Silvino Potêncio (O Descanso do Guerreiro)

… O ouro é como o amor; mata quem o guarda e vivifica quem o dá. (Gibran Khalil Gibran) — durante a pré campanha para as recentes eleições presidenciais na santa terrinha, um dos Pré-Candidatos que não chegou a ser inscrito, ele me escreveu através do portal a perguntar pelo meu “ouro” dado gratuitamente!… e eu aqui estou vivinho da costa!
Silvino Potêncio, Emigrante Transmontano! – Janeiro de 2006

Imbuído de um portuguesismo bastante exacerbado, senão um defensor ferrenho dos purismos da língua, causado traumáticamente pela minha vivência pessoal e directa durante quatro anos em Portugal, logo a seguir ao 11 de Novembro de 1975 pelo clima que lá se tinha naquela época, eu cheguei a terras de Santa Cruz de Cabrália, quatro anos depois…

– Por mais conhecimento literário, cultural, e/ou social que se tenha do lugar aonde se pretende ir, nada melhor do que chegar lá e verificar “in loco” como são as coisas da vida, diariamente vividas e sentidas na sua plenitude.

– Ainda no saguão do aeroporto da minha primeira chegada em terras “Tupiniquins”, estava eu preocupado em confirmar a minha chegada, aos amigos que me esperavam em determinado local, que não aquele onde eu estava, eu meti a moeda na ranhura da cabine telefônica, que só mais tarde eu entenderia porque se chamava de “orelhão” publico ou seja: um lugar onde todo mundo tem direito a escutar o que quer e o que não quer ouvir – iiii!!!,…. tchibum….plim, plim, pardais ao ninho, a minha moedinha caiu na caçapa sem me liberar o contacto com quem quer que seja.

– Mais umas duas tentativas e como não conseguia, eu dirigi-me a uma “cigarreira”, vulgarmente conhecida por banca de revistas, ou ponto do jornaleiro, além de lanchonete ou simplesmente um ponto móvel (fixado com cimento e cal na calçada) de venda de cachorro quente, e caldo de cana doce como mel, que ficava logo ali à ilharga para, delicadamente pedir à rapariga que lá estava atrás do balcão para me vender o “tabaco” dela, depois de pedir uma informação.
– Olhe, faz favor,… tem tabaco?

… Seu “inguinorante”, fio d’ua égua… vai lá p’ra sua terra chamar esses nomi tudin p’ra sua mãezinha tá! – Aqui nois é póbe mas tem, inducação viu!?…

– Mas!,… olhe, eu sou português acabei de chegar.

– Tenho até as malas ali no guarda-volumes do aeroporto, porque eu só tenho conexão daqui a umas seis horas… e eu só queria telefonar para lá, para…!

Pode pará, pára,… pera i home, tu é doido é?… dizia-me ela de dedo apontado;
— hum!… é só isso mêmo que você quére ???…

É, … é, só isso que eu quero. – Como é que faço?

– Oi,… primero voismecê compra aqui a “ficha” na cigarreira p’ra botá lá no “orilhão”… – a despois voismecê liga o número e pronto, já pode falar!!!…

Antes de me afastar da cigarreira onde colhi a informação, a rapariga ainda acrescentou… Mas preste atinção: aqui num vende tabaco não,… – eu inda sou moça sorteira e só vende cigarro, você entende!?… aqui num tem tabaco não e também num tem nem rapariga não!,… tá certo?

– Está muito bem, muito obrigado…

– …num tem di quê?

Encerrado este diálogo inicial da minha apresentação ao serviço da guerra de termos e vocábulos luso-brasileiros, lá fui eu então para o meu telefonema inaugural. Mas… agora já munido de algumas informações turísticas e uns poucos “macetes” para não dar “mancada” nos meus confábulos que se avizinhavam já a seguir.

— E que tinham que ser bem educados, respeitosos, e sobretudo diplomáticos a bem da minha pretendida permanência em casa de desconhecidos até então.

– Está lá? … (- risos do outro lado da linha…) Alô!?… é você?

– Sim, sou eu! – mas quem é esse tal de alô?, eu vim sozinho e estou no aeroporto à espera do voo com conexão para ir para aí! (- mais risos do outro lado da linha…)

Tudo bem! – quando você chegar aqui nós já estaremos lhe esperando no aeroporto…

– Mas como não nos conhecemos pessoalmente ainda, como vamos saber quem é você?

– Haaa!…, está certo…

– Olhe não tem qualquer problema porque eu estou com uma “camisola” vestida nas cores branco, com uma faixa azul e encarnado no peito… (— novamente, muito mais risos do outro lado da linha…) – supostamente a voz colocou a mão sobre o bocal do telefone, e ainda assim eu percebi numa voz sussurrada e fanhosa; … minha Nossa Senhora!,… o cara só pode ser algum orixá porque está vestido de branco e azul mas está “encarnado”.

E dever ser também alguma bichona a ponto de descer do avião vestido com uma “camisola”… – vige! maria!,… que caba da peste hein!?,… – esses portugas tem cada coisa hein!…

– Tem um lá no Rio de Janeiro que é um tarado por beijos! … depois de tanto beijar mulatas, brancas, pretas, amarelas, indias, caboclas, ciganas, pardas, sarárás, e tudo mais que tenham rabo de saia, ele acabou por ficar famoso ao beijar homens!

– Eh, cara… até lhe chamam de “beijoqueiro”,… eu hein?!

As horas se passaram, eu fiz a minha conexão e desembarquei mesmo de “camisola” em pleno aeroporto com um sol tropical maravilhoso como eu já não via desde os tempos de Luanda, cinco anos atrás.

– As pessoas me receberam literalmente de braços abertos e, agora muito mais aliviados e positivamente mais contentes ainda porque,… afinal eu não vinha vestido com nenhuma “camisola”… mas sim uma “T Shirt” do tipo camiseta polo.

– Me entregaram logo na amizade um FIAT (na virgem…) modelo 147 e lá comecei eu então a minha jornada de emigrante do outro lado das grandes áugas!…(1)

… Logo no primeiro “dez de junho” que se aproximou eu busquei a classe jornalística cá do burgo, e procurei saber da viabilidade de a imprensa escrita assinalar a nossa data nacional….

– O que é que se escrevia por aqui… – como era o dia da raça lusitana!?…

– De canto em esquina, eu … fui indo, fui indo mas num fondo…

– Fui apresentado a alguns jornalistas locais, os quais conheço até hoje e ainda mantenho no meu “caderninho ” de endereços, porém nada de mais sério senti da parte deles.

– Fiz um artigo de minha autoria (na época era alusivo ao 10 de Junho de 1980) que entreguei a um deles, jornalistas, para que o publicassem na sua coluna diária porém, em vez disso, na data aprazada eu só pude ler algo incongruente sobre um tal pseudo vendedor ambulante, também popularmente conhecido na região como “camelô” que nada mais é do que um trabalhador formal que caiu no mercado informal, para formar a turma de abandonados da sorte, e do governo formalmente, e aí!,… meus amigos,… eu conheci pessoalmente, finalmente, pela primeira vez na minha vida, um Senhor Cônsul de Portugal no estrangeiro.

… Natural de Caminha, o velho Ti Manel Afonso já então com mais de oitenta e tal anos, ele caminhava lento.

– Levantava-se cedo por hábito adquirido há muitos e muitos anos!…

– Tomava o autocarro na porta da sua casa – único bem que lhe restou do patrimônio familiar angariado em mais de 70 anos de emigrante – e todos os dias, pelas sete horas da manhã, ele abria o estabelecimento!

— Ah!,… que consolo dizer isto à boca cheia.

O homem tinha uma “banquinha de jogo do bicho” com aproximadamente um metro quadrado de espaço, localizado debaixo da escada que levava ao primeiro andar do prédio, a qual lhe era autorizado instalar no vão da escada da entrada desse edifício,… que outrora já fora o seu grande quartel general de negócios.

– Não é por nada não mas, aqui me ocorreu o velho tango…

Música melancólica que nem o tal Gardel conseguia disfarçar depois de uma noitada de dor de cotovelo:

“corrientes!,… treis cuatro ocho!,… subiendo al primer andar!…
( ai, Jesus! que tristeza…)

– Ali ele recebia politicos e comerciantes, artistas e jornalistas.

Lá mesmo eu vi fotografias dele, Ti Manoel Afonso, junto ao aeroplano, e junto do Gago Coutinho em escala no aeroporto de Recife… mas isso eram devaneios de outras eras, como o são todos os tangos de que me lembro!

– O dia a dia do Ti Manel Afonso era bem mais simples:
… veio para o Brasil com “carta de chamada” e não tinha passaporte.
Sim, senhores!…. eu pessoalmente o ajudei a tirar a Carteira de Identidade, ou RNE – RG como queiram lhes chamar,… – perguntei-lhe pelo passaporte e o homem simplesmente, com lágrimas nos olhos, se encolheu e confessou que nunca mais teve condição de ir a Recife para tirar o próprio passaporte mas,…ele nem o precisava!

– Porque todo o mundo em Natal sabia que ele era o Consul Honorário de Portugal, então para quê ele precisaria de passaporte???…

– Isto ele me dizia meio a sério, meio na brincadeira, porque eu era afinal o patrício que ele tinha ali mais perto da loja dele onde, às vezes eu ia lá para comprar um maço de cigarros (vulgo tabaco)… e ele se recusava a vender-mo!…sabem porquê?

Ele foi caixeiro viajante,… enriqueceu no comércio de jóias, relógios e muito trabalho como bom emigrante que era.

– Construiu o prédio onde por vezes promovia bailes de gala nas décadas de 40 e 50 do século passado.

– Agora na década de oitenta ele tinha que vender cigarros avulso porque dessa forma ele conseguia mais uns trocados para a sopa!

– Se me vendesse a mim o maço completo, ele não tinha como abastecer os clientes que compravam um de cada vez!…e, para disfarçar a contravenção de fazer o joguinho da bicharada, lá vendia cigarros: um de cada vez!

– Acompanhei-o eu a um almoço do Rotary Club local, em dia de homenagem a Portugal lá pelos idos do “dez de junho” de 1982-83, se não estou em erro,… e o Ti Manel Afonso não aguentou de saudade!…

A meio do almoço e na hora de botar “faladura”, ele desabou por cima da mesa com a fala já entaramelada de emoção, depois de um copito do tinto, uma olhada na bandeira das quinas na parede em frente de nós dois, e mais o amigo Albano, que também já está ausente,… e lá o fomos a deixar na casa dele, quase desacordado.

– Faleceu um tempo depois, já p’ra lá dos noventa e tantos anos, e a grande mágoa que o acompanhou na sua ultima e derradeira batalha, foi a sua grande tristeza de tudo ter dado e feito em prol do nosso País, da nossa cultura, em terras Potiguares e, ele o Sr Consul Honorário de Portugal, ele jamais recebeu sequer uma menção honrosa de quem de direito…

– Ganhou muito ouro em vida, agora descansa em paz!…antes de ser Cônsul ele foi emigrante como eu, como qualquer um de nós… viva o novo P.R. ( entenda-se Portugal Renovado!…) e ainda vou reler a história da transição transalpina dos camelos do Anibal – grande guerreiro, imperador romano que mandou construir a fonte da minha santa terrinha, que ainda lá está!…

Silvino Potêncio/Natal-Brasil – Jan/2006

Fonte:
E-mail enviado pelo Portal CEN (
www.caestamosnos.org )
Foto:
http://eu-vejo.blogspot.com

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