Alexandre Vidal Porto (O Ouro de Artur)

Conheço bem a história de Artur. Ele é um homem íntegro, e é meu dever defendê-lo. Artur tem muitos defeitos de personalidade, mas poucos de caráter. Tem pensamentos inconfessáveis, dos quais se envergonharia. Mas quem nunca se envergonhou dos próprios pensamentos?

Ao separar-se, trocara a possibilidade de depressão por um sentimento de amargura leve, mas perene. Em São Paulo, não conhecia ninguém. Seu contato social resumia-se a pouca conversa que tinha na biblioteca com os oito funcionários que trabalhavam sob sua supervisão.

Essa ausência de contato não o incomodava. Ao contrário, lhe convinha. Quanto menos pessoas conhecesse, quanto menos pessoas falassem com ele, melhor. Não queria recontar a história de seu passado recente, não queria que ninguém tivesse elementos para deduzir fatos de sua vida e, mais importante, não queria acabar tendo despesas desnecessárias com gente que não o interessava.

De tudo o que perdeu com a separação, o apartamento foi o que mais sentiu. Artur tinha medo do futuro. Tinha medo de ter câncer na próstata. Tinha medo de ficar desvalido, e o pensamento de não ter onde morar na velhice o apavorava mais do que qualquer outra coisa no mundo.

Todos os seus centavos eram contabilizados, do primeiro ao último. Àquela altura, seu principal objetivo na vida consistia em readquirir um imóvel próprio e parar de pagar aluguel. Todas as noites adormecia pensando em um apartamento pequeno, financiado na planta, num prédio decente, onde pudesse morar tranqüilo. Economizava para a entrada. Com o salário, pagaria as prestações.

Por necessidade e cautela, vivia modestamente. No entanto, não precisava privar-se de muito. Era naturalmente frugal. Por um desconto simbólico no contracheque, fazia as três refeições no bandejão da Universidade. À noite, às vezes, jantava uma fruta ou um sanduíche de queijo. Comia a mesma coisa todos os dias. Seus luxos eram uma televisão com DVD e um computador.

A separação o havia exaurido. Só gente muito próxima soube o que aconteceu. Até hoje, Artur evita tocar no assunto. Separaram-se por decisão dela. Só dela. Soubera que Artur havia tido um caso – devidamente morto e enterrado, por sinal – com a ex-cunhada. Tomou a decisão de separar-se e manteve-se irredutível até o final.

Artur não amava mais a mulher, mas pretendia continuar casado. Ao ser sincero, acabou cometendo um atentado econômico e moral contra si mesmo. O apartamento ficou para a mulher e os filhos, e 20% de seu salário passaram a ser descontados em folha, a título de pensão.

Em São Paulo, daria seguimento à vida. Pensara em alugar um quarto em uma das repúblicas próximas à Universidade, mas deu-se conta de que não teria onde receber os filhos. No final, alugou um apartamento pequeno, de um quarto. Quando viessem, os filhos dormiriam em um colchonete na sala.

Se fosse sedentário, seria gordo. A natação o salvara da obesidade. Artur caminhava para o trabalho e nadava todos os dias. Às seis da tarde, saía de sua sala na biblioteca em direção à piscina do ginásio de esportes. Passava horas nadando, surdo, cercado de água morna azul.

Triana Robledo foi a primeira mulher com quem saiu a sós depois da separação. Não que esse fato pudesse ter qualquer conotação romântica. Triana Robledo era aquela senhora que, todos os dias, antes das aulas, cedinho, passava pela biblioteca para ler os jornais. Uma das poucas pessoas além dos de seus funcionários que Artur reconhecia e cumprimentava.

Saíram juntos porque, semanas antes, se encontraram casualmente no supermercado. Artur a ajudou a carregar as compras. Na porta de casa, Triana pensou em oferecer-lhe um café, mas julgou que seria inadequado.

Para retribuir a gentileza, duas semanas depois, por volta das 7 da manhã, convidou Artur para um concerto de música de câmara. Tinha ganhado os ingressos de um de seus alunos. Foi essa a primeira vez que saíram juntos.

Saíram juntos outras vezes e tornaram-se amigos, que era o que combinava entre um homem de 58 e uma mulher de 72. Assistiam a filmes, a palestras e, se algum dos dois ganhasse ingressos, iam a uma peça de teatro ou a um concerto. Muitas vezes, comiam uma pizza depois do programa. Sempre dividiam as despesas sem qualquer prurido. Foi durante uma dessas pizzas que Artur mencionou o filho pela primeira vez.

Triana Robledo não tinha filhos nem qualquer outro parente. Ainda jovem, no espaço de três anos, perdera a mãe e o pai. Em 1950, aos catorze anos, chegara a São Paulo para viver com o tio, um padre dominicano que trabalhava na administração da Universidade. A vinculação de Triana com o mundo fazia-se por essa instituição. Ali, completara sua formação acadêmica. Ainda como mestranda, começara a ensinar literatura espanhola. Vivera sempre à sombra da Universidade, repetindo Cervantes e Lope de Vega para gerações de alunos iguais.

Por algo que não se explica, passara a vida invisível para o sexo oposto. Nenhum homem jamais lhe demonstrara interesse romântico. Por estranha que possa parecer, é essa a mais pura verdade. Não era bonita, mas isso não seria razão. Mesmo neste mundo machista, mulheres de menos beleza se casam até mais de uma vez.

Era reservada. Passou a adolescência sozinha, lendo. Talvez tenha sido por isso. Talvez tenha ficado solteira porque circulasse muito entre religiosos. Talvez, ainda, porque fosse esse o destino mais feliz que lhe pudesse caber.

Mas é inútil conjeturar sobre as razões desse destino. As razões podem ser várias. O que importava era o resultado, e o resultado era que Triana Robledo nunca encontrara um homem que a beijasse ou, muito menos, que a levasse ao altar. Em Triana se extinguiria a família Robledo.

O tio lhe havia possibilitado uma vida austera. Crescera sem qualquer luxo. Nunca se achara merecedora de cuidados especiais ou gastos supérfluos. Trazia na alma o pessimismo conformista de que só um espanhol é capaz. A vida era como tinha de ser, um vale de lágrimas, uma armadilha contra quem está vivo.

Como Artur, Triana contabilizava centavos e achava normal usar o mesmo saquinho de chá mais de uma vez. Não conhecia o prazer e não desperdiçaria dinheiro no que não conseguia discernir. À diferença de Artur, porém, não tinha idéia do que o dinheiro acumulado ao longo da vida lhe poderia proporcionar. Passara a vida economizando porque economizar era parte da vida. Economizava porque não tinha em que gastar.

A atenção que Artur lhe dedicava quando iam ao cinema ou dividiam uma pizza era maior do que a que qualquer outro homem jamais lhe devotara. Toda demonstração amistosa de Artur era grande perto do pouco que ela conhecia. Se concebesse a possibilidade do amor, Triana teria se apaixonado à primeira vista, na biblioteca. Mas como não pensava em amor, não contemplava a paixão. Comprazia-se com a presença de Artur. Gostava de sua companhia, das conversas que tinham, do tempo que passavam juntos.

Cada um chegara a São Paulo por seus próprios acasos. Artur, depois de uma separação. Triana, depois da morte dos pais. Para ele, um novo emprego. Para ela, a casa do único tio. Ele abandonara a ilusão do casamento e vivia sozinho. Ela deixara um continente para ganhar outro.

No seu íntimo, Triana acreditava que o fato de não ter sido amada a tornava imortal. “Ninguém pode morrer antes de ter sido amado.” Essas são palavras que eu ouvi de sua boca. Nessa mesma época, disse-me que começara a ter pensamentos de morte quando completou 70 anos.

Passara a vida sem acreditar no prazer, sem saber que o prazer habitava nela. Na idade mais improvável, Triana descobria uma tensão no diafragma que precisava estar apaixonada para sentir. Sabia a parte de seu braço em que ele, horas antes, tocara para ajudá-la na saída do auditório ou na descida de uma escada.

Sentia prazer, mas o que sentia era desconhecido, e ela, por falta de experiência nessas matérias, não sabia que o prazer, retribuído, se potencializava. Não pensava em ser correspondida, mas sonhou com Artur repetidas vezes. Num dos sonhos, ele estava sem camisa. Em outro, sorria.

Aos 58 anos, Artur não contemplava a possibilidade de prazer romântico. Achava que tinha resolvido sua questão sexual masturbando-se uma ou duas vezes por semana com fotos que baixava da internet.

Dos filhos de Artur, sei pouco. Sei que a menina tinha 15 anos e era uma mosca morta, mas talvez fosse só tímida, sei lá. Marcelo, o garoto, é que era o orgulho do pai. Tinha 25 anos e era formado em economia. Trabalhava em um banco de investimentos. Não se ocupava diretamente do dinheiro de Artur, mas dava dicas e sugestões, que o pai, em benefício próprio, tinha aprendido a seguir fielmente.

Onze meses depois do primeiro encontro, num domingo de fevereiro, Artur sugeriu que comessem uma pizza depois do cinema. Nessa noite, pediu vinho em lugar de guaraná e, pela primeira vez, tomou a iniciativa de pagar a conta. Justificou o gesto dizendo que celebrava os rendimentos de umas aplicações que o filho lhe havia sugerido.

Nessa noite, Artur teve vontade de falar sobre quanto dinheiro tinha ganhado e quanto dinheiro poderia ganhar, mas, no final, achou que não seria de bom-tom. Marcelo acabou sendo o tema central da conversa. Na semana seguinte, dava a entrada em seu apartamento de 71 metros quadrados no Village Arpoador, em Perdizes.

Àquela altura, Triana já se tinha dado conta de que se apaixonara. Em sua casa, nas aulas, na biblioteca, pensava em Artur constantemente. No começo de março, admitiu para si mesma que o que sentia por ele tinha saído de controle. Mas, se tinha perdido o controle, era só por dentro, porque, por fora, em aparência, palavras e gestos, nada traía seus sentimentos de mulher.

Na sala de periódicos, dias mais tarde, perguntou a Artur se Marcelo poderia instruí-la sobre opções de investimento. Para Artur, a pergunta de Triana parecia despropositada, quase abusiva. Ela sabia que Marcelo só trabalhava com grandes investidores e que lhe prestava consultoria de pai para filho, literalmente.

Artur não queria onerar Marcelo, mas tampouco queria ser indelicado com Triana. Entre os dois, privilegiou a mais idosa e lhe passou os números do filho. Imaginava que ela tivesse algumas economias na poupança, mas nada de substancial. Foi o que disse a Marcelo quando lhe pediu que fizesse uma caridade pelo pai.

Quatro dias depois, à noite, Marcelo ligou para Artur. Queria agradecer a recomendação da nova cliente. Contara que a professora Triana tinha investido quase três milhões com ele, e que o portfólio de investimentos que gerenciava tinha praticamente dobrado.

O primeiro sentimento do pai com a notícia foi de satisfação pelo bem que fazia ao filho. O que veio depois era incredulidade pura. Naquela noite, Artur quase não dormiu. Rolando na cama, tentava encaixar três milhões na vida de Triana. Teve um sono agitado, mas não se lembrou de seus sonhos ao despertar.

No sábado seguinte, antes do cinema, Triana mencionou que havia falado com Marcelo. De noite, na cama, Artur tentava conceber a idéia de que Triana, sua companheira de cinema e pizza com guaraná, possuía mais dinheiro do que ele jamais imaginara. A conclusão óbvia a que chegava era que Triana tinha herdado essa dinheirama de alguém.

Passou a observá-la como nunca fizera antes. Analisava cada gesto de sua expressão. Perscrutava cada parte de seu corpo. Se fechasse os olhos, podia imaginar suas feições. Ela possuía o que ele precisava ter, e Artur queria entendê-la melhor.

Notava a segurança com que ela tomava os ingressos na bilheteria do cinema. Percebia como segurava os talheres com os punhos ligeiramente curvados. Achava graça quando ela olhava para baixo imediatamente antes de olhá-lo nos olhos e criticar um governo qualquer.

Imagens de Triana Robledo seguiam Artur na piscina, entre reflexos de luz e bolhas de ar. Ocupavam o lugar do apartamento próprio em seus pensamentos antes de dormir.

Para Artur, uma mulher rica que quisesse parecer pobre tinha de ter enormes qualidades. Passara a admirá-la, a considerá-la um modelo. Nada na vida o tranqüilizava mais que a companhia daquela mulher.

Durante um filme de Almodóvar, suas pernas se tocaram. Triana sentiu um calor sufocante no rosto; Artur pressentiu uma ereção. Quase dois meses depois, Artur beijou-a por impulso na cozinha do apartamento dela, onde haviam ido tomar café. Não teve qualquer dificuldade para admitir que se apaixonara por Triana sem perceber.

As idéias, o corpo, o cheiro, essas coisas catalizam a química do amor. No caso de Artur, o catalizador do amor por Triana foi a segurança que a personalidade, as palavras e o dinheiro da mulher lhe inspiravam. Para ele, o que ela tinha integrava a essência de quem ela era.

Haverá quem insista em discutir a pureza desse sentimento. O mais fácil é dizer que Artur se casou por interesse. É o mais simples e o mais simplório. Mas isso só fala quem não os conheceu.

Triana e Artur casaram-se discretamente, em um cartório no centro da cidade. Marcelo e Padre Justino, que benzeu o casal, foram as testemunhas. Por insistência de Triana, casaram-se em comunhão de bens.

Aos 73 anos, Triana, finalmente, conhecia o amor. O casamento consumou-se com carinho e continuou com carinho ao longo dos nove anos em que viveram juntos. Ainda no primeiro ano de casados, Triana convenceu o marido a se mudarem para um apartamento maior. No final desse mesmo ano, passaram quinze dias na Espanha. Ouvi-a mais de uma vez dizer que Artur lhe havia proporcionado os melhores anos de sua vida.

O fatalismo espanhol, que a forçara a economizar a vida inteira para uma eventualidade que ela nunca entendeu, finalmente se explicava. Seu dinheiro, sem que ela se desse conta, lhe comprara amor sincero. Agradecia ao seu anjo da guarda por isso. Todas as noites, antes de dormir, beijava a medalha de Santo Antônio, quem lhe concedera a graça do matrimônio.

Triana não viu a passagem da vida para a morte, mas viu luzes que, de repente, se apagaram. Artur a encontrou de camisola, na cama, como a deixara de manhã, só que morta. O frio do seu corpo projetou Artur em dois segundos de queda livre. Respirou fundo, ligou para o filho e depois chorou. Em seguida, telefonou para a funerária e para o cemitério onde tinham comprado um jazigo. Queria resolver os detalhes do sepultamento.

A morte de Triana escurecera a vida de Artur, mas, na saída da missa de trigésimo dia, às 9 da manhã, disse ao filho que iria viajar. Decidira ir a Paris. Talvez também fosse à Grécia. Já tinha comprado as passagens e feito as reservas no hotel.

Disse-me que, em Paris, chorava por Triana caminhando pelas ruas, na chuva, e que foi só com o sol da Grécia que começou a se sentir melhor.

De volta a São Paulo, achou o apartamento muito escuro e decidiu mudar-se para uma casa na praia. Tinha saúde, disposição e trazia um Santo Antônio no pescoço. Perdera o medo da morte e queria dar seqüência à sua vida.

Aos 68 anos de idade, era o que Artur queria fazer. Quem, podendo, não faria o mesmo? O que de condenável poderia haver nessa intenção?
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Sobre o autor
ALEXANDRE VIDAL PORTO é autor do romance Matias na cidade. é diplomata de carreira e mestre em direito pela universidade de Harvard. Trabalhou em Nova Iorque como representante do Brasil na ONU para direitos humanos e também em Santiago, no Chile.
Atualmente ele é primeiro conselheiro da embaixada brasileira em Washington

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