Arquivo do mês: junho 2008

André Augusto Passari (O mago da ironia)

Lá se vão cem anos, e quanta solidão!
De lá para cá, o ser humano
Esse espectro frágil de qualquer coisa que seja Deus
Tropeçou em suas próprias armadilhas e se perdeu

Por isso, com a mesma ironia
E em memória àquele que um dia iluminou essa escuridão
Dedico estes versos, pobres e insuficientes versos
Mas que dão mote à grandeza do nome sobre o qual verso

Antes do mais, perdoe-me o engano
Não, não é um espectro frágil o ser humano
É antes o próprio ideal trágico de um sonho infeliz e patético
Uma gargalhada profunda de um Deus incrédulo e imagético

Mas vá lá, voltemos ao nosso mote
E à homenagem ao grande Cavaleiro das Letras
Fundador da Academia Brasileira de Letras
E que nos inspira em vida e em morte
Joaquim Maria Machado de Assis
Ou somente Machado de Assis

Não era mesmo para ser o orgulho da pátria
Estava mais para um néscio ou um paria
Mulato pobre, gago, órfão, epilético e sem estudo
Tornou-se logo entre todos o mais culto
E contrariando a ordem lógica do mundo
Inverteu a lógica, o real e o oculto

Enxergou como ninguém a alma humana
E a revelou com a elegância de uma arte grega ou romana
Mas o fez com tal sinceridade
Que até parece crueldade
É que o homem vive numa crise de identidade
Ante o bem e o mal, a dualidade

Homenageado com honras em seu velório
Machado de Assis nunca foi um simplório
Sabia que a vida é um desafio complexo
E que só com maestria e valentia é que faz nexo
Por isso aproveitou a ironia de ter nascido pobre
Para morrer com a insígnia de um espírito nobre
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Notas sobre o autor:
André Augusto Passari, novo escritor nascido em Sorocaba (SP), veio ao mundo em 1979. Médico psiquiatra, reside em Ribeirão Preto (SP). Na literatura, assume sua condição de profundo admirador de Machado de Assis.
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Fonte:
PASSARI, André Augusto. Tempo, Solidão e Fantasia. São Paulo: Scotercci Editora, 2005.

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Edu Mercer (Universo de livros)

A batida da pesada porta de ferro ecoou uma eternidade. Desapressado, o pequeno Nicolau olhou para todos os lados. Certificou-se de que estava sozinho na imensa biblioteca. Como fazia há uns bons noventa anos — ou cem, ou talvez mais —, percorreu as estantes com os olhos à procura de algum volume. Olhou para as prateleiras da margem oposta, com o indicador da mão esquerda batucando a ponta do nariz. Olhou para a parede próxima até em cima, na altura onde surgiam as primeiras nuvens. “Deve estar por aqui”, pensou. Colocou um quepe de alpinista na cabeça, a mochila nas costas, com um martelinho e uma corda presos por fora e começou a subir pela escada móvel metálica que atingia as estantes mais longínquas. Por mais frio que fosse nas alturas, contentava-se com uma jardineira de calças curtas e camisa sem mangas. Depois de horas e horas, voltou ao chão com um espesso alfarrábio. Isolada no centro da biblioteca, havia uma cadeira alta, entalhada de mogno, o assento fofo revestido com veludo carmim. Sentou-se e leu alguns capítulos. De súbito pensativo e triste, Nicolau interrompeu a leitura — a releitura — de “Capitão Áteras”, de Julio Verne, e ficou a meditar. Lembrou que ainda moço estabelecera um rigoroso planejamento de leituras. Desde o verdor da juventude era propenso a estabelecer e cumprir metas. Algumas tolas, como não comer carne vermelha nos verões e raspar o cabelo nos anos bissextos. Outras de maior relevo, como aprender os idiomas latinos e desbravar a literatura clássica.

O planejamento literário funcionava da seguinte maneira: Nicolau lia um grande livro de um grande autor. Tão logo terminasse, começava a leitura de um grande livro de outro grande autor. E assim seguia o Primeiro Ciclo. Cumpria com prazer uma jornada diária de leitura, essencial para dar cabo de uma extensa lista elaborada com minúcia mas permeável a eventuais acréscimos. Por mais que se apaixonasse pelo estilo, pela verve do escritor, jamais lia outra obra do mesmo. “Há muitos autores a se conhecer”, pensava com a ansiedade natural dos jovens.

Influenciado pela xenofobia da Semana de 22 (“tupi or not tupi, that’s the question”), começou pelas obras nacionais. “O Ateneu”, “Espumas Flutuantes”, “Os Sertões”, “Dom Casmurro” e várias outras de tal quilate. Tinha plena convicção de que Capitu traíra Bentinho e ficava exasperado quando a crítica literária cogitava outra hipótese. Depois, numa nova etapa, quando chegava aos trinta anos, começou os autores clássicos universais — Joyce, Shakespeare, Dickens, Dostoievski, Dumas, Poe, Borges, Eça, Aristófanes e companhia. Às vezes se permitia entremear a leitura de clássicos com livros de prosa jornalística, coletâneas de citações, estudos jurídicos, antologias de contos, enciclopédias ilustradas, best sellers digestivos e literatura infanto-juvenil. Sem contar a leitura diária de jornais e revistas variadas.

Essas interrupções, aparentemente inofensivas, representaram uma considerável parcela de tempo. Assim, Nicolau já contava com mais de cinqüenta anos ao iniciar o Segundo Ciclo — a leitura de outras obras dos seus autores prediletos. “O Processo”, de Kafka, “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e “Quincas Borba”, de Machado de Assis, “Sagarana”, de Guimarães Rosa, “Crime e Castigo”, de Dostoievski, “Otelo” e “Rei Lear”, de Shakespeare.

Nicolau já era um resignado octogenário quando finalmente conseguiu iniciar o Terceiro Ciclo — a época das releituras. “A releitura é a verdadeira arte da leitura”, dizia ele citando uma frase não lembrava de quem. Recordou outro escritor, Ernest Hemingway, que daria toda a sua fortuna se pudesse sentir de novo o prazer que sentiu ao ler, pela primeira vez, seus livros preferidos.

Naquela tarde encalorada em que começara a reler “Capitão Áteras” — o primeiro livro de sua vida, o livro culpado por sua paixão fulminante pela leitura — Nicolau pensou nos inúmeros livros que já havia lido e relido. Em quanto conhecimento e diversão aquelas centenas de milhares de volumes já haviam oferecido a ele. Em quantos bilhões de palavras já haviam passado por seus olhos e quantas palavras desconhecidas havia anotado com caneta Bic num bloco de papel jornal para depois descobrir seus significados. Lembrou-se das incontáveis semanas sem comer, dos meses sem se contemplar no espelho, dos anos sem fazer a barba. No meio de tantas reminiscências, lembrou-se com saudade de um dicionário ilustrado muito antigo, impresso em papel bíblia, que tinha bonitas ilustrações coloridas de peixes oceânicos.

Colocou a mochila às costas, pegou o equipamento de alpinista e ajeitou o quepe na cabeça. Começou a cantarolar e a subir os degraus da escada metálica. Se sua memória merecesse alguma confiança, o dicionário estava daquele lado, numa prateleira bem acima das primeiras nuvens.

O nefelibata Nicolau nunca mais voltou.
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Notas sobre o autor:
Edu Mercer nasceu em 1973 e é redator publicitário em Curitiba — Paraná. Já escreveu, segundo suas próprias palavras, “dois pequenos livros (opúsculos): Fundo de Baú e O Quintal de Minha Casa é um Bar”, que reúnem contos, crônicas e letras de música.
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Fonte:
http://www.releituras.com/

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Estante de Livros (Editora Escrituras)

Antônio Campos e Cyl Gallindo (Panorâmica do conto em Pernambuco)
896 páginas

Esta é a segunda grande obra coletiva lançada pelo Instituto Maximiano Campos (IMC) em parceria com a Escrituras Editora. Primeiro surgiu a poesia, a palavra cristalizada na publicação do Pernambuco, terra da poesia: um painel da poesia pernambucana dos séculos XVI ao XXI. Neste volume, destaca-se a prosa, uma forma mais analítica de revelar o ser humano, seus sentimentos, seu tempo e seu espaço.

Panorâmica do conto em Pernambuco reúne um conjunto de obras literárias a fim de desvelar o povo pernambucano no cenário nacional. O gênero conto atende muito bem ao momento atual de muitos afazeres e pouco lazer, já que, em questão de minutos, na ante-sala de um consultório ou gabinete, no percurso de uma pequena viagem, em um piscar de olhos, lemos uma obra literária, conhecemos um autor, abrimos uma janela do espírito para um mundo que sequer imaginávamos que existisse. A partir daí, surge o desejo de conhecermos o autor e o restante de sua obra.

A Panorâmica do conto em Pernambuco traz esse painel, visto, sentido e revelado por 114 autores, nascidos neste Estado ou que, por qualquer circunstância, vivenciaram ou vivenciam a realidade pernambucana, suas experiências históricas, seus momentos de alegria, seus anseios, suas adversidades e suas realizações. Mergulhamos na documentação e trouxemos escritos desde o primeiro contista até autores inéditos, com revelações surpreendentes, certos de que estamos edificando um marco histórico na cultura brasileira.

Quem se debruçar sobre este livro, ao concluir sua leitura, verificará que alcançou uma ampla visão literária de Pernambuco e do Brasil, uma vez que deste torrão também se formou, com muita luta e sacrifício, a identidade brasileira.
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Antônio Campos é advogado, articulista, conferencista, poeta, contista e presidente do Instituto Maximiano Campos (IMC). Nasceu no Recife (PE), em 25 de junho de 1940. Foi um dos fundadores do IMC, depositário do acervo literário e artístico do escritor Maximiano Campos, seu pai, prematuramente falecido. É também promotor e divulgador da cultura pernambucana e nordestina. O IMC apresenta uma lista considerável de lançamentos de livros de outros escritores e produção do IMC, como a coletânea Pernambuco, terra da poesia: um painel da poesia pernambucana dos séculos XVI ao XXI, organizada pelo próprio Antônio Campos e por Cláudia Cordeiro (IMC/Escrituras Editora, 2005). Além disso, o IMC realiza eventos culturais, como participação com a “Casa das Letras” no I Festival de Literatura de Garanhuns (2006) e a realização da III Fliporto – Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas, Pernambuco, com o tema “Integração Cultural Latino-Americana”. É autor de diversos livros, nas áreas do Direito, Gestão Empresarial e Literatura (contos, crônicas, ensaios).
Sites: http://www.imcbr.org.br / http://www.antoniocampos.com.br

Cyl Gallindo nasceu em Buíque (PE), em 28 de maio de 1935. Diplomado em Ciências Sociais pela UFPE, é escritor, poeta, jornalista e conferencista. Trabalhou na Assessoria de Comunicação do Senado Federal e de outras repartições públicas. Foi repórter, redator, editor e colunista de jornais de Pernambuco, Brasília, e Mato Grosso, além de correspondente do Jornal de Letras, RJ. Produziu e apresentou o programa Síntese na TV Universitária, Recife, e colaborou com o jornal Gazeta do Povo, Paraná. É membro da Academia de Letras do Brasil, do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal, da ANE, Brasília (DF), e da UBE-P. Recém-eleito para a Alane, cadeira nº 18, substituindo o escritor William Ferrer Coelho. Foi membro (fundador) do Conselho Municipal de Cultura do Recife e é membro efetivo da Alane. Atualmente representa no Brasil a Francachela, Revista Internacional de Literatura e Arte, editada na Argentina e é diretor da Cicla, destinada a tradução e publicação de obra de autores brasileiros contemporâneos, na Argentina, e faz parte do Conselho Editorial da revista Encontro, do GPL, PE. Autor de diversos livros premiados, escreveu artigos, reportagens, críticas, crônicas, entrevistas, poesias e contos publicados em antologias, jornais e revistas de diversos Estados do Brasil. No exterior, foi traduzido, respectivamente, para o espanhol, alemão e francês, em: Francachela, Argentina; Xicóatl, Áustria; Rampa, Colômbia; Poésie du Brésil (org. Lourdes Sarmento), França; e Prismal (org. Regina Igel), University of Maryland, Estados Unidos.
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Felipe Machado (Olhos cor de chuva)
160 páginas

Quando você dança com o diabo, você não muda o diabo, o diabo muda você.
Andrew K. Walker

Um texto surpreendente, da primeira à última página. O ritmo inicial é calmo, permitindo que nos acomodemos na poltrona, como em um bom filme. Rapidamente, no entanto, somos capturados em um vórtice de sentimentos e emoções que harmonizam o real e o possível, o atual e o virtual, tornando o gesto mais delirante absolutamente lógico e natural. Após a leitura, não restará quem ache impossível apaixonar-se por um par de olhos cor de chuva, de alguma forma, em algum contexto…

…Aquela noite tinha tudo para ser apenas mais uma na agitada vida do escritor Alexandre Nastari. Freqüentador assíduo do Dixie – casa noturna e palco da big band Great Gatsbies -, viu sua vida mudar repentinamente: Manoela. Após uma noite inesquecível, Alex convida Manoela a se mudar para o seu apartamento. Um dia, da mesma maneira inesperada que surgiu, Manoela se foi. Alex encontra sua mulher morta.

Buscando uma razão para o assassinato da amada, acaba conhecendo Vanessa, ex-garçonete do Dixie e melhor amiga de Manoela. Entre várias revelações, ela conta que aquele não era o nome real da amiga, e que as duas trabalhavam no passado como prostitutas. Vanessa se muda para o seu apartamento. A família Nastari, querendo apresentar a garota à sociedade, oferece um almoço para o casal. Mas tudo dá errado e Vanessa deixa o local abalada Motivo: Enrico era um cliente antigo dela e de Manoela.

Alex tenta matar o pai, mas é impedido por Elizabeth e o velho empregado dos Nastari. As noites ficam cada vez mais pesadas, com cocaína, maconha e vodka, suas companheiras inseparáveis. Uma semana depois, o escritor vai ao Café Mondrian, local onde costumava buscar inspiração. Lá ele conhece Aline, outra paixão à primeira vista, igualmente fulminante, que o faz terminar o relacionamento com Vanessa. Alex conhece os artistas europeus Jorge Galies e Christian Lefuric, amigos de John. Lefuric, que lhe mostram a imagem de uma mulher que transformaria novamente sua vida.

Há, entretanto, um pequeno problema: ela não é real. Criada no computador por designers europeus, a personagem virtual é a última fronteira entre Alex e a loucura. O amor dá lugar a uma obsessão platônica quando, depois de tantos relacionamentos fracassados. Alex acredita ter encontrado a mulher perfeita…
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Felipe Machado passou a adolescência escutando Beatles e Led Zeppelin com a mesma atenção com que ouvia em casa o ruído ininterrupto das máquinas de escrever de seus pais, ambos jornalistas. Seus discos, no entanto, não eram os únicos companheiros: os livros de Monteiro Lobato e Agatha Christie também eram retirados da estante e devorados, um a um. Aos 12 anos, ganhou a primeira guitarra. Aos 16, gravou o primeiro disco com uma banda formada com amigos de infância.

Pouco depois, o VIPER já lançava discos no mundo inteiro e fazia turnês pela Europa, Japão e Estados Unidos. Os livros ficaram na estante, esperando. No final do século XX, influenciado por personagens reais – e completamente irreais – da noite paulistana, Machado partiu para uma nova carreira e um desafio ainda maior: escrever Olhos Cor de Chuva, romance finalizado poucos dias antes de entrar no prelo. Hoje, continua vivendo entre a música e as letras: depois de trabalhar como redator na agência de propaganda DPZ, ele divide seu tempo entre os palcos da banda Metanol e a redação do Jornal da Tarde.
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Myriam Campello (Como Esquecer – anotações quase inglesas)
128 páginas

O livro Como esquecer (anotações quase inglesas), de Myriam Campello, foi roteirizado para o cinema e começou a ser rodado no início de 2008, sob a direção de Malu De Martino (Mulheres do Brasil). A protagonista do filme será a atriz Andréa Beltrão.

Qual é a natureza do amor? E de sua perda?

Numa casa à beira-mar, todos os personagens sofreram algum tipo de perda. Como esquecer (anotações quase inglesas), título que revela a anglofilia da autora, Myriam Campello, é o mapa desse emocionante percurso interior que se acompanha como uma aventura em mar aberto. Duas mulheres formam o par amoroso central que se desfaz e deixa todo um deserto de lembranças e sofrimentos. No texto corre a dramaticidade de desilusões e perdas, misturadas com referências à Inglaterra por toda a narrativa, como o casal Catherine e Heathcliff do clássico de Emily Brontë, O morro dos ventos uivantes. O que nos faz relacioná-lo à intensidade da personagem, tanto na forma de amar como de sofrer. Da mesma forma como no relacionamento do casal há uma dependência, ao ponto de Catherine afirmar que é Heathcliff, na obra, há também esse sentimento entre Júlia e Antônia.

Através da narrativa da protagonista Júlia, somos envoltos por um emaranhado de lembranças sofridas e nostálgicas que, na maioria das vezes, são carregadas de um humor sarcástico – Quando alguém diz eu te amo para sempre, tenha certeza que você só tem uma opção: acreditar, babaca. Eu acredito em amor eterno, Papai Noel, coelhinho da Páscoa e que todo sofrimento tem fim – Conformada com a dor, passa a ironizá-la e a tratá-la como parte comum de sua vida. Pelas páginas desse romance, Júlia vai divagando sobre seus medos, suas dores e tentativas de esquecer um amor. Tentativas de se sustentar pelas próprias pernas, sem depositar sua vida no outro. Embriagada pelas lembranças, a personagem vive, muitas vezes, ausências da realidade, pega-se flutuando fora do mundo ao seu redor. Ela vive a constante busca de sua liberdade: esquecer e expulsar definitivamente da memória aquela que a abandonou.

Júlia compartilha com seus amigos o seu sofrimento. Personagens tão complexos quanto Júlia, que também perderam pessoas importantes, cada um de uma forma. Suas ações e reações estão muito próximas de nós. São todos convocados a olharem para dentro deles mesmos e a conhecerem-se a si mesmos, numa tentativa de vencer o caos, sejam quais forem as combinações afetivas.

O texto cola a palavra ao complexo ato de viver e transformar-se em pura criação literária. É esta quem reina soberana e que faz a leitura desse romance um sofisticado prazer. A experiência da perda comum a todos, a serviço de um estilo inconfundível, torna o livro impossível de esquecer.
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Myriam Campello nasceu no Rio de Janeiro. Com Cerimônia da noite, seu primeiro livro, recebeu em 1972 o Prêmio Fernando Chinaglia para romance inédito. Publicou ainda Sortilegiu (romance, 1981), São Sebastião blues (romance, 1993), editado na Alemanha em 1998, e ainda este ano será publicado na França, e Sons e outros frutos (contos, 1998), vencedor da Bolsa para Conclusão de Obra da Biblioteca Nacional, em 1996. Recebeu o Prêmio União Latina – Concurso Guimarães Rosa para conto inédito, em 1997. Participou de diversas antologias brasileiras, entre elas Os cem melhores contos brasileiros do século (2000). Tem contos publicados na Polônia, Alemanha, Holanda, França e Estados Unidos.

Fonte:
Editora Escrituras
http://www.escrituras.com.br/

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Maria Antônia Canavezi Scarpa (Será incondicional)

Decidi que seria assim : incondicional,
exausta, venho traçando ao longo do caminho,
vértices que me enraízem sem limites,
no cerne das nossas vidas, este vento brando,
refrescando os nossos sentimentos
Cada detalhe, que não quero esquecer,
vou entrelaçando nas páginas que já foram escritas,
pois tudo somará um livro volumoso,
onde cada linha versará a rebeldia do querer,
dar, dar muito e receber
Será uma viagem longa, sem paradas vãs,
que não sejam para adornar este acalanto,
ao polir o brilho do olhar que vem dos seus
e dos olhos meus, como se cada vez
fosse a primeira vez
Tem que ser assim : incondicional,
você é o que sempre quis, um domador,
vindo de longe, abrir o etéreo,
para estes sonhos plurais, transformando-os,
modificando todos os meus conceitos
Fui deixando, que se rompessem,
todos os limites, quando a dor da saudade,
exigiu que se rasgassem todos os véus
que cobriam as minhas verdades,
expondo-as, que vivo você!

Fontes:
http://cafe-poetico.blogspot.com:80/
http://www.sorocaba.com.br/acontece

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Noticias Em Tempo de Ontem e de Hoje

Lançamento do Livro Sonetos de Guilherme de Almeida
José Renato Nalini, presidente da Academia Paulista de Letras, convida para o lançamento do livro “Sonetos” de Guilherme de Almeida.
Local: Casa das Rosas.
Data: Terça-feira, 1º de julho. A partir das 19h.
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A baleia que aprendeu a voar
O livro A baleia que aprendeu a voar, do escritor Renato de Oliveira Leme, nascido em Itapetininga, (e radicado em Sorocaba desde 1991) está à venda no Gpaci (Grupo de Pesquisa e Assistência ao Câncer Infantil). A renda será revertida para a entidade. A obra, uma história de ficção para adultos, tem como cenário o ambiente rural e promete fazer o leitor embarcar numa reflexão sobre as possibilidades de planejamento da vida, suas metas e sonhos.
Renato, que também é engenheiro agrônomo, teve o apoio da Lei de Incentivo à Cultura (Linc) de Sorocaba. Em 2008, foram lançados mil exemplares. Duzentos foram doados às Secretarias de Educação e Cultura de Sorocaba. Os outros oitocentos foram entregues ao Gpaci. O livro custa R$ 20,00 e pode ser adquirido na própria entidade. A renda obtida com as vendas será aplicada na reforma e ampliação do Hospital Sarina Rolim Caracante. Adquira já o seu livro e ajude a entidade a continuar salvando vidas. O Gpaci fica na rua Antônio Miguel Pereira, 45, no Jd. Faculdade. Informações: (15) 2101-6555.
(Notícia publicada na edição de 27/06/2008 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 8 do caderno B)
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Morreu o escritor italiano Mario Rigoni Stern

ROMA (AFP) – Um dos maiores escritores do pós-guerra da Itália, Mario Rigoni Stern, autor de “Il sergente nella neve” (O sargento na neve), faleceu nesta segunda-feira pela noite em Asiago (norte da Itália) aos 86 anos, anunciaram a imprensa local.

Esse veneziano de descendência austríaca misturou sua experiência como militar especialista em alpinismo durante a Segunda Guerra Militar, em que combateu na França, Grécia, Albânia e Rússia, em “Il sargente nella neve”, seu primeiro romance.

A obra, que tornou-se um clássico da literatura italiana, relata a aventura patética de alguns soldados italianos perdidos na fria Rússia enquanto o exército de Roma e de Berlim batiam em retirada.

“O fato de Rigoni Stern existe já é por si só milagroso. Milagroso, primeiro, pela sua sobrevivência: um homem que sempre se posicionou contra a violência e que o destino obrigou a participar de todas as guerras de seu tempo. Milagre pelo fato de Rigoni conseguir conservar sua autenticidade em nossa época de loucos”, disse outro célebre escritor italiano, Primo Levi.

Stern deixou quase vinte obras escritas, entre elas ‘Storia di Tönle’ e ‘Le stagioni di Giacomo’, ambas premiadas.
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Morreu de câncer poeta venezuelano Eugenio Montejo

Caracas, 6 jun (EFE) – O poeta e ensaísta venezuelano Eugenio Montejo morreu em uma clínica da cidade de Valencia em decorrência de um câncer estomacal, informaram hoje diferentes veículos de comunicação locais.

Montejo, nascido em Caracas em 1938 e um dos poetas mais representativos do país, estava desde semana passada internado no Centro Policlínico Valencia, cerca de 120 quilômetros ao oeste de Caracas, e morreu à meia-noite desta quinta-feira.

Escritor e diplomata, ele venceu em 1998 o Prêmio Nacional de Literatura e foi embaixador da Venezuela em Portugal durante vários anos.

O poeta publicou livros como “Elegos” (1967), “Muerte y memoria” (1972), “Algunas palabras” (1977), “Terredad” (1978), “Trópico absoluto” (1982) e “Alfabeto del mundo” (1986).

Também escreveu vários ensaios, entre eles “La ventana oblicua” (1974), “El taller blanco” (1983) e “El cuaderno de Blas Coll” (1981), e desenvolveu uma importante obra no campo da poesia infantil.
Montejo fundou várias revistas sobre cultura e poesia em Valência, e também foi pesquisador no Centro de Estudos Latino-americanos Rómulo Gallegos (Celarg) de Caracas
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Morreu em Paris o escritor egípcio Albert Cossery, o “Voltaire do Nilo”

Paris, 22 jun (EFE).- O escritor egípcio Albert Cossery, conhecido como o “Voltaire do Nilo” por sua ironia, morreu hoje, aos 94 anos, no hotel de Paris onde viveu nas últimas seis décadas, informaram fontes de sua editora.

O corpo de Cossery foi encontrado no quarto que ocupava em um modesto hotel do bairro de Saint-Germain-des-Prés.

Até o momento, não foram dados detalhes da morte do escritor.

Autor de oito obras, todas elas em francês, e ganhador de vários prêmios, Cossery se tornou um personagem conhecido do boêmio bairro de Paris no qual se instalou em 1945.

Lá, conviveu com personalidades como Albert Camus, Juliette Greco e Giacometti.

Em seus textos, repletos de sarcasmo e sabedoria oriental, Cossery apresentou a vida do pequeno povoado egípcio no qual nasceu.

Como seus personagens, nunca possuiu nada, o que fez com que vivesse em um quarto de hotel.
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Escritora canadense Margaret Atwood ganha Prêmio Príncipe de Astúrias

Oviedo (Espanha), 25 jun (EFE).- A escritora canadense Margaret Atwood ganhou hoje o Prêmio Príncipe de Astúrias das Letras 2008 por sua “esplêndida obra literária”, que explora diferentes gêneros “com intensidade e ironia”, sem esquecer a denúncia das injustiças sociais.

Atwood, que nasceu em Ottawa em 1939, se tornou a primeira mulher agraciada este ano pelos Prêmios Príncipe de Astúrias, que oferecem 50 mil euros (US$ 77.600).

A romancista, poeta e ensaísta é autora de mais de 20 obras de ficção, entre elas “O conto da aia” – uma crítica feroz à sociedade totalitária -, “O assassino cego”, “Olho de gato” e “Surfacing”, incluída pelo crítico Harold Bloom em seu livro sobre as melhores obras que formam o cânone ocidental.

Intimista, irônica, defensora dos direitos humanos e da mulher, Atwood colabora com a Anistia Internacional, com quem defende os direitos territoriais dos índios mohawks, e seu nome foi citado para o Prêmio Nobel de Literatura.

O júri destaca em sua decisão sua “esplêndida obra literária” com a abordagem de diferentes gêneros “com intensidade e ironia”, e na qual “assume inteligentemente a tradição clássica, defende a dignidade das mulheres e denuncia situações de injustiça”.

O diretor da Real Academia Espanhola, Víctor García de la Concha, expressou sua satisfação “sem reservas” pela concessão do prêmio à Atwood, a quem definiu como “uma romancista de valor universalmente reconhecido”.

De la Concha, presidente do júri, admitiu, no entanto, que tanto ele quanto os outros membros da banca prefeririam conceder o prêmio a um escritor de língua espanhola já que, após sua internacionalização dez anos atrás, não é dado a nenhum autor deste idioma desde a premiação do guatemalteco Augusto Monterroso, em 2000.

Segundo De la Concha, apesar de a eleição do júri ter sido “muito apertada”, a votação final, na qual Atwood concorria com o espanhol Juan Goytisolo, foi “muito folgada” a favor da autora canadense, após a eliminação das candidaturas do britânico Ian McEwan e do albanês Ismail Kadaré.

A obra de Atwood se destaca por sua ironia, humor e magnetismo para o leitor, em palavras de sua editora na Espanha, Ana María Moix, e da tradutora de sua poesia, Pilar Somacarrera.

Segundo as duas, Atwood é muito conhecida como narradora e ensaísta, “mas é ainda muito melhor poetisa”.

Atwood recebeu o Booker Prize em 2000 e escreveu mais de 20 obras de ficção.

A escritora é fã incondicional de escritores franceses do século XIX como Flaubert, Zola e Maupassant, dos clássicos russos e de Cervantes.

O escritor espanhol foi a fonte de Atwood para dissecar as relações humanas, como diria um entomologista, profissão que seu pai exerceu na Universidade de Toronto, mas sempre aplicando sua ironia, humor e grandes doses de mistério e psicologia.

Aos 19 anos, a autora começou a escrever seus primeiros poemas, já impregnados de citações mitológicas, e que depois se deslocariam para o interesse pelo mistério, as referências culturais, literárias e pictóricas.

A escritora canadense costuma dizer que quando escreve um romance “é como se construísse uma casa” e quando faz poesia se sente “como um pássaro que canta”.

“A poesia é escrita com a mão esquerda e corresponde a uma região do cérebro que é responsável pela música e pelas áreas mais criativas”, acrescenta.

Atwood escreve em inglês e francês, e alguns de seus romances foram adaptados para o cinema e o teatro, como “A mulher comestível”, “O conto da aia” – que também se tornou ópera -, “Vulgo, Grace” e “O assassino cego”.

Traduzida para mais de 30 idiomas, como persa, japonês, turco, finlandês, coreano, islandês e estoniano, Atwood publicou seu último livro de poesia, “The door”, em 2007, e uma coleção de relatos, “The tent”, em 2006.

O Prêmio Príncipe de Astúrias das Letras já foi concedido a autores como Nélida Piñon, Juan Rulfo, Mario Vargas Llosa, Camilo José Cela, Carlos Fuentes, Günter Grass, Augusto Monterroso, Doris Lessing, Arthur Miller, Paul Auster e Amos Oz, que o recebeu em 2007.
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Começou o Festival Literário da Mantiqueira em SP

A relação da literatura com outras artes é o estimulante ponto de partida do Festival da Mantiqueira, evento cuja primeira edição começou sexta feira, 30 de maio, no pequeno distrito de São Francisco Xavier, próximo a São José dos Campos, em São Paulo. Promovido pela Secretaria de Estado da Cultura, o festival reuniu um grupo de escritores do primeiro time, como Milton Hatoum, Fernando Morais, Moacyr Scliar, Nelson Motta e Marçal Aquino, que participaram de encontros na praça central da charmosa cidade, sempre com entrada franca.

Além dos encontros com os autores, o Festival da Mantiqueira teve oficinas para crianças, lançamento de livros e shows de Fernanda Takai cantando bossa nova, Kátia B, Orquestra Sinfônica de São José dos Campos, e a poeta Alice Ruiz acompanhada da cantora Alzira Espíndola. Também o movimento BookCrossing.com espalhou mais de 200 livros pela cidade, um presente para os leitores.

No festival, foi anunciada a criação do Prêmio São Paulo de Literatura, que pretende premiar com R$ 200 mil o melhor romance de 2007 e com outros R$ 200 o melhor romance de estréia do ano passado. A escolha será de um conselho a ser formado por um crítico literário, um jornalista, um autor e um livreiro. A entrega ocorre em novembro.

Programação – O Festival da Mantiqueira começou às 20h30, com o espetáculo Poesia em Cena, da Cia. Teatral As Graças, seguido de show de Kátia B. Sábado, a programação começou às 11 horas, com Suzana Amaral, Moacyr Scliar e Marçal Aquino discutindo os diálogos entre literatura e cinema. Depois de duas atividades infantis, a programação adulta recomeçou às 15 horas, quando ocorreu a conversa com Milton Hatoum. Duas horas depois, o debate Diálogos Literatura e Bossa Nova, reunindo Fernanda Takai, Nelson Motta e Zuenir Ventura. O dia terminou com shows de Alice Ruiz e Alzira Espíndola, e de Fernanda Takai. Fernando Morais e Jorge Caldeira abriram o domingo às 11 horas falando sobre a relação entre Literatura e História. Depois, ainda ocorreu um encontro com Marcelo Rubens Paiva até que Mario Prata, Bruna Lombardi e Lauro César Muniz iniciassem o debate sobre Literatura e Televisão.

Os eventos aconteceram em cinco espaços diferentes “a Tenda Mantiqueira Literária, com debates; Tenda da Livraria Saraiva, com lançamento e livros e sessões de autógrafos; Espaço Mantiqueira Infantil, com atividades para as crianças; e Espaço Mantiqueira Musical e Bar e Restaurante Photozofia, onde foram realizados shows de Fernanda Takai, Kátia B, Orquestra Sinfônica de São José dos Campos, e Alice Ruiz e Alzira Espíndola. Os temas dos debates são a relação da literatura com cinema (onde estiveram Suzana Amaral),
(fonte: Jornal O Estado de São Paulo)
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Novo romance de James Bond festeja os 100 anos de seu criador

LONDRES (AFP) – O romance sobre as novas aventuras do agente 007, escrito pelo romancista britânico Sebastian Faulks, chegou às livrarias dia 28 de maio na Grã-Bretanha, dentro das comemorações do centenário de seu criador, Ian Fleming.

A imprensa britânica considerou o lançamento do livro o acontecimento literário do ano. Dezenas de pessoas esperaram durante a madrugada a abertura da livraria Waterstone, em Piccadilly, centro de Londres, para poder comprar o romance lançado no mesmo dia do centenário de nascimento do ‘pai’ de James Bond.

Os herdeiros do escritor, nascido em 28 de maio de 1908, encarregaram o romancista britânico Sebastian Faulks de escrever, à maneira de Fleming, o 15º episódio das aventuras de 007.

A trama permaneceu guardada a sete chaves até seu lançamento, mas a editora já adiantou que se trata de uma volta às origens de James Bond, embora as adaptações cinematográficas tenham se encarregado de evoluir o personagem aos olhos do público.

Até agora, o que havia sido divulgado é que o novo romance, “Devil May Care”, é ambientado em plena Guerra Fria, em 1967, e leva o agente secreto a Paris, Londres e ao Oriente Médio.

“O livro mantém o espírito original e é muito divertido”, disse à imprensa Sebastian Faulks, que confessou ter escrito a história em apenas seis semanas.

Entre 1952 e 1964, ano de sua morte, Ian Fleming escreveu 14 histórias de James Bond. A última, “Octopussy”, foi publicada postumamente em 1966.

Ao longo dos anos, sua família pediu a três escritores britânicos – entre eles Kingsley Amis – que assumissem o posto, mas os resultados não foram satisfatórios.

As últimas obras publicadas são adaptações escritas dos filmes, que alçaram o espião de Sua Majestade ao estrelato mundial.

A mais recente produção para o cinema, “Quantum of Solace”, ainda em processo de montagem, será novamente estrelada pelo ator inglês Daniel Craig e deve estrear na próxima primavera.

O lançamento de “Devil May Care” faz parte da série de atos comemorativos do centenário de nascimento de Fleming em Londres, que inclui ainda uma exposição de objetos pessoais e manuscritos do escritor no Imperial War Museum de Londres.

Filho de um parlamentar conservador britânico, educado em meio à elite do país, Fleming foi jornalista, corretor da bolsa, banqueiro e até playboy.

Durante a Segunda Guerra Mundial trabalhou para o serviço secreto da Marinha Real inglesa, onde imaginou uma série de operações ambiciosas que o inspiraram depois a criar as histórias vividas por 007.
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Aberto 10º Salão do Livro para Crianças e Jovens no RJ

Os principais nomes da literatura infanto-juvenil brasileira – Ziraldo, Ana Maria Machado, Lygia Bojunga, Adriana Falcão e outros – estão perto de seus leitores de 21 de maio a 1º de junho. Mais do que promover esses encontros, o Salão do Livro para Crianças e Jovens, realizado já há dez anos pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), tem o objetivo de reunir os melhores lançamentos e apresentá-los a seu público. Cada criança recebe um exemplar. Sessenta e sete editoras estão representadas nos dois mil metros quadrados que o Museu de Arte Moderna (MAM) destinou à “minibienal”. A chegada à 10ª edição está sendo comemorada com uma homenagem à Itália e aos seus ilustradores. Dois deles, Francesco Tullio Altan e Roberto Innocenti, vieram ao Rio. Na companhia dos brasileiros André Neves e Roger Mello, Altan vai mostrar sua arte ao vivo, diante dos olhos de garotos e garotas.

Hoje, são muitas as presenças ilustres: Luis Fernando Veríssimo, Ziraldo e Ana Maria Machado estarão no Espaço de Leitura da FNLIJ. 22 de maio, os ilustradores Victor Tavares e Guto Lins farão uma performance. Para todos os dias, foram programados lançamentos e leituras de livros de Monteiro Lobato, Machado de Assis, Guimarães Rosa e outros autores, brasileiros e estrangeiros. Estes contatos, acredita Elizabeth Serra, secretária-geral da fundação, são muito frutíferos, por estimularem a leitura. E é esta a razão pela qual o salão existe. “Nossa proposta é de promover a leitura mesmo, sem a necessidade de artifícios, como dramatização, música”, ressalta Elizabeth.

“O livro é um objeto inanimado que exige concentração. A gente acredita que qualquer coisa que distraia as crianças não é bem-vinda”, explica Gisela Zinconi, presidente da fundação. A entidade espera mais de 30 mil pessoas durante os 12 dias de salão. O público vem crescendo a cada ano. “É emocionante ver os jovens que vêm sempre e notar que eles estão ficando mais exigentes, e suas perguntas, mais consistentes”, conta Elizabeth. A primeira década da feira não é o único motivo para celebração. A fundação completa 40 anos neste mês de maio. A entidade, filiada à International Board on Books for Young People, organismo internacional de fomento à leitura entre jovens, é privada e não tem fins lucrativos.
(Fonte: jornal O Estado de S. Paulo)
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Fontes:
http://br.noticias.yahoo.com/
http://www.cruzeirodosul.inf.br/
http://www.sorocaba.com.br/acontece

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Valentim Magalhães (1859 – 1903)

Antônio Valentim da Costa Magalhães (Rio de Janeiro, 16 de janeiro de 1859 — 17 de maio de 1903), foi um jornalista e escritor brasileiro, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.

Biografia

Filho homônimo de Antônio Valentim da Costa Magalhães e de D. Maria Custódia Alves Meira. Formou-se em Direito pela Faculdade do Largo de São Francisco, em São Paulo, onde ingressara em 1877. Ali colabora para os periódicos acadêmicos “Revista de Direito e Letras”, “Labarum” e “República”, este último de Lúcio de Mendonça. Ainda nesta cidade publicou três obras: “Idéias de Moço”, “Grito na Terra” e “General Osório”, este último em parceria com Silva Jardim, além de seu primeiro livro, entitulado “Cantos e Lutas”. Ali também casou-se, em 1880. Voltando para o Rio, dedica-se ao jornalismo, dirigindo o periódico “A Semana” (fundado em 1885), que torna-se o veículo dos jovens escritores da época, além da propaganda abolicionista e republicana, sendo um período de marcadas agitações culturais e políticas, estando Valentim Magalhães no proscênio dessas lutas todas. Sobre sua participação, regitrou Euclides da Cunha, que o sucedeu na Academia: “A geração de que ele foi a figura mais representativa, devia ser o que foi: fecunda, inquieta, brilhantemente anárquica, tonteando no desequilíbrio de um progresso mental precipitado a destoar de um estado emocional que não poderia mudar com a mesma rapidez”.

Seu grande envolvimento com as causas que defendia não lhe permitiram uma maior produção literária, sendo comum entre os críticos que seu papel foi o de divulgar os demais escritores nacionais. Ficou célebre pelas inúmeras polêmicas criadas, que redundaram em ataques e desafetos, bem como pelas defesas que dele faziam os amigos. Durante o Encilhamento, falsa prosperidade econômica que se seguiu à Proclamação da República por obra do seu confrade Rui Barbosa, então feito Ministro das Finanças, Valentim dedicou-se ao lucro rápido, fundando uma companhia e, logo mais, como todos, vindo à falência. Sobre seu papel na memória futura, então ainda presenciando os reveses, declarou:

“A princípio fui gênio; mais tarde cousa nenhuma. Hoje César, amanhã João Fernandes…”

Poesia

Registra Manuel Bandeira que o autor participara, ao lado de Teófilo Dias, Artur Azevedo, Fontoura Xavier e outros, da chamada “Batalha do Parnaso”, uma reação ao romantismo, iniciada ainda na década de 1860, e que ganhou força com a agitação promovida por Artur de Oliveira. Este misto de boêmio e intelectual conhecera em Paris os intelectuais parnasianos, e influenciara os autores brasileiros.

Versos

Íntimo
(domínio público)

Esta alegria loura, corajosa,
Que é como um grande escudo, de ouro feito,
E faz que à Vida a escada pedregosa
Eu suba sem pavor, calmo e direito,
Me vem da tua boca perfumosa,
Arqueada, como um céu, sobre o meu peito:
Constelando-o de beijos cor de rosa,
Ungindo-o de um sorriso satisfeito…
A imaculada pomba da Ventura
Espreita-nos, o verde olhar abrindo,
Aninhada em teu cesto de costura;
Trina um canário na gaiola, inquieto;
A cambraia sutil feres, sorrindo,
E eu, sorrindo, desenho este soneto.

Bibliografia

Sua obra, considerada menor no contexto da literatura brasileira, regista, entretanto, uma curiosidade, por conta de uma errata:

1896 – Concluído o romance “Flor de Sangue”, de Valentim Magalhães, que seria publicado pela Laemmert com a mais inusitada das erratas “…à página 285, 4a. linha, em vez de “estourar os miolos”, leia-se “cortar o pescoço”.

Seus livros:

Cantos e Lutas, poesia (1897);
Quadros e Contos (1882);
Vinte Contos e Fantasias (1888);
Inácia do Couto, comédia (1889);
Escritores e Escritos (1894);
Bric-à -brac, contos (1896);
Flor de Sangue, romance (1897);
Alma, crônicas (1899);
Rimário, poesia (1899)

Quando da Fundação da Academia, Valentim Magalhães foi convidado para ocupar a cadeiranúmero 7 da Academia Brasileira de Letras, que tem por patrono Castro Alves, cujo nome foi por ele escolhido para o patronato. A biblioteca do silogeu brasileiro teve início com a doação, feita por Valentim, de seu livro Flor de Sangue, em janeiro de 1897.

Fonte:
Biblioteca Eletronica. In Revista do CD Rom. n.156. julho 2008. Editora Europa. (CD-ROM).

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Valentim Magalhães (Prefácio da Obra "Flor de Sangue")

Il y a une justice à rendre à l’amour — c’est que plus les motifi qui le combattent sont forts, clairs, simples, irrécusables, en un mot, moins il a le sens commun, plus la passion s’irrite et plus on aime. C’est une belie chose sous le ciel que cette déraison du coeur; sans elle nous ne vandrions pas grand’chose.
Alfred de Musset..

Il n’y a jamais rien que de três simple dans les événements les plus extraordinaires, comme il ný jamais rien que de três logique dans les hasards les plus inattendus. Un peu de réflexion nous aurait suffi le plus souvent pour empécher les uns et pour prévoir les autres. Mais le propre de la passion est de s’absorber dans son object tout entière.
Paul Bourget.

PREFÁCIO
Julguei conveniente, a bem da retidão do julgamento desta obra, precedê-la de algumas sinceras e curtas explicações.

Há 20 anos que escrevo para o público e mesmo, a rigor; há mais tempo ainda, pois na idade de 15 anos já eu publicava em jornais de província linhas de prosa e de verso, que só a meninice do autor tornava suportáveis à paciência benévola dos leitores. Nesses quatro lustros de atividade mental tenho feito um pouco de tudo – versos, folhetins, contos, panfletos, critica, biografia, artigos de todo gênero, teatro, que sei eu? E tenho construído com parte desses materiais para mais de uma dúzia de livros.

A critica tem-me reconhecido, com munificência que me há penhorado, um espírito vivaz, variável, curioso; uma atividade indefesa; um certo amor à língua vernácula, e daí pronunciado carinho no escrevê-la e um estilo correto e agradável; porém não tem ocultado o seu pesar por me não ver abalançar-me a isso que chamam os críticos “obra de fôlego” ou “trabalho sério” – um poema, um romance, um livro de crítica profunda. Ora, eu devo confessar que essa censura me calou sempre no espírito por havê-la formulado muitas vezes a mim próprio. Mas a necessidades inadiáveis da vida material, tão pesadas para um pai de família pobre nesta terra em que das letras ainda se não pode viver exclusivamente, impediram-me sempre de levar por diante esse projeto, cem vezes formulado e não poucas começado a executar. O tempo que me deixavam livre as ocupações de que provinha o pão cotidiano e o meu estado de saúde, precário, sempre, chegava apenas para escrever o conto, a notícia critica, a crônica faceta, o artiguinho diário a que me comprometera em um ou vários jornais; não havia possibilidade de realizar o meu sonho, satisfazendo a exigência dos críticos – escrever uma obra de fôlego.

Entretanto, desde as primeiras manifestações da minha vocação para as letras senti-me atraído para o romance, e entre os meus primeiros ensaios, abandonados e perdidos, figuravam alguns capítulos de um romance O Equilibrista, apenas encetado. Mais de uma vez comuniquei aos meus amigos esboços, planos de romance, e de alguns passaram notícias às folhas.

Ora, aconteceu que nos últimos dias do ano de 1895, conversando com um editor, propus-lhe escrever para ele o meu primeiro romance. Aceitou a idéia e ofereceu-me direitos autorais que me pareceram satisfatórios, razoáveis. Como deles tinha alguma urgência, atirei-me ao trabalho: no dia 19 de janeiro do corrente ano escrevi o primeiro capítulo; no dia 2 o segundo, no dia 5 o terceiro, no dia 6 o quarto; enfim, em dois meses, tinha escrito mais de metade do livro, apesar das muitas interrupções que outros misteres impunham. Mas o editor deu parte de fraco; pediu-me que o dispensasse do compromisso, provando-me que o não poderia cumprir. Esfriou-se-me o ardor; parei. Meses depois, tendo feito contrato com os meus editores habituais, os srs. Laemmert & C. (On revient toujours…) reatei o trabalho interrompido, dando imediatamente à composição tipográfica os capítulos escritos. Os originais não foram recopiados por mim, quer dizer, não fiz rascunho ou borrão. Escrevi sempre de uma assentada, capítulo a capítulo, e, acabado, relia-o, corrigia-o, mandava copiá-lo por um secretário, conferia a cópia e remetia-a aos tipógrafos.

Se conto estes pormenores é para explicar as muitas imperfeições de forma que sou o primeiro a reconhecer, tais como a vulgaridade de algumas frases, a fraqueza de certas expressões, o banal de vários títulos de capítulos (e dei-lhes títulos por uma conveniência pessoal; para orientar-me em cada capítulo do estado, do ponto em que ficara o enredo, a composição), um ou outro galicismo, como “golpe de vista”, e outros defeitos mais.

O capítulo que primeiro escrevi, com a intenção de fazê-lo o primeiro do livro, foi o quinto da segunda parte – um dos últimos: eu havia principiado pelo fim. A circunstância de escrever de um jato, sem o polido e o repolido que Boileau tanto aconselhava aos ferreiros da idéia, só é prejudicial às obras mal concebidas e mal nascidas, que não trazem dentro alguma coisa de humano, de luminoso; bem sei, Manon, Le Neveu, Candide, Adolphe, são obras-primas e, no entanto, foram escritas sem rasuras, lembra P. Bourget em um de seus livros. O fato, pois, da correntia espontaneidade, não retificada no cadinho apurador da revisão paciente, com que compus este romance, não é justificativa das imperfeições que o deslustram mas é um fato, e como tal, o denuncio à critica para que o registre, se lhe aprouver.

Resta-me dizer algumas palavras, e justamente as mais importantes, acerca da escola e da moralidade de Flor de Sangue. Não me preocupei com aquela nem com esta, entendida esta no sentido que se lhe dá vulgarmente. Não resolvi fazer um romance naturalista, nem de aventuras, nem de psicologia, nem simbolista, nem idealista; resolvi simplesmente fazer um romance. E ele foi-me saindo dos bicos da pena com um certo feitio, uma certa fisionomia, um certo caráter, que não tentarei definir e ainda menos explicar.

Se todavia me interpelasse alguém sobre tal ponto, diria que para o seu autor é o meu romance filiado à escola da verdade, a única, que como os Goncourt, acredito real e fecunda em arte. Todos os tipos que nele fiz mover-se, e não sei se viver, encontrei-os na vida social, não só fluminense, não só brasileira, mas de todos os países.

Não cogitei tampouco de discutir, provar e impor uma tese. Faço Paulino suicidar-se, não para pregar o suicídio como solução única e necessária em situações morais idênticas; porém pela simples razão de haver dado a Paulino um caráter reto, inteiriço, não contaminado da gangrena moral da época. Isso não importa negar ao meu livro moralidade, porque lhe reconheço pelo menos uma, e não somenos, que é a seguinte – quando um homem de caráter é dotado de um temperamento que o contradiz e estorva, pode a vitória caber ao temperamento, na colisão deste com o caráter; mas o caráter reage com igual vigor e não aceita a situação moral criada pelo resultado do combate.

O Paulino que eu esbocei no segundo capítulo e fui tracejando nos subseqüentes poderia tirar a sua amada ao marido para viver com ela, confessando a sua culpa e arrostando-lhe todas as conseqüências, com uma bela impudência, bela por valorosa, se sentisse amado, porque a felicidade é cruel e injusta na hipertrofia do seu egoísmo; mas não poderia nunca aceitar a posição aviltante de terceiro no lar do seu amigo, protetor, quase pai, partilhando-lhe da mesa às claras e da cama às escondidas. Não vendo nenhum meio de conciliar a sua honra com o seu amor e não podendo vencê-lo, alvitra por sacrificar o amor à honra e mata-se. Esta moral, toda circunstancial e relativa, bem sei, não é a moral que os mercadores dela em livros e discursos expõem ao consumo público; mas é a única que a razão admite e que a ciência explica. E cabe aqui perfeitamente repetir o que escreveu o fino psicólogo da “Fisiologia do amor moderno” no prefácio deste livro.

Diz ele:
“Ser moralista (linhas acima dissera ele que a primeira e última lei para um escritor digno de empunhar uma pena é ser um moralista), ser moralista não é pregar — o hipócrita pode fazê-lo; nem indignar-se — Molière esqueceu esse traço no seu Alceste. Em dez misantropos profissionais contam-se nove farsistas, que fazem honorabilidade da sua indignação a frio. Não é concluir – o sofista conclui. Não é evitar os termos crus e as pinturas livres – nos piores livros libertinos, os do século 18, não se encontra uma frase brutal ou pinturesca. Não é tampouco evitar as situações escabrosas — não há uma nos primeiros romances de Mme Sand, e para mim eles são entre os livros belos os que mais justamente se chamariam imorais – conquanto, neste caso, a beleza da forma seja até certo ponto uma moralidade.

Não, o moralista é o escritor que mostra a vida tal como ela é, com as lições profundas de expiação secreta que nela se encontram por toda parte impressas. Tornar visíveis, como palpáveis, as dores da falta, a infinita amargura do mal, o rancor do vicio é fazer obra de moralista, e é por isso que a melancolia das Flores do Mal e a do Adolfo, a crueza do desenlace de Liaisons e a sinistra atmosfera de Cousine Bette fazem destes livros obras de alta moralidade”.

É impossível dizer melhor.

Marcel Prévost, num artigo do Journal, intitulado Littérature et Morale, observa com grande verdade “que a literatura de uma época é sempre mais moral que seus costumes e que nenhum livro é tão libertino como as conversações correntes, na baixa como na alta sociedade”.

Sou avesso a prefácios e entendo que o livro que se não explica a si próprio e por si próprio é um livro inexplicável. Mas conheço o meio em que vivo e prefiro ir ao encontro das principais objeções que ao meu romance prevejo serão feitas, e sobretudo a relativa à moralidade. Hão de acusar-me de haver feito um livro que não pode ser lido por donzelas e meninos. Não me defendo; ao contrário, confesso que não daria este romance a ler à minha filha, como o não dou à minha irmã nem a meus filhos; mas romances sinceros e verdadeiros, isto é: honestos e morais não se escrevem para serem lidos por donzelas e donzêis. E aqui me socorro ainda do excelente prefácio de Bourget, de que acima fiz alguns extratos:

“Imaginemos para a nossa obra um leitor de 25 anos e sincero: que pensará ele do nosso livro ao terminar a leitura? Se ele, depois de lida a derradeira página, é levado a refletir nas questões da vida moral com seriedade maior, o livro é moral. Aos pais, às mães e aos maridos compete proibir a sua leitura aos rapazes e às raparigas, para quem um livro de medicina também podia ser perigoso. Tal perigo não nos respeita. Só o que nos incumbe é pensar o mais justo que pudermos e dizer o que pensamos”.

E justamente o que dizia há mais de 20 anos Guerra Junqueiro no prefácio da Morte de D. João, e num estilo mais colorido e imprevisto. Lembram-se?

“Não aconselho a ninguém que dê a ler a uma rapariga de nove anos nem a Morte de D. João, nem romances, nem dramas, nem comédias, nem o novo e, sobretudo, nem o Velho Testamento.

E linhas mais longe:
“Não se dá um poema a uma criança pelo mesmo motivo por que se lhe não dá uma garrafa de vinho ao jantar”.

Mas a razão mais poderosa para que o romancista desdenhe preocupações de moralista banal, de convenção, é a que dá Edmundo de Goncourt nas seguintes linhas:

“Hoje que o romance se alarga e cresce, que vai sendo a grande forma séria, apaixonada, viva, do estudo literário e do inquérito social, que se vai tornando, pela análise e pela pesquisa psicológica, a história moral contemporânea, hoje que o romance se impôs aos estudos e aos deveres da ciência, ele pode também reivindicar suas liberdades e privilégios”.

Estou bem apadrinhado, como vêem.

Por último, uma confissão.

Tive tanto gosto em escrever o meu primeiro romance, o gênero agradou-me tanto, deu-me tão belas horas de gozo intelectual, que o meu desejo era e é não escrever de ora avante outra coisa.

O romancista vive com as suas criaturas — ri, chora, goza, sofre com elas. É uma segunda vida, uma outra sociedade que trazemos palpitante dentro de nós — na rua, em casa, por toda parte. Como eu compreendo o velho grande Dumas dizendo ao filho, que o fora encontrar chorando e lhe perguntara qual a causa daquelas lágrimas:

“Um grande desgosto! Portos morreu! Acabo de matá-lo! E não posso deixar de chorar-lhe a morte! Pobre Portos!”

O poema e o romance são as duas formas literárias diferenciais, extremas, positivas. Tudo o mais — contos, odes, sonetos, peças teatrais são matizes, variações, gradações; motivos musicais, apenas, porque as óperas são eles. Ora, o poema não pode respirar e medrar neste nosso meio de hoje, excessivamente despoetizado pela indústria, pela ciência e pelo epicurismo. Resta o romance. O romance é o grande instrumento de reconstrução social. A princípio foi camartelo: destruiu; no século vindouro será escopro e trolha: construirá. O romance era fábula: hoje é história e critica; será filosofia amanhã.

Fonte:
MAGALHÃES, Valentim. Flor de Sangue. In Biblioteca Eletronica. In Revista do CD Rom. n.156. julho 2008. Editora Europa. (CD-ROM).
http://www.academia.org.br/ (imagem)

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Valentim Magalhâes (A Grande Estréia!)

Autor!

Ele era autor, finalmente!

Ali estava a sua obra.

– O meu livro! – dizia ele dentro em si, com o coração boiando em uma onda de júbilo.

Aí terminaram, por fim, as torturas inenarráveis do ineditismo; terminaram as lutas, os labores, as angústias inominadas de autor in partibus: o cérebro atulhado de livros imortais… e nenhum na rua!

Vencera!

Só ele, o autor, ele somente sabia o valor dessa vitória, porque mais ninguém soubera, suspeitara sequer, que soma de esforços e desesperos lhe custara.

Um ano, dois anos a incubar, a fecundar a idéia: período da gestação, íntimo e ignorado, cheio dos júbilos da concepção e dos receios, dos sobressaltos inexplicáveis ante o futuro:

– Se eu publicasse um livro?

Depois – a resolução: fase nova, em que a idéia vai-se transmudando em fato:

– Está dito: publico o livro.

É dispensável dizer de que gênero é o livro com que estréia este jovem, pois é o mesmo com que toda a gente estréia – aqui, em Portugal, em França, em toda parte do mundo.

Dizê-lo seria ocioso, tão ocioso como perguntar a qualquer homem de letras se existe no seu pretérito esse pecado universal, que se redime sempre: – versos.

Quando a um mancebo lembra a idéia de fazer um livro, o livro já está feito, e nem ele perde tempo a debater o gênero da obra.

É que a poesia é como a puberdade.

Um belo dia a criança deixa-se ficar na cama, adormecida ao lado dos tambores rotos e dos polichinelos estripados, e acorda o homem: um indivíduo novo, recém-nascido, desconhecido para todos, e ainda mais para si próprio.

Entre os muitos fenômenos novos que desse dia em diante vão nele aparecendo, espontaneamente, por vontade do velho legislador – Natureza, – há um de que também não se apercebe o jovem. Deliciosa inebriez sonambuliza-lhe os atos e o pensamento…

Mas um dia, por acaso, detém-se em caminho para dar “bom-dia” ao sol, ou a uma “doce virgem” que passa, e, volvendo o olhar atrás… – surpresa! ó encanto! – o caminho, o curto caminho andado está todo semeado, todo florido – de versos!

– Sou poeta! exclama nesse instante, como ainda há pouco exclamara:

– Sou homem!

É nesse momento único, o mais puramente feliz de toda a existência, que lhe vem a idéia da Glória, do Futuro, do livro, enfim.

Depois, o trabalho é apenas de retroceder, e, colhendo as mais belas e cheirosas flores, fazer um ramalhete.

Mas de improviso surge um óbice, uma dificuldade feia e repentina, como esses fantoches que saltam súbitos das bocetas de confeitos ao nariz das crianças:

– E a fita para enlaçar o bouquet?

Ah! o título para o livro!

Que Adamastor!

Que assunto para epopéias!

Quando terás também o teu Camões, ó monstro?

Neste ponto, o azul enubla-se, abismos abrem-se famélicos, montanhas pulam diabólicas ante os passos do poeta.

O desânimo invade-o, arrastando consigo para dentro do mísero – a dúvida, o medo, o desespero.

E o grosso caderno do manuscrito dorme poento ao fundo da gaveta, como um pobre diabo que, na gare de uma linha férrea, adormeceu à espera do sinal de partir.

O título!

Aqui, há tempos, assisti a uma luta horrível, interessantíssima, a única que possa fornecer um pálido simile da de um futuro autor com os títulos: – a luta com as gravatas.

Foi assim:

Entrou em uma loja, em que eu por acaso me achava, um elegante; e, dirigindo-se ao caixeiro, disse-lhe com voz trêmula:

– Desejo uma gravata.

– Pois não, senhor; em escancarando-lhe a vasta vitrine, acrescentou o caixeiro:

– Faça o favor de escolher.

Escolher!

Aí o busílis.

O janota ficara-se imóvel. Estava pasmo: as mãos sem gestos, os olhos deslumbrados.

Elas eram trezentas, seguramente.

Eram trezentas gravatas: – pretas, verdes, roxas, brancas, douradas, prateadas, azuis, amarelas, havanas, opalinas, granada, esmeralda, safira, cor-de-café, cor-de-rosa, cor-de-garrafa, cor-de-gema-de-ovo, cor-de-azeitona, cor-de-manteiga, cor-de-leite, cor-de-chocolate, cor-de-creme, cor-de-carne-crua, cor-de-carne-assada, cor-de-vinho — cor de tudo!

Pintadas, sarapintadas, chamalotadas, de listras, de pingos, de flores, de estrelas, de bichos!

Ah! E as formas?

Quadradas, redondas, oblongas; em laço, em pasta, em fita, em triângulo, em losango, em quadrilátero, em octágono; plastrons, mantas, lenços; de cetim, de gaze, de seda, de crepe, de linho, de chita, de lã…

Vendo-as, inúmeras, horríveis e formosas, esquisitas, de mil cores e de mil formas, a rir, a dançar, a vir sobre o janota extático, atordoado, trêmulo de gozo, de assombro e de indecisão, lembrou-me a marcha dos deuses-monstros por diante de Antônio, o santo eremita da Tebaída, caído em delíquio – no livro imortal de Flaubert.

E o caixeiro repetia:

– Faça o favor de escolher.

Depois de longa e penosa hesitação, decidiu-se o janota por uma gravata meio-plastron, estofada de veludo bleu foncé.

Pô-la ao pescoço, viu-se com ela ao espelho, e logo arrependeu-se.

Tomou então de uma outra, de seda creme, pontilhada de pequenos botões de rosa escarlates..

– Prefiro esta disse. Faça o favor de embrulhá-la.

E enquanto o empregado assim o fazia, continuou extático ante a vitrine, a ver uma, a ver outra, a desejá-las todas. De repente, estremeceu de súbita alegria e exclamou:

– Olhe, tire-me aquela acolá. Não, a outra: granada e ouro. Essa; essa mesma.

Agora sim: estava satisfeito. O caixeiro substituiu a gravata no embrulho.

O janota deu-lhe a paga, tomou do volumezinho, e foi saindo vagarosamente. Posto cá fora, na rua, deteve-se ante a larga montre, opulenta de gravatarias rutilantes, espalhafatosas, e sentiu-se logo profundamente arrependido da espiga que se havia deixado impingir.

– É tão lindo aquele laço de cetim creme! Diabo! Se eu trocasse…

E, num enleio desgostoso, esteve por pouco a entrar de novo na loja, para fazer a troca. Mas envergonhou-se a tempo, e lá se foi com a sua gravata nova, cheio de raivas biliosas contra ela – por ser tão estupidamente feia, e contra si próprio – por ter um gosto tão reles, tão desgraçado…

Assim, exatamente assim nos sucede com a escolha de título, a todos que de tão perigosa coisa carecemos.

Ao princípio fica-se perplexo: são tantos! e todos tão lindos! Qual escolher? Aquele, aquele belo título vermelho, flamante como um carbúnculo. Pois será ele. E, sem demora, ata-se o título escolhido ao pescoço da obra e mira-se o efeito. Que desilusão! A cor da gravata não diz com a roupa.

O livro é todo azul claro e brancuras de neve: toalete risonha e fresca, toalete para passeio nos jardins de Armida; e o título é de um rubro tão vivo, inopinado e gritão!

A que lhe vai a matar é esta de escomilha branca, tirando a azul nas dobras, de um tom delicioso de leite puro.

Bravos! Perfeitamente!

E o autor, satisfeitíssimo, ata a nova gravata ao seu dandy e sai com ele a passeio.

Mas as decepções não tardam. Uns amigos acham que ela devia ser cor-de-rosa, curta, sem pregas.

Aquela é trivial, inexpressiva, tão sem graça e sem expressão que, embora com a gravata ao pescoço, parece o janota tê-la esquecido em casa…

Outros amigos, porém, (ó La Fontaine!) assobiam o pobre poeta, atiram-lhe remoques como pedriscos:

– Que! Melhor fora então pôr-lhe por título: Vendavais, Cataratas ou Labaredas! Esse não presta: é por demais pantafaçudo.

E, corrido do seu mau gosto, o poeta arranca ao livro a gravata e recomeça a correria das lojas.

Tais angústias que as conte o pobre Eugênio Lopes, o “esperançoso e jovem poeta” que hoje estréia.

Foram dias, mais: – foram meses de luta e de insônia.

Dez vezes achou a gravata da sua escolha, o non plus ultra das gravatas, a bela por excelência, a deliciosa, a única.

Vinte vezes se arrepelou furioso, bezuntando-se de impropérios, e pensando sinceramente, como quem se resolve ao suicídio: – O melhor é pôr-lhe por título – Sem título! O pobre!

Safiras, Flores singelas, Borboletas, Magnólias, Harpejos, Serenatas, Suspiros d’alma, ai! tudo! tudo! – até nem mesmo faltou o venerando, o nunca assás surrado título – Peregrinas! – tudo ocorreu àquele infeliz que andou atrás de um títutlo, como Telêmaco à cata do perdido pai.

Urgia, porém, decidir.

A Glória instava.

E a continuar daquele modo perderia a Posteridade, envelhecendo à espera de um título – como de um bilhete de viagem para ir lá ter.

Decidiu-se, enfim.

Arroubos: – foi a gravata que escolheu.

Arrependeu-se mil vezes da eleição; chegou mesmo a tentar anulá-la em favor de um candidato novo; mas era tarde: – parte do livro já estava impressa, e ao alto de cada página o título dado.

Ficou triste, desanimado.

Arroubos!… Dava lugar a esta pilhéria: Roubos!

Uma pilhéria grave!

Enfim…

Agora, na tipografia – diante da longa banca da cartonagem, cercada de operários em camisa, dobrando, cortando, cosendo, colando folhas de livros – um gozo intenso, profundo, atordoador, engasga solenemente o poeta Eugênio Lopes.

O meu livro! O meu livro! – é o estribilho íntimo da muda canção de júbilo que o seu espírito canta…

Cora e sorri; e ante os seus olhos úmidos, dilatados no espasmo daquele deslumbramento, as oito letras do título – Arroubos – impressas a carmim, em elzevir, sobre a capa de papel-granito do seu livro, passam gravemente, marchando a um de fundo, para os campos da Glória. Os RR erguem as pernas à frente, em um passo de marcha larga, majestosa: as grandes pernas de fuzileiros, vestidas das rubras calças de grande gala.

E, em cima, ao alto, por sobre um filete de fantasia o nome do autor: – Eugênio Lopes!

E, imóvel, como adormecido de olhos abertos sobre o livro fechado ainda, – sem se dar conta dos risinhos irônicos que entre a fumarada dos cigarros lhe mandam os operários, – quantos planos gloriosos, quantas quimeras, quantos delírios mudos assaltam nesse momento o poeta!

Seu nome, seu pobre nome, tão singelo e humilde, o nome de filho de um modesto molhadista por atacado; seu nome desde este dia vai partir veloz sobre os quinhentos volumes da edição; vai voar nas asas palpitantes da imprensa periódica!

Vai ser conhecido, procurado, citado e recitado, querido, talvez famoso!

“Eugênio Lopes, o mimoso poeta dos Arroubos.”

Assim se previa designado em breve por toda a imprensa. Nas livrarias, entre Musset e V. Hugo, cercado pelos mais célebres poetas do mundo, está um poeta novo, chegado naquele instante das regiões do anonimato, cheirando ainda a papel molhado e a tinta de impressão.

Quem é? É ele: – Eugênio Lopes.

E, todo embebido desse luar invisível e magnetizante da cisma, com um sorriso vago a lhe pairar na boca, o poeta voltou a capa do livro, a primeira página, e ia a voltar a segunda; mas deteve-se, contemplando-a… Era a dedicatória. Dizia assim:

A …

“Anjo, valquíria, deusa, a quem a vida
E o futuro, sorrindo, dediquei,
Aceita os versos meus, mulher querida,
E nunca mais perguntes se te amei!”

Como vai ela ficar contente e cheia de orgulho!

Mas que dirão seus pais? que dirão os velhos?

A velha, santa mulher que o adora, vai certamente chorar de júbilo ao saber que seu filho – o seu Eugênio “anda nas folhas e nos livros”, todo enfeitado de adjetivos elogiosos… Quanto ao velho…

E ensombrou-se-lhe a fronte. Ah! é o destino de todos nós… pensava o poeta, enrolando um cigarro em silêncio.

Balzac, Baudelaire, Henri Conscience, Casimiro de Abreu – quantos e quantos! – encheram de mágoa e de vergonha seus velhos pais, porque se deram à glória, porque foram poetas e pensadores, em vez de agiotas e negociantes.

Paciência! Tudo sofreria resignado. Era o seu destino: havia de cumpri-lo!

Mas os críticos?… Que dirão os críticos?…

Que dirá dos Arroubos o Jornal, esse velho inimigo de sonhadores, tão severo, tão duro, tão parco de elogios? Que dirá o Jornal? Naturalmente o que sói dizer semore: – Recebemos do Sr. Fulano o seu livro de versos, intitulado Isto ou aquilo. E mais nada.

Ó sequidão antipoética!

Ah! se o Jornal dissesse ao menos: – bonitos versos, ou esperançoso, inspirado poeta… Como para o velho o Jornal é a palavra de Deus escrita na terra… do Brasil, lendo aquilo, talvez o velho embrandecesse…

E a Gazeta? que dirá a Gazeta, tão benévola para os que principiam, tão delicada na censura… mas também às vezes tão trocista?… Que dirá ela? Bem ou mal?

E, por uma súbita ligação de idéias, lembraram-lhe uns versos frouxos, outros – ásperos, que só agora reconhecia como tais…

Ah! estava perdido: – era horrível o seu livro!

Mas aquela poesia Flores mortas? Era bem feita e bonita: havia de agradar…

Logo na primeira estrofe, último verso, exatamente um dos que antes julgava melhores, encontrou formidável asneira…

Atirou o livro, empalidecendo.

No dia seguinte, muito cedo, comprou todas as folhas da manhã, – tremendo como um réu, a quem se vai ler a sua sentença – e, percorrendo-as…

– Basta, porém.

Nem mais uma palavra sobre esse poema trágico, de que havemos sido todos, mais ou menos, heróis.

Talvez que um dia o poeta dos Arroubos nos dê as suas Memórias, e então, se ele as houver escrito de todo o coração, não haverá quem se não comova e sorria, lendo esse capítulo, escrito com o próprio sangue, capítulo negro e rutilante, cheio de lágrimas e estrelado de sorrisos, que só se escreve uma vez na vida: – A grande estréia!
(Vinte contos, 1886.)

Fonte:
ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS
http://www.academia.org.br/

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Valentim Magalhães (Juramento – A Idéia Nova -Tortura)

JURAMENTO
(F. COPPÉE)

Oh! poeta, por que te deixaste encantar,
Se deviam roubar-te essa gentil criança,
E se o seu coração, cheio de confiança,
Não podia por ti viver a palpitar?
Que importa! Germinou à luz do seu olhar
Na minh’alma tristonha e que a existência cansa
O amor, que nos remoça e enche de esperança;
Por isso eu devo sempre a bendizer e amar.
Feliz ou infeliz, ser-lhe-ei fiel ainda!
Amarei minha dor, pois dela será vinda,
Dela por quem do seio os males arranquei.
Virgem, de cujo olhar cativam-me os encantos,
Se me fazes chorar, eu abençôo os prantos,
Se me deres a morte, – a morte abençoarei.
Dezembro – 1879.
(Rimário, 1900.)

A IDÉIA NOVA
A Barros Cassal.

Abisma o teu olhar no azul do firmamento;
Devassa o velho Olimpo e o velho céu cristão:
À serena altivez do seu deslumbramento
A indagadora vista elevarás em vão!

Está deserto o céu! No grande isolamento
Palpita, ensangüentado, o sol – um coração.
Mas os deuses de Homero, o Jeová sangrento,
Alá e Jesus Cristo, os deuses onde estão?

Morreram. Era tempo. Agora encara a terra:
Ressoa alegre a forja e sai da escola um hino.
O Gênio enterra o Mal em uma negra cova.

Deus habita a consciência. O coração descerra
Aos ósculos do Bem o cálix purpurino.
Vem perto a Liberdade.
É isto a Idéia Nova.
S. Paulo, abril – 1879,
(Rimário, 1900.)

TORTURA
A Adelino Fontoura.

Ante a mesquita d’áureos minaretes
Açoitam dois telingas a traidora;
As vergastas, sutis como floretes,
Sibilam sobre a carne tentadora.

À vibração das varas, estremecem
Seus níveos membros firmes, delicados,
E, nos espamos do sofrer, parecem
Das contorsões do gozo eletrizados.

Geme aos golpes, que as carnes lhe retalham,
E aberta a rósea boca, os olhos belos
Pérolas vertem, que seu peito orvalham;

Dobram-se as curvas, soltam-se os cabelos,
E do alvo colo, amargurado e exangue,
– Como esparsos rubis – goteja o sangue.
Julho – 1881.
(Rimário, 1900.)

Fonte:
ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS
http://www.academia.org.br/

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Viriato Corrêa (Cazuza)

Tese mostra como o escritor Viriato Corrêa transformou seu personagem, protagonista de livro homônimo publicado em 1938, em arquétipo do “cidadão dos novos tempos”

Um menino narra as amargas experiências escolares com um professor autoritário no minguado povoado onde nasceu, encravado no fundo do Maranhão, até os dias de colégio na capital, São Luiz. Esse o núcleo do livro Cazuza, do escritor maranhense Viriato Corrêa, objeto de dissertação de mestrado — Literatura infantil, história e educação: Um estudo da obra de Viriato Corrêa —, de Ana Elisa de Arruda Penteado, defendida na Faculdade de Educação (FE) da Unicamp.

Analisando a relação entre literatura infantil, história e educação, a pesquisadora procura resgatar das páginas de Cazuza como estavam sendo discutidas questões como pátria, trabalho e educação, temas de grande relevância na construção da ideologia do Estado Nacional, que se pretendia arquitetar no momento em que a obra foi escrita. De acordo com Ana Elisa, Viriato Corrêa certamente pretendia, ao escrever sua obra máxima, ir além de um simples romance. Podendo ser visto como um livro de formação, o escritor planejava, com Cazuza, constituir “o cidadão dos novos tempos”. Além de escrever um belo romance, desejou denunciar práticas abomináveis de disciplina nos estabelecimentos de ensino da época. Como a prática do “bolo”, castigo por meio da palmatória.

Publicado pela primeira vez em 1938, em pleno regime do Estado Novo, logo após o golpe de 37, “o livro insere-se no amplo projeto empenhado em construir o Estado Nacional e o novo cidadão que a ele convinha. Um projeto que começou a ser esboçado nos primórdios da República”, explica Ana Elisa. O país passava por um processo de modernização equipando-se para ingressar numa nova era do desenvolvimento do capitalismo e a educação era, obviamente, um eficiente instrumento de controle social e de consolidação de um regime autoritário, perpetrado por Getúlio Vargas.

Jornalista, contista, romancista, teatrólogo, dramaturgo, autor de uma série de livros infanto-juvenis, Viriato Corrêa foi ainda professor de história do teatro, de história e geografia no ensino público e membro da Academia Brasileira de Letras. A pesquisadora diz que, com Cazuza, o escritor faz uma crítica à escola do início do século, que ainda conservava o ranço do Império. Quer dizer, os alunos, em classe, apenas ouviam a voz do professor, principalmente nos estabelecimentos de vilarejos, espalhados pelas cidades do interior. “O professor constituía a única pessoa na sala com o poder absoluto da palavra. Só ele falava e as crianças apenas ouviam e copiavam as lições, no mais completo silêncio. Se porventura respondessem de forma errada, os alunos apanhavam”, revela o livro.

O cotidiano de uma sala de aula da escola de primeiras letras, no povoado, era como uma prisão: “qualquer movimento, qualquer olhar de esguelha, qualquer cochicho era motivo para que a criança fosse punida freqüentemente com castigos físicos. O vilão da história de Cazuza era o professor João Ricardo, criatura de cara amarrada, intratável e feroz”, que costumava segurar os alunos pelas orelhas e fazer vibrar a régua em suas cabeças. “O professor passeava pela sala de mãos para trás, vigiando-os através dos óculos pretos, com ar terrível de quem está com vontade de encontrar um pretexto para castigar”, conta o personagem Cazuza. As crianças ofereciam as mãos para que o professor batesse nelas com a palmatória.

Certa vez Cazuza levou tanto “bolo” do professor que suas mãos ficaram inchadas e sangrando; isso revoltou seus pais, que decidiram tirá-lo da escola do povoado. “A questão do ‘bolo’ e a precariedade da escola do povoado, assim como a hostilidade do professor, retratam um quadro negro da educação no País do final do século 19”, observa Ana Elisa. É nesse contexto político e ideológico que o livro Cazuza é elaborado. Destinada às crianças, a obra traz, num tom fortemente didático, questões que envolvem a moral, o enaltecimento de virtudes que devem a todo custo ser seguidas. “Como a tolerância, a generosidade, a obediência, o respeito e a piedade, assim como o repúdio aos vícios — a mentira, a soberba, o autoritarismo — a exaltação do amor à família, célula a ser mantida, pois é no seu seio que se inicia a formação do cidadão, posteriormente lapidado pela escola”, acredita Ana Elisa.

TRECHO

“Cada par copiava um mesmo trecho de prosa e vencia o aluno que apresentasse a letra mais bonita. O prêmio que se lhe dava era meter-lhe na mão a palmatória para que castigasse o vencido com uma dúzia de “bolos”. O professor chamou o meu nome e o nome do Doca. Aproximamo-nos da grande mesa. Eu tremia. Durante três minutos o velho examinou e comparou as duas escritas. Depois disse:
As duas letras são bem parecidas. Não se pode dizer que uma seja melhor do que a outra. Ambas são boas.
E lançou o julgamento:
“Empate”.
Respirei livremente.
O professor entregou-me a palmatória.
“Para que isso?”, perguntei.
“Para que há de ser?”, disse-me. Os dois não empataram?”. Você dá seis ‘bolos’ nele, e ele lhe dá seis ‘bolos’”.
Achei aquilo um disparate. Olhei o velho com surpresa.
“Que é que você está olhando?”, roncou ele asperamente.
A minha língua travou.
“Não posso compreender isso!, exclamei. Por que houve empate? Porque o Doca tem letra boa e eu tenho letra boa. Então quem tem letra boa apanha?”

João Ricardo ergueu-se da cadeira com um berro.
“Não quero novidades! Sempre e sempre foi assim. Atrevido! Quem é aqui o professor?
E entregou a palmatória ao Doca.

Fonte:
Cazuza ou a Cartilha das Virtudes. artigo publicado por Antonio Roberto Fava no Jornal da UNICAMP – 17 a 23 de junho 2002
http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/junho2002/unihoje_ju177pag11.html

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William Shakespeare (1564 – 1616)

William Shakespeare (Stratford-upon-Avon, 23 de Abril de 1564 — Stratford-upon-Avon, 23 de Abril de 1616)era um dramaturgo e poeta inglês, amplamente considerado como o maior dramaturgo da Língua inglesa e um dos mais influentes no mundo ocidental. Suas obras que permaneceram ao longo dos tempos consistem de 38 peças, 154 sonetos, dois poemas de narrativa longa, e várias outras poesias. Suas obras são mais atualizadas do que as de qualquer outro dramaturgo. Muitos de seus textos e temas, especialmente os do teatro, permaneceram vivos até aos nossos dias, sendo revisitados com freqüência pelo teatro, televisão, cinema e literatura. Entre suas obras é impossível não ressaltar Romeu e Julieta, que se tornou a história de amor por excelência e Hamlet, que possui uma das frases mais conhecidas da língua inglesa: To be or not to be: that’s the question (Ser ou não ser, eis a questão).

É certo que muito pouco se sabe sobre a vida de William Shakespeare. Shakespeare nasceu e foi criado em Stratford-upon-Avon. Aos 18 anos, segundo alguns estudiosos, casou-se com Anne Hathaway, que lhe concedeu três filhos: Susanna, e os gêmeros Hamnet e Judith Quiney. Entre os anos 1585 e 1592, William começou uma carreira bem-sucedida em Londres como ator, dramaturgo e proprietário da companhia de teatro Lord Chamberlain’s Men, mais tarde conhecida como King’s Men. Parece que ele reformou a Stratford em torno de 1613, morrendo três anos depois.

Há especulações sobre sua sexualidade, sobre suas convicções religiosas, e sobre a autoria de suas peças, pois há especulativas que na realidade ele pode nunca ter existido, isto é, talvez suas obras tenham sido compostas por outras pessoas. Essa última especulação é extensa e tem diversas suposições, desde a de que esses autores assinavam como William Shakespeare, escondendo sua identidade, até a de que William Shakespeare foi provavelmente um ator passando-se como o autor das obras, que na verdade eram compostas por outros dramaturgos.

Produziu suas obras mais famosas entre 1590 e 1613. Suas primeiras peças foram principalmente comédias e histórias, gêneros do qual ele refinou com sofisticação. Em seguida, escreveu principalmente tragédias até 1608, incluindo Hamlet, Rei lear e Macbeth, considerados alguns dos melhores exemplos do idioma inglês. Em sua última fase, escreveu tragicomédias e colaborou com outros dramaturgos. Shakespeare era um respeitado poeta e dramaturgo em sua época, mas sua reputação só chegou ao nível em que está hoje a partir do século 19. O Romantismo, em particular, aclamou a genialidade de Shakespeare.

A maioria das informações que se fazem acerca de William Shakespeare são meras especulações derivadas de estudos, leituras, interpretações, pontos de vistas, hipóteses, lógicas. A única coisa que se tem certeza absoluta é que as peças atribuídas a Shakespeare marcaram praticamente todos os séculos seguintes, começando pelo tempo em que viveu.

Vida

Primeiros anos

Acredita-se que William Shakespeare foi filho de John Shakespeare, um bem-sucedido luveiro e sub-prefeito de Straford (depois comerciante de lãs), vindo de Snitterfield, e Mary Arden, filha afluente de um rico proprietário de terras. Embora a sua data de nascimento seja desconhecida, admite-se a de 23 de Abril de 1564 com base no registro de seu batizado, a 26 do mesmo mês, devido ao costume, à época, de se batizarem as crianças três dias após o nascimento. Shakespeare foi o terceiro filho de uma prole de oito e o mais velho a sobreviver.

Muitos concordam que William foi educado em uma excelente grammar schools da época, um tipo de preparação para a Universidade. No entanto, Park Honan conta, em Shakespeare, uma vida que John foi obrigado a tirá-lo desta escola, quando William deveria ter quinze ou dezesseis anos (algumas fontes citam doze anos). Na década de 1570, John passou a ter um declínio econômico que o impossibilitou junto aos credores e teve um desagradável descenso da sociedade. Acredita-se que, por causa disso, logo o jovem Shakespeare possuiu uma formação colegial incompleta. Segundo certos biógrafos, Shakespeare precisou trabalhar cedo para ajudar a família, aprendendo, inclusive, a tarefa de esquartejar bois e até abater carneiros.

Em 1582, aos 18 anos de idade, casou-se com Anne Hathaway, uma mulher de 26 anos, que estava grávida. Há fontes que dizem que Shakespeare queria ter uma vida mais favorável ao lado de uma esposa rica. O casal teve uma filha, Susanna, e dois anos depois, os gêmeos Hamnet e Judith. Após o nascimento dos gêmeos, há pouquissimos vestígios históricos a respeito de Shakespeare, até que ele é mencionado como parte da cena teatral de Londres em 1592. Devido a isso, estudiosos referem-se aos anos 1585 e 1592 como os Anos perdidos de Shakespeare.

As tentativas de explicar por onde andou William Shakespeare durante esses seis anos, foi o motivo pelo qual surgiram dezenas de anedotas envolvendo o dramaturgo. Nicholagas Rowe, o primeiro biógrafo de Shakespeare, conta que ele fugiu de Stratford para Londres devido à uma acusação envolvendo o assassinato de um veado numa caça furtiva, em propriedade alheia (provavelmente de Thomas Lucy). Outra história do século 18 é a de que Shakespeare começou uma carrreira teatral com os Lord Chamberlains.

Londres e carreira teatral

Foi em Londres onde se atribui a Shakespeare seus momentos de maiores oportunidades para destaque. Não se sabe de exato quando Shakespeare começara a escrever, mas alusões contemporâneas e registros de performances mostram que várias de suas peças foram representadas em Londres em 1592. Neste período, o contexto histórico favorecia o desenvolvimento cultural e artístico, pois a Inglaterra vivia os tempos de ouro sob o reinado da rainha Elizabeth I. O teatro deste período, conhecido como teatro elisabetano, foi de grande importância e primor para os ingleses da alta sociedade. Na época, o teatro também era lido, e não apenas assistido e encenado. Havia companhias que compravam obras de autores em voga e depois passavam a vender o repertório à s tipografias. As tipografias imprimiam os textos e vendiam a um público leitor que crescia cada vez mais. Isso fazia com que as obras ficassem em domínio público.

Biógrafos sugerem que sua carreira deve ter começado a qualquer momento a partir de meados dos anos 1580. Ao lado do The Globe, haveria um matadouro, onde aprendizes do açougue deveriam trabalhar. Ao chegar em Londres, há uma tradição que diz que Shakespeare não tinha amigos, dinheiro e estava pobre, completamente arruinado. Segundo um biógrafo do século XVIII, ele foi recebido pela companhia, começando num serviço pequeno, e logo fora subindo de cargo, chegando provavelmente à carreira de ator. Há referências que apresentam Shakespeare como um cavalariço. Ele dividiria seu emprego entre tomar conta dos cavalos dos espectadores do teatro, atuar no palco e auxiliar nos bastidores. Segundo Rowe, Shakespeare entrou no teatro como ponto, encarregado de avisar os atores o momento de entrarem em cena. O então cavalariço provavelmente tinha vontade mesmo era de atuar e de escrever.

Seu talento limitante como ator teria o inspirado a conhecer como funcionava o teatro e seu poeta interior foi floreando, floreando, foi lembrando-se dos textos dos mestres dramáticos da escola, e começou a experimentar como seria escrever para teatro. Desde 1594, as peças de Shakespeare foram realizadas apenas pelo Lord Chamberlain’s Men. Com a morte de Elizabeth I, em 1603, a companhia passou a atribuir uma patente real ao novo rei, James I da Inglaterra, mudando seu nome para King’s Men (Homens do Rei).

Todas as fontes marcam o ano de 1599 como o ano da fundação oficial do Globe Theatre. Foi fundado por James Burbage e ostentava uma insígna de Hércules sustentando o globo terrestre. Registros de propriedades, compras, investimentos de Shakespeare o tornou um homem rico. William era sócio do Globe. O edifício tinha forma octogonal, com abertura no centro. Não existia cortina e, por causa disso, os personagens mortos deveriam ser retirados por soldados, como mostra-se em Hamlet. Inclusive, todos os papéis eram representados pelos homens, sendo os mais jovens os encarregados de fazerem papéis femininos. Em 1597, fontes dizem que ele comprou a segunda maior casa em Stratford, New Place. De 1601 a 1608, especula-se que ele esteve motivado para escrever Hamlet, Otelo e Macbeth. Em 1613, O Globe Theatre foi destruído pelo fogo. Alguns biógrafos dizem que foi durante a representação da peça Henry VIII. Shakespeare teria estado um tanto cansado e por esse motivo resolveu se desligar do Globe e voltar para Stratford, onde a família o esperava.

Últimos anos e morte

Após 1606-7, Shakespeare escreveu peças menores, que jamais são atribuídas como suas após 1613. Suas últimas três obras foram colaborações, talvez com John Fletcher, que sucedeu-lhe com o cargo de dramaturgo no King’s Men. Escreveu a sua última peça, A Tempestade, terminada somente em 1613.

Então, Rowe foi o primeiro biógrafo a dizer que Shakespeare teria voltado para Stratford algum tempo antes de sua morte; mas a aposentadoria de todo o trabalho era rara naquela época; e Shakespeare continuou a visitar Londres. Em 1612, foi chamado como testemunha em um processo judicial relativo ao casamento de sua filha Mary. Em março de 1613, comprou uma gatehouse no priorado de Blackfriars; a partir de novembro de 1614, ficou várias semanas em Londres ao lado de seu genro John Hall.

William Shakespeare morreu em 23 de Abril de 1616, mesmo dia de seu aniversário. Susanna havia se casado com um médico, John Hall, em 1607, e Judith tinha se casado com Thomas Quiney, um vinificador, dois meses antes da morte do pai. A morte de Shakespeare envolve mistério ainda hoje. No entanto, é óbvio que existam diversas anedotas. A que mais se propagou é a de que Shakespeare estaria com uma forte febre, causada pela embriaguez. Recebendo a visita de Ben Jonson e de Michael Drayton, Shakespeare bebeu demais e, segundo diversos biógrafos, seu estado se agravou.

Bom amigo, por Jesus, abstenha-te de profanar o corpo aqui enterrado. Bendito seja o homem que respeite estas pedras, e maldito o que remover meus ossos.
Epitáfio na tumba de Shakespeare

Admite-se que Shakespeare deixou como herança sua segunda melhor cama para a esposa. Em sua vontade, ele deixou a maior parte de sua propriedade à sua filha mais velha, Susanna. Essa herança intriga biógrafos e estudiosos porque, afinal, como Anne Hathaway aguentaria viver mais ou menos vinte anos cuidando de seus filhos, enquanto Shakespeare fazia fortuna em Londres? O escritor inglês Anthony Burgess tem uma explicação ficcional sobre esse assunto. Em Nada como o Sol, um livro de sua autoria, ele cita Shakespeare espantado em um quarto diante de seu irmão Richard e de sua esposa Anne; estavam nus e abraçados.

Os restos mortais de Shakespeare foram sepultados na igreja da Santíssima Trindade (Holy Trinity Church) em Stratford-upon-Avon. Seu túmulo mostra uma estátua vibrante, em pose de literário, mais vivo do que nunca. A cado ano, na comemoração de seu nascimento, é colocada uma nova pena de ave na mão direita de sua estátua. Acredita-se que Shakespeare temia o costume de sua época, em que provavelmente havia a necessidade de esvaziar as mais antigas sepulturas para abrir espaços à novas e, por isso, há um epitáfio na sua lápide, que anuncia a maldição de quem mover seus ossos.

Com a morte de Shakespeare, a Inglaterra passou por alguns momentos políticos e religiosos. Jaime I morreu em 27 de março de 1625, em Theobalds House, e tão logo sua morte foi anunciada, Carlos I, seu filho com Ana da Dinamarca, assumiu o reinado. É válido lembrar que, com a morte de Elizabeth I, Shakespeare e os demais dramaturgos da época não foram prejudicados. Jaime I, o sucessor da rainha, contribuiu para o florescimento artístico e cultural inglês; era um apaixonado por teatro.

Em 1649, a Câmara dos Comuns cria uma corte para o julgamento de Carlos I. Era a primeira vez que um monarca seria julgado na história da Inglaterra. No dia 29 de janeiro do mesmo ano, Carlos I foi condenado a morte por decapitação. Ele foi decapitado no dia seguinte. Foi enterrado no dia 7 de fevereiro na Capela de St.George do Castelo de Windsor em uma cerimônia privada.

Peças

Os eruditos costumam anotar quatro períodos na carreira de dramaturgia de Shakespeare. Até meados de 1590, escreveu principalmente comédias, influenciado por modelos das peças romanas e italianas. O segundo período iniciou-se aproximadamente em 1595, com a tragédia Romeu e Julieta e terminou com A Tragédia de Júlio César, em 1599. Durante esse tempo, escreveu o que são consideradas suas grandes comédias e histórias. De 1600 a 1608, o que chamam de “período sombrio”, Shakespeare escreveu suas mais prestigiadas tragédias: Hamlet, Rei lear e Macbeth. E de aproximadamente 1608 a 1613, escrevera principalmente tragicomédias e romances.

Os primeiros trabalhos gravados de Shakespeare são Ricardo III’ e as três partes de Henry V, escritas em 1590, adiantados durante uma moda para o drama histórico. É difícil datar as primeiras peças de Shakespeare, mas estudiosos de seus textos sugerem que A Megera Domada, A Comédia dos Erros e Titus Andronicus pertecem também ao seu primeiro período. Suas primeiras histórias, parecem dramatizar os resultados destrutivos e fracos ou corruptos do Estado e têm sido interpretadas como uma justificação para as origens da dinastia Tudor. Suas composições foram influenciadas por obras de outros dramaturgos isabelinos, especialmente Thomas Kyd e Christopher Marlowe, pelas tradições do teatro medieval e pelas peças de Sêneca. A Comédia dos Erros também foi baseada em modelos clássicos.

As clássicas comédias de Shakespeare, contendo plots (centro da ação, o núcleo da história) duplos e sequências cênicas de comédia, cederam, em meados de 1590, para uma atmosfera romântica em que se encontram suas maiores comédias. Sonho de uma Noite de Verão é uma mistura de romance espirituoso, fantasia, e envolve também a baixa sociedade. A sagacidade das anotações de Muito Barulho por Nada’, a excelente definição da área rural de Como Gostais, e as alegres sequências cênicas de Noite de Reis completam essa sequência de ótimas comédias. Após a peça lírica Ricardo II, escrito quase inteiramente em versículos, Shakespeare introduziu em prosa as histórias depois de 1590, incluindo Henry VI, parte I e II, e Henry V.

Seus personagens tornam-se cada vez mais complexos e alternam entre o cômico e o dramático ou o grave, ou o trágico, expandindo, dessa forma, suas próprias identidades. Esse período entre essas tais alternações começa e termina com duas tragédias: Romeu e Julieta, sem dúvida alguma sua peça mais famosa e a história sobre a adolescência, o amor e a morte; e Júlio César. O período chamado “período trágico” durou de 1600 a 1608, embora durante esse período ele tenha escrito também a “peça cômica” Medida por medida. Muitos críticos acreditam que as maiores tragédias de Shakespeare representam o pico de sua arte. Seu primeiro herói, Hamlet, provavelmente é o personagens shakesperiano mais discutido do que qualqueis outros, em especial pela sua frase “Ser ou não ser, eis a questão”. Ao contrário do reflexivo e pensativo Hamlet, os heróis das tragédias que se seguiram, em especial Otelo e Rei Lear, são precipitados demais e mais agem do que pensam. Essas precipitações sempre acabam por destruir o herói e frequentemente aqueles que ele ama. Em Otelo, o vilão Iago acaba assassinando sua mulher inocente, por quem era apaixonado. Em Rei Lear, o velho rei comete o erro de abdicar de seus poderes, provocando cenas que levam ao assassinato de sua filha e à tortura e a cegueira do Conde de Glócester. Segundo o crítico Frank Kermode, “a peça não oferece nenhum personagem divino ou bom, e não supre da audiência qualquer tipo de alívio de sua crueldade”. Em Macbeth, a mais curta e compactada tragédia shakesperiana, a incontrolável ambição de Macbeth e sua esposa, Lady Macbeth, de assassinar o rei legítimo e usurpar seu trono, até à própria culpa de ambos diante deste ato, faz com que os dois se destruam. Portanto, Hamlet seria seu personagem talvez mais admirado. Hamlet reflete antes da ação em si, é inteligente, perceptivo, observador, profundamente proprietário de uma grande sabedoria diante dos fatos. Suas últimas e grandes tragédias, Antônio e Cleópatra e Coriolano contêm algumas das melhores poesias de Shakespeare e foram consideradas as tragédias de maior êxito pelo poeta e crítico Ts Eliot.

No seu último período, Shakespeare centrou-se na tragicomédia e no romance, completando suas três mais importantes peças dessa fase: Cimberlino, Conto de Inverno e A Tempestade, e também Péricles, príncipe de Tiro. Menos sombrias do que as tragédias, essas quatro peças revelam um tom mais grave da comédia que costumavam produzir na década de 1590, mas suas personagens terminavam com reconciliação e o perdão de seus erros. Certos comentadores vêem essa mudança de estilo como uma forma de visão da vida mais serena por parte de Shakespeare. Shakespeare colaborou com mais dois trabalhos, Henry VIII e Dois parentes nobres, provavelmente com John Fletcher.

Performances

Ainda não está claro para as companhias as datas exatas de quando Shakespeare escreveu suas primeiras peças. O título da página da edição de 1594 de Titus Andronicus revela que a peça havia sido encenada por três diferentes companhias. Após a Peste negra de 1592-3, as peças shakesperianas foram realizadas por sua própria empresa no The Theatre e no The Curtain, em Shoreditch. As multidões londrinas foram ver a primeira parte de Henrique IV. Depois de uma disputa com o caseiro, o teatro foi desmantelado e a madeira usada para a construção do Globe Theatre, a primeira casa de teatro construída por atores para atores. A maioria das peças shakesperianas pós-1599 foram escritas para o Globe, incluindo Hamlet, Otelo e Rei Lear.

Quando a Lord Chamberlain’s Men mudou seu nome para King’s Men, em 1603, eles entraram com uma relação especial com o novo rei, James I. Embora as performances realizadas são díspares, o King’s Men realizou sete peças shakesperianas perante à corte, entre 1 de Novembro de 1604 e 31 de Outubro de 1605, incluindo duas performances de O mercador de Veneza. Depois de 1608, eles a realizaram no teatro Blackfriars Theatre. A mudança interior, combinada com a moda jacobina de aprimorar a montagem dos palcos e cenários, permitiu com que Shakespeare pudesse introduzir uma fase com dispositivos e recursos mais elaborados. Em Cibelino, por exemplo, “Júpiter desce em trovão e relâmpagos, sentado em uma águia e lança um raio”.

Os atores da empresa de Shakespeare incluem o famoso Richard Burbage, William Kempe, Henry Condell e John Heminges. Burbage desempenhou um papel de liderança em muitas performances das peças de Shakespeare, incluindo Richard III, Hamlet, Otelo e Rei Lear. O popular ator cômico Will Kempe encenou o agente Peter em Romeu e Julieta e também encenou em Muito barulho por nada. Kempe fora substituído na virada do século XVI por Robert Armin, que desempenhou papéis como a de Touchstone em Como Gostais e os palhaços no Rei Lear. Sabe-se que em 1613, Sir Henry Wotton encenou Henry VIII e foi nessa encenação que o Globe foi devorado por um incêndio causado por um canhão. Imagina-se que Shakespeare, já retirado em Stratford-on-Avon, retornou para auxiliar na recuperação do prédio.

Imortalidade

Em 1623, John Heminges e Henry Condell, dois amigos de Shakespeare no King’s Men, publicaram uma compilação póstuma das obras teatrais de Shakespeare, conhecida como First Folio. Contém 36 textos, sendo que 18 impressos pela primeira vez. Não há evidências de que Shakespeare tenha aprovado essa edição, que o First Folio define como “stol’n and surreptitious copies”. No entanto, é nele em que se encontram um material extenso e rico do trabalho de Shakespeare.

As peças shakesperianas são peculiares, complexas, misteriosas e com um fundo psicológico espantoso. Uma das qualidades do trabalho de Shakespeare foi justamente sua capacidade de individualizar todos seus personagens, fazendo com que cada um se tornasse facilmente identificado. Shakespeare também era excêntrico e se adaptava a gêneros diferentes. Trabalhando com o sombrio e com o divertido ou cômico, Shakespeare conseguiu chegar perto da unanimidade.

Diversos filósofos e psicanalistas estudaram as obras de Shakespeare e a maioria encontrou uma riqueza psicológica e existencial. Entre eles, Arthur Schopenhauer, Freud e Goethe são os que mais se destacam. No Brasil, Machado Assis foi muito influenciado pelo dramaturgo. Diversas fontes alegam que Bentinho, de Dom Casmurro, seja a versão tropical de Otelo. A revolta dos canjicas, em O Alienista, é provavelmente uma outra versão da revolta fracassada do Jack Cage, descrita em Henrique IV. Na introdução de A Cartomante, Assis utiliza a frase “há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe vossa vã filosofia”, frase que pode ser encontrada em Hamlet.

Poemas

Em 1593 e 1594, quando os teatros foram fechados por causa da peste, William publicou dois poemas eróticos, hoje conhecidos como Vênus e Adônis e O Estupro de Lucrécia. Ele os dedica a Henry Wriothesley, o que fez com que houvesse várias especulações a respeito dessa dedicatória, fato esse que veremos mais tarde. Em Vênus e Adônis, um inocente Adônis rejeita os avanços sexuais de Vênus (mitologia); enquanto que o segundo poema descreve a virtuosa esposa Lucrécia que é violada sexualmente. Ambos os poemas, influenciados pela obra Metamorfoses, do poeta latino Ovídio, demonstram a culpa e a confusão moral que resultam numa determinada volúpia descontrolada. Ambos tornaram-se populares e foram diversas vezes republicados durante a vida de Shakespeare. Uma terceira narrativa poética, A Lover’s Complaint, em que uma jovem lamenta sua sedução por um persuasivo homem que a cortejou, fora impresso na primeira edição do Sonetos em 1609. A maioria dos estudiosos hoje em dia aceitam que fora Shakespeare quem realmente escreveu o soneto A Lover’s Complaint. Os críticos consideram que suas qualidades são finas e dirigidas por efeitos.

Sonetos

Publicado em 1609, a obra Sonetos foi o último trabalho publicado de Shakespeare sem fins dramáticos. Os estudiosos não estão certos de quando cada um dos 154 sonetos da obra foram compostos, mas evidências sugerem que Shakespeare as escreveu durante toda sua carreira para leitores particulares.

Ainda fica incerto se estes números todos representam pessoas reais, ou se abordam a vida particular de Shakespeare, embora Wordsworth acredite que os sonetos abriram suas emoções. A edição de 1609 foi dedicada a “Mr. WH”, creditado como o único procriados dos poemas. Não se sabe se isso foi escrito por Shakespeare ou pelo seu editor Thomas Thorpe, cuja sigla aparece no pé da página da dedicação; nem se sabe quem foi Mr. WH, apesar de inúmeras teorias terem surgido a respeito. Os críticos elogiam os sonetos e comentam que são uma profunda meditação sobre a natureza do amor, a paixão sexual, a procriação, a morte e o tempo.

Principais obras

Comédias
Sonho de uma Noite de Verão
O Mercador de Veneza
A Comédia dos Erros
Os Dois Cavalheiros de Verona
Muito Barulho por Nada
Noite de Reis
Medida por Medida
Conto do Inverno
Cimbelino
A Megera Domada
A Tempestade
Como Quiseres
Tudo está bem quando termina bem
As Alegres Comadres de Windsor
Trabalhos de Amor Perdidos
Péricles

Tragédias
Tito Andrônico
Romeu e Julieta
Júlio César
Macbeth
Antônio e Cleópatra
Coriolano
Timão de Atenas
Rei Lear
Otelo, o Mouro de Veneza
Hamlet
Tróilo e Créssida
A Tempestade

Dramas Históricos
Rei João
Ricardo II
Ricardo III
Henrique IV, Parte 1
Henrique IV, Parte 2
Henrique V
Henrique VI, Parte 1
Henrique VI, Parte 2
Henrique VI, Parte 3
Henrique VIII
Eduardo III

Fontes:
Biblioteca Eletronica. In Revista do CD Roim. n.156. julho 2008. Editora Europa. (CD-ROM).
http://pt.wikipedia.org

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William Shakespeare (Hamlet)

A Tragédia de Hamlet, príncipe da Dinamarca é uma tragédia escrita por William Shakespeare numa data não confirmada entre 1600 e 1602. Uma primeira versão da história teria sido escrita entre 1587 e 1589[1], mas o registro desse texto se perdeu. A versão da tragédia que conhecemos foi terminada entre 1600 e 1602 e publicada pela primeira vez em 1603. Hamlet é a peça mais longa de Shakespeare.

A peça conta o sofrimento de Hamlet ao descobrir que o tio matou seu pai e casou-se com a mãe para obter o trono da Dinamarca, ameaçado pelo reino da Noruega. Nela estão alguns dos diálogos e frases mais célebres de Shakespeare como: “Ser ou não ser, eis a questão”, “Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que sonha a sua filosofia” e “O resto é silêncio”.

Descrição dos personagens principais

Principe Hamlet, o personagem título, é filho do rei da Dinamarca, que também se chama Hamlet. Ele é um estudante na escola de Wittenberg. Ele é encarregado pelo fantasma de seu pai para vingar seu assassinato. Hamlet finalmente o faz, mas somente após o resto da família real ter sido liquidada e ele mesmo ter sido mortalmente ferido com um florete envenenado por Laertes no fim da peça.

Cláudio é o rei reinante da Dinamarca, tio de Hamlet, que sucede para o trono após a morte de seu irmão. O fantasma do Rei Hamlet conta ao Príncipe Hamlet que ele foi assassinado por seu irmão Cláudio, que derramou veneno em seu ouvido enquanto dormia. Cláudio é morto com um florete envenenado por Hamlet. Cláudio acidentalmente mata Gertrudes, sua esposa e mãe de Hamlet, com um drinque envenenado que ele na verdade tinha planejado para Hamlet no final da peça.

Rei Hamlet (referente às ações do Fantasma) é o pai de Hamlet. Do começo da peça, não faz muito tempo sua morte. Ele aparece para Hamlet como um fantasma procurando vingança por seu assassinato por envenenamento pelas mãos de seu irmão, Cláudio. Hamlet questiona a controvérsia que o espírito seja realmente o fantasma do Rei Hamlet ou, na verdade, um malicioso demônio disfarçado. Ele não consegue achar uma resposta definitiva até “O Assassinato de Gonzago” ser interpretado por atores.

Gertrudes é a mãe de Hamlet. Após a morte do Rei Hamlet, viúva, ela rapidamente se casa com Cláudio, irmão do falecido rei, um relacionamento considerado incestuoso por Hamlet e pela época de Shakespeare (embora autoridades religiosas podiam considerar e consideravam que tais casamentos eram contra a vontade de Deus). Ela morre por beber vinho envenenado que estava planejado para Hamlet no final da peça.

Polônio é o conselheiro principal de Cláudio, que suspeita da relação de Hamlet com Ofélia, sua própria filha, porque ela é socialmente inferior a ele. Ele teme que Hamlet apenas tire sua virgindade e não se case com ela, então ele proibe Ofélia de manter o relacionamento com Hamlet. Polônio é as vezes retratado como um tolo entediante e Hamlet freqüentemente o importuna enquanto finge estar louco. Ele é morto pela espada de Hamlet, que o confunde com Cláudio, quando ele se esconde atrás de uma tapeçaria enquanto tenta escutar uma conversa entre Hamlet e sua mãe.

Laertes é o filho de Polônio, que quer muito o bem de Ofélia, sua irmã, e fica boa parte da peça na França. No final, assustado com o papel de Hamlet na morte de sua irmã, ele trabalha com Cláudio para manipular uma peleja. Nessa peleja, ele mata Hamlet com um florete envenenado para vingar a morte de Polônio e Ofélia. Hamlet o mata com o mesmo florete sem saber que o mesmo estava envenenado.

Ofélia é a filha de Polônio. Ela e Hamlet tiveram sentimentos românticos um pelo outro, embora eles (pelo menos implicitamente) tenham sido advertidos que seria politicamente inadequado para eles se casarem. Atormentada por Hamlet como parte de sua “loucura”, a morte de seu pai é a causa da perda de sua sanidade. Ela cai em um riacho e se afoga (de propósito ou acidentalmente, dependendo da interpretação).

Horácio é um amigo de Hamlet da universidade. Ele é aparentemente um homem do povo. Em qualquer caso, não é um parente próximo da familia real. Ele não está diretamente envolvido na intriga da corte dinamarquesa, o que dá a possibilidade ao autor de usá-lo como tábua de sondagem para Hamlet. Hamlet autoriza-o para nomear Fortimbrás Rei da Dinamarca após as mortes da família real.

Rosencrantz e Guildenstern são velhos colegas de escola de Hamlet, convocados ao castelo por Cláudio para vigiar Hamlet. Hamlet logo suspeita que eles são espiões. Eles morrem, fora do palco, na Inglaterra, executados por ordem do rei para matar Hamlet, execução alterada pelo próprio Hamlet que subtrai o seu nome e o substitui na ordem real para os deles.

Fortimbrás – príncipe da coroa norueguesa, é filho do Rei Fortimbrás, morto em batalha pelo pai de Hamlet, e tem o desejo de vingança em sua mente. Sua conduta firme e decisiva contrasta com a protelação de Hamlet.

Osric é um cortesão que arbitra a luta de espadas entre Hamlet e Laertes, na qual ambos são fatalmente feridos por um florete envenenado.

Trama

A peça se dá em função da vingança do Príncipe Hamlet, cujo pai, o finado Rei Hamlet morre de repente, enquanto o Príncipe estava longe de casa. Hamlet estava em Wittenberg, fora da Dinamarca, enquanto o pai fora supostamente picado por uma cobra peçonhenta. O Rei Hamlet, um vencedor sobre os exercitos poloneses, é sucedido no trono por seu irmão Cláudio, pois este casa-se com Gertrudes, a viúva mãe de Hamlet.

A peça abre na muralha do castelo de Elsinore, sede da monarquia Dinamarquesa, onde um grupo de sentinelas são visitados pelo fantasma do recentemente falecido Rei Hamlet. O amigo de Hamlet, Horácio, se une aos soldados em sua guarda e quando o fantasma aparece, ordena-o que fale. Eles suspeitam que o fantasma tenha alguma mensagem para passar, mas ele some sem nada dizer.

No dia seguinte, a corte Dinamarquesa se reúne para celebrar o casamento de Cláudio e Gertrudes. O novo Rei tenta persuadir Hamlet a não persistir em sua tristeza. Quando Hamlet fica sozinho, ele expressa sua raiva pela ascensão de seu tio Cláudio para o trono e o casamento apressado de sua mãe. Horácio e os guardas então entram em cena e contam a ele sobre a aparição do fantasma de seu pai. Hamlet fica determinado a investigar o caso. Hamlet se une a Horácio na guarda sobre a muralha naquela noite. O fantasma aparece de novo e o acena pedindo para que fosse para longe dos outros com ele e então revela um terrível segredo: que ele teria sido assassinado. Cláudio derramara veneno em seu ouvido. O fantasma reclama a Hamlet por vingança. Chocado pela descoberta, Hamlet volta para Horácio e os sentinelas, fazendo-os aceitar o juramento de não revelar os detalhes dos eventos daquela noite para ninguém.

Hamlet não está certo se o fantasma é mesmo seu pai e suspeita que ele possa ser um demônio na aparência de seu pai querendo levar sua alma para o inferno. Ele prepara um teste para a conciência do rei, fingindo-se de louco, na esperança de que seus atos pudessem revelar a verdade ou por outro lado providenciar a oportunidade de matar Cláudio.

Hamlet finge insanidade para senteciar Cláudio de assassinato e traição, adquirindo um particular prazer em fazer o conselheiro do rei, Polônio, de bobo. Polônio, convencido da loucura de Hamlet, está certo de que isso provém de um amor não correspondido por Ofélia, sua filha. Ofélia fôra proibida por Polônio e Laertes, seu irmão, de manter um relacionamento com Hamlet. Polônio sugere que se prepare um encontro entre Hamlet e Ofélia em que ele e Cláudio os estarão espiando. Cláudio, talvez suspeitando da astúcia de Hamlet, convoca os amigos de escola de Hamlet, Rosencrants e Guildenstern para monitorá-lo, mas ele não se deixa enganar e vê a intenção por traz da visita repentina dos colegas. Ele recruta uma companhia de atores peregrinos para encenar a peça “A Morte de Gonzago”, com algumas modificações por ele feitas para redesenhar as circunstâncias da morte de seu pai.

Pouco tempo depois da peça ter começado, Cláudio, que não aguenta mais assistir, se levanta pedindo por luzes. A reação de angústia do rei para com o espetáculo (na qual Horácio também repara) convence Hamlet de sua culpa. Pouco tempo depois, Cláudio providencia que Rosencrantz e Guildenstern o levem para a Inglaterra, onde seria morto logo na chegada por ordem de uma carta. Cláudio, secretamente fala consigo mesmo sobre seu desgosto pelo que ele fez ao Rei Hamlet e faz uma oração de arrependimento. Hamlet o vê rezando e se prepara para matá-lo, mas então pára, quando passa pela sua cabeça que ele não quer uma vingança que tenha como resultado o envio do arrependido Cláudio para o céu. Ironicamente, após Hamlet sair desapercebidamente de perto, Cláudio conclui que não é capaz de se arrepender em seu estado de espírito. Assim, se Hamlet não quisesse atribuir a si mesmo a decisão do destino da alma de Cláudio, em vez de apenas sua vida, ele teria conseguido o resultado perfeito que queria. Tentando ir além do pedido do fantasma, ele condenou seus esforços à ruína.

Hamlet confronta sua mãe sobre o assassinato de seu pai e suas relações sexuais com seu novo marido. Durante a conversa, ele apunhala Polônio, que estava escondido atrás da tapeçaria escutando tudo. Inicialmente achando que sua vítima era Cláudio, ele parece não estar arrependido e despreocupado. Quando aparece o corpo de Polônio, ele simplesmente continua a repreender sua mãe. O fantasma do Rei Hamlet faz uma reaparição para falar a Hamlet. A mãe de Hamlet vê o filho conversando com o suposto fantasma, que ela mesma não enxerga, convencendo-se de que ele está realmente louco.

Mãe de Hamlet entra na frente do filho e diz que ele está louco, e que Hamlet deve ir a uma clínica onde ele ficaria melhor e pararia a ver o fantasma de seu pai.

Cláudio entende finalmente a real intenção de Hamlet e o manda para a Inglaterra, supostamente para a sua própria segurança, mas acompanhado de uma carta para a Inglaterra ordenando a sua morte. Rosencrantz e Guildenstern são enviados para acompanhá-lo e garantir o cumprimento das ordens de levá-lo para fora do país. No barco, Hamlet descobre a carta e a falsifica dando ordens para que Rosencrantz e Guildenstern sejam mortos. Hamlet escapa como prisioneiro em um barco pirata.

Durante a ausência de Hamlet, Ofélia, gravemente perturbada, fica louca, provavelmente pela rejeição de Hamlet e a morte de Polônio. Ela canta algumas músicas que Shakespeare pode ter tomado emprestado da tradição folclórica da Inglaterra. Enquanto isso, Laertes, irmão de Ofélia, mobiliza uma multidão rumo a Elsinore quando ouve sobre a morte de seu pai. Ele fica sabendo da insanidade de sua preciosa irmã, o que só alimenta sua sede por vingança. Cláudio canaliza a fúria de Laertes para Hamlet. Cláudio e Laertes planejam juntos uma briga com espadas contra Hamlet. Laertes vai estar usando um florete envenenado. Cláudio também prepara uma taça de vinho envenenado para o caso de Laertes não seja capaz de derrotá-lo. Mas enquanto eles estão conspirando, a Rainha Gertrudes entra para informar a Laertes que sua irmã se afogou e que suspeitam de suicídio. Laertes deixa a sala muito aflíto.

Retornando de sua viagem, Hamlet encontra Horácio no cemitério no lado de fora do castelo de Elsinore justamente quando o cortejo do funeral de Ofélia está para chegar, onde um coveiro está cavando. Hamlet encontra a caveira de Yorick, um velho bobo da corte que o carregava nas costas em sua infância. Hamlet medita sobre mortalidade. O cortejo chega com o Rei, a Rainha e Laertes. Hamlet fica tão perturbado por saber sobre a morte de Ofélia que pula dentro da sepultura ainda aberta e se atraca com Laertes. Os dois são separados para que se encontrem no jogo de espadas mais tarde.

Quando a luta começa, Hamlet vence os dois primeiros assaltos e Gertrudes bebe do vinho para brindá-lo, sem saber que ele estava envenenado (alguns críticos dizem que foi suicídio). Hamlet é fatalmente ferido com a espada envenenada, mas no calor da briga eles trocam suas armas entre si e Hamlet atinge profundamente Laertes com a mesma espada. A Rainha, ao sentir que o vinho que bebera estava envenenado, avisa Hamlet do perigo e morre. Já com a respiração ofegante e perto da morte, Laertes confessa a Hamlet sobre a conspiração junto a Cláudio. Enfurecido, Hamlet mata Cláudio com a espada envenenada, forçando-o também a beber do vinho envenenado. Finalmente a morte do Rei Hamlet foi vingada.

Horácio, horrorizado com o curso dos acontecimentos, pega o vinho envenenado e propõe a seu amigo unir-se a ele na morte, mas Hamlet arranca o vinho de suas mãos. Ele dá ordens a Horácio para que conte sua história ao mundo para restaurar seu bom nome. Hamlet também recomenda que o principe norueguês, Fortimbrás, seja escolhido como sucessor ao trono Dinamarquês. Hamlet morre e Horácio lamenta.

Fortimbrás entra com os embaixadores ingleses. Chocado com a carnificina, ele ordena um funeral militar para Hamlet, enquanto Horácio se oferece para relatar a história toda.

Trecho da Obra:
Ato III – Cena I

HAMLET: Ser ou não ser… Eis a questão. Que é mais nobre para a alma: suportar os dardos e arremessos do fado sempre adverso, ou armar-se contra um mar de desventuras e dar-lhes fim tentando resistir-lhes? Morrer… dormir… mais nada… Imaginar que um sono põe remate aos sofrimentos do coração e aos golpes infinitos que constituem a natural herança da carne, é solução para almejar-se. Morrer.., dormir… dormir… Talvez sonhar… É aí que bate o ponto. O não sabermos que sonhos poderá trazer o sono da morte, quando alfim desenrolarmos toda a meada mortal, nos põe suspensos. É essa idéia que torna verdadeira calamidade a vida assim tão longa! Pois quem suportaria o escárnio e os golpes do mundo, as injustiças dos mais fortes, os maus-tratos dos tolos, a agonia do amor não retribuído, as leis amorosas, a implicância dos chefes e o desprezo da inépcia contra o mérito paciente, se estivesse em suas mãos obter sossego com um punhal? Que fardos levaria nesta vida cansada, a suar, gemendo, se não por temer algo após a morte – terra desconhecida de cujo âmbito jamais ninguém voltou – que nos inibe a vontade, fazendo que aceitemos os males conhecidos, sem buscarmos refúgio noutros males ignorados? De todos faz covardes a consciência. Desta arte o natural frescor de nossa resolução definha sob a máscara do pensamento, e empresas momentosas se desviam da meta diante dessas reflexões, e até o nome de ação perdem. Mas, silêncio! Aí vem vindo a bela Ofélia. Em tuas orações, ninfa, recorda-te de meus pecados.

Fontes:
Revista Entre Livros, nº 2, página 38
Biblioteca Eletronica. In Revista do CD Roim. n.156. julho 2008. Editora Europa. (CD-ROM).
http://pt.wikipedia.org/

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William Shakespeare (A Megera Domada)

A Megera Domada (no original, The Taming of the Shrew) é uma das primeiras comédias escritas por William Shakespeare. Tem como tema central – que compartilha com outras comédias do autor, como Much Ado About Nothing (“Muito Barulho por Nada”) e A Midsummer Night’s Dream (“Sonho de uma Noite de Verão”) – o casamento, a guerra dos sexos e as conquistas amorosas. Contudo, “A Megera Domada” diferencia-se ao dedicar boa parte da ação à vida matrimonial, ou seja, aos acontecimentos que se sucedem à cerimônia nupcial em si, já que não raro as comédias shakespeareanas tem o casamento como final da ação, a exemplo de Much Ado About Nothing. Os principais personagens são Lucêncio, o filho de um rico mercador, e seu empregado Trânio; Petruchio, um rico viajante; Catarina, uma megera; e a doce e meiga Bianca.

Enredo

A trama, relativamente simples, teria sido coletada por Shakespeare de antigos contos da tradição oral e diz respeito a um pai, Batista, que estabelece como condição para ceder a mão de sua filha mais jovem, a bela e doce Bianca, aos possíveis pretendentes, que sua filha mais velha, a megera Catarina, consiga antes um esposo. Bianca tem não menos que três pretendentes – Gremio, Hortencio e Lutencio, este último um jovem forasteiro que chega à cidade de Pádua e enamora-se de imediato por Bianca. Os dois primeiros, rivais nas pretensões de casar-se com Bianca, fazem um acordo para conseguir um marido para Catarina e, assim, deixar livre o caminho para seguirem em sua disputa amorosa. Petrúquio, um nobre falido de Verona, chega à cidade em busca de um bom casamento e apaixona-se pela idéia de se casar com Catarina, proposta feita a ele por seu amigo Hortensio. Aparentemente contra a vontade da moça, o casamento de Catarina e Petrúquio é realizado e ambos voltam para Verona, onde o esposo, impondo algumas privações e um tanto de mau humor à nova esposa, termina por amansá-la. Após diversas peripécias, dentre as quais o disfarce dos rivais em professores de música e retórica para que pudessem fazer a corte à jovem Bianca, Lucencio e Bianca casam-se, em segredo; Batista e Vicencio, pai de Lucencio, terminam por aceitar o casamento dos jovens e, ao final, Petrúquio prova a todos que Catarina tornou-se uma esposa mais obediente que a doce Bianca.

Técnicas dramatúrgicas

Para obter o efeito desejado em “A Megera Domada”, o riso, Shakespeare usa diversos elementos anteriormente citados. A trama central, por exemplo, parte justamente de uma quebra de expectativa – a forma de agir de Catarina, a de uma mulher insubmissa, e a maneira pela qual ela é conquistada pelo futuro esposo, Petruqúio –, a qual é reforçada pelo uso exacerbado do engano e das inversões retratadas nos disfarces usados pelos pretendentes para obter o acesso à jovem Bianca com o intuito de cortejá-la. Além disso, há a forma grosseira com que Petrúquio trata os demais, em contraste com todo o ambiente de cavalheirismo e cortesias extremadas dos que disputam o amor da irmã de sua noiva Catarina – um contraste que é refletido até mesmo na forma de vestir e no desrespeito às regras de etiqueta na cena do casamento.

O engano e a assimilação para melhor, bem como a quebra de hierarquia, estão presentes, aliás, já no prólogo da peça, no qual Shakespeare cria uma situação cômica na qual um lorde resolve brincar com um bêbado miserável que encontra em uma taverna, Sly, vestindo-o de roupas nobres e cercando-o de cuidados e serviçais, para que ele pensasse ser um nobre que acordava de um pesadelo no qual vivia na pobreza absoluta. Curiosamente, tal prólogo, que serviria de moldura à trama central de The Taming of the Shrew, já que esta seria uma “peça dentro da peça”, encenada para o nobre/miserável Sly por um grupo de atores, não é retomado ao final do texto de Shakespeare, provavelmente por uma extração feita da peça original no decorrer dos tempos. Há registros de versões anteriores na qual a trama do prólogo é retomada ao final da peça, como o despertar de Sly novamente como um reles bêbado na taverna de onde o lorde o havia recolhido para seu jogo cômico, dizendo que “havia tido o mais incrível dos sonhos” e que agora ele, Sly, “sabia como devia tratar a mulher em casa”.

Há ainda, em “A Megera Domada”, um interessante paralelismo entre as tramas de Lucentio/Bianca e Petrucchio/Katherine. Em verdade, a primeira parece assumir um caráter de protagonista em boa parte da peça, servindo a relação conflituosa de Petrucchio e Katherine como um contraponto burlesco ao amor proibido e sublimado de Lucentio e Bianca. Além disso, o relacionamento de Katherine e Petrucchio oferece a Shakespeare a possibilidade de composição de um humor popular que atingiria boa parte do público de seu teatro, em oposição ao humor que a relação de Lucentio e Bianca podem oferecer, algo mais sofisticada.

Intertextualidade

A emissora Globo apresentou a novela O cravo e a rosa, baseada nessa peça. O texto também foi adaptado para os palcos da Broadway, no musical Kiss me, Kate. No cinema, foi adaptada por Franco Zefirelli, com Elisabeth Taylor e Richard Burton nos papéis principais.

Trecho da Obra:

INTRODUÇÃO
Cena I
(Num prado. Defronte de una cervejaria. Entram a Estalajadeira e Sly)
SLY – Hei de vos dar uma tunda, palavra de honra.
ESTALAJADEIRA – Um par de algemas, velhaco!
SLY – Marafona! Os Slys não são velhacos. Lede as crônicas. Chegamos aqui com Ricardo, o conquistador. Por isso, pauca palabris. Deixai o mundo rodar. Cessa!
ESTALAJADEIRA – Não quereis pagar os copos que quebrastes?
SLY – Não, nem um real. Vai, por São Jerônimo! Vai te aquecer em tua cama fria.
ESTALAJADEIRA – Já sei o que tenho a fazer; vou chamar o inspetor do quarteirão.
(Sai.)
SLY – Quarteirão ou quinteirão, pouco me importa. Hei de responder-lhe de acordo com a lei. Não cederei uma polegada, rapaz. E ele que venha com jeito.
(Deita-se no chão e dorme. Toque de trompa. Entra um nobre que volta da caçada, com caçadores e criados.)
NOBRE – Caçador, recomendo-te cuidado com meus cachorros. A cadela Merriman de cansada até espuma. Atrela Clowder com a de latido forte. Não notaste, rapaz, como o Prateado fez bonito lá na dobra da sebe, quando o rasto já fora interrompido? Não quisera perdê-lo agora nem por vinte libras.
PRIMEIRO CAÇADOR – Bellman vale, senhor, tanto quanto ele; não deixou de latir, e por duas vezes voltou a achar a pista, embora o rasto se achasse quase extinto. Acreditai-me: esse é o melhor de todos os cachorros.
NOBRE – És um bobo; se fosse Eco mais ágil, valeria por doze iguais a Bellman. Mas alimenta-os bem e não descures de nenhum, que amanhã teremos caça.
PRIMEIRO CAÇADOR – Pois não, milorde.
NOBRE (enxergando Sly) – Que é isso? Morto ou bêbedo? Respira?
SEGUNDO CAÇADOR – Respira, sim, milorde. Se a cerveja não o aquecesse, o leito em que se encontra por demais frio fora para o sono.
NOBRE – Óh animal monstruoso! Está deitado como um porco. Medonha morte, como tua pintura é feia e repulsiva! Vamos fazer uma experiência, amigos, com este bêbedo. Que tal a idéia de o pormos numa cama e de o cobrirmos com lençóis bem macios, colocarmos-lhe anéis nos dedos, um banquete opíparo junto ao leito lhe pormos e solícitos serventes ao redor, quando ele a ponto estiver de acordar? Não esquecera sua própria condição este mendigo?
PRIMEIRO CAÇADOR – Não teria outra escolha, podeis crer-me.
SEGUNDO CAÇADOR – Ao despertar, perplexo ficaria.
NOBRE – Como de um sonho adulador, ou mesmo de inócua fantasia. Carregai-o, portanto, e preparai a brincadeira. Ponde-o com jeito em meu mais belo quarto, que adornareis com quadros mui lascivos; água cheirosa e quente na vazia cabeça lhe passai, e no aposento queimai lenha aromática, deixando cheiroso todo o ambiente. Arranjai música logo que ele acordar, para que toadas possa ouvir agradáveis e divinas. E, se acaso falar, sede solícitos E com profunda e humilde reverência lhe perguntai: “Vossa Honra que deseja?” Um se apresente com bacia argêntea cheia de água de rosas em que pétalas donosas sobrenadem; o jarro outro sustente; o guardanapo, enfim, terceiro, que lhe perguntará: “Vossa Grandeza não quer lavar as mãos?” Vestes custosas tenha alguém prestes, para perguntar-lhe que muda ele prefere; outro lhe fale de seus cavalos e dos cães de caça, e lhe diga que a esposa ainda lastima sua infelicidade, convencendo-o de que esteve lunático. E se acaso declarar seu estado verdadeiro, dizei que está sonhando, pois, de fato, ele é um nobre importante. Fazei isso, gentis senhores, sim, porém, com jeito. Passatempo será muito agradável, se discrição souberdes ter em tudo.
PRIMEIRO CAÇADOR – Garanto-vos, milorde, que sairemos bem do nosso papel, sendo certeza vir ele a convencer-se, tão-somente por nossa diligência, de que é tudo quanto lhe sugerirmos.
NOBRE – Levantai-o com bem jeito e na cama o ponde logo. E quando despertar, todos a postos
(Sly é carregado. Toque de trombeta.)
Rapaz, vai logo ver o que esse toque de trombeta anuncia.
(Sai um criado.)
Com certeza é algum fidalgo que se encontra em viagem e se deteve aqui para descanso.
(Volta o criado.)
Então, que é que há?
CRIADO – Com permissão de Vossa Senhoria, os atores, que oferecem a Vossa Honra os serviços.
NOBRE – Manda-os vir.
(Entram comediantes.)
Amigos, sois bem-vindos.
COMEDIANTES – Obrigados ficamos a Vossa Honra.
NOBRE – É intenção vossa passar a noite aqui?
UM COMEDIANTE – Caso Vossa Honra se digne de aceitar nossos serviços.
NOBRE – De todo o coração. Ainda me lembro deste rapaz, quando representava de filho de rendeiro.
Era na peça em que a corte fazíeis gentilmente a uma senhora nobre. Vosso nome já me esqueceu; mas é certeza: dita foi vossa parte com bastante engenho e naturalidade.
UM COMEDIANTE – Vossa Graça decerto pensa no papel de Soto.
NOBRE – Perfeitamente! E tu o representaste por maneira admirável. Bem; chegaste na hora precisa, tanto mais que tenho já iniciado um desporto em que vossa arte muito útil me será. Há aqui um nobre que esta noite deseja ver alguma peça do vosso elenco. Mas receio que não possais guardar a compostura à vista da atitude extravagante de Sua Senhoria, por ser certo que Sua Honra jamais foi ao teatro, o que explosão de riso vos causara, podendo isso ofendê-lo. Pois vos digo, senhores, que se rirdes, ele torna-se impaciente a valer.
UM COMEDIANTE – Nenhum receio vos cause isso, milorde; saberíamos conter-nos, muito embora se tratasse do mais risível ser que acaso exista.
NOBRE – Recolhe-os tu à copa, dando a todos bom tratamento, sem que lhes faleça coisa nenhuma do que houver em casa.
(Sai um criado com os comediantes.)

Fontes:
http://pt.wikipedia.org/
Biblioteca Eletronica. In Revista do CD Roim. n.156. julho 2008. Editora Europa. (CD-ROM).

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Lima barreto (A Biblioteca)

À proporção que avançava em anos, mais nítidas lhe vinham as reminiscências das cousas da casa paterna. Ficava ela lá pelas bandas da Rua do Conde, por onde passavam então as estrondosas e fagulhentas “maxambombas” da Tijuca. Era um casarão grande, de dois andares, rés-do-chão, chácara cheia de fruteiras, rico de salas, quartos, alcovas, povoado de parentes, contraparentes, fâmulos, escravos; e a escada que servia os dois pavimentos, situada um pouco além da fachada, a desdobrar-se em toda a largura do prédio, era iluminada por uma grande e larga clarabóia de vidros multicores. Todo ele era assoalhado de peroba de Campos, com vastas tábuas largas, quase da largura da tora de que nasceram; e as esquadrias, portas, janelas, eram de madeira de lei. Mesmo a cocheira e o albergue da sege eram de boa madeira e tudo coberto de excelentes e pesadas telhas. Que cousas curiosas havia entre os seus móveis e alfaias? Aquela mobília de jacarandá-cabiúna com o seu vasto canapé, de três espaldares, ovalados e vastos, que mais parecia uma cama que mesmo um móvel de sala; aqueles imensos consolos, pesados, e ainda mais com aqueles enormes jarrões de porcelana da Índia que não vemos mais; aqueles desmedidos retratos dos seus antepassados, a ocupar as paredes de alto abaixo – onde andava tudo aquilo? Não sabia… Vendera ele, aqueles objetos? Alguns; e dera muitos.

Umas cousas, porém, ficaram com o irmão que morrera cônsul na Inglaterra e lá deixara a prole; outras, com a irmã que se casara para o Pará… Tudo, enfim, desaparecera. O que ele estranhava ter desaparecido eram as alfaias de prata, as colheres, as facas, o coador de chá… E o espevitador de velas? Como ele se lembrava desse utensílio obsoleto, de prata!

Era com ternura que se recordava dele, nas mãos de sua mãe, quando, nos longos serões, na sala de jantar, à espera do chá – que chá! – ele o via aparar os morrões das velas do candelabro, enquanto ela, sua mãe, não interrompia a história do Príncipe Tatu, que estava contando…

A tia Maria Benedita, muito velha, ao lado, sentada na estreita cadeira de jacarandá, tendo o busto ereto, encostado ao alto espaldar, ficava do lado, com os braços estendidos sobre os da cadeira, o tamborete aos pés, olhando atenta aquela sessão familiar, com o seu agudo olhar de velha e a sua hierática pose de estátua tebana tumular. Eram os nhonhôs e nhanhãs, nas cadeiras; e as crias e molecotes acocorados no assoalho, a ouvir… Era menino…

O aparelho de chá, o usual, o de todo o dia, como era lindo! Feito de uma louça negra, com ornatos em relevo, e um discreto esmalte muito igual de brilho – donde viera aquilo? Da China, da Índia?

E a gamela de bacurubu em que a Inácia, a sua ama, lhe dava banho – onde estava? Ah! As mudanças! Antes nunca tivesse vendido a casa paterna…

A casa é que conserva todas as recordações de família. Perdida que seja, como que ela se vinga fazendo dispersar as relíquias familiares que, de algum modo, conservavam a alma e a essência das pessoas queridas e mortas… Ele não podia, entretanto, manter o casarão… Foi o tempo, as leis, o progresso…

Todos aqueles trastes, todos aqueles objetos, no seu tempo de menino, sem grande valia, hoje valeriam muito… Tinha ainda o bule do aparelho de chá, um escumador, um guéridon com trabalho de embutido… Se ele tivesse (insistia) conservado a casa, tê-los-ia todos hoje, para poder rever o perfil aquilino, duro e severo do seu pai, tal qual estava ali, no retrato de Agostinho da Mota, professor de academia; e também a figurinha de Sèvres que era a sua mãe em moça, mas que os retratistas da terra nunca souberam pôr na tela. Mas não pôde conservar a casa… A constituição da família carioca foi insensivelmente se modificando; e ela era grande demais para a sua. De resto, o inventário, as partilhas, a diminuição de rendas, tudo isso tirou-a dele. A culpa não era sua, dele, era da marcha da sociedade em que vivia…

Essas recordações lhe vinham sempre e cada vez mais fortes, desde os quarenta e cinco anos; estivesse triste ou alegre, elas lhe acudiam. Seu pai, o Conselheiro Fernandes Carregal, tenente-coronel do Corpo de Engenheiros e lente da Escola Central, era filho do sargento-mor de engenharia e também lente da Academia Real Militar que o Conde de Linhares, ministro de Dom João VI, fundou em 1810, no Rio de Janeiro, com o fim de se desenvolverem entre nós os estudos de ciências matemáticas, físicas e naturais, como lá diz o ato oficial que a instituiu. Desta academia todos sabem como vieram a surgir a atual Escola Politécnica e a extinta Escola Militar da Praia Vermelha. O filho de Carregal, porém, não passara por nenhuma delas; e, apesar de farmacêutico, nunca se sentira atraído pela especialidade dos estudos do pai. Este dedicara-se, a seu modo e ao nosso jeito, à Química. Tinha por ela uma grande mania… bibliográfica. A sua biblioteca a esse respeito era completa e valiosa. Possuía verdadeiros “incunábulos”, se assim se pode dizer, da química moderna. No original ou em tradução, lá havia preciosidades. De Lavoisier, encontravam-se quase todas as memórias, além do seu extraordinário e sagacíssimo Traité Élémentaire de Chimie, présenté dans un ordre et d’après les découvertes modernes.

O velho lente, no dizer do filho, não podia pegar nesse respeitável livro que não fosse tomado de uma grande emoção.

— Veja só meu filho, como os homens são maus! Lavoisier publicou esta maravilhosa obra no início da Revolução, a qual ele sinceramente aplaudiu… Ela o mandou para o cadafalso—sabe você por quê?

— Não, papai.

— Porque Lavoisier tinha sido uma espécie de coletor ou cousa parecida no tempo do rei. Ele o foi, meu filho, para ter dinheiro com que custeasse as suas experiências. Veja você como são as cousas e como é preciso ser mais do que homem para bem servir aos homens…

Além desta gema que era a sua menina dos olhos, o Conselheiro Carregal tinha também o Proust, Novo Sistema de Filosofia Química; o Priestley, Expériences sur les différentes espèces d’air; as obras de Guyton de Morveau; o Traité de Berzelius, tradução de Hoefer e Esslinger; a Statique Chimique do grande Berthollet; a Química Orgânica de Liebig, tradução de Gerhardt – todos livros antigos e sólidos, sendo dentre eles o mais moderno as Lições de Filosofia Química, de Würtz, que são de 1864; mas, o estado do livro dava a entender que nunca tinham sido consultadas. Havia mesmo algumas obras de alquimia, edições dos primeiros tempos da tipografia, enormes, que exigem ser lidas em altas escrivaninhas, o leitor de pé, com um burel de monge ou nigromante; e, entre os desta natureza, lá estava um exemplar do – Le Livre des Figures Hiéroglyphiques que a tradição atribui ao alquimista francês Nicolau Flamel.

Sobravam, porém, além destes, muitos outros livros de diferente natureza, mas também preciosos e estimáveis: um exemplar da Geometria de Euclides, em latim, impresso em Upsal, na Suécia, nos fins do século XVI; os Principia de Newton, não a primeira edição, mas uma de Cambridge muito apreciada; e as edições princeps da Méchanique Analytique, de Lagrange, e da Géométrie Descriptive, de Monge.

Era uma biblioteca rica assim de obras de ciências físicas e matemáticas que o filho do Conselheiro Carregal, há quarenta anos para cinqüenta, piedosamente carregava de casa em casa, aos azares das mudanças desde que perdera o pai e vendera o casarão em que ela quietamente tinha vivido durante dezena de anos, a gosto e à vontade.

Poderão supor que ela só tivesse obras dessa especialidade; mas tal não acontecia. Havia as de outros feitios de espírito. Encontravam-se lá os clássicos latinos; a Voyage autour du Monde de Bougainville; uma Nouvelle Héloise, de Rousseau, com gravuras abertas em aço; uma linda edição dos Lusíadas, em caracteres elzevirianos; e um exemplar do Brasil e a Oceania, de Gonçalves Dias, com uma dedicatória, do próprio punho do autor, ao Conselheiro Carregal.

Fausto Carregal, assim era o nome do filho, até ali nunca se separara da biblioteca que lhe coubera como herança. Do mais que herdara, tudo dissipara, bem ou mal; mas os livros do conselheiro, ele os guardara intatos e conservados religiosamente, apesar de não os entender. Estudara alguma cousa, era até farmacêutico, mas sempre vivera alheado do que é verdadeiramente a substância dos livros— o pensamento e a absorção da pessoa humana neles.

Logo que pôde, arranjou um emprego público que nada tinha a ver com o seu diploma, afogou-se no seu ofício burocrático, esqueceu-se do pouco que estudara, chegou a chefe de seção, mas não abandonou jamais os livros do pai que sempre o acompanharam, e as suas velhas estantes de vinhático com incrustação de madrepérola.

A sua esperança era que um dos seus filhos os viesse a entender um dia; e todo o seu esforço de pai sempre se encaminhou para isso. O mais velho dos filhos, o Álvaro, conseguiu ele matriculá-lo no Pedro II; mas logo, no segundo ano, o pequeno meteu-se em calaçarias de namoros, deu em noivo e, mal fez dezoito anos, empregou-se nos correios, praticante pro-rata, casando-se daí em pouco. Arrastava agora uma vida triste de casal pobre, moço, cheio de filhos, mais triste era ele ainda porquanto, não havendo alegria naquele lar, nem por isso havia desarmonia. Marido e mulher puxavam o carro igualmente…

O segundo filho não quisera ir além do curso primário. Empregara-se logo em um escritório comercial, fizera-se remador de um clube de regatas, ganhava bem e andava pelas tolas festas domingueiras de sport, com umas calças sungadas pelas canelas e um canotier muito limpo, tendo na fita uma bandeirinha idiota.

A filha casara-se com um empregado da Câmara Municipal de Niterói e lá vivia.

Restava-lhe o filho mais moço, o Jaime, tão bom. tão meigo e tão seu amigo, que lhe pareceu, quando veio ao mundo, ser aquele que estava destinado a ser o inteligente, o intelectual da família, o digno herdeiro do avô e do bisavô.

Mas não foi; e ele se lembrava agora como recomendava sempre à mulher, nos primeiros anos de vida do caçula, ao ir para a repartição:

— Irene, cuida bem do Jaime! Ele é que vai ler os papéis do meu pai.

Porque o pequeno, em criança, era tão doentinho, tão mirrado, apesar dos seus olhos muito claros e vivos, que o pai temia fosse com ele a sua última esperança de um herdeiro capaz da biblioteca do conselheiro.

Jaime tinha nascido quando o mais velho entrava nos doze anos; e o inesperado daquela concepção alegrava-lhe muito, mas inquietara a mãe.

Pelos seus quatro anos de idade, Fausto Carregal já tinha podido ver o desenvolvimento dos dois outros seus filhos varões e havia desesperado de ver qualquer um deles entender, quer hoje ou amanhã, os livros do avô e do bisavô, que jaziam limpos, tratados, embalsamados, nos jazigos das prateleiras das estantes de vinhático, à espera de uma inteligência, na descendência dos seus primeiros proprietários, para de novo fazê-los voltar à completa e total vida do pensamento e da atividade mental fecunda.

Certo dia, lembrando-se de seu pai em face das esperanças que depositava no seu filho temporão, Fausto Carregal considerou que, apesar do amor de seu progenitor à Química, nunca ele o vira com éprourettes, com copos graduados, com retortas. Eram só livros que ele procurava. Como os velhos sábios brasileiros, seu pai tinha horror ao laboratório, à experiência feita com as suas mãos, ele mesmo…

O seu filho, porém, o Jaime, não seria assim. Ele o queria com o maçarico, com o bico de Bunsen, com a baqueta de vidro, com o copo de laboratório…

— Irene tu vais ver como o Jaime vai além do avô! Fará descobertas.

Sua mulher, entretanto, filha de um clínico que tivera fama quando moço, não tinha nenhum entusiasmo por essas cousas. A vida, para ela, se resumia em viver o mais simplesmente possível. Nada de grandes esforços, ou mesmo de pequenos, para se ir além do comum de todos; nada de escaladas, de ascensões; tudo terra-a-terra, muito cá embaixo… Viver, e só! Para que sabedorias? Para que nomeadas? Quase nunca davam dinheiro e quase sempre desgostos. Por isso, jamais se esforçou para que os seus filhos fossem além do ler, escrever e contar; e isso mesmo a fim de arranjarem um emprego que não fosse braçal, pesado ou senil.

O Jaime cresceu sempre muito meigo, muito dócil, muito bom; mas com venetas estranhas. Implicava com uma vela acesa em cima de um móvel porque lhe pareciam os círios que vira em torno de um defunto, na vizinhança; quando trovejava ficava a um canto calado, temeroso; o relâmpago fazia-o estremecer de medo, e logo após, ria-se de um modo estranho… Não era contudo doente; com o crescimento, até adquirira certa robustez. Havia noites, porém, em que tinha uma espécie de ataque, seguido de um choro convulso, uma cousa inexplicável que passava e voltava sem causa, nem motivo. Quando chegou aos sete anos, logo o pai quis pôr-lhe na mão a cartilha, porquanto vinha notando com singular satisfação a curiosidade do filho pelos livros, pelos desenhos e figuras, que os jornais e revistas traziam. Ele os contemplava horas e horas, absorvido, fixando nas gravuras os seus olhos castanhos, bons, leais…

Pôs-lhe a cartilha na mão:

— “A-e-i-o-u” – diga: “a”.

O pequeno dizia: “a”; o pai seguia: “e”; Jaime repetia: “e”; mas quando chegava a “o”, parecia que lhe invadia um cansaço mental, enfarava-se subitamente, não queria mais atender, não obedecia mais ao pai e, se este insistia e ralhava, o filho desatava a chorar:

— Não quero mais, papaizinho! Não quero mais!

Consultou médicos amigos. Aconselharam-no esperar que a criança tivesse mais idade. Aguardou mais um ano, durante o qual, para estimular o filho, não cessava de recomendar:

—Jaime, você precisa aprender a ler. Quem não sabe ler, não arranja nada na vida.

Foi em vão. As cousas se vieram a passar como da primeira vez. Aos doze anos, contratou um professor paciente, um velho empregado público aposentado, no intuito de ver se instilava inteligência do filho o mínimo de saber ler e escrever. O professor começou com toda a paciência e tenacidade; mas, a criança que era incapaz de ódio até ali, perdeu a doçura, a meiguice para com o professor.

Era falar-lhe no nome, a menos que o pai estivesse presente, ele desandava em descomposturas, em doestes, em sarcasmos ao físico e às maneiras do bom velho. Cansado, o antigo burocrata, ao fim de dois anos, despediu-se tendo conseguido que Jaime soletrasse e contasse alguma cousa.

Carregal meditou ainda um remédio, mas não encontrou. Consultou médicos, amigos, conhecidos. Era um caso excepcional; era um caso mórbido esse de seu filho. Remédio, se um houvesse, não existia aqui; só na Europa… Não podia, o pequeno, aprender bem, nem mesmo ler, escrever, contar!… Oh! Meu Deus!

A conclusão lhe chegou sem choque, sem nenhuma brusca violência; chegou sorrateiramente, mansamente, pé ante pé, devagar, como uma conclusão fatal que era.

Tinha o velho Carregal, por hábito, ficar na sala em que estavam os livros e as estantes do pai, a ler, pela manhã, os jornais do dia. Ã proporção que os anos se passavam e os desgostos aumentavam-lhe n’alma, mais religiosamente ele cumpria essa devoção à memória do pai. Chorava às vezes de arrependimento, vendo aquele pensamento todo, ali sepultado, mas ainda vivo, sem que entretanto pudesse fecundar outros pensamentos… Por que não estudara?

Dava-se assim, com aquela devoção diária, a ele mesmo, a ilusão de que, se não compreendia aqueles livros profundos e antigos, os respeitava e amava como a seu pai, esquecido de que para amá-los sinceramente era preciso compreendê-los primeiro. São deuses os livros, que precisam ser analisados, para depois serem adorados; e eles não aceitam a adoração senão dessa forma…

Naquela manhã, como de costume, fora para a sala dos livros, ler os jornais; mas não os pôde ler logo.

Pôs-se a contemplar os volumes nas suas molduras de vinhático. Viu o pai, o casarão, os moleques, as mucamas, as crias, o fardão do seu avô, os retratos… Lembrou-se mais fortemente de seu pai e viu-o lendo, entre aquelas obras, sentado a uma grande mesa, tomando de quando em quando rapé, que ele tirava às pitadas de uma boceta de tartaruga, espirrar depois, assoar-se num grande lenço de Alcobaça, sempre lendo, com o cenho carregado, os seus grandes e estimados livros.

As lágrimas vieram aos olhos daquele velho e avô. Teve de sustê-las logo. O filho mais novo entrava na dependência da casa em que ele se havia recolhido. Não tinha Jaime, porém, por esse tempo, um olhar de mais curiosidade para aqueles veneráveis volumes avoengos. Cheio dos seus dezesseis anos, muito robusto, não havia nele nem angústias, nem dúvidas. Não era corroído pelas idéias e era bem nutrido pela limitação e estreiteza de sua inteligência. Foi logo falando, sem mais detença, ao pai:

— Papai, você me dá cinco mil-réis, para eu ir hoje ao football.

O velho olhou o filho. Olhou a sua adolescência estúpida e forte, olhou seu mau feitio de cabeça; olhou bem aquele último fruto direto de sua carne e de seu sangue; e não se lembrou do pai. Respondeu:

— Dou, meu filho. Dentro em pouco, você terá.

E em seguida como se acudisse alguma cousa deslembrada que aquelas palavras lhe fizeram surgir à tona do pensamento, acrescentou com pausa:

— Diga a sua mãe que me mande buscar na venda uma lata de querosene, antes que feche. Não se esqueça, está ouvindo!

Era domingo. Almoçaram. O filho foi para o football; a mulher foi visitar a filha e os netos, em Niterói; e o velho Fausto Carregal ficou só em casa, pois a cozinheira teve também folga.

Com os seus ainda robustos setenta anos, o velho Fausto Fernandes Carregal, filho do tenente-coronel de engenharia, Conselheiro Fernandes Carregal, lente da Escola Central, tendo concertado mais uma vez o seu antigo covaignac inteiramente branco e pontiagudo, sem tropeço, sem desfalecimento, aos dois aos quatro, aos seis, ele só, sacerdotalmente, ritualmente, foi carregando os livros que tinham sido do pai e do avô para o quintal da casa. Amontoou-os em vários grupos, aqui e ali, untou de petróleo cada um, muito cuidadosamente, e ateou-lhes fogo sucessivamente.

No começo a espessa fumaça negra do querosene não deixava ver bem as chamas brilharem; mas logo que ele se evolou, o clarão delas, muito amarelo, brilhou vitoriosamente com a cor que o povo diz ser a do desespero…

Fonte:
http://www.biblio.com.br

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Direitos autorais na Internet

Até há pouco tempo os autores mantinham relações muito pouco profissionais com os seus editores. Isso começa a mudar na década de 1970 quando a literatura brasileira ganha pela, segunda vez, a simpatia dos leitores (a primeira foi no começo do século). O Brasil já conta nessa época com uma indústria bem desenvolvida e consegue distribuir em quase todo o território nacional.

Predominava até então uma relação paternalista entre editor e autor. Aquele agindo como um benfeitor, e este aceitando a publicação de seu livro como um favor, pois via seu ofício de escritor como uma missão e não um meio de vida. Falar na venda de seu livro era quase uma heresia.

Isso começou a sofrer mudanças quando os autores passaram a vender de fato e os purismos foram deixados de lado: iniciava-se a fase de profissionalização. Os autores agora discutiam seus direitos e exigiam contratos, e não predominava mais a ânsia de assinar qualquer papel contanto que o livro fosse publicado. Isso se dava principalmente pela falta de legislação ou mesmo pelo desconhecimento das leis que já existiam.

Se até hoje há um quase total desconhecimento dos direitos autorais referentes à publicação de livros, o que dizer da parafernália referente aos direitos de imagens, sons, programas, CD-ROM, software, hardware, Internet. Para melhor entender esse problema, façamos uma viagem ao passado até chegar ao impacto da era digital em que vivemos.

O que são direitos autorais

O direitos autorais lidam basicamente com a imaterialidade, principal característica da propriedade intelectual. Estão presentes nas produções artísticas, culturais, científicas etc.

A introdução do alfabeto grego na escrita (cerca de 700 a.C.) altera a cultura humana à medida que é inventada, com ele, a cultura letrada. Antes, havia apenas a comunicação oral, seguida depois pela representação gráfica. Todas as obras eram manuscritas. Só os copistas recebiam por seus trabalhos, e aos autores cabiam apenas as honras – e isso quando os copistas não deturpavam suas criações.

Com o aparecimento dos tipos móveis, atribuído a Gutenberg, em meados do século XV, a forma escrita fixa-se e as idéias finalmente atingem uma escala industrial. Só a partir daí aparece o problema dos direitos autorais, a proteção e a remuneração dos autores. O copyright começa a ser reconhecido na Inglaterra através do Copyright Act de 1790, que protegia as cópias impressas por 21 anos, contados a partir da impressão. Obras não-impressas eram protegidas por apenas quatorze anos.

Porém, já em 1662 existia o Licensing Act que proibia a impressão de qualquer obra que não estivesse registrada. Era uma forma de censura, já que só se licenciavam livros que não ofendessem o licenciador.

A Revolução Francesa acrescenta a primazia do autor sobre a obra, enfocando o direito que ele tem ao ineditismo, à paternidade, à integridade de sua obra, que não pode ser modificada sem seu consentimento expresso. Seus direitos são inalienáveis e a proteção se estende por toda a vida do autor.

No Brasil, o direito autoral foi regulado até recentemente pela Lei 5988 de 14 de dezembro de 1993. A partir de 19 de junho de 1998 entra em vigor a Lei 9610 de 19 de fevereiro de 1998, a nova lei dos direitos autorais.

A difusão cada vez maior das obras intelectuais através dos meios de comunicação gerou a necessidade de proteger o direito autoral pelo mundo, com contratos internacionais nos quais se procura dar aos autores e editores dos países assinantes a mesma proteção legal que têm em seu próprio país. O Brasil assinou os seguintes tratados:
1. Convenção de Berna (9.9.1886)
2. Convenção Universal (24.7.1971)
3. Convenção de Roma (26.10.1961)
4. Convenção de Genebra (29.10.1971) (fonogramas)
5. Acordo sobre aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual Relacionados ao Comércio (vários artigos tratam do direito autoral, inclusive da proteção de programas de computadores).

O direito autoral se caracteriza por dois aspectos:

1. O moral – que garante ao criador o direito de ter seu nome impresso na divulgação de sua obra e o respeito à integridade desta, além de lhe garantir os direitos de modificá-la, ou mesmo impedir sua circulação.

2. O patrimonial – que regula as relações jurídicas da utilização econômica das obras intelectuais.

Henrique Gandelman1, ao analisar a legislação eleitoral até então vigente (Lei 5988), relaciona os seguintes fundamentos básicos sobre o direito autoral:

I. Idéias

As idéias em si não são protegidas, mas sim suas formas de expressão, de qualquer modo ou maneira exteriorizadas num suporte material.

II. Valor intrínseco

A qualidade intelectual de uma obra não constitui critério atributivo de titularidade, isto é, a proteção é dada a uma obra ou criação, independentemente de seus méritos literários, artísticos, científicos ou culturais.

III. Originalidade

O que se protege não é a novidade contida na obra, mas tão-somente a originalidade de sua forma de expressão. Dois autores de química, por exemplo, podem chegar, em seus respectivos livros, aos mesmos resultados e conclusões. O texto de cada um deles, porém, é que está protegido contra eventuais cópias, reproduções ou quaisquer utilizações não-autorizadas.

IV. Territorialidade

A proteção dos direitos autorais é territorial, independentemente da nacionalidade original dos titulares, estendendo-se através de tratados e convenções de reciprocidade internacional. Daí ser recomendável, nos contratos de cessão ou licença de uso, que se explicitem os territórios negociados.

V. Prazos

Os prazos de proteção diferem de acordo com a categoria da obra, por exemplo, livros, artes plásticas, obras cinematográficas ou audiovisuais etc.

VI. Autorizações

Sem a prévia e expressa autorização do titular, qualquer utilização de sua obra é ilegal.

VII. Limitações

São dispensáveis as prévias autorizações dos titulares, em determinadas circunstâncias.

VIII. Titularidade

A simples menção de autoria, independentemente de registro, identifica sua titularidade.

IX. Independência

As diversas formas de utilização da obra intelectual são independentes entre si (livro, adaptação audiovisual ou outra), recomendando-se, pois, a expressa menção dos usos autorizados ou licenciados, nos respectivos contratos.

X. Suporte físico

A simples aquisição do suporte físico ou exemplar contendo uma obra protegida não transmite ao adquirente nenhum dos direitos autorais da mesma.

A Lei 9610 de 19 de fevereiro de 1998, entrou em vigor no dia 19 de junho de 1998, alterando, atualizando e consolidando a legislação sobre os direitos autorais. Informa em suas Disposições Preliminares, Artigo 1o, que essa Lei regula os direitos autorais, entendendo-se sob esta denominação os direitos de autor e os que lhes são conexos (artistas, intérpretes, produtores fonográficos, executantes etc.).

Em seu Artigo 5o dá a definição da publicação, transmissão ou emissão, retransmissão, distribuição, comunicação ao público, reprodução, contratação, obra (em co-autoria, anônima, pseudônima, inédita, póstuma, originária, derivada, coletiva, audiovisual), fonograma, editor, produtor, radiodifusão, artistas intérpretes ou executantes.

Em seu Artigo 6o diz que “não serão de domínio da União, dos Estados, do Distrito Federal ou dos municípios as obras por eles simplesmente subvencionadas”. Esse artigo vem esclarecer em definitivo um problema que vinha gerando muita discussão.

Para melhor compreensão, vamos definir, resumidamente, os principais aspectos da nova lei dos direitos autorais:

Obras intelectuais protegidas

São obras intelectuais protegidas as criações do espírito, expressas por qualquer meio ou fixadas em qualquer suporte, tangível ou intangível, conhecido ou que se invente no futuro. Estão incluídos aqui textos de obras literárias, artísticas ou científicas; conferências, alocuções, sermões etc.; obras dramáticas e dramático-musicais; obras coreográficas cuja execução cênica se fixe por escrito ou por outra forma qualquer; obras audiovisuais, sonorizadas ou não, inclusive as cinematográficas; obras fotográficas; desenho, pintura, gravura, escultura, litografia, arte cinética; ilustrações e mapas; projetos, esboços e obras plásticas referentes à arquitetura, paisagismo, cenografia etc.; adaptações, traduções e outras informações de obras originais, apresentadas como criação intelectual nova; programas de computador; coletâneas, antologias, enciclopédias, dicionários, base de dados, que, por sua seleção, organização ou disposição de seu conteúdo, constituem uma criação intelectual.

Os programas de computador estão regulamentados pelo artigo 3o da Lei 9609 de 19 de fevereiro 1998, que depõe sobre a proteção da propriedade intelectual de programas de computador e sua comercialização.

O que não precisa de proteção

Idéias, procedimentos normativos, sistemas, métodos, projetos ou conceitos matemáticos; esquemas, planos ou regras para realizar atos mentais, jogos ou negócios; formulários em branco para serem preenchidos por qualquer tipo de informação; textos de tratados ou convenções, leis, decretos, regulamentos, decisões judiciais e atos oficiais; calendários, agendas etc.; aproveitamento industrial ou comercial das idéias contidas nas obras.

Cópias

A cópia de obras de artes plásticas feita pelo próprio autor tem a mesma proteção que goza o original.

Títulos de publicações

O título de publicações periódicas, inclusive jornais, é protegido até um ano após a saída de seu último número, salvo se forem anuais, caso em que esse prazo se elevará em dois anos. Isso vem acabar com a prática de registrar títulos que jamais são publicados, na espera que alguém os utilize, para em seguida tentar lucrar com a ocasião.

Quem é o autor

Autor é a pessoa física criadora de obra literária, artística ou científica. O autor pode se identificar através de seu nome civil, completo ou abreviado, iniciais, pseudônimos ou qualquer outro sinal convencional.

É titular de direitos de autor quem adapta, traduz, arranja ou orquestra obra caída em domínio público, não podendo opor-se a outra adaptação, orquestração ou tradução, salvo se for cópia da sua.

Considera-se co-autor aquele em cujo nome, pseudônimo ou sinal convencional for utilizado. Não se considera co-autor quem simplesmente auxiliou o autor na produção da obra. Em obras audiovisuais são considerados co-autores o autor do assunto ou argumento literário-musical e o diretor. Em desenhos animados são considerados co-autores os que criam os desenhos utilizados na obra audiovisual.

Em obras coletivas o organizador é o titular dos direitos patrimoniais, sendo que o contrato com o organizador deverá especificar a contribuição do participante, o prazo para entrega ou realização, a remuneração e demais condições para sua execução.

Precisa registrar a obra?

A proteção aos direitos autorais independe do registro, mas o autor pode registrar sua obra conforme sua natureza na Biblioteca Nacional, na Escola de Música e de Belas-Artes da Universidade do Rio de Janeiro, ou no Conselho Federal de Engenharia e Agronomia.

Direitos do autor

Os direitos morais e patrimoniais sobre a obra pertencem ao autor que a criou.

Direitos morais do autor

O autor pode reivindicar, a qualquer tempo, a autoria da obra; ter seu nome ou pseudônimo, ou mesmo sinal convencional indicado ou anunciado, como sendo autor, na utilização de sua obra; tem o direito de assegurar a integridade da obra, opondo-se a quaisquer modificações que possam prejudicá-la ou atingi-lo como autor, em sua reputação ou honra. O autor pode ainda modificar a obra, antes ou depois de utilizada; pode retirar de circulação ou suspender qualquer forma de utilização já autorizada, quando a circulação ou utilização implicarem afronta à sua reputação.

No caso de audiovisuais, cabe exclusivamente ao diretor o exercício dos direitos autorais sobre a obra.

Os direitos morais do autor são inalienáveis e irrenunciáveis.

Direitos patrimoniais

Cabe ao autor o direito exclusivo de utilizar, fruir e dispor da obra literária, artística ou científica. Nada pode ser reproduzido sem a autorização prévia e expressa do autor. Reproduzir parcial ou integralmente, editar, adaptar, traduzir; incluir em fonograma ou produção audiovisual; distribuir; utilizar, direta ou indiretamente, a obra mediante representação, recitação ou declamação; execução musical; emprego de alto-falante; radiodifusão sonora ou televisiva, sonorização ambiental; exibição audiovisual, cinematográfica; emprego de satélites artificiais; exposição de obras plásticas e figurativas; incluir em base de dados, armazenamento em computador, microfilmar etc.

Em qualquer uma dessas modalidades de reprodução, a quantidade de exemplares deverá ser informada e controlada, cabendo a quem reproduzir a obra a responsabilidade de manter os registros que permitam, ao autor, a fiscalização do aproveitamento econômico da exploração.

As diversas modalidades de utilização de obras literárias, artísticas ou científicas ou de fonogramas são independentes entre si, e a autorização concedida pelo autor, ou pelo produtor, respectivamente, não se estende a quaisquer das demais, ou seja, o fato de alguém ter comprado seu quadro não lhe dá o direito de explorá-lo comercialmente sem a autorização do artista; se o editor adquirir os direitos de edição de uma obra, isso não lhe assegura o direito de traduzi-la, adaptá-la para teatro, cinema etc., sem que o autor esteja de acordo.

Artigos publicados na imprensa

O direito de utilização econômica dos escritos publicados pela imprensa, diária ou periódica, com exceção dos artigos assinados ou que apresentem indicação de reserva, pertence ao editor. A autorização para uso econômico de artigos assinados em jornais e revistas é válida durante a periodicidade da publicação acrescido de vinte dias. Após esse prazo os direitos retornam ao autor.

Duração dos direitos e remuneração

Os direitos patrimoniais do autor perduram por setenta anos contados de 1o de janeiro do ano subseqüente ao de seu falecimento. Em caso de obras anônimas ou pseudônimas o prazo de proteção também será de setenta anos, contados a partir de 1o de janeiro do ano imediatamente posterior ao da primeira publicação.

Para obras audiovisuais e fotográficas vale o mesmo prazo de setenta anos, a contar de 1o de janeiro do ano seguinte ao de sua divulgação.

Era uso comum alguém comprar um quadro e revendê-lo a preço muito superior ao pago, não tendo o autor participação nessa venda; o Artigo 38 da nova lei dos direitos autorais diz que “o autor tem o direto, irrenunciável e inalienável, de receber, no mínimo, 5% sobre o aumento do preço eventualmente verificável em cada revenda de obra de arte ou manuscrito, sendo originais, que houver alienado”.

Não constitui ofensa aos direitos autorais

Artigos de periódicos

A reprodução de notícia, artigo informativo, discursos pronunciados em reuniões públicas publicadas em jornais ou revistas, desde que se mencione o nome do autor, se assinados, ou da publicação de onde foram transcritos.

Retratos

Não constitui ofensa também publicar retratos, ou outra forma de representação da imagem, feitos sob encomenda, quando realizada pelo proprietário do objeto encomendado, desde que não haja a oposição da pessoa neles representada ou de seus herdeiros.

Obras

É permitido reproduzir obras literárias, artísticas ou científicas, para uso exclusivo de deficientes visuais, sempre que a reprodução, sem fins comerciais, seja feita mediante o sistema Braile ou outro procedimento em qualquer suporte para esses destinatários.

Citação

É lícito citar em livros, jornais e revistas ou qualquer outro meio de comunicação, trechos de qualquer obra, para fins de estudo, crítica ou polêmica, na medida justificada para se atingir determinada finalidade, desde que se indique o nome do autor e as fontes bibliográficas da obra.

Uso em estabelecimentos comerciais

O uso de obras literárias, artísticas ou científicas, fonogramas e transmissão de rádio e televisão em estabelecimentos comerciais é possível desde que exclusivamente para demonstração à clientela, e que esses estabelecimentos comercializem os suportes ou equipamentos que permitam a sua utilização.

Teatro

É permitida a representação teatral e a execução musical, quando no recinto familiar ou, para fins exclusivamente didáticos, nos estabelecimentos de ensino, desde que não haja em qualquer caso o intuito de obter lucros.

Artes plásticas

É permitida a reprodução, em quaisquer obras, de pequenos trechos de obras preexistentes, de qualquer natureza, ou de obra integral, quando de artes plásticas, sempre que a reprodução em si não seja o objetivo principal da nova obra e não prejudique a exploração normal da obra reproduzida, nem cause prejuízo injustificado aos legítimos interesses dos autores.

Obras públicas

As obras situadas em locais públicos podem ser representadas livremente, por meio de pinturas, desenhos, fotografias e audiovisuais.

Transferência dos direitos

Os direitos do autor poderão ser total ou parcialmente transferidos a terceiros, por ele ou por seus sucessores, pessoalmente ou por meio de representantes, por meio de licenciamento, cessão ou concessão. A transferência do direito autoral só será admitida mediante contrato por escrito; na hipótese de não haver um contrato escrito, o prazo máximo será de cinco anos e presume-se onerosa.

Utilização de obras intelectuais e discos

Qualquer obra só pode ser editada mediante contrato de edição. O editor obriga-se a reproduzir e a divulgar a obra, em caráter de exclusividade, pelo prazo e nas condições estabelecidas com o autor.

Em cada exemplar da obra o editor é obrigado a mencionar:
1. título da obra e seu autor
2. no caso de tradução, o título original e o nome do tradutor
3. ano da publicação
4. nome da editora.

Número de exemplares

Se não houver cláusula em contrário, entende-se que o contrato se refere apenas a uma edição. Caso não seja mencionado o número de exemplares a ser publicado, considera-se que cada edição seja de três mil exemplares.

Prestação de contas

Quaisquer que sejam as condições de contrato, o editor é obrigado a facultar ao autor o exame da escrituração na parte que lhe corresponde, bem como informá-lo sobre o estado da edição. O editor será obrigado a prestar contas mensais ao autor sempre que a retribuição estiver condicionada à venda da obra, salvo se prazo diferente estiver condicionado no contrato. O prazo mais comumente estabelecido é de seis em seis meses.

Prazo para edição

Se não for estipulado um prazo em contrato para a edição da obra, considera-se que a obra deverá ser publicada num período de dois anos após a assinatura do contrato. Não havendo a edição da obra no prazo legal ou contratual, o contrato poderá ser rescindido e o editor poderá responder por danos causados.

Enquanto não se esgotarem as edições a que tiver direito o editor, o autor não poderá dispor de sua obra. Considera-se esgotada a edição quando restarem em estoque, em poder do editor, exemplares em número inferior a 10% do total da edição.

O editor só poderá vender os exemplares restantes, como saldo, após um ano de lançamento da obra, e o autor deve ser notificado de que, no prazo de trinta dias, ele terá a prioridade na aquisição dos referidos exemplares pelo preço de saldo.

Comunicação ao público

Sem a prévia e expressa autorização do autor ou titular, não poderão ser utilizadas obras teatrais, composições musicais e discos em representações e execuções públicas.

Utilização da obra de artes plásticas

O autor da obra de artes plásticas, ao alienar o objeto em que ela se materializa, transmite o direito de expô-la, mas não transmite a quem adquire o direito de reproduzi-la. A autorização para reprodução de obra de artes plásticas, por qualquer processo, deve ser por escrito e se presume onerosa.

Utilização de fotografia

O autor da foto tem o direito de reproduzi-la e colocá-la à venda, observadas as restrições à exposição, reprodução e venda de retratos, e sem prejuízo aos direitos de autor sobre a obra fotografada, se de artes plásticas protegidas a fotografia, quando utilizada por terceiros, deve constar de forma legível o nome do fotógrafo. É vetada a reprodução de obra fotográfica que não esteja em absoluta consonância com o original, salvo prévia autorização do autor.

A internet e os direitos autorais

A recente explosão da informática está provocando o surgimento de uma nova cultura, com novos conceitos de comercialização. Um dos problemas básicos em discussão sobre a Internet ainda é definir se ela é uma mídia impressa, como jornais, revistas ou livros. Se fosse, estaria fora de qualquer controle ou censura. Caso seja do tipo não impressa, estaria submetida aos regulamentos correspondentes.

Outro fator que complica a análise da Internet é que ela não tem um proprietário definido, um autor; é livre, qualquer um que tenha o devido equipamento pode acessá-la. Nesse caso, como fica a propriedade intelectual? Já existe alguma legislação sobre isso?

Henrique Gandelman, em seu livro De Gutenberg à Internet, afirma que “as perguntas se sucedem e as respostas nem sempre estão conseguindo atendê-las corretamente”. A Internet seria muito nova, e coisas novas mais levantam problemas que soluções. “Só a experiência e o tempo é que indicarão os caminhos a seguir e fornecerão as molduras jurídicas atualizadas pela nova cultura, no que se refere à proteção justa dos direitos autorais” (Gandelman1, p. 152).

O importante a ressaltar é que todas as obras intelectuais (livros, vídeos, filmes, fotos, obras de artes plásticas, música, intérpretes etc.), mesmo quando digitalizadas não perdem sua proteção, portanto, não podem ser utilizadas sem prévia autorização.

Apesar de qualquer pessoa que tenha acesso à Internet poder inserir nela material e qualquer outro usuário poder acessá-lo, “os direitos autorais continuam a ter sua vigência no mundo online, da mesma maneira que no mundo físico. A transformação de obras intelectuais para bits em nada altera os direitos das obras originalmente fixadas em suportes físicos” (Gandelman1, p. 154).

Reprodução e cópias na Internet

O autor tem todo o direito de autorizar a reprodução de sua obra no meio que quiser, incluindo aí a Internet. O que se questiona é o que o usuário pode fazer com esse material. É claro que se ele faz uma cópia de determinado material protegido e pretende usá-la será necessária a autorização do autor.

Qualquer texto, home page ou site que apresentar criatividade e forma original, é protegido, necessitando de autorização para ser reproduzido.

Sons e imagens

O mesmo princípio que protege a obra originária também protege os direitos conexos, portanto, o uso de imagens e sons também depende da autorização do autor para sua reprodução. O que acontece é que com a facilidade de manipulação através de programas é possível modificar uma imagem a tal ponto que se torna quase impossível afirmar, ou mesmo provar, que tal imagem pertença mesmo a seu autor.

Registros de obras via Internet

A Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos está testando um sistema chamado CORDS (Copyright Office Eletronics Registration, Recordation on Deposit System) que permitirá aos autores registrarem suas obras em formato digital. Dessa maneira, os livros impressos em geral, discos, fotos e filmes poderão ser registrados em bits, e não mais em suportes materiais, assegurando assim os seus direitos.

A grande facilidade de reprodução e distribuição de cópias sem autorização; a facilidade de criar “verdadeiras” obras derivadas através da digitalização e a facilidade de utilização de textos e imagens oferecidos pela Internet de forma ilegal são alguns dos vários modos de como os direitos autorais são burlados.

Assim como a cópia xerográfica é um crime, que continua sendo praticado abertamente principalmente nas universidades através dos vários centros acadêmicos, formando-se às vezes verdadeiras fontes de renda, as violações dos direitos autorais pelos usuários da Internet estão se tornando igualmente comuns, de modo que quase ninguém acredita num controle legal, ainda mais sem uma legislação própria.

Todas essas violações seriam legais se fosse pedida a autorização ao titular dos direitos. Para que isso aconteça é preciso que se criem leis claras e não um emaranhado trabalhoso de normas que, no fundo, tornarão o licenciamento muito oneroso. Enquanto isso não ocorre, estamos fadados a conviver com esse submundo ilegal de violações dos direitos autorais.

A Internet está criando um verdadeiro caos à medida que rompe qualquer barreira, pois torna a proteção aos direitos autorais – que atualmente é territorial – obsoleta. É preciso, portanto, que se crie um código universal plenamente funcional. Do contrário, vamos continuar nos perguntando “de quem é a responsabilidade sobre os direitos autorais na Internet?”, e não dando nenhuma solução satisfatória.

Fonte:
http://www.scielo.br

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Erros Comuns em Redação I

São erros gramaticais e ortográficos que devem, por princípio, ser evitados. Alguns, no entanto, como ocorrem com maior freqüência, merecem atenção redobrada. Veja quais são e analise o roteiro para fugir deles.

1 – “Mal cheiro”, “mau-humorado”.
Mal opõe-se a bem e mau, a bom. Assim: mau cheiro (bom cheiro), mal-humorado (bem-humorado). Igualmente: mau humor, mal-intencionado, mau jeito, mal-estar.

2 – “Fazem” cinco anos.
Fazer, quando exprime tempo, é impessoal: Faz cinco anos. / Fazia dois séculos. / Fez 15 dias.

3 – “Houveram” muitos acidentes.
Haver, como existir, também é invariável: Houve muitos acidentes. / Havia muitas pessoas. / Deve haver muitos casos igueais.

4 – “Existe” muitas esperanças.
Existir, bastar, faltar, restar e sobrar admitem normalmente o plural: Existem muitas esperanças. / Bastariam dois dias. / Faltavam poucas peças. / Restaram alguns objetos. / Sobravam idéias.

5 – Para “mim” fazer.
Mim não faz, porque não pode ser sujeito. Assim: Para eu fazer, para eu dizer, para eu trazer.

6 – Entre “eu” e você.
Depois de preposição, usa-se mim ou ti: Entre mim e você. / Entre eles e ti.

7 – “Há” dez anos “atrás”.
Há e atrás indicam passado na frase. Use apenas há dez anos ou dez anos atrás.

8 – “Entrar dentro“.
O certo: entrar em. Veja outras redundâncias: Sair fora ou para fora, elo de ligação, monopólio exclusivo, já não há mais, ganhar grátis, viúva do falecido.

9 – “Venda à prazo“.
Não existe crase antes de palavra masculina, a menos que esteja subentendida a palavra moda: Salto à (moda de) Luís XV. Nos demais casos: A salvo, a bordo, a pé, a esmo, a cavalo, a caráter.

10 – “Porque” você foi?
Sempre que estiver clara ou implícita a palavra razão, use “por que” separado: Por que (razão) você foi? / Não sei por que (razão) ele faltou. / Explique por que razão você se atrasou. Porque é usado nas respostas: Ele se atrasou porque o trânsito estava congestionado.

11 – Vai assistir “o” jogo hoje.
Assistir como presenciar exige a: Vai assistir ao jogo, à missa, à sessão. Outros verbos com a: A medida não agradou (desagradou) à população. / Eles obedeceram (desobedeceram) aos avisos. / Aspirava ao cargo de diretor. / Pagou ao amigo. / Respondeu à carta. / Sucedeu ao pai. / Visava aos estudantes.

12 – Preferia ir “do que” ficar.
Prefere-se sempre uma coisa a outra: Preferia ir a ficar. É preferível segue a mesma norma: É preferível lutar a morrer sem glória.

13 – O resultado do jogo, não o abateu.
Não se separa com vírgula o sujeito do predicado. Assim: O resultado do jogo não o abateu. Outro erro: O prefeito prometeu, novas denúncias. Não existe o sinal entre o predicado e o complemento: O prefeito prometeu novas denúncias.

14 – Não há regra sem “excessão“.
O certo é exceção. Veja outras grafias erradas e, entre parênteses, a forma correta: “paralizar” (paralisar), “beneficiente” (beneficente), “xuxu” (chuchu), “previlégio” (privilégio), “vultuoso” (vultoso), “cincoenta” (cinqüenta), “zuar” (zoar), “frustado” (frustrado), “calcáreo” (calcário), “advinhar” (adivinhar), “benvindo” (bem-vindo), “ascenção” (ascensão), “pixar” (pichar), “impecilho” (empecilho), “envólucro” (invólucro).

15 – Quebrou “o” óculos.
Concordância no plural: os óculos, meus óculos. Da mesma forma: Meus parabéns, meus pêsames, seus ciúmes, nossas férias, felizes núpcias.

16 – Comprei “ele” para você.
Eu, tu, ele, nós, vós e eles não podem ser objeto direto. Assim: Comprei-o para você. Também: Deixe-os sair, mandou-nos entrar, viu-a, mandou-me.

17 – Nunca “lhe” vi.
Lhe substitui a ele, a eles, a você e a vocês e por isso não pode ser usado com objeto direto: Nunca o vi. / Não o convidei. / A mulher o deixou. / Ela o ama.

18 – “Aluga-se” casas.
O verbo concorda com o sujeito: Alugam-se casas. / Fazem-se consertos. / É assim que se evitam acidentes. / Compram-se terrenos. / Procuram-se empregados.

19 – “Tratam-se” de.
O verbo seguido de preposição não varia nesses casos: Trata-se dos melhores profissionais. / Precisa-se de empregados. / Apela-se para todos. / Conta-se com os amigos.

20 – Chegou “em” São Paulo.
Verbos de movimento exigem a, e não em: Chegou a São Paulo. / Vai amanhã ao cinema. / Levou os filhos ao circo.

21 – Atraso implicará “em” punição.
Implicar é direto no sentido de acarretar, pressupor: Atraso implicará punição. / Promoção implica responsabilidade.

22 – Vive “às custas” do pai.
O certo: Vive à custa do pai. Use também em via de, e não “em vias de”: Espécie em via de extinção. / Trabalho em via de conclusão.

23 – Todos somos “cidadões“.
O plural de cidadão é cidadãos. Veja outros: caracteres (de caráter), juniores, seniores, escrivães, tabeliães, gângsteres.

24 – O ingresso é “gratuíto“.
A pronúncia correta é gratúito, assim como circúito, intúito e fortúito (o acento não existe e só indica a letra tônica). Da mesma forma: flúido, condôr, recórde, aváro, ibéro, pólipo.

25 – A última “seção” de cinema.
Seção significa divisão, repartição, e sessão eqüivale a tempo de uma reunião, função: Seção Eleitoral, Seção de Esportes, seção de brinquedos; sessão de cinema, sessão de pancadas, sessão do Congresso.

26 – Vendeu “uma” grama de ouro.
Grama, peso, é palavra masculina: um grama de ouro, vitamina C de dois gramas. Femininas, por exemplo, são a agravante, a atenuante, a alface, a cal, etc.

27 – “Porisso“.
Duas palavras, por isso, como de repente e a partir de.

28 – Não viu “qualquer” risco.
É nenhum, e não “qualquer”, que se emprega depois de negativas: Não viu nenhum risco. / Ninguém lhe fez nenhum reparo. / Nunca promoveu nenhuma confusão.

29 – A feira “inicia” amanhã.
Alguma coisa se inicia, se inaugura: A feira inicia-se (inaugura-se) amanhã.

30 – Soube que os homens “feriram-se“.
O que atrai o pronome: Soube que os homens se feriram. / A festa que se realizou… O mesmo ocorre com as negativas, as conjunções subordinativas e os advérbios: Não lhe diga nada. / Nenhum dos presentes se pronunciou. / Quando se falava no assunto… / Como as pessoas lhe haviam dito… / Aqui se faz, aqui se paga. / Depois o procuro.

31 – O peixe tem muito “espinho“.
Peixe tem espinha. Veja outras confusões desse tipo: O “fuzil” (fusível) queimou. / Casa “germinada” (geminada), “ciclo” (círculo) vicioso, “cabeçário” (cabeçalho).

32 – Não sabiam “aonde” ele estava.
O certo: Não sabiam onde ele estava. Aonde se usa com verbos de movimento, apenas: Não sei aonde ele quer chegar. / Aonde vamos?

33 – “Obrigado”, disse a moça.
Obrigado concorda com a pessoa: “Obrigada”, disse a moça. / Obrigado pela atenção. / Muito obrigados por tudo.

34 – O governo “interviu“.
Intervir conjuga-se como vir. Assim: O governo interveio. Da mesma forma: intervinha, intervim, interviemos, intervieram. Outros verbos derivados: entretinha, mantivesse, reteve, pressupusesse, predisse, conviesse, perfizera, entrevimos, condisser, etc.

35 – Ela era “meia” louca.
Meio, advérbio, não varia: meio louca, meio esperta, meio amiga.

36 – “Fica” você comigo.
Fica é imperativo do pronome tu. Para a 3.ª pessoa, o certo é fique: Fique você comigo. / Venha pra Caixa você também. / Chegue aqui.

37 – A questão não tem nada “haver” com você.
A questão, na verdade, não tem nada a ver ou nada que ver. Da mesma forma: Tem tudo a ver com você.

38 – A corrida custa 5 “real”.
A moeda tem plural, e regular: A corrida custa 5 reais.

39 – Vou “emprestar” dele.
Emprestar é ceder, e não tomar por empréstimo: Vou pegar o livro emprestado. Ou: Vou emprestar o livro (ceder) ao meu irmão. Repare nesta concordância: Pediu emprestadas duas malas.

40 – Foi “taxado” de ladrão.
Tachar é que significa acusar de: Foi tachado de ladrão. / Foi tachado de leviano.

41 – Ele foi um dos que “chegou” antes.
Um dos que faz a concordância no plural: Ele foi um dos que chegaram antes (dos que chegaram antes, ele foi um). / Era um dos que sempre vibravam com a vitória.

42 – “Cerca de 18″ pessoas o saudaram.
Cerca de indica arredondamento e não pode aparecer com números exatos: Cerca de 20 pessoas o saudaram.

43 – Ministro nega que “é” negligente.
Negar que introduz subjuntivo, assim como embora e talvez: Ministro nega que seja negligente. / O jogador negou que tivesse cometido a falta. / Ele talvez o convide para a festa. / Embora tente negar, vai deixar a empresa.

44 – Tinha “chego” atrasado.
“Chego” não existe. O certo: Tinha chegado atrasado.

45 – Tons “pastéis” predominam.
Nome de cor, quando expresso por substantivo, não varia: Tons pastel, blusas rosa, gravatas cinza, camisas creme. No caso de adjetivo, o plural é o normal: Ternos azuis, canetas pretas, fitas amarelas.

46 – Lute pelo “meio-ambiente“.
Meio ambiente não tem hífen, nem hora extra, ponto de vista, mala direta, pronta entrega, etc. O sinal aparece, porém, em mão-de-obra, matéria-prima, infra-estrutura, primeira-dama, vale-refeição, meio-de-campo, etc.

47 – Queria namorar “com” o colega.
O com não existe: Queria namorar o colega.

48 – O processo deu entrada “junto ao” STF.
Processo dá entrada no STF. Igualmente: O jogador foi contratado do (e não “junto ao”) Guarani. / Cresceu muito o prestígio do jornal entre os (e não “junto aos”) leitores. / Era grande a sua dívida com o (e não “junto ao”) banco. / A reclamação foi apresentada ao (e não “junto ao”) Procon.

49 – As pessoas “esperavam-o”.
Quando o verbo termina em m, ão ou õe, os pronomes o, a, os e as tomam a forma no, na, nos e nas: As pessoas esperavam-no. / Dão-nos, convidam-na, põe-nos, impõem-nos.

50 – Vocês “fariam-lhe” um favor?
Não se usa pronome átono (me, te, se, lhe, nos, vos, lhes) depois de futuro do presente, futuro do pretérito (antigo condicional) ou particípio. Assim: Vocês lhe fariam (ou far-lhe-iam) um favor? / Ele se imporá pelos conhecimentos (e nunca “imporá-se”). / Os amigos nos darão (e não “darão-nos”) um presente. / Tendo-me formado (e nunca tendo “formado-me”).

Fonte:
http://www.vitoria.es.gov.br

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História do Cordel

Na época dos povos conquistadores greco-romanos, fenícios, cartagineses, saxões, etc, a literatura de cordel já existia, tendo chegado à Península Ibérica (Portugal e Espanha) por volta do século XVI. Na Península a literatura de cordel recebeu os nomes de “pliegos sueltos” (Espanha) e “folhas soltas” ou “volantes” (Portugal). Florescente, principalmente, na área que se estende da Bahia ao Maranhão esta maravilhosa manifestação da inteligência brasileira merecerá no futuro, um estudo mais profundo e criterioso de suas peculiaridades particulares.

O grande mestre de Pombal, Leandro Gomes de Barros, que nos emprestou régua e compasso para a produção da literatura de cordel, foi de extrema sinceridade quando afirmou na peleja de Riachão com o Diabo, escrita e editada em 1899:

“Esta peleja que fiz
não foi por mim inventada,
um velho daquela época
a tem ainda gravada
minhas aqui são as rimas
exceto elas, mais nada.”

Oriunda de Portugal, a literatura de cordel chegou no balaio e no coração dos nossos colonizadores, instalando-se na Bahia e mais precisamente em Salvador. Dali se irradiou para os demais estados do Nordeste. A pergunta que mais inquieta e intriga os nossos pesquisadores é “Por que exatamente no nordeste?”. A resposta não está distante do raciocínio livre nem dos domínios da razão. Como é sabido, a primeira capital da nação foi Salvador, ponto de convergência natural de todas as culturas, permanecendo assim até 1763, quando foi transferida para o Rio de Janeiro.

Na indagação dos pesquisadores no entanto há lógica, porque os poetas de bancada ou de gabinete, como ficaram conhecidos os autores da literatura de cordel, demoraram a emergir do seio bom da terra natal. Mais tarde, por volta de 1750 é que apareceram os primeiros vates da literatura de cordel oral. Engatinhando e sem nome, depois de relativo longo período, a literatura de cordel recebeu o batismo de poesia popular.

Foram esses bardos do improviso os precursores da literatura de cordel escrita. Os registros são muito vagos, sem consistência confiável, de repentistas ou violeiros antes de Manoel Riachão ou Mergulhão, mas Leandro Gomes de Barros, nascido no dia 19 de novembro de 1865, teria escrito a peleja de Manoel Riachão com o Diabo, em fins do século passado.

Sua afirmação, na última estrofe desta peleja (ver em detalhe) é um rico documento, pois evidencia a não contemporaneidade do Riachão com o rei dos autores da literatura de cordel. Ele nos dá um amplo sentido de longa distância ao afirmar: “Um velho daquela época a tem ainda gravada”.

Fonte:
Academia Brasileira de Literatura de Cordel
http://www.ablc.com.br/historia/hist_cordel.htm

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Métricas do Cordel

01 – O início
A evolução da literatura de cordel no Brasil não ocorreu de maneira harmoniosa. A oral, precursora da escrita, engatinhou penosamente em busca de forma estrutural. Os primeiros repentistas não tinham qualquer compromisso com a métrica e muito menos com o número de versos para compor as estrofes. Alguns versos alongavam-se inaceitavelmente, outros, demasiado breves. Todavia, o interlocutor respondia rimando a última palavra do seu verso com a última do parceiro, mais ou menos assim:

Repentista A – O cantor que pegá-lo de revés
Com o talento que tenho no meu braço…
Repentista B – Dou-lhe tanto que deixo num bagaço
Só de murro, de soco e ponta-pés.

02 – Parcela ou Verso de quatro sílabas
A parcela ou verso de quatro sílabas é o mais curto conhecido na literatura de cordel. A própria palavra não pode ser longa do contrário ela sozinha ultrapassaria os limites da métrica e o verso sairia de pé quebrado. A literatura de cordel por ser lida e ou cantada é muito exigente com questão da métrica. Vejamos uma estrofe de versos de quatro sílabas, ou parcela.

Eu sou judeu
para o duelo
cantar martelo
queria eu
o pau bateu
subiu poeira
aqui na feira
não fica gente
queimo a semente
da bananeira.

Quando os repentistas cantavam parcela (sim, cantavam, porque esta modalidade caiu em desuso), os versos brotavam numa seqüência alucinante, cada um querendo confundir mais rapida mente o oponente. Esta modalidade é pre-galdiniana, não se conhecendo seu autor.

03 – Verso de cinco sílabas
Já a parcela de cinco sílabas é mais recente, e não há registro de sua presença antes de Firmino Teixeira do Amaral, cunhado de Aderaldo Ferreira de Araújo, o Cego Aderaldo. A parcela de cinco sílabas era cantada também em ritmo acelerado, exigindo do repentista, grande rapidez de raciocínio. Na peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho do Tucum, da autoria de Firmino Teixeira do Amaral, encontramos estas estrofes:

Pretinho:
no sertão eu peguei
um cego malcriado
danei-lhe o machado
caiu, eu sangrei
o couro tirei
em regra de escala
espichei numa sala
puxei para um beco
depois dele seco
fiz dele uma mala

Cego:
Negro, és monturo
Molambo rasgado
Cachimbo apagado
Recanto de muro
Negro sem futuro
Perna de tição
Boca de porão
Beiço de gamela
Venta de moela
Moleque ladrão

Estas modalidades, entretanto, não foram as primeiras na literatura de cordel. Ao contrário, ela vieram quase um século depois das primeiras manifestações mais rudimentares que permitiram, inicialmente, as estrofes de quatro versos de sete sílabas.

04 – Estrofes de quatro versos de sete sílabas

O Mergulhão quando canta
Incha a veia do pescoço
Parece um cachorro velho
Quando está roendo osso.
Não tenho medo do homem
Nem do ronco que ele tem
Um besouro também ronca
Vou olhar não é ninguém

A evolução desta modalidade se deu naturalmente. Vejamos a última estrofe de quatro versos acrescida de mais dois, formando a nossa atual e definitiva sextilha:

Meu avô tinha um ditado
meu pai dizia também:
não tenho medo do homem
nem do ronco que ele tem
um besouro também ronca
vou olhar não é ninguém.

05 – Sextilhas
Agora, de posse da técnica de fazer sextilhas, e uma vez consagradas pelos autores, esta modalidade passou a ser a mais indicada para os longos poemas romanceados, principalmente a do exemplo acima, com o segundo, o quarto e o sexto versos rimando entre si, deixando órfãos o primeiro, terceiro e quinto versos. É a modalidade mais rica, obrigatória no início de qualquer combate poético, nas longas narrativas e nos folhetos de época. Também muito usadas nas sátiras políticas e sociais. É uma modalidade que apresenta nada menos de cinco estilos: aberto, fechado, solto, corrido e desencontrado. Vamos, pois, aos cinco exemplos:

Aberto:
Felicidade, és um sol
dourando a manhã da vida,
és como um pingo de orvalho
molhando a flor ressequida
és a esperança fagueira
da mocidade florida.

Fechado:
Da inspiração mais pura,
no mais luminoso dia,
porque cordel é cultura
nasceu nossa Academia
o céu da literatura,
a casa da poesia.

Solto:
Não sou rico nem sou pobre
não sou velho nem sou moço
não sou ouro nem sou cobre
sou feito de carne e osso
sou ligeiro como o gato
corro mais do que o vento.

Corrido:
Sou poeta repentista
Foi Deus quem me fez artista
Ninguém toma o meu fadário
O meu valor é antigo
Morrendo eu levo comigo
E ninguém faz inventário

Desencontrado:
Meu pai foi homem de bem
Honesto e trabalhador
Nunca negou um favor
Ao semelhante, também
Nunca falou de ninguém
Era um homem de valor.

06 – Setilhas
Uma prova de que as setilhas são uma modalidade relativamente recente está na ausência quase completa delas na grande produção de Leandro Gomes de Barros. Sim, porque pela beleza rítmica que essas estrofes oferecem ao declamador, os grandes poetas não conseguiram fugir à tentação de produzi-las. Para alguns, as setilhas, estrofes de sete versos de sete sílabas, foram criadas por José Galdino da Silva Duda, 1866 – 1931. A verdade é que o autor mais rico nessas composições, talvez por se tratar do maior humorista da literatura, de cordel, foi José Pacheco da Rocha, 1890 – 1954. No poema A CHEGADA DE LAMPIÃO NO INFERNO, do inventivo poeta pernambucano, encontram estas estrofes:

Vamos tratar da chegada
quando Lampião bateu
um moleque ainda moço
no portão apareceu.
– Quem é você, Cavalheiro –
– Moleque, sou cangaceiro –
Lampião lhe respondeu.

– Não senhor – Satanás, disse
vá dizer que vá embora
só me chega gente ruim
eu ando muito caipora
e já estou com vontade
de mandar mais da metade
dos que tem aqui pra fora.

Moleque não, sou vigia
e não sou o seu parceiro
e você aqui não entra
sem dizer quem é primeiro
– Moleque, abra o portão
saiba que sou Lampião
assombro do mundo inteiro.

Excelente para ser cantada nas reuniões festivas ou nas feiras, esta modalidade é, ainda hoje, muito usada pelos cordelistas. Esta modalidade é, também, usada em vários estilos de mourão, que pode ser cantado em seis, sete, oito e dez versos de sete sílabas. Exemplos:

Cantador A
Eu sou maior do que Deus
maior do que Deus eu sou

Cantador B
Você diz que não se engana
mas agora se enganou

Cantador A
Eu não estou enganado
eu sou maior no pecado
porque Deus nunca pecou.

Ou com todos os versos rimados, a exemplo das sextilhas explicadas antes:

Cantador A –
Este verso não é seu
você tomou emprestado

Cantador B –
Não reclame o verso meu
que é certo e metrificado

Cantador A –
Esse verso é de Noberto
Se fosse seu estava certo
como não é está errado.

07 – Oito pés de quadrão ou Oitavas
Os oito pés de quadrão, ou simplesmente oitavas, são estrofes de oito versos de sete sílabas. A diferença dessas estrofes de cunho popular para as de linha clássica é apenas a disposição das rimas. Vejam como o primeiro e o quinto versos desta oitava de Casimiro de Abreu (1837 – 1860) são órfãos:

Como são belos os dias
Do despontar da existência
– Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar – é lago sereno,
O Céu – Um manto azulado,
O mundo – um sonho dourado,
A vida um hino de amor.

Na estrofe popular aparecem os primeiros três versos rimados entre si; também o quinto, o sexto e o sétimo, e finalmente o quarto com o último, não havendo, portanto um único verso órfão. Assim:

Diga Deus Onipotente
Se é você, realmente
Que autoriza, que consente
No meu sertão tanta dor
Se o povo imerso no lodo
apregoa com denodo
que seu coração é todo
De luz, de paz e de amor.

08 – Décimas
As décimas, dez versos de sete sílabas, são, desde sua criação no limiar do nosso século, as mais usadas pelos poetas de bancada e pelos repentistas. Excelentes para glosar motes, esta modalidade só perde para as sextilhas, especialmente escolhidas para narrativas de longo fôlego. Ainda assim, entre muitos exemplos, as décimas foram escolhidas por Leandro Gomes de Barros para compor o longo poema épico de cavalaria A BATALHA DE OLIVEIROS COM FERRABRAZ, baseado na obra do imperador francês Carlos Magno:

Eram doze cavalheiros
Homens muito valorosos
Destemidos, corajosos
Entre todos os Guerreiros
Como bem fosse Oliveiros
um dos pares de fiança
Que sua perseverança
Venceu todos os infiéis
Eram uns leões cruéis
Os doze pares de França.

09 – Martelo Agalopado
O Martelo agalopado, estrofe dez versos de dez sílabas, é uma das modalidades mais antigas na literatura de cordel. Criada pelo professor Jaime Pedro Martelo (1665 – 1727), as martelianas não tinham, como o nosso martelo agalopado, compromisso com o número de versos para a composição das estrofes. Alongava-se com rimas pares, até completar o sentido desejado. Como exem plo, vejamos estes alexandrinos

“Visitando Deus a Adão no Paraíso
achou-o triste por viver no abandono,
fê-lo dormir logo um pesado sono
e lhe arrancou uma costela, de improviso
estando fresca ficou Deus indeciso
e a pôs ao Sol para secar um momento
mas por causa, talvez dum esquecimento
chegou um cachorro e a carregou,
nessa hora furioso Deus ficou
com a grande ousadia do animal
que lhe furtara o bom material
feito para a construção da mulher,
estou certo, acredite quem quiser
eu não sou mentiroso nem vilão,
nessa hora correu Deus atrás do cão
e não podendo alcançar-lhe e dá-lhe cabo
cortou-lhe simplesmente o meio rabo
e enquanto Adão estava na trevas
Deus pegou o rabo do cão e fez a Eva.”

Com tamanha irresponsabilidade, totalmente inaceitável na literatura de cordel, o estilo mergulhou, desde o desaparecimento do professor Jaime Pedro Martelo em 1727, em completo esquecimento, até que em 1898, José Galdino da Silva Duda dava à luz feição definitiva ao nosso atual martelo agalopado, tão querido quanto lindo. Pedro Bandeira não nos deixa mentir:

Admiro demais o ser humano
que é gerado num ventre feminino
envolvido nas dobras do destino
e calibrado nas leis do Soberano
quando faltam três meses para um ano
a mãe pega a sentir uma moleza
entre gritos lamúrias e esperteza
nasce o homem e aos poucos vai crescendo
e quando aprende a falar já é dizendo:
quanto é grande o poder da Natureza.

Há, também, o martelo de seis versos, como sempre, refinado, conforme veremos nesta estrofe:

Tenho agora um martelo de dez quinas
fabricado por mãos misteriosas
enfeitado de pedras cristalinas
das mais raras, bastante preciosas,
foi achado nas águas saturninas
pelas musas do céu, filhas ditosas.

10 – Galope à Beira Mar
Com versos de onze sílabas, portanto mais longos do que os de martelo agalopado, são os de galope à beira mar, como estes da autoria de Joaquim Filho:

Falei do sopapo das águas barrentas
de uma cigana de corpo bem feito
da Lua, bonita brilhando no leito
da escuridão das nuvens cinzentas
do eco do grande furor das tormentas
da água da chuva que vem pra molhar
do baile das ondas, que lindo bailar
da areia branca, da cor de cambraia
da bela paisagem na beira da praia
assim é galope na beira do mar.

Logicamente que há o galope alagoano, à feição de martelo agalopado, com dez versos de dez sílabas cuja diferença única é a obrigatoriedade do mote: “Nos dez pés de galope alagoano”.

11 – Meia Quadra
Outra interessante modalidade é a Meia Quadra ou versos de quinze sílabas. Não sabemos porque se convencionou chamar de meia quadra, quando poderia, muito bem, se chamar de quadra e meia ou até de quadra dupla. As rimas são emparelhadas e os versos, assim compostos:

Quando eu disser dado é dedo você diga dedo é dado
Quando eu disser gado é boi você diga boi é gado
Quando eu disser lado é banda você diga banda é lado
Quando eu disser pão é massa você diga massa é pão

Quando eu disser não é sim você diga sim é não
Quando eu disser veia é sangue você diga sangue é veia
Quando eu disser meia quadra você diga quadra e meia
Quando eu disser quadra e meia você diga meio quadrão.

A classificação da literatura de cordel há sido objeto da preocupação dos chamados iniciados, pesquisadores e estudiosos. As classificações mais conhecidas são a francesa de Robert Mandrou, a espanhola de Julio Caro Baroja, as brasileiras de Ariano Suassuna, Cavalcanti Proença, Orígenes Lessa, Roberto Câmara Benjamin e Carlos Alberto Azevedo. Mas a classificação autenticamente popular nasceu da boca dos próprios poetas.

No limiar do presente século, quando já brilhava intensamente à luz de Leandro Gomes de Barros, fluía abundante o estro de Silvino Pirauá e jorrava preciosa a veia poética de José Galdino da Silva Duda. Esses enviados especiais passaram a dominar com facilidade a rima escorregadia, amoldando, também, no corpo da estrofe o verso rebelde. Era o início de uma literatura tipicamente nordestina e por extensão, brasileira, não havendo mais, nos nossos dias, qualquer vestígio da herança peninsular.

Atualmente a literatura de cordel é escrita em composições que vão desde os versos de quatro ou cinco sílabas ao grande alexandrino. Até mes mo os princípios conservadores defendidos pelos nossos autores ortodoxos referem-se a uma tradição brasileira e não portuguesa ou espanhola. Os textos dos autores contemporâneos, apresentam um cuidado especial com a uniformização ortográfica, com o primor das rimas, com a beleza rítmica e com a preciosidade sonora.

Fonte:
Academia Brasileira de Literatura de Cordel
http://www.ablc.com.br/popups/metrica/metrica.htm

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Apolônio Alves dos Santos (A Discussão do Carioca com o Pau-de-Arara)

Já que sou simples poeta
poesia é meu escudo
com ela é que me defendo
já que não tive outro estudo
vou mostrar para o leitor
que o poeta escritor
vive pesquisando tudo

Certo dia feriado
sendo o primeiro do mês
fui tomar uma cerveja
no bar de um português
lá assisti uma cena
agora pego na pena
para contar pra vocês

Quando eu estava sentado
chegou nessa ocasião
um velho pernambucano
daqueles lá do sertão
com a maior ligeireza
foi se sentando na mesa
pediu uma refeição

O português logo trouxe
um prato grande sortido
o nortista vendo aquilo
ficou logo enfurecido
com um gesto carrancudo
começou mexendo tudo
depois falou constrangido

Patrício não leve a mal
nem me queira achar ruim
toda espécie de comida
que você tem é assim?
desculpe minha expressão
mas a sua refeição
não vai servir para mim

Nesta hora o português
ficou zangado também
lhe respondeu ora bola
donde é que você vem?
difamando deste jeito
me diga qual o defeito
que esta comida tem?

O nortista disse eu sofro
um ataque entistinal
a carne está quase podre
o arroz tem muito sal
o feijão está azedo
de comer eu tenho medo
que pode me fazer mal

— O meu estômago não dá
pra receber este entulho
prefiro morrer de fome
mas não como este basculho
pois comendo sei que morro
lá no norte nem cachorro
não come todo bagulho

O português respondeu
você é péssimo freguês
vá embora e faz favor
não vir aqui outra vez
mas antes tem que pagar
não posso lhe perdoar
a desfeita que me fez

O nortista disse eu pago
que isto não me embaraça
para você não pensar
que eu vim comer de graça
mas o nortista de nome
embora morra de fome
mas não come esta desgraça

Acontece que ali
se achava um carioca
disse ele só conhece
farinha de mandioca
todo nortista poeira
só gosta de macacheira
girimum e tapioca

Disse o nortista é porisso
que o nordestino é forçoso
porque no meu velho norte
se come pirão gostoso
com farinha de mandioca
aqui só dá carioca
doente tuberculoso

C. — Respondeu o carioca
não queira tanto agravar
seu nordeste é muito bom
mas lá ninguém quer ficar
deixou lá seu pé de serra
e veio pra minha terra
para poder escapar

N. — Aqui também me pertence
o nortista respondeu
eu sou nato brasileiro
o Brasil é todo meu
o homem precisa andar
para poder desfrutar
do país onde nasceu

C. — O carioca rompeu
nordestino é curioso
além de ter olho grande
é demais ambicioso
chega aqui se amaloca
na terra do carioca
doente tuberculoso

N. — Disse o nortista é porque
nosso Rio de Janeiro
precisa do nordestino
pois é um povo ordeiro
pra quem derrama suor
aqui no Rio é melhor
para se ganhar dinheiro

C. — Mas no Rio de Janeiro
tem operário de sobra
não precisa nordestino
vir aqui fazer manobra
nordestino é atrevido
aqui já é conhecido
por camondonga de obra

N. — Você me diz isso tudo
pra me desclassificar
mas aqui as companhias
preferem mais empregar
os nordestinos que vem
pois carioca não tem
coragem de trabalhar

C. — É porque o carioca
gosta da civilidade
não é defeito ninguém
viver da facilidade
pois ninguém não é cavalo
pra viver criando calo
sem haver necessidade

N. — O carioca só gosta
de viver da malandragem
do jogo e da bebedeira
do vício e da vadiagem
porisso o país da gente
não pode ir para a frente
por causa da pilantragem

C. — O carioca está certo
pensando assim pensa bem
o carioca não gosta
de ser sujeito a ninguém
nem dá valor a operário
que só vive do salário
luta muito e nada tem

N. — Já eu penso diferente
você precisa entender
que nosso mundo é composto
de tudo precisa ter
se não fosse o operário
o rico milionário
como podia viver?

C. — Mas o nortista trabalha
porque é muito uzurario
tem alguém que vem pra qui
mas lá é proprietário
pois devido a ambição
enfrenta até fundação
com os olhos no salário

N. — É porque o nordestino
é um homem acostumado
a só viver do trabalho
não ignora o pesado
não é como o carioca
que só vive da fofoca
da malandragem e do fado

C. — Tinha graça o carioca
se misturar com cimento
como faz o nordestino
que chega ficar cinzento
carioca só procura
um emprego que figura
moral e comportamento

N. — Não é todo carioca
que tem a capacidade
de assumir um emprego
de alta dignidade
precisa de estudar
para assumir um lugar
de responsabilidade

C. — Você aí está certo
o estudo está na frente
porque o mundo ficou
para o mais inteligente
assim diz quem for ativo
o operário é cativo
num país independente

N. — Pois eu gosto do trabalho
e vivo sempre disposto
pois o homem que trabalha
a Jesus dá grande gosto
porque Deus disse a Adão
hás de ganhar o teu pão
com o suor do teu rosto

C. — Então você é Adão
que veio do paraíso
faça lá o que quiser
que de você não preciso
nem vou na sua maloca
porque sou um carioca
que honro o chão onde piso

N. — Nem de você eu preciso
que você é fracassado
pelos traços já se vê
que você é pé rapado
e quem fala deste jeito
só pode ser um sujeito
ignorante atrasado

C. — Disse o carioca eu vivo
com minha alma tristonha
vou embora para onde
o nordestino nem sonha
vou esconder minha cara
para este pau-de-arara
não me matar de vergonha
====================
Apolônio Alves dos Santos

Natural de Guarabira, PB, transferiu-se para o Rio de Janeiro no ano de 1950, onde exerceu a profissão de pedreiro, até viver da sua poesia. Seu primeiro folheto foi “MARIA CARA DE PAU E O PRÍNCIPE GREGORIANO”, publicado ainda em Guarabira.
Faleceu em 1998, em Campina Grande, na Paraíba, deixando aproximadamente 120 folhetos publicados e acreditando ser o folheto “EPITÁCIO E MARINA”, o mais importante da sua carreira de poeta cordelista.
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Fonte:
Academia Brasileira de Literatura de Cordel
http://www.ablc.com.br/

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Zé da Luz (Brasi Caboco)

O qui é Brasí Caboco?
É um Brasi diferente
do Brasí das capitá.
É um Brasi brasilêro,
sem mistura de instrangero,
um Brasi nacioná!

É o Brasi qui não veste
liforme de gazimira,
camisa de peito duro,
com butuadura de ouro…
Brasi caboco só veste,
camisa grossa de lista,
carça de brim da “polista”
gibão e chapéu de coro!

Brasi caboco num come
assentado nos banquete,
misturado cum os home
de casaca e anelão…
Brasi caboco só come
o bode seco, o feijão,
e as veiz uma panelada,
um pirão de carne verde,
nos dias da inleição
quando vai servi de iscada
prus home de posição.

Brasi caboco num sabe
falá ingrês nem francês,
munto meno o português
qui os outros fala imprestado…
Brasi caboco num inscreve;
munto má assina o nome
pra votar pru mode os home
Sê gunverno e diputado
Mas porém. Brasi caboco,
é um Brasi brasileiro,
sem mistura de instrangero
Um Brasi nacioná!

É o Brasi sertanejo
dos coco, das imbolada,
dos samba, dos vialejo,
zabumba e caracaxá!
É o Brasi das vaquejada,
do aboio dos vaquero,
do arranco das boiada
nos fechado ou tabulero!
É o Brasi das caboca
qui tem os óio feiticero,
qui tem a boca incarnada,
como fruta de cardoro
quando ela nasce alejada!

É o Brasi das promessa
nas noite de São João!
dos carro de boi cantano
pela boca dos cocão.

É o Brasi das caboca
qui cum sabença gunverna,
vinte e cinco pá-de-birro
cum a munfada entre as perna!
Brasi das briga de galo!
do jogo de “sôco-tôco”!
É o Brasi dos caboco
amansadô de cavalo!

É o Brasi dos cantadô,
desses caboco afamado,
qui nos verso improvisado,
sirrindo, cantáro o amô;
cantando choraro as mágua:
Brasi de Pelino Guedes,
de Inácio da Catingueira,
de Umbelino do Texera
e Romano de Mãe-d’água!

É o Brasi das caboca,
qui de noite se dibruça,
machucando o peito virge
no batente das jinela…
Vendo, os caboco pachola
qui geme, chora e soluça
nas cordas de uma viola,
ruendo paxão pru ela!

É esse o Brasi caboco.
Um Brasi bem brasilero,
sem mistura de instrangêro
Um Brasi nacioná!
Brasi, qui foi, eu tô certo
argum dia discuberto,
pru Pêdo Arves Cabrá.
================
Zé da Luz
Severino de Andrade Silva, nasceu em Itabaiana, PB, em 29/03/1904 e faleceu no Rio de Janeiro-RJ, em 12/02/1965. O trabalho de Zé da Luz é conhecido pela linguagem matuta presente em seus cordéis.

Fonte:
http://www.ablc.com.br/historia/hist_cordelistas.htm

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Machado de Assis (Como se inventaram os almanaques)

Some-te, bibliógrafo! Não tenho nada contigo. Nem contigo, curioso de histórias poentas.

Sumam-se todos; o que vou contar interessa a outras pessoas menos especiais e muito menos aborrecidas. Vou dizer como se inventaram os almanaques.

Sabem que o Tempo é, desde que nasceu, um velho de barbas brancas. Os poetas não lhe dão outro nome: o velho Tempo. Ninguém o pintou de outra maneira. E como há quem tome liberdades com os velhos, uns batem-lhe na barriga (são os patuscos), outros chegam a desafiá-lo; outros lutam com ele, mas o diabo vence-os a todos; é de regra.

Entretanto, uma coisa é barba, outra é coração. As barbas podem ser velhas e os corações novos; e vice-versa: há corações velhos com barbas recentes. Não é regra, mas dá-se. Deu-se com o Tempo. Um dia o Tempo viu uma menina de quinze anos, bela como a tarde, risonha como a manhã, sossegada como a noite, um composto de graças raras e finas, e sentiu que alguma coisa lhe batia do lado esquerdo. Olhou para ela e as pancadas cresceram. Os olhos da menina, verdadeiros fogos, faziam arder os dele só com fitá-los.

— Que é isto? murmurou o velho.

E os beiços do Tempo entraram a tremer e o sangue andava mais depressa, como cavalo chicoteado, e todo ele era outro. Sentiu que era amor; mas olhou para o oceano, vasto espelho, e achou-se velho. Amaria aquela menina a um varão tão idoso? Deixou o mar, deixou a bela, e foi pensar na batalha de Salamina.

As batalhas velhas eram para ele como para nos os velhos sapatos. Que lhe importava Salamina? Repetiu-a de memória, e por desgraça dele, viu a mesma donzela entre os combatentes, ao lado de Temístocles. Dias depois trepou a um píncaro, o Chimborazo; desceu ao deserto de Sinai; morou no sol, morou na lua; em toda parte lhe aparecia a figura de bela menina de quinze anos. Afinal ousou ir ter com ela.

— Como te chamas, linda criatura? — Esperança é o meu nome. — Queres amar-me? — Tu estás carregado de anos, respondeu ela; eu estou na flor deles. O casamento é impossível. Como te chamas? — Não te importe o meu nome; basta saber que te posso dar todas as pérolas de Golconda…

— Adeus! — Os diamantes de Ofir…

— Adeus! — As rosas de Saarão…

— Adeus! Adeus! — As vinhas de Engaddi…

— Adeus! adeus! adeus! Tudo isso há de ser meu um dia; um dia breve ou longe, um dia…

Esperança fugiu. O Tempo ficou a olhar, calado, até que a perdeu de todo. Abriu a boca para amaldiçoá-la, mas as palavras que lhe saíam eram todas de bênção; quis cuspir no lugar em que a donzela pousara os pés, mas não pôde impedir-se de beijá-lo.

Foi por essa ocasião que lhe acudiu a idéia do almanaque. Não se usavam almanaques.

Vivia-se sem eles; negociava-se, adoecia-se, morria-se, sem se consultar tais livros.

Conhecia-se a marcha do sol e da lua; contavam-se os meses e os anos; era, ao cabo, a mesma coisa; mas não ficava escrito, não se numeravam anos e semanas, não se nomeavam dias nem meses, nada; tudo ia correndo, como passarada que não deixa vestígios no ar.

— Se eu achar um modo de trazer presente aos olhos os dias e os meses, e o reproduzir todos os anos, para que ela veja palpavelmente ir-se-lhe a mocidade…

Raciocínio de velho, mas tudo se perdoa ao amor, ainda quando ele brota de ruínas. O Tempo inventou o almanaque; compôs um simples livro, seco, sem margens, sem nada; tão-somente os dias, as semanas, os meses e os anos. Um dia, ao amanhecer, toda a terra viu cair do céu uma chuva de folhetos; creram a princípio que era geada de nova espécie, depois, vendo que não, correram todos assustados; afinal, um mais animoso pegou de um dos folhetos, outros fizeram a mesma coisa, leram e entenderam. O almanaque trazia a língua das cidades e dos campos em que caía. Assim toda a terra possuiu, na mesmo instante, os primeiros almanaques. Se muitos povos os não têm ainda hoje, se outros morreram sem os ler, é porque vieram depois dos acontecimentos que estou narrando. Naquela ocasião o dilúvio foi universal.

— Agora, sim, disse Esperança pegando no folheto que achou na horta; agora já me não engano nos dias das amigas. Irei jantar ou passar a noite com elas, marcando aqui nas folhas, com sinais de cor os dias escolhidos.

Todas tinham almanaques. Nem só elas, mas também as matronas, e os velhos e os rapazes, juízes, sacerdotes, comerciantes, governadores, fâmulos; era moda trazer o almanaque na algibeira. Um poeta compôs um poema atribuindo a invenção da obra às Estações, por ordem de seus pais, o Sol e a Lua; um astrônomo, ao contrário, provou que os almanaques eram destroços de um astro onde desde a origem dos séculos estavam escritas as línguas faladas na terra e provavelmente nos outros planetas. A explicação dos teólogos foi outra. Um grande físico entendeu que os almanaques eram obra da própria terra, cujas palavras, acumuladas no ar, formaram-se em ordem, imprimiram-se no próprio ar, convertido em folhas de papel, graças… Não continuou; tantas e tais eram as sentenças, que a de Esperança foi a mais aceita do povo.

– Eu creio que o almanaque é o almanaque, dizia ela rindo.

Quando chegou o fim do ano, toda a gente, que trazia o almanaque com mil cuidados, para consultá-lo no ano seguinte, ficou espantada de ver cair à noite outra chuva de almanaques. Toda a terra amanheceu alastrada deles; eram os do ano novo. Guardaram naturalmente os velhos. Ano findo, outro almanaque; assim foram eles vindo, até que Esperança contou vinte e cinco anos, ou, como então se dizia, vinte e cinco almanaques.

Nunca os dias pareceram correr tão depressa. Voavam as semanas, com elas os meses, e, mal o ano começava, estava logo findo. Esse efeito entristeceu a terra. A própria Esperança, vendo que os dias passavam tão velozes, e não achando marido, pareceu desanimada; mas foi só um instante. Nesse mesmo instante apareceu-lhe o Tempo.

— Aqui estou, não deixes que te chegue a velhice… Ama-me…

Esperança respondeu-lhe com duas gaifonas, e deixou-se estar solteira. Há de vir o noivo, pensou ela.

Olhando-se ao espelho, viu que mui pouco mudara. Os vinte e cinco almanaques quase lhe não apagaram a frescura dos quinze. Era a mesma linda e jovem Esperança. O velho Tempo, cada vez mais afogueado em paixão, ia deixando cair os almanaques, ano por ano, até que ela chegou aos trinta e daí aos trinta e cinco.

Eram já vinte almanaques; toda a gente começava a odiá-los, menos Esperança, que era a mesma menina das quinze primaveras. Trinta almanaques, quarenta, cinqüenta, sessenta, cem almanaques; velhices rápidas, mortes sobre mortes, recordações amargas e duras. A própria Esperança, indo ao espelho, descobriu um fio de cabelo branco e uma ruga.

— Uma ruga! Uma só! Outras vieram, à medida dos almanaques. Afinal a cabeça de Esperança ficou sendo um pico de neve, a cara um mapa de linhas. Só o coração era verde como acontecia ao Tempo; verdes ambos, eternamente verdes. Os almanaques iam sempre caindo. Um dia, o Tempo desceu a ver a bela Esperança; achou-a anciã, mas forte, com um perpétuo riso nos lábios.

— Ainda assim te amo, e te peço… disse ele.

Esperança abanou a cabeça; mas, logo depois, estendeu-lhe a mão.

— Vá lá, disse ela; ambos velhos, não será longo o consórcio.

— Pode ser indefinido.

— Como assim? O velho Tempo pegou da noiva e foi com ela para um espaço azul e sem termos, onde a alma de um deu à alma de outro o beijo da eternidade. Toda a criação estremeceu deliciosamente. A verdura dos corações ficou ainda mais verde.

Esperança, daí em diante, colaborou nos almanaques. Cada ano, em cada almanaque, atava Esperança uma fita verde. Então a tristeza dos almanaques era assim alegrada por ela; e nunca o Tempo dobrou uma semana que a esposa não pusesse um mistério na semana seguinte. Deste modo todas elas foram passando, vazias ou cheias, mas sempre acenando com alguma coisa que enchia a alma dos homens de paciência e de vida.

Assim as semanas, assim os meses, assim os anos. E choviam almanaques, muitos deles entremeados e adornados de figuras, de versos, de contos, de anedotas, de mil coisas recreativas. E choviam. E chovem. E hão de chover almanaques. O Tempo os imprime, Esperança os brocha; é toda a oficina da vida.

Fonte:
http://www.dominiopublico.gov.br

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Fernando Sabino (A mulher do vizinho)

Contaram-me que na rua onde mora (ou morava) um conhecido e antipático general de nosso Exército morava (ou mora) também um sueco cujos filhos passavam o dia jogando futebol com bola de meia. Ora, às vezes acontecia cair a bola no carro do general e um dia o general acabou perdendo a paciência, pediu ao delegado do bairro para dar um jeito nos filhos do sueco.

O delegado resolveu passar uma chamada no homem, e intimou-o a comparecer à delegacia.

O sueco era tímido, meio descuidado no vestir e pelo aspecto não parecia ser um importante industrial, dono de grande fabrica de papel (ou coisa parecida), que realmente ele era. Obedecendo a ordem recebida, compareceu em companhia da mulher à delegacia e ouviu calado tudo o que o delegado tinha a dizer-lhe. O delegado tinha a dizer-lhe o seguinte:

— O senhor pensa que só porque o deixaram morar neste país pode logo ir fazendo o que quer? Nunca ouviu falar numa coisa chamada AUTORIDADES CONSTITUÍDAS? Não sabe que tem de conhecer as leis do país? Não sabe que existe uma coisa chamada EXÉRCITO BRASILEIRO que o senhor tem de respeitar? Que negócio é este? Então é ir chegando assim sem mais nem menos e fazendo o que bem entende, como se isso aqui fosse casa da sogra? Eu ensino o senhor a cumprir a lei, ali no duro: dura lex! Seus filhos são uns moleques e outra vez que eu souber que andaram incomodando o general, vai tudo em cana. Morou? Sei como tratar gringos feito o senhor.

Tudo isso com voz pausada, reclinado para trás, sob o olhar de aprovação do escrivão a um canto. O sueco pediu (com delicadeza) licença para se retirar. Foi então que a mulher do sueco interveio:

— Era tudo que o senhor tinha a dizer a meu marido?

O delegado apenas olhou-a espantado com o atrevimento.

— Pois então fique sabendo que eu também sei tratar tipos como o senhor. Meu marido não e gringo nem meus filhos são moleques. Se por acaso incomodaram o general ele que viesse falar comigo, pois o senhor também está nos incomodando. E fique sabendo que sou brasileira, sou prima de um major do Exército, sobrinha de um coronel, E FILHA DE UM GENERAL! Morou?

Estarrecido, o delegado só teve forças para engolir em seco e balbuciar humildemente:

— Da ativa, minha senhora?

E ante a confirmação, voltou-se para o escrivão, erguendo os braços desalentado:

— Da ativa, Motinha! Sai dessa…

Fonte:
“Fernando Sabino – Obra Reunida – Vol.01”, Editora Nova Aguiar – Rio de Janeiro, 1996. in http://www.releituras.com/

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Machado de Assis (Anetoda do Cabriolet)

– CABRIOLET está aí, sim senhor, dizia o preto que viera à matriz de S. José chamar o vigário para sacramentar dous moribundos.

A geração de hoje não viu a entrada e a saída do cabriolet no Rio de Janeiro. Também não saberá do tempo em que o cab e o tilbury vieram para o rol dos nossos veículos de praça ou particulares. O cab durou pouco. O tilbury, anterior aos dous, promete ir à destruição da cidade. Quando esta acabar e entrarem os cavadores de ruínas, achar-se-á um parado, com o cavalo e o cocheiro em ossos esperando o freguês do costume. A paciência será a mesma de hoje, por mais que chova, a melancolia maior, como quer que brilhe o sol, porque juntará a própria atual à do espectro dos tempos. O arqueólogo dirá cousas raras sobre os três esqueletos. O cabriolet não teve história; deixou apenas a anedota que vou dizer.

– Dous! exclamou o sacristão.

– Sim, senhor, dous, nhã Anunciada e nhô Pedrinho. Coitado de nhô Pedrinho! E nhã Anunciada, coitada! continuou o preto a gemer, andando de um lado para outro, aflito, fora de si.

Alguém que leia isto com a alma turva de dúvidas, é natural que pergunte se o preto sentia deveras, ou se queria picar a curiosidade do coadjutor e do sacristão. Eu estou que tudo se pode combinar neste mundo, como no outro. Creio que ele sentia deveras; não descreio que ansiasse por dizer alguma história terrível. Em todo caso, nem o coadjutor nem o sacristão lhe perguntavam nada.

Não é que o sacristão não fosse curioso. Em verdade, pouco mais era que isso. Trazia a paróquia de cor; sabia os nomes às devotas, a vida delas, a dos maridos e a dos pais, as prendas e os recursos de cada uma, e o que comiam, e o que bebiam, e o que diziam, os vestidos e as virtudes, os dotes das solteiras, o comportamento das casadas, as saudades das viúvas. Pesquisava tudo: nos intervalos ajudava a missa e o resto. Chamava-se João das Mercês, homem quarentão, pouca barba e grisalho, magro e meão.

“Que Pedrinho e que Anunciada serão esses?” dizia consigo, acompanhando o coadjutor.

Embora ardesse por sabê-los, a presença do coadjutor impediria qualquer pergunta. Este ia tão calado e pio, caminhando para a porta da igreja, que era força mostrar o mesmo silêncio e piedade que ele. Assim foram andando. O cabriolet esperava-os; o cocheiro desbarretou-se, os vizinhos e alguns passantes ajoelharam-se, enquanto o padre e o sacristão entravam e o veículo enfiava pela Rua da Misericórdia. O preto desandou o caminho a passo largo.

Que andem burros e pessoas na rua, e as nuvens no céu, se as há, e os pensamentos nas cabeças, se os têm. A do sacristão tinha-os vários e confusos. Não era acerca do Nosso- Pai, embora soubesse adorá-lo, nem da água benta e do hissope que levava; também não era acerca da hora, — oito e quarto da noite, — aliás, o céu estava claro e a lua ia aparecendo. O próprio cabriolet, que era novo na terra, e substituía neste caso a sege, esse mesmo veículo não ocupava o cérebro todo de João das Mercês, a não ser na parte que pegava com nhô Pedrinho e nhã Anunciada.

“Há de ser gente nova, ia pensando o sacristão, mas hóspede em alguma casa, decerto, porque não há casa vazia na praia, e o número é da do Comendador Brito. Parentes, serão? Que parentes, se nunca ouvi… ? Amigos, não sei; conhecidos, talvez, simples conhecidos. Mas então mandariam cabriolet? Este mesmo preto é novo na casa; há de ser escravo de um dos moribundos, ou de ambos.” Era assim que João das Mercês ia cogitando, e não foi por muito tempo. O cabriolet parou à porta de um sobrado, justamente a casa do Comendador Brito, José Martins de Brito. Já havia algumas pessoas embaixo com velas, o padre e o sacristão apearam-se e subiram a escada, acompanhados do comendador. A esposa deste, no patamar, beijou o anel ao padre. Gente grande, crianças, escravos, um burburinho surdo, meia claridade, e os dous moribundos à espera, cada um no seu quarto, ao fundo.

Tudo se passou, como é de uso e regra, em tais ocasiões. Nhô Pedrinho foi absolvido e ungido, nhã Anunciada também, e o coadjutor despediu-se da casa para tornar à matriz com o sacristão. Este não se despediu do comendador sem lhe perguntar ao ouvido se os dous eram parentes seus. Não, não eram parentes, respondeu Brito; eram amigos de um sobrinho que vivia em Campinas; uma história terrível… Os olhos de João das Mercês escutaram arregaladamente estas duas palavras, e disseram, sem falar, que viriam ouvir o resto — talvez naquela mesma noite. Tudo foi rápido, porque o padre descia a escada, era força ir com ele.

Foi tão curta a moda do cabriolet que este provavelmente não levou outro padre a moribundos. Ficou-lhe a anedota, que vou acabar já, tão escassa foi ela, uma anedota de nada. Não importa. Qualquer que fosse o tamanho ou a importância, era sempre uma fatia de vida para o sacristão, que ajudou o padre a guardar o pão sagrado, a despir a sobrepeliz, e a fazer tudo mais, antes de se despedir e sair. Saiu, enfim, a pé, rua acima, praia fora, até parar à porta do comendador.

Em caminho foi evocando toda a vida daquele homem, antes e depois da comenda.

Compôs o negócio, que era fornecimento de navios, creio eu, a família, as festas dadas, os cargos paroquiais, comerciais e eleitorais, e daqui aos boatos e anedotas não houve mais que um passo ou dois. A grande memória de João das Mercês guardava todas as cousas, máximas e mínimas, com tal nitidez que pareciam da véspera, e tão completas que nem o próprio objeto delas era capaz de as repetir iguais. Sabia-as como o padrenosso, isto é sem pensar nas palavras; ele rezava tal qual comia, mastigando a oração, que lhe saía dos queixos sem sentir. Se a regra mandasse rezar três dúzias de padrenossos seguidamente, João das Mercês os diria sem contar. Tal era com as vidas alheias; amava sabê-las, pesquisava-as, decorava-as, e nunca mais lhe saíam da memória.

Na paróquia todos lhe queriam bem, porque ele não enredava nem maldizia. Tinha o amor da arte pela arte. Muita vez nem era preciso perguntar nada. José dizia-lhe a vida de Antônio e Antônio a de José. O que ele fazia era ratificar ou retificar um com outro, e os dous com Sancho, Sancho com Martinho, e vice-versa, todos com todos. Assim é que enchia as horas vagas, que eram muitas. Alguma vez, à própria missa, recordava uma anedota da véspera, e, a princípio, pedia perdão a Deus; deixou de lho pedir quando refletiu que não falhava uma só palavra ou gesto do santo sacrifício, tão consubstanciados os trazia em si. A anedota que então revivia por instantes era como a andorinha que atravessa uma paisagem. A paisagem fica sendo a mesma, e a água, se há água, murmura o mesmo som. Esta comparação, que era dele, valia mais do que ele pensava, porque a andorinha, ainda voando, faz parte da paisagem, e a anedota fazia nele parte da pessoa, era um dos seus atos de viver.

Quando chegou à casa do comendador, tinha desfiado o rosário da vida deste, e entrou com o pé direito para não sair mal. Não pensou em sair cedo, por mais aflita que fosse a ocasião, e nisto a fortuna o ajudou. Brito estava na sala da frente, em conversa com a mulher, quando lhe vieram dizer que João das Mercês perguntava pelo estado dos moribundos. A esposa retirou-se da sala, o sacristão entrou pedindo desculpas e dizendo que era por pouco tempo; ia passando e lembrara-se de saber se os enfermos tinham ido para o céu, — ou se ainda eram deste mundo. Tudo o que dissesse respeito ao comendador seria ouvido por ele com interesse.

– Não morreram, nem sei se escaparão, quando menos, ela creio que morrerá, concluiu Brito.

– Parecem bem mal.

– Ela, principalmente; também é a que mais padece da febre. A febre os pegou aqui em nossa casa, logo que chegaram de Campinas, há dias.

– Já estavam aqui? perguntou o sacristão, pasmado de o não saber.

– Já; chegaram há quinze dias, — ou quatorze. Vieram com o meu sobrinho Carlos e aqui apanharam a doença…

Brito interrompeu o que ia dizendo; assim pareceu ao sacristão, que pôs no semblante toda a expressão de pessoa que espera o resto. Entretanto, como o outro estivesse a morder os beiços e a olhar para as paredes, não viu o gesto de espera, e ambos se detiveram calados. Brito acabou andando ao longo da sala, enquanto João das Mercês dizia consigo que havia alguma cousa mais que febre. A primeira idéia que lhe acudiu foi se os médicos teriam errado na doença ou no remédio, também pensou que podia ser outro mal escondido, a que deram o nome de febre para encobrir a verdade. Ia acompanhando com os olhos o comendador, enquanto este andava e desandava a sala toda, apagando os passos para não aborrecer mais os que estavam dentro. De lá vinha algum murmúrio de conversação, chamado, recado, porta que se abria ou fechava. Tudo isso era cousa nenhuma para quem tivesse outro cuidado, mas o nosso sacristão já agora não tinha mais que saber o que não sabia. Quando menos, a família dos enfermos, a posição, o atual estado, alguma página da vida deles, tudo era conhecer algo, por mais arredado que fosse da paróquia.

– Ah! exclamou Brito estacando o passo.

Parecia haver nele o desejo impaciente de referir um caso, — a “história terrível”, que anunciara ao sacristão, pouco antes; mas nem este ousava pedi-la nem aquele dizê-la, e o comendador pegou a andar outra vez.

João das Mercês sentou-se. Viu bem que em tal situação cumpria despedir-se com boas palavras de esperança ou de conforto, e voltar no dia seguinte; preferiu sentar-se e aguardar. Não viu na cara do outro nenhum sinal de reprovação do seu gesto; ao contrário, ele parou defronte e suspirou com grande cansaço.

– Triste, sim, triste, concordou João das Mercês. Boas pessoas, não? — Iam casar.

– Casar? Noivos um do outro? Brito confirmou de cabeça. A nota era melancólica, mas não havia sinal da história terrível anunciada, e o sacristão esperou por ela. Observou consigo que era a primeira vez que ouvia alguma cousa de gente que absolutamente não conhecia. As caras, vistas há pouco eram o único sinal dessas pessoas. Nem por isso se sentia menos curioso. Iam casar… Podia ser que a história terrível fosse isso mesmo. Em verdade, atacados de um mal na véspera de um bem, o mal devia ser terrível. Noivos e moribundos…

Vieram trazer recado ao dono da casa; este pediu licença ao sacristão, tão depressa que nem deu tempo a que ele se despedisse e saísse. Correu para dentro, e lá ficou cinqüenta minutos. Ao cabo, chegou à sala um pranto sufocado; logo após, tornou o comendador.

– Que lhe dizia eu, há pouco? Quando menos, ela ia morrer; morreu.

Brito disse isto sem lágrimas e quase sem tristeza. Conhecia a defunta de pouco tempo.

As lágrimas, segundo referiu, eram do sobrinho de Campinas e de uma parenta da defunta, que morava em Mata-porcos. Daí a supor que o sobrinho do comendador gostasse da noiva do moribundo foi um instante para o sacristão, mas não se lhe pegou a idéia por muito tempo; não era forçoso, e depois se ele próprio os acompanhara…

Talvez fosse padrinho de casamento. Quis saber, e era natural, — o nome da defunta. O dono da casa, — ou por não querer dar-lho, — ou porque outra idéia lhe tomasse agora a cabeça, — não declarou o nome da noiva, nem do noivo. Ambas as causas seriam.

– Iam casar…

– Deus a receberá em sua santa guarda, e a ele também, se vier a expirar, disse o sacristão cheio de melancolia.

E esta palavra bastou a arrancar metade do segredo que parece ansiava por sair da boca do fornecedor de navios. Quando João das Mercês lhe viu a expressão dos olhos, o gesto com que o levou janela, e o pedido que lhe fez de jurar,– jurou por todas as almas dos seus que ouviria e calaria tudo. Nem era homem de assoalhar as confidências alheias, mormente as de pessoas gradas e honradas como era o comendador. Ao que este se deu por satisfeito e animado, e então lhe confiou a primeira metade do segredo, a qual era que os dous noivos, criados juntos, vinham casar aqui quando souberam, pela parenta de Mata-porcos, uma notícia abominável…

– E foi…? precipitou-se em dizer João das Mercês, sentindo alguma hesitação no comendador.

– Que eram irmãos.

– Irmãos como? Irmãos de verdade? — De verdade; irmãos por parte de mãe. O pai é que não era o mesmo. A parenta não lhes disse tudo nem claro, mas jurou que era assim, e eles ficaram fulminados durante um dia ou mais…

João das Mercês não ficou menos espantado que eles; dispôs-se a não sair dali sem saber o resto. Ouviu dez horas, ouviria todas as demais da noite, velaria o cadáver de um ou de ambos, uma vez que pudesse juntar mais esta página às outras da paróquia, embora não fosse da paróquia.

– E vamos, vamos, foi então que a febre os tomou…? Brito cerrou os dentes para não dizer mais nada. Como, porém, o viessem chamar de dentro, acudiu depressa, e meia hora depois estava de volta, com a nova do segundo passamento. O choro, agora mais fraco, posto que mais esperado, não havendo já de quem o esconder, trouxera a notícia ao sacristão.

– Lá se foi o outro, o irmão, o noivo. . . Que Deus lhes perdoe! Saiba agora tudo, meu amigo. Saiba que eles se queriam tanto que alguns dias depois de conhecido o impedimento natural e canônico do consórcio, pegaram de si e, fiados em serem apenas meios irmãos e não irmãos inteiros, meteram-se em um cabriolet e fugiram de casa.

Dado logo o alarma, alcançamos pegar o cabriolet em caminho da Cidade Nova, e eles ficaram tão pungidos e vexados da captura que adoeceram de febre e acabam de morrer.

Não se pode escrever o que sentiu o sacristão, ouvindo-lhe este caso. Guardou-o por algum tempo, com dificuldade. Soube os nomes das pessoas pelo obituário dos jornais, e combinou as circunstâncias ouvidas ao comendador com outras. Enfim, sem se ter por indiscreto, espalhou a história, só com esconder os nomes e contá-la a um amigo, que a passou a outro, este a outros, e todos a todos. Fez mais; meteu-se-lhe em cabeça que o cabriolet da fuga podia ser o mesmo dos últimos sacramentos; foi à cocheira, conversou familiarmente com um empregado, e descobriu que sim. Donde veio chamar-se a esta página a “anedota do cabriolet.”

Fonte:
http://www.dominiopublico.gov.br

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Chico Anysio (1931)

Francisco Anysio de Oliveira Paula Filho nasceu em 12 de abril de 1931, na cidade de Maranguape (CE).

Com 8 anos, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro (RJ).

Aos 16 anos de idade foi classificado em sétimo lugar num concurso para rádio-atores na Rádio Guanabara, daquela cidade. Nesta difusora foi locutor da madrugada, galã de rádio-novela, narrador e repórter de campo.

Em 1950 passou a trabalhar na Rádio Mayrinck Veiga, escrevendo programas. Trabalhou na Rádio Clube de Pernambuco, do Recife, em seguida, na Rádio Clube do Brasil e na Rádio Mayrinck Veiga, escrevendo programas humorísticos.

Escreveu roteiros para filmes da Atlântida.

Estreou na TV, em 1957, no programa Noite de Gala, ao lado de Sérgio Porto e Henrique Pongetti, na TV-Rio. Trabalhou, depois na Rádio Tupi e fixou-se, até hoje, na Rede Globo de Televisão.

Sua galeria conta com mais de duzentos tipos consagrados na televisão, como o Professor Raimundo; Alberto Roberto; Coronel Limoeiro; Qüem-Qüem; Bozó; Painho; Paulo Brasilis; Pantaleão; Bento Carneiro; Pedro Bó; Nazareno; Coalhada e tantos outros mais.

Tem diversos livros publicados, entre eles:
O batizado da vaca (1972),
O enterro do anão (1973),
É mentira, Terta? (1973),
A curva do calombo (1974),
Teje preso (1975),
Carapau (1979),
A borboleta cinzenta (1985),
Feijoada no Copa (1987),
O tocador de tuba (1990),
Sou Francisco (1992,
Jesuíno, o profeta (1993),
O canalha (2001),
Chico Anysio em Salão de Sinuca (2004), e
Armazém do Chico – Histórias que vi, ouvi e vivi (2005).

Gravou um CD com poesias de Ascenso Ferreira pela Luz da Cidade. (http://www.luzdacidade.com.br/pf011.htm

Fez, também, letras para inúmeras músicas, dentre as quais destacamos:
A fia de Chico Brito
A turma
Ciranda
De quem é essa morena
O poste da rua Jorge Lima
Rancho da Praça Onze
Tristeza mora comigo
Zéfa Cangaceira.

Interpretou o pai da atriz Sônia Braga em “Tieta do Agreste”, de Cacá Diegues, filmado no ano de 1996.

Chico Anysio, que há alguns anos dedica-se à pintura, tem exposto seus quadros em diversas galerias no país.

Fonte
http://www.releituras.com/

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Chico Anysio (Silêncio, hospital)

Nos primeiros tempos de casamento ele aparentava uma saúde de ferro mas, de uns anos pra cá, mostrava-se tão frágil, tão suscetível às doenças, que Dona Belinha, sua esposa, intranqüilizava-se cada vez mais.

— Qualquer coisinha o Pirilo hospitaliza-se — choramingava às amigas. — Tão frágil, tão doentinho…

E assim era. Por um simples sintoma de gripe ou resfriado, o Pirilo pegava um pijama, escova de dentes, pente e chinelos, metia-os numa maleta branca e hospitalizava-se.

— O que é que você tem, Pirilo? — perguntava a esposa preocupada, vendo o marido fazer a mala para mais uma ida à casa de saúde.

— Nada, minha velha.

— E se não tem nada, por que você vai para o hospital, Pirilo? — insistia Dona Belinha, mais preocupada do que nunca.

— Com saúde não se facilita. Não tenho nada agora, mas estou esperando uma gripe de uma hora para outra.

E se internava por quatro, cinco dias. Proibia as visitas e não aceitava flores ou maçãs. “Se eu morrer, não quero ninguém no velório. Na doença e na morte, longe os parentes”, era a teoria que defendia e a que a família obedecia.

— Chama-se isso de hipocondria — explicou um médico a quem Dona Belinha secretamente visitou:

— Hipocondria?

— É uma ansiedade habitual relativa à própria saúde — decifrava o médico. — É muito comum, um caso assim. Há pessoas que não vivem sem tomar remédio. Seu marido é um caso desses. Só que em estado mais grave, porque ele chega a ir para o hospital. Mas não se preocupe. Os hipocondríacos são os que vivem mais.

— Isso pega, doutor? — inquiriu Dona Belinha, quase desejando que sim, para poder acompanhar o marido, de quem sentia muita falta, durante os dias de nosocômio.

— Pegar, não digo, mas quem convive com um hipocondríaco, sendo de espírito fraco, pode-se contagiar por esta mania.

E ela muito rezava e pedia que lhe fosse dado este contágio.

— Belinha, traz a mala.

— Pra onde você vai, Pirilo?

— Vou-me hospitalizar.

— O que é que você está sentindo?

— Hoje, fazendo as unhas, tirei sangue da cutícula. Isso pode infeccionar, dar tétano, gangrenar, sei lá. Com saúde não se brinca.

E, de mala branca na mão e infalível chapéu preto à cabeça, lá ia o Pirilo para o Hospital dos Estrangeiros, onde tinha conta corrente (pagava por semestre) e apartamento quase fixo.

— O apartamento de sempre, Sr. Pirilo? perguntava a enfermeira, como se aquilo fosse um hotel.

— Não. Desta vez quero um no terceiro andar, com vista para a encosta.

E por uma semana, muitas vezes, curtia o seu hospitalzinho, de camisola e tudo, com exames de pressão arterial, termômetros sob a axila, colheita de urina, sangue, fezes, escarro, etc. Uma semana depois, sentindo-se recuperado, voltava ao seio da família, dizendo-se outro homem.

Ao mesmo tempo em que os filhos cresciam, desenvolvia-se a hipocondria do Pirilo, que se internou pelos motivos mais burlescos, de tão banais: furúnculo, cisco no olho, mau jeito no braço, aerofagia, topada.

A conselho médico a mulher nem tocava mais no assunto, tentando meter na cabeça do marido que ele não sofria de coisa alguma (“Isso pode piorar, porque ele fica irritado e…”). Ao ver Pirilo chegar e entrar em casa sem tirar o chapéu preto, a mulher já sabia que era caso de hospital. E, por conta própria (disso o médico não teve culpa), já até colaborava com a hipocondria do marido.

— Não está passando bem, Pirilo?

— Ainda bem que você notou. Hoje arrotei duas vezes, depois de tomar uma Coca-Cola. Faz a mala.

E o pijama, com pente, chinelo e escova de dentes, era enfiado na mala branca que Pirilo conduzia ao Hospital dos Estrangeiros, onde era mais conhecido do que muitos dos médicos que lá operavam ou davam plantão.

— Terceiro andar, para a encosta?

— Segundo andar, de frente.

— 214 — informava a enfermeira, dando-lhe a chave.

Tantas foram as vezes que Pirilo se internou que, ultimamente, já ia sozinho da portaria para o quarto. Ir uma enfermeira com ele para quê, se ele conhecia os corredores e apartamentos mais do que a maioria delas? De hospital, ele dava aula. E era um custo para aceitar a alta do médico.

— Pode ir embora hoje, Sr. Pirilo.

— De jeito nenhum. Antes de quinta-feira ninguém me tira daqui.

— Mas o senhor já está bom. Os gases…

— Os gases acabaram, mas… e essa unhazinha?

— Que tem a unha? — perguntava o médico, segurando-lhe a falange do pé que Pirilo lhe exibia.

— Repare na unha, veja bem.

— Está bem.

— Ora, doutor, enganar ao Pirilinho? A unha está encrava, não encrava. Antes de quinta-feira eu não saio, a não ser que a unha se resolva.

De tanto Pirilo se ausentar para os hospitais, apareceu um arquiteto desquitado com ótimos planos e projetos para Dona Belinha com os quais ela concordou, de tanta distância que já sentia do marido hipocondríaco.

Saiu ganhando, pois amava agora um homem formado, enquanto Pirilo continuava amante de uma ajudante de enfermeira do Hospital dos Estrangeiros, que um dia dava plantão no terceiro andar, de frente para a encosta, no outro dia no segundo andar, de frente para a frente…

Os hipocondríacos merecem cuidados!

Fonte
O batizado da vaca”, Editora Círculo do Livro – Rio de Janeiro, 1972. in http://www.releituras.com/

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Fernando Sabino (O Golpe do Comendador)

Ele sabia que aquilo ainda ia acabar mal. Ele era noivo, à antiga: pedido oficial, aliança no dedo, casamento marcado, Mas, no ardor da juventude, não se contentava em ter uma noiva em Copacabana: tinha também uma namorada na cidade.

Encontravam-se na hora do almoço, ou em algum barzinho do centro, ao cair da tarde, encerrado o expediente. Ele trabalhava num banco, ela num escritório. A noiva não trabalhava: vivia em casa no bem-bom.

E tudo ia muito bem, até que a namorada, que morava na Tijuca, resolve se mudar também para Copacabana.

A princípio ele achou prudente não voltarem juntos, já que uma não sabia da existência da outra. Com o correr do tempo, porém, foi relaxando o que lhe parecia um excesso de precauções. Mais de uma vez eu adverti ao meu amigo:

— Cuidado. Um dia a casa cai.

— Seria o auge da coincidência — protestava ele.

Pois acabou acontecendo. Foi numa tarde em que os dois voltavam de ônibus para Copacabana, muito enleados, mãozinhas dadas. Ali pela altura do Flamengo, ao olhar casualmente pela janela, ele viu e reconheceu de longe a moça que fazia sinal no ponto de parada.

Em pânico, o seu primeiro impulso foi o de gritar para o motorista que não parasse, para evitar o encontro fatal. Era o cúmulo do azar: havia um lugar vago justamente a seu lado, naquele último banco, que comportava cinco passageiros.

O ônibus parou e ela subiu. Ele se encolheu, separando-se da outra, mãos enfiadas entre os joelhos e olhando para o lado — como se adiantasse: já tinha sido visto. A noiva sorriu, agradavelmente surpreendida:

— Mas que coincidência!

E sentou-se a seu lado. Você ainda não viu nada — pensou ele, sentindo-se perdido, ali entre as duas. Queria sumir, evaporar-se no ar. Num gesto meio vago, que se dirigia tanto a uma como a outra, fez a apresentação com voz sumida:

— Esta é a minha noiva…

— Muito prazer — disseram ambas.

E começaram uma conversa meio disparatada por cima do seu cadáver:

— Você o conhece há muito tempo? — perguntou a noiva titular.

— Algum – respondeu a outra, tomando-o pelo braço: — Só que ainda não estamos propriamente noivos, como ele disse…

— Ah, não? Que interessante! Pois nós estamos, não é, meu bem? E a noiva o tomou pelo outro braço:

— Você não havia me falado a respeito da sua amiguinha…

Atordoado, nem tendo 0 ônibus chegado ainda ao Mourisco, ele perdeu completamente a cabeça. Desvencilhou-se das duas e se precipitou para a porta, ordenando ao motorista:

— Pare! Pare que eu preciso descer!

Saltou pela traseira mesmo, sem pagar, os demais passageiros o olhavam, espantados, o trocador não teve tempo de protestar. Atirou-se num táxi que se deteve ante seus gestos frenéticos, foi direto à minha casa:

— Você tem que me ajudar a sair dessa.

Amigo é para essas coisas, mas não me dou por bom conselheiro em tais questões. Mal consigo eu próprio sair das minhas: a emenda em geral é pior do que o soneto. Ainda assim, tão logo ele me contou o que havia acontecido, ocorreu-me dizer que, se saída houvesse, ele teria que abrir mão de uma — com as duas é que não poderia ficar. Qual delas preferia?

— A minha noiva, é lógico – afirmou ele, sem muita convicção: É com ela que vou me casar.
E torcia as mãos, nervoso:

— Pretendia, né? Imagino o que a esta hora já não devem ter dito uma para a outra. O pior é que minha noiva é meio esquentada, para acabar no tapa não custa.

Respirou fundo, mudando o tom:

— Também, que diabo tinha ela de tomar exatamente aquele ônibus? E o que é que estava fazendo àquela hora no Flamengo? De onde é que ela vinha?

— Eu que sei? — e comecei a rir: — Me desculpe, meu velho, mas essa não pega.

Ele se deixou cair na poltrona.

— É isso mesmo. Não pega. Nenhuma pega. Estou liquidado. Não tem saída.

— Só vejo uma — e fiz uma pausa, para dar mais ênfase: — O golpe do comendador.

Marido exemplar, pai extremoso, avô dedicado, como se usava antigamente, o ilustre comendador era de uma respeitabilidade sem jaça. Vai um dia sua digníssima consorte, chegando inesperadamente em casa, dá com o ilustre na cama da empregada. Com a empregada.

Enquanto a esposa ultrajada se entregava a uma crise de nervos lá na sala, o comendador se recompunha no local do crime, vestindo meticulosamente a roupa, inclusive colete, paletó e gravata. Em seguida se dirigiu a ela nos seguintes termos:

— Reconheço que procedi como um crápula, um canalha, um miserável. Cedi aos sentidos, conspurcando o próprio lar.

Você tem o direito de renegar-me para sempre, e mesmo de me expor à execração pública. E provocar em conseqüência a desgraça de nosso casamento, a desonra de meu nome e o opróbrio de nossos filhos e netos. A menos que resolva me perdoar, e neste caso não se fala mais nisto. Perdoa ou não?

Aturdida com tão eloqüente falatório, a mulher parou de chorar e ficou a olhá-lo, apalermada.

— Vamos, responda! — insistiu ele com firmeza: — Sim ou não?

— Sim — balbuciou ela, timidamente.

Ele cofiou os bigodes e, do alto de sua reassumida dignidade, declarou categórico:

— Pois então não se fala mais nisto.

Tão logo ouviu o caso do comendador, o noivo desastrado resolveu imitá-lo. De minha casa mesmo telefonou para a noiva, dizendo-lhe atropeladamente que ele era um crápula, um canalha — em resumo: o ser mais ordinário que jamais existiu na face da terra. Depois, sem lhe dar tempo de retrucar, despejou-lhe uma cachoeira de declarações amorosas, invocando o casamento marcado, a felicidade de ambos para sempre perdida, os filhos que não mais teriam… Não faltaram nem reminiscências dos primeiros dias de namoro – tanto tempo já que se amavam, ela não tinha treze anos quando se conheceram, as trancinhas que usava, lembra-se? Tudo isso ia por água abaixo — a menos que o perdoasse.

Desligou o telefone, vitorioso.

— Concordou em se encontrar comigo.

— Não se esqueça. O comendador.

— Já sei. Não se fala mais nisto.

E se foi, alvoroçado. Nem comigo se falou mais nisto, mas de alguma forma deu certo, pois acabou se casando, teve vários filhos e, segundo ouvi dizer, vive feliz até hoje.

Com a outra.

Fonte:
“Fernando Sabino – Obra Reunida”, Volume III, Editora Nova Aguilar S.A. – Rio de Janeiro, 1996. in http://www.releituras.com/

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José Feldman (1954)

Nasceu na cidade de São Paulo, no dia 27 de setembro de 1954, filho de Moisés Feldman, (falecido), representante de móveis e Mina Feldman.

Aos 6 anos de idade começou a aprender a jogar xadrez com seu pai.

Começou desde os 10 anos a mostrar aptidão para a escrita, ao escrever pequenos contos baseados em personagens de história em quadrinhos. Nesta época, começou a trabalhar com seu pai para ajudar na casa. Com cerca de 13 anos de idade, começou a escrever as suas primeiras poesias. Menino tímido, com poucas amizades começou a desabafar seus sentimentos nos versos. Na época já lia muitos livros e revistas. Ele diz que ia de onibus para a escola, e sempre lia nele, chegando muitas vezes a perder o ponto de descida.

Seus primeiros livros foram a coleção de Monteiro Lobato dada por seu pai, o qual conhecera Lobato pessoalmente, na época que lançava O Poço do Visconde. Com seu pai, o qual tocava bandolim, também aprendeu o gosto pela música. Aprendeu violão, mas não se deu bem com o instrumento.

Com cerca de 15 anos de idade participou de concursos de poesia sem sucesso. Em 1975, concluiu o curso Técnico de Laboratórios Médicos, ingressando no mesmo ano de sua formatura no Hospital das Clínicas da FMUSP, em São Paulo, onde trabalhou em análises bioquímicas de sangue por cerca de 13 anos e 2 anos em endocrinologia.

Desde 1973, com uma fome enorme de conhecimento, realizou vários cursos, como Filosofia no Instituto Palas Athena, Italiano na Associação de Cultura Afro-Brasileira, Inglês no Instituto Roosevelt e Instituto Norte Americano, Leitura Dinâmica e Desinibição e Criatividade, no Instituto Dynamics Cymel, Arte Dramática no Instituto Macunaíma, Filosofia no Centro de Estudos Filosóficos Pró-Vida, além de diversas palestras e encontros de literatura.

Em 1975, devido a enfermidade de seu pai, auxiliou-o na direção de clube de xadrez no Instituto Cultural Israelita Brasileiro (ICIB), assumindo definitivamente a diretoria em 1978, até o ano de 1996. Neste período, foi auxiliar de diretoria, arbitro e professor de xadrez no Xadrez Clube Sorocaba e no Clube de Regatas Tietê.

Também, no ICIB, pertenceu a diretoria cultural, promovendo diversos eventos musicais, além da Oficina de Trovas, ministrada pelo grande trovador Izo Goldman, e revelando talentos musicais dos jogadores do departamento de xadrez.

Neste período começou a dar maior ênfase também à literatura, ao fazer, na Casa Mário de Andrade (Oficina da Palavra) o curso de Poesia Viva, com a poetisa Eunice Arruda, curso de literatura com Mario Amato, Ficção Cientifica na literatura e no cinema com o escritor de renome internacional, André G. Carneiro, além da Oficina de Trovas com Izo Goldman. Foi membro da Casa do Poeta (São Paulo).

Cursou a Faculdade de Psicologia, nas Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), mas tendo de abandonar devido a sua situação financeira insuficiente para se manter.

No xadrez, como organizador, diretor, arbitro, pelo seu desejo de sempre integrar todos numa panela só, para não haver panelinhas, granjeou a admiração e o respeito de grandes jogadores, o que o fez elevar o clube da 3ª categoria para a categoria especial, aumentando o numero de jogadores de cerca de 10 para aproximadamente 300.

Criou também um boletim enxadristico denominado “J’Adoube” (eu arrumo), direcionado a todos os níveis de jogadores, com partidas, notícias, estudos, piadas enxadrísticas, etc., e com tempo obteve a adesão de colaboradores com desenhos artísticos, poemas, etc. (na época não havia computador, era tudo na máquina de escrever e mimeógrafo).

Na literatura continuou tentando ainda concursos de poesia na Livraria Freitas Bastos e Scortecci, mas ainda sem sucesso. Com as trovas, obteve pela primeira vez uma menção honrosa no Concurso de Santa Cruz do Sul (RS).

Casou-se em 1995. Foi em 1999 para Curitiba, onde ficou longe da literatura e do xadrez,

Eleito em 2001 como vice presidente da diretoria provisória, da Associação dos Literatos ALIUBI, tendo contato com poetas da região.

Registrou-se como representante da Delegacia Municipal, pela União Brasileira de Trovadores do Paraná, auxiliando na elaboração do Boletim Paraná em Trovas com a presidente da UBT Paraná Vânia Ennes, o secretário Nei Garcez e o grande trovador A. A. de Assis.

Participou de concursos de contos em Portugal e França.

Também participou de torneios de xadrez regionais, sagrando-se campeão, terceiro e segundo lugares, respectivamente, em 3 torneios. Trabalhou como supervisor no censo do IBGE.

Com muito tempo disponível, devido a impossibilidade de obter emprego, especialmente em virtude da idade (atualmente 53 anos), digitou trabalhos, colocou nas normas exigidas, orientação para a realização de monografias e trabalhos em faculdades, revisão de português de trabalhos e livros, para conseguir dinheiro para se sustentar.

Percebendo o pouco acesso das pessoas à literatura, e mesmo o baixo nível de leitura, começou a ler muito e se dedicar a literatura, criando deste modo um boletim, de nome Singrando Horizontes, que era feito principalmente em dados obtidos na internet e revistas, que abrangia tudo de literatura (contos, cronicas, artigos, biografias, poesias, curiosidades da lingua, noticias do mundo, estudos de livros, etc.), e começou a distribuir por e-mail para inicialmente amigos, trovadores e associações. Com o tempo foi descobrindo novos endereços e distribuiu em escolas, universidades, academias do Brasil Inteiro, além de Estados Unidos e Portugal. Mas, pela enorme quantidade de conteúdo literário considerou muito pequeno o boletim, que conta atualmente com cerca de 100 paginas.

Criou o Blog Pavilhão Literário Cultural Singrando Horizontes (http://singrandohorizontes.blogspot.com/) seguindo os mesmos moldes do boletim, com muito mais conteúdo, postados diariamente, iniciado ao final de dezembro de 2007.

Com isto, começou a ficar mais conhecido devido a sua divulgação dos escritores, sendo convidado no mês de junho de 2008 a efetuar uma palestra na Academia de Letras de Maringá, onde discursou sobre o Panorama da Literatura no Brasil. E, também, muitos escritores começaram a enviar seus textos para apreciação crítica.

A convite da Editora Abril, construiu um blog, o blogs.abril.com.br/singrandohorizontes.Em novembro de 2008, a convite do escritor Sorocabano Douglas Lara, passou a ser membro da ONE (Ordem Nacional dos Escritores), recebendo o medalhão das mãos do presidente da ONE, José Verdasca, em 19 de dezembro de 2008, no Gabinete de Leitura, em Sorocaba.

Atualmente tem lutado para se manter firme, segundo suas palavras: “Por hora, estamos passando por momentos difíceis, mas a esperança e o alto astral nunca me abandonaram. Se eu me deprimo, olho para estas crianças (gatos e cachorros), pulando, brincando, confiando em mim e me amando, e a esperança sempre volta. Então, eu sou José, o sonhador. Sonho e sonho, e meus sonhos nunca morrem, pois eu os vejo dentro dos olhos de meus gatos. E, agradeço a Deus todos os dias, por tê-los”.

Fonte:
Artigo publicado por Leon Cedric, in Jornal Ecos Culturais.

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Ibn Ammar (1031 – 1084)

A vida de Abú Bakr Mubammad ibn ‘Ammar, nascido em Sannabus (possivelmente Estômbar), perto de Silves, em 1031 e morto em 1084, parece arrancada a um drama shakesperiano, feita, como é, de aventura, grandeza e tragédia. Foi certamente um ser excepcional, nele coexistindo uma invulgar inteligência e uma ambição enorme servida por fria determinação. Uma infância e juventude pobres e a consciência do seu valor intelectual e artístico explicarão talvez o arrivismo que dominará toda a sua existência. Filho de um verdugo, parte como al-Mutanabbi, aventureiro e vagabundo, à conquista do sucesso confiado no seu talento. Discípulo do grande gramático al-A’lam, estuda em Córdova e Silves. Mais tarde torna-se amigo dileto de al-Mu’tamid que, ascendendo ao trono de Sevilha, o nomeia, entre outros cargos, governador de Silves. Antes disso, conta-se que certa vez Ibn ‘Ammãr procurara fugir da presença do amigo, pois em sonhos havia-lhe sido revelado que viria a ser morto por ele. lbn ‘Amniãr segue urna trajetória política meteórica, revelando dotes de guerreiro valente e diplomata não inferiores aos de poeta. O demônio da ambição é, porém, mais forte que a amizade que, por certo, sempre conservou por al-Mu’tamid, levando-o à conspiração e à revolta visando obter para si um trono. Tais fatos, aliados às intrigas dos seus inimigos, viriam a perdê-lo. Sendo entregue a al-Mu’tamid, este, inclinado a perdoar- lhe, acabaria por dar-lhe a morte por suas próprias mãos, num acesso de cólera, julgando-se traído, urna vez mais.

A vida dos dois grandes poetas foi indissoluvelmente ligada no drama. Para além de ter sido muito tratada por todos os especialistas, foi objeto de duas crônicas romanceadas, Os Luso-Árabes, de Oliveira Parreira, e Ben Ammar de Sevilla, de C. Sánchez-Albornoz, e de uma peça de teatro, Mutamid, el último Rey de Sevilla, de Blás Infante.

A sua poesia é de uma elegância requintada, fruto de um superior domínio da língua, e o brilho da imagística sobrepõe-se, de fato, a um acento pessoal que quase só se manifesta como expressão de orgulho, forma de afirmação de qualidades auto-atribuídas.

lbn ‘Ammãr foi poeta multímodo que cultivou, a par das formas clássicas, a muwassahat e o zajal, ao serviço dos gêneros lírico, ditirâmbico ou satírico. Excelentes poetas, como lbn Sahi de Sevilha, foram influenciados pela sua obra, e dele disse al-Marrãkusi que foi “um dos gloriosos poetas que seguiram as pisadas de Ibn Hani al-Andalusi”.

A AL-MU’TAMID (I)

Nada me move, meu príncipe,
Senão a tua vontade.
Contigo vou,
Como o viajante noturno
Guiado pelo clarão dos relâmpagos.
Queres voltar Para a tua amada?
Vai num rápido veleiro
E seguirei no teu encalço,
Ou salta antes para a sela,
Contigo irei também.
E quando,
Graças à proteção divina,
Chegarmos aos umbrais do teu palácio
Permite que torne sozinho à minha casa.
Não percas tempo a sacar a espada!
Lança-te aos pés da que tem a cintura delicada
E compensa-a do tempo perdido.,
Beija-a e aperta-a contra o peito.
E murmurem vossas bocas
Meigas e doces palavras,
Como os pássaros se respondem mutuamente
Em suaves cantos ao romper da alva.

*****

A LEITURA

Minha pupila liberta
Quem da página é cativo:
O branco, da margem certa
E da palavra, o negro vivo.

A AMADA

Ela é uma frágil gazela:
Olhares de narciso
Acenos de açucena
Sorriso de margarida.

E se seus brincos se agitam
Quedam-se os braceletes na escuta
Da música do requebro da cintura.
********

BOM É que não esqueçais
Que o que dá ao amor rara qualidade
É a sua timidez envergonhada.
Entregai-vos ao travo doce das delícias
Que filhas são dos seus tormentos.
Porém, não busqueis poder no amor…
Que só quem da sua lei se sente escravo
Pode considerar-se realmente livre.
=====

MAÇÃS E PERAS

Aceitai,
Como rostos amáveis que se vos mostrassem
Ou tímidos seios palpitando vossas mãos
Estas maçãs: Pérolas entre nós espalhadas
Como botões em seu ramo postos.
Tomai-as e ofertai-as aos presentes
Como vinho preso de surpresa
Pelo gelo do inverno.
Eis também peras para duplicar a minha dádiva,
E apenas se me oferece dizer:
São tão-somente brancas faces
Onde pousaram profundos olhos negros.

*****
A ALCACHOFRA

Filha das águas e da terra
Para quem lhe almeja os dons
É corpo numa veste de recusa.
E na sua beleza obstinada
Bem no cimo lá da haste
lembra uma jovem cristã
Que cota de espinhos usa.

*****
Minha alma quer-te, ainda que em tortura,
E sigo-te alegre na ânsia de procura.
Que estranho, ser defesa a nossa ligação,
Se os desejos ambos concordaram!
Que quereria mais o coração
Quando amargurado te buscou em vão
E meus olhos te viram e amaram?
Como desejo que quem tem poder
Sobre ti em nosso encontro não esteja!
Só assim a minha sede vai beber
Em doce fonte se teus lábios beija.

*****
A AL-MU’TAMID (II)

Quantas noites passadas lá no açude
Sinuosas deslizavam as correntes do rio
Como manchadas serpentes.
As correntes murmuravam junto a nós
Ao passar, qual gente ciumenta,
A querer magoar-nos à força da calúnia.
Mas no recanto escolhido
Era o jardim que vinha visitar-nos
Enviando seus presentes
Nas perfumadas mãos da brisa.

*****
Eis nuvens…
Que espessas são!
Parecem formadas,
Deste lado do azul do céu,
Do fumo que ao arder,
Madeira verde lhes deu.

Vem chuva fina,
Palha de prata
A polvilhar terra ambarina.
Mas se um instante
O Sol fica a brilhar
É como escrava provocante
Que se mostra quem a vai comprar.

*****
A SANNABUS

Sannabus!
Chora aqueles que são meus
Com um choro tão abundante
Como o rio que te atravessa
Em furiosa torrente.

*
Não será por mim
Mas por quem vertem
Então as nuvens suas lágrimas?
Não será por mim?
Mas por quem gemem
Então tristemente as pombas?

*
Sou Ibn Ammar: a minha glória
Não há quem a possa ignorar
A não ser tolos, dos quais não reza a história,
E que nem astros conseguem enxergar.

Se o meu Tempo me despreza
Não é isso motivo para espanto
Notas em livros é o que mais se preza
E nas margens se escrevem, no entanto.

*
Mais uma rodada, copeiro,
Que já se ergue a aragem da manhã
E a estrela de alva
Desviou a rota da noite viajeira.
A alvorada trouxe-nos brancura de cânfora
Assim que a noite reclamou seu negro âmbar

O jardim parece uma donzela vestida com a túnica
Bordada a flores e adornada com pérolas de orvalho
Ou então, jovem ruborizado de pudor
De rosas, alentado com a sombra do mirto.

E esse jardim,
Onde o rio lembra branca mão
Pousada sobre um tecido verde,
Mostra-se agitado pela brisa:
Dir-se-ia, meu rei,
A tua espada desbaratando exércitos.
Meu Senhor!
Verde brilhante são os favores da tua mão
Quando os céus se turvam de cinzento.
Teu dom é sempre generoso:
Se virgens dás têm seios opulentos
Se cavalos são de nobre raça
Se alfanges têm pedras preciosas.
Meu Rei!
Quando os demais reis se dessedentam
Esperam que ergas primeiro a tua taça.
És mais refrescante para os corações
Que o orvalho que se vai formando gota a gota
E mais agradável para os olhos
Que o doce peso do sono.
Faz faiscar a chispa da tua glória
Que não deixa nunca o fragor da lide
Senão para se abeirar do lume
Que mandaste acender para os teus hóspedes.
Rei,
Esplêndido no talhe e no espírito,
Como o jardim, belo de perto ou à distância.
Quando a teu lado me é servido
O rio celestial que mana do teu ser
É bem certo que estou no Paraíso.

Fizeste pender da tua lança
As cabeças dos reis teus inimigos
Só porque o ramo agrada
Na impaciência da flor?

Tingiste a tua cota com sangue de heróis
Só porque a formosa se enfeita de vermelho?
A espada, se a tua mão lhe serve de tribuna,
Dá lugar a súplicas mais eloqüentes
Que as do melhor dos oradores quando prega.
Este poema é para ti,
Como um jardim que a brisa visitou
Sobre o qual repousou o orvalho da noite
Até que o ataviou de flores.
Do teu nome fiz-lhe uma veste de ouro.
Com o teu louvor derramei o melhor almíscar.
Quem me suplantará? Se o teu apoio é sândalo
Eu o queimei no fogo do meu gênio
Quando as brasas estavam ainda a arder.
O orgulho no amor – temei-o – é a sua vergonha
Mas o prazer – aproveitai-o – é o seu ardor.
Não peças à paixão que te dê domínio
Prefere ser escravo, nas suas mãos é que tu és livre!
Vós me dissesses: O amor prejudicou-te.
Eu respondi: Quem dera me tivesse feito mal
É que meu coração escolheu doença para o corpo
Como forma própria de o adornar.
Deixai-o, pois, fazer a sua escolha
E não me critiqueis por estar emagrecido:
Não está a excelência de uma adaga
Precisamente na finura do seu gume?
Troçastes porque me deixou minha amada?
Quanto fim do mês oculta o crescente que vai vir!
Julgais que o fogo do esquecimento me consolará
Ou que um profundo sono chegará depois?
Mas ó coração, guerreiro da dor, se não sofresses mais
Como te acudiria o socorro das lágrimas?

Fonte:
http://escritas.paginas.sapo.pt/al_mutamid.htm

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Al Mutamid (1040 – 1095)

Al Mutamid, poeta do “Al Andaluz” (parte da Península Ibérica ocupada pelos Árabes), nasceu em Beja em 1040 (sul de Portugal e antes da formação da nacionalidade portuguesa que se deu em 1145).Morreu em Marrocos em 1095. Considerado um dos maiores poetas árabes. A poesia árabe canta o amor, os feitos da guerra, os prazeres. A civilização árabe na Península Ibérica atingiu um desenvolvimento brilhante, nomeadamente na poesia e na arquitetura, sendo os habitantes de cada um dos reinos da Península completamente bárbaros, incluindo o que hoje é Portugal. Al Mutamid foi rei de Sevilha, depois e ter sido califa de Silves.

I

Quando será que estarei
Livre de desdém tão fero
Cujos fortes esquadrões
Me dão guerra que não quero.
Desvio assim é injusto.
Juro pela luz altaneira
Que em suas tranças se divisa:
Não sou cobra traiçoeira
Das que mudam de camisa

II

De negras madeixas
Amo uma gazela
Um sol é seu rosto
E palmeira é ela
De ancas opulentas.
Há entre seus lábios
Do néctar o gosto.
Ó sede, se intentas
Sua boca beijar
Não o vais lograr

III

Em encanto não tem
Rival tal senhora,
E fora do sonho,
Quem bela assim fora?
Qual espadas seus olhos
Lhe brilham; e rosas
Lhe enfeitam a face
Na sombra vistosas.

IV

Dá paz ao ardor
De quem te deseja.
Contenta o amor
E faz dom de ti,
amos, sorri,
Quando a boca beija.
Me disse na hora:
«Pecar me refreia.»
Respondi-lhe:
«Ora! Não é coisa feia.»

V

Uma vez era noite
De bem longa festa.
Adormeci. Me disse
Me acordando com esta:
«Teu sono vai longo
Toca a levantar!»
Então me beijou
E eu pus-me a cantar:
«Fazem reviver
Teus lábios a arder!»

VI

Guerra vil e obscena
E que inspira a cantilena
De quem se morre de pena:
«Eu assim não estou bem,
Me sinto desesperar,
Que farei? Vem minha mãe,
Que não paro de chorar.»

VII

SOLTA A alegria! Que fique desatada!
Esquece a ânsia que rói o coração.
Tanta doença foi assim curada!
A vida é uma presa, vai-te a ela!
Pois é bem curta a sua duração.

E mesmo que tua vida acaso fosse
De mil anos plenos já composta
Mal se poderia dizer que fora longa.
Que seres triste não seja a tua aposta
Pois que o alaúde e fresco vinho
Te aguardam na beira do caminho.

Que os cuidados não sejam de ti donos
Se a taça for espada brilhante em tua mão.
Da sabedoria só colherás a turbação
Cravada no mais fundo do teu ser
É que, de entre todos, o mais sábio
É aquele que não cuida de saber.

EVOCAÇÃO DE SILVES

Saúda, por mim, Abg Bakr,
Os queridos lugares de Silves
E diz-me se deles a saudade
É tão grande quanto a minha.
Saúda o palácio dos Balcões
Da parte de quem nunca os esqueceu.
Morada de leões e de gazelas
Salas e sombras onde eu
Doce refúgio encontrava
Entre ancas opulentas
E tão estreitas cinturas!
Mulheres níveas e morenas
Atravessavam-me a alma
Como brancas espadas
E lanças escuras.
Ai quantas noites fiquei,
Lá no remanso do rio,
Nos jogos do amor
Com a da pulseira curva
Igual aos meandros da água
Enquanto o tempo passava..
E me servia de vinho:
O vinho do seu olhar
Às vezes o do seu copo
E outras vezes o da boca.
Tangia cordas de alaúde
E eis que eu estremecia
Como se estivesse ouvindo
Tendões de colos cortados.
Mas retirava o seu manto
Grácil detalhe mostrando:
Era ramo de salgueiro
Que abria o seu botão
Para ostentar a flor.
SIM,
Bebi o vinho derramando luz
Enquanto a noite despia o seu sombrio manto.

Finalmente,
Veio a Lua Cheia, surgida de Gêmeos
Rainha, no cume do esplendor e fausto.
Estrelas brilhantes à compita a rodearam
Para acrescentarem também o seu fulgor.
Depois caminhou até ao Ocidente
E sobre ela flutuou Oríon, feita docel
Um exército de estrelas abriu alas
Sendo então as Pléiades o estandarte.

Assim,
Na terra eu me mostro
No meio de esquadrões e mulheres formosas
Competindo no brilho e na estirpe.
Se as lorigas dos meus bravos espalham a treva
O vinho por donzelas dado traz a claridade.
E se as escravas cantam com a citara
Também meus homens fazem cantar
As espadas nos cascos do inimigo.
=========

A PROPÓSITO DE UMA CARTA

Horto, de fulgentes estrelas faladas,
Iluminador do negríssimo fosso das trevas!
Chegou-me o teu poema em hora de tristeza:
Fê-la minguar, depois desaparecer.
Aqui fica um puro poço de amor
Que te convida a beber de novo
Como se fosse agora a vez primeira.
Ó ALMA, não te desesperes!
Peleja com coragem
Ou às mãos do amor acabarás.

A amada tratou-te cruelmente,
Teu coração já não te obedece?
Alguém te injuriou?
Ninguém te dá conforto?

A mágoa, essa,
Negou repouso às pálpebras
E só lhes deu em troca
As lágrimas de sangue.
Ao PASSAR junto da vide
Ela arrebatou-me o manto,
E logo lhe perguntei:
Porque me detestas tanto?
Ao que ela me respondeu:
Porque é que passas, ó rei,(*)
Sem me dares saudação,
Não basta beberes-me o sangue
Que te aquece o coração?

Fonte:
http://escritas.paginas.sapo.pt/al_mutamid.htm

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Silas Corrêa Leite (RODA MUNDO – A Antologia Que Pode Dizer o Nome)

Sempre fui a favor das Antologias literárias em geral, eu mesmo um participante de várias delas, em regime de cooperativas ou até mesmo como simples convidado, inclusive no exterior, como as do Instituto Piaget (Portugal), Cristhmas Anthology (Estados Unidos), Antologia Multilingue de Letteratura Contemporanea (Itália) e Poesia Sempre (Edição 500 Anos do Brasil) MEC-Fundação Biblioteca Nacional, entre outras tantas, oficiais ou marginálias, desses brasis gerais e os seus plangentes criares periféricos por atacado.

Toda abelha-rainha sonhadora, ou abelhudo-rei, digamos assim, que se propõe a juntar poetas inéditos e – ou neomalditos (ah essa safra contemporânea brasileiríssima) merece respeito, carinho e admiração, porque formar uma colméia de elos a partir de um verdadeiro clube de egos (e núcleos de abandonos editoriais) não é fácil. É preciso cara limpa e muita coragem, além do conhecimento de área.

E só gente nobre topa a empreita, a toleima, o desafio desse quilate, garimpando em tantas jazidas novas, puras e valiosíssimas letras livres.

Acho que, juntando poetas, contistas, cronistas, memorialistas, contadores de causos, você vai dando um acervo histórico de lastro ao que sabiamente já apregoou o francês Rimbaud, de que todo artista deve ser antena da sua época. É por aí.

Eu mesmo já fui sondado por editoras de fanzines e mesmo fora do eixo Rio-SP para ser coordenador de uma ou outra antologia de minorias, e só recusei às vezes por absoluta falta de tempo – ah a sobrevivência – mas, de presto, ao meu jeito e com o meu modus operandi, dei o fermento de minha contribuição, divulguei em nichos, indiquei nomes preciosos, criei títulos interessantes, sugeri eventual desenho de capa, tal o amor por essa resistência literária, a verdadeira vox do povo, o brado retumbante dos que escrevem com talento, e ainda a magna coragem de nadar contra a corrente do falso mercado editorial, sempre com seus suspeitos livrecos pseudo-popularescos trazidos do exterior a preço de banana, mas que não acrescentam nadica de nada a historicidade crítico-criativa nacional, culturalmente falando também.

Como um mambembe produtor lítero-cultural no reino da web, ainda inédito em livro solo de ficção, atrás de um mecenas (ou anjo-da-guarda) com um projeto inédito aprovado( e empacado) pela Comissão 450 de São Paulo, apesar de vários prêmios, com bom currículo e até um livro pioneiro, inédito e de vanguarda que fez até algum sucesso ocasional na mídia como e-book (livro virtual) no site http://www.hotbook.com.br/int01scl.htm (O Rinoceronte de Clarice), fico chateado quando vejo parte da mídia veicular edições impressas de livros inócuos do Hosmanny Ramos, do Ratinho, da Simonny, do Derico, enquanto muita gente talentosa cria à míngua, pois as editoras, em geral, na verdade não têm pessoal capacitado para bem julgar, com competência avaliar, até porque vários escritores mundiais de renome tardio só foram lançados depois de mortos; muitos foram recusados por editoras convencionais, ficando a prova peremptória de que tentar sempre, correr atrás o tempo inteiro, sonhar com dinamismo, ser determinado e com estilo, faz parte do cultivo das hortênsias poéticas ou das groselhas pretas das prosas humanizadas.

Assim, penso que cada Antologia, seja ela como for, caseira, sazonal, multinacional ou mesmo bancada por eventual Ong ou órgão público, é sempre uma bendita janela para o céu, um respiradouro de almas, um solário de líricas que fundam a sensibilidade, a magia do tear poético em proveito social, o curtume ainda sensorial desses tempos insanos de muito ouro e pouco pão.

Cada antologia é uma porta que se abre, um cofre aberto para Deus; banca um tijolo na própria construção da busca individual que seja por méritos próprios, faz-se andaime para arquiteturas maiores, a obra perfeita, a edição, o sucesso que, claro, não acontece por acaso. Há um Deus.

Foi mais ou menos isso o que eu captei quando recebi via e-mail o release do Editor Douglas Lara, da Manchester Sorocaba, sondando-me para estar na Antologia Roda Mundo, Roda-Gigante (Editora Ottoni), que acabou – sorte nossa – internacional, com gente criativa de quatro continentes, o que nos envaidece, e premia o talento e a visão do editor e o produto final da editora enquanto mercadoria-livro.

Honra e orgulho de quem abriu essa estrada de tijolos amarelos, para nosotros que queremos o palco iluminado para mostrar nosso chão de estrelas em infames tempos de neoliberalismo globalizador inumano e aético, com suas riquezas injustas (São Lucas) e lucros impunes (Millôr Fernandes). Aleluia.

Faz escuro mas eu canto, disse um poeta.

É preciso que a emoção sobreviva, disse outro.

Tudo vale a pena, quando a alma não é pequena, frisou um outro ousado lusonauta da península ibérica que, pra mim, sendo o maior poeta do mundo, só foi lançado depois que faleceu (de cirrose, por causa do diário vinho do Porto), e ainda assim, cem anos depois é estudado com cautela acadêmica, admirado como referencial, completo por inteireza de lucidez, a persona do Fernando Pessoa e seus heterônimos-ele-mesmo.

Se houvesse tempo e espaço para uma, vá lá, antologia desse naipe na terrinha-mãe, talvez Fernando Pessoa tivesse o reconhecimento antecipado, o jeito todo especial de ser valorado, além de ser salutar e importante em sua usina de criames com espiritualidade lírica fora de série.

Está feito: esse é o papel da Antologia. Trazer à tona o filão rico de nossos criadores que teimam, cismam, reinam e fecundam idéias e ideais pelai. Não é a primeira Antologia do Mestre Douglas Lara (como respeitosamente o chamo), certamente não será a última, outros canais virão, novos tempos trarão outras visões, novas lutas nos engrandecerão enquanto trupes, pois lá estaremos com a sua soma, juntando elos em versos e prosas, porque, afinal, como bem cantou Caetano Veloso – Caetanear, por que não? – Gente é Para brilhar…

E a Antologia Roda Mundo, Roda-Gigante, fundou esse propósito, ornou-se dessa gala, e assim somos vitoriosos todos nós que acreditamos que o sonho não acabou como disse John Lennon, mas que, verdadeiramente o estamos tecendo dia após dia; página após página de rosto, de coração para coração, como se um mosaico de tributo à vida; de inteligência criativa, pois, afinal, escrever é a nossa mais doce transgressão, a nossa mais valiosa rebeldia, em contribuição à causa de ler para ser, ler para ter, ler para também estarmos com o arco-da-promessa dentro do pote de ouro, quando for o leitor interessado em prosopopéia & aventuras líricas, buscar seu arco-iris.

E depois, falando sério, como digo num poemeto “Deus deve amar os loucos/Pois criou tão poucos…”.

E o poeta é sim, como a cana: mesmo pisado, ralado, posto nas moendas das vicissitudes, ainda assim resiste e dá açúcar-poesia.

Habemus Douglas Lara. Ave Douglas Lara. Os poetas-saúvas te saúdam.

Fonte
http://escritas.paginas.sapo.pt/rodamundo.htm

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Sônia Bettencourt (Mar Vazio)

Prêmio Conto (Categoria Sênior) no Certame da Macaronésia de Jovens Artistas, Lanzarote, Canárias, 2005

À memória de todos os jovens que perderam a vida no mar
Há dois dias e duas noites que estive a olhar o mar. Sim, a olhar o mar através da janela da sala da minha casa. Não era uma casa muito grande, nem uma sala muito grande, mas tinha janelas largas, daquelas que deslizavam em vez de abrir ao meio. Através dela via uma praia onde o mar parecia querer abraçar-me. Às vezes estava manso e quieto, outras vezes sentia-se irado e batia violentamente contra as rochas.

Outro dia foi mesmo assim, a sua revolta era tão grande que as marés galgavam a orla costeira por completo. E o vento assobiava na janela como se fosse uma voz de alguém que já se fora. Para sempre. O irmão falecido: o olhar dele cheio de medo de morrer quando as forças lhe faltaram. Imaginava.

Mas uma semana depois, quando as casas se afundavam numa luz frágil, já o mar estava relaxado e adormecido como que a descansar da fúria dos dias anteriores. As gaivotas protegiam-no, ou não fossem os anjos das suas águas salgadas.

Naqueles dias de calmaria imaginava que um barco iria passar junto à janela e que alguém me levantaria a mão a acenar para me levar numa viagem, para longe; uma viagem que eu não queria fazer. Seria um daqueles barcos pequenos, pintados de branco com o rebordo de cor garrida e identificado por um nome de peixe ou de mulher.

Há dois dias e duas noites que estive a olhar o mar. Sim, a olhar o mar através da janela da sala da minha casa. Ainda nenhum barco passou e os que supostamente iriam passar jamais se lembrariam de olhar para a minha janela. Estariam ocupados a seguir o peixe pelo seu rumo certo. E naquele exato momento eu estaria fora de rumo. Pelo menos era este o meu desejo.

Ao tentar perceber o medo tão profundo de estar longe dali, o alvoroço no peito de me encontrar em todo o lado e em lado nenhum que não fosse aquela casa e aquela janela, decidi ficar dois dias e duas noites a olhar o mar. Sem tirar os olhos uma única vez.

No primeiro dia senti um orvalho gelado nas palmas das mãos. Fechei a janela sem nunca desistir do meu propósito. O meu corpo não vacilava, ou não tivesse eu vinte anos, contudo o meu espírito sentia-se fraco e perdido naquele vai e vem da ondulação.

Um grito na garganta nasceu-me no segundo dia. Queria ter a certeza que estava ali. Apetecia-me gritar de alegria ou de medo, não sei bem, como se tivesse acabado de ver o mar pela primeira vez. Abri a janela e no exato momento em que o grito se preparava para soltar, uma náusea tomou conta de mim tal verdadeira viagem de barco em alto mar.

Lembrei-me da infância, viva e fresca: A Luisa, a mais nova do grupo, que brincava com bicicletas usadas que o pai consertava na sua garagem de mecânico; o Bruno e o irmão Bernardo, que todos pensavam ser gêmeos verdadeiros, mas não eram; A Ritinha de olhos verde-azeitona que tinha bonecas sem conta, o Jorge, o herói de histórias de aventura que só ele conhecia e só ele protagonizava a qualquer hora e a qualquer momento e, por fim, o Miguel traquinas e irrequieto, que me perseguia por todo o lado, a imitar o zorro com uma espada em punho.

No Verão eram as brincadeiras na rua à macaquinha do chinês e os jogos do apanha e do esconde… Tudo passado naquela rua, defronte do mar. E quando os dias começavam a ficar pequenos e frios, juntávamo-nos umas vezes na garagem da Luisa, outras no sótão da Ritinha ou ali, naquela sala, a jogar às cartas e a brincar à janela, que ao contrário de todas as outras janelas não abria nem para os lados, nem para cima, simplesmente deslizava.

Se não fosse o vento a sacudir ao de leve a memória infantil, teria desmaiado, com certeza.

Olhei à volta a sala, a minha casa e sabia que tinha que partir. Estava cansado como se já tivesse feito mil viagens. Mas, a verdade, era que nem tinha feito a primeira, aquela que parecia ser a mais longa de todas e que doía como nenhuma outra. Sempre vivi sem pressa e sem ruído com os meus dias flexíveis fechados em livros de estudo e em brincadeiras com os vizinhos, amigos e companheiros de escola. Cheio de princípios e frases colhidas da Literatura e da Filosofia.

Depois a vida naquela casa, os pais e eu, passou a ser apenas um eco das coisas acontecidas; uma lembrança a recompor um tempo findo- por entre os cheiros do quarto de cama, do vestuário, dos lençóis; o desarrumo da secretária e do guarda-roupa; as prateleiras a abarrotar de Cds de música, livros escolares e jogos de computador; o pôster do Eminem… Os pesados cortinados de riscas coloridas cerrados sem deixar escapar uma lâmina de luz.

– Miguel!

Mas ninguém respondia. Nenhuma voz humana. Nenhuma presença de gente.

Ele continuava ali no retrato do canto. Sorridente e cheio de vida. Como na noite em que decidira brincar junto ao mar. De repente, do riso fizera-se o pranto, e o jogo entre amigos tornou aquela noite a mais longa das nossas vidas.

– Vem para aqui falar com a gente! – chamaram-me o Jorge, o Bruno, o Bernardo e a Luisa numa tentativa de me distrair e relaxar o vácuo que tinha no cérebro. A Ritinha de olhos verde-azeitona, não estava presente, pois já não morava naquela cidade, tão pouco naquele bairro. Mas mesmo assim não deixou de prestar os seus pêsames e condolências.

Deixei a janela e fui para junto deles. Sentei-me no sofá da sala, mas os meus olhos estavam pregados àquela vidraça onde o vento assobiava com uma força estranha.

Lembrei-me que àquela hora havia um resto de noite e uma neblina junto ao rés-do-mar. A cidade, ainda mal acordada, começava a lavar-se, a vestir-se e a aquecer o café da manhã com os olhos pregados no relógio. E eu ali, no sofá da sala com o dia suspenso, sem vontade de querer e de saber aonde me levava o rasgar das horas.

Entretanto adormeci. Mas por pouco tempo. Umas vozes distantes a flutuar pela sala fizeram-me abrir os olhos fatigados.

– O mar castiga!- exclamou a minha mãe a olhar através da janela com uma voz que parecia ter vindo do outro lado do abismo.

– Vamos sair daqui, Nuno.- informava o meu pai.- Temos que ir viver para outro lado.

Para aonde?, pensei eu. Para onde não há mar e as crianças não brincam, e as árvores são de cimento, e os homens são mortos em vez de morrerem?

Fez-se um diálogo de surdos. A voz dos meus pais vinha do outro lado do tempo numa língua diferente carregada de dor.

O medo de partir colocou-me à janela da sala durante muitos dias. Os momentos de alegria cada vez mais no fundo do tempo, espiando-me. Já não era só os meus dias que estavam suspensos, era todo o meu futuro.

O automóvel buzinou impaciente pela segunda vez. Vesti o casaco e peguei nas duas malas de viagem caminhando com cerimônia até à porta de saída.

Antes de sair pousei as malas e voltei atrás. Abri a janela deslizando-a devagarinho. Quase chorei de alegria quando um ruído distante de um barco a passar me fez levantar a mão e acenar num gesto lento.

Fonte:
http://escritas.paginas.sapo.pt/marvazio.htm

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Poesias Soltas ao Vento III

Walt Whitman (EUA, 1819-1892)
DO INQUIETO OCEANO DA MULTIDÃO

Do inquieto oceano da multidão
veio a mim uma gota gentilmente
suspirando:

– Eu te amo, há longo tempo
fiz uma extensa caminhada apenas
para te olhar, tocar-te,
pois não podia morrer
sem te olhar uma vez antes,
com o meu temor de perder-te depois.

– Agora nos encontramos e olhamos,
estamos salvos,
retorne em paz ao oceano, meu amor,
também sou parte do oceano, meu amor,
não estamos assim tão separados,
olhe a imensa curvatura,
a coesão de tudo tão perfeito!
Quanto a mim e a você,
separa-nos o mar irresistível
levando-nos algum tempo afastados,
embora não possa afastar-nos sempre:
não fique impaciente – um breve espaço –
e fique certa de que eu saúdo o ar,
a terra e o oceano,
todos os dias ao pôr-do-sol
por sua amada causa, meu amor.

Jean Richepin (Argélia, 1849-1926)
TUAS PALAVRAS

Tuas palavras têm melodias divinas,
Acordes de cristal, pianíssimo, vibrando!
De olhos cerrados fico, imerso em gozo, quando,
Dizendo-me um segredo o alvo pescoço inclinas…..
Então não me inebria o olor de balsaminas
De tua boca, é, mais o tom límpido e brando,
Que dás a uma palavra, a um simples “sim”, falando….
Tuas palavras têm meiguices peregrinas!
Eis, pois, o que me faz dormentes os sentidos;
Ouço-te, sem saber o que estás a dizer-me,
Qual numa língua estranha e suave aos meus ouvidos!
E em pleno arrebatar duns êxtases radiosos
Sinto invisível mão percorrer-me a epiderme…
Tuas palavras, flor! Têm dedos cariciosos….

Elisabeth Barrett Browning (Inglaterra, 1806 – 1861)
QUATRO SONETOS


I
Amo-te quanto em largo, alto e profundo
Minhalma alcança quando, transportada
Sente, alongando os olhos deste mundo,
Os fins do ser, a graça entressonhada.

Amo-te em cada dia, hora e segundo:
À luz do Sol, na noite sossegada.
E é tão pura a paixão de que me inundo
Quanto o pudor dos que não podem nada.

Amo-te com o doer da velhas pernas,
Com sorrisos, com lágrimas de prece,
E a fé da minha infância, ingênua e forte.

Amo-te nas coisas mais pequenas
Por toda a vida. E assim Deus o quisesse.
Ainda mais te amarei depois da morte.

II
As minhas cartas! Todas elas frio,
Mundo e morto papel! No entanto agora
Lendo-as, entre as mãos trêmulas o fio
Da vida eis que retomo hora por hora.

Nesta queria ver-me-era no estio-
Como amiga ao seu lado…Nesta implora
Vir e as mãos me tomar…tão simples!Li-o
E chorei. Nesta diz quanto me adora.

Nesta confiou:sou teu e empalidece
A tinta no papel, tanto o apertara
Ao meu peito, que todo inda estremece!

Mas uma…Ó meu amor, o que me disse
Não digo. Que bem mal me aproveitara
Se o que então me disseste eu repetisse…

III
Parte: Não te separas! Que jamais
Sairei de tua sombra. Por distante
Que te vás, em meu peito, a cada instante,
Juntos dois corações batem iguais.

Não ficarei mais só. Nem nunca mais
Dona de mim, a mão, quando a levante,
Deixarei de sentir o toque amante
Da tua-ao que fugi. Parte: não sais!

Como vinho, que às uvas donde flui
Deve saber, é quanto faça e, quanto
Sonho, que assim também todo te inclui.

A ti, amor! Minha outra vida, pois
Quando oro a Deus, teu nome ele ouve e o pranto
Em meus olhos são lágrimas de dois.

IV
Ama-me por amor do amor somente
Não digas: Amo-a pelo seu olhar,
O seu sorriso, o modo de falar
Honesto e brando. Amo-a porque se sente

Minh’alma em comunhão constantemente
Com a sua. Por que pode mudar
Isso tudo, em si mesmo, ao perpassar
Do tempo, ou para ti unicamente.

Nem me ames pelo pranto que a bondade
De tuas mãos enxuga, pois se em mim
Secar, por teu conforto, esta vontade

De chorar, teu amor pode ter fim!
Ama-me por amor do amor, e assim
Me hás de querer por toda a eternidade.

Alexandre O’Neil (Portugal, 1924 – 1986)
Poema Pouco Original do Medo

O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles
Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados
Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos
Sim
a ratos

Alexandre O’Neil (Portugal, 1924 – 1986)
HÁ PALAVRAS QUE NOS BEIJAM

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Yolanda Morazzo (Cabo Verde, 1926)
BARCOS


Nha terra é quel piquinino
É Sao Vicente é que di meu”

Nas praias
Da minha infância
Morrem barcos
Desmantelados.
Fantasmas
De pescadores
Contrabandistas
Desaparecidos
Em qualquer vaga
Nem eu sei onde.
E eu sou a mesma
Tenho dez anos
Brinco na areia
Empunho os remos…
Canto e sorrio…
A embarcac,ão:
Para o mar!
É para o mar!…
E o pobre barco
O barco triste
Cansado e frio
Não se moveu…

———-
Alda Lara (Angola, 1930 – 1962)
Presença Africana

E apesar de tudo
ainda sou a mesma!
Livre e esguia,
filha eterna de quanta rebeldia
me sagrou.
Mãe – África!
Mãe forte da floresta e do deserto,
ainda sou
a irmã – mulher
de tudo o que em ti vibra
puro e incerto!
– A dos coqueiros,
de cabelos verdes,
e corpos arrojados
sobre o azul…
A do dendém
nascendo dos abraços
das palmeiras…
A do sol bom, mordendo
o chão das Ingombotas…
A das acácias rubras,
salpicando de sangue as avenidas,
longas e floridas…
Sim! Ainda sou a mesma
A do amor transbordando
pelos carregadores do cais
suados e confusos,
pelos bairros imundos e dormentes
(Rua 11!… Rua 11!…)
pelos negros meninos
de barriga inchada
e olhos fundos…
Sem dores nem alegrias,
de tronco nú e corpo musculoso
a raça escreve a prumo,
a força destes dias…
E eu, revendo ainda
e sempre, nela,
aquela
longa história inconsequente…
Terra!
Minha, eternamente!
Terra das acácias,
dos dongos,
dos cólios, baloiçando
mansamente… mansamente!…
Terra!
Ainda sou a mesma!
Ainda sou
a que num canto novo,
pura e livre,
me levanto,
ao aceno do teu Povo!…

Euclides Cavaco
AMOR…FEITO POESIA


.
AMOR
É um conceito divino
É dimensão sem medida
É viagem sem destino
É melodia da vida…

AMOR
É um caminho sem fim
É não ter que perdoar
É não querer e dizer sim
É dar tudo o que há p’ra dar !…

AMOR
É voz da razão que cala
É ter dôr e não sentir
É o silêncio que fala
É ver o mundo sorrir…

AMOR
É sopro de nostalgia
É canção leve e suave
É das trevas fazer dia
É saber de quem não sabe.

AMOR
É bem mais que sentimento
É sussurro de magia
É da alma o alimento…

AMOR
É hoje aqui…Feito poesia !…

Euclides Cavaco
PALAVRAS AO VENTO

.
Sou companheiro do vento
E conto ao vento que passa
Deste mundo o meu lamento
No tempo que se esvoaça …
Conto-lhe da injustiça
Neste mundo praticada
Da maldade e da cobiça
O vento não me diz nada.

Falo da fome e da guerra
Da miséria que se esconde
E dos crimes que há na terra
O vento não me responde…
Quero que leve um recado
De quem ajuda implora
E de quem sofre calado
O vento tudo ignora …

Peço ao vento que se agite
Em prol da humanidade
E que com direito grite
Para os homens liberdade.
Se o vento não me ouvir
Nesta minha petição
Então eu irei pedir
Para o vento maldição !…

Fontes:
http://www.euclidescavaco.com/
http://escritas.paginas.sapo.pt/

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Palavras estrangeiras (aportuguesadas )

Abajur (do francês) – quebra-luz
Álibi (do latim) – noutro lugar.
Ateliê (do fr.) – oficina
Baguete (do fr.) – tipo de pão
Bangalô (do inglês) – casa residencial com arquitetura do bangalô indiano.
Basquetebol (do inglês) – jogo ao cesto.
Batom (do fr.) – lápis para pintar os lábios
Bege (do fr.) – cor parda
Bibelô (do fr.) – adorno
Bidê (do fr.) – aparelho sanitário de banheiro
Bifê (do fr.) – mesa com refeição para reuniões
Bife (do inglês) – fatia de carne
Bijuteria (do fr.) – adorno
Biquíni (ilhota do Pacífico, Bikini) – veste para banho
Birô (do fr.) – mesa de escrever
Bistrô (do fr.) – restaurante pequeno e aconchegante
Blecaute (do inglês) – escurecimento
Boate (do fr.) – casa noturna
Bói (do inglês) – garoto de recado, contínuo
Boxe (do inglês) – pugilismo
Brevê (do fr.) – diploma, certificado de aviador.
Bulevar (do fr.) – rua larga, avenida
Buquê (do fr.) – ramalhete
Capô (do fr.) – capuz de motor de veículo
Carrossel (do fr.) – rodízio em cavalos, cadeiras, etc.
Cassetete (do fr.) – cacete curto de madeira ou borracha usado por policiais.
CD (do inglês) – compact disc – coletânea de músicas gravadas num disco.
Champanha (do fr.) – vinho branco espumante. Gênero masculino.
Chassi (do fr.) – carroceria de veículo
Chiclete/ Chicle – (do inglês) – goma de mascar
Chique (do fr.) – elegante
Chofer (do fr.) – motorista
Clichê (do fr.) – fotogravura
Clipe (do inglês) – grampo para prender papéis
Comitê (do fr.) – comissão, delegação
Complô (do fr.) – conspiração
Conhaque (do fr.) – aguardente de vinho
Coquetel (do fr.) – mistura de várias bebidas alcoólicas
Croquete (do fr.) – bolinho de carne
Croqui (do fr.) – esboço
Cupom (do fr.) – obrigação ao portador
Debênture (do inglês) – título de dívida amortizável
Debutar (do fr.) – estrear
Debute (do fr.) – estréia
Decolagem (do fr.) – levantamento do avião
Escore (do inglês) – resultado de uma partida esportiva
Esporte (do inglês) – conjunto de exercícios físicos
Esqui (do dinamarquês) – Tábua que serve para deslizar sobre a neve
Estêncil (do inglês) – papel multiplicador de cópias
Estresse (do inglês) – cansaço
Flerte (do inglês) – namoro ligeiro.
Folclore (do inglês) – costumes e artes conservadas pelo povo
Fórceps (do inglês) – boticão usado para retirar crianças do útero da mãe
Guichê (do fr.) – pequena janela por onde se atende o público
Habituê (do fr.) – freqüentador certo
Jérsei (do inglês) – tecido de malha de algodão, seda ou lã
Locaute (do inglês) – greve de empregadores
Maiô (do fr.) – traje de banho
Manicura (do fr.) – profissional do tratamento de unhas. A forma francesa manicure é mais usada por populares.
Manicuro (do fr.) – masculino de manicura. A forma francesa manicure é mais usada por populares.
Menu (do fr.) – cardápio.
Metrô (do fr.) – abreviatura de metropolitano. Estrada de ferro subterrânea e urbana
Náilon (do inglês) – fibra têxtil sintética
Nocaute (do inglês) – termo usado em luta de boxe.
Omelete (do fr.) – fritada de ovos. Palavra do gênero feminino
Piquenique (do inglês) – pequena excursão
Piquete (do fr.) – pequeno grupo promotor de greve
Pulôver (do inglês) – agasalho de malha, sem mangas.
Purê (do fr.) – preparado de batatas
Rali (do inglês) – competição automobilística
Recorde (do inglês) – a melhor atuação esportiva. Pronúncia: palavra paroxítona, sílaba forte é COR.
Repórter (do inglês) – jornalista, profissional da notícia
Relé (do fr.) – dispositivo que liga determinados circuitos automaticamente
Réveillon (do fr.) – festa de véspera do Ano Novo. Não foi aportuguesada
Socaite (do inglês) – grã-finagem
Suéter (do inglês) – agasalho fechado
Sutiã (do fr.) – peça feminina para apoiar os seios
Teste (do inglês) – exame, prova
Time (do inglês) – conjunto de jogadores
Tique (do fr.) – trejeito
Toalete (do fr.) – vestuário
Treiler (do inglês) – carro rebocado por veículo motorizado
Turnê (do fr.) – viagem programada, com roteiro certo
Voleibol (do inglês) – esporte no qual se usa a mão. Forma abreviada: vôlei.

Fonte:
O português nosso de cada dia – Vicente de Paulo Sampaio e Rosimir Espíndola Sampaio – Editora LTR, São Paulo, 2003.
http://www.portrasdasletras.com.br/

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João Dias de Souza Filho (A importância da biblioteca)

Notícia publicada na edição de 23/06/2008 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 2 do caderno A

Sorocaba tem atualmente excelente acervo reunido em bibliotecas que se espalham pela cidade

Uma biblioteca, sempre é importante. Muito importante. E, é muito importante, na medida em que é circulante e em que é freqüentada. Ou na medida em que seus livros são consultados. Essa importância atinge seu clímax, quando quem cuida do setor é alguém que gosta de ler. Alguém que orienta e sugere leituras. Os bibliotecários das escolas estão sempre disponíveis para o empréstimo de livros e, inclusive para apresentar sugestões, em consonância com interesses de pesquisas, que complementam as informações de salas de aulas.

Ao longo de minha vida profissional, no exercício da missão de professor, trabalhei em unidade escolar do Sesi, onde, entre minhas obrigações, cuidava da biblioteca, dentro de uma missão, muito específica: Curso de Orientação de Leitura. Esse Curso tinha uma missão peculiar, ou seja: os alunos retiravam livros e, depois, ao devolvê-los participavam de reunião, para comentar o livro e tirar dúvidas. Ao lado dessa tarefa, discutia-se muito. Havia, também, tratativa do noticiário da Imprensa.

Anteriormente a essa fase, fui aluno do Estadão. Estive entre os que foram alunos do Professor João Tortelo e, com ele tive uma ampla visão da importância do livro. E, mais. A biblioteca do Estadão era dirigida pelo bibliotecário Adail Odin de Arruda. Ia com freqüência à biblioteca e, com ele, Adail, trocava idéias sobre livros e, muitos dos quais li, sugeridos por ele. Ele era elétrico, rápido no raciocínio. Posteriormente, bem posteriormente, vim, a saber, também, que ele foi um grande maçom, com o mesmo perfil de energia e liderança. É um exemplo e referencial nos meios maçônicos até hoje.

Em Sorocaba não se pode falar de livros, sem que se faça menção ao histórico Gabinete de Leitura Sorocabano, fundado em 13 de janeiro de 1867, por alemães e pelo húngaro Luiz Matheus Maylasky. Interessante o espírito prático do estatuto redigido por ele: poderiam ser sócias, todas as pessoas sem distinção de nacionalidade, de profissão honrada, de bons costumes, maiores de 18 anos. Os menores poderiam ser apresentados pelos pais ou tutores. Estatutariamente observa-se que jornais e dicionários não poderiam sair da sede. Seus fundadores, além de Maylasky, foram: Joaquim Pereira de Castro Vasconcellos, Virgílio Augusto de Aguiar e Manoel F. Lallemant.

O maior historiador de Sorocaba (exemplo consumado de humildade cristã) Aluísio de Almeida, diz em seu livro Sorocaba: três Séculos de História que com a formação dessa primeira diretoria, desaparecia o caráter alemão da sociedade que se tornava nitidamente sorocabana e, é hoje uma das glórias de Sorocaba. Uma das melhores bibliotecas do interior do Estado. Tive honra de ser diretor de biblioteca dessa instituição, quando a mesma foi presidida pelo saudoso mestre e saudoso amigo, Dr. José Pereira Cardoso.

Sorocaba tem atualmente excelente acervo reunido em bibliotecas que se espalham pela cidade, a partir de unidades escolares, além de se dar, também, destaque e referencial em relação àquelas que integram.

Bibliotecas das Universidades e de outras instituições, inclusive, Lojas Maçônicas. Um outro aspecto interessante e de oportunidade, é que no terminal de ônibus da Avenida Afonso Vergueiro, também há um serviço de biblioteca, destinado ao atendimento dos que ali tomam condução. Uma experiência corajosa. Seu êxito depende, e muito, da própria maturidade de seus consultantes. Como modesto observador do cotidiano de Sorocaba, almejamos que o corajoso projeto dê certo.

Esse rápido bosquejo traduz a importância que as bibliotecas têm dentro da comunidade.

Bem a propósito desse tema, há algum tempo, um companheiro de ideal, Paulo Maurício Guimarães de Andrade, escreveu para O Esquadro, afirmando que a Biblioteca antecedeu o próprio livro, através de papiros. A mais antiga data de 2000 anos a.C. Já imaginaram os leitores, o que significa isto, em termos de cultura? Posto isto, consta que essa Biblioteca foi organizada em Mênfis, fundada pelo Rei Osimandias, em 2000, antes do nascimento de Cristo.

A biblioteca tem uma importância histórica. Importância incrível, fantástica e extraordinária. Não obstante a referência à biblioteca de Mênfis, ainda registra-se que a História destaca como a de grande importância, também, a que foi instituída em Alexandria, por Ptolomeu Sóter (General de Alexandre, O Grande). Essa Biblioteca chegou a reunir 700.000 volumes e sofreu três incêndios, um dos quais quando a cidade foi atacada pelas tropas de Júlio César, em 46 antes de Cristo.

No rol deste tema registra-se dentro da modernidade, que a Biblioteca do Congresso Nacional dos Estados Unidos, foi criada em 24 de abril de 1800 e, conta com mais de 110 milhões de itens, dispondo de um quadro de 5.000 funcionários.

Fonte:
http://www.cruzeirodosul.inf.br/materia.phl?editoria=44&id=97114
http://www.jpergrafando.it/ (imagem)

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Orientações Metodológicas para o Estudo

HÁBITOS DE ESTUDO

É verdade que não aprendemos todos da mesma maneira, mas não é menos verdade que nem sempre a nossa forma de estudar é a mais adequada. O tempo dedicado ao estudo é importante, mas nem sempre o resultado é proporcional ao número de horas de trabalho. É que estudar muito não é o mesmo que estudar bem.

Para ser eficaz, o estudo deve ser feito de forma metódica. O modo como se estuda, o local e as condições em que se estuda, o tipo de registros que se faz (ou não se faz!) determina a quantidade e a qualidade da informação retida, bem como o modo como ela se organiza na nossa mente.

Apesar de não haver receitas universalmente eficazes para bem estudar, visto que aquilo que funciona com algumas pessoas não funciona tão bem com outras, vejamos rapidamente algumas regras básicas.

LER DE FORMA ATIVA
Comece por uma leitura rápida

A leitura eficaz de um texto ou de um conjunto de textos processa-se em duas etapas distintas.

Numa primeira etapa, lê-se “por alto”, faz-se uma leitura rápida, dando particular atenção a títulos, esquemas, anotações e frases em destaque. O objetivo é saber de que assunto se trata e identificar os elementos mais importantes ou mais interessantes do texto.

Depois de obter uma visão geral do assunto, chega o momento de ler “em profundidade”. Nesta segunda etapa, o leitor aproxima-se do texto, de forma cuidadosa e crítica, para compreender melhor o que se diz e como se diz. A compreensão do texto é fundamental para elaborar corretamente esquemas ou resumos e para fazer bons comentários.

Consulte o dicionário (geral e/ou especializado)

A ignorância das palavras constitui o primeiro obstáculo à compreensão de um texto. Por isso, deve consultar o dicionário, sempre que encontre palavras desconhecidas cujo significado não pode descobrir pelo contexto.

Divida o texto em blocos

A não ser que se trate de um texto muito pequeno, é sempre possível distinguir nele várias partes, cada uma delas com certa unidade de sentido. Convém reler cada uma dessas unidades separadamente, procurando destacar a(s) idéia(s) principal(ais). Por vezes o próprio livro já explicita essa divisão; nesse caso, é só respeitá-la.

Faça sublinhados e anotações

Fazer sublinhados e anotações é um processo de leitura ativa que desperta a atenção e facilita a captação das idéias. Além disso, sublinhados e anotações são auxiliares preciosos para tirar bons apontamentos e rever matéria.

Os sublinhados são muito úteis: obrigam-nos a uma leitura mais atenta e permitem pôr em destaque os aspectos fundamentais de um texto. Com eles as revisões tornam-se mais rápidas e produtivas.

A arte de sublinhar está na capacidade de selecionar o essencial. Sublinhar tudo é tão inútil como não sublinhar nada. Aconselha-se ao leitor que sublinhe, de preferência, definições, fórmulas, esquemas, termos técnicos ou outras expressões que sejam a chave da idéia principal.

Erros a evitar:
-Excesso de sublinhados (mais uma vez, sublinhar tudo é não sublinhar nada);
-Sublinhado por impulso (assinalar a primeira frase que nos desperta a atenção pode ser um erro).

Procedimentos:
-Fazer uma primeira leitura, para apreender a idéia geral do texto;
-Numa segunda leitura, sublinhar as idéias que consideramos fundamentais;
-Se necessário, usar dois tipos de sublinhado (reto e ondulado, por exemplo), um para as idéias mais importantes, outro para aspectos secundários.

As anotações são reações do leitor, escritas à margem dos textos. Essas anotações podem expressar-se através de palavras ou pequenas frases que resumam a idéia central de um parágrafo. As anotações devem constituir uma espécie de sumário do fragmento e podem chamar a atenção para outra parte do livro, relacionada com o assunto que está a ser tratado. Não se esqueça que o uso de abreviaturas facilmente compreensíveis facilita a redação de notas.

Os sublinhados e anotações completam-se mutuamente.

Elabore esquemas e resumos
Os bons estudantes conhecem as vantagens de elaborar esquemas e resumos das suas leituras. Esquemas e resumos facilitam a aprendizagem e permitem revisões rápidas antes das provas.

Os esquemas permitem visualizar facilmente o conteúdo de um texto. São ideais como “auxiliares de memória”, mas podem perder o sentido com o decorrer do tempo. Daí que os resumos se tornem mais aconselháveis, uma vez que neles se condensam as idéias essenciais, usando frases bem articuladas.

Um bom resumo é a reconstrução abreviada do texto original, por palavras próprias, seguindo o plano e o pensamento do autor. Isto exige a identificação e o registro das idéias de cada parágrafo.

Resumir não é comentar. Um bom resumo diz apenas, com brevidade, clareza e rigor, o que disse o autor do texto. O comentário vai além do resumo, na medida em que implica:
-compreender a idéia central do texto e os argumentos utilizados pelo autor para defesa dos seus pontos de vista;
-situar o texto na obra do autor e no seu contexto histórico, cultural ou filosófico;
-apreciar o valor das idéias apresentadas, comparando-as, por exemplo, com as idéias defendidas por outros autores a respeito do mesmo assunto.

PREPARAR PROVAS DE AVALIAÇÃO

Tire apontamentos das aulas
Um texto pode sempre ser relido, mas as exposições orais normalmente são únicas. Por isso é importante tirar notas durante as aulas.

O estudante deve registrar sempre os esquemas, as sínteses, os comentários e as indicações bibliográficas que o professor apresenta na aula. Não vale a pena tentar escrever todas as palavras do professor. É mais eficaz anotar as idéias, por palavras próprias.

Procedimentos:
-Ficar atento e distinguir o essencial do acessório;
-Usar uma escrita sintética (telegráfica) para poupar tempo;
-Sempre que possível recorrer a abreviaturas;
-Registrar com cuidado os esquemas e sínteses, se os houver;

Muitas vezes, o estudante precisa completar ou esclarecer o que escreveu nas aulas. Esse trabalho de reescrita deve ser feito o mais cedo possível, quando a matéria ainda está fresca, para que os apontamentos fiquem prontos a usar, no momento das revisões finais.

Estude com regularidade

Estudar à última da hora, sob pressão, não é um método seguro. É uma prática traiçoeira que, em vez de facilitar a aprendizagem, favorece as confusões. Quando surgem dúvidas, não há hipótese de esclarecê-las. Além disso, o aluno que estuda na véspera horas seguidas, sem intervalos, vai cansado para os testes, correndo o risco de interpretar mal as perguntas e embaralhar as respostas.

Os alunos responsáveis estabelecem prioridades e preparam-se com tempo. Na véspera dos testes, limitam-se a fazer uma revisão final.

Verifique se sabe a matéria
Antes de realizar uma prova, o estudante deve proceder a uma cuidadosa auto-avaliação para verificar se sabe, de fato, a matéria. Uma coisa é julgar que sabe e outra é saber mesmo. Importa que ele confirme se compreendeu e sabe explicar, por palavras próprias (oralmente ou por escrito), as idéias essenciais.

Ao tomar consciência dos seus pontos fracos, está a tempo de dar uma nova passagem pela matéria e evitar surpresas desagradáveis. Ao verificar que domina os assuntos, o estudante reforça a sua autoconfiança, encarando assim os testes com maior tranqüilidade.

Preste atenção às perguntas
Quando se enfrenta uma prova escrita, a primeira coisa a fazer é ler todo o enunciado e respectivas instruções. Com uma visão global do teste, é mais fácil tomar decisões sobre a forma de organizar as respostas e distribuir o tempo.

Cada pergunta merece uma leitura atenta para que não haja dúvidas sobre o que se pede. Questões complexas exigem ainda maior cuidado. É essencial responder concretamente ao que é pedido.

Perante perguntas que exigem desenvolvimento, convém fazer uma lista de tópicos orientadores da resposta. O estudante que estrutura as suas respostas, com base em tópicos, não se perde em repetições ou divagações.

Verbos utilizados com maior freqüência nas provas de avaliação:
Avaliar ; Caracterizar ; Comentar ; Comparar ; Criticar ; Definir ; Demonstrar ; Discutir ; Distinguir ; Enunciar ; Explicar ; Fundamentar ; Identificar ; Interpretar ; Justificar ; Relacionar

Mostrar o valor ou validade.
Pôr em evidência os elementos principais ou distintivos.
Explicar, tomando posição fundamentada.
Apresentar semelhanças e diferenças.
Dar opinião pessoal. Tomar posição, a favor ou contra
Dar o significado exato.
Apresentar provas.
Defender ou atacar. Criticar.
Mostrar as diferenças
Dizer qual é ou quais são, de forma breve. Indicar.
Clarificar o sentido. Desenvolver, para tornar inteligível.
Mostrar as bases.
Dizer quem é ou o que é.
Esclarecer o sentido. Fazer um comentário crítico.
Dizer porquê. Apresentar provas.
Estabelecer ligações.

Fundamente as opiniões pessoais

Os professores apreciam mais os testes que revelam originalidade na forma de transmitir os conhecimentos.

Ser original não significa necessariamente dar opiniões pessoais. A experiência aconselha mesmo a que o estudante não expresse opiniões, desde que não lhe sejam pedidas. Se tiver de expressá-las, é importante que as fundamente com fatos ou argumentos convincentes.

Argumentações pobres e afirmações levianas desvalorizam os testes. O estudante terá vantagem em defender os seus pontos de vista numa linguagem moderada, baseando-se, sempre que possível, em autoridades reconhecidas na matéria: “Tendo em conta a opinião de… Parece-me que…”

Um comentário é tanto mais apreciado quanto mais fundamentado e menos dogmático for.

Respeite as regras da escrita
Muitas vezes, os testes mostram que os alunos não trabalharam o suficiente ou estudaram sem método. Outras vezes, há confusões, porque os alunos não respeitam as regras da escrita. Usam palavras cujo sentido não dominam ou constroem frases demasiado longas, sem a adequada pontuação.

Um caminho seguro para construir textos inteligíveis e agradáveis é optar por palavras bem conhecidas. Também as frases curtas se tornam preferíveis, na medida em que são menos traiçoeiras para quem escreve e menos fatigantes para quem lê.

Não basta ter idéias. É preciso ser capaz de transmiti-las com clareza e rigor.

Fonte
A. Antunes, A. Estanqueiro, M. Vidigal (adaptado)
Ser em Português – 10º B, Areal Editores (adaptado)
http://pwp.netcabo.pt/0511134301/docum.htm

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David Pontes (Como se Ensina o Prazer da Leitura)

Baciadas de livrinhos coloridos e dúzias de CD-ROM educativos não fazem a criançada gostar de ler. Quase sempre é por aí que vão os pais quando percebem o baixo rendimento dos filhos nas aulas de Português, sua dificuldade de compreender um texto, a inapetência para as letras e – portanto – a pobreza na comunicação com o mundo, mas chapá-los ou diverti-los com sopinhas alfabéticas não resolve a parada. No máximo, os pequenos acabam se acostumando a mais esta atividade. Ter prazer na leitura é que funciona como vitamina, e o segredo para aplicá-la é: escolher um bom conto de fadas, empostar a voz e ler para eles.

Parece pouco, mas é um acontecimento grandioso. Ouvir uma história contada ao vivo, pelos pais ou por alguém conhecido, é uma experiência que marca para sempre. Aí se juntam elementos fundamentais no desenvolvimento. A presença e a dedicação do adulto naquele instante, sua entonação e semblante, seu estado de espírito e o conteúdo da narrativa, tudo isso se junta e se mistura aos sentimentos e à imaginação das crianças. É um raro momento de integração profunda, que gera energia de crescimento. E o prazer desta hora se liga ao texto. Assim se inscreve a leitura na memória das coisas boas, e assim se abrem as portas para uma criativa busca do conhecimento.

Bastam 10 minutos por dia, ou a cada dois dias, três ou só no fim-de-semana… Não precisa – e nem pode – ser nada penoso ou complicado. Apenas um momento reservado regularmente para um adulto afetivo se sentar, abrir um bom livro e ler em voz alta. Para os pequenos, é um momento para ouvir, sentir e fantasiar, como quiserem e puderem. Por isso, não vale cobrar nada deles. Sem essa de “vamos ler, agora fique quietinho”. Crianças ouvem historinhas cantarolando, andando, falando, mexendo e se mexendo, e às vezes até vão para outros cômodos da casa sem pedir pausa na leitura. Não importa. Sua maneira de prestar atenção, seu ritmo, tudo é diferente. O que importa é a voz que conta o conto, que repete infinitas vezes um trecho a pedido do ouvinte, que responde às perguntas sem reclamar da “interrupção”.

Quando “atrapalham” a leitura dos grandes, os pequenos estão apenas se aproximando do texto. Não é este o objetivo? Então é indispensável deixar que toquem o livro, virem a página para ver a ilustração seguinte, sintam a textura do papel e a harmonia das letras… Vale até atiçar a curiosidade e sua vontade de ver a história escrita. É bom lembrar: esta é uma experiência que os adultos oferecem às crianças, de graça, sem exigir nada em troca, sem policiar nem chatear. Quem não tem disposição e paciência para isso, melhor fazer só cinco minutinhos, ou dois, para que não se torne uma experiência desagradável – e acabe produzindo o efeito contrário. É necessário, aliás, que estes momentos não estorvem a rotina. A leitura não pode ocupar o tempo de brincar, de fazer lição ou de comer. Já o tempo da TV e do videogame…

Desligar as telinhas para contar histórias seria um grande presente. Trocar o estímulo unidirecional, com imagens chocantes que cavam espaços estáticos na memória, pela integração afetiva, que fortalece e desenvolve, é um negócio irrecusável. Claro que o conteúdo do texto é fundamental. O que potencializa esta grande usina criativa são as narrativas que têm situações do imaginário da criança, repleto de antíteses: bom-mau, bem-mal, certo-errado, bonito-feio, grande-pequeno, alegre-triste… Ou seja, são os contos de fadas mais antigos, com personagens maus e cruéis, que valem como combustível na ebulição dos sentimentos. Não servem as versões moderninhas, açucaradas e politicamente corretas. Sentindo que a leitura alimenta e fortifica o coração, a molecada pode então gostar dela.

Mais ainda se estes momentos forem marcados pela presença dos pais – que é sempre especial – e pela sua própria satisfação em ler. Ensinar o prazer da leitura é também se apresentar às crianças como alguém que gosta de ler, e que ganha com isso. Quem se sente bem com um livro nas mãos deve se exibir orgulhosamente aos pequenos. Aos menos habituados cabe um esforço, que não é tão grande assim. Afinal, quem não pôde se apaixonar pela literatura na infância tem agora a chance de mergulhar na fantasia por alguns minutos, enquanto a filharada escuta, se encanta e começa a preparar sua própria história.

Fonte:
http://www.moderna.com.br

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Almeida Garrett (1799 – 1854)

João Baptista da Silva Leitão nasceu no Porto a 4 de Fevereiro de 1799. O pai era um funcionário superior da administração fiscal e a mãe oriunda de uma família de comerciantes minhotos. O exótico apelido de “Garrett”, que viria a adotar na juventude, foi buscá-lo a uma sua ascendente paterna, de origem irlandesa.

Infância

Em 1808, na sequência das invasões francesas, a família refugia-se nos Açores, na ilha Terceira. Durante a infância, ouviu contar às criadas da casa — Brígida e Rosa — histórias populares, envolvendo bruxas e fantasmas, mouras e almas do outro mundo. Naturalmente, esses contos bebidos nos primeiros anos de vida marcaram a sua personalidade literária. Em outras condições, teriam sido repudiadas na idade adulta, por serem impróprios. Mas Garrett nasceu e cresceu em plena época romântica, atenta às raízes nacionais e populares da cultura. Por isso essas sementes não foram rejeitadas; bem pelo contrário, iriam dar origem ao “Romanceiro” e, obviamente, ajudá-lo a ultrapassar as formas poéticas de gosto arcádico.

Não foi por acaso que a sua família procurou refúgio nos Açores, quando das invasões francesas. Na realidade possuía aí propriedades e familiares. Um deles, bispo resignatário de Malaca, D. Frei Alexandre da Sagrada Família, homem de vasta cultura, na apreciação do próprio Almeida Garrett, terá influído fortemente na sua formação intelectual. Com ele, sobretudo, adquiriu uma sólida formação literária, de gosto clássico, naturalmente, a par de não poucas ideias conservadoras, que viria a rejeitar pouco depois. Chegou-se mesmo a pensar numa carreira eclesiástica para o jovem João Baptista, mas a notória falta de vocação levou-o a seguir outro caminho.

Juventude

Em 1816, de regresso ao continente, matricula-se no curso jurídico da Universidade de Coimbra. É aí que entra em contato com as ideias liberais. Ao longo desses anos vêmo-lo envolvido em movimentações acadêmicas contrárias à presença inglesa e favoráveis à instauração de um regime liberal. Paralelamente, dedica-se à literatura: conhecem-se dessa época vários ensaios poéticos e numerosos textos dramáticos, frequentemente incompletos. Em muitos deles é bem visível a intenção revolucionária. Por isso, quando triunfa a revolução liberal de 1820, apoia-a fervorosamente, tendo redigido na ocasião o Hino Patriótico para a comemorar.

Em 1818 faz representar a tragédia Xerxes, cujo texto se perdeu. Por essa altura começa a escrever Lucrécia e O Retrato de Vénus. Os ensaios poéticos denunciam a sua formação arcádica e têm frequentemente uma temática política. Esse esforços continuam em 1819, pois nessa época escreveu parcialmente duas tragédias: Afonso de Albuquerque e Sofonisba. Escreve também uma versão reduzida da tragédia Mérope.

Em 30/06/1820 adquire o grau de bacharel em Direito. Por essa altura retoma o texto da tragédia Mérope e trabalha em outros textos de natureza dramática. É deste ano a redação de O Roubo das Sabinas. No ano seguinte (1821), escreve a tragédia Catão, representada nesse mesmo ano. Em Novembro publica O Retrato de Vénus.

No início de 1822 publica a tragédia Catão e a farsa O Corcunda por Amor. Paralelamente, responde na imprensa e em tribunal às acusações de imoralidade e abuso de liberdade de imprensa pela publicação de O Retrato de Vénus. Acaba por ser absolvido. A sua atividade política acentua-se com o triunfo do vintismo. Nesse ano foi nomeado secretário particular do ministro Silva Carvalho. Em Agosto ingressa na Secretaria dos Negócios do Reino, assumindo as funções de Chefe da Repartição de Instrução Pública. No final do ano, casa com Luísa Midosi.

Exílio

Na sequência da Vilafrancada (1823), e depois de uma breve detenção, é obrigado a exilar-se na Inglaterra, em Birmingham. É dessa altura o Diário da Minha Viagem a Inglaterra. No exílio começa a escrever o poema O Magriço e os Doze de Inglaterra, mais tarde perdido.

Em 1824, depois de passar por Londres, transfere-se para França (Havre), como funcionário da casa bancária Lafitte. Redige então os poemas Camões (publicado em 1825) e Dona Branca (editado em 1826). Ao mesmo tempo, vai dando forma àquilo que virá a constituir o Romanceiro. Redige também o ensaio Da Europa e da América, sobre a revolução vintista em Portugal e a independência do Brasil. Mas no fim do ano vê-se sem emprego e em dificuldades financeiras. Em consequência disso, no início de 1825 transfere-se para Paris, onde publica Camões. Não tendo conseguido autorização para regressar a Portugal, volta ao Havre e reingressa na casa Lafitte. Ensaia algumas tentativas novelísticas, que ou ficaram incompletas ou se perderam.

No ano seguinte, as dificuldades financeiras acentuam-se. A mulher regressa a Portugal e ele consegue empregar-se na Livraria Aillaud, em Paris. Aí publica Dona Branca e o Bosquejo da História da Poesia e da Língua Portuguesa. A meio do ano, após a outorga da Carta Constitucional por D. Pedro, regressa a Portugal e retoma o seu lugar na Secretaria dos Negócios do Reino. Publica de imediato a Carta de Guia de Eleitores. Simultâneamente envolve-se no jornalismo político com a edição de “O Português”. No ano seguinte (1827), aparece ligado à publicação do semanário “O Cronista”. A colaboração em “O Português” leva-o á prisão, tal como aos demais redacores, e só consegue ver-se definitivamente livre do processo em 1828.

Com o regresso de D. Miguel, vê-se obrigado a um segundo exílio, dirigindo-se inicialmente a Plymouth, na Inglaterra. Nesse ano publica anonimamente, na Inglaterra, o poema Adozinda. Em 1829 publica a Lírica de João Mínimo. Assume o cargo de secretário do Duque de Palmela no governo liberal no exílio. Participa na edição do jornal “Chaveco Liberal”. Em Novembro edita a primeira parte do tratado Da Educação. No ano seguinte, no decurso de uma longa convalescença, redige o tratado Portugal na Balança da Europa. Em 1831 colabora nos preparativos da expedição liberal aos Açores e continua a actividade jornalística em “O Precursor” e “O Pelourinho”.

Triunfo do liberalismo

Em 1832 parte para os Açores como soldado, juntamente com Alexandre Herculano, Joaquim António de Aguiar, futuro ministro, e outros. A partir de Maio colabora com Mouzinho da Silveira na reforma administrativa do país. Em Junho, novamente como soldado, desembarca no Mindelo. Durante o cerco do Porto pelas tropas miguelistas, começa a redigir a novela O Arco de Santana. A seguir, passa pela Secretaria do Reino e pela dos Negócios Estrangeiros. No fim do ano, em Novembro, participa numa missão diplomática na Europa. Nessa altura, num naufrágio ao largo do Porto, perde muitos dos manuscritos redigidos ao longo dos anos.

Durante o ano de 1833 vê-se abandonado pelo governo no exterior. Com o triunfo dos liberais consegue regressar a Lisboa e é de imediato integrado na Comissão para a Reforma Geral dos Estudos. No início de 1834 é nomeado cônsul na Bélgica e aí fica votado ao abandono durante algum tempo. Nessa fase familiariza-se com a língua alemã e alguns dos seus autores (Herder, Schiller, Goethe)

Em 1835 separou-se amigavelmente da mulher, Luísa Midosi. Mais tarde, em 1837, iniciará uma relação amorosa com Adelaide Pastor, de quem terá dois filhos mortos na primeira infância, e uma filha que lhe sobreviverá. Ainda na Bélgica, enfrenta dificuldades financeiras, já que entretanto fora substituído no cargo diplomático sem seu conhecimento prévio.

De regresso a Portugal (1836), funda o jornal “O Portugal Constitucional”. Com a formação do governo setembrista de Sá da Bandeira, passa a colaborar com ele e apresenta em Novembro o projeto de criação da Inspeção-Geral dos Teatros, do Teatro D. Maria II e do Conservatório de Arte Dramática, aprovados de imediato: Naturalmente é nomeado inspector-geral dos teatros.

Renovação do teatro nacional

Eleito deputado, durante o ano de 1837 envolve-se em intensa atividade parlamentar e é um dos principais redatores do projeto de nova Constituição, que virá a ser aprovada no ano seguinte. Entretanto publica “Entreacto“, jornal da actividade teatral. Garrett revela-se, de fato, o principal renovador do teatro português. Nesse sentido, escreve e faz representar Um Auto de Gil Vicente. Pela mesma altura colabora na redação da comédia O Camões do Rossio, ao mesmo tempo que redige A Sobrinha do Marquês e inicia a redação de Inês de Castro, que nunca seria concluída.

Entretanto, vai sendo sucessivamente reeleito como deputado, mantendo uma actividade política intensa. É nomeado para novo cargo — Cronista-mor do Reino. Nessa qualidade organiza um Curso de Leituras Públicas sobre História, que se inicia no ano seguinte (1840). Em Maio escreve e encena o drama D. Filipa de Vilhena. No final do ano aparece como um dos principais redatores do novo Código Administrativo.

Em 1841 Um Auto de Gil Vicente e Mérope aparecem publicadas em livro; no prefácio à edição traça a história do teatro português. Nesse mesmo ano escreveu O Alfageme de Santarém e O Entremez dos Velhos Namorados, que ficou incompleto. No Parlamento critica duramente o ministro António José d’Ávila e passa para a oposição, sendo de imediato demitido dos cargos que ocupava: Inspetor dos Teatros, Presidente do Conservatório e Cronista-mor. Com diferença de dias vê morrer a mãe e a mulher Adelaide Pastor, que lhe deixa uma filha.

Maturidade literária

No início de 1842, na sequência do golpe cabralista, manifesta-se com outros deputados a favor da Constituição de 1838, que havia sido substituída pela Carta Constitucional. A sua oposição prolonga-se durante todo o governo de Costa Cabral. Entre Março e Abril de 1843 escreve Frei Luís de Sousa, pouco depois representado pela primeira vez. Logo a seguir, inicia a redacção das Viagens na Minha Terra e a recolha de material para o Romanceiro, cujo primeiro volume virá a ser publicado no final do ano. Pela mesma altura surge o “Jornal de Belas Artes”, sob sua inspiração.

No início de 1844, sente-se ameaçado pela repressão cabralista, apesar da sua condição de parlamentar, e acolhe-se à residência do embaixador brasileiro. É por esta altura que conhece a Viscondessa da Luz, inspiradora das Folhas Caídas.No final do ano surgem as primeiras edições de Frei Luís de Sousa. Termina nesta altura a redação da primeira parte de O Arco de Santana, publicada no início de 1845. Participa no lançamento do magazine “Ilustração” e inicia a publicação das Viagens na Minha Terra na “Revista Universal Lisbonense”. Representa-se pela primeira vez a comédia Falar Verdade a Mentir e As Profecias do Bandarra. Ainda nesse ano de 1845 publica Flores sem Fruto.

Durante o ano de 1846 continua firme na oposição ao cabralismo. Saem em livro As Viagens e um volume de teatro. O retorno de Costa Cabral ao poder implica o seu afastamento político durante vários anos, que só terminará em 1852, quando é novamente eleito deputado. No final de 1847, escreve O Noivado do Dafundo. Em 1849, redige a segunda parte de O Arco de Santana.

Em 1851, com o triunfo do movimento da Regeneração, para que contribuiu, volta a envolver-se na atividade política. É neste ano que recebe o título de visconde e publica o 2º e 3º tomos do Romanceiro. Em 1852 adquire de novo a situação de deputado, sendo de imediato nomeado Par do Reino. Durante duas semanas, de 4 a 17 de Agosto, assume o cargo de Ministro dos Negócios Estrangeiros, mas demite-se por divergir do Tratado de Comércio e Navegação com a França.

Em 1851 fora nomeado para a comissão de reforma da Academia Real das Ciências e agora vê os Estatutos que ele redigira serem aprovados. Pela mesma altura tinha sido nomeado vogal do Conselho Ultramarino, de que fora um dos promotores, e é nessa qualidade que, em 1853, tem um papel importante na Organização e Regimento da Administração da Justiça nas Províncias de Angola, S. Tomé e Príncipe e suas dependências. Manifesta-se um dos ativistas pela libertação dos escravos.

Em Abril de 1853 edita as Folhas Caídas. Começa a redação da novela Helena, que não chegou a completar e só viria a ser publicada em 1871.

A 9 de Dezembro de 1854 morre em Lisboa.

Bibliografia:
Hino Patriótico (poema), 1820
Proclamações Académicos textos de intervenção), 1820
Ao corpo académico (poema),1821
O Dia Vinte e Quatro de Agosto (ensaio político), 1821
O Retrato de Vénus (poema), 1821
Ensaio sobre a História da Pintura (ensaio), 1821
Catão (tragédia), 1822
Oração Fúnebre de Manuel Fernandes Tomás (?), 1822
Camões (poema), 1825
Dona Branca, ou A Conquista do Algarve (poema), 1826
Da Europa e da América e de Sua Mútua Influência na Causa da Civilização e da Liberdade (ensaio político), 1826
Bosquejo da História da Poesia e da Língua Portuguesa, 1826
Carta de Guia de Eleitores (ensaio político), 1826
Adozinda (poema), 1828
Lírica de João Mínimo (poesia), 1829
Lealdade, ou a Vitória da Terceira (poesia), 1829
Da Educação, 1829
Portugal na Balança da Europa (ensaio político),1830
Elogio Fúnebre de Carlos Infante de Lacerda, Barão de Sabroso, 1830
Carta de M. Cévola, ao futuro editor do primeiro jornal liberal que em português se publicar (panfleto político), ?
Relatório dos decretos nº 22, 23 e 24 [reorganização da fazenda, administração pública e justiça], 1832
Manifesto das Cortes Constituintes à Nação, 1837
Da Formação da Segunda Câmara das Cortes, 1837
Necrologia [do conselheiro Francisco Manuel Trigoso de Aragão Morato], 1838
Relatório ao projecto de lei sobre a propriedade literária, 1839
Discurso do Sr. Deputado pela Terceira, J. B. de Almeida Garrett, na Discussão da Resposta ao Discurso da Coroa, 1840
Mérope, (tragédia), 1841.
Discurso do Sr. Deputado por Lisboa J. B. de Almeida Garrett na Discussão da Lei da Décima (folheto), 1841
O Alfageme de Santarém, 1842
Elogio Histórico do Sócio Barão da Ribeira de Sabrosa, 1843
Memória Histórica do Conselheiro A. M. L. Vieira de Castro (biografia), 1843
Romanceiro e Cancioneiro Geral, 1843
Miragaia (folheto), 1844
Frei Luís de Sousa (drama), 1844
O conselheiro J. B. de Almeida Garrett (autobiografia), 1844
Carta sobre a origem da língua portuguesa, (ensaio), 1844
O Arco de Santana (romance), 1845
Os Exilados (poesia), 1845
Memória Histórica do Conde de Avilez (biografia), 1845
Flores Sem Fruto (poesia), 1845
Da Poesia Popular em Portugal (ensaio literário), 1846
Viagens na Minha Terra (romance), 1846
Filipa de Vilhena (comédia) 1846
Tio Simplício (comédia), 1846
Falar Verdade a Mentir (comédia), 1846
A Sobrinha do Marquês (comédia), 1848
Memória Histórica da Excelentíssima Duquesa de Palmela (folheto), 1848
Memória Histórica de José Xavier Mouzinho da Silveira, 1849
O Arco de Santana (romance), 1850
Romanceiro (poesia), 1851
Cópia de uma Carta Dirigida ao Sr. Encarregado de Negócios da França em Lisboa, 1852
O Camões do Rossio (comédia), 1852
Folhas Caídas (poesia), 1853

Fontes:
Breve História da Literatura Portuguesa, Texto Editora, Lisboa, 1999
http://pwp.netcabo.pt/0511134301/escritor.htm

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Almeida Garret (A Tempestade – O Anjo Caído)

A Tempestade

I
Sobre um rochedo
Que o mar batia,
Triste gemia
Um desgraçado,
Terno amador.
Já nem lhe caem
Dos olhos lágrimas,
Suspiros férvidos
Apenas contam
Seu triste amor.

II
Ondas, clamava o mísero,
Ondas que assim bramais,
Ouvi meus tristes ais!
Horrível tempestade,
Medonho furacão,
Não é mais agitado
Do que o meu coração,
O vosso despregado,
Horrisonoo bramar!
Ancia que atropela
Meu lânguido peito,
É mais violenta
Que o tempo desfeito,
Que a onda encapela,
Que a agita a tormenta
No seio do mar.

III
Mas, ah! se o negrume
O sol dissipara
Calmara
Seu nume,
O horror do tufão.
Assim à minha alma
A calma
Daria
De Armia
Um sorriso:
Um raio de esp’rança
Do paraíso
Traria
A bonança
Ao meu coração.

O Anjo Caído

Era um anjo de Deus
Que se perdera dos céus
E terra a terra voava.
A seta que lhe acertava
Partira de arco traidor,
Porque as penas que levava
Não eram penas de amor.
O anjo caiu ferido
E se viu aos pés rendido
Do tirano caçador.
De asa morta e sem esplendor
O triste, peregrinando
Por estes vales de dor,
Andou gemendo e chorando.

Vi-o eu, n anjo dos céus,
O abandonado de Deus,
Vi-o, nessa tropelia
Que o mundo chama alegria,
Vi-o a taça do prazer
Pôr ao lábio que tremia
E só lágrimas beber.

Ninguém mais na terra o via,
Era eu só que o conhecia
Eu que já não posso amar!
Quem no havia de salvar?
Eu, que numa sepultura
Me fora vivo enterrar?
Loucura! Ai, cega loucura!

Mas entre os anjos dos céus
Cantava um anjo ao seu Deus;
E remi-lo e resgatá-lo,
Daquela infâmia salvá-lo
Só força de amor podia.
Quem desse amor há-de amá-lo,
Se ninguém o conhecia?

Eu só, – e eu morto, eu descrido,
Eu tive o arrojo atrevido
De amar um anjo sem luz.
Cravei-a eu nessa cruz
Minha alma que renascia,
Que toda em sua alma pus,
E o meu ser se dividia,

Porque ela outra alma não tinha,
Outra alma senão a minha…
Tarde, ai! tarde o conheci,
Porque eu o meu ser perdi,
E ele à vida não volveu…
Mas da morte que eu morri
Também o infeliz morreu.

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Nilton Tuller (Pai, Desculpe a Franqueza)

PAI .Puxa ! Faz tempo que não pronuncio esse nome. Sabe papai, eu era um menino cheio de vida. Tinha sonhos febris como os meus colegas de escola. Sim eu sonhei em ser tantas coisas lindas!!! Só não sonhei em ser o que sou hoje. Eu pensava: vou crescer, estudar, trabalhar, etc., etc.

O senhor era meu herói. Sim meu Pai Herói. Para mim não existia ninguém com mais autoridade que o senhor. É certo que eu estranhava quando o senhor chegava, meio alcoolizado em casa, abetumado macambúzio e jururu. Mas papai, eu quero dizer aqui de longe algo que trago no meu peito há muito tempo. O senhor não me preparou para enfrentar a vida. Lembra papai, o senhor não tinha tempo para mim. É verdade que o senhor me dava presentes, eu creio que o senhor nunca se esqueceu de um presente de natal, aniversário e tantas outras vezes. Só se esqueceu da minha pessoa. Lembrou-se do que eu precisava, e até do supérfluo, mas não se lembrou do que eu era. Eu era, na verdade um órfão de pai vivo! Pai, eu não queria os seus presentes apenas, eu queria mesmo era você. Queria e ansiava seu calor, o seu abraço, o seu beijo a sua atenção. Abraço . Nem me lembro de ter recebido um! O senhor nunca elogiou um boletim escolar que trazia para casa. Um dia a minha bicicleta descentralizou as rodas. Lembro-me como se fosse hoje. O senhor ia saindo para o escritório. Eu lhe pedi para me ajudar. Lembra papai o que me respondeu . Eu não tenho tempo. Meus clientes estão me esperando. Puxa vida, eu senti tanto ciúmes do senhor. Afinal seus clientes eram mais importantes do que eu. Você e mamãe estavam tão ocupados que mal me viram crescer. Vocês tinham que satisfazer os compromissos com a sociedade. Eu me sentia só, e isto me revoltava. Nasceu dentro de mim um conflito. Eu não sabia bem se o odiava ou tentava chamar a sua atenção para o meu dilema. Eu queria tanto que o senhor soubesse que apesar de tudo eu o amava. Hoje estou confuso, e nem sei mais o que é amor. Eu sei papai, que o senhor não é de tudo culpado. O senhor é fruto de uma sociedade consumista. Comunista e humanista. O senhor nunca me ensinou nada sobre religião, fé, Deus. Nas refeições vocês só falavam em negócios, dinheiro, ações, investimentos etc… Eu quase não via você chegar. Ah! Se você tivesse adivinhado que as poucas vezes que eu estava acordado, esperava que a porta do meu quarto abrisse e você fosse assentar na minha cama e pudesse me desejar uma boa noite. Mas… você passava direto para o seu aposento. Por causa disso papai, eu por curiosidade, por auto-afirmação ou aventura, não sei, entrei para as drogas. Como o senhor não me ajudou, os traficantes me adotaram.

E então os meus sonhos se desmoronaram. Eu que o admirava tanto, passei a chamá-lo de quadrado, velho, coroa e outros adjetivos.

Hoje estou aqui atrás das grades. Sim papai, estou preso nas garras do vício, na malha da lei. Pior,que isto. Estou preso nas minhas esperanças.

Mas… pensando melhor pai, eu olhei agora pelas grades da prisão e vi lá fora bem alto e longe uma nesga de céu azul. Creio que há esperança. Eu quero sair daqui papai. Quero ser livre. Liberte-se também de tudo aquilo que lhe prende, e vamos começar de novo. Vamos fazer um convênio. EU VOLTO A SER CRIANÇA, E O SENHOR VOLTA A SER PAI.
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Sobre o Autor:
NILTON TULLER
Cadeira Nº.17 – Patrono: Gonçalves Dias
Pastor evangélico. Foi vereador. Presidente fundador do MOLIVI (Movimento para Libertação de Vidas). Nasceu em Martinópolis-SP, no dia 30 de maio de 1939. Autor de “Por que um jovem entra nas drogas?” e “Vencendo no poder da fé”.
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Fonte:
Academia de Letras de Maringá
http://www.afacci.com.br/

Fotomontagem: José Feldman

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Associação dos Literatos de Ubiratã (ALIUBI)

A Associação dos Literatos de Ubiratã – ALIUBI, há vinte anos difundindo as Artes Literárias pelo Brasil e exterior, estende a oportunidade de edição a todos os amantes da poesia.

2.007 com certeza foi mais um ano de festa no palco da literatura brasileira pois, expandir as artes literárias tornou-se para a ALIUBI,tarefa de máxima importância e responsábilidade, já que no decorrer destes anos, retrataram com muito sucesso o trabalho de inúmeros talentos do Brasil e exterior.

No decorrer desta jornada, a Aliubi tornou-se não apenas uma associação, mas sim, um lar de poetas, ” uma familia”, onde a união de idéias, ideais e sonhos de todos os participantes, fez o ” Seu Sucesso!!!”.

A voce que participa conosco há tempos, “muito obrigado”, e a voce que vem participar pela primeira vez, “muitíssimo obrigado pelo apoio e, sejam bem vindos à família Aliubi!”. (Joacir Zen Ranieri – presidente)

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Maria Eliana Palma (1950)

Academia de Letras de Maringá – Cadeira nº. 34 – Patrona: Rachel de Queiroz

Professora e empresária. Filha de Joaquim Alves da Silva e Djanira Magalhães Silva, é capixaba da cidade de João Neiva, tendo nascido em 20 de maio de 1950. Vive na cidade-canção desde 1953. Aqui estudou, formou-se, em 1971, em Letras anglo-portuguesas pela UEM. Mais tarde, ministrou aulas, tanto no ILG como no próprio curso de Letras sendo coordenadora do Instituto de Línguas por sete anos. Apaixonada pela poesia, participou de concurso de trovas em 66 e, como vencedora de um dos temas, foi convidada a participar da Primeira Coletânea dos Poetas de Maringá, editada em dezembro daquele ano, ocasião em que conheceu o jovem que viria a desposar: Divanir Braz Palma.

30 anos mais tarde, em 1997, já mãe de Patrícia e Gilberto, participa da Coletânea dos Poetas de Maringá – II, elaborada em comemoração ao cinqüentenário de Maringá. Nos I Jogos Florais de Maringá, em abril de 2000 é premiada na categoria Vencedores e também recebe menção honrosa com trovas do tema: integração Brasil – Portugal. Há 16 anos profere palestras em escolas, clubes, residências, etc…, sobre temas de saúde tais como: prevenção de Câncer, DST, Planejamento familiar, bem como sobre Motivação, Auto-estima e sobre o Papel da Mulher na Sociedade Moderna. Apresentou, por seis anos, um programa aos sábados, pela Rádio Difusora de Maringá, cuja tônica era divulgar procedimentos de prevenção de doenças bem como contribuir para com a cultura de nossa população.

Desta forma, ao lado de entrevistas com médicos, terapeutas e demais profissionais da saúde, o programa Bate-Papo com Eliana Palma, trazia quadros sobre o bom uso da língua portuguesa, leitura de textos em prosa e verso onde valores locais e regionais eram destacados. Tudo entremeado com peças do cancioneiro popular de qualidade. Seu último trabalho UNIndo prosa e VERSO foi publicado em junho de 2003. Tendo por hobby a música e a leitura, Eliana credita a seu saudoso professor Ary de Lima sua vocação para literatura tendo por ele a mesma admiração que dedica aos grandes mestres das Letras.

Fonte:
Academia de Letras de Maringá
http://www.afacci.com.br/
Fotomontagem: José Feldman

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Maria Eliana Palma (Os perfumes do amor)

Quando bebê,
amor é seio de mãe:
aconchego, de carinho e de ciranda.
Cheiro de lavanda!
Depois, a presença do pai:
a força, de gentileza se arma!
Cheiro de loção de barba…

Criança…
Amor é a voz da “tia!,
dos amiguinhos do maternal,
das risonhas brincadeiras
com cheiro de mamadeira…
Na adolescência,
amor é sonho:
príncipe e princesa!
Ideal de coração e de beleza!
É suspiro, encanto e fantasia.
Como se acredita em promessas…
Que cheiro de ansiedade e pressa!

Na juventude o amor encontra
sua forma mais comum:
homem e mulher
buscando serem um!
Em comunhão de alma a princípio,
corpos ansiando por fusão e
por performance melhor.
Cheiro de prazer…e de suor!

O tempo passa; cabelos embranquecem,
e o desejo de amar, perpétuo,
ainda que mutante,
toma formas mais brandas de querer.
É a amizade, o companheirismo,
o silêncio da presença, do entender…
No olhar, o brilho da lua, não do sol!
Cheiro de eucalipto e Gelol.
Porém, aí, surge o neto encantador
e da existência sacode o bolor
e, sabe o quê?
As costas já não doem
com o peso do bebê.
O assunto central deixa de ser doença
E passa a ser criança…
E com ela renasce a esperança
E voltam os cheiros do maior querer…
Cheirinho de bebê,
Cheirinho de ternura…
Pele rosada de macio calor…
Cheiro do mais puro
e verdadeiro AMOR!

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Fonte:
Academia de Letras de Maringá
http://www.afacci.com.br/

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Antoine de Saint-Exupéry (1900 – 1944)

“Vou confiar-te o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos”

Antoine-Jean-Baptiste-Marie-Roger Foscolombe de Saint-Exupéry terceiro filho do conde Jean Saint-Exupéry e da condessa Marie Foscolombe veio ao mundo em Lyon, França, em 29 de Junho de 1900, e desapareceu em 31 de Julho de 1944, no Mediterrâneo.

Com a prematura morte de seu pai, monsieur Jean de Saint-Exupéry, Antoine foi ter uma infância feliz ao lado da mãe, dos três irmãos e da tutora austríaca Paula no velho castelo da tia avó materna, Madame de Tricaud, em Saint-Maurice de Rémens.

Neste tempo, o melhor amigo de Antoine era um velho fogão… aos 12 anos já escrevia versos como este em louvor das máquinas de voar “Les ailes frémissaint sous le souffle du soir” (Asas fremiam à brisa do crepúsculo).

Apaixonado desde a infância pela mecânica, estudou a princípio no colégio jesuíta de Notre-Dame de Saint-Corix, em Mans, de 1909 a 1914. Neste ano da Primeira Guerra Mundial, juntamente com seu irmão François, transfere-se para o colégio dos Maristas, em Friburgo, na Suíça, onde permanece até 1917. Quatro anos mais tarde, em abril de 1921, Antoine inicia o serviço militar no 2º Regimento de Aviação de Estrasburgo, tinha dificuldades de se ajustar à disciplina da realidade; entregando-se a devaneios, fazia poesias, sonhava acordado, foi reprovado nos exames para admissão da Escola Naval.

Após a doce infância, a dura realidade de sua juventude contrastaria com o conto de fadas vivido em Saint-Maurice.

Nessa época, seus colegas de juventude descreviam Antoine como um “jovem tímido e introspectivo, e com tendência a súbitas mudanças de humor, transformando-se, rapidamente, de uma pessoa cheia de vida a uma atitude calada; pouco sociável e indócil, sofria, porque queria ser amado.”

Falhara irremediavelmente no concurso para ingresso na escola naval, porque ultrapassara a idade limite; então, foi estudar arquitetura. Foi um período “sociável” de Antoine, mas uma época insípida, porque, embora gostasse de desenhar, não estava feliz com os estudos de arquitetura. Quando Antoine foi convocado para servir no Segundo Regimento da Força Aérea, em 02 de Abril de 1921, ele sentiu a chance de encontrar o seu verdadeiro caminho: A aviação.

A paixão de Antoine por aviação era antiga; nos tempos de infância, próximo ao castelo de Saint-Maurice, havia uma pista de aviação, na qual ele sempre espionava o vem-e-vai de pilotos e mecânicos, admirando-lhes a dedicação ao novel meio de transporte e o clima de camaradagem entre eles.

Em um dia do ano de 1912, um famoso piloto, Vedrines, levou Antoine para um passeio de avião. Este dia tornou-se inesquecível para Antoine, que descobriu que tinha alma de piloto de avião; sua bicicleta, ele transformou em um “avião”, fixando nela um par de asas…

Mas, no Segundo Regimento da Força Aérea de Strasbourg, Antoine logo se desiludiu: Eles não o haviam convocado para o pessoal de vôo, e sim como assistente de serviços de terra. Nesta ocasião, deprimido, como de costume, ele revelou sua tristeza a sua mãe, em uma carta:

À noite, sinto-me um pouco triste. Venha algum dia a Strasbourg. Sinto-me um tanto sufocado neste lugar. Eu estou sem perspectivas. Eu preciso me dedicar a algo que eu goste. Mãe, se você soubesse o quanto é irresistível o meu desejo de voar! Se eu não conseguir meu objetivo, eu serei muito infeliz… Mas eu vou conseguir” (1921)

A 17 de junho, obtém em Rabat,para onde fora mandado, o brevê de piloto civil. No ano seguinte, 1922, já é piloto militar brevetado, com o posto de subtenente da reserva. Em 1926, recomendado por amigo, o Abade Sudour,é admitido na Sociedade Latécoère de Aviação, onde começa então sua carreira como piloto de linha, voando entre Toulouse, Casablanca e Dacar, na mesma equipe dos pioneiros Vacher, Mermoz, Guillaumet e outros.

A falta de recursos para estudar aviação, tendo de se socorrer, constantemente, da generosidade da mãe, talvez, explique a ansiedade de Antoine, a impaciência e os conseqüentes acidentes em que se envolvia.

Definitivamente, Antoine não era um homem de sorte: Sem dinheiro, sem trabalho e moralmente abatido pelo último acidente que o fez perder tudo… Então, longos meses de amargura vieram.

Durante um tempo, quando recuperou-se dos ossos quebrados, foi trabalhar contando telhas; sentia-se prisioneiro entre as quatro paredes do escritório de quatro metros quadrado, atrás das barras de intermináveis colunas de números.

Em 1923, Antoine se descrevia, em cartas a sua mãe, como um patético, vivendo uma situação desprezível e desalentadora. Sua vida era dividida entre o escritório e o quarto de hotel onde vivia. Sua alegria era pilotar, aos finais de semana, quando tinha dinheiro para tanto… Então, seu entusiasmo não tinha limites:

Mãe, Domingo eu fui dar uma volta de avião. Tive um bom vôo. Eu adoro voar. Você não pode imaginar a calma e a solidão que se encontra a 4.000 metros de altitude, sozinho com o motor.”

Em 1924, um novo emprego: Representante de vendas de caminhão; então, viajava o tempo todo para muitos lugares, mas, em quinze meses, vendeu apenas um caminhão… Através de uma parente distante, Antoine conheceu Jean Prevost, o qual publicou alguns de seus escritos na edição de Abril (1926) da revista “Navire d’argent”. O Piloto, era a estória de um instrutor de vôo que, como ele, tinha depressão quando abandonava seu avião. O Piloto foi um sucesso. Nesta ocasião, conheceu Beppo de Massimi, um dos idealizadores da Companhia Aérea Latdcoe’re, que o apresentou ao inflexível e perspicaz Didier Daurant.

Antoine queria ser piloto da empresa e teve sucesso na entrevista com Daurant que, no entanto, mandou Antoine para o galpão de mecânica primeiro, como fazia com todos que queriam ser pilotos.

Alguns meses mais tarde, Antoine já voava entre Toulouse-Rabat; depois, Dakar-Casablanca, num perigosíssimo percurso de 2.765 quilômetros sobre território africano. Realizado, escreveu a sua mãe, em 1926: “Estou bem e feliz”.

Em 1927, Didier Daurant designou Antoine para assumir uma base da empresa em Cape Juby, entre Casablanca e Dakar, cuja missão seria a de resgatar pilotos franceses civis que caíssem no deserto, os quais não podiam contar com o auxílio das forças espanholas em território dissidente; muitos pilotos tinham tido suas gargantas cortadas no deserto e Daurant precisava de alguém que tivesse diplomacia para lidar com os militares espanhóis, a fim de obter permissão para construção de uma pista de pouso no deserto; ainda, tinha que ser um homem corajoso e disposto a voar, a qualquer hora, para resgatar seus companheiros que caíssem no deserto do Saara. De fato, ninguém mais apropriado para tal missão que “Saint-Ex”.

Porém, Antoine viveu ali um fim de mundo, solidão, silêncio e isolamento, cercado pelo mar de um lado e pelo deserto do outro, precariamente instalado em uma barraca que repartia com o mecânico “Toto”, dormindo em um colchão fino, com uma jarra de água e bacia de lavar o rosto, com sua máquina de escrever e alguns papéis timbrados da empresa. Antoine conquistou a confiança dos militares espanhóis e, ainda, através das crianças, a amizade dos árabes, com os quais podia contar para resgatar pilotos que caíam no deserto. Nestes tempos, escreveu seu primeiro livro, Southern Mail, sobre uma tábua apoiada em dois barris. Depois de dezoito meses em Cape July, a missão de Antoine fora ali mais do que cumprida e, como resultado de seu esforço, foi condecorado. Quando chefiou o posto de Cap Juby,que os mouros lhe deram o cognome de senhor das areias.

Em seguida, Didier designou Antoine, em Outubro de 1929, como gerente chefe da companhia Aeroposta-Argentina, com a missão de abrir novos caminhos para a companhia na costa da América Latina; mesmo ganhando 225 mil francos por ano, Antoine não se sentia completamente feliz.

Todavia, foi neste período em que escreveu seu segundo livro, Night Flight, que fez um sucesso fabuloso entre o público. Mas, seus amigos o reprovaram, acusando Antoine de haver distorcido a verdadeira realidade existente na vida dramática dos pilotos que faziam os vôos noturnos.

Em 1931, Antoine casou-se com Consuelo Suncin. A Aeroposta Argentina entrou em declínio e Antoine foi demitido, voltou ao posto de simples piloto, fazendo os vôos noturnos entre Casablanca e Dakar. Porém, o governo francês transformou todas as empresas aéreas em apenas uma, a Air France, e Antoine voltou a estaca zero, com um trabalho apático de piloto de teste na companhia Latecoere, em 1932. Antoine é um péssimo piloto de testes e é obrigado a desistir deste trabalho. Em 1935, passa a viajar pela França e no exterior pelo departamento de propaganda da Air France. Então, começa a escrever artigos para o jornal “Paris Soir”; seus artigos fazem sucesso, sua situação financeira melhora e ele compra seu avião, o “Simoun”.

Ao comprar o “Simoun”, um de seus projetos era bater o recorde de velocidade entre Paris e Saigon. Em 29 Dezembro de 1935, Antoine e seu mecânico Prevot caíram no deserto, onde passaram cinco dias morrendo de sede, tendo miragens e quase morreram, quando, então, foram resgatados por beduínos. Esta experiência serviu de pano de fundo para o Pequeno Príncipe.

Apesar de ter quase morrido no deserto, Antoine não perdera a coragem, nem a fascinação pelo perigo. Ia levando a vida exercendo o jornalismo. Pelo jornal “O Intransigente”, foi enviado à Barcelona para acompanhar a guerra civil, onde Antoine passou pela amarga experiência de presenciar atrocidades.

Passados já alguns anos da fracassada aventura Paris-Saigon, Antoine estava pronto para outra: Uma corrida aérea entre Nova Ioque e Tierra del Fuego; ao decolar de uma pista na Guatemala, houve um sério acidente: Antoine teve traumatismo craniano, quase perdeu o ombro esquerdo e permaneceu em coma por vários dias em Nova Iorque. Demorou muitos meses para que Antoine se recuperasse e, durante este período, ele escreveu um novo livro, Wind, Sand and Stars, um livro de memórias sobre seus dez anos de pilotagem e velhos amigos dos tempos da rota Toulouse-Dakar, os pilotos Mermoz e Guillaumet. Em Maio de 1939, recebe o Grande Prêmio da Academia francesa. Quatro meses depois, eclodia a Segunda Grande Guerra.

Neste tempo, Antoine é capitão da reserva da Força Aérea de Toulouse. Mas, sua idade (39 anos) e seu estado de saúde (ombro semi-paralítico) o impedem de realizar missões aéreas. Porém, Antoine não se conformou com a idéia de ficar na reserva, e passou a envidar todos os esforços para poder participar de missões aéreas durante a guerra. Tanto se esforçou que convenceu o General Davet que, por sua vez, convenceu seus superiores de que, na força aérea, o que importa “não é a condição física do coração, mas sua dedicação.”

Assim, em 03 de Novembro de 1939, foi designado para o esquadrão de reconhecimento em Orconte, na província de Champagne. As experiências em Orconte, Antoine descreveria em Flight to Arras.

Em 22 de Junho de 1940, a França assinou um armistício de derrota e Antoine, sentindo-se extremamente humilhado, abandonou seu país, partindo para Nova Iorque. A França estava sob o jugo do domínio alemão e, por isso, o livro Flight to Arras, lido por um grande público americano, teve sua distribuição proibida pelos alemães na França.

Antoine permaneceu por dois anos nos Estados Unidos, correspondendo-se, por carta, com o jornalista Léon Werth, um amigo que vivia na França ocupada pelos alemães. Estas cartas foram publicadas em Fevereiro de 1943 e, em Abril do mesmo ano, foi publicado o Pequeno Príncipe, que recebeu um fria recepção do público. Ninguém poderia imaginar que, da literatura de Antoine, seria produzido um livro como o Pequeno Príncipe, que se constituía de uma curta história para crianças, onde os animais falavam. Era inimaginável, para muitos, que um homem de ação, e com o perfil de um herói como Antoine, pudesse escrever histórias para crianças.

Todos que conheceram Antoine sabem que, sempre que tinha qualquer pedaço de papel às mãos, fosse um guardanapo de restaurante ou um papel de carta, ele desenhava crianças. Questionado, certa vez, pelo seu editor, nos Estados Unidos, Curtice Hitchcock, o que desenhava, ele respondeu: “Nada demais, apenas a criança que existe no meu coração”, ao que o editor lhe replicou que ele deveria escrever a história daquela criança em um livro de crianças. Daí, talvez, haver nascido o livro Pequeno Príncipe, cujos desenhos foram feitos pelo próprio Antoine, sem a ajuda de profissionais, de modo que as ilustrações pudessem ter a mesma simplicidade e a mesma doçura do caráter daquela curta história.

O Pequeno Príncipe foi, ao mesmo tempo, o mais simples e o mais profundo livro escrito por Antoine; superficialmente, é uma pequena história para crianças, mas, na realidade, é a história de uma criança escrita para os adultos. O Pequeno Príncipe foi “a criança que vivia dentro de Antoine, que o emocionava e o guiava, a criança que o fazia levantar nos momentos cruciais de sua vida, que o prevenia de tomar decisões estúpidas como muitos adultos que acreditam em números, em demonstrações, na seriedade da lógica mais do que na seriedade do coração”.

Em 1942, os Estados Unidos decidem entrar na Grande Guerra e desembarcam no Norte da África; após publicar o Pequeno Príncipe, Antoine segue para Algiers para se juntar a seus companheiros, sob o comando americano, no esquadrão 2/33.

Os americanos equipam o esquadrão com aeronaves Lightning P-38, que alcançam velocidades de até 700 Km/h; para pilotá-las, não podem os pilotos ter mais de 35 anos; aos 43 anos e com um ombro paralisado, Antoine seria excluído da pilotagem, mas, graças às suas amizades influentes, obtém autorização para pilotar os Lightning P-38.

Depois dos 40 anos queria continuar voando em missões de guerra, numa idade que já era excessiva para tal tarefa. Tentou durante vários meses, até que no final conseguiu retornar a sua esquadrilha de reconhecimento. Além das razões patrióticas, havia outra de muita importância pessoal: continuar desfrutando do vôo.

Não suportava os trabalhos administrativos e burocráticos, se bem que teria exercido um papel mais útil se os aceitasse, tendo em vista suas relações e influência. Não obstante, usou essas mesmas relações para obter a autorização de vôo, após vários meses de negativas por parte do comando aliado. A partir daí começa a ter lugar uma seqüência de fatos que acabaram por levar Saint-Exúpery ao desenlace fatal, em 31 de julho de 1944, quando desapareceu junto com seu avião.

Em 6 de junho decolou em sua primeira missão, que era fotografar vários objetivos simples na região da Marselha; um incêndio em seu motor esquerdo obrigou-o a voltar antes de chegar à zona do objetivo.

A segunda missão foi em 15 de junho, e quase desmaiou quando o regulador de oxigênio apresentou um defeito. Em 24 de junho aterrissou pensando que tudo ia bem, quando notou que não conseguia parar uma das hélices e que um único motor fazia todo o trabalho. Como diz Curtis Cate, seu biógrafo, “era um exemplo dessa distração que fazia sacudir a cabeça de seus camaradas“. Sua idade e condições físicas são incompatíveis para a pilotagem dos P-38; Antoine é cortado do esquadrão.

Em 29 de junho de 1944, dia de seu aniversário, a missão em pauta era fotografar a região do lago de Annecy, à qual associava profundas e numerosas lembranças de infância. O turno cabia a outro piloto, mas ele suplicou que trocassem, quase como um presente de aniversário, para voltar a percorrer aquela região de tantas lembranças. Logo depois de decolar, perdeu um motor; sabia-se assim alvo fácil para um caça alemão, razão pela qual fez um desvio para os Alpes, onde havia menos bases inimigas e ele teria a possibilidade de mergulhar num vale se visse um caça à distância. Abaixo de seu avião, as montanhas se transformavam pouco a pouco em bases de encostas e colinas. De repente, descobre uma planície, nela uma grande cidade, e ao redor numerosas pistas de aviação. Em sua traseira aparece um caça: “Enfio a cabeça na cabine e espero. Meu pobre Antoine, desta vez estás acabado. Uma última lembrança, todos os que me esperam esta tarde, vigiando o horizonte… mas por que demora tanto a morte?”. O caça o tomara por um amigo. “Reconheço Gênova e ao mesmo tempo volto a ver as muitas bandeirolas cravadas sobre esta cidade; é uma cidade muito protegida“.

Em carta que escreveu a seu amigo Pellissier diz: “Exerço uma estranha profissão para minha idade. O mais velho, depois de mim, tem seis anos menos do que eu. Mas prefiro esta vida: o café da manhã às 7 horas, a comida, a tenda de campanha ou o quarto pintado de cal, em seguida, 10.000 metros de altitude em um universo inédito: é melhor que o ócio atroz de Argel” (lugar onde se refugiara quando da queda da França ante os alemães) “Para mim é impossível descansar e trabalhar na provisoriedade do limbo. Ali me falta o sentido social. Mas escolhi o gasto máximo e, como sempre, terei que ir até o extremo de mim mesmo, e não retrocederei. Desejo que esta sinistra guerra termine antes que me tenha extinguido por completo, como uma vela em combustão. Tenho outro trabalho para fazer mais adiante”.

Além destes fatos, houve outros que puseram em perigo sua vida, todos relacionados com esquecimentos e distrações. Dizia simplesmente, “terminarei como meus amigos” (fazendo referência ao fato de que era o último que restava de seus velhos camaradas da AeroPostale). Em uma despedida disse: “estou seguro que não voltarei a vê-la“.

Por oito meses, Antoine usa de todos os recursos para convencer pessoas influentes a ajudá-lo a retornar às missões de vôo; passa por períodos de depressão, ao mesmo tempo em que dá continuidade ao livro The Wisdom of the sands, publicado após a sua morte.

Finalmente, o Coronel Chassin, que conhecia Antoine por muitos anos, consegue convencer o General americano Eaker a deixar Antoine reintegrar-se ao esquadrão aéreo, desta vez, na Sardinia, sob a condição de que não faria mais do cinco missões de reconhecimento; contudo, estas cinco missões se transformaram em oito, porque Antoine sempre se oferecia para as missões subseqüentes.

No dia 31 de Julho de 1944, às quinze para as nove da manhã, Antoine saiu em sua nona missão, com o objetivo de fotografar Grenoble e Annecy. Uma e meia da tarde, Antoine não tinha voltado, quando ainda lhe restava apenas mais uma hora de combustível. Às duas e meia da tarde, seus companheiros suspeitaram que o pior havia acontecido.

Em 1998, um pescador (Habib Benamor) encontrou na rede que lançara ao fundo do mar uma pulseira que pertencera Exupéry.

Cinco anos antes (1993), o banco central francês lançou uma nota de cinqüenta francos com o seu retrato ao lado do Pequeno Príncipe.

Intensas pesquisas no fundo do mar próximo à Ilha de Riou foram envidadas pelo engenheiro e especialista na exploração de naufrágios Henri-Germain Delauze. O mergulhador profissional Luc Vanrell, que havia fotografado escombros metálicos naquela região (em 1982), passou a mergulhar naquela área do mar em busca de restos do avião de Exupéry, um P.38 F-5B da série J.

O DRASSM (departamento de arqueologia submarina do Ministério da Cultura francês) autorizou em 2003 uma pesquisa formal nos destroços encontrados pelos exploradores. Delauze e Vanrell passaram a trabalhar juntos. 10% da aeronave foi resgatada (uma peça de alumínio da fuselagem, um turbocompressor, componentes hidráulicos e elétricos). Philippe Castellano, historiador amador e mergulhador, foi chamado para ajudar na identificação das peças içadas à superfície pelo barco Minibex. Entre elas, Castellano encontrou o número 2734 gravado. Estava confirmado: Aquele avião era o de Exupéry…

Teria Exupéry escondido no fundo do mar o seu avião e viajado para o asteróide B 612 para juntar-se ao seu pequeno príncipe?

Uma carta foi encontrada no quarto de Exupéry. Estava endereçada ao General, a qual dizia em resumo:

Eu não me importo se eu morrer na guerra, ou se eu me transformar em alvo destes torpedos voadores, os quais nada têm de verdadeiramente voadores, e que transformam o piloto em um contador por meio de indicadores e botões. Mas, seu eu voltar vivo desta ingrata, mas necessária “tarefa”, haverá apenas uma questão para mim: O que se pode dizer à humanidade? O que se tem que dizer à humanidade?”

Suas Obras

Suas obras foram caracterizadas por alguns elementos em comum, como a aviação, a guerra. Também escreveu artigos para várias revistas e jornais da França e outros países, sobre muitos assuntos, como a guerra civil espanhola e a ocupação alemã da França.

No entanto, deve-se dar uma atenção a este último, O pequeno príncipe (O Principezinho, em Portugal) (1943), romance de maior sucesso de Saint-Exupéry. Foi escrito durante o exílio nos Estados Unidos, quando fez visitas ao Recife. E para muitos era difícil imaginar que um livro assim pudesse ter sido escrito por um homem como ele.

O pequeno príncipe é uma obra aparentemente simples, mas, apenas aparentemente. É profunda e contém todo o pensamento e a “filosofia” de Saint-Exupéry. Apresenta personagens plenos de simbolismos: o rei, o contador, o geógrafo, a raposa, a rosa, o adulto solitário e a serpente, entre outros. O pequeno príncipe vivia sozinho num planeta do tamanho de uma casa que tinha três vulcões, dois ativos e um extinto. Tinha também uma flor, uma formosa flor de grande beleza e igual orgulho. Foi o orgulho da rosa que arruinou a tranqüilidade do mundo do pequeno príncipe e o levou a começar uma viagem que o trouxe finalmente à Terra, onde encontrou diversos personagens a partir dos quais conseguiu descobrir o segredo do que é realmente importante na vida.

É uma obra que nos mostra uma profunda mudança de valores, que ensina como nos equivocamos na avaliação das coisas e das pessoas que nos rodeiam e como esses julgamentos nos levam à solidão. Nós nos entregamos a nossas preocupações diárias, nos tornamos adultos de forma definitiva e esquecemos a criança que fomos.

Principais Obras
O aviador (1926);
Correio do Sul (1928);
Vôo Noturno (1931);
Terra de Homens (1939);
Piloto de Guerra (1942);
O Principezinho (pt) (1943).
Cidadela (1948)-
Cartas ao Pequeno Príncipe

Fontes
http://www.edmundolellisfilho.com/
http://pt.wikipedia.org/
Constelar on Line Edição 108 :: Junho/2007. http://www.constelar.com.br/

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Antoine de Saint – Exupéry (O Pequeno Príncipe)

O narrador recorda-se do seu primeiro desenho de criança, tentativa frustrada de os adultos entender o mundo infantil ou o mundo das pessoas de alma pura. Ele havia desenhado um elefante engolido por uma jibóia, porém os adultos só diziam que era um chapéu. Quando cresceu, testava o grau de lucidez das pessoas, mostrando-lhes o desenho e todas respondiam a mesma coisa. Por causa disto, viveu sem amigos com os quais pudesse realmente conversar.

Pelas decepções com os desenhos, escolhera a profissão de Piloto e, em certo dia, houve uma pane em seu avião, vindo a cair no Deserto de Saara. Na primeira noite, ele adormeceu sobre a areia. Ao despertar do dia, uma voz estranha o acordou, pedindo para que ele desenhasse um carneiro. Era um pedacinho de gente, um rapazinho de cabelos dourados, o Pequeno Príncipe.

O narrador mostrou-lhe o seu desenho. O Pequeno Príncipe disse-lhe que não queria um elefante engolido por uma jibóia e sim um carneiro. Ele teve dificuldades para desenhá-lo, pois fora desencorajado de desenhar quando era pequeno. Depois de várias tentativas, teve a idéia de desenhá-lo dentro de uma caixa. Para surpresa do narrador, o Pequeno aceitou o desenho. Foi deste modo que o narrador travou conhecimentos com o Pequeno Príncipe. Ele contou-lhe que viera de um planeta, do qual o narrador imaginou ser o asteróide B612, visto pelo telescópio uma única vez, em 1909, por um astrônomo turco.

O pequeno Planeta era do tamanho de uma casa. O Pequeno Príncipe contou o drama que ele vivia, em seu Planeta, com o baobá, árvore que cresce muito; por este motivo, ele precisava de um carneiro para comer os baobás enquanto eram pequenos. Através do Pequeno Príncipe, o narrador aprendeu a dar valor às pequenas coisas do dia-a-dia; admirar o pôr-do-sol, apreciar a beleza de uma flor, contemplar as estrelas… Ele acreditava que o pequeno havia viajado, segurando nas penas dos pássaros selvagens, que emigravam.

O Príncipe conta-lhe as suas aventuras em vários outros planetas: o primeiro era habitado por apenas um rei; o segundo, por um vaidoso; o terceiro, por um bêbado; o quarto, por um homem de negócios; o quinto, um acendedor de lampião; no sexto, um velho geógrafo que escrevia livros enormes, e, por último, ele visitou o nosso Planeta Terra, onde encontrou uma serpente, que lhe prometeu mandá-lo de volta ao seu planeta, através de uma picada. No oitavo dia da pane, o narrador havia bebido o último gole de água e, por este motivo, caminharam até que encontraram um poço. Este poço era perto do local onde o Pequeno Príncipe teria que voltar ao seu planeta. A partida dele seria no dia seguinte. Falou-lhe, também, que a serpente havia combinado com ele de aparecer na hora exata para picá-lo. O narrador ficou triste, ao saber disto, porque tomara afeição ao Pequeno. O Príncipe lhe disse para que não sofresse, quando constatasse que o corpo dele estivesse inerte, afirmando que devemos saber olhar além das simples aparências. Não havia outra forma de ele viajar, pois o seu corpo, no estado em que se encontrava, era muito pesado. Precisava da picada para que se tornasse mais leve.

Chegado o momento do encontro com a serpente, o Pequeno Príncipe não gritou. Aceitou corajosamente o seu destino. Tombou como uma árvore tomba. E assim, voltou para o seu planeta, enfim. O narrador, dias mais tarde, conseguiu se salvar, sentindo-se consolado porque sabia que o Pequeno Príncipe havia voltado para o planeta dele, pois ao raiar do dia seguinte à picada, o corpo do Pequeno não estava mais no local. Hoje, ao olhar as estrelas, o narrador sorri, lembrando-se do seu grande Pequeno amigo.

Obs.:O Pequeno Príncipe, embora pareça um livro escrito para crianças, é uma obra urgentíssima para adultos. Suas palavras possuem conotações mais profundas, que não poderão ser notadas em uma simples leitura. Esta obra pode ser considerada como Fábula, ou se preferir, Parábola.

Fonte
http://www.netsaber.com.br/

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O Pequeno Príncipe (Análise sob o olhar da Psicanálise)

Oh! Ultrapassei as imperiosas
fronteiras da terra,
E dancei nos céus
com alegres asas de prata;
Em direção ao sol subi,
e com o coração leve fui parte das
alturas, das nuvens entre as quais passa o sol
e fiz muitas coisas
Que você nunca sonharia
– girei e subi direto
E balancei-me no ar,
Bem alto no silêncio iluminado pelo sol.
Planando lá,
Persegui o vento que assobiava,
e bruscamente virei e levei
Meu ansioso aparelho através
de corredores no ar suspensos.
(Vôo Alto, John Magee)

É difícil dizer se é lícito interpretar uma obra artística através de seu autor, ainda mais num caso como O Pequeno Príncipe, de Saint-Exupéry, cuja repercussão foi tão grande a ponto de converter-se em pouco tempo num clássico da literatura.

Segundo a a psicologia Junguiana todo artista é como o leito de uma correnteza da alma coletiva. Mas o próprio artista, em sua consciência, é marcado por esta inundação. Como diz Jung, “dificilmente haverá um homem criativo que não tenha que pagar caro pela divina centelha do poder“.

Partindo desta premissa, podemos dizer que O Pequeno Príncipe é certamente um personagem que, apesar de possuir elementos da psicologia pessoal do autor, ultrapassa-o e configura uma mensagem à humanidade.

O romance O Pequeno Príncipe coloca em evidência, logo de início, a disparidade entre o pensamento infantil e o pensamento adulto, cada um com a esfera de interesses que lhe é própria, como dois mundos de difícil conciliação. Tanto que o narrador é tomado por um profundo sentimento de solidão, como ele mesmo declara: “Vivi assim, sozinho, sem ninguém com quem verdadeiramente falar …” De fato, parece que não encontrava com quem compartilhar sua vivência pessoal. Isto posto, era de se esperar que algo acontecesse. E logo o autor acrescenta: “…até que tive uma avaria no deserto do Saara, faz 6 anos”.”Era uma questão de vida ou morte“. Desta maneira inicia-se O Pequeno Príncipe, que Saint-Exupéry começou a escrever no verão de 1942 e que está baseado em um fato que lhe ocorrera seis anos antes, no Ano Novo de 1936. Naquela ocasião seu avião caiu no deserto, e “tanto o tanque de água quanto o tanque de combustível foram perfurados. Tínhamos por toda provisão uma laranja, algumas uvas passas, um quarto de litro de vinho branco num recipiente térmico, um pouco de café em outro“. “Estávamos privados de água por destruição de nossas reservas e incapazes de nos localizarmos no deserto com uma margem de precisão de 300 quilômetros“, de acordo com o que o próprio Saint-Exupéry descreve em relatório. Esteve quase quatro dias perdido até que foi encontrado por um beduíno. “Tinham visto miragens magníficas: oásis, camelos, cidades. Prévot, seu companheiro de aventura, tinha ouvido um galo cantar. Saint-Exupéry tinha visto em sua alucinação três cães que se perseguiam mutuamente“.

Em 26 de abril de 1934 Saint-Exupéry ingressa na Air France como piloto. Já fora recusado no ano anterior.

Possuía uma tremenda energia posta a serviço de atividades muito dinâmicas e rápidas, que implicam em parte a ampliação de horizontes intelectuais ou vivenciais. Foi um pioneiro da aviação, que trabalhou fazendo correio aéreo em diversas partes do mundo, tendo aberto, inclusive, a primeira linha aeropostal da Patagônia. Era alguém com presunções aristocráticas ou de auto-importância, pois nosso herói procedia de família nobre e herdou o título de conde de seu pai, mas, nunca fez alarde disso.

Caracterizava-se por uma excessiva audácia, por um sentimento exagerado de confiança, levando às vezes a realizar atos imprudentes. De fato, seu biógrafo relata o contexto da realização da acidentada viagem. Apesar de sua situação econômica não andar muito boa, Exupéry não resistiu à tentação de comprar um avião, se bem que esperasse tirar proveito disso: o Ministério da Aeronáutica da França oferecia um prêmio de 150.000 francos a quem batesse o recorde de tempo no trajeto Paris-Saigon. Exupéry conseguiu inclusive que um periódico aceitasse publicar uma reportagem sobre o vôo. Mas sua situação econômica piorou tanto que não pôde pagar o aluguel do apartamento onde vivia com a esposa Consuelo, e ainda lhe cortaram a luz e o gás. “Nunca havia passado por uma situação semelhante. Não restava mais do que um modo de sair dela: bater o recorde Paris-Saigon“.

Saint-Exupéry se encontrava visivelmente num estado nervoso pouco propício para embarcar numa experiência fisicamente exaustiva“.

Em 1935, tentado pela possibilidade de ganhar 150 mil francos, Saint-Exupéry se lança à corrida Paris-Saïgon. O desafio era ligar as duas capitais em menos de cinco dias e quatro horas. A partida acontece em 29 de dezembro. Em 30 de dezembro, às 2h45 da madrugada, a aeronave se espatifa ao atingir a crista de um planalto. Durante três dias o piloto e o mecânico Jean Prévot caminham pelo deserto, sofrendo de sede, até serem resgatadospor um beduíno.

Nestas condições empreendeu a aventura que quase o levou a morrer de sede no deserto. Sabemos, por Jung, que quando faltam estímulos exteriores, tal como ocorre num deserto, o inconsciente começa a produzir seus próprios conteúdos, que se extrovertem na tela de projeção vazia que é o próprio deserto. Daí aparecem as alucinações – miragens. Além disso, a ciência médica diz que as extremas condições decorrentes do calor excessivo do deserto e da falta de água, combinados, dão como resultado diversos sintomas físicos: disfunção neurológica, conduta psicótica, delírios e alterações mentais.

Imagino que O Pequeno Príncipe seja um produto tardio desta experiência.

Estava mais isolado que um náufrago sobre uma balsa no meio do oceano. Imagine, pois, minha surpresa quando, ao romper o dia, despertou uma estranha vozinha que dizia: – Por favor… me desenhe um cordeiro!”

Como uma miragem, surgiu do deserto este homenzinho das estrelas. Desta maneira o inconsciente irrompeu como um fantasma.

Conforme Marie-Louise Von Franz, o homem que se identifica com o Puer Aeternus (Trata-se do nome de um deus da antigüidade. Procede da Metamorfose de Ovídio, onde se aplica ao menino-deus dos mistérios Eleusinos e, do ponto de vista da psicologia profunda de Carl Jung, representa um arquétipo relacionado com a mudança e a renovação) permanece muito tempo na psicologia adolescente “com uma dependência excessiva da mãe”.

Jung diz: “o Puer Aeternus só tem uma vida breve, pois sempre é uma mera antecipação de algo desejável e desejado. Isto é tão real que certo tipo de menino mimado ostenta também in concreto as propriedades do adolescente divino que floresce prematuramente, e inclusive sucumbe de morte precoce”. Recordemos que Saint-Exupéry morreu aos 44 anos. Sempre teve medo de ver-se colhido por uma situação da qual “poderia ser impossível escapar”. Além disso, tinha “uma fascinação por esportes perigosos, especialmente o vôo e o alpinismo“.

Seu pai morreu quando ele tinha quatro anos. Manteve pela vida inteira uma prolífica correspondência com a mãe que foi recolhida e publicada, em francês, em 1955. E Jung diz, em uma nota de pé de página, que “o complexo materno deste autor foi abundantemente confirmado por informação de primeira mão“.

N’O Pequeno Príncipe, diz o narrador: “tenho sérias razões para pensar que o planeta de onde vem O Pequeno Príncipe é o asteróide B612

A grande maioria dos asteróides descobertos até agora está numa região exatamente entre as órbitas de Marte e Júpiter.

Na verdade não existe um asteróide B612, mas sim o 612, cujo nome é Verônica, um nome de mulher, e, além disso, é também uma planta herbácea de flores azuis.

Na obra, o Pequeno Príncipe tem uma relação intensa com uma flor que “havia germinado de uma semente trazida de sabe-se lá onde“- de outro planeta? Na carta de Saint-Exupéry, o significado etimológico desta última palavra é “não lugar”. Podemos relacionar a flor com uma Vênus que vem de um não lugar. Isto se vê também em indivíduos com pouco enraizamento na Terra, cuja consciência está em algum não lugar fora da terra, ou seja, extraterrestre. As oposições se manifestam, geralmente, como o que em psicologia se chama projeção, quer dizer, o ver em outra pessoa características que nos são próprias, sejam estas consideradas boas ou más.

A flor se comportava de uma maneira muito coquete, deixando o Pequeno Príncipe fascinado por sua beleza. Mas em pouco tempo a flor já o chateava com seguidas exigências: um dia lhe pediu um biombo porque “sentia horror às correntes de ar”, e inclusive forçou a tosse para lhe infligir remorsos. Típica manipulação emocional do tipo materno negativo que tem por finalidade obter a submissão do eu de nosso pequeno herói, impedindo sua maturação. Uma consciência masculina com uma anima, ou seja, com um fundo anímico deste tipo ficaria sempre envolta nesses caprichos “femininos”, com duas possibilidades: ou se identifica com eles, configurando uma possível homossexualidade, ou os abandona em busca de uma nova oportunidade. Ambas as possibilidades descritas ainda mantêm a consciência masculina muito perto do complexo materno.

Nosso homenzinho parte, abandonando a flor e o planeta. É como se seu amor frustrado lhe tivesse servido de incentivo para afastar-se do lar e chegar finalmente à Terra.

A flor, para Novalis, é símbolo do amor e da harmonia que caracterizam a natureza primitiva. Identifica-se com o simbolismo da infância e de certo modo com o estado Edênico. Essa flor, como o feminino que há nele, embora ainda muito apegado à mãe. Segundo Jung, a figura do arquétipo da Anima emerge do arquétipo Mãe, e analisando a carta do Saint-Exupéry vemos que é um reflexo de sua psicologia pessoal.

Mas a flor não é apenas símbolo do feminino, é também do renascimento primaveril e da totalidade em sua manifestação plena, ou seja, o que Jung chamaria o Si mesmo, e nesta história funciona como um indicador do processo por desenvolver.

O asteróide 325 leva o nome de Heidelberga (30) faz referência à cidade alemã de Heidelberg, conhecida por ter a universidade mais antiga deAlemanha, imortalizada na opereta de Sigmund Romberg intitulada O príncipe estudante. Na obra, o Pequeno Príncipe corresponde a um reino sem súditos e coincidiria com o momento em que o puer percebe que é rei de um mundo solitário que não tem contato com a realidade.

Svea, o asteróide que corresponde ao faroleiro, que acende o farol cada vez que o sol se põe e o apaga em cada amanhecer. O habitante deste diminuto planeta parece que é o encarregado de iluminar a noite – a luz da consciência, o que indica uma pequena esperança para nosso Pequeno Príncipe. É digna de nota a aceleração do processo, já que a duração do dia deste asteróide vai-se acelerando até chegar a um dia por minuto terrestre. Provavelmente terei que pensar na circulação da luz, e citando Jung, “psicologicamente, esse curso circular seria um dar voltas em círculo em torno de si mesmo, com o que evidentemente ficam implicados todos os aspectos da personalidade.

Outra questão importante neste asteróide é que o faroleiro é o primeiro que faz algo que não é para ele, como observa o próprio Pequeno Príncipe.Possivelmente o faroleiro só se põe a serviço de uma finalidade superior, que para Jung seria o Si mesmo, coisa que ainda não pode fazer, por exemplo, na etapa do homem de negócios, que pretende apropriar-se do que pertence à totalidade (as estrelas).

Por último, antes de chegar à Terra, faz uma parada no asteróide Adalberto, onde encontra um Geógrafo, etimologicamente alguém que desenha a Terra.

Agora passarei a falar do simbolismo da escada, ou da escala, como diz o Dicionário dos Símbolos de Chevalier. “Os diferentes aspectos do simbolismo da escada se reduzem ao único problema das relações entre céu e terra” A escada pode ser esculpida em uma árvore, na rocha, ou também pode ser de matéria aérea, como o arco-íris; ou de ordem espiritual, como os degraus da perfeição interior. Mas a escada pode igualmente ser utilizada pela divindade para descer do céu à terra”, e neste sentido é um instrumento das epifanias divinas, mas também veículo de encarnação das almas. “No Timor Leste, o Senhor Sol, divindade suprema, baixa uma vez ao ano a uma figueira para fecundar sua esposa, a Terra Mãe“.

Os xamãs siberianos sobem ao céu e voltam a descer por uma bétula com sete entalhes (ou 9 ou 12), a escada de Buddha tem sete cores, a escala dos mistérios mitraicos sete metais, a escada de Jacob, por onde sobem e baixam os anjos, etc, são diferentes exemplos do sentido da escala ou escada na história religiosa mundial; e não esqueçamos, que nosso Pequeno Príncipe baixou sua escada de 6 asteróides e planetas, chegando à Terra, como sétimo.

Por último transcrevo uma tradução de um texto de Macróbio, um platônico latino do século IV, Comentário a um Sonho de Cipião: “A alma, ao começar seu movimento descendente desde a intercessão do zodíaco com a Via Láctea até as esferas sucessivas inferiores, ao cruzar estas esferas, não apenas adota o envoltório de cada uma das esferas, aproximando-se de um corpo luminoso, mas também adquire cada um dos atributos que exercitará mais tarde, ou seja: na esfera de Saturno adquiriria a razão e a compreensão…; na esfera de Júpiter, a capacidade de atuar…; na esfera de Marte, um espírito intrépido…; na esfera do Sol, a percepção dos sentidos e a imaginação…; na esfera de Vênus, o impulso passional; na esfera de Mercúrio, a capacidade de falar e de interpretar…; e na esfera da Lua, a capacidade de semear e de cultivar corpos…”.

Como poderíamos interpretar, do ponto de vista psíquico, esta viagem interplanetária, ou mais exatamente, inter-asteróides? Para isso deveremos rever as teorias astronômicas que tratam da origem destes diminutos corpos celestes.

Há duas teorias sustentadas pelos astrônomos:

A primeira diz que seriam o resultado da fragmentação de um antigo planeta, pois segundo uma tese astronômica, deveria haver um planeta entre Marte e Júpiter. A segunda, que seriam porções de matéria cósmica que nunca teria chegado a formar um corpo celeste maior. Estas duas possibilidades enfatizam a polaridade integração-desintegração, que, se interpretada simbolicamente do ponto de vista psíquico, tem, como já veremos, sérias conseqüências, inclusive para nosso tema.

Assim como se considera em astrologia que o Sol é a fonte primária da energia que o restante dos planetas reflete, na psique humana existem fragmentos que são chamados complexos que formam parte do que, para Jung, é o inconsciente pessoal. Estes complexos são conglomerados de tonalidade afetiva, quer dizer, são como centros de força que atraem certo tipo de experiências. Assim se pode falar do complexo materno, do paterno ou de um complexo de poder, etc. Os planetas, segundo este ponto de vista, podem ser entendidos como complexos.

O objetivo do trabalho terapêutico seria a integração à consciência destes fatores inconscientes, que tendem a ter certa autonomia. Os asteróides, neste contexto, podem ser entendidos da mesma maneira, quer dizer, como aspectos cindidos a serem integrados na consciência.

O Pequeno Príncipe, através da viagem para a Terra, no processo encarnatório, foi encontrando seus diferentes complexos.

E Saint-Exupéry, o autor, já vimos que era conde, nascera na cidade de Lyon, pertencia a uma família nobre de província que descera na escala social, embora conservasse algumas propriedades familiares, mas seu pai trabalhava para uma companhia de seguros. Aqui vislumbramos possivelmente o rei sem súditos do primeiro asteróide. Saint-Exupéry não só escreveu O Pequeno Príncipe, mas também elaborou mais três novelas, além de muitos artigos e cartas. Em 1939 recebeu o prêmio da Academia Francesa de melhor novela do ano por Terra de Homens, e no mesmo ano recebeu o National Book Award do EUA por obra de não ficção.

Em todas as suas obras e cartas expressa um elevado nível de idéias, com um exacerbado idealismo que se manifesta também em artigos jornalísticos e como correspondente de guerra na Espanha, nas épocas mais sombrias daquele país. E apesar de ter combatido como piloto de guerra no exército aliado, ter participado de mil aventuras, haver-se comprometido politicamente nas difíceis horas da França ocupada, continuava tendo um irrefreável desejo de vôo. Diz em uma carta de 1944, o ano de sua morte: “Faço a guerra o mais profundamente possível. Sou, por certo, o decano dos pilotos de guerra do mundo… Vi de tudo desde minha volta à esquadrilha. Conheci as avarias da máquina, o desmaio por vazamento do tanque de oxigênio, a perseguição por caças, e também o incêndio em vôo. Pago bem. Não sou avaro, e me sinto um carpinteiro são. É minha única satisfação. E também passear em vôo solitário, somente eu e meu avião, durante horas sobre a França, tirando fotografias. É uma coisa estranha.”

Na mesma carta diz mais adiante algo que é como a confissão do rei sozinho, e que além disso é quase um preâmbulo da aparição do jovem das estrelas na obra O Pequeno Príncipe: “Não tenho ninguém, nunca, com quem falar. Isso já é alguma coisa. Tinha com quem viver (refere-se à separação de sua esposa), mas que solidão espiritual!!”

Ou seja, havia vivências ou formas de pensar ou de entender o mundo que Saint-Exupéry não encontrava com quem compartilhar, um mundo como o daquele rei aquariano a que fizemos referência.

É difícil dizer se realmente nosso escritor deu materialidade à vida, como sugere a simbólica da escada cósmica, ou na realidade concretizou o processo inverso de espiritualização ou de busca espiritual, que, em sua forma mais concreta, levou-o a morte.

E aqui podemos ver o que acontece com o Pequeno Príncipe: ele volta para seu asteróide fazendo-se picar por uma serpente do deserto. Textualmente: “Parecerá que sofro… parecerá um pouco que morro“. Também: “Parecerá que morri, e não será verdade…” e ainda: “é muito longe. Não posso levar meu corpo ali. É muito pesado.

Parece que nosso Pequeno Príncipe desejava voltar para o lugar de onde veio, e sem o corpo, quer dizer, em espírito.

E Saint-Exupéry também tinha esse desejo espiritual irrefreável que leva certas almas a desdenhar a vida corpórea, pondo-a em perigo, para poder viver uma vida mais alta, uma vida espiritual.

Não devemos vasculhar apenas a psicologia pessoal do escritor para compreender-lhe a obra artística: temos que compreender também que mensagem coletiva deve manifestar, e que relação tem o conteúdo da obra com a consciência de sua época.

Se existe algo que seja característico deste personagem, é sua ingenuidade, esse dom antigo que faz pensar no paraíso, no “pastarão juntos o leão e o cabrito” da Bíblia. O Pequeno Príncipe é um ser que nos remete ao princípio, ao paraíso terrestre original, razão pela qual, ao voltar a seu asteróide, é picado por uma serpente, que é como o ouroboros da alquimia, a serpente que morde a própria cauda, que é a roda interminável da origem sempre voltando para si mesma, e assim se fazendo eterna. Por outro lado a serpente também pode ser a astúcia da terra que nos pica, e esta é outra vertente do mesmo símbolo.

Tais características são evidentes no livro desde o começo, e em meu entender são o motor que nos faz lê-lo uma e outra vez com esse prazer, digamos, infantil.

No nível coletivo, O Pequeno Príncipe funciona como um balde de água fresca no meio do deserto humano da Segunda Grande Guerra (recordemos que foi escrito em 1942). Aqui nos referimos ao aspecto positivo do puer aeternus, que é essa capacidade de estar perto da fonte da vida, como os meninos, o que exerce um efeito rejuvenescedor sobre as pessoas que encarnam o arquétipo oposto, o senex, modelo do esgotado e do que chegou ao fim (o deserto). Este é um exemplo possível de como expressar a polaridade Mercúrio-Saturno.

Em segunda instância, O Pequeno Príncipe é um extraterrestre, vem de outro planeta. E é sabido que em 1942, época em que esta encantadora história começou a ser escrita, começaram a proliferar as notícias de OVNI, cuja quantidade aumenta grandemente após o fim da guerra (Segunda Guerra Mundial).

Segundo Jung, que também se ocupou deste tema, embora, naturalmente, considerando-o como fenômeno psíquico, durante a Segunda Guerra Mundial foram observados na Suécia misteriosos projéteis, que se supunha terem sido inventados pelos russos; também luzes que acompanhavam os aparelhos de bombardeio aliados, em suas incursões à Alemanha; logo se seguiram as profusas observações de pós-guerra nos EUA, até chegar ao conhecido caso Adamsky, em 1952, que disse ter viajado à Lua em uma nave tripulada por venusianos. Jung estima que os OVNIs ou “discos voadores” são objetos de estrutura mandálica, de forma circular ou esférica – embora haja também com forma de “charutos”, quer dizer, cilíndricos -; e que têm a propriedade de irradiar luz intensa de diferentes cores.

Fonte
Constelar on Line Edição 108 :: Junho/2007 .
Um Pequeno Príncipe entre Marte e Júpiter. Ricardo D. Coplán
http://www.constelar.com.br/

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Notícias Rápidas

Arroubos Poéticos, de Edival de Moraes Blagitz
Experiências, alegrias, amores, homenagens, saudades e sentimentos humanos. Sem rodeios ou meias-palavras, “Arroubos Poéticos” apresenta a visão particular e original de Edival de Moraes Blagitz. A linguagem simples e a liberdade com que compõe seus versos, leva o autor a um nível de grande intimidade com o leitor, tornando-o, se não um amigo, um bom companheiro de conversas, ao longo das páginas, ao pé do ouvido.
Edival de Moraes Blagitz – Tel. (15) 3234-8451 / (15) 3013-8013
http://www.crearte.com.br/index.htm
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Memórias de um autêntico amazônida – Tião Maia
Professor de literatura da Universidade do Amazonas e da Universidade da Califórnia, em Bekley (EUA), Milton Hatoum, nascido em 1952, em Manaus (AM), estreou como autor em 1989, com o romance “Relato de um Certo Oriente”. Em seguida vieram “Dois Irmãos”, “Cinzas do Norte” e agora o recém-editado “Órfãos do Eldorado”, todos recebidos com entusiasmo pela crítica e muito prêmios. Um dos grandes escritores brasileiros da atualidade, publicado em mais de dez países.
http://www2.uol.com.br/pagina20/22062008/cot0222062008.htm
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Elas perguntam, Martha Medeiros responde
O Projeto Literário do Colégio Mutirão Objetivo, denominado Encontro do Escritor com o Aluno, é uma iniciativa que visa aproximar os alunos da literatura. Primeiramente, os alunos estudam as obras e a vida do escritor selecionado. Num segundo momento, eles recebem a visita do autor. Semana passada, a escola recebeu a escritora Martha Medeiros. Aos 46 anos, ela passa à platéia uma jovialidade de dar inveja. Logo no início do encontro, a cronista também se revelou uma pessoa descontraída.
http://www.clicrbs.com.br/kzuka/jsp/home.jsp?secao=detalhe&localizador=Kzuka/kzuka/Caxias%20do%20Sul/Kzuka+vai+Fundo/25539§ion=Reportagens
(VEJA REPORTAGEM ABAIXO)
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Inquérito sobre o Saci-Pererê
No dia 25 de janeiro de 1917,o eminente escritor paulista Monteiro Lobato propôs a abertura de inquérito sobre a existência do Saci-Pererê. Através do jornal “O Estado de São Paulo”, deu início a sua campanha, pedindo aos leitores que enviassem cartas contando suas experiências (ou informações) sobre o mito do Saci-Pererê. Esse material rendeu o livro “O Sacy-Pererê, resultado de un inquérito”. Lobato propunha que as histórias enviadas respondessem a três questões:
1) sobre a concepção pessoal do Saci; como o recebeu na sua infância; de quem recebeu; que papel representou tal crendice na sua vida etc…
2) qual a forma atual da crendice na zona em que reside.
3) que histórias e casos interessantes, “passados ou ouvidos” sabe a respeito do Saci.
No dia 08 de janeiro de 2006, o historiador e folclorista Carlos Carvalho Cavalheiro propôs, através de convites por e-mails, a reabertura do Inquérito sobre o Saci-Pererê e sugeriu que as histórias fossem enviadas e que, de alguma forma, publicadas (no molde do primeiro Inquérito) num só volume, no dia 25 de janeiro de 2007, quando se comemorará 90 anos de Inquérito sobre o Saci!
“Proponho, ousadamente, a reabertura do Inquérito. Já recebi algumas respostas. A idéia é que, de alguma forma, esses causos sejam publicadas num só volume, no dia 25 de janeiro de 2007, quando se comemorará 90 anos de Inquérito sobre o Saci”, explica Cavalheiro.
Os interessados podem mandar suas histórias para o e-mail: saci@crearte.com.br
O objetivo é recolher as histórias sobre o Saci que ainda povoam o imaginário das pessoas. Será um diagnóstico sobre como, noventa anos depois, o imaginário popular lida com a figura do Saci, um dos grandes mitos populares”, explica o pesquisador sorocabano.
Conheça algumas histórias sobre o saci em http://www.crearte.com.br/saci.htm
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O que é o Roda Mundo e como ele surgiu?
O Roda Mundo é uma Antologia Internacional que tem um caráter globalizado por contar com a participação de autores dos cinco continentes, numa integração da comunidade lusófona e também espanhola. A obra reúne crônicas, contos, poemas, ensaios e textos em português, inglês, italiano e espanhol, montando assim um panorama dos diferentes estilos, tendências, culturas e maneiras de enxergar o mundo, por meio da palavra impressa.
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4ª Semana do Escritor
Roda Mundo e Rodamundinho serão lançados em julho
O Rodamundinho é uma antologia infanto-juvenil idealizada que reúne textos de jovens de sete a 15 anos.
http://www.itu.com.br/noticias/detalhe.asp?cod_conteudo=14109

Fonte:
Douglas Lara em http://www.sorocaba.com.br/acontece

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Martha Medeiros

Nasceu em Porto Alegre e se formou em Comunicação Social. Trabalhou muitos anos como publicitária, até iniciou carreira literária. Como poeta, lançou os seguintes livros: Strip-Tease (1985), Meia-Noite e Um Quarto (1987), Persona Non Grata (1991), De Cara Lavada (1995), Poesia Reunida (1999) e Cartas Extraviadas e Outros Poemas (2001). Destes, só os últimos dois seguem sendo comercializados. Todos foram editados pela L&PM, com exceção do primeiro, o Strip-Tease. (www.lpm.com.br).

Em 1995 lançou seu primeiro livro de crônicas pela editora Artes e Ofícios, chama-se Geração Bivolt e é uma raridade até em sua casa, “acho que devo ter apenas um exemplar escondido em alguma prateleira”. Totalmente fora de catálogo.

Em 1996 lançou o guia Santiago do Chile, Crônicas e Dicas de Viagem, que relata sua experiência de oito meses vivendo na capital chilena. Já foi atualizado várias vezes e deve sair nova atualização ainda neste inverno. É da Artes & Ofícios também.

O segundo livro de crônicas foi o Topless, de 1997, que ganhou o Prêmio Açorianos de Literatura, e depois dele vieram Trem-Bala (1999), Non-Stop (2001), Montanha-Russa (2003, também ganhou o Prêmio Açorianos e ficou em segundo lugar no Prêmio Jabuti) e o Coisas da Vida (2005). Todos L&PM.

Tem um livro infantil chamado Esquisita como Eu, lançado pela Editora Projeto e com ilustrações da Laura Castilhos. “Um dia vou escrever de novo para crianças”.

Na ficção, o primeiro foi o Divã, lançado pela editora Objetiva, do Rio. “Vendeu muito, virou peça de teatro com a Lilia Cabral no papel principal e em breve estará no cinema: já foi filmado, agora está em fase de montagem e sonorização. Lilia fará o papel de novo, e se cercou bem, olha só o casting masculino: José Mayer, Reynaldo Gianechini, Cauã Reymond… A direção é do José Alvarenga, o mesmo que dirigiu “Os Normais””.

Depois veio Selma e Sinatra, um livro em que exercitou a criação de diálogos, gostou muito de escrevê-lo, mas não teve grande repercussão.

E, por fim, Tudo Que Eu Queria Te Dizer, o livro de cartas fictícias que lançou no final do ano passado e que está indo superbem, com ótima aceitação. Acaba de ser lançado na Itália. O Divã também fez carreira internacional, foi lançado na França, Suiça, Portugal, Itália e Espanha.

São 18 livros até aqui. Em agosto estará lançando outra coletânea de crônicas. Enquanto isso, segue escrevendo todas as quartas e todos os domingos no jornal Zero Hora, de Porto Alegre, e também aos domingos no Jornal de Santa Catarina e no Globo. Faz colaborações eventuais para revistas, assim como assina uma coluna bimestral na Estilo Zaffari, publicada aqui no sul, mas com distribuição em São Paulo também.

Nas horas vagas, grava entrevistas, responde e-mails, participa de Feiras e Bienais, visita escolas no interior e, segundo ela, ainda sobra tempo pro lazer! “Até porque não separo uma coisa da outra, gosto tanto do meu trabalho que me sinto permanentemente em férias. É uma questão de estado de espírito”.

Fontes:
http://www.clicrbs.com.br/blog/jsp/default.jsp?source=DYNAMIC,blog.BlogDataServer,getBlog&pg=1&template=3948.dwt&tipo=1§ion=Blogs&p=1&coldir=2&blog=255&topo=3994.dwt&uf=1&local=1 Foto: Ricardo Wolffenbüttel

Montagem da foto: José Feldman

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Martha Medeiros no Encontro do Escritor com o Aluno (RS)

O Projeto Literário do Colégio Mutirão Objetivo, denominado Encontro do Escritor com o Aluno, é uma iniciativa que visa aproximar os alunos da literatura. Primeiramente, os alunos estudam as obras e a vida do escritor selecionado. Num segundo momento, eles recebem a visita do autor. Semana passada, a escola recebeu a escritora Martha Medeiros. Aos 46 anos, ela passa à platéia uma jovialidade de dar inveja. Logo no início do encontro, a cronista também se revelou uma pessoa descontraída.

– Eu não faço palestras. Vim aqui para um bate-papo! – ressaltou.
Foi nesse clima de descontração que ocorreu o encontro, no auditório da Faculdade da Serra Gaúcha, lotado de jovens ansiosos por uma resposta para as suas perguntas. Como o objetivo do encontro era aproximar os jovens da escritora, o Kzuka selecionou três gurias do Objetivo para fazer perguntas à gaúcha. Mas antes confira os principais momentos do bate-papo da escritora com os alunos!

Mulheres X Homens
– Eu não sou representante do universo feminino. Pelo contrário, não quero esse estigma. Já acabou há muito tempo essa linha que dividia os assuntos entre para homens e para mulheres. Nós já ultrapassamos essa segmentação. Hoje em dia, mulher lê sobre futebol e homens lêem sobre os filhos. Eu escrevo pra todo mundo.

Inspiração
Pra mim, escrever é muito fácil. Principalmente quando sei sobre o que quero falar. O problema é que hoje em dia existem muitos cronistas e todo mundo comenta sobre tudo. Então, como ser realmente original nesse mundo? Eu optei por ser trivial e falar das pequenas coisas do cotidiano que nos interessam muito. Tudo o que eu vejo, um filme, um show, até o papo com alguma amiga, serve de inspiração. Enfim, eu dou o meu chute em todas as áreas.

– É importante ter uma vida regrada, mas é mais importante seguir o nosso interior.

Eu, tu, eles…
– Eu tenho muita dificuldade de escrever na 3ª pessoa. Eu adoro me colocar no lugar do outro. Acho que é aí que eu ganho a empatia dos meus leitores.

Divã
– O livro Divã foi uma surpresa. Ele virou moda entre os cariocas, principalmente depois que saiu uma nota falando que o Antônio Fagundes tinha adquirido um para presentear uma ‘amiga’… A atriz Lilia Cabral adorou a história e resolveu adaptá-la para o teatro. Após dois anos em cartaz, o diretor José Alvarenga achou que a história poderia virar um filme. A produção é cheia de atores globais como o Reynaldo Gianecchini e o Cauã Reymond. Eu não vi nada ainda e estou superansiosa.

Metas
Nunca tive metas muito exóticas, elas sempre foram alcançáveis. Meu desejo mais ousado sempre foi viajar muito e, sempre que posso, faço isso. Meu principal desejo é poder continuar… continuar viajando, escrevendo, amando…

Educação
Às vezes, temos que dizer não para os filhos. Se eles querem crescer, eles precisam aprender a se frustrar.

Três Desejos
Virgínia Maffei, 15, aluna do 1º ano, não conhecia a obra da autora antes de ler No Stop, indicação da professora do colégio.
– Adorei. Ela fala o que a gente pensa, mas não conseguimos expressar. Me identifico com o que ela escreve.

A pergunta da Virgínia: Se Deus parasse na tua frente e lhe concedesse três desejos, quais seriam?
– Nossa! Eu cairia estatelada (risos). Três pedidos é muita coisa. É muito bom chegar no estágio em que eu cheguei e ter realizado tudo o que eu queria. Agora, o que vier é lucro. Também acho que as coisas pequenas são as mais fundamentais. Mas se eu tivesse que fazer três pedidos, por primeiro, pediria pra continuar as coisas como estão. Em segundo lugar, pediria saúde por muito tempo. Por último, faria um pedido que fizesse o bem pra toda a humanidade, como ter mais paz no mundo.

Bichos de Pelúcia
Bruna Milani, 16, é aluna do 2º ano e gosta do feminismo da autora.
– Só não gostei da crônica Bichos de Pelúcia… não tem sentido o que ela falou no texto, porque eu posso ter 16 anos e ainda possuir bichos de pelúcia no quarto sem ser imatura.

A pergunta da Bruna: Por quê você condena o fato de as pessoas mais velhas terem bichos de pelúcia?
– Essa crônica rendeu uma repercussão que não esperava. Centenas de cartas chegaram ao jornal pedindo a minha demissão, e eu recebi uma enxurrada de e-mails me criticando. A inspiração surgiu quando vi um clipe de uma cantora seminua cantando abraçada à um ursinho de pelúcia. Acabei escrevendo sobre essa loucura, era apenas um deboche. A idéia era mostrar que as pessoas precisam fazer um rito de passagem, amadurecer. Mas diante de tantas críticas, fui falar com um psicólogo. Ele me fez entender que estamos vivendo num mundo tão violento, que possuir ursos de pelúcia é uma forma de manter a inocência a que ele remete. Aí, fiz uma segunda crônica falando disso… Mas ainda acredito que a gente precisa saber amadurecer. Acho a vida adulta infinitamente mais legal!

Dicas para viver melhor
Nicole Panata, 16, aluna do 3º ano, adora ler Martha Medeiros. Ela sempre acompanha as crônicas da autora no caderno Donna, da Zero Hora.
– É impossível não se identificar com os assuntos que ela escreve. A Martha faz a gente refletir e, independentemente da idade, sempre há algo das crônicas dela que podemos usar no dia-a-dia. Gosto dela porque é uma autora sem papas na língua. Ela tem as opiniões parecidas com as minhas…

A pergunta da Nicole: As tuas crônicas me passam grandes ensinamentos. Você os utiliza no seu dia-a-dia?
Gostaria de esclarecer que eu não pretendo fazer a cabeça de ninguém, só espero que as pessoas pensem. Mas eu sigo o que eu escrevo, eu sou assim. Às vezes, eu paro, me olho e me questiono. Porque uma coisa é a teoria e outra, a prática. Costumo dizer que felicidade é uma mistura de sorte com escolhas bem_feitas. Por isso, procuro aproveitar.

Fontes:
Elas perguntam, Martha Medeiros responde. Artigo publicado por Roberta Rech em 20/06/2008.
http://www.clicrbs.com.br/kzuka/jsp/home.jsp?secao=detalhe&localizador=Kzuka/kzuka/Caxias%20do%20Sul/Kzuka+vai+Fundo/25539§ion=Reportagens

Foto: Ricardo Wolffenbüttel
Montagem da foto: José Feldman

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Música e literatura unidas pela mesma causa (Entrevista com Thedy Correa)

Nos mais de 20 anos de carreira, 12 CDs foram lançados e cerca de 150 músicas foram compostas pelos porto-alegrenses do Nenhum de Nós. A sintonia no palco continua a mesma de 1986, quando os caras se reuniram pra montar a banda.

Convidado especial do evento Arte e Som, realizado na semana passada pelos acadêmicos de Relações Públicas da UCS, o vocalista Thedy Corrêa esteve em Caxias pra conversar com os alunos de comunicação e falar de algumas experiências vivenciadas durantes todos esses anos no mundo musical.

Antes de subir ao palco do UCS Teatro, Thedy bateu um papo descontraído com o Kzuka. Sentado ao lado do exemplar de Bruto, seu livro lançado em 2006, o músico contou sobre a transição de leitor pra escritor e de como os universos da música e da literatura se encontram.

Confira abaixo alguns trechos da conversa:

Kzuka – Tu começaste com a música há muito tempo e agora está transitando no universo da literatura. Tu achas que essas duas artes se encontram e tem a ver uma com a outra?

Thedy – Eu comecei primeiro na música. Já lancei mais de 10 discos, e esse tá sendo meu primeiro livro. Mas a literatura começou na minha vida antes da música. Eu sempre fui um leitor ávido. E sempre usei muito a literatura como instrumento pra tocar minha vida adiante. Tem livros que foram determinantes pra eu ser o que sou e pensar da forma que penso. Então, daí pra frente, sempre pensei que um dia eu poderia fazer um livro. E o Bruto foi o primeiro de uma série que eu espero que sejam muitos.

Kzuka – Tu lembras quais são os livros que mais te marcaram nessa tua formação?

Thedy – Eu lembro do On The Road (Pé na Estrada) do Jack Keroauc. Esse foi um livro que “abriu minha cabeça”, realmente. Eu nunca esqueci o primeiro livro que li, As Aventuras de Tibicuera, do Erico Verissimo. E outro livro importante pra mim foi Pergunte ao Pó, do John Fante. Tem outros, claro. Morangos Mofados, do Caio Fernando Abreu, por exemplo. A lista é grande.

Kzuka – Como foi dar esse salto de leitor pra escritor?

Thedy – Eu sempre escrevi bastante pro Nenhum de Nós. E muito disso vai sendo guardado e chega uma hora que tu pensa “pô, vai deixar guardado pra sempre? Ou vai fazer alguma coisa com isso?”. Resolvi pegar essas coisa que eu tinha guardado e transformar em um livro. Foi um processo natural. São poemas que seriam cantados e agora vão ser lidos. De repente até podem ser transformados em letras de música.

Kzuka – Então, é um universo parecido entre a música e a literatura, não?

Thedy – Gostaria que fosse mais parecido. Queria que as pessoas que gostam e ouvem música lessem também. No Brasil isso é complicado, né. O público de literatura não é muito forte. Eu acho que quem lê gosta de música, mas nem todo mundo que gosta de música, gosta de ler.

Kzuka – Tanto a música quanto a literatura tem a ver com comunicação. Tu te comunicas utilizando essas artes?

Thedy – Eu acho que sim. É uma ferramenta que uso pra me comunicar. Um instrumento que uso pra ajudar as outras pessoas a se comunicar. Acho que a música tem essa capacidade. Por isso que acho tão importante o papel de um músico e de uma banda.

Kzuka – A música influencia as pessoas…

Thedy – Eu tenho certeza que isso acontece. O que escrevemos é ouvido por muitas pessoas que assimilam tudo. Aliás, essa é a idéia. A música passa a fazer sentido pras pessoas de uma maneira que elas colocam em prática na vida. Não tenho dúvida de que a música é um instrumento de comunicação.

Kzuka – E qual a música do Nenhum de Nós que ainda te arrepia, faz tu obteres uma comunicação contigo mesmo?

Thedy – Você Vai Lembrar de Mim, é uma das campeãs da história do Nenhum. Foi uma música que passou por um momento de inspiração. Imaginei uma situação que acontece com algumas pessoas e a partir disso escrevi a letra. Eu achava que a música nem iria ter o sucesso que teve. Compus e quando fomos lançar um dos discos eu nem tinha mostrado ainda pra banda e depois apresentei ela: “olha, tenho uma música aqui, não sei se vocês vão gostar”. Aí toquei ela pros guris e eles falaram: “tu tá louco? Essa música já está incluída no disco”.

Kzuka -Vocês estão há muitos anos na estrada, sempre com a mesma formação e sintonia, né. Qual o segredo?

Thedy – Eu costumo dizer que isso é a fé no que a gente faz. Acreditamos que estamos produzindo boa música. E cada vez que subimos no palco temos a energia renovada. Se a gente fizesse como se fosse um trabalho qualquer não existiria motivação pra continuar. Música tem que ter um componente emotivo pra ser transmitido no palco.

Kzuka – Qual o maior amadurecimento da banda ao longo de todos esses anos?

Thedy – Acho que é musical e pessoal. Nosso amadurecimento como artista é muito grande. Estamos cantando melhor, compondo melhor.

Kzuka – Daqui pra frente, o que esperar do Nenhum de Nós?

Thedy – A idéia é continuar escrevendo boas canções.

Fontes:
artigo de Marcelo Andrighetti. Publicado em Caxias 06/04/2008
http://www.clicrbs.com.br/kzuka/jsp/home.jsp?secao=detalhe&localizador=Kzuka/kzuka/Caxias%20do%20Sul/Kzuka+vai+Fundo/12771§ion=Reportagens
Foto: Daniela Xu

Montagem da foto: José Feldman

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Maria Nascimento Santos Carvalho

Sou MARIA NASCIMENTO
e por erro ou ato falho,
me esqueci, por um momento,
de acrescer SANTOS CARVALHO.

Tenho orgulho de dizer
que, entre muitas coisas boas
tive a glória de nascer
num lindo Estado: A L A G O A S.

Venho de humildes raízes,
mas a sorte generosa,
traçou minhas diretrizes
por uma estrada ditosa …

Com seu poder sem medida,
Deus legou-me a grande sina
de abrir os olhos à vida
filha de AMPARO e MARINA.

E, me ofertou todos sãos,
como parte de um tesouro,
meus dez queridos irmãos
que para mim valem ouro.

Antônio,Telma,Angelina,
José do Amparo, Abraão,
Benedito, Carolina,
e outros nomes que virão…

Jorge Carlos, Aurelina
e, completando, o Luiz,
que a família nordestina
se é numerosa, é feliz…

O meu segundo presente,
do Bom Pai Celestial,
foi nascer, exatamente,
numa Noite de Natal.

Em que ano foi sei de cor,
mas não digo, simplesmente,
porque a idade é bem melhor
vista no rosto da gente .

Sou feliz quando me lembro
em meu rumo alvissareiro,
que, em cada mês de dezembro,
completo mais um janeiro.

A idade quem quer inventa,
mas tive sempre em meus planos,
manter, após os quarenta,
o espírito de vinte anos.

E cumpriu-se a “profecia”:
Deus, como outro bom presente,
pôs em minha alma, poesia,
quando eu era adolescente…

CORURIPE foi meu berço…
Para o Rio vim embora
tendo pouco mais de um terço
da idade que tenho agora.

Com estudos incompletos,
e, ainda, quase menina,
eu vim cumprir os projetos
que o Destino me destina.

Com esforço me formei,
enfrentei muito trabalho
e anos depois me casei
com o poeta ÉLTON CARVALHO …

As tristezas e alegrias
que a vida me concedeu,
estão todas nas poesias
que a minha verve escreveu.

E, graças ao Criador,
enriqueceram meus dias
meus livros: “Preces de Amor”
e “Batel de Fantasias”…

Como simples andorinha
que alça vôos de condor,
fiz da bagagem que eu tinha
outras “Confissões de Amor”

Alguns decênios passados,
plenos de glórias terrenas,
os meus prêmios conquistados
contam mais de três centenas! …

Com esta Biografia,
rascunho do meu passado,
com respeito e simpatia
deixo a todos um recado …

Seja o seu gosto qual for
Veja este site e, por fim,
leia meus versos de amor
e aprenda a gostar de mim.

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