a ser realizada em computação gráfica e motion capture. O diretor do terceiro filme ainda não foi anunciado. De acordo com a revista Variety, a equipe de Jackson já produziu um piloto de vinte minutos como demonstração. Para Spielberg e Jackson, um filme com atores reais não faria jus às histórias em quadrinhos de Tintim.

Projetos inacabados
Em 1967, um terceiro filme com o ator Jean-Pierre Talbot era previsto, mas foi cancelado.

No início dos anos 2000, o projeto de adaptar Tintim para o cinema foi retomado. Vários diretores foram escalados e posteriormente desmentidos, particularmente Jaco Van Dormael, Jean-Pierre Jeunet e Roman Polanski. A maioria dos casos eram apenas rumores, mas Jeunet estava realmente interessado no projeto. Em 2002, em entrevista ao jornal Libération, ele renunciou ao projeto, anunciando: “Por serem muito reservados, os herdeiros de Hergé tornam tudo muito complicado, tive um encontro com eles e compreedi que iriam me quebrar as pernas”.

Televisão
Após uma primeira tentativa em semi-animação não colorida, feita por Jeah Nohain, surgiram:

Les Aventures de Tintin, d’après Hergé, de 1961, série da Belvision dirigida por Ray Goossens;
As Aventuras de Tintim, de 1991, série da Nelvana dirigida por Stéphane Bernasconi.

Teatro
Tintin aux Indes, ou le Mystère du diamant bleu, de 1941, peça escrita por Hergé e Jacques Van Melkebeke, não adaptada de nenhum álbum em particular.

Comédia musical
Kuifje – De Zonnetempel, de 2001, música de Dirk Brossé.

Video games
A Infogrames fez quatro jogos sobre Tintim:
Tintin sur la Lune, de 1987
Tintin au Tibet, de 1994
Tintin : le Temple du Soleil, de 1997
Tintin Objectif Aventure, de 2001

Influências
Na sua juventude, Hergé era um grande admirador de Benjamin Rabier, e esta influência manifestou-se, principalmente, numa série de imagens em Tintim no País dos Sovietes, em particular as imagens dos animais, sugeridas por Hergé. René Vincent, o ilustrador art-deco, também influenciou no início das aventuras de Tintim: “A influência pode ser detectada no início dos soviéticos, onde meus desenhos são projetados ao longo de uma linha decorativa, como um ‘S’…”. Hergé admitiu que havia roubado uma parte do trabalho de George McManus, afirmando que estavam “tão divertidos, que utilizei-os, sem escrúpulos!”.

Durante a pesquisa extensiva que que realizou para escrever O Lótus Azul, Hergé foi influenciado pelos estilos ilustrativos e xilogravura chineses e japoneses. Isso é especialmente notável na paisagem marítima, que é similar ao trabalhos de Katsushika Hokusai e de Hiroshige.

Hergé também afirmou que Mark Twain foi uma influência, embora sua admiração possa tê-lo levado a desviar-se quando representou os incas como não tendo nenhum conhecimento do eclipse vindouro em O Templo do Sol, um erro atribuído por T.F. Mills como uma tentativa para retratar “incas em pavor aos tempos modernos (A Connecticut Yankee in King Arthur’s Court, de Mark Twain)”.

Selos
A imagem de Tintim foi usada em selos postais em numerosas ocasiões, o primeiro emitido pelo Belgian Post em 1979 para celebrar o dia da filatelia. Esta foi a primeira de uma série de selos com as imagens dos quadrinhos de heróis belgas, sendo o primeiro selo do mundo a ter um herói dos quadrinhos.

Em 1999, a Royal Dutch Post lançou dois selos, em 8 de outubro de 1999, baseados na aventura Rumo à Lua, com os selos vendidos totalmente poucas horas após o seu lançamento. Os correios franceses, em seguida, emitiram um selo de Tintim e Milu em 2001. Para marcar o fim do franco belga, e também para comemorar o aniversário da publicação Tintim no Congo, mais dois selos foram emitidos pelo Belgian Post em 31 de dezembro de 2001. Os selos também foram emitidos no Congo, ao mesmo tempo.

Tradução para a língua inglesa
O processo de tradução de Tintim para a língua inglesa foi feito em 1958 por Methuen & Co. Ltd., de Londres. Foi um trabalho conjunto liderado por Leslie Lonsdale-Cooper e Michael Turner, que trabalharam conjuntamente com o autor (Hergé) para traduzir da forma mais fiel possível ao trabalho original. Alguns cartoon foram traduzidos do francês para o inglês com algumas falas “em branco”. Isto foi feito para remover conteúdo considerado impróprio para crianças, como drogas e racismo. Os álbuns editados após foram refeitos por Hergé, a fim de serem mais adequados e, atualmente, aparecem em edições publicadas em todo o mundo. O The Atlantic Monthly Press, em cooperação com a Little, Brown and Company republicaram os álbuns nos anos 70.

Em parte, devido à grande quantidade de expressões locais (especialmente piadas ou passagens cômicas), foi preferida sempre a adaptação e não a tradução literal.

Legado
Tintim e seu criador Hergé inspiraram muitos artistas através da sua obra. A linguagem desenvolvida pelo autor mostrou-se influente e contribuidores do Tintin magazine empregavam seu estilo e, mais recentemente, Jacques Tardi, Yves Chaland, Jason Little, Phil Elliott, Martin Handford, Geoff Darrow e Garen Ewing produziram trabalhos utilizando o estilo do autor.

O legado de Tintim inclui o estabelecimento do mercado de coleções de quadrinhos/cartoons; e o modelo adotado pelas coleções foram também adotadas por criadores e editores na França e Bélgica. O sistema permite uma grande estabilidade financeira, com os criadores recebendo dinheiro enquanto ainda trabalham. O modelo rivaliza com o norte-americano e o inglês do tipo “trabalhe antes e receba depois”. Roger Sabin argumenta que este modelo permite “em teoria… uma melhor qualidade”.

No mundo da arte, tanto Andy Warhol como Roy Lichtenstein afirmam que Hergé é uma das suas maiores influências. Lichtenstein produziu pinturas baseadas em fragmentos dos quadrinhos de Tintim. Warhol utilizou o estilo ligne claire e produziu uma série de pinturas tendo Hergé como tema. Ele declarou: “Hergé tem influenciado meu trabalho da mesma maneira que Walt Disney. Para mim, Hergé foi mais que um artista dos quadrinhos.”

Na música, Tintim foi inspiração para várias bandas e músicos. Uma banda britânica de technopop dos anos 80 assumiu o nome The Thompson Twins influenciada pela obra. Stephen Duffy, integrante da banda Duran Duran, tocou o hit Kiss Me com o nome de “Tintin”; ele teve que retirar o nome por problemas de direitos autorais. Duffy lançou, após, o álbum Designer Beatnik sob o nome de “Doctor Calculus”, em referência ao personagem Professor Calculus. Uma banda psicodélica australiana e uma banda independente norte-americana do estilo progressive rock utilizaram o nome “Tin Tin” inspiradas pelo personagem. O cantor e compositor sul-africano Gert Vlok Nel comparou Tintim à Deus na canção Waarom ek roep na jou vanaand, presumivelmente por causa do caráter do personagem.

Prêmios
Dalai Lama com cópia de Tintim no Tibete em Esperanto.Em 1° de junho de 2006, o Dalai Lama condecorou com o prêmio Luz da Verdade o personagem, juntamente com o arcebispo sul-africano Desmond Tutu. O prêmio foi em reconhecimento ao trabalho de Hergé no livro Tintim no Tibete. Em 2001, a Fundação Hergé exigiu a retirada da tradução chinesa da obra, que havia sido lançada com o título Tintim no Tibete Chinês. O trabalho foi publicado depois com a tradução correta.

Citações
“No fundo, vocês sabem, meu único rival internacional é Tintim”. (Charles de Gaulle)

“Sou eu, eu sob todas as formas! Tintim, sou eu quando gostaria de ser heróico, perfeito; os Dupondt, sou eu quando sou estúpido; Haddock, sou eu quando tenho vontade de me exteriorizar.” (Hergé)

Fonte:
http://pt.wikipedia.org/wiki/As_Aventuras_de_Tintim

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Aventuras de Tintim (Tintim na África – Tintim no Tibete)

Tintin au Congo

Tintin au Congo (Tintim no Congo ou Tintim na África, como editado em português) é um álbum da série de banda desenhada As Aventuras de Tintim, produzida pelo belga Hergé, e lançado em 1931.

Sinopse

Tintim é enviado ao Congo, a grande colônia belga da época. Uma série de peripécias o levam ao reino de Babaoro’m, onde ele torna-se o feiticeiro nomeado. Por um jogo de cincunstâncias, ele se encontra confrontado com um bando de gângsters afiliados a Al Capone, que quer controlar a produção de diamantes. Naturalmente, ele consegue os deter e deixa o país pouco depois.

Análise

Em 1930, o Congo representava um Eldorado para a Bélgica. O Congo, oitenta vezes maior que o país que o colonizava, tinha um subsolo extremamente rico. Nessa época, faltava mão-de-obra. Por conseguinte, Hergé devia fazer uma propaganda deste país.

A história foi publicada de 5 de junho de 1930 a 11 de junho de 1931, no Le Petit Vingtième, suplemento infantil do jornal Le Vingtième Siècle. Foi publicada como álbum em preto-e-branco em 1931, primeiramente pelas Editions du Petit Vingtième, depois republicado pelas Editions Casterman, que tomaram a publicação das Aventuras de Tintim com exclusividade.

Na modificação do álbum em julho de 1946, Hergé redesenha quase toda a aventura. Ele a colore, reduz de 110 páginas à 62 (padrão dos álbuns de Tintim) e altera a ideologia colonialista do álbum. Assim, a lição geográfica e histórica que dava Tintim num determinado trecho do livro, sobre “Vossa pátria, a Bélgica” encontrou-se substituída por uma lição de matemática. Hergé melhora as decorações, corta algumas partes e altera os diálogos para torná-los mais vivos. Os charutos do faraó e Tintim na América também foram redesenhados antes de serem coloridos.

Hergé afirmou mais tarde que para a criação de Tintim no Congo, da mesma maneira que para Tintim no país dos sovietes, ele vivia num meio cheio de preconceitos. De outro modo, a particularidade de Tintin no Congo é que o álbum é cheio de estereótipos da visão do Congo pelos europeus daquela época. Ele afirmou:

“Da mesma maneira quando desenhei Tintim no país dos sovietes, ao desenhar Tintim no Congo estava alimentado de preconceitos do meio burguês no qual vivia… Era 1930. Conhecia deste país apenas o que as pessoas contavam na época: ‘os negros são grandes crianças, felizmente estamos lá!’, etc. E desenhei os africanos de acordo com estes critérios, de puro espírito paternalista, que era o da época na Bélgica”.

Curiosidades
Na versão colorida, Tintim é interrompido por um leopardo enquanto dá uma aula de aritmética. Na versão em preto-e-branco, o quadro-negro é um mapa de geografia, e Tintim diz: “Hoje vamos falar de vossa pátria: a Bélgica”.

Neste álbum, os congoleses têm uma pronúncia errada, enquanto os elefantes conversam entre si corretamente.

Na versão atual colorida do álbum, os Dupondt fazem uma breve aparição no primeiro quadro enquanto estão ausentes da versão em preto-e-branco.

Nesta aventura, Tintim faz um buraco nas costas de um rinoceronte, preenchendo-o com dinamite e explodindo-o. A associação dinamarquesa de defesa dos animais não gostou deste detalhe, e esta passagem foi suprimida da versão dinamarquesa, e o rinoceronte foge depois que Tintim atira acidentalmente uma bala.

No primeiro quadro da página 1, aparecem Hergé, Quim e Felipe (personagens de Hergé), Edgar P. Jacobs e Jacques van Melkebeke (colaboradores de Hergé).

Personagens
• Tintim
• Milu
• Tom
Aparece na página 5. Ele é enviado por Gibbons para suprimir Tintim. Ele é “o vilão” do álbum, mas não consiguirá efetuar sua missão. Ele é devorado por crocodilos na página 48.
• Coco
Aparece na página 11. Ele guia Tintim durante sua aventura e lhe salva a vida.
• O Rei dos Babaoro’m
Aparece na página 21.Pede à Tintin que vá à caça ao leão.
• Muganga
Aparece na página 24. É o feiticeiro de Babaoro’m. Fica com inveja de Tintim. Com Tom, ele tentara se livrar do repórter.
• O Missionário
Aparece na página 34. Ele salva Tintim dos crocodilos.
• Jimmy Mac Duff
Aparece na página 38. É fornecedor de animais para os jardins zoológicos europeus.
• Gibbons
Aparece na página 51. É o patrão de Tom. Recebeu de Al Capone a ordem de matar Tintim.

Tintin au Tibet

Tintim no Tibete (Tintin au Tibet, no original em francês) é um álbum de história em quadrinhos da série As aventuras de Tintim, produzida pelo belga Hergé e lançado em 1960.

Tintim no Tibete é um livro à parte na obra de Hergé: sem dúvida o quadrinho mais pessoal de Hergé e também onde Tintim se mostra mais humano

Em férias numa estação alpina, Tintim lê num jornal que um avião caiu no Nepal. Tintim sonha com Tchang, um grande amigo, pedindo socorro. Logo depois, descobre que naquele avião que se dirigia à Europa se encontrava o jovem chinês Tchang.

Tintim, convencido por seu sonho, parte à procura de Tchang, acompanhado por Haddock.

Na época em que escrevia, Hergé tinha acabado de se divorciar e atravessava um profundo conflito interior. Os sonhos que Hergé tinha na época eram brancos, com imagens angustiantes e recorrentes. Hergé procurou auxílio psicanalítico.

Com muita dificuldade, Hergé terminou a história, aliviado e resolvido em relação aos seus problemas pessoais. O livro foi uma espécie de resposta, uma purificação, uma trajetória direta, linear e sóbria.

A história é a mais simples possível. Os personagens e os cenários são menos numerosos. O branco da neve onipresente domina.

É colocada em evidência a coragem de Tintim na sua obstinação em salvar o amigo Tchang, quando todos acreditavam que ele estava morto. Hergé demonstra sua fascinação pelo oriente e por fenômenos como sonhos premonitórios e levitação.

De qualquer maneira, Hergé manteve o mesmo rigor na pesquisa de elementos da região onde acontece a aventura de Tintim: consultou inúmeras fontes sobre a existência do yéti, o abominável homem das neves.

Ao ser reeditada, a história passou por algumas modificações. Uma cena muito explosiva foi suprimida. Hergé havia recebido uma reclamação da companhia aérea Indian Airways, companhia do acidente aéreo. O nome foi trocado por Sari-Airways.

Fonte:
http://pt.wikipedia.org/

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Programação do III Jogos Florais de Balneário Camboriú- SC-2008

(Sujeita a modificações)

Dia 7 de Novembro 2008- BRUSQUE

Encontro dos Trovadores no Hotel, às12, 00 horas.
Hospedagem para todos os Trovadores classificados e convidados.

TARDE DA TROVA EM BRUSQUE

Saída de Balneário Camboriú: 12,00 horas.

Chegada em Brusque: 13,00 horas

Encontro na FIP (centro comercial), às 13,30 com almoço e um refrigerante para cada um dos trovadores, patrocinado pelo FIP.

Compras até as 17,00 horas, em seguida visita ao VIII Simpósio Internacional de Esculturas (onde os artistas de vários países estarão fazendo as estatuas em mármore), visita ao Santuário de Azambuja e a gruta, uma parada na Praça das Bandeiras, onde fica a Prefeitura. Fórum e Câmara de Vereadores para tirar fotos, e depois seguimos para a ABB (local do café colonial) chegada prevista para este local 19,30 horas, onde o Café Colonial já estará pronto para ser servido, juntamente com o chope. Apresentação do coral do círculo trentino e o canto alemão, e muita música para dançar. (mini fenarreco). Rodada de Trovas.

(Almoço, Café Colonial e Chope, patrocinados por Brusque)

Retorno para Balneário Camboriú, às 23 horas.

Dia 8 de Novembro 2008 –

10 horas- Varal de Trovas no Calçadão.

11 horas-Passeio turístico pela cidade de Balneário Camboriú, no Bomdindinho, a partir do Calçadão com a Av. Atlântida.

12 horas- Almoço –(Por conta de cada um)

14 horas- Unipraias -Teleférico- Praia de Laranjeiras- 50% de desconto na passagem.

20 horas – Solenidade na Faculdade de Balneário Camboriú.

Distribuição dos Livretos.

22 horas-Coquetel

Dia 9 de Novembro 2008 –

11 horas – Missa em trovas.

12 horas – Almoço de despedida no Cristo Luz-

Concurso Relâmpago-Tema: Amizade.

O almoço de Despedida é Patrocínio de Miguel Russowsky

Fonte:
TROVAMAR – União Brasileira de Trovadores – Balneário Camboriú-SC
Ano 4– N. 42 – junho / 2008

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Rápidas

Novo espaço cultural em São Paulo
A All Print Editora, em parceria com a empresa MiLê Eventos Culturais e Assessoria de Divulgação, informa que no final deste mês de maio estará inaugurando um Espaço Cultural localizado na sede da editora, Rua Ibituruna, 550, Metrô Saúde, São Paulo. Um sonho de muitos anos que vem se concretizando: ter um espaço acolhedor e aconchegante, onde os autores poderão apresentar suas obras, fruto de muito trabalho e dedicação, aos seus amigos, familiares, mídia e ao publico amante da leitura.

Feira promove a troca de livros e gibis em parques de São Paulo
[Folha Online] A Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo continua promovendo a Feira de Troca de Livros e Gibis 2008 em parques da capital paulista. As feiras ocorrem sempre aos domingos, das 10h às 16h. Os próximos parque que sediam a feira são o Anhangüera (11) e o Cidade de Toronto (18)
A cada domingo, o evento é realizado em um local diferente. Mais
http://guia.folha.com.br/passeios/ult10050u399175.shtml

Jornalista lança seu primeiro romance
A jornalista Vera Lúcia da Costa Sampaio lança “Enterrando Nossos Mortos”, sua estréia no mercado editorial, publicado pela All Print Editora. Trata-se de um romance baseado em fatos reais, onde o personagem principal é um advogado criminalista oriundo de uma família que, por décadas, trazia sua religiosidade latente. Seus tataravós, bisavós, avós e pais foram evangélicos fervorosos, porém, sua mãe abandonou e se afastou do seio de seus irmãos evangélicos e o personagem seguiu por outros caminhos. Tirou uma assaltante de banco da prisão, apaixonou-se por ela e acabou viciado em drogas aos 40 anos de idade. Já a outra personagem da história não conseguia entender as coincidências que a envolveram com o rapaz e sua família e o motivo da volta dele e de sua família em sua vida depois de quase dois anos de rompimento em seu relacionamento afetivo. A noite de autógrafos ocorre no dia 29/2, sexta-feira, às 19h, na Livraria da Vila, Rua Fradique Coutinho, 915, Vila Madalena, São Paulo, SP.

São Paulo recebe a 20ª Bienal do Livro em agosto
[Globo Online] De 14 a 24 de agosto ocorrerá, no Pavilhão de Exposições do Parque Anhembi, a 20ª edição da Bienal do Livro. Uma das novidades deste ano – quando se celebram 200 anos da indústria gráfica no Brasil e da fundação da Biblioteca Nacional – é a Bienal Criança, para a qual foi reservada uma área de 11 mil metros quadrados dos 80 mil metros que terá a feira. Participarão cerca de 900 selos editoriais do mundo nesta Bienal do Livro, a segunda no gênero no mercado livreiro internacional e que teve 80% de seus estandes vendidos com um ano de antecedência. A previsão é de que 800 mil pessoas visitem o espaço.

Fonte:
http://www.allprinteditora.com.br/

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Apresentação Teatral (Auto da Barca do Inferno – de Gil Vicente)

Auto da Barca do Inferno (Gil Vicente)

Direção: Eloísa Vitz
Assist. Direção: Daniela Rocha

Temporada de 26 de abril a 29 de junho de 2008

Sabados as 21hs e Domingos as 20hs

Teatro Gil Vicente – Av. Rudge, 315 – Campos Elíseos – São Paulo
(paralela ao Viaduto Rio Branco)

Informações pelo Telefone: 3618 – 9014

Ingressos:
Inteira: R$ 30,00 Meia: R$ 15,00

INGRESSOS GRÁTIS PARA ALUNOS E FUNCIONÁRIOS UNIBAN – SALETE

PROMOÇÃO PARA 31/05 e 01/06
50% de Desconto para um Acompanhante

Fonte:
E-mail enviado pela UNIBAN

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Gil Vicente (1465 – 1536)

Gil Vicente é geralmente considerado o primeiro grande dramaturgo português, além de poeta de renome. Há quem o identifique com o ourives, autor da Custódia de Belém, mestre da balança, e com o mestre de Retórica do rei Dom Manuel. Enquanto homem de teatro, parece ter também desempenhado as tarefas de músico, actor e encenador. É frequentemente considerado, de uma forma geral, o pai do teatro português, ou mesmo do teatro ibérico já que também escreveu em castelhano – partilhando a paternidade da dramaturgia espanhola com Juan del Encina.

A obra vicentina é tida como reflexo da mudança dos tempos e da passagem da Idade Média para o Renascimento, fazendo-se o balanço de uma época onde as hierarquias e a ordem social eram regidas por regras inflexíveis, para uma nova sociedade onde se começa a subverter a ordem instituída, ao questioná-la. Foi, o principal representante da literatura renascentista portuguesa, anterior a Camões, incorporando elementos populares na sua escrita que influenciou, por sua vez, a cultura popular portuguesa.

Apesar de se considerar que a data mais provável para o seu nascimento tenha sido em 1466 — hipótese defendida, entre outros, por Queirós Veloso — há ainda quem proponha as datas de 1460 (Braamcamp Freire) ou entre 1470 e 1475 (Brito Rebelo). Se nos basearmos nas informações veiculadas na própria obra do autor, encontraremos contradições. O Velho da Horta, a Floresta de Enganos ou o Auto da Festa, indicam 1452, 1470 e antes de 1467, respectivamente. Desde 1965, quando decorreram festividades oficiais comemorativas do quincentenário do nascimento do dramaturgo, que se aceita 1465 de forma quase unânime.

Frei Pedro de Poiares localizava o seu nascimento em Barcelos, mas as hipóteses de assim ter sido são poucas. Pires de Lima propôs Guimarães para sua terra natal – hipótese essa que estaria de acordo com a identificação do dramaturgo com o ourives, já que a cidade de Guimarães foi durante muito tempo berço privilegiado de joalheiros. O povo de Guimarães orgulha-se desta hipótese, como se pode verificar, por exemplo, na designação dada a uma das escolas do Concelho (em Urgeses), que homenageia o autor.

Lisboa é também muitas vezes defendida como o local certo. Outros, porém, indicam as Beiras para local de nascimento – de facto, verificam-se várias referências a esta área geográfica de Portugal, seja na toponímia como pela forma de falar das personagens. José Alberto Lopes da Silva assinala que não há na obra vicentina referências a Barcelos nem a Guimarães, mas sim dezenas de elementos relacionados com as Beiras. Há obras inteiras, personagens, caracteres, linguagem. O conhecimento que o autor mostra desta região do país não era fácil de obter se tivesse nascido no norte e vivido a maior parte da sua vida em Évora e Lisboa.

Cada livro publicado sobre Gil Vicente é, quase sempre defensor de uma qualquer tese que identifique ou não o autor ao ourives. A favor desta hipótese existe o facto de o dramaturgo usar com propriedade termos técnicos de ourivesaria na sua obra.

Alguns intelectuais portugueses polemizaram sobre o assunto. Camilo Castelo Branco escreveu, em 1881, o documento “Gil Vicente, Embargos à fantasia do Sr. Teófilo Braga” – este último defendia uma só pessoa para o ourives e para o poeta, enquanto que Camilo defendia duas pessoas distintas. Teófilo Braga mudaria de opinião depois de um estudo de Sanches de Baena que mostrava a genealogia distinta de dois indivíduos de nome Gil Vicente, apesar de Brito Rebelo ter conseguido comprovar a inconsistência histórica destas duas genealogias, utilizando documentos da Torre do Tombo. Lopes da Silva, na obra citada[1], avança uma dezena de argumentos para provar que Gil Vicente era ourives quando escreveu a sua primeira obra, uma imitação do Auto del Repelón, de Juan del Encina a quem pede emprestada não só a história, mas também as personagens com o seu respectivo idioma, o saiaguês.

Dados biográficos

Apesar de se considerar que a data mais provável para o seu nascimento tenha sido em 1466, Sabe-se que casou com Branca Bezerra, de quem nasceram Gaspar Vicente(que morreu em 1519) e Belchior Vicente(nascido em 1505). Depois de enviuvar, casou com Melícia Rodrigues de quem teve Paula Vicente (1519-1576), Luís Vicente (que organizou a compilação das suas obras) e Valéria Borges. Presume-se que tenha estudado em Salamanca.

O seu primeiro trabalho conhecido, a peça em sayaguês Auto da Visitação, também conhecido como Monólogo do Vaqueiro, foi representada nos aposentos da rainha D. Maria, consorte de Dom Manuel, para celebrar o nascimento do príncipe (o futuro D. João III) – sendo esta representação considerada como o marco de partida da história do teatro português. Ocorreu isto na noite de 8 de Junho de 1502, com a presença, além do rei e da rainha, de Dona Leonor, viúva de D. João II e D. Beatriz, mãe do rei.

Tornou-se, então, responsável pela organização dos eventos palacianos. Dona Leonor pediu ao dramaturgo a repetição da peça pelas matinas de Natal, mas o autor, considerando que a ocasião pedia outro tratamento, escreveu o Auto Pastoril Castelhano. De facto, o Auto da Visitação tem elementos claramente inspirados na “adoração dos pastores”, de acordo com os relatos do nascimento de Cristo. A encenação incluía um ofertório de prendas simples e rústicas, como queijos, ao futuro rei, ao qual se pressagiavam grandes feitos. Gil Vicente que, além de ter escrito a peça, também a encenou e representou, usou, contudo, o quadro religioso natalício numa perspectiva profana. Perante o interesse de Dona Leonor, que se tornou a sua grande protectora nos anos seguintes, Gil Vicente teve a noção de que o seu talento permitir-lhe-ia mais do que adaptar simplesmente a peça para ocasiões diversas, ainda que semelhantes.

Se foi realmente ourives, terminou a sua obra-prima nesta arte – a Custódia de Belém – feita para o Mosteiro dos Jerónimos, em 1506, produzida com o primeiro ouro vindo de Moçambique. Três anos depois, este mesmo ourives tornou-se vedor do património de ourivesaria no Convento de Cristo, em Tomar, Nossa Senhora de Belém e no Hospital de Todos-os-Santos, em Lisboa.

Consegue-se ainda apurar algumas datas em relação a esta personagem que tanto pode ser una como múltipla: em 1511 é nomeado vassalo de el-Rei e, um ano depois, sabe-se que era representante da bandeira dos ourives na “Casa dos Vinte e Quatro”. Em 1513, o mestre da balança da Casa da Moeda, também de nome de Gil Vicente (se é o mesmo ou não, como já se disse, não se sabe), foi eleito pelos outros mestres para os representar junto à vereação de Lisboa.

Será ele que dirigirá os festejos em honra de Dona Leonor, a terceira mulher de Dom Manuel, no ano de 1520, um ano antes de passar a servir Dom João III, conseguindo o prestígio do qual se valeria para se permitir a satirizar o clero e a nobreza nas suas obras ou mesmo para se dirigir ao monarca criticando as suas opções. Foi o que fez em 1531, através de uma carta ao rei onde defende os cristãos-novos.

Morreu em lugar desconhecido, talvez em 1536 porque é a partir desta data que se deixa de encontrar qualquer referência ao seu nome nos documentos da época, além de ter deixado de escrever a partir desta data.

Contexto histórico

O Teatro português antes de Gil Vicente

O teatro português não nasceu com Gil Vicente. Esse mito, criado por vários autores de renome, como Garcia de Resende, na sua Miscelânia, ou o seu próprio filho, Luís Vicente, por ocasião da primeira edição da “Compilação” do obra completa do pai, poderá justificar-se pela importância inegável do autor no contexto literário pensinsular, mas não é de todo verdadeiro já que existiam manifestações teatrais antes da noite de 7 para 8 de Junho de 1502, data da primeira representação do “Auto do vaqueiro” ou “Auto da visitação”, nos aposentos da rainha.

Já no reinado de Sancho I, os dois actores mais antigos portugueses, Bonamis e Acompaniado, realizaram um espectáculo de “arremedilho”, tendo sido pagos pelo rei com uma doação de terras. O arcebispo de Braga, Dom Frei Telo, refere-se, num documento de 1281, a representações litúrgicas por ocasião das principais festividades católicas. Em 1451, o casamento da infanta Dona Leonor com o imperador Frederico III da Alemanha foi acompanhado também de representações teatrais.

Segundo as crónicas portuguesas de Fernão Lopes, Zurara, Rui de Pina ou Garcia de Resende, também nas cortes de D. João I, D. Afonso V e D.João II, se faziam encenações espectaculares. Rui de Pina refere-se, por exemplo, a um “momo”, em que Dom João II participou pessoalmente, fazendo o papel de “Cavaleiro do Cisne”, num cenário de ondas agitadas (formadas com panos), numa frota de naus que causou espanto entrando sala adentro acompanhado do som de trombetas, atabales, artilharia e música executada por menestréis, além de uma tripulação atarefada de actores vestidos de forma espectacular.

Contudo, pouco resta dos textos dramáticos pré-vicentinos. Além das éclogas dialogadas de Bernardim Ribeiro, Cristóvão Falcão e Sá de Miranda, André Dias publicou em 1435 um “Pranto de Santa Maria” considerado um esboço razoável de um drama litúrgico.

No Cancioneiro Geral de Garcia de Resende existem alguns textos também significativos, como o Entremez do Anjo (assim designado por Teófilo Braga), de D. Francisco de Portugal, Conde de Vimioso, ou as trovas de Anrique da Mota (ou Farsa do alfaiate, segundo Leite de Vasconcelos) dedicados a temas e peronagens chocarreiros como “um clérigo sobre uma pipa de vinho que se lhe foi pelo chão”, entre outros episódios divertidos.

É provável que Gil Vicente tenha assistido algumas destas representações. Viria, contudo, sem qualquer dúvida, a superá-las em mestria e em profundidade, tal como diria Marcelino Menéndez Pelayo ao considerá-lo a “figura mais importante dos primitivos dramaturgos peninsulares”, chegando mesmo a dizer que não havia “quem o excedesse na europa do seu tempo”.

Obra

Características principais

A sua obra vem no seguimento do teatro ibérico popular e religioso que já se fazia, ainda que de forma menos profunda. Os temas pastoris, presentes na escrita de Juan del Encina vão influenciar fortemente a sua primeira fase de produção teatral e permanecerão esporadicamente na sua obra posterior, de maior diversidade temática e sofistificação de meios. De facto, a sua obra tem uma vasta diversidade de formas: o auto pastoril, a alegoria religiosa, narrativas bíblicas, farsas episódicas e autos narrativos.

O seu filho, Luís Vicente, na primeira compilação de todas as suas obras, classificou-as em autos e mistérios (de carácter sagrado e devocional) e em farsas, comédias e tragicomédias (de carácter profano). Contudo, qualquer classificação é redutora – de facto, basta pensar na Trilogia das Barcas para se verificar como elementos da farsa (as personagens que vão aparecendo, há pouco saídas deste mundo) se misturam com elementos alegóricos religiosos e místicos (o Bem e o Mal).

Gil Vicente retratou, com refinada comicidade, a sociedade portuguesa do século XVI, demonstrando uma capacidade acutilante de observação ao traçar o perfil psicológico das personagens. Crítico severo dos costumes, de acordo com a máxima que seria ditada por Molière (“Ridendo castigat mores” – rindo se castigam os costumes), Gil Vicente é também um dos mais importantes autores satíricos da língua portuguesa. Em 44 peças, usa grande quantidade de personagens extraídos do espectro social português da altura. É comum a presença de marinheiros, ciganos, camponeses, fadas e demônios e de referências – sempre com um lirismo nato – a dialetos e linguagens populares.

Entre suas obras estão Auto Pastoril Castelhano (1502) e Auto dos Reis Magos (1503), escritas para celebração natalina, e Auto da Sibila Cassandra (1503), anunciando os ideais renascentistas em Portugal. Sua obra-prima é a trilogia de sátiras Auto da Barca do Inferno (1516), Auto da Barca do Purgatório (1518) e Auto da Barca da Glória (1519). Em 1523 escreve a Farsa de Inês Pereira.

São geralmente apontados, como aspectos positivos das suas peças, a imaginação e originalidade evidenciadas; o sentido dramático e o conhecimento dos aspectos relacionados com a problemática do teatro.

Alguns autores consideram que a sua espontaneidade, ainda que reflectindo de forma eficaz os sentimentos colectivos e exprimindo a realidade criticável da sociedade a que pertencia, perde em reflexão e em requinte. De facto, a sua forma de exprimir é simples, chã e directa, sem grandes floreados poéticos.

Acima de tudo, o autor exprime-se de forma inspirada, dionisíaca, nem sempre obedecendo a princípios estéticos e artísticos de equilíbrio. É também versátil nas suas manifestações: se, por um lado, parece ser uma alma rebelde, temerária, impiedosa no que toca em demonstrar os vícios dos outros, quase da mesma forma que se esperaria de um inconsciente e tolo bobo da corte, por outro lado, mostra-se dócil, humano e ternurento na sua poesia de cariz religioso e quando se trata de defender aqueles a quem a sociedade maltrata.

O seu lirismo religioso, de raiz medieval e que demonstra influências das Cantigas de Santa Maria está bem presente, por exemplo, no Auto de Mofina Mendes, na cena da Anunciação, ou numa oração dita por Santo Agostinho no Auto da Alma. Por essa razão é, por vezes, designado por “poeta da Virgem”.

O seu lirismo patriótico presente em “Exortação da Guerra”, Auto da fama ou Cortes de Júpiter, não se limita a glorificar, em estilo épico e orgulhoso, a nacionalidade: de facto, é crítico e eticamente preocupado, principalmente no que diz respeito aos vícios nascidos da nova realidade económica, decorrente do comércio com o Oriente (Auto da Índia). O lirismo amoroso, por outro lado, consegue aliar algum erotismo e alguma brejeirice com influências mais eruditas (Petrarca, por exemplo).

Elementos filosóficos na obra vicentina

Os temas natalícios, muito presentes na obra de Gil Vicente desde a primeira encomenda de Dona Leonor, têm também um significado fortemente simbólico e sugestivo. Aqui, uma pintura do contemporâneo Vicente Gil (não confundir com o Dramaturgo!)

A obra de Gil Vicente transmite uma visão do mundo que se assemelha e se posiciona como uma perspectiva pessoal do Platonismo: existem dois mundos – o Mundo Primeiro, da serenidade e do amor divino, que leva à paz interior, ao sossego e a uma “resplandecente glória”, como dá conta sua carta a D. João III; e o Mundo Segundo, aquele que retrata nas suas farsas: um mundo “todo ele falso”, cheio de “canseiras”, de desordem sem remédio, “sem firmeza certa”. Estes dois mundos reflectem-se em temas diversos da sua obra: por um lado, o mundo dos defeitos humanos e das caricaturas, servidos sem grande preocupação de verosimilhança ou de rigor histórico.

Muitos autores criticam em Gil Vicente os anacronismos e as falhas na narrativa (aquilo a que chamaríamos hoje de “gaffes”), mas, para alguém que considerava o mundo retratado como pleno de falsidades, essas seriam apenas mais algumas, sem importância e sem dano para a mensagem que se pretendia transmitir. Por outro lado, o autor valoriza os elementos míticos e simbólicos religiosos do Natal: a figura da Virgem Mãe, do Deus Menino, da noite natalícia, demonstrando aí um zelo lírico e uma vontade de harmonia e de pureza artística que não existe nas suas mais conhecidas obras de crítica social.

Sem as características do maniqueísmo que tantas vezes se constatam nas peças teatrais de quem defende uma tal visão do Mundo, há, realmente, a presença de um forte contraste nos elementos cénicos usados por Gil Vicente: a luz contra a sombra, não numa luta feroz, mas em convivência quase amigável. A noite de natal torna-se também aqui a imagem perfeita que resume a concepção cósmica de Gil Vicente: as grandes trevas emolduram a glória divina da maternidade, do nascimento, do perdão, da serenidade e da boa vontade – mas sem a escuridão, que seria da claridade?

Legado

Note-se que a obra de Gil Vicente não se resume ao teatro, estendendo-se também à poesia. Podemos citar vários vilancetes e cantigas, ainda influenciadas pelo estilo palaciano e temas dos trovadores.

Vários compositores trabalharam poemas de Gil Vicente na forma de lied (principalmente algumas traduções para o alemão, feitas por Emanuel von Geibel), como Max Bruch ou Robert Schumann, o que demonstra o carácter universal da sua obra.

Os seus filhos, Paula e Luís Vicente, foram os responsáveis pela primeira edição das suas obras completas. Em 1586, sai à estampa uma segunda edição, com muitas passagens censuradas pela Inquisição. Só no século XIX se faria a redescoberta do autor, com a terceira edição de 1834, em Hamburgo, levada a cabo por Barreto Feio.

Obras
Monólogo do Vaqueiro ou Auto da Visitação (1502)
Auto Pastoril Castelhano (1502)
Auto dos Reis Magos (1503)
Auto de São Martinho (1504)
Quem Tem Farelos? (1505)
Auto da Alma (1508)
Auto da Índia (1509)
Auto da Fé (1510)
O Velho da Horta (1512)
Exortação da Guerra (1513)
Comédia do Viúvo (1514)
Auto da Fama (1516)
Auto da Barca do Inferno (1517)
Auto da Barca do Purgatório(1518)
Auto da Barca da Glória (1519)
Cortes de Júpiter (1521)
Comédia de Rubena (1521)
Farsa de Inês Pereira (1523)
Auto Pastoril Português (1523)
Frágua de Amor (1524)
Farsa do Juiz da Beira (1525)
Farsa do Templo de Apolo (1526)
Auto da Nau de Amores (1527)
Auto da História de Deus (1527)
Tragicomédia Pastoril da Serra da Estrela (1527)
Farsa dos Almocreves (1527)
Auto da Feira (1528)
Farsa do Clérigo da Beira (1529)
Auto do Triunfo do Inverno (1529)
Auto da Lusitânia, intercalado com o entremez Todo-o-Mundo e Ninguém (1532)
Auto de Amadis de Gaula (1533)
Romagem dos Agravados (1533)
Auto da Cananea (1534)
Auto de Mofina Mendes (1534)
Floresta de Enganos (1536)

Fonte:
http://pt.wikipedia.org

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Gil Vicente (Auto da Barca do Inferno)

Definição de auto: designação genérica para peças cuja finalidade é tanto divertir quanto instruir; seus temas, podendo ser religiosos ou profanos, ‘sérios ou cômicos, devem, no entanto, guardar um profundo sentido moralizador.

O teatro vicentino não foi escrito em prosa, mas em versos. Por isso é poético. Adotava, predominantemente, o verso redondilho (maior ou menor), de origem popular e medieval. Possui muitas ressonâncias no Brasil, dentre os quais se destacam as peças didáticas de José de Anchieta (segunda metade do século XVI), Morte e Vida Severina (1956), de João Cabral de Melo Neto, e o Auto da Compadecida (1959), de Ariano Suassuna.

Pequeno resumo

Auto da Barca do Inferno é um auto onde o barqueiro do inferno e o do céu esperam à margem os condenados e os agraciados. Os que morrem chegam e são acusados pelo Diabo e pelo Anjo, ma apenas o Anjo absolve.

O primeiro a chegar é um Fidalgo, a seguida um agiota, um Parvo (bobo), um sapateiro, um frade, uma cafetina, um judeu, um juiz, um promotor, um enforcado e quatro cavaleiros. Um a um eles aproximam-se do Diabo, carregando o que na vida lhes pesou. Perguntam para onde vai a barca; ao saber que vai para o inferno ficam horrorizados e se dizem merecedores do Céu. Aproximam-se então do Anjo que os condena ao inferno por seus pecados.

O Fidalgo, o Onzeneiro (agiota), o Sapateiro, o Frade (e sua amante), a Alcoviteira Brísida Vaz (cafetina e bruxa), o judeu, o Corregedor (juiz), o Procurador (promotor) e o enforcado são todos condenados ao inferno por seus pecados, que achavam pouco ou compensados por visitas a Igreja e esmolas. Apenas o Parvo é absolvido pelo Anjo. Os cavaleiros sequer são acusados, pois deram a vida pela Igreja.

O texto do Auto é escrito em versos rimados, fundindo poesia e teatro, fazendo com que o texto, cheio de ironia, trocadilhos, metáforas e ritmo, flua naturalmente. Faz parte da trilogia dos Autos da Barca (do Inferno, do Purgatório, do Céu).

Movimento literário: Humanismo (Portugal)

Características:

Estilo: obra escrita em versos heptassílabos, em tom coloquial e com intenção marcadamente doutrinária, fundindo em algumas passagens o português, o latim e o espanhol. Cada personagem apresenta, através da fala, traços que denunciam sua condição social.

Estrutura: peça teatral em um único ato, subdividido em cenas marcadas pelos diálogos que o Anjo ou o Diabo travam com os personagens.

Cenário: um ancoradouro, no qual estão atracadas duas vbarcas. Todos os mortos, necessariamente, têm de passar por esta paragem, sendo julgados e condenados ou à barca da Glória ou à barca do Inferno.

Analisando personagens

Fidalgo: representa a nobreza, que chega com um pajem, uma roupagem exagerada e uma cadeira de espaldar, elementos característicos de seu status social. O diabo alega que o Fidalgo o acompanhará por ter tido uma vida de luxúria e de pecados. Ao Fidalgo, nada lhe valem as “compras” de indulgências, ou orações encomendadas. A crítica à nobreza é centrada nos dois principais defeitos humanos: o orgulho e a prática da tirania.

Onzeneiro: o segundo personagem a ser inquirido é o Onzeneiro, usuário que ao chegar à barca do Diabo descobre que seu rico dinheiro ficara em terra. Utilizando o pretexto de ir buscar o dinheiro, tenta convencer o Diabo a deixá-lo retornar, mas acaba cedendo às exigências do julgamento.

Parvo: um dos poucos a não ser condenado ao Inferno. O Parvo chega desprovido de tudo, é simples, sem malícia e consegue driblar o Diabo, e até injuriá-lo. Ao passar pela barca do Anjo, diz ser ninguém. Por sua humildade e por seus verdadeiros valores, é conduzido ao Paraíso.

Sapateiro: representante dos mestres de ofício, que chega à embarcação do Diabo carregando seu instrumento de trabalho, o aventar e as formas. Engana na vida e procura enganar o Diabo, que espertamente não se deixa levar por seus artifícios.

Frade: como todos os representantes do clero, focalizados por Gil Vicente, o Frade é alegre, cantante, bom dançarino e mau-caráter. Acompanhado de sua amante, o Frade acredita que por ter rezado e estar a serviço da fé, deveria ser perdoado de seus pecados mundanos, mas contra suas expectativas, é condenado ao fogo do inferno. Deve-se desar que Gil Vicente desfecha ardorosa crítica ao clero, acreditando-o incapaz de pregar as três coisas mais simples: a paz, a verdade e a fé.

Brísida Vaz: misto de alcoviteira e feiticeira. Por sua devassidão e falta de escrúpulos, é condenada. Personagem interessante que faz o público leitor conhecer a qualidade moral de outros personagens que com ela se relacionaram.

Judeu: entra acompanhado de seu bode. Deplorado por todos, até mesmo pelo Diabo que quase se recusa a levá-lo, é igualmente condenado, inclusive por não seguir os preceitos religiosos da fé cristã. Bom lembrar que, durante o reinado de D. Manuel, houve uma perseguição aos judeus visando à sua expulsão do território português; alguns se foram, carregando grandes fortunas; outros, converteram-se ao cristianismo, sendo tachados cristãos novos.

Corregedor e o Procurador: ambos representantes do judiciário. Juiz e advogado deviam ser exemplos de bom comportamento e acabam sendo condenados justamente por serem tão imorais quanto os mais imorais dos mortais, manipulando a justiça de acordo com as propinas recebidas.

Enforcado: chega ao batel, acredita ter o perdão garantido: seu julgamento terreno e posterior condenação à morte o teriam redimido de seus pecados, mas é condenado também a ir para o Inferno.

Cavaleiros: finalmente chegam à barca quatro cavaleiros cruzados, que lutam pelo triunfo da fé cristã e morrem em poder dos mouros. Obviamente, com uma ficha impecável, serão todos julgados e perdoados.

Cada um dos personagens focalizados adentram a morte com seus instrumentos terrenos, são venais, inconscientes e por causa de seus pecados não atingem a Glória, a salvação eterna.

Destaque deve ser feito à figura do Diabo, personagem vigorosa que conhece a arte de persuadir, é ágil no ataque, zomba, retruca, argumenta e penetra nas consciências humanas. Ao Diabo cabe denunciar os vícios e as fraquezas, sendo o personagem mais importante na crítica que Gil Vicente tece de sua época.

As personagens desta obra são divididas em dois grupos: as personagens alegóricas e as personagens – tipo. No primeiro grupo inserem-se o Anjo e o Diabo, representando respectivamente o Bem e o Mal, o Céu e o Inferno. Ao longo de toda a obra estas personagens são como que os «juízes» do julgamento das almas, tendo em conta os seus pecados e vida terrena. No segundo grupo inserem-se todas as restantes personagens do Auto, nomeadamente o Fidalgo, o Onzeneiro, o Sapateiro, o Parvo (Joane), o Frade, a Alcoviteira, o Judeu, o Corregedor e o Procurador, o Enforcado e os Quatro Cavaleiros. Todos mantêm as suas características terrestres, o que as individualiza visual e linguisticamente, sendo quase sempre estas características sinal de corrupção.

Fazendo uma análise das personagens, cada uma representa uma classe social, ou uma determinada profissão ou mesmo um credo. À medida que estas personagens vão surgindo vemos que todas trazem elementos simbólicos, que representam a sua vida terrena e demonstram que não têm qualquer arrependimento dos seus pecados. Os elementos cénicos de cada personagem são:

Fidalgo: manto e pajem que transporta uma cadeira. Estes elementos simbolizam a opressão dos mais fracos, a tirania e a presunção.
Onzeneiro: bolsão. Este elemento simboliza o apego ao dinheiro, a ambição e a ganância.
Sapateiro: avental e moldes. Estes elementos simbolizam a exploração interesseira, da classe burguesa comercial.
Parvo: representa simbolicamente, os menos afortunados de inteligencia.
Clero, e a dissolução dos seus costumes.
Alcoviteira: moças e os cofres. Estes elementos representam a exploração interesseira dos outros, para seu próprio lucro.
Judeu: bode. Este elemento simboliza a rejeição a fé cristã.
Corregedor e Procurador: processos, vara da Justiça e livros. Estes elementos simbolizam a magistratura.
Enforcado: Acredita ter o perdão garantido. Seu julgamento terreno e posterior condenação à morte o teriam redimido de seus pecados, mas é condenado igual aos outros. Ele carrega a mesma corda com que fora enforcado.
Quatro Cavaleiros: cruz de Cristo simboliza a fé dos cavaleiros pela religião católica.
(todos os elementos cénicos representam os pecados das personagens)

Humor

Surgem ao longo do auto três tipos de cómico: o de carácter, o de situação e o de linguagem. O cômico de carácter é aquele que é demonstrado pela personalidade da personagem, de que é exemplo o Parvo, que devido à sua pobreza de espírito não mede as suas palavras, não podendo ser responsabilizado pelos seus erros. O cómico de situação é o criado à volta de certa situação, de que é bom exemplo a cena do Fidalgo, em que este é gozado pelo Diabo, e o seu orgulho é pisado. Por fim, o cómico de linguagem é aquele que é proferido por certa personagem, de que são bons exemplos as falas do Diabo.

O Auto da Barca do Inferno e o Inferno anónimo (c. 1515) do Museu Nacional de Arte Antiga

Existe no Museu Nacional de Arte Antiga uma pintura anónima do Inferno que é quase contemporânea do Auto da Barca do Inferno. Poderá precedê-lo em dois anos. É uma pintura de qualidade e contém, como a obra de Gil Vicente, intenção de crítica social. Mas enquanto na Barca assistimos ao julgamento, donde se pode sair condenado ou salvo, a pintura mostra um recanto infernal com danados distribuídos por grupos, recordando talvez o que se passa na Divina Comédia; no auto, as personagens são individuais.

Esta pintura, que Gil Vicente pode bem ter conhecido, remete para o mesmo momento cultural e religioso, até para um semelhante empenho pré-reformista de intervir na sociedade.

O Auto da Barca do Inferno e os Diálogo dos Mortos, de Luciano

Como Miguel Ângelo há de fazer cerca de 20 anos mais tarde no Juízo Final da Capela Sistina (ver ao fundo do fresco a barca de Caronte), também Gil Vicente construiu a sua alegoria com vários elementos vindos da mitologia, mais em concreto, dos Diálogos dos Mortos, de Luciano de Samósata.

A intertextualidade entre esta obra e a moralidade de Gil Vicente é clara, de modo particular se considerarmos o Diálogo X. Veja-se como Hermes, sempre satírico como o Diabo vicentino, se dirige ao Filósofo:
Põe de parte a postura, em primeiro lugar, e depois tudo o mais! (…)
Deita fora também a mentira, a presunção e o acreditar que és melhor que os outros, porque se embarcares com tudo isso, qual o navio de cinquenta remadores, capaz de te receber?

A recusa de tudo o que podia significar distinção social na vida terrena aparece também no auto, quando lá se fala das «cárregas» inúteis para garantir êxito no julgamento.

A afastar as duas obras, está tudo o que depende da teologia cristã, a começar pela presença do Anjo, com a possibilidade de dois destinos, o da condenação e o da glória, o final esperançoso (claramente visível quando se tem em conta o modo como o autor aproveita a maré ao longo da obra – que está vasa no final, impedindo a ida para o Inferno), e ainda o novo contexto histórico.

Fontes:
http://www.portrasdasletras.com.br/
http://amadeo.blog.com/ (imagem)
http://pt.wikipedia.org/

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Sergio Antonio Meneghetti

Químico, Poeta e Escritor. Natural de Pindorama – SP. Residente em Pindamonhangaba – SP. Casado com 3 filhos.

Autor do livro “Intuição, Ferramenta de Trabalho”

Consagrações em concursos poéticos:
– Antologia de Poetas Brasileiros volume 5.
– II Olimpíada Cultural – “500 Anos da Língua Portuguesa” 2005
– III Olimpíada Cultural – “500 Anos da Língua Portuguesa” 2006
– Livro de Ouro da Poesia Brasileira
– “IV Seletiva de Poesia, Contos e Crônicas de Barra Bonita”.
– “Panorama Literário 2005/2006” (6500 inscritos)
– “Novos Poetas Novos Talentos”
– “Poetas do Brasil”
– “Concurso Internacional do site Voz Di Studanti” (Cabo Verde).
– “4º Concurso Literário de Contos e Poesias”
– Poetas Del Mundo em Poesias – volume I (lançamento no Congresso Poetas Del Mundo em 08/2008)

Participações:
– Revista do Sindicato dos Químicos do ABC
– Rádio Mundial – poemas declamados.
– STOP a Destruição do Mundo (ONG Internacional fundada em Paris – França) http://www.stop.org.br
– SITA – Sociedade Internacional de Trilogia Analítica
– Café Cultural – SESI – Santo André
– Site http://www.pidavale.com.br/literatura Pindamonhangaba – SP
– Jornal da Cidade – Pindamonhangaba
– Jornal eletrônico “Estadão”
– Folder Basell Polyolefins – Evitando Desperdício.
– Jornal do Brasil – Rio de Janeiro.
– JB Online – Rio de Janeiro.
– Raza Consulting (Consultoria Empresarial e Gestão de Negócios) – São Paulo.
– Editora Gente – São Paulo.

Fonte:
E-mail enviado pelo autor

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Sérgio Meneghetti (Lançamento do Livro Intuição)

A utilização da intuição em nossas vidas também é uma meta, pois ela está à frente da nossa psicologia mediana, somente uma minoria a utiliza em um maior potencial, pois ainda é uma ferramenta inexplorada. Partindo desta idéia, Sérgio Meneghetti desenvolveu este livro, que explica a utilização da intuição como ferramenta de trabalho

Adquira o livro em:

sergio.livro@hotmail.com
Livraria Papiro em Pindamonhangaba
Banca Quadros (Praça São Benedito) e
Super Banca em Santo André
http://www.livrariacultura.com.br/ , http://www.saraiva.com.br/ e http://www.allprinteditora.com.br/

Fonte:
E-mail enviado pelo autor.

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Sergio Antonio Meneghetti (Poesias Avulsas)

Ressurreição

Ressurgir da escuridão
Abrir a grande luz
Que invade o coração.

Ter o amor como passos
E abrir os braços
Em perfeita comunhão.

Somos mensageiros da paz
Mesmo aonde exista a dor,
A verdade também se faz.

Somos herdeiros do sofrimento
Mesmo nos gritos e lamentos
Jesus nos cura os ferimentos.

Neste dia da alforria
Quando a dois mil anos
O mestre morria.

O mundo mal sabia
Que naquela cruz
Criava-se nova aurora de luz.

Quem sabe num domingo matinal
O mundo acorde novo
Numa alegria jovial.

Crianças entendendo a verdade
Que acima das mazelas e orgulho
Se pratique a caridade.

Somos a obra mais perfeita da criação
Sua imagem e semelhança
Porque todos somos irmãos.

(escrito na sexta-feira santa)

Gota Azul do Universo

Você que vem de todos os cantos
Com humildade beija meus pés
Você não escolhe o anônimo ou o santo
Quando admiramos sua imensidão, sabemos quem és.

Tuas águas percorrem toda a terra
Banha areias, matas, pedras e montes
É o caminho para as naus na paz e na guerra
Mas ao entardecer, mostra os mais belos horizontes.

A vasta vida que dentro de ti contem
Está muito além do que os olhos vêem
Vos que separa os continentes
Mas pela vida, uni a todos como uma corrente.

Chega manso no meu ser agitado
As vezes vem com terror para meu coração assustado
Mas é sempre belo, quente ou gelado.
É um tapete vivo, debaixo deste céu azulado.

Somos irmãos pela água que nos faz parte
Somos caminho e arte
Por este motivo gravo neste verso
Mar; gota azul deste universo.
18/01/2004

O Amigo

O amigo não cobra
Antes se desdobra
Não cria ilusão
Antes a verdade pura de coração.
Está sempre pronto
Não se afasta nem na tristeza
Ele promove o reencontro
Ele é a pura certeza.
Nunca deixa de amparar
Mesmo que não esteja
Nele podemos confiar
Ele acima de tudo é puro amar.
Que possamos merecer
Ou até surpreender
O amigo leal
Pois é a nossa meta e ideal.
O verdadeiro amigo nos conduz
Na alegria ou na tristeza
Na doçura ou na aspereza
Pois pela amizade, Ele foi à cruz.

Fontes:
E-mail enviado pelo autor.
http://www.pindavale.com.br

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Dino Buzzati (1906 – 1972)

Dino Buzzati-Traverso (San Pellegrino, 16 de Outubro, 1906 – Milão, 28 de Janeiro, 1972) foi um escritor italiano, bem como jornalista do Corriere della Sera. Sua fama mundial é principalmente devido ao seu romance Il deserto dei Tartari, traduzido para português como O Deserto dos Tártaros.

Dino Buzzati nasceu no dia 16 de outubro de 1906 em San Pellegrino, Itália, próximo a Belluno, na secular vila de propriedade da família, em uma chácara de sua família. Sua mãe, veterinária, era Veneza e seu pai, professor universitário, era de uma arntiga família de Belluno. Buzzati foi o segundo dos quatros filhos do casal. Desde a mocidade os temas e as paixões do futuro escritor se manifestaram e a elas ele permaneceu fiel por toda a vida: a poesia, a música (estuda violino e piano), o desenho e a montanha, verdadeira companheira da infância. “Eu penso”, diz Buzzati numa entrevista concedida em 1959, “que em todo escritor as primeiras memórias da infância são uma base fundamental. As impressões mais fortes que eu tive de criança pertencem à terra onde eu nasci, o vale do Belluno, às montanhas selvagens que o cercam e à vizinha Dolomit. Um mundo completamente nórdico, ao qual se juntou o patrimônio das recordações juvenis e a cidade de Milão, onde minha família sempre viveu no inverno.” Sua temática: a fantasia, a solidão, a magia, a montanha, a música, a poesia, a espera, a morte e a eternidade.

Buzzati estudou Direito, mas começou desde cedo a trabalhar em jornal, onde fez de tudo: ilustração, reportagens, crônicas, edição. Além disso, foi correspondente do Corriere della Sera na Segunda Guerra Mundial, aos 22 anos onde permaneceria até sua morte. Entre narrativas em prosa (contos, romances, crônicas, cartas, comentários) e poesia, escreveu cerca de 40 livros. Também escreveu 16 peças de teatro e 5 libretos de ópera.

Viveu em Milão grande parte de sua vida, mas sempre que podia ia com amigos caminhar nas montanhas e todo ano voltava a Belluno e aos vales silenciosos do Monte Schiara. É esse clima de montanhas misteriosas, precipícios inacreditáveis, abismos e solidão que transparece em seus textos desde seu romance de estréia O Barnabé das montanhas de 1933. As montanhas não são só uma insistente recordação, mas também o fundo de suas histórias. Em seu livro mais famoso O deserto dos tártaros, as rochas grandiosas, os silêncios profundos e a solidão constroem a narrativa do Soldado Giovanni Drogo.

Publicado em 1940, O deserto dos tártaros (243 páginas) foi reeditado esse ano pela editora Nova Fronteira, juntamente com o romance Um amor (de 1963) e os volumes de contos Naquele Exato momento (1963) e Noites difíceis. Este último foi publicado em 1971 e traz um tom mais sarcástico, que de certa forma antecipava o seu fim, pois Buzzati já sabia do seu câncer de pâncreas (doença que o matou em 28 de janeiro de 1972).

Durante a Segunda Guerra Mundial, Buzzati serviu na África, como jornalista da Marinha italiana. Buzzati saiu como Sargento. Essa experiência serviu para que escrevesse O deserto dos tártaros antes da Segunda Guerra. Segundo o autor, o romance veio num jorro numa madrugada quando voltava do jornal.
…Caracterizado por um clima de profunda indagação filosófica, comparado desde o seu aparecimento a Kafka, trata-se de uma aguda reflexão sobre a inutilidade do poder. Mas enquanto o mundo do genial tcheco é fechado e maldito, a atmosfera idealizada por Buzzati não abstrai a possilibilidade da esperança – ainda que inútil. Ele sabe, como ninguém, fazer de sua alegoria uma verdade poética desconcertante.

O livro conta a desventura do oficial Giovanni Drogo, o qual, aos vinte anos, é nomeado, em seu primeiro posto, para o forte Bastiani, que se ergue imponente e solitário às margens abandonadas do ‘deserto tártaro’. Drogo, que espera ficar ali poucos meses, aguardando uma transferência, vê a vida transcorrer sem que sua razão de ser se realize: transformar-se num soldado verdadeiro, conhecer a glória de participar de uma guerra que, tudo indica, não vai acontecer….

Mas não é só sobre o poder que Buzzati indaga. Seria simplificar muito sua obra. Há uma reflexão sobre o tempo (o que fazemos da nossa vida? Assistimos apenas o passar dos anos como se fôssemos imortais?), sobre a atitude do ser humano frente à vida, sua relação com a natureza e a sociedade. Pode-se perceber também a complexa relação homem x cidade: Drogo acaba se isolando do mundo social/urbano na rotina do forte Bastiani. Interagir e viver o ritmo da cidade torna-se impossível para quem se afasta por um tempo e vive a solidão das montanhas.
Numa belíssima manhã de setembro Drogo, o capitão Giovanni Drogo, mais uma vez sobe a cavalo a íngreme estrada que conduz ao forte Bastiani. Teve um mês de licença, mas após vinte dias já está de volta; a cidade agora se lhe tornou completamente estranha, os velhos amigos tomaram seu caminho, ocupam posições importantes e o cumprimentam apressadamente como a um oficial qualquer” (pág. 207).

O final do livro emociona os que acompanham toda a vida de Drogo dedicada ao forte. De uma certa forma nos remete aos dias atuais em que muitos se dedicam obstinadamente a objetivos ilusórios, passam sua juventude lutando por um sonho e deixam de viver a vida verdadeiramente. Depois da leitura podemos nos questionar: o que ando fazendo da minha? Pelo quê ando lutando? Em pleno século XXI, se ainda não temos respostas, pelo menos conseguir formular mais claramente nossas perguntas…

Em 1964, casou-se com Almeria Antoniazzi, o que também marcou a realização de seu último romance, Un Amore, traduzido para o português como Um Amor, em 1963. Em 1972 morre em decorrência do câncer, após uma prolongada luta contra a doença.

Obra

Buzzati começou a escrever ficções em 1933. Em sua obra há romances, peças de teatro, peças para rádio, libretos, poesia e contos.

Escreve um livro infantil intitulado La famosa invasione degli orsi in Sicilia. Escreve um livro de comédia baseado no mito de Orfeu, Poema a fumetti.

Sua obra ocasionalmente é classificada como Realismo Mágico e alienação social. Também escreveu diversos contos com animais fantásticos tais como o bogeyman e, de sua própria criação, il colombre.

O Deserto dos Tártaros

Il deserto dei Tartari, obra máxima de Dino Buzzati, foi publicada em 1940. A experiência de quando servira no exército, antes da Segunda Guerra Mundial, serviu como base para o romance. Segundo o próprio o autor, a história veio numa madrugada quando voltava ao jornal onde trabalhava, o Corriere della Sera, de uma só vez:

“Caracterizado por um clima de profunda indagação filosófica, comparado desde o seu aparecimento a Kafka, trata-se de uma aguda reflexão sobre a inutilidade do poder. Mas enquanto o mundo do genial tcheco é fechado e maldito, a atmosfera idealizada por Buzzati não abstrai a possilibilidade da esperança – ainda que inútil. Ele sabe, como ninguém, fazer de sua alegoria uma verdade poética desconcertante. O livro conta a desventura do oficial Giovanni Drogo, o qual, aos vinte anos, é nomeado, em seu primeiro posto, para o forte Bastiani, que se ergue imponente e solitário às margens abandonadas do ‘deserto tártaro’. Drogo, que espera ficar ali poucos meses, aguardando uma transferência, vê a vida transcorrer sem que sua razão de ser se realize: transformar-se num soldado verdadeiro, conhecer a glória de participar de uma guerra que, tudo indica, não vai acontecer….”

O romance se passa em torno da figura do recém oficial Giovanni Drogo que passa quase toda sua vida no Forte Bastini à espera do exército de tártaros que podem chegar a qualquer momento. O Deserto dos Tártaros, talvez um dos maiores romances italianos do século passado, constitui assim, uma meditação sobre a solidão e sobre a inexorável passagem do tempo.

Comentário de Ugo Giorgetti acerca do livro: Um homem encerrado numa fortaleza espera por uma batalha decisiva, quando os tártaros chegarem. Em meio à monotonia da vida de quartel, a pequenos incidentes inócuos, a um lento escorrer do tempo, a vida vai passando. E os tártaros nunca chegam. Os olhos agora velhos ainda espreitam através do binóculo o lugar ao longe onde um dia os tártaros deveriam surgir. A vida finalmente passa e o homem morre. Esse romance que é, na síntese de um ensaísta italiano, “o tema da vida como espera, renúncia e derrota” é uma das obras mais inquietantes do século XX.

Influências

Pode-se observar na obra de Dino Buzzati uma forte influência de toda a literatura fantástica do Século XIX. Já no século XX, a influência de Jean-Paul Sartre, Albert Camus e, princiapalmente, Franz Kafka.

Bibliografia

Prosa e Poesia
Bàrnabo delle montagne, 1933
Il segreto del bosco vecchio (O Segredo do Bosque Velho), 1935;
Il deserto dei Tartari (O Deserto dos Tártaros), 1940.
I sette messaggeri (Os Sete Mensageiros), 1942.
La famosa invasione degli orsi in Sicilia (A Famosa Invasão dos Ursos Na Sicília), 1945.
Il libro delle pipe, 1945.
Paura alla Scala, 1949.
In quel preciso momento (Naquele Exato Momento), 1950.
Il crollo della Baliverna (A Queda da Baliverna), 1957.
Sessanta racconti, 1958.
Le storie dipinte, 1958.
Esperimento di magia, 1958.
Il grande ritratto, 1960.
Egregio signore, siamo spiacenti di…, 1975.
Un amore (Um Amor), 1963.
Il capitano Pic e altre poesie, 1965.
Scusi da che parte per Piazza Duomo?, 1965.
Tre colpi alla porta, 1965.
Il colombre, 1966.
Presentazione a L’opera di Bosch, 1966.
Due poemetti, 1967.
Prefazione a R.James, 1967.
Prefazione a W:Disney, Vita e dollari di Paperon de’ Paperoni, 1968.
La boutique del mistero, 1968.
Poema a fumetti, 1969.
Le notti difficili (As Noites Difíceis), 1971.
I miracoli di Val Morel, 1971.
Prefazione a Tarzan delle scimmie, 1971.
Cronache terrestri, servizi giornalistici, a cura di Domenico Porzio, 1972.
Congedo a ciglio asciutto di Buzzati, 1974.
Romanzi e racconti, 1975.
I misteri d’Italia, 1978.
Teatro, 1980.
Dino Buzzati al Giro d’Italia, 1981.
Le poesie, 1982.
180 racconti, 1984.
Il reggimento parte all’alba, 1985.
Lettere a Brambilla, 1985.
Il meglio dei racconti, 1990.
Le montagne di vetro, 1990.
Lo strano Natale di Mr. Scrooge e altre storie, 1990.
Bestiario, 1991.
Il buttafuoco, 1992.
La mia Belluno, 1992
Il borghese stregato ed altri racconti, 1994.

Teatro
Piccola passeggiata, 1942.
La rivolta contro i poveri, 1946.
Un caso clinico, 1953.
Drammatica fine di un musicista, 1955.
Sola in casa, 1958.
Una ragazza arrivò, 1958.
Le finestre, 1959.
L’orologio, 1959.
Un verme al ministero, 1960
I suggeritori, 1960.
Il mantello, 1960.
L’uomo che andrà in America, 1962
L’aumento (O aumento), 1962
La colonna infame, 1962.
Spogliarello, 1962.
La telefonista, 1964
La famosa invasione degli orsi in Sicilia (representado em Milão em 1965).
La fine del borghese, 1968.

Libreto para Música
Procedura penale, Ricordi, 1959.
Ferrovia sopraelevata, 1960.
Il mantello, Ricordi, 1960.
Battono alla porta, 1963.
Era proibito, 1963.

Fontes:
http://pt.wikipedia.org/
ALVES, Valéria de Oliveira. Dino Buzzati e o Deserto dos Tártaros. In http://www.sitedeliteratura.cjb.net/
http://www.releituras.com/
http://www.girovagandointrentino.it/ (foto)

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Dino Buzzati (A barata)

Tendo voltado tarde para casa, esmaguei uma barata que, no corredor, me escapava entre os pés (ficou lá, preta, no ladrilho) depois entrei no quarto. Ela dormia. Deitei-me ao seu lado, apaguei a luz, da janela aberta via um pedaço de parede e o céu. Fazia calor, não conseguia dormir, velhas histórias renasciam dentro de mim, dúvidas também, uma genérica desconfiança no amanhã. Ela soltou um pequeno lamento. “Que houve?”, perguntei. Ela abriu um olho, grande, sem me ver e murmurou: “Tenho medo.” “Medo de quê?”, perguntei. “Tenho medo de morrer.” “Medo de morrer? Por quê?” Respondeu: “Tive um sonho…” Aproximou-se um pouco. “Mas que é que você sonhou?” “Sonhei que estava no campo, estava sentada na margem de um rio e ouvi gritos ao longe… E eu devia morrer.” “Na beira de um rio?” “Sim.”, respondeu “Ouvia as rãs… faziam crá, crá.” “E que horas eram?” “Era noite e ouvi gritar.” “Bem, durma, agora são quase duas horas.” “Duas horas?”, mas não conseguia compreender, já tornara a pegar no sono.

Apaguei a luz e ouvi alguém remexendo no pátio. Depois, subiu a voz de um cão, aguda e longa; parecia lamentar-se. Subiu, passando diante da janela, perdeu-se na noite quente. Depois abriu-se uma persiana (ou se fechou?). Longe, muito longe, mas talvez eu me enganasse, uma criança se pôs a chorar. Depois, novamente o ulular do cão, longo como antes. Eu não conseguia dormir.

Vozes de homens vieram de alguma outra janela. Eram baixas, como murmuradas entre o sono. De uma sacada abaixo, ouvi um cip, cip, zitevitt, e algumas batidas de asas. “Flório!”, ouviu-se chamar de repente, devia ser duas ou três casas mais adiante. “Flório!”, parecia uma mulher, mulher angustiada, que tivesse perdido o filho.

Mas por que o canarinho do andar de baixo acordara? Que havia? Com um rangido lamentoso, como se fosse empurrada devagarinho por alguém que não queria fazer-se ouvir, uma porta se abriu em algum lugar da casa. Quanta gente acordada a essa hora, pensei. Estranho, a essa hora.

“Tenho medo, tenho medo”, queixou-se ela procurando-me com o braço. “Oh, Maria”, perguntei, “Que tem você?” Respondeu com voz tênue: “Tenho medo de morrer.” “Você sonhou de novo?” Fez que sim, devagarinho, com a cabeça. “De novo aqueles gritos?” Fez sinal que sim. “E você ia morrer?” Sim, sim, indicava, procurando olhar-me, com as pálpebras grudadas pelo sono.

Há alguma coisa, pensei: ela sonha, o cão uiva, o canarinho acordou, as pessoas se levantam e falam, ela sonha com a morte, como se todos tivessem sentido uma coisa, uma presença. Oh, o sono não vinha e as estrelas passavam. Ouvi distintamente no pátio o ruído de um fósforo aceso. Por que alguém se punha a fumar às três horas da manhã? Então senti sede, levantei-me e saí do quarto para beber água. A triste lâmpada do corredor estava acesa, percebi vagamente a mancha preta no ladrilho e parei, assustado. Olhei: a mancha preta se movia.Ou melhor, movia-se um pedacinho (ela sonha que vai morrer, o cão uiva, o canarinho acorda, pessoas se levantaram, uma mãe chama o filho, as portas rangem, alguém fuma, e há talvez um choro de criança).

Vi, no chão, o bichinho preto que movia uma patinha. Era a do meio, à direita. O resto estava imóvel, uma mancha de tinta que caíra da morte. Mas a perninha remava fracamente como se quisesse subir de novo alguma coisa, o rio das trevas, talvez. Teria ainda esperança?

Durante duas horas e meia, dentro da noite — senti um calafrio —, o imundo inseto grudado no ladrilho pelas suas próprias mucilagens viscerais, durante duas horas e meia continuara a morrer e ainda não acabara. Maravilhosamente continuava a morrer, transmitindo, com a última patinha, a sua mensagem. Mas quem a podia colher às três da manhã, na escuridão do corredor de uma pensão desconhecida? Duas horas e meia, pensei, continuamente para cima e para baixo, a última porção de vida na perninha sobrevivente, para invocar justiça. O pranto de uma criança — lera um dia — basta para envenenar o mundo. Em seu coração, Deus onipotente quisera que certas coisas não acontecessem, mas não pôde impedi-lo porque por ele mesmo foi decidido. Mas uma sombra jaz ainda sobre nós. Esmaguei o inseto com o chinelo e, esfregando no chão, esmigalhei-o num longo rasto cinza.

Então, finalmente, o cão calou-se, ela, no sono, se acalmou e parecia quase sorrir, as vozes se apagaram, calou a mãe, não se percebeu mais nenhum sintoma de inquietude do canarinho, a noite recomeçava a passar sobre a casa cansada, a morte fora inchar sua inquietude em outras partes do mundo.

Fonte:
BUZZATTI, Dino. Naquele Exato Momento. RJ: Editora Nova Fronteira, 1986. In
http://www.releituras.com

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Dino Buzzati (O aumento)

Quando ficou sabendo que seu jovem colega Bossi, a mais recente admissão da firma, ganhava mais de vinte mil liras por mês do que ele, Giovanni Battistela viu-se tomado de uma raiva espantosa. E teve uma coragem do que em condições normais lhe pareceria uma loucura: de fazer-se receber pelo diretor e dizer-lhe poucas e boas. E ei-lo que se apresenta no solene escritório em cujo fundo estava sentado o chefe.

— Por favor, por favor. Pode se aproximar…

— Queria me desculpar, senhor comendador, mas…

— Desculpar por quê? Não me fale em se desculpar. Não faltava mais nada, meu caro Battistela. Eu é que devo lhe agradecer por ter vindo.

— O senhor!?

— Eu, sim. E estou contente, contentíssimo em revê-lo. Mas por favor, sente-se, sim, porque as pessoas que nos são caras, em quem temos mais confiança, são precisamente aquelas que mais negligenciamos. Esta é a cruel lei da vida, não é mesmo? Diga, diga, meu caro Battistela, há quanto tempo não trocamos duas palavras em santa paz? Semanas, não é mesmo? Semanas o quê! Meses, talvez. Muitos meses. Eu mesmo não me surpreenderia se, em vez de meses, fossem anos…

— Faz exatamente dois anos e meio…

— Dois anos e meio! Mas acredite, meu caro Battistela, que durante esses dois anos e meio, todas as noites — sabe disso? —, na hora em que fazemos nosso exame de consciência eu pensava sempre no senhor. Todas as noites antes de dormir, comigo mesmo: “E Battistela? E o excelente Battistela? Não estás te esquecendo dele?” Era o que eu mesmo me dizia: “Quando irás te decidir a lhe dar o cargo que ele merece? Um trabalhador como ele, uma coluna mestra da administração, um homem hoje cada vez mais raros…” Assim falava eu, e todas as noites sentia remorso, pode acreditar.

— Pois então, senhor comendador…

— Estou disposto a ajudá-lo, não era isso que ia me perguntar? Ah, n não me diga nada. Acha que eu não o compreendo? Que eu não tenho o condão de captar o seu pensamento? Palavra por palavra, poderei lhe repetir tudo quanto intenção de me dizer… Que existe quem, com muito menos títulos, está ganhando mais do que o senhor, que isso é uma injustiça, que o senhor perdeu a paciência e Não é isso mesmo?

— É, realmente…

— E o senhor, meu caro Battistela, teve um ímpeto de exasperação, não é de? Quem não teria tido, não é mesmo? A injustiça consegue transformar cri mansas e humildes em verdadeiros tigres, não é mesmo?

— Bem, em suma…

— Está vendo? E o senhor pensava que eu não compreenderia, que sabia, que eu não me interessava. Homem de pouquíssima fé!… Bem, este deve belo dia para nós. Esta noite ambos estaremos satisfeitos um com o outro. Que de 150?

— Como?

— Creio que agora o senhor ganha entre 95 e 98, se não me engano, não

— 97.

— Bem. Podemos dar um passo adiante. Um pequeno passo. Cento e cinqüenta. Não chega?

— Bem, confesso que não esperava…

— Está vendo? Não sou mais aquele dragão, aquele carniceiro, aquele devorador de cristãos, aquele lobo esfomeado — não é isso que dizem de mim?

— Eu… eu lhe agradeço.

— Não tem nada que me agradecer. Eu é que lhe agradeço pelo seu trabalho… Um cigarro?

— Obrigado, não fumo…

— Bravo, é mais uma virtude… Quanto a mim, fumo como um desesperado… Bem, bem, quer me parecer que ficou tudo resolvido…

— Bem, quer dizer, não quero mais tirar o seu tempo…

— Não sou eu que vou retê-lo, meu caro Battistela. E faço os melhores votos para que… — suspirou. — É pena!

— “É pena”, por quê?

— Nada, nada… Eu… para você… eu tinha outros projetos. Mas agora é inútil. O que está feito, está feito.

— Outros projetos?

— Sim, projetos, que eu fazia… Mas, agora…

— Comendador, não quer fazer a gentileza de me dizer…?

— Não, eu te conheço. Aquilo que se faz para o seu bem, o senhor leva a mal…

— Isso não é verdade…

— Seria como lhe dar uma prova de confiança, uma demonstração de amizade. Seria. Mas compreendo que poderia lhe dar uma impressão esquisita…

— Esquisita como?

— Além do mais é um assunto… é um assunto extremamente reservado…

— Não confia em mim?

O diretor levantou-se devagar, atravessou o escritório com ar circunspecto, fechou a porta com a chave, parou como se escutasse a passagem de alguém lá fora, avizinhou o indicador dos lábios num gesto de silêncio, voltou à escrivaninha e começou a falar em voz baixa:

— Battistela… me escuta… Eu estou ficando velho…

— Não é verdade.

— Velho, sim. 0 coração às vezes anda falhando. De um dia para o outro…

— Não diga isso nem brincando…

— E onde? Aqui mesmo, nesta escrivaninha? No meu posto, quem sabe? Mas escuta, Battistela…

— Estou ouvindo.

— Recomendo que guarde isso só para você. Porque em você eu confio… De algum tempo para cá fala-se em grandes mudanças…

— Mudanças?

— Com certeza já deve ter ouvido falar, pelo menos por alto: mudança de proprietários, segundo se diz, passando a firma para as mãos de outro grupo financeiro. E sabe o que isso significa?

— Que os chefes atuais vão-se embora e outros virão.

— E isso não lhe diz mais nada? Não compreende o que pode acontecer em tais circunstâncias?

— Não faço a menor idéia…

— Podem vir medidas de contenção de despesas. Porque se esta mudança ocorrer, o motivo é um só: é que as coisas não vão bem, que a crise está sendo sentida também por nós. Razão, portanto, para que a preocupação dos novos donos seja, sem dúvida, a de poupar ao máximo. E de que maneira? É simplicíssimo. Sabe o que se faz, nestes casos?

— Não. O quê?

— Redimensionamento. Bela palavra, não é? Redimensionamento. Sabe o que ela significa? Significa desembaraçar-se do peso excessivo, eis a solução genial. Elimina-se a escória. Aperta-se o cinto. Passa-se uma vista d’olhos na folha de pagamento. E quem tem alta remuneração, zapt! Estes são os primeiros a se fritarem. Como em todos os casos, são só os peixes miúdos que se salvam.

— E então, quer que eu fique contente com a idéia de ver liquidado um como o senhor? 0 meu dever, neste caso, uma vez que tenho um peso na consciência é o de alertá-lo, meu caro Battistela. Não só o de alertá-lo, como o de ajudá-lo essa possível ameaça.

— Evitar?

— Claro. Quero subtraí-lo à dizimação, mimetizá-lo, colocá-lo num posição segura. Mas é inútil. Os senhores, os jovens, não se dão conta de que…

— Ao contrário. Pode dizer, comendador, pode dizer…

— Quer que eu lhe fale com o coração nas mãos? Como se o senhor fosse o meu próprio filho? Bem… se eu fosse o senhor, frente a uma conjectura desta, sabe que coisa…

— Que coisa o senhor faria?

— É fácil compreender. A moral da história é a seguinte: melhorando a sua situação financeira, no fundo eu lhe prestei um péssimo serviço. Foi a mesma coisa que se eu o atirasse na rua, para falar tipo pão-pão, queijo-queijo…

— De maneira que eu…

— Caro Battistela, não quero que amanhã venha a ter motivos para me recriminar. Se amanhã o senhor vier a me perguntar: mas, comendador, por que não me avisou antes? Por que não me abriu os olhos? Meu querido, as coisas estão a um ponto tal que, mude-se ou não de patrões, um dia eu me verei constrangido a adotar medidas severas. E por que haverá de ser com o seu sacrifício?

— Mas, eu… Bem, não estou compreendendo… Está me falando de aumento? Acha que é melhor eu esperar?

— Não, nada de esperar! Se prevenir, sim. 0 que fazem os soldados, quando os inimigos abrem fogo? Abaixam a cabeça, agacham-se no chão para não serem feridos. Agache-se também, Battistela.

— Agachar-me?

— Em sentido figurado, bem entendido. No momento, convém uma manobra, uma dissimulação, um subterfúgio estratégico. No momento, convém exagerar no seu zelo. Compreendeu, Battistela?

— Realmente…

— E depois, que importância teria para o senhor, que é solteiro, uma redução no salário? Se em vez de 97 fossem apenas 80, isso não causaria a morte de ninguém. Digo-lhe isso porque agora até os ordenados de 90 estão dando na vista. Mas em compensação… considere a segurança, a tranqüilidade, a certeza de não ir de encontro com nenhum desprazer.

— Redução de salário?

— Está vendo como eu não estava enganado? Como era melhor me calado? 0 senhor já está dando às minhas palavras uma interpretação negativa.

— 0 senhor disse oitenta mil?

— Setenta talvez fosse melhor, mas creio que oitenta será o suficiente…

— Mas comendador…

— Eu sabia. 0 senhor é um rapaz inteligente, pega as coisas no ar, toma decisões com rapidez… Pense agora se eu, em vez de lhe falar sobre isso, me calasse… O senhor teria lá o seu aumento. De cinqüenta mil por mês. Mas, e depois? Ia se meter em poucas e boas! Seria carregado pela primeira onda. Menos mal, menos mal que existe alguém que lhe quer bem…

— Quer dizer que acha mesmo que o aumento…?

— Não resta a menor dúvida, meu filho: seria o mesmo que estar com uma corda no pescoço.

— Bem, comendador, eu lhe agradeço. O senhor me poupou de um grande aborrecimento.

— Não precisa agradecer… Vá, volte contente, volte tranqüilo para o seu trabalho. E, meu caro Battistela, saiba que o meu desgosto é apenas um: o de não poder fazer pelo senhor — eu lhe juro — um pouco mais do que fiz.

Fonte:
COSTA, Flávio Moreira (org.). Os cem melhores contos de humor da literatura universal. RJ: Ediouro, 2001. In: http://www.releituras.com

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Lima Barreto (1881 – 1922)

Afonso Henriques de Lima Barreto (Rio de Janeiro, 13 de Maio de 1881 – Rio de Janeiro, 1º de Novembro de 1922) foi um jornalista e um dos mais importantes escritores brasileiros.

Era filho de João Henrique de Lima Barreto (mulato nascido escravo) e de Amália Augusta (filha de escrava agregada da família Pereira Carvalho). Seu pai foi tipógrafo. Aprendeu a profissão no Imperial Instituto Artístico, que imprimia o famoso periódico A Semana Ilustrada. Sua mãe foi educada com esmero, sendo professora da 1º á 4º séries. Ela morreu cedo e Manoel Joaquim trabalhou muito para sustentar os quatro filhos do casal, como tipógrafo. Manoel Joaquim era monarquista, ligado ao Visconde de Ouro Preto, padrinho do futuro escritor. Talvez as lembranças saudosistas do fim do período imperial no Brasil, bem como suas remotas lembranças da Abolição da Escravatura na infância viriam a exercer influência sobre a visão crítica de Lima Barreto sobre o regime republicano.

Lima Barreto, mulato e portanto vítima do racismo num Brasil que mal acabara de abolir oficialmente a escravatura, teve oportunidade de boa instrução escolar. Com sua mãe Amália aprendera o á-bê-cê. Após a sua morte, passou a frequentar a escola pública de D. Teresa Pimentel do Amaral. Em seguida, passou a cursar o Liceu Popular Niteroiense, após o seu padrinho, o Viscode do Ouro Preto, concordar em custear sua eduação. Lá ficará até 1894, completando o curso secundário e parte do suplento. Em 1895, transferiu-se para a única instituição pública de ensino secundário da época, o conceituado Colégio Pedro II, cujos estudantes eram oriundos basicamente da elite econômica. No ano de 1895 foi admitido no curso da Escola Politécnica, no Rio de Janeiro porém foi obrigado a abandoná-lo em 1904 para assumir o sustento dos irmãos, porquanto seu pai enlouquecera. Tendo sido repetidamente reprovado por não se interessar muito pelas matérias – passava as tardes na Biblioteca Nacional -, deixou de graduar-se em Mecânica. Data dessa época sua entrada no Ministério da Guerra como amanuense, por concurso. O cargo, somado às muitas colaborações em diversos órgãos da imprensa escrita, garantia-lhe algum sustento financeiro. Não obstante, o escritor, que só veio a ser reconhecido fundamental para a Literatura Brasileira após seu precoce falecimento, cada vez mais deixava-se consumir pelo alcoolismo e por estados emocionais caracterizados por crises de profunda depressão e morbidez.

Lima Barreto começou a sua colaboração na imprensa desde estudante, em 1902, colaborando no A Quinzena Alegre, depois no Tagarela, O Diabo, e na Revista da Época. Em jornais de maior circulação, começou em 1905, escrevendo no Correio da Manhã uma série de reportagens sobre a demolição do Morro do Castelo. Daí em diante, colabora em vários jornais e revistas, Fon-Fon, Floreal, Gazeta da Tarde, Jornal do Comercio, Correio da Noite, A Noite, (onde publica em folhetins, Numa e a Ninfa), Careta, A.B.C., um novo A Lanterna (vespertino), Brás Cubas (semanário), Hoje, Revista Souza Cruz e O Mundo Literário.

Em 1911 editou com amigos a revista Floreal, que conseguiu sobreviver apenas até a segunda edição, mas despertou a atenção de alguns poucos críticos. 1909 foi o ano de sua estréia como escritor de ficção, publicando, em Portugal, o romance Recordações do Escrivão Isaías Caminha. A narrativa de Lima Barrreto nesse primeiro livro, pincelada com indisfarçáveis traços autobiográficos, mostra uma contundente crítica à sociedade brasileira, por ele considerada preconceituosa e profundamente hipócrita, até mesmo os bastidores da imprensa opinativa são alvo de sua narrativa mordaz, inspirados na redação do Cartas da Tarde. Em 1914 começou a publicação, em formato de folhetins no Jornal do Dia, de sua mais importante obra, Triste Fim de Policarpo Quaresma, que um ano mais tarde foi editado em brochura e considerado pela crítica especializada como basilar no períodoPré-Modernista.

Entre os leitores, as duas obras anteriormente citadas alcançaram algum êxito, o que não impediu que o autor sofresse severas críticas de outros escritores da época. Baseavam-se elas no fato de Lima fugir, conscientemente, do padrão empolado de escrever que à época vigorava. Chamavam-no “relaxado” por não usar o português castiço e utilizar uma linguagem mais coloquial, muito própria de quem militava na imprensa. Incomodava também o fato de seus personagens não seguirem o “molde” vigente, que impunha limites à criação e exaltava determinadas características psicológicas. Não à toa viu frustradas suas tentativas de ingressar na Academia Brasileira de Letras. A respeito de seus impiedosos e inimigos críticos, Lima acusava-os de fazerem da literatura não uma arte e sim algo mecânico, uma espécie de “continuação do exame de português jurídico”.

Simpático ao Anarquismo, passou a militar na imprensa socialista.

Sua vida foi atribulada pelo alcoolismo e por internações psiquiátricas, ocorridas durante suas crises severas de depressão – à época era um dos sintomas pertencentes ao diagnóstico de “neurastenia”, constante de sua ficha médica – vindo a falecer aos 41 anos de idade.

As obras

Lima Barreto foi o crítico mais agudo da época da República Velha no Brasil, rompendo com o nacionalismo ufanista e pondo a nu a roupagem da República, que manteve os privilégios de famílias aristocráticas e dos militares.

Em sua obra, de temática social, privilegiou os pobres, os boêmios e os arruinados.

Foi severamente criticado pelos seus contemporâneos parnasianos por seu estilo despojado, fluente e coloquial, que acabou influenciando os escritores modernistas.

Lima Barreto queria que a sua literatura fosse militante. Escrever tinha finalidade de criticar o mundo circundante para despertar alternativas renovadoras dos costumes e de práticas que, na sociedade, privilegiavam pessoas e grupos. Para ele, o escritor tinha uma função social.

Obras
– O Subterrâneo do Morro do Castelo
– Recordações do Escrivão Isaías Caminha
– Triste Fim de Policarpo Quaresma
– Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá
– Cemitério dos Vivos
– Histórias e Sonhos
– Os Bruzundangas
– Clara dos Anjos (póstumo)
– Outras Histórias e Contos Argelinos
– Coisas do Reino de Jambom
– O Homem que Sabia Javanês e outros contos
– A Cartomante

Curiosidade
Foi homenageado, no Carnaval carioca de 1982, pela Escola de Samba GRES Unidos da Tijuca, com o samba-enredo “Lima Barreto, mulato pobre mas livre”.

Fonte:
http://pt.wikipedia.org

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Lima Barreto (Triste Fim de Policarpo Quaresma)

Triste Fim de Policarpo Quaresma é um romance do pré-modernismo brasileiro e considerado por alguns o principal representante desse movimento.

Escrito por Afonso Henriques de Lima Barreto, foi levado a público pela primeira vez em folhetins, publicados, entre Agosto e Outubro de 1911, na edição da tarde do Jornal do Commercio do Rio de Janeiro. Em 1915, também no Rio de Janeiro, a obra foi pela primeira vez impressa em livro, em edição do autor.

O romance discute principalmente a questão do nacionalismo, mas também fala do abismo existente entre as pessoas idealistas e aquelas que se preocupam apenas com seus interesses e com sua vida comum. Com uma narrativa leve que em alguns pontos chega a ser cômica, mas sempre salpicada de pequenas críticas a vários aspectos da sociedade, a história se torna mais tensa apenas quando o autor analisa a loucura e no seu final, quando são feitas duras críticas ao positivismo e ao presidente Floriano Peixoto (1891-1894).

O autor optou por escrever a narrativa numa linguagem próxima à informal falada entre os cariocas. Ela se desenvolve em torno de Policarpo Quaresma, brasileiro extremamente nacionalista, e é dividida em três partes, cada uma contendo cinco capítulos.

A Epígrafe
“Le grand inconvénient de la vie réelle et qui la rend insupportable à l’homme supérieur, c’est que, si l’on y transporte les principes de l’idéal, les qualités deviennent des défauts, si bien que fort souvent l’homme accompli y réussit moins bien que celui qui a pour mobiles l’égoïsme ou la routine vulgaire.”
(O grande inconveniente da vida real e que a torna insuportável para o homem superior é que, se para ela são transportados os princípios do ideal, as qualidades se tornam defeitos, tanto que muito freqüentemente aquele homem superior realiza e consegue bem menos do que aqueles movidos pelo egoísmo e pela rotina vulgar.)

A epígrafe do romance é retirada do vigésimo sexto capítulo de “Marco Aurélio ou o fim do mundo antigo” (“Marc-Aurèle ou la fin du monde antique”), último volume da obra As origens do cristianismo (“Les origines du christianisme”) do escritor e pensador francês Ernest Renan. Renan parece argumentar que os altos ideais, muito nobres, de pouco valem no mundo real, governado por interesses e proveitos pessoais, o que nos prepara para o fracasso final de Policarpo Quaresma.

Enredo

Primeira parte

A primeira parte da obra se desenrola na cidade do Rio de Janeiro, logo após a proclamação da República no Brasil, e introduz as principais personagens.

O major Policarpo Quaresma é um reservado funcionário do Arsenal de Guerra que vive com a irmã, Adelaide, e é marcado por um forte sentimento nacionalista.

Buscando saídas políticas, econômicas e culturais para o Brasil, Policarpo passa grande parte de seu tempo enfiado nos livros, pelo que é criticado por parte da vizinhança – que o critica ainda mais quando ele decide aprender a tocar um instrumento mal visto pela burguesa sociedade carioca da época, o violão, por considerá-lo um representante do espírito popular do país.

E é no aprendizado do instrumento que conhece aquele que será seu grande amigo no correr do romance, o seresteiro Ricardo Coração dos Outros, contratado para lhe ensinar. Porém, cedo Policarpo se desencanta pelo violão – e pelo folclore – e parte em busca das tradições genuinamente nacionais, i.e. indígenas.

Tal aprendizado leva a alguns momentos cômicos – como quando Policarpo recebe a afilhada e o compadre aos prantos – e à tragédia da loucura: após ter sugerido à Assembléia Legislativa republicana a adoção do Tupi como língua oficial – e ser motivo de chacota de toda a imprensa e dos colegas de repartição -, Policarpo redige, distraído, um documento oficial naquela língua e termina, após uma elipse temporal, internado num manicômio.

Lima Barreto aproveita também para ridicularizar a pequena burguesia suburbana em vários momentos, como na festa de noivado de Ismênia, filha do inútil general Albernaz, freqüentada por pedantes funcionários públicos e militares preocupados unicamente com a aposentadoria.

Segunda parte

Na segunda parte, são analisados os problemas enfrentados pela porção rural do país.

São e aposentado, Policarpo vende sua casa e compra, por sugestão da afilhada Olga, um sítio na fictícia cidade de Curuzu, ao qual ele chama de Sossego e onde ele passa a tentar provar a decantada fertilidade do solo brasileiro.

Com a ajuda do empregado Anastácio, Policarpo luta contra saúvas, ervas daninhas e outras pragas na tentativa de incentivar a iniciativa agrícola em outras pessoas e ajudar no crescimento econômico do Brasil.

A fertilidade do solo, no entanto, não se comprova na prática, e sua plantação gerou pouquíssimos lucros. Para piorar, Policarpo viu-se envolvido, involuntariamente, na luta política da cidade, sendo atacado com multas e difamações por gregos e troianos, tudo por causa de sua suspeita (para os locais) neutralidade.

Ao saber sobre a Revolta da Armada, nosso protagonista “pede energia” em telegrama ao Presidente Floriano Peixoto e segue para o Rio de Janeiro para dar apoio ao regime e sugerir reformas que mudassem a situação agrária.

Terceira parte

Última e mais tensa parte do livro, narra as andanças de Policarpo pela Capital Federal durante a Revolta da Armada e mostra sua desilusão final. Há aqui uma crítica feroz aos positivistas que apoiavam a Primeira República.

Chegado ao Rio, Policarpo é bem recebido por Floriano Peixoto, que, no entanto, dá pouca atenção às suas propostas de reforma.

Decidido a lutar pela República, Policarpo é então incorporado a um batalhão, o “Cruzeiro do Sul”, com o posto de major, o que, apesar do apelido, ele nunca fôra.

Encarregado de um pelotão de artilharia improvisado com voluntariados à força – como seu amigo Ricardo Coração dos Outros -, Policarpo deveria rechaçar investidas dos marinheiros às praias cariocas.

A revolta criava ao mesmo tempo tensão – devido a prisões e violências arbitrárias – e oportunidades de ascensão social e empregatícia a cupinchas e puxa-sacos. Policarpo, enquanto isto, percebe que suas propostas não eram levadas a sério – é chamado, de forma um tanto irônica, de visionário pelo indolente Marechal de Ferro Floriano Peixoto – e desilude ainda mais quando, tendo entrado em combate, acaba por matar um dos revoltosos.

Finda a Revolta e encarregado de cuidar de um grupo de prisioneiros, Policarpo chega à conclusão de que a pátria, à qual ele sacrificara sua vida de estudos, era uma ilusão.

Seu destino é selado quando, após presenciar a escolha arbitrária de prisioneiros a serem executados, ele escreve uma carta a Floriano Peixoto denunciando a situação: o maior patriota de todo o livro é injustamente preso, acusado de traição.

Ricardo Coração dos Outros, inteirado da situação, procura todos os antigos amigos e conhecidos de Policarpo para ajudá-lo, mas todos se recusam por medo ou ganância, com exceção da afilhada, Olga, que, no entanto, parece incapaz de fazer qualquer coisa pelo padrinho a quem admira tanto.

O romance, no entanto, acaba em aberto, e ficamos sem saber se Policarpo será ou não, de fato, fuzilado.

Filme

Intitulado Policarpo Quaresma, Herói do Brasil, o filme de 1998 tem roteiro de Alcione Araújo e foi dirigido por Paulo Thiago. Embora respeitando em linhas gerais o enredo de Lima Barreto, esta adaptação toma algumas liberdades (como criar uma relação amorosa entre Policarpo e Ismênia e mostrar o fuzilamento final do protagonista, que não é descrito no livro) e satiriza aspectos da política brasileira atual, como quando um grupo de sem-terras invade o sítio do Major Quaresma, “Sossego”.

Fontes:
http://pt.wikipedia.org
http://www.adorocinemabrasileiro.com.br (imagem)

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Lima Barreto (Carta de um defunto rico)

“Meus caros amigos e parentes. Cá estou no carneiro n° 7…, da 3a quadra, à direita, como vocês devem saber, porque me puseram nele. Este Cemitério de São João Batista da Lagoa não é dos piores. Para os vivos, é grave e solene, com o seu severo fundo de escuro e padrasto granítico. A escassa verdura verde-negra das montanhas de roda não diminuiu em nada a imponência da antiguidade da rocha dominante nelas. Há certa grandeza melancólica nisto tudo; mora neste pequeno vale uma tristeza teimosa que nem o sol glorioso espanta… Tenho, apesar do que se possa supor em contrário, uma grande satisfação; não estou mais preso ao meu corpo. Ele está no aludido buraco, unicamente a fim de que vocês tenham um marco, um sinal palpável para as suas recordações; mas anda em toda a parte.

Consegui afinal, como desejava o poeta, elevar-me bem longe dos miasmas mórbidos, purificar-me no ar superior — e bebo, como um puro e divino licor, o fogo claro que enche os límpidos espaços.

Não tenho as dificultosas tarefas que, por aí, pela superfície da terra, atazanam a inteligência de tanta gente.

Não me preocupa, por exemplo, saber se devo ir receber o poderoso imperador do Beluchistã com ou sem colarinho; não consulto autoridades constitucionais para autorizar minha mulher a oferecer ou não lugares do seu automóvel a príncipes herdeiros — coisa, aliás, que é sempre agradável às senhoras de uma democracia; não sou obrigado, para obter um título nobiliárquico, de uma problemática monarquia, a andar pelos adelos, catando suspeitas bugigangas, e pedir a literatos das ante-salas palacianas que as proclamem raridades de beleza, a fim de encherem salões de casas de bailes e emocionarem os ingênuos com recordações de um passado que não devia ser avivado.

Afirmando isto, tenho que dizer as razões. Em primeiro lugar, tais bugigangas não têm, por si, em geral, beleza alguma; e, se a tiveram era emprestada pelas almas dos que se serviram delas. Semelhante beleza só pode ser sentida pelos descendentes dos seus primitivos donos.

Demais, elas perdem todo o interesse, todo o seu valor, tudo o que nelas possa haver de emocional, desde que percam a sua utilidade e desde que sejam retiradas dos seus lugares próprios. Há senhoras belas, no seu interior, com os seus móveis e as costuras; mas que não o são na rua, nas salas de baile e de teatro. O homem e as suas criações precisam, para refulgir, do seu ambiente próprio, penetrado, saturado das dores, dos anseios, das alegrias de sua alma; é com as emanações de sua vitalidade, é com as vibrações misteriosas de sua existência que as coisas se enchem de beleza.

É o sumo de sua vida que empresta beleza às coisas mortais; é a alma do personagem que faz a grandeza do drama, não são os versos, as metáforas, a linguagem em si, etc., etc. Estando ela ausente, por incapacidade do ator, o drama não vale nada.

Por isso, sinto-me bem contente de não ser obrigado a caçar, nos belchiores e cafundós domésticos, bugigangas, para agradar futuros e problemáticos imperantes, porque teria que dar a elas alma, tentativa em projeto que, além de inatingível, é supremamente sacrílego.

De resto, para ser completa essa reconstrução do passado ou essa visão dele, não se podia prescindir de certos utensílios de uso secreto e discreto, nem tampouco esquecer determinados instrumentos de tortura e suplício, empregados pelas autoridades e grão-senhores no castigo dos seus escravos.

Há, no passado, muitas coisas que devem ser desprezadas e inteiramente eliminadas, com o correr do tempo, para a felicidade da espécie, a exemplo do que a digestão faz, para a do indivíduo, com certas substâncias dos alimentos que ingerimos.

Mas… estou na cova e não devo relembrar aos viventes coisas dolorosas.

Os mortos não perseguem ninguém e só podem gozar da beatitude da superexistência aqueles que se purificam pelo arrependimento e destroem na sua alma todo o ódio, todo o despeito, todo o rancor.

Os que não conseguem isso — ai deles!

Alonguei-me nessas considerações intempestivas, quando a minha tenção era outra.

O meu propósito era dizer a vocês que o enterro esteve lindo. Eu posso dizer isto sem vaidade, porque o prazer dele, da sua magnificência, do seu luxo, não é propriamente meu, mas de vocês, e não há mal algum que um vivente tenha um naco de vaidade, mesmo quando é presidente de alguma coisa ou imortal da Academia de Letras.

Enterro e demais cerimônias fúnebres não interessam ao defunto; elas são feitas por vivos para vivos.

É uma tolice de certos senhores disporem nos seus testamentos como devem ser enterrados. Cada um enterra seu pai como pode — é uma sentença popular, cujo ensinamento deve ser tomado no sentido mais amplo possível, dando aos sobreviventes a responsabilidade total do enterro dos seus parentes e amigos, tanto na forma como no fundo.

O meu, feito por vocês, foi de truz. O carro estava soberbamente agaloado; os cavalos bem paramentados e empenachados; as riquíssimas coroas, além de ricas, eram lindas. Da Haddock Lobo, daquele casarão que ganhei com auxílio das ordens terceiras, das leis, do câmbio e outras fatalidades econômicas e sociais que fazem pobres a maior parte dos sujeitos e a mim me fizeram rico; da porta dele até o portão de São João Batista, o meu enterro foi um deslumbramento. Não havia, na rua, quem não perguntasse quem ia ali.

Triste destino o meu, esse de, nos instantes do meu enterramento, toda uma população de uma vasta cidade querer saber o meu nome e dali a minutos, com a última pá de terra deitada na minha sepultura, vir a ser esquecido, até pelos meus próprios parentes.

Faço esta reflexão somente por fazer, porque, desde muito, havia encontrado, no fundo das coisas humanas, um vazio absoluto.

Essa convicção me veio com as meditações seguidas que me foram provocadas pelo fato de meu filho Carlos, com quem gastei uma fortuna em mestres, a quem formei, a quem coloquei altamente, não saber nada desta vida, até menos do que eu.

Adivinhei isto e fiquei a matutar como que é que ele gozava de tanta consideração fácil e eu apenas merecia uma contrariedade? Eu, que…

Carlos, meu filho, se leres isto, dá o teu ordenado àquele pobre rapaz que te fez as sabatinas por “tuta-e-meia”; e contenta-te com o que herdaste do teu pai e com o que tem tua mulher! Se não fizeres… ai de ti!

Nem o Carlos nem vocês outros, espero, encontrarão nesta última observação matéria para ter queixa de mim. Eu não tenho mais amizade, nem inimizade.

Os vivos me merecem unicamente piedade; e o que me deu esta situação deliciosa em que estou, foi ter sido, às vezes, profundamente bom. Atualmente, sou sempre…

Não seria, portanto, agora que, perto da terra, estou, entretanto, longe dela, que havia de fazer recriminações a meu filho ou tentar desmoralizá-lo. Minha missão, quando me consentem, é fazer bem e aconselhar o arrependimento.

Agradeço a vocês o cuidado que tiveram com o meu enterro; mas, seja-me permitido, caros parentes e amigos, dizer a vocês uma coisa. Tudo estava lindo e rico; mas um cuidado vocês não tiveram. Por que vocês não forneceram librés novas aos cocheiros das caleças, sobretudo, ao do coche, que estava vestido de tal maneira andrajosa que causava dó?

Se vocês tiverem que fazer outro enterro, não se esqueçam de vestir bem os pobres cocheiros, com o que o defunto, caso seja como eu, ficará muito satisfeito. O brilho do cortejo será maior e vocês terão prestado uma obra de caridade.

Era o que eu tinha a dizer a vocês. Não me despeço, pelo simples motivo de que estou sempre junto de vocês. É tudo isto do

José Boaventura da Silva.

N.B. – Residência, segundo a Santa Casa: Cemitério de São João Batista da Lagoa; e segundo a sabedoria universal, em toda a parte. – J.B.S.”

Posso garantir que transladei esta carta para aqui, sem omissão de uma vírgula.

Fontes:
COSTA, Flávio Moreira da (org.). Os 100 melhores contos de humor da literatura universal. RJ: Ediouro, 2001. In http://www.releituras.com
http://encantandotempo.blogspot.com (imagem)

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Lygia Fagundes Telles (O menino e o velho)

Quando entrei no pequeno restaurante da praia os dois já estavam sentados, o velho e o menino. Manhã de um azul flamante. Fiquei olhando o mar que não via há algum tempo e era o mesmo mar de antes, um mar que se repetia e era irrepetível. Misterioso e sem mistério nas ondas estourando naquelas espumas flutuantes (bom-dia, Castro Alves!) tão efêmeras e eternas, nascendo e morrendo ali na areia. O garçom, um simpático alemão corado, me reconheceu logo. Franz?, eu perguntei e ele fez uma continência, baixou a bandeja e deixou na minha frente o copo de chope. Pedi um sanduíche. Pão preto?, ele lembrou e foi em seguida até a mesa do velho que pediu outra garrafa de água de Vichy.

Fixei o olhar na mesa ocupada pelos dois, agora o velho dizia alguma coisa que fez o menino rir, um avô com o neto. E não era um avô com o neto, tão nítidas as tais diferenças de classe no contraste entre o homem vestido com simplicidade mas num estilo rebuscado e o menino encardido, um moleque de alguma escola pobre, a mochila de livros toda esbagaçada no espaldar da cadeira. Deixei baixar a espuma do chope mas não olhava o copo, com o olhar suplente (sem direção e direcionado) olhava o menino que mostrava ao velho as pontas dos dedos sujas de tinta, treze, catorze anos? O velho espigado alisou a cabeleira branca em desordem (o vento) e mergulhou a ponta do guardanapo de papel no copo d’água. Passou o guardanapo para o menino que limpou impaciente as pontas dos dedos e logo desistiu da limpeza porque o suntuoso sorvete coroado de creme e pedaços de frutas cristalizadas já estava derretendo na taça. Mergulhou a colher no sorvete. A boca pequena tinha o lábio superior curto deixando aparecer os dois dentes da frente mais salientes do que os outros e com isso a expressão adquiria uma graça meio zombeteira. Os olhos oblíquos sorriam acompanhando a boca mas o anguloso rostinho guardava a palidez da fome. O velho apertava os olhos para ver melhor e seu olhar era demorado enquanto ia acendendo o cachimbo com gestos vagarosos, compondo todo um ritual de elegância. Deixou o cachimbo no canto da boca e consertou o colarinho da camisa branca que aparecia sob o decote do suéter verde-claro, devia estar sentindo calor mas não tirou o suéter, apenas desabotoou o colarinho. Na aparência, tudo normal: ainda com os resíduos da antiga beleza o avô foi buscar o neto na saída da escola e agora faziam um lanche, gazeteavam? Mas o avô não era o avô. Achei-o parecido com o artista inglês que vi num filme, um velho assim esguio e bem cuidado, fumando o seu cachimbo. Não era um filme de terror mas o cenário noturno tinha qualquer coisa de sinistro com seu castelo descabelado. A lareira acesa. As tapeçarias. E a longa escada com os retratos dos antepassados subindo (ou descendo) aqueles degraus que rangiam sob o gasto tapete vermelho.

Cortei pelo meio o sanduíche grande demais e polvilhei o pão com sal. Não estava olhando mas percebia que os dois agora conversavam em voz baixa, a taça de sorvete esvaziada, o cachimbo apagado e a voz apagada do velho no mesmo tom caviloso dos carunchos cavando (roque-roque) as suas galerias. Acabei de esvaziar o copo e chamei o Franz. Quando passei pela mesa os dois ainda conversavam em voz baixa – foi impressão minha ou o velho evitou o meu olhar? O menino do labiozinho curto (as pontas dos dedos ainda sujas de tinta) olhou-me com essa vaga curiosidade que têm as crianças diante dos adultos, esboçou um sorriso e concentrou-se de novo no velho. O garçom alemão acompanhou-me afável até a porta, o restaurante ainda estava vazio. Quase me lembrei agora, eu disse. Do nome do artista, esse senhor é muito parecido com o artista de um filme que vi na televisão. Franz sacudiu a cabeça com ar grave: Homem muito bom! Cheguei a dizer que não gostava dele ou só pensei em dizer? Atravessei a avenida e fui ao calçadão para ficar junto do mar.

Voltei ao restaurante com um amigo (duas ou três semanas depois) e na mesma mesa, o velho e o menino. Entardecia. Ao cruzar com ambos, bastou um rápido olhar para ver a transformação do menino com sua nova roupa e novo corte de cabelo. Comia com voracidade (as mãos limpas) um prato de batatas fritas. E o velho com sua cara atenta e terna, o cachimbo, a garrafa de água e um prato de massa ainda intocado. Vestia um blazer preto e malha de seda branca, gola alta.

Puxei a cadeira para assim ficar de costas para os dois, entretida com a conversa sobre cinema, o meu amigo era cineasta. Quando saímos a mesa já estava desocupada. Vi a nova mochila (lona verde-garrafa, alças de couro) dependurada na cadeira. Ele esqueceu, eu disse e apontei a mochila para o Franz que passou por mim afobado, o restaurante encheu de repente. Na porta, enquanto me despedia do meu amigo, vi o menino chegar correndo para pegar a mochila. Reconheceu-me e justificou-se (os olhos oblíquos riam mais do que a boca), Droga! Acho que não esqueço a cabeça porque está grudada.

Pressenti o velho esperando um pouco adiante no meio da calçada e tomei a direção oposta. O mar e o céu formavam agora uma única mancha azul-escura na luz turva que ia dissolvendo os contornos. Quase noite. Fui andando e pensando no filme inglês com os grandes candelabros e um certo palor vindo das telas dos retratos ao longo da escadaria. Na cabeceira da mesa, o velho de chambre de cetim escuro com o perfil esfumaçado. Nítido, o menino e sua metamorfose mas persistindo a palidez. E a graça do olhar que ria com o labiozinho curto.

No fim do ano, ao passar pelo pequeno restaurante resolvi entrar mas antes olhei através da janela, não queria encontrar o velho e o menino, não me apetecia vê-los, era isso, questão de apetite. A mesa estava com um casal de jovens. Entrei e Franz veio todo contente, estranhou a minha ausência (sempre estranhava) e indicou-me a única mesa desocupada. Hora do almoço. Colocou na minha frente um copo de chope, o cardápio aberto e de repente fechou-se sua cara num sobressalto. Inclinou-se, a voz quase sussurrante, os olhos arregalados. Ficou passando e repassando o guardanapo no mármore limpo da mesa, A senhora se lembra? Aquele senhor com o menino que ficava ali adiante, disse e indicou com a cabeça a mesa agora ocupada pelos jovens. Ich! foi uma coisa horrível! Tão horrível, aquele menininho, lembra? Pois ele enforcou o pobre do velho com uma cordinha de náilon, roubou o que pôde e deu no pé! Um homem tão bom! Foi encontrado pelo motorista na segunda-feira e o crime foi no sábado. Estava nu, o corpo todo judiado e a cordinha no pescoço, a senhora não viu no jornal?! Ele morava num apartamento aqui perto, a policia veio perguntar mas o que a gente sabe? A gente não sabe de nada! O pior é que não vão pegar o garoto, ich! Ele é igual a esses bichinhos que a gente vê na areia e que logo afundam e ninguém encontra mais. Nem com escavadeira a gente não encontra não. Já vou, já vou!, ele avisou em voz alta, acenando com o guardanapo para a mesa perto da porta e que chamava fazendo tilintar os talheres. Ninguém mais tem paciência, já vou!…

Olhei para fora. Enquadrado pela janela, o mar pesado, cor de chumbo, rugia rancoroso. Fui examinando o cardápio, não, nem peixe nem carne. Uma salada. Fiquei olhando a espuma branca do chope ir baixando no copo.

Fontes:
TELLES, Lygia Fagundes. Invenção e Memória. RJ: Editora Rocco, 2000. In
http://www.releituras.com
http://www.brechofuzenga.com (imagem)

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Prosper Mérimée (1803 – 1870)

Prosper Merimée, (Paris, 28 de setembro de 1803 – Cannes, 23 de setembro de 1870) historiador, arqueólogo e escritor romântico francês, célebre pelo conto Carmen.

Biografia

Era filho único de Leonor Merimée e Anne-Louise Merimée na Paris de Napoleão. Seu pai era pintor e professor de desenho, o que influenciou o filho a primeiro estudar no Liceu Imperial. Deixou o Liceu para fazer Direito, formando-se em 1823.

Também aprendeu grego, espanhol, inglês, e russo. Foi o primeiro a traduzir obras literárias russas para o francês.

Ocupou diversos cargos públicos, em todos eles destacando-se pelo bom desempenho de seus deveres. Foi nomeado (1830) Inspetor dos Monumentos Históricos, revelando-se um arqueólogo nato, combinando suas habilidades lingüísticas, uma notável avaliação histórica e sincero devotamento às artes, desenho e arquitetura. Neste mister, seus relatórios vieram muitas vezes a merecer publicação, e destaque em sua produção, ao largo da literária. A ele se deve, em boa parte, a conservação do rico legado cultural, do qual tanto se orgulha o povo francês.

Neste mesmo ano conheceu e auxiliou a Condessa de Montijo, espanhola. Quando a filha dela tornou-se a Imperatriz Eugénie, da França, em 1853, Mérimée foi honrado com o cargo de senador.

Prosper Mérimée morreu em Cannes, França e ali foi sepultado no Cimetière du Grand Jas.

Romantismo e História

Mérimée gostava do misticismo, da história e das coisas incomuns. Influenciado diretamente pela ficção histórica de Walter Scott e pelo drama psicológico e cruel de Pushkin, seu estilo porém era conciso, bastante objetivo – apesar de marcadamente dramático. Muitas de suas obras fictícias retratam lugares de forma bastante exótica – dedicando-se particularmente à Espanha e à Rússia.

Estreou como literato em 1825, com “O Teatro de Clara Gazul” – atribuindo satiricamente a autoria do texto a esta célebre “comediante espanhola”. Antes, porém, havia escrito a peça “Cromwell” (1822) que nunca foi publicado e nenhuma cópia existe. Mérimée sentiu suas semelhanças óbvias com a política francesa contemporâneas e destruiu o manuscrito.

Obras

Além dos dois escritos citados, temos:

La Guzla (1827) – outra sátira, com vários textos de temas místicos, que teriam sido traduzidos do Ilírico original por um certo Hyacinthe Maglanowich (a Ilíria é um antigo país onde hoje é a região ocidental da Turquia).
La Jacquerie (1828) – drama sobre uma insurreição camponesa nos tempos feudais.
massacre de S. Bartolomeu, em 1572.
Mateo Falcone (1829) – conto sobre a ilha da Córsega, tendo o personagem título matado o próprio filho em nome da justiça, e publicado em seguida, numa coletânea. Este conto gerou uma ópera homônima, do compositor russo César Cui (vide excerto abaixo).
Mosaïque (1833) – Reunião de contos, dentre os quais Mateo Falcone, Tamango, Federigo, Baladas, O Vaso Etrusco, etc.. Além destes, três cartas espanholas. A maioria dos contos já havia sido publicada na “Revista de Paris”, entre 1829 e 1830.
La d’Ille de Vénus (1837) – conto de horror fantástico onde uma estátua de bronze ganha vida.
Notas de Viagens (1835-40) – em que descreve suas viagens pela Grécia, Espanha, Turquia, e na própria França.
Colomba (1840) – esta foi sua primeira novela de sucesso. Conta a história de uma jovem moça corsa que obriga seu irmão a cometer um assassinato para se vingar.
Carmen (1845) – A mais famosa de suas novelas, narra a história de uma bela cigana infiel que é morta pelo amante, um oficial espanhol. Em 1875, foi transformada em ópera, por Georges Bizet (cartaz da época, ao lado), além de vários filmes.
Lokis (1869) – ambientado no Leste Europeu, é uma história de terror onde um homem, metade urso e metade gente, gostava de se alimentar de carne humana.
A Câmara Azul (1872) – uma farsa com todos os caracteres de conto sobrenatural, mas onde ao final tudo volta a ser como era antes…
Lettres à une inconnue (1874) – reunião de cartas de Mérimée para Jenny Dacquin, publicadas depois de sua morte.

Mateo Falcone – Excertos e resumo

Para ilustrar o estilo deste escritor, as passagens da novela Mateo Falcone:

Na Córsega, diz o autor, um lugar em especial serve de refúgio para os criminosos:

Se matastes um homem, ide para o mato de Porto-Vecchio, e ali vivereis em segurança, com um bom fuzil, pólvora e balas; não esqueças duma capa escura com capuz, que fará as vezes de coberta e colchão. Os pastores vos darão leite, queijo e castanhas, e nada temereis da justiça ou dos parentes do morto, senão quando tiverdes de descer à cidade para renovar as munições.

(…)Mateo Falcone vivia sem precisar trabalhar, e este era seu perfil:

Imaginai um homem baixo, mas robusto, de cabelos crespos, negros como ébano, nariz aquilino, lábios delgados, olhos grandes e vivos, uma pele da cor de couro cru. Mesmo na sua terra, onde há tão bons atiradores, passava por extraordinariamente hábil no manejo da espingarda.

(…)granjeara Mateo Falcone enorme reputação. Diziam-no tão bom amigo quão perigoso inimigo; era aliás solícito, dado a fazer esmolas, e vivia em paz com todos no distrito de Porto-Vecchio.

(…)Mateo casara-se com Josefa que, após dar-lhe três filhas, finalmente tiver um herdeiro homem, a quem esperançoso em dar continuidade ao nome, batizara o pai de “Fortunato”. Contava o menino com 10 anos de idade quando os pais se ausentam de casa, e pede-lhe abrigo um criminoso, Gianetto Sanpiero, ferido numa perseguição. O menino, a princípio, recusa-se, mas depois de receber um pagamento, aceita dar abrigo ao fugitivo. Quando os perseguidores chegam, dissimula.

Fortunato continuava com um riso zombeteiro.

_Meu pai é Mateo Falcone! – disse ele enfaticamente.

_Bem sabes, malandrinho, que posso levar-se pra a Corte ou para a Bastilha. Farei dormires num calabouço, em cima da palha, com ferros nos pés e mandarei guilhotinar-te se não disseres onde está Gianetto Sanpiero.

A essa ridícula ameaça o menino soltou uma gargalhada, e repetiu:

_Meu pai é Mateo Falcone!

(…)O chefe dos soldados perseguidores, Teodoro Gamba, então resolve subornar o menino com um relógio de prata, o que este acaba aceitando, delatando o esconderijo do albergado. Após a captura, quando vão saindo, o casal está de volta para casa. Amedrontado com a vista de Mateo, Gamba logo se aproxima, contando-lhe o ocorrido, e o importante papel que tivera seu filho. Em casa, vendo o garoto com o suborno, leva-o para o mato…

O menino fez um desesperado esforço para se erguer e abraçar-se aos joelhos do pai; mas não teve tempo. Mateo fez fogo, e Fortunato caiu morto.

Sem olhar para o cadáver, Mateo retomou o caminho de casa, em busca de uma enxada para enterrar o filho. Mal dera alguns passos, encontrou Josefa, que corria alarmada com o tiro.

_Que fizeste?

_Justiça.

_Onde ele está?

_Lá embaixo, no barranco. Vou enterrá-lo. Morreu como cristão, mandarei rezar uma missa para ele. Dize ao meu genro Teodoro Bianchi que venha morar conosco.

Fonte:
http://pt.wikipedia.org/

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Prosper Mérimée (Carmen – ópera de Georges Bizet))

Carmen é uma ópera em quatro atos de Georges Bizet com libreto de Henri Meilhac e Ludovic Halévy, baseada na novela homônima de Prosper Mérimée. Estreou em 1875, no Ópera-Comique de Paris.

Personagens

– Carmen (Uma cigana que usa seus talentos para a dança e o canto para enfeitiçar e seduzir vários homens)
– Don José (é um cabo do exército, é um homem honesto e descente, mas ao se envolver com Carmen, vira um fora-da-lei)
– Micaëla (Ela ama Don José, porisso tenta resgatar Don José da vida destrutiva que ele levará com Carmen)
– Escamillo (é um famoso toreador de Granada, mas foi “enfeitiçado” por Carmen)
– Frasquita (amiga de Carmen, a acompanha em todas as aventuras)
– Mercédès (também é amiga de Carmen, a acompanha em todas as aventuras)
– Remendado (namorado de Frasquita, ele é um contrabandista)
– Dancaïre (namorado de Mercédès, ele é servo de Remendado e também contrabandista)
– Moralès (um sargento)
– Zúñiga (Oficial comandante de Don José. Embora prenda Carmen por ter cometido um crime, ele, também, é enfeitiçado por ela)
– Lillas Pastia (dono duma taberna, onde todos os contradistas se encontram lá)
– O Guia (acompanhou Micaëla até onde estava Don José)

Sinopse

Ato I

O primeiro ato começa numa praça de Sevilha, onde se situa uma fábrica de tabaco e um quartel. O cabo Morales comenta com os soldados do corpo da guarda, os Dragões do Regimento de Alcalá, a passagem dos transeuntes pela praça. Então, entra em cena uma simples aldeã chamada Micaela, aproxima-se de Morales e pergunta timidamente pelo cabo Don José. Morales responde-lhe que este chegará com a rendição da guarda e convida-a a esperá-lo na companhia dos seus homens, mas Micaela decide retirar-se para regressar mais tarde. Ouvem-se nos bastidores os clarins que anunciam o render da guarda e aparecem em cena os soldados sob comando de Don José, seguidos por um grupo de crianças que os imita com admiração. À sua chegada ao quartel, Morales comenta em tom jocoso a visita da aldeã. Zúniga, um tenente recém-chegado à cidade, interroga, em seguida, Don José sobre a beleza e a duvidosa reputação das cigarreiras da fábrica da praça, mas o cabo manifesta o seu único interesse por Micaela, por quem está apaixonado. O sino da fábrica soa e anuncia o intervalo das cigarreiras, que entram em cena a fumar e a conversar animadamente com um grupo de homens que as espera. A última a aparecer é Carmen, uma bela cigana que seduz todos os homens que encontra à sua passagem. Seguidamente, Carmen canta uma habanera aos presentes, que manifestam a sua admiração por ela, à excepção do indiferente Don José, que é, precisamente, o objeto do seu desejo. Antes de regressar à fábrica, Carmen, em sinal de desafio, atira-lhe uma das suas flores. Depois deste episódio a parece Micaela, que regressa ao posto da guarda e entrega a Don José uma carta da sua mãe, em que lhe pede que se case com a aldeã. Depois de se relembrarem juntos das paisagens da sua infância, Micaela abandona a cena e Don José começa a ler a carta. Ocorre então um tumulto no interior da fábrica; um grupo de trabalhadoras comenta entre gritos que está a haver uma rixa entre as mulheres em que Carmen interveio, tendo ferido outra cigarreira no rosto, com uma navalha. Zuniga ordena a Don José e aos seus homens que prendam a agressora. O cabo sai da fábrica com Carmen e recebe a ordem do tenente de a levar para a prisão. Carmen e Don José ficam sozinhos na praça. A sedutora cigana convence o cabo de que a liberte, promete-lhe o seu amor a assegura-lhe que o esperará na taberna de Lillas Pastia. Don José, alvoroçado, decide libertá-la. Nesse momento volta Zuniga com a ordem de prisão. Don José e Carmen iniciam a caminhada, mas perante os presentes a cigana finge empurá-lo e foge.Don José é preso imediatamente por permitir a sua fuga.

Ato II

O 2º ato começa na taberna de Lillas Pastia, suposto ponto de encontro de contrabandistas.Já se passou um 1 mês.Carmen e as suas amigas,Frasquita e Mercedes,jantam com Zúñiga e outros oficias,que rapidamente se juntam às cantigas e danças dos ciganos.Apesar dos convites dos soldados ,Carmen recusa os seus pretendentes.Está à espera de Don José que depois de ter sido preso e mandado encarce rar por sua causa,recuperou a liberdade.A seguir,entre manifestações de júbilo,aparece em cena um famoso toureiro chamado Escamillo que,seduzido pela beleza da cigana,lhe declara o seu amor,abandonando depois a taberna com os oficiais. Em cena ficam Carmen,Mercedes e Frasquita sozinhas.Aparecem então os contrabandistas Dancaïre e Remendado,que propõem um negócio às três mulheres.Carmen recusa no início a proposta,mas por fim muda de opinião perante a possibilidade de que seu apaixonado deserte e participe na operação de contrabando. Finalmente,depois da saída dos contrabandistas,Don José chega a taberna e declara o seu amor a Carmen,que tenta convencê-lo de que se junte a ela e aceite o negócio.Don José,ofendido,nega-se,mas o aparecimento repentino de Zúñiga precipita os acontecimentos. O soldado e o tenente enfrentam-se pelo amor de Carmen.Don José,apoiado pelos contrabandistas,subleva-se ao seu superior,que fica sob custódia de alguns ciganos.Obrigado pelas circunstâncias,o soldado vê-se finalmente forçado a desertar e parte com a cigana.

Ato III

Num desfiladeiro,os contrabandistas fazem os preparativos para a entrega dos produtos do contrabando,sob a supervisão de Dancaire.É de noite.Carmen cansada do ciumento amor de Don José e,além disso,descontente com a sua nova vida,tenta adivinhar nas cartas o seu futuro na companhia de Frasquita e Mercedes.As cartas revelam um mal presságio para Carmen:A morte. Á saída dos contrabandistas e das mulheres,Don José permanece num penhasco, a vigiar o esconderijo dos seus novos amigos.Da escuridão surge então Micaëla,que com a ajuda de um guia chega ao esconderijo de seu amado Don José com a esperança de o convencer a voltar a casa de sua mãe.Porém um disparo interrompe os seus propósitos.Don José disparou contra um intruso,que sai ileso.É o famoso toreiro Escamillo,que,desconhecendo a identidade do seu interlocutor,lhe conta que está à procura de Carmen ,que está cansada do seu amante,um soldado que desertou por ela. Don José,cego de ciúme,desafia o toureiro para uma luta até à morte com navalhas,que é interrompida graças à volta dos contrabandistas.Depois de insultar o desertor e convidar os presentes para as corridas de touros de Servilha,Escamillo abandona a cena.A seguir,Dancaire descobre a presença de Micaëla ,que abandona o seu esconderijo e pede a Don José que a acompanhe porque sua mãe está a morrer.Ele aceita e sai com a aldeã,não sem prevenir Carmen,em tom ameaçador ,de que voltará para vir buscar.A cigana não dá aos seus avisos pensando no seu novo objeto de desejo.

Ato IV

Em Sevilha, frente à praça de touros, uma multidão espera a chegada dos toureiros. Os vendedores aproveitam a ocasião para oferecer os seus produtos ao público. Aparece então a quadrilha e atrás dela,Escamillo e Carmen. À entrada do toreiro na praça de touros,Mercedes e Frasquita avisam a cigana da presença de Don José, mas ela mostra não ter medo de se encontrar com o seu antigo amante. A seguir, Don José retém Carmen quando tenta entrar na praça,suplicando-lhe que volte com ele.Ela responde-lhe que o seu amor por ele acabou. Do interior da praça soam as vivas a Escamillo.O desertor tenta deter com violência a cigana,mas ela atira-lhe despeitadamente o anel que ele lhe tinha oferecido. Em fúria, Don José enfia uma faca na barriga de Carmen. A multidão que vai saindo da praça assiste à terrível cena. Don José, cheio de tristeza, cai de joelhos junto ao corpo de sua amada Carmen.

Fontes:
http://pt.wikipedia.org
http://www.antiqbook.com (imagem)

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Prosper Mérimée (A partida de gamão)

As velas pendiam, imóveis, coladas aos mastros; o mar estava liso como gelo; o calor era sufocante, desesperadora a calmaria.

Numa viagem por mar, os recursos em matéria de divertimento, que os anfitriões do navio possam oferecer, bem depressa se esgotam. Conhecemo-nos bem demais, ai de nós! depois de passarmos juntos quatro meses numa casa de madeira com o comprimento de cento e vinte pés. Quando o primeiro-tenente se aproxima já sabemos que, em primeiro lugar, ele falará do Rio de Janeiro, de onde procede; depois da famosa ponte de Essling, construída pelos marinheiros da guarda, de que fazia parte. Ao cabo de quinze dias conhecemos até suas expressões prediletas, até a maneira como pontua as frases e as diferentes entonações de voz. Nunca, desde que pela primeira vez contou suas narrativas esta palavra o imperador… ele deixou de interromper-se com tristeza e invariavelmente acrescentar: “Se o senhor o tivesse visto naquela ocasião!!! (três pontos de exclamação). E o episódio do cavalo do clarim e da bala de artilharia que ricocheteara, levando-lhe uma cartucheira onde tinha sete mil e quinhentos francos em ouro e jóias, etc., etc.! O segundo tenente gosta muito de política; comenta todos os dias o último numero do Constitutionnel, que trouxe de Brest; ou, se deixa as alturas da política para descer a literatura, é para regalar-nos com a análise da última comédia musicada que assistiu.

Os oficiais a bordo do navio em que eu embarcara eram as melhores pessoas do mundo, ótimos sujeitos, que se estimavam uns aos outros como irmãos, mas podia-se apostar qual seria o mais enfadonho. O capitão era o mais pacato dos homens, nada intrigante (o que constitui uma raridade). Era sempre a contragosto que impunha a sua autoridade ditatorial. Com tudo isso, como a viagem me pareceu longa! Sobretudo aquela calmaria que nos surpreendeu apenas alguns dias antes de avistarmos a terra!…

Um dia depois do jantar, que a inação nos fizera prolongar o máximo possível, estávamos reunidos no convés, aguardando o espetáculo monótono, mas sempre majestoso, do pôr-do-sol nas águas. Alguns fumavam, outros reliam pela vigésima vez um dos trinta volumes de nossa minguada biblioteca: todos bocejavam a ponto de chorar. Um oficial sentado a meu lado divertia-se com a gravidade digna de uma ocupação mais séria, como deixar cair nas tábuas da coberta, a ponta voltada para baixo, o punhal que os oficiais de marinha costumam usar com o uniforme. Era um divertimento como outro qualquer, e exige habilidade para conseguir que a ponta se enterre perpendicularmente na madeira. Como desejasse imitar o oficial e não dispusesse de punhal, experimentei pedir emprestado o do capitão, que me recusou. Explicou-me que se apegara singularmente à sua arma, e não gostaria de vê-la utilizada em tão fútil entretenimento. Aquele punhal pertencera a um bravo oficial infortunadamente morto na ultima guerra. Adivinhei a aproximação de uma história e não me enganava. O capitão iniciou-a, sem se fazer de rogado; quanto aos oficiais que nos rodeavam, já conheciam de cor e salteado os infortúnios do tenente Roger, e imediatamente operaram uma retirada discreta. A narrativa do capitão é a seguinte, mais ou menos:

“Quando conheci Roger, mais velho do que eu três anos, ele era tenente; eu, guarda-marinha. Asseguro-lhe que era um dos melhores oficias do nosso corpo; aliás, um excelente coração, inteligência, cultura, dotes artísticos, tudo possuía ele: em sua, um homem encantador. Um pouco orgulhoso e suscetível, infelizmente, o que derivava, suponho, do fato de ser filho natural; temia que seu nascimento lhe fizesse perder a consideração social. Porém, para dizer a verdade, o maior de seus defeitos era o desejo intenso e persistente de ser o primeiro em tudo. Seu pai, a quem nunca vira, dava-lhe uma pensão que teria sido mais do que suficiente para as suas necessidades se Roger não encarnasse a própria generosidade. Tudo que possuía pertencia aos amigos. Mal acabava de receber o seu trimestre, era bastante que alguém o procurasse com o rosto sério e preocupado, para indagar:

– Que é isso, colega, que tens? Pelo teu aspecto, teus bolsos não farão barulho se os sacudirmos; vamos, aqui está a minha carteira, tira o que precisares e vem jantar comigo.

“Chegou a Brest uma jovem atriz muito bonita, chamada Gabriela, e não tardou a conquistar marinheiros e oficiais da guarnição. Não se poderia dizer que fosse uma beleza clássica, mas tinha estatura, belos olhos, pés pequenos, expressão passavelmente descarada; tudo isso nos agrada muito quando estamos na altura dos 25 anos. Ainda por cima, diziam-na a mais caprichosa das criaturas do seu sexo, e a sua maneira de representar não desmentia tal reputação. Ora desempenhava maravilhosamente bem o seu papel, dir-se-ia uma atriz de primeira ordem; no dia seguinte, na mesma peça, mostrava-se fria, insensível; recitava a sua parte como uma criança recita o catecismo. Um caso, que lhe atribuíam, sobretudo, interessou os jovens oficias. Ao que parece fora, em Paris, mantida com muito luxo por um senador que fazia, como dizem, loucuras por causa dela. Um dia, estando ele em casa de Gabriela, pôs o chapéu na cabeça; ela lhe pediu que o tirasse, e chegou a queixar-se de que aquilo era falta de respeito. O senador pôs-se a rir, ergueu os ombros e disse, afundando-se numa poltrona: “Então não posso ficar à vontade na casa de uma rapariga paga por mim!” Uma bofetada de carregador, aplicada pela mão branca de Gabriela, foi o que sua resposta mereceu na hora, fazendo com que o chapéu do cavalheiro fosse parar no outro canto do quarto.

“Depois de vê-la e de inteirar-se dessa história, Roger achou que ela lhe convinha, e com a franqueza um pouco rude que censuram em nós, marinheiros, procedeu da seguinte forma para demonstrar a Gabriela que seus encantos o tinham impressionado. Comprou as mais belas e raras flores que conseguiu encontrar em Brest, fez um ramo que amarrou com uma bonita fita cor-de-rosa, e no laço prendeu de maneira artística um rolo de 25 napoleões; era tudo que possuía no momento. Lembro-me de que o acompanhei aos bastidores durante um intervalo. Dirigiu a Gabriela um cumprimento muito curto sobre a graça como usava suas roupas, ofereceu-lhe o ramo de flores e pediu licença para visitá-la. Tudo isso expresso em três palavras.
Enquanto Gabriela só viu as flores e o belo rapaz que as oferecia, sorriu-lhe, acompanhando o sorriso com uma reverência das mais graciosas; porém, quando o buquê passou as suas mãos ela sentiu o peso do ouro e sua fisionomia mudou mais rapidamente do que a superfície do mar tumultuado por um furacão dos trópicos; e, de certo modo, não se mostrou menos violenta, pois lançou com todas as suas forças o ramo de flores e os napoleões à cabeça do meu amigo, cujo rosto ficou marcado por oito dias. A campainha do regente soou, Gabriela voltou a cena e representou pessimamente.

Tendo apanhado o buquê e o rolo de dinheiro com um jeito muito vexado, Roger foi para o café e ofereceu o ramalhete (sem o dinheiro) à moça do balcão, e experimentou, bebendo ponche, esquecer a cruel dama. Não conseguiu; apesar do despeito nascido do fato de não poder mostrar-se com o olho contundido, apaixonou-se loucamente pela irascível Gabriela. Escrevia-lhe vinte cartas por dia, e que cartas! submissas, ternas, respeitosas, tais como se fossem endereçadas a uma princesa. As primeiras foram devolvidas sem terem sido abertas; as outras não obtiveram resposta. E Roger alimentava alguma esperança, quando descobrimos que a vendedoras de laranjas do teatro enrolava suas laranjas nas cartas de amor de Roger que, por um requinte de crueldade, Gabriela lhe entregava. Foi um golpe terrível para a altivez do nosso amigo. Contudo, nem por isso a sua paixão definhou. Falava em pedir a atriz em casamento e, como lhe diziam que o Ministro da Marinha nunca daria o necessário consentimento, protestava, afirmando que nesse caso estouraria os miolos.

Entrementes, aconteceu que os oficiais de um regimento de linha, aquartelado em Brest, quiseram obrigar Gabriela a repetir uma copla de vaudeville e, por capricho, ela se recusou. Ambos teimaram, os oficiais e a atriz, a ponto de os primeiros fazerem baixar o pano com seus assobios e a segunda desmaiar. O senhor sabe o que é a platéia de uma cidade de aquartelamento. Ficou combinado entre os oficiais que no dia seguinte e nos subseqüentes, a culpada seria vaiada sem remissão, não lhe sendo permitido representar um único papel, sem que antes de desculpasse. Roger não assistira ao espetáculo; porém na mesma noite inteirara-se do escândalo que pusera o teatro em rebordosa, e também dos projetos de vingança tramados para o dia seguinte. Não perdeu tempo em tomar uma decisão.

No dia imediato, quando Gabriela apareceu no palco, vaias e assobios de romper os tímpanos partiram do bando de oficiais. Roger, que se colocara propositadamente entre os desordeiros, levantou-se e interpelou os mais turbulentos em termos tão ofensivos que a fúria desses imediatamente se voltou para a sua pessoa. Então, com grande sangue-frio, puxou um caderninho do bolso e nele escreveu os nomes que lhe eram atirados de todos os lados; teria marcado duelo com o regimento inteiro se, por espírito de solidariedade, não surgisse uma boa quantidade de oficiais da marinha, que provocaram a maioria dos adversários de Roger. Foi realmente um pandemônio.

A guarnição inteira foi detida por vários dias; porém, ao serem os oficiais postos em liberdade, houve um tremendo ajuste de contas. Cerca de sessenta deles se encontraram no campo de honra. Roger, sozinho, bateu-se contra três; matou um e feriu gravemente outros dois, sem receber nenhum arranhão. Fui menos feliz: um maldito tenente, que fora mestre de esgrima, deu-me uma profunda estocada no peito, e esta quase me matou. Asseguro-lhe que foi um belo espetáculo aquele duelo, ou melhor, aquela batalha. A marinha obteve todas as vantagens e o regimento foi obrigado a deixar Brest.

Bem imagina que nossos oficiais superiores não esqueceram o responsável pelo tumulto. Durante 15 dias esteve de sentinela à porta.

Quando saí do hospital a sua penalidade já tinha sido suspensa, e resolvi visitá-lo. Qual não foi minha surpresa, ao entrar, defrontando com ambos, ele e Gabriela, que almoçavam juntos!
Davam a impressão de estar há muito tempo em ótimas relações. Já se tuteavam e bebiam no mesmo copo. Roger apresentou-me à amante como sendo seu melhor amigo e contou-lhe que eu fora ferido na escaramuça de que ela constituíra a única causa. Isso me valeu um beijo da bela criatura. Tinha inclinações bastante marciais.

Viveram juntos três meses inteiramente felizes, não se largando um só momento. Gabriela parecia amá-lo com paixão e Roger confessava que antes de conhecê-la não sabia o que era o amor.

Uma fragata holandesa fundeou no porto. Os oficiais ofereceram-nos um jantar. Bebemos copiosamente toda espécie de vinhos; e, retirada a toalha, não sabendo mais o que fazer, pois aqueles senhores falavam muito mal o francês, começamos a jogar. Os holandeses pareciam muito endinheirados; sobretudo o primeiro-tenente fazia questão de jogar tão caro que nenhum de nos o aceitava para parceiro. Roger, que não costumava jogar, achou que naquelas circunstancias seria necessário defender a honra da sua pátria. Jogou, pois, e acompanhou as paradas do tenente holandês. Primeiro ganhou, em seguida perdeu. Depois de algumas alternativas entre lucros e perdas, separaram-se sem prejuízo. Retribuímos o jantar dos holandeses. Tornamos a jogar. Roger e o tenente reiniciaram a luta. Em suma, durante dias, ambos se encontraram, fosse no café, fosse a bordo, e experimentaram jogos de todo o tipo, voltando ao gamão, e sempre aumentando as apostas, a ponto de jogarem partidas de 25 napoleões. Representava uma enorme quantia para oficiais como nós; mais de dois meses de soldo. Ao cabo de 1 semana Roger perdera todo o dinheiro que possuía, e mais três ou quatro mil francos que pedira emprestado aqui e ali.

Já terão desconfiado, sem dúvida, que Roger e Gabriela haviam acabado por fazer vida comum e bolsa comum: isto é, Roger, que não havia muito recebera uma quantia avultada, contribuía para as despesas do casal numa proporção 10 ou 20 vezes maior que a atriz. Porém, considerava o acervo como pertencendo principalmente à amante e só reservara cinqüenta napoleões para as suas despesas particulares. mas fora obrigado a recorrer àquela reserva para continuar a jogar. Gabriela não fizera a menor observação.

O dinheiro das despesas do casal tomou o caminho já seguido pelo dinheiro dos gastos particulares. Chegou o momento em que Roger se viu obrigado a arriscar seus últimos 25 napoleões. Aplicou-se tremendamente no jogo; e, assim sendo, a partida foi longa e disputada. Em dado momento, só restou a Roger, que empunhava o copo de dados, uma última oportunidade para ganhar: creio que lhe seriam precisos 6 e 4. A noite avançara. O holandês parecia fadigado e entorpecido; além disso, bebera muito ponche. Roger era o único que se conservava alerta e presa do mais violento desespero. Tremia ao lançar os dados. Atirou-os com tanta força que com a sacudidela uma vela caiu no chão. O holandês primeiro voltou a cabeça na direção da vela, que acabara de salpicar de cera a sua calça nova, e depois olhou para os dados: marcavam 6 e 4. Roger, pálido como a morte, recebeu os 25 napoleões. Continuaram a jogar. A sorte voltou-se para meu amigo que, contudo, cometia descuidos sobre descuidos, como se quisesse perder. O tenente holandês obstinou-se, dobrou, decuplou as paradas; continuava a perder. Creio vê-lo ainda: era louro, alto, fleumático, e seu rosto parecia de cera. Finalmente se levantou, depois de ter perdido 40 mil francos; pagou-os sem que sua fisionomia deixasse transparecer a mínima emoção.

Roger disse-lhe

– O nosso jogo desta noite fica sem efeito; o senhor estava dormindo, não quero seu dinheiro.
Respondeu-lhe o fleumático holandês:

– O senhor está gracejando: joguei muito bem, mas as cartas estavam contra mim. Tenho a certeza de que ainda ganharei, obrigando-o a restituir tudo quanto obteve hoje. Boa noite!

E retirou-se.

No dia seguinte soubemos que, desesperado com o prejuízo sofrido, depois de ter bebido uma tigela de ponche, ele estourara os miolos, no quarto.

Os 40 mil francos ganhos por Roger estavam espalhados sobre a mesa e Gabriela contemplava-os com um sorriso satisfeito:

– Estamos muito ricos. Que faremos com todo este dinheiro?

Roger nada respondeu; ficara como que estonteado depois da morte do holandês.

– Precisamos fazer uma porção de loucuras; – continuou Gabriela – dinheiro ganho tão facilmente, também deve ser gasto facilmente. Compremos uma caleça e façamos pouco do Prefeito Marítimo e sua mulher. Quero diamantes, casimira. Pede licença e vamos a Paris; aqui nunca conseguiremos gastar tanto dinheiro!

Deteve-se para observar Roger que, olhos cravados no soalho, cabeça apoiada à mão, não a ouvira, e parecia revolver na mente sinistros pensamentos.

– Que tens Roger? – indagou ela, apoiando a mão no ombro do rapaz. – Acho que estás amuado comigo; não consigo arrancar-te uma única palavra.

– Sinto-me muito infeliz – disse ele afinal, soltando um suspiro abafado.

– Infeliz! Deus me perdoe, estarias com remorsos por teres depenado aquele mynheer?

Ele ergueu a cabeça e fitou-a com olhos esgazeados.

– Que importa!… – prosseguiu ela – que importa que ele tenha levado a coisa ao trágico e estourasse os miolos? Não lamento os jogadores que perdem: e com toda certeza o dinheiro está bem melhor entre nossas mãos do que nas suas; ele o teria gasto bebendo e fumando enquanto que nós vamos fazer um milhão de extravagâncias, cada uma mais alinhada que a outra.
Roger passeava pelo quarto, a cabeça inclinada sobre o peito, os olhos rasos de lágrimas. Se o sr o visse, ter-se-ia apiedado dele.

Gabriela observou:

– Sabes que se não fosse conhecida tua sensibilidade, muita gente poderia acreditar que trapaceaste?

– E se fosse verdade? – indagou ele com voz surda.

– Ora! – respondeu ela, sorrindo – não és bastante inteligente para trapaceares no jogo.

– Sim, trapaceei; trapaceei como um canalha que sou.

Ela compreendeu que Roger falava a verdade, por causa da emoção com que se expressava. Sentou-se num canapé e permaneceu algum tempo em silêncio.

– Preferiria – disse finalmente – que a trapacear no jogo tivesses matado dez homens.

Houve um silêncio mortal, que durou meia hora. Estavam ambos sentados no sofá e não se olharam uma única vez. Roger foi o primeiro a levantar-se e deu boa noite à amante com voz bastante calma.

– Boa noite! – respondeu ela em tom seco e frio.

Roger disse-me mais tarde que se teria matado no mesmo dia, caso não receasse que seus companheiros adivinhassem a causa daquele suicídio. Não queria desonrar a própria memória.
No dia seguinte, Gabriela mostrou-se alegre como de costume; dir-se-ia que tivesse esquecido a confidência da véspera. Quanto a Roger, tornara-se sombrio, ríspido, mal saía do quarto, evitava os amigos e muitas vezes passava dias inteiros sem dirigir a palavra à amante. Eu atribuía sua tristeza a uma sensibilidade louvável, mas excessiva, e tentei por várias vezes consolá-lo; mas ele me desconcertava, afetando uma grande indiferença pelo seu infeliz parceiro. Certo dia, chegou mesmo a atacar violentamente a nação holandesa e sustentou que não havia na Holanda um único homem honesto. Entretanto, secretamente, se informava sobre a família do tenente holandês; mas ninguém conseguia dar-lhe qualquer notícia a respeito.

Seis semanas depois da infortunada partida de gamão, Roger encontrou em casa de Gabriela um bilhete escrito por um guarda-marinha no qual este parecia agradecer-lhe gentilezas recebidas. Gabriela era a própria desordem, e o bilhete em questão fora deixado sobre a lareira. Não sei se fora infiel, mas Roger acreditou-o, e teve um terrível acesso de cólera. Cobriu de injúrias a orgulhosa atriz; e, violento como era, não sei como não lhe bateu. Disse-lhe:

– Sem dúvida esse peralvilho te deu muito dinheiro? É a única coisa que amas e concederias teus favores ao mais sujo dos nossos marinheiros caso ele tivesse com que os pagar.

– Por que não? – respondeu a atriz. – Sim, eu permitiria que um marinho me pagasse, mas… não o roubaria.

Roger soltou um grito de raiva. Puxou o punhal, trêmulo e por um momento fitou Gabriela com olhos desvairados; depois, reunindo as suas forças, atirou a arma aos pés da moça e fugiu do apartamento para não ceder à tentação que o assaltara.

Era bem tarde, quando nessa mesma noite, passei pelo seu alojamento e, vendo a luz acesa, entrei para pedir-lhe um livro emprestado. Encontrei-o muito entretido em escrever. Não se moveu e mal pareceu perceber minha presença. Sentei-me junto à secretária e fitei-o: seus traços estavam de tal forma alterados que qualquer outra pessoa, a não ser eu, dificilmente o reconheceria. De repente, avistei sobre a escrivaninha uma carta já lacrada, e que me era dirigida. Apressei-me em abri-la. Roger comunicava-me que ia pôr fim aos seus dias, e delegava-me diversos encargos. Enquanto eu lia, ele continuava a escrever sem se preocupar comigo: era a Gabriela que dava adeus… Bem imagina qual foi a minha surpresa e tudo quanto devo ter-lhe dito, perturbado como me deixara a sua decisão.

– Será possível? Queres matar-te, tu que és tão feliz?

– Meu amigo – disse-me ele, lacrando a carta – de nada sabes. Não me conheces, sou um velhaco; sou tão desprezível que uma mulher da vida me insulta; e tão bem sinto minha baixeza que não me atrevo a bater-lhe.

Então me contou a história da partida de gamão, e o resto o senhor já sabe. Ouvindo-o, senti-me pelo menos tão emocionado quanto ele; não sabia o que lhe dizer; tinha lágrimas nos olhos, mas não conseguia falar. Enfim, ocorreu-me a idéia de fazer-lhe ver que não devia censurar-se por haver voluntariamente causado a ruína do holandês, a quem, afinal, com a sua… trapaça… só fizera perder 25 napoleões.

– Ora! – exclamou ele com amarga ironia – sou um pequeno ladrão, e não um grande. Eu que era tão ambicioso! Não passar de um pequeno velhaco!

E soltou uma gargalhada.

Desmanchei-me em lágrimas.

De repente, abriu-se a porta. Uma mulher entrou e precipitou-se nos seus braços: era Gabriela.

– Perdoa-me – disse-lhe, cingindo-o estreitamente – perdoa-me. Amo unicamente a ti, bem o sinto. Amo-te mais agora. Se quiseres, roubarei, já roubei… Sim, já roubei, roubei um relógio de ouro… Que poderia fazer de pior?

Roger meneou a cabeça com incredulidade; mas seu rosto como que se aclarou.

– Não, minha pobre menina – respondeu – é absolutamente necessário que me mate. Sofro demais, não posso suportar a dor que me punge.

– Bem, se queres morrer, morrerei contigo! Sem ti, que me importa a vida! Sou corajosa, já atirei com espingardas; matar-me-ei tão bem quanto outra qualquer. Além disso, já representei tragédias, estou acostumada.

Tinha lagrimas dos olhos ao falar, mas aquela última idéia fê-la sorrir, e o próprio Roger deixou escapar um sorriso.

– Estás rindo, meu oficial! – exclamou ela, batendo as mãos e beijando-o – não te matarás!

Continuava a beijá-lo, ora chorando, ora rindo-se, ora praguejando. Entretanto, apossara-se das pistolas e do punhal de Roger. Disse-lhe:

– Meu querido, tens uma amante que um amigo que te querem. Acredita-me, podes ainda desfrutar alguma felicidade neste mundo.

Saí, depois de abraçá-lo, e deixei-o com Gabriela.

Creio que só teríamos conseguido protelar seu funesto projeto, caso não tivesse recebido do Ministro ordens para partir, como primeiro-tenente, a bordo de uma fragata destinada a cruzar o oceano Índico, depois de ter passado através da esquadra inglesa que bloqueava o porto. Era uma expedição arriscada. Fiz compreender ao meu amigo que seria preferível morrer gloriosamente, vitimado por uma bala inglesa, a pôr fim aos seus dias com suas próprias mãos, sem nobreza e sem proveito para a pátria. Ele prometeu viver. Distribuiu a metade dos 40 mil francos pelos marinheiros estropiados ou pelas viúvas e filhos de marinheiros. Entregou o restante a Gabriela, que jurou que só os gastaria em boas obras. Pretendia cumprir a palavra,pobre moça! Mas seus impulsos eram de curta duração. Soube mais tarde que deu aos pobres alguns milhares de francos. Comprou trapos com o resto.

Vagamos lentamente rumo aos mares da Índia, embaraçados por ventos contrários e por manobras infelizes do nosso capitão, cuja imperícia multiplicava os perigos da empresa. Ora tocados por forças superiores, ora perseguindo navios mercantes, não passávamos um único dia sem uma nova aventura. Mas nem a vida arriscada que levávamos, nem as fadigas do serviço conseguiram distrair Roger dos tristes pensamentos que o perseguiam. Ele, que já fora considerado o oficial mais ativo e mais brilhante do nosso porto, agora de limitava apenas a cumprir sua obrigação. Logo após terminar o serviço, fechava-se no quarto, sem livros, sem papel; o infeliz passava horas inteiras deitado no catre, sem nem mesmo conseguir dormir.

Certo dia, observando-lhe o abatimento, achei acertado adverti-lo.

– Com os diabos! Meu caro, afliges-te por pouco. Escamoteaste 25 napoleões a um holandês obeso, bem! – sentes remorsos por um milhão. Ora, quando eras amante da esposa do prefeito de… não sentias remorsos? Entretanto, ela valia mais do que 25 napoleões.

Voltou-se ao colchão, sem me responder. Prossegui:

– Afinal, teu crime, já que insistes em dizer que é um crime, tinha um motivo honroso, e vinha de uma alma elevada.

Ele virou a cabeça e fitou-me com irritação.

– É verdade – continuei – pois se tivesses perdido, que aconteceria a Gabriela? Pobre moça, teria vendido a última camisa para ajudar-te. Se perdesses, ficarias na miséria… Foi por ela, foi por amor a ela que trapaceaste. Há pessoas que matam por amor… ou se matam… Tu, meu querido Roger, fizeste mais. Para um homem da nossa fibra, há mais coragem em… roubar, para falar claro, do que matar-se.

– Talvez – disse o capitão, interrompendo a narrativa – agora eu lhe pareça ridículo. Asseguro-lhe, porém, que a minha amizade por Roger conferia-me naquele momento uma eloqüência de que não disponho; e que, o diabo me leve, ao assim lhe falar, fazia-o de boa-fé e acreditava em tudo o que dizia. Ah! naquele tempo eu era jovem!

Roger permaneceu algum tempo calado; depois me estendeu a mão, e parecendo fazer um grande esforço para dominar a emoção, disse-me:

– Meu amigo, julgas-me melhor do que sou. Sou um ladrão, covarde. Quando trapaceei com aquele holandês, só pensava em ganhar 25 napoleões, mais nada. Não pensava em Gabriela e aí está por que me desprezo… Eu, avaliar minha honra em menos de 25 napoleões!… Que baixeza! Sim, seria feliz se pudesse dizer a mim mesmo: “Roubei para tirar Gabriela da miséria… Não!… Não pensava nela… naquele momento não me sentia apaixonado… Era um jogador… era um ladrão… Roubei dinheiro para ficar com ele… e de tal maneira essa ação me embruteceu, me aviltou, que agora não sinto mais coragem nem amor… vivo e não penso mais em Gabriela… sou um homem acabado.

Parecia-me tão infeliz que se me tivesse pedido minhas pistolas para matar-se, creio que as teria entregue.

Uma determinada sexta-feira, dia de mau augúrio, divisamos uma grande fragata inglesa, Alceste, que começou a perseguir-nos. Possuía 58 canhões e nós só 38. Demos todo o pano para fugir; mas tinha maior velocidade e aproximava-se de momento a momento. Era evidente que antes da noite seríamos obrigados a entrar numa luta desigual. Nosso capitão chamou Roger ao seu camarote, onde ficaram deliberando um bom quarto de hora. Roger tornou a subir à coberta, tomou-me pelo braço e levou-me à parte. Então me disse:

– Daqui a 2 horas, o caso estará resolvido. Esse pobre homem que se agita no castelo de popa, perdeu a cabeça. Só tinha dois partidos a tomar: o primeiro, mais honroso, seria deixar o inimigo aproximar-se, depois abordá-lo energicamente, lançando a bordo uma centena de rapazes resolutos; o outro partido, que não seria mau, apenas um tanto covarde, seria aliviar-nos, atirando ao mar uma parte dos nossos canhões. Então poderíamos contornar de muito perto as costas da África, que divisamos ao longe, a bombordo. O inglês, receoso de encalhar, seria obrigado a permitir que fugíssemos. Nosso… capitão, porém, não é nem covarde, nem herói; vai deixar que sejamos destruídos de longe, a tiros de canhão e, depois de algumas horas de combate, sem dúvida baixará honrosamente o pavilhão. Tanto pior para ti; esperam-te os pontões de Portsmouth. Quanto a mim, não pretendo vê-los.

– Talvez nossos primeiros tiros de canhão, acertando no alvo, causem ao inimigo avarias sérias para obrigá-lo a interromper a caça.

– Escuta, não quero ser feito prisioneiro, prefiro que me matem, estou em tempo de acabar comigo. Se por desgraça apenas ficar ferido, dá-me tua palavra de honra que me atirarás ao mar.
É o leito onde deve morrer um bom marinheiro como sou.

– Que loucura! – exclamei. – E que incumbência me dás!

– Cumprirás um dever de bom amigo. Bem sabes que é preciso que eu morra. Só na esperança de ser morto é que consenti em não me matar. Promete-me, vamos; se recusares, vou pedir ao contramestre que me preste esse serviço, e garanto que não se negará a fazê-lo.

Disse-lhe, depois de ter refletido:

– Dou minha palavra que farei o que desejas, conquanto sejas mortalmente ferido, sem esperanças de cura. Nesse caso, consinto em poupar-te sofrimentos.

– Serei mortalmente ferido, ou então morto.

Estendeu-me a mão que apertei calorosamente. Daí por diante mostrou-se mais calmo, e uma certa alegria marcial chegou mesmo a iluminar-lhe o rosto.

Eram cerca de 3 horas da tarde quando os canhões de caça do inimigo começaram a atingir nossos massames. Então ferramos uma parte de nossas velas; apresentávamos o costado ao Alceste, e sustentamos um prolongado tiroteio contra os ingleses, que responderam vigorosamente. Depois de uma hora de luta, nosso capitão que não tomava uma decisão acertada, quis tentar a abordagem. Já tínhamos muitos mortos e feridos, e o restante da tripulação perdera o entusiasmo. No momento em que abríamos as velas para aproximar-nos do inglês, o mastro principal que mal se agüentava, caiu com um tremendo estrépito. O Alceste aproveitou a confusão do acidente. Passou junto a nossa popa, ponto um lado inteiro da nossa fragata ao alcance dos canos da sua artilharia, que a varou de proa a popa; só podíamos opor-lhe dois pequenos canhões. Encontrava-me junto a Roger, ocupado em mandar cortar as cordas que retinham o mastro derrubado. De súbito, sinto que me aperta o braço com força; volto-me e vejo-o caído no convés, todo coberto de sangue. Acabava de receber um tiro de metralha no ventre.

O capitão correu para ele:

– Que devo fazer, tenente? – indagou.

– Deve fixar o pavilhão neste toco de mastro e deixar-nos afundar.

Imediatamente o capitão se afastou, pouco satisfeito com o conselho.

Então Roger falou:

– Não te esqueças da tua promessa.

– Não é nada, podes sarar.

– Atira-me por cima da amurada! – exclamou, praguejando horrivelmente, e puxando a aba do meu casaco – bem vês que não escaparei; atira-me ao mar, não quero vê-los levar a nossa bandeira.

Dois marinheiros aproximaram-se a fim de carregá-lo para o fundo do porão.

– Voltem para os canhões, patifes! – ordenou – Disparem a metralhadora, apontem para a coberta, e tu, se faltares à tua palavra, eu te amaldiçoarei e te considerarei o mais covarde e vil dos homens!

O ferimento que recebera era evidentemente mortal. Vi o capitão chamar um aspirante e dar-lhe ordens para trazer a nossa bandeira.

– Dá-me um aperto de mão – disse Roger.

No próprio momento em que trouxeram a nossa bandeira…

– Capitão, uma baleia a bombordo! – interrompeu um guarda-marinha, correndo ao nosso encontro.
– Uma baleia! – exclamou o capitão, cheio de alegria e cortando a narrativa. – Depressa, chalupas ao mar! O iole ao mar! Todas as chalupas ao mar! Arpões,cordas! Etc., etc.

Não consegui saber como morreu o pobre tenente Roger.

Fonte:
http://victorian.fortunecity.com/postmodern/135/

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– O Capitao De Longo Curso
– O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá
– O Milagre Dos Passaros (indisponível no momento)
– O Sumiço Da Santa
– Os Pastores Da Noite,
– Os Subterrâneos da Liberdade: os Ásperos Tempos – Volume 1
– Os Subterrâneos da Liberdade: Agonia da Noite – Volume 2 (indisponível no momento)
– Os Subterraneos Da Liberdade, V.3 – A Luz No Tunel
– São Jorge Dos Ilhéus
– Suor (indisponível no momento)
– Tenda Dos Milagres
– Terras do Sem Fim
– Vida De Luis Carlos Prestes

Fonte:
http://www.americanas.com.br

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José Feldman (Realidade)

Não somos mais que esboços
Desenhados por outras mãos
Olhos cegos que vêem sem ver
Fantasmas do passado
Assombrando o amanhã.

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Nathaniel Hawthorne (O Paladino Grisalho)

Houve outrora um tempo em que a Nova Inglaterra gemia sob uma opressão realenga de injustiças ainda mais pesadas que a ameaça das que ensejaram a Revolução. Jaime II, o fanático sucessor de Carlos, o Voluptuoso, anulara as cartas constitucionais de todas as colônias, e enviara um rude soldado sem princípios para roubar as nossas liberdades e pôr em perigo a nossa religião. À administração de Sir Edmund Andros quase não faltava uma só característica da tirania: governador e Conselho nomeados pelo rei, inteiramente independentes do país; leis decretadas e impostos elevados sem o concurso do povo interessado ou de seus representantes; os direitos dos cidadãos particulares eram violados e os títulos das propriedades com base na terra, declarados nulos; havia queixas abafadas mercê de restrições à imprensa; e, finalmente, a dissidência intimidada pelo primeiro bando de tropas mercenárias que nunca, até aquela data, havia marchado em nosso livre chão. Por dois anos os nossos ascendentes foram mantidos numa taciturna submissão, graças àquele amor filial que invariavelmente era o penhor da sua lealdade à pátria de origem, fosse esta governada por um parlamento, um protetor ou um monarca papista. No entanto, até aquela época infeliz, uma tal lealdade fora apenas nominal, pois os colonos governavam-se a si próprios, gozando de uma liberdade ainda maior do que aquela que é o privilégio dos súditos nativos da Grã-Bretanha.

Finalmente correu um boato em nossas praias: o príncipe de Orange arriscara-se a uma empresa, cujo sucesso seria o triunfo dos direitos civis e religiosos e a salvação da Nova Inglaterra. O boato era suspeito: podia ser falso, ou a tentativa podia falhar; em qualquer caso, o homem que se rebelasse contra o rei Jaime perderia a cabeça. Todavia o boato produziu notável efeito. Pessoas sorriam misteriosamente nas ruas, lançando olhares atrevidos a seus opressores; enquanto por toda parte se espalhava uma agitação contida e silenciosa, como se ao menor sinal toda a terra se levantasse do seu letárgico desânimo. Cônscios do perigo, os governantes resolveram evitá-lo mediante a exibição de uma imponente demonstração de força, e talvez confirmar o seu despotismo com medidas ainda mais ásperas. Certa tarde de abril de 1689, Sir Edmund Andros e seus conselheiros favoritos, depois que o vinho lhes havia subido à cabeça, reuniram os fardas-vermelhas da guarda do governador e fizeram sua aparição nas ruas de Boston. O sol se punha quando a marcha começou.

O rolar do tambor naquela crise inquietante parecia varar as ruas, não tanto como a música marcial da soldadesca, mas como um chamado de reunir aos próprios cidadãos. O povo, provindo de várias avenidas, aglomerou-se na King Street, destinada a ser o cenário, quase um século depois, de outro encontro entre as tropas da Grã-Bretanha e um povo que lutava contra a sua tirania. Embora se tivessem escoado mais de sessenta anos após a chegada dos peregrinos, a multidão de seus descendentes ainda revelava as fortes e sombrias feições de seus ancestrais, talvez ainda mais impressionantes nessa grave emergência do que em ocasiões mais felizes. Via-se ali o austero garbo, a geral severidade de fisionomia, a sombria mas intimorata expressão, as formas bíblicas do discurso e a confiança na benção do céu sobre uma causa justa, que marcaram o bando de puritanos originais, quando algum perito os ameaçava na região inculta. Com efeito, ainda não era tempo de extinguir-se o espírito primitivo; de vez que naquele dia havia homens na rua que homens na rua que celebraram o seu culto sob as árvores, antes de se erigir uma casa ao Deus por cuja causa se tornaram exilados. Também ali se achavam velhos soldados do
Parlamento, sorrindo sombriamente à idéia de que seus velhos braços ainda podiam golpear uma segunda vez a Casa de Stuart. Estavam também os veteranos da guerra do rei Filipe, que tinham queimado aldeias e matado jovens e velhos com uma piedosa ferocidade, enquanto as santas almas do país os ajudavam com orações. Muitos eram os ministros espalhados pela multidão, a qual, ao contrário de outras multidões, olhava-os com uma tal reverência, que era como se de sua própria vestimenta a santidade se exalasse. Esses santos exerciam a sua influência para acalmar o povo, não para dispersá-lo. Entrementes, o propósito do governador, perturbando a paz da cidade em um período em que a mais insignificante tropelia poderia lançar o país em convulsão, era quase o assunto universal de indagação, de várias formas explicado.

— Satã dará agora o seu golpe de mestre — exclamavam alguns —, pois ele sabe que seu tempo é curto. Todos os nossos santos pastores vão ser arrastados para a prisão! Vê-los-emos num fogo de Smithefield, King Street!

Ao que o povo de cada paróquia se aglomerava em torno de seu ministro, o qual voltava calmamente o olhar para cima e assumia uma dignidade mais apostólica, assim como convinha a um candidato à mais alta honra da sua profissão: a coroa do martírio. Realmente se fantasiava naquela época, que a Nova Inglaterra bem podia ter o seu próprio John Rogers para substituir aquele grande homem no livro de orações.

— O papa de Roma ordenou uma nova São Bartolomeu! — outros exclamavam. — Vamos ser massacrados… homens, mulheres e crianças!

Esse boato não foi de todo desmentido, conquanto a classe mais esclarecida acreditasse que o objetivo do governo fosse menos atroz. Sabia-se que o seu predecessor, quando ainda vigorava a Carta dos Direitos, um tal Bradstreet, venerando companheiro dos primeiros povoadores, estava presente na cidade. Havia motivo para conjeturar que Sir Edmund Andros pretendia de imediato aterrorizar, mercê de um desfile de força militar, e confundir a facção adversária, apossando-se ele próprio de seu chefe.

Ficai firmes ao lado do governador da velha Carta! — gritava a multidão, apossando-se da idéia. — O velho e bom governador Bradstreet!

Quando esse grito atingiu o auge, o povo viu-se surpreendido com a presença do próprio governador Bradstreet, um patriarca de quase noventa anos, que surgiu nos altos degraus de uma porta e, com uma brandura característica, concitou-os a submeter-se às autoridades constituídas.

— Meus filhos — concluiu o venerando velho —, não façais coisa alguma atropeladamente. Não griteis, mas rezai pela prosperidade da Nova Inglaterra, e esperai pacientemente o que o Senhor fará quanto a isso.

O evento em breve se decidiria. Todo esse tempo o rolar do tambor vinha se aproximando através do Cornhill, cada vez mais alto e mais profundo, até que, ecoando de casa em casa, e acompanhado do tropel marcial da soldadesca, irrompeu na rua. Uma dupla fila de soldados apareceu nessa ocasião, ocupando a passagem em toda a sua largura, com arcabuzes de mecha sobre o ombro e morrões acesos — verdadeiro renque de fogos ardendo no crepúsculo. A firmeza de sua marcha lembrava a marcha de uma máquina, que irresistivelmente tudo esmagaria em seu caminho. Em seguida, movimentando-se lentamente com um chocalhar de cascos no calçamento, vinha um grupo de cavaleiros montados, sendo sua figura central o próprio Sir Edmund Andros, velho mas ereto e de aspecto militar. Os que o cercavam eram os seus conselheiros favoritos, e os mais ferrenhos inimigos da Nova Inglaterra. À sua direita cavalgava Edward Randolph, nosso arquiinimigo, aquele “maldito excomungado”, como lhe chamava Cotton Mather, que levou a cabo a queda do nosso antigo governador, seguida por uma maldição que o acompanhou por toda a vida e até o túmulo. De outro lado vinha Bullivant, espalhando pilhérias e zombarias enquanto avançava. Dudley vinha atrás, com um ar desanimado, temendo, como devia, o olhar indignado do povo, que nele via o seu único patrício de nascença bandeado para os opressores da terra natal. O capitão de uma fragata fundeada no porto e dois ou três oficiais civis sob a coroa também faziam parte da comitiva. Mas a figura que mais atraía o olhar público, e despertava o mais profundo sentimento, era o clérigo episcopal da Capela Real, em seus trajes sacerdotais, cavalgando altaneiro entre os magistrados, representante condigno da prelazia e da perseguição, união da Igreja e do Estado, e todas as demais abominações que tinham impelido os puritanos para aquela região inóspita. Fechava a retaguarda um grupo de soldados em fila dupla.

A cena toda era um retrato da condição da Nova Inglaterra, e o seu moral, a deformidade de qualquer governo que não provenha da natureza das coisas e da índole do povo. De um lado, a multidão religiosa, com seus rostos tristonhos e trajes escuros; do outro, o grupo de governantes despóticos, tendo no meio o clérigo da Igreja Alta, o crucifixo no peito, todos magnificamente vestidos, congestionados de vinho, orgulhosos da sua injusta autoridade, escarnecendo do gemido universal. E os soldados mercenários, só esperando a ordem para inundar de sangue as ruas, mostravam o único meio pelo qual se podia garantir a obediência.

— Ó Deus dos Exércitos! — exclamou uma voz entre a multidão —, suscita um paladino para o teu povo!

A exclamação foi proferida em voz alta e serviu como o grito de um arauto para apresentar uma notável personagem. A multidão recuara e agora se aglomerava, maciça, quase no fim da rua, enquanto os soldados ainda não tinham avançado mais que um terço do seu comprimento. O espaço intermediário estava vazio — verdadeiro deserto de chão calçado entre altos edifícios que lançavam quase um crepúsculo de sombra sobre ele. Repentinamente, viu-se a figura de um ancião, que se diria ter surgido dentre o povo, caminhar sozinho pelo meio da rua a fim de defrontar-se com o bando armado. Vestia ele o antigo traje puritano, capa negra e chapéu de copa pontuda, que se usara cinqüenta anos antes, e levava uma pesada espada dependurada no flanco, além de um cajado na mão para assistir-lhe o passo vacilante da velhice.

A alguma distância da multidão o velho fez uma volta vagarosa exibindo um rosto de antiga majestade, tornado duplamente venerando pela comprida barba que lhe descia sobre o peito. Fez um gesto a um tempo de encorajamento e advertência, depois tornou a virar-se e reencetou o caminho.

— Quem é esse patriarca encanecido? — perguntaram os jovens a seus pais.

— Quem é esse venerando irmão? — perguntaram entre si os anciãos.

Mas ninguém soube responder. Os pais do povo, aqueles que tinham quatro vintenas de anos ou mais, ficaram perturbados, achando estranho terem eles próprios esquecido alguém dotado de uma autoridade tão evidente, alguém que deviam ter conhecido anos atrás, sem dúvida um sócio de Winthrop e de todos os antigos conselheiros que decretaram leis, fizeram orações e os conduziram contra o selvagem. Os anciãos deviam ter lembrança dele, com suas madeixas tão grisalhas naquele tempo, exatamente como as deles eram agora. E os jovens! Como podiam tê-lo esquecido tão completamente — aquele idoso cavalheiro, relíquia de tempos idos, cuja bênção terrível fora, sem dúvida, concedida sobre suas infantis cabeças descobertas?

— De onde teria vindo? Qual a sua intenção? Quem poderá ser? — sussurrava a multidão, presa de espanto.

Entrementes, o venerando estranho, com o cajado na mão, prosseguia em sua caminhada solitária pelo meio da rua. Ao se aproximar dos soldados em marcha, e enquanto o rolar do tambor lhe entrava em cheio nos ouvidos, o velho ergueu-se numa atitude mais ereta, enquanto a decrepitude pareceu tombar-lhe dos ombros, deixando-lhe um velhice indisfarçável, porém cheia de dignidade. Agora, marchava para a frente com um passo de guerreiro, mantendo o compasso da música militar. Assim avançou o ancião de um lado, e os soldados e os magistrados do outro, até que, não restando mais que umas vinte jardas entre eles, o ancião agarrou seu cajado pelo meio, e ergueu-o à sua frente como o bastão de comando de um líder.

— Alto! — exclamou ele.

Os olhos, o rosto e a atitude de comando; a solene mas beligerante vibração daquela voz, apta a dirigir uma hoste na batalha ou a erguer-se em oração a Deus, era irresistível. À palavra do ancião, que estendera o braço, o rolar do tambo imediatamente se calou e a linha em avanço estacou. Um trêmulo entusiasmo empolgou a multidão. Aquele vulto majestoso, que combinava o líder e o santo, mas de tal modo encanecido e quase invisível em roupagem tão antiga, só podia pertencer a algum velho paladino da causa justa, que o tambor do tirano tivesse invocado do túmulo. Elevou-se da multidão um grito de pavor de exultação, na expectativa da libertação da Nova Inglaterra.

O governador e os cavalheiros do seu grupo, percebendo que tinham sido levados a uma posição inesperada, avançaram depressa, como se impelissem seus cavalos resfolegantes e assustados para cima da velha aparição. Esta, porém, não recuou um só passo, mas passando o olhar severo pelo grupo, que quase o cercava totalmente, finalmente o fixou severamente em Sir Edmund Andros. Alguém poderia pensar que o ancião de preto era ali o próprio governador, e que o governador e seu Conselho, com soldados a respaldá-los, representantes que eram de todo o poder e a autoridade da coroa, não tinham outra alternativa senão obedecer-lhe.

— Que faz aqui este velho? — gritou Edward Randolph num tom de ferocidade. — Avante, Sir Edmund! Que os soldados avancem e dêem a esse velho caduco a mesma opção que damos a todos os seus compatriotas: sair do caminho ou ser pisado!

— Não, não, mostremos nosso respeito ao bom ancião — disse Bullivant, abrindo uma risada. — Não vê que ele é um dos dignatários dos cabeças-redondas que dormiu estes últimos trinta anos e nada sabe da mudança dos tempos? Pensa sem dúvida que nos poderá derrotar mediante uma proclamação em nome do Velho Noll!

— Está louco, velho? — perguntou Sir Edmund Andros num tom áspero e estridente. — Como se atreve a interromper a marcha do governador do rei Jaime?

— Já interrompi a marcha do próprio rei — respondeu o grisalho vulto com austera compostura. — Aqui estou, senhor governador, porque o clamor de um povo oprimido me perturbou no meu esconderijo; e implorando sofregamente esse favor ao Senhor, foi-me concedido tornar a aparecer na Terra pela boa causa de seus santos. E que dizeis de Jaime? Já não há um tirano papista sobre o trono da Inglaterra, e amanhã ao meio-dia o seu nome será uma senha nesta mesma rua onde fizestes dele uma palavra de terror. Para trás, vós, que fostes governador: para trás! Com esta noite se acaba o vosso poder — e, amanhã, a prisão! Para trás, antes que eu vos vaticine o cadafalso!

O povo ia-se aproximando cada vez mais, e bebia as palavras do seu paladino, que falava em acentos agora desusados, como alguém desabituado de conversar exceto com pessoas há muito tempo mortas. Mas a sua voz comovia-lhes a alma. E o povo enfrentou a soldadesca, não inteiramente desarmado, pronto a converter as pedras da rua em armas mortíferas. Sir Edmund Andros fitou o ancião; depois lançou o seu duro e cruel olhar sobre a multidão, e viu-a ardendo naquela ira lúrida, tão difícil de atear ou de apagar; em seguida tornou a fixar o olhar no vulto envelhecido, que, obscuro, se erguia no espaço aberto onde nem amigo nem inimigo ainda se precipitara. Quaisquer que fossem os seus pensamentos, nenhuma palavra pronunciou que os relevasse. Ou fosse porque o opressor ficasse temeroso diante do olhar do Paladino Grisalho, ou porque percebesse o perigo na atitude ameaçadora do povo, o certo é que recuou e ordenou a seus soldados que dessem início a uma lenta e cautelosa retirada. Antes do novo pôr-do-sol, o governador e todos os que tão orgulhosamente cavalgavam a seu lado foram feitos prisioneiros, e muito antes que o rei Jaime abdicasse, o nome do rei Guilherme foi proclamado por toda a Nova Inglaterra.

Mas onde estava o Paladino Grisalho? Disseram alguns que, ao se retirarem as tropas da King Street e ao se reunir o povo tumultuosamente em sua retaguarda, Bradstreet, o velho governador, foi visto abraçando um vulto ainda mais velho do que ele. Outros discretamente afirmavam que, enquanto se maravilhavam diante da veneranda grandeza do seu aspecto, o velho desaparecera de vista, confundindo-se lentamente com os matizes do crepúsculo, até deixar um lugar vazio no ponto onde estivera. Todos, porém, concordavam em que o vulto encanecido derretera-se. Os homens daquela geração ficaram, dia e noite, esperando pelo seu retorno, porém nunca mais o viram, nem souberam quando se deu o seu enterro, nem onde o seu túmulo ficava.

E quem era o Paladino Grisalho? Talvez o seu nome pudesse ser encontrado nos registros daquele austero tribunal de justiça que passou uma sentença demasiado forte para a época, mas gloriosa por todos os tempos, pela humilhação infligida a um monarca e o alto exemplo dado ao súdito. Ouvi dizer que, quando quer que os puritanos precisem mostrar o espírito de seus ancestrais, o ancião torna a aparecer. Após oitenta anos, ele tornou a palmilhar a King Street. Cinco anos depois, na penumbra de uma madrugada de abril, surgiu no relvado, diante da casa de oração, em Lexington, onde agora o obelisco de granito, com uma ardósia incrustada, comemora os que primeiro tombaram pela Revolução. E quando nossos pais lutavam nos parapeitos de Bunker Hill, a noite toda o velho guerreiro ali fez a sua ronda. Que muito tempo se escoe, antes que ele torne a voltar! A sua hora é uma hora de treva, adversidade e perigo. Mas se a tirania doméstica oprimir-nos, ou o pé do invasor poluir nosso solo, possa ainda o Paladino Grisalho aparecer, pois ele encarna o espírito hereditário da Nova Inglaterra; e sua marcha sombria, na véspera do perigo, será o voto perpétuo de que os filhos da Nova Inglaterra saberão vingar os seus ancestrais.
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Fonte:
Os melhores contos de Nathaniel Hawthorne. Seleção e tradução de Olívia Krähenbühl. São Paulo: Círculo do Livro SA. Disponível em
http://planeta.terra.com.br/arte/ecandido/mestr112.htm

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Daniela Jacinto (Maratona Literária em Sorocaba)

Projeto encabeçado por escritores do Sorocult visita instituições que atendem crianças com o objetivo de incentivar a leitura e discutir questões sobre o meio ambiente

Pode ser que a condição financeira de uma família não permita que o orçamento se estenda à compra de livros, já que outros aspectos, como a alimentação, estariam em primeiro lugar. Nesse caso, o livro seria supérfluo. É por isso que surpreende encontrar crianças e adolescentes, filhos e filhas de catadores de materiais recicláveis, que possuem coleção de livros em casa, que apreciam a leitura, e inclusive sonham em ser escritores. A maior alegria dessa turma, assistida pelo Centro de Orientação e Educação Social (Coeso) da Vila Angélica, foi ter conhecido pessoalmente escritores da cidade – deu até mesmo para pedir autógrafo. A iniciativa ocorreu no início do mês, dentro da Maratona Literária Infantil Sorocult, encabeçada pelos autores da 1ª Coletânea do Sorocultinho, livro dirigido ao público infantil que visa estimular a prática da leitura e também o cuidado com o meio ambiente.

E é com esse objetivo que os escritores sorocabanos têm percorrido diversas instituições de ensino e também entidades que cuidam dos menores. Nesses locais, os autores falam de literatura e da natureza através de palestras, levam mudas de árvores para serem plantadas pelas crianças, e ainda distribuem gratuitamente a coletânea.

A Maratona Literária teve início no dia 18 de abril e já percorreu mais de 25 instituições. Ao todo, são 500 livros para doação. No encontro com as crianças do Coeso, os autores se surpreenderam com o nível de interesse daquele pessoal pela leitura, já que, durante outras visitas, encontraram crianças que nunca tinham visto um livro. Na avaliação de Neusa Padovani Martins, coordenadora do Projeto Sorocult, as visitas também acabam por estimular a escrita. Eles perceberam que também podem, afirma. Para ela, é um erro dizer que o brasileiro não gosta de ler. O brasileiro só não lê porque não tem acesso a livros, muito embora tenha escolas do Estado jogando livros fora, denuncia.

Incentivo também à escrita

Entre as histórias contadas pelos autores, o depoimento da jovem escritora Ana Paula de Cássia, de 16 anos, chamou a atenção da criançada. Com seu jeito tímido e delicado, Ana Paula contou como publicou seu primeiro livro: Quando era pequena, minha mãe me contava muitas histórias e eu gostava tanto que passei a inventar várias delas. A partir da segunda série, com 8 anos, eu comecei a passar tudo para o papel, explicou, sob olhares atentos e curiosos. Mas foi quando viu em uma revista que uma menina da mesma idade que ela conseguiu publicar um livro, que Ana Paula se entusiasmou. Hoje, ela tem dois livros publicados, participa de coletâneas e ainda tem seus textos no site Sorocult (http://www.sorocult.com/).

Durante a palestra, Neusa aproveitou para falar que o site está aberto a crianças que estiverem produzindo textos e também alertou sobre a possibilidade da publicação dos trabalhos em um próximo livro do grupo.

Questionadas sobre quem ali já tinha inventado alguma história, a maioria das crianças levantou as mãos. Também a maioria disse gostar de ler e ter vontade de se tornar escritor.

Luiz Henrique Marques, de 14 anos, afirmou que tinha um texto que inclusive ia participar de concurso. Josué Amós, de 8 anos, disse ter inventado a história do Ninja Barulhento. Já José Gabriel Rigui, também de 8 anos, inventou uma história chamada A Casa de Madeira. E assim muitos outros ergueram as mãos para falarem de suas criações. Os alunos também disseram gostar de ler gibis e livros infantis. Entre eles, Ketlin Daiana da Costa, de 13 anos, disse ter em sua casa uma coleção de livros de contos de fadas.

Sobre a questão do meio ambiente, todos disseram cuidar da natureza, plantando árvores e regando as plantas. Eu jogo o lixo no lixo, acrescentou Eduarda Ribeiro Camargo, de 7 anos.

Conforme Neusa, as visitas nas escolas e entidades acabaram por descobrir diversos talentos. Elas viram também que nós estamos aqui para ajudá-las. Tanto é que já ganhamos colunistas para o site e temos uma adolescente de 14 anos entrando para a nova coletânea, comemora. Neusa também anuncia a formação de um grupo de teatro infanto-juvenil, nascido desse projeto nas escolas.

Quinze escritores participam da coletânea

A 1ª Coletânea do Sorocultinho apresenta textos de 15 escritores, dos 8 aos 80 anos, em forma de fábulas, crônicas, poesias e trovas, que focam a questão do meio ambiente. Ilustrada para ser colorida pelos leitores, a obra traz ainda histórias traduzidas para o inglês, um capítulo com teoria literária e algumas atividades lúdicas educativas.

O livro foi patrocinado pelo marido de Neusa, Válter de Jesus Martins. Dessa vez não foi em sistema de cooperativa. Esse foi o meu presente de Natal, diz. Para ela, o projeto tem sua importância. É comum as pessoas doarem alimentos para as entidades, mas nós queríamos que as crianças sonhassem.

Já o Sorocult (http://www.sorocult.com/) é um site voltado ao incentivo e divulgação da literatura de Sorocaba e Região. No decorrer dos seus quase três anos de existência, já publicou duas coletâneas literárias feitas em sistema de cooperativa. Há quase um ano, fundou o Clic Art & Letras – Centro Literário Cultural de Sorocaba e Região para agregar e divulgar os escritores e as coletâneas. No decorrer deste tempo, várias crianças e jovens foram ingressando no site como colunistas, o que levou à criação de um espaço infantil dentro dele: o Sorocultinho.

Sobre o Coeso

O Coeso atende crianças e adolescentes de 7 a 14 anos que estejam devidamente matriculados em uma escola e freqüentem as aulas. Lá, os assistidos recebem aulas de reforço escolar, música, balé, tae kwon do, artes plásticas (através do Pintura Solidária), e ainda fazem roda de leitura. Eles também contam com acompanhamento psicológico e eu mesma faço questão de verificar as notas da escola e a freqüência de cada criança. Também faço uma análise de como ela estava quando entrou no Coeso e sua evolução, frisa a coordenadora do Coeso, Renata Silva Andrade.

Com capacidade para atender 25 crianças no período da manhã e outras 25 no período da tarde, provenientes dos bairros da Zona Norte (como Vila Angélica, Jardim Baronesa e Nova Sorocaba), a estrutura do Coeso não é suficiente para acolher a todos os interessados. De acordo com Renata, existe uma lista de espera imensa de crianças que desejam participar do projeto.

As crianças, em sua maioria, são membros de famílias desestruturadas, com pais que têm problemas com drogas e alcoolismo. Muitos deles estariam nas ruas catando papéis para ajudar a família, caso não estivessem aqui na entidade, acrescenta.

Fontes:
Notícia publicada na edição de 15/05/2008 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 1 do caderno D
http://www.cruzeirodosul.inf.br/materia.phl?editoria=42&id=86850

http://www.sorocult.com

Foto: Érick Pinheiro

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4º Concurso de Trovas do Projeto de Trovas para uma Vida Melhor (Resultado Final)

Tema – Fortaleza
Resultado oficial

GRUPO. 1 NACIONAL

1º Lugar
Nas tramas que a vida tece,
lutando contra a avareza,
se o Diabo me enfraquece,
Deus é minha Fortaleza!
GABRIEL BICALHO
MARIANA/MG
Delegado da UBT-Mariana-MG.

2º Lugar
A fortaleza da alma,
está na paz, no perdão,
na força da fé que acalma,
no silêncio da oração!!!
FRANCISCO GARCIA (PROF. GARCIA )
CAICÓ-RN

3º Lugar
Canto alegre, a fortaleza
que sempre cobriu meus passos;
porém escondo a fraqueza
de não contar meus fracassos.
CONCEIÇÃO PARREIRAS ABRITTA
BELO HORIZONTE- MINAS GERAIS

MENÇÃO HONROSA

1. Mesmo na dor, pus de pé,
com esperanças sem fim,
a Fortaleza de fé
que existe dentro de mim.
ADEMAR MACEDO
NATAL – RN

2. Encontrando fortaleza
nos poderes da oração,
rogo a Deus eu possa, à mesa,
repartir amor e pão.
MIGUEL RUSSOWSKY
JOAÇABA – SC

3. Não falo da “Fortaleza”
capital do Ceará,
mas da constante firmeza
que a fé em Cristo nos dá.
ROZA DE OLIVEIRA
UBT CURITIBA PR

MENÇÃO ESPECIAL

1. Só peço a Deus fortaleza
para levar minha cruz:
– mais vigor (vindo a fraqueza);
nas trevas, ver Sua luz!
GERALDO LYRA
RECIFE – PE

2. É forte o meu bem-querer,
aqui o perigo não medra…
A fortaleza em meu ser
construí, pedra por pedra!
RENATO ALVES
RIO DE JANEIRO/RJ

GRUPO. 1 INTERNACIONAL

1º Lugar
Se eu tivesse a Fortaleza
que Cristo teve na Cruz,
tinha sempre, com certeza,
pouca sombra e muita Luz!
GISELA ALVES SINFRÓNIO
OLHÃO – PORTUGAL

2º Lugar
Sendo o meu melhor amigo
Cristo é minha fortaleza,
meu terno porto de abrigo,
minha chama sempre acesa!
FERNANDO MÁXIMO
AVIS – PORTUGAL

3º Lugar
Por mais que te julgues forte,
nessa tua fortaleza
não há ninguém que suporte
as forças da Natureza!
MARIA JOSÉ FRAQUEZA
FUZETA – PROVÍNCIA: ALGARVES -PORTUGAL

Não houve trova pontuada para receber Menção Honrosa nem Menção Especial, neste grupo.

COMISSÃO JULGADORA DO GR.1
NACIONAL E INTERNACIONAL – FORTALEZA:

1. Adamo Pasquarelli – SP
2. Lisieux Souza – MG
3. Luiz Antonio Cardoso – SP
4. Myrthes Massa Masiero – SP
5. Zelia Maria Carvalho de Figueiredo – RN

GRUPO. 2 NACIONAL

1º Lugar
Sobreviver é uma arte.
É driblar a natureza,
tendo a fé como estandarte
e Deus como fortaleza.
MYRTHES MAZZA MASIERO
S.J.CAMPOS/SP

2º Lugar
Não existe ser que agrida
ou faça perder a calma,
de quem tem sua guarida
na fortaleza da alma!
FLÁVIO DE AZEVEDO LEVY
CAMPINAS – SÃO PAULO

3º Lugar
Quando uma mágoa me lança
nas trevas de uma tristeza,
dá-me o Senhor a esperança,
dá-me o Cristo a fortaleza!
HUMBERTO RODRIGUES NETO
PIRITUBA – SP

MENÇÃO HONROSA

1. Na minha grande fraqueza,
Num poço fundo, sem luz,
Descobri a FORTALEZA,
Da mão firme de Jesus.
RAYMUNDO DE SALLES BRASIL
SALVADOR/BAHIA

2. Se no destino há tristeza,
de encontro às pedras, eu sigo,
construindo a fortaleza
que me servirá de abrigo.
MÁRCIA SANCHEZ LUZ
ARARAS/SP

MENÇÃO ESPECIAL

1. Os vendavais da existência
são vencidos, com certeza,
por quem tem a paciência
moldada na Fortaleza!
MARIA EMÍLIA LEITÃO MEDEIROS REDI
PIRACICABA/SP

2. O caminho de JESUS
é luz, amor e beleza.
Percorrê-lo nos conduz
a uma eterna Fortaleza.
ZÉLIA MARIA CARVALHO DE FIGUEIREDO
NATAL/RN

GRUPO. 2 INTERNACIONAL

1º Lugar
A fortaleza se mede
no enfrentar da verdade,
o forte não é quem pede,
mas quem o dá, de vontade.
OLÍVIA ALVAREZ MIGUEZ BARROSO
PAREDE – PORTUGAL

2º Lugar
Que ninguém tenha receio
Se a vida foi de incerteza,
Mas teve Deus por esteio
A servir de fortaleza!
JUDITE RAQUEL NEVES FERNANDES
GÓIS/PORTUGAL

3º Lugar
Fortaleza é uma virtude
da pessoa com bondade,
viverá com plenitude
e terá felicidade.
JAMIL WILLIAM PISCOYA AYALA
PERU

MENÇÃO HONROSA

A fortaleza da vida,
que o mundo anima e conduz,
é a fé rejuvenescida
nos caminhos de Jesus,
MAIMA MAZZA PRADAT
TOULON – FRANÇA
.

MENÇÃO ESPECIAL

Busco o dom da fortaleza
Numa alma de eleição.
Para encontrar a beleza
Dentro do seu coração.
ISAURA MARTINS
S. JOÃO DA BOAVISTA/PORTUGAL

COMISSÃO JULGADORA DO GRUPO. 2
NACIONAL E INTERNACIONAL

1. Ademar Macedo – RN
2. José Valdez – SP
3. Maurício Cavalheiro – SP
4. Miguel Russowsky – SC
5. Vicente Liles de Araújo Pereira – SP

GRUPO. 3 – ALUNOS

1º LUGAR
Deus é minha fortaleza
e nada me faltará,
com Ele não há tristeza,
pois Ele me salvará.
FELIPE AUGUSTO DOS SANTOS NOGUEIRA.
PARAIBUNA-SP

2º LUGAR
Paraíso é Fortaleza
Que parece uma história
lugar de muita beleza
Que retenho na memória.
DAVI FARIA BARROS
8ª A – EE “CEL. E.J.CAMARGO”

3º LUGAR
Quem tropeçou e caiu,
e logo se ergueu, com calma,
não tem a força dum rio,
mas tem fortaleza de alma.
JOÃO TIAGO BLASQUES DE OLIVEIRA BARROSO
PAREDE – PORTUGAL

MENÇÃO HONROSA

01. Aqui dentro do meu eu,
posso dizer com certeza:
coração que Deus me deu
é a minha fortaleza.
CAMILA DE CÁSSIA DA COSTA ALVES
3º A – EE”CEL. E.J.CAMARGO”

02. A fortaleza é castelo
e reino de seu senhor,
não precisa de ser belo,
mas, precisa ter amor.
CATARINA BLASQUES DE OLIVEIRA BARROSO
PAREDE – PORTUGAL
.

MENÇÃO ESPECIAL

01. Esta vida me avalia,
traz alegria e tristeza,
é abismo, é reta, é folia,
é uma grande fortaleza.
TAILA DE JESUS SANTOS MIRANDA
CEMPORCENTO

02. Nos dias que olho o mar
já vejo a sua grandeza,
e a alegria de te amar
faz de ti uma fortaleza.
TAÍS A. DE FARIA PRADO
8ª A – EE “CEL. E.J.CAMARGO”

03. Explicar esta grandeza
parece quase impossível,
só mesmo com fortaleza
é que pode ser cabível.
ANA DAIR DOS SANTOS MORAES
3º B – EE “CEL. E.J.CAMARGO”

COMISSÃO JULGADORA DO GR.3
ALUNOS NACIONAL E INTERNACIONAL

1. Cláudio de Morais – SP
2. Delcy Rodrigues Canalles – RS
3. Francisco Garcia – RN
4. Gislaine Canales – SC
5. Lucia Helena de Lemos Sertã – RJ

LEMBRETES:

01. Estas trovas e seus respectivos autores constarão do 1º Livro de Trovas desta 1ª Etapa do Projeto de Trovas Para Uma Vida Melhor, a ser editado em dezembro deste ano de 2008. As demais trovas serão deletadas, conforme regulamento do concurso.

02. Após os concursos: Faremos Cirandas de trovas, iniciando com as trovas classificadas. Os demais trovadores, cujas trovas foram deletadas, conforme normas do Concurso, poderão inscrevê-las na Ciranda.

03. As trovas que estiverem em desacordo com as normas da UBT (União Brasileira de Trovadores) serão devolvidas para acertos, com orientação, caso contrário não farão parte da Ciranda em questão.

04. RETIFICAÇÃO: Esta primeira Etapa do Projeto de Trovas Para Uma Vida Melhor passa a ser constituída por seis (06) Concursos com os seguintes temas: SABEDORIA, ENTENDIMENTO, CONSELHO, FORTALEZA, CIÊNCIA E PIEDADE.

05. Esperamos aumentar o nº de participantes nos próximos concursos: Ciência e Piedade.

06. Nossos agradecimentos a todos que participaram, com suas trovas, como membros da Comissão Julgadora, como divulgadores e os nossos Parabéns a todos os Classificados.

Maria Inez
Delegada da UBT – PARAIBUNA – SP

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Tertúlia Literária do Movimento Médico Paulista do Cafezinho Literário

Na próxima 4a feira, dia 28, haverá novamente uma reunião em Sorocaba para uma Tertúlia Literária do Movimento Médico Paulista do Cafezinho Literário – MMCL., como de costume na Sociedade Médica de Sorocaba (Rua Mons João Soares, 75) a partir das 19h30.

Será levado para sorteio entre os presentes cinco exemplares de cada um dos dois livros recentemente editados por Ottoni Editora tangentes ao MMCL: ANAIS do I Congresso Paulista Comunitário de Letras, do MMCL, festejando o terceiro aniversário do Movimento e que se fez realizar em Santos entre 2 e 4 de maio p.p. e o primeiro volume do livro A Presença Literária do MMCL, ambos magnificamente elaborados.

Cada um dos sorteados receberá os dois livros. O MMCL já realizou 75 reuniões literárias em 13 cidades do Estado de São Paulo com a participação de cerca de 450 pessoas que apresentaram em torno de mil trabalhos (resenhas, poesias, contos, crônicas, relatos, etc.) O Movimento é gratuito e aberto a todos os interessados, médicos e não médicos. A única exigência é a apresentação de um trabalho de sua própria lavra e para a qual tem 10 minutos..

Um dos que se farão presentes, será William Moffitt Harris, o qual participou do Roda Mundo 2008, com três crônicas em português e mais três capítulos em inglês do livro que está escrevendo sobre as andanças e aventuras do seu pai, logo após a Primeira Guerra Mundial, entre os índios “lengua” na margem oriental do Rio Paraguai em pleno Chaco Paraguajo. Vivenciou inclusive alguns choques culturais com bastante maturidade apesar dos seus 24-25 anos de idade durante os cinco anos que lá esteve.

Fonte:
Colaboração de Douglas Lara. In
http://www.sorocaba.com.br/acontece

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XI Concurso Literário – Algarve-Brasil / 2008, do Clube da Simpatia

O Clube da Simpatia homenageia este ano, Tito Olívio, sócio n.º 100 e Delegado do Clube, em Faro. Talentoso Poeta e Prosador que muito tem contribuído para o enriquecimento do nosso património Cultural, será o seu soneto, “Os Teus Olhos”, que, este ano, servirá de tema para todas as modalidades do Concurso Literário, Algarve-Brasil, que, de ano para ano, vai crescendo em qualidade e quantidade, de trabalhos literários.

REGULAMENTO

O concurso destina-se a todos os cidadãos, maiores de 16 anos, de nacionalidade portuguesa ou brasileira, sócios ou não do Clube da Simpatia, que apresentem produções inéditas escritas em língua portuguesa e que respeitem o tema proposto.

Tema para o Conto: “ BRINCANDO COM O LUME…”

Tema para a Quadra: “ OS TEUS OLHOS “

Tema para o Soneto e Poesia Lírica:

Um verso do soneto, “ OS TEUS OLHOS “ do Poeta, Tito Olívio, que a seguir se transcreve:

OS TEUS OLHOS

Nos teus olhos me afogo com doçura,
nesse mar remansoso da esperança
que minha alma perdera e agora alcança
nas ondas dos teus beijos de ternura.

Por certo deve ser uma loucura
amar mais tempestade que bonança,
gostar da luta em vez da vida mansa,
mas eu tenho atracção pela aventura…

E há também no perigo poesia…
Por isso eu vou brincando com o lume,
não receio nadar por entre escolhos,

Mergulho em teu olhar com alegria.
E nem sequer do mar tenho ciúme,
porque há muito mais verde nos teus olhos.

❀❀❀

MODALIDADES:

POESIA
1 – QUADRA: em redondilha maior, de rima ABAB.
2 – SONETO: de características clássicas, em versos de 10 sílabas.
3 – LÍRICA: sem sujeição a qualquer sistema poético, não podendo, no entanto, ser soneto, nem exceder 20 versos.

PROSA
CONTO – Pequena narrativa real ou fictícia subordinada ao tema proposto. O conto não pode exceder quatro páginas A/4 escritas de um só lado.

a) – Cada concorrente pode apresentar a Concurso um máximo de dois trabalhos de cada modalidade com pseudónimos diferentes para cada um. As composições devem trazer no cimo da página a indicação da modalidade e no final do trabalho o pseudónimo.

b) – Para todas as produções é obrigatório o envio de três exemplares dactilografados ou digitados em papel A/4, escritas de um só lado. As margens devem ter, pelo menos, dois centímetros. O espaço entre linhas será de um e meio e os caracteres de tamanho 12 com letra “Times New Roman” ou idêntica. As quadras também serão apresentadas, uma em cada folha A/4.

c) – Anexo a cada trabalho será enviado um envelope fechado contendo, no exterior, a indicação da modalidade e do pseudónimo e, no interior, a identificação completa do autor: nome, morada, número de telefone e e-mail, se possuir.

d) – Os originais serão enviados, sem indicação de remetente, (excepto para o Brasil que será o mesmo do endereço) até ao dia 25 de Agosto de 2008 (carimbo dos correios) para:

CLUBE DA SIMPATIA
XI Concurso Literário – ALGARVE-BRASIL /2008
8700-911 Olhão – Portugal

e) – O Júri, constituído por individualidades de idoneidade e competência reconhecidas, deliberará por maioria e das suas decisões não haverá recurso, salvo se vier a provar-se que houve plágio ou que os trabalhos não são inéditos.

f) – Não se devolvem os trabalhos não distinguidos.

g) – Para cada modalidade serão atribuídos 1º, 2º, e 3º Prémios e as Menções Honrosas que o júri entender merecidas.

h) – Os premiados serão avisados com a devida antecedência.

i) – A entrega dos prémios está marcada para o dia 5 de Outubro de 2008, data do 13.º Aniversário do Clube.

O Regulamento está disponível em:

http://www.geocities.com/clubedasimpatia

Fonte:
Colaboração de A. A. De Assis, por e-mail.

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Tito Olívio (1931)

Tito Olívio Henriques é natural de Penalva do Castelo, Distrito de Viseu, onde nasceu em 1931 e vive em Faro.

É licenciado em Engenharia Civil (1958) e Sociologia (1961).

Como Engenheiro Civil trabalhou no setor privado e no setor público.

Em suas atividades sociais antes da Reforma, pode-se destacar
– Vice-presidente da Assembleia Geral do Cine-Clube de Faro
– Presidente do Sporting Club Farense
– Secretário da Comissão Distrital de Árbitros de Faro
– Presidente da Assembleia Geral do Sport Faro e Benfica
– Presidente da Associação de Xadrez de Faro
– Secretário da Delegação de Faro da Cruz Vermelha Portuguesa
– Presidente do Rotary Club de Faro
– Presidente da Comissão Distrital dos Serviços à Comunidade do Distrito Rotário 196
– Presidente da Direção dos Bombeiros Voluntários de Faro
– Vereador da Câmara Municipal de Faro
– Presidente da Comissão Municipal de Arte e Arqueologia da C.M.F.
– Secretário-Geral do Conservatório Regional do Algarve – Maria Campina.
– Colaborador de jornais diários e regionais

Atividades depois da Reforma
– Fundador e Editor do jornal “Poetas de Faro” (1997-99)
– Chefe de redação do jornal “Distrito de Faro” (1995-98)
– Presidente da Assembleia Geral da Associação dos Jornalistas e Escritores do Algarve
– Subdiretor do mensário “Jornal Escrito”
– Colaborador de jornais regionais

Livros publicados antes da Reforma
– O Romance do Homem Solitário – contos (1963)
– Sonetos Proibidos e Outros Poemas – poemas (1983)
– Roteiro do Algarve – ensaio (1983)
– Divisão Administrativa do Algarve – ensaio (1983)
– Algures… Alguém – sonetos (1987)
– A Democracia Que Temos – ensaio (1988)
– Algures… Alguém – 2ª Edição – sonetos (1989)
– Contradições da Democracia – ensaio (1989)
– A Democracia Que Temos – 2ª Edição – ensaio (1989)
– Cantata Para Um Corpo – sonetos (1989)

Livros publicados depois da Reforma
– Formas de Fumo – sonetos (1990)
– A Gota de Água – poema infantil (1993)
– Flor de Luz – sonetos (1993)
– Ode a Penha Garcia – poema (1994)
– A Democracia Que Temos – 3ª Edição – ensaio (1995)
– Ode a Penha Garcia – 2ª Edição – poema (1995)
– Justiça Social – ensaio (1995)
– Sombra Desfeita – sonetos (1996)
– A Cauda do Cometa – poemas (1997)
– A Lenda do Moliceiro – contos (1997)
– Sombra Desfeita – 2ª Edição – sonetos (1997)
– A Cauda do Cometa – 2ª Edição – poemas (1998)
– A Lenda do Moliceiro – 2ª Edição – contos (1998)
– Guia Prático do Poeta – didático (1999)
– E Agora?… – poemas (2000)
– Mulheres Sem Verão – romance (2004)
– Para Quê Helena – romance (2006)

Honrarias
Mais de 90 prêmios literários, entre os quais,
– Prêmio Cidade de Olhão-Prosa,
– Menção Honrosa no Prêmio Eça de Queiroz (Lisboa),
– Referência especial no Prêmio Revelação Manuel Teixeira Gomes (Portimão)
– Sócio Honorário do Boa Esperança Atlético Clube Portimonense (1960)
– Medalha de Mérito da Cruz Vermelha Portuguesa (1973)

Fontes:
http://www.caestamosnos.hpg.ig.com.br/
http://www.geocities.com/clubedasimpatia/

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Tito Olívio (Cama Vazia – Botões de Rosa)

CAMA VAZIA

Na cama vazia, uma sombra fenece,
Suspiro se solta, vestido de louco,
A mão que procura se perde, arrefece,
Por ter tido muito e sobrado tão pouco.

Cortinas, espelhos, sofás, almofadas,
Imóveis na espera do quê que não volta,
Relembram a mágoa das noites paradas
Nos lençóis de linho em fúria revolta.

O quarto esquecido em solidão de ausência,
A mão que procura e tacteia pra nada…
Navegam no escuro batéis de demência,
Que a mancha da noite morreu de cansada.

Se há gritos na rua, ou são arvoredos
Ou gente que berra no seu desvario,
Fugindo à desgraça, à sombra dos medos,
Ou pobre mendigo tremendo de frio.

Será pois da morte o escuro capote,
De cal a brancura da face sombria?
Será uma musa, ditando algum mote
P’ra versos de raiva p’la cama vazia?

Quem há de fazer um poema perfeito,
Quintilhas ou odes à viva saudade,
Se a mão, percorrendo esse lado do leito,
Só toca na angústia da triste verdade!

A marcha das horas remarca infinito
E, lentos, os passos de quem já não vem,
Perdidos agora, não são mais que mito
Ou são cantarinhas perdidas além.

Nas voltas e voltas, estria madura,
O sono não vem e, nas horas que vão,
Desejos de agora não são mais loucura
E a ausência não pode ter graça ou perdão.

BOTÕES DE ROSA

Por baixo do cetim de fino corte,
Pendente do teu corpo abandonado,
Havia a luz do Sol alcandorado,
Que macerava a vista, de tão forte…

Era a festa das rendas transparentes,
Como astros radiosos nos espaços,
Cortando as doces curvas dos teus braços
De riscos luminosos, refulgentes,

E emoldurando os peitos arquejantes,
Dois montes esculpidos em marfim,
Exalando perfume de jardim
Nos seus acordes de harpa provocantes.

E vi então teus seios luminosos,
Dum branco radioso cor de leite,
Como se fossem asas de um enfeite
Ou apenas dois cisnes caprichosos.

E tinham duas pintas, amuletos
De magia, de sonhos esquecidos
Ou dois faróis de cultos prometidos
Em aras dos deleites mais completos,

Oh! Dois olhos castanhos, astrolábios
Medindo a latitude da loucura,
Botões de rosa ardendo na secura,
A pedir a frescura dos meus lábios.

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Mary Shelley (Conto do mortal imortal)

Dezesseis de julho de 1833. Este é um aniversario especial para mim, cumpro trezentos e vinte três anos!

O judeu errante? Decerto que não, por ele já passaram mais de oito séculos. Em comparação com ele sou um imortal muito jovem.

Serei imortal? Isso é o que me tenho perguntado dia e noite durante os últimos trezentos anos, e ainda não fui capaz de responder. Precisamente hoje descobri um cabelo branco entre meus fartos morenos, e isso certamente significa que começo a envelhecer. Ainda que também poderia já estar ali escondido durante trezentos anos, pois algumas pessoas têm o cabelo completamente branco antes de cumprir os vinte.

Vou contar a minha historia; e logo, deixarei que os leitores julguem por mim. Assim, enquanto a conto, irão passando umas tantas horas desta longa eternidade que me está sendo tão insuportável. Para sempre! É isso possível? Viver para sempre! Tenho escutado sobre encantamentos em que as vítimas foram entregues a um profundo sono e despertaram cem anos depois, frescas coma uma rosa. Ouvi falar, por exemplo, dos Santos dormentes e do feliz que foi o lendário Nourjahad. Ser imortal dessa maneira não seria cansativo porém, ai, que insuportável se faz o peso do tempo eterno, o lento passo das horas sucedendo-se sem fim! Mas sigo com meu relato.

Todo o mundo ouviu falar de Cornelius Agrippa. A sua memória é tão imortal como sou eu, por causa da sua sabedoria. Todo o mundo ouviu também falar daquele discípulo seu que, sem querer, invocou o Inimigo na ausência do mestre e foi destruído por ele. O relato deste acidente, verdadeiro ou falso, pôs em apuros o célebre filósofo. Abandonaram-no todos alunos seus, e os seus serventes desapareceram. Não tinha quem mantivesse o lume aceso enquanto dormia ou quem prestasse atenção às mudanças de cor das suas poções enquanto estudava. Um após outro, estragavam-se todos seus experimentos, já que duas mãos não bastavam para ter conta deles. Os espíritos das trevas riam-se dele por não conseguir reter um só mortal a seu serviço.

Eu era naquela época mais novo, muito pobre e estava muito apaixonado namorado. Fora discípulo de Cornelius durante um ano mais ou menos, porém estava ausente quando ocorreu o acidente. Quando regressei, os meus amigos pediram-me que não voltasse àquela casa. Tremia quando me contaram aquela arrepiante historia e não esperei por um segundo aviso; assim que, quando Cornelius me veio oferecer uma bolsa de ouro para ficar sob seu teto, senti como se o próprio Satanás me estivesse a tentar. Estava arrepiado, batiam-me os dentes e sai correndo tão rápido quanto me permitiam as minhas debilitadas pernas.

Desfalecido, deixei que os meus passos me levassem ao lugar onde me dirigira cada serão dos dois últimos anos: a uma fonte da qual brotava suavemente uma água pura e limpa, perto da qual aguardava uma moça de cabelos mouros com olhos fixos no caminho pelo qual eu acabava de chegar. Não recordo o tempo em que não amava Bertha: fomos vizinhos e companheiros de jogos desde crianças; os seus pais, coma os meus, eram de condição humilde porém honrados, e nosso amor era fonte de alegria para eles. Mas um funesto dia, uma febre maligna levou seu pai e sua mãe, e Bertha ficou órfã. O meu pai a acolheria de bom grado sob nosso teto, porém, desgraçadamente, a dona do castelo vizinho, rica, solitária e sem filhos, declarou a sua intenção de apadrinhá-la. Daí em diante, Bertha vestiria roupas de seda, moraria num palácio de mármore e todos a veriam como aquela a quem sorria a fortuna. Realmente, apesar da sua nova situação e os seus novos amigos, Bertha seguia fiel a seu amigo de tempos mais humildes. Visitava amiúde a casa do meu pai, e quando lhe proibiram ir ali, desviava-se para um caminho próximo para encontrar-se comigo na sombria a fonte.

Dizia amiúde que com a sua nova protetora não tinha um compromisso tão sagrado como o que a unia comigo. E como eu não era bastante rico para poder casar, ela começava a estar farta de viver atormentada por causa minha. Era orgulhosa porém também impaciente, e exasperava-se pelos obstáculos que impediam a nossa união. Ela estivera muito aflita enquanto eu estava fora, e agora lastimava-se com amargura e me reprovava por ser pobre. Respondi-lhe sem pensar: “Sou pobre porém honrado! Não te preocupes, quem sabe logo serei rico!”

Esta afirmação deixou-a cheia de perguntas. Tinha medo de assustá-la se lhe confessasse a verdade. Porém conseguiu que eu contasse; e então, com um olhar de desprezo, disse: “Diz que me ama, não obstante tem medo de enfrentar o diabo por mim!”

Assegurei-lhe que só temia ofendê-la, porém ela teimava que receberia uma magnífica recompensa. Assim, alentado e envergonhado por ela, cego pelo amor e pela esperança e rindo-me dos meus temores, voltei com passo rápido e coração ligeiro para aceitar a oferta do alquimista, quem me devolveu imediatamente o meu antigo posto.

Passou um ano e ganhei uma soma considerável de dinheiro. O costume espantou os meus temores. Ainda que estava à espreita em todo momento, nunca achei nenhuma pegada de bode na nossa casa, nem se viu nunca a tranqüilidade do nosso estudo perturbada por gritos demoníacos. Segui vendo Bertha às escondidas e a esperança renasceu em mim; esperança sim, mas não felicidade completa, pois que Bertha cuidava que a segurança era inimiga do amor e se comprazia-se fazendo-me elixir entre eles. Ainda que fiel, era bastante coquete e fazia-me adoecer de ciúmes. Desprezava-me de mil maneiras e nunca se desculpava, fazia-me gemer de raiva e logo obrigava-me a suplicar-lhe perdão. Às vezes, quando cuidava que não era submisso o bastante, inventava alguma historia dum rival que era o preferido da sua protetora. Vivia rodeada de moços vestidos de seda, ricos e galantes, que oportunidade poderia ter o esfarrapento discípulo de Cornelius comparado com eles?

Numa ocasião, o filósofo tinha-me tão ocupado que não pude encontrar-me com ela tal como combináramos. Cornelius andava enredado em trabalho muito importante, e tive que ficar alimentando o forno e vigiando os preparados químicos dia e noite, enquanto Bertha esperava em vão na fonte. Era orgulhosa, e zangou-se muito por isso. Quando por fim pude escapar durante os escassos minutos que tinha para dormir, esperava que ela me confortasse; contudo, recebeu-me com indiferença e desprezo, e assegurou-me que não havia concedido sua mão a um homem que não fosse capaz de estar em dois lugares ao mesmo tempo por ela. Jurou que se vingaria, e decerto que o fez. Enquanto eu sofria em silêncio minha derrota, escutei dizer que ela estivera caçando acompanhada de Albert Hoffer. Hoffer era o preferido da sua protetora, e um dia passaram os três cavalgando diante de minha casa. Pareceu-me que mencionavam o meu nome, seguido duma risada burlesca, enquanto Bertha cravava os seus olhos escuros, cheios de desprezo, na minha velha casa.
Todo o veneno e o desassossego dos céus assolou meu coração. Primeiro derramei um rio de lágrimas pensando que nunca chegaria a ser minha, e logo reneguei da sua veleidade. Porém ainda assim tinha que seguir atiçando o lume e vigiando as mudanças das ininteligíveis mezinhas do alquimista.

Cornelius levava três dias e três noites de vigília sem sequer cerrar olhos. As poções dos seus alambiques progrediam a um ritmo mais lento do que ele esperava. Apesar de sua preocupação, já não podia manter os olhos abertos; custava-lhe um tanto sacudir o sono que lhe cegava uma e outra vez os sentidos. Por fim, olhou melancólico os crisóis e murmurou: “Ainda não está pronto, terá que passar ainda outra noite antes de que a obra esteja pronta. Winzy, filho, tu que és arguto e leal e dormiste pela noite, vigia este vaso. Contém um líquido duma cor ligeiramente rosada; quando começar a mudar de tom, acorde-me, até então deixa-me fechar um pouco os olhos. Primeiro põe-se branco, e depois despende faiscas douradas; porém não esperes até que passe disso, quando a cor rosa começar a sumir, acorda-me”. Estas últimas palavras, murmuradas enquanto adormecia, já quase não as escutei. Mas, nem sequer então se deixou dobrar pelas leis da natureza e seguiu dizendo: “Winzy, filho, não toques o vaso, não se te ocorra levá-lo aos lábios. É um filtro que cura o amor, e tu não queres deixar de amar a tua Bertha, não é? Pois muito cuidado com ele!”

Repousou a venerável testa no peito e caiu no sono, apenas se escutava a sua respiração. Observei o vaso durante uns minutos, porém o tom rosa do liquido não mudou. Então, a minha mente começou a vagar, vi-me na fonte, em lembrando cenas encantadoras que nunca haviam de voltar, nunca! Quando a palavra “nunca” começou a tomar forma nos meus lábios encheu-me o coração de veneno. Traidora!, traidora e cruel! Nunca tornaria a olhar como olhava Albert. Mulher detestável e odiosa! A coisa não podia ficar assim, como vingança havia de dar morte a Albert a seus pés… mataria a ela com minhas próprias mãos… Sorria triunfante e altiva, consciente da minha aflição e o seu poder. Mas, que poder tinha ela sobre mim? O poder de provocar minha ira, o meu desprezo mais absoluto, a minha… qualquer coisa menos indiferença! Se pudesse conseguir isso! Se pudesse olhá-la com olhos indiferentes e entregar-lhe esse amor não correspondido a outra mais pura e sincera, isso seria, sem dúvida, uma vitória!

De repente, um luz intensa cintilou ante meus olhos. Já me esquecera da poção do mestre. Contemplei-a com assombro: a superfície do liquido refulgia com beleza admirável, despendia umas faíscas mais brilhantes que as produzidas pelos raios de sol ao passar através de um diamante. Uma fragrância deliciosa embebeu meus sentidos, o vaso parecia uma bola luminosa e brilhante, fascinante para a vista e cativante para o olfato. A minha primeira reação, inspirada instintivamente pelos sentidos, foi: “quero beber! tenho que beber!” Levei o vaso aos lábios e murmurei: “Curara-me deste amor, desta tortura!” Quando o filósofo acordou, já eu engolira a metade do licor mais delicioso que provou o paladar humano. Assustei-me e deixei cair o vaso, o liquido derramou cintilando pelo chão e começou a arder. Entretanto, senti como Cornelius me apertava a garganta berrando: “Desgraçado, destruíste o trabalho de toda a minha vida!”

Não se deu conta de que eu bebera parte da poção. Cria que pegara o vaso por curiosidade e que o deixara cair, assustado pelo resplendor e a intensa luz que desprendia; versão que eu admiti implicitamente. Nunca lhe contei a verdade. Apagamos o lume e o resto da poção foi-se esvaecendo, Cornelius recuperou a serenidade, como deve fazer todo filósofo ante as maiores adversidades, e deu-me permissão para descansar.

Seria inútil tentar descrever o sono celestial que elevou a minha alma ao paraíso do gozo durante as restantes horas daquela noite inesquecível. As palavras seriam simples representações banais da satisfação e da alegria que assolavam o meu coração quando despertei. Flutuava no ar, o meu pensamento vagava pelas nuvens. A terra parecia o céu, e o meu legado desse paraíso era viver num êxtase de gozo. “Isto é estar curado do amor”, pensei. “Hoje irei visitar a Bertha e mostrar-me-ei frio e distante, demasiado feliz como para tratá-la com desprezo, porém completamente indiferente ante ela!”

As horas voavam e Cornelius, certo de que se o conseguira a primeira vez também o havia lograr uma segunda, começou de novo a elaborar a sua poção. Fechou-se com os livros e as ervas, e deu-me uns dias de descanso. Vesti-me cuidadosamente e olhei-me num escudo velho porém brilhante que me serviu de espelho; parecia que o meu aspecto melhorara extraordinariamente. com bom ânimo e rodeado de toda a beleza do céu e da terra, sai para fora dos limites da cidade. Fui ao castelo, chegando lá, dei-me conta conta de que era capaz de ver suas grandiosas torres com espírito leve, porque já estava curado do amor. Bertha viu-me ao longe quando subia pelo caminho, e não sei que repentina força despertou no seu peito que, ó verme, desceu a escada de mármore brincando com uma corça e começou a correr para mim. Mas também me viu a velha bruxa fidalga que se fazia chamar sua protetora e, na realidade, era a sua tirana; subia abafada e coxeando para o pórtico, enquanto um pagem, tão feio coma ela, lhe sustentava o vestido. Foi ele que deteve minha linda amiga dizendo: “Onde vais com tanta pressa, desvergonhada? Volta à tua gaiola, que fora revoam os falcões”.

Podem apreciar como Bertha apertava as mãos, com olhos ainda voltados para mim. Como aborrecia a velha harpia que teimava em reprimir os nobres impulsos da minha amada quando por fim começava a comover-se! Até então, eu sempre evitara defrontar-me com a senhora do castelo por respeito, porém naquele momento não reparei em considerações tão triviais. Já curara do amor e estava por cima de qualquer temor humano, assim apurei o passo e cheguei em seguida ao pórtico. Bertha estava preciosa! Brilhavam-lhe os olhos e ardiam de impaciência e raiva, estava mais garrida e encantadora que nunca, porém eu já não a amava Oh, não! Adorava!, Venerava! Idolatrava!

Aquele dia pressionara-a com mais insistência que nunca para que consentisse em casar de imediato com meu rival. Reprovava-lhe que lhe tivesse dado azos, e ameaçava-a com expulsá-la da casa envergonhada e desonrada. Ela, orgulhosa, rebelou-se contra a tal ameaça; mais, ao lembrar todos os desprezos que me fizera, e que, quiçá por isso, perdera o que agora considerava o seu único amigo, rompeu a chorar com raiva e remorsos. Nesse momento apareci. “Oh, Winzy!”, exclamou. “Leva-me em seguida a cabana da teu pai. Renego todos os luxos desta suntuosa casa que não me trouxe mais que desgraças, leva-me de volta à pobreza e à felicidade!”

Colhi-a nos braços, extasiado. A velha ficou muda de raiva, e quando começou a proferir impropérios já estávamos longe, caminho da casa dos meus pais. A minha mãe recebeu com ternura e alegria a coitadinha refugiada, que acabava de escapar duma gaiola de ouro buscando a liberdade na singeleza; e o meu pai, que lhe queria coma a uma filha, deu-lhe as boas-vindas de todo coração. Foi um dia de júbilo, o meu coração pulava de alegria sem necessidade de nenhuma poção mágica.

Pouco depois daquele dia tão agitado casei com Bertha. Deixei de ser discípulo de Cornelius, porém segui sendo seu amigo. Sempre lhe estive agradecido por permitir, sem saber, tomar um gole daquele elixir divino que, em vez de curar-me do amor –triste cura!, um remédio cheio de saudade e dor contra uma coisa que hoje se assemelha a uma bênção– infundiu em mim a coragem e resolução necessárias para conquistar o inestimável tesouro que resultaria ser Bertha.

Com freqüência, recordo aquela época de embriaguez quase hipnótica. A beberagem de Cornelius não cumprira o cometido para o que ele afirmava que fora preparada, mas não há palavras que possam expressar os efeitos tão maravilhosos que produziu em mim. Ainda que o efeito se ia esvaecendo, durou muito tempo e encheu-me a vida de delícia. Às vezes, Bertha abraçava-se ao me ver tão alegre e entusiasmado, algo inusitado em mim já que antes era mais bem sério, mesmo tristonho. Agora, com meu novo caráter, ainda me queria mais, e nas nossas vidas não havia lugar para a tristeza.

Uns cinco anos depois, Cornelius mandou-me chamar a seu leito de morte requerendo a minha presença imediata. Achei-o deitado no leito cunha febre altíssima; a faísca de vida que lhe restava brilhava-lhe no penetrante olhar, fixo num vaso de vidro que continha um líquido rosado.

—Notaste do insignificante que é a vontade humana? –disse com voz entrecortada e como para si. Pela segunda vez estão a ponto de ver-se cumpridas as minhas esperanças, e uma segunda vez me escapam. Vês essa poção? Lembra que há uns cinco anos preparei a mesma beberagem com mesmo resultado: daquela, como agora, esperava poder saciar a minha sede com elixir da imortalidade então, entregá-lo a ti e agora, já é tarde demais!

Falava com dificuldade e tinha que recostar-se contra a almofada. Mas não pude evitar dizer-lhe:

—Porém, venerado mestre, como pode um remédio contra o amor devolver-lhe a vida?

—Um remédio para o amor e para tudo: o Elixir da Imortalidade! Ai, se pudesse bebê-lo agora viveria para sempre! –disse, de maneira case ininteligível, enquanto que um vago sorriso lhe iluminava a cara.

E, dizendo isto, do vaso surgiu um resplendor dourado, e uma fragrância bem conhecida por mim espalhou-se no ar. Apesar de débil que estava, ergueu-se e estendeu o braço, a força parecia retornar a seu corpo como por arte de magia. A mim assustou um forte estalo, o elixir despendeu fagulhas e o vaso quebrou em mil cacos. Olhei para o filósofo: caíra de costas e tinha os olhos vidrados e as feições rígidas, estava morto!

Porém eu estava vivo e ia viver para sempre! Isso disse o desafortunado alquimista, e durante uns dias acreditei nas suas palavras. Recordava a felicidade embriagadora que me inundou depois de tomar aquele trago às escondidas. Passei a observar as mudanças que se produziram no meu corpo e na minha alma: a exultante elasticidade do primeiro e o eufórico entusiasmo da última. Examinei o meu rosto detalhadamente no espelho, e não notei que se tivesse produzido nenhuma mudança nas minhas feições durante os últimos cinco anos. Recordava a luminosa cor e o aroma daquela deliciosa bebida, dignos do poder que possuía. Portanto, eu era Imortal!

Uns dias mais tarde, eu mesmo ria da minha credulidade. O velho provérbio que diz que “ninguém é profeta na sua terra” resultou ser verdade tocante a mim e meu defunto mestre. Eu apreciava-o como pessoa e respeitava-o como mestre, porém a idéia de que pudesse ter algum poder sobre as forças das trevas parecia-me ridícula e ria-me do medo supersticioso com que o olhavam. Era um filósofo sábio, mas não conhecia outros espíritos que não fossem os recobertos de carne e osso. Os seus conhecimentos eram puramente humanos; e o saber humano, conseguiu convencer-me, nunca chegaria a dominar as leis da natureza até o ponto de poder encerrar a alma para sempre na sua morada carnal. Cornelius elaborara uma bebida que restabelecia o espirito, uma bebida mais embriagadora que vinho e mais doce e olorosa que nenhuma fruta, e que provavelmente tinha poderes medicinais: proporcionava alegria ao coração e vigor aos membros. Porém os seus efeitos acabariam desaparecendo, no meu corpo já começavam a minguar. Considerava-me um tipo afortunado porque o meu mestre me obsequiara com boa saúde e alegria e quiçá uma longa vida. Porém a minha boa fortuna acabava ai, a longevidade era bem diferente da imortalidade.

Segui abrigando esta crença durante muitos anos, ainda que às vezes me passava uma idéia pela cabeça: estava realmente equivocado o alquimista? Mas, em geral, seguia a crer que chegaria a minha hora como a qualquer cristão, talvez um pouco tarde porém, a uma idade normal. Mas não havia dúvida que tinha uma aparência extraordinariamente juvenil. As pessoas riam de minha vaidade por olhar-me no espelho com tanta freqüência. Porém era tudo debalde, já que na minha fronte não se via uma ruga; as madeixas, os olhos, tudo eu seguia tão jovem como aos vinte anos.

Estava desconcertado, olhava a mirrada beleza de Bertha, e parecia mais a minha mãe. Pouco a pouco, os vizinhos começaram a fazer comentários deste tipo e finalmente, descobri que me chamavam “o rapaz amigado”. Mesmo Bertha começou a inquietar-se, tornou-se zelosa e irritável e, com o tempo, começou a fazer perguntas. Não tínhamos filhos, estávamos completamente sós; porém, assim como tudo, ao ir envelhecendo, o seu caráter leve e esperto acabou por aquietar-se, e a sua beleza começou a murchar. Contudo, eu apreciava-a como a amante que adorara na juventude e a esposa que conquistara com tanta dedicação.

A final, a situação tornou-se insuportável. Bertha tinha cinqüenta anos e eu vinte. Envergonhado, adotei costumes de velho: nos bailes já não me juntava com moços, ainda que o meu coração brincava com eles e tinha que conter os pés para não dançar; fazia uma figura ridícula entre os homens maduros da vila. Porém as coisas já começaram a mudar antes de tudo isso. Rejeitavam-nos todos porque acreditavam que fizéramos, pelo menos eu, um pacto diabólico com algum dos supostos aliados do meu antigo mestre. De mim tinham medo e aborreciam, e a pobre Bertha, ainda que lhe tinham mágoa, abandonaram-na à sua sorte.

Que podíamos fazer? Ficar sentados a frente do lume vendo como a pobreza entrava na nossa casa, já que ninguém queria comprar os produtos da minha granja. Amiúde tinha que fazer vinte milhas de viagem para poder vendê-los em local onde não me conhecessem. Menos mal que tínhamos algo guardado por virem maus tempos.

Ficávamos sós, o moço avelhentado e a sua antiquada mulher sentados diante do fogo. Bertha seguia insistindo em saber a verdade, juntava tudo o que escutara sobre mim e tirava as suas próprias conclusões. Chegou a suplicar-me que desfizesse aquela magia. Tentou convencer-me de quanto mais formosas eram as cãs que meus cabelos castanhos, elogiava o respeito e a veneração que inspira a velhice, comparados com a escassa consideração que se tem com os jovens. Como podem imaginar que o desprezável dom da juventude e a beleza seria mais forte que ódio, o desprezo e a vergonha? Acabariam queimando-me por praticar magia negra, e a Bertha –a que não fora capaz de transmitir nem sequer uma pequena parte da minha boa fortuna– poderiam dilapidá-la por ser a minha cúmplice. Por último, chegou a insinuar que devia compartilhar meu segredo com ela para que pudesse gozar dos mesmos benefícios, se não queria que me denunciasse, e depois começou a chorar.

Vi-me tão encurralado que pensei que o melhor era dizer-lhe a verdade. Contei com todo o tato que pude, e não lhe falei de imortalidade, senão duma longa vida, que era também o que melhor encaixava com a idéia que eu tinha do assunto. Quando rematei o relato, pus-me de pé e disse-lhe:

—E agora, Bertha, ainda queres denunciar o teu amante de juventude? Sei que não o farás, porém seria injusto que ui, a minha querida esposa, sofresse as conseqüências da minha má sorte e das artes malditas de Cornelius. Devo-me ir. A ti fica o bastante para viver; e, quando eu partir, voltarão os velhos amigos para dar-te uma mão. Ainda pareço novo e sou forte, posso trabalhar e ganhar o pão onde ninguém me conheça nem suspeite de mim. Amei-te de moço e ponho a Deus por testemunha de que não te abandonaria na velhice, se não fosse pela tua própria segurança e felicidade.

Vesti o casaco e dirigi-me à porta; porém em seguida senti que os braços de Bertha rodeavam o meu pescoço e os seus lábios bicavam os meus. “Não, meu queridinho, meu Winzy”, disse,”não te irás só, leva-me contigo; deixaremos este lugar e, como ti disseste, entre desconhecidos estaremos seguros e livres de qualquer suspeita. Ainda não sou tão velha para envergonhar-te. Seguramente há de desaparecer logo o feitiço e, por Deus, envelhecerás como deves. Por favor, não te vás sem mim!”

Abracei-a forte contra o meu peito e disse-lhe: “Não temas, não te deixarei, não o pensara nem por um momento. Seguirei sendo o teu maridinho fiel e cuidarei de ti até que Deus te chame a seu lado”.

No dia seguinte preparamo-nos em segredo para a partida. Teríamos que renunciar a muitas coisas, era inevitável. Reunimos a soma de dinheiro necessária para manter-nos pelo menos enquanto Bertha vivesse e, sem dizer adeus a ninguém, deixamos nossa terra natal para refugiar-nos num lugar remoto do oeste de França.

Foi cruel afastar a pobre Bertha da sua vila natal e os seus amigos de juventude e levá-la a um país com outra língua e outros costumes. Para mim, a partida era algo sem demasiada importância devido ao segredo do meu insólito destino. Compadecia-me profundamente dela e alegrava-me comprovar que encontrava consolo para as suas desgraças em pequenas casualidades ridículas. Longe de todos os conhecidos, ela tentava ocultar a evidente diferença de idade que nos separava mediante milhares de truques femininos: punha carmim nos lábios, usava roupa juvenil e comportava-se coma uma mocinha. Não podia aborrecer-me com ela, não levava eu também uma máscara? Por que havia de discutir com ela se os seus truques não funcionavam tão bem como os meus? Uma tristeza infinita assolava o meu coração quando lembrava que essa era a minha Bertha, a que eu amara tão apaixonadamente, a que tanto me custara conquistar. Aquela garota de cabelos mouros e olhos escuros, com sorriso pícaro e cativador, que saltitava como uma corça, convertera-se nessa velha mexeriqueira e zelosa. Deveria venerar as suas cãs e rugas! Sabia que era o meu dever.

Porém esse tipo de decadência não era o que me aborrecia nela. A sua desconfiança não tinha limite. A sua principal ocupação era descobrir que, apesar da aparência externa, eu também estava a envelhecer. Creio que, no fundo, a pobre amava-me de verdade; mas nunca conheci uma mulher com forma tão opressiva de mostrar o seu carinho. Descobria rugas no meu rosto e debilidade no meu andar, enquanto eu brincava com vitalidade juvenil e parecia o mais novo dos moços do lugar. Nunca se me ocorreria falar a outra mulher; porém, numa ocasião, ela, crendo que a beleza da vila me via com bons olhos, comprou-me uma peruca cinza. O tema habitual de conversação com suas amizades era que, ainda que parecesse tão novo, o meu corpo estava a deteriorar-se e o pior sintoma, afirmava, era essa aparente saúde. Dizia que a minha juventude era uma enfermidade e que devia estar preparado, se não para uma morte repentina e horrível, quando menos para espertar uma manhã com o cabelo todo branco, cuvado e com todos os achaques da velhice. Deixava-a falar e amiúde mesmo corroborava as suas conjecturas, que concordavam com minhas eternas especulações sobre o meu estado. Até cheguei a tomar um sério ainda que doloroso interesse por escutar tudo o que o seu rápido engenho e a sua imaginação exaltada podiam discorrer sobre o tema.

Para que estender em mais detalhes? Ainda vivemos juntos muitos anos. Bertha ficou paralítica e prostrada numa cama. Cuidei dela como uma mãe cuidaria um filho. Com o tempo, tornou-se ainda mais raivosa e obsessiva, sempre cismando sobre quanto tempo eu ia sobreviver. Consola-me saber que cumpri escrupulosamente o meu dever para com ela. Foi a minha companhia na juventude e foi também na velhice e, afinal, quando enterrei o seu corpo, chorei desconsolado pela perda do único elo que realmente me unia a este mundo.

Desde então, quantas foram as minhas preocupações e pesares e que poucas e vãs as alegrias! Vou deixar a minha historia neste ponto, não paga a pena seguir. Um marinheiro sem temor nem compaixão, sacudido por um mar tormentoso; um viajante perdido num monte imenso, sem luzes nem estrelas que o guiem: isso é o que eu sou e estou mais perdido e desesperado que nenhum deles. Um barco próximo ou a luz d’alguma casa ao longe poderiam salvá-los, porém para mim não há outro farol que a esperança da morte.

Morte! misteriosa dama de escuro rosto que alentas os pobres mortais! Por que, entre todos eles, tivestes que me privar a mim do teu abraço protetor? Oh, a paz, o profundo silêncio da tumba! Se o meu cérebro se detivesse e o meu coração deixasse de sentir emoções que só variam em novas formas de tristeza!

Então, sou imortal? Volto com a primeira pergunta. Em primeiro lugar, nao é mais provável que a poção não concedesse a vida eterna, senao uma longa vida? Isso é o que eu espero. Ademais, só tomei a metade da poção, não teria que bebê-la toda para completar o feitiço? Portanto, tomar a metade do Elixir da Imortalidade só suporia ser semi-imortal e assim, a minha eternidade ficaria truncada e invalidada.

Ora, de todo o modo, quem poderia saber quantos anos são a metade da eternidade? Amiúde, trato de adivinhar segundo que regra se pode dividir o infinito. Às vezes imagino que me acho velho. já encontrei uma cã. Porém sou um tolo!! ainda me lamento? Sim, invade-me com freqüência o medo da velhice e morte; e, ainda que aborreço a vida, quanto mais vivo mais me aterra a morte. Ai, o ser humano é um mistério! Nascemos para perecer e teimamos em lutar, como faço eu, contra as leis que regem a nossa natureza.

Maldita contradição, estou certo de que algum dia hei morrer. A poção do alquimista não poderá mais que o fogo, uma espada ou as profundas águas dum rio. Já me tenho visto mais duma vez nas azuis profundidades de um plácido lago ou nos tumultos rápidos dum imenso rio, pensando que a paz reside nas suas águas. Porém, assim mesmo, sempre dei volta para seguir vivendo outro dia mais. Pergunto eu se o suicídio será um pecado para alguém que não tem outra forma de cruzar as portas do outro mundo. Fiz de tudo, exceto apresentar-me voluntário para o exército ou um duelo, porque desta maneira não só destruiria a mim mesmo, não, senão também outros mortais, por isso dei para trás. Os mortais não são os meus iguais. A inesgotável força vital que habita o meu corpo e a sua existência efêmera nos faz tão opostos como os pólos. Por isso, eu não seria quem ergueria uma mão nem contra o mais débil nem o mais forte deles.

Assim vivi durante todos estes anos, só e aborrecido de mim mesmo, desejando morrer porém ainda vivo: um mortal imortal. não tenho ambições nem sou cobiçoso, e esse ardente amor que me rói o coração –esse que não voltará nunca, porque nunca encontrei um igual a quem possa entregá-lo– perdura só para atormentar-me.

Precisamente hoje, ideei um projeto com o qual poderei acabar com tudo sem ter que suicidar-me nem fazer doutro homem um Caim: uma expedição a que nenhum mortal, nem sequer alguém novo e forte como eu, havia sobreviver. Desta maneira, porei à prova a minha imortalidade e descansarei para sempre ou voltarei para converter-me num prodígio da natureza e um benfeitor da humanidade.

Mais antes de partir, a vaidade levou-me a escrever estas páginas. Não quero morrer sem deixar pegada. Já passaram três séculos desde o funesto dia em que bebi aquela poção e não há de passar outro ano antes de que, enfrentando enormes perigos, lutando contra as forças do céu no seu próprio terreno, açoitado pelo temporal, a fome e a fatiga, abandone a ação da chuva e o vento este corpo que se converteu numa gaiola demasiado resistente para uma alma tão sedenta de liberdade. Porém se sobrevivo, o meu nome será lembrado como um dos mais célebres entre os mortais. E, daquela, hei empregar métodos mais contundentes para dispersar e aniquilar todos os átomos que compõem o meu corpo e liberar a vida encadeada dentro, a que tão cruelmente se lhe impediu ascender deste mundo de trevas a uma esfera mais adequada á sua essência imortal.

Fontes:
http://victorian.fortunecity.com/postmodern/135/

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Sergio Antonio Meneghetti (Manifesto de Poeta)

Se a poesia é ferramenta para paz
Que utilizem desta para pacificar
Que a escrita nobre que se faz
Fale de amor, e não de crucificar.

A letra que ataca
Está no nível da guerra
Esta corta o homem como a faca
E será mais uma contenda nesta Terra.

O poeta busca a beleza na divindade
Ele é o elo entre a palavra e a criação
Sua conduta no papel é responsabilidade
E não pode levar ódio algum no coração.

A poesia da concórdia fala de luz
Não é separatista em nenhuma questão
São ensinamentos semelhantes à de Jesus
Esta que eleva o homem, tirando seus pés do chão.

No manifesto dos poetas em Natal
Lembre-se que harmonia se consegue com dedicação
Arrancando primeiro dentro de nós todo o mal
Este é o primeiro passo, para a grande união.

Fonte:
Sergio Antonio Meneghetti. Publicado em 13/02/08.
http://www.congressopoetasdelmundo.com/

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Primeiro Congresso Internacional de Poetas Del Mundo (Natal – RN)

O lançamento Oficial do 1º Congresso Internacional de Poetas del Mundo – “Natal um Mar de Poesia e Paz”, aconteceu no dia 2 de outubro de 2007, em Natal – RN.

A Entidade – espera, nesse encontro, que dar-se-á de 24 a 31 de maio de 2008, a participação de poetas de todos os cantos do mundo anônimos e famosos em busca da “Paz” tão sonhada por toda humanidade. E também, promoverá ações que deverão ser levados adiante num movimento que pugna pela luta em prol da Paz, da Igualdade, da Justiça e pelo Meio-Ambiente.

Para o lançamento Oficial contamos com a presença da Senhora Delasnieve Daspet de Souza, Embaixadora da Paz para o Brasil, nomeada por Gèneve, Suíça, Subsecretária de Poetas Del Mundo, que também representou o Secretário Geral e fundador do Movimento de Poetas del Mundo, Luis Árias Manzo; Senhora Marisa Cajado, poetisa, musicista e autora do hino da referida entidade, que foram anfitrionados por Deth Haak, “A Poetisa dos Ventos”, Cônsul de Poeta Del Mundo para o Rio Grande do Norte, membro da SPVA-RN – Sociedade dos Poetas Vivos e Afins e organizadora desse mega evento.

Forma:

O evento será dividido em partes e terá o envolvimento de todas as artes com oficinas, exposições de poesias visuais por toda a cidade, envolvendo as escolas municipais, particulares e universidades.

Em tese, teremos aqui, poetas dos cinco continentes.
50% – leitura de poesias
15% – lançamentos de livros
15% – performances poéticas
10% – assembléias para discutir-se o movimento, o seu futuro e a sua forma de intervir e/ou interagir com as ocorrências mundiais.

Fonte:
http://www.congressopoetasdelmundo.com/

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Deth Haak (A Noiva do Sol)

Natal em maio de 2008, se converterá em um mar de Poesia e Paz! O sonho da SPVA-RN, Sociedade dos Poetas Vivos e Afins – RN se fará em um encontro que reunirá Poetas del Mundo, do mundo todo, laureados e anônimos.

E em palavras formaremos elos condensados nos versos. Plasmaremos Poetas Del Mundo ou não, sim a Vida é a missão concedida aos homens e mulheres e crianças eleitos por Orfeu, que inundaram esse solo com um dilúvio de “PALAVRAS”.

Quando apresentei a cidade do Natal o fiz através de palavras, bordadas em um Acróstico descrevendo-a Assim: “Rio Grande do Norte Natal Brasil”, versos que flanaram como véus a beleza das Dunas, honrando seus mártires ovacionando as Mulheres que fizeram história nesse rincão por mim amado. Contei seus feitos e fatos da velha Ribeira; citei Ferreira Itajubá inebriando versos com olor de caju. O mestre Câmara Cascudo inspirava a Potioca que do Vento recebeu alvíssaras em rimas. Ousei como Nizia Floresta, e o defeso com galhardia abriu seu leque, e como Auta de Souza a descrevi como Olimpo erguendo um altar sagrado pro templo da Poesia! Eis que a Praieira de Othoniel Meneses se fará! “Natal um Mar de Poesia e Paz”. De mãos dadas, o Mundo ao Brasil virá testemunhar que a Paz pode ser conquistada através das “PALAVRAS, que o verbo se faz Verbo”.

A NOIVA DO SOL!
Deth Haak

Natal cidade, um dia talvez nos entenda
De o porquê render-te versos de amor e paz
Porque de ti bordamos a beleza que é prenda
Porque não cantamos tristes os seus azas…
Talvez seja a linha do Equador que o lenço emenda
Pra secar da face o pranto enquanto sorri o que é voraz.
Forjaras rimas para que a humanidade compreenda
Que nos seus véus a Poesia irmanará Poetas iguais.
Que neste Mar de Poesia e Paz possam advir regaços
Borbotados em tríades inspiradas alianças poéticas
Assinando bodas nas nuvens que entremearão os laços
Entre a Noiva do Sol e a história, explodindo ogivas éticas
Que ouvirá o Mundo a redimir dos seres os percalços
Da insanidade alastrada por almas tão maléficas!

Paz, Poetas Del Mundo ou não!

“A Poetisa dos Ventos”

SPVA-RN
AVSPE
Cônsul Poetas Del Mundo – RN

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Luis Arias Manzo (O Poeta e a Poesia na Luta pela Paz no Mundo)

O Primeiro Congresso de Poetas Del Mundo acontecerá nos dias 24 a 31 de maio de 2008 na bela cidade de Natal no Estado do Rio Grande do Norte, no Brasil.

Os Poetas del Mundo, se reúnem no país do futuro, assim como o chamou Stefan Zweig, e não obstante disso já faça mais de sessenta e cinco anos, seu vaticínio ainda cobra vigência hoje mais que nunca. Por isso nada mais significativo e simbólico que nosso Primeiro Congresso de Poetas del Mundo se leve a cabo neste país, o país de Luis Carlos Prestes, como solo nomeá-lo. O mundo nos reclama.

O poeta é um ente especial, tem o dom de fazer da palavra algo belo que transcende o sentido simples quando ela está desnuda. O poeta a veste de uma maneira que a faz forte, espetacular, bela.

Para os tempos que vivemos é necessário que o homem consiga entender-se através do diálogo, mas o ruído dos canhões impede que nos escutemos, então se necessita imperiosamente que a voz ultrapasse o retumbar das armas, e o poeta sabe disso.

Vivemos atualmente o processo de morte de uma etapa degenerada e o nascimento de uma NOVA ERA, em que o poeta tem um rol determinante de coisas em que intervir. O poeta não pode ficar atrás, o poeta deve ir à primeira fila, se não o faz, é que não é um verdadeiro poeta, em todo caso, não é um verdadeiro Poeta del Mundo.

Como algo concreto neste combate pela vida e pela paz, fixei-me na árdua tarefa de unir os Poetas de todo o mundo que abraçam os ideais de liberdade, justiça e igualdade, e em conseqüência, criei o “Movimento Poetas del Mundo” fixando-me um ambicioso objetivo: converter a palavra em uma força real capaz de influir nos destinos do mundo e no equilíbrio do planeta. Logo, quando nossa voz ressoar nos frios palácios do Poder e chegar também ao bairro que o poeta não pode deixar de visitar, devemos ser capazes de propor uma via que nos retire do estado de decadência que vive nossa sociedade.

Nesta tarefa futurista o sujeito social é o poeta, e este poeta guerreiro deve nutrir-se da realidade social, mesclar-se nela e ser capaz de abandonar o Ego. Qualquer lugar onde se desenvolva a atuação do escritor é uma trincheira de combate, porque em todas as partes há decadência.

Os políticos fracassaram; arrastaram-nos à situação apocalíptica em que nos encontramos pelo que hoje é necessária uma troca profunda na estruturação da organização do mundo, em outras palavras, creio que estamos vivendo nos limites do aceitável e muito perto do início de uma revolução planetária, é aí onde o escritor pós-moderno tem uma lista determinante de coisas em que intervir.

É certo que a guerra não é algo novo que nos surpreenda, a guerra tem existido sempre; desde a noite dos tempos em que o homem tomou consciência de sua existência, viemos nos combatendo uns com os outros, o problema é que hoje a ambição do homem está provida de armas capazes de fazer desaparecer a vida no planeta em poucas horas. O que estamos vendo no Oriente Médio é uma etapa de um nefasto projeto muito ambicioso do Império, que consiste em apoderar-se dos recursos naturais que possui essa região, hoje se trata do petróleo (energia), amanhã será a água doce e a biodiversidade.

Então, os poetas devem usar a melhor arma para combater o horror, a ignorância ou a inconsciência dos homens, essa arma é o poema; essa maneira curta de expressar algo grande, essa forma de dizer brevemente algo que envolve um sentimento enorme ao interior mesmo das entranhas da alma. O poema é a linguagem misteriosa que brota inexplicavelmente desde a fonte que nutre a vida sentimental do ser, isso que chamamos inspiração.

É uma forma de comunicação entre o eu terrestre e a voz misteriosa que sussurra no interior de cada um. O poema pode ser tão potente, que se o usamos bem, o podemos converter em uma arma poderosíssima para combater os sentimentos cinzentos destes loucos que nos governam. Para lá se encaminha meu ambicioso projeto: Criar um exército de poetas guerreiros cuja arma seja a palavra que se expande pelo mundo como uma torrente de resistência para o que mata a vida e a felicidade.

Estou consciente do perigo que implica este projeto; não faz muito, faz algo assim como dois mil anos, eram os tempos do Império romano, um homem jovem entrou em Jerusalém falando de amor e de paz, sua arma era a palavra, todos sabem como terminou sua aventura. Não me estranharia que em algum tempo mais, nos acusem de terroristas intelectuais, e nos persigam por todas as partes, mas ainda assim vale à pena dar esta batalha pela vida e a paz.

Por isso convoco os Poetas del Mundo a envolver-se ativamente nos problemas que aflijam as suas comunidades, sobretudo ali onde os homens perdem a razão e o sentido essencial de nossa existência. A poesia deve começar a jogar seu rol nestes tempos de guerra, de extermínios, de fome, de seqüestros, de injustiças, de aquecimento global do planeta e das novas pestes que carcomem a mentalidade de quantos detenham o poder e decidem sobre os destinos do mundo.

Convoco o nosso Corpo Diplomático Poético a fazer dos seus misteres e a atuar ali onde seus bons ofícios são necessários, e a pensar em como ser mais eficaz em nosso histórico praticado pela humanidade.

Estes e outros temas estarão no nosso Primeiro Congresso de Poetas del Mundo onde chegarão poetas de todo o planeta.”

VIVA A VIDA!

Luis Arias Manzo: Fundador e Secretário Geral do Movimento Poetas Del Mundo
Delasnieve Daspet: Embaixadora para o Brasil e Sub Secretaria para as Américas
Deth Haak: Cônsul dos Poetas Del Mundo para o Rio Grande do Norte
Tradução: Nadir Silveira Dias – Cônsul Poetas Del Mundo para o Estado do Rio Grande do Sul.

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Deth Haak (Discurso em Trovas de Lançamento do 1o Congresso Mundial de Poetas Del Mundo – 2007)

Discurso proferido em trovas pela Coordenadora Sra. Deth Haak, Cônsul do Movimento de Poetas del Mundo no Estado do Rio Grande do Norte, no ato do lançamento oficial do 1º Congresso Mundial de Poetas del Mundo em 02.10.2007.

NATAL, UMA MAR DE POESIA E PAZ
Deth Haak

Que unidas todas as mãos
Inundem com alegrias
Poetas Del Mundo irmãos
Façam versos em demasia;

O mundo inteiro hoje vê
Na SPVA nordeste
Da Potyoca pra você
Versos de cabra da peste.

CASCUDO então me diria
Por e-mail ou telefone
Que Minerva aqui faria
Os versos em ciclone;

Bastante Camões virão
De Flor Bela, muitos clones
Poetas declamarão
Seus versos nos microfones

A SPVA deu provas
Que o verso e seus acalantos
Trará-nos nas boas novas
A Paz de todos os cantos

Em Deus Pai, tenho esperança
Que a Poesia reinará
E a Paz será a herança
Que Natal vos legará!

Será amena a lembrança
Que a saudade plantará
E então em cada criança
A Paz Mundial medrará;

Sinta qual Brisa a palavra
Plasmando o que eu sonhei
A Musa que o Vento lavra
Natal rainha sem rei!

Cidade Sol evidência
De universal harmonia
Busca da rima essência
E do verso a sinfonia;

Saudar Natal com ardor
Eis que o mar amante canta
E as Dunas primam o louvor
Na musica sacrossanta;

Poder exaltar-te em vida
Com trovas de puro amor
Enalteço-te comovida
Agradecendo ao Senhor;

Quem com versejar milita,
Basta ver-te magistral
Para despir-te bendita
Natal nubente sensual…

Poetas louvam-te em gloria
A Praeira do Othoniel
Cascudo em ti fez história
Cingindo-te com laurel!

És louvada por teus filhos
Em noitadas e manhãs
De Auta áureos estribilhos
E Luiz Carlos Guimarães;

Versos em Trovas altivas
O Cordel popular manto
Do Parnaso as sempre-vivas
Emolduradas de encanto;

Na verve de seus autores
Elevemos a nobreza
Pedro Grilo e seus valores
Da potiguar realeza.

Será em Maio o casório
Mês de Maria senhores
E haverá sol compulsório
Na Roma dos trovadores;

Que chova rima e o verso
No amparo da inspiração
Nas vírgulas do estro terço
Rezas preces e emoção;

Vinte e quatro a trinta e um
Num certame assaz afoito
Tu serás Natal o podium
Em Maio dois mil e oito;

Um mar de Paz te proponho
Minha Natal que amo tanto
Voragem de amor e sonho
Por isso em verso te canto;

Crispiniano o Presidente
Da Fundação se empolgou
E o projeto de repente
Desta poetisa aprovou;

Sou Poetisa e me orgulho
De ser par na confraria
Onde no verso procuro
A femína Academia.

Bem digo Ademar Macedo
Trovador da minha estima
Também louvo ao bardo ledo
Diógenes da Cunha Lima;

Poetas são pensadores
Nos mais variados climas
Neruda e demais autores
Os li pra cantar-lhes rimas

O Itajubá é saudade
Zila Mamede também
São dois anjos de bondade
Lá no azulado além!

Nobre guardião Luiz Árias
Dos pacifistas senhores
Almas da Paz sectárias
Recebam nossos louvores.

Digníssimo Secretario
Que do evento é timoneiro
É de escol o dignitário
De Natal pro Mundo inteiro;

Dona Vilma de Farias
Ilustre Governadora
Foi com Mar de Poesia
Simpática e acolhedora;

No dever bastante ativa
Desde o primeiro momento
Mui gentil e receptiva
Deu garantia ao evento;

Para o Brasil é a primaz
Esta escrita na lousa
Embaixadora da Paz
Delasnieve Daspet de Souza;

Prefeito Carlos Eduardo
Flutuando em cordialidade
Fará a entrega ao bardo
Da chave desta cidade;

Poetas Vivos e Afins
Firmes idealizadores
Ouçam de Cristo os clarins
O Mestre dos Sonhadores…

“A Poetisa dos Ventos”

Sociedade dos Poetas Vivos e Afins do Rio Grande do Norte
Cônsul Poeta Del Mundo – RN
AVSPE

Fonte:
http://www.congressopoetasdelmundo.com/

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Delasnieve Daspet (Discurso Oficial do 1o Congresso Mundial de Poetas Del Mundo)

Discurso de Abertura Oficial do 1º Congresso Mundial de Poetas del Mundo, pronunciado pela Embaixadora no Brasil do Movimento Poetas del Mundo, Sra. Delasnieve Daspet, representando o Secretário Geral do Movimento Poetas del Mundo, Sr. Arias Manzo, no ato de seu lançamento em 02.10.2007, às 19hs no Palácio da Cultura/Pinacoteca em Natal, Rio Grande do Norte.

Aos poetas que participam da organização do Primeiro Congresso do nosso Movimento “Poetas del Mundo”.

Aos poetas de todo o Brasil que se uniram a este esforço e que acreditaram nesta utopia que consiste em pôr poesia nos problemas que agoniam a humanidade.

Aos Poetas del Mundo
Desde Chile, o país de Gabriela Mistral e Pablo Neruda, dois Prêmios Nobel de Literatura, quero saudar a todos os poetas que trabalham na organização do nosso primeiro congresso que se realizará na cidade de Natal, Brasil. Quero saudar-lhes através da nossa Sub-Secretária Geral e Embaixadora Delasnieve Daspet, que tem trabalhado lado a lado comigo desde o início deste magno projeto, e que tem a difícil missão de fazer deste evento histórico um êxito sem precedentes na história da humanidade. Envio esta mensagem por ocasião do lançamento deste evento, acontecimento do qual quis participar pessoalmente, mas por dificuldades que não vem ao caso explicar agora, não pude estar com vocês, porém sei que os responsáveis de Natal e do Brasil saberão representar e expressar nossos ideais e princípios.

O poeta é um ser especial; tem o dom de fazer da palavra algo belo que transcende o sentido simples quando esta está desnuda, o poeta a veste de uma maneira que a faz forte, espetacular, bela. Para os tempos que vivemos é necessário que o homem consiga entender-se através do diálogo, porém o ruído dos canhões impede que nos escutemos, então se necessita imperiosamente que a voz ultrapasse o retumbar das armas, e o poeta sabe disso. Vivemos atualmente o processo de morte de uma etapa degenerada e o nascimento de uma NOVA ERA em que o poeta tem uma lista determinante de coisas em que intervir. O poeta não pode ficar atrás, o poeta deve ir na primeira fila, se não o faz, é que não é um verdadeiro poeta, em todo caso, não é um verdadeiro poeta del mundo.

Como algo concreto neste combate pela vida, me fixei na árdua tarefa de unir os poetas de todo o mundo que abraçam os ideais de liberdade e criei O Movimento Poetas del Mundo e fixei um ambicioso objetivo: converter a palavra em uma força real capaz de influir nos destinos do mundo e no equilíbrio do planeta. Logo, quando nossa voz ressoe nos frios palácios do Poder e chegue também ao bairro que o poeta não pode deixar de visitar, devemos ser capazes de propor uma via que nos retire do estado de decadência que vive nossa sociedade.

Nesta tarefa futurista o sujeito social é o poeta, e este poeta guerreiro deve nutrir-se da realidade social, mesclar-se nela e ser capaz de abandonar o Ego. Qualquer lugar onde se desenvolva a atuação do escritor, é uma trincheira de combate, porque por todas partes há decadência. Os políticos fracassaram; nos arrastaram a situação apocalíptica em que nos encontramos, hoje é necessária uma troca profunda na estruturação da organização do mundo, em outras palavras, creio que estamos vivendo nos limites do aceitável e muito perto do início de uma revolução planetária, é aí onde o escritor pós-moderno tem uma lista determinante de coisas em que intervir.

É certo que a guerra não é algo novo que nos surpreenda, a guerra tem existido sempre; desde a noite dos tempos em que o homem tomou consciência de sua existência viemos nos combatendo uns com os outros, o problema é que hoje a ambição do homem está provida de armas capazes de fazer desaparecer a vida no planeta em poucas horas. O que estamos vendo no Oriente Médio é uma etapa de um nefasto projeto muito ambicioso do Império, que consiste em apoderar-se dos recursos naturais que possui essa região, hoje se trata do petróleo, amanhã será a água doce.

Então, os poetas devemos usar nossa melhor arma para combater o horror, a ignorância ou a inconsciência dos homens, essa arma é o poema, essa maneira curta de expressar algo grande, essa forma de dizer em breve algo que envolve um sentimento enorme ao interior mesmo das entranhas da alma. O poema é a linguagem misteriosa que brota inexplicavelmente desde a fonte que nutre a vida sentimental do ser, isso que chamamos inspiração. É uma forma de comunicação entre o eu terrestre e a voz misteriosa que sussurra no interior de cada um. O poema pode ser tão potente, que se o usamos bem, o podemos converter em uma arma poderosíssima para combater os sentimentos cinzentos destes loucos que nos governam. Para lá se encaminha meu ambicioso projeto: Criar um exército de poetas guerreiros cuja arma seja a palavra que se expande pelo mundo como uma torrente de resistência para o que mata a vida e a felicidade.

Estou consciente do perigo que implica este projeto; não faz muito, faz algo assim como dois mil anos, eram os tempos do Império romano, um homem jovem entrou em Jerusalém falando de amor e de paz, sua arma era a palavra, todos sabemos como terminou sua aventura. Não me estranharia que em algum tempo mais, nos acusem de terroristas intelectuais, e nos persigam por todas as partes, mas ainda assim vale a pena dar esta batalha pela vida e a paz.

Luis Arias Manzo
Fundador e Secretário Geral do Movimento Poetas del Mundo
Tradução: Nadir Silveira Dias, Poeta del Mundo em Porto Alegre e Cônsul Estado do Rio Grande do Sul, com o estrito cuidado de preservar o exato pensamento e a construção lingüística do autor, no idioma original.

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Fontes:

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Delasnieve Daspet (Movimento Poetas Del Mundo – Poesia: Conviver com responsabilidade)

Movimento Poetas del Mundo

Tem a aparência de uma cadeia. Cadeia sinonímia de corrente. Sempre circulando. Sempre em movimento. De braços dados estamos lutando -com e pela palavra – pelo direito à vida. Vida com qualidade. Do ar sem poluição. Da água límpida. Da manutenção das matas. Do direito das minorias. Dos aviltados. Pela voz de todos os povos – oprimidos ou não.

Para nos fazermos ouvir – estamos falando pela poesia. Dela mesma. A palavra efetiva, de suas composições, de seus mitos, de suas espécies, de suas formas, metrificadas ou não, pois a poesia é a dialética da vida!

A poesia imita por diversos meios.

Exprime-se em cores ou figuras.

Imita a vida com o som, com o ritmo, com a harmonia. É tragédia ou comédia. Um canto, um ritmo. Epopéia, versos soltos, poemas livres….

Estes são alguns dos movimentos da palavra e de como a descrevem os poetas.

Então, amigos, não há que se falar em norte único do movimento. Tudo o que esta escrito no Manifesto faz parte.

Mas, é muito mais do que isso! Cada um tem de buscar dentro de si o que pode fazer – não esperar que lhes diga o que pode fazer.

Atuem no seu bairro. Na sua vila. Na sua família. No trânsito. Com seu amigo. Com seu próximo.

Exerça a sua cidadania. Isso não dependerá de qualquer movimento, mas sim, do interesse de cada um pela vida.

Olhem quanta coisa existem ao nosso redor… Falem de fatos que estão aí… à mão, por exemplo, sobre o meio ambiente. Se os governantes da terra, se cada um de nós – não nos conscientizarmo-nos muito em breve a poesia na e da Terra se calará.

Não haverá nada a ser cantado. Nem um por de sol, nem penumbra, nem vida…

Então?

Desejo que todos consigam realizar bom combate:

CONVIVER COM RESPONSABILIDADE
Delasnieve Daspet

O que esta fazendo o homem?
Dominar a natureza é sua intenção…
Não tem como, não!
Antes de dominar o planeta temos de aprender
A nos conhecer…

É hora de parar e examinar nossa sede de extermínio,
De agressão à vida,
Necessitamos de uma nova visão de progresso
De consciência ecológica,
Pois somos partes, integrantes, deste mundo,
Partilhamos com ele nossos sonhos e projetos.

Ganhamos o planeta de presente,
Só falta convivermos com zelo e responsabilidade.
Já foi dito que poderíamos aproveitar de
Todos os frutos, de todas as riquezas,
Conservando-a com sabedoria.

Diz-se que o planeta não tem instinto…
Que não pode se vingar
Do que lhe fazem no dia a dia,
Quando vivemos a poluir e a exterminar…

Mas ele tem se virado contra o homem,
Mostrando sua força e exigindo respeito…
Ou o que dizer dos tornados, tsunamis, enchentes,
Fogo, frio, calor, lixos, secas latentes…

Homens ouçam:
O planeta, a natureza , o universo, a vida
Pedem clemência!

05.06.05
Campo Grande MS

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José Feldman (Um Dia…)

Um dia você pega as suas coisas, faz as malas, se despede de quem ama e sai porta afora, para um mundo novo, buscando a liberdade e a felicidade tão sonhada.

Um dia você aluga um apartamento ou uma casa, aprende que tem que cozinhar para si próprio, se quiser comer. Que tem que limpar sua casa, se quiser um lugar organizado, aprende que independência da casa dos pais não implica em fazer o que bem entende. A sociedade tem regras, e você começa a sentir isto na pele, e deve segui-las.

Um dia você vê que só o seu dinheiro poupado durante tantos anos a fio, já não é o bastante, então tem que procurar um emprego, para poder se sustentar. Sempre achava que a liberdade era uma coisa linda e maravilhosa, e você não precisaria se preocupar com nada. Agora vê, que ela engloba responsabilidades, deveres e direitos.

Um dia você se sente deprimido, pois a vida independente não é um mar de rosas, e se arrepende de ter saído da casa de sua família, e pensa em voltar. Mas, também pensa em tudo o que aconteceu para sair, e fica dividido entre o que fazer.

Um dia você descobre que apesar de estar sendo exatamente igual a seus pais, o seu lar é o seu castelo, e você se sente feliz consigo próprio, e assim como seus pais eram os reis na casa deles, você é o rei na sua.

Um dia você descobre que ser rei de seu castelo envolve deveres, direitos e responsabilidades, e que mesmo assim não é fácil, é uma batalha constante para manter seu pedacinho de chão.

Um dia você descobre que está envelhecendo, que está ficando mais chato, mais turrão, a memória está falhando, se sente mais cansado, se sente meio frustrado, pois seus sonhos eram apenas sonhos, e as lágrimas correm tão facilmente em momentos inesperados.

Um dia você percebe que nos momentos que deveria falar, se calou e em outros, quando deveria ficar calado, falou.

Um dia você descobre que muitas coisas que fez não tinham razão de ser, e que se pudesse voltar atrás, mudaria tudo, entretanto, existem tantas outras que mesmo com algum final desastroso, deixaria como está.

Um dia você descobre que os seus verdadeiros irmãos são aqueles que um dia passaram por sua vida e deram um encontrão em você e seguiram adiante. Outros, que estiveram sempre presentes, mesmo que ausentes.

Um dia você descobre que nunca esteve sozinho, que sua família esteve sempre ligada a você em todos os momentos de sua vida, e você sempre, na verdade, seguiu os passos dela, sem nem mesmo perceber.

Um dia você percebe que aquilo pelo qual você sempre lutou só vai ser reconhecido por você mesmo, pelos que acompanharam sua caminhada e aqueles que realmente te amaram, e sempre estiveram a seu lado torcendo por você e incentivando quando você cambaleava.

Um dia você percebe que os verdadeiros inimigos de sua evolução não estão nas ruas, mas dentro da casa que você abandonou, dizendo-se irmãos, primos, sobrinhos, etc. Percebe que você é infeliz, pois ainda está ligado ao que pensam de si.

Um dia você percebe que é hora de se desvincular disso tudo e seguir os seus próprios passos, caminhar com seus pés, fazer sua própria vida e ser aquilo que você quer ser, não aquilo que os outros querem que você seja.

Um dia você percebe que a felicidade está dentro de você, e você tinha este tempo todo a chave para abrir esta porta e liberta-la.

Um dia você vai ter coragem suficiente para deixar suas coisas de lado, abandonar as malas do passado, carregar dentro de seu coração aqueles a quem ama e quem realmente estiveram a seu lado e sair porta afora, para um mundo novo, livre e feliz…

Um dia você vai perceber que finalmente realizou seu sonho e finalmente é feliz.

(Ubiratã, 22/05/08)

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