Poesias Soltas ao Vento III

Walt Whitman (EUA, 1819-1892)
DO INQUIETO OCEANO DA MULTIDÃO

Do inquieto oceano da multidão
veio a mim uma gota gentilmente
suspirando:

– Eu te amo, há longo tempo
fiz uma extensa caminhada apenas
para te olhar, tocar-te,
pois não podia morrer
sem te olhar uma vez antes,
com o meu temor de perder-te depois.

– Agora nos encontramos e olhamos,
estamos salvos,
retorne em paz ao oceano, meu amor,
também sou parte do oceano, meu amor,
não estamos assim tão separados,
olhe a imensa curvatura,
a coesão de tudo tão perfeito!
Quanto a mim e a você,
separa-nos o mar irresistível
levando-nos algum tempo afastados,
embora não possa afastar-nos sempre:
não fique impaciente – um breve espaço –
e fique certa de que eu saúdo o ar,
a terra e o oceano,
todos os dias ao pôr-do-sol
por sua amada causa, meu amor.

Jean Richepin (Argélia, 1849-1926)
TUAS PALAVRAS

Tuas palavras têm melodias divinas,
Acordes de cristal, pianíssimo, vibrando!
De olhos cerrados fico, imerso em gozo, quando,
Dizendo-me um segredo o alvo pescoço inclinas…..
Então não me inebria o olor de balsaminas
De tua boca, é, mais o tom límpido e brando,
Que dás a uma palavra, a um simples “sim”, falando….
Tuas palavras têm meiguices peregrinas!
Eis, pois, o que me faz dormentes os sentidos;
Ouço-te, sem saber o que estás a dizer-me,
Qual numa língua estranha e suave aos meus ouvidos!
E em pleno arrebatar duns êxtases radiosos
Sinto invisível mão percorrer-me a epiderme…
Tuas palavras, flor! Têm dedos cariciosos….

Elisabeth Barrett Browning (Inglaterra, 1806 – 1861)
QUATRO SONETOS


I
Amo-te quanto em largo, alto e profundo
Minhalma alcança quando, transportada
Sente, alongando os olhos deste mundo,
Os fins do ser, a graça entressonhada.

Amo-te em cada dia, hora e segundo:
À luz do Sol, na noite sossegada.
E é tão pura a paixão de que me inundo
Quanto o pudor dos que não podem nada.

Amo-te com o doer da velhas pernas,
Com sorrisos, com lágrimas de prece,
E a fé da minha infância, ingênua e forte.

Amo-te nas coisas mais pequenas
Por toda a vida. E assim Deus o quisesse.
Ainda mais te amarei depois da morte.

II
As minhas cartas! Todas elas frio,
Mundo e morto papel! No entanto agora
Lendo-as, entre as mãos trêmulas o fio
Da vida eis que retomo hora por hora.

Nesta queria ver-me-era no estio-
Como amiga ao seu lado…Nesta implora
Vir e as mãos me tomar…tão simples!Li-o
E chorei. Nesta diz quanto me adora.

Nesta confiou:sou teu e empalidece
A tinta no papel, tanto o apertara
Ao meu peito, que todo inda estremece!

Mas uma…Ó meu amor, o que me disse
Não digo. Que bem mal me aproveitara
Se o que então me disseste eu repetisse…

III
Parte: Não te separas! Que jamais
Sairei de tua sombra. Por distante
Que te vás, em meu peito, a cada instante,
Juntos dois corações batem iguais.

Não ficarei mais só. Nem nunca mais
Dona de mim, a mão, quando a levante,
Deixarei de sentir o toque amante
Da tua-ao que fugi. Parte: não sais!

Como vinho, que às uvas donde flui
Deve saber, é quanto faça e, quanto
Sonho, que assim também todo te inclui.

A ti, amor! Minha outra vida, pois
Quando oro a Deus, teu nome ele ouve e o pranto
Em meus olhos são lágrimas de dois.

IV
Ama-me por amor do amor somente
Não digas: Amo-a pelo seu olhar,
O seu sorriso, o modo de falar
Honesto e brando. Amo-a porque se sente

Minh’alma em comunhão constantemente
Com a sua. Por que pode mudar
Isso tudo, em si mesmo, ao perpassar
Do tempo, ou para ti unicamente.

Nem me ames pelo pranto que a bondade
De tuas mãos enxuga, pois se em mim
Secar, por teu conforto, esta vontade

De chorar, teu amor pode ter fim!
Ama-me por amor do amor, e assim
Me hás de querer por toda a eternidade.

Alexandre O’Neil (Portugal, 1924 – 1986)
Poema Pouco Original do Medo

O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles
Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados
Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos
Sim
a ratos

Alexandre O’Neil (Portugal, 1924 – 1986)
HÁ PALAVRAS QUE NOS BEIJAM

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Yolanda Morazzo (Cabo Verde, 1926)
BARCOS


Nha terra é quel piquinino
É Sao Vicente é que di meu”

Nas praias
Da minha infância
Morrem barcos
Desmantelados.
Fantasmas
De pescadores
Contrabandistas
Desaparecidos
Em qualquer vaga
Nem eu sei onde.
E eu sou a mesma
Tenho dez anos
Brinco na areia
Empunho os remos…
Canto e sorrio…
A embarcac,ão:
Para o mar!
É para o mar!…
E o pobre barco
O barco triste
Cansado e frio
Não se moveu…

———-
Alda Lara (Angola, 1930 – 1962)
Presença Africana

E apesar de tudo
ainda sou a mesma!
Livre e esguia,
filha eterna de quanta rebeldia
me sagrou.
Mãe – África!
Mãe forte da floresta e do deserto,
ainda sou
a irmã – mulher
de tudo o que em ti vibra
puro e incerto!
– A dos coqueiros,
de cabelos verdes,
e corpos arrojados
sobre o azul…
A do dendém
nascendo dos abraços
das palmeiras…
A do sol bom, mordendo
o chão das Ingombotas…
A das acácias rubras,
salpicando de sangue as avenidas,
longas e floridas…
Sim! Ainda sou a mesma
A do amor transbordando
pelos carregadores do cais
suados e confusos,
pelos bairros imundos e dormentes
(Rua 11!… Rua 11!…)
pelos negros meninos
de barriga inchada
e olhos fundos…
Sem dores nem alegrias,
de tronco nú e corpo musculoso
a raça escreve a prumo,
a força destes dias…
E eu, revendo ainda
e sempre, nela,
aquela
longa história inconsequente…
Terra!
Minha, eternamente!
Terra das acácias,
dos dongos,
dos cólios, baloiçando
mansamente… mansamente!…
Terra!
Ainda sou a mesma!
Ainda sou
a que num canto novo,
pura e livre,
me levanto,
ao aceno do teu Povo!…

Euclides Cavaco
AMOR…FEITO POESIA


.
AMOR
É um conceito divino
É dimensão sem medida
É viagem sem destino
É melodia da vida…

AMOR
É um caminho sem fim
É não ter que perdoar
É não querer e dizer sim
É dar tudo o que há p’ra dar !…

AMOR
É voz da razão que cala
É ter dôr e não sentir
É o silêncio que fala
É ver o mundo sorrir…

AMOR
É sopro de nostalgia
É canção leve e suave
É das trevas fazer dia
É saber de quem não sabe.

AMOR
É bem mais que sentimento
É sussurro de magia
É da alma o alimento…

AMOR
É hoje aqui…Feito poesia !…

Euclides Cavaco
PALAVRAS AO VENTO

.
Sou companheiro do vento
E conto ao vento que passa
Deste mundo o meu lamento
No tempo que se esvoaça …
Conto-lhe da injustiça
Neste mundo praticada
Da maldade e da cobiça
O vento não me diz nada.

Falo da fome e da guerra
Da miséria que se esconde
E dos crimes que há na terra
O vento não me responde…
Quero que leve um recado
De quem ajuda implora
E de quem sofre calado
O vento tudo ignora …

Peço ao vento que se agite
Em prol da humanidade
E que com direito grite
Para os homens liberdade.
Se o vento não me ouvir
Nesta minha petição
Então eu irei pedir
Para o vento maldição !…

Fontes:
http://www.euclidescavaco.com/
http://escritas.paginas.sapo.pt/

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