Arquivo do mês: agosto 2008

Antonio Roberto de Paula (O silêncio de Maringá – Cabrito na Horta)

O Silêncio de Maringá

É na noite
Quando procuro o sono
Fecho os olhos
E tento ouvir
O silêncio de Maringá
Um silêncio que dura
A eternidade
De poucos segundos

Um motor ronca
Rompendo uma reta
Perdendo força
Nos meus ouvidos

Chega uma música
Em baixo volume
Sobe poderosa
E se perde na escuridão

Logo outros sons
Itinerantes de vozes
Passos e latidos
Vêem e seguem
Sem dar boa-noite

A noite passa veloz
O dia começa na madrugada
Acelerações e freios
Buzinas e máquinas
É a cidade de pé
Em movimento

Houve um tempo
Em que a cidade
Dormia mais cedo
Não vagava tanto
E acordava no horário

Tempo da poeira
Dos lampiões
Das casas de madeira
E portões de balaústres

A noite era de poucos
Só dos profissionais
Hoje o dia ficou pequeno
A noite é a extensão

É na noite
Quando procuro o sono
Fecho os olhos
E tento ouvir
O silêncio de Maringá
Um precioso silêncio
Um frágil silêncio
Que dura menos
Que a pureza do instante

A noite
Já não é mais noite
É só o dia sem sol
Entrando no outro dia
(Antonio Roberto de Paula – Livro Maringânias – 2007 – Poesias comemorativas – Maringá 60 anos)
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Cabrito na Horta


Patrono, manda-chuva, mandava brasa
Pedro Caveira era o tipo de fazer tremer
Nunca foi de levar desaforo para casa
Não havia homem que podia lhe conter

Na faca, na bala, no pau, na porrada
Pedro Caveira se valia da truculência
A cada dia mais uma área era dominada
Demarcava seu espaço sem pedir licença

Para Pedro Caveira era vencer ou morrer
Dos homens ganhava o temor, o respeito
Das mulheres conseguia tirar o prazer
Era na marra, na força, de qualquer jeito

Entre as tantas moçoilas submissas
Havia uma que ocupava seu coração
Era a bela , doce e estonteante melissa
Morena brejeira exalando amor e paixão

Por ela é que Pedro Caveira se derretia
Um caso conhecido em toda comunidade
Quando ela chegava seu sorriso se abria
Para ela, ele pedia só amor e fidelidade

Na vida acontecem coisas inesperadas
Por uma bronca sem grande repercussão
Caveira teve que tirar férias forçadas
Fora de circulação, um ano de prisão

Um dia antes de se entregar à justiça
Pediu ao bando a palavra em penhor
Chorou abraçado à querida Melissa
Que lhe fez juras de eterno amor

Chamou num canto o seu preferido
O humilde amigo Zequinha Terceiro
Lhe pediu em lágrimas, comovido
Que cuidasse de todo o seu terreiro

Zequinha levou à risca aquele pedido
Por sua conta incluiu a bela morena
Virou chefão do pedaço, cabra temido
E botou as guampas no Pedro Caveira

Passou o tempo, cumprida a sentença
Caveira quis retornar ao antigo ninho
Mas ninguém mais quis a sua presença
E até Melissa lhe negou os carinhos

Humilhado, pobre, com medo de morrer
Pedro Caveira abandonou aquela cidade
Com ódio de Zequinha de endoidecer
Hoje perambula na estrada da infelicidade

O mundo sempre foi e será dos espertos
Zequinha agora é senhor, do alto escalão
O pai e o avô na vida não deram certo
Mas ele é o terceiro, o chefe, um campeão

E finalizando essa incrível história
Pra você não ser tomado de revolta
E pra que a tua vida não seja inglória
Não deixe o cabrito tomar conta da horta

Letra: Antonio Roberto de Paula
Melodia: Helington Lopes
História contada por Cláudio Viola
A música “Cabrito na horta” , em versão reduzida, participou do Femucic, em 2005, com apresentação do grupo Receita do Samba
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Fontes:
http://blogdodepaula.blogspot.com/
Foto de Maringá: http://www.skyscrapercity.com/

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Antonio Roberto de Paula (Da Minha Janela – Escrever é viver – Amor em cada esquina)

Da minha janela

Da minha janela vejo a ponta da Catedral. Já passei por tantas janelas, mas tenho a sorte ou a graça de Deus de sempre vislumbrar parte deste Sputinik de concreto. Hoje, cá onde me encontro, só vejo a cruz. Este símbolo católico me persegue e a cada dia o defino de uma maneira. Já me rebelei com a ostentação e já me emocionei com a fé construtora desta comunidade.

Fiz da Catedral a representação maior do meu amor por Maringá. E, como contraponto, ao ver esta imponente armação de cimento, me culpo por não buscar novos caminhos.

Os anos passam e estes pensamentos antagônicos estão comigo. Tantas janelas, ângulos, olhares. Importantes e parcas vitórias, derrotas providenciais e uma luta diária igual a muitas outras de muitos outros. Um céu de paradoxos me invade.

Meus olhos já não enxergam tanto como antes, mas hoje me atenho mais a detalhes. Os horizontes ainda estão lá. A cidade cresceu e pela minha janela não posso descortinar tantas possibilidades. Mas elas ainda existem. Penso em aumentar meu campo de visão, mas esta paisagem encanta, conforta e acomoda. Dia, noite, sol, néon, roncos, silêncio, chuva, grama, asfalto, árvores, flores, carros, casas, muros, placas. Tudo confusamente ordenado. Uma natureza feliz com a invasão.

Da minha janela vejo a ponta da Catedral, os prédios, o verde. Vejo uma cidade que buzina, acelera, avança. Cidade clara e obscura. Planejamento, estética, beleza física. Cidade desorganizada de idéias e objetivos, o espírito coronelista ainda a rondá-la, resquícios da ”fazendola iluminada”, expressão utilizada nos anos 70 para chamá-la de provinciana. Maringá canção, artística, pólo, vigorosa. Da minha janela vejo Maringá com mil olhos sem saber quais são verdadeiros.

Da minha janela vejo gente que nasce e morre, ri da vida e chora pela morte, comemora e sofre, conta vantagens e percalços. Gente que ama e odeia, que sonha e tem os pés no chão. Gente do bem e do mal. Gente nem tão boa e nem tão má assim. Gente que me completa e me esvazia, que me faz ser doce e amargo, sereno e turbulento.

Da minha janela vejo esta vida passar como deve ser, na essência, a paisagem de todas as janelas de todos os lugares. Concluo que aqui ou em qualquer outro “lá” não intensificaria ou reduziria minhas emoções. Posso ter outros campos de visão, mas o eu que me leva não vai me deixar porque os mil olhos vão estar sempre atentos. Seja onde for, o antagônico e o paradoxo vão estar comigo. Vai sempre existir a ponta de uma Catedral.
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Escrever é viver

Escrever é tortura e terapia, trabalho e divertimento, sofrimento e comemoração. É a vontade de mostrar a alma e expor as idéias. Escrever é poetar, declarar, orar, protestar e sonhar.

Escrever é participar, interferir, informar, comentar, repensar, apontar alternativas, ousar, facilitar e complicar. É vagar, descompromissar-se do estabelecido tendo a vontade como compromisso. É querer ser livre, ordenando as palavras de modo que elas levem a mensagem. Formas e estilos variados de enviá-las.

Escrever é marcar posição, é sentir-se inserido, responsável e útil. É tirar pensamentos dispersos e discipliná-los no papel. É fotocopiar frases do coração. O som das teclas é a alma em ebulição despejando letras.

A razão nem sempre está em primeiro lugar. Nem poderia. Desprendimento nem sempre combina com racionalidade. E como é salutar sufocar a razão de vez em quando e deixar a emoção comandar!

Escrever é destilar prazer, buscar no âmago a idéia, fazendo a criação a partir da primeira palavra, exteriorizar esta idéia. Tirá-la da prancheta da mente. Um dolorido e feliz parto. Parir o pensamento e entregá-lo ao mundo.

Escrever é desligar-se deste mundo para nele se concentrar. É concretizar o abstrato, materialização de influências e experiências. Escrever é arte, profissão, passatempo e desabafo.

É a catarse, a devolução da pressão e repressão acumuladas diariamente. É escapismo e engajamento. Tudo ao mesmo tempo. Quem escreve é egoísta e narcisista, mas também é tímido e solitário. É o companheiro que quer estender o seu raio de ação e entende que a escrita é a melhor maneira de atingir a meta.

Escrever é um ato de amor e de coragem. É a divertida tortura que leva ao prazer. É o sofrido trabalho sinônimo de terapia. Escrever é viver.
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Amor em cada esquina

Viver é exercitar o amor nas suas mais variadas formas e buscar em cada uma a sua plenitude. Encontre o amor na mulher que abre corpo e alma para seu homem, que por sua vez o devolve na mesma medida, e na primeira visão do pai para o filho ainda envolto no cordão umbilical.

Encontre o amor na velha que conduz a colher à boca do netinho, no velho pai que abraça o filho moço, nas crianças que brincam como se o mundo fosse uma eterna infância. Encontre o amor na mãe que embala o seu bebê, na mãe que se desespera nas madrugadas tendo como cenário o quarto vazio. E naquela que chora com a filha a reprise do sofrimento.

O amor na vida que chega e o amor que fica, deixado por quem entrou em nova dimensão. Encontre o amor nas mãos que trocam adeus ou nos abraços efusivos da chegada. No beijo demorado do casal que sonha. No homem de preto que diz sim à mulher de branco e vice-versa, enquanto todos dizem amém. E com a mão direita, um homem de bata traça uma cruz imaginária abençoando o amor.

Nos cárceres, tente encontrar o amor. Nas lágrimas de saudade e junto daqueles que querem libertar a alma. Encontre o amor nos cartazes de fé, nas bíblias manchadas e nos rostos clementes. Ele vai estar na mão estendida, no pão repartido, na família reunida para comemorações ou lamento. No brinde e no choro. Entre paredes ou na natureza, encontre o amor.

Encontre o amor na solidão dos santuários e no burburinho da multidão nas ruas, nas flores que se abrem e nos pássaros a flanar. Na beleza, no perfume e no canto, o amor vai estar presente. Encontre o amor no coração, gestos e pensamentos, na visão positiva diante da vida, na força de lutar, na noite que vem e no dia que se abre. Encontre o amor. Deus vai estar lá.

Fontes:
TV Clipping Maringá .
http://www.tvcm.com.br/

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Arquivado em O Escritor com a Palavra

Antonio Roberto de Paula (1957)

O jornalista Antonio Roberto de Paula, sócio-proprietário da TV Clipping Maringá, nasceu na cidade paulista de Lupércio, em 17 de junho de 1957. É o primogênito dos quatro filhos de Alcebíades de Paula Neto e Rita Andrade de Paula. A mudança para Maringá ocorreu em 1959. De Paula concluiu o curso primário em 1967, em Engenheiro Beltrão (PR), onde a família residiu até meados de 1972.

Em 1968 estudou no Seminário Verbo Divino, em Ponta Grossa. De 1969 a 1976, fez o ginásio e o científico, como eram chamados na época os ensinos fundamental e médio, nos seguintes estabelecimentos de ensino de Maringá: Santo Inácio, Instituto de Educação, Gastão Vidigal e Paraná.

Foi aprovado no vestibular do curso de Letras na UEM (Universidade Estadual de Maringá) em 1981, mas desistiu do curso. Em 2001, formou-se em Jornalismo pelo Cesumar (Centro Universitário de Maringá). Em 2003, fez o curso de pós-graduação Língua Portuguesa – Teoria e Prática, pelo Instituto Paranaense de Ensino e Univale (União das Escolas Superiores do Vale do Ivaí). Atualmente, cursa Mestrado em Letras na UEM.

Sua monografia de conclusão do curso de graduação foi a apresentação do livro Os homens da Folha do Norte do Paraná , jornal maringaense fundado em 1962, pelo primeiro arcebispo de Maringá, dom Jaime Luiz Coelho, e que teve suas atividades encerradas em 1979.

Antes de atuar profissionalmente na imprensa, De Paula foi escriturário na Transparaná (1977), funcionário público municipal ( 1977 a 1979), tendo trabalhado na extinta Codemar (Companhia de Desenvolvimento de Maringá) e Secretaria de Fazenda; bancário ( 1979 a 1985), no Centro Regional do Bradesco-Maringá; e foi proprietário do Bar do Toninho ( 1985 a 1990), na avenida Dr. Alexandre Rasgulaeff, no Jardim Alvorada, em Maringá.

Desde a adolescência escreve poesias, contos, crônicas e artigos, inclusive com publicações desde a década de 1970, nos jornais O Diário do Norte do Paraná , O Jornal de Maringá e Jornal do Povo . Sua primeira experiência efetiva no jornalismo ocorreu em 1975, no Colégio Estadual Dr. Gastão Vidigal, com o jornal Skeletus , do CETA (Centro Estudantil Tristão de Athaíde).

Publicado até 1977, o Skeletus tinha como editores, além de De Paula, seus amigos Mário Sérgio Recco, José Miguel Grillo, Nivaldo Gôngora Verri, Edson Cemensati e Edson Luiz Matias. Em 1981, foi colaborador do Vôo Livre , suplemento de O Diário publicado às sextas-feiras, editado por Mário Sérgio Recco.

Seu primeiro emprego efetivo na imprensa foi no Jornal do Povo, em 1991, como colunista de futebol amador, passando depois para a editoria de esportes e escrevendo a coluna Visão de jogo. Neste mesmo ano atuou como comentarista da extinta Rádio Metropolitana (Rádio Jornal).

Em 1992 e 1993 trabalhou como comentarista em transmissões de futebol amador pela RTV Maringá. Em 1993, deixou o Jornal do Povo e se transferiu para a sucursal do Correio de Notícias, jornal curitibano que encerrou as atividades na cidade no ano seguinte. Lá, foi colunista e editor de esportes.

Ainda em 1993, deixou a RTV indo para a TV Maringá (Band) para ser editor, pauteiro e produtor do programa diário Esporte por Esporte , onde permaneceu até 1995.

Neste período, De Paula também foi produtor e comentarista do programa Atalaia Esportiva, da Rádio Atalaia de Maringá. De 1995 a 1997, trabalhou no O Diário exercendo as funções de editor de esportes, colunista do DNP Esporte, repórter de matérias políticas e locais, pauteiro e secretário de redação.

De 1997 a 1998 foi repórter da Revista M-9. De 1997 a 1999 escreveu crônicas, artigos, poesias e contos na coluna Linha Expressa, no Jornal do Povo. Em 1998 e 1999 atuou como editor-chefe do departamento de jornalismo da TV Cidade – Sistema NET. Em 2000, foi repórter, pauteiro e colunista do jornal Hoje Maringá.

De Paula e o jornalista Cláudio Viola são parceiros em composições em que incluem os hinos do Maringá Futebol Clube (1996), do Grêmio Maringá (2000) e as músicas Maringá Velho, gravada em 2003 pela cantora maringaense Márcia Mara, e Cabrito na horta , classificada no Femucic (Festival de Música Cidade Canção), gravada por Helington Lopes (que também foi um dos compositores) e o grupo Receita do Samba.

Em 2002, abriu com a jornalista Simone Labegalini a TV Clipping Maringá. No início de 2003, De Paula trabalhou como produtor, repórter e comentarista do programa Estação Comunitária , da Rádio Comunitária São Francisco FM, do Jardim Alvorada, retornando no ano seguinte. Foi responsável juntamente com seu filho Guilherme Tadeu de Paula da sucursal em Maringá do jornal londrinense Paraná Shimbun, em 2003 e 2004, e um dos produtores do programa Beca TV , da TV Clipping Maringá, com Guilherme Tadeu e Allan Oliveira, em 2004. Em 2003, publicou o livro Da minha janela, de crônicas, artigos, poemas, contos inéditos e já publicados.

Em 2004 lançou o livro A história política de um cabo de José, de Maria e de todos os Santos , em que narra a história do vereador maringaense Cabo Zé Maria e seus dez anos de mandato. Em 2005, dirigiu o videodocumetário Crônica democrática de uma cidade brasileira , sobre as Eleições 2004, numa produção da TV Clipping Maringá, com roteiro de Guilherme Tadeu de Paula e fotografia e montagem de Allan Oliveira.

Foi nomeado assessor de imprensa da Câmara Municipal de Maringá em 1997, vindo a ocupar a chefia do setor no final de 1999, onde permanece até hoje.

Fonte:
TV Clipping Maringá . http://www.tvcm.com.br/

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Antonio Mário Manicardi (A Cachorrada)

Antonio Mário Manicardi, o “Nhô Juca” que foi o primeiro funcionário da Prefeitura de Maringá (o número 1, está na carteira de trabalho dele) está escrevendo um livro sobre a história da cidade. E ele sabe muitas. Todas verídicas

Um das histórias que Nhô Juca contará no livro é sobre os cachorros de Maringá.

*Américo Dias Ferraz era o prefeito. Um dia, chamou Manicardi e outro funcionário em seu gabinete e deu uma ordem.

-Esta cidade está cheia de cachorros. Não aguento mais reclamações. Peguem os animais, coloquem no caminhão da prefeitura e soltem os bichos pra lá do rio Ivai.

E isso foi feito. Os funcionários da prefeitura saíram catando cachorro pela cidade, colocaram uns trezentos no caminhão e foram.

Passaram o rio Ivaí, soltaram a cachorrada no meio do mato, viraram o caminhão e picaram a porva de volta pra Maringá.

Naquele tempo, o rio Ivaí (de Maringá a Campo Mourão) não tinha aquela ponte que hoje transitamos por ela. Era uma balsa.

Nhô Juca conta que enquanto esperavam a balsa, ouviram um barulhão na água. “Fomos conferir e a cachorrada toda estava atravessando o Ivaí a nado. Eles chegaram em Maringá antes da gente”, relata, rindo.

Bem feito.

Fontes:
Edson Lima. In http://blogs.odiariomaringa.com.br/
Foto: http://omeulugar.wordpress.com

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Rui Mascarenhas ("Literatura, quem publica?")

…e aconteceu o acalorado debate “Literatura, quem publica?”, às 10 horas da manhã do sábado (23/08/08), na Biblioteca Temática de Cultura Popular Belmonte (Auditório Kiyomi Oba) r. Paulo Eiró, 525 – Santo Amaro(SP); debate esse que nos enriqueceu com as diferentes iluminações dos nossos debatedores sentados à mesa e as intervenções precisas, do público presente.

Antônio Vicente Seraphim Pietroforte, prof do curso de graduação em letras e pós-graduação em semiótica e linguística geral da Usp, nos relatou suas experiências vividas com publicações de sua autoria nas áreas acadêmicas (Semiótica visual – os percursos do olhar (1ª ed, Contexto, 2004; 2ª ed, Contexto, 2007); Análise do texto visual – a construção da imagem (Contexto, 2007); Tópicos de semiótica – modelos teóricos e aplicações (Annablume, 2008), e literárias (Amsterdã SM (romance, DIX, 2007); O retrato do artista enquanto foge (poesias, DIX, 2007); Papéis convulsos (contos, DIX, 2008); Palavra quase muro (poesias, Demônio Negro, 2008); M(ai)S – antologia SadoMasoquista da Literatura Brasileira (DIX, 2008), organizada com o escritor Glauco Mattoso).

Segundo o professor, o mercado acadêmico é sempre receptivo e tem interesse pelas novas produções acadêmicas e encontra apoio de instituições fortes, a exemplo da “FAPESP” – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, e que é possível achar, sem muita dificuldade, uma editora especializada que investirá na publicação e posicionará estrategicamente o livro para escoamento. O mesmo não acontece com as publicações “literárias” que exigem mais perseverança do autor para sua realização, e a sujeição, em contra partida da publicação, às condições amenas impostas pelas editoras, ou mesmo inexistentes, de retribuição desse trabalho – quando não, elas ainda cobram, a preços euro-espaciais, para que você possa ter seu livro publicado.

…bem, palavras minhas: esse que é o verdadeiro “comércio” das “editoras comerciais” – depois abandonam seu livro no estoque.

O prof. Frederico Barbosa foi o segundo a nos relatar suas experiências com o nosso semi-árido mercado de publicações, onde publicou os livros de poesia Rarefato (1990); Nada Feito Nada (1993), que ganhou o Prêmio Jabuti; Contracorrente (2000); Louco no Oco sem Beiras (2001); Cantar de Amor entre os Escombros (2002); A Consciência do Zero (2004) e, em parceria com Antonio Risério, Brasibraseiro (2004), pelo qual recebeu seu segundo Prêmio Jabuti (e que vendeu cerca de 18 mil exemplares – medalha de ouro, para essa dupla brasibraseira!); além de poemas traduzidos e publicados em coletâneas de diversos países, também organizou as antologias Cinco Séculos de Poesia (2000) e, com Cláudio Daniel, Na Virada do Século, Poesia de Invenção no Brasil (2002) – e haja experiência nisso tudo!! – confessa que pagou para publicarem seu primeiro livro, dividiu as despesas com o segundo e encontrou reconhecimento e não mais despesas, a partir do terceiro.

Em seguida, Binho, do Sarau do Binho, que acontece toda segunda feira, ali, numa quebrada, próximo a Uniban, estrada do Campo Limpo. Binho é o portal do registro da oratória, do verso e da prosa publicada no gogó pelos habitantes daquela região, que encontra na oportunidade dos seus Saraus, a representação de sua autêntica literatura.

Binho nem tentou acordo, nem enfrentou desgostos com as editoras comerciais, publicou seu próprio livro – todo independente – com lombo artesanal, posto um aplique boliviano, bilíngüe, em parceria com outro poeta Serginho Poeta, o livro chama-se “Donde Miras – dois poetas e um caminho”, que vende de mãos em mãos levando suas experiências por toda América Latina.

Renato Palmares, Binho, Ivan Antunes,
Frederico Barbosa, André Luís (agachado),
Sônia Pereira, Beso e Rui Mascarenhas.
A última debatedora da manhã foi a Sônia Pereira que publicou o primeiro livro “solo” em 1998; “Conta Gotas” pela Editora Talentus e em 2004; “MALDIÇÕES e outras crueldades” – pela Meireles Editorial; todos financiados por conta própria, completa!

A autora afirma que Não participa mais de coletâneas cooperativadas nem pretende mais publicar seus livros em editoras formais, diz que é insuportável enfrentar um segundo problema que lhe parece muito maior, que é o da distribuição dos autores não consagrados: “O problema não é publicar, pagando qualquer editora publica. O sinistro é distribuir. Vc publica, leva pra casa e fica aquela montanha de exemplares atravancando as prateleiras”. E diz mais, “…então resolvi quebrar isso tudo, faço minhas próprias edições caseiras em papel sulfite grampeado. Poucas páginas, preço pequeno; mesmo sendo pouco conhecida, pelo preço muita gente compra, e aí vou ficando conhecida e fazendo virar uma grana. Imprimo o que acho que vai vender, dependendo do evento, sem grandes custos pra mim e sempre cobertos pelas vendas”… É isso, tá resolvido!

…e deixo ai um resumido rápido rabisco das diversas experimentações desses debatedores mágicos formados em diferentes escolas, que tiram da cartola mestra ou usam do jeitinho brasileiro para imprimir seus sonhos e o conteúdo de suas experiências.

Fonte:
E-mail enviado por Rui Mascarenhas. (
http://www.trezevisoes.blogspot.com/)

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Silvino Potêncio (O Descanso do Guerreiro)

… O ouro é como o amor; mata quem o guarda e vivifica quem o dá. (Gibran Khalil Gibran) — durante a pré campanha para as recentes eleições presidenciais na santa terrinha, um dos Pré-Candidatos que não chegou a ser inscrito, ele me escreveu através do portal a perguntar pelo meu “ouro” dado gratuitamente!… e eu aqui estou vivinho da costa!
Silvino Potêncio, Emigrante Transmontano! – Janeiro de 2006

Imbuído de um portuguesismo bastante exacerbado, senão um defensor ferrenho dos purismos da língua, causado traumáticamente pela minha vivência pessoal e directa durante quatro anos em Portugal, logo a seguir ao 11 de Novembro de 1975 pelo clima que lá se tinha naquela época, eu cheguei a terras de Santa Cruz de Cabrália, quatro anos depois…

– Por mais conhecimento literário, cultural, e/ou social que se tenha do lugar aonde se pretende ir, nada melhor do que chegar lá e verificar “in loco” como são as coisas da vida, diariamente vividas e sentidas na sua plenitude.

– Ainda no saguão do aeroporto da minha primeira chegada em terras “Tupiniquins”, estava eu preocupado em confirmar a minha chegada, aos amigos que me esperavam em determinado local, que não aquele onde eu estava, eu meti a moeda na ranhura da cabine telefônica, que só mais tarde eu entenderia porque se chamava de “orelhão” publico ou seja: um lugar onde todo mundo tem direito a escutar o que quer e o que não quer ouvir – iiii!!!,…. tchibum….plim, plim, pardais ao ninho, a minha moedinha caiu na caçapa sem me liberar o contacto com quem quer que seja.

– Mais umas duas tentativas e como não conseguia, eu dirigi-me a uma “cigarreira”, vulgarmente conhecida por banca de revistas, ou ponto do jornaleiro, além de lanchonete ou simplesmente um ponto móvel (fixado com cimento e cal na calçada) de venda de cachorro quente, e caldo de cana doce como mel, que ficava logo ali à ilharga para, delicadamente pedir à rapariga que lá estava atrás do balcão para me vender o “tabaco” dela, depois de pedir uma informação.
– Olhe, faz favor,… tem tabaco?

… Seu “inguinorante”, fio d’ua égua… vai lá p’ra sua terra chamar esses nomi tudin p’ra sua mãezinha tá! – Aqui nois é póbe mas tem, inducação viu!?…

– Mas!,… olhe, eu sou português acabei de chegar.

– Tenho até as malas ali no guarda-volumes do aeroporto, porque eu só tenho conexão daqui a umas seis horas… e eu só queria telefonar para lá, para…!

Pode pará, pára,… pera i home, tu é doido é?… dizia-me ela de dedo apontado;
— hum!… é só isso mêmo que você quére ???…

É, … é, só isso que eu quero. – Como é que faço?

– Oi,… primero voismecê compra aqui a “ficha” na cigarreira p’ra botá lá no “orilhão”… – a despois voismecê liga o número e pronto, já pode falar!!!…

Antes de me afastar da cigarreira onde colhi a informação, a rapariga ainda acrescentou… Mas preste atinção: aqui num vende tabaco não,… – eu inda sou moça sorteira e só vende cigarro, você entende!?… aqui num tem tabaco não e também num tem nem rapariga não!,… tá certo?

– Está muito bem, muito obrigado…

– …num tem di quê?

Encerrado este diálogo inicial da minha apresentação ao serviço da guerra de termos e vocábulos luso-brasileiros, lá fui eu então para o meu telefonema inaugural. Mas… agora já munido de algumas informações turísticas e uns poucos “macetes” para não dar “mancada” nos meus confábulos que se avizinhavam já a seguir.

— E que tinham que ser bem educados, respeitosos, e sobretudo diplomáticos a bem da minha pretendida permanência em casa de desconhecidos até então.

– Está lá? … (- risos do outro lado da linha…) Alô!?… é você?

– Sim, sou eu! – mas quem é esse tal de alô?, eu vim sozinho e estou no aeroporto à espera do voo com conexão para ir para aí! (- mais risos do outro lado da linha…)

Tudo bem! – quando você chegar aqui nós já estaremos lhe esperando no aeroporto…

– Mas como não nos conhecemos pessoalmente ainda, como vamos saber quem é você?

– Haaa!…, está certo…

– Olhe não tem qualquer problema porque eu estou com uma “camisola” vestida nas cores branco, com uma faixa azul e encarnado no peito… (— novamente, muito mais risos do outro lado da linha…) – supostamente a voz colocou a mão sobre o bocal do telefone, e ainda assim eu percebi numa voz sussurrada e fanhosa; … minha Nossa Senhora!,… o cara só pode ser algum orixá porque está vestido de branco e azul mas está “encarnado”.

E dever ser também alguma bichona a ponto de descer do avião vestido com uma “camisola”… – vige! maria!,… que caba da peste hein!?,… – esses portugas tem cada coisa hein!…

– Tem um lá no Rio de Janeiro que é um tarado por beijos! … depois de tanto beijar mulatas, brancas, pretas, amarelas, indias, caboclas, ciganas, pardas, sarárás, e tudo mais que tenham rabo de saia, ele acabou por ficar famoso ao beijar homens!

– Eh, cara… até lhe chamam de “beijoqueiro”,… eu hein?!

As horas se passaram, eu fiz a minha conexão e desembarquei mesmo de “camisola” em pleno aeroporto com um sol tropical maravilhoso como eu já não via desde os tempos de Luanda, cinco anos atrás.

– As pessoas me receberam literalmente de braços abertos e, agora muito mais aliviados e positivamente mais contentes ainda porque,… afinal eu não vinha vestido com nenhuma “camisola”… mas sim uma “T Shirt” do tipo camiseta polo.

– Me entregaram logo na amizade um FIAT (na virgem…) modelo 147 e lá comecei eu então a minha jornada de emigrante do outro lado das grandes áugas!…(1)

… Logo no primeiro “dez de junho” que se aproximou eu busquei a classe jornalística cá do burgo, e procurei saber da viabilidade de a imprensa escrita assinalar a nossa data nacional….

– O que é que se escrevia por aqui… – como era o dia da raça lusitana!?…

– De canto em esquina, eu … fui indo, fui indo mas num fondo…

– Fui apresentado a alguns jornalistas locais, os quais conheço até hoje e ainda mantenho no meu “caderninho ” de endereços, porém nada de mais sério senti da parte deles.

– Fiz um artigo de minha autoria (na época era alusivo ao 10 de Junho de 1980) que entreguei a um deles, jornalistas, para que o publicassem na sua coluna diária porém, em vez disso, na data aprazada eu só pude ler algo incongruente sobre um tal pseudo vendedor ambulante, também popularmente conhecido na região como “camelô” que nada mais é do que um trabalhador formal que caiu no mercado informal, para formar a turma de abandonados da sorte, e do governo formalmente, e aí!,… meus amigos,… eu conheci pessoalmente, finalmente, pela primeira vez na minha vida, um Senhor Cônsul de Portugal no estrangeiro.

… Natural de Caminha, o velho Ti Manel Afonso já então com mais de oitenta e tal anos, ele caminhava lento.

– Levantava-se cedo por hábito adquirido há muitos e muitos anos!…

– Tomava o autocarro na porta da sua casa – único bem que lhe restou do patrimônio familiar angariado em mais de 70 anos de emigrante – e todos os dias, pelas sete horas da manhã, ele abria o estabelecimento!

— Ah!,… que consolo dizer isto à boca cheia.

O homem tinha uma “banquinha de jogo do bicho” com aproximadamente um metro quadrado de espaço, localizado debaixo da escada que levava ao primeiro andar do prédio, a qual lhe era autorizado instalar no vão da escada da entrada desse edifício,… que outrora já fora o seu grande quartel general de negócios.

– Não é por nada não mas, aqui me ocorreu o velho tango…

Música melancólica que nem o tal Gardel conseguia disfarçar depois de uma noitada de dor de cotovelo:

“corrientes!,… treis cuatro ocho!,… subiendo al primer andar!…
( ai, Jesus! que tristeza…)

– Ali ele recebia politicos e comerciantes, artistas e jornalistas.

Lá mesmo eu vi fotografias dele, Ti Manoel Afonso, junto ao aeroplano, e junto do Gago Coutinho em escala no aeroporto de Recife… mas isso eram devaneios de outras eras, como o são todos os tangos de que me lembro!

– O dia a dia do Ti Manel Afonso era bem mais simples:
… veio para o Brasil com “carta de chamada” e não tinha passaporte.
Sim, senhores!…. eu pessoalmente o ajudei a tirar a Carteira de Identidade, ou RNE – RG como queiram lhes chamar,… – perguntei-lhe pelo passaporte e o homem simplesmente, com lágrimas nos olhos, se encolheu e confessou que nunca mais teve condição de ir a Recife para tirar o próprio passaporte mas,…ele nem o precisava!

– Porque todo o mundo em Natal sabia que ele era o Consul Honorário de Portugal, então para quê ele precisaria de passaporte???…

– Isto ele me dizia meio a sério, meio na brincadeira, porque eu era afinal o patrício que ele tinha ali mais perto da loja dele onde, às vezes eu ia lá para comprar um maço de cigarros (vulgo tabaco)… e ele se recusava a vender-mo!…sabem porquê?

Ele foi caixeiro viajante,… enriqueceu no comércio de jóias, relógios e muito trabalho como bom emigrante que era.

– Construiu o prédio onde por vezes promovia bailes de gala nas décadas de 40 e 50 do século passado.

– Agora na década de oitenta ele tinha que vender cigarros avulso porque dessa forma ele conseguia mais uns trocados para a sopa!

– Se me vendesse a mim o maço completo, ele não tinha como abastecer os clientes que compravam um de cada vez!…e, para disfarçar a contravenção de fazer o joguinho da bicharada, lá vendia cigarros: um de cada vez!

– Acompanhei-o eu a um almoço do Rotary Club local, em dia de homenagem a Portugal lá pelos idos do “dez de junho” de 1982-83, se não estou em erro,… e o Ti Manel Afonso não aguentou de saudade!…

A meio do almoço e na hora de botar “faladura”, ele desabou por cima da mesa com a fala já entaramelada de emoção, depois de um copito do tinto, uma olhada na bandeira das quinas na parede em frente de nós dois, e mais o amigo Albano, que também já está ausente,… e lá o fomos a deixar na casa dele, quase desacordado.

– Faleceu um tempo depois, já p’ra lá dos noventa e tantos anos, e a grande mágoa que o acompanhou na sua ultima e derradeira batalha, foi a sua grande tristeza de tudo ter dado e feito em prol do nosso País, da nossa cultura, em terras Potiguares e, ele o Sr Consul Honorário de Portugal, ele jamais recebeu sequer uma menção honrosa de quem de direito…

– Ganhou muito ouro em vida, agora descansa em paz!…antes de ser Cônsul ele foi emigrante como eu, como qualquer um de nós… viva o novo P.R. ( entenda-se Portugal Renovado!…) e ainda vou reler a história da transição transalpina dos camelos do Anibal – grande guerreiro, imperador romano que mandou construir a fonte da minha santa terrinha, que ainda lá está!…

Silvino Potêncio/Natal-Brasil – Jan/2006

Fonte:
E-mail enviado pelo Portal CEN (
www.caestamosnos.org )
Foto:
http://eu-vejo.blogspot.com

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Agenda Cultural do Grupo Sorocult (Sorocaba)

O Sorocult (ao lado de alguns de seus escritores) começou o 2º semestre de 2008 em plena atividade. Confiram abaixo o que já aconteceu:

1) Visita à “Flip” (Festa Literária de Parati).

2) Realização de mais uma “Maratona Literária Sorocult” e “Maratona Literária Infantil Sorocult” no Esplanada Shopping Center de Sorocaba nos dia 25, 26 e 27 de julho.

3) Lançamento de 7 novos livros dentro das Maratonas acima citadas.

4) Realização, no dia 4 de agosto, do Sarau “Encontro com a Poesia Sorocabana”, no IHGGS (Instituto e Genealógico de Sorocaba), participando assim do calendário comemorativo do aniversário de 354 anos de Sorocaba.

5) Visita à “20ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo”, no dia 16 de agosto, sábado, juntamente a um grupo de escritores do Sorocult, quando :

– Participou do lançamento da antologia “Dez rostos da Poesia Lusófona”, que tem como um dos co-autores, Joaquim Evónio, de Portugal, colunista do Sorocult e também um dos co-autores do novo livro e da “3ª Coletânea do Espaço Literário do Sorocult”.

– Prestigiou o escritor sorocabano Luis Samuel Tabacow que, junto à Editora O Clássico, esteve apresentando seu livro “Por dentro do cérebro do aprendiz”, recém lançado ao grande público presente.

– Fez contatos com vários escritores Maurício de Souza, Ziraldo e Marília Pêra, presentes no grande evento naquele dia.

6) Início em agosto das novas atividades do “Projeto Leitura Responsável Sorocult” com:

– Entrega dos livros da “3ª Coletânea do Espaço Literário do Sorocult” em várias escolas e bibliotecas de Sorocaba e região.

– Início de mais uma “Maratona Literária Infantil” para a doação da “1ª Coletânea da Sorocultinha” para várias entidades assistenciais, bibliotecas e escolas de Sorocaba e região.

Fonte:
E-mail enviado pelo Grupo Sorocult (
www.sorocult.com)

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Notícias Rápidas

Entrevista com Douglas Lara no Programa Cultural Oficina

Na sexta feira, dia 05/09 – entrevista com Douglas Lara ao vivo. Tudo sobre o a coletânea Roda Mundo que completou 5 anos em 2008, o Rodamundinho 2008, a semana do escritor em sua quarta edição e muito mais! Não percam. Prestigiem!

Oficina é um programa cultural transmitido pela web através do site:
http://www.twmidia.com, com o objetivo de mostrar ao público todo o potencial cultural de Sorocaba e região. Personalidades de Sorocaba e região como o jornalista, escritor e redator do Jornal Cruzeiro do Sul Jose Antonio Rosa, o grupo teatral Mulheres em Rede, produtores do documentario “A LOIRA DO BANHEIRO”, “MOVIMENTO HIP HOP” , o maestro Jonicler, entre outros já passaram pelo programa Oficina. Assista e participe. Toda Sexta feira ao vivo, apresentado por Rafael Sola, das 20:10 hrs às 21:10 hrs. Entrevistas, curiosidades, filmes, músicas e muito mais!
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Escritor Laé de Souza percorre várias cidades com o projeto “Caravana da Leitura”

O projeto “Caravana da Leitura”, iniciado em 2004, é realizado em parceria com as Secretarias de Educação e Cultura dos municípios, tem o apoio do Ministério da Cultura e consiste na venda de livros de Laé de Souza, também autor do projeto, pelo preço simbólico de R$ 1,00.
Na tenda “Caravana da Leitura” o público tem acesso aos livros Nos Bastidores do Cotidiano, Acredite se Quiser!, Coisas de Homem & Coisas de Mulher, Acontece…, e Espiando o Mundo pela Fechadura, crônicas curtas que retratam o cotidiano das pessoas comuns e as complexidades das relações humanas, em linguagem coloquial e abordagem bem-humorada, o que facilita a compreensão dos textos e torna a leitura agradável, e o infantil Quinho e o seu cãozinho – Um cãozinho especial, publicados pela Editora Ecoarte.

Durante o evento o autor faz sessão de autógrafos e é realizada distribuição de material informativo sobre outros projetos de incentivo à leitura.

Em 2007 a caravana esteve em onze municípios paulistas; neste ano já foi a Mauá, Ribeirão Pires, Embu das Artes e está programada para passar nos dias 26, 27, 28, 29 de agosto e 1º de setembro nas cidades de Diadema, São Caetano do Sul, São Bernardo do Campo, Ferraz de Vasconcelos e Osasco, respectivamente, e em novembro percorrerá o Estado de Minas Gerais, passando pelas cidades de Sabará, Ribeirão das Neves, Belo Horizonte e Montes Claros.

Laé de Souza é autor de várias iniciativas de fomento à leitura e neste ano o projeto “Ler é Bom, Experimente” está implantado em mais de 600 escolas públicas, o “Dose de Leitura” com inscrições abertas para 15 hospitais e o “Leitura não tem Idade”, voltado para grupos de Terceira Idade também recebe inscrições, além de outras ações que envolvem doze projetos aplicados em todo o país.

Interessados poderão conhecer outros projetos de incentivo à leitura, de Laé de Souza e o roteiro da Caravana da Leitura, no site http://www.projetosdeleitura.com.br/
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Sarau Cultural da Ufscar

“A diversidade da Cultura Brasileira”
Teatro Municipal Teotônio Villela
Data – Dia 3 de setembro de 2008
Horário – Às 19h
Entrada franca com sorteio de um violão e camisetas
Inscrições para apresentação de poesias poderá ser feita antes do início do evento.
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6º Concurso Literário Sopmac de Poesia

Estão abertas as inscrições para este concurso até o dia 30 de setembro. Podem participar estudantes de todos os níveis e interessados no geral e cada um com até 3 poesias de uma lauda. As poesias devem ser enviadas em 4 vias cada uma para “Ly Sopmac – Caixa Postal 3009 –Sorocaba/SP – CEP 18043-970. Resultado em dezembro de 2008 e premiação com medalhas e menções honrosas.
Confira a agenda cultural da Fundec e saiba dos seus grandes eventos

Acesse o site : http://www.fundecsorocaba.com.br/ . Maiores informações com Tereza Cristina, Coordenadora de Eventos – FUNDEC – 15. 3233.2220
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Portal Vânia Moreira Diniz – Espaço Ecos

Contos, crônicas,poemas haikais,página da Amem em que poderão ler sobre as pessoas que necessitam de cuidados especiais e de nosso carinho,notícias sobre inclusão, Lei dos Direitos autorais, de Proteção à mulher. Todos os canais são de interesse comum e portanto sei que vão adorar conhecê-los e também participar. No Espaço Ecos a literatura é a grande ferramenta,elo que nos liga a todos os aspectos da vida. Nos canais poemas e crônicas e vários outros estamos ainda alimentando seus espaços e contando com a competência, talento e dedicação de nossos colaboradores.

Por Vânia Moreira Diniz
http://www.vaniadiniz.pro.br/espaco_ecos/Editorial.htm
http://www.vaniadiniz.pro.br/espaco_ecos/default_ecos.html (Literatura como intrumento de inclusão
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Autor de 85 Letras e um Disparo debate com leitores de Passo Fundo e Sarandi

O mundo do “não”, os luxos e misérias do dia-a-dia, as peculiaridades do cotidiano são os temas que levam os leitores do livro “85 Letras e um Disparo” a uma viagem por 19 contos. O autor, Ademiro Alves de Sousa, mais conhecido por Sacolinha, é o convidado de agosto para os debates do Livro do Mês, ação que visa consolidar o título obtido por Passo Fundo de Capital Nacional da Literatura. Os debates iniciaram na terça-feira, 26 de agosto, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de Passo Fundo, com a participação da comunidade acadêmica. Na quarta-feira, 27, foi a vez do Campus UPF Sarandi, onde aconteceram dois seminários, e na quinta-feira, 28, às 9h, professores e alunos de escolas passo-fundenses se encontraram com o autor, no Teatro do Sesc.

Nos debates, Sacolinha contou que escrever o livro 85 Letras e um Disparo surgiu para contrapor a idéia de violência de seu primeiro livro, o romance “Graduado em Marginalidade”. A primeira edição da obra, lançada em 2006, tem 16 contos, e a segunda edição, da Global Editora, tem 19 contos. Um desses contos, o “Yakissoba”, é a história de um escritor que viaja 240 quilômetros de trem para vender seu livro e poder quitar todas as prestações que ele fez com a gráfica. “Esse conto é autobiográfico. Com ele, tive a intenção de mostrar o universo do ‘não’, ou seja, um ser humano que tinha tudo para ir para lado da criminalidade, da violência, das drogas, e que acabou optando pelo caminho das artes. Só que mesmo optando por este lado da vida, ele ouve muitos ‘nãos’ ao longo de sua trajetória”, comenta, lembrando que os demais contos primam, igualmente, por mostrar fatos que a sociedade nem sempre vê. Sobre o trabalho realizado em Passo Fundo em prol da literatura, Sacolinha afirmou estar encantado com iniciativas como o Largo da Literatura, os poemas nos ônibus e nos muros.

Fontes:
E-mail enviado pela Assessoria de imprensa UPF (Universidade de Passo Fundo) in Jornadas Literárias de Passo Fundo – Boletim Eletronico n. 71 – 28/08/2008.
http://mundodaleitura.upf.br/boletim/71/

E-mail enviado por Douglas Lara. In http://www.sorocaba.com.br/Acontece

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Antonio Jacinto (Poemas Esparsos)

Bailarina Negra

A noite
(Uma trompete, uma trompete)
fica no jazz

A noite
Sempre a noite
Sempre a indissolúvel noite
Sempre a trompete
Sempre a trépida trompete
Sempre o jazz
Sempre o xinguilante jazz

Um perfume de vida
esvoaça
adjaz
Serpente cabriolante
na ave-gesto da tua negra mão

Amor,
Vênus de quantas áfricas há,
vibrante e tonto, o ritmo no longe
preênsil endoudece

Amor
ritmo negro
no teu corpo negro
e os teus olhos
negros também
nos meus
são tantãs de fogo
amor.
¨¨¨¨¨¨¨¨¨

Canto Interior de uma Noite Fantástica

Sereno, mas resoluto
aqui estou – eu mesmo! – gritando desvairado
que há um fim por que luto
e me impede de passar ao outro lado

Ante esta passagem de nível
nada de fáceis transposições
Do lado de cá – pareça embora incrível
é que me meço: princípio e fim das multidões

Não quero tudo quanto me prometam aliciantes
Nada quero, se para mim nada peço,
o meu desejar é outro – o meu desejo é antes
o desejo dos muitos com que me pareço

Quem quiser que venha comigo
nesta jornada terrena, humana e sincera
E se for só – ainda assim prossigo
num mar de tumulto impelido os remos sem galera

Que venham glaucas ondas em voragem
que ardam fogos infernais
que até os répteis soltem seus instintos
e me envolvam traiçoeiras e viscosos

Que me derrubem e arremessem ao chão
que espezinhem meu corpo já cansado
à tortura e ao chicote ainda responderei não
e a cada queda – de novo serei alevantado

E não transporei a linha divisória
entre o meu e o outro caminho
Mesmo que a minha luta não tenha glória
é no campo de combate que alinho

Assim continuarei a lutar, ai a lutar!
num perigoso mar de paixões e escolhos
e – companheiros – se neste sofrer me virdes choras
não acrediteis em vossos olhos!
¨¨¨¨¨¨¨¨¨


Carta de um contratado

Eu queria escrever-te uma carta
amor,
uma carta que dissesse
deste anseio
de te ver
deste receio
de te perder
deste mais que bem querer que sinto
deste mal indefinido que me persegue
desta saudade a que vivo todo entregue…

Eu queria escrever-te uma carta
amor,
uma carta de confidências íntimas,
uma carta de lembranças de ti,
de ti
dos teus lábios vermelhos como tacula
dos teus cabelos negros como dilôa
dos teus olhos doces como macongue
dos teus seios duros como maboque
do teu andar de onça
e dos teus carinhos
que maiores não encontrei por aí…

Eu queria escrever-te uma carta
amor,
que recordasse nossos dias na capôpa
nossas noites perdidas no capim
que recordasse a sombra que nos caía dos jambos
o luar que se coava das palmeiras sem fim
que recordasse a loucura
da nossa paixão
e a amargura da nossa separação…

Eu queria escrever-te uma carta
amor,
que a não lesses sem suspirar
que a escondesses de papai Bombo
que a sonegasses a mamãe Kiesa
que a relesses sem a frieza
do esquecimento
uma carta que em todo o Kilombo
outra a ela não tivesse merecimento…

Eu queria escrever-te uma carta
amor,
uma carta que ta levasse o vento que passa
uma carta que os cajus e cafeeiros
que as hienas e palancas
que os jacarés e bagres
pudessem entender
para que se o vento a perdesse no caminho
os bichos e plantas
compadecidos de nosso pungente sofrer
de canto em canto
de lamento em lamento
de farfalhar em farfalhar
te levassem puras e quentes
as palavras ardentes
as palavras magoadas da minha carta
que eu queria escrever-te amor…

Eu queria escrever-te uma carta…

Mas, ah, meu amor, eu não sei compreender
por que é, por que é, por que é, meu bem
que tu não sabes ler
e eu – Oh! Desespero – não sei escrever também!
¨¨¨¨¨¨¨¨¨


Era uma vez…

Vôvô Bartolomé, ao sol que se coava da mulembeira
por sobre a entrada da casa de chapa,
enlanguescido em carcomida cadeira
vivia
– relembrando-a –
a história de Teresa mulata

Teresa Mulata!

essa mulata Teresa
tirada lá do sobrado
por um preto d’Ambaca
bem vestido,
bem falante,
escrevendo que nem nos livros!

Teresa Mulata
– alumbramento de muito moço –
pegada por um pobre d’Ambaca
fez passar muitas conversas
andou na boca de donos e donas…

Quê da mulata Teresa?

A história da Teresa mulata…
Hum…
Vôvô Bartolomé enlanguescido em carcomida cadeira adormeceu
o sol coando das mulembeiras veio brincar com as moscas nos
[lábios
ressequidos que sorriem
Chiu! Vôvô tá dormindo!
O moço d’Ambaca sonhando…
¨¨¨¨¨¨¨¨¨


O Grande Desafio

Naquele tempo
A gente punha despreocupadamente os livros no chão
ali mesmo naquele largo – areal batidos dos caminhos passados
os mesmos trilhos de escravidões
onde hoje passa a avenida luminosamente grande
e com uma bola de meia
bem forrada de rede
bem dura de borracha roubada às borracheiras do Neves
em alegre folguedo, entremeando caçambulas
… a gente fazia um desafio…
O Antoninho
Filho desse senhor Moreira da taberna
Era o capitão
E nos chamava de ó pá,
Agora virou doutor
(cajinjeiro como nos tempos antigos)
passa, passa que nem cumprimenta
– doutor não conhece preto da escola.
O Zeca guarda-redes
(pópilas, era cada mergulho!
Aí rapage – gritava em delírio a garotada)
Hoje joga num clube da Baixa
Já foi a Moçambique e no Congo
Dizem que ele vai ir em Lisboa
Já não vem no Musseque
Esqueceu mesmo a tia Chiminha que lhe criou de pequenino
nunca mais voltou nos bailes de Don´Ana, nunca mais
Vai no Sportingue, no Restauração
outras vezes no choupal
que tem quitatas brancas

Mas eu lembro sempre o Zeca pequenino
O nosso saudoso guarda-redes!
Tinha também
tinha também o Velhinho, o Mascote, O Kamauindo…
– Coitado do Kamauindo!
Anda lá na casa da Reclusão
(desesperado deu com duas chapadas na cara
do senhor chefe
naquele dia em que lhe prendeu e lhe disparatou a mãe);
– O Velhinho vive com a Ingrata
drama de todos os dias
A Ingrata vai nos brancos receber dinheiro
E traz pro Velhinho beber;
– E o Mascote? Que é feito do Mascote?
– Ouvi dizer que foi lá em S. Tomé como contratado.

É verdade, e o Zé?
Que é feito, que é feito?
Aquele rapaz tinha cada finta!
Hum… deixa só!
Quando ele pegava com a bola ninguém lhe agarrava
vertiginosamente até na baliza.

E o Venâncio? O meio-homem pequenino
que roubava mangas e os lápis nas carteiras?
Fraquito da fome constante
quando apanhava um pinhão chorava logo!
Agora parece que anda lixado
Lixado com doença no peito.
Nunca mais! Nunca mais!
Tempo da minha descuidada meninice, nunca mais!…
Era bom aquele tempo
era boa a vida a fugir da escola a trepar aos cajueiros
a roubar os doceiros e as quitandeiras
às caçambulas:
Atresa! Ninguém! Ninguém!
tinha sabor emocionante de aventura
as fugas aos polícias
às velhas dos quintais que pulávamos

Vamos fazer escolha, vamos fazer escolha
… e a gente fazia um desafio…

Oh, como eu gostava!
Eu gostava qualquer dia
de voltar a fazer medição com o Zeca
o guarda-redes da Baixa que não conhece mais a gente
escolhia o Velhinho, o Mascote, o Kamauindo, o Zé
o Venâncio, e o António até
e íamos fazer um desafio como antigamente!

Ah, como eu gostava…

Mas talvez um dia
quando as buganvílias alegremente florirem
quando as bimbas entoarem hinos de madrugada nos capinzais
quando a sombra das mulembeiras for mais boa
quando todos os que isoladamente padecemos
nos encontrarmos iguais como antigamente
talvez a gente ponha
as dores, as humilhações , os medos
desesperadamente no chão
no largo – areal batido de caminhos passados
os mesmos trilhos de escravidões
onde passa a avenida que ao sol ardente alcatroamos
e unidos nas ânsia, nas aventuras, nas esperanças
vamos então fazer um grande desafio…
¨¨¨¨¨¨¨¨¨


Poema da Alienação

Não é este ainda o meu poema
o poema da minha alma e do meu sangue
não
Eu ainda não sei nem posso escrever o meu poema
o grande poema que sinto já circular em mim

O meu poema anda por aí vadio
no mato ou na cidade
na voz do vento
no marulhar do mar
no Gesto e no Ser

O meu poema anda por aí fora
envolto em panos garridos
vendendo-se
vendendo
“ma limonje ma limonjééé”

O meu poema corre nas ruas
com um quibalo podre à cabeça
oferecendo-se
oferecendo
“carapau sardinha matona
ji ferrera ji ferrerééé…”

O meu poema calcorreia ruas
“olha a probíncia” “diááário”
e nenhum jornal traz ainda
o meu poema

O meu poema entra nos cafés
“amanhã anda a roda amanhã anda a roda”
e a roda do meu poema
gira que gira
volta que volta
nunca muda
“amanhã anda a roda
amanhã anda a roda”

O meu poema vem do Musseque
ao sábado traz a roupa
à segunda leva a roupa
ao sábado entrega a roupa e entrega-se
à segunda entrega-se e leva a roupa

O meu poema está na aflição
da filha da lavadeira
esquiva
no quarto fechado
do patrão nuinho a passear
a fazer apetite a querer violar

O meu poema é quitata
no Musseque à porta caída duma cubata
“remexe remexe
paga dinheiro
vem dormir comigo”

O meu poema joga a bola despreocupado
no grupo onde todo o mundo é criado
e grita
“obeçaite golo golo”

O meu poema é contratado
anda nos cafezais a trabalhar
o contrato é um fardo
que custa a carregar
“monangambééé”

O meu poema anda descalço na rua

O meu poema carrega sacos no porto
enche porões
esvazia porões
e arranja força cantando
“tué tué tué trr
arrimbuim puim puim”

O meu poema vai nas corda
encontrou sipaio
tinha imposto, o patrão
esqueceu assinar o cartão
vai na estrada
cabelo cortado
“cabeça rapada
galinha assada
ó Zé”

picareta que pesa
chicote que canta

O meu poema anda na praça trabalha na cozinha
vai à oficina
enche a taberna e a cadeia
é pobre roto e sujo
vive na noite da ignorância
o meu poema nada sabe de si
nem sabe pedi
O meu poema foi feito para se dar
para se entregar
sem nada exigir

Mas o meu poema não é fatalista
o meu poema é um poema que já quer
e já sabe
o meu poema sou eu-branco
montado em mim-preto
a cavalgar pela vida.

Fontes:
http://www.colegiosaofrancisco.com.br/
http://betogomes.sites.uol.com.br/AntonioJacinto.htm
http://www.secrel.com.br/JPOESIA/poesia.html

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Arquivado em O poeta no papel

Antonio Jacinto (1924 – 1991)

António Jacinto do Amaral Martins, nasceu no Golungo Alto, Angola, em 28 de Setembro de 1924. Conclui seus estudos licencias em Luanda, passando a trabalhar como funcionário de escritório.

Destacou-se como poeta e contista da geração Mensagem e, como membro do Movimento de Novos Intelectuais de Angola. tendo colaborado com produções suas em diversas publicações nomeadamente “Notícias do Bloqueio”, “Itinerário”, “O Brado Africano”

Como contista, por vezes, usava o nome literário de Orlando Távora, como também o de Kiaposse.

Por questões políticas foi preso em 1960 sendo desterrado para Campo de do Tarrafal, em Cabo Verde, onde cumpriu pena até 1972, quando foi transferido para Lisboa, em regime de liberdade condicional, por cinco anos, onde exerceu a função de técnico em contabilidade. Em 1973 evadiu-se de Portugal e foi para Brazzaville, onde se juntou à guerrilha do MPLA.

Após a independência de Angola foi co-fundador da União de Escritores Angolanos, e participou activamente na vida política e cultural angolana, sendo Ministro da Cultura de 1975 a 1978.

Ganhou vários prémios, nomeadamente o Prémio Noma, Prémio Lotus da Associação dos Escritores Afro-Asiáticos e Prémio Nacional de Literatura.
.

Em 1993, o Instituto Nacional do Livro e do Disco (INALD), instituiu em sua homenagem o “Prémio António Jacinto de Literatura”

Morreu em 23 de Junho de 1991.

Publicou:
Poemas(1961),
Vovô Bartolomeu (1979),
Poemas (1982, edição aumentada),
Em Kilunje do Golungo (1984),
Sobreviver em Trrafal de Santiago (1985; 2ªed.1999),
Prometeu (1987),
Fábulas de Sanji (1988).

Fontes:
http://betogomes.sites.uol.com.br/AntonioJacinto.htm
http://www.lusofoniapoetica.com/index.php/content/category/6/29/304/
http://bracosaoalto.blogspot.com/
http://www.angoladigital.net/

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Ricardo Riso (Antonio Jacinto no Panorama Histórico da Literatura Angolana)

Sobrevivendo à malha do tempo: “Sobreviver em Tarrafal de Santiago” e breves considerações sobre a “Mensagem”

Antonio Jacinto integra uma geração de poetas que rompe com os paradigmas coloniais e busca a valorização do homem angolano, de se pensar como cidadão e intelectual independente à metrópole. Em 1948, surge o lema “Vamos descobrir Angola”. O poeta Viriato da Cruz ilustra o momento:

Esse movimento combatia o respeito exagerado pelos valores culturais do Ocidente (…); incitava os jovens a redescobrir Angola em todos os seus aspectos através dum trabalho colectivo e organizado; exortava a produzir-se para o povo; solicitava o estudo das modernas correntes culturais estrangeiras, mas com o fim de repensar e nacionalizar as suas criações positivas e válidas; exigia a expressão dos interesses populares e da autêntica natureza africana, mas sem que se fizesse nenhuma concessão à sede de exotismo colonialista. Tudo deveria basear-se no senso estético, na inteligência, na vontade e na razão africanas.” (ANDRADE, 1977, p. 6)

A partir daí, os poetas procuravam conscientizar o povo com planos de alfabetização e outras ações sociais, enquanto os poemas tratavam de temas próximos à realidade do país. Nascia o sentimento de angolanidade, e, com o já citado Viriato, estão, entre outros, Agostinho Neto e Antonio Jacinto. Para isso, inspiram-se na ruptura proposta pela geração modernista brasileira de 1922. Carlos Ervedosa, em seu livro “Roteiro da Literatura Angolana”, comenta que:

Eles sabiam muito bem o que fora o movimento modernista brasileiro de 1922. Até eles havia chegado, nítido, o grito do Ipiranga das artes e letras brasileiras e a lição dos seus escritores mais representativos, em especial de Jorge de Lima, Ribeiro Couto, Manuel Bandeira, Lins do Rego e Jorge Amado foi bem assimilada.
O exemplo destes escritores ajudou a caracterizar a poesia e ficção angolanas, mas é, certamente, num fenômeno de convergência cultural, que podemos encontrar as razões das afinidades das duas literaturas. A mesma amálgama humana, frente a frente nas duas margens do Atlântico tropical, em presença de condições ecológicas quase idênticas, teria de conhecer reacções e comportamentos muito semelhantes
.” (ERVEDOSA, 1979, p. 72)

Com denso comprometimento ético e político-ideológico, algumas obras são melhores compreendidas em seu contexto social e histórico, como as do período primordial da angolanidade. De acordo com Octávio Paz, no ensaio “A consagração do instante”:

Como toda criação humana, o poema é um produto histórico, filho de um tempo e de um lugar; mas também é algo que transcende o histórico e se situa em um tempo anterior a toda história, no princípio do princípio. Antes da história, mas não fora dela. Antes, por ser realidade arquetípica, impossível de datar, começo absoluto, tempo total e auto-suficiente. Dentro da história – e ainda mais: história – porque só vive encarnado, reengendrando-se, repetindo-se no instante de comunhão poética. (…) o poema é histórico de duas maneiras: a primeira, como produto social; a segunda, como criação que transcende o histórico mas que, para ser efetivamente, necessita encarnar-se de novo na história e repetir-se entre os homens.” (PAZ, 1972, pp. 53-54)

As condições para um movimento literário angolano sedimentavam-se e foi criado o “Movimento dos Novos Intelectuais de Angola”, em 1950, escorados no ANANGOLA – Associação dos Naturais de Angola. No ano seguinte, é lançada a célebre revista “Mensagem – voz dos naturais de Angola”. Segundo Ervedosa,

O Movimento dos Novos Intelectuais de Angola foi essencialmente um movimento de poetas, virados para o seu povo e utilizando nas suas produções uma simbologia que a própria terra exuberantemente oferece. (…) Assim, os novos poetas foram cantando, com voz própria, a terra angolana e as suas gentes.” (ERVEDOSA, 1979, p. 73)

Refletindo a nova postura, Antonio Jacinto escreve “Carta de um contratado”, poema dos mais representativos da época, que retrata a angústia do angolano, longe de sua terra e das lembranças dela, longe da mulher amada, e denuncia o drama do analfabetismo:

Eu queria escrever-te uma carta
amor,
uma carta que dissesse
deste anseio
de te ver
deste receio de te perder
(…)
desta saudade a que vivo todo entregue

Eu queria escrever-te uma carta
amor,
uma carta que te levasse o vento que passa
uma carta que os cajus e cafeeiros
que as hienas e palancas
que os jacarés e bagres
pudessem entender (…)

Eu queria escrever-te uma carta

Mas ah meu amor, eu não sei compreender
por que é, por que é, por que é, meu bem
que tu não saber ler
e eu – oh! desespero – não sei escrever também!”
(ERVEDOSA, 1979, pp. 74-75)

Na geração da “Mensagem”, havia preocupação em retratar a sociedade angolana, tanto a urbana quanto a rural. A poesia estava inserida em um tempo de mudanças, a necessidade de impor a sua voz contra a repressão colonial fazia com que os temas políticos e sociais prevalecessem. Os poetas, assim, iam “construindo o coletivo plural, no futuro tão necessário para que se reconstrua a angolanidade esfacelada” (PADILHA, 1995, p. 146).

Apesar do intenso patrulhamento dos órgãos repressores portugueses, a “Mensagem” cumpriu o seu papel em apenas quatro números publicados (segundo Ervedosa). Tratando de temas sociais, da busca da infância perdida, das mudanças da cidade de Luanda e, principalmente, do nacionalismo angolano em uma época de clandestinidade, “Mensagem” marcou profundamente os poetas de sua geração e tornou-se referência para as gerações seguintes. Ervedosa argumenta que:

Como seria de esperar, o ‘Movimento dos Novos Intelectuais de Angola’ acabou por ser alvo de repressão policial. A ‘Mensagem’ terminou a sua publicação ao fim do segundo número e o Movimento teve que se desmembrar. A maior parte desses jovens acabaria por se reunir, mais tarde, não à volta de um movimento cultural, mas já sob a bandeira de um movimento político, do qual seriam líderes o ensaísta Mário de Andrade e o poeta Agostinho Neto.
Movimento de poetas, contistas e ensaístas, foi essencialmente através da poesia que aquele grupo de jovens, no dealbar da segunda metade do século vinte, se impôs e logrou virar uma página da história da literatura angolana. (…) Apesar do fim rápido e até da pequena expansão da ‘Mensagem’, ela permaneceu, contudo, como um verdadeiro símbolo
.” (ERVEDOSA, 1979, pp. 87-88)

As atividades não pararam por aí. Por causa da perseguição da polícia colonial, poucos continuaram o caminho. Manuel Ferreira atesta o caráter revolucionário daqueles que assumiram o lugar de agentes históricos:

E todos estes fizeram da sua poesia (…) um ato de fé, (…) de fato, a afirmação de sua identidade cultural. Os poetas fazem da escrita um ato de responsabilidade no combate à violência, à repressão, à exploração, à alienação. A linguagem evolui, atualiza-se, arma-se para a expressão de novas formas conteudísticas.” (FERREIRA, 1987, p. 117)

Na virada dos anos 1950/1960, alguns escritores foram para o exílio e vários são presos. “Em 1963, os escritores Antonio Jacinto, Luandino Vieira e Antonio Cardoso são condenados a catorze anos de prisão e desterrados para a colônia penal do Tarrafal.” (ERVEDOSA, p. 97) E aqui iniciamos a análise sobre o livro “Sobreviver em Tarrafal de Santiago”, de Antonio Jacinto.

Lançado em 1985, “Sobreviver em Tarrafal de Santiago” reúne poemas realizados durante a longa passagem de Antonio Jacinto no Campo de Concentração do Tarrafal, em Cabo Verde. Com todos os poemas datados, temos noção da angústia do poeta, já exposta no título do livro, ao resistir na manutenção dos seus ideais, o apreço à liberdade e a poesia como tema para combater a solidão em um exíguo espaço.

Dividida em três partes, trata-se de uma obra “em que a memória e a reflexão se fazem presentes, o livro é, sem dúvida, um dos momentos mais iluminados da trajetória artística de Jacinto, poeta cuja referência é imprescindível quando se fala da literatura angolana contemporânea” (MACEDO, 2007, p. 117).

Na primeira parte, “Tarrafal em redor”, os poemas tratam daqueles que levantaram suas vozes contra a ditadura salazarista e o fim do regime colonial. Por isso, foram fortemente perseguidos e sofreram pesadas punições, “de forma que o doloroso itinerário apresentado pelo livro é também o caminho de todos os nacionalistas cuja voz a opressão do colonialismo tentou silenciar” (MACEDO, 2007, p. 117).

Apreendemos que o forçado exílio é cantado pelo eu lírico, que versa o drama dos companheiros de luta rumo ao distante campo de concentração:

Neste navio x…………………..ancorados
Somos náufragos ……………embarcados
Oh! Navio!
Oh! Náufragos da terra longe!
Oh! Terra longe!
Oh! Terra!
Oh!
(JACINTO, 1985, p. 19)

Interessante percebermos a presença de temáticas predominantes na literatura cabo-verdiana, como o terralongismo do poema anterior “Neste navio embarcados”, a insularidade e o sentimento de evasão. Sobre esta influência, assumida pelo próprio poeta, Jacinto, em entrevista a Michel Laban, comenta que:

Isso aí, são versos escritos noutras circunstâncias – são escritos no Tarrafal, num mundo muito fechado, também, concentracionário, longe das realidades da terra, com outra realidade, deixados influir, também, pelo ambiente cabo-verdiano: vão se lendo novas obras de autores cabo-verdianos e aí vai-se compreendendo o ambiente que dita essa literatura cabo-verdiana. A insularidade pesa sobre nós, porque nós temos uma ilha e, dentro da ilha, uma povoação, dentro da povoação, um campo de concentração… Esse isolamento é muito elevado.” (LABAN, 1991, p. 170)

O espaço concentracionário citado pelo poeta, sentimento comum aos cabo-verdianos em razão dos limites das ilhas, “o limite à esquerda / Mar / o limite à direita / Mar” (JACINTO, 1985, p. 31), incorporado por ele diante da experiência no espaço exíguo e asfixiante do cárcere é explicitado no poema:

Cá vamos
Em Santiago, Cabo Verde
Embarcados
Mais precisamente
No Tarrafal
No Campo de Trabalho Chão Bom
Ou
Mais concreto
No pavilhão D
Caserna 2
Dos reclusos políticos de Angola
” (JACINTO, 1985, p. 22)

O isolamento imposto pelo cárcere é tratado em diversos poemas, cujas datas constantes ao final de cada um, aumentam o incômodo de quem os lê e oferecem a exata dimensão da longevidade da clausura. Ao atentarmos para o próprio nome da prisão, Campo de Treinamento Chão Bom, nos causa inquietação. Além disto, destacam-se, também, características e limites geográficos em poemas com a presença das ilhas do Fogo e do Sal, assim como a impossibilidade de partir, faz com que o poeta se aproprie do desejo de emigração cabo-verdiano e ilustre a sua saudade:

A vela no mar
escreve geometria de espuma
– partida de quem fica
e as nuvens ao sopro incessante vão
dos alísios mandos
– viagem de quem não partiu

Descem saudades (…)
No Tarrafal, anoitece…”

C.T. Chão Bom, 26.11.66 (JACINTO, 1985, p. 26)

A ilha em frente é uma saudade que se esboça (…)
Cai o sol por trás da ilha ao entardecer (…)
Transido, morre o sol.
Anoitece.
A Solidão acontece
.”
C.T. Chão Bom, 9.1.67 (JACINTO, 1985, p. 27)

O mar
As ondas
As ilhas
E as aves
edificam solidão
e a solidão tende para infinito (…)”

C.T. Chão Bom, 5.4.67 (JACINTO, 1985, p. 31)

Era o Oceano! Era o Oceano!
E a solidão, ano empós ano
.”
C.T. Chão Bom, 9.1.72 (JACINTO, 1985, p. 42)

No diálogo proposto por Jacinto com a literatura cabo-verdiana, dois escritores ícones são lembrados. A resistência, que beira a teimosia, do agricultor em plantar em uma terra ruim remete ao romance “Flagelados do vento leste”, de Manuel Lopes:

na folhagem resse-
quida e ferida
– memória do vento leste
a paisagem não esquece!

Feijão pedra
…………pedra
Ó homem de todo o ano
na teima
na teima que a vida dá
a teima é vida na vida (…)”
(JACINTO, 1985, p. 28)

E a homenagem a um dos mais combativos poetas cabo-verdianos na luta colonial em seu país, Ovídio Martins, e sua crença no ilhéu são celebrados por Jacinto:

Do chão de pedra
brotam pedras feitas casas

Das casas de pedra
os homens que são pedra
nascem

Das ilhas de pedra
os homens vão enluarar o mundo (…)

Até quando? Até quando?

Até quando os homens-pedra quiserem!” (JACINTO, 1985, p. 43)

Em “Tarrafal Interior”, a segunda parte, os poemas são incisivos na declaração à liberdade, ao sonho e na postura contrária ao confinamento. O caminho à independência angolana torna-se irreversível:

Nem a chuva dissolve estas pegadas
nem o tempo as tem sepultadas
remonta ao xisto a força da verdade
renasce o sol do teu seio – LIBERDADE
!” (JACINTO, 1985, p. 49)

As forças coloniais estão fragilizadas diante da determinação dos angolanos. A utopia por um país independente alimenta o eu lírico, que utiliza o fazer poético como arma contra o colonialismo em um consciente exercício metapoético:

Ó dragões de fauces sangrentas
Satãs triturando homens nos engranzos do ódio
entre o chão e as cardas das botas
procurais apagar uma a uma
as perenes chamas da esperança duma
murmura flor de sangue ou
duma poêmia imperecível

– digo-vos que sou perigoso quando
na força viril do meu verso
Espero!
” (JACINTO, 1985, p. 51)

Letras em sangue, o eu lírico fortalece a metalinguagem e enrijece a posição política em prol do ideal coletivo:

Pomos doiro são? Não são.
As palavras?
As palavras são carne
e esqueleto
e sangue
sobretudo isso – sangue
” (JACINTO, 1985, p. 52)

O persistente recurso à metalinguagem nos poemas de Jacinto é comentado pela professora Tania Macedo:

Vale ressaltar, todavia, que a metalinguagem ou a citação de outros poetas não atende a um mero exercício estético. Pelo contrário, encontramos a cada passo a expressão de uma profunda crença no humano, de forma que a poesia acaba por ser a parceira que ilumina os recantos escuros da cela, propiciando o brilho da esperança. Assim, verifica-se que a todo instante o lírico e o político se solidarizam na elaboração de uma produção liberta e libertadora – única possível de ser da poesia em nosso tempo (…).” (MACEDO, 2007, pp. 121-122)

Atento e participante na luta pela libertação angolana, Antonio Jacinto une lirismo e política em poemas de resistência à opressão colonial. Recorre a grandes nomes da literatura em língua portuguesa, tais como Manuel Bandeira e Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa), para expressar a sua dor. Logo, reivindica tudo aquilo que é negado ao seu povo.

Choramos autenticamente por nós próprios (coitados de nós!
Teremos mais precisão, Manuel Bandeira?)
Choramos autenticamente por nós próprios
(o Álvaro de Campos bem no sabia)
Choramos autenticamente por nós próprios inautênticos
que ficamos mais pobres
e nos sentimos lesados
por nossos direitos feridos
por nossos direitos de posse frustrados
por nossos direitos à proteção
por nossos direitos à amizade
por nossos direitos ao amor
por nossos direitos à presença
por nossos direitos a uma vingança
por tudo quanto queríamos de quem nos morreu
.” (JACINTO, 1985, p. 66)

Depreendemos que a poesia de Jacinto não aceita a ordem estabelecida. Questiona e enfrenta o poder vigente e tenta libertar-se de séculos de opressão. Segundo Alfredo Bosi:

A poesia resiste à falsa ordem, que é, a rigor, barbárie e caos, (…) Resiste ao contínuo ‘harmonioso’ pelo descontínuo gritante; resiste ao descontínuo gritante pelo contínuo harmonioso. Resiste aferrando-se à memória viva do passado; e resiste imaginando uma nova ordem que se recorta no horizonte da utopia.
Quer refazendo zonas sagradas que o sistema profana (o mito, o rito, o sonho, a infância, Eros); quer desfazendo o sentido do presente em nome de uma liberação futura, o ser da poesia contradiz o ser dos discursos correntes. (…)
A luta é, às vezes, subterrânea, abafada, mas tende a subir à tona da consciência e a acirrar-se porque crescem a olhos vistos as garras do domínio. (…)”
(BOSI, 1977, p. 146)

Em “O ritmo do tantã”, Jacinto dialoga com o poema “Quero ser tambor” de José Craveirinha, reafirma sua posição como africano, valoriza símbolos culturais locais e está sensível ao momento de libertação colonial em todo o continente africano, em um dos mais belos poemas do livro:

Eu também sou África
tenho o ritmo do tantã sobretudo
no que pensa
no que pensa
penso África, sinto África, digo África
” (JACINTO, 1985, p. 71)

Quando se encontra em momentos de desespero, chama a atenção dos companheiros de luta para não aceitarem a sua fraqueza, pois “é preciso frustrar o desânimo”. Jacinto recorre à poesia para demonstra sua indignação com a situação em que está e resiste:

Olho-me:
Serenamente
Morri.

Alguém morreu dentro de mim. (…)

Ó, vós, companheiros, ó irmãos, de vós espero
que não me acrediteis
se me virdes ir despido de esperança
em renúncia.

É preciso frustrar o desânimo!

Morri?

Mas eu vos acompanho
(a todo o tamanho)
que a vida de novo bate à porta
como importa:
– recado de ressureição
!” (JACINTO, 1985, p. 57-58)

De acordo com Alfredo Bosi, “a poesia há muito que não consegue integrar-se, feliz, nos discursos da sociedade” (BOSI, 1977, p. 143), e passa a servir como instrumento de resistência e denúncia às agruras sofridas. Mesmo encarcerado, isolado e distante dos seus pares angolanos que lutam na guerra colonial, o eu lírico não se omite, manifesta sua posição política, valoriza a união e luta com seus versos, a única arma a ser usada, na necessária mudança do mundo:

Nas tarefas da construção do mundo
Aqui estou de novo
………………..Unido
– Na procissão de vontades
Alavancas em aplicação comburente –
Aqui estou de novo
Presente!”
(JACINTO, 1985, p. 50)

Mesmo longe e trancafiado, o poeta tem a poesia. Com ela, resiste e participa da revolta contra o colonialismo. A função social de sua poesia e o comprometimento com a causa libertadora não o deixam afastado da luta. O que é expresso por Irene Guerra Marques ao introduzir o livro:

Alguém lhe acena e lhe estende amorosamente a mão. É a Poesia, a sua amiga de sempre. E o Homem, ergue-se, firme e resoluto. Lá longe, os seus poemas, ‘Carta de um contratado’, ‘Monamgaba’, estão nas fábricas, no musseque, no coração do Povo. Os seus companheiros esperam-no! Resistir! Viver para regressar!” (JACINTO, 1985, p. 10)

Em “Tarrafal lírico”, a última parte, o lirismo é predominante nos poemas. O eu lírico rebate a frieza e solidão do cárcere, canta o amor, os sonhos, a liberdade que haveria de se aproximar um dia:

Um sonho? Ah! Dá-me um sonho
Nesta noite de frio e medo:
– teus lábios junto dos meus
à espera que amanheça
!” (JACINTO, 1985, p. 83)

Antonio Jacinto legou à literatura angolana em “Sobreviver em Santiago de Tarrafal”, um livro em que transparece a crença no ser humano, na força da poesia como arma de luta contra o colonialismo português, do sofrimento do poeta projetando-se na dor coletiva de um povo por séculos de submissão e sonhos dilacerados. Acompanhamos o longo percurso de agonia do poeta, enclausurado e isolado enquanto seus companheiros combatiam as forças salazaristas em território angolano. E Jacinto, com a certeza de que a vitória viria, continuou a sua luta na prisão: escrevendo e reescrevendo poemas, reafirmando o seu desejo de liberdade e de libertação do país.

Antonio Jacinto foi o poeta e cidadão que se recusou a se entregar e perder o sonho em ver Angola independente.

Fonte
http://ricardoriso.blogspot.com/

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O paranaense A. A. de Assis gravado em Monumento

Haicai eternizado em monumento
Colaboração de José Marins

Para a inauguração do Parque do Japão, na cidade de Maringá (PR), foi solicitado ao poeta e haicaísta Antonio Augusto Assis (conhecido por a.a.de assis) um haicai, que foi gravado numa placa de metal fixada no monumento-marco daquele espaço cultural. No dia 22 de junho, Sua Alteza Imperial do Japão, o príncipe herdeiro Naruhito, realizou a inauguração como parte das comemorações do Centenário da Imigração Japonesa ao Brasil, descerrando a placa em sua homenagem. A respeito de ter seu haicai eternizado em placa, declarou Assis a José Marins: “Honra e glória para este pobre poetinha da roça…”

As flores da festa.
Cerejeiras centenárias
Em chão tropical.
(a.a.de assis)

Fonte:
http://www.kakinet.com/

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Alvaro Mariel Posselt (O Que é o Haikai)

Diante de um haikai, o leitor que desconhece sua forma e suas regras de composição poderá achar muito fácil ou muito simples compor um. Por mais que a simplicidade seja uma das ferramentas do poema japonês, compor um haikai requer não só satisfazer as suas regras, mas também resgatar a vivência de seu autor, na qual estava o “momento do haikai”, e isso implica em adquirir experiência com a prática freqüente (MARINS, 2007).

Segundo IURA (2007), para que um terceto (poema de três versos) possa ser chamado de haikai, é necessário atingir, em grau maior ou menor, uma ou mais características do haikai japonês, que são as seguintes: a forma, o corte e o kigo.

O corte (kire), que adiciona profundidade psicológica ao haikai, é a divisão do poema em duas partes, ou seja, dos três versos, o primeiro será a primeira parte e os dois últimos a outra, ou vice-versa. Estas partes deverão ter sentido completo. No ocidente, o corte pode ser representado por sinais de pontuação no final do primeiro ou do segundo verso. Porém, o uso de pontuação não é obrigatório (IURA, 2007). CLEMENT (2004), por sua vez, é mais enfática. Para ela, o uso da pontuação é realmente desnecessário, pois o haikai não é uma sentença.

Para MARINS (2004), independentemente do uso ou não, o que não pode ocorrer é o uso exagerado dos sinais de pontuação, a chamada poluição visual, pois o haikai é despojado, deve conter o mínimo de elementos. No máximo, o uso de um ponto de exclamação ou um ponto de interrogação (se for necessário), mas nunca os dois. Usa-se o travessão e evita-se o ponto-e-vírgula, a vírgula e as reticências.

Quanto às partes do haikai (MARINS, 2004), cada parte deve conter uma imagem que, quando justaposta uma com a outra, relacionam-se mentalmente, ou seja, que a conclusão fique por conta do leitor, pois quando isso não acontece o haikai se torna explicativo.

Para ilustrar essa característica, tomaremos como exemplo alguns haikais de autoria de José Marins, colhidos do seu livro – ainda a ser publicado – “Karumi”:

voam andorinhas –
na moldura da janela
uma tarde azul

—–
belas guabirobas
andaria muito mais
para ir buscá-las
.
Observamos que no primeiro haikai há um corte representado pelo travessão no final do primeiro verso. Isso nos permite entender que as andorinhas não estão voando na moldura da janela, mas que simplesmente as andorinhas voam. Há nesse verso um sentido completo, há uma imagem mental, portanto esta é a primeira parte. A segunda parte é representada pelos dois últimos versos, que também apresentam uma imagem mental e há um sentido completo.

No segundo haikai, não há a presença de sinal de pontuação por não haver necessidade, uma vez que o primeiro verso é uma frase única e, sendo assim, observamos que nesse verso há sentido completo, assim como nos dois últimos versos. Concluímos assim que em ambos os haikais há a divisão em duas metades, formadas por duas imagens justapostas que mentalmente fazem relação.

Para CAMPOS (1977) o haikai relaciona dois elementos básicos conforme as lições de Matsuo Basho: o primeiro é o da “permanência”, a “condição geral”, que está relacionada às estações do ano, e o segundo é o de “transformação”, a “percepção momentânea”. “A natureza dos elementos varia, mas deve haver dois pólos elétricos, entre os quais salte a centelha, para que o haicai se torne efetivo”, afirma Donald Keene apud CAMPOS (1977).

Para VIEIRA (1975), deve haver no haikai um descobrimento, uma revelação, uma visão peculiar, sutil, que seja intrinsecamente expressiva e não uma comunicação explicitada, ostensivamente sonora.

A segunda característica, conforme IURA (2007), é o kigo, que significa “palavra-de-estação”, mas como o termo em japonês é usado freqüentemente, opta-se por este. O kigo no haikai representa um termo ou palavra que indique a estação do ano em que este aconteceu e faça referência a ela. Há uma compreensão muito rica e muito sutil dos japoneses quanto à natureza, à passagem das estações. As plantas, os animais, as paisagens e algumas vivências humanas marcam essas transições das estações para o haicaísta.

Veremos em mais alguns haikais colhidos do livro de José Marins “Bico de João-de-barro”, este também ainda inédito, palavras ou termos que representam o kigo:

com as boas novas
o carteiro e sua mochila
os ipês floridos
——————

saudades e flores
no cemitério antigo
Dia de Finados
.
Podemos encontrar no haikai o kigo propriamente dito ou o referencial. Acima, nos dois haikais, temos dois kigo referenciais, ou seja, fazem referência à estação do ano. Conforme o clima do Brasil, os ipês florescem na primavera, portanto quando há no haikai a palavra “ipê”, sabemos que se trata de um haikai referente à primavera. “Dia de finados” (02/11), representa, para nós brasileiros, um kigo referente à primavera, pois neste dia estamos na referida estação.

Vejamos agora outros haikais do livro Bico de João-de-barro:

calor de verão
a trabalheira que dá
ter essa preguiça

———————
vento de outono
gari teima em varrer
folhas espalhadas
.
Como podemos observar, o kigo se apresenta nos haikais acima de forma explícita, através das palavras “verão” e “outono”.

H. Masuda Goga, mestre do haikai no Brasil, escreveu um livro, que na verdade trata-se de um dicionário de termos sazonais (kigo), chamado Natureza – berço do haicai, publicado em 1996, em parceria com Teruko Oda, que visa o uso correto do termo de estação.

A terceira característica do haikai, conforme IURI (2007), é a forma (teikei), que corresponde à estrutura física do haikai, os três versos. No haikai japonês, a forma corresponde a dezessete sons. No haikai brasileiro, ela se refere a dezessete sílabas poéticas, distribuídas em cinco sílabas poéticas no primeiro verso, sete no segundo e cinco no terceiro, sem rimas e sem título. Vale ressaltar que na língua portuguesa as sílabas poéticas correspondem a sons na pronúncia das palavras.

Novamente tomamos como exemplo os haikais de Marins do já citado livro “Karumi”:

um se-re-no len-to
1 2 3 4 5

al-gu-mas re-cor-da-ções
1 2 3 4 5 6 7

mo-lham mi-nha fa-ce
1 2 3 4 5

A contagem de sílabas poéticas (escansão) difere da contagem de sílabas gramaticais (separação de sílabas das palavras). Na contagem poética, contamos os sons, ou seja, se houver um encontro vocálico de palavras diferentes (elisão), consideramos apenas uma sílaba, um som. A contagem de sílabas poéticas vai até a última sílaba tônica do verso, a de maior intensidade.

No haikai japonês, como já dissemos, são contados os sons até a última sílaba do poema. Se considerássemos essa contagem no haikai acima, teríamos o esquema 6-7-6. Mas observamos que este haikai está de acordo com a forma clássica do Brasil (consagrada nas gramáticas, no capítulo da Versificação).

Agora veremos um haikai de José Marins em que a elisão está presente (livro “Bico de João-de-barro”):

a pi-pa se e-le-va
1 2 3 4 5

so-bre ca-be-ças e ri-sos
1 2 3 4 5 6 7

um fi-lho e seu pai
1 2 3 4 5

Notamos neste haikai que há a presença da elisão no primeiro verso (se+e = see = um som) e no terceiro verso (lho+e = lhoe = um som), resultando, mesmo assim, no esquema 5-7-5.

Outras características do haikai são abordadas por MARINS (2004). Como o haikai é um poema que descreve, registra a cena vivida pelo seu autor, é simples e direto. O tempo usado deve ser o presente (o que acontece), e não o gerúndio (o que está acontecendo). Usa-se uma linguagem simples com palavras de fácil compreensão, referente às coisas comuns. Exemplo:

a pipa se elevando
sobre cabeças e risos
pai rindo do filho

ERRADO
———–
a pipa se eleva
sobre cabeças e risos
um filho e seu pai
CERTO
.
O antropomorfismo (personificação de seres inanimados ou animais) é totalmente descartado e o uso dos adjetivos deve ser cauteloso (MARINS, 2004). Exemplo:

sobre o telhado
está triste o pombo solitário
manhã de inverno
ERRADO

Outros cuidados quanto às partes do haikai devem ser tomados. Não fazê-lo em uma parte, pois conforme já falamos, pode torná-lo explicativo. Não fazê-lo em três partes, o que é denominado de “haikai prateleira” (MARINS, 2004). Exemplos:

muro caiado 1ª. parte
bougainville vermelho 2ª. parte
um portão azul 3ª. parte
ERRADO: Típico haikai prateleira

um sabiá
refresca-se com um banho
na poça d’água
ERRADO: haikai feito em uma única parte se torna explicativo e muito óbvio.

Para concluir, MARINS (2004) orienta que deve haver cuidado com o uso de advérbios, locuções adverbiais e as interjeições (ah!, oh!), pois estão em desuso.

Conforme os estudos que fizemos neste capítulo, podemos sintetizar as características do haikai clássico do Brasil e os cuidados para com sua composição da seguinte forma:

* Poema de origem japonesa composto de três versos.
* Deve possuir o corte (kire) que o divide em duas partes, com o uso da pontuação ou não.
* Evita-se usar mais do que um sinal de pontuação (poluição visual).
* Deve ter um kigo.
* Sua forma (teikei) é composta de 17 sílabas poéticas (5-7-5).
* A natureza é o tema principal.
* É composto no tempo presente e não se usa o gerúndio.
* Usa-se linguagem simples e de fácil compreensão.
* Não intelectualizá-lo.
* O antropomorfismo deve ser descartado.
* Cuidado com o uso de adjetivos.
* Fazê-lo em duas partes, evitar fazer em uma ou três partes.
* Cuidado com o uso de advérbios, locuções adverbiais e interjeições.

Segundo SUZUKI (1977), no século XVIII surgiu uma variante do haikai que teve como representante máximo Karai Sênriu (1718-1790). Trata-se de um estilo que usa no haikai uma linguagem corrente e satírica, mas que acabou tendendo para o medíocre e decaiu. Chamamos um haikai cômico de sênriu (senryu). Os exemplos abaixo são de José Marins, extraídos do livro “Coleção Aprendizes Paranaenses”, (2003):

Pôr-me um sorriso
E redesenhar o rosto
Terei visitas
———————-

Falava de amor
O casal na madrugada
O apito do trem
.
Fontes:
POSSELT, Alvaro Maciel. O Haikai em sala de aula, Curitiba: Universidade Tuiuti do Paraná, junho de 2007. In
http://www.autores.com.br/
Quadro com Haikai:
http://marisocas.blogs.sapo.pt

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Rosa Clement (O Haicai e a Poesia)

Há quem diga que haicai é poesia e há quem diga também que não é. Entretanto, considerando a tendência ocidental de definir haicai como “um poema de origem japonesa composto de três linhas com 5-7-5 sílabas métricas, respectivamente”, podemos perceber que os próprios termos da definição já avisam ao leitor da estreita relação do haicai com a poesia. Talvez pela natureza dessa definição, muitos haicais apresentam um aspecto mais descritivo do que poético e, por esse motivo, sentimos que falta em suas linhas uma carga de energia própria da poesia, como Ezra Pond tem observado em “A arte da poesia”, ao compará-la com a prosa. Escrever um haicai que preserve seu conceito e ainda mostre beleza poética pode exigir do escritor uma maior habilidade e conscientização das idéias envolvidas.

Segundo o dicionário Aurélio, poesia é tudo isso: arte de escrever em verso; composição poética de pequena extensão; entusiasmo criador; inspiração; aquilo que desperta o sentimento do belo; o que há de elevado ou comovente nas pessoas ou nas coisas; encanto, graça, atrativo. Quanto ao haicai, não consta em suas regras uma que o impeça de transmitir um senso poético em seu conjunto de palavras. Um estudo organizado em 2002 pelo ex-editor da revista americana “Modern Haiku”, Robert Spiess (1921-2002),, conclui que “haicai é poesia marcada por brevidade, realidade, natureza/sazonalidade, duração de um momento, percepção e intuição”. Para o principal estudioso haicaista brasileiro, H. Masuda Goga (1911), haicai é “poesia de características universais e adapta-se a qualquer cultura do mundo”. Vale mencionar, no entanto, que nem todo poeta é haicaísta, mas todo haicaísta pode ter um poeta dentro de si. Seja como for, é com ele que tiramos nossas conclusões sobre o que vem a ser haicai.

Ao lermos um haicai, podemos perceber a tendência do autor para a descrição de uma cena e a inclusão de uma sensação a ser absorvida pelo leitor — o chamado “momento”. Nesse sentido, a fórmula do conceito, tantas vezes repetida e aplicada, parece soar nos ouvidos com uma certa rigidez. A impressão que temos é a de que falta nesses poemas a maleabilidade das palavras própria da poesia. Certamente, escrever um haicai sem o auxílio de métaforas, símiles e animismos, e ainda fazer com que a poesia seja realçada, faz com que os limites de nossa criatividade sejam postos á prova. Nem todo poema, no entanto, precisa fazer uso desses artifícios para expressar o belo, mas mostrar o novo, o único, o ainda não dito, mesmo que tudo o que escrevemos seja uma cópia de algo já existente.

Fazendo uma releitura de alguns haicais de Basho (1644-1694), Buson (1716-1783), Issa (1763-1827) e Chiyo-ni (1703-1775), assim como de um ou outro haicaista moderno, é possível perceber que aqueles haicais que incluem um tom mais poético parecem transmitir maior vivacidade e maior intensidade de expressão, deixando sua mensagem mais duradoura na mente do leitor. Para exemplificar nosso pensamento, vejamos primeiro alguns haicais que soam principalmente como uma declaração ou uma afirmativa de uma observação ou acontecimento, como esse de Basho:

“Autumn moonlight—
a worm digs silently
into the chestnut.”

(In: The Essential Haiku, 1994)

Lua de outono—
uma minhoca cava silenciosamente
dentro da castanha

Esse é um belo haicai — afinal é de Basho! A presença da poesia é muito sutil, considerando que o haicai se limita a descrever uma imagem na forma como ela acontece e incluir um momento de percepção. A leitura parece mais séria, mais formal quando a frase se apresenta tão bem construída sintaticamente como essa. Segue outro exemplo, desta vez, um haicai de Buson.

Winter bareness—
little birds seeking food
in the patch of green onions
.”
(In: Haiku Master Buson, 1978)

Aridez do inverno—
passarinhos buscando comida
no canteiro de cebolinhas
.

Como Basho, Buson estabelece a cena de forma descritiva, embora a segunda frase apresente um gerúndio em ambas as versões, o que, segundo os críticos, é preferível evitar. Mas o haicai descritivo também é muito comum entre escritores modernos, como esse de Alan Pizzarelli:

in the stream
a shopping car
fills with leaves

(In: Haiku Moment, 1993)

na correnteza
um carro de compras
enche-se com folhas

ou como esse bem brasileiro de Yara Shimada:

Primavera se vai
Busco um lugar mais fresco
para as orquideas…”

(In: http://www.nippobrasil.com.br/zashi/haicai.html).

Por outro lado, podemos encontrar haicais onde a poesia desponta de forma menos sutil. O seguinte haicai, também de Basho, mostra uma outra maneira de escrever e descrever uma imagem, permitindo uma maior flexibilidade e visualização do haicai de forma mais leve e mais poética.

I don´t know
which tree it comes from,
that fragrance.”
(In: The Essential Haiku, 1994)

Não sei
de qual árvore vem,
aquela fragrância.

Os haicais de Issa são bons exemplos de haicais que contém essa suavidade poética:

Don´t worry, spiders,
I keep house
casually.”
(In: The Essential Haiku, 1994)

Não se preocupem, aranhas,
Eu limpo a casa
casualmente.

A huge frog and I,
staring at each other,
neither of us moves
.”
(In: The Essential Haiku, 1994)

Um enorme sapo e eu,
olhando um ao outro,
nenhum de nós se mexe
.

É frequente encontrar uma afinidade poética nos haicais de Chiyo-ni, uma das mais brilhantes escritoras japonesas de haicai:

To the one breaking it —
the fragrance
of the plum.”

(In: http://neca.tripod.com/haiku.htm)

Para aquele que a quebra
a fragrância
da ameixa

ou ainda:

The morning glory!
It has taken the well bucket
I must ask elsewhere for water.”
(In: http://www.ancientworlds.net/aw/Post/193290)

A corriola!
Tomou conta do balde do poço
Devo pedir água em outro lugar.

A flor “morning glory” tem um papel importante nos poemas em inglês, pois pode expressar também a idéia de uma “manhã gloriosa”. Infelizmente esse sentido se perde quando traduzido para o português, como corriola. Seguem mais dois exemplos por Masuda Goga e de minha autoria, respectivamente.

À noite… sozinho…
me deixam mais pensativo
os cantos de insetos

(In: http://www.kakinet.com/caqui/goga.shtml)

“a velha ponte
os pássaros e eu
já amigos”

Com base no exposto, vemos que a tendência do haicai é ser escrito em forma declarativa ou descritiva, mas injetar uma dose de poesia em suas linhas só enriquece sua leitura. Seja como for, a beleza da cena e a sensação do momento devem estar presente para que um poema possa ser chamado de haicai. Não há dúvida que a poesia produz um efeito mais flexível e, portanto, mais gracioso nessa forma de arte tão pequenina. É preciso concordar que escrever um haicai que apresente traços poéticos não é uma tarefa fácil e, sendo assim, é provável que a maioria dos haicais ainda por serem escritos continuarão mantendo algum rigor descritivo devido à sua própria definição, que criou um hábito em seus escritores. Raciocinando sob este ponto de vista, podemos afirmar que haicai é mais do que apenas um registro, pois nada o impede de incluir em suas linhas uma energia poética que o transforme em poesia.

Obs.: Os haicais foram traduzidos para o português pela autora.

Fonte:
http://www.sumauma.net/
Desenho: http://www.motonline.com.br/

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Alvaro Mariel Posselt (O Haikai no Paraná)

[pesquisa de José Marins]

No Brasil, o haikai começou a ser difundido na primeira e na segunda décadas do século XX, a partir da imigração japonesa e de Afrânio Peixoto. No Paraná, segundo MARINS (2004), no ensaio ‘Helena Kolody, pioneira do haicai’, (2004), os primeiros intercâmbios aparecem no final da década de 30, através do contato entre Fanny Luíza Dupré e Helena Kolody (1912-2004), por meio de correspondências, indicações de leitura e até de uma possível visita de Fanny à Helena, conforme o registro de Dupré no haikai de Pétalas ao Vento, na página 89 (MARINS, 2004):

Pinheirais augustos.
Curitiba. Paraná…
Vestidos de verde.

Há ainda, na página 45, um haikai dedicado à Helena (MARINS, 2004):

Vastos pinheirais!
É clara noite de lua…
Mais abaixo, o mar!

Dupré, que era ligada ao seleto grupo dos iniciadores de haikai no Brasil, especialmente a Jorge Fonseca Júnior, também era amiga e orientadora de Helena e, por estes vínculos, transmitiu informações e esclarecimentos à amiga paranaense sobre o poema japonês. Não demorou muito para que Helena Kolody começasse a compor seus próprios haikais.

Com o lançamento de seu primeiro livro Paisagem Interior, em 1941, contendo três haikais, Helena passa a ser a pioneira do haikai no Paraná, assim como a primeira mulher a publicar haikais em livro no Brasil, fato que só acontecerá à Fanny em 1949.

Em 1945, Helena Kolody publica seu segundo livro, Música Submersa (MARINS, 2004). Entre os poemas, encontra-se o famoso haikai Pereira em flor (KAMITA, 2000):

De grinalda branca,
toda vestida de luar,
a pereira sonha .

Durante muito tempo, a relação entre Helena e o haikai ficou um pouco distante. Estreitou-se novamente quando conheceu Paulo Leminski (1944-1989), em meados da década de 60, como vizinhos do Edifício São Bernardo. O poeta curitibano elogiou os seus haikais e isso trouxe a ela um novo ânimo: “Só voltei ao haikai quando o Paulo Leminski descobriu-me como a primeira pessoa a fazer haikai no Paraná” (MARINS, 2004).

A partir de então, ambos vão trocar informações sobre o haikai. Leminski vai mais longe ainda, chegando até a aprender japonês para mergulhar no espírito da língua e na cultura oriental. Da troca de elogios entre eles, Helena diz que Leminski é “o verdadeiro haicaísta”, “seus haikais foram tão autênticos”, e Paulo retribui, “Padroeira da poesia”, “Santa Helena Kolody”. A respeito de livro Sempre Palavra, Leminski disse, “inclui uns quarenta pequenos poemas. Mas tem luz bastante para iluminar esta cidade por todo um ano“, “Nossa padroeira é a poeta mais moderna de Curitiba” e “Tem certas manhãs azuis em Curitiba, mas tão azuis, tão azuis, que eu tenho certeza: Helena Kolody acordou cedo e olha por todos nós” (MARINS, 2004). É deste livro o haikai Gestação (MARINS, 2004):

Do longo sono secreto
na entranha escura da terra,
o carbono acorda diamante.

Helena se tornou um mito, dentre antologias, trilogias, poesias completas e escolhidas, tem mais de vinte livros publicados. Sua obra foi objeto de estudo em várias teses de mestrado. Recebeu da Comunidade Nipo-Brasileira de Curitiba a Outorga de nome haicaísta Reika. Foi homenageada pela Feira do Poeta de Curitiba e recebeu o título de Cidadã Honorária de Curitiba e de Doutora Honoris Causa, pela Universidade Federal do Paraná. Tornou-se patronesse das cadeiras do Centro Paranaense Feminino de Cultura e foi eleita para a Academia Paranaense de Letras. Entre tantas outras homenagens, participou de um filme dirigido pelo cineasta Sylvio Back, A Babel de luz, em homenagem aos 80 anos da poetiza, que ganhou o prêmio de melhor curta e melhor montagem no 25º. Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (MARINS, 2004).
.

Conforme a pesquisa ainda inédita “A História do Haicai no Paraná”, realizada por José Marins (MARINS, 2007), existem, no Paraná, mais de cento e quarenta autores de haikais e cinco tendências ou vertentes. Para ele, é difícil aceitar algumas produções como poemas do tipo haikai, pois acha que há um grande equívoco sobre o conceito de haikai para alguns autores. Nem todo terceto é um haikai. Alguns escritores escrevem apenas tercetos que denominam de haikai, permanecendo o equívoco literário.

Há várias características para que um terceto se torne um haikai, o que chamamos neste trabalho de haikai clássico no Brasil. Por causa da conversão cultural, da interpretação e da tradução, o haiku perde um pouco de suas propriedades, mas a sua essência é mantida no haikai, e como já dissemos, a língua portuguesa foi contemplada graças a Goga.

As vertentes constatadas por MARINS (2007) são as seguintes:

1) Japonesa: ocorre dentro da colônia nipônica, onde a produção do haikai é feita em língua japonesa.

Seus principais representantes são os seguidores de Nenpuko Sato, principalmente no norte do Paraná.

2) Kolodyana: as características desta vertente consagrada por Helena Kolody são:
• Usam títulos;
• Às vezes usam rimas;
• Às vezes usam a métrica;
• Personificam os seres da natureza;
• Muitos de seus haikais são em uma frase só (em uma parte);
• Usam uma linguagem muito poética.

Os poetas que se destacam são Helena Kolody, Delores Pires, Diva Ferreira Gomes e João Manuel Simões.

3) Guilhermina:
• Usam rimas no primeiro verso com o terceiro e no segundo verso, rimam a segunda sílaba com a sétima;
• Usam títulos.

Duas poetizas se destacam nessa linha: Leonilda Hilgenberg Justus e Shirley Queiroz.

4) Haikai livre:
• Não usam a métrica;
• Às vezes usam a rima;
• Quase não usam o kigo;
• Usam a ironia e o senso de humor;
• Deve haver o haimi (o sabor, cheiro, toque ou imagem de um haikai);
• Deve haver o ponto e contraponto, o permanente e o provisório unidos no mesmo poema.

Dessa vertente, os nomes principais são: Paulo Leminski, Alice Ruiz, Domingos Pelegrini, José Marins e Eduardo Hoffman.

5) Haikai clássico.

Nessa forma, os poetas que mais se destacam são: Delores Pires, José Marins, Sérgio Francisco Pichorim e Neide Rocha Portugal.

Fontes:
POSSELT, Alvaro Mariel. O Haikai em Sala de Aula. TCC. Curitiba: Universidade Tuiuti do Paraná. junho de 2007. In
http://www.autores.com.br/
Fotomontagem: José Feldman

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Haikais premiados em Concursos

Pé d’água na serra.
Sob a quaresmeira em flor,
berram os cabritos.
Franklin Magalhães – Mesquita, RJ

Cachorro vadio
À sombra da quaresmeira
Dorme sobre flores.
Antonio Moreira Marques – Contagem, MG

Mausoléu antigo —
Pétalas da quaresmeira
Pousam nos Kanjis.
Neide Maria Rocha Portugal – Bandeirantes, SP

Parque dos meninos
Limo e sombras sobre as pedras
Sabiá em silêncio.
Carlos Roque Barbosa de Jesus – Cubatão, SP

Pausa pro descanso —
Na sombra da quaresmeira
Almoço dos garis.
João Toloi – Guarulhos, SP

Inda faz escuro.
Sabiás afinam o canto
à espera do sol.
Cyro Mascarenhas Rodrigues – Brasília, DF

Bem perto de mim,
O canto do sabiá —
Janela enfeitada.
Clície Maria Angélica Pontes – São Paulo, SP

Descida da serra.
Enfeita o retrovisor
flor de quaresmeira.
Lúcia Helena Martins Gonçalves – Mogi das Cruzes, SP

No meio da aula,
canto livre dos sabiás
distrai os alunos.
Renata Paccola – São Paulo, SP

Entre as laranjeiras,
anunciando o alvorecer,
Canta o sabiá.
Alberto Murata – São Paulo, SP

Seguram a enxada
As mãos que escrevem haicais —
Chuva criadeira
Neiva Maria Pavesi (SP)

Mar de Primavera
O velho cochicha o nome
de Urashima Taro
Eduard Tara(Romênia)

Solzinho de inverno
Usando todo o sofá
Os gatos se espicham
Luiza Nelma Fillus (PR)

No ventre da terra
Repousa o velho imigrante
Cala-se a cigarra
Neiva Maria Pavesi (SP)

Haicai: Compondo haicais ­
Pesquisa sobre Nempuku
Em noite alongada
Benedita Silva de Azevedo (RJ)

De todos os lados
O grito das maritacas
E o frescor da tarde
Paulo Franchetti (SP)

Tarde de verão —
Saltitanto sobre poças,
Um gato passeia
Rosane Marta Zanini (PR)

Início de outono.
Nuvens passam devagar
no azul da lagoa.
José Marins (PR)

Neste breve instante
O vento carrega a chuva.
Cafezal em flor.
Andréa Motta Paredes (PR)

Mesmo com a chuva
Passarada em alvoroço
Pêssegos maduros.
Tereza Delong (PR)

O amor foi embora.
E na festa Tanabata
Um novo pedido…
Analice Feitoza

No dia da festa
Também sonho um encontro
Ah! Vega e Altair!
Eunice Arruda

Bem devagarinho
Mãos trêmulas e manchadas
Amarram Tanzaku.
Neide Rocha Portugal

Meu olhar errante
No Festival das estrelas.
De repente, o príncipe.
Zuleika dos Reis

Solteirona lança
Em tanzaku cor-de-rosa.
Sua última cartada.
Alberto Murata

Fonte:
http://www.kakinet.com/

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Alvaro Mariel Posselt (José Marins – Um haicaísta paranaense)

José Marins é paranaense de Jandaia do Sul, mas se criou em Umuarama, noroeste do estado. Veio para Curitiba quando tinha 18 anos e mora na cidade há 35 anos. “Curitibanizou-se”, criou raízes e asas, onde das asas só possui agora o coto, pois diz ser uma pessoa caseira, um provinciano que não gosta da metropolização de Curitiba e se sente esmagado pela explosão demográfica, porém, brinca o haicaísta, busca o universo em sua aldeia. É casado com uma curitibana e tem um filho.

Formou-se em Psicologia Clínica pela UFPR, é psicoterapeuta de profissão, fez duas pós-graduações, em Educação e Antropologia e Mestrado pela UFPR (a biblioteca da UFPR e a Divisão de Documentação Paranaense da BPP têm exemplares de sua Dissertação de Mestrado). Desistiu da carreira acadêmica. Tem licença de jornalista e editor por trabalhos anteriores nestas áreas. Atualmente busca a Literatura como um caminho de desafios, desafios estes que o estimulam a prosseguir. É um autodidata dedicado, gosta de estudar e de praticar o que aprende.

Seu primeiro contato com a poesia foi logo aos 10 anos de idade, em 1963. Ele não conseguira gostar de nada do que lera nos livros escolares, até que nessa época leu uma crônica de Paulo Mendes Campos na Revista Manchete e nunca mais foi o mesmo, descobriu a verdadeira função poética da linguagem escrita. A prosa poética de Campos tocou-o: “então é possível a beleza com a escrita”, lembra-se. Feliz foi a sua descoberta, acabou lendo todas as crônicas de Paulo Mendes que foram publicadas naquela revista.

MARINS (2007) lamenta que nunca teve bons professores de Português, que nunca esteve numa escola que tivesse uma biblioteca. Em casa também não tinha livros, mas mesmo assim ele lia bastante, o que aparecia pela frente ele lia, os gibis também fizeram parte de sua leitura, mesmo sob as broncas de seu pai.

Nos anos 70, passou a ler e escrever poesias. Lia um caderno literário que saía todos os sábados no Correio do Povo, de Porto Alegre, não perdia um. Nesse caderno, dois poetas muito diferentes um do outro chamaram a atenção de Marins: Mário Quintana e Carlos Nejar. Este por ter uma poesia carregada de metáforas, que dá voz à condição humana e reflexiva e aquele pelo bom humor, simplicidade e por ser o mestre da alegria na poesia, seu mestre, comenta. Além de ler ainda hoje estes poetas, em especial Nejar, do qual já leu todo a sua obra, dedicou a este o seu livro “Fazendo o Dia”.

Escrevia em cadernos tudo o que lhe vinha à mente, poemas, contos, crônicas. Porém, perdeu tudo em uma de suas mudanças quando morava em uma pensão de estudantes. Escreveu durante dois anos em um jornal da capital, tinha a sua própria coluna dentro de uma página literária coordenada pela Juril Carnascialli. Passou a freqüentar a Feira do Poeta.

Chegaram os anos 80, que Marins chama de “leminskianos”. Fez amizade com Paulo Leminski e muitos outros poetas: Geraldo Magela, Delores Pires, Eduardo Hoffmann, Alice Ruiz, Rollo, Regina Bostolim, Josely Viana Baptista, Fernando Karl, entre outros. Publicou várias antologias das quais destaca a primeira: Primeiro Ato, pela Editora Beija flor. Trata-se de uma antologia de poetas universitários, organizada por Josely Viana Baptista.

Quando mostrou o seu primeiro livro para o Leminski, ouviu do poeta: “esses tercetos seus bem que poderiam ser haikais, você leva jeito para o haikai”. A partir daí, Marins procurou estudar tudo o que encontrava sobre o haikai. Leu Paulo, Alice, Delores. Não havia internet na época e era difícil obter informações e ler os bons poetas do haikai.

Publicou, em 1985, o livro “Poezen”, com 88 haikais livres, bem ao estilo de Leminski, seu principal orientador. Paulo gostou tanto dos livros que escreveu no jornal Correio de Notícias, onde fazia crônicas semanais, que os livros “Poezen” e “Fazendo o dia” haviam sido o que de melhor se havia publicado naquele ano.

Com a morte de Leminski, em 07 de junho de 1989, o maior balde de água fria que o movimento poético de Curitiba já recebeu, tudo se arrefeceu, todos se paralisaram. Uma nova geração surgiu, agora com outra mentalidade, outra práxis. Marins só vai retomar seu caminho com o haikai algum tempo depois, desta vez com o pessoal do Grêmio Haicai Ipê, de São Paulo, através da lista Haikai-I, na internet.

Em 2005, com a parceria do haicaísta Sérgio Francisco Pichorim, publicaram o renga duplo Pinha Pinhão, Pinhão Pinheiro, e já têm, ainda inédito, mais dois rengas prontos para publicação com 200 estrofes cada.

MARINS (2007) publicou ainda um livro infantil, “Monalisa, a conchinha sabida”, pela Araucária Cultural. Produziu mais dois livros de haikais: ”Karumi”, com 100 haikais; “Bico de João-de-barro”, também com 100 haikais; “Das trincas coração”, com 140 tercetos; “Haibun”, com 40 haibuns (pequenos textos em prosa poética seguidos de um haikai; “O dia do porco”, um romance; “Memórias de vidro”, contos. Possui ainda 10 histórias para crianças e uma alentada pesquisa sobre o Haikai no Paraná ainda não finalizada. Diante de tanto material inédito, o escritor lamenta a falta de uma editora para bancá-lo.

Fez ainda um detalhado e longo ensaio sobre a vida haicaísta de Helena Kolody, a pioneira do haikai no Paraná, na internet (http://www.kakinet.com/).

Nos últimos três anos, tem colaborado com a Biblioteca Pública do Paraná, onde é membro da Oficina Permanente de Poesia e ministra aulas sobre a poesia de autores paranaenses e faz oficinas e palestras sobre temas literários. Faz parte também do Centro de Letras do Paraná.

Apesar de já ter mais de vinte anos de experiência com o haikai, Marins ainda se considera um aprendiz da arte do haikai, pois, apesar de possuir uma forma fácil, o aprendizado da arte do haikai se dá através de uma longa caminhada.A implicatura não está somente nos aspectos formais do poema, mas, sobretudo, numa atitude poética perante a natureza e os acontecimentos humanos, onde outros aspectos como a vivência, a observação, o treino da percepção, a notação, o uso dos sentidos, a memória, a valorização do instante, a escolha do momento e o recorte da cena haicaística são muito importantes para o amadurecimento do haicaísta. Quanto mais se aprende do haikai, melhor poeta se torna, e é neste sentido que José Marins se insere e sempre está em busca de novas informações e conhecimentos (MARINS, 2007).

Sua fonte está no dia-a-dia, pois para ele, o haikai se apresenta a toda hora, todo momento e as sensações podem captar várias imagens de acordo com esse momento. Quando passara por uma rua, há um ano mais ou menos, MARINS (2007) captara a seguinte imagem no haikai que tanto gosta:

Azul infinito
róseas flores de paineira
caídas na calçada

Em uma recente passagem pela mesma rua, a percepção que teve agora foi outra:

Há pouco choveu
sobre o preto do asfalto
flores de paineira

Exposto a um momento de contemplação, o haicaísta captura o haikai. Para esse momento, não há hora marcada. Segundo MARINS (2007), quando perguntado sobre o que era preciso para ser um haijin (poeta do haikai), o “nosso” mestre de haikai no Brasil, H. Masuda Goga, retirou do bolso uma caderneta e uma caneta e disse: “É preciso isso!” (MARINS, 2007).

O haikai é o que acontece no momento, representa a simplicidade, a contemplação, a compreensão da mutabilidade das coisas do mundo, a visão do mundo como poesia e o amor à natureza e ao cosmo. O haicaísta precisa despojar-se das complicações intelectuais, brincar com a palavra e ter uma linguagem para se expressar. O que Marins gosta é desse realismo no poema, do enorme espaço que se tem para criar com ele. O realismo é a objetividade que recusa a subjetividade, o sentimentalismo, o uso inadvertido da metáfora e a inconveniência da personificação e do antropomorfismo no haikai. Busca-se na captação da cena, na retratação e no flash a fidelidade do poeta quanto à sua vivência, e essa percepção deve ser mantida na escrita, no uso da linguagem sem os artifícios literários (MARINS, 2007).

Certa vez, após dar explicações a respeito da importância da vivência do poeta na realização do haikai, uma pessoa disse para Marins que ele jamais poderia fazer um haikai a respeito do Monte Fuji, famosa montanha do Japão. Passado algum tempo e eis o que lhe ocorreu (MARINS, 2007):

O cimo gelado
da alta montanha vulcânica
vista de folhinha

Mesmo através de uma folhinha (calendário), que é uma tradição bem brasileira, pode-se capturar o momento (MARINS, 2007).

Além da retratação do momento, do instante da percepção, da captura do detalhe na cena haicaísta que dá ao poeta a dimensão da realidade, outro quesito importante da objetividade para MARINS (2007) é a presença do kigo, palavra pela qual se possa reconhecer a estação do ano em que o haikai foi realizado. No haikai acima, temos como exemplo de kigo a palavra “folhinha”, que se refere ao verão. Além disso, o poema precisa ser feito em duas partes dentro dos três versos, ter o kire (corte), ter a métrica de 5-7-5 sílabas poéticas, não ter título e nem rima.

Essas características se referem à forma clássica brasileira, que busca conservar uma proximidade com o original japonês. Apesar dos desafios encontrados na adaptação do haikai, MARINS (2007) acha que isso é feito com um certo rigor, pois foram os próprios japoneses que aclimataram o haikai clássico no Brasil e é essa escola que ele segue. Cita Goga, que afirma que “o haicai é uma forma universal, pode ser aprendida e praticada em qualquer língua” (MARINS, 2007).

Apesar de seguir a escola clássica, Marins também gosta dos haikais livres. Seu livro Poezen é feito deles. Outro estilo que gosta é do guilhermino. Suas influências são os bons haicaístas. Gostaria de escrever como Onitsura, Issa e Basho; ter o conhecimento do Paulo Franchetti; a pureza de Edson Kenji Iura; a simplicidade de Goga; a amplitude do manejo técnico da Rosa Clement (MARINS, 2007).

Quanto aos “fazedores” de haikai, aqueles que cultivam há anos os mesmos erros e vícios e nunca mudam, além de evitá-los, MARINS (2007) não os cita por não considerá-los haijins. Ele deixa bem claro que “no haikai, cada poeta tem que encontrar o seu caminho, ter o seu modo próprio de realizar o haikai”. Ele vem construindo o jeito dele de escrever. “Quem sabe já nem tenha mais influência” (MARINS, 2007).

Trabalhos de José Marins (MARINS, 2007):

– Fazendo o dia (poemas), Curitiba, Araucária Cultural, 1985;
– Poezen (haikais), Curitiba, Araucária Cultural, 1985;
– Monalisa: a conchinha sabida (infantil), Ctba. Araucária Cutural, 1989;
– Pinha-pinhão pinhão-pinheiro (haikais encadeados) em parceria com Sérgio F.
Pichorim, Curitiba, Araucária Cultural, 2004;
– Karumi (100 haikais) inédito;
– Bico de João-de-barro (100 haikais) inédito;
– Das trincas coração (tercetos) inédito;
– Memórias de vidro (contos) inédito;
– O dia do porco (romance) inédito;
– Haibun (haibuns) inédito.

Como editor:
– Fazendo o Dia (poemas), José Marins.
– Poezen (haikais livres), José Marins.
– Ciclo da Lua (poemas), Maria do Rocio.
– Canto de Sabiá (haikais), Benedita Azevedo.
– Praia do Anil (haikais), Benedita Azevedo.
– Jardim de Lembranças (haikais), Alice Arns.
– Pinha Pinhão, Pinhão Pinheiro (renga), José Marins e Sérgio F. Pichorim.
– Che Paraná Porá (haikais), Sérgio Francisco Pichorim.
– Nó de Laço (poemas) Consolação Buzelin.

As antologias realizadas foram as seguintes:
– Primeiro Ato. Curitiba, 1979, Editora Beija-flor.
– Segundo Ato. Curitiba, 1980, Ed. Beija-flor.
– Prêmio Scortecci de Poesia 82. São Paulo, Editora Scortecci, 1982.
– 4a Noite da Poesia Paranaense. Curitiba, Teatro Guaíra, 1983.
– Coletânea de Poesias. Curitiba, Casa do Poeta do Paraná, 1983.
– A Nova Poesia Brasileira. Rio de Janeiro, Shogun Arte, 1983.
– Primeiros Tempos. III Festival de Poesia, Ibiporã, 1985.
– Poetas na Praça. Curitiba, Feira do Poeta/FCC, 1985.
– 3o. Concurso de Poesias. S. Bernardo do Campo, SECE, 1985.
– Oficina de Poesia Roza de Oliveira. Curitiba, Oficina de Poesia, 2003.

Seus trabalhos realizados na internet são os seguintes:
a) Revista Brasileira de Haikai – caqui
– Ensaio sobre Helena Kolody pioneira do haikai.
http://kakinet.com/caqui/kolody.php
– Alguns haikais (rolar até ‘josé marins’)
http://www.kakinet.com/graffiti/
b) Sumauma (site especializado em haikai):
http://www.sumauma.net/haijins/haicai-marins.html
c) Universo do Haikai
– haikais:
http://universodohaicai.vilabol.uol.com.br/jmarins.htm
– renga (Cão Sonolento):
http://universodohaicai.vilabol.uol.com.br/umrengaespecial.html
(ver em Comentário Geral)
– entrevista (bate-papo sobre haikai):
http://universodohaicai.vilabol.uol.com.br/entrevistajosemarins.html
d) Vales dos Haikais:
http://www.haicai.com.br/index02.htm
e) Germina Literatura
http://www.germinaliteratura.com.br/haicais_junjm.htm
f) Jornal de Poesia
(Constam: poemas, haikais, tercetos e dois haibuns):
http://www.jornaldepoesia.jor.br/josemarins.html

================================
Fontes:
Alvaro Mariel Posselt In Recanto das Letras em 26/08/2008
http://recantodasletras.uol.com.br/
Foto:
http://www.revista.agulha.nom.br

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José Marins (Haikais)

Destacamos abaixo alguns de seus haikais do livro Poezen e outros dos livros ainda inéditos Bico de João-de-barro e Karumi, que, gentilmente, o autor autorizou a divulgação dos mesmos neste trabalho.
Do livro “Bico de João-de-barro”:

PRIMAVERA:

Saudades e flores
no cemitério antigo
Dia de Finados

VERÃO:

Calor de verão
a trabalheira que dá
ter essa preguiça

OUTONO:

Risadas do piá
aroma de mexericas
na foto não sai

INVERNO

Tardinha de inverno
as letras do dicionário
parecem menores

Do livro Karumi:

PRIMAVERA:

Voam andorinhas –
na moldura da janela
uma tarde azul

VERÃO:

Círculo sem fim
uma formiga no prato
não consegue sair

OUTONO:

Velho casarão
os crisântemos florescem
também no abandono

INVERNO:

Vapor sobre o lago
que ontem refletia a lua –
manhã de inverno

Do livro “Poezen” (MARINS, 1985):

NOITE:

Anoitece o dia
colar de pérolas
na fileira dos postes

Nenhuma estrela no céu
as pintas de suas costas
me iluminam

MADRUGADA:

Madrugada chegando
naquele prédio
a penúltima luz se apaga

Olho estrelas no céu
distraído mijo sobre
azaléia florida

MANHÃ:

Sobre o velho muro
velho pessegueiro
cheio de flores novas

Pacientes as nuvens
vão mudando sempre
o rosto azul do céu

TARDE:

Sombra da árvore
o dia parou
pra descansar

Ônibus lotado
meus olhos cheios
de rostos cansados

Fontes:
Alvaro Mariel Posselt In Recanto das Letras em 26/08/2008.
http://recantodasletras.uol.com.br/
Desenho com haikai:
http://www.sumauma.net

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José Marins (Poesias)

CHUVA

chuva que lava o ressequido telhado
leva a poeira dos dias

chuva de água luminosa
cristalinos cachos de transparências

chuva que canta nas telhas
canção no vão das calhas

da chuva o enlevo
ao sonho nos leva
águas despertas

chuva de finos fios
na mansidão da noite
encontro de encantos

luz na imensidão
pingos dourados
na face da rainha das águas

chove perdão
suas lágrimas
de água doce
¨¨¨¨¨¨¨

ALVA BRISA

A
Ave
Suavemente
Avoa

Viventes
Avivam o augúrio

Avoantes ao vento
Sobrevoam
Os telhados do casario

Retalhos de nuvens
Avançam
Sob um céu de estrelas
Fugidias

A seda da manhã
Cede o branco
À transparência do ar

Sonha noiva
A translúcida moça
Inda ontem
Andava menina
e
Sorria
Alva brisa

Arrulham pombos
Em seu despertar

Seus olhos
Dois brilhos
Nos trilhos da vida

Seu caminho
Passos no bem.

¨¨¨¨¨¨¨
LUA DIURNA

traz uma canção a madrugada

de uma lua diurna diz
pulsar de coração o dia
serena vazante de luz

amanhece nos olhos das gentes

palavras aos ventos
segredos da memória
nos ouvidos atentos

clareado rosto de quem vem

invisível letra de paz
a canção da lua diurna
no compasso dos pés

a canção sorri com os sonhos

esperado brilho de luar
sol que me eleva o dia
lua diurna quero te dar
¨¨¨¨¨¨¨

NOITE

não são meus olhos
que procuram estrelas
no infinito espaço

são meus lábios
para dizer-lhes
meus versos precários
¨¨¨¨¨¨¨

VIAGEM DO VENTO

o vento vem voa
em verdejante jardim

nas asas da borboleta vai
veleja o branco jasmim

no bico do colibri
vaga sobre flores
vintém de afago
no sim das cores

quase brisa suave tocar
a fragrância das maravilhas

ser veículo ou traquinar
veleiro vento das trilhas

voltas na janela aberta
volteios dançam cortinas
visita a bela que se veste
de véus e voláteis aromas

revira rodopios e curvas
vertigem de doçuras viaja

perde-se ao se prender
na vela do branco lençol

eternas asas seu querer
move-se feito inspiração

Fonte:
http://www.jornaldepoesia.jor.br/

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Centro de Letras do Paraná (Centenário do Falecimento de Machado de Assis)

G Convite G

O Centro de Letras do Paraná, como entidade cultural de renome e que desenvolve programas literários e artísticos, não poderia olvidar data tão significativa, a transcorrer em 29 de setembro, qual seja, o “Centenário do falecimento de Machado de Assis”.

Assim, dedicará a programação mensal ao extraordinário escritor, que, além de romances e contos, produziu de tudo um pouco, como peças teatrais e crônicas, além de encantadoras poesias, como o soneto “À Carolina”, dedicado a memória de sua mulher, cuja reprodução significa todo apreço, admiração e reconhecimento deste Cenáculo à obra machadiana, verbis:

“Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs o mundo inteiro.

Trago-te flores – restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados
.
Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.”

Confiamos, assim, que nossos caríssimos associados prestigiarão o programa preparado, comparecendo as nossas reuniões, trazendo, outrossim, os familiares e amigos.

PROGRAMAÇÃO – SETEMBRO/2008

Dia 02
17 h “Machado de Assis, uma visão característico-cronográfica”.
Palestra do confrade Professor Nelson de Luca.

Dia 09
17 h “Enfoque crítico sobre a obra de Machado de Assis”.
Palestra do escritor e poeta Silvio Magalhães.

Dia 16
17 h “A Poesia de Machado de Assis”, a cargo da Academia Paranaense da Poesia.

Dia 23
17 h “Genialidade e doença em Machado de Assis”.
Palestra do confrade e imortal João Manoel Simões.

Dia 30
17 h “O novo acordo ortográfico da língua portuguesa”.
Exposição da confreira Neumar Carta Winter.

17:45 Lançamento do livro “Os sonhos se realizam” pelo escritor Fernando Simas Filho.
Coquetel oferecido pelo autor.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
Lembrete:
Os interessados na publicação de textos para próxima edição da Revista do Centro de Letras do Paraná devem encaminhar à secretaria até 31 de agosto, pelo e-mail clpr@onda.com.br ou em disquete, seja prosa até três laudas ou poesia, no máximo duas.

Informações outras na secretaria.
* * * * * * * * * * * * *
A Revista do Centro de Letras do Paraná de junho/2008 (nº 51) está a disposição dos associados em nossa secretaria.

Luís Renato Pedroso
Presidente

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Machado de Assis (Poesias Esparsas)

(id:MCCXLIX)

A mosca azul

Era uma mosca azul, asas de ouro e granada,
Filha da China ou do Indostão.
Que entre as folhas brotou de uma rosa encarnada.
Em certa noite de verão.

E zumbia, e voava, e voava, e zumbia,
Refulgindo ao clarão do sol
E da lua — melhor do que refulgiria
Um brilhante do Grão-Mogol.

Um poleá que a viu, espantado e tristonho,
Um poleá lhe perguntou:
— “Mosca, esse refulgir, que mais parece um sonho,
Dize, quem foi que te ensinou?”

Então ela, voando e revoando, disse:
— “Eu sou a vida, eu sou a flor
Das graças, o padrão da eterna meninice,
E mais a glória, e mais o amor”.

E ele deixou-se estar a contemplá-la, mudo
E tranqüilo, como um faquir,
Como alguém que ficou deslembrado de tudo,
Sem comparar, nem refletir.

Entre as asas do inseto a voltear no espaço,
Uma coisa me pareceu
Que surdia, com todo o resplendor de um paço,
Eu vi um rosto que era o seu.

Era ele, era um rei, o rei de Cachemira,
Que tinha sobre o colo nu
Um imenso colar de opala, e uma safira
Tirada ao corpo de Vixnu.

Cem mulheres em flor, cem nairas superfinas,
Aos pés dele, no liso chão,
Espreguiçam sorrindo as suas graças finas,
E todo o amor que têm lhe dão.

Mudos, graves, de pé, cem etíopes feios,
Com grandes leques de avestruz,
Refrescam-lhes de manso os aromados seios.
Voluptuosamente nus.

Vinha a glória depois; — quatorze reis vencidos,
E enfim as páreas triunfais
De trezentas nações, e os parabéns unidos
Das coroas ocidentais.

Mas o melhor de tudo é que no rosto aberto
Das mulheres e dos varões,
Como em água que deixa o fundo descoberto,
Via limpos os corações.

Então ele, estendendo a mão calosa e tosca.
Afeita a só carpintejar,
Com um gesto pegou na fulgurante mosca,
Curioso de a examinar.

Quis vê-la, quis saber a causa do mistério.
E, fechando-a na mão, sorriu
De contente, ao pensar que ali tinha um império,
E para casa se partiu.

Alvoroçado chega, examina, e parece
Que se houve nessa ocupação
Miudamente, como um homem que quisesse
Dissecar a sua ilusão.

Dissecou-a, a tal ponto, e com tal arte, que ela,
Rota, baça, nojenta, vil
Sucumbiu; e com isto esvaiu-se-lhe aquela
Visão fantástica e sutil.

Hoje quando ele aí cai, de áloe e cardamomo
Na cabeça, com ar taful
Dizem que ensandeceu e que não sabe como
Perdeu a sua mosca azul.
================
Círculo vicioso

Bailando no ar, gemia inquieto vagalume:
“Quem me dera que eu fosse aquela loira estrela
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!”
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

“Pudesse eu copiar-te o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela”
Mas a lua, fitando o sol com azedume:

“Mísera! Tivesse eu aquela enorme, aquela
Claridade imortal, que toda a luz resume”!
Mas o sol, inclinando a rútila capela:

Pesa-me esta brilhante auréola de nume…
Enfara-me esta luz e desmedida umbela…
Por que não nasci eu um simples vagalume?”…
====================
Relíquia íntima

Ilustríssimo, caro e velho amigo,
Saberás que, por um motivo urgente,
Na quinta-feira, nove do corrente,
Preciso muito de falar contigo.

E aproveitando o portador te digo,
Que nessa ocasião terás presente,
A esperada gravura de patente
Em que o Dante regressa do Inimigo.

Manda-me pois dizer pelo bombeiro
Se às três e meia te acharás postado
Junto à porta do Garnier livreiro:

Senão, escolhe outro lugar azado;
Mas dá logo a resposta ao mensageiro,
E continua a crer no teu Machado.
==============
Visão

Eras pálida. E os cabelos,
Aéreos, soltos novelos,
Sobre as espáduas caíam . . .
Os olhos meio-cerrados
De volúpia e de ternura
Entre lágrimas luziam . . .
E os braços entrelaçados,
Como cingindo a ventura,
Ao teu seio me cingiram . . .

Depois, naquele delírio,
Suave, doce martírio
De pouquíssimos instantes
Os teus lábios sequiosos,
Frios trêmulos, trocavam
Os beijos mais delirantes,
E no supremo dos gozos
Ante os anjos se casavam
Nossas almas palpitantes . . .
Depois . . . depois a verdade,
A fria realidade,
A solidão, a tristeza;
Daquele sonho desperto,
Olhei . . . silêncio de morte
Respirava a natureza —
Era a terra, era o deserto,
Fora-se o doce transporte,
Restava a fria certeza.

Desfizera-se a mentira:
Tudo aos meus olhos fugira;
Tu e o teu olhar ardente,
Lábios trêmulos e frios,
O abraço longo e apertado,
O beijo doce e veemente;
Restavam meus desvarios,
E o incessante cuidado,
E a fantasia doente.

E agora te vejo. E fria
Tão outra estás da que eu via
Naquele sonho encantado!
És outra, calma, discreta,
Com o olhar indiferente,
Tão outro do olhar sonhado,
Que a minha alma de poeta
Não vê se a imagem presente
Foi a imagem do passado.

Foi, sim, mas visão apenas;
Daquelas visões amenas
Que à mente dos infelizes
Descem vivas e animadas,
Cheias de luz e esperança
E de celestes matizes:
Mas, apenas dissipadas,
Fica uma leve lembrança,
Não ficam outras raízes.

Inda assim, embora sonho,
Mas sonho doce e risonho,
Desse-me Deus que fingida
Tivesse aquela ventura
Noite por noite, hora a hora,
No que me resta de vida,
Que, já livre da amargura,
Alma, que em dores me chora,
Chorara de agradecida!
===============
Horas vivas

Noite: abrem-se as flores . . .
Que esplendores!
Cíntia sonha seus amores
Pelo céu.
Tênues as neblinas
Às campinas
Descem das colinas,
Como um véu.

Mãos em mãos travadas,
Animadas,
Vão aquelas fadas
Pelo ar;
Soltos os cabelos,
Em novelos,
Puros, louros, belos,
A voar.

— “Homem, nos teus dias
Que agonias,
Sonhos, utopias,
Ambições;
Vivas e fagueiras,
As primeiras,
Como as derradeiras
Ilusões!

— “Quantas, quantas vidas
Vão perdidas,
Pombas mal feridas
Pelo mal!
Anos após anos,
Tão insanos,
Vêm os desenganos
Afinal.

— “Dorme: se os pesares
Repousares,
Vês? — por estes ares
Vamos rir;
Mortas, não; festivas,
E lascivas,
Somos — horas vivas
De dormir. —”
================
O dilúvio
(1863)

E caiu a chuva sobre a terra
quarenta dias e quarenta noites
Gênesis — c. VII, v. 12

Do sol ao raio esplêndido,
Fecundo, abençoado,
A terra exausta e úmida
Surge, revive já;
Que a morte inteira e rápida
Dos filhos do pecado
Pôs termo à imensa cólera
Do imenso Jeová!

Que mar não foi! que túmidas
As águas não rolavam!
Montanhas e planícies
Tudo tornou-se mar;
E nesta cena lúgubre
Os gritos que soavam
Era um clamor uníssono
Que a terra ia acabar.

Em vão, ó pai atônito,
Ao seio o filho estreitas;
Filhos, esposos, míseros,
Em vão tentais fugir!
Que as águas do dilúvio
Crescidas e refeitas,
Vão da planície aos píncaros
Subir, subir, subir!

Só, como a idéia única
De um mundo que se acaba,
Erma, boiava intrépida,
A arca de Noé;
Pura das velhas nódoas
De tudo o que desaba,
Leva no seio incólumes
A virgindade e a fé.

Lá vai! Que um vento alígero,
Entre os contrários ventos,
Ao lenho calmo e impávido
Abre caminho além . . .
Lá vai! Em torno angústias,
Clamores, lamentos;
Dentro a esperança, os cânticos,
A calma, a paz e o bem.

Cheio de amor, solícito,
O olhar da divindade,
Vela aos escapos náufragos
Da imensa aluvião.
Assim, por sobre o túmulo
Da extinta humanidade
Salva-se um berço; o vínculo
Da nova creação.

Íris, da paz o núncio,
O núncio do concerto,
Riso do Eterno em júbilo,
Nuvens do céu rasgou;
E a pomba, a pomba mística,
Volando ao lenho aberto,
Do arbusto da planície
Um ramo despencou.

Ao sol e às brisas tépidas
Respira a terra um hausto,
Viçam de novo as árvores,
Brota de novo a flor;
E ao som de nossos cânticos,
Ao fumo do holocausto
Desaparece a cólera
Do rosto do Senhor.
=====================
Os dois horizontes

A M. Ferreira Guimarães
(1863)

Dous horizonte fecham nossa vida:

Um horizonte, — a saudade
Do que não há de voltar;
Outro horizonte, — a esperança
Dos tempos que hão de chegar;
No presente, — sempre escuro, —
Vive a alma ambiciosa
Na ilusão voluptuosa
Do passado e do futuro.

Os doces brincos da infância
Sob as asas maternais,
O vôo das andorinhas,
A onda viva e os rosais.
O gozo do amor, sonhado
Num olhar profundo e ardente,
Tal é na hora presente
O horizonte do passado.

Ou ambição de grandeza
Que no espírito calou,
Desejo de amor sincero
Que o coração não gozou;
Ou um viver calmo e puro
À alma convalescente,
Tal é na hora presente
O horizonte do futuro.

No breve correr dos dias
Sob o azul do céu, — tais são
Limites no mar da vida:
Saudade ou aspiração;
Ao nosso espírito ardente,
Na avidez do bem sonhado,
Nunca o presente é passado,
Nunca o futuro é presente.

Que cismas, homem? — Perdido
No mar das recordações,
Escuto um eco sentido
Das passadas ilusões.
Que buscas, homem? — Procuro,
Através da imensidade,
Ler a doce realidade
Das ilusões do futuro.

Dous horizontes fecham nossa vida.
==============
Flor da mocidade

Eu conheço a mais bela flor;
És tu, rosa da mocidade,
Nascida aberta para o amor.
Eu conheço a mais bela flor.
Tem do céu a serena cor,
E o perfume da virgindade.
Eu conheço a mais bela flor,
És tu, rosa da mocidade.

Vive às vezes na solidão,
Como filha da brisa agreste.
Teme acaso indiscreta mão;
Vive às vezes na solidão.
Poupa a raiva do furacão
Suas folhas de azul celeste.
Vive às vezes na solidão,
Como filha da brisa agreste.

Colhe-se antes que venha o mal,
Colhe-se antes que chegue o inverno;
Que a flor morta já nada val.
Colhe-se antes que venha o mal.
Quando a terra é mais jovial
Todo o bem nos parece eterno.
Colhe-se antes que venha o mal,
Colhe-se antes que chegue o inverno.
====================
A uma senhora que me pediu versos

Pensa em ti mesma, acharás
Melhor poesia,
Viveza, graça, alegria,
Doçura e paz.

Se já dei flores um dia,
Quando rapaz,
As que ora dou têm assaz
Melancolia.

Uma só das horas tuas
Valem um mês
Das almas já ressequidas.

Os sóis e as luas
Creio bem que Deus os fez
Para outras vidas.

Fontes:
Jornal de Poesia In
http://www.secrel.com.br/JPOESIA/

Capa do Livro http://www.record.com.br

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Machado de Assis (A Cartomante)

(id:MCCXLVIII)

Hamlet observa a Horácio que há mais cousas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de Novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras.

— Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas começou a botar as cartas, disse-me: “A senhora gosta de uma pessoa…” Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade…

— Errou! Interrompeu Camilo, rindo.

— Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua causa. Você sabe; já lhe disse. Não ria de mim, não ria…

Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e fixo. Jurou que lhe queria muito, que os seus sustos pareciam de criança; em todo o caso, quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois, repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois…

— Qual saber! tive muita cautela, ao entrar na casa.

— Onde é a casa?

— Aqui perto, na rua da Guarda Velha; não passava ninguém nessa ocasião. Descansa; eu não sou maluca.

Camilo riu outra vez:

— Tu crês deveras nessas coisas? perguntou-lhe.

Foi então que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que havia muito cousa misteriosa e verdadeira neste mundo. Se ele não acreditava, paciência; mas o certo é que a cartomante adivinhara tudo. Que mais? A prova é que ela agora estava tranqüila e satisfeita.

Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se, Não queria arrancar-lhe as ilusões. Também ele, em criança, e ainda depois, foi supersticioso, teve um arsenal inteiro de crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos vinte anos desapareceram. No dia em que deixou cair toda essa vegetação parasita, e ficou só o tronco da religião, ele, como tivesse recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu-os na mesma dúvida, e logo depois em uma só negação total. Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento; limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando.

Separaram-se contentes, ele ainda mais que ela. Rita estava certa de ser amada; Camilo, não só o estava, mas via-a estremecer e arriscar-se por ele, correr às cartomantes, e, por mais que a repreendesse, não podia deixar de sentir-se lisonjeado. A casa do encontro era na antiga rua dos Barbonos, onde morava uma comprovinciana de Rita. Esta desceu pela rua das Mangueiras, na direção de Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela da Guarda velha, olhando de passagem para a casa da cartomante.

Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura, e nenhuma explicação das origens. Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de infância. Vilela seguiu a carreira de magistrado. Camilo entrou no funcionalismo, contra a vontade do pai, que queria vê-lo médico; mas o pai morreu, e Camilo preferiu não ser nada, até que a mãe lhe arranjou um emprego público. No princípio de 1869, voltou Vilela da província, onde casara com uma dama formosa e tonta; abandonou a magistratura e veio abrir banca de advogado. Camilo arranjou-lhe casa para os lados de Botafogo, e foi a bordo recebê-lo.

— É o senhor? exclamou Rita, estendendo-lhe a mão. Não imagina como meu marido é seu amigo; falava sempre do senhor.

Camilo e Vilela olharam-se com ternura. Eram amigos deveras. Depois, Camilo confessou de si para si que a mulher do Vilela não desmentia as cartas do marido. Realmente, era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa. Era um pouco mais velha que ambos: contava trinta anos, Vilela vinte e nove e Camilo vente e seis. Entretanto, o porte grave de Vilela fazia-o parecer mais velho que a mulher, enquanto Camilo era um ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo, como os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de alguns para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição.

Uniram-se os três. Convivência trouxe intimidade. Pouco depois morreu a mãe de Camilo, e nesse desastre, que o foi, os dois mostraram-se grandes amigos dele. Vilela cuidou do enterro, dos sufrágios e do inventário; Rita tratou especialmente do coração, e ninguém o faria melhor.

Como daí chegaram ao amor, não o soube ele nunca. A verdade é que gostava de passar as horas ao lado dela; era a sua enfermeira moral, quase uma irmã, mas principalmente era mulher e bonita. Odor di femina: eis o que ele aspirava nela, e em volta dela, para incorporá-lo em si próprio. Liam os mesmos livros, iam juntos a teatros e passeios. Camilo ensinou-lhe as damas e o xadrez e jogavam às noites; — ela mal, — ele, para lhe ser agradável, pouco menos mal. Até aí as cousas. Agora a ação da pessoa, os olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele, que os consultavam antes de o fazer ao marido, as mãos frias, as atitudes insólitas. Um dia, fazendo ele anos, recebeu de Vilela uma rica bengala de presente, e de Rita apenas um cartão com um vulgar cumprimento a lápis, e foi então que ele pôde ler no próprio coração; não conseguia arrancar os olhos do bilhetinho. Palavras vulgares; mas há vulgaridades sublimes, ou, pelo menos, deleitosas. A velha caleça de praça, em que pela primeira vez passeaste com a mulher amada, fechadinhos ambos, vale o carro de Apolo. Assim é o homem, assim são as cousas que o cercam.

Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura; mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos! Não tardou que o sapato se acomodasse ao pé, e aí foram ambos, estrada fora, braços dados, pisando folgadamente por cima de ervas e pedregulhos, sem padecer nada mais que algumas saudades, quando estavam ausentes um do outro. A confiança e estima de Vilela continuavam a ser as mesmas.

Um dia, porém, recebeu Camilo uma carta anônima, que lhe chamava imoral e pérfido, e dizia que a aventura era sabida de todos. Camilo teve medo, e, para desviar as suspeitas, começou a rarear as visitas à casa de Vilela. Este notou-lhe as ausências. Camilo respondeu que o motivo era uma paixão frívola de rapaz. Candura gerou astúcia. As ausências prolongaram-se, e as visitas cessaram inteiramente. Pode ser que entrasse também nisso um pouco de amor-próprio, uma intenção de diminuir os obséquios do marido, para tornar menos dura a aleivosia do ato.

Foi por esse tempo que Rita, desconfiada e medrosa, correu à cartomante para consultá-la sobre a verdadeira causa do procedimento de Camilo. Vimos que a cartomante restituiu-lhe a confiança, e que o rapaz repreendeu-a por ter feito o que fez. Correram ainda algumas semanas. Camilo recebeu mais duas ou três cartas anônimas, tão apaixonadas, que não podiam ser advertência da virtude, mas despeito de algum pretendente; tal foi a opinião de Rita, que, por outras palavras mal compostas, formulou este pensamento: — a virtude é preguiçosa e avara, não gasta tempo nem papel; só o interesse é ativo e pródigo.

Nem por isso Camilo ficou mais sossegado; temia que o anônimo fosse ter com Vilela, e a catástrofe viria então sem remédio. Rita concordou que era possível.

— Bem, disse ela; eu levo os sobrescritos para comparar a letra com a das cartas que lá aparecerem; se alguma for igual, guardo-a e rasgo-a…

Nenhuma apareceu; mas daí a algum tempo Vilela começou a mostrar-se sombrio, falando pouco, como desconfiado. Rita deu-se pressa em dizê-lo ao outro, e sobre isso deliberaram. A opinião dela é que Camilo devia tornar à casa deles, tatear o marido, e pode ser até que lhe ouvisse a confidência de algum negócio particular. Camilo divergia; aparecer depois de tantos meses era confirmar a suspeita ou denúncia. Mais valia acautelarem-se, sacrificando-se por algumas semanas. Combinaram os meios de se corresponderem, em caso de necessidade, e separaram-se com lágrimas.

No dia seguinte, estando na repartição, recebeu Camilo este bilhete de Vilela: “Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora.” Era mais de meio-dia. Camilo saiu logo; na rua, advertiu que teria sido mais natural chamá-lo ao escritório; por que em casa? Tudo indicava matéria especial, e a letra, fosse realidade ou ilusão, afigurou-se-lhe trêmula. Ele combinou todas essas cousas com a notícia da véspera.

— Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora, — repetia ele com os olhos no papel.

Imaginariamente, viu a ponta da orelha de um drama, Rita subjugada e lacrimosa, Vilela indignado, pegando na pena e escrevendo o bilhete, certo de que ele acudiria, e esperando-o para matá-lo. Camilo estremeceu, tinha medo: depois sorriu amarelo, e em todo caso repugnava-lhe a idéia de recuar, e foi andando. De caminho, lembrou-se de ir a casa; podia achar algum recado de Rita, que lhe explicasse tudo. Não achou nada, nem ninguém. Voltou à rua, e a idéia de estarem descobertos parecia-lhe cada vez mais verossímil; era natural uma denúncia anônima, até da própria pessoa que o ameaçara antes; podia ser que Vilela conhecesse agora tudo. A mesma suspensão das suas visitas, sem motivo aparente, apenas com um pretexto fútil, viria confirmar o resto.

Camilo ia andando inquieto e nervoso. Não relia o bilhete, mas as palavras estavam decoradas, diante dos olhos, fixas; ou então, — o que era ainda peior, — eram-lhe murmuradas ao ouvido, com a própria voz de Vilela. “Vem já, já à nossa casa; preciso falar-te sem demora.” Ditas, assim, pela voz do outro, tinham um tom de mistério e ameaça. Vem, já, já, para quê? Era perto de uma hora da tarde. A comoção crescia de minuto a minuto. Tanto imaginou o que se iria passar, que chegou a crê-lo e vê-lo. Positivamente, tinha medo. Entrou a cogitar em ir armado, considerando que, se nada houvesse, nada perdia, e a precaução era útil. Logo depois rejeitava a idéa, vexado de si mesmo, e seguia, picando o passo, na direção do largo da Carioca, para entrar num tílburi. Chegou, entrou e mandou seguir a trote largo.

— Quanto antes, melhor, pensou ele; não posso estar assim…

Mas o mesmo trote do cavalo veio agravar-lhe a comoção. O tempo voava, e ele não tardaria a entestar com o perigo. Quase no fim da rua da Guarda Velha, o tílburi teve de parar; a rua estava atravancada com uma carroça, que caíra. Camilo, em si mesmo, estimou o obstáculo, e esperou. No fim de cinco minutos, reparou que ao lado, à esquerda, ao pé do tílburi, ficava a casa da cartomante, a quem Rita consultara uma vez, e nunca ele desejou tanto crer na lição das cartas. Olhou, viu as janelas fechadas, quando todas as outras estavam abertas e pejadas de curiosos do incidente da rua. Dir-se-ia a morada do indiferente Destino.

Camilo reclinou-se no tílburi, para não ver nada. A agitação dele era grande, extraordinária, e do fundo das camadas morais emergiam alguns fantasmas de outro tempo, as velhas crenças, as superstições antigas. O cocheiro propôs-lhe voltar a primeira travessa, e ir por outro caminho; ele respondeu que não, que esperasse. E inclinava-se para fitar a casa… Depois fez um gesto incrédulo: era a idéia de ouvir a cartomante, que lhe passava ao longe, muito longe, com vastas asas cinzentas; desapareceu, reapareceu, e tornou a esvair-se no cérebro; mas daí a pouco moveu outra vez as asas, mais perto, fazendo uns giros concêntricos… Na rua, gritavam os homens, safando a carroça:

— Anda! agora! empurra! vá! vá!

Daí a pouco estaria removido o obstáculo. Camilo fechava os olhos, pensava em outras cousas; mas a voz do marido sussurrava-lhe às orelhas as palavras da carta: “Vem já, já…” E ele via as contorções do drama e tremia. A casa olhava para ele. As pernas queriam descer e entrar… Camilo achou-se diante de um longo véu opaco… pensou rapidamente no inexplicável de tantas cousas. A voz da mãe repetia-lhe uma porção de casos extraordinários; e a mesma frase do príncipe de Dinamarca reboava-lhe dentro: “Há mais cousas no céu e na terra do que sonha a filosofia…” Que perdia ele, se…?

Deu por si na calçada, ao pé da porta; disse ao cocheiro que esperasse, e rápido enfiou pelo corredor, e subiu a escada. A luz era pouca, os degraus comidos dos pés, o corrimão pegajoso; mas ele não viu nem sentiu nada. Trepou e bateu. Não aparecendo ninguém, teve idéia de descer; mas era tarde, a curiosidade fustigava-lhe o sangue, as fontes latejavam-lhe; ele tornou a bater uma, duas, três pancadas. Veio uma mulher; era a cartomante. Camilo disse que ia consultá-la, ela fê-lo entrar. Dali subiram ao sótão, por uma escada ainda pior que a primeira e mais escura. Em cima, havia uma salinha, mal alumiada por uma janela, que dava para os telhados do fundo. Velhos trastes, paredes sombrias, um ar de pobreza, que antes aumentava do que destruía o prestígio.

A cartomante fê-lo sentar diante da mesa, e sentou-se do lado oposto, com as costas para a janela, de maneira que a pouca luz de fora batia em cheio no rosto de Camilo. Abriu uma gaveta e tirou um baralho de cartas compridas e enxovalhadas. Enquanto as baralhava, rapidamente, olhava para ele, não de rosto, mas por baixo dos olhos. Era uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos. Voltou três cartas sobre a mesa, e disse-lhe:

— Vejamos primeiro o que é que o traz aqui. O senhor tem um grande susto…

Camilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo.

— E quer saber, continuou ela, se lhe acontecerá alguma coisa ou não…

— A mim e a ela, explicou vivamente ele.

A cartomante não sorriu; disse-lhe só que esperasse. Rápido pegou outra vez as cartas e baralhou-as, com os longos dedos finos, de unhas descuradas; baralhou-as bem, transpôs os maços, uma, duas, três vezes; depois começou a estendê-las. Camilo tinha os olhos nela, curioso e ansioso.

— As cartas dizem-me…

Camilo inclinou-se para beber uma a uma as palavras. Então ela declarou-lhe que não tivesse medo de nada. Nada aconteceria nem a um nem a outro; ele, o terceiro, ignorava tudo. Não obstante, era indispensável mais cautela; ferviam invejas e despeitos. Falou-lhe do amor que os ligava, da beleza de Rita… Camilo estava deslumbrado. A cartomante acabou, recolheu as cartas e fechou-as na gaveta.

— A senhora restituiu-me a paz ao espírito, disse ele estendendo a mão por cima da mesa e apertando a da cartomante.

Esta levantou-se, rindo.

— Vá, disse ela; vá, ragazzo innamorato…

E de pé, com o dedo indicador, tocou-lhe na testa. Camilo estremeceu, como se fosse mão da própria sibila, e levantou-se também. A cartomante foi à cômoda, sobre a qual estava um prato com passas, tirou um cacho destas, começou a despencá-las e comê-las, mostrando duas fileiras de dentes que desmentiam as unhas. Nessa mesma ação comum, a mulher tinha um ar particular. Camilo, ansioso por sair, não sabia como pagasse; ignorava o preço.

— Passas custam dinheiro, disse ele afinal, tirando a carteira. Quantas quer mandar buscar?

— Pergunte ao seu coração, respondeu ela.

Camilo tirou uma nota de dez mil-réis, e deu-lha. Os olhos da cartomante fuzilaram. O preço usual era dois mil-réis.

— Vejo bem que o senhor gosta muito dela… E faz bem; ela gosta muito do senhor. Vá, vá tranqüilo. Olhe a escada, é escura; ponha o chapéu…

A cartomante tinha já guardado a nota na algibeira, e descia com ele, falando, com um leve sotaque. Camilo despediu-se dela embaixo, e desceu a escada que levava à rua, enquanto a cartomante alegre com a paga, tornava acima, cantarolando uma barcarola. Camilo achou o tílburi esperando; a rua estava livre. Entrou e seguiu a trote largo.

Tudo lhe parecia agora melhor, as outras cousas traziam outro aspecto, o céu estava límpido e as caras joviais. Chegou a rir dos seus receios, que chamou pueris; recordou os termos da carta de Vilela e reconheceu que eram íntimos e familiares. Onde é que ele lhe descobrira a ameaça? Advertiu também que eram urgentes, e que fizera mal em demorar-se tanto; podia ser algum negócio grave e gravíssimo.

— Vamos, vamos depressa, repetia ele ao cocheiro.

E consigo, para explicar a demora ao amigo, engenhou qualquer cousa; parece que formou também o plano de aproveitar o incidente para tornar à antiga assiduidade… De volta com os planos, reboavam-lhe na alma as palavras da cartomante. Em verdade, ela adivinhara o objeto da consulta, o estado dele, a existência de um terceiro; por que não adivinharia o resto? O presente que se ignora vale o futuro. Era assim, lentas e contínuas, que as velhas crenças do rapaz iam tornando ao de cima, e o mistério empolgava-o com as unhas de ferro. Às vezes queria rir, e ria de si mesmo, algo vexado; mas a mulher, as cartas, as palavras secas e afirmativas, a exortação: — Vá, vá, ragazzo innamorato; e no fim, ao longe, a barcarola da despedida, lenta e graciosa, tais eram os elementos recentes, que formavam, com os antigos, uma fé nova e vivaz.

A verdade é que o coração ia alegre e impaciente, pensando nas horas felizes de outrora e nas que haviam de vir. Ao passar pela Glória, Camilo olhou para o mar, estendeu os olhos para fora, até onde a água e o céu dão um abraço infinito, e teve assim uma sensação do futuro, longo, longo, interminável.

Daí a pouco chegou à casa de Vilela. Apeou-se, empurrou a porta de ferro do jardim e entrou. A casa estava silenciosa. Subiu os seis degraus de pedra, e mal teve tempo de bater, a porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela.

— Desculpa, não pude vir mais cedo; que há?

Vilela não lhe respondeu; tinha as feições decompostas; fez-lhe sinal, e foram para uma saleta interior. Entrando, Camilo não pôde sufocar um grito de terror: — ao fundo sobre o canapé, estava Rita morta e ensangüentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão.

Fontes
Gazeta de Notícias – Rio de Janeiro, em 1884.
http://www.releituras.com/
Desenho: http://www.cce.ufsc.br/

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Diálogo Epistolar entre José de Alencar e Machado de Assis

(id: MCCXLVII)

Carta de José de Alencar

Tijuca [Rio de Janeiro], 18 de fevereiro de 1868.

Ilmo Sr. Machado de Assis.
— Recebi ontem a visita de um poeta. — O Rio de Janeiro não o conhece ainda; muito breve o há de conhecer o Brasil. Bem entendido, falo do Brasil que sente; do coração e não do resto. — O Sr. Castro Alves é hóspede desta grande cidade, alguns dias apenas. Vai a S. Paulo concluir o curso que encetou em Olinda. — Nasceu na Bahia, a pátria de tão belos talentos; a Atenas brasileira que não cansa de produzir estadistas, oradores, poetas e guerreiros. — Podia acrescentar que é filho de um médico ilustre. Mas para quê? A genealogia dos poetas começa com o seu primeiro poema. E que pergaminhos valem estes selados por Deus? — O Sr. Castro Alves trouxe-me uma carta do Dr. Fernandes da Cunha, um dos pontífices da tribuna brasileira. Digo pontífice, porque nos caracteres dessa têmpera o talento é uma religião, a palavra um sacerdócio. — Que júbilo para mim! Receber Cícero que vinha apresentar Horácio, a eloqüência conduzindo pela mão a poesia, uma glória esplêndida mostrando no horizonte da pátria a irradiação de uma límpida aurora! — Mas também quanto, nesse instante, deplorei minha pobreza, que não permitia dar a tão caros hóspedes régio agasalho. Carecia de ser Hugo ou Lamartine, os poetas-oradores, para preparar esse banquete da inteligência. — Se, ao menos, tivesse nesse momento junto de mim a plêiade rica de jovens escritores, à qual pertencem o senhor, o Dr. Pinheiro Guimarães, Bocaiúva, Múzio, Joaquim Serra, Varela, Rozendo Moniz, e tantos outros!… — Entre estes, por que não lembrarei o nome de Leonel de Alencar, a quem o destino fez ave de arribação na terra natal? Em literatura não há suspeições: todos nós, que nascemos em seu regaço, não somos da mesma família? — Mas a todos o vento da contrariedade os tem desfolhado por aí, como flores de uma breve primavera. Um fez da pena espada para defender a pátria. Alguns têm as asas crestadas pela indiferença; outros, como douradas borboletas, presas da teia d’aranha, se debatem contra a realidade de uma profissão que lhes tolhe os vôos. — Felizmente estava eu na Tijuca. O senhor conhece esta montanha encantadora. A natureza a colocou a duas léguas da Corte, como um ninho para as almas cansadas de pousar no chão. — Aqui tudo é puro e são. O corpo banha-se em águas cristalinas, como o espírito na limpidez deste céu azul. — Respira-se à larga, não somente os ares finos que vigoram o sopro da vida, porém aquele hálito celeste do Criador, que bafejou o mundo recém-nascido. Só nos ermos em que não caíram ainda as fezes da civilização, a terra conserva essa divindade do berço. — Elevando-se a estas eminências, o homem aproxima-se de Deus. A Tijuca é um escabelo entre o pântano e a nuvem, entre a terra e o céu. O coração que sobe por este genuflexório, para se prostrar ao pés do Onipotente, conta três degraus; em cada um deles, uma contrição. — No alto da Boa Vista, quando se descortina longe, serpejando pela várzea, a grande cidade réptil, onde as paixões pululam, a alma que se havia atrofiado no foco do materialismo, sente-se homem. Embaixo era uma ambição; em cima contemplação. — Transposto esse primeiro estádio, além, para as bandas da Gávea, há um lugar que chamam Vista Chinesa. Este nome lembra-lhe naturalmente um sonho oriental, pintado em papel de arroz. É uma tela sublime, uma decoração magnífica deste inimitável cenário fluminense. Dir-se-ia que Deus entregou a algum de seus arcanjos o pincel de Apeles, e mandou-lhe encher aquele pano de horizonte. Então o homem sente-se religioso. — Finalmente, chega-se ao Pico da Tijuca, o ponto culminante da serra, que fica do lado oposto. Daí os olhos deslumbrados vêem a terra como uma vasta ilha a submergir-se entre dois oceanos, o oceano do mar e o oceano do éter. Parece que estes dois infinitos, o abismo e o céu, abrem-se para absorver um ao outro. E no meio dessas imensidades, um átomo, mas um átomo-rei, de tanta magnitude. Aí o ímpio é cristão e adora o Deus verdadeiro. — Quando a alma desce destas alturas e volve ao pá da civilização, leva consigo uns pensamentos sublimes, que do mais baixo remontam à sua nascença, pela mesma lei que faz subir ao nível primitivo a água derivada do topo da terra. — Nestas paragens não podia meu hóspede sofrer jejum de poesia. Recebi-o dignamente. Disse à natureza que pusesse a mesa, e enchesse as ânforas das cascatas de linfa mais deliciosa que o falerno do velho Horácio. — A Tijuca esmerou-se na hospitalidade. Ela sabia que o jovem escritor vinha do Norte, onde a natureza tropical se espaneja em lagos de luz diáfana, e, orvalhada de esplendores, abandona-se lasciva como uma odalisca às carícias do poeta. — Então a natureza fluminense, que também, quando quer, tem daquelas impudências celestes, fez-se casta e vendou-se com as alvas roupagens de nuvens. A chuva a borrifou de aljôfares; as névoas resvalavam pelas encostas como as fímbrias da branca túnica roçagante de uma virgem cristã. — Foi assim, a sorrir entre os nítidos véus, com um recato de donzela, que a Tijuca recebeu nosso poeta. — O Sr. Castro Alves lembrava-se, como o senhor e alguns poucos amigos, de uma antigüidade de minha vida; que eu outrora escrevera para o teatro. Avaliando sobre medida minha experiência neste ramo difícil da literatura, desejou ler-me um drama, primícia de seu talento. — Essa produção já passou pelas provas públicas em cena competente para julgá-la. A Bahia aplaudiu com júbilos de mãe a ascensão da nova estrela de seu firmamento. Depois de tão brilhante manifestação, duvidar de si, não é modéstia unicamente, é respeito à santidade de sua missão de poeta. — Gonzaga é o título do drama que lemos em breves horas. O assunto, colhido na tentativa revolucionária de Minas, grande manancial de poesia histórica ainda tão pouco explorado, foi enriquecido pelo autor com episódios de vivo interesse. O Sr. Castro Alves é um discípulo de Vítor Hugo, na arquitetura do drama, como no colorido da idéia. O poema pertence à mesma escola do ideal; o estilo tem os mesmos toques brilhantes. — Imitar Vítor Hugo só é dado às inteligências de primor. O Ticiano da literatura possui uma palheta que em mão de colorista medíocre mal produz borrões. Os moldes ousados de sua frase são como os de Benvenuto Cellini; se o metal não for de superior afinação, em vez de estátuas saem pastichos. — Não obstante, sob essa imitação de um modelo sublime desponta no drama a inspiração original, que mais tarde há de formar a individualidade literária do autor. Palpita em sua obra o poderoso sentimento da nacionalidade, essa alma da pátria, que faz os grandes poetas, como os grandes cidadãos. — Não se admire de assimilar eu o cidadão e o poeta, duas entidades que no espírito de muitos andam inteiramente desencontradas. O cidadão é o poeta do direito e da justiça; o poeta é o cidadão do belo e da arte. — Há no drama Gonzaga exuberância de poesia. Mas deste defeito a culpa não foi do escritor; foi da idade. Que poeta aos vinte anos não tem essa prodigalidade soberba de sua imaginação, que se derrama sobre a natureza e a inunda? — A mocidade é uma sublime impaciência. Diante dela a vida se dilata, e parece-lhe que não tem para vivê-la mais que um instante. Põe os lábios na taça da vida, cheia a transbordar de amor, de poesia, de glória, e quisera estancá-la de um sorvo. — A sobriedade vem com os anos; é virtude do talento viril. Mais entrado na vida, o homem aprende a poupar sua alma. Um dia, quando o Sr. Castro Alves reler o Gonzaga, estou convencido que ele há de achar um drama esboçado, em cada personagem desse drama. Olhos severos talvez enxerguem na obra pequenos senões. — Maria, achando em si forças para enganar o governador em um transe de suprema angústia, parecerá a alguns menos amante, menos mulher, do que devera. A ação, dirigida uma ou outra vez pelo acidente material, antes do que pela revolução íntima do coração, não terá na opinião dos realistas, a naturalidade moderna. — Mas são esses defeitos da obra, ou do espírito em que ela se reflete? Muitas vezes já não surpreendeu seu pensamento a fazer a crítica de uma flor, de uma estrela, de uma aurora? Se o deixasse, creia que ele se lançaria a corrigir o trabalho do supremo artista. Não somos homens debalde: Deus nos deu uma alma, uma individualidade. — Depois da leitura do seu drama, o Sr. Castro Alves recitou-me algumas poesias. “A Cascata de Paulo Afonso”, “As Duas Ilhas” e “A Visão dos Mortos” não cedem às excelências da língua portuguesa neste gênero. Ouça-as o senhor, que sabe o segredo desse metro natural, dessa rima suave e opulenta. — Nesta capital da Civilização brasileira, que o é também de nossa indiferença, pouco apreço tem o verdadeiro mérito quando se apresenta modestamente. Contudo, deixar que passasse por aqui ignorado e despercebido o jovem poeta baiano, fora mais que uma descortesia. Não lhe parece? — Já um poeta o saudou pela imprensa; porém, não basta a saudação; é preciso abrir-lhe o teatro, o jornalismo, a sociedade, para que a flor desse talento cheio de seiva se expanda nas auras da publicidade. — Lembrei-me do senhor. Em nenhum concorrem os mesmos títulos. Para apresentar ao público fluminense o poeta baiano, é necessário não só ter foro de cidade na imprensa da Corte, como haver nascido neste belo vale do Guanabara, que ainda espera um cantor. — Seu melhor título, porém, é outro. O senhor foi o único de nossos modernos escritores, que se dedicou sinceramente à cultura dessa difícil ciência que se chama crítica. Uma porção de talento que recebeu da natureza, em vez de aproveitá-lo em criações próprias, teve a abnegação de aplicá-lo a formar o gosto e desenvolver a literatura pátria. — Do senhor, pois, do primeiro crítico brasileiro, confio a brilhante vocação literária, que se revelou com tanto vigor. — Seja o Virgílio do jovem Dante, conduza-o pelos ínvios caminhos por onde se vai à decepção, à indiferença e finalmente à glória, que são os três círculos máximos da divina comédia do talento.

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Resposta de Machado de Assis

Rio de Janeiro, 29 de fevereiro de 1868.

Exmo. Sr.
— É boa e grande fortuna conhecer um poeta; melhor e maior fortuna é recebê-lo das mãos de V. Exa, com uma carta que vale um diploma, com uma recomendação que é uma sagração. A musa do Sr. Castro Alves não podia ter mais feliz intróito na vida literária. Abre os olhos em pleno Capitólio. Os seus primeiros cantos obtêm o aplauso de um mestre. — Mas se isto me entusiasma, outra coisa há que me comove e confunde, é a extrema confiança, que é ao mesmo tempo um motivo de orgulho para mim. De orgulho, repito, e tão inútil fera dissimular esta impressão, quão arrojado seria ver nas palavras de V. Exa. mais do que uma animação generosa. — A tarefa da crítica precisa destes parabéns; é tão árdua de praticar, já pelos estudos que exige, já pelas lutas que impõe, que a palavra eloqüente de um chefe é muitas vezes necessária para reavivar as forças exaustas e reerguer o ânimo abatido. — Confesso francamente, que, encetando os meus ensaios de crítica, fui movido pela idéia de contribuir com alguma coisa para a reforma do gosto que se ia perdendo, e efetivamente se perde. Meus limitadíssimos esforços não podiam impedir o tremendo desastre. Como impedi-lo, se, por influência irresistível, o mal vinha de fora, e se impunha ao espírito literário do país, ainda mal formado e quase sem consciência de si? Era difícil plantar as leis do gosto, onde se havia estabelecido uma sombra de literatura, sem alento nem ideal, falseada e frívola, mal imitada e mal copiada. Nem os esforços dos que, como V. Exa, sabem exprimir sentimentos e idéias na língua que nos legaram os mestres clássicos, nem esses puderam opor um dique à torrente invasora. Se a sabedoria popular não mente, a universalidade da doença podia dar-nos alguma consolação quando não se antolha remédio ao mal. — Se a magnitude da tarefa era de assombrar espíritos mais robustos, outro risco havia: e a este já não era a inteligência que se expunha, era o caráter. Compreende V. Ex.a que, onde a crítica não é instituição formada e assentada, a análise literária tem de lutar contra esse entranhado amor paternal que faz dos nossos filhos as mais belas crianças do mundo. Não raro se originam ódios onde era natural travarem-se afetos. Desfiguram-se os intentos da crítica, atribui-se à inveja o que vem da imparcialidade: chama-se antipatia o que é consciência. Fosse esse, porém, o único obstáculo, estou convencido que ele não pesaria no ânimo de quem põe acima do interesse pessoal o interesse perpétuo da sociedade, porque a boa fama das musas o é também. — Cansados de ouvir chamar bela à poesia, os novos atenienses resolveram bani-la da república. — O elemento poético é hoje um tropeço ao sucesso de uma obra. Aposentaram a imaginação. As musas, que já estavam apeadas dos templos, foram também apeadas dos livros. A poesia dos sentidos veio sentar-se no santuário e assim generalizou-se uma crise funesta às letras. Que enorme Alfeu não seria preciso desviar do seu curso para limpar este presepe de Augias? — Eu bem sei que no Brasil, como fora dele, severos espíritos protestam com o trabalho e a lição contra esse estado de coisas: tal é, porém, a feição geral da situação, ao começar a tarde do século. Mas sempre há de triunfar a vida inteligente. Basta que se trabalhe sem trégua. Pela minha parte, estava e está acima das minhas posses semelhante papel, contudo. entendia e entendo — adotando a bela definição do poeta que V. Exa dá em sua carta — que há para o cidadão da arte e do belo deveres imprescritíveis, e que, quando uma tendência do espírito o impele para certa ordem de atividade, é sua obrigação prestar esse serviço às letras. — Em todo o caso não tive imitadores. Tive um antecessor ilustre, apto para este árduo mister, erudito e profundo, que teria prosseguido no caminho das suas estréias, se a imaginação possante e vivaz não lhe estivesse exigindo as criações que depois nos deu. Será preciso acrescentar que aludo a V. Ex.a? — Escolhendo-me para Virgílio do jovem Dante que nos vem da pátria de Moema, impõe-me um dever, cuja responsabilidade seria grande se a própria carta de V. Exa não houvesse aberto ao neófito as portas da mais vasta publicidade. A análise pode agora esmerilhar nos escritos do poeta belezas e descuidos. O principal trabalho está feito. — Procurei o poeta cujo nome havia sido ligado ao meu, e, com a natural ansiedade que nos produz a notícia de um talento robusto, pedi-lhe que me lesse o seu drama e os seus versos. — Não tive, como V. Exa, a fortuna de os ouvir diante de um magnífico panorama. Não se rasgavam horizontes diante de mim: não tinha os pés nessa formosa Tijuca, que V. Exa chama um escabelo entre a nuvem e o pântano. Eu estava no pântano, em torno de nós agitava-se a vida tumultuosa da cidade. Não era o ruído das paixões nem dos interesses; os interesses e as paixões tinham passado a vara à loucura: estávamos no carnaval. — No meio desse tumulto abrimos um oásis de solidão. — Ouvi o Gonzaga e algumas poesias. — V. Exa já sabe o que é o drama e o que são os versos, já os apreciou consigo, já resumiu a sua opinião. Esta carta, destinada a ser lida pelo público, conterá as impressões que recebi com a leitura dos escritos do poeta. — Não podiam ser melhores as impressões. Achei uma vocação literária, cheia de vida e robustez, deixando antever nas magnificências do presente as promessas do futuro. Achei um poeta original. O mal da nossa poesia contemporânea é ser copista — no dizer, nas idéias e nas imagens. Copiá-las é anular-se. A musa do Sr. Castro Alves tem feição própria. Se se adivinha que a sua escola é a de Vítor Hugo, não é porque o copie servilmente, mas porque uma índole irmã levou-o a preferir o poeta das Orientais ao poeta das Meditações. Não lhe aprazem certamente as tintas brancas e desmaiadas da elegia; quer antes as cores vivas e os traços vigorosos da ode. — Como o poeta que tomou por mestre, o Sr. Castro Alves canta simultaneamente o que é grande e o que é delicado, mas com igual inspiração e método idêntico a pompa das figuras, a sonoridade do vocábulo, uma forma esculpida com arte, sentindo-se por baixo desses lavores o estro, a espontaneidade, o ímpeto. Não é raro andarem separadas estas duas qualidades da poesia: a forma e o estro. Os verdadeiros poetas são os que as têm ambas. Vê-se que o Sr. Castro Alves as possui; veste as suas idéias com roupas finas e trabalhadas. O receio de cair em um defeito, não o levará a cair no defeito contrário? Não me parece que lhe haja acontecido isso; mas indico-lhe o mal, para que fuja dele. É possível que uma segunda leitura dos seus versos me mostrasse alguns senões fáceis de remediar; confesso que os não percebi no meio de tantas belezas. — O drama, esse li-o atentamente; depois de ouvi-lo, li-o, e reli-o, e não sei bem se era a necessidade de o apreciar, se o encanto da obra, que me demorava os olhos em cada página do volume. — O poeta explica o dramaturgo. Reaparecem no drama as qualidades do verso; as metáforas enchem o período; sente-se de quando em quando o arrojo da ode. Sófocles pede as asas a Píndaro. Parece ao poeta que o tablado é pequeno; rompe o céu de lona e arroja-se ao espaço livre e azul. — Esta exuberância que V. Exa com justa razão atribui à idade, concordo que o poeta há de reprimi-la com os anos. Então conseguirá separar completamente a língua lírica da língua dramática; e do muito que devemos esperar temos prova e fiança no que nos dá hoje. — Estreando no teatro com um assunto histórico, e assunto de uma revolução infeliz, o Sr. Castro Alves consultou a índole do seu gênio poético. Precisava de figuras que o tempo houvesse consagrado; as da Inconfidência tinham além disso a auréola do martírio. Que melhor assunto para excitar a piedade? A tentativa abortada de uma revolução, que tinha por fim consagrar a nossa independência, merece do Brasil de hoje aquela veneração que as raças livres devem aos seus Espártacos. O insucesso fê-los criminosos; a vitória tê-los-ia feito Washingtons. Condenou-os a justiça legal; reabilita-os a justiça histórica. — Condensar estas idéias em uma obra dramática, transportar para a cena a tragédia política dos Inconfidentes, tal foi o objeto do Sr. Castro Alves, e não se pode esquecer que, se o intuito era nobre, o cometimento era grave. O talento do poeta superou a dificuldade; com uma sagacidade que eu admiro em tão verdes anos, tratou a história e a arte por modo que, nem aquela o pode acusar de infiel, nem esta de copista. Os que, como V. Exa, conhecem esta aliança, hão de avaliar esse primeiro merecimento do drama do Sr. Castro Alves. — A escolha de Gonzaga para protagonista foi certamente inspirada ao poeta pela circunstância dos seus legendários amores, de que é história aquela famosa Marília de Dirceu. Mas não creio que fosse só essa circunstância. Do processo resulta que o cantor de Marília era tido por chefe da conspiração, em atenção aos seus talentos e letras. A prudência com que se houve desviou da sua cabeça a pena capital. Tiradentes, esse era o agitador; serviu à conspiração com uma atividade rara; era mais um conspirador do dia que da noite. A justiça o escolheu para a forca. Por tudo isso ficou o seu nome ligado ao da tentativa de Minas. — Os amores de Gonzaga traziam naturalmente ao teatro o elemento feminino, e de um lance, casavam-se em cena a tradição política e a tradição poética, o coração do homem e a alma do cidadão. A circunstância foi bem aproveitada pelo autor; o protagonista atravessa o drama sem desmentir a sua dupla qualidade de amante e de patriota; casa no mesmo ideal os seus dois sentimentos. Quando Maria lhe propõe a fuga, no terceiro ato, o poeta não hesita em repelir esse recurso, apesar de ser iminente a sua perda. Já então a revolução expira; para as ambições, se ele as houvesse, a esperança era nenhuma; mas ainda era tempo de cumprir o dever. Gonzaga preferiu seguir a lição do velho Horácio corneiliano: entre o coração e o dever a alternativa é dolorosa. Gonzaga satisfaz o dever e consola o coração. Nem a pátria nem a amante podem lançar-lhe nada em rosto. — O Sr. Castro Alves houve-se com a mesma arte em relação aos outros conjurados. Para avaliar um drama histórico, não se pode deixar de recorrer à história; suprimir esta condição é expor-se a crítica a não entender o poeta. — Quem vê o Tiradentes do drama não reconhece logo aquele conjurado impaciente e ativo, nobremente estouvado, que tudo arrisca e empreende, que confia mais que todos no sucesso da causa, e paga enfim as demasias do seu caráter com a morte na forca e a profanação do cadáver? E Cláudio, o doce poeta, não o vemos todo ali, galhofeiro e generoso, fazendo da conspiração uma festa e da liberdade uma dama, gamenho no perigo, caminhando para a morte com o riso nos lábios, como aqueles emigrados do Terror? Não lhe rola já na cabeça a idéia do suicídio, que praticou mais tarde, quando a expectativa do patíbulo lhe despertou a fibra de Catão, casando-se com a morte, já que se não podia casar com a liberdade? Não é aquele o denunciante Silvério, aquele o Alvarenga, aquele o padre Carlos? Em tudo isso é de louvar a consciência literária do autor. A história nas suas mãos não foi um pretexto; não quis profanar as figuras do passado, dando-lhes feições caprichosas. Apenas empregou aquela exageração artística, necessária ao teatro, onde os caracteres precisam de relevo, onde é mister concentrar em pequeno espaço todos os traços de uma individualidade, todos os caracteres essenciais de uma época ou de um acontecimento. — Concordo que a ação parece às vezes desenvolver-se pelo acidente material. Mas esses raríssimos casos são compensados pela influência do princípio contrário em toda a peça. — O vigor dos caracteres pedia o vigor da ação, ela é vigorosa e interessante em todo o livro; patética no último ato. Os derradeiros adeuses de Gonzaga e Maria excitam naturalmente a piedade, e uns belos versos fecham este drama, que pode conter as incertezas de um talento juvenil, mas que é com certeza uma invejável estréia. — Nesta rápida exposição das minhas impressões, vê V. Exa que alguma coisa me escapou. Eu não podia, por exemplo, deixar de mencionar aqui à figura do preto Luís. Em uma conspiração para a liberdade, era justo aventar a idéia da abolição. Luís representa o elemento escravo Contudo o Sr. Castro Alves não lhe deu exclusivamente a paixão da liberdade. Achou mais dramático pôr naquele coração os desesperos do amor paterno. Quis tornar mais odiosa a situação do escravo pela luta entre a natureza e o fato social, entre a lei e o coração. Luís espera da revolução, antes da liberdade a restituição da filha; é a primeira afirmação da personalidade humana; o cidadão virá depois. Por isso, quando no terceiro ato Luís encontra a filha já cadáver, e prorrompe em exclamações e soluços, o coração chora com ele, e a memória, se a memória pode dominar tais comoções, nos traz aos olhos a bela cena do rei Lear, carregando nos braços Cordélia morta. Quem os compara não vê nem o rei nem o escravo: vê o homem. — Cumpre mencionar outras situações igualmente belas. Entra nesse número a cena da prisão dos conjurados no terceiro ato. As cenas entre Maria e o governador também são dignas de menção, posto que prevalece no espírito o reparo a que V. Exa aludiu na sua carta. O coração exigira menos valor e astúcia da parte de Maria; mas, não é verdade que o amor vence as repugnâncias para vencer os obstáculos? Em todo o caso uma ligeira sombra não empana o fulgor da figura. — As cenas amorosas são escritas com paixão: as palavras saem naturalmente de uma alma para outra, prorrompem de um para outro coração. E que contraste melancólico não é aquele idílio às portas do desterro, quando já a justiça está prestes a vir separar os dois amantes! — Dir-se-á que eu só recomendo belezas e não encontro senões? Já apontei os que cuidei ver. Acho mais — duas ou três imagens que me não parecem felizes: e uma ou outra locução suscetível de emenda. Mas que é isto no meio das louçanias da forma? Que as demasias do estilo, a exuberância das metáforas, o excesso das figuras devem obter a atenção do autor, é coisa tão segura que eu me limito a mencioná-las: mas como não aceitar agradecido esta prodigalidade de hoje, que pode ser a sábia economia de amanhã? — Resta-me dizer que, pintando nos seus personagens a exaltação patriótica, o poeta não foi só à lição do fato, misturou talvez com essa exaltação um pouco do seu próprio sentir. É a homenagem do poeta ao cidadão. Mas, consorciando os sentimentos pessoais aos dos seus personagens, é inútil distinguir o caráter diverso dos tempos e das situações. Os sucessos que em 1822 nos deram uma pátria e uma dinastia, apagaram antipatias históricas que a arte deve reproduzir quando evoca o passado. — Tais foram as impressões que me deixou este drama viril, estudado e meditado, escrito com calor e com alma. A mão é inexperiente, mas a sagacidade do autor supre a inexperiência. Estudou e estuda; é um penhor que nos dá. Quando voltar aos arquivos históricos ou revolver as paixões contemporâneas, estou certo que o fará com a mão na consciência. Está moço, tem um belo futuro diante de si. Venha desde já alistar-se nas fileiras dos que devem trabalhar para restaurar o império das musas. — O fim é nobre, a necessidade é evidente. Mas o sucesso coroará a obra? É um ponto de interrogação que há de ter surgido no espírito de V. Exa. Contra estes intuitos, tão santos quanto indispensáveis, eu sei que há um obstáculo, e V. Exa. o sabe também: é a conspiração da indiferença. Mas a perseverança não pode vencê-la? Devemos esperar que sim. — Quanto a V. Exa, respirando nos degraus da nossa Tijuca o hausto puro e vivificante da natureza, vai meditando, sem dúvida, em outras obras-primas com que nos há de vir surpreender cá embaixo. Deve faze-lo sem temor. Contra a conspiração da indiferença, tem V. Exa um aliado invencível: é a conspiração da posteridade.

Fontes
Correio Mercantil, Rio de Janeiro, 22 de fevereiro de 1868
Correio Mercantil, Rio de Janeiro, 1 de março de 1868
Jornal de Poesia In
http://www.secrel.com.br/JPOESIA/

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Wilson Martins (Leituras machadianas)

(id:MCCXLVI)

Na imensa bibliografia machadiana, são raros e, por isso mesmo, tanto mais valiosos, os estudos críticos dignos de Machado de Assis. Situando-se entre os melhores e mais estimulantes, os de Alfredo Bosi (Machado de Assis: o enigma do olhar. São Paulo: Ática, 1999) abrem, de fato, novas avenidas de compreensão e análise do adjetivo “machadiano”, sobre o qual, escreve com evidente ironia, “as interpretações variam”, embora todos acreditem saber “mais ou menos” o que significa. Antes menos que mais, acrescento desde logo, a julgar pelo que andamos lendo nestes dias. É um pouco como o bom-senso, a coisa deste mundo mais bem distribuída, dizia Descartes com ironia não menor, porque ninguém jamais se queixou de não tê-lo em quantidade suficiente.

Mas, justamente: incontáveis leitores de Machado de Assis acreditam que basta o bom-senso para julgá-lo, reduzindo-o ao nível intelectual da humanidade comum, treslendo-o com entusiasmo e retórica veemência, acrescentando-lhe glosas fantasistas e sugerindo que, afinal de contas, não foi ele quem escreveu as suas obras, mas sim a talentosa Dona Carolina. Os espíritos geométricos não se conformam com a ambigüidade, que era a sua maneira própria de afirmar, enquanto as almas sensíveis repudiam o darwinismo social que constituía o fundo do seu pensamento e visão do mundo.

Alfredo Bosi observa, com agudeza, existir “algo de darwiniano” na sua concepção da existência humana: “é o universal animalesco que estaria dentro de cada um de nós, daí o embate contínuo pela preservação moldado sobre a luta biológica: quem não pode ser leão, seja raposa” (alusão a uma passagem clássica de maquiavel, “fundador da ciência política moderna;). A famosa filosofia do Humanitismo, na qual os leitores superficiais viram apenas a sátira do positivismo republicano então triunfante, é, na verdade, a transcrição machadiana do darwinismo social: os vencedores ficam com as batatas por serem os mais fortes, os mais qualificados para garantir a perpetuação da espécie.

Não se limitou a essa exposição didática o pensamento machadiano. Nas palavras de Alfredo Bosi, “há no Memorial desses momentos que se abrem para aquelas vertigens de neatividade que nos acometem lendo as Memórias póstumas: Ronda Aires, como rondava Brás Cubas, a tentação impaciente, a tentação violenta de se identificar com a Sociedade e a Natureza tal como as figurava a ideologia terrível do ‘darwinismo social’. Para esta, o morto é apenas matéria morta, e seu único destino é o esquecimento.” Tudo isso em dois livros escritos sob o signo da memória, mas também sob o signo da Natureza indiferente, personagem emblemática em outros dois textos: o delírio de Brás Cubas e o poema “Uma criatura”.

O que tem faltado aos intérpretes fragmentários de sua obra (como os que se obstinam no inexistente “enigma de Capitu”) é a leitura orgânica e remissiva da obra inteira, cuja coerência interior chega a ser surpreendente. Até a organicidade textual dos romances costuma passar despercebida. Assim, toma-se por declaração de misantropia a última linha do Brás Cubas (cap. CLX), quando ela apenas reflete o despeito e a nostalgia da paternidade do personagem que se encantara com a notícia da falsa gravidez de Virgìnia, chegando, como todos os pais putativos, a imaginar futuros brilhantes e vitoriosos para a criança que ia nascer. Só se pode realmente compreender essa página de um capítulo intitulado “Das negativas, [sic] se a lermos no contexto de quatro capítulos anteriores: “O mistério; (LXXXVI), “O velho colóquio de Adão e Caim, (XC), “A causa secreta; (XCIV) e “Flores de antanho; (XCV).

Que Machado de Assis pertencia à família espiritual dos grandes moralistas fica documentado nos excertos que Alfredo Bosi teve a idéia tanto mais feliz de transcrever em apêndice quanto não será temerário supor que não são lidos entre nós com a assiduidade necessária. Entre eles o Matias Aires das Reflexões sobre a vaidade dos homens, de onde provém outra “camada” caracteristicamente machadiana, didaticamente representada no “mais célebre dos seus contos-teoria”; (“O espelho”): “Tirada a insígnia, o que fica é o homem simples; despida a toga consular, também fica o mesmo. Se tirarmos do capitão a lança, o casco de ferro, e o peito de aço, não havemos de achar mais do que um homem inútil, e sem defesa, e por isso tímido e covarde.”

Ora, a mesma situação de “alma exterior” encontra-se em Dom Casmurro, quando Capitu, “em plena lua-de-mel, mostra-se impaciente e quer descer da Tijuca para a cidade“. A causa da impaciência, comenta o narrador, “eram os sinais exteriores do novo estado. Não lhe bastava ser casada entre quatro paredes e algumas árvores; precisava do resto do mundo também.” Episódio corroborado por muitos outros, sem excluir a natureza de diversas figuras femininas, como Sofia e a Guiomar de A mão e a luva, novela em que se encontra o embrião de Dom Casmurro, além da “teoria matrimonial” do autor: temperamentos afirmativos (Luís Alves e Guiomar) fazem os casamentos felizes, o que não ocorre entre um temperamento afirmativo (Capitu) e um passivo (Bentinho). Daí o corolário do adultério: Capitu e Escobar viram-se atraídos um pelo outro, pelo tropismo irresistível das almas gêmeas. O próprio Bentinho se encarregou de esclarecê-lo: ela era mais mulher do que ele mesmo era homem.

Fonte:
Gazeta do Povo, Curitiba, PR 26 de Abril de 1999
Jornal de Poesia In http://www.secrel.com.br/JPOESIA/

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Vinicius de Moraes (Para Viver Um Grande Amor)

(id:MCCXLV)
Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher… — não tem nenhum valor.

Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o “velho amigo”, que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.

Para viver um amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fidelidade — para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.

Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito — peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.

É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista — muito mais, muito mais que na modista! — para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor…

Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs — comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?

Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto — pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer “baixo” seu, a amada sente — e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia — para viver um grande amor.

É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que — que não quer nada com o amor.

Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e desvairada não se souber achar a bem-amada — para viver um grande amor.

Fonte:
MORAES, Vinicius de. Para Viver um Grande Amor. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1984. In
http://www.releituras.com

Fotomontagem: José Feldman

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Vinicius de Moraes (Antologia Poética)

(id:MCCXLIV)

Soneto a Katherine Mansfield

O teu perfume, amada — em tuas cartas
Renasce, azul… — são tuas mãos sentidas!
Relembro-as brancas, leves, fenecidas
Pendendo ao longo de corolas fartas.

Relembro-as, vou… nas terras percorridas
Torno a aspirá-lo, aqui e ali desperto
Paro; e tão perto sinto-te, tão perto
Como se numa foram duas vidas.

Pranto, tão pouca dor! tanto quisera
Tanto rever-te, tanto!… e a primavera
Vem já tão próxima! …(Nunca te apartas

Primavera, dos sonhos e das preces!)
E no perfume preso em tuas cartas
À primavera surges e esvaneces.

Vinicius, com este soneto, presta uma homenagem a Katherine Mansfield, nascida da Nova Zelândia e desde há muito considerada uma das melhores escritoras da língua inglesa.
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Soneto a Quatro Mãos
Paulo Mendes Campos e Vinícius de Moraes

Tudo de amor que existe em mim foi dado.
Tudo que fala em mim de amor foi dito.
Do nada em mim o amor fez o infinito
Que por muito tornou-me escravizado.

Tão pródigo de amor fiquei coitado
Tão fácil para amar fiquei proscrito.
Cada voto que fiz ergueu-se em grito
Contra o meu próprio dar demasiado.

Tenho dado de amor mais que coubesse
Nesse meu pobre coração humano
Desse eterno amor meu antes não desse.

Pois se por tanto dar me fiz engano
Melhor fora que desse e recebesse
Para viver da vida o amor sem dano.
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Soneto de aniversário

Passem-se dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos.

Faça-se a carne mais envilecida
Diminuam os bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que levar tudo de vencida.

Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura.

E eu te direi: amiga minha, esquece…
Que grande é este amor meu de criatura
Que vê envelhecer e não envelhece.

(Rio, 1942)
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Ternura

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma…
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar
[ extático da aurora.
***************

Soneto de Fidelidade

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
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Não Comerei da Alface a Verde Pétala

Não comerei da alface a verde pétala
Nem da cenoura as hóstias desbotadas
Deixarei as pastagens às manadas
E a quem maior aprouver fazer dieta.

Cajus hei de chupar, mangas-espadas
Talvez pouco elegantes para um poeta
Mas peras e maçãs, deixo-as ao esteta
Que acredita no cromo das saladas.

Não nasci ruminante como os bois
Nem como os coelhos, roedor; nasci
Omnívoro: dêem-me feijão com arroz

E um bife, e um queijo forte, e parati
E eu morrerei feliz, do coração
De ter vivido sem comer em vão.

(Iludia-se o poeta. Num tempo em que as coisas andaram meio pretas, ele teve que se enquadrar direitinho e andou comendo legumes na água e sal como qualquer outro).
***************

Mensagem à Poesia

Não posso
Não é possível
Digam-lhe que é totalmente impossível
Agora não pode ser
É impossível
Não posso.
Digam-lhe que estou tristíssimo, mas não posso ir esta noite ao seu encontro.

Contem-lhe que há milhões de corpos a enterrar
Muitas cidades a reerguer, muita pobreza pelo mundo.
Contem-lhe que há uma criança chorando em alguma parte do mundo
E as mulheres estão ficando loucas, e há legiões delas carpindo
A saudade de seus homens; contem-lhe que há um vácuo
Nos olhos dos párias, e sua magreza é extrema; contem-lhe
Que a vergonha, a desonra, o suicídio rondam os lares, e é preciso
reconquistar a vida
Façam-lhe ver que é preciso eu estar alerta, voltado para todos os caminhos
Pronto a socorrer, a amar, a mentir, a morrer se for preciso.
Ponderem-lhe, com cuidado – não a magoem… – que se não vou
Não é porque não queira: ela sabe; é porque há um herói num cárcere
Há um lavrador que foi agredido, há um poça de sangue numa praça.
Contem-lhe, bem em segredo, que eu devo estar prestes, que meus
Ombros não se devem curvar, que meus olhos não se devem
Deixar intimidar, que eu levo nas costas a desgraça dos homens
E não é o momento de parar agora; digam-lhe, no entanto
Que sofro muito, mas não posso mostrar meu sofrimento
Aos homens perplexos; digam-lhe que me foi dada
A terrível participação, e que possivelmente
Deverei enganar, fingir, falar com palavras alheias
Porque sei que há, longínqua, a claridade de uma aurora.
Se ela não compreender, oh procurem convencê-la
Desse invencível dever que é o meu; mas digam-lhe
Que, no fundo, tudo o que estou dando é dela, e que me
Dói ter de despojá-la assim, neste poema; que por outro lado
Não devo usá-la em seu mistério: a hora é de esclarecimento
Nem debruçar-me sobre mim quando a meu lado
Há fome e mentira; e um pranto de criança sozinha numa estrada
Junto a um cadáver de mãe: digam-lhe que há
Um náufrago no meio do oceano, um tirano no poder, um homem
Arrependido; digam-lhe que há uma casa vazia
Com um relógio batendo horas; digam-lhe que há um grande
Aumento de abismos na terra, há súplicas, há vociferações
Há fantasmas que me visitam de noite
E que me cumpre receber, contem a ela da minha certeza
No amanhã
Que sinto um sorriso no rosto invisível da noite
Vivo em tensão ante a expectativa do milagre; por isso
Peçam-lhe que tenha paciência, que não me chame agora
Com a sua voz de sombra; que não me faça sentir covarde
De ter de abandoná-la neste instante, em sua imensurável
Solidão, peçam-lhe, oh peçam-lhe que se cale
Por um momento, que não me chame
Porque não posso ir
Não posso ir
Não posso.

Mas não a traí. Em meu coração
Vive a sua imagem pertencida, e nada direi que possa
Envergonhá-la. A minha ausência.
É também um sortilégio
Do seu amor por mim. Vivo do desejo de revê-la
Num mundo em paz. Minha paixão de homem
Resta comigo; minha solidão resta comigo; minha
Loucura resta comigo. Talvez eu deva
Morrer sem vê-Ia mais, sem sentir mais
O gosto de suas lágrimas, olhá-la correr
Livre e nua nas praias e nos céus
E nas ruas da minha insônia. Digam-lhe que é esse
O meu martírio; que às vezes
Pesa-me sobre a cabeça o tampo da eternidade e as poderosas
Forças da tragédia abastecem-se sobre mim, e me impelem para a treva
Mas que eu devo resistir, que é preciso…
Mas que a amo com toda a pureza da minha passada adolescência
Com toda a violência das antigas horas de contemplação extática
Num amor cheio de renúncia. Oh, peçam a ela
Que me perdoe, ao seu triste e inconstante amigo
A quem foi dado se perder de amor pelo seu semelhante
A quem foi dado se perder de amor por uma pequena casa
Por um jardim de frente, por uma menininha de vermelho
A quem foi dado se perder de amor pelo direito
De todos terem um pequena casa, um jardim de frente
E uma menininha de vermelho; e se perdendo
Ser-lhe doce perder-se…
Por isso convençam a ela, expliquem-lhe que é terrível
Peçam-lhe de joelhos que não me esqueça, que me ame
Que me espere, porque sou seu, apenas seu; mas que agora
É mais forte do que eu, não posso ir
Não é possível
Me é totalmente impossível
Não pode ser não
É impossível
Não posso.
***************

Poema Enjoadinho

Filhos… Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-lo?
Se não os temos
Que de consulta
Quanto silêncio
Como os queremos!
Banho de mar
Diz que é um porrete…
Cônjuge voa
Transpõe o espaço
Engole água
Fica salgada
Se iodifica
Depois, que boa
Que morenaço
Que a esposa fica!
Resultado: filho.
E então começa
A aporrinhação:
Cocô está branco
Cocô está preto
Bebe amoníaco
Comeu botão.
Filhos? Filhos
Melhor não tê-los
Noites de insônia
Cãs prematuras
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-o!
Filhos são o demo
Melhor não tê-los…
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Como saber
Que macieza
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne
Que gosto doce
Na sua boca!
Chupam gilete
Bebem shampoo
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém, que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!
***************

Elegia Desesperada
(O Desespero da Piedade)

Meu Senhor, tende piedade dos que andam de bonde
E sonham no longo percurso com automóveis, apartamentos…
Mas tende piedade também dos que andam de automóvel
Quantos enfrentam a cidade movediça de sonâmbulos, na direção.

Tende piedade das pequenas famílias suburbanas
E em particular dos adolescentes que se embebedam de domingos
Mas tende mais piedade ainda de dois elegantes que passam
E sem saber inventam a doutrina do pão e da guilhotina

Tende muita piedade do mocinho franzino, três cruzes, poeta
Que só tem de seu as costeletas e a namorada pequenina
Mas tende mais piedade ainda do impávido forte colosso do esporte
E que se encaminha lutando, remando, nadando para a morte.

Tende imensa piedade dos músicos de cafés e de casas de chá
Que são virtuoses da própria tristeza e solidão
Mas tende piedade também dos que buscam o silêncio
E súbito se abate sobre eles uma ária da Tosca.

Não esqueçais também em vossa piedade os pobres que enriqueceram
E para quem o suicídio ainda é a mais doce solução
Mas tende realmente piedade dos ricos que empobreceram
E tornam-se heróicos e à santa pobreza dão um ar de grandeza.

Tende infinita piedade dos vendedores de passarinhos
Quem em suas alminhas claras deixam a lágrima e a incompreensão
E tende piedade também, menor embora, dos vendedores de balcão
Que amam as freguesas e saem de noite, quem sabe onde vão…

Tende piedade dos barbeiros em geral, e dos cabeleireiros
Que se efeminam por profissão mas são humildes nas suas carícias
Mas tende maior piedade ainda dos que cortam o cabelo:
Que espera, que angústia, que indigno, meu Deus!

Tende piedade dos sapateiros e caixeiros de sapataria
Quem lembram madalenas arrependidas pedindo piedade pelos sapatos
Mas lembrai-vos também dos que se calçam de novo
Nada pior que um sapato apertado, Senhor Deus.

Tende piedade dos homens úteis como os dentistas
Que sofrem de utilidade e vivem para fazer sofrer
Mas tente mais piedade dos veterinários e práticos de farmácia
Que muito eles gostariam de ser médicos, Senhor.

Tende piedade dos homens públicos e em particular dos políticos
Pela sua fala fácil, olhar brilhante e segurança dos gestos de mão
Mas tende mais piedade ainda dos seus criados, próximos e parentes
Fazei, Senhor, com que deles não saiam políticos também.

E no longo capítulo das mulheres, Senhor, tenha piedade das mulheres
Castigai minha alma, mas tende piedade das mulheres
Enlouquecei meu espírito, mas tende piedade das mulheres
Ulcerai minha carne, mas tende piedade das mulheres!

Tende piedade da moça feia que serve na vida
De casa, comida e roupa lavada da moça bonita
Mas tende mais piedade ainda da moça bonita
Que o homem molesta — que o homem não presta, não presta, meu Deus!

Tende piedade das moças pequenas das ruas transversais
Que de apoio na vida só têm Santa Janela da Consolação
E sonham exaltadas nos quartos humildes
Os olhos perdidos e o seio na mão.

Tende piedade da mulher no primeiro coito
Onde se cria a primeira alegria da Criação
E onde se consuma a tragédia dos anjos
E onde a morte encontra a vida em desintegração.

Tende piedade da mulher no instante do parto
Onde ela é como a água explodindo em convulsão
Onde ela é como a terra vomitando cólera
Onde ela é como a lua parindo desilusão.

Tende piedade das mulheres chamadas desquitadas
Porque nelas se refaz misteriosamente a virgindade
Mas tende piedade também das mulheres casadas
Que se sacrificam e se simplificam a troco de nada.

Tende piedade, Senhor, das mulheres chamadas vagabundas
Que são desgraçadas e são exploradas e são infecundas
Mas que vendem barato muito instante de esquecimento
E em paga o homem mata com a navalha, com o fogo, com o veneno.

Tende piedade, Senhor, das primeiras namoradas
De corpo hermético e coração patético
Que saem à rua felizes mas que sempre entram desgraçadas
Que se crêem vestidas mas que em verdade vivem nuas.

Tende piedade, Senhor, de todas as mulheres
Que ninguém mais merece tanto amor e amizade
Que ninguém mais deseja tanto poesia e sinceridade
Que ninguém mais precisa tanto alegria e serenidade.

Tende infinita piedade delas, Senhor, que são puras
Que são crianças e são trágicas e são belas
Que caminham ao sopro dos ventos e que pecam
E que têm a única emoção da vida nelas.

Tende piedade delas, Senhor, que uma me disse
Ter piedade de si mesma e da sua louca mocidade
E outra, à simples emoção do amor piedoso
Delirava e se desfazia em gozos de amor de carne.

Tende piedade delas, Senhor, que dentro delas
A vida fere mais fundo e mais fecundo
E o sexo está nelas, e o mundo está nelas
E a loucura reside nesse mundo.

Tende piedade, Senhor, das santas mulheres
Dos meninos velhos, dos homens humilhados — sede enfim
Piedoso com todos, que tudo merece piedade
E se piedade vos sobrar, Senhor, tende piedade de mim!
***************

Elegia Lírica

(…)
A minha namorada é tão bonita, tem olhos como besourinhos do céu
Tem olhos como estrelinhas que estão sempre balbuciando aos passarinhos…
É tão bonita! tem um cabelo fino, um corpo menino e um andar pequenino
E é a minha namorada… vai e vem como uma patativa, de repente morre de amor
Tem fala de S e dá a impressão que está entrando por uma nuvem adentro…
Meu Deus, eu queria brincar com ela, fazer comidinha, jogar nai-ou-nentes
Rir e num átimo dar um beijo nela e sair correndo
E ficar de longe espiando-lhe a zanga, meio vexado, meio sem saber o que faça…
A minha namorada é muito culta, sabe aritmética, geografia, história, contraponto
E se eu lhe perguntar qual a cor mais bonita ela não dirá que é a roxa porém brique.
Ela faz coleção de cactos, acorda cedo vai para o trabalho
E nunca se esquece que é a menininha do poeta.
Se eu lhe perguntar: Meu anjo, quer ir à Europa? ela diz: Quero se mamãe for!
Se eu lhe perguntar: Meu anjo, quer casar comigo? Ela diz… — não, ela não acredita.
É doce! gosta muito de mim e sabe dizer sem lágrimas:
Vou sentir tantas saudades quando você for…
É uma nossa senhorazinha, é uma cigana, é uma coisa
Que me faz chorar na rua, dançar no quarto, ter vontade de me matar e de ser presidente da república.
É boba, ela! tudo faz, tudo sabe, é linda, ó anjo de Domremy!
Dêem-lhe uma espada, constrói um reino ; dêem-lhe uma agulha, faz um crochê
Dêem-lhe um teclado, faz uma aurora, dêem-lhe razão, faz uma briga…!
E do pobre ser que Deus lhe deu, eu, filho pródigo, poeta cheio de erros
Ela fez um eterno perdido…
***************

Pátria Minha

A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos…
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu…

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda…
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha… A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
“Liberta que serás também”
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão…
Que vontade de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
“Pátria minha, saudades de quem te ama…
Vinicius de Moraes.”

***************

A Brusca Poesia da Mulher Amada

I
Longe dos pescadores os rios infindáveis vão morrendo de sede lentamente…
Eles foram vistos caminhando de noite para o amor – oh, a mulher amada é como a fonte!
A mulher amada é como o pensamento do filósofo sofrendo
A mulher amada é como o lago dormindo no cerro perdido
Mas quem é essa misteriosa que é como um círio crepitando no peito?
Essa que tem olhos, lábios e dedos dentro da forma inexistente?
Pelo trigo a nascer nas campinas de sol a terra amorosa elevou a face pálida dos lírios.
E os lavradores foram se mudando em príncipes de mãos finas e rostos transfigurados…
Oh, a mulher amada é como a onda sozinha correndo distante das praias
Pousada no fundo estará a estrela, e mais além.

II
A mulher amada carrega o cetro, o seu fastígio
É máximo. A mulher amada é aquela que aponta para a noite
E de cujo seio surge a aurora. A mulher amada
É quem traça a curva do horizonte e dá linha ao movimento dos astros.
Não há solidão sem que sobrevenha a mulher amada
Em seu acúmen. A mulher amada é o padrão índigo da cúpula
E o elemento verde antagônico. A mulher amada
É o tempo passado no tempo presente no tempo futuro
No sem tempo. A mulher amada é o navio submerso
É o tempo submerso, é a montanha imersa em líquen.
É o mar, é o mar, é o mar a mulher amada
E sua ausência. Longe, no fundo plácido da noite
Outra coisa não é senão o seio da mulher amada
Que ilumina a cegueira dos homens. Alta, tranqüila e trágica
É essa que eu chamo pelo nome de mulher amada.
Nascitura. Nascitura da mulher amada
É a mulher amada. A mulher amada é a mulher amada é a mulher amada
É a mulher amada. Quem é que semeia o vento? – a mulher amada!
Quem colhe a tempestade? – a mulher amada!
Quem determina os meridianos? – a mulher amada!
Quem a misteriosa portadora de si mesma? A mulher amada.
Talvegue, estrela, petardo
Nada a não ser a mulher amada necessariamente amada
Quando! E de outro não seja, pois é ela
A coluna e o gral, a fé e o símbolo, implícita
Na criação. Por isso, seja ela! A ela o canto e a oferenda
O gozo e o privilégio, a taça erguida e o sangue do poeta
Correndo pelas ruas e iluminando as perplexidades.
Eia, a mulher amada! Seja ela o princípio e o fim de todas as coisas.
Poder geral, completo, absoluto à mulher amada!

III
Minha mãe, alisa de minha fronte todas as cicatrizes do passado
Minha irmã, conta-me histórias da infância em que que eu haja sido herói sem mácula
Meu irmão, verifica-me a pressão, o colesterol, a turvação do timol, a bilirrubina
Maria, prepara-me uma dieta baixa em calorias, preciso perder cinco quilos
Chamem-me a massagista, o florista, o amigo fiel para as confidências
E comprem bastante papel; quero todas as minhas esferográficas
Alinhadas sobre a mesa, as pontas prestes à poesia.
Eis que se anuncia de modo sumamente grave
A vinda da mulher amada, de cuja fragrância
já me chega o rastro.
É ela uma menina, parece de plumas
E seu canto inaudível acompanha desde muito a migração dos ventos
Empós meu canto. É ela uma menina.
Como um jovem pássaro, uma súbita e lenta dançarina
Que para mim caminha em pontas, os braços suplicantes
Do meu amor em solidão. Sim, eis que os arautos
Da descrença começam a encapuçar-se em negros mantos
Para cantar seus réquiens e os falsos profetas
A ganhar rapidamente os logradouros para gritar suas mentiras.
Mas nada a detém; ela avança, rigorosa
Em rodopios nítidos
Criando vácuos onde morrem as aves.
Seu corpo, pouco a pouco
Abre-se em pétalas… Ei-la que vem vindo
Como uma escura rosa voltejante
Surgida de um jardim imenso em trevas.
Ela vem vindo… Desnudai-me, aversos!
Lavai-me, chuvas! Enxugai-me, ventos!
Alvoroçai-me, auroras nascituras!
Eis que chega de longe, como a estrela
De longe, como o tempo
A minha amada última!
***************

Poeta na Madrugada

Quando o poeta chegou à cidade
A aurora vinha clareando o céu distante
E as primeiras mulheres passavam levando cântaros cheios.
Os olhos do poeta tinham as claridades da aurora
E ele cantou a beleza da nova madrugada.
As mulheres beijaram a fronte do poeta
E rogaram o seu amor.
O poeta sorriu.
Mostrou-lhes no céu claro o pássaro que voava
E disse que a visão da beleza era da poesia
O poeta tem a alegria que vive na luz
E tem a mocidade que nasce da luz.
As mulheres seguiram o poeta
Oferecendo a tristeza do seu amor e a alegria da sua carne
O poeta amou a carne das mulheres
Mas não envelheceu no amor que elas lhe davam.
O poeta quando ama
É como a flor que murcha sem seiva
Porque o amor do poeta
É a seiva do mundo
E se o poeta amasse
Ele não viveria eternamente jovem, brilhando na luz.

Quando a nova madrugada raiou no céu distante
O poeta já tinha partido
E seguindo o poeta as mulheres de peitos fartos e de cântaros cheios
Falavam de ardentes promessas de amor.
*****************************

Fontes:
– MORAES, Vinicius de. Antologia Poética. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1960.
– MORAES, Vinicius de. Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro:: Editora Nova Aguilar, 1998.
– MORAES, Vinicius de. Para Viver um Grande Amor. Rio de Janeiro:: Livraria José Olympio, 1984.
http://www.releituras.com
http://www.colegiosaofrancisco.com.br

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Vinicius de Moraes (Poesias para Crianças)

(id:MCCXLIII)
A Arca de Noé

Sete em cores, de repente
O arco-íris se desata
Na água límpida e contente
Do ribeirinho da mata.
O sol, ao véu transparente
Da chuva de ouro e de prata
Resplandece resplendente
No céu, no chão, na cascata.

E abre-se a porta da Arca
De par em par: surgem francas
A alegria e as barbas brancas
Do prudente patriarca

Noé, o inventor da uva
E que, por justo e temente
Jeová, clementemente
Salvou da praga da chuva.

Tão verde se alteia a serra
Pelas planuras vizinhas
Que diz Noé: “Boa terra
Para plantar minhas vinhas!”

E sai levando a família
A ver; enquanto, em bonança
Colorida maravilha
Brilha o arco da aliança.

Ora vai, na porta aberta
De repente, vacilante
Surge lenta, longa e incerta
Uma tromba de elefante.

E logo após, no buraco
De uma janela, aparece
Uma cara de macaco
Que espia e desaparece.

Enquanto, entre as altas vigas
Das janelinhas do sótão
Duas girafas amigas
De fora a cabeça botam.

Grita uma arara, e se escuta
De dentro um miado e um zurro
Late um cachorro em disputa
Com um gato, escouceia um burro.

A Arca desconjuntada
Parece que vai ruir
Aos pulos da bicharada
Toda querendo sair.
Vai! Não vai! Quem vai primeiro?
As aves, por mais espertas
Saem voando ligeiro
Pelas janelas abertas.

Enquanto, em grande atropelo
Junto à porta de saída
Lutam os bichos de pelo
Pela terra prometida.

“Os bosques são todos meus!”
Ruge soberbo o leão
“Também sou filho de Deus!”
Um protesta; e o tigre — “Não!”

Afinal, e não sem custo
Em longa fila, aos casais
Uns com raiva, outros com susto
Vão saindo os animais.

Os maiores vêm à frente
Trazendo a cabeça erguida
E os fracos, humildemente
Vêm atrás, como na vida.

Conduzidos por Noé
Ei-los em terra benquista
Que passam, passam até
Onde a vista não avista

Na serra o arco-íris se esvai . . .
E . . . desde que houve essa história
Quando o véu da noite cai
Na terra, e os astros em glória

Enchem o céu de seus caprichos
É doce ouvir na calada
A fala mansa dos bichos
Na terra repovoada.
***************

O Girassol

Sempre que o sol
Pinta de anil
Todo o céu
O girassol
Fica um gentil
Carrossel.
O girassol é o carrossel das abelhas.
Pretas e vermelhas
Ali ficam elas
Brincando, fedelhas
Nas pétalas amarelas.
— Vamos brincar de carrossel, pessoal?
— “Roda, roda, carrossel
Roda, roda, rodador
Vai rodando, dando mel
Vai rodando, dando flor”

— Marimbondo não pode ir que é bicho mau!

— Besouro é muito pesado!

— Borboleta tem que fingir de borboleta na
entrada!

— Dona Cigarra fica tocando seu realejo!
— “Roda, roda, carrossel
Gira, gira, girassol
Redondinho como o céu
Marelinho como o sol”.

E o girassol vai girando dia afora . . .

O girassol é o carrossel das abelhas
***************

O Relógio

Passa, tempo, tic-tac
Tic-tac, passa, hora
Chega logo, tic-tac
Tic-tac, e vai-te embora
Passa, tempo
Bem depressa
Não atrasa
Não demora
Que já estou
Muito cansado
Já perdi
Toda a alegria
De fazer
Meu tic-tac
Dia e noite
Noite e dia
Tic-tac
Tic-tac
Tic-tac . . .
***************

O Elefantinho

Onde vais, elefantinho
Correndo pelo caminho
Assim tão desconsolado?
Andas perdido, bichinho
Espetaste o pé no espinho
Que sentes, pobre coitado?
— Estou com um medo danado
Encontrei um passarinho!
***************

O Gato

Com um lindo salto
Lesto e seguro
O gato passa
Do chão ao muro
Logo mudando
De opinião
Passa de novo
Do muro ao chão
E pega corre
Bem de mansinho
Atrás de um pobre
De um passarinho
Súbito, pára
Como assombrado
Depois dispara
Pula de lado
E quando tudo
Se lhe fatiga
Toma o seu banho
Passando a língua
Pela barriga.
***************

A Cachorrinha

Mas que amor de cachorrinha!
Mas que amor de cachorrinha!

Pode haver coisa no mundo
Mais branca, mais bonitinha
Do que a tua barriguinha
Crivada de mamiquinha?
Pode haver coisa no mundo
Mais travessa, mais tontinha
Que esse amor de cachorrinha
Quando vem fazer festinha
Remexendo a traseirinha?
***************

O Pato

Lá vem o Pato
Pata aqui, pata acolá
La vem o Pato
Para ver o que é que há.

O Pato pateta
Pintou o caneco
Surrou a galinha
Bateu no marreco
Pulou do poleiro
No pé do cavalo
Levou um coice
Criou um galo
Comeu um pedaço
De jenipapo
Ficou engasgado
Com dor no papo
Caiu no poço
Quebrou a tigela
Tantas fez o moço
Que foi pra panela
***************

A Casa

Era uma casa
Muito engraçada
Não tinha teto
Não tinha nada
Ninguém podia
Entrar nela não
Porque na casa
Não tinha chão
Ninguém podia
Dormir na rede
Porque na casa
Não tinha parede
Ninguém podia
Fazer pipi
Porque penico
Não tinha ali
Mas era feita
Com muito esmero
Na Rua dos Bobos
Número Zero

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Vinicius de Moraes (1913 – 1980)

(id:MCCXLII)
“São demais os perigos desta vida
Pra quem tem paixão principalmente
Quando uma lua chega de repente
E se deixa no céu, como esquecida
E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher…”

O biógrafo de Vinicius, José Castello, autor do livro “Vinicius de Moraes: o Poeta da Paixão – uma biografia” nos diz que o poeta foi um homem que viveu para se ultrapassar e para se desmentir. Para se entregar totalmente e fugir, depois, em definitivo. Para jogar, enfim, com as ilusões e com a credulidade, por saber que a vida nada mais é que uma forma encarnada de ficção. Foi, antes de tudo, um apaixonado — e a paixão, sabemos desde os gregos, é o terreno do indomável. Daí porque fazer sua biografia era obra ingrata.

Dele disse Carlos Drummond de Andrade: “Vinicius é o único poeta brasileiro que ousou viver sob o signo da paixão. Quer dizer, da poesia em estado natural”. “Eu queria ter sido Vinicius de Moraes”. Otto Lara Resende assim o definiu: “Manuel Bandeira viveu e morreu com as raízes enterradas no Recife. João Cabral continua ligado à cana-de-açúcar. Drummond nunca deixou de ser mineiro. Vinicius é um poeta em paz com a sua cidade, o Rio. É o único poeta carioca“. Mas ele dizia nada mais ser que “um labirinto em busca de uma saída“.

O que torna Vinicius um grande poeta é a percepção do lado obscuro do homem. E a coragem de enfrentá-lo. Parte, desde o princípio, dos temas fundamentais: o mistério, a paixão e a morte. Quando deixa a poesia em segundo plano para se tornar show-man da MPB, para viver nove casamentos, para atravessar a vida viajando, Vinicius está exercendo, mais que nunca, o poder que Drummond descreve, sem conseguir dissimular sua imensa inveja: “Foi o único de nós que teve a vida de poeta“.

Marcus Vinitius da Cruz e Mello Moraes aos nove anos de idade parece que pressente o poeta: vai, com a irmã Lygia ao cartório na Rua São José, centro do Rio, e altera seu nome para Vinicius de Moraes. Nascido em 19-10-1913, na Rua Lopes Quintas, 114 — bairro da Gávea, na Cidade Maravilhosa, desde cedo demonstra seu pendor para a poesia. Criado por sua mãe, Lydia Cruz de Moraes, que, dentre outras qualidades, era exímia pianista, e ao lado do pai, Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, poeta bissexto, Vinicius cresce morando em diversos bairros do Rio, infância e juventude depois contadas em seus versos, que refletiam o pensamento da geração de 1940 em diante.

Em 1916, a família muda-se para a rua Voluntários da Pátria, 129, no bairro de Botafogo, passando a residir com os avós paternos, Maria da Conceição de Mello Moraes e Anthero Pereira da Silva Moraes.

No ano seguinte mudam-se para a rua da Passagem, 100, no mesmo bairro. Nasce seu irmão Helius. Com a irmão Lydia, passa a freqüentar a escola primária Afrânio Peixoto, à rua da Matriz.

Em 1920, por disposição de seu avô materno, é batizado na maçonaria, cerimônia que lhe causaria grande impressão.

Após três outras mudanças, em 1922 a família transfere-se para a Ilha do Governador, na praia de Cocotá, 109-A.

Faz sua primeira comunhão na Matriz da rua Voluntários da Pátria, no ano seguinte.

Em 1924, inicia o Curso Secundário no Colégio Santo Inácio, na rua São Clemente. Começa a cantar no coro do colégio nas missas de domingo, criando fortes laços de amizade com seus colegas Moacyr Veloso Cardoso de Oliveira e Renato Pompéia da Fonseca Guimarães, este sobrinho de Raul Pompéia. Participa, como ator, em peças infantis.

Torna-se amigo dos irmãos Paulo e Haroldo Tapajóz, em 1927, com os quais começa a compor. Com eles, e alguns colegas do colégio, forma um pequeno conjunto musical que atua em festinhas, em casas de famílias conhecidas.

Compõe, no ano seguinte, com os irmãos Tapajóz, “Loura ou morena” e “Canção da noite”, que têm grande sucesso. Nessa época, namora invariavelmente todas as amigas de sua irmã Laetitia.

A família volta a morar na rua Lopes Quintas em 1929, ano em que Vinicius bacharela-se em Letras no Santo Inácio. No ano seguinte entra para a faculdade de Direito da rua do Catete, sem vocação especial. Defende tese sobre a vinda de d. João VI para o Brasil, para ingressar no “Centro Acadêmico de Estudos Jurídicos e Sociais” (CAJU), tornando-se amigo de Otávio de Faria, San Thiago Dantas, Thiers Martins Moreira, Antônio Galloti, Gilson Amado, Hélio Viana, Américo Jacobina Lacombe, Chermont de Miranda, Almir de Andrade e Plínio Doyle.

Em 1931, entra para o Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR).

Forma-se em Direito e termina o Curso de Oficial da Reserva, em 1933. Estimulado por Otávio de Faria, publica seu primeiro livro, O caminho para a distância, na Schimidt Editora.

Forma e exegese, seu livro de poesias lançado em 1935, ganha o prêmio Felipe d’Oliveira.

Em 1936, substitui Prudente de Moraes Neto como representante do Ministério da Educação junto à Censura Cinematográfica. Publica, em separata, o poema “Ariana, a mulher”. Conhece o poeta Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, dos quais se torna amigo.

Em 1938, é agraciado com a primeira bolsa do Conselho Britânico para estudar língua e literatura inglesas na Universidade de Oxford, para onde parte em agosto daquele ano. Trabalha como assistente do programa brasileiro da BBC. Conhece, então, na casa de Augusto Frederico Schmidt, o poeta e músico Jayme Ovalle, de quem se tornaria um dos maiores amigos. Instado por outro grande amigo, Otávio de Faria, a se tornar um poeta mais com os pés no chão, e não o “inquilino do sublime” como, então, o chamou, lança Novos Poemas. Seguindo esta mesma linha, são lançados, posteriormente, Cinco Elegias, em 1943, e Poemas, Sonetos e Baladas, escrito em 1946, que já começam a mostrar o poeta sensual e lírico, mas, como ele próprio disse, um “poeta do cotidiano”.

No ano seguinte, casa-se por procuração com Beatriz Azevedo de Mello. No final desse ano, retorna ao Brasil devido à eclosão da II Grande Guerra. Parte da viagem é feita em companhia de Oswald de Andrade.

O ano de 1940 marca o nascimento de sua primeira filha, Suzana. Torna-se amigo de Mário de Andrade.

Estréia como crítico de cinema e colaborador no Suplemento Literário do jornal “A Manhã”, em companhia de Cecília Meireles, Manuel Bandeira e Afonso Arinos de Melo Franco, sob a orientação de Múcio Leão e Cassiano Ricardo, em 1941.

Em 1942, nasce seu filho Pedro. Favorável ao cinema silencioso, Vinicius inicia um debate sobre o assunto com Ribeiro Couto, que depois se estende à maioria dos escritores brasileiros mais em voga, e do qual participam Orson Welles e madame Falconetti. A convite do então prefeito de Belo Horizonte (MG), Juscelino Kubitschek, chefia uma caravana de escritores brasileiros àquela cidade, onde se liga por amizade a Hélio Pelegrino, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino e Otto Lara Resende. Juntamente com Rubem Braga e Moacyr Werneck de Castro, inicia a roda literária do Café Vermelhinho, no Rio de Janeiro, à qual se misturam a maioria dos jovens arquitetos e artistas plásticos da época, como Oscar Niemeyer, Carlos Leão, Afonso Reidy, Jorge Moreira, José Reis, Alfredo Ceschiatti, Santa Rosa, Pancetti, Augusto Rodrigues, Djanira e Bruno Giorgi, entre outros. Conheceu a escritora argentina Maria Rosa Oliveira e, através dela, Gabriela Mistral. Freqüenta as domingueiras na casa de Aníbal Machado. Ainda nesse ano, faz extensa viagem ao Nordeste do Brasil acompanhando o escritor americano Waldo Frank, a qual muda radicalmente sua visão política, tornando-se um antifacista convicto. Na estada em Recife, conhece o poeta João Cabral de Melo Neto, de quem se tornaria, depois, grande amigo.

No ano seguinte, ingressa, por concurso, na carreira diplomática. Publica Cinco Elegias em edição mandada fazer por Manuel Bandeira, Aníbal Machado e Otávio de Faria.

Dirige, em 1944, o Suplemento Literário de “O Jornal”, onde lança, entre outros, Pedro Nava, Francisco de Sá Pires, Oscar Niemeyer, Carlos Leão, Marcelo Garcia e Lúcio Rangel, em colunas assinadas, e publica desenhos de artistas plásticos até então pouco conhecidos, como Athos Bulcão, Maria Helena Vieira da Silva, Alfredo Ceschiatti, Carlos Scliar, Eros (Martin) Gonçalves e Arpad Czenes.

Em 1945, um grande susto: sofre grave desastre de avião na viagem inaugural do hidro “Leonel de Marnier”, perto da cidade de Rocha, no Uruguai. Em sua companhia estão Aníbal Machado e Moacyr Werneck de Castro. Colabora com vários jornais e revistas, como articulista e crítico de cinema. Escreve crônicas diárias para o jornal “Diretrizes”. Faz amizade com o poeta chileno Pablo Neruda.

No ano de 1946, assume seu primeiro posto diplomático: vice-consul do Brasil em Los Angeles, Califórnia (USA). Ali permanece por quase cinco anos, sem retornar ao seu país. Publica, em edição de luxo, com ilustrações de Carlos Leão, seu livro, Poemas, sonetos e baladas.

Vinicius, amante da sétima arte, inicia seus estudos de cinema com Orson Welles e Gregg Toland. Lança, com Alex Viany, a revista Film, em 1947.

Em 1949, João Cabral de Melo Neto tira, em sua prensa manual, em Barcelona, uma edição de cinqüenta exemplares de seu poema Pátria Minha.

Visita o poeta Pablo Neruda, no México, que se encontrava gravemente enfermo. Ali conhece o pinto Diogo Siqueiros e reencontra o pintos Di Cavalcanti. Morre seu pai. Volta ao Brasil, em 1950.

No ano seguinte, casa-se, pela segunda vez, com Lila Maria Esquerdo e Bôscoli. A convite de Samuel Wainer, começa a colaborar no jornal “Última Hora”, como cronista diário e posteriormente crítico de cinema.

Em 1952, é nomeado delegado junto ao Festival de Punta del Este, fazendo paralelamente sua cobertura para “Última Hora”. Terminado o evento, parte para a Europa, encarregado de estudar a organização dos festivais de cinema de Cannes, Berlim, Locarno e Veneza, no sentido da realização do Festival de Cinema de São Paulo, dentro das comemorações do IV Centenário da cidade. Em Paris, conhece seu tradutor francês, Jean Georges Rueff, com quem trabalha, em Estrasburgo, na tradução de suas Cinco Elegias. Sob encomenda do diretor Alberto Cavalcanti, com seus primos Humberto e José Francheschi, visita, fotografa e filma as cidades mineiras que compõem o roteiro do Aleijadinho, com vistas à realização de um filme sobre a vida do escultor.

Em 1953, nasce sua filha Georgiana. Compõe seu primeiro samba, música e letra, “Quando tu passas por mim”. Faz crônicas diárias para o jornal “A Vanguarda” e colabora no tablóide semanário “Flan”, de “Última Hora”. Parte para Paris como segundo secretário de Embaixada. Escreve Orfeu da Conceição, obra que seria premiada no Concurso de Teatro do IV Centenário da Cidade de São Paulo no ano seguinte, e que teve montagem teatral em 1956, com cenários de Oscar Niemeyer. Posteriormente transformada em filme (com o nome de Orfeu negro) pelo diretor francês Marcel Camus, em 1959, obteve grande sucesso internacional, tendo sido premiada com a Palma de Ouro no Festival de Cannes e com o Oscar, em Hollywood, como o melhor filme estrangeiro do ano. Nesse filme acontece seu primeiro trabalho com Antônio Carlos Jobim (Tom Jobim).

Sai da primeira edição de sua Antologia Poética. A revista “Anhembi” publica Orfeu da Conceição, em 1954.

No ano seguinte, compõe, em Paris, uma série de canções de câmara com o maestro Cláudio Santoro. Começa a trabalhar para o produtor Sasha Gordine, no roteiro do filme Orfeu negro. Volta ao Brasil em curta estada, buscando obter financiamento para a realização do filme. Diante do insucesso da missão, retorna a Paris em fins de dezembro.

Em 1956, retorna à pátria, no gozo de licença-prêmio. Nasce sua filha, Luciana. A convite de Jorge Amado, colabora no quinzenário “Para Todos”, onde publica, na primeira edição, o poema O operário em construção. A peça Orfeu da Conceição é encenada no Teatro Municipal, que aparece também em edição comemorativa de luxo, ilustrada por Carlos Scliar. As músicas do espetáculo são de autoria de Antônio Carlos Jobim, dando início a uma parceria que, tempos depois, com a inclusão do cantor e violonista João Gilberto, daria início ao movimento de renovação da música popular brasileira que se convencionou chamar de bossa nova. Retorna ao posto, em Paris, no final do ano.

Publica Livro de Sonetos, em edição de Livros de Portugal, em 1957. É transferido da Embaixada em Paris para a Delegação do Brasil junto à UNESCO. No final do ano é transferido para Montevidéu, regressando, em trânsito, ao Brasil.

Em 1958, sofre um grave acidente de automóvel. Casa-se com Maria Lúcia Proença. Parte para Montevidéu. Sai o LP “Canção do amor demais”, de músicas suas com Antônio Carlos Jobim, cantadas por Elizete Cardoso. No disco ouve-se, pela primeira vez, a batida da bossa nova, no violão de João Gilberto, que acompanha a cantora em algumas faixas, entre as quais o samba “Chega de saudade”, considerado o marco inicial do movimento.

1959 marca o lançamento do LP “Por toda a minha vida”, de canções suas com Jobim, pela cantora Lenita Bruno. Casa-se sua filha Susana.

No ano seguinte, retorna à Secretaria de Estado das Relações Exteriores. Em novembro, nasce seu neto Paulo. Sai a segunda edição de sua Antologia Poética, uma edição popular da peça Orfeu da Conceição e Recette de femme et autres poèmes, tradução de Jean-Georges Rueff.

Começa a compor com Carlos Lyra e Pixinguinha. Aparece Orfeu negro, em tradução italiana de P. A. Jannini, em 1961.

Dá início à composição de uma série de afro-sambas, em parceria com Baden Powell, entre os quais “Berimbau” e “Canto de Ossanha”. Com Carlos Lyra, compõe as canções de sua comédia musicada Pobre menina rica. Em agosto desse ano, 1962, faz seu primeiro show, que obteve grande repercussão, ao lado de Jobim e João Gilberto, na boate “Au Bon Gourmet”, iniciando a fase dos “pocket-shows”, onde foram lançados grandes sucessos internacionais como “Garota de Ipanema” e “Samba da benção”. Na mesma boate, faz apresentação com Carlos Lyra para apresentar “Pobre menina rica”, ocasião em que é lançada a cantora Nara Leão. Compõe, com Ary Barroso, as últimas canções do grande mestre da MPB, como “Rancho das Namoradas”. É lançado o livro Para viver um grande amor. Grava, como cantor, um disco com a atriz e cantora Odete Lara.

Em 1963, inicia uma parceria que produziria grandes sucessos com Edu Lobo. Casa-se com Nelita Abreu Rocha e retorna a Paris, assumindo posto na Delegação do Brasil junto à UNESCO.

No início da revolução de 1964, retorna ao Brasil e colabora com crônicas semanais para a revista “Fatos e Fotos”, ao mesmo tempo em que assinava crônicas sobre música popular para o “Diário Carioca”. Começa a compor com Francis Hime. Com Dorival Caymmi, participa de show muito sucesso na boate Zum-Zum, onde lança o Quarteto em Cy. Desse show é feito um LP.

1965 marca o lançamento de Cordélia e o peregrino, em edição do Serviço de Documentação do Ministério de Educação e Cultura. Ganha o primeiro e segundo lugares do I Festival de Música Popular de São Paulo, da TV Record, em canções de parceria com Edu Lobo e Baden Powell. Parte para Paris e St. Maxime para escrever o roteiro do filme “Arrastão”. Indispõem-se com o diretor e retira suas músicas do filme. Parte de Paris para Los Angeles a fim de encontrar-se com Jobim. Muda-se de Copacabana para o Jardim Botânico, à rua Diamantina, 20. Começa a trabalhar no roteiro do filme “Garota de Ipanema”, dirigido por Leon Hirszman. Volta ao show com Caymmi, na boate Zum-Zum.

No ano seguinte é lançado o livro Para uma menina com uma flor. São feitos documentários sobre o poeta pelas televisões americana, alemã, italiana e francesa. Seu “Samba da benção”, em parceria com Baden Powell, é incluído, em versão do compositor e ator Pierre Barouh, no filme “Un homme… une femme”, vencedor do Festival de Cannes do mesmo ano. Vinicius participa do juri desse festival.

Em 1967, sai a sexta edição de sua Antologia Poética e a segunda de Livro de Sonetos (aumentada). Faz parte do júri do Festival de Música Jovem, na Bahia. Ocorre a estréia do filme “Garota de Ipanema”. É colocado à disposição do governo de Minas Gerais no sentido de estudar a realização anual de um Festival de Arte em Ouro Preto.

Falece sua mãe, em 25 de fevereiro de 1968. Aparece a primeira edição de sua Obra Poética. Seus poemas são traduzidos para o italiano por Ungaretti.

Em 1969, é exonerado do Itamaraty. Casa-se com Cristina Gurjão, com quem tem uma filha chamada Maria.

No ano seguinte, casa-se com a atriz baiana Gesse Gessy. Inicia parceria com o violonista Toquinho.

Em 1971, muda-se para Salvador, Bahia. Viaja pela Itália, numa espécie de auto-exílio. No ano seguinte, com Toquinho, lança naquele país o LP “Per vivere un grande amore”.

A Pablo Neruda é lançado em 1973. Trabalha, no ano seguinte, no roteiro, não concretizado, do filme “Polichinelo”. Participa de show com Toquinho e a cantora Maria Creuza, no Rio. Confirmando os boatos de que o governo o perseguia, excursiona pela Europa e grava dois discos na Itália com Toquinho, em 1975.

Em 1976, novo casamento, agora com Marta Rodrigues Santamaria. Escreve as letras de “Deus lhe pague”, em parceria com Edu Lobo.

Participa de show na casa de espetáculos “Canecão”, no Rio, com Tom Jobim, Toquinho e Miúcha. Grava um LP em Paris, com Toquinho, em 1977.

No ano seguinte, excursiona com Toquinho pela Europa. Casa-se com Gilda de Queirós Matoso.

Em 1979, participa de leitura de poemas no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo (SP), a convite do líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva. Voltando de viagem à Europa, sofre um derrame cerebral no avião. Perdem-se, na ocasião, os originais de Roteiro lírico e sentimental da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

No dia 17 de abril de 1980, é operado para a instalação de um dreno cerebral. Morre, na manhã de 09 de julho, de edema pulmonar, em sua casa na Gávea, em companhia de Toquinho e de sua última mulher. Extraviam-se os originais de seu livro O deve e o haver.

Lançado postumamente, no Livro de Letras, publicado em 1991, estão mais de 300 letras de músicas de autoria de Vinícius, com melodias suas e de um sem número de compositores, ou parceirinhos, como carinhosamente os chamava.

Em 1992, é lançado um livro que hibernou anos junto ao poeta: Roteiro Lírico e Sentimental da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, onde Nasceu, Vive em Trânsito e Morre de Amor o Poeta Vinicius de Moraes.

No ano seguinte, uma coletânea de poesias é publicada no livro As Coisas do Alto – Poemas de Formação, mostrando a processo de formação do poeta, que é uma descida do topo metafísico à solidez do cotidiano.

Em 1996, é lançado livro de bolso com o título Soneto de Fidelidade e outros poemas, a preços populares. Essa publicação fica diversas semanas na lista dos mais vendidos, o que vem mostrar que mesmo após 16 anos de seu desaparecimento, sua poesia continuava viva entre nós.

Em 2001, a industria de perfumes Avon lança a “Coleção Mulher e Poesia – por Vinicius de Moraes”, com as fragrâncias “Onde anda você”, “Coisa mais linda”, “Morena flor” e “Soneto de fidelidade”.

Inconstante no amor (seus biógrafos dizem que teve, oficialmente, 09 mulheres), um dia foi questionado pelo parceiro Tom Jobim: “Afinal, poetinha, quantas vezes você vai se casar?”.

Num improviso de sabedoria, Vinicius respondeu: “Quantas forem necessárias.”

No dia 08/09/2006, é homenageado pelo governo brasileiro com sua reintegração post mortem aos quadros do Ministério das Relações Exteriores, ocasião em que foi inaugurado o “Espaço Vinicius de Moraes” no Palácio do Itamaraty – Rio de Janeiro (RJ).

BIBLIOGRAFIA

Poesia/Prosa:

– O Caminho para a Distância, 1933 – Schmidt Ed, Rio (recolhida pelo autor)
– Ariana, a Mulher, 1936 – Pongetti – Rio
– Forma e Exegese, 1935 – Pongetti – Rio (Prêmio Felippe d’Oliveira)
– Novos Poemas, 1938 – José Olympio – Rio
– Cinco Elegias, 1943 – Pongetti – Rio (ed.feita a pedido de Manuel Bandeira, Aníbal Machado e Octávio de Farias)
– 10 poemas em manuscrito – 1945, Condé (edição ilustrada de 150 exemplares)
– Poemas, Sonetos e Baladas, 1946 – Ed. Gávea – São Paulo (ilustrações de Carlos Leão)
– Pátria Minha, 1949 – O Livro Inconsútil – Barcelona (ed.feita por João Cabral de Melo Neto em sua prensa manual)
– Orfeu da Conceição, 1956 – Editora do Autor – Rio (ilustrações de Carlos Scliar)
– Livro de Sonetos, 1957 – Livros de Portugal – Rio
– Novos Poemas (II), 1959 – Livraria São José – Rio.
– Orfeu da Conceição, 1960 – Livraria São José – Rio (edição popular)
– Para Viver um Grande Amor, 1962 – Ed. do Autor – Rio
– Cordélia e o Peregrino, 1965 – Ed.do Serviço de Documentação do M. da Educação e Cultura – Brasília
– Para uma Menina com uma Flor, 1966 – Ed. do Autor – Rio
– Orfeu da Conceição, 1967 – Editora Dois Amigos – Rio
– O Mergulhador, 1968 – Atelier de Arte – Rio (Tiragem limitada a 2.000 exemplares, sendo 50 numerados em algarismos romanos de I a L e assinados pelos autores, comportando um manuscrito original e inédito de Vinícius de Moraes;450 exemplares numerados em algarismos arábicos e 51 a 500 e assinados pelos autores; e,finalmente, 1.500 exemplares numerados de 501 a 2.000)
– História natural de Pablo Neruda, 1974 – Ed.Macunaíma – Salvador.
– O falso mendigo, poemas de Vinicius de Moraes – 1978, Ed. Fontana – Rio
– Vinicius de Moraes – Poemas de muito amor, 1982 – José Olympio, Rio
– A arca de Noé – 1991, Cia. das Letras – São Paulo
– Livro de Letras, 1991, Cia. das Letras – São Paulo
– Roteiro lírico e sentimental da Cidade do Rio de Janeiro e outros lugares por onde passou e se encantou o poeta, 1992 – Cia. das Letras – São Paulo
– As Coisas do Alto – Poemas de Formação, 1993 – Cia. das Letras – São Paulo
– Jardim Noturno – Poemas Inéditos, 1993 – Cia. das Letras – São Paulo
– Soneto de Fidelidade e outros Poemas, 1996 – Ediouro – Rio (ed. bolso)
– Procura-se uma Rosa, Massao Ohno Ed. – São Paulo (peça de teatro em colaboração com Pedro Bloch e Gláucio Gil)
– A Arca de Noé, Cia. das Letras – São Paulo
– O Cinema de Meus Olhos, Cia. das Letras – São Paulo
– Nossa Senhora de Paris, Ediouro – Rio
– Teatro em Versos – 1995, Cia. das Letras – São Paulo
– Rio de Janeiro (com Ferreira Gullar), Ed. Record – Rio (edições em alemão, francês, inglês, italiano e português).
– Querido Poeta – Correspondências de Vinicius de Moraes (organização de Ruy Castro), Cia. das Letras, São Paulo, 2003.
– Samba falado, Azougue Editorial, 2008.

Antologias:
– Antologia Poética, 1954 – Editora A Noite – Rio de Janeiro
– Obra poética – Poesia Completa e Prosa, Editora Nova Aguillar, 1968

Teatro
– Procura-se uma rosa, 1962 (com Pedro Bloch e Gláucio Gil.)

Fontes:
http://www.releituras.com

Foto: Jornal de Poesia. http://www.secrel.com.br/

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Annibal P. Murilla (O Delírio de um Peão)

(id:MCCXLI)

Como pode um simples peão ter sonhos tão loucos?

Eu acho que o peão tinha que ter o bom senso de não sonhar tais fantasias!

O peão tem o seu valor, sim e como!

Mas lá na linha de frente, expondo-se aos ataques inimigos e sucumbindo aos mesmos, poucos chegam à glória da vitória.

Além do mais, há tantas coisas mais importantes em jogo, que muitas vezes o objeto de seus sonhos (“A Rainha”, sim a rainha, louco sonhador…) sacrifica-o sem titubear, quando bastaria um simples passeio em diagonal para protege-lo.

Mas o peão é um nada, o que importa é o rei.

“Viva o Rei!”, “Viva o Rei!”, “Viva o Rei!”

Ah! Que nojo!

Como0 pode um ser belo e frágil, embora poderoso e valoroso como tu, minha princesa (sim, para mim és uma princesa e não uma rainha. Eu quero ser seu rei, por isso, por enquanto tu és apenas minha princesa) defender este prepotente e frágil que se escuda acuado em um canto, qual vil ratazana amedrontada, trancafiado em seu castelo com bravos peões a escuda-lo.

Sim, princesa, bravos peões. Repare neles, quem sabe não sou um deles? Ou será que já sucumbi ao combate?

Ah! Mas um dia, um dia quem sabe, meu louco delírio tornar-se-á realidade!

Quem me dera que após violento combate só tu e eu, princesa minha, restemos no campo de batalha. E tu, então cortejar-me-ás, só terás olhos para mim, e assim nós iremos lado a lado com manobras para iludir a tudo e a todos e chegaremos à coroação.

E eu então poderei transformar-me em um corcel, e tu te montarás em mim e nós seremos donos do mundo, sem nada que nos possa deter.

Eu sei que é um delírio meu, mas não de todo impossível, já houve precedentes. Porque não eu?

Porque não nós?

Porque não agora?

Fontes:
José Feldman. Curso de Arbitragem de Xadrez. Sorocaba: X. C. Sorocaba, 1994.

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André Augusto Passari (Xadrez)

(id:MCCXL)

O rei come o peão
A dama desaba diante do cavalo
Um mísero cavalo!

Os bispos e as torres armam um xeque
Mas num golpe de mestre
Quem era fraco se fortalece

O rei dança com a dama
E dão-se as mãos e dão-se as bocas
Mas há o flerte daquele peão
Que conspira contra essa paixão

O rei come o peão
Mas a dama morre violentada
Por aquele maldito cavalo!

O rei jura vingança
E arquiteta uma revolução
Avança as torres, aciona os bispos
Libera os cavalos e congrega os peões

A sorte é uma mãe besta
Uma dádiva traiçoeira
Enquanto a morte, essa condessa,
Uma madrasta justiceira

– Morte ao rei negro!

Porém, no último instante
No minuto de misericórdia
Uma revelação:

– O quê?! A dama tinha um amante?!

E era justamente aquele peão
Que o rei matou sem perdão

E dizem, por maldade talvez
Que não foi o cavalo quem matou a dama
Mas sim a própria dama
Que se jogou em sua frente

De tanta dor e aflição
Que tinha no coração
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O Mago da Ironia, e notas biográficas do autor, postados em 30 de junho
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Fonte:
E-mail enviado pelo autor.

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Olavo Bilac (Poesias Para Crianças)

(id: MCCXXXIX)

Palavras

As palavras do amor expiram como os versos,
Com que adoço a amargura e embalo o pensamento:
Vagos clarões, vapor de perfumes dispersos,
Vidas que não têm vida, existências que invento;
.

Esplendor cedo morto, ânsia breve, universos
De pó, que o sopro espalha ao torvelim do vento,
Raios de sol, no oceano entre as águas imersos
-As palavras da fé vivem num só momento…

Mas as palavras más, as do ódio e do despeito,
O “não!” que desengana, o “nunca!” que alucina,
E as do aleive, em baldões, e as da mofa, em risadas,

Abrasam-nos o ouvido e entram-nos pelo peito:
Ficam no coração, numa inércia assassina,
Imóveis e imortais, como pedras geladas.
================
A borboleta

Trazendo uma borboleta,
Volta Alfredo para casa.
Como é linda! é toda preta,
Com listas douradas na asa.

Tonta, nas mãos da criança,
Batendo as asas, num susto,
Quer fuguir, porfia, cansa,
E treme, e respira a custo.

Contente, o menino grita:
“É a primeira que apanho,
“Mamãe! vê como é bonita!
“Que cores e que tamanho!

“Como voava no mato!
“Vou sem demora pregá-la
“Por baixo do meu retrato,
“Numa parede da sala”.

Mas a mamãe, com carinho,
Lhe diz: “Que mal te fazia,
“Meu filho, esse animalzinho,
“Que livre e alegre vivia?

“Solta essa pobre coitada!
“Larga-lhe as asas, Alfredo!
“Vê com treme assustada . . .
“Vê como treme de medo . . .

“Para sem pena espetá-la
“Numa parede, menino,
“É necessário matá-la:
“Queres ser um assassino?”

Pensa Alfredo . . . E, de repente,
Solta a borboleta . . . E ela
Abre as asas livremente,
E foge pela janela.

“Assim, meu filho! perdeste
“A borboleta dourada,
“Porém na estima cresceste
“De tua mãe adorada . . .

“Que cada um cumpra sua sorte
“Das mãos de Deus recebida:
“Pois só pode dar a Morte
“Aquele que dá a Vida!”
====================
Os pobres

Aí vêm pelos caminhos,
Descalços, de pés no chão,
Os pobres que andam sozinhos,
Implorando compaixão.

Vivem sem cama e sem teto,
Na fome e na solidão:
Pedem um pouco de afeto,
Pedem um pouco de pão.

São tímidos? São covardes?
Têm pejo? Têm confusão?
Parai quando os encontrardes,
E dai-lhes a vossa mão!

Guiai-lhe os tristes passos!
Dai-lhes, sem hesitação,
O apoio do vossos braços,
Metade de vosso pão!

Não receieis que, algum dia,
Vos assalte a ingratidão:
O prêmio está na alegria
Que tereis no coração.

Protegei os desgraçados,
Órfãos de toda a afeição:
E sereis abençoados
Por um pedaço de pão . . .
=================
A boneca

Deixando a bola e a peteca,
Com que inda há pouco brincavam,
Por causa de uma boneca,
Duas meninas brigavam.

Dizia a primeira: “É minha!”
— “É minha!” a outra gritava;
E nenhuma se continha,
Nem a boneca largava.

Quem mais sofria (coitada!)
Era a boneca. Já tinha
Toda a roupa estraçalhada,
E amarrotada a carinha.

Tanto puxaram por ela,
Que a pobre rasgou-se ao meio,
Perdendo a estopa amarela
Que lhe formava o recheio.

E, ao fim de tanta fadiga,
Voltando à bola e à peteca,
Ambas, por causa da briga,
Ficaram sem a boneca . . .
==================
O universo
(Paráfrase)

A Lua:

Sou um pequeno mundo;
Movo-me, rolo e danço
Por este céu profundo;
Por sorte Deus me deu
Mover-me sem descanso,
Em torno de outro mundo,
Que inda é maior do que eu.

A Terra:

Eu sou esse outro mundo;
A lua me acompanha,
Por este céu profundo . . .
Mas é destino meu
Rolar, assim tamanha,
Em torno de outro mundo,
Que inda é maior do que eu.

O Sol:

Eu sou esse outro mundo,
Eu sou o sol ardente!
Dou luz ao céu profundo . . .
Porém, sou um pigmeu,
Quer rolo eternamente
Em torno de outro mundo,
Que inda é maior do que eu.

O Homem:

Por que, no céu profundo,
Não há-de parar mais
O vosso movimento?
Astros! qual é o mundo,
Em torno ao qual rodais
Por esse firmamento?

Todos os Astros:

Não chega o teu estudo
Ao centro disso tudo,
Que escapa aos olhos teus!
O centro disso tudo,
Homem vaidoso, é Deus!
===============
A vida

Na água do rio que procura o mar;
No mar sem fim; na luz que nos encanta;
Na montanha que aos ares se levanta;
No céu sem raias que deslumbra o olhar;

No astro maior, na mais humilde planta;
Na voz do vento, no clarão solar;
No inseto vil, no tronco secular,
— A vida universal palpita e canta!

Vive até, no seu sono, a pedra bruta . . .
Tudo vive! E, alta noite, na mudez
De tudo, — essa harmonia que se escuta

Correndo os ares, na amplidão perdida,
Essa música doce, é a voz, talvez,
Da alma de tudo, celebrando a Vida!
================
O tempo

Sou o Tempo que passa, que passa,
Sem princípio, sem fim, sem medida!
Vou levando a Ventura e a Desgraça,
Vou levando as vaidades da Vida!

A correr, de segundo em segundo,
Vou formando os minutos que correm . . .
Formo as horas que passam no mundo,
Formo os anos que nascem e morrem.

Ninguém pode evitar os meus danos . . .
Vou correndo sereno e constante:
Desse modo, de cem em cem anos
Formo um século, e passo adiante.

Trabalhai, porque a vida é pequena,
E não há para o Tempo demoras!
Não gasteis os minutos sem pena!
Não façais pouco caso das horas!
==================
Junho

Coro de crianças:

Passem os meses desfilando!
Venha cada um por sua vez!
Dancemos todos, escutando
O que nos conta cada mês!

Junho:

Em chamas alvissareiras,
Ardem, crepitam fogueiras . . .
— E os balões de S. João
Vão luzir, entre as neblinas,
Como estrelas pequeninas,
Entre as outras, na amplidão.

Não há casinha modesta
Que não se atavie, em festa,
Nestas noites, a brilhar:
Não se recordam tristezas . . .
Estalam bichas chinesas,
Estouram foguetes no ar.

Fogos alegres, pistolas,
Bombas! ao som das violas,
Ardei! cantai! crepitai!
Num largo e claro sorriso.
Seja a terra um paraíso!
Folgai, crianças, folgai!

Coro de crianças:

Aí vem Julho, o mês do frio . . .
Vamos os corpos aquecer,
Acelerando o rodopio . . .
— Pode outro mês aparecer!
================
O rio

Da mata no seio umbroso,
No verde seio da serra,
Nasce o rio generoso,
Que é a providência da terra.

Nasce humilde; e, pequenino,
Foge ao sol abrasador;
É um fio d’água, tão fino,
Que desliza sem rumor.

Entre as pedras se insinua,
Ganha corpo, abre caminho,
Já canta, já tumultua,
Num alegre borburinho.

Agora ao sol, que o prateia,
Todo se entrega, a sorrir;
Avança, as rochas ladeia,
Some-se, torna a surgir.

Recebe outras águas, desce
As encostas de uma em uma,
Engrossa as vagas, e cresce,
Galga os penedos, e espuma.

Agora, indômito e ousado,
Transpõe furnas e grotões,
Vence abismos, despenhado
Em saltos e cachoeirões.

E corre, galopa, cheio
De força; de vaga em vaga,
Chega ao vale, alarga o seio,
Cava a terra, o campo alaga . . .

Expande-se, abre-se, ingente,
Por cem léguas, a cantar,
Até que cai finalmente,
No seio vasto do mar . . .

Mas na triunfal majestade
Dessa marcha vitoriosa,
Quanto amor, quanta bondade
Na sua alma generosa!

A cada passo que dava
O nobre rio, feliz
Mais uma árvore criava,
Dando vida a uma raiz.

Quantas dádivas e quantas
Esmolas pelos caminhos!
Matava a sede das plantas
E a sede dos passarinhos . . .

Fonte de força e fartura,
Foi bem, foi saúde e pão:
Dava às cidades frescura,
Fecundidade ao sertão . . .

E um nobre exemplo sadio
Nas suas águas se encerra;
Devemos ser como o rio,
Que é a providência da terra:

Bendito aquele que é forte,
E desconhece o rancor,
E, em vez de servir a morte,
Ama a vida, e serve o Amor!
==================
A mocidade

A mocidade é como a primavera!
A alma, cheia de flores resplandece,
Crê no Bem, ama a vida, sonha e espera,
E a desventura facilmente esquece.

É a idade da força e da beleza:
Olha o futuro, e inda não tem passado:
E, encarando de frente a Natureza,
Não tem receio do trabalho ousado.

Ama a vigília, aborrecendo o sono;
Tem projetos de glória, ama a Quimera;
E ainda não dá frutos como o outono,
Pois só dá flores como a primavera!

Fontes:
Jornal de Poesia.
http://www.secrel.com.br/jpoesia/
Capa do Livro:
http://www.unicamp.com.br

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Olavo Bilac (Poesias Avulsas)

(id: MCCXXXVIII)

A velhice

Olha estas velhas árvores, mais belas
Do que as árvores moças, mais amigas,
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas…

O homem, a fera e o inseto, à sombra delas
Vivem, livres da fome e de fadigas:
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E os amores das aves tagarelas.

Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo. Envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem,

Na glória de alegria e da bondade,
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!
==================
Ao coração que sofre

Ao coração que sofre, separado
Do teu, no exílio em que a chorar me vejo,
Não basta o afeto simples e sagrado
Com que das desventuras me protejo.

Não me basta saber que sou amado,
Nem só desejo o teu amor: desejo
Ter nos braços teu corpo delicado,
Ter na boca a doçura de teu beijo.

E as justas ambições que me consomem
Não me envergonham: pois maior baixeza
Não há que a terra pelo céu trocar;

E mais eleva o coração de um homem
Ser de homem sempre e, na maior pureza,
Ficar na terra e humanamente amar.
==================
“Benedicite”

Bendito o que na terra o fogo fez, e o teto
E o que uniu à charrua o boi paciente e amigo;
E o que encontrou a enxada; e o que do chão abjeto,
Fez aos beijos do sol, o oiro brotar, do trigo;

E o que o ferro forjou; e o piedoso arquiteto
Que ideou, depois do berço e do lar, o jazigo;
E o que os fios urdiu e o que achou o alfabeto;
E o que deu uma esmola ao primeiro mendigo;

E o que soltou ao mar a quilha, e ao vento o pano,
E o que inventou o canto e o que criou a lira,
E o que domou o raio e o que alçou o aeroplano…

Mas bendito entre os mais o que no dó profundo,
Descobriu a Esperança, a divina mentira,
Dando ao homem o dom de suportar o mundo!
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Ciclo

Manhã. Sangue em delírio, verde gomo,
Promessa ardente, berço e liminar:
A árvore pulsa, no primeiro assomo
Da vida, inchando a seiva ao sol… Sonhar!
Dia. A flor – o noivado e o beijo, como
Em perfumes um tálamo e um altar:
A árvore abre-se em riso, espera o pomo,
E canta à voz dos pássaros… Amar!

Tarde. Messe e esplendor, glória e tributo;
A árvore maternal levanta o fruto,
A hóstia da idéia em perfeição… Pensar!

Noite. Oh! Saudade!… A dolorosa rama
Da árvore aflita pelo chão derrama
As folhas, como lágrimas… Lembrar!
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Deixa o olhar do mundo

X

Deixa que o olhar do mundo enfim devasse
Teu grande amor que é teu maior segredo!
Que terias perdido, se, mais cedo,
Todo o afeto que sentes se mostrasse?

Basta de enganos! Mostra-me sem medo
Aos homens, afrontando-os face a face:
Quero que os homens todos, quando eu passe,
Invejosos, apontem-me com o dedo.

Olha: não posso mais! Ando tão cheio
Deste amor, que minh’alma se consome
De te exaltar aos olhos do universo…

Ouço em tudo teu nome, em tudo o leio:
E, fatigado de calar teu nome,
Quase o revelo no final de um verso.
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Fogo-fátuo

Cabelos brancos! dai-me, enfim, a calma
A esta tortura de homem e de artista:
Desdém pelo que encerra a minha palma,
E ambição pelo mais que não exista;
Esta febre, que o espírito me encalma
E logo me enregela; esta conquista
De idéias, ao nascer, morrendo na alma,
De mundos, ao raiar, murchando à vista:

Esta melancolia sem remédio,
Saudade sem razão, louca esperança
Ardendo em choros e findando em tédio;

Esta ansiedade absurda, esta corrida
Para fugir o que o meu sonho alcança,
Para querer o que não há na vida!
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Inania verba

Ah! quem há de exprimir, alma impotente e escrava,
O que a boca não diz, o que a mão não escreve?
— Ardes, sangras, pregada à tua cruz, e, em breve,
Olhas, desfeito em lodo, o que te deslumbrava…
O Pensamento ferve, e é um turbilhão de lava;
A Forma, fria e espessa, é um sepulcro de neve…
E a Palavra pesada abafa a Idéia leve,
Que, perfume e clarão, refulgia e voava.

Quem o molde achará para a expressão de tudo?
Ai! quem há de dizer as ânsias infinitas
Do sonho? e o céu que foge à mão que se levanta?

E a ira muda? e o asco mudo? e o desespero mudo?
E as palavras de fé que nunca foram ditas?
E as confissões de amor que morrem na garganta?
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Maldição

Se por vinte anos, nesta furna escura,
Deixei dormir a minha maldição,
_ Hoje, velha e cansada da amargura,
Minha alma se abrirá como um vulcão.
E, em torrentes de cólera e loucura,
Sobre a tua cabeça ferverão
Vinte anos de silêncio e de tortura,
Vinte anos de agonia e solidão…

Maldita sejas pelo ideal perdido!
Pelo mal que fizeste sem querer!
Pelo amor que morreu sem ter nascido!

Pelas horas vividas sem prazer!
Pela tristeza do que eu tenho sido!
Pelo esplendor do que eu deixei de ser!…
==================
O cometa

Um cometa passava… Em luz, na penedia,
Na erva, no inseto, em tudo uma alma rebrilhava;
Entregava-se ao sol a terra, como escrava;
Ferviam sangue e seiva. E o cometa fugia…

Assolavam a terra o terremoto, a lava,
A água, o ciclone, a guerra, a fome, a epidemia;
Mas renascia o amor, o orgulho revivia,
Passavam religiões… E o cometa passava.

E fugia, riçando a ígnea cauda flava…
Fenecia uma raça; a solidão bravia
Povoava-se outra vez. E o cometa voltava…

Escoava-se o tropel das eras, dia a dia:
E tudo, desde a pedra ao homem, proclamava
A sua eternidade ! E o cometa sorria…
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O pássaro cativo

Armas, num galho de árvore, o alçapão
E, em breve, uma avezinha descuidada,
Batendo as asas cai na escravidão.
Dás-lhe então, por esplêndida morada,
Gaiola dourada;

Dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos e tudo.
Por que é que, tendo tudo, há de ficar
O passarinho mudo,
Arrepiado e triste sem cantar?
É que, criança, os pássaros não falam.

Só gorjeando a sua dor exalam,
Sem que os homens os possam entender;
Se os pássaros falassem,
Talvez os teus ouvidos escutassem
Este cativo pássaro dizer:

“Não quero o teu alpiste!
Gosto mais do alimento que procuro
Na mata livre em que voar me viste;
Tenho água fresca num recanto escuro

Da selva em que nasci;
Da mata entre os verdores,
Tenho frutos e flores
Sem precisar de ti!

Não quero a tua esplêndida gaiola!
Pois nenhuma riqueza me consola,
De haver perdido aquilo que perdi…
Prefiro o ninho humilde construído

De folhas secas, plácido, escondido.
Solta-me ao vento e ao sol!
Com que direito à escravidão me obrigas?
Quero saudar as pombas do arrebol!
Quero, ao cair da tarde,
Entoar minhas tristíssimas cantigas!
Por que me prendes? Solta-me, covarde!
Deus me deu por gaiola a imensidade!
Não me roubes a minha liberdade…
Quero voar! Voar!

Estas cousas o pássaro diria,
Se pudesse falar,
E a tua alma, criança, tremeria,
Vendo tanta aflição,
E a tua mão tremendo lhe abriria
A porta da prisão…
==================
Ora (direis) ouvir estrelas!

XIII

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-Ias, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto …

E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”
==================
Palavras

As palavras do amor expiram como os versos,
Com que adoço a amargura e embalo o pensamento:
Vagos clarões, vapor de perfumes dispersos,
Vidas que não têm vida, existências que invento;

Esplendor cedo morto, ânsia breve, universos
De pó, que o sopro espalha ao torvelim do vento,
Raios de sol, no oceano entre as águas imersos
-As palavras da fé vivem num só momento…

Mas as palavras más, as do ódio e do despeito,
O “não!” que desengana, o “nunca!” que alucina,
E as do aleive, em baldões, e as da mofa, em risadas,

Abrasam-nos o ouvido e entram-nos pelo peito:
Ficam no coração, numa inércia assassina,
Imóveis e imortais, como pedras geladas.
==================
Um Beijo

Foste o beijo melhor da minha vida,
Ou talvez o pior … Glória e tormento,
Contigo à luz subi do firmamento,
Contigo fui pela infernal descida!

Morreste, e o meu desejo não te olvida:
Queimas-me o sangue, enches-me o pensamento,
E do teu gosto amargo me alimento,
E rolo-te na boca malferida.

Beijo extremo, meu prêmio e meu castigo,
Batismo e extrema-unção, naquele instante
Por que, feliz, eu não morri contigo?

Sinto-te o ardor, e o crepitar te escuto,
Beijo divino! e anseio, delirante,
Na perpétua saudade de um minuto …
==================
Pátria

Pátria, latejo em ti, no teu lenho, por onde
circulo! E sou perfume, e sombra, e sol e orvalho!
E, em seiva, ao teu clamor a minha voz responde,
e subo do teu cerne ao céu de galho em galho!

Dos teus liquens, dos teus cipós, da tua fronde,
do ninho que gorjeia em teu doce agasalho,
do fruto a amadurar que em teu seio se esconde,
de ti, – rebento em luz e em cânticos me espalho!

Vivo, choro em teu pranto; e, em teus dias felizes,
no alto, como uma flor, em ti, pompeio e exulto!
E eu, morto, – sendo tu cheia de cicatrizes,

tu golpeada e insultada, ­ eu tremerei sepulto:
e os meus ossos no chão, como as tuas raízes,
se estorcerão de dor, sofrendo o golpe e o insulto!
==================
Língua Portuguesa

Última flor do Lácio, inculta e bela,
és, a um tempo, esplendor e sepultura:
ouro nativo, que na ganga impura
a bruta mina entre os cascalhos vela…

amo-te assim, desconhecida e obscura,
tuba de alto clangor, lira singela
que tens o trom e o silvo da procela,
e o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

em que da voz materna ouvi: “meu filho”,
E em que Camões chorou no exílio amargo,
­o gênio sem ventura e o amor sem brilho!

Fontes:
Jornal de Poesia.
http://www.secrel.com.br/jpoesia/
http://www.antoniomiranda.com.br
Capa do livro: Editora Martin Claret

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Olavo Bilac (1865 – 1918)

(id:MCCXXXVII)

Um dos mais notáveis poetas brasileiros, prosador exímio e orador primoroso, nasceu e morreu no Rio de Janeiro, respectivamente, em 1865 e 1918. Aluno da Faculdade de Medicina até o quinto ano, depois de brilhante concurso que ali fez para interno, e apesar do auspicioso futuro que todos lhe auguravam, desistiu do curso médico para tentar o de direito em São Paulo. Atraído, porém, pela vida fluminense, voltou ao Rio estreando, com grande êxito, na imprensa literária.

A irradiação do seu nome foi rápida, e fulgurou com a publicação de Poesias (incluindo Panóplias, Via Láctea e Sarças de Fogo – 1888). Foi um dos mais ardorosos propagandistas da abolição, ligando-se estreitamente a José do Patrocínio. Em 1900 partiu para a Europa como correspondente da publicação Cidade do Rio. Daí em diante, raro era o ano em que não visitava Paris.

Exerceu vários cargos públicos no estado do Rio de Janeiro e na antiga Guanabara, tendo sido inspetor escolar, secretário do Congresso Panamericano e fundador da Agência Americana. Foi um dos fundadores da Liga da Defesa Nacional (da qual foi secretário geral), tendo lutado pelo serviço militar obrigatório, que considerava uma forma de combate ao analfabetismo. Conferencista de platéias elegantes, sua obra tornou-se leitura obrigatória, sendo declamado nos círculos literários.

Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, na cadeira 15, cujo patrono é Gonçalves Dias.

Considerado o maior nome parnasiano brasileiro, foi bastante influenciado pelos poetas franceses. Suas poesias revelam uma grande emoção, nada típica dos parnasianos, um certo erotismo e influência marcante da poesia portuguesa dos séculos XVI e XVII. A correção da linguagem, o rigor da forma e a espontaneidade são as principais características de seus versos.

Além de Poesias também publicou Crônicas e Novelas, Conferências Literárias, Ironia e Piedade, Bocage, Crítica e Fantasia, e, em colaboração, Contos Pátrios (infantil), Livro de Leitura, Livro de Composição, Através do Brasil (os últimos três, pedagógicos), Teatro Infantil, Terra Fluminense, Pátria Brasileira, Tratado de Versificação, A Defesa Nacional (coleção de discursos), Últimas Conferências e Discursos, Dicionário Analógico (inédito) e Tarde (póstuma, coleção de 99 sonetos).

Seu volume de Poesias Infantis, encomendado pela Livraria Francisco Alves, é uma coleção de 58 poemas metrificados falando sobre a natureza e a virtude. Segundo suas próprias palavras, “era preciso achar assuntos simples, humanos, naturais, que, fugindo da banalidade, não fossem também fatigar o cérebro do pequenino leitor, exigindo dele uma reflexão demorada e profunda”.

É autor do Hino à Bandeira Nacional.

Fonte:
Jornal de Poesia. http://www.secrel.com.br/jpoesia/

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Léo Schlafman (Bilac)

(id:MCCXXXVI)

Quase um século após sua morte, a publicação das obras reunidas serve de estímulo para reavaliar o poeta que, objeto de entusiasmo popular na sua época, tornou-se o alvo preferido dos modernistas

Oitenta anos separam a morte de Olavo Bilac da publicação ônibus de seus livros. É quase um século – mas século de grandes transformações estéticas e políticas. O poeta, que nasceu durante a Guerra do Paraguai e morreu, com a belle époque, no fim da Grande Guerra, reapresenta-se ao público em plena guerra da Chechênia, depois do desmoronamento do império soviético. Mas nunca deixou de ser publicado avulsamente, e lido, analisado nas escolas, e de tal forma que muitos de seus versos hoje fazem parte da memória popular, como “Ora (direis) ouvir estrelas!” ou “Última flor do Lácio, inculta e bela, / És a um tempo, esplendor e sepultura“.

Sempre foi transcrito com fartura nas antologias, entronizado na liderança do movimento parnasiano, criticado e defendido, depois da morte como em vida. Mas, como disse T. S. Eliot, de tempos em tempos, em cada 100 anos mais ou menos, é desejável que algum crítico apareça para rever o passado e dispor os poetas e os poemas em nova ordem.

Segundo Eliot, nenhum poeta nem qualquer outro tipo de artista tem seu significado completo sozinho. Sua apreciação é a apreciação da relação com os poetas e artistas mortos. Não se pode avaliá-lo isoladamente. Quando nova obra de arte é criada, algo novo ocorre com todas as obras que a precederam.

O ciclo a que Bilac pertenceu chocou-se de frente com o fogo de barragem da Semana de Arte Moderna. De fato, quatro anos depois da morte dele, em 1918, os modernistas, em 1922, que, na fórmula de Ivan Junqueira, não sabiam bem o que queriam, embora soubessem perfeitamente o que não queriam, escolheram-no como alvo de predileção, abalaram-lhe o prestígio, e tudo “porque sua poesia não interessava em absoluto ao projeto modernista, e não porque o julgassem mau poeta”.

O verso livre já destronara soneto, alexandrino e rimas em outras plagas, mas hoje se sabe, com o distanciamento crítico que só o tempo proporciona, que nenhum verso é livre para o homem que deseja fazer bom trabalho. Grande quantidade de prosa de má qualidade tem sido escrita, desde então, com o nome de verso. E vice-versa. Apenas um mau poeta poderia considerar o verso livre libertação da forma.

No entanto, a clivagem entre parnasianismo e modernismo enraizou-se para sempre. Basta comparar a exaltação militar de Bilac, na campanha pelo alistamento obrigatório, com o pacifismo de Clã do jabuti, de Mário de Andrade, dez anos depois, para constatar o abismo que a revolução modernista cavou entre as duas gerações. O abismo teve várias conseqüências. Gonçalves Dias, Castro Alves e Olavo Bilac foram os últimos na literatura brasileira a despertar ao mesmo tempo entusiasmo culto e popular. Implantou-se entre o grande público e as artes, incluindo a poesia, um mal-entendido, uma dissociação, até hoje não suficientemente esclarecida.

Num banquete monstro de que foi alvo, em 1907, Bilac lembrou que quarenta anos antes não havia propriamente homens de letras no Brasil. “Havia estadistas, parlamentares, professores, diplomatas, homens da sociedade ou homens ricos, que, de quando em quando, invadiam por momentos o bairro literário…” Na fase seguinte, poetas e escritores que desejavam ser apenas poetas e escritores cometeram o erro de mostrar desdém pela consideração que a sociedade lhes recusava. A geração de Bilac, e ele principalmente, transformaram o que era então passatempo em profissão, culto, sacerdócio. “Viemos trabalhar cá em baixo, no seio do formigueiro humano.”

Hoje em dia não há banquetes monstros para poetas. O formigueiro humano sequer gosta da poesia que lê, alegando que não a entende. Já Bilac, da estréia ao crepúsculo, revelou-se antes simples do que complicado, e isto talvez seja uma das causas da extrema receptividade que tiveram e ainda têm seus versos. José Veríssimo criticava em Bilac a falta de extensão e profundeza, mas reconhecia feição descritiva, pompa, o brilho novo de sua forma, feitos para agradar, dando sempre “impressão de acabado, de perfeito“. Machado de Assis, em A nova geração, definiu a poesia parnasiana como uma inclinação nova nos espíritos, sem se utilizar ainda da expressão parnasiana. O parnasianismo renegou o romantismo, e exaltou uma arte fria (“Serás para mim uma deusa, / (…) inviolável e fria“, escreveu Bilac), impassível, intelectualizada, contra o transe, a participação e a emotividade – em suma, a hipertrofia do eu. Em Profissão de fé Bilac pregou o trabalho formal, o culto ao estilo: “Torce, aprimora, alteia, lima / A frase; e enfim, / No verso de ouro engasta a rima, / Como um rubim.” Queria que a estrofe, cristalina, “Dobrada ao jeito / Do ourives, saia da oficina / Sem um defeito“.

No correr da história literária, os parnasianos da primeira hora, como Alberto Oliveira, Raimundo Correia e Bilac (a “trindade parnasiana”) têm sido identificados como românticos retardatários. Filiavam-se ao parnasse francês (Gautier, Bainville, Lisle, Baudelaire e Hérédia). Bocage superou Camões na veneração parnasiana brasileira. As obras bem escritas são eternas. Aboliu-se o mistério na poesia. Evitavam-se recursos musicais, como aliterações, homofonias, ecos, expressões de poder encantatório. Repudiava-se o contexto medieval e se proclamava a superioridade da vida, da saúde, da sensualidade, da objetividade, do conhecimento do mal e do homem, sobre a morte, a doença, a melancolia, o sentimentalismo, a objetividade, a inocência e Deus (João Pacheco, em O realismo).

Mas a impassibilidade parnasiana não se manifestou totalmente nos poetas brasileiros, sempre atormentados pela incontinência da sensibilidade nacional, o brilho da paisagem, a exigência do sensualismo. O próprio Bilac, citado por Pacheco, mais de uma vez reclamou, em versos, da asfixia imposta pela escola, demasiadamente atada à prisão da lógica: “O pensamento ferve, e é um turbilhão de lava: / A Forma, fria e espessa, é um sepulcro de neve…” Manuel Bandeira, em Poemeto erótico, mostrou que isto não acontecia sempre: “Teu corpo claro e perfeito, / Teu corpo de maravilha, / Quero possuí-lo no leito / Estreito da redondilha.” Pode-se, portanto, como fez Bandeira, e Bilac tantas vezes, tirar proveito das limitações da forma, quando se quer. Mário de Andrade, em O empalhador de passarinho, disse, a propósito de Bilac: “A escultura das palavras também tem suas belezas. A solaridade, a luz crua, a nitidez das sombras curtas de certos verbalismos enfunados, pelo próprio afastamento em que estão da verdadeira poesia, têm seu sabor especial, pecaminoso.”

Ao estrear, aos 23 anos, com Poesias, Bilac já estava perfeitamente enquadrado no rigor da forma, e com a sensualidade à flor da pele. Na adolescência, encharcou-se dos ecos da Guerra do Paraguai (“Todo esse espetáculo de heroísmo dominando a vida nacional, e por muitos anos alimentando a altivez do povo“). O Rio de sua maturidade era estranho burgo colonial, com quase três quartos de negros. A casa onde nasceu, na Rua da Vala, atual Uruguaiana, pertencia à área que melhor exprimia a fealdade e sujeira da capital. Perto estava a Rua do Ouvidor, com seu singular comércio francês. Conforme descreveu Ledo Ivo, o que dominava o centro urbano era o comércio atacadista de aspecto sinistro. Quando um tílburi corria pelos calçamentos irregulares, os pedestres se colavam às paredes. Passava-se manteiga da Dinamarca no pão de trigo inglês, bebia-se cerveja alemã, comiam-se queijos flamengos na Confeitaria Pascoal, usavam-se os esgotos da City e andava-se em bonde da Botanical Garden. Os cidadãos inconformados reclamavam das loucuras do prefeito Pereira Passos.

Um ano antes da publicação de Poesias (1888) Bilac noivou com Amélia de Oliveira, irmã de seu amigo parnasiano Alberto de Oliveira. O noivado durou pouco. E ela se tornou, para o solteirão empedernido, a inspiradora, a Beatriz – um dos pólos de seu lirismo amoroso. Advogado da vacina obrigatória e do alistamento também obrigatório, republicano de primeira hora, destacou-se contudo por suas inclinações reacionárias. Esteve preso (“Quatro prisões, quatro interrogatórios… / Há três anos que as solas dos sapatos / Gasto, a correr de Herodes a Pilatos” – Em custódia, sob o pseudônimo Fantasio, soneto não incluído na Obra reunida) e exilado em Minas, onde conheceu Afonso Arinos, que marcou a segunda etapa de sua poesia (“meu nacionalismo é filho de meu tradicionalismo“. Bebia muito, mas também trabalhava muito. Desde a fundação da Academia Brasileira de Letras deixou de ser boêmio para ser o poeta acadêmico.

Bilac, que nunca escondeu a influência do seiscentista Vieira (em quem se inspirou para escrever o famoso Ouvir estrelas, cuja primeira publicação tinha uma epígrafe extraída do Sermão da Sexagésima) deixou uma semente que frutificou depois da Semana de Arte Moderna. Manuel Bandeira, em Balada das três mulheres de Araxá, cita dois versos de Bilac (“Que outros, não eu, a pedra cortem / Para brutais vos adorardes). Mário Quintana faz ligeira alusão a Bilac no sexto quarteto de Do cuidado da forma: “Teu verso, barro vil, / No teu casto retiro, amolga, enrija, pule…/ Vê depois como brilha, entre os mais, o imbecil, / Arredondado e liso como um bule!”

Para Bilac, como para O caçador de esmeraldas, o crepúsculo caiu “como uma extrema-unção”. Voltando a Eliot: o dever do poeta é só indiretamente voltado para o povo. Seu dever direto é para a língua. Ele morreu com o parnasianismo e a belle époque. Ou foram o parnasianismo e a belle époque que morreram com ele, no Brasil?

Fonte:
(in Caderno Idéias, Jornal do Brasil).
Jornal de Poesia.
http://www.secrel.com.br/jpoesia/

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José de Alencar (O Guarani)

(id:MCCXXXV)

Na primeira metade do século XVII, Portugal ainda dependia politicamente da Espanha, fato que, se por um lado exasperava os sentimentos patrióticos de um frei Antão, como mostrou Gonçalves Dias, por outro lado a ele se acomodavam os conservadoristas e os portugueses de pouco brio.

D. Antônio de Mariz, fidalgo dos mais insignes da nobreza de Portugal, leva adiante no Brasil uma colonização dentro mais rigoroso espírito de obediência à sua pátria. Representa, com sua casa-forte, elevada na Serra dos Órgãos, um baluarte na Colônia, a desafiar o poderio espanhol.

Sua casa-forte, às margens do Pequequer, afluente do Paraíba, é abrigo de ilustres portugueses, afinados no mesmo espírito patriótico e colonizador, mas acolhe inicialmente, com ingênua cordialidade, bandos de mercenários, homens sedentos de ouro e prata, como o aventureiro Loredano, ex-padre que assassinara um homem desarmado, a troco do mapa das famosas minas de prata.

Dentro da respeitável casa de D. Antônio de Mariz, Loredano vai pacientemente urdindo seu plano de destruição de toda a família e dos agregados. Em seus planos, contudo, está o rapto da bela Cecília, filha de D. Antônio, mas que é constantemente vigiada por um índio forte e corajoso, Peri, que em recompensa por tê-la salvo certa vez de uma avalancha de pedras, recebeu a mais alta gratidão de D. Antônio e mesmo o afeto espontâneo da moça, que o trata como a um irmão.

A narrativa inicia seus momentos épicos logo após o incidente em que Diogo, filho de D. Antônio, inadvertidamente, mata uma indiazinha aimoré, durante uma caçada. Indignados, os aimorés procuram vingança: surpreendidos por Peri, enquanto espreitavam o banho de Ceci, para logo após assassiná-la, dois aimorés caem transpassados por certeiras flechas; o fato é relatado à tribo aimoré por uma índia que conseguira ver o ocorrido.

A luta que se irá travar não diminui a ambição de Loredano, que continua a tramar a destruição de todos os que não o acompanhem. Pela bravura demonstrada do homem português, têm importância ainda dois personagens: Álvaro, jovem enamorado de Ceci e não retribuído nesse amor, senão numa fraterna simpatia; Aires Gomes, espécie de comandante de armas, leal defensor da casa de D. Antônio.

Durante todos os momentos da luta, Peri, vigilante, não descura dos passos de Loredano, frustrando todas suas tentativas de traição ou de rapto de Ceci. Muito mais numerosos, os aimorés vão ganhando a luta passo a passo.

Num momento, dos mais heróicos por sinal, Peri, conhecendo que estavam quase perdidos, tenta uma solução tipicamente indígena: tomando veneno, pois sabe que os aimorés são antropófagos, desce a montanha e vai lutar “in loco” contra os aimorés: sabe que, morrendo, seria sua carne devorada pelos antropófagos e aí estaria a salvação da casa de D. Antônio: eles morreriam, pois seu organismo já estaria de todo envenenado.

Depois de encarniçada luta, onde morreram muitos inimigos, Peri é subjugado e, já sem forças, espera, armado, o sacrifício que lhe irão impingir. Álvaro (a esta altura enamorado de Isabel, irmã adotiva de Cecília) consegue heroicamente salvar Peri. Peri volta e diz a Ceci que havia tomado veneno. Ante o desespero da moça com essa revelação, Peri volta à floresta em busca de um antídoto, espécie de erva que neutraliza o poder letal do veneno.

De volta, traz o cadáver de Álvaro morto em combate com os aimorés. Dá-se então o momento trágico da narrativa: Isabel, inconformada com a desgraça ocorrida ao amado, suicida-se sobre seu corpo. Loredano continua agindo. Crendo-se completamente seguro, trama agora a morte de D. Antônio e parte para a ação. Quando menos supõe, é preso e condenado a morrer na fogueira, como traidor.

O cerco dos selvagens é cada vez maior. Peri, a pedido do pai de Cecília, se faz cristão, única maneira possível para que D. Antônio concordasse, na fuga dos dois, os únicos que se poderiam salvar. Descendo por uma corda através do abismo, carregando Cecília entorpecida pelo vinho que o pai lhe dera para que dormisse, Peri, consegue afinal chegar ao rio Paquequer. Numa frágil canoa, vai descendo rio abaixo, até que ouve o grande estampido provocado por D. Antônio, que, vendo entrarem os aimorés em sua fortaleza, ateia fogo aos barris de pólvora, destruindo índios e portugueses.

Testemunhas únicas do ocorrido, Peri e Ceci caminham agora por uma natureza revolta em águas, enfrentando a fúria dos elementos da tempestade. Cecília acorda e Peri lhe relata o sucedido. Transtornada, a moça se vê sozinha no mundo. Prefere não mais voltar ao Rio de Janeiro, para onde iria. Prefere ficar com Peri, morando nas selvas. A tempestade faz as águas subirem ainda mais. Por segurança, Peri sobe ao alto de uma palmeira, protegendo fielmente a moça.

Como as águas fossem subindo perigosamente, Peri, com força descomunal, arranca a palmeira do solo, improvisando uma canoa. O romance termina com a palmeira perdendo-se no horizonte, não sem antes Alencar ter sugerido, nas últimas linhas do romance, uma bela união amorosa, semente de onde brotaria mais tarde a raça brasileira…
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O livro inteiro pode ser obtido no site http://www.cce.ufsc.br/~nupill/literatura/guarani.html
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Fonte:
http://www.netsaber.com.br/
Capa do Livro: Editora Martin Claret

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Jorge Amado (A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água)

(id:MCCXXXIV)

Autor dos mais respeitados na literatura brasileira, desde os anos trinta, Jorge Amado tem pontificado e feito sucesso de crítica e de público. Sua obra explora os mais diferentes aspectos da vida baiana: a posse violenta da terra, com as conseqüências sociais terríveis, como ocorreu na colonização da zona cacaueira do Sul da Bahia, está magistralmente imortalizada em Cacau, São Jorge de Ilhéus, Gabriela, Cravo e Canela e Terras do Sem Fim. Os tipos folclóricos das ladeiras de Salvador estão presentes em Tenda dos Milagres, Capitães da Areia, Mar Morto. A literatura engajada, comprometida com a ideologia política do Autor faz-se presente em Os Subterrâneos da Liberdade, O Cavaleiro da Esperança. Os perfis de mulheres extraordinárias que comovem e seduzem estão em Tieta do Agreste, Dona Flor e seus Dois Maridos, Gabriela e muitos outros…

Primeiro é preciso que se tenha em mente o “descompromisso” do Autor com o registro formal culto, para se entender melhor o comentário que se faz constantemente sobre seu “estilo”. Jorge Amado já se autoproclamou “um baiano romântico e sensual”. É o que a crítica costuma rotular de contador de estórias. Não segue, intencionalmente, o rigor da técnica de construção literária e nem dá a mínima para as normas gramaticais e ortográficas. Incorpora, com a maior naturalidade, à língua escrita, termos e expressões típicas da língua oral e de sua Bahia idolatrada. Não espere o leitor, portanto, defrontar-se com um texto primoroso, regular, pausterizado. Entretanto, quem se aventurar nos meandros de suas páginas, esteja preparado para o deguste de um texto saboroso e suculento que transpira a trópico, a calor, a vida. Suas histórias são tramadas sobre o povo simples e rude, numa língua que esse povo fala e entende.

O texto que serve de suporte a este estudo centra-se na fixação dos tipos marginalizados para, por intermédio deles, analisar e criticar toda a sociedade. A ação dá-se, basicamente, em Salvador e gira em torno da boêmia desqualificada das cercanias do cais do porto.

A Morte e a Morte de Quincas Berro d’Água é uma das melhores narrativas publicadas por Jorge Amado. Veio a lume em 1958 e conquistou desde logo a admiração de quantos dela se aproximaram. Nitidamente imbricada no Realismo Mágico, mistura sonho e realidade; loucura e racionalidade; amor e desamor; ternura e rancor, de forma envolvente e instigante:

Joaquim Soares da Cunha foi funcionário público, pai e marido exemplar até o dia em que se aposentou do serviço público. A partir daí, jogou tudo para o alto: família, respeitabilidade, conhecidos, amigos, tradição. Caiu na malandragem, no alcoolismo, na jogatina. Trocou a vida familiar pela convivência com as prostitutas, os bêbados, os marinheiros, os jogadores e pequenos meliantes e contraventores da ralé de Salvador. Sua sede era saciada com cachaça e seu descanso era no ombro acolhedor da prostituta. Fez-se respeitado e admirado entre seus novos companheiros de infortúnio: era o paizinho, sábio e conselheiro, sempre disposto a mais uma farra ou bebedeira.

Sua opção pela bandalha representa o grito terrível do homem dominado e cerceado por preconceitos de toda sorte e que um dia rompe as amarras e grita por liberdade.

Morreu solitariamente sobre uma enxerga imunda e sua morte detonou todo o processo de reconhecimento/desconhecimento por parte da família real e da família adotada. Os amigos durante o velório se embriagam e resolvem, bêbados, levar o defunto para um último “giro” pelo baixo-mundo que habitavam. O passeio passa pelos bordéis e botecos, terminando em um saveiro, onde há comida e mulheres. Vem uma tempestade e o corpo de Quincas cai ao mar.

Ao renunciar à família, mudar de ambiente e de costumes, Quincas morreu pela primeira vez; na solidão de seu quartinho imundo, envolvido por farrapos e curtindo a última bebedeira, morreu pela segunda vez; ao cair ao mar, não deixando qualquer testemunho físico de sua passagem pela vida, morreu pela terceira vez. A narrativa poderia chamar-se A morte e a morte e a morte de Quincas Berro D’Água, acrescentando-se uma morte ao protagonista, que ficaria bem de acordo com a progressão da trama.

Fonte:
http://www.vestibular1.com.br

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José Levy de Oliveira (Exercícios de Trovas)

(id:MCCXXXII)
.

UBT – Membro no. 088 – Seção de Juiz de Fora, MG

I. TROVAS BEM-COMPORTADAS

O temas são vários: um cartaz de alguém muito preocupado com meu bem-estar e o da coletividade;a indefinição das vestes e cabelos modernos; algumas fraquezas humanas; um noivo impaciente:

1.
Não que me faltasse aviso
Ou falte espírito crítico;
A mim? De mim! o sorriso
Do sorrateiro político!

2.
Dúvida atroz nos domina
Ante a mocidade nova:
Será menino ou menina
Ou os dois, até contra-prova?

3.
Já está na boca do povo
Que a mulher do Belisário
Vai ser um defunto novo:
Nunca faz aniversário…

4.
A fim de não levar “pito”
O cara, dissimulado,
Pra não revelar o pito
Pitava o pito apagado.

5.
Posso desejar a ti”
É ver-te bem desmaiado,
Pois, antes fora de si
Do que mal acompanhado.

6.
Se detestavas a morta
Por cruel e aborrecida,
Nada disso mais importa,
Pois a encontras … falecida.

7.
Fui um dos heróis da luta
Nessa batalhe triunfal;
Ninguém me viu na disputa
Mas dei um apoio moral….!

8.
Detida por impudência,
A moça assim se define:
-É clara minha inocência.
Só me esqueci do biquíni…

9.
Doidivanas e ao léu,
Ela trocou o biquíni:
De óculos, chinelo e chapéu
Foi banhar-se … de triquini.

10.
Para o Carnaval, de fato,
Não é difícil arranjar-se
E fica até bem barato:
Desnudar-se, desnudar-se …

11.
“- Se te atrasas para o altar,
Eu me agasto, minha nega!
– Não adianta se agastar …
O problema é que ela chega!

12.
Eu não sei o que seria
Se a Pati nada quisesse,
Mas, supondo que eu fizesse,
Será que a Pati faria?…

13.
– Oh! meu amor! Onde a lua,
As estrelas? Que se passa?
– Mas o que fazes na rua,
Que é só ruído e fumaça?
14.
Aquele beijo roubado
Devolver-te? Só de um jeito!
Que o tires com um beijo dado
Agarradinha ao meu peito.

15.
Troveirei a noite inteira
Na janela do meu bem,
Mas, oh!, sorte traiçoeira!,
Troveirou o céu, também.

16.
Duvidas que o homem troveja
E queres prova, doutor?
O que faz quando verseja
E faz trova o trovador?

II. TROVAS METATROVÍSTICAS
A eficácia terapêutica de poetar; as intertextualidades inerentes a esses pequenos poemas; a grandeza do Santo que é o patrono dos trovadores:

1.
Depois das mais duras provas
E dos percalços da vida,
O trovador pensa em trovas
E leva a dor de vencida…

2.
Se, no caminho, uma pedra
Foi, um dia, inspiração,
Tão forte é a trova, que medra
Nas trilhas do coração.

3.
Não sobra melancolia,
Isso o dia-a-dia prova
Que não sare à melodia
Que há na alma da trova.

4.
No pobrezinho de Assis
Nossa força se renova
E nossa trova lhe diz:
“- Santo Patrono da trova!”

5.
O trovador, eu sustento,
O seu talento comprova
Talando o seu pensamento
No estreito leito da trova.

6.
Tão grande é o poder da trova
Que até a amplidão do universo
– e esta mesma o comprova –
Cabe em qualquer de seus versos.

7.
Porque se trova, na vida,
Com tanta ânsia fremente?
Para, à beleza, guarida
Dar no coração da gente.

8.
Na floresta de concreto
Do urbano trovador,
Dá-se o milagre completo
Quanto ele trova … essa flor!

9.
Pela vida, de mãos dadas
Com a mais sublime estesia,
Me ponho pelas estradas
Com as trovas de cada dia.

10.
Não trovo por ser perfeito
Trovador, mas por saber:
Dever de casa, a ser feito,
Seja feito com prazer.

III. TROVAS DE CONTEMPLAÇÃO

1.
– Essência? – me perguntaste.
É a porçãozinha mais ínfima
Que sobra após o desbaste
Do que excede à parte íntima…

2.
Por mais que longa a distância
Entre corações leais,
Nada macula a constância
Com que eles se querem mais…

3.
Esta verdade não falha,
Certeza mais que palpite:
Para quem ama e trabalha
O Infinito é o limite.

4.
As perfeições do teu mundo
Amo e admiro, meu Deus,
Mas, poeta, me aprofundo
Em somar esforços meus…

5.
Em noites de céu escuro,
Quando não se pode vê-las,
É nosso anseio mais puro
Que acende a luz das estrelas.

6.
Não tenhas temor de nada,
Se vives honesto e bom.
Não se resume a trovoada
A um pouco de luz e som?

7.
Se a vida é duro embate
Que aos fracos sói abater,
“Combater o bom combate”
É “ajudar a viver”.

8.
Para que o esforço não falhe,
Pondo a perder a intenção,
Atente a cada detalhe,
Busque sempre a perfeição.

9.
O homem procura Deus
Com forte sede e incerteza
E, bem em frente aos olhos seus,
Está Deus na Natureza.

10.
Homem, meu filho, merece,
Esse nome, o que porfia
Em trabalho, amor e prece,
Nas lides de cada dia.

11.
Filho não é prevenção,
Cofre, poupança ou seguro;
Filho é carta de intenção
Que se consigna ao futuro.

12.
Temor é morte, variante
Escrita em modo invertido.
Temer é morrer bem antes
De enfrentar o que é temido.

13.
Temor a Deus? Não concordo
Nem penso viver ao léu.
Com Deus me deito e me acordo
E a Terra com ele é Céu.

14.
Consciente, sereno, altivo,
Em todo e qualquer momento
Deve ser o objetivo
Do cultor do pensamento.

15.
A força que reverdece
O coração sofredor
Provem do alívio da prece
Que vence tristeza e dor.
16.
A vida é para brilhar,
Deve o homem ser feliz;
Em vez de o vício adotar,
Corte o mal pela raiz.

17.
Na vida terás franquia,
Ao nascer, com esta certeza:
A cada meia alegria
Haverá uma tristeza.

18.
A mente lúcida, aberta
À incerta natureza,
Só de uma coisa está certa:
É impossível ter certeza.

19.
Assim vai a Humanidade,
Metade em alegre boemia,
Enquanto a outra metade
Restam suor e porfia.

20.
Temor eu tenho de, um dia,
Descobrir que não vivi
Aventuras, fantasias,
Somente porque as temi.

21.
É hora, de vez por todas,
De deixar da vida a esmo;
Pretendo contrair bodas
E viver comigo … mesmo.
22.
Se o progresso é despedida
De tudo bom que conheço,
A ir pra frente na vida
Prefiro ir … de regresso.

23.
“- Ajuda!” – diz meu netinho,
Sempre que quer um socorro.
E corro, vou ligeirinho,
Que ao meu futuro que corro.

24.
Tem sido uma dura andança
Toda minha vida a buscar
Sossego, paz e bonança
… se a tempestade passar.

25.
A natureza, com sono,
Chega a mudar de estação,
Pra descansar, no outono,
Dos excessos do verão.

26.
Querer nem sempre é poder,
Mas, se pudesse eu queria
Deixar de inútil querer:
Seu eu quisesse, poderia?

27.
Nos burburinhos urbanos,
Em que a vida perde a graça,
Uns toques restam, humanos,
No bucolismo da praça..

28.
Caminhava eu num sentido,
Em outro ela, com graça,
Nosso mundo resumido
Em nosso encontro na praça.

29
Causa a distância, querida,
Imenso dó que assim meço:
Maior a dor da partida,
Mais o prazer do regresso.

30.
Se, no Juízo Final
For dar meu depoimento
Contra ti e por teu mal,
Serei réu de esquecimento.

31.
Meu amor é assim, total,
Por isso posso afirmar
Que se ele te fizer mal
Renuncio a te amar.

TROVAS DE LOUVAÇÃO

A uma cidade, cujo nome já é um verso perfeito;
a personalidades dignas de encômios:

1.
Redondilha que seduz,
Cantá-la bem nos compete;
Reluz a antiga Queluz,
Conselheiro Lafaiete!

2.
Luiz Otávio, é a prova
De que é capaz a poesia
De resistir pela trova:
LuizOtáviomania… (1)

3.
Do país que atravessaste
Em aturados estudos,
Euclydes, tu nos deixaste
A epopéia de Canudos.

4.
Luiz da Câmara Cascudo,
Para que o Brasil melhore,
Fixou-lhe, em amplo estudo,
Como é rico o seu folclore…

5.
Em quatro versos, concisa,
Clara, completa, notável,
A trova sempre realiza
O ideal de Luiz Otávio.

6.
Caxias, tu és legenda
De civismo, força e glória,
Sereno em qualquer contenda,
Bondoso, em qualquer vitória…

7.
Ao coibir-lhe agravos,
As tuas ordens, Caxias,
Dão lições aos nossos bravos
De humanismo e fidalguias.

Fonte:
Academia de Letras de Viçosa
http://www.alv.org.br/

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Rio Grande do Sul em Trovas

(id: MCCXXX)

Era uma cena tão linda,
cheia de plantas e flores,
e nessa beleza infinda
brilhava com muitas cores!
Alexandre Amaral Trindade (12 anos)

Saudade, grande saudade
daquele alguém especial,
da nossa felicidade
que teve um doce final!
Alexandre Amaral Trindade (12 anos)

O mar… A praia… Saudade!
Lindas ondas relembrando,
me trazem felicidade
e eu continuo sonhando!
Alexandre Amaral Trindade (12 anos)

Mamãe é uma linda flor,
toda cheia de ternura,
ela me enche de amor,
com sua alma linda e pura!
Alessandro Deickel Trindade (9 anos)

Quando a vida tiver fim
hei de sempre ser lembrado
pois deixo um pouco de mim
em cada órgão doado.
Alice Cristina Velho Brandão

Cada gotinha de orvalho,
sorvida por uma flor,
revela, de galho em galho,
uma “promessa” de amor…
Amália Marie Gerda Bornheim

Se a velhice, queres, calma,
e prazer em tua lida,
a primavera põe n’alma
junto ao inverno da vida!
Anita Gonzáles

Meu amor vive distante,
lá do outro lado do mar.
A saudade,a todo instante,
é que vem me visitar!
Antônia Nery

Voa, sim, gaivota, voa,
vai contar ao meu amor
que vivo chorando à toa
tão grande é a minha dor!
Antônia Nery

Perdida no teu abraço
esqueço o mundo lá fora,
flutuo em tempo e espaço,
para mim só existe o agora!
Antônia Nery

Saudade tem um jeitinho
que comove e faz sofrer.
Chega sempre de mansinho,
não depende do querer.
Antonia Viana Machado

Precisamos entender
a vontade do senhor.
Quão importante é crescer,
em nosso mundo interior!
Antonio Nely Fardo

Quanta família sofrida!…
Quanto jovem se destrói!
– as drogas, ceifando a vida,
é uma verdade que dói!
Antonio Vogel Spanemberg

A dor que mais dói na gente
é ver um sonho desfeito,
o coração de repente
parece estourar o peito.
Arlete Sacramento

Chamam-me velho, nem ligo.
Vejam só minha atitude:
olhando meus filhos, digo:
-alí vou com juventude.
Arlete Sacramento

Os ventos de meus caminhos
são tristes recordações,
levaram tantos carinhos,
deixaram mil ilusões…
Arlete Sacramento

A minha alma renasceu
num renascer de emoção!
A alegria não morreu,
vive no meu coração!
Átila Amaral Trindade

Apesar dos meus pesares,
ainda tenho confiança,
de cantar, nos meus cantares,
as notas de uma esperança!
Beatriz Castro

Ternura bateu-me à porta,
com simplicidade entrou
e aquela ilusão já morta,
aos poucos , ressucitou!
Beatriz Castro

Eu queria ser feliz,
Deus me deu sabedoria.
Era um simples aprendiz,
virei mestre da alegria.
Carmen Pio

Esta tão bela amizade,
cheia de recordações,
nos envolve de saudade,
sempre em nossos corações.
Carmen Pio

No caminho desta vida,
amparado nas lembranças,
é você filha querida,
que me faz ter esperanças.
Carmen Pio

A sabedoria alenta,
é o pilar do renascer,
é coluna que sustenta,
nos ensinando a viver.
Carmen Pio

O caminho me fascina,
as lembranças me sustentam,
a saudade me ilumina,
e as emoções só aumentam.
Carmen Pio

Teu caminho foi tão belo,
de virtudes tua vida,
teu gesto sempre singelo,
enobrece tua partida.
Carmen Pio

Sabedoria é serena,
engrandece nossa alma,
deixa a vida mais amena,
tranqüila, dócil e calma.
Carmen Pio

Buscar a sabedoria,
é um ato virtuoso,
é o caminho e é o guia,
para um mundo harmonioso.
Carmen Pio

Sabedoria é a fonte,
de toda a felicidade,
faça dela sua ponte,
de encontro com a humanidade.
Carmen Pio

No silêncio da saudade,
todo envolto de magia,
clamo por felicidade,
chega triste nostalgia.
Carmen Pio

Ó bairro que me inspirou
com sua paz e harmonia.
E a Deus Pai me elevou
com sua oculta magia.
Carmen Pio

Encantada com a beleza
deste rio, belo espelho,
eu me integro à natureza,
coberta de sol vermelho.
Carmen Pio

Uma doce intuição,
explode dentro do peito.
E uma mais linda emoção,
acontece no meu leito.
Carmen Pio

A rima é como balanço,
das águas verdes do mar,
é harmonia que alcanço,
na beleza do trovar.
Carmen Pio

Sonhei em ser bela trova.
Acordei ao lado teu.
Nosso doce amor comprova,
a vida é você e eu.
Carmen Pio

Tive a honra de ingressar,
Na confraria do amor,
Com meus irmãos exaltar,
A trova com muito ardor.
Carmen Pio

Tudo aquilo que foi dito
poderá ser reparado,
mas o que ficou escrito
não pode mais ser mudado.
Cássia Luísa Bolson

Sopra, ó vento, as nuvens rasas,
pelo verde pampa em flor,
transportando em tuas asas,
meu sonho de trovador!
Cláudio Derli

Mãos que ajudam… Mãos seguras,
contra a fome e contra a dor,
formam elos de ternuras
numa corrente de amor!
Cláudio Derli

Comparo o viver sozinho
e, que muita gente tem,
à tristeza de um caminho
onde não passa ninguém.
Conrado da Rosa

Quando acode aos meus apelos,
faz o tempo rodopiar.
Traz a noite nos cabelos,
a madrugada no olhar.
Conrado da Rosa

Eu sempre te quis pra mim
mas nunca soube dizer,
que te amava tanto assim,
por isso vivo a sofrer!
Dalvina Fagundes Ebling

Olho o céu, olho o infinito,
e relembro minha andança,
lembro o momento bonito
do meu tempo de criança!
Dalvina Fagundes Ebling

Beber sorrisos de aurora,
sentir tristezas de ocaso,
é transformar nosso agora
na beleza de um parnaso!
Delcy Canalles

Eu vejo deus na magia
dos versos simples que teço
deus é rima, amor, poesia,
é fim, é meio, é começo!
Delcy Canalles

A manhã sorri contente,
ante a beleza da aurora
e tem pena do poente
que, à tardinha, triste, chora!
Delcy Canalles

Cavalgando o “minuano”
eu sigo, em frente, risonho,
sou tropeirista aragano,
que monta o vento do sonho!
Delcy Canalles

Sem amor, envelheci,
hoje é que vejo, sentida,
que em verdade eu não vivi,
pois sem amor, não há vida!
Delcy Canalles

Cavalgando a fantasia
eu sigo, em frente, risonho.
Ponho no céu da poesia
todo o luar do meu sonho!
Delcy Canalles

A frágil rosa em seu galho
depois que o vento passou,
desfolhou-se sobre o orvalho
que a madrugada deixou!
Doralice Gomes da Rosa

À tardinha, o sol já posto,
com arabescos tristonhos,
vai desenhando teu rosto
na vidraça dos meus sonhos!
Doralice Gomes da Rosa

Sinto em cada trova escrita
que a saudade amarelou,
a lembrança mais bonita,
que tua ausência deixou!
Doralice Gomes da Rosa

Teus olhos trazem mensagem
de luz, de amor e carinho…
São dois fachos de coragem
brilhando no meu caminho.
Doralice Gomes da Rosa

Sonhei, em loucos desejos,
ser um beija-flor colosso,
fechando um colar de beijos
na curva do teu pescoço.
Doralice Gomes da Rosa

O sol e a lua se amaram
às escondidas, ao léu.
Tempos depois despontaram
milhões de estrelas no céu.
Doralice Gomes da Rosa

Este amor que nós vivemos
se eterniza a cada hora,
tanto que nos esquecemos
que existe um mundo lá fora…
Doralice Gomes da Rosa

Se o ódio promove a guerra,
se a esperança se desfaz,
que do amor que ainda há na terra,
brotem cascatas de paz!
Éderson Juliano Savi Pauletti

Se o infinito profundo
cabe inteiro no meu “eu”,
bem menor é o vasto mundo
que o desejo de ser teu!
Eldo Ivo Klain

Amizade é como a rosa,
cultivada com ardor.
Continuará mais formosa,
se regada com amor.
Elisabete Beatriz de Lima Scholz

Um beijo roubado às pressas
e de forma singular
pode aguçar as promessas
e dar foto ao pé do altar…
Eloy de Oliveira Fardo

Em ternura plena e extrema,
nossos sonhos se cruzaram!
E a noite se fez poema…
E os versos também se amaram!…
Flávio Roberto Stefani

De manhã, sugando amores,
nesses teus lábios de paz,
provo todos os sabores,
nos sabores que me dás.
Flávio Roberto Stefani

Pela magia do vento,
que leva a semente ao léu,
elevo meu pensamento,
para as lavouras do céu!
Flávio Roberto Stefani

Meu senhor, quero sentir,
de uma forma singular,
a coragem de sorrir,
quando o dia é de chorar.
Flávio Roberto Stefani

Quando a tristeza me alcança,
vencido pelos cansaços,
iço a vela da esperança,
rumo ao porto dos teus braços.
Flávio Roberto Stefani

Mágoas são queixas que a gente,
sem querer, pelas jornadas,
deixa escorrer lentamente
no rosto das madrugadas.
Flávio Roberto Stefani

Meia luz… Noite… A vidraça…
A cama… Beijo… E depois…
Um brinde… O champanhe… A taça…
O amor… O sonho… Nós dois…
Flávio Roberto Stefani

Sou feliz por um segundo
quando o amor encurta espaços
e a fronteira do meu mundo
toma a forma dos teus braços!
Gerson César Souza

Por ter deus que me socorre,
ante a dor, não perco a calma:
a fé é o sangue que corre
pelas veias de minha alma!
Gerson César Souza

Um exemplo que dá gosto
e vontade de viver
é o sol que depois de posto
sempre volta a renascer.
Gerson César Souza

Deus fez todo o universo
criou os mares e as flores,
e para compor seu verso
deu a rima aos trovadores!
Gisele Bueno Pinto

Se nada existir na vida,
se até o sonho fugir,
hei de encontrar-te, querida,
na hora de ressurgir!
Gisele Bueno Pinto

Só quero ter nesta vida
ombro amigo e peito irmão,
anatomia querida
em forma de coração!
Gisele Bueno Pinto

Quero cantar pelo espaço
e, nas estrelas, rever
todas as trovas que eu faço.
Trova é prece em meu viver!
Gislaine Canales

Vivemos juntos, mas sós,
nossa solidão somada,
fez de ti, de mim, de nós,
a soma triste do nada!
Gislaine Canales

Sozinhas nas madrugadas,
donas do mundo e da lua,
nossas mãos entrelaçadas
seguem juntas pela rua!
Gislaine Canales

A mistura de mil cores
e toda a luz do universo,
mais o perfume das flores,
desejo pôr no meu verso!
Gislaine Canales

O sol dourado se espraia
tão lindo com seu calor,
por toda a areia da praia
em doces beijos de amor!
Gislaine Canales

A minha vida é uma trova,
trova de ilusão perdida,
pois a vida é grande prova,
que prova a trova da vida!
Gislaine Canales

Eu quero poder cantar
meus versos aos quatro cantos,
talvez possa transformar
em risos, todos os prantos
Gislaine Canales

Da vida o mais doce encanto
é recordar na velhice,
o maternal acalanto
dos dias da meninice.
Hugo Ramirez

Bebendo o mel dos afagos
das prendas de que sou rei,
sou monarca destes pagos,
onde livre me criei…
Hugo Ramirez

Ai ! Que seria da gente,
neste mundo de amargura,
sem o bálsamo clemente
que nos oferta a ternura!
Hugo Ramirez

Ah, se eu pudesse voltar,
aos tempos de antigamente!
Não teria em meu olhar
esta angústia tão presente!
Irene Canalles

Eu amava tanto…tanto…
Que meu coração cansou.
Hoje vivo do acalanto
que aquele amor me deixou.
Irene Canalles

Meu passado foi um sonho,
e tudo que já passou,
reflete em meu ser tristonho
a saudade que ficou!
Irene Canalles

Fiz um castelo de areia
naquela duna branquinha,
veio o vento e a maré cheia,
levaram tudo que eu tinha!
Irene Canalles

Teus olhos, linda gaúcha,
são flechas de poesia,
paixão real que me puxa
num breve toque-magia.
Israel Lopes

Na rocha em contínuas rondas,
a noite, o farol reluz,
ao refletir sobre as ondas
grandes pingentes de luz!
Ivan Soares Schettert

Mãe é a grande fortaleza,
plena de amor e emoção!
a mais bela realeza
que te ampara na aflição!
Ivani de Souza

Amigo é preciosidade
fazê-lo é grande ciência,
a beleza da amizade
é o novo sol da existência!
João de Souza Machado

Ao sentir a alma perdida
na procura da esperança,
há momentos nessa vida
em que sonho ser criança!
José Westphalen Correa

A visão que me produz
um vaga -lume na altura,
me lembra um pingo de luz
brilhando na noite escura…
Lacy José Raymundi

Minha memória procura,
nos armazéns da lembrança,
os fardos de travessura,
dos bons tempos de criança!…
Lacy José Raymundi

A seca se foi embora,
a chuva do céu derrama
e eu juro que ouvi, lá fora,
as gargalhadas da grama!
Lacy José Raymundi

Foi na ânsia de alcançar
um porvir doce e risonho,
que olvidei de alicerçar
as escadas do meu sonho!
Lisete Johnson Oliveira

Perdão…as ondas pediam
para as areias do mar,
que em volúpia se despiam
com o incessante beijar!
Lisete Johnson Oliveira

Enquanto houver um luar
e um sol, cheio de esplendor,
há de se ouvir o cantar
da lira de um trovador.
Lisete Johnson Oliveira

Pulsa tanto neste peito,
um coração tão febril,
quando mira o vago leito
com sombras do teu perfil!
Lisete Johnson Oliveira

Nosso amor inconfessado,
tão silencioso e prudente,
foi desejo refreado,
foi luz de estrela cadente.
Lisete Johnson Oliveira

Inconstância é estar contigo,
tudo tem duplo valor;
busco o amor, encontro o amigo,
busco o amigo, encontro o amor…
Lisete Johnson Oliveira

Às vezes, doces sonatas,
noutras, preces de louvor;
sempre belas serenatas
tuas confissões de amor!
Lisete Johnson Oliveira

Nas lembranças do passado
tantos sonhos eu gravei,
hoje, releio apressado
as mensagens que arquivei.
Luiz Damo

Estes brinquedos guardados
reduzem qualquer distância,
pois são eles, empoeirados,
que eternizam minha infância.
Luiz Machado Stabile

Quando não puder bater,
em teu peito o coração,
salva a vida de outro ser
na sublime doação.
Lydia Lauer

Na trajetória da vida
às vezes, fico tristonho,
depois encontro guarida,
porque sou filho de um sonho!
Manoela Ajalla Paz

Pela fé, seguir o rumo
da paz que nos fortalece,
é simplesmente em resumo,
amor em forma de prece…
Maria Cardoso Zurlo

Neste mundo de violência,
tem a criança um porvir,
porque deus, pai da existência,
faz sempre a rosa se abrir!
Maria Dorneles

Silêncio, a alma liberta
voando na imensidão,
encontra uma porta aberta
à sublime inspiração!
Maria Dorneles

Este amor adormecido
foi, de repente, acordar,
descompassado e perdido,
na dança do teu olhar.
Maria Dorneles

Vôo nas asas do vento
por rumos desconhecidos
e, nesse voar, eu tento,
achar mil sonhos perdidos.
Maria Helena Binelli Catan

Chegou num jeito sem jeito
de bombacha, bota e espora,
fez morada no meu peito
e nunca mais foi embora.
Maria Pampin

São teus beijos, a magia,
que me acalma e alimenta,
trazem luz, muita alegria
se uma nuvem atormenta.
Marilene Bueno da Silveira

Numa vida com agruras,
se a magia fortalece,
nossos filhos são canduras
– e os netos? – são nossa prece!
Marilene Bueno da Silveira

Renovemos nossos dias
com muita dedicação,
transformando em alegrias
as dores do coração!
Marilene Bueno da Silveira

Quando o “minuano” assobia,
rasgando o espaço, imponente,
é um vendaval de poesia,
soprando na alma da gente!
Marisa Vieira Olivaes

Não há vazio mais triste,
nada mais à alma fala
do que o silêncio que existe,
quando a voz do amor se cala!…
Marisa Vieira Olivaes

A lua, cantada em verso,
o sol, ardente e fecundo,
são luzeiros do universo,
clareando os pagos do mundo!
Marisa Vieira Olivaes

Quando as luzes se apagarem
e a terra, em fendas, se abrir,
se dois corações restarem,
a vida há de ressurgir!
Marisa Vieira Olivaes

De lembranças vou vivendo
abraçada à solidão…
– e a saudade… Vou moendo
na usina do coração!…
Marisa Vieira Olivaes

Um cenário de magia
surge aos versos que componho:
– um reator de poesia
na imensa usina do sonho!
Marisa Vieira Olivaes

Na altivez com que te portas
desdenhando o meu carinho,
transformas em linhas tortas
as retas do meu caminho…!
Marisa Vieira Olivaes

As poças d’água da rua
brincam de espelho quebrado,
há, em cada poça, uma lua,
e um belo céu estrelado!
Marlê Beatriz Araújo

Peço ao vento cirandeiro
das madrugadas de outono,
que seja o meu seresteiro,
mas que não me roube o sono!
Marlê Beatriz Araújo

É na ciranda das horas
que passam todas as juras
passam também as demoras
e até mesmo as amarguras!
Marlê Beatriz Araújo

Do sonho surgiu a trova
que, perspicaz, nos conduz,
a vida que se renova
em rimas, plenas de luz!
Marlê Beatriz Araújo

Há, na beleza selvagem
que a cascata canta, em festa,
emocionante mensagem
de quem criou a floresta!
Marlê Beatriz Araújo

Bendigo essa luz que um dia
em minha estrada brilhou,
e resgatou a alegria
que o tempo quase apagou.
Marlê Beatriz Araújo

Tem sabor de eternidade
esta saudade atrevida,
quando se instala, à vontade,
na história da minha vida.
Marlê Beatriz Araújo

Contigo sempre reparto
este amor que não termina:
é na penumbra do quarto
que o nosso amor se ilumina.
Milton Sebastião Souza

Quando qualquer luz se acende
faz a vida ressurgir.
A própria sombra depende
de uma luz para existir.
Milton Sebastião Souza

Mesmo estando atarefado,
de dois vícios eu não largo:
do teu beijo adocicado
e o chimarrão sempre amargo.
Milton Sebastião Souza

Esta minha alma indecisa
não consegue se aquietar:
mal um sonho realiza,
outro sonho quer buscar…
Milton Sebastião Souza

A luz da estrela, em fulgores,
vence o universo profundo
eenchendo o espaço de cores
enfeita as noites do mundo…
Milton Sebastião Souza

Mal termina a serenata
um silêncio sorrateiro
derrama gotas de prata
no rosto do seresteiro…
Milton Sebastião Souza

O pai, virando um brinquedo
nas mãos do filho petiz
vai lapidando, em segredo,
o adolescente feliz!
Milton Sebastião Souza

Felicidade, na vida,
quem sabe, mal comparando,
é como a chuva caída
que vai e acaba voltando.
Nelson Fachinelli

Eu que vivi de poesia
quando eu morrer, por favor:
-quero festa de alegria,
sem uma lágrima ou dor.
Nelson Fachinelli

Conhecendo bem o mundo,
aconselho a mocidade:
fazer, de cada segundo,
momento de eternidade!
Nelson Fachinelli

Se a vida me põe à prova,
não há nada que me oprima,
meu psicólogo é a trova
e o meu analista, a rima!
Neoly de Oliveira Vargas

Tanto ódio!…tanta guerra!…
Mandai “bons ventos”, senhor,
aos quatro cantos da terra,
somente espalhando amor!
Neoly de Oliveira Vargas

Natal! No pobre ranchinho,
a mãe ao bom deus bendiz,
acalentando o filhinho
a cantar…”noite feliz…”
Neoly de Oliveira Vargas

Que lindo é um céu estrelado
numa noite azul-turquesa
parece um manto bordado
nos ombros da natureza!
Nilza Castro

Meu chimarrão é um charrua
na verde seiva pisada…
É um beijo de prata e lua,
no apojo da madrugada!
Nilza Castro

Eu gosto muito de flores,
rosa, branca, qualquer cor,
mas o tom dos meus amores
é rubro, que é cor do amor!
Renata Canales

Eu fiz da saudade a marca
de minha ilusão perdida,
e de meu verso uma tarca
para marcar minha vida.
Rui Cardoso Nunes

Quando me paro cismando,
eu sinto, meio bisonho,
o vento do amor soprando
nas cordilheiras do sonho!
Severino Silveira de Sousa

Meus versos, por excelência,
augurando amor e calma,
são “radiações da consciência”
enluarando minha alma!
Severino Silveira de Sousa

Pensa em tudo que fizeres,
ampara, serve e perdoa.
Socorre o quanto puderes,
consola, passa e perdoa.
Severino Silveira de Sousa

Quem nunca teve um amor
vive uma vida sem vida,
sem carícia, sem ardor,
como uma sombra perdida!
Sidarta da Rosa Soares

Busquei a felicidade
por todo lugar que andei,
para dizer a verdade
só procurei, não achei!
Sílvia Benedetti

Um sorriso de criança
mostra um momento profundo
onde vigora a esperança
de ressurgir novo mundo!
Taciana Canales da Trindade

Cometo qualquer loucura,
das convenções rompo os laços,
só para ter a ventura
de amanhecer nos teus braços!
Wilma Mello Cavalheiro

Meu instante é mais bonito,
e o desejo amplia os laços
quando chego ao infinito,
e volto à terra em teus braços.
Wilma Mello Cavalheiro

Minuano teus intentos,
comprovam, em forte estampa,
que és o corsário dos ventos
na imensidão do meu pampa!
Wilma Mello Cavalheiro

Consola a dor na esperança
que à vida sempre conduz.
Quem não teme, tudo alcança,
transformando a dor em luz.
Zélia Maria de Nardi

Tens nos olhos a poesia
das noites enluaradas,
tens no sorriso a magia
e o frescor das madrugadas.
Zeno Cardoso Nunes

Os netos são a esperança,
são momentos de alegria,
lembrando sempre a criança
que já fomos algum dia!
Zuleika Ribeiro Edler

Fonte:
http://ubtportoalegre.portalcen.org/html/gauchos.html

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Arquivado em Rio Grande do Sul, Trovas

Caldeirão Literário do Estado do Acre

(id: MCCXXIX)

Jorge Tufic (A origem da Noite)

A Noite era um fantasma que se repartia
entre a luz e a escuridão.

Um lado desse fantasma era escuro e feio.
O outro lado era claro e bonito.

Nãmi, era como se chamava o dono da Noite.

Os grilos teciam as folhagens do sono
enquanto o pássaro japu tratava de afastar,
com seu bico,
as cortinas da madrugada.

Antes de dar a Noite a seus netos,
Nãmi comeu ipadu e fumou olé-o (cigarro).

O resto dessa estória ninguém sabe,
porque uma parte dela ficou com a Gente da Noite
e a outra parte ficou com a Gente do Dia.

Jorge Tufic (Makunaíma Recria o Mundo)

Depois das águas grandes,
o mundo ficou seco e oco.
Pedaços de carvão ficaram rolando no solo,
como ecos de pedras,
vozes de rio, gemidos de fogo.
Então, Makunaíma acordou.
E do barro de sua vigília
retirou aquele homem, sua forma de barco,
seu peito cavado.

No outro lado de Roraima
seus feitos continuaram.
Homens e mulheres foram sendo mudados
em rochas, antas e javalis.
Perto de Koimelemong, um cervo
mergulha na terra a cabeça-de-pedra.
Sobre uma grande onda na Serra de Aruaiang,
pousa uma cesta de luar.
A Serra do Mel parece conduzir
um silêncio de aragem
e vai sem ter vindo.

Muitas dessas pedras se elevam
No país dos ingleses, assim como peixes
E uma cesta que imita, por baixo,
Um perfil de mulher.

A savana da Serra de Mairani
são braços, pernas e cabeça
de um ladrão de urucu.
Aí também se entreabrem umas nádegas de pedra.
Cachoeiras acima,
o movimento dos peixes adentra na rocha.

Uma pedra chamada Mutum
canta como este
quando alguém vai morrer.
vespas gigantes construíram suas casas
e zumbem na base mais profunda da serra.

Aqui fora, Makunaíma dá os últimos retoques
Nos bichos domésticos.
Depois disso ele deita na terra molhada
e se deixa esvair em milhares de seres
que nadam para o rio.

Jorge Tufic (Cartago Fui Eu)

Canta um pássaro morto sobre o dia
que a muitos outros já se misturou
algo abaixo dos ramos silencia,
treme a terra na pedra que restou.

Vem de que mares essa nostalgia
que meus ossos fenícios engessou?
De Cartago, talvez, da noite fria
transformada no pássaro que sou.

Esse canto noturno me extenua.
Vem de Cartago, sim; da negra lua
por dono o sol que abrasa, mas festeja.

Esplende a noite em látegos de urtiga.
Brinda-se à morte ao cálice da intriga.
Meu corpo, feito escombros, relampeja.

Jorge Tufic (O Desencontro)

Uma folha tremula
sobre o branco aflitivo dos garfos.

Passado & futuro
são fronteiras de aragem.

Formigas saem das tocas
ganham asas de louça.

Cristais se fundem
no brinde sem eco.

Jorge Tufic (Fragmento)

À tarde e à noite
o poeta está ausente.
Relógio e calendário
ficaram do avesso.
Ele usa a freqüência dos búzios
e capta as notícias que envelhecem
antes da letra e do chumbo.

Percebe, então, que falta um elo
para cada coisa.

Possivelmente indecifrável.

Jorge Tufic (Prospecção)

Ninguém te vê.
Só os ventos te penetram.

Ninguém que esteja saciado
ou faminto
necessita de ti.

Neste exato sem nome
reintegra-te à nuvem que passa
e ao canto das aves.

o poeta, já o disse,
é um ser transparente.

Invicto. Desnecessário
entre porcos, hienas
e outros viventes

solidariamente incompletos.

Jorge Tufic (As Três Porcas)

Uma coisa me olha desde que nasci.
Outra coisa me suga.
E ainda sobra uma terceira
que, lenta e pacientemente,
vai desfolhando os meus dias
como quem toca um realejo.

Jorge Tufic (De Ônibus, pelo Sertão)

Lá fora, o diameno.
Bloqueio de trevas,
cysne,
cântico de agulhas.

Em busca desse dia
eu parto: noutras paragens,
decerto,
há homens e bichos
que disputam vitórias,
se matam.

Mas aqui, só nuvens
rascunham fugacidades.
Paisagens, velozes,
não passam por mim.

Atravessamo-nos, apenas.
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JORGE TUFIC (1930- )
Nasceu em Sena Madureira, no Acre e reside em Fortaleza, Ceará, Brasil.
“Aí começou aos sete anos de idade, a ouvir o ponteio das violas sertanejas, acompanhando as trovas, os repentes e as saudades dos soldados da borracha, filhos do nordeste brasileiro.”
Mais de quarenta títulos publicados, entre prosa e poesia,. Os versos a seguir espelham melhor a sua biografia e a sua geografia humana.
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Valquíria Raizer (Dos ipês)

De um amarelo
Impositivo
Flutuante

(cambio, desligo)

As garrafas de fanta
Parecem tão laranja
(ali)

A escada
Tem muitos
(degraus)

Prego
Cada uma
(a seu tempo)

Valquíria Raizer (Laranjas e fantas)

Eu te avisei!
…disse Mário com cara de Maria…
(como se houvesse menos multa
quando se buzina antes de passar o sinal)

Avisou sim é verdade,
mas queria não ser entendido.
Avisou só por desencargo.
E isso não conta.

Disse que o ipê floria,
que era amarelo e só.
Disse que era desse jeito todos os anos,
e que não pensava em mudar.

Mas o ipê muda Mário,
e sou eu
é que estou te avisando.

Há de nascer laranjas nele…

Se não nascer eu mesma subo
e prego umas garrafas de fanta.

Valquíria Raizer (Reticências)

vou escrever qualquer coisa
que não pareça
nada
( ! )

esse tudo
é mesmo
o que
(devasta)

Valquíria Raizer (Coração estranho)

Um coração estranho
E uma alma
Torta

Um coração
Estranho
E uma alma
Torta

Olha pra mim
Vê o que vês
Olha (!)
É só uma
Alma torta

Do que tens medo
Medo de quê
Sou só mais uma alma
Torta

Valquíria Raizer (Aceleração)

…é como se tudo tivesse
girando
Um giro calmo
(e calculado)

Um giro bom
(pro mundo)

Mas o mundo
(é grande)
E não precisa de mim
( e de ti)

Mas eu, querida
Eu preciso do mundo
E ele está aí
(flertando)

Valquíria Raizer (Katauê)

O miolo dentro da casca
(pão)

O miolo dentro
( da casca)

A casca virando

O miolo
O miolo
Miolo

Poderia
Correr
Sem
Léguas
(cem)

Um colar de castanha elétrica
Uma flor amarela
Muru

(estou tão acremente despida hoje que o açai perdeu a cor)
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WALQUÍRIA RAIZER

graduou-se em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Acre e especializou-se em Jornalismo Político pelo Centro Educacional Uninorte. Devido ao engajamento pessoal com as manifestações culturais, tem o histórico profissional voltado para a política cultural. Amazônida, escritora e poetisa, publica seus textos em diversos sites amazônicos. Defende a poesia como matéria prima de todas as artes. “A poesia antecede a escrita: é sentimento.” Escreve no desterro21 (http://desterro21.blogspot.com/) e no Um caso Poético (http://umcasopoetico.blogspot.com/).
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Fonte:
http://www.antoniomiranda.com.br
/

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Arquivado em Acre, Caldeirão Literário, notas biográficas, O poeta no papel

Caldeirão Literário do Estado do Maranhão

(id: MCCXXVIII)

Adailton Medeiros (Auto-Retrato)

Diante do espelho grande do tempo
sinto asco
tenho ódio
descubro que não sou mais menino
Aos 50 anos (hoje — 16 / 7 / 88 (câncer) sábado — e sempre
com medo olhando para trás e para os lados)
questiono-me (lagarto sem rabo):
— como deve ser bom
nascer crescer envelhecer e morrer

Diante do espelho grande na porta
(o nascido no jirau: meu nobre catre) choro-me:
feto asno velhote pétreo ser incomunicável
sem qualquer detalhe que eu goste
(Um espermatozóide feio e raquítico)

Como nas cartas do tarô onde me leio
— eis-me aqui espelho grande quebrado ao meio
=======================

ADAILTON MEDEIROS
Nasceu em Caxias, Maranhão, em 1930 e estudou jornalismo em Niterói, Rio de Janeiro., e depois mestrado na Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Livros de poesia: O Sol Fala aos Sete Reis das Leis das Aves e Bandeira Vermelha.
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Lago Burnett (O Copo D´Água)

O copo d´água. Insípido
entre o pássaro e a lâmpada.
Lúcido e líquido.

Listras de sol passeiam-lhe a superfície
sem excessos matinais de azul-desperto.
Luz flutuante, o mundo transparente,
o copo dágua resiste.

Sólida contextura, as
firmes paredes de vidro unânimes, eternas,
equilibram o milagre.

O copo dágua. insípido
na antenoite sonora. Simples,
lúcido e líquido.
(Os Elementos do Mito / l953)

Lago Burnett (A Última Canção da Ilha)

Trarei sempre verde
gaivotas e sal:
a lembrança não perde
a ilha inicial

Nem descuido as brisas
o mar de imundícies
(minhas pesquisas
bóiam às superfícies)

A obsessão do cerco
por ínvias águas
é o em que me perco
entre — agora — mágoas

Autêntico Atlântico
aleou-me todo
quanto de romântico
mergulhou-me em lodo

Oh! velas belas
ao ritmo transeunte
vosso, belas velas
que eu me unte

Trago-me à retina
de mastros e quilhas
cheia a sina
de todas as ilhas

Código pressago
de pássaro marítimo
na alma trago
canto e ritmo

Que é quanto me sobre
por ter-me feliz
ao sol que encobre
minha São Luís

Onde era só
com hábil engenho
quanto virou pó
tudo que não tenho

Idéias descalças
desfiando saias
longas como valsas
pelas praias

A primeira estância
ao céu abstrato
coisas como infância
ritmando com mato

Outros poucos casos
como águas insípidas
Nos olhos rasos
saudades liquidas

(Os Elementos do Mito / l953)
===================

LAGO BURNETT
(1929-1995)
José Carlos Lago Burnett é natural da cidade de São Luis do Maranhão, onde atuou intensamente na imprensa e em veículos de cultura com Bandeira Tribuzi e Ferreira Gullar. Considerado um dos expoentes da Geração de 45, passou a exercer atividade jornalística no Rio de Janeiro, principalmente no Jornal do Brasil.
Obra poética: Estrela do céu perdido (1949), 50 poemas (1959).
=====================
Dunshee de Abranches (A Selva)

De pé, no tombadilho, olhos fitos no espaço,
Colombo, palpitante, estende o forte braço,
aos capitães mostrando, ao longe, sobre a esteira
dos negros vagalhões a luz de uma fogueira…
Há três noites velava, há três noites sentia
a esperança deixar-lhe o peito, e a fàntasia
fugir-lhe já também. Rugiam os porões
de fome e de cansaço… e ocas conspirações
iam lentas mudando a bruta marinhagem
o amor do comandante em amor à carnagem.
Há três luas partira a frota de Castela;
e em cada uma lufada a enfunar a vela
em toda a aurora nova, em todo o novo ocaso,
mais a pátria fugia, e mais e mais o acaso,
impávido matava as velhas tradições,
mostrando a cada instante aos crentes corações
que o Caos inda era a luz, que o Abismo inda era o mar!
Jamais se vira um monstro, um só, se levantar
por sobre os vagalhões, grandíloquo, medonho,
como a Grécia sentiu nesse homérico sonho
que os templos levantou e fez as Odisséias.

Dunshee de Abranches (O Violino do Artista)

Só lhe restava o mágico violino
nessa vida de eterno sofrimento;
único amigo, um outro peregrino
na rota desgraçada do talento.

Como sentia o mísero instrumento,
nessa alma rude, um lenho pequenino,
que tinha em mãos do dono um sentimento
que era “mais do que humano, era divino!”

E juntos iam no fulgor das cenas
confundir num adágio as suas penas,
irmãos na glória, gêmeos no tormento!…

Mas morto um dia o artista, gente absurda
quis tocá-lo… mas ah! tinha a alma surda…
já não sentia o mísero instrumento!…
================================

DUNSHEE DE ABRANCHES
(1867 – 1941)
Dunshee de Abranches (pseudônimo: Rabagas), romancista, poeta, jornalista, orador
nasceu em 1867 em São Luís do Maranhão e faleceu em Petrópolis, em 1941.
Romancista, poeta, jornalista, orador
Obra poética: Cartas de Um Sebastianista (1895), Minha Santa Teresinha (1932),
Pela Itália (1906), Pela Paz (1895), Selva (1923), Versos de Ontem e de Hoje (1916).
==================
Luís Augusto Cassas (Crônica de Nomeação da Defensoria Lírica da Cidade)

por graça e gosto de el-rei
e espada de bom capitão
por instrução do prior-frei
segredos do coração
e por tudo que oro e sei
moinhos de ventos e brasão
consagro em pública praça
do herói a rebelião
e nomeio fiel protetor
das pedras do nosso chão
a luís Augusto cassas
defensor perpétuo e lírico
de São luís do Maranhão
em nome do sol e mar
dou a ele força e poder
de lapidar e guardar
a vida que há de florescer
expeça-se alvará
salvas de mudo canhão
província de muito amar
firmo: “cais da sagração”
Extraído de Em Nome do Filho (Advento de Aquário). Rio de Janeiro: Imago, 2003.

Luís Augusto Cassas (Mar Deprimido)

mar de São Luis, constrangido,
que banhas as costas do Atlântico
e as costas e seios das pacíficas,
quem te roubou o azul do paraíso:
os vendedores de cloro das piscinas
ou o céu desbotado do olhar das meninas?

mar de São Luis, humilhado,
saqueado por metralhas e conquistadores
em navios que vazam óleo desde o início,
quem roubou o azul do teu sorriso:
os poetas que te deixaram abandonado
ou os petroleiros que te sujaram o vestido?

mar de São Luís, sucateado,
sobra de outros mares, poluído.
o cinzento de tuas águas
é tua bandeira de mágoas?
é o teu vestido e anágua?

choras por Antonio: o de Cleópatra?
choras por outro: o de Ana Amélia.
mar de São Luís, enrubescido,
derramas lágrimas de crocodilo,
deságuas sujas águas em praias e portos.

enches os tonéis, os lenços, os esgotos.
mar de São Luis, emaranhado
em maranhas de mar amargurados,
quem seqüestrou o teu azul-coral
deixou-te em troca o excesso de sal.

entanto, o verde que antevejo nessa manhã,
só o vislumbro detrás de óculos rayban.
a não ser que eu ponha cloro,
nas lágrimas que, em ti, choro.

Luís Augusto Cassas (Os Arautos do Dia)
edital de tombamento
(escrito em papel embrulho)

Ficam declarados tombados
pra todos os efeitos e dados
os herói anônimos e martirizados:

os paralelepípedos sob o asfalto
& a cobertura de cobalto

o sorvete de ameixa do hotel central
& as sessões coloridas no cine-rival

as sabiás de cócoras
& os bem-te-vis de galochas

a coroa de rei dos homens
& a galinhagem de ana jansen

a caldeirada do germano
& os endereços dos pés-de-pano

os vendedores de pirulito
& os jogadores de palito

os anjinhos despirocados
& os poetas emprenhados pelos ouvidos

os quebra-queixos à mingua
& o teu beijo de língua

o doce de bacuri com cravinho
& o pôr-do-sol do portinho

as meninas da rua 28
& as virgens mortas sem coito

(a esses 20 tiros de canhão
e 30 missas em intenção)

e mais ainda: a saudade etérea
do amor de g. dias & ana amélia

O pintor de cartazes do cine-éden
faça repintar e imprimir e correr
a nova aurora que vai nascer

Luís Augusto Cassas (Feira do João Paulo)

Grécia jamaicana:
tua bandeira republicana
é um cacho de banana

Extraídos da obra Ópera barroca (guia erótico-poético & serpentário-lírico da cidade de São Luís do Maranhão). Rio de Janeiro: Imago, 1998.
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LUÍS AUGUSTO CASSAS
Nasceu e mora em São Luis do Maranhão desde 2 de março de 1953. Publicou muitos livros de poesia, sempre bem recebidos pela crítica.
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Félix Aires (Imprevisto)

O viajante, ao passar., joga e esquece, na mata,
a ponta do cigarro, inconsciente do mal;
e nas folhas do chão a fagulha desata
o fogo que não veio ali proposital.

Irrompe a labareda, alarmante arrebata
ramos, troncos, rechãs a investida infernal!
Rubra serpente enorme em fúria desbarata
a fragrância, o viçor do reino vegetal!

Queima-se o campo, a roda, a um sopro, de improviso!
E longe, o causador de todo o prejuízo
vai muito alheio ao dano, olhos não volve atrás.

– Também há quem nos jogue o olhar flamante e quente
que o coração nos leva a uma paixão ardente
e a dona desse olhar nem sabe o mal que faz!

Félix Aires (Soneto Artificial)

Do alto do meu sonho inadiável, do cimo da
impressãp que conduz em prol de novo estilo,
às vezes vejo a Musa – uma Vênus de Milo,
outras vezes, porém, uma pobre quasímoda!

A lira – o coração – a jóia que esmerilo,
tímida, pronuncio aqui no verso – tímida;
metaplasmo ajuda a isto, alcança o arrimo da
antítese que vem para servir de asilo.

Hei de também vencer! O caminho mais reto dos
trabalhos vou a seguir, vendo que se desaba do
esforço que porfio, a rigidez dos métodos.

E fico, noite e dia, alerta, neste afã:
– segunda, terça, quarta, e quinta, e sexta, e sábado,
domingo… E vencerei? – Vencerás, amanhã!

Félix Aires (Porto de São Luis)

De momento a momento, amuado, o mar esmurra,
bruto, esbaqueia, esbate, esbraveja, esbarronda!
Os mais fortes murais o seu chicote surra
e atrevido intromete, estruge, atroa, estronda!

Enche, transborda e vaza, encharca, estoira, esturra,
inquieto, a retesar seus pulsos de onda em onda!
Hércules que protesta e incrivelmente empurra
enormes vagalhões, sem ter quem lhe responda!

Gigante intempestivo, intrépido, arruaceiro,
que de rosto fechado ameaça o mundo inteiro,
espragueja a cuspir os portos das cidades!

– Mar que amedronta a terra em doudos temporais
o ódio, pior que tu, de arremessos fatais,
incha, resmunga e explode em negras tempestades!

(In Vagalume, jan./fev., 1994)

TROVAS
Longe, a gaivota voando,
é um til perdido nos ares…
E eu viajo, me recordando
da bênção dos teus olhares!

Por tua beleza tanta
se enflora meu pensamento,
e a boca da noite canta
as melodias do vento.

Da mais pura filigrana,
com esse encanto de lenda,
tu és uma trova humana
vestida de seda e renda.

Quando ela chega, seu riso
é um lírio abrindo a corola
e então nascem de improviso
flores ao pé da viola.

Que lindo o mar! Nestas rotas
vejo as velas nos folguedo!
Alva toalha de gaivotas
sobre a mesa dos rochedos!

Da caboclinha bonita
armam-se os seios seguros,
que são dois frutos maduros
dentro de um ramo de chita!

In Clóvis Ramos/Minha Terra Tem Palmeiras (Trovadores Maranhenses) Janeiro, 1970)
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FÉLIX AIRES
(1904-1979)
Felício Alves nasceu em Buriti Bravo, M aranhão, Brasil. Poeta, prosador, médico veterinário, membro da Academia Maranhense de Letras.
Obra: Antologia de Sonetos Piauienses (1972), Apanágio (Poesia,1936), Buriti Bravo (Poesia, 1931), Cromos (1953), O mais Lindos Sonetos Piauienses (crítica, teoria e história literárias, 1940), O Maranhão na Poesia Popular (1977 ), O Natal na Poesia Brasileira (1957), O Piauí na Poesia Popular (1975), Os Menores Versos da Língua (crítica, teoria e história literárias, 1962), Ouro Bravo (Poesia, 1960), Pequenas Palestras (1936), Poemas aos Imortais (1937 ), Relâmpagos (Poesia, 1960).
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Assis Garrido (Vênus)

Deusa, a teus pés a flor das minhas crenças, ponho!
Mulher, eu te procuro, eu te amo, eu te desejo!
Para a tua nudez, – a gaze do meu Sonho,
Para a tua volúpia, o fogo do meu beijo.

Divina e humana, impura e casta, o olhar tristonho,
Cabelos soltos, corpo nu, como eu te vejo,
Dás-me todo o calor dos versos que componho
E enches-me de alegria a vida que pelejo.

Glória a ti, que, do Amor, cantaste, aos evos, o hino,
Que surgiste do mar, branca, leve, radiante,
Para a herança pagã do meu sangue latino!

Glória a ti, que ficaste, à alma dos homens, presa,
Para a celebração rubra da carne estuante
E a régia orquestração da Forma e da Beleza!

(In Antologia da Academia Maranhense de Letras,1958)

Assis Garrido (A Frase que Matou o Operário)

“Não precisamos mais do seu serviço”,
Disseram-lhe os patrões, há dois meses e pouco.
E ele se foi, sob o calor abafadiço
Daquela tarde, murmurando como um louco:
” Não precisamos mais do seu serviço” .

,. Não precisamos mais do seu serviço…”
De tantos anos de trabalho era esse o troco
Que recebia. Em vez de lucro, apenas isso…
E ele consigo murmurava como um louco:
” Não precisamos mais do seu serviço..,”

“Não precisamos mais do seu serviço…”
Torou-se bruto e respondia, a praga e a soco,
Aos filhos e à mulher, famintos no cortiço,
E após, chorava murmurando como um louco:
“Não precisamos mais do seu serviço…”

“Não precisamos mais do seu serviço…”
E ele saía a ver emprego, triste e mouco,
Nada! Nenhum!… E cabisbaixo, o olhar mortiço,
Ele voltava murmurando como um louco:
“Não precisamos mais do seu serviço…”

“Não precisamos mais do seu serviço…”
E cada vez sentia mais o cérebro oco.
Enforcou-se.Morreu. “Foi o diabo ou feitiço…”
Ele murmurando, como um louco:
“Não precisamos mais do seu serviço…”

(O Livro da Minha Loucura,1926)

TROVAS

Tic-tac… E a mocidade
vais-se e aparece a velhice…
Tic-tac… Ai, que saudade
Dos tempos da meninice!…

O amor, que em sonhos espreito,
em teu coração não medra:
Será por acaso feito
o teu coração de pedra?

Eu era um só. Tu surgiste –
e assim ficamos os dois:
Depois, eu vi que mentiste,
e um só me tornei, depois!

Foge-me a tua conquista,
vou-me embora, – por que não? –
Quanto mais longe da vista,
mais longe do coração…

Minha filha, pobre rosa,
vê quanto sofro, querida,
ao pressentir ver trevosa
a estrada de tua vida!

(In Minha Terra Tem Palmeiras/Clóvis Ramos/1970)
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ASSIS GARRIDO
(1899 – 1969)
Poeta, teatrólogo, jornalista, funcionário público nascido em São Luis do Maranhão, membro da Academia Maranhense de Letras, Instituto Cultural Americano-Argentina.
Obra: A Divina mentira( Poesia, 1944), A Vergonha da família (Teatro),
Dom João (1922), O Livro da minha loucura, e O Meu livro de mágoa e de ternura (Poesia, 1923), Oração materna (Poesia, 1920), Regina (Teatro, 1920) e Sol glorioso (Poesia, 1922).

Fonte:
http://www.antoniomiranda.com.br/

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Adelino Fontoura (1859 – 1884)

(id:MCCXXVII)

A MÃO

Quando meu lábio trêmulo te oscula
A pequenina mão delgada e fina,
Como uma pomba trêmula que arrula
Minha vida, mal sabes! — canta e pula
Na rósea palma dessa mão divina!

ATRAÇÃO E REPULSÃO

Eu nada mais sonhava nem queria
Que de ti não viesse, ou não falasse;
E como a ti te amei, que alguém te amasse,
Coisa incrível até me parecia.

Uma estrela mais lúcida eu não via
Que nesta vida os passos me guiasse,
E tinha fé, cuidando que encontrasse,
Após tanta amargura, uma alegria.

Mas tão cedo extinguiste este risonho,
Este encantado e deleitoso engano,
Que o bem que achar supus, já não suponho.

Vejo, enfim, que és um peito desumano;
Se fui té junto a ti de sonho em sonho,
Voltei de desengano em desengano.

CELESTE

É tão divina a angélica aparência
e a graça que ilumina o rosto dela,
que eu concebera o tipo de inocência
nessa criança imaculada e bela.

Peregrina do céu, pálida estrela,
exilada na etérea transparência,
sua origem não pode ser aquela
da nossa triste e mísera existência.

Tem a celeste e ingênua formosura
e a luminosa auréola sacrossanta
de uma visão do céu, cândida e pura.

E quando os olhos para o céu levanta,
inundados de mística doçura,
nem parece mulher – parece santa.

OHS! E AIS!

Essa mulher que tantos ohs! provoca,
Essa mulher que tantos ais! arranca,
Essa mulher quem é? Por que abre a boca
O Silvestre quando a vê? – É branca?

É morena? É francesa? É carioca?
As belezas helênicas desbanca?
O seu olhar os cérebros desloca?
O seu sorriso as lágrimas estanca?

Vamos, Raimundo, tu que viste há dias
A mágica visão, o ser terrestre,
Por quem já deste uns ais! e uns ohs! eu sinto,

Tira as garras da dúvida ao Matias,
Faze valsar o Lins, rir o Silvestre
E reler os “Subsídios” o Filinto.

O RETRATO

Vou fazer-te, leitor, o seu retrato:
— É pálida, gentil, encantadora,
tem a doce atração fascinadora
das cristalinas águas dum regato.

O chic do dizer nervoso inato
tive-o voz vibrante, sedutora,
brilham nessa loquaz criança loura
a graça, a distinção, o fino trato.

É olhá-la uma vez e sentir presa
a vontade ao seu todo de burguesa
que conversa em francês e sabe história.

Mas o reverso da medalha espanta.
Tangendo o violão, lânguida, canta:
— Quis debalde varrer-te da memória!

O NINHO

És como a doce juriti da mata,
Ligeira, esquiva, tímida e medrosa:
Foges de mim tremente e suspirosa,
Como quem de um perigo se recata.

Mas não sei, afinal, criança ingrata,
Porque foges: não sei porque amorosa
Tua alma casta, angélica e bondosa,
Com tão doce esquivança me maltrata.

Abre as asas à luz serenamente
E vem fugindo aos gelos do deserto
Buscar o sol do meu amor ardente.

Dirige para mim teu voto incerto,
Pois tens meu coração, pomba inocente,
Como um tépido ninho sempre aberto.

PÁGINA DESCONHECIDA

À brisa, ao sol, à serra, à flor silvestre
Ao ribeiro que corre cristalino,
Ao canto alegre e doce, matutino,
Das aventuras no arvoredo agreste;

À campina que do orvalho a manhã veste,
Eu, sem de Homero for o alto destino,
Um conto fui pedir áureo, divino,
Radiante dessa luz alva e celeste!

Com ele ornar quisera, alegremente,
O teu álbum mimoso — onde o talento
Do teu gênio se curva ao foto ingente;

Mas, não tenho de Dante o pensamento,
Não acho inspiração na luz fulgente
Pra um canto te ofertar com sentimento.
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Adelino da Fontoura Chaves nasceu em Axixá/MA, 30/03/1859 e faleceu em Lisboa/Portugal, 02/05/1884.

Ainda muito pequeno começa a trabalhar e trava contacto com Artur Azevedo – amizade que perduraria.

Mudando-se para o Recife, onde alista-se no Exército, colaborando numa publicação chamada “Os Xênios”, de teor satírico. Inicia, também a carreira de actor, voltando ao Maranhão natal para uma apresentação – cujo papel rendeu-lhe a prisão. Após este fato, decide mudar-se para o Rio de Janeiro, para onde se mudara o amigo Artur Azevedo, anos antes.

Pretendia seguir carreira teatral e no jornalismo, falhando na primeira. Colaborou nos periódicos “Folha Nova” e “O Combate”, de Lopes Trovão e em “A Gazetinha”, onde Azevedo escrevia (1880). Participara junto a outros jovens talentos do jornal “A Gazeta da Tarde” – que seria aziago, no dizer de Múcio Leão, pois, em menos de 3 anos de sua fundação, os seus criadores haviam todos morrido.

Tendo sido o “Gazeta da Tarde” comprado por José do Patrocínio, e estando Adelino doente, vai à Europa como correspondente em Paris e pensando tratar-se mas, com o rigor do inverno, piora. Vai a Lisboa onde, apesar das instâncias de Patrocínio para que volte ao Brasil, tem seu estado agravado e vindo prematuramente a falecer. Tinha apenas vinte e cinco anos, e nenhuma obra publicada.

Sua obra, esparsa, constitui-se em cerca de 40 poesias, reunidas pela primeira vez na Revista da Academia (números 93 e 117).
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Fonte:
http://www.antoniomiranda.com.br/

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Vespasiano Ramos

(id:MCCXXVI)

CRUEL

Ah, se as dores que eu sinto ela sentisse,
se as lágrimas que eu choro ela chorasse;
talvez nunca um momento me negasse
tudo que eu desejasse e lhe pedisse!

Talvez a todo instante consentisse
minha boca beijar a sua face,
se o caminho que eu tomo ela tomasse,
se o calvário que eu subo ela subisse!

Se o desejo que eu tenho ela tivesse,
se os meus sonhos de amor ela sonhasse,
aos meus rogos talvez não se opusesse!

Talvez nunca negasse o que eu pedisse,
se as lágrimas que eu choro ela chorasse
e se as dores que eu sinto ela sentisse! . . .

SAMARITANA

Piedosa gentil Samaritana:
Venho, de longe, trêmulo, bater
À vossa humilde e plácida cabana,
Pedindo alívio para o meu viver!

Sou perseguido pela sede insana
Do amor que anima e que nos faz sofrer:
Tenho sede demais, Samaritana
Tenho sede demais: quero beber!

Fugis, então, ao mísero que implora
O saciar da sede que o consome,
O saciar da sede que o devora?

Pecais, assim, Samaritana! Vede:
– Filhos, dai de comer a quem tem fome,
Filhos, dai de beber a quem tem sede.

ÂNSIA MALDITA

Ninguém mais do que tu saberá quanto
Padeço, agora! e, em lágrima, advinha
A minha’alma apagar-se, neste pranto,

Beatriz! Alma em flor! Suave encanto,
Que me salvar, pensei, dos altos, vinha:
O quanto peno, o quanto sofro, enquanto
Imagino que nunca serás minha!

Foram, por ti, as lágrimas que os olhos
Meus derramaram! só por ti, somente
Que minh’alma, do Amor contra os escolhos,

Há de, convulsa, soluçar, um dia,
A derradeira lágrima pungente
E o derradeiro grito de agonia!

(Cousa Alguma, 1916)

SONETO
( fatalidade )

Desde esse instante, sem cessar, maldigo,
aquele instante de felicidade!
Para que tu vieste ter comigo,
meu amor, minha luz, minha saudade?!

Dês que te foste, foram-se contigo
todos os sonhos desta mocidade…
A tua vinda – fora-me um castigo;
a tua volta – uma fatalidade!

Dês que te foste, dentro em mim plantaste
a ânsia infinita dos desesperados
porque voltando, nunca mais voltaste…

Correm-me os dias de aflições, cobertos:
eu entrei para o amor de olhos fechados
e saí para a dor de olhos abertos!
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O poeta maranhense Joaquim Vespasiano Ramos, nascido em Caxias no dia 13 de agosto de 1884, passou seus últimos dias na então vila de Porto Velho, Comarca de Humaytta, Estado do Amazonas, hoje município de Porto Velho, capital do Estado de Rondônia no início de dezembro de 1916 e faleceu no dia 26 do mesmo mês.

Nasceu nas condições mais humildes, desde cedo começou a trabalhar no comécio local, no entanto buscando sempre o saber tornou-se um viajante compulsivo, que levaria o conhecimento a outros povos, durante a sua vida viajou por quase toda a região norte e tambem o sul do Brasil.

Publicou sua obra poética em diversos jornais e revistas de seu tempo. É considerado o precusor da literatura em Rondônia.

Em sua homenagem foi contruído um grande centro recreativo, em Rondônia,e no Maranhão, uma das mais belas praças da capital recebe o seu nome.

É patrono da cadeira n° 32 da Academia Maranhese e da cadeira n°40 da Academia Paraense de Letras.
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Fonte:
http://www.antoniomiranda.com.br/

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Berredo De Menezes

(id:MCCXXV)

.
UM DUENDE SEM OUTRORAS

dedicado a Antonio\Miranda

Nessa angústia de ser coisa nenhuma,
onde o silêncio é canto e luz na alma,
vivo de ouvir o ocaso dos meus ontens.

E se a tarde envelhece entre meus lírios,
como quem busca asilo no sol poente,
logo as tristezas vegetais me afloram.

Como não sei o que fazer ao luar,
quando as estrelas perdem lume onírica,
também me sinto lagrima do escuro.

E é nessa oligofrênica ansiedade
que me descubro um velho sonho anódino,
incapaz de sofrer mágoas de outroras.

Nem desconfio que essa nova ausência
é que perfuma a luz de antigamentes
como um silêncio acústico do Nunca.

E porque não me sinto mais ninguém,
mesmo entre os poentes mais iterativos,
chega a me acreditar eco do Nada.

A sensação de voar em ventos surdos,
me acende uma quimera inusitada:
ser um silêncio em coração alheio.

Nessa alquimia mística do ocaso,
creio ter sido uma saudade alípede
que se perdeu num sonho peregrino.

Mas, de repente, o luar volta no longe,
e cresce em lume edênico nos olhos,
liquefeito na dor dos meus antanhos.

E essa tristeza acorda, na lembrança,
o azul de um mar onde esqueci as velas
jangadeando as ilusões de criança.

Parque das Hortênsias,
Carnaval de 2008.

CAMINHO DO NÃO SER

Nesta noite tão grávida de ausências,
sou a raiz antiga dos pesares,
no caminho sem volta da indolência.

Devaneio de esperas vespertinas,
já desnudo das cores da mentira,
sofro a imortalidade pela ausência.

Entre o vazio dos meus próprios sonhos,
vivo de pertencer à fantasia
de me sentir segredo em olhos cegos.

Na recôndita luz de uma mudança,
e ébrio de minhas dúvidas piedosas,
a vida não deixou-me ser ninguém.

Existo sob o ocaso inverossímil
em que as saudades tecem meu escuro,
em andeja aparência de esperanças.

Talvez por isso, sinto o irreversível
na ébria convivência das lembranças
que ainda solfejam lágrimas sem eco.

No instante sucessivo dessa mágoa,
ouço harmonia oceânica dos sonhos
num campo onde o impossível não se esgota.

E entre um ser imutável que não vinga,
e a vida fugitiva dos disfarces,
escolhi o caminho do não ser.

Quis ser das flores um aroma anímico,
num jardim de crepúsculos sem lumes,
entre ilusões e dúvidas crescentes.

Mas despido de pálpebras edênicas
hoje sou um silêncio em dor de pétalas,
onde as lágrimas fulgem sem perfume.

Praia-Mar de Itaparica,
entre 07 e 07/02/2008
*inspirado no “Cemitério Marinho de Paul Valéry.
*********

INTERVALO

Entre os silêncios
do jardim
e o pôr-do-sol
das rosas,
minha saudade é apenas um intervalo
da solidão.

O SONHO DE VOAR

Os pássaros reacendem
o sonho de voar,
num arco-íris,
para sentir a solidão de Deus
e chorarmos juntos.

ARQUITETO DA SOMBRA

Onde não chega o vento,
a esperança
é apenas um perfume
da solidão.

E entre os escombros,
da luz,
o sol das sombras.

TARDE LEVE

Carrego,
entre as flores do dia,
e o vento,
o silêncio invertebrado
da solidão.

MONTANTE

A maré vazava
como o tempo,
entre os escuros.
num grito surdo

UM PONTO
Sou o olho cego dos ventos.
E um ponto do ar
que osquestra a luz
do nunca.

De USINA DE SILÊNCIOS. Prêmio Concurso Nacional de Poesia Helena Kolody. Curitiba: Secretaria de Estado de Cultura, 1998

SINOS DE SILÊNCIO
Para Renato Pacheco
I
O dia envelhecia ao som dos sinos:
era a hora de ouvir a voz do vento
na flauta de silêncios do crepúsculo.
II
Passando só, sob um lençol de estrelas,
a lua era mais lerda que o silêncio
vagando a solidão que as nuvens tecem.
III
Tecendo sombras num jardim de hortênsias,
o luar parece bêbado de orvalho
ouvindo o sono surdo do silêncio.
IV
Nesse luar em que o jardim se esconde,
as sombras que florescem sob as rosas
parecem perfumadas de silêncio.
V
Bebendo o orvalho que perfuma o luar,
a madrugada esquece o sono e voa
nas asas de silêncio de uma rosa.
VI
Quando a rosa padece os seus extremos,
a lágrima de Deus desce o luar
na dor mais solitária do silêncio.
VII
Na saga de sofrer a dor de ouvir
o silêncio dormindo em luz de orvalho,
o luar se sente o eco de uma lágrima.
VIII
Pela exaustão do luar no eco das folhas,
o silêncio tem asas de quem ouve
os primeiros clarões do amanhecer.
IX
Na orquestração litúrgica do orvalho,
o luar perde o equilíbrio do silêncio
e cai para semear a luz do dia.
X
De ouvir a dor do chão pelo silêncio,
a lua herdou do orvalho esse olhar triste
de quem fatia a solidão do mundo.
XI
Vista de longe a aurora é como um sino
acordando o silêncio da manhã
pelo toque de incêndio do arrebol.
Parque das Hortênsias
entre 20 e 22/12/96
=========================

Ferdinand Berredo de Menezes nasceu em Caxias, no Maranhão, em 1929, estando radicado no Espírito Santo há mais de quatro décadas. Advogado e professor universitário. Detentor de vários prêmios literários. A melhor apresentação que se pode (e deve) fazer dele é dando ao público a oportunidade de ler seus versos iluminados, clarividentes, transparentes.
“Há naturezas que têm a vocação do caos, como Neruda. Ou se alimentam dos ruídos das cidades como Charles Baudelaire. OU se entretecem de um sibilante profetismo como Blake, entre anjos e tigres, que fogem da escala dos animais para a dos entes e mitos. Mas há vocações que se nutrem, deleitosamente, da luz, como Berredo de Menezes que se impõe como importante e nova voz da poesia contemporânea”. Carlos Nejar, da Acaemia Brasileira de Letras.
“… el poeta, utiliza en su idioma un lenguaje de ambivalências lexicales y de múltiples connotaciones que al ser cambiadas, traducidas, si no se pierden a veces totalmente, por lo menos crean una atmosfera poética un tanto diferente. (…) Berredo de Menezes es, pues, un poeta com futuro. Porque su idioma es joven para la poesia, pero también porque él, como poeta, ha sabido usarlo, hacerlo arte y expresarse con un tono universal, más Allá de regionalismos o nacionalismos que van quedando estrechos al mundo intercomunicado que habitamos. Él es un poeta contemporâneo, si, pero que dialogo con el tiempo. Por eso es un hecho feliz que extienda sus brazos poéticos al español.” Virgilio López Lemus
“Há tercetos que abstraídos do corpo do poema poderiam ser facilmente tomados por haicais, não fora a composição decasssilábica dos versos, como, por exemplo, o terceto II de O MAR REDESCOBERTO: “De voolta ao Mara em pesca de silêncio,/ sinto a tarde mais triste do que a brisa/ ouvindo o pôr-do-sol como epitáfio”.” Miguel Depes Tallon, sobre o livro Usina de Silêncios.
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Fonte:
http://www.antoniomiranda.com.br/

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IV Concurso Literário “Cidade de Maringá” ainda com inscrições abertas

(id: MCCXXIV)

Promoção: Academia de Letras de Maringá
Apoio: União Brasileira de Trovadores – Seção Maringá

Modalidades:
TROVA (lírica ou filosófica)
SONETO (decassílabo)
POEMA LIVRE (máximo 30 linhas)
CRÔNICA (máximo 30 linhas)
DRAMATURGIA (textos teatrais adultos ou infantis que possibilitem a encenação de um espetáculo de, no mínimo, 40 minutos de duração).

Tema (único) para todas as modalidades: ROÇA
(Não há necessidade de usar a palavra “roça”)

Prazo: 31 de outubro de 2008

Endereço: Academia de Letras de Maringá
Caixa Postal 982 – MARINGÁ – PR / CEP: 87001-970

Normas:
Máximo 03 (três) trabalhos em cada modalidade.
Trova: Sistema de envelopes.
Demais modalidades: Papel A-4, em quatro vias, Times New Roman, corpo 12, usando pseudônimo. Anexar envelope menor (fechado) indicando externamente a modalidade, título e pseudônimo, e, internamente, identificação do concorrente: nome, endereço completo, telefone, assinatura e (se possível) e-mail. Para os textos teatrais, folhas numeradas e encadernadas, com título e pseudônimo na capa. Todos os textos devem ser inéditos e não serão aceitas adaptações em dramaturgia. Os textos não poderão ser divulgados por quaisquer meios, total ou parcialmente, até a data da publicação do resultado da seleção.

Premiação: Troféu e diploma para 10 (dez) vencedores na modalidade Trova, 01 (um) vencedor na modalidade Dramaturgia, e 05 (cinco) vencedores em cada uma das demais modalidades, em festa programada para abril de 2009.

Os trabalhos premiados serão publicados em livro a ser editado pela Academia de Letras de Maringá.

Os autores dos trabalhos premiados autorizam sua publicação pela Academia de Letras de Maringá, sem ônus de nenhuma espécie.

As decisões das comissões julgadoras serão definitivas.

A participação no concurso significa aceitação plena das normas aqui relacionadas.

Não poderão participar do concurso os sócios efetivos da Academia de Letras de Maringá.

Academia de Letras de Maringá
Olga Agulhon
Presidente

Telefones para contato: (0xx) 44-3225-8045 (Olga); 44-3224-3662(Eliana Palma);
44-3227-4311 (Assis).

Fonte:
E-mails enviados de acadêmicos da ALM

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Sintepe abre inscrições para 1º Concurso de Poesia

( id:MCCXXIII)
.
O Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Pernambuco (Sintepe) abre inscrições, a partir desta sexta-feira (22) até o dia 22 de setembro, para o 1º Concurso de Poesia da instituição, com tema livre. Nesta primeira edição, o Sintepe homenageia o poeta Solano Trindade. O edital pode ser encontrado no site do Sintepe e do Interpoética.

Cada interessado pode inscrever até dois poemas. A premiação, um total de R$ 4 mil, será distribuída em categorias específicas, formadas por educadores da rede estadual de ensino ou por pessoas do público em geral. O resultado será divulgado no dia 15 de outubro, no qual se comemora o Dia do Professor.

O objetivo do concurso é homenagear o poeta Solano Trindade e incentivar as produções literárias de pernambucanos, em especial dos trabalhadores em educação. Fazem parte da comissão organizadora o Setor de Políticas Sociais, Cultura e Comunicação do Sintepe e a equipe do Interpoética. Para mais informações, o telefone é (81) 2127-8850.

O edital se encontra publicado no http://www.interpoetica.com/ e http://www.sintepe.org.br/.

Se estivesse vivo, Solano Trindade, conhecido como “o poeta negro”, teria completado 100 anos no último dia 24 de julho. Também pesquisador, teatrólogo e pintor, ele dedicou-se à luta do negro pela igualdade racial e social no país. Solano, que faleceu no ano de 1974, notabilizou-se por seus poemas afro-brasileiros.

REGULAMENTO

Das inscrições

Art. 1º – Podem participar do Concurso todos os Trabalhadores em Educação da Rede Estadual de Pernambuco e o público em geral.

Parágrafo único – Só poderá participar brasileiro nato ou naturalizado brasileiro, maior de 16 anos, com texto em língua portuguesa.

Art. 2º – As inscrições estarão abertas no período de 22 de agosto a 22 de setembro de 2008, no horário das 9 às 17 horas, no SINTEPE – Rua General Semeão, 39 – Santo Amaro – Recife/PE – Brasil – CEP 50050-120 – Fone (81) 2127 8850.

Parágrafo único – Para o material enviado pelo correio vale a data de postagem, que não pode ultrapassar à estabelecida neste artigo (22 de setembro de 2008).

Art. 3º – Cada participante pode se inscrever com até 02 (dois) poemas. Os poemas devem ser inéditos, ou seja, poesias que ainda não foram publicadas em livros, jornais ou outros meios.

§ 1º – Os poemas devem ser apresentados em 03 (três) vias, sob pseudônimo, em envelope grande, dentro do qual deve ser anexado envelope menor, lacrado, contendo folha de identificação com nome, pseudônimo, endereço residencial completo, telefone, cópia da identidade e título(s) do(s) poema(s) obedecendo aos seguintes critérios:

a) Os poemas devem ser digitados em editor de texto eletrônico (Word, Open Office, Star Office etc.);
b) Fonte (letras) tamanho 12;
c) Cada poema não deve exceder o limite de 03 (três) laudas;
d) O participante deverá indicar nos envelopes se está concorrendo na categoria de público em geral ou na categoria de Trabalhadores em Educação da Rede Estadual de Pernambuco.

I – Quando o candidato não indicar a categoria a qual está concorrendo, concorrerá na categoria de público em geral.

§ 2º – As inscrições serão gratuitas.

§ 3º – Ao se inscreverem, todos os candidatos aceitarão automaticamente as cláusulas e condições estabelecidas no presente regulamento.

Da premiação

Art. 4º – O concurso terá dois tipos de premiação. Uma para o público em geral com prêmio em dinheiro e outra para os Trabalhadores em Educação da Rede Estadual de Pernambuco, que contará com prêmio em dinheiro e publicação em livro dos poemas vencedores.

§ 1º – Os participantes não poderão acumular as premiações, ou seja, será premiado apenas um poema de cada participante.

§ 2° – Premiação para os participantes do público em geral:
1º colocado – R$ 1.000,00 (mil reais)
2º colocado – R$ 600,00 (seiscentos reais)
3º colocado – R$ 400,00 (quatrocentos reais).

§ 3° – Premiação para os participantes Trabalhadores em Educação da Rede Estadual de Pernambuco:

a) Premiação em dinheiro:
1º colocado – R$ 1.000,00 (mil reais)
2º colocado – R$ 600,00 (seiscentos reais)
3º colocado – R$ 400,00 (quatrocentos reais).
b) Publicação de livro contendo as 20 (vinte) melhores poesias dos participantes, com edição de 1.500 (mil e quinhentos) livros em brochura, cabendo a cada autor uma cota de 10 (dez) exemplares.

Da comissão julgadora

Art. 5º – A Comissão Julgadora será escolhida pela Comissão de Organização do Concurso e composta por 03 (três) membros.

Parágrafo único – A Comissão Julgadora terá autonomia no julgamento, que será regido pelos seguintes princípios: originalidade e linguagem poética.

Do resultado

Art. 6º – O resultado do Concurso será divulgado no dia 15 de outubro no local da inscrição e a premiação será entregue em evento próprio do SINTEPE no dia 17 de outubro de 2008.

Das disposições finais

Art. 7º – Os casos omissos serão decididos, em comum acordo, pela Comissão Julgadora e pela Comissão de Organização do Concurso.

Art. 8º – Do julgamento apresentado pela Comissão Julgadora quanto à qualidade dos poemas selecionados não caberá qualquer recurso, ficando esta medida adstrita às condições extrínsecas do concurso, dispostas nas cláusulas deste Regulamento, que será julgado pela Comissão de Organização do Concurso.

SERVIÇO:
Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Pernambuco (Sintepe)
Telefone: (81) 2127-8850
Site: http://www.sintepe.org.br/

Fontes:
JC on-line. http://jc.uol.com.br/ . Publicado em 21.08.2008
http://www.sintepe.org.br/

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Batista de Lima (Os Três Tradicionais Gêneros Literários)

(id: MCCXXII)

(Analogias)

1. O lírico sente.
O épico mostra.
O dramático prova.

2. O lírico recorda.
O épico torna presente.
O dramático projeta.

3. O lírico se emociona.
O épico admira.
O dramático se espanta.

4. O lírico expõe.
O épico narra.
O dramático dialoga.

5. O lírico confessa.
O épico historia.
O dramático representa.

6. O lírico é o “eu”.
O épico é o “ele”.
O dramático é o tu .

7. O lírico é sílaba.
O épico é palavra.
O dramático é frase.

8. O lírico é sedentário.
O épico é nômade.
O dramático é evoluído.

9. O lírico é adolescente.
O épico é jovem.
O dramático é velho.

10. O lírico é emotivo.
O épico é referencial.
O dramático é conativo.

11. O lírico é expressivo.
O épico é narrativo.
O dramático é exortativo.

12. O lírico é o início.
O épico é o meio.
O dramático é o fim.

13. O lírico é o amanhecer.
O épico é o entardecer.
O dramático é o anoitecer.

14. O lírico é fala.
O épico é língua.
O dramático é linguagem.

15. O lírico é particular.
O épico é social.
O dramático é universal.

16. O lírico é subjetivo.
O épico é objetivo.
O dramático é a síntese de ambos.

17. O lírico é emocional.
O épico é figurativo.
O dramático é lógico.

18. O lírico é feminino.
O épico é neutro.
O dramático é masculino.

19. O lírico é arrebatamento.
O épico é força.
O dramático é indecisão.

20. O lírico é cantado.
O épico é recitado.
O dramático é dialogado.

21. O lírico é sentimental.
O épico é narrativo.
O dramático é representativo.

22. O lírico é abstração.
O épico é ausência.
O dramático é presença.

23. O lírico espera-se (pela inspiração).
O épico recolhe-se (da humanidade).
O dramático arranca-se (à força).

24. O lírico é do mundo interior.
O épico é do mundo exterior.
O dramático é do mundo conflituoso.

25. O lírico é das emoções.
O épico é das grandes ações.
O dramático é das ações em conflito.

26. O lírico centra-se no autor.
O épico centra-se no autor e no auditório.
O dramático centra-se no auditório.

.27. O lírico, o autor é protagonista.
No épico, o autor é expectador.
No dramático, o autor é coordenador.

28. No lírico, o sujeito e o objeto juntam-se.
No épico, o sujeito e o objeto observam-se.
No dramático, o sujeito julga o objeto.

29. No lírico, beija-se o mundo.
No épico, somos beijados pelo mundo.
No dramático, entrebeijamo-nos (nós e o mundo).

30. No lírico, a linguagem está na fase da expressão sensorial. No épico, a linguagem está na fase da expressão figurativa. No dramático, a linguagem está na fase da expressão do pensamento conceitual.
==========================================

Sobre o autor:
BATISTA DE LIMA, nascido em Lavras da Mangabeira (1949), embora pertença ao “grupo” da revista O Saco, pois seu primeiro livro, de poemas, é de 1977, passou a divulgar seus contos mais recentemente: O Pescador da Tabocal saiu em 1997 e Janeiro é Um Mês Que Não Sossega, em 2002. Seminarista no Crato, formou-se em Letras e Pedagogia pela Universidade Estadual do Ceará. Especializou-se em Teoria da Linguagem na Universidade de Fortaleza, onde exerceu a chefia do Departamento de Letras e a diretoria do Centro de Ciências Humanas. Cursou o mestrado em Literatura na Universidade Federal do Ceará. Iniciou-se como professor de Português em colégios de Fortaleza. Na vida literária deu os primeiros passos no Clube dos Poetas Cearenses. Mais tarde participou ativamente dos grupos Siriará, Arsenal, Catolé e Plural. De poesia publicou os livros Miranças (1977), Os Viventes da Serra Negra (1981), Engenho (1984) e Janeiro da Encarnação (1995). Na área do ensaio literário deu a lume, em 1993, Os Vazios Repletos e Moreira Campos: A Escritura da Ordem e da Desordem, e, em 2000, O Fio e a Meada – Ensaios de Literatura Cearense. Membro da Academia Cearense de Letras.

Fontes:
http://www.vastoabismo.xpg.com.br/
http://www.jornaldepoesia.jor.br/

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Nilto Maciel (Sobre Livros e Escritores)

(id: MCCXXI)

Publicam-se todo ano no Brasil milhares de livros de poesia e prosa de ficção, quase sempre às custas dos próprios autores e em pequenas tiragens. A maioria desses livros não chega às livrarias, que hoje se dedicam a vender obras científicas (literatura médica, por exemplo), jurídicas, religiosas, filosóficas, infantis, ao lado de livros de auto-ajuda, política, amenidades, romances norte-americanos de segunda categoria e os clássicos da literatura universal e nacional.

O fim da editora tradicional talvez já tenha chegado. A literatura já estaria praticamente fora dos interesses dos editores e livreiros. A exceção a esta regra seriam os clássicos, que têm, como leitores, estudantes e escritores. A literatura nova (presente e futura) será editada por conta dos próprios autores ou pequenas editoras.

Para alguns escritores, as editoras não investem em literatura (daqui em diante empregarei o termo literatura apenas para me referir à poesia e à prosa de ficção), a mídia não dá a mínima importância ao livro, não há editoras e livrarias em número suficiente para acolher todas as obras escritas etc. E aí estaria o grande problema do escritor. No entanto, críticos e jornalistas acreditam mais na incapacidade de comunicação da maioria dos escritores com o leitor, uns por serem pobres de talento e conhecimento, outros por terem muito talento e conhecimento e se isolarem na torre de marfim da poesia para poetas, do romance para romancistas etc. Muitos escreveriam para si mesmos ou para outros escritores. Seria uma literatura para iniciados, como se a literatura fosse a linguagem de uma sociedade secreta, com seus símbolos próprios. Seria a literatura fora de mercado, não-mercantil, em contraposição à subliteratura e a uma literatura “popular”, do gosto das massas.

Edgar Morin, em Cultura de Massas no Século XX (O Espírito do Tempo), teoriza: “A corrente média triunfa e nivela, mistura e homogeneíza, levando Van Gogh e Jean Nohain. Favorece as estéticas médias, as poesias médias, os talentos médios, as inteligências médias, as bobagens médias. É que a cultura de massa é média em sua inspiração e seu objetivo, porque ela é a cultura do denominador comum entre as idades, os sexos, as classes, os povos, porque ela está ligada a seu meio natural de formação, a sociedade na qual se desenvolve sua humanidade média, de níveis de vida médios, de tipo de vida médio.”

E acrescenta: “Um exemplo de vulgarização ininterrupta esclarecerá esse propósito: O Vermelho e o Negro de Stendhal se torna um filme adaptado aos padrões comerciais; desse filme nasce O Vermelho e o Negro, folhetim em quadrinhos publicado num diário.”

Esses escritores não-mercantis não estariam voltados para o leitor, para o outro, mas para si mesmos. Segundo Emanuel Medeiros Vieira, “escrevemos para perdurar, para vencer a poeira do tempo, para despistar a morte, para regar nossos fantasmas e obsessões, para nos comunicar”. Porém como vamos os escritores nos comunicar com os leitores? Se escrevermos para nós mesmos, não haverá comunicação, e escrever será apenas catarse, psicoterapia, auto-análise.

Haveria, então, uma literatura sem mercado ou fora dele e uma literatura produzida especialmente para o mercado. Os livros produzidos para o mercado têm cotação: os mais vendidos, os best-sellers, os que interessam diretamente às editoras, aos livreiros e à mídia. Segundo Juan Liscano, em entrevista a Floriano Martins, no livro Escritura Conquistada: “Enquanto o best-seller, um produto para o mercado, constitui hoje em dia a meta da literatura, a poesia situa-se no extremo contrário, representando, portanto, o não mercantil literário, o trabalho nobre artesanal, o ofício tradicional, mesclado com as funções xamânicas de expressar o humano em transe de universalização arquetipal (a tribo de que falou Mallarmé).” Não está descartada a hipótese de uma obra literária tornar-se best-seller. Porém isto se dará quase que por acaso ou dependendo do merchandising do editor. Assim, um grande romance pode em determinado tempo tornar-se o mais vendido em algum país ou em parte do mundo. Foi o caso dos Versos Satânicos, de O Nome da Rosa e outros.

São ainda de Edgar Morin as seguintes observações: “Em certo sentido aplicam-se as palavras de Marx: “a produção cria o consumidor… A produção produz não só um objeto para o sujeito, mas também um sujeito para o objeto”.

De fato, a produção cultural cria o público de massa, o público universal. Ao mesmo tempo, porém, ela redescobre o que estava subjacente: um tronco humano comum ao público de massa.

Em outro sentido, a produção cultural é determinada pelo próprio mercado. Por esse traço, igualmente, ela se diferencia fundamentalmente das outras culturas: estas utilizam também, e cada vez mais, as mass-media (impresso, filme, programas de rádio ou televisão), mas têm um caráter normativo: são impostas, pedagógica ou autoritariamente (na escola, no catecismo, na caserna) sob forma de injunções ou proibições. A cultura de massa, no universo capitalista, não é imposta pelas instituições sociais, ela depende da indústria e do comércio, ela é proposta. Ela se sujeita aos tabus (da religião, do Estado etc.), mas não os cria; ela propõe modelos, mas não ordena nada. Passa sempre pela mediação do produto vendável e por isso mesmo toma emprestadas certas características do produto vendável como a de se dobrar à lei do mercado, da oferta e da procura. Sua lei fundamental é a do mercado.”

Em outra página o filósofo francês acrescenta: “No entanto, se nos colocarmos do ponto de vista dos próprios mecanismos do consumo e do ponto de vista do tempo, podemos considerar que ao longo dos anos, os temas que desabrocham ou desfalecem, evoluem ou se estabilizam no cinema, na imprensa, no rádio ou na televisão, traduzem uma certa dialética da relação produção-consumo.

Não se pode colocar a alternativa simplista: é a imprensa (ou o cinema, o rádio) que faz o público, ou é o público que faz a imprensa?

A cultura de massa é imposta do exterior ao público (e lhe fabrica pseudo-necessidades, pseudo-interesses) ou reflete as necessidades do público? É evidente que o verdadeiro problema é o da dialética entre o sistema de produção cultural e as necessidades culturais dos consumidores. Essa dialética é muito complexa, pois, por um lado, o que chamamos de público é uma resultante econômica abstrata da lei da oferta e da procura (é o “público médio ideal” do qual falei) e, por outro lado, os constrangimentos do Estado (censura) e as regras do sistema industrial capitalista pesam sobre o caráter mesmo desse diálogo.

A cultura de massa é, portanto, o produto de uma dialética produção-consumo, no centro de uma dialética global que é a da sociedade em sua totalidade.”

Na verdade, o grande problema do livro não está na distribuição, ao contrário do que afirmam algumas pessoas. Porque mesmo que as livrarias * que são poucas no Brasil * aceitassem os livros de todos os escritores, ou de grande parte deles * mesmo assim não estaria garantida a comercialização dos livros editados. Não há leitor para literatura, especialmente poesia e prosa de ficção. A circulação das obras literárias é e deverá ser sempre restrita a outros escritores, estudiosos, pesquisadores, críticos, estudantes etc. Livros com distribuição garantida a todas livrarias e bancas de revistas são aqueles livros produzidos com os ingredientes da violência, cenas de sexo, drogas etc. Os best-sellers norte-americanos são o melhor exemplo desse tipo de “literatura”.

As livrarias não aceitam livros editados por pequenas editoras, geralmente criadas por um escritor para editar os próprios livros. E quem são os escritores que têm leitores? Os melhores? E quem são os melhores? Geralmente os melhores são eleitos pelos professores de literatura e pelos críticos. Os primeiros, talvez por falta de tempo, já chegam às cátedras das Faculdades de Letras com os mesmos nomes de sempre, os escritores que leram e estudaram: Fernando Pessoa, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Carlos Drummond, Manuel Bandeira e poucos outros. Mesmo grandes poetas e prosadores são esquecidos, como Jorge de Lima. Dirão: daqui a 50 anos outros nomes serão incluídos nessa lista dos melhores. Será a sua vez * dizem, como consolo ao escritor de hoje. O grande público, porém, não conhece esses bons escritores. Isto é, um pequeno número de pessoas, ilustres leitores e estudiosos, seleciona os melhores.

Moacyr Scliar resumiu a questão escritor-leitor, valendo-se de palavras de outros grandes escritores: “Quem não espera um milhão de leitores não deveria escrever, dizia Goethe, mas desde então as expectativas têm sido mais modestas. Stendhal: “Escrevo para apenas cem leitores, e desses seres infelizes, amáveis, encantadores, conheço apenas um ou dois”. Arthur Koestler levou mais adiante a fórmula dos “cem leitores”: uma centena, sim, mas que possam ser trocados por dez ao cabo de uma década e por um único no fim de um século.” (Revista Literatura n.º 3, dezembro, 1992).

O público de jornal, de revista semanal e de televisão não tem interesse por literatura. Mesmo a literatura mais banal, mais popularesca, mesmo essa não tem grande público. Daí a mídia não ter interesse nela. Ora, a política, nacional e internacional (agora mais do nunca, com a globalização da informação), os esportes, o crime, a música pop têm público, grande público. Daí as muitas páginas nos jornais. E os melhores horários na televisão.

Eloésio Paulo, em seu recente Teatro às Escuras – Uma Introdução ao Romance de Uilcon Pereira, afirma: “A propósito das relações entre o texto literário e o padrão de comunicação estética estabelecido pelos veículos de comunicação de massa, o poeta João Cabral de Melo Neto já apontava em 1954 para a necessidade de um comércio maior entre as formas poéticas e novos meios de difusão. Cabral destacava principalmente as virtualidades do rádio como difusor da poesia; apresentava, como uma direção inevitável para o poeta moderno, reformular sua posição enquanto agente de um processo de comunicação, ao mesmo tempo mantendo a alta elaboração estética na base de seus objetivos e procurando abrir-se à possibilidade de atingir o grande público. Via-se o poeta, portanto, diante de um impasse representado pela concorrência dos mass media, que por outro lado encerrava, dialeticamente, a própria saída ou solução, já que o tornar a poesia capaz de “entrar em comunicação com os homens nas condições que a vida moderna oferece” era, para Cabral, a “contraparte orgânica” da luta pela expressão poética desobstruída do tom oratório característico do lirismo tradicional.”

E diz mais: “Se a ficção do período (anos 50 e 60) não ignorava a cultura de massas, é certo que encerrou a problemática em outros termos, distanciando-se do mundo racionalmente administrado da sociedade em industrialização para mergulhar nos impasses da consciência individual e nas indagações metafísicas, coincidindo os escritores mais importantes numa pesquisa estética em nada dirigidas para a massificação da literatura.”

Há alguns anos os jornalistas eram, antes de tudo, escritores, como Machado de Assis e outros. Os donos dos jornais ou os editores-chefes precisavam desses escritores. Sem eles, não teriam como editar seus periódicos. Daí também os suplementos literários, que certamente nunca ressurgirão. Não havia ainda os cursos de comunicação. Mesmo assim, ainda hoje temos os artigos assinados, sim. Porém seus autores geralmente são políticos profissionais, sociólogos ou economistas. Que eventualmente podem ser escritores.

Edgar Morin cita um trecho de Robert Musil, em O Homem sem Qualidades, quando o personagem Arnheim pergunta: “Você não notou que nossos jornalistas ficam sempre melhores e nossos poetas sempre piores?” E tira sua conclusão: “Efetivamente, os padrões se enchem de talento, mas sufocam o gênio. Um copy desk do Paris-Match escreve melhor que Henri Bordeaux, mas não saberia ser André Breton.”

Fontes:
http://www.vastoabismo.xpg.com.br/
Figura:
http://pequenos-jornalistas.blogs.sapo.pt

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Batista de Lima (Só)

(id: MCCXX)

O que faz mais dura a solidão
é tirar de mim o que me falta

O que faz doer a solidão
é sua sede
é ter que arrancar
destas entranhas
um oceano de pedridade
de quem freqüentou a escola das facas
onde o que corta não é o gume
mas a falta da lâmina

O que fere não é a dor
é sua ausência assassina
pendurada nos cabides da alma

O que dói na solidão
é ter que amar
e amar é perder uma banda
é extrair um bonde de um homem
é extrair um bosque de uma mulher

O que mais fere na solidão
é sua inscrição cravada em brasa
no braço inútil do verso
uma família em torno da mesa
comendo pratos de silêncio

O que mais dói na solidão
é perder de mim
os outros que carrego
o segundo contra o primeiro
o terceiro que instiga
o quarto que dorme
o quinto que inicia
uma infinidade de outros

O que dói na solidão
é essa batalha que não acaba mais
entre guerreiros invisíveis
enquanto um boi passeia nas nuvens
e uma bicicleta muge
já que os verdes anos foram nulos
para quem nasceu maduro
para quem perdeu o ciso
na primeira dentição
e o cordão umbilical
nos bicos de um galo cego
lá pras bandas da Cipaúba

Quanto dói
ver a velha mangueira se desfazendo
Velha! Velha mangueira
por quanto tempo roerei
teus nós
por quanto tempo aguardarei
a manga que os passarinhos
bicam
no último dos galhos

O que dói na solidão
é o vira-lata sozinho
revirando o deserto
da cidade esquecida nas ruas
é ter um pai com muitas capas
todas com seus mistérios
se desfazendo em barro
por um caminho que mespera
O que mais dói na solidão
é ter na mão uma chave
que nada abre
que nada abre

O que mais dói na solidão
é não se poderem conter
os fantasmas que teimam
em saltar das sombras
de cada canto
São essas cobras
passeando em nossa cabeça
serpentário infindável

Difícil conviver
com a inesgotável solidão
mas difícil mesmo
é compor o verso
sem a vaca no divã
triste luna
rodonoite
áspera/mente

Só mesmo a roda grande
sescondendo em menor roda
Só mesmo a bicicleta
pendurada no trem noturno
Só mesmo a melancia
no rio em cheia
boiando
E os carneiros na mesa grande boiando
os teus olhos boiando na bandeja
os teus seios boiando no cuscus
os teus sais boiando nas iguarias
os teus ais boiando na rememória

O que mais dói
não é tua ausência
mas tua presença
estando longe

Lembra-te pois do açude
onde as águas ainda nos guardam
e os peixes nos carpem
em lágrimas de cumplicidade

Lembra-te da porta marcada
pelos mistérios de estar fechada
da casa retendo a mesa onde
saboreávamos os silêncios familiares
e escrevíamos a história da solidão
no livro branco do cotidiário

A solidão mora lá e é manca
e usa bengala preta
e óculos no nariz
e se veste de uma veste que nunca muda
e tem na mão fechada a chave da
nossa libertação

Solidão solidão
meu coração é uma cidade
entre muralhas
esperando tuas chaves

Solidão solidão
certa vez em Mombaça
pedia esmolas p’ra São Sebastião
e desenhei teu corpo num surrão de mangas
e em bandas de coité de brejo

Desenhei teu corpo
num portão de vidro
éramos dois
que não eram dois
Éramos dois e só um sol
a claridade e seu dorso
a clara idade e sua dor

Solidão solidão
estamos em pleno mar e não
há mar nenhum
Estamos em pleno sono
e não há qualquer sonho
só minha mão como um rosto
cortando em muitos
o luar de agosto

O que dói na solidão é ter
Ter é estar preso
pesar pesadamente fixo
Não ter
é poder voar
Leve
levo-me às alturas
lavo-me candura
com o vôo esculpido
no azul azul
o azul está no prato
servido e sorvido
seres vivos
estamos nele
e ele em nós
pasto de pasto
repasto
solitariamente circular
rondando em torno da roda
A solidão eixa e deseixa
em roda
quanto mais vemos
menos vivemos
coração coração

Tenho ossos e mais ossos
a rodear
Que tenho feito senão rodear
nunca quebrei o fêmur do que está posto
nem a tíbia das situações sem jeito
Rodear é fugir
Solidade
quando chegamos ao trem
não havia trilho
No açude não havia água
só a dor do pesca/dor
dois meninos
engolindo uma duna
e uma duna engolindo um astro
uma foto de uma foto partida
onde o instante enterrou-se
A solidão é uma foto em que se retorce
um inconformado instante

Solidão é desencontrar-se nos próprios passos
nos próprios ossos
perder o azul do firmamento
deixar de extrair gerânios
das pedras e de suas raízes
deixar de pentear os raios do sol
desarredondar a lua em luares
atravessados

Uma casa é uma caixa
se de apenas portas
e abertas todas
uma casa é um avesso
um delírio espesso
vasto berro de barro
vagido e gozo
vôo espargido
de sonho e suspiro

Minha solidão é nódoa grudada
no ombro esquerdo do corpo
onde jaz a mala
das minhas desventuras

Minha mãe é a terra
e cumpro seu estatuto
em retornar ao seu ventre
meus filhos todos me seguirão
vastíssimos sonhos
de/verão

Tarde tarde
a solidão me salga as horas
a mulher que retém o homem
suas asas e águas
rio seco
areia de leito
íngua cortada
ferida tratada a urina
caborge
no meu pescoço levo teu pescoço
teus passos laçados
teu poder de vôo
teu grito guardado

Solidão é Laura de costas
Laura láurea loura
minha querida Laura
chorarei lágrimas douradas
quando tua nudez
se esculpir no relâmpago

Querida Laura
recupera aquele instante
em que nossos dedos se tocaram
e nos perdemos

Recupera o instante anterior ao toque
quando a correnteza era mais forte em mim
o despencar mais vertical
retendo aqui esse abismo
que me engole

Recupera teu pai
e a cuia
que enchíamos de esperanças
antes do leite

Recupera tua mãe
e a chuva fina
no telhado

Recupera as águas
que nos levaram
e lavaram
nossos sais
o céu azul
o curto mundo
onde só o coração era vasto
Recupera as curvas
dos caminhos

Recupera o fogo de
monturo em nós
Se não me queimo
não posso iluminar
se não te firo
não extraio de ti o coração
“rosa vermelha
do meu bem querer ”

Na noite tarde
o que resta é meu corpo lá
e eu daqui
olhando sua/minha posição fetal
e essa angustia de perdê-lo de vista
Não sei quando perderei
essa dor
de perder a casca
a casa do ser não importa tanto
se tantas se erguem
Só o ser é uno
solitariamente nu
e eu molusco
a vida inteira tenho construído essa casca
que me expele e me retém
escravo da construção
construir é viver
terminar a casa é terminar-me
é expulsar-me da casca construída

Foi fácil colocar a flor
atrás da flor
e ficar de uma só flor
reinventando pomares

Foi fácil reverter a manhã
colocando alvoreceres
de sol a pino
Foi fácil engatinhar
pelas galáxias
semeando brancas nuvens
Houve no entanto
um momento difícil
mudar o destino da tarde

Solidão solidade
quando procurei no bolso
o poema
encontrei aberta uma artéria
e teu rosto de fada
tua avó morrente
uma floresta escura

Quando procurei no bolso
o poema
encontrei um mistério esculpido
algumas lavadeiras
oito bicicletas
e uma tia puxando um terço
solitária

Quando procurei no bolso
o poema
te vi mais uma vez
prima/vera/ndo
Vi também uma dor sangrando
solitária

Nos nossos bolsos pulsam
os meninos que enxotam o demônio
escondido num cupim
e uma mulher de tarrafa
tentando pescar o mar
nas entranhas de um peixe

Nos nossos bolsos
pulsa o destino do poetar o
revirar cada coisa para desvendar seus mistérios
enquanto meus mistérios
para traz vão ficando
cada vez mais distantes.

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Nilto Maciel (Pescoço de Girafa na Poeira)

(id: MCCXIX)

Mal o dia amanheceu, Fátima arregalou os olhos, assustada. Que horas já eram? Conteve-se. Todos ainda dormiam. Até seu pai. Se pulasse da rede, despertaria a mãe, as irmãs, os irmãos. E seu plano poderia gorar. Melhor dormir mais um pouco. Afinal, talvez tenha permanecido acordada grande parte da noite. Não se lembrava de nenhum sonho. E sentia sono.
***
O circo havia se instalado na cidade há quase um mês. Fátima não se interessou logo por ele. Conhecia outros circos, desde menininha. Os mesmos palhaços, os mesmos trapezistas, os mesmos acrobatas, os mesmos animais amestrados. Não, não iria ver o novo circo. A menos que arranjasse ingresso gratuito ou as amigas insistissem muito.
***
Durante o café Dona Zita percebeu sonolência nos olhos da filha. Preocupada com os estudos? Se não fosse ao circo toda noite não precisaria estudar a tarde inteira. Ainda bem que aquele circo miserável já havia ido embora. Não, não fora até então. Alguém mentira. Não lembrava quem.
***
O acrobata chamava-se Igor. As roupas coloridas realçavam sua musculatura, as formas vigorosas. A cabeleira loura voava ao compasso de suas piruetas. E Fátima suspirava, roía as unhas, esfregava as mãos, amassava o vestido.
Terminado o espetáculo, insistia com as amigas para ver os leões. Ora, os leões, aqueles bichos fedorentos? Melhor passear na praça, ver os rapazes fumando e contando vantagens.
***
A aula de português não acabava nunca. A freira gritava ciclos. E girava ao redor da sala: Ciclo Carolíngio, Carlos Magno, Ciclo Bretão, rei Arthur, Ciclo Clássico. Por que não ia rezar baixinho na capela? E relógio, quem tinha relógio? Precisava ver os ponteiros girando, quase parados, talvez parados, quebrados. E o sol? A pino, a pino, a pino. A freira repetia os ciclos. “O sol é grande, caem co’a calma as aves, do tempo em tal sazão, que soe ser fria”…
Fátima suspirava, absorta, os olhos no soneto de Sá de Miranda.
***
Uma noite Fátima desgarrou-se das amigas e escondeu-se no circo. Queria ver Igor de perto, falar-lhe. Nas noites seguintes viram-se frente a frente, conversaram, beijaram-se. No entanto, uns olhos azuis os espreitavam. E pertenciam à trapezista Catarina.
***
Durante o almoço Fátima apenas beliscou a comida. Dona Zita reclamou. Talvez a filha estivesse com vermes. Não, apenas preocupada com o dever de casa. Precisava ler muito o Ciclo Carolíngio e decorar uma poesia de um tal Sá de Miranda. Se não fosse toda noite ao circo… Ainda bem que já iam todos embora: palhaços, animais, trapezistas.
***
Sob os olhares de Catarina, acertaram Igor e Fátima a fuga dela. Escondida num dos caminhões. Tornar-se-ia trapezista. Ao meio-dia ela deveria estar no acampamento. O circo desmontado e pronto para a viagem.
***
Mal tiraram os pratos da mesa, saiu Fátima à rua. Ao longe avistou a caravana do circo. O pescoço da girafa atingia as nuvens. O palhaço fazia graças na carroceria de um dos carros. Fátima correu ao encalço dos veículos. Quis gritar o nome do acrobata. Meninos aplaudiam tudo. A poeira tornava o sol mais amarelo. Os caminhões embalavam. Fátima corria junto aos meninos. Catarina ria numa das cabines. As últimas casas da rua pareciam mais pobres. Surgia a estrada de barro. Fátima só conseguia ver o pescoço da girafa. Tudo era poeira, longe.

Fontes:
MACIEL, Nilto. Pescoço de girafa na poeira. Brasília: Bárbara Bela, 1999. p.20-22.

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Enéas Athanázio (O Guardamento do Último Viganó)

(id: MCCXVIII)

A notícia estourou na bodega do Zé Maria e não se sabe como se espalhou com o vento: morreu o temporão do velho Viganó. Num instante estava cruzando as cercas, levada pela língua das comadres. Circulava pelos botecos e rodas de jogo, invadia as casas de família e corria livre pelas ruas poeirentas. Num repente, até os guapecas pressentiam que o moço estava morto e esturricado, lavado e estirado num caixão de imbuia preta. E morto de morte matada, quem diria, ele que foi o cuéra da Coxilha Chata, o touro do rodeio, índio que não enjeitava parada. Furado de bala, quem diria, logo no povoado dos Fritz, vila de gente pacata. Quem diria.

Não tardou e o povo, em grupo de três e quatro, pegou a se movimentar devagar para o guardamento. Bem devagar, saboreando no caminho a falação, o diz-que-diz-que, a tramelagem de um e outro. Sem pressa de chegar na casa achatada e larga da Rua da Saída, onde o quebra descansava na sala, num caixão cercado de coroas e castiçais altos, com o rosto macilento representando na morte a calmaria que nunca teve em vida.

Em pouco tempo a grande sala foi se enchendo, cada visitante procurando os parentes do falecido para os pêsames, num toque de pontas de dedos com murmúrio de palavras inaudíveis. Depois ficavam uns instantes observando as feições do falecido, recordando talvez alguma de suas tropelias, persignando-se num gesto ligeiro e automático. Sentavam-se por ali, tentando se pôr a cômodo para a comprida noite que mal principiava.

Muito abombados, trajando luto fechado, alinhavado às pressas, os pais do vítimo sentavam-se num canto. Dona Arvíria, gordona e baixota, chorava alto, as lágrimas rolando pelas bochechas que ela enxugava num lenção carijó. Suas lamúrias e clamações, recortadas de soluços doídos, fugiam pela janela sem vidraça para a noite. Ao lado, seu Maneco, com olhos enxutos e estanhados, curtia em silêncio a perda do único filho homem, nascido temporão depois de uma récua de meninas – o derradeiro Viganó. Seu olhar esgazeado, fixe num ponto do teto, refletia perplexidade diante da desgraça daquele próximo meio aloprado e injiquento, sempre metido em escaramuças desnecessárias, mas temido pela valentia.

Homem velho e vivido, avaliava as conseqüências de chefiar dali por diante uma familiagem só de mulheres. Qualquer pelepré ressentido, sem tê nem porquê, iria agora se provalecer, pois em família de pouco macho ninguém põe respeito. No entanto, o coitado morreu sem saber como, baleado na nuca por um caipora que, pela frente, haverá de aprontar carreira com uma simples careta do falecido. De vingança, porém, não excogitava, deixando o causo nas mãos da Justiça, embora disposto a se empenhar na condenação do traiçoeiro. A lembrança do filho morto, como lhe entregaram, encolhido e embarrado que nem porco mal carneado, numa tarimba de pau, não lhe saía da cabeça e machucava fundo o seu coração de velho orgulhoso e cheio de si. Mas vingança, isso não.

Com a sala se enchendo, foi o povo se espraiando pela área, a cozinha, os quartos e os corredores. O silêncio respeitoso do começo era violado pelo arrastar de botas nas tábuas do chão, tosses e espirros, e até algumas risadas disfarçada. Um murmúrio indistinto se espalhava, aumentando aos poucos de volume. Lá fora, atados na cerca, os cavalos encilhados se alinhavam e, mais adiante, os carros, caminhões e caminhonetes atopetavam a rua de costume vazia. Eram as conduções da parentalha e dos amigos chegados de longe.

Pelas tantas, começou a correr o chimarrão. Uma cuia trabalhada, com bomba de bocal dourado, e a chaleira requeimada do fogo-de-chão. Circulava de mão em mão, enquanto um piazote esperto vigiava para não faltar água bem quente, substituindo a chaleira sempre que esvaziava. Pouco depois aparecia a cachaça, legítima cana do Uruguai, numa bandeja cheia de copos, oferecida por uma moça muito séria. A pinga branca e forte animou os espíritos e a bulha aumentou. Em alguns cantos proseavam e riam como se o morto não existisse.

Aos poucos o povo minguava. Uns saíam de mansinho, outros faziam questão da despedida. Dona Arvíria, muito entregue, foi recolhida ao quarto, depois de uns chás para dormir. Na sala iluminada, passava a última noite do falecido na face da terra, e ele quase solito, esquecido antes do tempo. Só alguns gatos pingados lhe faziam companhia.

Na cozinha, porém, o mulherio se movimentava. Galinhas crioulas e lingüiça fresca frigiam na graxa e o cheiro forte inundava a casa. Depois de tudo pronto, os persistentes iam sendo convidados, de quatro em quatro, para jantar na grande mesa de pinho arrumada no canto da varanda. Voltavam palitando e chupando os dentes, reforçados para a travessia noturna.

A noite implacável seguia seu rumo, aproximando a hora trágica da despedida definitiva. Os primeiros clarões do dia se esboçavam no horizonte e os rostos tresnoitados revelavam cansaço, com as barbas se mostrando nos queixos. Os galos cantavam e algum quero-quero já gritava nas canhadas e nos banhados.

No seu canto, quase no mesmo lugar, Maneco Viganó nem parecia ter se mexido. Esmagado pela desgraceira, mudo e teso, tinha os olhos vermelhos estanhados e presos num ponto do teto. Mas estavam secos, porque homem-macho não chora.
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Sobre o autor:
ENÉAS ATHANÁZIO, contista, crítico, biógrafo com extensa bibliografia, é um dos escritores mais publicados e conhecidos de Santa Catarina. Reside em Balneário Camboriú. No gênero conto tem editados O Peão Negro (1973), O Azul da Montanha (1976), Meu Chão (1980), Tapete Verde (1983), Erva-mãe (1986), Tempo Frio (1988), O Aparecido de Ituy (1991), Rosilho Velho (1994), A Gripe de Barreira (1999), O Cavalo Inveja e a Mula Manca (2001) e muitos outros, além de novelas, ensaios, artigos, biografias. Um dos fundadores de Literatura – Revista do Escritor Brasileiro, na qual tem colaborado assiduamente.
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Fontes:
http://www.vastoabismo.xpg.com.br/
http://www.jornaldepoesia.jor.br/

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Arquivado em notas biográficas, O Escritor com a Palavra