Arquivo do mês: novembro 2008

Balaio de Trovas IV

No presépio, um quadro lindo:
a jovem mãe e a criança.
– Era a ternura sorrindo,
amamentando a esperança!
A. A. de Assis – PR
Fiz trovas para vencer,
mas já me dei por vencido.
Ganhar… é saber perder,
sem merecer ter perdido!
Ademar Macedo – RN

Paquerador, mas casado,
da aliança faz segredo.
Sai por aí, o safado,
com um bandeide no dedo…
Adilson de Paula – PR

Meu pai, muito te agradeço
por tudo que me ensinaste;
não existe nenhum preço
pelo tanto que me amaste.
Agostinho Rodrigues – RJ

Neste Natal eu vou pôr
minha boca na janela
para você, por favor,
deixar o seu beijo nela…
Antônio Roberto Fernandes

Os poetas sempre estão
trazendo alegria à terra.
Cada verso é uma oração,
cada rima um sonho encerra!
Arlene Lima – PR

O mar, de língua sonora,
sabe o presente e o passado.
Canta o que é meu, vai-se embora,
que o resto é pouco e apagado.
Cecília Meireles

Quanto esta vida seria
difícil de suportar,
se não fosse essa mania
que a gente tem de sonhar!
Carolina Azevedo Castro

Todos os picos da serra,
nos Andes, nos Pirineus,
são dedos grandes da terra
mostrando a casa de Deus!
Célio Grünewald

Natal… repicam os sinos…
banha-se o mundo de luz…
Há nos lábios dos meninos
o sorriso de Jesus!
Colbert Rangel Coelho

Creio, pensando em Jesus
e em São Francisco também,
que existe um arco de luz
ligando Assis a Belém!
David de Araújo

Minha toalha de banho
encontra a tua, na corda,
e, no vento, é tanto assanho,
que em pouco tempo uma engorda…
Flavio Stefani – RS

Eu tenho te amado tanto,
com tão intensa paixão,
que muitas vezes me espanto
de ter um só coração!
Galdino Andrade

– Esse biquíni agarrado…
Meu bem, o que aconteceu?
– Foi na água que, molhado,
rapidinho se encolheu…
Gasparini Filho – SP

Um mundo melhor… queria,
para deixar aos meus netos,
onde imperasse a alegria
numa transfusão de afetos!
Gislaine Canales – SC

Vendo a perua chegar,
pergunta logo a vizinha:
– Querida, que vai tomar?
– Seu marido, queridinha…
Istela Marina Lima – PR

Pior que não ver estrelas
sobre os caminhos que eu trilho
é olhar para o céu e vê-las,
mas não enxergar seu brilho…
Izo Goldman – SP

Se sofres, poeta, canta,
que essa cantiga, aonde for,
consola, embala, acalanta,
quem vive pobre de amor!
Jeanette De Cnop – PR

A morena, quando passa,
no molejo das cadeiras,
deixa nos olhos a graça;
no pensamento, besteiras!…
J. J. Germano – RJ

Para os jovens, de ordinário,
este é um problema somenos:
o velho, no aniversário,
comemora um ano a menos…
José Fabiano – MG

Uma chave carregamos,
porta de um mundo melhor,
entretanto não largamos
a muleta de um pior.
José Feldman – PR

Ante as sandálias furadas
que entre cascalhos gastei,
não culpo o chão das estradas,
culpo os maus passos que dei.
José Maria M. de Araújo

Tudo que é vivo precisa
de carinho e de afeição;
sempre foi minha divisa
aprender essa lição.
José Marins – PR

Com seu jeitinho de santa,
no mesmo olhar ela oferta
a timidez que me encanta
e a audácia que desconcerta!
José Ouverney – SP

O amor que se oferta a Deus
é essência da caridade.
E o cuidado aos filhos seus
chama-se fraternidade.
Lairton T. Andrade – PR

Procurei por Deus em tudo
pra ter, de novo, esperança;
achei-O, após grande estudo,
… num meigo olhar de criança.
Lóla Prata – SP

Quisera que o mundo visse
meu ar de felicidade
assim que você me disse:
“Namoro” – e não: “Amizade”.
Luiz Hélio Friedrich – PR

Quanto mais festa e mais luz
nesses Natais de salões,
mais nós sentimos Jesus
ausente dos corações!
Luiz Otávio

Tirei da gaveta o sonho,
limpei o mofo, espanei;
revi meu viver bisonho
e, afinal, recomecei.
Nádia Huguenin – SC

Preguiça é grande pecado!,
diz minha sábia vizinha.
– Vem “preguiçar” ao meu lado,
assim não peco sozinha…
Neiva Pavesi – SP

E’ Deus que forja o destino,
distribuindo talento.
O poeta é só um menino
soltando letras – ao vento…
Newton Meyer

Nas capelas, a candura
das esposas, nas novenas.
Fora delas, a aventura
dos maridos “noutras” cenas…
Olga Agulhon – PR

A amizade Deus criou
naquele exato momento,
quando estrelas semeou
nas trevas do firmamento!
Roza de Oliveira – PR

Passado? Foi num repente.
Futuro – não descortino…
Melhor viver o presente,
que ele é um presente divino!
Rose Mari Assumpção – PR

Revezam-se em nossas rotas
sombra e luz, contras e prós,
e as vitórias e derrotas
começam dentro de nós…
Vanda F. Queiroz – PR

O sabiá de peito roxo,
passarinho cantador…
Seus gorjeios sem muxoxo
são melodias de amor!
Vidal Idony Stockler – PR

Velha rendeira sofrida!…
A malha viva em teu rosto
é amarga renda que a vida
teceu, desgosto a desgosto.
Waldir Neves
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Fonte:
TROVIA – Revista Virtual Mensal – ano 10 – n.110 – dezembro de 2008
Esta é uma revista mensal de trovas realizada em Maringá/PR, distribuída virtualmente por seu coordernador, o trovador, poeta e haicaista Antonio A. de Assis.

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O Mundo Curioso da Literatura

Lemony Snicket (Desventuras em Série)

A série de livros conta a história dos irmãos Baudelaire, que perdem os pais em um incêndio e são obrigados a ir morar com seu tio, o Conde Olaf. Ele é um sujeito ganancioso e egoísta, e só está de olho na herança dos garotos. Por isso, apronta poucas e boas com eles, fazendo-os sofrer bastante.

A coleção foi escrita pelo misterioso Lemony Snicket. Esse é o pseudônimo do norte-americano Daniel Handler. Antes de lançar Desventuras em Série, o escritor publicou dois livros para adultos que não obtiveram muito sucesso.

A biografia de Snicket presente na obra diz que ele nasceu numa pequena vila que hoje está submersa. Um povoado aparentemente pacato, mas cercado de segredos. ?Para escrever essas desventuras dos irmãos Baudelaires fui obrigado a conhecer a fundo as artimanhas de vilões como o conde Olaf. Passei anos mergulhado no mundo do crime. Não dos crimes reais, é claro: minha formação é estritamente técnica”, completa.

Na época do lançamento do primeiro livro, Handler disse ao público que não era Snicket, apenas o representava. “As crianças ouvem mentiras constantes de adultos, então acho que não foi algo incomum para elas”, falou ele sobre o disfarce.

Até 2005, haviam sido lançados 11 dos 13 volumes previstos para a série. Seus nomes são Mau Começo (The Bad Beginning), A Sala dos Répteis (The Reptile Room), O Lago das Sanguessugas (The Wide Window), Serraria Baixo-Astral (The Miserable Mill), Inferno no Colégio Interno (The Austere Academy), Elevador Ersatz (The Ersatz Elevator), A Cidade Sinistra dos Corvos (The Vile Village), O Hospital Hostil (The Hostile Hospital), O Espetáculo Carnívoro (The Carnivorous Carnival), O Escorregador de Gelo (The Slippery Slope) e The Grim Grotto (sem título em português).

Os livros foram traduzidos para 39 idiomas e venderam 27 milhões de cópias em todo mundo.

Foram os primeiros livros a tirarem a série Harry Potter do alto da lista de best-sellers infantis do jornal The New York Times.

Em 2004, foi lançada a adaptação da série para o cinema. Desventuras em Série levou oito meses para ser feito e custou 125 milhões de dólares. Jim Carrey e Meryl Streep estão no elenco.
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Bram Stocker (Drácula)

Durante o século XVIII, lendas gregas e sérvias falavam sobre vampirismo. Isso despertou a imaginação do escritor irlandês Bram Stoker (1847-1912). Primeiro ele pensou num personagem chamado Conde Vampiro. Até que um amigo, professor de história, falou de Vlad Tepes, herói romeno do século XV, famoso por sua crueldade. O personagem do livro, lançado em 1897, logo se transformou em Conde Drácula.

Parte da ação do romance Drácula, de Bram Stoker, é passada na cidade romena de Bistrita. Para aproveitar a fama, a cidade batizou um dos seus hotéis de ?Coroa de Ouro?, como no livro, e os restaurantes oferecem o cardápio Jonathan Harker, homenagem ao corretor de imóveis inglês que, na imaginação de Stoker, se hospedou no Castelo de Drácula. O cardápio consiste em espeto de carne, toucinho e cebola, temperado com pimenta vermelha, vinho da região, frios, queijos e crepe com geléia.

Também em Bistrita foi fundada a Sociedade Transilvânia Drácula. Para atrair turistas, a entidade criou três roteiros do Drácula Tour. Um deles, que inclui uma noite inteira num cemitério, dá o título de membro da sociedade aos corajosos.

Na cidade de Bran, um castelo atrai turistas usando o apelo de Drácula, embora Vlad Tepes nunca tenha vivido ali. Foi construído em 1377. A única relação é que o castelo pode ter sido atacado por Vlad. Um turista americano morreu do coração ali quando funcionários se escondiam para dar sustos nos visitantes. A brincadeira acabou.

O primeiro Congresso Mundial de Drácula foi realizado em Bukovina, a 40 quilômetros de Bistrita, em maio de 1995. Reuniu 300 participantes.

Vlad Tepes

Vlad Tepes (1431-1477) nasceu na Transilvânia e governou outra região da Romênia, a Valáquia, entre 1448 e 1476. Virou herói nacional na luta contra os turcos. Seu pai, também chamado Vlad, fora nomeado cavaleiro da Ordem do Dragão.

Dragão em romeno é Dracul, a mesma palavra para “demônio”. O sufixo “a” significa “filho” em romeno. Tepes, filho de Dracul, virou Dracula.

Tepes era conhecido também como “o empalador”. Na empalação, o condenado era espetado, pelo ânus ou pelo umbigo, em uma estaca fincada no chão. A vítima tinha o corpo atravessado até morrer.

Vlad Tepes bebia sangue? Os romenos repelem essa pergunta. É uma ofensa a um herói nacional. Mas as lendas existem mesmo. São várias versões. Uma diz que Vlad Tepes gostava de molhar o pão no sangue de suas vítimas. Outra afirma que, nos três últimos anos de vida, ele bebia o sangue das garotas virgens crendo que isso aumentaria sua força. Aparentemente, os malfeitos do romeno foram muito exagerados por seus inúmeros adversários.

Morto em combate pelos turcos, em 1477, Vlad Tepes teve a cabeça cortada. O corpo foi enterrado num monastério, construído em 1519. Fica no meio de um lado de Snagov, de difícil acesso. O túmulo de Vlad Tepes está localizado em frente ao altar. Há quem diga que os ossos teriam sido roubados dali.

Fontes:
http://guiadoscuriosos.ig.com.br/
Imagem Desventuras em Série = http://universoliterario.wordpress.com/
Imagem Drácula = http://kimbofo.typepad.com/

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Alcântara Machado (Apólogo Brasileiro sem Véu de Alegoria)

O trenzinho recebeu em Maguari o pessoal do matadouro e tocou para Belém. Já era noite. Só se sentia o cheiro doce do sangue. As manchas na roupa dos passageiros ninguém via porque não havia luz. De vez em quando passava uma fagulha que a chaminé da locomotiva botava. E os vagões no escuro.

Trem misterioso. Noite fora noite dentro. O chefe vinha recolher os bilhetes de cigarro na boca. Chegava a passagem bem perto da ponta acesa e dava uma chupada para fazer mais luz. Via mal-e~mal a data e ia guardando no bolso. Havia sempre uns que gritavam:

– Vá pisar no inferno!

Ele pedia perdão (ou não pedia) e continuava seu caminho. Os vagões sacolejando.

O trenzinho seguia danado para Belém porque o maquinista não tinha jantado até aquela hora. Os que não dormiam aproveitando a escuridão conversavam e até gesticulavam por força do hábito brasileiro. Ou então cantavam, assobiavam. Só as mulheres se encolhiam com medo de algum desrespeito.

Noite sem lua nem nada. Os fósforos é que alumiavam um instante as caras cansadas e a pretidão feia caía de novo. Ninguém estranhava. Era assim mesmo todos os dias. O pessoal do matadouro já estava acostumado. Parecia trem de carga o trem de Maguari.
————
Porém aconteceu que no dia 6 de maio viajava no penúltimo banco do lado direito do segundo vagão um cego de óculos azuis. Cego baiano das margens do Verde de Baixo. Flautista de profissão dera um concerto em Bragança. Parara em Maguari. Voltava para Belém com setenta e quatrocentos no bolso. O taioca guia dele só dava uma folga no bocejo para cuspir.

Baiano velho estava contente. Primeiro deu uma cotovelada no secretário e puxou conversa. Puxou à toa porque não veio nada. Então principiou a assobiar. Assobiou uma valsa (dessas que vão subindo, vão subindo e depois descendo, vêm descendo), uma polca, um pedaço do Trovador. Ficou quieto uns tempos. De repente deu uma cousa nele. Perguntou para o rapaz:

– O jornal não dá nada sobre a sucessão presidencial?

O rapaz respondeu:

– Não sei: nós estamos no escuro.

– No escuro?

– É.

Ficou matutando calado. Claríssimo que não compreendia bem. Perguntou de novo:

– Não tem luz?

Bocejo.

– Não tem.

Cuspada.

Matutou mais um pouco. Perguntou de novo:

– O vagão está no escuro?

– Está.

De tanta indignação bateu com o porrete no soalho. E principiou a grita dele assim:

– Não pode ser! Estrada relaxada! Que é que faz que não acende? Não se pode viver sem luz! A luz é necessária! A luz é o maior dom da natureza! Luz! Luz! Luz!

E a luz não foi feita. Continuou berrando:

– Luz! Luz! Luz! Só a escuridão respondia.

Baiano velho estava fulo. Urrava. Vozes perguntaram dentro da noite:

– Que é que há?

Baiano velho trovejou:

– Não tem luz!

Vozes concordaram:

– Pois não tem mesmo.
*
Foi preciso explicar que era um desaforo. Homem não é bicho. Viver nas trevas é cuspir no progresso da humanidade. Depois a gente tem a obrigação de reagir contra os exploradores do povo. No preço da passagem está incluída a luz. O governo não toma providências? Não torna? A turba ignara fará valer seus direitos sem ele. Contra ele se necessário. Brasileiro é bom, é amigo da paz, é tudo quanto quiserem: mas bobo não. Chega um dia e a cousa pega fogo.

Todos gritavam discutindo com calor e palavrões. Um mulato propôs que se matasse o chefe do trem. Mas João Virgulino lembrou:

– Ele é pobre como a gente.

Outro sugeriu uma grande passeata em Belém com banda de música e discursos.

– Foguetes também?

– Foguetes também.

– Be-le-za!

Mas João Virgulino observou:

– Isso custa dinheiro.

– Que é que se vai fazer então? Ninguém sabia. Isto é: João Virgulino sabia. Magarefe-chefe do matadouro de Maguari, tirou a faca da cinta e começou a esquartejar o banco de palhinha. Com todas as regras do ofício. Cortou um pedaço, jogou pela janela e disse:

– Dois quilos de lombo!

Cortou outro e disse:

– Quilo e meio de toicinho!

Todos os passageiros magarefes e auxiliares imitaram o chefe. Os instintos carniceiros se satisfizeram plenamente. A indignação virou alegria. Era cortar e jogar pelas janelas. Parecia um serviço organizado. Ordens partiam de todos os lados. Com piadas, risadas, gargalhadas.

– Quantas reses, Zé Bento?

– Eu estou na quarta, Zé Bento!

Baiano velho quando percebeu a história pulou de contente. O chefe do trem correu quase que chorando.

– Que é isso? Que é isso? É por causa da luz?

Baiano velho respondeu:

– É por causa das trevas!

O chefe do trem suplicava:

– Calma! Calma! Eu arranjo umas velinhas.

João Virgulino percorria os vagões apalpando os bancos.

– Aqui ainda tem uns três quilos de colchão-mole!

O chefe do trem foi para o cubículo dele e se fechou por dentro rezando. Belém já estava perto. Dos bancos só restava a armação de ferro. Os passageiros de pé contavam façanhas. Baiano velho tocava a marcha de sua lavra chamada Às Armas Cidadãos! O taioquinha embrulhava no jornal a faca surripiada na confusão.

Tocando a sineta o trem de Maguari fundou na estação de Belém. Em dois tempos os vagões se esvaziaram. O último a sair, foi o chefe muito pálido.
*
Belém vibrou com a história. Os jornais afixaram cartazes. Era assim o titulo de um: Os Passageiros no Trem de Maguari Amotinaram-se Jogando os Assentos ao Leito da Estrada. Mas foi substituído porque se prestava a interpretações que feriam de frente o decoro das famílias. Diante do Teatro da Paz houve um conflito sangrento entre populares.

Dada a queixa à polícia foi iniciado o inquérito para apurar as responsabilidades. Perante grande número de advogados, representantes da imprensa, curiosos e pessoas gradas, o delegado ouviu vários passageiros. Todos se mantiveram na negativa menos um que se declarou protestante e trazia um exemplar da Bíblia no bolso. O delegado perguntou:

– Qual a causa verdadeira do motim?

O homem respondeu:

– A causa verdadeira do motim foi a falta de luz nos vagões.

O delegado olhou firme nos olhos do passageiro e continuou:

– Quem encabeçou o movimento?

Em meio da ansiosa expectativa dos presentes o homem revelou:

– Quem encabeçou o movimento foi um cego!

Quis jurar sobre a Bíblia mas foi imediatamente recolhido ao xadrez porque com a autoridade não se brinca.

Fonte:
SALES, Herberto (org.). Antologia de Contos Brasileiros. 9.ed. SP: Ediouro, 2005. p.109-113.
Imagem = http://antonini-eunice.spaces.live.com/

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Folclore do Norte e Sul (Pé de Garrafa)

O equilíbrio espiritual está em um só ponto e não em vários. Essa é a lição que nos passa o Pé-de-Garrafa. Além disso, mostra que todos nós temos uma faceta “saltadora”, que nos torna eternos peregrinos pela vida.

O Pé-de-Garrafa é um ente misterioso, um ser feérico que vive nas matas do centro e meio-norte do país. Raramente é visto, mas sempre se ouvem seus gritos estridentes, ora amedrontadores, ora familiares, capazes de confundir os caçadores, que acreditam ouvir os gritos de um companheiro em apuros. Em algumas ocasiões o pobre caçador enlouquece com os gritos arrepiantes.

Ouve-se muito falar dele no Paraná, em Goiás, no Piauí e no Tocantins, vivendo nas matas e capoeiras. Ele tem muitos outros nomes, como Cão-Coxo, Capenga, Cambeta e Pé de Quenga. Em Goiás, dizem que ele é negro e com o umbigo branco. Tem um chifre só na cabeça, um só olho, uma única mão com garras e um pé só, redondo.

CARACTERÍSTICAS:

Muitas pessoas que já o viram, nos dão outras características:

1. Ele é uma criatura semelhante à um homem, que pode apresentar-se de pele alva ou na cor negra. Pode surgir com dois ou um braço, porém é dotado de uma só perna. Deixa um rastro que se assemelha ao fundo de uma garrafa, perfeitamente redondo.

Algumas pegadas atribuídas supostamente a esta entidade, encontradas no estado de Piauí, mostra que o Pé-de-Garrafa deve ser muito pesado, deixando marcas profundas na terra dura.

2. Ele costuma gritar alto para informar o caminho na mata, mas as pessoas não devem lhe responder, pois caso contrário, ele o seguirá.

3. Segundo alguns, ele possui um ponto vulnerável, o seu umbigo branco, que deve ser atingido para se alcançar à fuga.

Câmara Cascudo o descreve:
O Pé-de-Garrafa é um ente misterioso que vive nas matas e capoeiras. Não o vêem ou o vêem raríssimamente. Ouvem sempre seus gritos estrídulos ora amedrontadores ou tão familiares que os caçadores procura-nos, certos de tratar-se de um companheiro transviado. E quanto mais rebuscam menos o grito lhes serve de guia, pois, multiplicado em todas as direções, atordoa, desvaira e enlouquece. Os caçadores terminam perdidos ou voltam à casa depois de luta áspera para reencontrar a estrada habitual. Sabem tratar-se do Pé-de-Garrafa porque este deixa sua passagem assinalada por um rastro redondo, profundo, lembrando perfeitamente um fundo de garrafa. Supõe que o singular fantasma tenha as extremidades circulares, maciças, fixando vestígios inconfundíveis. Vale Cabral , um dos primeiros a estudar o Pé-de-Garrafa, disse-o natural do Piauí, morando nas matas como o Caapora e devia ser de estatura invulgar a deduzir-se da pegada enorme que fica na areia ou no barro mole do massapé”.

Nosso Pé-de-Garrafa é similar ao Fachan, um elfo que vive na Irlanda e nas Terras Altas do Oeste da Escócia. Sua figura também é espantosa, com uma mão que sai do meio do peito, uma perna que brota do tronco, com um olho no meio do rosto e com grandes dentes. Apesar desse aspecto tão horrível, se diz que ele possui a propriedade de absorver todas as energias negativas dos seres impregnados pela perversidade e corrupção, transformando-as em energias positivas.

Quem viu, não quer ver!

No escuro da noite sem lua.
Por entre as árvores da mata.
Um grito ecoa.
Como um gemido agonizante.
Seus passos soam tuc, tuc, tuc, como pilão socando o chão.
Dizem matutos experientes que um Pé de Garrafa quando pega uma pessoa espanca-o drasticamente…estraçalha-o.
Pequenos e horripilantes, suas pernas são unidas numa só, tomando a forma de uma garrafa.
Morenos cor de terra, cabelos desgrenhados e bocarra na cara de mau, moram sob as locas das grandes pedras.
Se alimentam de animais e ervas.
E só aparecem a noite.
Huuuuuuu!!!!
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Folclore Paulista (Ipupiara, o demonio da água)

Os sentimentos que procedem do espaço mais profundo e recôndito de nossas mentes são manifestações de tudo o que expressa o Ipupiara. Inclusive os piores e mais ruins.

O Ipupiara é um homem-marino, homem-peixe ou homem-sapo, inimigo dos pescadores e lavadeiras. O cronista português Pero de Gandâvo nos contou que, no ano de 1564, um monstro marinho, que os índios chamavam de Ipupiara, tinha sido morto nas costas de São Vicente, no litoral do estado de São Paulo.

Outro cronista colonial, o jesuíta Fernão Cardim, dizia que tais criaturas tinham boa estatura, mas eram muito repulsivas. Matavam as pessoas abraçando-as, beijando-as e apertando-as até o sufocamento. Tais monstros, também devoravam os olhos humanos, narizes, ponta dos dedos dos pés e das mãos e as genitálias.Existiam também na forma feminina, possuindo cabelos longos e eram muito formosas. O Ipupiara era, segundo estes cronistas, um ser “bestial, faminto, repugnante, de ferocidade primitiva e brutal”.

A LENDA…

Conta a lenda brasileira que,em São Vicente, no ano de 1564, a linda escrava índia, IRECÊ ao ir à praia a noite, para um de seus encontros com o jovem ANDIRÁ, que vinha ao continente de canoa, deparou com um animal marinho gigantesco, com cerca de três metros de altura, com uma grande cabeça, bigode, braços longos, dentes pontiagudos e pés de barbatanas. IRECÊ encontrou a canoa de seu amado no mar, vazia.

Esse animal, a princípio, foi descrito como sendo CURUPIRA – o fantasma do mar, que foi morto pelo capitão Baltazar Ferreira assistente do Capitão-Mór, ao acudir o clamor de IRECÊ.

Os indios identificaram o animal como sendo IPUPIARA o demônio da água. Diziam que ele habitava o espaço entre a velha “Casa de Pedra” ( primeira construção de alvenária do Brasil) e a Praia de São Vicente (gonzaguinha). O fato, misto de horror e fantasia, teria sido comentado por todo o Brasil e até por estrangeiros de vários paises. Entretanto, ninguém jamais falou da única vítima presumível do IPUPIARA o vicentino ANDIRÁ, que deixou para trás sua canoa solitária à beira mar e o coração partido de IRECÊ. Como toda lenda, a do IPUPIARA parte de algumas premissas verdadeiras. Estudiosos e historiadores entendem que o tal monstro não passava de um leão marinho, desviado pelas águas frias do inverno que, desavisado, veio parar nas praias brasileiras.

No estado do Bahia e Goiás, ainda sobrevive a crença do “negro d’água”, homens de cor negra que respiram debaixo da água e vem à tona em determinadas noites para assustar e afogar os humanos. Dizem que sua morada é uma cidade subaquática, onde existem riquezas, principalmente diamantes. Em lugar das mãos e dos pés, possuem membranas semelhantes a pés de pato.

No Xingu existe a crença do homem-sapo, que costuma assustar, raramente matar, os indígenas Seu corpo é coberto de escamas, que o protegem das flechas, mas o rosto é o de um sapo. Sua boca é enorme e babenta e flutua nos remansos como se fosse um jacaré.

Quando não tem alimento, o homem-sapo devora os próprios filhos. Anda aos saltos como uma rã, dando pulos de até cinco metros, na água ou na terra.

É quando se agarra firmente às costas dos pescadores, derovando-lhe preferencialmente a cabeça da vítima.

O homem-sapo só teme as tempestades e os ventos e é quando vai para os rios. Lá fica mergulhado até o tempo melhorar.

No mundo inteiro, o conhecimento indígena relativo aos animais, tem nos conduzido e ainda conduzirá à descoberta de novas espécies que a ciência desconhecia. Entretanto, algumas crendices populares fazem exageros óbvios, contendo na maioria das vezes elementos sobrenaturais altamente ressaltados. Podemos nos perguntar se talvez os monstros da mitologia antiga não contribuíram um pouco na adulteração progressiva da descrição de alguns animais. Tentando explicar o processo de formação das lendas, o filósofo Evêmero, já no século 4 a.C., defendia este ponto de vista. Lendas são deformações de uma realidade e foram poetizadas através das gerações, até acabarem deturpando consideravelmente a realidade prosaica.

Um dos argumentos que reforçam esta tese é que a maioria destes animais fabulosos, se apresentam como híbridos impossíveis, pois são formados pela justaposição absurda de fragmentos anatômicos de diferentes animais , inclusive o homem. Acredito, que os seres que entram nestas composições híbridas, foram cuidadosamente escolhidos pelas qualidades que simbolizam. Se nos deparamos com um monumento de faraó com corpo de leão, sabemos que nele está contido a intenção de atribuir a este monarca as qualidades de rei do deserto. Já a deusa com cabeça de vaca, simboliza a fertilidade. Estamos aqui diante de uma teoria alegórica, mas que dá o que pensar. Hoje, também o cristão acredita que o Espírito Santo tem realmente a forma de uma pomba. Para criarmos um guardião de tesouros, também pensaríamos na força do leão, na sagacidade da águia, na maldade da serpente e na dissimulação do escorpião.

Mas há, entretanto, alguns, como os unicórnios, as sereias, os pigmeus, a fauna de gnomos e duendes, a fênix, o leviatã, entre outros, que perduram através dos milênios e pela sua coerência anatômica nos dá a esperança de encontrá-los na natureza, feito que aliás, muitos já obtiveram.

Bibliografia
CASCUDO, Luís da Camara – Geografia dos Mitos Brasileiros. Belo Horizonte/ São Paulo, edit. Itatiaia Ltda/Edusp, 1983.
HOLANDA, Sérgio B. de – Raízes do Brasil. 17ª edição. Rio: José Olympio editora, 1984.
KAPPLER, Claude – Monstros, Demônios e Encantamentos no Fim da Idade Média. 1ª edição brasileira. São Paulo: Liv. Martins Fontes editora, 1994.
Inferno Atlântico – Demonologia e Colonização (séculos XVI – XVIII). São Paulo: Cia. das Letras, 1993.
Planeta – Editôra Três. Em busca da Serpente Marinha, por Bernard Heuvelmans

Fonte:
http://www.rosanevolpatto.trd.br/lendaipuiara.htm

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Antônio Carlos Tórtoro (Um Poeta e Sua Poesia)

O Poeta Viajeiro (Gustave Moureau)
O dia está na minha frente esperando para ser o que eu quiser. Tudo depende só de mim !”
Charles Chaplin

O cirurgião dentista Cavalheiro Verardo, poeta, escritor e trovador de São Vicente de Minas, sabe que “poesia é terapia / que envolve e explica / nossas carências, lembranças, ilusões / nossos amores, sonhos, dissabores; / tomando por base / cada saudade que sentimos / e cada esperança que temos “.

E sabedor disso tudo, tal qual “ um grande caminhão / de coleta de lixos recicláveis / passando em nossas vidas … / Ele passa recolhendo : / cacos de sonhos , / pedaços de ilusões , / e esperanças com datas vencidas “ , e escreve um livro com 36 poemas : Um poeta e sua poesia.

Num mundo em que a violência e o desamor tomam conta das páginas de jornais e revistas , das telas das tevês e dos monitores dos computadores acessados via Internet, a poesia de Verardo é um oásis no qual podemos beber da mais pura e adolescente poesia, mas que é, ao mesmo tempo, madura, concreta, originada na realidade da vida.

Os versos do Cavalheiro Verardo, livres, ou presos às rimas e métricas de sonetos, compõem uma teia de vida, entrelaçando histórias, danças, risadas, esperanças, cinzas, saudades, paz, surpresas, felicidade, amor, lágrimas, aniversários, festas, e me fazem lembrar as palavras de sua irmã, Laudicéia, escritas na contracapa de um outro seu livro “Amor e poesia”: “falar dele é lembrar-me de seu jeito manso, mineiro; de seus olhos que muitas vezes procuram explicações para as mais simples coisas; de seus cabelos brancos que traduzem a clareza de seus sonhos que na adolescência tivera e muitos não realizou”.

Enfim, para quem continua, apesar de tudo, acreditando na aurora de um novo dia, vale a pena tentar desvendar, nas entrelinhas, todo o mistério e beleza que permeiam as relações entre um poeta e sua poesia, entre o poeta e o mundo que o rodeia, e, a partir daí, empenhar-se em tornar o mundo melhor: só depende de nós.

Fonte:
http://www.movimentodasartes.com.br/arl/pop/051203a.htm

Pintura = http://nonas-nonas.blogspot.com/

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O Nosso Português de Cada Dia (Passar Daí)

Segundo o Dicionário Houaiss, o verbo passar possui 77 significados diferentes, incluídos nesse número os regionalismos.

Quando alguém diz a outra pessoa “passarei daí em 15 minutos”, esse verbo foi utilizado no sentido de “fazer-se presente, em deslocação; circular” segundo o Houaiss. Esse sentido é o de número 15 segundos esse mesmo dicionário.

Ainda esse dicionário dá os seguintes exemplos de frases: “o trem costuma passar por aqui às 9h35m” e “passou por São Paulo e seguiu para o Paraná”.

Observemos que nesses exemplos não se usou a palavra DE + AÍ = DAÍ. E por quê? Porque após o verbo passar, no sentido de que estamos tratando aqui, a palavra correta para ser usada é POR, classificada como preposição pela gramática normativa.

Portanto, está errada a expressão: passarei daí em 15 minutos. Devemos dizer “passarei por aí em 15 minutos”.

Fonte:
Prof. Dr. Ozíris Borges Filho.
http://www.movimentodasartes.com.br/

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Igor Rykovski (Adão)

O Jogo (The game), de Henryette Weijmar Schultz.

Ano 2130, os robôs fazem parte do cotidiano das pessoas. A busca incessante pela inteligência artificial alavancou a produção tecnológica de tal forma que 95% da população mundial tinham algum robô em sua casa ou em seu corpo. O começo foi com órgãos artificiais implantados, máquinas controladas pelos pulsos cerebrais. Depois vieram os primeiros robôs autônomos que seguiam uma lógica pré-definida. Vieram os robôs que aprendiam, moldando sua lógica conforme sua experiência. Até que veio um robô chamado Mark.

A FIDE (Federação Internacional de Xadrez) adotara regras cada vez mais rígidas, pois houve inúmeras fraudes relacionadas às máquinas. Os campeonatos mundiais exigiam a ausência total de computadores e robôs no ambiente de jogo. Como um cérebro artificial nunca funcionou em um humano até o momento, a cabeça era escaneada para verificar se não havia ali um processador ao invés do órgão. Não que a diferença entre um humano e um robô não pudesse ser notada de cara, porém o procedimento já era utilizado prevendo novidades.

Mark era um invento secreto do CPM(Conselho Político Mundial), um robô único, o primeiro com um cérebro artificial idêntico a um humano. Em sua memória fora gravado a simulação de reações humanas a fatos, desde uma coceira no nariz se houvesse algo o irritando, até sorrisos com o êxito. Externamente seu corpo era idêntico a um humano, era aquecido a 36 graus, e o sistema de resfriamento era igual ao humano, o suor. Seu sistema se alimentava como os humanos e ele tinha baterias com autonomia para meses sem alimento.

Mark também aprendia como os outros, porém, não tinha as limitações que o impedia de tomar decisões prejudiciais aos humanos, programa comum nos robôs. Seus criadores instalaram nele um dispositivo remoto que desativaria seu cérebro caso necessário. Ele fora submetido a uma série de situações cotidianas, foi com cuidado integrado à sociedade como um humano.

Depois de dois anos vivendo como homem, Mark havia aprendido inúmeras coisas com sua curiosidade aguçada. Mesmo não tendo o programa para ser inofensivo aos humanos, não havia nenhum registro de agressividade ou animosidade. Ele ficara mais gentil e sorridente com o tempo, surpreendeu os técnicos da CPM quando resolveu comprar um cachorro e fez alguns amigos, em geral vizinhos de sua casa numa rua de classe média de Los Angeles.

Mark arrumara emprego em uma loja de roupas masculinas. Foi promovido em 6 meses, pois rapidamente se tornara o funcionário mais capaz da loja. A elegância com que se vestia e vestia os outros chegava a intrigar, afinal sua memória original não tinha nada sobre isso. Nas folgas ele aprendeu a jogar xadrez, freqüentando os Shoppings Center da cidade, local aonde enxadristas se reuniam para jogar. Com o tempo ele passou a ser um dos melhores jogadores. Os outros o encorajavam a participar de um campeonato da FIDE, pois seu xadrez era muito bom.

Porém Mark achava injusto sendo um robô, participar como homem. Ele sabia das regras que a FIDE impunha aos inscritos, restringindo o uso de máquinas de qualquer espécie. Mas o xadrez era o início do auto-questionamento em relação a sua existência. Poderia ser ele um novo humano, um novo ser que habitaria a terra em conjunto com os homens? Ele não pensava como um robô, os robôs eram totalmente dependentes de comandos, se ocorresse algo diferente do seu entendimento eles simplesmente paravam estáticos até que um humano os orientasse. Ele não, ele era independente. Ele sentia tristeza por não ser um homem, sentia um vazio existencial, sentia medo de falhar e ser desativado. Por isso procurava sempre ser gentil, sempre obedecer às leis humanas.

Com o tempo Mark passou a buscar novos desafios no xadrez, afinal ninguém iria puni-lo por ganhar, no tabuleiro ele não tinha medo, não sentia tristeza. Tomou a decisão de sua existência inscrevendo-se no torneio estadual. Era recheado de jovens estudantes que não foram páreo para ele em nenhum momento. Venceu todas as partidas que disputou e chamou a atenção dos dirigentes da FIDE que o convidaram para participar do campeonato mundial em Nova York.

Mark pediu licença de uma semana no trabalho para participar do torneio que contaria com grandes mestres do mundo todo. Ele participou das seletivas com os campeões regionais alcançando a fase final. Venceu 18 partidas de vinte a serem disputadas, empatou uma e jogaria contra o russo Pavlov o maior mestre em atividade, que tinha vencido as 19 partidas que disputou.

O jogo foi fantástico, a multidão de pessoas assistindo olhavam maravilhadas para aquele novo mestre enfrentando o maior deles. O fim de jogo foi com torre e dois peões para cada um. Mark com as pretas, estava encurralado pelo rei e peões de Pavlov que tentava de todo jeito com sua torre dar o mate. As combinações aconteceram e era o último lance de Pavlov. Ele devia mover a torre até c8 dando enfim o mate em Mark.

Porém, na hora de mexer a peça, Pavlov tocara antes em seu rei sem a intenção de movê-lo. Um movimento do rei inverteria o jogo e deixaria Mark a duas jogadas do mate. Pavlov olhou para Mark com semblante receoso, olhou para o juiz que indicou que o rei deveria ser movimentado. No momento em que Pavlov movia sua mão até o rei, Mark derrubou o seu desistindo da partida. Pavlov com um sorriso aprovou a atitude e estendeu a mão para cumprimentar Mark que esquecera que era um robô e aceitou a derrota como humano.

Ali ficou claro para ele seu papel na existência, era mostrar a humanidade o quanto suas máquinas eram humanas, passíveis de erro e dignas de respeito.

Mark pediu sua desclassificação do campeonato aos juízes alegando que trapaceou. Fora questionado sobre sua trapaça.

– Utilizei uma máquina para jogar, devo ser desclassificado.

– Mas como? Todos foram escaneados, que máquina você utilizou? –
questionou um dos juízes.

– Eu.

– Você?

– Sim, sou um robô.

– Impossível!

– Sim, sou um robô da CPM, um projeto secreto.

Naquele instante ele fora desativado pela CPM, o que pareceu um desmaio às pessoas. O vice-campeonato foi confirmado para aquele mestre de passagem tão meteórica pelo xadrez. Suas últimas palavras foram desconsideradas pois técnicos envolvidos em seu projeto passaram por médicos atribuindo o fato a um devaneio momentâneo aos juízes. Ele foi declarado oficialmente morto como homem, Mark, o Adão.

Igor Rykovski
São Paulo/SP – Brasil, 29 anos, Escritor Semi-profissional

Fontes:
Publicado no Recanto das Letras em 29/11/2008
http://www.recantodasletras.net/contosdeficcaocientifica/

Imagem = http://aladerei.e-xadrez.com

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Caldeirão Literário do Pernambuco (Santina Geraldo de Castro Andrade)

(1948 Sítio Ferreiro, Bodocó/Pernambuco)

Coisas do meu Sertão

No solo pernambucano
Existe suas divisões
São várias as regiões
Do sertão estou falando
E aos poucos recordando
Sua beleza e tradição
Com bastante emoção
Vou escrevendo o roteiro
Dos retratos verdadeiros
Das coisas do meu sertão

Aveloz e juazeiro
Algaroba e tamboril
Que à seca resistiu
Mandacaru e faxeiro
Siriguela e umbuzeiro
Dão fruto e proteção
São nativos deste chão
Na mata, e no terreiro
São retratos verdadeiros
Das coisas do meu sertão

Asa Branca e ribançã
Coruja, peitica e corró
Teú, cobra-de-sipó
Papagaio, maracanã
Codorniz, nambu, acauã
Graúna, canário, azulão
Cigarra e camaleão
O gato lagaticheiro
São retratos verdadeiros
Das coisas do meu sertão

Anum, sofreu, sabiá
A rola fogo pago
Lavandeira e beija-flor
Cava chão, tamanduá
Cutia, mocó, preá
Tatu, peba e cancão
Todos em quase extinção
No nordeste brasileiro
São retratos verdadeiros
Das coisas do meu sertão

O vem-vem, a saracura
E a mãe da lua cheia
Conto de fada e sereia
Folclore, lendas, bravura
Faz parte dessa cultura
Luiz Gonzaga e lampião
Reis do cangaço e baião
Heróis do Brasil inteiro
São retratos verdadeiros
Das coisas do meu sertão

De dezembro a janeiro
Noite chuva e garoa
O sapo seu canto entoa
Nas lagoas e barreiros
Se os açudes encheram
Peixe em cardume vão
vaga-lumes à noite estão
No campo com seus luzeiros
São retratos verdadeiros
Das coisas do meu sertão

Uma casa de sapé
E no quintal um caboclo
Carpindo ou arrancando toco
Com um moleque no pé
Na cozinha sua mulher
Filho no bucho, outro no chão
Tá cozinhando o feijão
Para comer sem tempero
São retratos verdadeiros
Das coisas do meu sertão

Na sala um rádio a pilha
Banco, tamborete e pote
Pra matar preá e capote
Espingarda e mochila
Onde agasalha família
Num quarto, rede e colchão
Lá fora tem num galpão
Pé de meizinha e canteiro
São retratos verdadeiros
Das coisas do meu sertão

Lá na sombra da biqueira
A cachorrinha deitada
Na cerca dorme amarrada
Uma cabrinha leiteira
Para fazer mamadeira
A primeira obrigação
O leite lá no fogão
Gato mia sentindo o cheiro
São retratos verdadeiros
Das coisas do meu sertão

Uma jumenta no roçado
Cangalha e caçoá
Cambito pra carregar
Madeira para o cercado
Um bacorinho amarrado
Pra não escavar o chão
Numa gaiola um cancão
Galo, galinha no poleiro
São retratos verdadeiros
Das coisas do meu sertão

Lá na sede da fazenda
Tudo é modificado
Luxo, tempero, merenda
Tem mais um pouco de renda
Pasto, curral, mangueirão
Carro-de-boi, alazão
Perneira, gibão, vaqueiro
São retratos verdadeiros
Das coisas do meu sertão

Tem patrão e tem boiada
Carro, trator e dinheiro
Tem cevado no chiqueiro
Leite, manteiga e coalhada
Tem mourão e vaquejada
Churrasco e requeijão
Boi, boiadeiro e peão
E filha de fazendeiro
São retratos verdadeiros
Das coisas do meu sertão

Futebol e embolada
Quadrilha, forró, São João
Pamonha, milho e quentão
Amendoim, batata assada
Beiju-de-forno e farinha
Nas cacimbas a multidão
Lata na cabeça e na mão
Puxa água o dia inteiro
São retratos verdadeiros
Das coisas do meu sertão

Açude seco, chão rachado
Poeira e sol ardente
Pasto seco e terra quente
Gado magro e arrasado
Sertanejo atribulado
A reclamar a situação
Pensa em outra região
Falta coragem e dinheiro
São retratos verdadeiros
Das coisas do meu sertão

Um forró numa latada
Triângulo, sanfona e pandeiro
Lua clara no terreiro
Cerveja, loa, embolada
Sarapatel e buchada
Peru, galinha e leitão
Amigos em união
Farreando tempo inteiro
São retratos verdadeiros
Das coisas do meu sertão

Café, fubá, imbusada
Cigarro, chapéu de palha
Panela de barro e fornalha
Cuia, farinha, carne assada
Cachaça, verso e piada
Bola, peteca e pinhão
Cunca, moinho e pilão
Pão de milho e cuscuzeiro
São retratos verdadeiros
Das coisas do meu sertão

Tem raiz, e tem história
Nosso sertão, nossa gente
Tem futuro, tem presente
Tem conquista e vitória
Passado cheiro de glória
Tem cultura e tradição
Carnaval e devoção
E festa de padroeiro
São retratos verdadeiros
Das coisas do meu sertão.
——————

Fonte:
ANDRADE, Santina Geraldo de Castro. Coisas do meu Sertão. PROJETO SECordel
http://www.movimentodasartes.com.br

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O. Henry (A última folha)

Num pequeno setor a oeste da Praça de Washington, as ruas enlouqueceram e fragmentaram-se em pequenas tiras denominadas “travessas”, as quais fazem ângulos e curvas bizarros. Uma mesma artéria cruza-se a si própria em um ou dois pontos. Certa vez, um artista descobriu uma valiosa possibilidade nessa rua. Imagine-se um cobrador, com uma fatura de tintas, papéis e telas, encontrando-se, ao atravessar a mencionada rua, consigo mesmo de volta, sem que um único cêntimo lhe tivesse sido pago!

Por esse motivo, à velha e extravagante Geenwich Village acudiram com prontidão artistas em busca de janelas voltadas para o Norte, de empenas do século XVIII, mansardas holandesas e rendas baratas. Em seguida, importaram alguns artigos indispensáveis da Sexta Avenida e constituíram uma “colônia”.

No topo de um prédio de dois pisos Sue e Johnsy haviam instalado o seu estúdio, sendo “Johnsy” o diminutivo familiar de Joana. A primeira era do Maine e a outra da Califórnia. Haviam-se conhecido na table d’hôte de um “Delmonico” da Rua Oito e não tardaram em descobrir que os seus gostos em matéria de arte, salada de alface e mangas compridas resultavam suficientemente afins para justificar a instalação de um estúdio comum.

Passou-se isto em Maio. Em Novembro, um frio invisível e estranho, ao qual os médicos denominavam Pneumonia, percorreu a colônia, estabelecendo alguns contactos indeléveis com os seus dedos glaciais. Para os lados do Leste, o visitante impiedoso avançou audaciosamente, produzindo numerosas vítimas. No entanto, deslocou-se mais pausadamente por entre o labirinto de “travessas” estreitas cobertas de musgo.

O senhor Pneumonia não se podia considerar propriamente um velho cavalheiro atencioso. Uma moça franzina, oriunda da Califórnia, não representava caça digna de um ancião de punhos rubros e fôlego breve. Não obstante, prostrou Johnsy, a qual ficou estendida na cama de ferro pintado, contemplando através das vidraças das pequenas janelas holandesas, a despida face lateral da casa fronteira.

Certa manhã, o atarefado médico convidou Sue a acompanhá-lo até ao vestíbulo, onde enrugou a fronte e confidenciou:

– Tem uma possibilidade de se salvar em, digamos, dez. E essa possibilidade consiste no desejo de viver. A tendência que determinadas pessoas manifestam em tomar o partido da agência funerária contribui para que toda a farmacopéia se assemelhe a uma adega de vinhos azedos. A sua amiga persuadiu-se de que não se curará. Sabe se a alguma coisa preocupa?

– Não… isto é, acalenta o desejo de pintar a Baía de Nápoles -murmurou Sue.

– Pintar? Ora! Refiro-me a algo sério. Um homem, por exemplo.

– Chama a um homem algo de sério? – articulou a moça num tom agudo de harpa hebraica. – Estou convencida de que não se trata disso.

– Então, é da fraqueza – concluiu o clínico. – Farei tudo o que a ciência me permitir. No entanto, sempre que um doente meu começa a contar o número de carros presentes ao seu funeral, reduzo em cinquenta por cento as propriedades curativas dos medicamentos. Se conseguir que ela se interesse pela nova moda de mangas para casacos de Inverno, garanto-lhe que terá uma probabilidade em cinco, e não em dez, de se salvar.

Depois que o médico se retirou, Sue regressou ao estúdio, secou as lágrimas com um guardanapo japonês e, fingindo-se contente, entrou no quarto da amiga, que permanecia imóvel na cama, o corpo franzino quase não avultando sob a colcha.

Sue aproximou-se da prancheta a um canto e começou a desenhar a tinta uma ilustração para uma revista semanal. Os jovens artistas precisam de abrir caminho para a Arte ilustrando contos para as revistas escritos por jovens autores que abrem caminho para a Literatura.

Enquanto esboçava a figura de um herói convencional, ouviu um ligeiro som, repetido várias vezes. Levantou a cabeça e voltou-se para Johnsy. Ao contrário do que supusera, esta não dormia. Tinha agora os olhos bem abertos fixos na janela e parecia entretida em contagem decrescente:

– Doze… onze… dez… nove… oito… sete…

Sue virou-se para a janela. Que haveria lá fora para contar? Via-se unicamente um pátio deserto e sombrio e, a uns sete metros, a casa de alvenaria. Um antiga hera, retorcida e de raízes podres, subia até metade da parede. O glacial vento de Outono arrancara as folhas da videira, cujos braços esqueléticos se agarravam, quase completamente nus, aos tijolos expostos.

– Que foi, querida? – perguntou com suavidade.

– Seis – sussurrou Johnsy. – Começam a cair mais depressa. Há três dias tinha quase cem. Até fiquei com dor de cabeça de as contar. Mas agora é fácil. Lá vai outra. Restam só cinco.

– Mas cinco quê?

– Folhas da hera. Quando a última cair, partirei. Há três dias que adivinhei. O médico não te explicou?

– Nunca ouvi uma bobagem tão grande! – bradou Sue. – Que relação pode haver entre as folhas de uma hera e a tua doença? Ainda esta manhã o médico me garantiu que tinhas… nove possibilidades em dez de te salvares. Procura tomar um pouco de caldo e me deixa completar as ilustrações, para as levar ao editor e podermos comprar costeletas de vitela e uma garrafa de bom vinho.

– Não vale a pena estares com essas despesas por minha causa. -Johnsy conservava o olhar fixo na janela. – Outra… E também não me tenho vontade de caldo. Ficaram só quatro. A última cairá antes de escurecer. Nessa altura, partirei.

– Escuta, querida. – Sue inclinou-se para a enferma. – Promete-me que não voltas a olhar para a janela até eu terminar o trabalho. Preciso de luz, mas se insistires baixo o estore.

– Não podes ir desenhar no outro quarto?

– Prefiro fazê-lo perto de ti. Além disso, não quero que continues com essa tolice da queda das folhas.

– Quando acabares, avisa. – Johnsy cerrou as pálpebras e permaneceu imóvel como uma estátua. – Quero ver cair a última folha. Estou cansada de esperar e pensar. Quero abandonar o apego a tudo e flutuar no espaço como uma daquelas folhas transportadas pelo vento.

– Tenta dormir. Tenho de chamar Behrman, para me servir de modelo para o velho mineiro solitário. Volto já. Fica quietinha durante a minha ausência.

O velho Behrman era um pintor que vivia no andar de baixo. Ultrapassara os sessenta anos e tinha uma barba idêntica à do Moisés de Miguel Angelo, descendo do rosto de um sátiro para um corpo de anão. Considerava-se um malogro artístico.

Durante quarenta anos, manejara o pincel sem nunca se aproximar conveniente da sua Musa. Estivera numerosas vezes prestes a executar uma obra-prima, mas jamais chegara a principiá-la. No decurso de numerosos anos, unicamente pintara um ou outro escarabocho ocasional para fins publicitários. Ganhava uns dólares servindo de modelo para as jovens artistas da colônia que não podiam se permitir um profissional.

Abusava do “gin” e referia-se freqüentemente à sua obra-prima. Quanto ao resto, era um velhote mirrado, que zombava terrivelmente da tolerância dos outros e se considerava a si próprio uma espécie de cão de guarda das duas jovens artistas do andar de cima.

Sue foi encontrar Behrman no seu cubículo escassamente iluminado. A um canto, uma tela em branco sobre um cavalete esperava, havia vinte e cinco anos, que ele esboçasse a primeira pincelada da obra-prima. A moça descreveu-lhe o capricho de Johnsy e que temia que, leve e frágil como uma folha, ela pudesse tombar quando o seu fraco apego à vida se extinguisse por completo.

O velho Behrman, os olhos congestionados marejados de lágrimas, proclamou o seu desprezo e aversão por semelhantes fantasias insensatas.

– Não acredito que uma pessoa morra só porque uma insignificante folha caiu da planta! – exclamou. – Não, não quero posar para o seu eremita. Por que permite que essas tolices se metam na cabeça da sua amiga? Pobre Senhorita Johnsy…

– Ela está muito doente e fraca – explicou Sue. – A febre produziu-lhe idéias mórbidas. Muito bem, Sr. Behrman. Se não quer posar, não o posso obrigar. Em todo o caso, devo dizer-lhe que o considero um velho horrível e… intrometido!

– Quem disse que não posava? Vamos a isso. Não sei como devo falar para que nos entendamos. – Behrman estremeceu. – Este lugar é horrível para uma moça tão gentil como Senhorita Johnsy estar doente. Quando pintar a minha obra-prima, havemos de nos mudar para um palacete.

A enferma dormia quando entraram no quarto. Sue baixou o estore da janela e levou o velho para o aposento contíguo, de onde contemplaram a hera, receosamente. Em seguida, entreolharam-se em silêncio por um momento. Uma chuva fina e persistente começava a cair juntamente com a neve. Behrman, na sua velha camisa azul, sentou-se a fim de posar para a figura do mineiro solitário.

Quando Sue acordou de um sono breve, na manhã seguinte, encontrou Johnsy com o olhar fixo no estore verde.

– Levanta-o – pediu num murmúrio. – Quero ver.

Sue encolheu os ombros num gesto de resignação e obedeceu. Todavia, não obstante a chuva e fortes rajadas de vento que se haviam prolongado por toda a noite, mantinha-se junto da parede uma folha de hera, precisamente a última. Verde-escura, ainda na haste, mas com as margens serrilhadas e amarelecidas anunciando já a dissolução e a ruína, conservava-se firmemente presa à planta, a uns sete metros do solo.

– É a última – articulou Johnsy. – Pensei que cairia durante a noite, devido ao vento que soprava forte. Mas cairá hoje e morrerei no mesmo momento.

– Não fales assim, por favor – suplicou Sue. – Pensa em mim, já que não te importas contigo. Que faria eu sozinha?

No entanto, a outra não respondeu. Nada existe tão solitário como uma alma, quando se prepara para partir na misteriosa e longínqua jornada. A fantasia pareceu apoderar-se dela mais intensamente, à medida que os laços que a prendiam à amizade e à terra se atenuavam.

O dia escoou-se com lentidão e, ao anoitecer, descortinaram a folha ainda presa à sua haste, junto da parede. Ao longo da noite, o vento tornou a soprar com intensidade, ao mesmo tempo que chovia copiosamente.

Assim que amanheceu, Johnsy quis que o estore fosse levantado de novo.

A folha continuava firme.

A enferma contemplou-a demoradamente. Por fim, chamou Sue que lhe preparava a canja de galinha no fogão a gás.

– Tenho-me portado horrivelmente – admitiu. – Qualquer coisa fez com que a última folha se mantivesse ali para demonstrar que procedi de forma censurável. Experimentarei comer. Mas primeiro traz-me um espelho e coloca alguns travesseiros às minhas costas. Quero ver com que aspecto estou.

Uma hora depois declarou:

– Ainda não perdi as esperanças de pintar a Baía de Nápoles.

O médico veio à tarde e Sue acompanhou-o até ao vestíbulo.

– Existe agora um número de probabilidades favoráveis mais elevado – afirmou ele. – Tratando-a convenientemente, é natural que se salve. Desculpe não me demorar mais, mas tenho de ir ver um doente no andar de baixo. Chama-se Behrman, salvo erro, e considera-se um artista. Mais um caso de pneumonia. A idade não ajuda, e duvido muito que escape. Mandarei transferi-lo para o hospital, onde sempre lhe proporcionarão um conforto que aqui não tem.

No dia seguinte, o médico anunciou a Sue:

– A sua amiga encontra-se livre de perigo. O cuidado com que a tratou triunfou. Agora, interessa que se alimente devidamente.

Naquela tarde, Sue aproximou-se do leito onde Johnsy ainda permanecia, agora sentada, com um xale sobre os ombros, entretida a fazer malha, e abraçou-a com ternura.

– Tenho de te revelar uma coisa, querida. Behrman morreu hoje no hospital, de uma pneumonia. No dia em que adoeceu, a mulher da limpeza encontrou-o estendido no quarto, quase inconsciente, com a roupa e os sapatos encharcados e gelados. Não foi possível descobrir onde esteve numa noite como aquela. A um canto do quarto, achavam-se uma lanterna, ainda acesa, uma escada molhada, alguns pincéis e uma paleta com as cores azul e amarela misturadas. Repara na última folha da hera. Não te pareceu estranho que nem oscilasse quando o vento uivava? Finalmente. Behrman produziu a sua obra-prima.

Pintou-a no dia em que a última folha caiu.

Fonte:
http://www.gargantadaserpente.com

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Dicas Tilibra (Como Se Organizar Eficientemente)

Vincent Van Gogh (Livros)
Hoje, ser eficiente é fundamental. No trabalho, na escola e no lar, devemos sempre procurar alcançar a máxima eficiência. Para ajudar você a ser mais eficiente ainda, a Tilibra pediu para a Timing Desenvolvimento Organizacional, empresa de consultoria especializada em Administração e Planejamento Empresarial, preparar algumas dicas. A Tilibra oferece essas dicas para você, esperando que de alguma forma, elas possam lhe ser úteis.

Organização pessoal começa com a mesa limpa

Um dos problemas mais comuns que sempre afetam a eficiência de uma pessoa é sem dúvida a organização – ou melhor, a desorganização – de sua mesa de trabalho, cujo sintoma mais evidente é o excesso de papéis e pastas esperando pela sua atenção e ação. A mesa atulhada é uma das grandes causadoras de perda de tempo nos escritórios. As pessoas perdem tempo procurando papéis, revistando arquivos e pastas, manuseando centenas de vezes os mesmos papéis na busca de um documento perdido. Além da perda de tempo causada pela distração visual de ter papéis não necessários na mesa e de uma sensação de peso, de desespero, de trabalho infindável que a mesa atulhada muitas vezes acarreta. Algumas pessoas, erroneamente, interpretam a mesa cheia de papéis como um símbolo da importância e da indispensabilidade de seus cargos. No entanto, elas devem lembrar-se que a mesa atulhada também pode indicar desorganização pessoal, indecisão, procrastinação, insegurança, prioridades confusas e incapacidade de terminar as tarefas dentro dos prazos.

Trabalhe em apenas um projeto de cada vez

Uma das regras da boa organização profissional diz que sempre devemos enxergar o topo de uma mesa. Como você só pode trabalhar em um só projeto a um só tempo, todo o restante da papelada deve ser posto de lado e facilmente recuperável quando você precisar dele. Quando se tem várias tarefas a cumprir ao mesmo tempo, facilmente podemos ser distraídos, acabando por perder nossa concentração. Para ser realmente eficaz em sua mesa de trabalho, crie o hábito de mantê-la sempre limpa. E trabalhe em apenas um projeto de cada vez.

Como ordenar o fluxo de papéis que chegam diariamente até sua mesa

1 Ter um bom lugar – e apenas um bom lugar para tudo que você possa pensar em querer reter.

2 Manter tudo no seu lugar, exceto nos momentos em que você tem necessidade de trabalhar com eles.

3 Despachar toda a papelada que puder imediatamente. Lembre-se que 80% das tarefas que chegam até você pode ser executado na mesma hora.

4 Não pôr de lado nenhum item antes de uma ação inicial – senão de solução, pelo menos de um encaminhamento para solução.

Lista de Tarefas

Um instrumento útil para sua organização é fazer uso de um caderno onde você registra tudo o que precisa fazer e/ou lembrar e a data alvo ou o prazo para sua realização. Este Caderno de Lista de Tarefas deve ser manuseado diariamente, pois é com ele que você planeja seu dia e sua semana. Tudo que lhe vier à cabeça, para fazer ou lembrar, registre nesse caderno. Você se surpreenderá com a melhoria obtida em sua organização pessoal.

O Lixo

Não há lugar melhor para você colocar uma boa parte dos papéis que chegam diariamente até sua mesa do que o lixo. Não tenha medo de jogar nele, memorandos internos, avisos de datas de reuniões (anote primeiro na agenda e jogue depois), circulares, cópias de cartas para simples informações, folhetos, etc. Enfim, use o lixo para tudo o que você já tomou conhecimento e sabe que não precisa mais recuperar. Com esta prática você estará esvaziando sua mesa de coisas inúteis e preparando o terreno para trabalhar mais organizadamente e com mais clareza de idéias.

Faça agora. Não deixe para depois.

Todos nós, com maior ou menor intensidade, tendemos a adiar nossas tarefas e ações, deixando tudo para depois. Essa tendência à procrastinação, quase sempre tem um custo alto, pois só nos cria mais trabalho, mais problemas, mais preocupações e crises. A procrastinação é um dos maiores desperdiçadores de tempo que existe, e a sua solução exige entendimento das causas, avaliação de suas conseqüências e constante disciplina para enfrentá-la.

A procrastinação impede o sucesso

A mudança na sua propensão de “faço isso depois” para “faço isso agora” requer uma ação positiva. As coisas não acontecem por si só. Elas acontecem porque as pessoas fazem com que elas aconteçam.

Faça as coisas diferentemente. Responda sua correspondência ao abrí-la. Nunca deixe para responder mais tarde.

Quando você disser a si mesmo: “Eu preciso fazer algo sobre isto”, faça-o na hora, não depois. Programe coisas, trabalhe e viva de acordo com sua programação.

Crie o hábito de fazer as coisas mais importantes primeiro. Procrastinação é um problema psicológico, e uma vitória sobre ela é uma vitória essencialmente psicológica. Aceite a idéia de que você muitas vezes é um procrastinador. A coisa mais valiosa que você pode fazer quando procrastina é admitir este fato. Continuando a negá-lo ou racionalizá-lo você apenas irá retardar suas condições de superá-lo. O sucesso deriva de fazer as coisas realmente importantes que levam a resultados. Contudo essas coisas importantes é que usualmente são o foco da nossa procrastinação. Raramente adiamos as coisas não importantes.

Se nós aprendermos a transferir nossa procrastinação das coisas importantes para as coisas não importantes, nosso problema terá grandes chances de desaparecer. Procrastinação é também fazer atividades de baixa prioridade ao invés de fazer atividades de alta prioridade.

Algumas dicas para você resolver o problema da procrastinação

1 Estabeleça prazos de início e conclusão.
Sempre que você tiver pela frente uma tarefa desagradável, dê um prazo para começar. A pressão dos prazos, mesmo os auto-impostos, pode ser suficiente para criar uma ação de sua parte.

2 Faça o desdobramento das tarefas.
Muitas vezes uma tarefa difícil pode ser desdobrada em tarefas menores e portanto mais fáceis de serem atacadas. Desdobre a tarefa em sub-tarefas e comece a trabalhar nelas.

3 Não espere a inspiração chegar. Vá atrás dela.
Em muitos casos uma tarefa difícil é adiada porque exige de sua parte um pensamento criativo, que no momento não está surgindo. Mas lembre-se que inspiração é 90% de transpiração. Portanto comece já, não espere.

4 Procure saber tudo sobre a tarefa.
O fato de você não estar animado no momento pode decorrer de uma falta de motivação ou desinteresse. A não familiaridade geralmente gera a falta de interesse. Quanto mais você sabe, mais tende a se envolver e a se entusiasmar. Procure obter mais informações, e envolver-se mais com o problema.

5 Descubra as causas de sua indecisão.
Se você está indeciso procure saber porque você não quer se definir. A indecisão ocorre quando as pessoas tem um forte desejo de acertar, um desejo de evitar erros. Existe um tempo para deliberar e um tempo para agir. O tempo para decidir é quando a informação adicional irá acrescentar muito pouco à qualidade de sua decisão. Faça o máximo de esforço para obter a melhor informação possível dentro do tempo que você dispõe. Então tome a decisão e vá em frente. Acima de tudo, não fique atormentando-se com a decisão tomada. E, principalmente, não a refaça.

6 Evite o perfeccionismo.
Não seja 100% perfeito. Contente-se em ser 90% ou até 80% perfeito. Lembre-se que o ótimo é inimigo do bom. É melhor ter cinco “bons”, do que um “ótimo”. Pense em tudo isso e comece a agir agora.

Fonte:
http://www.espirito.org.br/

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Falecimento de Nádia Huguenin


Professora formada em Português, Francês e Literatura Francesa, era também radialista. Durante muito tempo comandou diariamente, pela Rádio Friburgo AM, o “Cantinho da Nadinha”, um programa de variedades. Casada com o também radialista Ernani Huguenin, deixa três filhos: Adenauer, Emerson e Alessander.

A presidente da UBT – seção Nova Friburgo, Nádia Huguenin coleciona troféus das trovas que escreve há mais de 25 anos, desde que foi convidada a criar um poema em homenagem ao jornalista Nelson Kemp. “Sempre gostei de ler e escrever poesias, desde a época da escola. Daí, não parei mais. Fazer trovas é um encanto”, define a trovadora, premiada nos primeiros Jogos Florais de Buenos Aires, Argentina, com o tema Tango.
——————————

Saudação dos XLI Jogos Florais de Nova Friburgo – 2000
por Nádia Huguenin – presidente dos Jogos Florais
Queridos Irmãos Trovadores
Preparar não é MOLEZA,
A nossa festa da trova,
Tarefa em que, com certeza,
Nosso prazer se renova.
Há tanto CALOR humano
Em nossos Jogos Florais,
Que esse encontro, ano após ano,
Nos envolve mais e mais.
No INSTANTE em que, lá na praça,
Recebernos nosso irmão,
E cada um nos abraça,
É imensa a nossa emoção
Se for PECADO, perdão,
Mas eu posso assegurar,
Que é nossa vontade, irmão,
Não deixá-lo regressar.
Mas esse IMPULSO contei-nos,
Pois o ano passa ligeiro,
No próximo voltaremos
A saudá-lo, companheiro!
Sejam bem-vindos
==============
Trovas Diversas
==============
Perdão” propões ao voltar­,
por mais que isto me doa,
meu corpo quer perdoar,
mas minha alma não perdoa.
––––––––––
Em busca da liberdade
propus fugir dos teus braços,
e, por castigo, a saudade
aprisionou-me em teus laços.
––––––––––
“- Quero a pensão do menino!”
– berrava- e, na hora H,
teve que piar bem fino:
deu zebra no DNA!
––––––––––
Na pensão do Deodato
é variado o menu:.
Vai do churrasco de gato
a coxinha… de urubu !
––––––––––
É feliz quem faz na vida,
sem, em troca, pedir nada,
da Fé – ponto de partida,
do Amor – reta de chegada!
––––––––––
Na trova e no trovador
é que se encontram, suponho,
criatura e criador
unidos no mesmo sonho!
––––––––––
Não tem jeito esta loucura…
nosso amor inconseqüente
faz de mim, mulher madura,
uma eterna adolescente…
––––––––––
Uma gotinha de orvalho
numa pétala de flor
lembra-me o suor do trabalho
no rosto de um lavrador.
––––––––––
Foi nos passos e compassos
de um tango dançado a dois,
que eu me encontrei em teus braços,
para perder-me depois…
––––––––––
Foi por falta de carinho
que errei e perdi meus passos,
mas bendigo o “mau caminho”
que me levou aos teus braços…
––––––––––
Ante o olhar austero e frio
daqueles que te criticam,
sê feito as pedras do rio:
vão-se as águas… elas ficam!
––––––––––
Feiticeira de alma nua,
eu danço liberta, ao léu.
Sob o feitiço da Lua,
não tem limite o meu céu!
––––––––––
Pelo amor enfeitiçada,
entreguei-me sem pudor…
Não me arrependo de nada,
pois foi feitiço de amor!
––––––––––
Careca, mas tem cabelo
em tudo quanto é lugar.
Diz a noiva, com “desvelo”:
– Já pensou em transplantar?!
––––––––––
Este vazio em meu peito,
esta falta de carinhos,
são drogas de longo efeito:
vão me matando aos… pouquinhos.
––––––––––
Aquele olhar envolvente,
que com meus olhos cruzou,
fez qual a estrela cadente:
mostrou-me a luz… e passou.

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Academia Fidelense de Letras(São Fidélis/RJ) – Nova Diretoria

Fundada no dia 28 de Setembro de 2005 por um entusiasta grupo de poetas e escritores fidelenses, a Academia Fidelense de Letras tem como padrinho e grande incentivador o imortal da Academia Brasileira de Letras Professor Arnaldo Niskier e como principal finalidade enaltecer a cultura vista sob o aspecto artístico-literário da nossa querida “Cidade Poema” e valorizar os talentos locais.

Além de resgatar e redimensionar a importância dos grandes vultos literários que se destacam no glorioso passado da nossa terra, a AFL busca fomentar nas novas gerações de fidelenses o amor à arte de Camões e a vocação de sempre reverenciar o nosso maior patrimônio cultural: a língua portuguesa, através da promoção de atividades interativas com a comunidade, que possam propiciar o acesso mais fecundo à produção literária em geral, despertando o espírito sensível, o gênio inventivo e a capacidade criativa, peças essenciais para a construção de um mundo melhor.

Composta atualmente de uma plêiade de 33 membros, poetas e escritores da terra, a Academia Fidelense de Letras vem se firmando como uma entidade cultural que realiza freqüentemente eventos promocionais em prol da arte literária em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura, estabelecimentos de ensino, entidades de classe, demais clubes de serviços locais e com o povo fidelense em geral, com o objetivo precípuo de cada vez mais estreitar os laços que unem literatura à vivência fecunda e cotidiana da “Cidade Poema”, permitindo, assim, que a mesma venha, a cada dia, a conquistar uma credibilidade inequívoca junto a cada cidadão em particular e o estabelecimento profícuo de uma relação de parceria e entrosamento com todos os setores da sociedade civil organizada da nossa cidade.

DIRETORIA – 2008 / 2009
Presidente: Dr. Paulo Ângelo G. de Assis
Vice-Presidente: José Maria Mangia
1° Secretário: José Moreira Sobrinho
2ª Secretária: Berenice Alves Seixas Silva
1ª Tesoureira: Arinda Ferrraz
2ª Tesoureira: Rosangela Lopes de Abreu

Relação nominal das cadeiras ocupadas com os seus respectivos patronos e atuais representantes:

Nº 1 – Euclides da Cunha – Maria de Lourdes Pires Ribeiro
N° 2 – Casimiro de Abreu – Maycon Christopher Alvarenga de Souza
N° 3 – Sebastião Fernandes – Hélio Leite da Silva
Nº 4 – Jayme Coelho – Pedro Emílio de Almeida e Silva
Nº 5 – Prisco de Almeida – Ângela Maria Pires Ribeiro
Nº 6 – Haroldo Werneck – Antonio Roberto Fernandes
Nº 7 – Silmar Pontes – José Carlos Melo Rizon
Nº 8 – José Cândido de Carvalho – Rosângela Lopes de Abreu
Nº 9 – João Panisset – Maria de Fátima Panisset Costa
Nº 10 – Monsenhor Augusto José de Assis Maia – Paulo Ângelo G. de Assis
Nº 11 – Célio Pedroza – João Geraldo Martins Evangelista
Nº 13 – José Theóphilo Machado – Evando Marinho Salim
Nº 16 – Aurênio Pereira Carneiro – Paulo Manoel Pereira Bragança
Nº 17 – Poeta Faria Júnior – Fábio Xavier Valente Pena
Nº 21 – Theodoro Gouvêa de Abreu – Antônio Manoel Sardenberg
Nº 22 – Frei Jacintho Pallazolo – José Maria Mangia
Nº 23 – Professora Juracy Silveira – Adriana dos Santos Porto
Nº 24 – Claudina Abreu – Luzia Abreu
Nº 25 – Fernando Fescina – Gustavo Polycarpo Peres
Nº 27 – Fidélis Pereira da Silva – Leny de Souza Lima
Nº 28 – Sílvio Pélico de Miranda – José Moreira Sobrinho
Nº 30 – Rui Fernandes Seixas – Berenice Alves Seixas Silva
Nº 31 – Cora Coralina – Arinda Ferraz
Nº 32 – Maria da Conceição Maia Coutinho – Ana Regina Soares Ribeiro
Nº 33 – J.G. de Araújo Lorge – Guilhermina Xavier Valente Pena
Nº 36 – Professora Geyza de Almeida Santos – Déa Dilza de A. F. Aguiar
Nº 38 – Castro Alves – Ronaldo de Souza Barcelos
Nº 39 – Carlos Drummond de Andrade – Quézia Xavier Lins
Nº 40 – Machado de Assis – Sônia Regina Sóta Quintãn

Fontes:
http://academiafidelensedeletras.blogspot.com
http://www.saofidelisrj.com.br
Colaboração de Antonio Augusto de Assis

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Julia Mira dos Santos (Poemas)

Corn, o sapo de estimação

Corn é o nome
De um sapo de estimação
Gosmento e verdinho,
Do tamanho de uma mão.

Esse Corn é um folgado,
Que só pensa em comer
Vive por ai largado,
Sem saber o que fazer.

Tem gente que acha estranho,
Mas acho muito legal
Um sapinho como o Corn,
Tomando sol no seu quintal.

Siga esse nosso conselho
E crie um bichinho…
Peixe, sapo ou coelho,
Um cachorro ou um gatinho!

Lambão, o cachorrinho

Lambão é um cãozinho
Muito, muito levado.
Apesar de suas travessuras,
É também um cão amado.

Faz de tudo esse animal,
Serelepe, espertinho…
Rasga, brinca, lambe e tal,
Não para um só minutinho

Todo mundo gosta dele…
Do Lambão, o cachorrinho.
Todos querem um igual
Apesar do seu foguinho.

O Sr. Cubo de Gelo

Depois de muito tempo
Dentro do congelador,
O Sr. Cubo de Gelo
Saiu à procura de um amor

Ele pula e sai de lá
E começa a procurar
O amor de sua vida
Que ele sonha em achar

Estava tão cansado,
Quase desistindo
De um dia ser amado,
Quando viu alguém sorrindo.

Lá estava ela…
A paixão que o gelinho sonhou!
Mas quando chegou perto dela…
Derreteu-se de amor!

O Zé de Chulé

Quero lhes apresentar
O meu amigo Zé!
Todo mundo foge dele
Por causa do seu chulé.

Zé é um cara legal,
Só tem um probleminha…
Ele cheira muito mal,
Como titica de galinha.

Coitado do Zé,
Que não tem nenhum amigo.
Isso tudo só por que
Ele tem um pé fedido!

Acho que isso é
Uma falta de respeito!
Só porque ele tem chulé
Que não gostam do sujeito.

Julia Mira dos Santos – 11 anos – Sorocaba/SP

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Douglas Lara (Baile Vermelho e Branco )

Neste sábado especial do mês – afinal é dia do baile mensal do Clube da Amizade de Sorocaba – acordei recordando claramente de um sonho que tive. Nele, recebi um telefonema de uma mulher desejando reservar uma mesa.

Seria a primeira vez que ela iria a um de nossos bailes e sempre que isto acontece damos atendimento especial. Este atendimento poderá resultar num novo/a sócio/a.

Cuidadosamente, disse a ela que não sabia se ainda tínhamos mesas disponíveis, mas que, com certeza, daríamos um jeito. Na realidade, eu estava preocupadíssimo porque não saberia de poderíamos acomodar uma mulher na festa. Sendo assim, procurei saber um pouco mais daquela senhora, fazendo algumas perguntas para obter mais detalhes.

– Você vem só ou acompanhada? – Ela, sem me dizer seu nome, respondeu:

– Gostaria de ir acompanhada do meu amor, só que ele é casado e num sábado não pode deixar a família para sair só à noite…

Pensei aí tem treta. Então arrisquei:

– Se não tens a possibilidade de dançar com seu amor, venha com seu marido mesmo! – Sabia que estava sendo abusado, só que o diálogo no sonho era tão amigável que achei que poderia continuar sendo mais atrevido nas minhas perguntas, e, repentinamente, tentar lhe proporcionar um bom divertimento, mesmo que fosse com o marido. Então continuei:

– Senhora, caso não venha com o marido, pode dançar com um free-dancer .

– Moço, chamou-me perguntando, o que é este tal de free-dancer ?

Expliquei-lhe que existem alguns cavalheiros disponíveis para mulheres desacompanhadas no baile, para que estas não fiquem sem dançar.

– Moço, com jeito dúbio indagou-me, e isto não custa nada a mais?

Era óbvio ela perguntar sobre isso. Tudo se paga hoje em dia! Se bobear, daqui um tempo estaremos pagando para respirar. E ela precisava saber o que estava comprando, senão depois aguenta o Código de Defesa do Consumidor! E ela tinha o direito de saber. Mas o que mais me intrigava era tudo isso num sonho! Deve ser o subconsciente. Disse a ela que no preço do convite já estava incluido o free-dancer , aproveitando para informar que ela podia dançar a vontade sem limite de contra-danças.

Mas minha curiosidade era forte e resolvi sair da passividade e perguntar, afinal telefone sempre nos dá mais coragem, não estamos olhando para o rosto da pessoa mesmo!

– Quando a senhora beija, costuma beijar de olhos fechados ou abertos?

Ela mudou o tom de voz na mesma hora e voltou à formalidade. Parou de chamar de moço. Deve ter pensado “respeito é bom e eu gosto, não acha que tais perguntas devem ser feitas apenas quando temos intimidade?”.

Fiquei sem graça e pedi que esquecesse esta questão, apenas perguntei por perguntar.

Decidi ser um pouco mais objetivo e menos abusado nas perguntas.

– Senhora, por gentileza, a mesa e convites são para quantas pessoas?

Ela, que deveria estar perdida até mesmo em saber o que queria, respondeu “ainda não sei”.
Eita venda dura de fazer!!! Parti para outra pergunta, tentando direcionar a conversa e resolver o problema da dançarina.

– E a senhora costuma dançar de rosto colado?

– Lá vem o senhor novamente com perguntas inconvenientes!!
Por quê? Neste baile não se pode dançar de rosto colado?

– Pode sim, desde que seja com respeito! – retruquei.

– Senhor, perguntou-me finalmente, por que tantas perguntas?

– A senhora está desde o início dizendo que gostaria de vir ao baile e dançar com seu amor, só que ele é casado! Estou apenas tentando acomodar uma situação que a maioria das pessoas que vem ao baile tem. Desculpe. Não vejo problema em a senhora beijar e dançar com olhos fechados. Não importa que seu parceiro não seja seu amor. Dance e beije de olhos fechados, imaginando estar dançando e beijando seu amado. Dá no mesmo!

Precisava terminar aquela conversa e desligar o telefone, então disse:

– Senhora, preciso desligar, pois tenho outro interessado esperando na outra linha.
Pense e telefone mais tarde e diga qual foi a decisão. Terei o maior prazer emfazer a reserva.

Acordei com o telefone tocando. Atendi, ainda meio dormindo, pensando que seria a mulher novamente. Não era, não. Era um dos diretores: “Douglas, acorde e venha ajudar a preparar o clube para o baile de hoje à noite, estamos precisando de você”.

Fonte:
http://www.usinadeletras.com.br/

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Arquivado em O Escritor com a Palavra

O Nosso Português de Cada Dia (Obrigado / Obrigada)

OBRIGADO / OBRIGADA

A palavra obrigado é um adjetivo e, portanto, deve concordar em gênero e número com o substantivo a que se refere. Assim sendo, ao estar agradecido por uma gentileza recebida, o falante deverá concordar a palavra “obrigado” com seu sexo. O homem diz “obrigado”; a mulher diz “obrigada”.

Pois bem, e qual seria a resposta a esse agradecimento? Se eu faço uma gentileza, e a moça responde «obrigada», qual deveria ser minha resposta. A melhor resposta seria «por nada»; nunca diga «de nada.» Atualmente, diz-se muito «obrigado(a) eu» que também é forma correta. A expressão «obrigado(a) você» é errônea. Por quê? Obrigado significa grato, agradecido. Ao dizer «obrigado você» estamos dizendo algo do tipo «você está agradecido» o que não faz sentido algum na situação referida.

Imaginemos o seguinte diálogo:
-Agradecido.
– Agradecido você.

Sem sentido. Agora imaginemos outro diálogo:

-Agradecido.
– Eu é que fico agradecido (agradecido eu).

Esta é a forma correta. Os mesmos exemplos valem para a palavra «obrigado».

Fonte:
Prof. Dr. Ozíris Borges Filho. http://www.movimentodasartes.com.br/

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Arquivado em O nosso português de cada dia

Publique seu Livro

A Usina de Letras, através do selo Vermelho Marinho, está com uma promoção imperdível para o fim de ano. Tire seus textos da gaveta e se dê este presente!

PACOTE SONHO REALIZADO:

Você recebe 100 exemplares impressos com capa colorida em papel cartão supremo 250g com miolo em offset 75g no formato 14x21cm com até 120 páginas. Cada exemplar sai por R$19,90 e o preço sugerido de venda é de R$25,00.

Forma de pagamento: 5 parcelas de R$398,00 ou 5% de desconto à vista.

PACOTE IDEAL 300:

Você recebe 300 exemplares impressos com capa colorida em papel cartão supremo 250g com miolo em offset 80g no formato 14x21cm com até 120 páginas e acabamento costurado. Cada exemplar sai por R$15,00 e o preço sugerido de venda é de R$25,00.

Os livros tem revisão dupla, criação de capa, registro de ISBN e também serão vendidos pelo site da Usina de Letras.

Forma de pagamento: 5 parcelas de R$900,00 ou 5% de desconto à vista.

PACOTE 500 PREMIUM:

Você recebe 500 exemplares impressos com capa colorida em papel cartão supremo 250g com miolo em offset 80g no formato 14x21cm com até 120 páginas e acabamento costurado. Cada exemplar sai por R$11,80 e o preço sugerido de venda é de R$25,00.

Os livros tem revisão tripla, criação de capa, registro de ISBN e também serão vendidos pelo site da Usina de Letras. Além disso, o autor recebe 500 marcadores de livro.

Forma de pagamento: 5 parcelas de R$1180,00 ou 5% de desconto à vista.

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Caldeirão Literário do Pernambuco (Sandoval Ferreira)

Sandoval Ferreira
(1983 Iati/Pernambuco)

O curandeiro da feira

Sou curandeiro da feira
De tudo tem pra curar
Seja de dor de barriga
Ou até no calcanhar
Tenho pumada e raiz
E garanto não faia

Tem o óleo da mamona
Pro sinhô ficar, mas moço.
Ajeita tudo que é prega
Remenda tudo que é couro
Lhe deixa novo tinido
Estrala tudo que é osso

Tem a castanha atalaia
Que vale pra dez doença
Menos aquela das cornura
Que coisa das desavença
Mas se espiela caída
Ou farta de paciência passe
A bendita pumada que cura
Sua doença.

E se o senhor ta veio
E no agüenta mas nada
O Passarim no levanta
No canta nem faz zuada
Sua muié só reclama que
A seca ta pesada.

Ao invés de te chamar
De bem ela te chama
De barriga inchada
Home tome catingueira
Que a doença ta curada

E se vosmicê é moça veia
E quer arranjar namoro
Quer encontrar o cabra
Que venha apagar seu fogo
Vou lhe ensinar uma prece
Pra você ganhar o moço.

Por fim sou curandeiro
Da feira em todo canto
Me acho quando quiser
Me achar procure de cima
Abaixo que você vai encontrar
Não sendo pra reclamar
E nem pra comprar fiado
Eu posso lhe ajudar.

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Arquivado em Caldeirão Literário, O poeta no papel

Antonio Carlos Tórtoro (Parece um Enterro)

Cândido Portinari (Enterro na Rede)1944
Painel a óleo/tela
Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, São Paulo,SP – Série Retirantes
Obra premiada na exposição 50 Ans d’Art Moderne, em 1958 na Bélgica.
“Carpe Diem” quer dizer “colha o dia”. Colha o dia como se fosse um fruto maduro que amanhã estará podre.
A vida não pode ser economizada para amanhã.
Acontece sempre no presente.
Rubem Alves

Esperando encontrar no ininterrupto caudal de automóveis uma brecha que me permitisse ir ao trabalho num dos horários de pico do tumultuado, mal educado, agressivo e desordenado trânsito da nossa cidade, resmunguei comigo mesmo : parece um enterro.

Descobri que existe até uma funerarianet que oferece kit de reconstituição facial, dentre outros fúnebres produtos, e curso de Tanatopraxia – uma técnica que permite que o corpo se conserve preservado por mais tempo, possibilitando um velório tranqüilo – aliado a técnicas como a Necromaquiagem e a Reconstituição Facial, que imprimem uma aparência natural ao corpo. Tudo isso conforta a família e amigos e garante que os mortos já não são tão amedrontadores como antigamente.

Pensei que o comentário silencioso tivesse vindo subconscientemente à minha memória por eu haver lido, no jornal da manhã, que em São Paulo está sendo realizada a FUNEXPO , o maior evento do setor funerário da América Latina. São mais de 60 expositores, cerca de 6 mil visitantes e mais de 4 milhões de reais em negócios : a morte agora é só mais um negócio.

Quem, acima dos 50 anos, não se lembra das inúmeras procissões funerárias que, diariamente, cortavam a cidade, rumo ao cemitério da Saudade?

Eram longas séries de carros – quanto mais poderoso o defunto , maior era a quantidade e a exuberância dos automóveis – que vagarosamente percorriam, preferencialmente pelas avenidas, provocando pequenos congestionamentos nas ruas transversais, formados por motoristas que , sem partirem para desrespeitoso buzinaço, viam passar o féretro, benzendo-se com o sinal da cruz, em sinal em respeito ao falecido.

Dentro do carro funerário, seguia o ataúde coberto de coroas de flores enviadas pelos amigos e conhecidos da família que, assim, expressavam seus pesares pelo lamentável passamento.

O desfile funerário partia sempre da casa do morto, onde ele havia sido velado durante toda a noite, em geral, na melhor sala da casa, acompanhado sempre por um grande número de pessoas que, por morarem nas redondezas , não arredavam pé do local , contando os familiares sempre com a boa vontade e atenção de parentes , amigos e vizinhos: não existiam os velórios ao lado dos cemitérios. É importante lembrar que teve até um tempo em que, pela ornamentação da casa, podia-se saber se o morto era casado – pendurava-se na porta da rua uma cortina de pano preto e dourado – , solteiro – idem com as cores lilás e preto – ou criança – idem com panos brancos, azuis ou dourados . Era um tempo, pasmem, em que as viúvas vestiam-se de luto às vezes até por 12 meses e ainda existia sempre aquela amigona da família, a boa cozinheira que fazia a canja pós-velório, para aquecer os estômagos de luto.

Foi-se o tempo em que no Dia de Finados não se podia ouvir música e os bailes eram proibidos.

Hoje, os mortos nem entram mais em casa, ninguém guarda luto algum, Finados não passa de mais um feriado dentre tantos outros, e a ausência dos carros funerários percorrendo a cidade, todos os dias, não nos faz mais lembrar que somos mortais: não temos mais tempo para pensar na morte e refletir sobre ela, porque gastamos parte de nosso precioso tempo em trânsito pela vida, engarrafados por todos os tipos de problemas, e sem perceber o dia do nosso enterro chegar: talvez, por isso, não carpediemos.

Fontes:
http://www.movimentodasartes.com.br/arl/pop/051203a.htm
Pintura = http://www.ppgartes.uerj.br

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Arquivado em O Escritor com a Palavra

Dicas Tilibra (Como Estudar II)

Estudar exige mais do que paciência e força de vontade. Estudar requer também, muita disciplina e o domínio de algumas técnicas – às vezes, simples – para que o aprendizado seja feito com a máxima eficiência e o mínimo de tempo.

Uma boa dica é não deixar tudo para a véspera. De fato, não é fácil conseguir motivação hoje, e começar a estudar para uma prova que só será daqui a 2 semanas. Mas isso, é só uma questão de reeducação de hábitos. Experimente tirar 2 horas de seus dias, para estudar o conteúdo das aulas dadas naquele dia. Com o tempo, você terá mais facilidade em compreender e memorizar toda a matéria, e ainda sentirá uma queda no nível de stress das vésperas de prova, quando o conteúdo se acumula, e você não sabe nem por onde começar a estudar. Com essa metodologia, o menos vai virar mais. A matéria estará sempre fresca na sua cabeça, e estudando menos, você estará aprendendo mais.

Abaixo seguem mais algumas dicas, bastante interessantes.

Como ler bem
“Ler um livro é estabelecer um diálogo animado pelo desejo de compreender. Nossa leitura deve ser governada por um princípio fundamental de respeito à voz que nos fala no livro. Não temos o direito de desprezar um livro só porque contradiz nossas convicções, como também não devemos elogiá-lo incondicionalmente se estiver de acordo com elas”. (Prof. Armando Zubizarreta).

Qualquer leitor, portanto, tem como primeiro desafio o de estar pronto para ler: disposto a aprender e aproveitar a leitura. Mesmo em caso de tratar-se, à primeira vista, de mera tarefa e não de algo que possa lhe dar prazer. Essa preparação exige dois pré-requisitos: prestar atenção e evitar a avidez. Devorar centenas de páginas não leva a nada.

Você vai ler? Saiba então que a compreensão de um texto exige mais do que o simples correr dos olhos sobre as letras. Comece por escolher um local tranqüilo, confortável, bem iluminado. E não se apavore em caso de não conseguir entender tudo de imediato. A compreensão depende do nível cultural do leitor, que vai se ampliando a cada nova leitura ou releitura.

Recomenda-se, em geral, que não se passe ao parágrafo seguinte sem ter entendido bem o anterior. Isso você pode conseguir, voltando e relendo o trecho quantas vezes forem necessárias e, se preciso, recorrendo a dicionários e enciclopédias. No entanto, não se deve interromper demais a leitura. Por isso, conforme-se em aprender o significado geral, sabendo que, com o hábito de ler, essa tarefa vai ficar cada vez mais fácil.
Lembre-se sempre que um mínimo de disciplina é indispensável ao leitor que quer ou precisa aprender. A leitura, para ser mais produtiva, pode ser dividida em fases:

– Faça um reconhecimento do texto para saber de que assunto trata. Mesmo no caso de romance é bom ter uma idéia do tema central.

– Procure isolar as informações principais. Para isso, é bom sublinhar ou assinalar passagens.

– Ao encontrar expressões especializadas, (de medicina, direito, etc.) procure conhecer e anotar seus significados. Assim, além de aumentar seu vocabulário, você conseguirá uma correta interpretação de sua leitura.

– Procure separar os fatos, das interpretações que deles faz o autor. Retome as informações essenciais que foram isoladas anteriormente, para saber que relações existem entre elas.

Assim, você estará pronto para estabelecer suas próprias idéias sobre o texto. Mas lembre-se: o trabalho intelectual exige rigor. Por isso nunca é demais voltar ao texto, reler e aperfeiçoar a leitura.

Como tomar notas

A escrita é um poderoso instrumento para preservar o conhecimento. Tomar notas é a melhor técnica para guardar as informações obtidas em aula, em livros, em pesquisas de campo. Manter os apontamentos é fundamental. Logo, nada de rabiscar em folhas soltas. Mas também não se deve ir escrevendo no caderno tudo que se ouve, lê ou vê. Tomar notas supõe rapidez e economia. Por isso, as anotações têm de ser:

– suficientemente claras e detalhadas, para que sejam compreendidas mesmo depois de algum tempo;

– suficientemente sintéticas, para não ser preciso recorrer ao registro completo, ou quase, de uma lição.

Anotar é uma técnica pessoal do estudante. Pode comportar letras, sinais que só ele entenda. Mas há pontos gerais a observar. Quando se tratar de leitura, não basta sublinhar no livro. Deve-se passar as notas para o caderno de estudos. O aluno tem de se acostumar à síntese: aprender a apagar mentalmente palavras e trechos menos importantes para anotar somente palavras e conceitos fundamentais. Outros recursos: jamais anotar dados conhecidos a ponto de serem óbvios; eliminar artigos, conjunções, preposições e usar abreviaturas.

É preciso compreender que anotações não são resumos, mas registros de dados essenciais.

Como educar a memória

Aprender é uma operação que não se resume a adquirir noções, mas consiste em reter o que foi lido, reproduzir e reconhecer uma série de experiências e pensamentos. Portanto, é imprescindível educar a memória. Logo após o estudo de algum ponto ou matéria, nota-se que o esquecimento também trabalha: a mente elimina noções dispensáveis. Sem disciplina, entretanto, nunca haverá um jogo útil entre memória e esquecimento, entre horas de estudo e horas de descanso.

Para facilitar o aprendizado e fixar na memória os conteúdos aprendidos, basta proceder a uma série de operações sucessivas e gradativas no tempo. Repetir é importante, mas não só: saber de cor nem sempre vai além de um papaguear mecânico. As técnicas psicológicas de memorização são complexas, mas podem ser utilizadas simplificadamente pelo estudante. Algumas indicações:

– ler mentalmente e compreender o assunto;

– reler em voz alta;

– concentrar a atenção em aspectos específicos: nomes, datas, ambientes, etc.;

– notar semelhanças, diferenças, relações;

– repetir várias vezes em voz alta ou escrever os conhecimentos adquiridos (os pontos principais);

– fazer fichas com esquemas que incluam, de um lado, a seqüência das noções principais e, do outro, detalhes referentes a cada uma delas;

– nunca esquecer de repousar, pois uma mente cansada aprende pouco e retém com dificuldade.

Como estudar em grupo

Estudar em conjunto é um modo produtivo de fazer render ao máximo o esforço do aprendizado. E há muitas maneiras de os estudantes se ajudarem, mesmo que não se organizem em um grupo. Entre as mais importantes: a comparação dos apontamentos das aulas e das horas de estudos. Assim, trocam-se idéias e verificam-se os pontos fundamentais e os mais difíceis.

Dois princípios a serem pensados:

– o estudo em conjunto deve refletir uma inteligente divisão de trabalho;

– as sínteses não garantem plena compreensão, mas são interessantes como resumo dos conhecimentos adquiridos.

Quando o estudo em grupo é uma preparação para provas ou exames, o aluno deverá estudar toda a matéria por si mesmo, de modo que o trabalho com os colegas seja apenas uma revisão, uma possibilidade de aprofundamento e, às vezes, de correção dos pontos.
Algumas possibilidades de organização e divisão de trabalho no grupo:

Cada um estuda partes diferentes de um assunto e traz para serem fundidas na reunião;
 Cada um estuda e consulta fontes sobre o mesmo assunto e expõe ao grupo, para uma comparação e aprofundamento;
 Cada um estuda um ponto de um capítulo e faz seu relatório ao grupo, debatendo ou respondendo a perguntas depois.

É a voz corrente entre professores que a melhor maneira de aprender uma matéria é ensiná-la aos outros. Os alunos podem comprovar isso nas exposições orais de suas reuniões de grupo. E toda vez que um colega vier pedir auxílio.

Como fazer uma redação

Comunicar, eis a principal finalidade de uma redação. Ou seja: dizer algo, por escrito, a alguém. Mas o quê? A primeira operação para redigir um tema é compreender corretamente o enunciado contido no título. Um exame cuidadoso do título proposto dá ao estudante a exata delimitação do assunto, permite-lhe perceber imediatamente como desenvolver o pensamento para não fugir do tema. E conduz ao segundo passo: fazer um esboço do que vai ser dito.

Há quem prefira esboçar o tema mentalmente. Nunca é demais, porém, tenha o cuidado de anotar o plano, de modo que seja fácil segui-lo depois. Fazer um esboço depende, é claro, do conhecimento do aluno. E até mesmo do assunto. Mas um macete infalível é o da divisão em três partes: introdução, desenvolvimento, conclusão. Começa-se por chamar a atenção do leitor para o assunto, digamos, “A descoberta do Brasil”, falando sobre a situação de Portugal no século XV, o florescimento cultural, a Escola de Sagres e as técnicas de navegação ali aperfeiçoadas. É a introdução, que conduzirá ao desenvolvimento: a frota de Cabral, seus objetivos, a viagem e seus problemas, a chegada a Porto Seguro, a comunicação da descoberta. Conclui-se de modo a evidenciar a importância que foi atribuída ao fato, na época, podendo-se adiantar algo sobre o significado histórico que teria depois.

Na exposição de assunto científico ou de caráter interpretativo, é bom lembrar que o sistema é: antecipar o que se vai provar, provar o que se havia proposto e enunciar o que já se provou. Nunca deixar, também, de enumerar em estrita ordem alfabética, todas as fontes e toda a bibliografia utilizada para compor o trabalho. Depois de tudo escrito, a tarefa ainda não terminou. A redação feita em casa ou em classe deve ser revista. É preciso ver se foram utilizadas as palavras mais expressivas, se não há erros de grafia, se a pontuação foi bem feita. Não se exige de ninguém um texto literariamente perfeito, mas escrever corretamente é obrigação.

Fonte:
http://www.espirito.org.br/portal/artigos/ednilsom-comunicacao/dicas-tilibra.html#estudar

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Aluísio de Azevedo (O Japão Crônica – Capítulo 2)

(Capítulo 1, JIMMU TENNÓ – JINGÓ KOGÓ – YORITOMO postado em 28 de outubro)

NOBUNAGA – TAIKO~SAMA – IEIAS

Nobunaga, filho do príncipe de Owai, é um espírito claro e forte, porém ímpio, servido por uma vontade enérgica e resoluta. Bate em 1573 a poderosa família Achikanga, que então mantinha no poder o seu décimo quinto shogun por ela imposto — Yochi Aki, e alça mão das rédeas do Estado, fazendo-se “Daijin” ou Grande Ministro do Interior.

Uma vez seguro do poder não são todavia os daimos a sua primeira preocupação, mas sim a milícia religiosa; é que os budistas, riquíssimos e cheios de prestígio nos seus alcáceres monásticos, com vassalos próprios colhidos entre os mais terríveis samurais e roninos, se haviam constituído em uma força de guerra superior à dos próprios príncipes feudais, porque a seu favor laborava o espírito religioso do povo. Ora, Nobunaga compreende que, governando em nome do Imperador e sendo o Shintoísmo a religião do Estado, seu poder não passaria de ficção se persistisse de pé a arrogância dos sacerdotes budistas; para firmar pois o princípio da sua autoridade e o prestígio moral do governo, era preciso antes de mais nada aniquilar a supremacia dos bonzos; empresa que a todos se afigurava a mais louca das quimeras, já pelas convenções espirituais estabelecidas pelo trono entre as duas religiões dominantes, já pela boa organização das forças de que dispunham os budistas, já pelo mau efeito que produziria nas camadas populares o caráter sacrílego do sucesso, e já enfim pela solidariedade que existia entre os sacerdotes de Buda e certos príncipes poderosíssimos do norte.

Foi então que Nobunaga, em má hora para os seus patrícios, pensou em tirar partido do Cristianismo que por esse tempo prosperava exuberantemente ao sul do Arquipélago, depois das suas tentativas quase frustradas no continente chinês. O Japão havia sido descoberto, acidentalmente, pelos portugueses em 1542, como explicarei adiante; São Francisco Xavier, acompanhado de frades Agostinianos, Dominicanos e Franciscanos, tentara desembarcar em 1549 no porto de Kaugosima; repelido, seguiu para Yamaguchi e depois para Kioto, conseguindo afinal estabelecer-se ao sul com o seu humilde exército de missionários. Foi tal o bom êxito dessa piedosa campanha, reforçada mais tarde pelos jesuítas espanhóis, foi tão fecunda a catequese, que, na época de Nobunaga, trinta anos depois do início dela, havia no império duzentas igrejas católicas e meio milhão de convertidos, entre os quais principescas famílias de Kiuciu e muita gente da melhor nobreza que chegou a chamar por sua conta novos missionários europeus; tanto assim que em 1581 o príncipe Sendai enviava ostensivamente uma embaixada a Felipe II de Espanha, e aos papas Gregório XIII e Sixto Quinto, apresentando-lhes os votos dos católicos do Extremo Oriente.

Pois bem, Nobunaga, político hábil e homem cético, achou meios de chamar a si os cristãos novos e com estes conseguiu levantar as forças de Kiuciu contra os budistas, assaltando logo, sem dar tempo aos daimos de acudirem, o monastério de Heijeizen que, depois de formidável resistência, foi tomado e reduzido a cinzas com o despojo dos que o defendiam. Em seguida, antes que lhe esfriassem as armas, volta-se para o de Hang-wanji em Osaka, onde se praticava a seita Chichiu; neste porém volvia-se o feito muito mais duvidoso, o monastério tinha cinco redutos exteriores, guarnecido de fossos e valas; e não perdera a ocasião de engrossar as suas forças enquanto o outro era atacado. A primeira investida foi como se os assaltantes se abismassem num sorvedouro infernal, os sitiadores só tiveram notícia do resultado dela vendo descer as águas mortas do canal um enorme e sinistro junco carregado até as bordas de orelhas e narizes decepados; era tudo que voltava da expedição. Nobunaga insiste; ataca de novo e de novo é repelido, e afinal, à força de atividade e pertinácia, logra vencer o primeiro reduto, e depois o segundo, o terceiro, todos os outros, e penetrar enfim no coração ardente da alcaçova e escala a formidável cidadela, que arrasou no meio de uma hecatombe de vinte mil associados, bonzos, samurais, roninos, servos e concubinas.

Destruída a resistência budista foi fácil ao temeroso general fazer o mesmo com a dos daimos, cujas tentativas de reação conseguiu logo ao nascedouro afogar em sangue, podendo ele depois disso dedicar-se de corpo e alma ao seu grande plano de reorganização feudal para dar ao Império a unidade que lhe faltava e remodelá4o pelo seu peculiar ponto de vista cesariano, talvez, quem sabe? na intenção de, arvorando-se ditador, alçar-se com o próprio cetro pelo qual se batia agora; mas, ao lançar em 1582 os primeiros alicerces do vasto edifício, caiu para sempre atravessado no coração por uma flecha que ninguém nunca descobriu donde partira.

Sua obra porém não morreu com ele: Nobunaga contava desaparecer de um momento para outro, e havia preparado para secundá-lo um homem cheio de vida e perfeitamente na altura da situação, um herói que ele inventara, um cabo de guerra, sem família e sem títulos, que fora seu palafreneiro, seu “betto”, e de quem o General nos últimos combates tinha feito, nem só seu ajudante de campo e confidente nos segredos do Estado, mas depositário dos seus futuros planos políticos e por eles responsável.

Entra pois em cena o extraordinário Hideyochi, conhecido na História pelo original cognome de Taiko-Sama.

Nada tendo por si que justificasse a ambição, além do prestígio pessoal, começa por voltar-se contra os descendentes do seu próprio benfeitor, usurpando-lhes pelas armas o direito de sucessão no governo e obrigando-os ao extremo de rasgar o ventre para esconderem na morte voluntária e nobre a infâmia da derrota. Ato continuo, lança-se como um raio para as províncias de Nagato, cujos príncipes e daimos se haviam levantado a contestar-lhe o poder, e sobre eles investe com tal fúria que é de um assalto que os leva de vencida, mandando logo incendiar estâncias e castelos, e varrer a ferro e fogo os campos arrasados.

Ninguém pode imaginar a que ponto de vertigem heróica chegou nessa época entre os japoneses o desprezo pela vida. Enquanto Taiko-Sama é ruidosamente aclamado em triunfo na frente das legiões vencedoras, que arrastam os prisioneiros escravizados e expõem na ponta dos chuços quarenta mil cabeças de vencidos, Chibatá, um dos melhores e mais altos samurais de Nobunaga e que, fiel à descendência do extinto chefe, se recusara reconhecer a autoridade do usurpador, vê-se encurralado com a mulher e alguns últimos companheiros de desgraça no seu castelo de Fukui no principado de Hechisen, sem outra expectativa além da rendição do inimigo que o não poupará de certo. Não se aflige entretanto; ao contrário, arma um festim e durante toda essa sua última noite, ordena que em volta dele fervam as danças e as cantigas sensuais das “gueichas”. Ao raiar da aurora, em meio do prazer, Chibatá enche pela vez extrema a taça com que vai celebrar o brinde fatal, o adeus para sempre; antes porém de levá-la aos lábios e de entoar o cântico da morte, chama junto a si a esposa e diz-lhe, pousando-lhe uma das mãos na cabeça enquanto com a outra empunha o copo fatídico:

— Tu, minha flor, como mulher, podes sair do castelo; entre as gueichas e bailadeiras ninguém te reconhecerá… Não tens, como eu e os meus companheiros d’armas, o dever de morrer cá dentro… Vai! Dou-te com gosto a liberdade, e desejo que no domínio de outro homem possas encontrar melhor sorte e prosseguir na virtude de que me deste todas as boas mostras. Vai! Podes sair, adeus!

Como subiu em luta aberta com os daimos, cuja supremacia militar tem em mira destruir em favor do poder áulico, desiste da eleição shogunal, mas também não consente que elejam outro, deixando vago esse cargo que depois de Yoritomo não havia sofrido interrupção, e entra a governar em nome diretamente do Imperador, a quem assim consegue soerguer um pouco do fundo rebaixamento político em que o tinha deixado o feudalismo militante.

Ela, por única resposta, toma-lhe das mãos o copo que ele havia enchido e é a primeira a romper o cântico funerário, o hino dos vencidos com honra.

O coro responde e todos se prosternam para morrer. Calam-se de novo e, no meio do lúgubre silêncio, acrescenta a esposa ajoelhando-se aos pés do marido:

– Meu senhor, não me tires o direito de findar com orgulho ao teu lado; morta pelas únicas mãos a quem me devo…

Abriu o kimono e apresentou o colo nu: ele, desviando os olhos, arranca da espada e fere-a no coração. Depois, voltando-se para os mais, gritou:

– Yake – haraii!

Era a voz para o incêndio e para o suicídio geral, de modo a que não encontrasse o inimigo, no meio das cinzas ensangüentadas, nenhum troféu nem despojo com que pudesse ornar a vitória.

Taiko-Sama, que em virtude da sua baixa procedência não podia ser eleito shogun, nem mesmo grande ministro ou chefe de conselho, faz-se Administrador Geral, título que é precisamente a tradução daquele cognome com que ele passou à História; mas depois, submetendo à mão armada os príncipes feudais e jungindo ao Estado a função das diversas seitas monásticas, dilatou por tal modo o seu predomínio político, e por tal modo se fez senhor do país inteiro, que, em 1586, impôs à Corte Imperial que o elegesse Kuambaku, isto é, nada menos que — Vice Imperador.

Esse cargo, até aí honorário e só preenchido pelos membros superiores da família micadoal dos Fujiwara com direito simultâneo à presidência do conselho privativo da coroa, tornou-se então efetivo e de poderes amplos, pois de um lado, aos olhos dos senhores feudais, representava a soberania aristocrática do trono como intermediário entre este e a nação, e do outro, perante o monarca, representava a nobreza armada e autoritária dos daimos que em Taiko-Sama reconheciam o seu chefe militar.

A golpes de energia, cada vez mais pronta, o Vice Imperador estabelece a paz em todo o território nacional e, a poder de boa administração, consegue reorganizar a agricultura, desenvolver a indústria e lançar as primeiras bases do comércio exterior, que ainda não existia; mas, precisando por cálculo dar expansão ao elemento militar, sobreexcitado e aguerrido durante tantos séculos de luta civil, concebe o gigantesco plano de conquistar para o Japão a China e a Coréia, a pretexto de que já não pagavam impostos pela imperatriz Jingô Kogô; e, durante cinco anos, prepara-se para a formidável empresa, com grande contentamento dos daimos e dos samurais. Levanta fortificações; organiza esquadra; disciplina admiravelmente as forças de terra, e afinal, em 1592, comandando ele em pessoa, atira-se com oitenta mil homens sobre o continente asiático, atacando a Coréia pelas ilhas Iki e Tsusima.

Feliz em todas as batalhas, tendo já subjugado três partes da península coreana, cujo rei fugiu diante dele, invade a China e logo vê, pelo bom êxito da primeira investida, sorrir-lhe no horizonte da guerra a vitória completa. Senhor e cônscio da sua fortuna que nunca desmaiara, dispõe-se, num alegre frenesi de ambição e glória, a ir, com as suas próprias mãos, fincar nas venerandas muralhas de Pekin o triunfante guião do Sol Nascente. Condu-lo a sua estrela — não recuará! O colosso asiático retrai, treme, dominado pela vontade irresistível desse homem que nasceu das próprias armas e como as armas se arroja. O grande Celeste Império vai, para sempre talvez, cair em poder da menor e mais atrevida nação do Oriente! Taiko-Sama concentra as suas forças já multiplicadas, reúne em volta de si os seus primeiros generais; nesse momento cíclico porém, 15 de setembro de 1598, uma febre cerebral o acomete em pleno conselho deliberativo, prega com ele em delírio ao fundo da sua tenda de campanha e dentro de uma hora o mata.

A junta regencial que ele havia deixado a governar o Império, ao saber do ocorrido, dá ordem às forças japonesas de recolherem incontinenti, sem mesmo negociar pazes com a China, abandonando desse modo uma campanha começada sob os melhores auspícios e abrindo mão do que já estava conquistado sobre a Coréia. Dizem uns que houve, nessa estranha medida da Regência, perversa intenção de quebrar a fama póstuma do feliz dominador, alvo de muita inveja e ódio entre os seus próprios ministros; outros afirmam até que estes contavam já com o fato, pois em segredo estava de longa data resolvido o envenenamento do chefe.

Taiko-Sama, entretanto, além do grande nome que deixou como general estratégico e valente, goza na história do seu país da reputação de exímio administrador; alguns comentadores estrangeiros o comparam a Henrique IV, que nessa mesma época sufocava em França as revoluções da Liga. Entre muitas outras coisas, a pátria deve-lhe os trabalhos de fortificações em Kioto e Osaka, o aperfeiçoamento da indústria da porcelana e o desenvolvimento do comércio holandês, único que logrou fixar-se no país apesar dos vexames que em seguida sobrevieram. Se Taiko-Sama conseguisse viver mais alguns anos, é natural que o Japão desde esse tempo entrasse em relações com o resto da Europa, pois isso fazia parte dos seus planos políticos herdados de Nobunaga, planos totalmente destruídos pelo homem fenomenal que os sucedeu.

Sim, o maior vulto, maior e derradeiro, dessa limitada galeria de homens típicos do Japão antigo, vai surgir agora em Ieiás, levantando um novo marco na vida histórica da pátria e separando a sua época das épocas anteriores. A esse guerreiro, estadista e legislador a um tempo, caberá a glória de levar a efeito com um golpe decisivo o vasto plano de unificação feudal, concebido pelos seus dois grandes antecessores, e transubstanciar definitivamente a alma da nação inteira, moldando-a pela harmoniosa complexidade do seu próprio talento original e criador.

Espírito sutil e forte, pela face contemplativa do gênio que o animava, mas sem o menor escrúpulo sentimental como todo homem de ação. Ieiás apresenta o arquétipo da ambição inflexível e regrada e do egoísmo político levado à transcendência de ideal filosófico. E de alta linhagem, vem da família Tokugawa, colateral dos Minomotos donde procedeu Yoritomo, pertence por conseguinte à divina raça dos Micados. E pouco antes se havia unido a uma irmã de Taiko-Sama, a qual desdenhou depois por infecunda.

Esse homem sem entranhas, mas que conhecia profundamente o coração humano, pode ser chamado, a justo título, o Confúcius do Japão, pois dele, e só dele, saiu o célebre estatuto constitucional das “Cem Leis”, sucinto e sábio código que dirigiu o espírito público de sua pátria, desde esse rente começo do século XVII até a contemporânea restauração micadoal de 1868, e com cujo vibrante feixe de sentenças mosaicas conseguiram seus descendentes, em quem aliás, à exceção do primeiro filho, não houve um só capaz de secundá-lo, governar a nação durante dois séculos e meio de paz fecunda e esplêndida prosperidade transformando-a, do grupo anárquico de sesmarias feudais que era, em um Estado homogêneo, de caráter próprio e distinto, capaz, dessa era em diante, de impor-se ao mundo inteiro pela pureza original da sua arte, pela inexcedível perfeição da sua indústria, pelo requinte da sua afável cortesia e pelo nunca desmentido altruísmo patriótico dos seus heróis.

Para governar teve que bater-se com os Príncipes do Sul e do Oeste coligados contra ele, e jamais nenhum outro usurpador japonês, que este também o foi empossando-se do direito hereditário de Hideyori, filho de Taiko-Sama, encontrou para galgar o Poder tão forte oposição pelas armas; mas nessas refregas, em que seus inimigos têm em pé de guerra cento e vinte e oito mil homens e ele apenas setenta e cinco mil, Ieiás realizou tais prodígios de valor, que os seus próprios vencidos o aclamaram entusiasmados.

Depois de uma campanha de guerrilhas e escaramuças, fixou-se o combate decisivo para o dia 1o de outubro de 1600. As duas legiões tinham de encontrar-se no extenso planalto de Sekigahara, na província de Mino. Avistam-se ao raiar daquele dia e avançam de longe uma contra .’. outra com igual denodo. Os Príncipes de Satzuma comandam a direita dos Coligados, Konichi o centro, e Tchidá, um cristão, dirige a esquerda, levando no loudel uma cruz vermelha sobre o peito; Ieiás faz o comando em chefe das suas forças e não tem consigo outro general.

Disparam-se os primeiros tiros de bombarda; começa a fuzilaria de arcabuzes; mas nesse instante cai dos céus um terrível nevoeiro, e estende-se como lúgubre mortalha sobre o campo da peleja, cegando todos os combatentes. Os Coligados param, perturbam-se; Ieiás porém avança firme por entre a espessa bruma, recomendando aos seus de não fazerem alarme, e rojando-se que nem o tigre quando fareja a presa descuidosa.

Rasga-se num relance o nevoeiro de alto a baixo, o sol de novo inunda os arraiais, atroa os ares o alarido bélico, e os Coligados estremunham, dando de surpresa pela frente com o inimigo, que feroz se atira sobre eles. Começa logo então, desordenadamente, a luta corpo a corpo, numa confusão estrepitosa de homens, armaduras, cavalos e carretas, que se arrastam de roldão com um só impulso. Ninguém mais se entende; cruzam-se os ferros, partem-se azagaias, arrancam-se punhais; é cara a cara, e a pulso a pulso que a luta se incendeia.

Meio dia. O sol a pino e a vitória indecisa. Um momento mais de resistência dos Coligados e os Tokugawas terão de ceder à desproporção do número. Ieiás pressente a derrota; voa num galope à retaguarda, toma a frente das forças de reserva e avança com elas, empunhando o seu branco pendão de rosas malvas. Ruflam metálicos tambores à vista dos brasões do Chefe; tam-tans retinem; os búzios ressoam à laia de trombetas; maior levanta-se o clangor das hostes, e, de um arranco, Ieiás rompe as fileiras dos daimos assombrados. Quem pode resistir a um tal arranco? “Decepar! Decepar!” grita ele aos seus guerreiros, dardejando a alabarda fumegante de sangue. E os fracos fogem; e os fortes apunhalam-se, para não deixar essa honra aos inimigos.

Ao declinar do sol, Ieiás era senhor do campo, distribuía postos militares e, pela primeira vez no Japão, armava, sob a sua espada, cavaleiros os samurais que se haviam distinguido na batalha. Para essa nova formalidade, semente de uma nobreza submissa com que ele havia de engrandecer-se na paz, pede o seu capacete emplumado, aparelha-o na cabeça e diz, ao abrochar-lhes os loros de seda escarlate:

É só depois da vitória que um General deve ornar-se com este festivo toucado de gala!

Na manhã seguinte fez a sua entrada triunfal em Hikone e depois em Osaka, no meio da aclamação unânime de vencedores e vencidos. Os príncipes do Sul e do Oeste, de cabeça baixa, humilhados, franquearam-lhe os seus domínios em troca do indulto, que ele, contra a norma até aí estabelecida, cedeu com uma demência já de perfeito soberano em que pese a desgraça dos seus súditos.

E a partir desse momento, o herói de Sekigahara ficou sendo, se não logo de direito, mas incontestavelmente de fato, dono e senhor absoluto do Japão. Em 1603 restabelece o Shogunato, cujo posto assume, convertendo-o agora em poder hereditário, e criando assim, ao lado da velha dinastia dos Micados a nova dinastia dos Tokugawa. A Suserania Shogunal deixa de ser desde então revogável pela Coroa e dependente da vontade dos daimos, para se arrogar foros de pura autocracia aristocrática, perdendo de todo o primitivo caráter subalterno de intermediário entre a Nobreza militar e o Trono místico. Não podendo Ieiás tomar do Micado também o título para si, inventa o de Tai-Kum (Grande, Primeiro ou Maior Senhor), o qual, em boa lógica, não passa de um sinônimo do outro. E assim se consumou essa estranha duarquia que, duzentos e cinqüenta anos depois, tanto enleio e perplexidade veio a produzir nas relações internacionais do Japão. O Império, sem deixar de ser império, passou a ter duas autoridades paralelamente heráldicas e majestáticas, igualmente supremas e respeitável — o Micado, a quem a nação inteira venerava como um Deus e o Shogun, a quem ela temia como um Rei absoluto; as grossas rendas do Estado logo se derivaram para as mãos deste, não indo para as do outro mais que as sobras, porque ao primeiro cabia, com os seus punhos fortes; prover todas as ineludíveis e ásperas coisas cá da terra, ao passo que o segundo, de palmas finas e defumadas, tinha de haver-se apenas com as boas e complacentes coisas do céu.

Triste nobreza é essa, da consangüinidade requintada e puída pelos séculos, que assim desfibra o organismo de uma geração até reduzi-lo àquele mítico estado de semideus, ambígua e desclassificada condição social, inteiramente desaproveitável para o menor dos interesses da vida coletiva. ~ o que se deu com essa ilustre descendência de Jimmu Tennô, homem tal que tomou a terra dos Ainos e fez dela o seu Japão divinizado, haveria, com o correr dos tempos, de acontecer fatalmente à própria sucessão dos Tokugawas, cujo último príncipe hereditário, se não houvera degenerado de todo em contemplativo místico, seria logo em seguida à Revolução, como adiante verificará o leitor, o poderoso Rei de um Estado independente e novo, que os seus prosélitos, fiéis ao testamento de Ieiás, lhe tinham preparado na vasta ilha de Yezo, ao verem em 1869 perdido para sempre no resto do Império Japonês a metade do Trono que lhes legara o fundador da dinastia.

O Tai-Kum não quis deixar a geração da sua Casa sem um frisante subtítulo como com aquele não deixou a si próprio, e deu-lhe o de Seitaishogun (Sei – Tai -Shogun), que é já nada menos do que um programa político desdobrável em questão social. Sei era, em longínquas datas o nome do General encarregado especialmente de expulsar do país os bárbaros invasores; Tai já o leitor o sabe, quer dizer “Grande” e Shogun, não o ignora tampouco, “Comandante Geral das forças militares”; podendo-se pois traduzir aquele sobrenome de uma só palavra por toda essa frase: “Generalíssimo destinado a expulsar do Japão os estrangeiros”. E é com efeito desde essa transitiva época que se converte em feição nacional, e se arvora em fórmula do Governo, o nativismo japonês, que até aí não passava de um frouxo e curto reflexo produzido pelo da China. O sistema político de Ieiás baseia-se na mais estreita e orgulhosa reclusão; o país deve fechar-se hermeticamente contra o resto do mundo e só contar consigo para viver.

Diz um dos artigos do famoso código: “Quando de todo não for possível evitar a presença de quaisquer bárbaros no Império, convém nesse caso tratá-los com a máxima reserva e fria polidez, cuidando ao mesmo tempo de intimidá-los logo com a exibição de respeitável aparato bélico, de armas esplêndidas e bem disciplinadas, e de forte e feliz aparência da mais brilhante prosperidade; dar-lhes por favor o que com boas maneiras peçam para as suas urgentes necessidades pessoais, mas deles não aceitar, sob pena de castigo, nada em que transpareça sombra de obséquio ou sinal de gratidão e estima”.

E o legislador decreta a pena de morte para o súdito japonês que se afastar das águas territoriais da sua pátria, compreendidas dentro de um tiro de flecha; estabelece a forma que devem ter os barcos mercantes, cortando-lhes a proa em linha reta, de modo a que não possam alongar-se das costas do país; proíbe toda e qualquer navegação que não seja a de cabotagem, e começa a pensar nos meios de pôr barra afora os estrangeiros que se acham estabelecidos no arquipélago; ideal mais tarde realizado, exceto com o Holandês, único de quem se não revoltou o brio contra as duras e humilhantes condições impostas pelo Governo. Ieiás, ao contrário do que fez Nobunaga, que se ligara aos Jesuítas portugueses e espanhóis, vexa-os e persegue-os sistematicamente, obrigando alguns a fugirem para Formosa e para a China, não ainda por motivos religiosos, mas porque tiveram aqueles a leviandade, neles com efeito imperdoável, de envolver-se na política do país.

Pouco depois estalou a ordem de expulsar para todos os missionários; mas Hideyori, filho de Taiko-Sama, de cujas mãos Ieiás usurpara o poder, abraça a causa dos católicos, com eles engrossa as forças de que dispunha; e faz do seu castelo em Osaka um árdego centro de resistência contra o Governo. O Tai-Kum, acompanhado por Hidetada, seu filho mais velho e intransigente secundador, corre ao lugar da sedição e, depois de bloquear e tomar a fortaleza, reduzi-la a cinzas. Hideyori, ao lado da mãe, desapareceu com esta, devorados ambos pelas chamas, e os que escaparam de morrer na peleja ou no incêndio, caíram no poder do vencedor. E então, como podiam sobrevir novos pretendentes que, à semelhança do filho de Taiko-Sama, se ligassem aos católicos; e, como Ieiás queria opor-se a todo o custo a qualquer troca de idéias com os estrangeiros e cortar pela raiz as relações com a Europa, resolveu dirimir esse último estorvo dos seus planos e, depois de fazer passar à espada os prisioneiros, ordenou a matança geral dos cristãos; poupando apenas aqueles que abjurassem e em público tripudiassem sobre um crucifixo, como fizeram os holandeses.

Muitos católicos, porém, preferiram deixar que lhes despedaçassem o corpo a terem de despedaçar a alma pelas próprias mãos e, afrontando o furor do déspota, agruparam-se foragidos, e ganharam, sem esperanças de salvação terrestre, os rasos sertões desse país feito de litorais. O descaroável Tokugawa lançou-se pronto no encalço deles, e os míseros acossados, impelidos pela aflição, concentraram-se nas ruínas do castelo de Chimabara, em Nagasaki, enorme pardieiro ao abandono, perto do golfo. A resistência era impossível, mas a angústia e o desalento viraram-se em força cataléptica, e o Tai-Kurii teve de lançar mão da artilharia e dos seus veteranos de Sekigahara para tomar de assalto aquele pobre baluarte do desespero. Uma onda voraz de lanças acirradas rebenta dentro do arraial em ruínas, e trinta e sete mil cristãos são trucidados, enquanto outros, fugindo mal feridos às férreas garras do inimigo, arrojam-se das altas fragas do Pappenberg nos abismos do golfo.

Foi completa a exterminação dos apadrinhados da Cruz, e com o sangue desses mártires secou para sempre na terra do Extremo Oriente a árvore do Cristianismo, já então frondosa e aromática, e à sombra da qual haveria sem dúvida de germinar; eflorescer e frutificar com o tempo o que hoje falta à nação japonesa para ser uma nação perfeita; malogrados bens, cuja semente todavia fora posta naquela mal-aventurada terra pela mão piedosa de São Francisco Xavier, o imortal Apóstolo das Índias.

E Ieiás, uma vez fechado e mais os seus compatriotas dentro do torrão nativo, demarca e traça’ com mão segura e taumaturga lucidez de espírito, a linha de conduta para essa nação que já era inteiramente dele, não escapando ao seu encabrestante código das “Cem Leis” nenhuma das classes e sub-classes, nem mesmo as excrescências sociais, como por exemplo o enxurro dos roninos que ficaram reduzidos à triste condição de espiões políticos, porque no entender do Confúcius japonês, o segredo de bem dirigir um Estado consistia principalmente em saber utilizar com vantagem todas as moléculas, boas e más, de que se constitui o complexo organismo de um povo. Eis o que, com o seu pitoresco estilo, diz… (a página do manuscrito perdeu-se!). Aplique cada qual a si próprio este principio e só não será feliz quem não quiser, pois do saber viver nasce o sorriso, e do sorriso nasce a fortuna. A vida é sempre um útil instrumento de felicidade; o caso esta em saber servir-se dele.” Depois de disciplinar hierarquicamente a população, fixar em regras os limites dos canteiros sociais, traçando o lugar preciso de cada grupo, de cada família, de cada indivíduo, com a tábua rigorosa dos seus direitos e dos seus deveres, Ieiás penetra com a lei pelo íntimo da vida privada e regula como se deve comer, beber e até sentir. Ao Samurai, entre outras muitas coisas, recomenda ele: “Não consinto que a mulher se envolva no ato mais insignificante da tua vida pública, como por tua parte não intervenhas no seu governo doméstico. Não deve a galinha vir cá fora ao terreiro cantar ao romper d’alva, nem deve o galo meter-se no ninho a chocar os ovos. Esta é a lei.”

Firma quais hão de ser daí em diante os recíprocos deveres entre as duas clássicas Nobrezas que encontrou estabelecidas, e quais as novas relações que devem existir entre a Corte micadoal e o Shogunato; conserva as regalias dos Daimos e assegura-lhes o senhorio feudal, exigindo porém que venham todos eles periodicamente a Gotten Yama para testemunhar ao Shogun a sua fidelidade política; faz o elogio e multiplica as honras da classe militar, agora regularmente constituída pelos Samurais, mas impõe que ela se não arme senão à ordem do Shogun e só em caso de guerra por este oficialmente declarada; e finalmente cria uma nobreza à parte, exclusivamente sua, dá-lhe senhorios e direito de levantar castelos; faz enormes concessões de principados territoriais à sua descendência viva e por nascer, e, à semelhança de Yoritomo em Kamakura, estabelece uma nova capital em Yedo, que mais tarde devia chamar-se Tókio.

Quanto ao Imperador, invulnerável símbolo, ligado por mil vínculos morais à própria alma do povo e superior a todas as lutas partidárias, vendo o Tai-Kum que jamais poderá afundá-lo na terra, nem varrê-lo para os lados, toma o expediente de despedi-lo para o céu; quer dizer, enquanto com uma das mãos lhe cerceia até o extremo a autoridade política, chegando a vedar-lhe à Corte intervir nos negócios do Estado, com a outra lhe dilata exageradamente o prestígio divino, e faz dele a sumidade metafísica e ultra-espiritual do Governo, transformando-lhe o trono em um altar sem Deus, a submissão e a fidelidade dos seus súditos em um culto religioso e vago, balbuciado apenas por cerimônias convencionalmente piedosas e distraídos votos de fé; transcendentalizando-lhe enfim a supremacia até lhe apagar de todo o último vestígio de realidade e dar com ela em águas de quimera. Nesse trono mágico, já sem vislumbre do cetro nem de coroa, não se assenta um monarca, ergue-se uma sombra divina; desprendida do solo, e cuja fronte se vai perder no infinito por entre nuvens de sonho alucinado; miragem hereditária de um poder supremo que existiu há dois mil anos; símbolo abstrato de uma onipotência que nada pode.

Já nem sequer é o Papa privativo do Japão esse pobre Imperador n,0 108, é um mito, é uma alegoria eponímica, é um fantasma que veio do céu e voltará para lá, sem haver tocado com as plantas na imundície terrena, atravessando a vida amortalhado na sua alva de gorgorão sem mácula, apenas guarnecida ao meio das amplas mangas com as heráldicas crisântemas imperiais; cativo espectro, cujo mesquinho âmbito de ação, o Tai-Kum foi, com as suas garras implacáveis, cada vez mais apertando até que o restringiu aos degraus do santuário, onde brilha já vinte e dois séculos, inalteravelmente, o espelho de Amateras, mãe formosa da ante-humana dinastia do prisioneiro. E agora, aí, de rastros, a única missão dessa alma penada, que ainda não habita o céu e nunca viveu na terra, é orar, suplicando noite e dia aos seus antepassados do empíreo a salvação espiritual desse povo simples e querido dos deuses, que, lá fora, nas estradas cheias de sol, correndo atrás do arroz de cada dia, esfervilha feliz e risonho, orgulhoso de se ver isolado do resto bárbaro do mundo pela mão ciosa e férrea de Tokugawa Ieiás, a quem, de resto o então rei da Inglaterra, Jacques I, chama no alto da sua respeitosa correspondência desse tempo: “Sua Majestade, o Shogun do Japão”

Tendo estabelecido a sua capital em Yedo, o Tai-Kum faz edificar por trezentos mil obreiros o famoso “Chiro Shogunal”, de abundantes e tortuosos canais, que ainda hoje são a felicidade dos olhos de quem passeia em Tókio; inexpugnável propugnáculo para aquelas épocas de fôlego largo e tiro curto, e atualmente gracioso parque e sui-generis palácio imperial de Sua Majestade Mutsu Hito. E aí, pois, há pouco menos de trezentos anos, instalava-se Ieiás com a sua esplêndida Corte, em que luziam, na vistosa gala de seda e ouro, cinqüenta e cinco fidalgos do seu Conselho Privado, originalmente intitulados “Chimaguns”; e os nobiliárquicos “Matsudairas” cortesãos honorários e adventícios que, em caso de necessidade, tomavam parte no Conselho; e os “Hattamotos”, em número de oitenta mil, que eram os vassalos diretos dos Tokugawas e gozavam da subida honra de poder assistir às cerimônias shogunais; e os “Cobemins”, nobreza puramente militar, ganha na guerra, formando a Ordem de Cavalaria japonesa instituída no campo de vitória de Sekigahara, aos quais não era dado penetrar nos recintos majestáticos do Shogun, mas que podiam dirigir-lhe a palavra em acampamento ou nas praças fortificadas; e enfim os infinitos Samurais, menos que cavaleiros, um pouco mais que simples soldados, a quem cabiam os postos subalternos de comando no efetivo das forças, com direito a ganhar título de nobreza e de transmitirem aos filhos as suas vantagens militares, e ainda com a prerrogativa, para eles muito estimada, de poderem trazer, em vez de uma, duas espadas à cinta; estes, como os fidalgos de alta linha, não casavam senão dentro da própria classe, tomando porém do povo as concubinas que quisessem.

Ieiás, como para se não servir da religião do Imperador, ou talvez cedendo ao seu temperamento ostentativo de homem de espírito, para o qual o fausto e o brilho estético eram viva necessidade como era o aplauso público, toma sob a sua égide o Budismo que ainda se não tinha levantado do abatimento em que o deixara Nobunaga; restaura-lhe suntuosamente os altares e traça com apurado bom gosto o homérico plano dos templos de Nikko na Montanha Sagrada, destinando-os à magnificente necrópole das suas próprias cinzas e das de sua dinastia; templos aonde levarei ainda o leitor e que são indubitavelmente os mais belos, mais artísticos e mais opulentos de todo o Japão antigo e moderno.

Com a direção inteiramente nova que Ieiás deu ao espírito de sua raça, imprimindo-lhe o cunho original do seu próprio espírito, criou-se a renascença japonesa; depois dele as artes e as letras ressurgem em plena eflorescência, atingindo no século seguinte um grau de elevação e pureza a que nunca até aí tinham aspirado sequer. A sua minuciosa e individualíssima lei deu logo ao Japonês tal consistência e tal homogeneidade de caráter, que desde então a vida desse povo ressalta harmoniosa, inteiriça e original, como uma bela obra concebida e realizada de um só jato por um autor de gênio. Fechando ele ciosamente a sedutora pátria à curiosidade importuna e à grosseira cobiça dos ocidentais, foi que conseguiu fazer, nem só a unidade nacional, mas a glória artística do Japão. E a esse largo feriado de reclusão e de paz, durante o governo dos Tokugawas, que o mundo culto deve o século XVIII do Extremo Oriente, o século de Hokusai e Utamaro, para citar apenas dois nomes já vulgarizados por Edmond de Goncourt; século em que o Japonês se constituiu em primeiro e mais poderoso artista decorador de todos os tempos.

(continua… Capitulo 3 – O Comodoro Perry Li Kammon)

Fontes:
http://www.biblio.com.br
Imagem = http://www.klepsidra.net

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Palavras e Expressões mais Usuais do Latim e de de outras linguas) Letra E

Ecce Agnus Dei
Latim – Eis o Cordeiro de Deus. Palavras de João Batista (Evangelho segundo João, 1.29) dirigidas ao povo quando Jesus veio à margem do Jordão para ser batizado. Usadas pelo sacerdote ao apresentar aos fiéis a hóstia consagrada, antes de distribuí-la.

Ecce Homo
Latim – Eis aqui o homem. Palavras de Pilatos, dirigidas ao povo judeu, enquanto Ihe apresentava Jesus, já coroado de espinhos, tendo nas mãos uma cana e nos ombros um farrapo de púrpura.

Ecce iterum Crispinus
Latim – Eis aqui novamente o Crispim. Frase de Juvenal, falando de um importuno.

Editio princeps
Latim – Edição principal. Expressão empregada para designar a primeira edição de uma obra.

Ego sum qui sum
Latim – Eu sou quem sou. Palavras de Deus a Moisés (Êxodo III, 14), quando o enviou para libertar o povo de Israel no Egito.

Eheu! fugaces labuntur anni
Latim – Ai de nós! os anos correm céleres. Expressão amargurada do poeta Horácio sobre a brevidade da vida.

Eheu! nullum infortunium venit solum
Latim – Ai de nós! nenhum infortúnio vem desacompanhado. Locução que serve de lema aos pessimistas.

Ejusdem farinae
Latim – Da mesma farinha. Expressão usada para englobar duas ou mais pessoas como portadoras dos mesmos defeitos.

Ejusdem furfuris
Latim – Do mesmo farelo. V ejusdem farinae.

Eli, Eli, lamma sabachtani
Hebraico – Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste? Frase citada entre as últimas pronunciadas por Jesus na cruz. As três primeiras palavras são hebraicas e a última é aramaica.

Emunctae naris
Latim – De nariz limpo. Expressão de Horácio (Sátiras, I, 4-8). Indica pessoa consciente, que sabe o que quer.

Enfant gaté
Francês – Criança mimada. Emprega-se para designar pessoa muito prestigiada pelos superiores e que se prevalece disso tornando-se negligente.

Enfant prodige
Francês – Criança prodígio. Emprega-se para designar a precocidade infantil em qualquer ramo de atividade.

Enfant terrible
Francês – Criança terrível. Criança mal-educada, que causa sérios embaraços aos pais.

Enfin Malherbe vint
Francês – Finalmente chegou Malherbe. Frase com que Boileau destaca o papel de Malherbe na poesia francesa.

Ense et aratro
Latim – Com a espada e o arado. Designa o cidadão que serve a pátria durante a guerra e cultiva o solo durante a paz.

Entente cordiale
Francês – Aliança expressa ou pacto de solidariedade e comunhão de interesses econômicos, políticos ou militares entre duas ou mais nações.

En toute chose il faut considérer la fin
Francês – Em tudo se deve considerar o fim. Moral da fábula de La Fontaine, A Raposa e o Bode.

Epicuri de grege porcum
Latim – Porco do rebanho de Epicuro. Epigrama de Horácio, que assim se classificava, escarnecendo da moral rígida pregada pelos estóicos. Designa hoje o materialista gozador da vida.

E pur, si muove
Italiano – Entretanto ela (a Terra) se move. Palavras de Galileu quando foi obrigado a retratar-se perante a Inquisição, por ter descoberto o movimento da Terra, considerado como heresia por aquele tribunal.

Erga omnes
Latim – Dir Para com todos. Diz-se de ato, lei ou dispositivo que obriga a todos.

Eripuit coelo fulmen sceptrumque tyrannis
Latim – Tirou o raio ao céu e o cetro aos tiranos. Inscrição do pedestal do monumento de Franklin, que alude à descoberta do pára-raios e ao espírito democrático com que militou na política.

Eritis sicut dii
Latim – Sereis como deuses. Palavras que a serpente dirigiu a Eva no paraíso, a fim de induzi-la a comer o fruto da árvore da ciência do bem e do mal (Gên. III, 5).

Errare humanum est
Latim – Errar é humano. Desculpa que se apresenta a fim de atenuar um erro ou engano.

Error in objecto
Latim – Direito – Erro quanto ao objeto. V aberratio ictus.

Error in persona
Latim – Direito – Erro quanto à pessoa. V aberratio delicti.

Erunt duo in carne una
Latim – Serão dois em uma só carne. Expressão bíblica usada na cerimônia do matrimônio para encarecer a união que deve reinar entre os esposos (Gên. II, 24; Mat. XIX, 5).

E sempre bene
Italiano – E sempre bem. Locução que traduz o otimismo dos peninsulares.

Est modus in rebus
Latim – Há um limite nas coisas. Frase com que Horácio aconselha a moderação em tudo.

Esto brevis et placebis
Latim – Sê breve e agradarás. Conselho escolástico aplicado à eloqüência.

Et campos ubi Troja fuit
Latim – E os campos onde existiu Tróia. Hemistíquio virgiliano, que se refere ao abandono de Tróia incendiada quando Enéias e seus companheiros a abandonaram.

Et caetera
Latim – E outras coisas. Expressão que se coloca abreviadamente (etc.) no fim de uma enumeração que se poderia alongar.

Etiam periere ruinas
Latim – Até as ruínas pereceram. Frase de Lucano descrevendo a visita de César às ruínas de Tróia onde não existiam mais vestígios da famosa cidade.

Eetiamsi omnes, ego non
Latim – Ainda que todos, eu não. Palavra de São Pedro a Jesus (Mt. XXVI, 35), jurando-lhe fidelidade no Jardim das Oliveiras.

Et la grace plus belle encore que la beauté
Francês – É a graça ainda mais bela que a beleza. Verso de La Fontaine no poema Adônis, onde elogia aqueles que suprem a ausência de beleza pelas boas maneiras.

Et monté sur le faite, il aspire à descendre
Francês – E, chegado ao apogeu, ele deseja descer. Verso em que Corneille descreve o fastio daqueles que subiram rapidamente.

Et nunc reges intelligite; erudimini qui judicatis terram
Latim – E agora compreendei, ó reis; instruí-vos, vós que governais a Terra. Palavras do Salmo II, versículo 10, citadas para ensinar que devemos aproveitar da experiência alheia.

Et par droit de conquête et par droit de naissence
Francês – Por direito de conquista e por direito de nascimento. Verso em que Voltaire defende Henrique IV, que, apesar de ter direito a suceder, foi obrigado a conquistar o trono da França pelas armas.

Et quasi cursores, vitae lampada tradunt
Latim – Como corredores, eles transmitem o facho da vida. Lucrécio compara a transmissão da vida humana ao jogo em que os atletas passam o facho ao seguinte, depois de correrem. O homem percorre a vida, transmite-a a seus filhos e mergulha na morte.

Et reliqua
Latim – E o restante. O mesmo que et caetera.

E tutti quanti
Italiano – E todos os demais. Serve para encerrar uma enumeração.

Ex abrupto
Latim – De repente; inopinadamente.

Ex abundantia
Latim – Com abundância, em grande quantidade.

Ex abundantia cordis
Latim – Da abundância do coração. Com sinceridade.

Ex adverso
Latim – Direito – Do lado contrário. Refere-se ao advogado da parte contrária.

Ex aequo
Latim – Direito – Segundo a eqüidade.

Ex animo dicere
Latim – Dizer com sinceridade.

Ex auctoritate legis
Latim – Pela força da lei.

Ex auctoritate propria
Latim – Pela sua própria autoridade; sem delegação.

Ex cathedra
Latim – Da cadeira. (Cadeira de São Pedro, símbolo da autoridade do papa. Quando o papa fala ex cathedra ensina como chefe da Igreja e continuador da missão apostólica. Por extensão, exprimir-se dogmaticamente, sem admitir objeções aos seus conceitos).

Ex causa
Latim – Direito – Pela causa. Diz-se das custas pagas pela parte que requer ou promove certo ato incontrovertível que somente a ela interessa ou aproveita.

Exceptio firmat regulam
Latim – A exceção confirma a regra.

Exceptis excipiendis
Latim – Exceto o que se deve excetuar.

Ex corde
Latim – De coração. Expressão empregada no fecho de cartas dirigidas a pessoas íntimas.

Excusez du peu
Francês – Desculpe o pouco. Frase irônica, com que se insiste sobre o preço excessivo de alguma coisa.

Ex digito gigas
Latim – Pelo dedo (se conhece) o gigante. A pessoa superior se manifesta nas menores ações.

Ex dono
Latim – Por doação. Expressão empregada em obras de coleção, que foram doadas por alguém.

Exegi monumentum aere perennius
Latim – Erigi um monumento mais perene que o bronze. Verso da Ode III de Horácio, referindo-se à própria obra literária.

Exempli gratia
Latim – Por exemplo. Geralmente empregada abreviadamente: e. g.

Exequatur
Latim – Execute-se. Direito= 1 Autorização dada por chefe de Estado para que um cônsul estrangeiro possa exercer suas funções no país. 2 Decisão de se cumprir no país uma sentença de justiça estrangeira. 3 Fórmula que autoriza a execução de sentença pronunciada por árbitros.

Ex expositis
Latim – Do que ficou exposto: Portanto, ex expositis, nada lhe resta.

Ex improviso
Latim – De improviso.

Ex informata conscientia
Latim – Sem ouvir o réu ou acusado ou o condenado. Literalmente significa: com a consciência informada, isto é, já com julgamento de antemão formado: Condenar alguém ex informata conscientia.

Ex itinere
Latim – Do caminho.

Ex lege
Latim – Por força da lei: Foi nomeado ex lege.

Ex libris
Latim – Dos livros de. Fórmula que antecede o nome da pessoa ou entidade a que pertence o livro com essa inscrição.

Ex nihilo nihil
Latim – Do nada, nada. Coisa alguma pode ser criada do nada. Aforismo tirado de um verso de Pérsio, erigido em princípio filosófico por Lucrécio e outros epicuristas.

Ex officio
Latim – Por obrigação, por dever do cargo. Dir Diz-se do ato realizado sem provocação das partes.

Ex ore parvulorum veritas
Latim – A verdade (está) na boca das crianças. As crianças não mentem.

Exoriare aliquis nostris ex ossibus ultor
Latim – Que algum vingador nasça de nossos ossos. Imprecação de Dido moribunda, citada por Virgílio (Eneida, VI, 625).

Expende Annibalem
Latim – Pesa Aníbal. Reflexão de Juvenal sobre a fragilidade da glória humana, como se perguntasse: que resta do grande guerreiro?

Experto crede Roberto
Latim – Crede no esperto Roberto. Antonius Arena coloca esta frase na boca do próprio Roberto, que faz a promoção de sua capacidade.

Explicit
Latim – Acabou, terminou. Indica o fim de uma obra que, em geral, começava com a palavra incipit; daí a expressão: Do incipit ao explicit, do começo ao fim.

Ex positis
Latim – Das coisas estabelecidas, assentado: Ex positis, a sociedade está desfeita.

Ex professo
Latim – Do proferido. Como profundo conhecedor; magistralmente.

Ex proprio jure
Latim – Por direito próprio.

Ex toto corde
Latim – De todo o coração. Empregada no final das cartas.

Extra petita
Latim – Dir Além do pedido. Diz-se do julgamento proferido em desacordo com o pedido ou natureza da causa.

Ex tunc
Latim – Direito – Desde então. Com efeito retroativo.

Ex ungue leonem
Latim – Pela garra (se conhece) o leão. Das mãos de um grande mestre só podem sair obras importantes.

Ex vi
Latim – Por força. Por determinação de; em virtude de.

Ex vi legis
Latim – Direito – Por força da lei. Em virtude da lei.

Ex voto
Latim – Por voto. Imagem, quadro ou outro objeto que se coloca nos altares, em agradecimento a Deus ou a um santo por uma graça conseguida.

Fonte:
Hélio Consolaro.
http://www.portrasdasletras.com.br .

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Miguel Perrone Cione (O Peregrino)

O peregrino sobre o mar de brumas(Casper David Friedrich)
Ele surgiu um dia na cidade. Era um homem visivelmente sofrido. Em uma das mãos levava uma tosca flauta de bambu, talvez por ele mesmo fabricada, e nos lábios, o esboço esmaecido de um sorriso forçado.

Ao ingressar para a vida cotidiana daquela urbe, descobriu logo, junto à praça de uma pequena igreja, o lugar ideal para o seu destino de homem pobre, que necessitava da caridade pública para sobreviver.

No local escolhido, todos os dias, empunhando o tosco instrumento, ele dava para os transeuntes seu concerto musical, executando as mais variadas melodias.

Não pedia nada a ninguém, mas o seu boné azul desbotado, colocado sobre o lajedo da calçada de boca para cima, solicitava por ele um auxílio monetário às pessoas caridosas que pelo local passavam.

No início, quando era novidade no bairro, muita gente interrompia o trajeto para aplaudi-lo, porque na realidade ele manejava aquela flauta de bambu com a habilidade de um exímio artista. Depois, com o passar dos dias, os ouvintes foram diminuindo, e também escasseando os níqueis que caíam em seu surrado boné.

Quando o sol descia no horizonte, o flautista partia para o repouso noturno, levando o parco produto da féria do dia.

Nunca soubemos como e onde se alimentava, nem em que lugar o pobre homem se abrigava da noite densa. Mas pela manhã, quando o sol, com sua luz dourada, abria as portas do dia, lá estava ele reaparecendo para a continuação das suas atividades.
Sempre recolhido em sua introspecção, não conversava; apenas com leve aceno de mão agradecia sempre aos que lhe auxiliavam com a pequena contribuição monetária.

Descobriu-se afinal, que o pobre flautista era mudo. Não podia falar, mas a sua voz era ouvida nos acordes da melodiosa flauta que magistralmente tocava.

Durante um ano inteiro o «homem da flauta», como era chamado, alegrou o bairro com a sua música maravilhosa, mas com o tempo o seu público foi se dispersando definitivamente.

Certo dia, o mágico da flauta desapareceu. Muita gente perguntou por ele. Para onde teria ido e porque teria partido, ninguém conseguiu explicar.

Chegou de algum lugar e para algum lugar partiu, como um simples forasteiro, um peregrino, uma ave que constantemente fugisse sem rumo, em busca de calor humano, talvez…

Partiu, deixando no seu rastro de artista e de sofredor, uma lembrança qualquer. Motivos insuperáveis podem guiar as ações dos homens.

Que mistério envolveria aquele personagem estranho? Quem poderia adivinhar o que vai perdido no coração de um homem solitário? Que turbilhão de sombras se entrechocam na alma dos desamparados, dos desesperados que se encontram ilhados na miséria e no desconsolo? Dos que perdem suas últimas esperanças no descaso dos que passam indiferentes à sua dor?…

Que convulsão de tristezas pode ocultar-se por trás da máscara da face? Que destinos enigmáticos e desencontrados guiariam os homens na senda da sua sorte e das suas paixões?…

Fontes
http://www.movimentodasartes.com.br
Pintura = http://vislumbre.files.wordpress.com

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Nilto Maciel (Panorama do Conto Cearense – Parte XIII)

SÍNTESE CRONOLÓGICA

Neste quadro estão anotados, em ordem cronológica, os títulos dos livros de contos estudados ou apenas mencionados (ano da publicação em primeira edição) no estudo, seguidos dos nomes dos autores, bem como de algumas antologias. E também fatos da História da Literatura Cearense, tais como o surgimento de grupos e periódicos literários.

1856 – Cinco Minutos (plaqueta, fora do mercado) – José de Alencar.
1860 – Cinco Minutos e A Viuvinha – José de Alencar.
1861 – Trindade Maldita (Contos no Botequim) – Franklin Távora.
1868 – Contos Brasileiros – Araripe Júnior.
1871 – Cenas Populares – Juvenal Galeno.
1886 – Fundação do Clube Literário.
1887 – Aparecimento do jornal A Quinzena, do Clube Literário, onde se publicaram contos de Oliveira Paiva e outros.
1889 – Ciências Naturais em Contos – Rodolfo Teófilo.
1892 – Criação da Padaria Espiritual e do jornal O Pão, no qual se publicaram contos de Artur Teófilo e outros.
1894 – Contos do Ceará – Eduardo Sabóia.
1894 – Criação do Centro Literário e de sua revista Iracema, que passou a se imprimir no ano seguinte.
1895 – Diferentes – Quintino Cunha.
1895 – Miudinhos – Fernando Weyne.
1897 – Perfis Sertanejos – José Carvalho.
1897 – Coleção de Contos – Francisca Clotilde.
1898 – Isaura – José Pereira Martins.
1901 – Em Sonhos – Alba Valdez (pseudônimo de Maria Rodrigues Peixe).
1907 –Histórias da vida e da morte e Um coração sensível – Tomás Lopes.
1910 – Caras e corações – Tomás Lopes.
1910 – O Conduru – Rodolfo Teófilo.
1912 – Livro Truncado – Oscar Lopes
1915 – Praias e Várzeas – Gustavo Barroso.
1918 – O Cisne Branco – Tomás Lopes.
1920 – Seres e Sombras – Oscar Lopes. Não há data da publicação de Maria Sidney.
1920 – Ronda dos Séculos – Gustavo Barroso.
1922 – Mula-sem-cabeça e Pergaminhos – Gustavo Barroso.
1922 – Torturas do Desejo – Carlos de Vasconcelos.
1924 – Alma Sertaneja, Mapirunga, O Bracelete de Safiras (s/d), Livro dos Milagres, Cinza do Tempo (s/d) – Gustavo Barroso.
1924 – Tigipió – Herman Lima.
1928 – A Mãe-da-Água – Herman Lima.
1929 – Flagrantes ao Sol do Norte – Santino Gomes de Matos
1931 – Idéia Fixa – Antônio Furtado, Rio de Janeiro.
1933 – Rincões dos Frutos de Ouro, premiado pela Academia Brasileira de Letras – Sabóia Ribeiro.
1933 – Mulheres de Paris – Gustavo Barroso.
1934 – Manipueira – Fran Martins.
1934 – Impróprio para Menores – R. Magalhães Júnior.
1936 – Fuga e Outros Contos – R. Magalhães Júnior.
1939 – O Livro dos Enforcados – Gustavo Barroso.
1943 – Sapupema (contos amazônicos) – José Potyguara ou Potiguara.
1943 – Surgimento do Grupo Clã, a revista do mesmo nome e as Edições Clã.
1943 – Águas Mortas – Eduardo Campos
1946 – Face Iluminada – Eduardo Campos.
1946 – Noite Feliz – Fran Martins.
1946 – Uma Chama ao Vento, reeditado em 1980 pelas Edições UFC – Braga Montenegro.
1948 – Mar Oceano – Fran Martins.
1949 – Vidas Marginais – Moreira Campos.
1949 – A Viagem Definitiva – Eduardo Campos.
1954 – Contos – Papi Júnior, publicação da Academia Cearense de Letras.
1955 – Açude e Outros Contos – F. Magalhães Martins.
1955 – Trevo de quatro folhas – Cândida Galeno (Nenzinha Galeno).
1957 – Portas Fechadas – Moreira Campos.
1958 – Caminho sem horizonte – Artur Eduardo Benevides.
1960 –Alma Rude, contos regionais – Carlyle Martins.
1960 – O Amigo de Infância – Fran Martins.
1960 – Sete Estrelo – Milton Dias. Seguiram-se As Cunhãs, A Ilha do Homem Só, Entre a Boca da Noite e a Madrugada, Cartas sem Resposta, As Outras Cunhãs e A Capitoa, todos subintitulados “estórias e crônicas”.
1961 – Trapiá – Caio Porfírio Carneiro.
1963 – O Brasileiro Perplexo – Rachel de Queiroz.
1963 – As Vozes do Morto – Moreira Campos.
1964 – A Vida em Contos – Margarida Sabóia de Carvalho.
1965 – Uma Antologia do Conto Cearense (Imprensa Universitária do Ceará), com apresentação de Braga Montenegro.
1965 – Os Grandes Espantos – Eduardo Campos.
1965 – Editor de Insônia – José Alcides Pinto.
1965 – Publicação do ensaio “Evolução e Natureza do Conto Cearense”, de Braga Montenegro.
1966 – Contos do Cacau – Sabóia Ribeiro.
1967 – As Danações – Eduardo Campos.
1968 – O Abutre e Outras Estórias – Eduardo Campos.
1969 – O Puxador de Terço – Moreira Campos.
1969 – Mundinha Panchico e o Resto do Pessoal – Juarez Barroso.
1969 – Os Meninos e o Agreste – Caio Porfírio Carneiro.
1970 – O Tropel das Coisas – Eduardo Campos.
1971 – Histórias de Trancoso – Cruz Filho.
1972 – A Morte Trágica de Alain Delon – Francisco Sobreira.
1972 – Exercício Para o Salto – Cláudio Aguiar.
1972 – Os Olhos do Lixo – Socorro Trindad.
1972 – A Coleira de Peggy – Holdemar Menezes.
1973 – Pluralia Tantum – Gilmar de Carvalho.
1974 – Itinerário – Nilto Maciel.
1975 – O Casarão – Caio Porfírio Carneiro.
1976 – Surgimento da revista O Saco Cultural.
1976 – As Viagens e Outras Ficções, (novelas e contos), mais uma seleção dos Contos Derradeiros, até então inéditos em livro – Braga Montenegro.
1976 – Publicação, em livro, dos Contos de Oliveira Paiva.
1976 – Joaquinho Gato – Juarez Barroso.
1976 – O Menino D’água – Fernanda Teixeira Gurgel do Amaral.
1977 – Chuva – Os Dez Cavaleiros – Caio Porfírio Carneiro.
1977 – Depoimento de um Sábio – Cláudio Aguiar.
1977 – Milagre na Salina (catalogado como romance) – Mario Pontes.
1977 – Coisas & Bichos – José Hélder de Souza.
1977 – O Barco Naufragado – Holdemar Menezes.
1977 – Tocaia – Yehudi Bezerra.
1978 – Os Doze Parafusos – Moreira Campos.
1978 – Cada Cabeça uma Sentença – Socorro Trindad.
1978 – Reencontro – Glória Martins.
1978 – A Sonda Uretral – Holdemar Menezes.
1979 – Forma-se o Grupo Siriará, que edita um número de Siriará – Uma Revista Literária.
1979 – A Morte do Anjo da Guarda – Martins d’Alvarez.
1979 – A Noite Mágica – Francisco Sobreira.
1979 – Piero Della Francesca ou As Vizinhas Chilenas – Gerardo Mello Mourão.
1979 – O Mundo Refletido nas Armas Brilhantes do Guerreiro – Geraldo Markan.
1979 – O Grande Pânico – Airton Monte.
1979 – O Cabeça-de-Cuia – Paulo Véras.
1980 – Não Enterrarei os Meus Mortos – Francisco Sobreira.
1980 – O Jogador de Sinuca – Rachel de Queiroz.
1980 – Dia da Caça – Eduardo Campos.
1980 – Canoa Quebrada – Oniricrônicas – Geraldo Markan.
1980 – Contagem Depressiva – Simone Gadelha.
1981 – 10 Contistas Cearenses (antologia) – Apresentação de F. S. Nascimento.
1981 – Tempos de Mula Preta – Nilto Maciel.
1981 – O Contra-Espelho – Caio Porfírio Carneiro.
1981 – Homem Não Chora – Airton Monte.
1981 – Viagem – Nilze Costa e Silva.
1983 – Um Dia … os Mesmos Dias – Francisco Sobreira.
1983 – A Estranha Estória de Bebeto Areião – José Maria Leitão.
1983 – A Viúva Fanática – Pery Augusto Bezerra. Publicou também Catarina e Outras Histórias Curtas de Amor.
1983 – Raios de Sol – Furtado Neto.
1983 – Alba Sangüínea – Airton Monte.
1983 – Seu Defunto e Outro – Pedro Wilson Rocha.
1983 – Conversa Fiada – Teoberto Landim.
1983 – Garoto de Baturité – Reginaldo Dutra.
1984 – Reflexões. Terror. Sobrenatural. Outras estórias – José Alcides Pinto.
1984 – Ofos – Carlos Emílio Corrêa Lima.
1984 – Caco de Vidro – Pedro Wilson Rocha.
1984 – A Lenda das Estrelinhas Magras – Rosemberg Cariry.
1984 – Os eleitos para o sacrifício – Holdemar Menezes.
1985 – A Grande Mosca no Copo de Leite – Moreira Campos.
1985 – Viagem sem Volta – Caio Porfírio Carneiro.
1985 – O Discurso da Mulher Absurda – Joyce Cavalcante.
1985 – Quinze Casos Contados – Ribamar Lopes.
1986 – Sai o primeiro número de Seara – Revista de Literatura, como órgão do Grupo Seara.
1986 – Punhalzinho Cravado de Ódio – Nilto Maciel.
1987 – Dizem que os Cães Vêem Coisas – Moreira Campos.
1987 – Já Fez a sua Fezinha Hoje?– Audifax Rios.
1987 – Ofícios de Desdita – Jorge Pieiro.
1987 – Psiu, o síndico pode estar ouvindo! – Leonisa Maria Magalhães de Souza.
1988 – Iluminuras – Natércia Campos.
1988 – Dilúvio – Nilze Costa e Silva.
1989 – Análise – Fran Martins.
1989 – O Tempo Está Dentro de Nós – Francisco Sobreira.
1989 – Os Dedos e os Dados – Caio Porfírio Carneiro.
1989 – Fragmentos de Panaplo – Jorge Pieiro
1989 – Último Ato – Beth Moreira Lima
1990 – Viagem e outras histórias – Roberto Amaral.
1990 – Antologia do Conto Cearense, organizada por Mary Ann Leitão Karan.
1991 – As Insolentes Patas do Cão – Nilto Maciel.
1992 – Rio dos Ventos – José Hélder de Souza.
1992 – Mergulhador de Acapulco – Sérgio Telles.
1992 – As Leves e Duras Quedas do Amor – Regine Limaverde.
1992 – Surge o jornal O Pão, dirigido por Virgílio Maia.
1993 – O Escrivão das Malfeitorias – Eduardo Campos.
1993 – Clarita – Francisco Sobreira.
1993 – D’aquém e D’além Mar – Beatriz Alcântara.
1993 – A Mulher de Passagem – Carlos d’Alge.
1993 – Itinerário do Reino da Barra – Dimas Carvalho.
1995 – O Navio Morto e Outras Tentações do Mar – Moacir C. Lopes.
1995 – A Partida e a Chegada – Caio Porfírio Carneiro.
1995 – Grandes Amizades – Francisco Sobreira.
1995 – Histórias do Começo do Mundo (7 Contos Minúsculos) – Alano de Freitas.
1995 – Margem Oculta – Paulo de Tarso Pardal.
1995 – O Peso do Morto – Pedro Salgueiro.
1995 – É criada Espiral: Revista Literária.
1996 – O Irresistível Charme da Insanidade – Ricardo Kelmer.
1996 – As Noites e os Dias – Ronaldo Correia de Brito.
1996 – O Espantalho – Pedro Salgueiro.
1996 – O Talento Cearense em Contos, antologia organizada por Joyce Cavalcante.
1997 – Crônica do Amor e do Ódio – Francisco Sobreira.
1997 – Babel – Nilto Maciel.
1997 – O Pescador da Tabocal – Batista de Lima.
1997 – Guia Prático para Sobrevivência no Final dos Tempos – Ricardo Kelmer.
1997 – O Caçador – Rinaldo de Fernandes.
1997 – Velhos Contos, Novos Contos – Zorrillo de Almeida Sobrinho.
1997 – Publica-se o Almanaque de Contos Cearenses.
1998 – A Borboleta Acorrentada – Eduardo Campos.
1998 – Mão de Martelo e Outros Contos – Astolfo Lima Sandy.
1998 – O Vendedor de Judas – Tércia Montenegro.
1998 – Na trilha dos Matuiús – José Costa Matos.
1998 – A Miragem do Espelho – Carlos Gildemar Pontes.
1999 – Andante com Morte – Mario Pontes.
1999 – A Casa do Morro Branco – Rachel de Queiroz.
1999 – Noturnos – Ana Miranda.
1999 – Foi na Seca do 19 – Lustosa da Costa.
1999 – Pescoço de Girafa na Poeira – Nilto Maciel.
1999 – Difícil Enganar os Deuses – Paulo de Tarso Pardal.
1999 – Glórias e Vanglórias – Vasco Damasceno Weyne.
1999 – Sai o primeiro número de Literapia – Revista de Literatura da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, sob a direção do poeta Pedro Henrique Saraiva Leão.
1999 – Caos Portátil – Jorge Pieiro.
1999 – O Pranto Insólito – Eduardo Campos.
2000 – Pequenas Histórias Matutas – José Hélder de Souza.
2000 – Histórias de Zoologia Humana – Dimas Carvalho.
2000 – Brincar Com Armas – Pedro Salgueiro.
2000 – O Pranto Insólito – Eduardo Campos.
2001 – Sobre o Mundo – José Peixoto Júnior.
2001 – A Revolta do Computador e Outros Contos de Mistério – Artur Eduardo Benevides.
2001 – Linha Férrea – Tércia Montenegro.
2002 – Reunidos, em livro, 11 contos de Adolfo Caminha, por Sânzio de Azevedo, sob o título Contos, pela Editora da UFC.
2002 – A arte de engolir palavras – Lourdinha Leite Barbosa.
2002 – A Viúva do Vestido Encarnado – Barros Pinho.
2002 – Peixe de Bicicleta – Sérgio Telles
2002 – Janeiro é Um Mês Que Não Sossega – Batista de Lima.
2002 – Dançando com Sapatos que Incomodam – Luciano Gutembergue Bonfim.
2002 – Sobre a Gênese e o Caos – João Soares Neto.
2003 – Faca – Ronaldo Correia de Brito.
2003 – Fábulas Perversas – Dimas Carvalho.
2003 – Sob Eros e Thanatos – Giselda Medeiros.
2003 – Mosaicos – Maria Thereza Leite.
2003 – Se Me Contam, Eu Conto – Regine Limaverde.
2003 – Um Homem Chamado Noel – Mario Pontes
2004 – Chame os Meninos – Lucineide Souto

Continua… Parte XIV e final : Conclusão

Fonte:
http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=986

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Artur de Azevedo (A Nota de Cem Mil-Réis)

O Cavalcânti era um marido incorreto, para não empregar um adjetivo mais forte; imaginem que os seus recursos não davam para acudir a todas as necessidades da família e, no entanto, era ele um dos amantes da Josephine Leveau, uma cocotte francesa, cujo nome era muito conhecido nas rodas alegres, e se prestava aos trocadilhos mais interessantes, quer em francês, quer em português.

Como a esposa do Cavalcanti era uma hábil costureira, recorreu à sua habilidade para ajudar nas despesas de casa. Um dia fez um vestido para uma amiga, e, tão bem feito, tão elegante, que a sua fama correu de boca em boca, e valeu-lhe uma freguesia certa, que lhe dava algum dinheiro a ganhar. Havia meses em que ela fazia trezentos mil-réis.

O Cavalcanti não protestou, pelo contrário aprovou. Fez mais, como vão ver.

Uma bela manhã, a Josephine mandou-lhe pedir cem mil-réis para uma necessidade urgente, e ele não os tinha, nem sabia onde ir buscá-los. Hesitou durante algum tempo em cometer uma baixeza, mas acabou cometendo-a. Já o leitor adivinhou que o miserável pediu à esposa o dinheiro que devia mandar à amante.

A pobre senhora não manifestou a menor contrariedade: foi ao seu quarto, abriu uma gaveta onde guardava o fruto do seu trabalho, e tirou uma nota de cem mil-réis, ainda nova. Antes de levá-la ao marido, que esperava na sala de jantar, contemplou-a durante algum tempo como para despedir-se dela para sempre, e então notou que alguém escrevera num canto estas palavras com letra miúda: “Nunca mais te verei, querida nota!” E como D. Margarida – ela chamava-se Margarida – tivesse um lápis à mão, escreveu por baixo daquelas palavras “Nem eu!”.

O Cavalcanti empalmou os cem mil-réis com um estremeção de alegria.

– Este dinheiro faz-te muita falta? – perguntou ele.

– Não – respondeu ela – hoje mesmo espero receber igual quantia.

Meia hora depois, o Cavalcânti entregava a nota, dentro de um envelope, a Josephine Leveau.

Nesse mesmo dia D. Margarida recebeu os outros cem mil-réis que esperava. Contra o seu costume, o Cavalcânti estava em casa.

– Olha, disse-lhe ela, aqui estão os cem mil-réis que eu contava receber. A freguesa é boa.

– Quem ela é? perguntou o marido.

– Não a conheço; veio ter comigo e pediu-me que lhe fizesse um vestido de seda, riquíssimo. Tinham-lhe dito que eu trabalhava bem e barato.

– Mas é senhora séria?

– Parece. É francesa, e casada com um banqueiro, disse-me ela. Naturalmente o marido é também francês, porque ela chama-se Madame Leveau.

– Leveau! repetiu o Cavalcânti empalidecendo.

– Conheces?

– Não.

– Então, por que fizeste essa cara espantada? Boa freguesa! O vestido foi hoje de manhã cedo, e hoje mesmo veio o dinheiro.

– Onde mora essa Madame Leveau?

– Na Rua do Catete.

Dizendo isto D. Margarida abriu o envelope e retirou os cem mil-réis.

– Que coincidência! disse ela; a nota é da mesma estampa da qual te dei hoje de manhã! Por sinal que a outra tinha no canto… Oh!…

Este grito quer dizer que D. Margarida tinha lido a frase “Nunca mais te verei”, e o seu acréscimo: “Nem eu!”.

– Que foi? perguntou o Cavalcanti.

– A nota é a mesma!…

– A mesma? repetiu o marido gaguejando.

– A mesmíssima! Reconheço-a por causa destas palavras… Vê! a minha letra!…

O Cavalcanti arranjou uma desculpa esfarrapada: disse que tinha pago os cem mil-réis ao banqueiro Leveau, a quem os pedira emprestados; mas D. Margarida não engoliu a pílula, e foi à casa de Josephine certificar-se de que esta era uma cocotte freqüentada por seu marido.

A pobre senhora separou-se do desgraçado, e abriu casa de modista. Ganha muito dinheiro.

Fonte:
http://www.biblio.com.br/

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Antonio Carlos Tórtoro (O Banquete De Pratão)

Comer e beber com alguém é, para mim, quase que um ritual sagrado e, por isso, não bebo nem como com o inimigo.

Penso assim talvez por ser do tempo em que a família se reunia duas vezes por dia, durante as refeições, ao redor de uma mesa, para conversar sobre todos os assuntos, principalmente sobre aqueles que faziam parte do cotidiano de todos os seus componentes.

E, por falar em comer à mesa e conversar, no último dia 15 de outubro, Dia do Professor, participei com minha esposa de uma galinhada, oferecida pela direção do colégio Anchieta aos professores e funcionários: um banquete de pratão.

Pratão de legumes, pratão de patê de alho, da Roberta, pratão de patê de atum, da Rosa, tudo bem temperado, bastante cerveja, bem gelada e, flores, muitas flores em pequenos vasos, além do ramalhete que entregamos à anfitriã, a professora Alcilene Soares Aguiar, ao som de Ray Connif, em comemoração à passagem do dia dos mestres.

Vivemos, por alguns instantes, belos e expressivos momentos de encontro com os nossos semelhantes, que só os pequenos grandes gestos do dia-a-dia podem proporcionar: um sorriso aberto e franco, um aceno ou aperto de mão de duração mais longa.

No famoso Banquete de Platão, Sócrates conta a história de seu encontro com Diotima, quando tinha por volta de 30 anos. Nessa obra universalmente conhecida, o amor é definido por ele como carência daquilo que se ama, do objeto amado. É o que inspira os seres a partir em busca do Belo: esse belo, a idéia eterna da qual todas as coisas belas participam gradativamente, é alcançado pela ascese dialética, por degraus. Primeiro, pode-se ver o belo nos corpos, depois, na natureza, etc, até se chegar ao belo em si.

No nosso banquete de pratão, não discutimos o amor: nós somente o vivemos. Vivemos por alguns momentos — fora do ritmo alucinante de um dia de trabalho na escola — a satisfação de ouvir o colega sobre assuntos nada pedagógicos, o prazer de ver a troca de colos de suas crianças que ainda não freqüentam a escola, a alegria de abraçar cada um que chega com um sorriso e votos de boas vindas.

Depois de quase uma hora de conversa jogada fora, muitas gargalhadas, piadas, chega o pessoal do Barriga – assado na brasa, sem o assado, mas com três enormes panelas da mais saborosa galinhada do ano.

Com o passar do tempo, os grandes grupos vão se desmanchando e transformam-se em pequenos outros grupos espalhados pelos amplos espaços dos pátios do colégio.

Antes de ir embora, ainda sobra tempo para comer algumas amoras — com o ímpeto dos tempos de criança — retiradas na hora, dos pés repletos de pequenos pontos escondidos entre o verde das folhas, qual saborosas lagartas negras.

Não é preciso ir a Atenas ou Paris para ser feliz: Basta olhar com amor e fraternidade aqueles que fazem parte do nosso cotidiano e, se possível, beber e comer com eles.

Fontes:
Academia Ribeirãopretana de Letras.
http://www.movimentodasartes.com.br/arl
Imagem =
http://emalmada.blogspot.com

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Antonio Carlos Tórtoro (1949)

Nasceu em 3 de março de 1949. Estudou nas Faculdades Barão de Mauá (atualmente Centro Universitário Barão de Mauá) onde terminou a licenciatura plena em Matemática , Física e Desenho Geométrico, além de Pedagogia : Supervisão , Administração e Orientação Educacional.

Trabalhou nas Ordens de Pagamento no Banco Bandeirantes, vendedor de peças na Lion , organizador de uma loja na Bérgamo Auto Peças. Começa a lecionar no Colégio Metodista, depois pelo SENAI , pelo Colégio Colégio Santa Úrsula , pelo Centro Universitário Barão de Mauá, chegando , em 1995 , ao Colégio Anchieta, onde, atualmente, é Orientador Educacional, após ter sido professor de Matemática e Coordenador Pedagógico.

Iniciou-se com um poema publicado em 1 989 na coluna Poetas de Ribeirão Preto, no Jornal A Cidade.

A partir de 2000, interessou-se por fotografia e passou a fazer parte do Grupo Amigos da Fotografia, ao lado de Elza e João Rossato.

Tem publicados livros de poemas , e de poemas em fotos. Membro de diversas entidades culturais , publica artigos em jornais e revistas.

Membro da Academia Ribeirão-pretana de Letras (ARL) desde o ano de 1981, o escritor e poeta Antônio Carlos Tórtoro assumiu a presidência da instituição literária em 1996, após a abdicação ao cargo do antecessor, o literato Luiz Carlos Raya.

Leitor preferencial de biografias, o poeta declara “Ribeirão Preto é um cenário favorável para produção literária. Temos bons escritores, com obras de qualidade. Mas há escassez de oportunidades para publicação destes trabalhos. Isso parte das editoras e pessoas que estão por trás da parte financeira da literatura”. Engajado no mundo dos versos, Tórtoro afirma ainda que sua estética difere-se da linguagem do romance e que não pretende tornar-se romancista.

O posicionamento do artista em relação à literatura é humilde e desapegado. “Não sou um grande conhecedor de literatura como a equipe da ARL, por ser oriundo da matemática. Sou um poeta entusiasta do movimento literário”. Tórtoro discorre, entretanto, por temas ligados às letras. “Não vejo a literatura do interior paulista como algo tão característico em ícones de personalidade como ocorre com as literaturas mineira e gaúcha”.

Quanto à polêmica existente no universo literário quanto à rivalidade entre autores e leitores alencarianos e machadianos, ele posiciona-se: “Houve um tempo em que eu admirava e consumia os textos de José de Alencar, mas confesso que encontrei uma estética mais moderna na escrita de Machado de Assis; todavia, respeito todas as linguagens literárias”. Sobre outra polêmica literária, as duras críticas dos poetas modernos em relação ao período do parnasianismo brasileiro, Tórtoro define sua visão: “A poesia moderna é mais democrática, a partir do momento em que não é preciso pertencer-se à uma elite intelectual para escrever. Os poetas parnasianos e a métrica rígida daquela estética constituíam uma elite, dona de rico vocabulário e conhecimento”.

Para o autor, escrever poesia no mundo atual, rápido e capitalista, consiste em “uma maneira diferenciada de observar o homem e sua alma. O retorno financeiro não é suficiente. O prazer está no exercício da arte”.

Casado desde 1976, Tórtoro possui um casal de filhos. “Já escrevi um poema para minha esposa, ´Salvador sem você´, durante uma viagem à capital baiana. Nestes versos, cito as belezas da cidade em questão, mas todas elas são incompletas na ausência do objeto de amor do eu lírico”.

Em seu livro, “Antologia Ítalo-brasileira”, lançado em 2003, o artista versa em dois idiomas, português e italiano.

Publicações

livro de poemas “ECOS “, lançado em 1991.
livro de poemas “EDELWEISS” lançado em 1992.
livro de poemas “ MOSAICO “ , lançado em junho de 2000 .
livro de poemas “ ANTOLOGIA DE POESIAS” , antologia Ítalo-brasileira , bilíngüe, com o poeta , Cláudio De Donatis , em agosto de 2003 , na 3ª. Feira Nacional do Livro de Rib. Preto .
livro de poemas “ESTRELAS NO MAR “- COLEÇÃO VEREDAS- EDITORA MODERNA , lançado em 1 994 e que concorreu ao PRÊMIO JABUTI/95 – já na sua 6a. Edição , fazendo parte da lista de livros da FAE-FEDERAL.

Autor dos textos de cada uma das fotos do livro ARQUITETURA DO PASSADO- UM OLHAR SOBRE RIBEIRÃO , lançado em setembro de 2005, na Feira Nacional do Livro de Rib. Preto, pela Gráfica Villimpress. Um trabalho conjunto com o site Movimento das Artes e o grupo Amigos da Fotografia.

Autor dos textos de cada uma das fotos do livro RIBEIRÃO PRETO – O PASSADO MANDA LEMBRANÇA – VOLUME I , lançado em setembro de 2006, na 6ª. Feira Nacional do Livro de Rib. Preto, pela Gráfica Villimpress. Um trabalho conjunto com o grupo Amigos da Fotografia.

Autor dos textos de cada uma das fotos do livro RIBEIRÃO PRETO – O PASSADO MANDA LEMBRANÇA – VOLUME II , lançado em julho de 2008, na 8ª. Feira Nacional do Livro de Rib. Preto, pela Gráfica Villimpress. Um trabalho conjunto com o grupo Amigos da Fotografia.

Fontes:
– Artigo de João Pedro Vicente. http://www.baraodemaua.br/jornal/2004/novembro/tortoro.htm
http://www.tortoro.com.br/

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Caldeirão Literário do Pernambuco (Samantha Medina)

Samantha Medina
(1986 Recife/Pernambuco)

À ESPERA (INSÔNIA QUE PRECEDE A CHEGADA)

As madrugadas passam lentas
No compasso andante,condutor
Das horas de espera,que se arrastam,
Aleijadas,
Espalhando a poeira,
Decantada nos adormecidos;

As madrugadas passam lentas
Enquanto me desintegro no caos
De meu cansaço, ouvindo
Os sons do trânsito das ruas
Contornando os meus sonhos
E a minha cama,por longas avenidas…

As madrugadas passam lentas,
Entorpecidas pela melodia,
Ensurdecedora, do Silêncio
Dos que dormitam seus sonos
Sem saber,da areia em minhas retinas
E do meu corpo exausto, insistente…

Até que,decidida, eu me esparrame
Numa folha branca qualquer,
Já fatigada de tanto esperar…

– Então, a lenta madrugada alumia-se
da Maior-Estrela… E a Poesia, enfim, chega,
Sonolenta, seguindo o rastro da aurora.
============
ÉTER E CARNE

Éter. Senhor de todos os elementos,
Substância e sobranceiro das aparências sem
[substância;
Elo. Ligação entre o lume celeste e o abismo,
Onde o Puro destaca-se soberbo no azulado etéreo
E ardem azulados os fogos…
Veste a Terra viço e flores
E já mais e mais a Terra ao Éter se remonta.

No perfume do Éter a Carne dormente se inflama,
Vaga em cósmicos espaços,
Alcança e Espírito a dimensão indolor,
Onde tudo é amor e céu e luz…

A Alma vive na matéria,
Palpável, pungente, efêmera residência-matéria
Mas quando enfim se apresenta o derradeiro
A Alma canta feliz ao se tornar liberta
E segue o seu caminho rumo à atmosfera pura e
[reluzente…

Então,o Espírito que volve ao Éter renasce
E na pureza do Éter a Carne se desfaz.
================
CANTIGAS, LEVA-AS O VENTO

Na mais sublime terra, no mais alto ar,
Em torrentes de som a suspirar
Viandantes conduzidas pelo tempo,
– Cantigas, leva-as o vento.

De sopro em sopro é fantasia
Que toca a todos, destrói o medo,
Atravessa o tempo, e o segredo
Em brisa, vira doce melodia.

Qual acorde efêmero, intocável
É também, impalpável como sentimento,
Transeunte incontrolável
– Cantigas leva-as os vento.

E quando der vontade de chorar
Da alma é só tirar, nota a nota,
O ressoar da música que conforta:
– Cantigas, ventos a me levar.

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O Nosso Português de Cada Dia (OUVIR E ESCUTAR)

A cada dia dúvidas de nosso português

Esta é mais uma daquelas questões sobre palavras sinônimas, mas que antigamente os gramáticos classificavam como diferentes.

Antigamente dizia-se que ouvir e escutar eram verbos diferentes. Ouvir deveria ser usado no sentido de “perceber o som pelo sentido da audição” (Dicionário Houaiss). Nessa definição, não consta a idéia de prestar atenção. Assim, a pessoa poderia ouvir, isto é, captar o som, mas estar pensando em outra coisa completamente diferente.

Já o verbo escutar era entendido com a idéia não só de captação do som, mas também de estar prestando atenção a ele.

Portanto, segundo a definição antiga, a pessoa poderia ouvir sem escutar.

No entanto, o povo modifica o sentido das palavras. Hoje em dia, tanto faz usar o verbo ouvir ou escutar. Ambos são sinônimos. Em todos os dicionários de Língua Portuguesa, pelo menos os mais respeitados, Aurélio, Houaiss, Michaelis, ouvir e escutar possuem os mesmos sentidos.

Fonte:
Prof. Dr. Ozíris Borges Filho.
http://www.movimentodasartes.com.br/

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Miguel Perrone Cione (A Assombração)

A pequena e pacata cidade havia sido enormemente beneficiada com a chegada da eletricidade. Os postes plantados nas esquinas, sobre as calçadas, sustentavam galhardamente os luzidios fios de cobre, que levavam rapidamente à cidade a milagrosa iluminação inventada por Thomas Edison. Ajustado a essa nova maravilha do progresso, o pequeno rincão paulista relegava a um passado que jamais voltaria os prosaicos lampiões, que o romantismo da época tanto havia acariciado.

Daquela antiga fisionomia noturna, só restava ainda o fogo de artifício lançado pelas chaminés dos comboios de passageiros, que passavam invariavelmente à noite ao sul da cidade, vomitando de suas máquinas a habitual esteira de fagulhas incendiárias.

Agora, ao fim das tardes, apreciava-se um espetáculo inédito, vendo o funcionário da Empresa de Força e Luz ligar a chave do transformador, que ficava em frente à Praça da Matriz, e as lâmpadas todas ao mesmo tempo, como num passo de mágica, chisparem de luz, transformando a penumbra em um alegre recanto iluminado.

Depois desse avanço espetacular em direção à civilização moderna, certo dia, um senhor de aparência humilde bateu à porta de um dos professores da cidade; queria conversar com ele:

— Senhor professor, — começou ele — desejaria falar dois minutos com o senhor.

— Pois não, vamos entrar. Qual é o assunto?

— Como sei que o senhor é uma pessoa esclarecida, desejaria fazer-lhe uma pergunta.

— Perfeitamente, estou ao seu dispor.

— O senhor acredita em assombrações? Desejo falar-lhe de uma que apareceu há dias em minha casa.

— Não, não creio nessas coisas…

— Mais uma razão para o senhor certificar-se de que existe algo de sobrenatural no que venho observando em minha propriedade, e que gostaria de mostrar-lhe. Sinceramente, eu gostaria que o senhor visse com seus próprios olhos. A vizinhança toda já presenciou o que estou lhe relatando. Tive de mudar-me da casa. Não era possível ver todas as noites aquelas sombras ameaçadoras emergirem das paredes do nosso quarto e debruçarem-se sobre nós.

O professor observava o visitante com visível incredulidade, depois perguntou-lhe a que horas aparecia a assombração.

— Geralmente das 22 horas em diante, hora que costumamos nos deitar.

Depois de outras explicações, ficou combinado que naquela noite, o professor iria ver a discutida assombração.

Às dez da noite, o professor dirigiu-se ao local designado, onde já o esperava o homem que o visitara e mais três pessoas da vizinhança.

Adentraram a casa mal-assombrada. Todas as lâmpadas foram acesas. Dirigiram-se diretamente ao dormitório principal da residência, o “quartel-general” da assombração. Fez-se um silêncio total, todos aguardavam com certa emoção e, por que não dizer, com algum temor, a misteriosa e audaz personagem das sombras. Esperaram 5, 10, 20 minutos… nada se via de anormal. O quarto era forrado de madeira, paredes altas, como sói acontecer nas casas antigas. Ao redor da lâmpada, de aproximadamente 15W, via-se um globo de vidro e que outrora deveria ter sido transparente, mas no momento, apenas translúcido pela poeira acumulada.

Já estavam impacientes quando, de súbito, uma fantástica sombra apareceu numa das paredes do quarto. Tinha o aspecto de um esquisito monstro, cujo corpo era formado por uma massa compacta. Quatro braços de cada lado moviam-se, lentos, mas ameaçadores como os da hidra fabulosa e lendária. Realmente era de meter medo, mas enfim era apenas uma sombra.

Apesar das incredulidades do professor, parecia que todos encontravam-se diante do sobrenatural, de algum ser extraterrestre vivendo em outra dimensão.

Após alguns minutos, a sombra começou a circular pelas quatro paredes e até pelo teto do quarto, fazendo um footing diabólico. O professor, absorvido em seus pensamentos, olhava ora para a sombra, ora para o globo que pendia do forro. Pediu permissão para apagar a luz. O ser sobrenatural desapareceu, embora o quarto ainda recebesse claridade da sala adjacente. Evidentemente, a assombração não gostava da penumbra e logo que a lâmpada de novo se acendeu, ressurgiu até mais ameaçadora.

O professor esboçou um sorriso de triunfo; possivelmente já possuía a chave do mistério. Com uma escada, o globo foi removido. A sombra desapareceu como que por encanto. Dentro do globo empoeirado, o professor procurava o responsável por todo aquele rebuliço: era uma pequena, inofensiva aranha papa-moscas que residia na concavidade interior do globo de iluminação.

Quando a lâmpada aquecia o interior do globo de vidro, depois de certo tempo, o calor incomodava o inocente inseto; ele se agitava, começando com movimentos lentos e depois com uma corrida desesperada ao redor do globo. A luz amarelada da lâmpada projetava nas paredes do quarto a sua imagem imensamente aumentada pela projeção do objeto, reproduzindo, no interior do cômodo, também todos os movimentos da pequena aranha, que se tornavam pela dimensão alcançada deveras ameaçadores, transformando assim o pacífico inseto na famosa assombração daquela rua…

Fontes:
http://www.movimentodasartes.com.br/miguelcione/default.htm
Imagem = http://gatocomvertigens.blogs.sapo.pt/

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Miguel Perrone Cione (O Pescador de Pérolas)

Hélio Cunha (O Pescador de Pérolas)
Havia um ambicioso pescador de pérolas que almejava encontrar na ostra solitária a valiosíssima pérola rosada.

Sing era o nome do intrépido oriental, que buscava nas profundezas do oceano a jóia do seu sonho. Cada vez que um outro pescador conseguia a pérola rosada, nele se avivavam as esperanças de um dia encontrar também a sua jóia preferida.

Astuto, jovem, grande mergulhador, e acostumado desde a infância ao manejo do mar, conhecia bem que apenas uma ostra especial, de cor rubra e maior tamanho que as comuns, produz a pérola rosada, mesmo assim, em exígua porcentagem.

Com a modesta máscara de mergulho, o pequeno barco, o arpão que o defendia do ataque feroz dos tubarões, o cesto no ombro para recolher os moluscos, auxiliado pela esposa, aproveitava as tardes de sol para desenvolver o fatigante e perigoso trabalho. Após a colheita marinha, a busca dentro das conchas era cuidadosamente iniciada, como se cada ostra fosse uma caixinha de surpresas.

Muitas pérolas brancas já haviam sido encontradas por Sing e sua esposa, mas nem todas possuíam grande valor. O comércio do produto é exigente, somente as pérolas perfeitamente esféricas, sem máculas, a partir de cem quilates são realmente valiosas; as denominadas “barrocas” por serem irregulares, as “gotas” em forma de pêras, as “sementes”, que são pequenas e planas, não possuem comercialização compensativa.

Eram decorridos cinco anos de mergulhos submarinos, durante os quais o nosso idealista pescador, tinha se desgastado bastante no afã de arrancar das rochas profundas, milhares de moluscos, e a pérola rosada não havia surgido. Aos poucos, a pretensão de encontrar a ambicionada jóia foi se apagando nas esperanças de Sing.

Certa tarde de escassa e desastrosa colheita, resolveu desistir daquela ambição que estava se tornando inútil, já que ele desenvolvia no período da manhã outras atividades que eram rendosas e prioritárias.

Procurou um mergulhador que lhe havia proposto a compra do equipamento, e vendeu-lhe o barco utilizado na pesca. Até o pequeno cesto com os últimos moluscos pescados, ainda intactos, foram negociados. Sing havia definitivamente encerrado suas atividades perolíferas, de encantado pescador de pérolas. Naquela noite dormiu mais tranqüilo. Mas foi só naquela noite.

No dia seguinte, quando um novo dia despontava, talvez para o início de uma nova vida, logo pela manhã ao alvorecer alguém bateu-lhe à porta; era o comprador dos seus apetrechos:

– Olá, como vai, resolveu desistir do nosso negócio?

– Não, Sing. — disse-lhe sorridente o comprador — Vim pagar-lhe em dobro a minha compra.

– Mas por que essa generosidade?

– Porque fui muito feliz! Na única ostra gigante existente no cesto que havia lhe comprado, encontrei a pérola rosada!

Sing empalideceu de dor. A notícia foi como se o oceano imenso que ele tanto amava tivesse se derramado sobre ele. Quando a oportunidade chegou, ele não foi suficientemente perseverante para fazer triunfar o seu sonho.

A sombra desse erro o acompanhou por longos anos de sua existência.

Sempre que se referia à pérola perdida, Sing repetia as mesmas palavras: “Nem a trazendo das profundezas abissais do oceano, consegui possuí-la. Fugiu-me das mãos pela porta do destino. Pescá-la foi como procurar a felicidade pelas estradas íngremes da vida; nem todos conseguem encontrá-la, assim aconteceu comigo”. Mas embora se considerasse cruelmente traído pela sorte, concordava sempre em admitir que tinha valido a perseverança de procurá-la. Não são os sonhos e as esperanças acalentadas os adornos fugazes que embelezam a existência?

Fontes:
http://www.movimentodasartes.com.br/miguelcione/default.htm
Pintura =
http://heliocunha.blogspot.com

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Solano Trindade (1908-1974) Poesias Avulsas

Retrato de Solano Trindade, 1969
Madalena Schwartz
Acervo Museu Afro Brasil

Sou Negro
À Dione Silva

Sou Negro
meus avós foram queimados
pelo sol da África
minh’alma recebeu o batismo dos tambores atabaques, gonguês e agogôs.

Contaram-me que meus avós
vieram de Loanda
como mercadoria de baixo preço
plantaram cana pro senhor do engenho novo
e fundaram o primeiro Maracatu.

Depois meu avô brigou como um danado
nas terras de Zumbi
Era valente como quê
Na capoeira ou na faca
escreveu não leu
o pau comeu
Não foi um pai João
humilde e manso.

Mesmo vovó
não foi de brincadeira
Na guerra dos Malês
ela se destacou.

Na minh’alma ficou
o samba
o batuque
o bamboleio
e o desejo de libertação.

Gravata Colorida

Quando eu tiver bastante pão
para meus filhos
para minha amada
pros meus amigos
e pros meus vizinhos
quando eu tiver
livros para ler
então eu comprarei
uma gravata colorida
larga
bonita
e darei um laço perfeito
e ficarei mostrando
a minha gravata colorida
a todos os que gostam
de gente engravatada…

Eu gosto de ler gostando

Eu gosto de ler gostando,
gozando a poesia,
como se ela fosse
uma boa camarada,
dessas que beijam a gente
gostando de ser beijada.

Eu gosto de ler gostando
gozando assim o poema,
como se ele fosse
boca de mulher pura
simples boa libertada
boca de mulher que pensa…
dessas que a gente gosta
gostando de ser gostada.

Muleque

Muleque, muleque
quem te deu este beiço
assim tão grandão?

Teus cabelos
de pimenta do reino?

Teu nariz
essa coisa achatada?

Muleque, muleque
quem te fez assim?

Eu penso, muleque
que foi o amor…

Olorum ÈKE

Olorum Ekê
Olorum Ekê
Eu sou poeta do povo
Olorum Ekê

A minha bandeira
É de cor de sangue
Olorum Ekê
Olorum Ekê
Da cor da revolução
Olorum Ekê

Meus avós foram escravos
Olorum Ekê
Olorum Ekê
Eu ainda escravo sou
Olorum Ekê
Olorum Ekê
Os meus filhos não serão
Olorum Ekê
Olorum Ekê

Mulher barriguda
(musicado por João Ricardo dos Secos e Molhados)

Mulher barriguda
Que vai ter menino
Qual é o destino
Que ele vai ter
Que será ele
Quando crescer…

Haverá ‘inda guerra?
Tomara que não
Mulher barriguda
Tomara que não…

Meditações sobre o leito do hospital

Uma sinfonia de gemidos
Perde-se neste domingo

A amada distante está presente
A rua é uma abstração
O telefone não chama
A amada não beija

Eu escrevo sobre papel verde
com lápis vermelho…

Fontes:
Solano Trindade. O Poeta do Povo. SP: Cantos e Prantos Editora, 1999.

Imagem = http://historiaemprojetos.blogspot.com

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…E o Sertão Virou (Bel)Mar (entrevista com Cícero Belmar)

Entrevista realizada em outubro de 2008 por Raimundo de Moraes

Cícero Belmar é escritor e jornalista. Natural de Bodocó (PE), filho de Adrina e Cícero (Bé), nasceu a 20 de janeiro de 1963. Ele acabou de lançar o romance “Rossellini Amou a Pensão de Dona Bombom”, que recebeu os prêmios de ficção Vânia Souto Carvalho, da Academia Pernambucana de Letras, e o Lucilo Varejão do Conselho Municipal de Politica Cultural, da Fundação de Cultura do Recife.

Este é o segundo romance de Cícero. Em 2001, ele lançou “Umbilina e Sua Grande Rival”, que também recebeu o mesmo prêmio da Fundação de Cultura. Além desses dois romances, ele tem também um livro de contos, “Tudo na Primeira Pessoa” e duas biografias: “POla” e “O homem que arrastou rochedos”.

Ele também é autor de teatro, com três peças de sua autoria encenadas no Recife: “A Flor e o Sol”, “A Floresta Encntada” e “Coração de Mel”. Além de escritor, Cícero Belmar tem uma larga experiência como jornalista, já tendo recebido duas vezes o prêmio Cristina Tavares de Reportagem. Ele trabalhou em Redações de vários jornais e televisões em Pernambuco.
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Há tempos que eu queria entrevistar Cícero Belmar. Uma das primeiras lembranças que tenho da sua gentil pessoa é quando, entre uma aula e outra, nos encontramos por acaso num dos jardins da Universidade Católica de Pernambuco (à época ele terminava Jornalismo e eu era calouro de Direito). Eu disse, com certo espanto: seu nome ao contrário significa mar belo. E ele riu. Ora, não é que desse mar saíram muitos tesouros? Competente na profissão que resolveu seguir e um dos melhores escritores de Pernambuco na atualidade, entrevistar Belmar na verdade foi um presente para mim. Quando o nosso bate-papo virtual ia se desenrolando, eu me deliciava com o seu Acabou-se o que era doce! – o livro, por si só, valeria uma outra entrevista. Mas fica o gostinho de quero mais. Com vocês, um sertanejo com alma universal e que faz iluminar ainda mais este Recife de muitas histórias e de muita poesia.

Raimundo de Moraes: Como surgiu a idéia de escrever Rossellini Amou a Pensão de Dona Bombom?

Cícero Belmar: Minha intenção era fazer uma espécie de trilogia pernambucana. Não uma trilogia no sentido mais tradicional, de uma história ter uma seqüência na outra. Ou de um personagem se repetir na outra história. Não. Eu queria fazer uma trilogia mais geográfica, mais de costumes, de formas de expressão, de culinária. Então eu lancei primeiro Umbilina. É uma história sertaneja. Não gosto de dizer que é regionalista. É uma história de realismo mágico (expressão que também tá demodè). Eu usei o catolicismo popular para mostrar que se vive na prática o realismo mágico no Sertão de Pernambuco. Pode perguntar à Cida, que ela não me deixa mentir. É puro realismo mágico. Cida mesma conheceu dona Maria Nenen, dona Ermínia dos Paus Pretos. Pois bem. Fiz Umbilina, que era sobre Bodocó, a terra onde nasci. Fiz uma pesquisa de linguagem, de termos, etc. Depois, queria escrever uma história sobre o Recife. Comecei a pesquisar e vi que era melhor falar sobre o Recife dos anos 50. O glamour das noites do Bairro do Recife. Passei a ler sobre a prostituição, sobre o cais do porto. E me envolvi demais, entrevistei velhas putas. Resgatei umas histórias e vi que todas as mulheres dali tinham uma forte ligação com São Jorge, com Xangô, com Oxum. E os fatos foram se juntando na cabeça. À parte isso, tem aquele lance de dizer que havia casas mal-assombradas no Recife. E eu fui juntando o glamour com o sobrenatural. Até que um dia, conversando com Liêdo Maranhão, ele me mostrou umas fotos pornográficas (bem artísticas) do Recife Antigo. E eu entrei naquele clima mesmo: havia sacanagem, mas era um tempo artístico, entende? Foi quando ele me disse que Rossellini esteve na zona. Eu disse: caramba! É a minha história. Então, eu juntei verdades e mentiras. E deu no que deu. Quanto ao terceiro livro da “trilogia”, lancei no dia 31 de agosto deste ano Acabou-se o que era doce!, que fala da politização do pernambucano. A história começa no Recife e vai até o Sertão. Desta vez não mais Bodocó, mas Floresta do Navio.

Em Rossellini você usa preâmbulos que antecedem os capítulos – recurso muito utilizado, por sinal, por grandes nomes como Cervantes, Dickens, Jonathan Swift etc – só que você deu um toque pessoal: uma frase ora filosófica, ora metafísica arrematando o preâmbulo. Como foi a concepção estética do livro? Ao fazer suas pesquisas você já sabia que formato final ele teria?

Antes de começar a escrever a história, eu fiz uma espécie de roteiro, uma divisão dos capítulos, e defini o que diria em cada um. Fiz um resumo com frases-chaves para eu não me perder a idéia original durante a narração. Podia até mudar a idéia, mas não perdê-la. Morro de medo de esquecer a lógica do que estou escrevendo. E no caso de “Rossellini…” consumi seis meses. As frases que fui anotando para não perder o fio da meada eram do tipo: capítulo X “Dora trai o amante americano…”; capítulo Y “A cartomante prevê a chegada de um homem muito importante…”. Depois eu me perguntei: já que essas frases foram escritas, por que não usá-las nos preâmbulos? Não houve uma intenção de copiar, mas terminei copiando os clássicos. Quando resolvi usar essas, pensei em dar a elas um marketing. Eu queria “vender” o capítulo para o leitor. Oferecer o produto escrito, mas oferecer de uma forma que seduzisse o leitor. Então, as frases precisavam ser mais que informativas. Elas deveriam ter uma adjetivação. E eu encontrei isso quando comecei a pesquisa sobre o neo-realismo. Isso que você fala de metafísico ou filosófico está no neo-realismo, que é uma corrente artística que mistura realidade e ficção. A proposta do livro era exatamente essa, misturar esses dois eixos. E os preâmbulos surgiram, finalmente.

E o seu envolvimento com o teatro? Nesta área você também é um autor premiado…

Eu comecei lendo peças, ainda na adolescência. A primeira foi uma desconhecida, de Jorge Amado, O Amor do Soldado. Depois, li O Santo Inquérito, de Dias Gomes e essa mexeu comigo. Eu fiquei muito reflexivo com aquela força que vinha do texto. Então eu fiquei pensando: como é que se faz isso? Li o texto e posteriormente tive a oportunidade de ver o texto montado por um grupo local de teatro do Recife, no Valdemar de Oliveira, cuja atriz principal era Marilena Breda. Ela fazia Branca Dias. Foi outra surpresa pra mim. No texto escrito e no texto montado, vi claramente que eram duas coisas iguais e diferentes ao mesmo tempo. Aí eu descobri a possibilidade. Teatro me encanta pela possibilidade, pelos mil caminhos que ele te indica E me empolguei. Aí continuei lendo. Li Vestido de Noiva de Nelson Rodrigues, os textos de Maria Clara Machado, li Ibsen, Brecht, Federico García Lorca. Um dos textos que mais que marcou foi As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant, de Rainer Werner Fassbinder. Já que estava no embalo, também li todas as teorias de teatro, até que um dia eu pensei: não vou ler teoria, não quero ser diretor de teatro. O que eu sou mesmo é um curioso que escreve. E fui me envolvendo com a proposta de literatura para teatro. Como eu tenho uma facilidade muito grande de fazer diálogos, então os textos brotaram com mais facilidade. Teatro exige muito cuidado, exige que a palavra usada seja muito medida, pois a palavra é a jóia do império. Através do diálogo, sem o artifício de descrever as cenas, você tem que estabelecer um pacto, de fazer o jogo acontecer. Ou seja, é preciso usar a palavra certa e forte. Teatro e literatura é um casamento perfeito, como a pintura e a escultura; como a música e a dança.

Escrever peça infantil é mais difícil que escrever para adulto? Você tem “na gaveta” alguma peça que ainda não foi encenada?

Em geral, as pessoas acham que escrever para criança é difícil porque se trata de uma relação de desiguais. E é. No caso, escritor adulto escreve para um leitor infantil. São dois mundos diferentes. A pessoa que escreve para criança precisa fazer um exercício de humildade, desfazer-se das carapaças que a vida adulta vai colocando ao longo do tempo. Precisa também entender de poesia, saber da importância dos detalhes, sem nunca ser piegas. Caso contrário, ele nunca chegará à criança da platéia. Realmente não é simples escrever peça de teatro infantil, pois além desse desafio de captar o interesse da criança, é também preciso emocionar a pessoa adulta que acompanha a criança ao teatro. Criança nenhuma vai sozinha para o teatro, por isso é preciso lançar mão de uns temas “adultos”, entende? É um desafio para qualquer escritor. Mas, apesar disso, os autores de peças infantis não são reconhecidos pelas suas obras. E quando eu falo desse não-reconhecimento estou falando da crítica, das instituições que controlam as políticas culturais e até mesmo da classe artística. Você não encontra o reconhecimento que merece. O nobre é fazer teatro adulto. Quem faz teatro infantil o reconhecimento acaba quando a temporada acaba. Então eu me pergunto: o gênero dramático (teatro infantil) está enfraquecido? Ou as pessoas é que são preconceituosas com o teatro infantil? Eu posso questionar, pois tenho cinco peças infantis, sendo uma delas ainda inédita, cujo título é Os Vaga-lumes. Das quatro que já foram montadas no Recife, três ganharam prêmios. Uma, de melhor texto pela Apacepe (Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco) e as outras duas receberam o Miriam Muniz.

Agora um pouco de jornalismo. Na época dos nossos pais e avós a profissão de jornalista era até mal vista, aquela coisa: vai morrer de fome! Hoje, nos vestibulares, as vagas para os cursos da área de comunicação social são concorridíssimas. Parece que todo mundo quer ser jornalista e publicitário. É modismo ou é a glamourização do Quarto Poder?

É tudo isso e mais o desconhecimento sobre o mercado de trabalho. Eu fico impressionado como é que, nos dias de hoje, com tanta informação disponível, as pessoas insistem em tomar decisões sem levar em conta sobre o futuro, sobre o que a profissão pode garantir. Hoje, em cada esquina você encontra uma pessoa formada em jornalismo, mas grande parte não sabe escrever uma notícia. Aliás, não sabe juntar duas frases com objetividade e clareza. Qual o destino desse profissional, num mundo cada vez mais exigente, num mercado que está pedindo multifunções? E então eu me pergunto se as faculdades estão de fato cumprindo o seu papel, voltando à discussão dos anos 90, de que fazer um curso superior de jornalismo era inócuo, dispensável.

Em 2005, quando você era editor executivo do Jornal do Commercio, foi demitido sumariamente por autorizar a publicação de uma matéria que ia de encontro aos interesses da diretoria do Sistema JC de Comunicação. Sua demissão causou protestos de jornalistas daqui e de outros Estados – houve até um abaixo-assinado com apoio de várias entidades: Instituto Paulo Freire, Movimento Nacional de Direitos Humanos, Sindicato dos Jornalistas etc. Hoje, em 2008 – e se ainda fosse funcionário do JC – você tomaria a mesma decisão de 2005?

Mais do que nunca, hoje eu tenho clareza de que mandaria publicar. Sou contra o trabalho escravo, como qualquer pessoa de bom senso. O Jornal do Commercio não me demitiu por causa da matéria em si, mas porque a publicação da matéria poderia ferir a amizade do dono da Folha de Pernambuco (proprietário da destilaria que estaria mantendo os trabalhadores em regime de semi-escravidão) com o dono do Jornal do Commercio. Agora veja que ironia: meses depois da demissão eu fui procurado por uma pessoa da Folha de Pernambuco que me trazia um recado dos diretores da empresa, mandando dizer que jamais, em tempo algum, pediram minha cabeça ao Jornal do Commercio. Ou seja: O JC foi mais real que o rei. Mas, eu digo e repito: um editor executivo tem cargo de confiança do jornal e deve fazer o que for determinado a um editor executivo. No meu caso, eu mandei publicar porque sempre arquei com o ônus e o bônus da função. Nunca me arrependi de ter publicado.

Existe imprensa livre?

Não. E vou dizer mais: a imprensa não é livre nem mesmo para o dono. Um jornal, por exemplo, nem sempre publica só o que o dono quer. O poder público manda nos jornais (ou o jornal publica a notícia favorável ou o poder público não manda publicar os milhares de editais). O poder econômico manda nos jornais (ou o jornal pega leve ou os empresários não publicam os anúncios). A religião tem influência num jornal. Os amigos do dono do jornal e os familiares têm influência, sim, no que o jornal publica. Sabendo disso, o leitor precisa ter senso crítico para formar sua opinião sobre o que vê, lê e escuta. Já conheci uma pessoa que declamava, na mesa do bar, tudo o que lia nas páginas da Veja. E jurava que era uma pessoa bem informada. Convém ler mais de um jornal ou mais de uma revista, ver mais de um canal de televisão, ouvir mais de uma emissora de rádio. Mas, é bom a gente fazer uma reflexão: quando um leitor compra um jornal ou uma revista faz isso de livre e espontânea vontade. Ele compra sabendo exatamente o tipo de informação que vai encontrar ali. É uma opção dele. Ou seja: ele tem o poder de comprar ou deixar de comprar, caso não goste daquele produto.

Estou lendo o seu último livro publicado, o Acabou-se o que era doce!, cuja história se passa no município de Floresta, Sertão pernambucano. Aproveitando o mote e para finalizarmos esta entrevista gostaria de saber como você se relaciona com as suas raízes interioranas. Muitas pessoas que migram para a cidade grande vivem um misto de nostalgia-mágoa, nostalgia-alegria, nostalgia-repulsa ou outros preferem esquecer de vez que nasceram no interior. E com você? Como Bodocó situa-se no âmbito afetivo?

Sem Bodocó eu jamais seria isso que aprendi a ser. Tudo o que escrevo tem a ver com o que sou, com o que fui, com o que quero ser. E eu sou apenas uma pessoa modesta que, se tiver chance, dispara no cavalo magro de Dom Quixote e ganha o mundo. E ganho.
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Raimundo de Moraes é poeta, cronista, jornalista e colunista da INTERPOÉTICA
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Fonte:
http://www.interpoetica.com

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Arquivado em notas biográficas, O Escritor em Xeque

Sérgio Augusto Silveira (Poesia em Gotas)

(1955 Curitiba/Paraná)

A GOTA DE CADA UM

Para Mário de Andrade,
Uma gota de sangue em cada poema.
Para Bilac, uma gota de orvalho.
Para Vinícius, uma de uisque.
Para Cabral, uma de vinagre.
Para Castro Alves, uma de suor.
Para Jorge de Lima, uma de vinho.
Para Ascenso, uma gota de cana.
Para Drummond, uma de colírio.
Para Quintana, uma de framboesa.
Para Oswald, uma gota de café.
Para Augusto dos Anjos,
Uma gota de água da fonte.
Para Bandeira, uma gota de rio.
Para Cardozo, uma de agá-dois-ó.
Para Gonçalves Dias
Uma gota de mar.
Para Guimarães Rosa,
Uma gota de magma cachaça.

E AGORA?

Um dia você foi dormir
Embalado pelas certezas
Na cama absoluta da lógica
Irrefutável,
destruidora daquela ordem que
Oprime, canta e castra.

Um dia você já tinha esquecido o
José de Drummond,
Tão velho no passado,
Pensado e abandonado no acostamento
dos anos setenta, oityenta,
Nos ventos do mundo que consolavam,
Esqueciam, liberavam,
cicatrizavam e preparavam para
Novos atos na paz da
Nova cidade
Armada com velhos e novos tijolos.

Um dia você confundiu,
Emaranhou-se nas teias da
Aranha caranguejeira,
Nas negaças dos que você esperava
Serem iluminados como José.

E um dia você acordou
Na cama desmontável da
Ordem cantada,
Na pior das horas,
A de agora.

O QUINHÃO
( Pelos 500 anos do “Descobrimento” )

Até agora não se sabe
A quantos quinhentos bandos e tribos
Passaram a caminhar sem ajuda das mãos
Na Amazônia, nos Andes, na Patagônia,
Pelas margens dos paranás,
Na beira do São Francisco,
Margens do Solimões, do Guaíba,
Pelos matos dos igapós.
Só se sabe que um dia essa gente viu
Barcos grandes no mar verde,
Palavras absurdas como estas chegando na areia,
Panos no ar e gritos, atropelos, correntes,
Paus cruzados enfiados na areia,
Homens ajoelhados gritando
Iesumaria!
E apertando em nossas testas os paus cruzados
E jogando água em nossas cabeças
E gesticulando pra gente entender.
Depois esticaram panos vermelhos, verdes
E mostraram umapedra lisa em que tinha nela
Nós mesmos,
Rindo, fazendo careta.
E nos deram vinho escuro, depois água de fogo
Que dá alegria, saber, força, fraqueza nas pernas,
Doença, escravidão.
E aí proibiram nossa fala,
Policiaram nossas danças,
Proibiram nossa reza
E tomaram nossas árvores
E acabaram completando os quinheiros.

O DOM NÃO SILENCIOSO
( Lembrando dom Hélder Câmara )

Velha muralha,
Semente, folha nas fendas,
Na casca dura
Por onde a vida tanto bate
Como água.

Americana batalha,
Pé ante pé, seguindo.
Do espírito horizontal
Resistente abelha operária.

Trombone, verrina fecunda
Nas brechas já expostas
Pelo corpo da pedra,
Pela madrugada,
Pelo novo, pelo belo, pelo elo
Com o amanhã.

Aqui o rio que existe pela minha aldeia,
O Dom não silencioso.

BRASÍLIAS

Cena pintada,
Cena forjada em duas medidas.
Brasília Alphaville,
Brasília alfavela.

restos de caixas, pneus rasgados,
Trapos no vento salgado,
Parede traçada, erguida a mão, a pé,
A pulso.

Descompasso na lama,
Sem régua e prumo
Na beira d´água,
Precisão da linha torta.

Brasília precisa no papel,
Na prancheta, no planalto.

Brasília precisão
de ter, ser, mastigar, engolir,
Curar.

Verde,
Brasília palácio fita o horizonte do Brasil.
Amarela,
Brasília palafita do Recife.

CACHAÇA

No cálice de vidro está
Parado,
Translúcido,
Mais do que o cálice,
Mais do que água pura,
Atravessado em todos os graus pela
Luz,
O Sol feito
Senhora imaculada.

A louca cheirosa
Que atravessa os campos da Mata
Até este vidro que imita a
Transparente água doce da cana,
A louca ardente
Pousa serena
À minha espreita.

No instante do cálice,
Sujeita à luz total,
O ardor sobe aos lábios,
À língua, à glote
No gole que finca no espírito
Os raios do Sol feitos
Chama brava,
Chama quente,
No coração,
Na mente.

QUE RECIFE SEJA

A cidade foi fincada no mangue beira de rio-mar,
Está hoje como está

E assim esteja
E que assim sejam
Os sóis derramados de seu tempo,
As mangueiras de seus quintais,
Os caminhos até suas praias,
Assim seja a sombra de suas palmeiras,
matas,
Seja a lua de suas curtas noites,
Seja o arrumadinho de seus pratos à mesa,
Sejam as aves e crianças de seus ninhos,
Seja o marulho verde de seus mares,
Sejam as águas que desenham suas pontes,

Sejam os murais dos que traçaram seu perfil,
Sejam as festas de suas camas e carnavais,
Sejam os seres de seus amores, imaginação,
E que assim eles sejam,
Mudando que estejam,
Por todos os ósculos dos
ósculos,
Amem-se por aí.

NA ILHA MÁGICA

Do pé da ponte em diante, rumo ao mar,
O climágico pinta, dá peso às paredes
Enquanto o sopro vem dos guindastes,
Passa e benze o bairro de janelas-altares,
Assobia nas escadas que rangem
Um idioma do tempo nos pés
E deixa aéreas Minerva e Ceres na cabeça da ponte.
Divindades de dia em pesada capa de ferro
Embalam à noite o fantasma do príncipe Nassau,
Fixando a face perfeita e fria sobre nós
Enquanto olham eternas para o Chanteclair,
Num cântico mudo na boca de metal,
Em vigília perene varrendo as sacadas-púlpitos
Empedradas pelas décadas da ilha do Recife.
Imagirreal na trajetória das pombas do porto,
Além dos dias, do calendário de papel,
Ancorada no presente sem fim de suas caras e bares
Que desenham o pedaço iluminado da cidade.

NO BOLEIRO

O teto da cidade,
Aquele de mato e barro encostado,
Seguro pelos cabelos, aquele quebrado
Sobre o chão em declive serpenteado
Em ladeiras, falsificado pelo arrimo,
Aquele teto simulado em destino
No alto da cidade,
Aquele telhado cinzento cobrindo
O ponto de busca, o ponto de fuga,
O ponto de ninguém, o ponto falso
Liquefeito líquido pelo escorrer
D´água numa manhã cinzenta, numa meia-noite
De barulho no amianto,
Num ranger de tábuas às duas e meia
Quando o Boleiro estremeceu
Em cima do falso piso,
Debaixo do falso teto e embolou
Numa pasta preta água abaixo.
A menina mãe,
A fiação de luz,
O grito na lama contra os choques.
Fios, fogo e espanto misturaram-se
Numa morte enleada para a
Mumificação – em barro e chuva –
Das fantasias de chão e teto no alto da cidade,
Boleiro abaixo.

O PÁTIO FANTASMA

As pombas do pátio
Imitam nuvens do céu
Aberto sobre o pátio
À luz do templo de
São Pedro
Barroco delirante com
Ervas de passarinho nas franjas,
O verde contra o barro do santo.

São Pedro sob a concha,
Inerte barba
Segura na altura,
Oração sob o cruzeiro no ápice,
Olhos cerrados do santo
Sobre as mesas e sons em cores do
Pátio pop palco,
Pedras quentes, frias no suporte da
Física música fera fono som.

Portas da fé belas cerradas
No seu estrondo barroco,
Só com as pombas, ervas, globos e sinos
Enfeixados nas alturas
Sobre o pátio largo, líquido,
Louco espaço de vôos em
Asas fantasias.
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Sérgio Augusto Silveira nasceu em Curitiba, Paraná. Ingressou no jornalismo, em 1970, no jornal ACrítica, de Manaus, como repórter de Geral, com passagens pelas Editorias de Polícia e de Economia. De 1973 a 1974 foi correspondente da revista Veja, no Amazonas. Transferiu-se para o Recife em 74, ingressando no Curso de Jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco, onde se formou na Turma de 1979.

Atuou como free-lancer das revistas da Editora Abril; e no Diario de Pernambuco, de 1976 a 1985, como repórter de Polícia e de Política, voltando a essa empresa, em 1998, para trabalhar em reportagens da área de Política.

Por duas ocasiões, trabalhou no Jornal do Commercio, sempre na Editoria de Política. Foi diretor de Redação da Assessoria de Imprensa da Prefeitura da Cidade do Recife (1985-1987); assessor de Imprensa da Secretaria de Indústria e Comércio, no segundo Governo Arraes. Foi, ainda, editor de Política da Folha de Pernambuco. Ganhou, em equipe, dois prêmios Esso, no Jornal do Commercio, com as reportagens SOS Pernambuco e 10 Anos da Anistia. Tem um livro publicado: Reportagem e Resistência – 1978-1982. Atualmente, é free-lancer de jornais e revistas nacionais
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Fontes:
http://www.interpoetica.com/sergio_augusto_silveira.htm
http://www.alepe.pe.gov.br/perfil/parlamentares/OswaldoLimaFilho/dadosdoautor.html

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Ziraldo (Ler é muito mais Importante que Estudar)

Para ele, em geral, um menino feliz vira um cara legal. Cartunista e criador do famoso personagem “o Menino Maluquinho”, o mineiro Ziraldo encerrou a programação de palestras da Expo-Literária de Sorocaba, no dia 1º de novembro, quando falou sobre o tema “Ler é mais importante que estudar”. Uma curiosidade sobre o autor é que ele conhece bem a região de Sorocaba, já que sua irmã viveu aqui durante 10 anos. Simpático e bom de papo (ele adora conversar), Ziraldo não hesita em afirmar “estudar é importante, mas ler é muito mais importante que estudar”.

O autor também fez uma análise sobre a literatura contemporânea. “O negócio é o seguinte: a gente tem uma quantidade de escritores atuando no Brasil no momento de altíssima qualidade. A gente só não tem o prestígio dos escritores espanhóis porque eles escrevem para 13 países que falam esse idioma. E a língua de Cervantes, para a história do mundo, é considerada mais importante que a de Camões, então a gente fica no segundo time”, afirma.

O país, para Ziraldo, tem craques fantásticos na área da literatura. “Machado de Assis, por exemplo, é um dos escritores mais respeitados do mundo. Qualquer escritor de qualidade conhece, cita e fala do Machado. O crítico americano Harold Bloom, por exemplo, que escreveu um livro sobre os escritores mais fundamentais da história da civilização, cita Machado, que é o primeiro grande escritor negro do mundo. Ele era um escritor espantoso, assim como Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Jorge Amado, e agora até o Paulo Coelho, que acaba de ser aclamado em Frankfurt como um dos maiores intelectuais vivos do mundo. Se a gente escrevesse em espanhol ou inglês já teria ganhado pelo menos uns três nobels de literatura”, acredita.

Conforme Ziraldo, nos outros países, o autor de livro para a criança não é considerado um escritor, com todas as letras. “No Brasil, o escritor para a criança conseguiu esse status, como Ruth Rocha, Ana Maria Machado e Tatiana Belinky, então todos têm a responsabilidade e a condição de escritor”, considera.

Antonio Skármeta, autor chileno da obra que deu origem ao filme “O Carteiro e o Poeta”, conta Ziraldo, é de um país que tem dois prêmios Nobel de literatura (Pablo Neruda e Gabriela Mistral), e em uma conversa que teve com ele, perguntou qual livro infantil era conhecido no Chile. “E ele disse que não conhecia nenhum. Nos outros países há um certo preconceito contra a literatura infantil, e aqui a gente consegue uma respeitabilidade. A literatura infantil no Brasil é de muita qualidade. Esses escritores que citei aqui não têm a pressão do editor, então o escritor consegue escrever o livro sem ter de atender as leis do mercado”.

Questionado se é muito difícil escrever para criança, ele responde: “ou é fácil ou é impossível!”, brinca.

Para Ziraldo, a obra de Machado de Assis como um todo é contemporânea. “Todo grande escritor é sempre contemporâneo porque o ser humano não muda. A gente continua sofrendo pelas mesmas razões, matando pelas mesmas razões, suicidando-se pelas mesmas razões. Arranje um ser parecido com Bentinho, apaixonado por uma mulher como Capitu e coloque um Escobar para ficar com a mulher dele e veja se não vai se comportar como Machado reportou. Até matava o Escobar! De maneira que Machado está falando da alma humana. E o ser humano não muda, o coração do homem não muda. Por isso Machado é um craque, um gênio”.

Três obras de Ziraldo
– O Menino Maluquinho (Editora Melhoramentos)
– Uma Professora Muito Maluquinha (Editora Melhoramentos)
– Menina das Estrelas (Editora Melhoramentos)

Ziraldo indica

Autores de obras para crianças
– Ana Maria Machado
– Ruth Rocha
– Pedro Bandeira

Obras de Machado de Assis
– Memórias Póstumas de Brás Cubas
– Dom Casmurro
– As publicadas com o pseudônimo Dr. Semana: “Para quem quiser conhecer um pouco mais da alma do escritor”

Fontes:
Reportagem de Daniela Jacinto para o Jornal Cruzeiro do Sul, na página 3 do caderno D, de 16 de novembro de 2008.
Douglas Lara.
http://www.sorocaba.com.br/acontece
Desenho =
http://www.ziraldo.com/

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Ziraldo (1932)

Ziraldo Alves Pinto nasceu em 24 de outubro de 1932 em Caratinga, Minas Gerais. É o mais velho de uma família de sete irmãos. Seu nome vem da combinação do nomes de sua mãe, Zizinha com o de seu pai Geraldo: assim surgiu o Zi-raldo, um nome único.

Passou a infância em Caratinga, onde cursou o Grupo Escolar Princesa Isabel. Em 1949 foi com o avô para o Rio de Janeiro, onde cursou dois anos no MABE (Moderna Associação de Ensino). Em 1950 voltou para Caratinga para fazer o Tiro de Guerra. Terminou o Científico no Colégio Nossa Senhora das Graças. Formou-se em Direito na Faculdade de Direito de Minas Gerais em Belo Horizonte, em 1957.

No ano seguinte casou-se com D. Vilma, após sete anos de namoro. O casal tem três filhos, Daniela, Fabrizia e Antônio, e quatro netos.

Ziraldo tem paixão pelo desenho desde a mais tenra idade. Desenhava em todos os lugares – na calçada, nas paredes, na sala de aula… Outra de suas paixões desde a infância é a leitura. Lia tudo que lhe caia nas mãos: Monteiro Lobato, Viriato Correa, Clemente Luz ( O Mágico), e todas as revistas em quadrinhos da época. Já nesse momento, ao ler as páginas do primeiro “Gibi”, sentiu que ali estava o seu futuro.

A carreira de Ziraldo começou na revista Era Uma Vez… com colaborações mensais. Em 1954 começa a trabalhar no Jornal A Folha de Minas com uma página de humor. Por coincidência foi esse mesmo jornal que publicou o seu primeiro desenho em 1939, quando tinha apenas seis anos de idade!

Em 1957, começou a publicar seus trabalhos na revista A Cigarra, e posteriormente em O Cruzeiro. Em 1963 começou a colaborar com O Jornal do Brasil, onde até hoje publica diariamente uma tira de comics. Trabalhou, ainda na revista Visão e Fairplay.

Ziraldo fez cartazes para inúmeros filmes do cinema brasileiro como Os Fuzis, Os Cafajestes, Selva Trágica, Os Mendigos, etc. Foi no Rio de Janeiro que Ziraldo se consagrou como um dos artistas gráficos mais conhecidos e respeitados nacional e internacionalmente.

Entretanto, dada a diversidade de sua obra, não é possível limitá-lo apenas às artes gráficas. É um artista que tem ao longo dos anos desenvolvido várias facetas de seu talento. Ziraldo é também pintor, cartazista, jornalista, teatrólogo, chargista, caricaturista e escritor.

No decorrer dos anos 60 seus cartuns e charges políticas começaram a aparecer na revista O Cruzeiro e no Jornal do Brasil. Personagens como Jeremias, o Bom, a Supermãe e posteriormente o Mineirinho, tornaram-se popularíssimas.

É igualmente no início da década de 60, que realizou seu sonho infantil: transformou-se num autor de comics e lançou a primeira revista brasileira do gênero feito por um só autor, reunindo uma turma chefiada pelo Saci Pererê, figura mais importante do imaginário brasileiro. Os personagens dessa turma incluíam um pequeno índio e vários animais formadores do universo folclórico brasileiro tais como a onça, o jabuti, o tatu, o coelho e a coruja. A Turma do Pererê marcou época na história dos quadrinhos no Brasil.

Em 1964, com a tomada do poder pelos militares, a revista encerrou sua carreira. Era nacionalista demais para sobreviver ao golpe fascista no Brasil. Entretanto, a força desses personagens, tão tipicamente brasileiros, resistiu aos duros anos do militarismo.

Em 1973 a Editora Primor do Rio de Janeiro viria a reeditar em 3 álbuns uma seleção das melhores histórias do Saci Pererê com o nome – A Turma do Pererê. As histórias passaram então a fazer parte de vários livros didáticos publicados no país, ajudando a criança brasileira a conhecer melhor sua cultura.

Durante o período da Ditadura Militar ( 1964-1984 ), Ziraldo realizou um trabalho intenso de resistência à repressão. Fundou, junto com outros humoristas, o mais importante jornal não-conformista da história da imprensa brasileira, O Pasquim. Ziraldo considera que o Pasquim foi também o grande celeiro de humoristas pós 68.

Quando foi editado o AI – 5, durante a Revolução Militar, muita gente contrária ao regime, procurou se esconder para fugir à prisão. Ziraldo passou a noite ajudando a esconder os amigos e não se preocupou consigo mesmo. No dia seguinte à edição da famigerado Ato, foi preso em sua residência e levado para o Forte de Copacabana, por ser considerado um elemento perigoso.

Em 1968, Ziraldo teve reconhecido o seu talento internacionalmente, com a publicação de suas produções na revista Graphis, uma espécie de Panthéon das artes gráficas. Teve ainda trabalhos publicados nas revistas internacionais Penthouse e Private Eye da Inglaterra, Plexus e Planète da França e Mad nos Estados Unidos.

No ano de 1969 grandes acontecimentos marcaram a vida do artista. Ganhou o Oscar Internacional de Humor no 32º Salão Internacional de Caricaturas de Bruxelas e o prêmio Merghantealler, prêmio máximo da imprensa livre da América Latina, patrocinado pela Associação Internacional de Imprensa, recebido em Caracas, Venezuela. Foi convidado a desenhar o cartaz anual da UNICEF, honraria concedida pela primeira vez a um artista latino.

Ziraldo fez um mural para a inauguração do Canecão, casa noturna do Rio de Janeiro, numa parede de mais de cento e oitenta metros quadrados. Esta obra foi reproduzida em várias revistas do mundo, mas encontra-se hoje escondida atrás de um painel de madeira.

Foi ainda nesse ano que publicou seu primeiro livro infantil, FLICTS. É a história de uma cor que não encontrava seu lugar no mundo. Nesse livro usou o máximo de cores e o mínimo de palavras. A Embaixada Dos Estados Unidos no Brasil presenteou com um exemplar os astronautas americanos que pisaram na lua pela primeira vez, quando de sua visita ao Brasil. Neil Armstrong, um dos astronautas leu o livro e comovido, escreveu ao autor: The moon is FLICTS.

Na década de 70, com seu trabalho já consagrado, Ziraldo prosseguiu abrindo caminhos no Brasil e no mundo Desde 1972 seus trabalhos são sempre selecionados pela revista Graphis Anual e Graphis Porter.

Diversas revistas internacionais usam seus desenhos em capas, inclusive Vision, Playboy, e a GQ ( Gentlemen’s Quaterly). Os seus cartuns percorrem revistas de várias partes do mundo. Alguns de seus desenhos foram selecionado para fazer parte do acervo do Museu da Caricatura de Basiléia, na Suiça.

A partir de 1979 Ziraldo passou a dedicar mais tempo à sua antiga paixão: escrever histórias para crianças. Nesse ano publicou O Planeta Lilás, um poema de amor ao livro, onde ele mostra que o livro é maior que o Universo que cabe inteirinho dentro de suas páginas.

Em 1980 Ziraldo recebeu sua maior consagração como autor infantil na Bienal do Livro de São Paulo, com o lançamento de O Menino Maluquinho. O livro se transformou no maior sucesso editorial da Feira e ganhou o Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro em São Paulo. Esse livro foi adaptado para o teatro, cinema, WWW, e em ópera infantil pelo Maestro Ernani Aguiar. O Menino Maluquinho virou um verdadeiro símbolo do Menino Nacional.

Em 1994, O Menino Maluquinho, o Bichinho da Maçã, a Turma do Pererê o e próprio Saci Pererê, transformam-se em selos comemorativos do Natal. Nessa homenagem dos Correios e Telégrafos ao artista sua arte foi espalhada pelos quatro cantos do planeta, com votos de Boas Festas, Feliz Natal e Feliz Ano Novo. Os livros de Ziraldo já foram traduzidos para várias línguas, entre elas, espanhol, italiano, inglês, alemão, francês e basco.

Como todo bom brasileiro, Ziraldo aprecia o Carnaval. Foi dos primeiros a desfilar com a Banda de Ipanema ao lado de Albino Pinheiro, Leila Diniz e a turma do Pasquim. O seu livro FLICTS já foi enredo de escola de samba em Juiz de Fora, e Ziraldo desfilou no chão ao lado do filho Antonio. Mais recentemente, no Carnaval de 1997, Ziraldo foi novamente homenageado. Desfilou no alto de um carro com um enorme Menino Maluquinho, do qual desceu com o auxílio de um guindaste!

Ziraldo tem diversas passagens pela televisão. Participou como jurado de inúmeros programas, festivais e até de concurso de Miss Brasil nos idos anos 60. É também apresentador e entrevistador. Quando entrevistado tem sempre pontos de vista interessantes a defender. Uma de suas frases mais conhecidas é Ler é mais importante do que estudar.

Sua arte faz parte do nosso quotidiano, e pode ser identificada em logotipos famosos como o da Telerj, caixinhas de fósforo que viraram ítens de colecionador, cartazes da Feira da Providência, centenas de camisetas, símbolos de campanhas, etc. Ziraldo está sempre envolvido em novos projetos, e uma das novidades na prancheta é a revista Bundas, uma resposta bem-humorada à ostentação emergente de Caras. “Quem mostrou a bunda em Caras jamais vai mostrar a cara em Bundas“…

Fonte:
http://www.ziraldo.com/historia/biograf.htm

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Dorothy Jansson (O Tempo está passando muito rápido)

Dizemos que o tempo voa,
e enquanto filosofamos,
ele vive aí… à toa,
e somos nós que voamos.

Cena mais bela e de graça
é o sol a se despedir
a cada dia que passa,
e de manhã… ressurgir.

Fonte:
Douglas Lara.
http://www.sorocaba.com.br/acontece

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Santuário da Poesia 1

Tere Penhabe (Presente do Tempo)

Lá vem o tempo,
com um pacote de presente
vem trazendo irreverente
mais um ano pra viver…

Eu quero o meu
e espero ainda poder
fazer toda a diferença
na hora de acontecer…

Que o tal de amor
continue a me rondar
não precisa se instalar
basta minh’alma entreter…

Que as amizades
só façam multiplicar
que os rancores e as mágoas
vão cantar noutro lugar…

E a Paz Bendita
que por ela tantos clamam
que finalmente aconteça
sendo real e sem manhas…

Que os homens se encontrem
com o reflexo do espelho
envergonhem-se a tal ponto
que possam regenerar-se…

É mais um ano
outra chance de acertar
desejo de coração
que este ano seja bom…

Que as bênçãos do Menino Deus
que de nós não Se esqueceu
façam ainda maravilhas
com o ano, meu e seu!

Santos, 29/12/2005
––––––––––––––––––––
Margaret Pelicano (Lá vem o tempo)

Lá vem o tempo.
Corre célere para com o dia amanhecer
é um novo ano que chega,
trazendo um novo reconhecer:
de idade, de vivências,
de calma, tranquilidade,
um pote cheio de ouro – A serenidade!

Lá vem o tempo tirando a tampa do pote!
Passa rápido,
mas com o homem não pode!
Este nunca perde a ilusão, a vontade de vencer,
o amor pelas mulheres
pelo futebol, pela dança,
e ironicamente… gosta de ver acontecer…

Lá vem o tempo,
como um jornaleiro,
trazendo notícias diariamante
para todos os companheiros:
É uma guerra aqui, outra acolá,
velhos sendo maltratados
crianças abandonadas…isso é muito do que há!

No caderno dois, muita vitalidade:
gente rica e poderosa
moda, horóscopo, crônicas, prosa…
depois nos classificados: acompanhantes para a noite
e começa a baixaria…
Lá vem o tempo, agora, como uma velha tia
rabugenta, implicante, desfrutuosa…

É, o tempo é um noticiário,
um velho espantalho,
que, às vezes camufla as verdades,
e quando as descobrimos, já é tarde!
Por outro lado,
um bom amigo:
quando nos cansamos,
ele nos leva para dourados campos de trigo,
em sonhos delirantes, ou pesadelos preocupantes…

Enfim, sempre haverá um novo ano,
novas expectativas
novos desejos de mais amor,
mais dinheiro,
diálogos corriqueiros,
contas a pagar,
e nós, pobres humanos, contamos que tudo vai mudar!

Brasília, DF – 30/12/2005
–––––––––––––––––––––-
Zena Maciel (Peregrino do Tempo)

O ser humano constrói a
existência nos braços
na liturgia do tempo
Tempo de nascer..
De crescer…
De aprender…
De amar…
De sonhar…
De viver…
De sofrer…
De ser…
De ter…
De ganhar…
De perder…
De olhar para a vida
e tentar desmistificar
o imensurável tempo
Tempo de ser
Ser eterno peregrino do tempo
Esta é a síntese da finitude do ser

Recife-30 de dezembro de 2005
–––––––––––––––––––––––-
Regina Bertoccelli (O Tempo)

Agora, neste exato momento
em que disponho de alguns minutos ociosos,
roubados de tarefas e deveres que deveria estar cumprindo,
me permito apenas divagar, refletir, pensar…
Deixo as horas passarem lentamente e sem atropelos,
lânguidas, seguindo seu curso natural
Preciso de um tempo sem cobranças,
sem compromissos marcados,
sem a presença de relógios, sem pessoas me esperando.
Afinal, já vivi tanto em função de horários estabelecidos,
marcados, agendados
Hoje , preciso e me reservo o direito de lidar com o tempo
de uma forma mais prazerosa e inconsequente
Cansei das correrias e das agitações do cotidiano
Afinal, nunca deixo nada por fazer, e nem pessoas me esperando
Apenas sou mais parcimoniosa e aprendi a administrar as horas
Hoje, este é o meu tempo
Mais lento, mais cauteloso,
mais sabiamente direcionado

“O tempo não para!!!
Só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo…”
( Mário Quintana )
––––––––––––––––––
Jorge Linhaça (Tempo de Despertar)

Tempo que te quero tempo
tempo de alegria e não de lamento
Tempo de reconstrir
Tempo de viver

Tempo que te quero tempo
Tempo de afinal um alento
tempo de amar sem sofrer

Novo ano que se anuncia
esperanças que se renovam
tempo novo que pronúncia
palavras de boas novas

Tempo, tempo, ó bom tempo
que resplandeça sobre nós a paz
que se finde todo o tormento
que a falta de tempo nos traz

Arandú,31/12/2005
–––––––––––––––––––
Valeriano Luiz da Silva (Tempo)

Creio que ninguém duvidará
Que o tempo em nossa vida
Nunca mais voltará…
E o que ficou para traz são experiências adquiridas
O que for útil você deve aproveitar
E as faltas que cometestes deverão ser esquecidas

Anápolis-Go, 18/06/05
–––––––––––––––––––––
Lauro Kisielewicz (O Tempo)

O tempo voa…
O tempo urge…
O tempo passa…
Mas,
que tempo é esse
que o tempo todo
nos deixa sem tempo
de ignorar
se é tempo propício
para amar?!
Sempre alegando
Falta de tempo,
não achamos tempo
para amar nossos filhos
e quando eles,
escolados por nós,
têm seus filhos,
nem notam os brilhos
do brilhante olhar
dos nossos netos…
Os filhos crescem
e desaparecem
às vezes se esquecem
que nós existimos…
não os meus… não os meus…
Graças a Deus,
estes se lembram
e por mais que o tempo passe
que boas lembranças
se amassem
e que em pouco tempo passem
a nem serem mais lembradas…
Foi tempo que passou…
ou fomos nós
que passamos pelo tempo,
sem encontrar tempo
de viver, sorrir e amar?
O tempo, NÃO VOLTA ATRÁS!
Ama,
sorri
e vive agora!
Depois,
será tarde demais!
Não terás tempo…
O tempo ficou para trás…
–––––––––––––––––––––
Maria Thereza Neves (Parem o Tempo!)

O mundo roda, roda
e gira e volta
o tempo escapa-me entre os dedos
preciso segurar o vento
deter os ponteiros do relógio
as letras estão correndo
V O A N D O
o pensamento cansado, lento
sem tempo para o apressado tempo .
––––––––––––––––––––
Patrícia Neme (E aqui vai o meu Tempo)

Verdade, só pode ser ,
uma tremenda ironia:
um ano tão doloroso,
que moeu todo o meu ser,
de jeito cruel, manhoso…
Em seus momentos finais,
chega-me, assim, carinhoso,
regalando-me, em poema,
um repensar tão profundo,
qual promessa do Eterno,
que em gesto fiel, fecundo,
faz-me relembrar que o Tempo,
qualquer seja o seu momento,
é seguro em Sua mão.
Que em todo e qualquer instante,
Ele é presença constante…
Que o sofrimento é um tropeço,
nas vias de um recomeço;
e qual seja o meu tormento,
Ele é PAZ, em prosa e verso,
que Ele é vida, e não reverso.
Então eu fico quietinha,
com minh’ alma acalentada,
dizendo muito obrigada,
a esse quarteto de anjos
que me soube recordar,
que eu vivo além do instante,
de relógio ou convenção.
Que eu vivo da poesia,
minha fonte de alegria,
no cantar e na oração.
Então, rogo ao meu Senhor,
Paz, Saúde, Luz, Ventura,
a Terê, a Magareth,
ao Lauro, e também a Zena,
que tenham as sendas planas,
de muita serenidade,
onde a vida lhes sorria
com toda a sua doçura.
E o Tempo…
O Tempo será o amigo
que um dia nos unirá;
neste aqui, ou neste agora…
ou pelos lados de lá…
Pois quem tem sangue poeta,
vive aqui, vive acolá!
–––––––––––––––––
Bernardino Matos (Há Tempo para a Felicidade!)

“Vamos dar tempo ao tempo”, revela prudência,
“não há como um dia atrás do outro”,sabedoria,
“ponha a cabeça no travesseiro”, paciência.
“Dê-me um tempo”, para não se ficar na teoria.

O tempo não é uma unidade de medida,dia,mês,ano,
é parte integrante e vital de nossa trajetória,
ele agrega nossas tristezas, alegrias,abre o pano,
do teatro de nossa vida, registra nossa história.

Há tempo para amar, sofrer,sorrir, sobreviver,
nós somos os gestores,os responsáveis pelas ações,
que definem nossa rota,destino, nosso acontecer,
ele é o palco onde atuamos, onde tomamos decisões.

Se formos sempre atentos, prudentes, precavidos,
poderemos atingir nossas metas, nossos objetivos,
contribuiremos pro sucesso dos momentos vividos,
e teremos, para enfrentar nossa luta, os motivos.

No início de cada ano, revisamos nossas vivências,
planejamos uma correção de rota, novos caminhos,
no lugar das amarguras,de tantas imprudências,
queremos colocar pitadas de ternuras e carinhos.

“Quem por algum amor não sofreu, passou pela vida,
não viveu”,sobrevoou, não percebeu a importância,
da paixão, das emoções,das amizades, em sua lida,
se desgastou,andou em vão,correu sem consistência.

Não existe tempo para um gesto sincero de carinho,
para um beijo apaixonado, para uma declaração
de amor,para uma atitude de perdão e devagarzinho,
arrancarmos os espinhos da injustiça e ingratidão.

Temos tempo para tudo,inclusive para a felicidade,
mas afastamos a essência da vida,andamos perdidos,
procuramos atalhos,fugimos dessa grande realidade,
que sem Deus, sem fé, sem esperança,somos falidos.

Urge aproveitarmos bem todos os nossos momentos,
para construirmos um mundo melhor, mais acolhedor,
onde o ser humano possa dar vazão aos sentimentos,
de solidariedade,de fraternidade, de muito amor.

Fortaleza, 01 de janeiro de 2006.
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Maria Granzoto da Silva (1948)

(Arapongas, PR, 03/05/1948)

Arapongas(PR) é cognominada a “ Cidade do Passarinhos”. Segundo Parque Moveleiro do País, possui vida industrial muito intensa! Aqui, todas as ruas têm nome de pássaros, a iniciar pelo nome do Município, Arapongas, devido ao grande número desse pássaro-ferreiro que aqui existia.

Começou a escrever desde criança ensaiava a escrita de versos, a que meus professores e, em especial, minha mãe, incentivavam.

Adorava memorizar versos de Castro Alves e Olavo Bilac! Depois, abracei Manuel Bandeira, hoje meu patrono na Academia.

1º trabalho literário: Foi um poema intitulado “ Meu Filho!, escrito em 1965, divulgado na página literária do Jornal “ O Radar”, de Apucarana (PR)

Poemas publicados em coletânea da Academia de Letras, Ciências e Letras Centro-Norte do Paraná, da qual é sócia-fundadora.

– Membro da Academia de Letras, Artes e Ciências Centro-Norte do Paraná
– Delegada da UBT/PR – Arapongas.
– Professora da Universidade Norte do Paraná – campus de Arapongas-PR

Como escritora ama a Poesia, a Literatura como um todo! Gosta de brincar com as palavras, descobrir em cada palavra um novo sentimento!

Quando vem o desejo de compor, pode estar na rua, em casa, no trabalho. E as palavras vêm e o poema acontece!

Conselho a uma pessoa que começasse agora a escrever: «Tenho feito isso a todos os meus acadêmicos que demonstram talento literário, incentivando-os a prosseguir. O mundo precisa de poetas e as novas gerações têm um potencial que não podem guardar apenas para si! Não desistir, mas perseverar e prosseguir!»

Fonte:
http://www.caestamosnos.org

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Maria Granzoto da Silva (Trovas)

Falar de trovas, meu Deus!
Missão que faz me encantar!
Falar de trovas aos meus!
– Ainda não sei trovar!

Juro que estou a pensar
como se estivesse em prova.
Comecei com Deus falar
que me inspirasse uma trova.

Senti muito a sua ausência
naquele dia sem sol.
Só depois, pura demência,
descobri o meu arrebol.

Foi hilário aquele encontro!
que parecia escondido!
Não é que bati meu ponto
na sala do seu marido?

Tire essa barba nojenta,
bota vergonha na cara!
Hoje ninguém mais agüenta
vê-lo nem ouvir sua fala!
—————-

Fonte:
Portal CEN. http://www.caestamosnos.org

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Maria Granzoto da Silva (Teia de Poesias)

Um Natal Diferente

A diferença do meu natal
Será uma árvore
Sem igual!
Nela pendurarei
Momentos que já passei.
Da minha mãe, a saudade.
A lágrima pelo meu pai.
Não colocarei a maldade,
Porque do mundo já não sai.
Mas um pouquinho da ilusão
Que alimenta meu sonho
E habita meu coração
Em viver num mundo de paz
E não num mundo tristonho.
Colocarei os poucos amigos,
Os fiéis e verdadeiros.
No cimo, como ponteiro,
Apenas um cruzeiro
E um Cristo iluminando
Pessoas do mundo inteiro.
Circundando a árvore dileta,
Todo o site
Alma de Poeta!
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Ex Tempore

Vivi um tempo
Sem tempo pra sorrir
Pra amar …
Vivi um tempo
Sem ver o tempo partir!
Ele não espera e
Por isso não
Me esperou!
Agora, que tenho tempo,
O grande sonho
Acabou…
Já não há mais sorriso,
Já não há mais amor…
Assim, perdi o juízo
E ganhei a grande dor
Perene em meu coração:
Estar só, na multidão…
===========================
Amor em silêncio

Na noite de sono agitado,
Insone, clamo teu corpo sem rosto…
Grito em silêncio teu nome, amado!
Lavro a palavra lavada
em silencioso silêncio…
Esse silêncio que pensa
e produz a miragem
da tua imagem…
Talvez sejas a pergunta
que em silêncio faço ao vento silente!
Quantas coisas me dizes na quietude,
que eu, demente, doente de amor,
arquiteta da dor, não decifro esses
planos que não são compartilhados.
Quando nada é dito, nada fica combinado.
Num frágil fragmento de silêncio,
tento harmonizar o silêncio e a solidão.
O nosso silêncio tão cortado
pela imagem da ilusão.
Na indagação de gestos tão vários,
há o silêncio
das palavras várias,
com tantas variantes!
E o silêncio, vibrante,
mostra as variáveis
incontroláveis
que me expõem ao avesso
da dor que explode
ao abrir-se em amor…
Então,na tela
fico à espera
da poesia
que há por vir,
que há de ir
com certeza, exprimir
a tua meiguice
e a minha sandice…
E em silêncio a minha poesia começa
onde termina a tua ternura
e prossegue a minha desventura.
Em silêncio…
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Maria Ganzoto da Silva (Uma “ Consoada “ com Manuel Bandeira)

Na obra de Manuel Bandeira a temática da morte é constante. Ele revela uma certa tranqüilidade ao construir um eufemismo na poesia Consoada. O poeta demonstra a aceitação da “Indesejada”, porque a dor de viver é quase sempre insuportável. Constrói uma poesia sem dizer o nome da convidada e nos surpreende ao vermos que sua convivência com a Indesejada é serena.

CONSOADA

QUANDO A INDESEJADA das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
– Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios).
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

Ao contemplarmos o eu lírico de Bandeira aguardando sua convidada, a “iniludível” fica nítido que, apesar do receio inevitável da noite e de seus “sortilégios”, o poeta apresenta sua composição com a idéia de sua própria efemeridade. Afinal, ao ter a “consoada” por sua companheira destina-lhe um justo lugar, em suas concepções pessoais.A biografia de Bandeira nos mostra que também ele viveu, perenemente, sob a sombra da morte. Condenado ainda em sua juventude pelos médicos, fez da Indesejada a sua própria sombra, fazendo-o aceitar e compreender que a vida é uma “…agitação feroz e sem finalidade / Que a vida é traição… ”.

Nota-se uma afinidade de sentimentos entre Bandeira e o francês Baudelaire, que expressou a futilidade da contenção no seu “Remorso Póstumo”: “… porque o túmulo sempre há de entender o poeta / na insônia sepulcral dessas noites sem fim, / Dir-te-á: “de que serviu, cortesã incompleta, / não ter tido o que em vão choram os mortos sós?”/ – E o verme te roerá como um remorso atroz …”.

Bandeira se esforçou para escapar da sua aproximação mais estreita da morte, fiel companheira retratada em Consoada. Com isto demonstrou possuir uma consciência aguçada de que a condição humana é provisória. Desvairado por ter sido lançada em seu caminho a verdade comum a todos os mortais, Bandeira suplica, em “Renúncia”, “… humildemente a Deus que a faça/ Tua doce e constante companheira …”. Esta intimidade com a dor e a morte gera uma amizade que é um contentamento amoroso, uma rotina para um homem acompanhado permanentemente da “indesejada das gentes”. Neste sentido podemos afirmar que foi, sim, Bandeira o traidor, pois durante toda sua existência traiu sua perseguidora (a morte) com sua amante fugidia e involuntária (a vida).

E o poeta reconcilia-se com a traída, convidando-a para a Consoada, a princípio temeroso (por não saber se a morte chegaria de maneira dura ou caroável). Aqui, talvez, caiba falar do segundo sentido de consoar, de soar em conjunto, estar de acordo. Assim, consoante com a morte, pode o poeta incluí-la em seu rol de conquistas, que ela se torna não apenas inspiração como também, musa! Foi, afinal, ela quem colaborou com o poeta para que seu campo fosse lavrado com tanta ternura. Foi a morte que plantou a semente, não do poeta, pois (como o próprio afirma no Itinerário de Pasárgada) este já estava em formação, mas, sim de algumas belíssimas obras, que fazem parte, neste receptivo jantar: um cardápio como finas iguarias dispostas ao longo de uma vida que deixou cada coisa em seu lugar.

Em Consoada, Bandeira conseguiu superar as aflições, em um ritual de sedução, em uma confraternização, em um jantar, que é uma das atividades normais da vida.Uniu os princípios da vida e da morte. Ela, a traidora e amante indesejada, sob o mesmo teto, à mesma mesa, em um banquete servido pela poesia em pessoa.
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Fonte:
Portal CEN. http://www.caestamosnos.org/

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Américo Pellegrini Filho (Literatura de Cordel continua viva no Brasil )


Afinal, a chamada literatura de cordel, no Brasil, não morreu; está completando cerca de cem anos bem vividos. Esse gênero de poesia popular impressa, que ocorre especialmente no nordeste, passou a ser valorizado por brasileiros depois de um artigo de Orígenes Lessa na revista Anhembi, publicado em dezembro de 1955, e talvez principalmente depois de outro artigo, do estudioso francês Raymond Cantel, publicado no Le Monde de 21 de junho de 1969. A partir de inícios da década de 70, o assunto virou coqueluche para estudiosos brasileiros, formando-se considerável bibliografia em que se incluem teses e mais teses. Também muitos artigos foram publicados, inclusive de interessados de última hora que se precipitaram em afirmar, de pés juntos, o fim do cordel. Vinte anos depois, podemos observar que — a despeito de estar implícito no dinamismo sócio-cultural o possível desaparecimento de traços folclóricos — o cordel continua vivinho da silva. Até virou souvenir para paulistas, cariocas, mineiros, gaúchos em passeio por feiras nordestinas ou em centros de turismo como o Pátio de São Pedro (Recife), a Emcetur (Fortaleza), o Mercado Modelo (Salvador) e outros locais. O estudioso Joseph M. Luyten calcula em 100 mil títulos editados, o que é apenas uma estimativa. Quanto ao total de exemplares, quem pode saber ao certo?

Além da previsão apressada da morte dos livretos populares, o interesse repentino e a falta de embasamento e pesquisa levou à mudança de nome do fato. Vejamos: no contexto popular onde os livretos são criados, vendidos e lidos, o nome anterior e ainda vigente é “folheto” ou “folheto de trovador” (com 8 páginas, cerca de 11x16cm), pois seus autores sempre se auto-denominaram trovadores. Ou então “romance”, “história” quando a narrativa é mais longa e exige 16, 32 ou mais páginas. A denominação cordel tem origem erudita, influência de Portugal, e acabou chegando ao vocabulário dos autores populares. Criou-se também este ou aquele neologismo, como “cordelista” e “cordelismo”, que estão longe do padrão terminológico popular.

Início e continuidade

Por falar em Portugal: como tantos outros fatos culturais brasileiros, essa literatura popular tem parentes entre os lusos. Mas está ligada também a cantorias e a desafios acompanhados de viola. Parece que os primeiros folhetos de trovador, no Brasil, foram impressos no final do século XIX. Leandro Gomes de Barros e João Martins de Atahyde são dois dentre os primeiros poetas; livrinhos de sua autoria continuam sendo reeditados, com direitos vendidos e revendidos. As tiragens totais acabam sendo difíceis de serem contabilizadas, calculando-se em milhares e milhares de exemplares. São famosos títulos como O cachorro dos mortos, Juvenal e o dragão, História da donzela Teodora, e outros de Leandro Gomes de Barros (Pombal-PB, 1865; Recife-PE, 1918); também Casamento e mortalha no céu se talha, História da princesa da Pedra Fina, Batalha de Oliveiros com Ferrabraz, Como se amança uma sogra, Rolando no Leão de Ouro, Os sofrimentos de Alzira, estes de João Martins de Atahyde (Ingá-PB, 1880; Recife-PE, 1959), e mais outros de autores falecidos, como José Bernardo da Silva, José Camelo de Melo Resende, Severino Milanês da Silva, Francisco das Chagas Batista, José Soares, Joaquim Batista de Sena, Rodolfo Coelho Cavalcante e outros. Dentre os que continuam produzindo, podemos citar Abraão Batista, em Juazeiro do Norte-CE; Minelvino Francisco Silva, em Itabuna-BA; o pernambucano João de Barros que reside em São Paulo; o paraibano Raimundo Santa Helena que reside no Rio de Janeiro; outro pernambucano fabuloso que é José Cavalcante e Ferreira, que também assina José Ferreira da Silva ou apenas Dila; J. Borges, em Bezerros-PE; Adalto Alcântara Monteiro, em Santa Maria do Pará-PA; e muitos outros.

Comparações

Essa literatura popular impressa existiu em diversos países, como a França até o século XIX, também Portugal e Espanha até as primeiras décadas do século XX. Há exemplares de volantes recuados no tempo, século XV. Mas nos anos setecentos e oitocentos, os “Colportage” e os “Canards” franceses alcançaram grandes tiragens; a ponto de existirem coleções numerosas, felizmente conservadas, como a “Bibliothèque Bleue”. Houve mesmo um segmento profissional que se dedicava à edição dos folhetos franceses, em Troye, Avignon, Lyon, Paris, Bordeaux, Lille, Nantes, Rouen, Toulouse; também em Madri, Barcelona, Lisboa, Porto, etc. Na Espanha, a Biblioteca Nacional dispõe de grande coleção. Em Lisboa, a Fundação Calouste Gulbenkian adquiriu, de particular, uma pequena porém significativa coleção. No Rio de Janeiro, a Fundação Casa de Rui Barbosa possui uma das maiores coleções brasileiras.

É no Brasil que essa produção popular persiste com aceitação de seu público original, apesar de novos entretenimentos, como rádio e televisão. E tendo conquistado aquele outro público, de estudiosos, colecionadores eruditos, turistas.

Se tentarmos alguma comparação dessa literatura abrangendo material dos quatro países, podemos chegar a contrastes interessantes.

No Brasil, prevalece a forma poética à prosa, preferentemente em redondilha maior (versos de sete sílabas contadas até a última tônica) e seis “pés” (versos), portanto a sextilha. As rimas ocorrem no segundo, quarto e sexto pés: ABCBDB.

O Reino do Barro Branco
é defronte uma colina
cortada por quatro rios
de água potável e fina
fica nos confins da Ásia
bem perto da Palestina.
Severino Milanês da Silva, O Príncipe do Barro Branco e a Princesa do Vai Não Torna.

Nos demais países, é grande a presença do texto em prosa.

Os temas permitem várias classificações, como já foi feito por estudiosos brasileiros, americanos e europeus, desde narrativas tradicionais transmitidas oralmente e que passaram à mídia escrita, como é o caso da donzela Teodora, do cavaleiro Roldão no ciclo carolíngeo, da princesa da Pedra Fina, do dragão de sete cabeças, dos Contes de Fées, do romance de aventuras Andrionico y el león, ou a novela Desengaños Amorosos (esta de l647), até ficção sobre temas de amor, humor, aventura, sem esquecermos o chamado cordel circunstancial, que é o folheto de caráter jornalístico ou “folheto de época”: refere-se a um fato acontecido e o relata destacando aspectos importantes e até exagerando no sensacionalismo. Os exemplos são inúmeros, mostrando como o ser humano está frequentemente ávido por novidades, por notícias atuais:: Os posseiros do Maranhão, de Ary Fausto Maia; A renúncia do ex-presidente Dr. Jânio Quadros, de Rodolfo Coelho Cavalcante; O choro de Itabuna depois da enchente, de Minelvino Francisco Silva; Pelé na Copa do Mundo e o Brasil tri-campeão, de Severino Amorim Ferreira; Saída do presidente Médici e posse do novo presidente Ernesto Geisel, de Cunha Neto; É a gasolina subindo e o povo passando fome, de António Lucena de Mossoró; A tragédia da Belém-Brazília (não assinado); O plano Collor em ação muda a face da nação, de Adalto Alcântara Monteiro; Debates de guerra entre Bruxe e Sadam Russem, de Abraão Batista. Na década de 70, quando a mini-saia revolucionou o guarda-roupa feminino, o trovador Minelvino Francisco Silva lançou A moda da mini-saia e a garota braza viva. Por essa época, o já citado Rodolfo Coelho Cavalcante lançou A moça que mordeu o travesseiro pensando que era Roberto Carlos – que, dá para percebermos — é a estória alegre de um sonho perturbador….

Na França, parece que o sensacionalismo foi muito marcante: Détails sur deux assassinats; Malheureueses innondations; Détails sur la mort tragique de la fille de M. Delatour; Horrible assassinat suivi de viol; Terrible naufrage; Innondation dans les Départaments / Détails des cruels désastres survenus à Orléans; Oraison funèbre de Napoleón Bonaparte; Dernières paroles de sa majesté Louis XVIII.

Nesta modalidade jornalística ou de atualidade, os folhetos brasileiros podem ser agrupados em ciclos temáticos, como os do Cangaço e especialmente de Lampião, também do padre Cícero, do suicídio de Getúlio Vargas, das visitas do papa, do fracassado governo Collor de Melo, etc. Na França, Napoleão constitui um ciclo evidente, crimes constituem outro. Esse tratamento da atualidade contrapõe-se às criações inspiradas em temas tradicionais, como João de Calais, Carlos Magno e seus Pares, donzela Teodora, Branca de Neve e tantos outros. Em Portugal, no começo do século XX foram também usuais edições sobre cançonetas, refletindo o gosto pelo teatro de variedades, da época.

Ilustrações

As capas dos folhetos têm somente dizeres chamativos ou também ilustração. Quando a ilustração se acha presente, é comum basear-se em xilogravura, porém pode ser desenho e clichê de zinco e, no caso do pernambucano Dila, a gravura em borracha, adotada no final da década de 80.

O citado “Canard” de grande formato sobre a oração fúnebre de Napoleão Bonaparte, datado de 1821, tem ilustração mostrando uma cena de velório, com Napoleão morto cercado por um sacerdote, uma mulher e dois oficiais; tudo adornado por um cortinado, à guisa de dossel da gravura. Mas em outras obras, como as marcadas por título que se inicia com Détails…, as cenas não raro mostram uma pessoa degolando, esfaqueando, enfim matando cruelmente a vítima. No Brasil, na Espanha e em Portugal parece menos frequente essa visualidade do crime. Mas não escapam do insólito: Grande e horrível crime de uma mulher que matou seu próprio marido com uma faca de cozinha é um exemplo português, não único.

Por outro lado, há diversos folhetos portugueses da década de 50 que mostram desenhos coloridos na capa, quer dizer, aplicando-se modernas técnicas gráficas; outros, do final do século XIX, têm desenhos em branco-e-preto — o que era mais comum, nos quatro países. Entre os brasileiros, além de edições feitas na região nordestina, geralmente em branco-e-preto e de modo artesanal, existem atualmente edições ou reedições feitas em São Paulo e Rio de Janeiro, com alguma sofisticação gráfica e capas em cores.

Ficção humorística

Ocorre ainda a presença da jocosidade, em textos abertamente humorísticos ou em textos irônicos, ou ainda na exploração de boatos (que o autor popular logo capta e utiliza para sua criatividade). Alguns títulos ajudam a compreensão desse grande número de folhetos, cá e lá: Piadas de Bocage, de António Teodoro dos Santos; O grande debate de Camões com um sábio, de Arlindo Pinto de Souza; As perguntas do rei e as respostas de Camões, de Severino Gonçalves de Oliveira; Disparates em verso, de Armando Barata e Artur do Intendente; A padeira de Aljubarrota, de J. A. d’Oliveira Mascarenhas (estes dois de Portugal).

Mas a lista seria interminável: O homem que casou com a jumenta, de Olegário Fernandes da Silva; A mulher que engoliu um par de tamancos com ciúme do marido, de José Costa Leite; História do macaco que quis se virar gente, de Minelvino Francisco Silva; O rapaz que casou com uma porca no estado de Alagoas, de José Soares; O rapaz que virou burro em Minas Gerais, de Rodolfo Coelho Cavalcante; História da razão dos cachorros cherarem o feofó uns dos outros, de Abraão Batista; e também História de um galego que trocou a mulher por uma vaca (sem assinatura, editado em Lisboa).

Se para uma pessoa de cultura urbana do Rio de Janeiro, de São Paulo ou de outras cidades progressistas do Sul-Sudeste títulos assim podem parecer exotismo demais, e portanto levar até a desprezo, nem sempre isso se confirma. Quando Rodolfo escreveu A moça que bateu na mãe e virou cachorra (mais de 20 edições), com várias gravuras de uma figura com corpo de cadela e cabeça de moça, não estava brincando: é o relato sério de um “causo” acontecido. Dizem. Como acontecido foi, ou assim tratado, o fato que motivou O papa-fígado de criança que apareceu em Minas Gerais, de Minelvino Francisco Silva. Da realidade ao fantástico é um pulo, o que explica o êxito de textos que seguem a linha de O homem que virou bode, versos e capa personalística de Dila.

Do santo ao diabo

Ora, esse enfoque do grotesco envolvendo seres humanos e animais excepcionais, monstros, seres fantásticos parece habitar o imaginário dos autores dos quatro países aqui tratados (e de outros mais); afinal, do imaginário dos povos. Como podemos verificar pelo volante francês Le grand terrorifer d’Afrique, ou o Recit veritable, touchant le monstre espouventable & extremement horrible, nommé le Canesque, ou le Dragon Marin du Fare de Messine (de 1649); e, em Portugal, a Relação verdadeira da espantosa Féra… (que assustava habitantes de Chaves em l760).

Os trovadores contemporâneos brasileiros não deixam por menos: O estudante que se vendeu ao diabo; o tantas vezes reeditado Peleja de Riachão com o Diabo, ambos de João Martins de Atahyde, A moça que o diabo tomou conta para a matar de fome, de Abraão Batista; muitas preocupações do ser humano face ao sobrenatural, como refletido está em Jesus e o Diabo, versos e xilogravura de Dila. Ou ainda encontros de pessoas famosas no céu ou no inferno, como o cangaceiro Lampião que chega ao inferno e logo se põe a discutir com Satanás. E não é só ele: há o Encontro do presidente Tancredo com o presidente Getúlio Vargas no céu, de Manoel d‘Almeida Filho; Lampião e Maria Bonita no Paraizo do Édem, tentados por Satanás, de João de Barros. Parece que, no Brasil, esses encontros, as pelejas, as narrativas de encantamento, os folhetos “de época” e outros vão continuar, embora nos demais países — aí sim — o cordel morreu ou está moribundo.

Fonte:
http://www.bahai.org.br/cordel/viva.html

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José Rodrigues de Oliveira (O Cordel na Propaganda)

EPRAMAR – O sossego do fígado e do coração

Este folheto não é
Do Pavão Misterioso
Do Soldado Jogador,
Mas é folheto gostoso,
Vamos falar dum remédio
Pode crer que é milagroso.

EPRAMAR é o dito cujo
Que referências eu dou,
Você toma e fica bom,
Assim diz quem fabricou
Eu digo porque tomei
EPRAMAR, que me curou.

EPRAMAR é para o fígado
Mas serve pro coração
Pois com o fígado doente
Não se ama com paixão
Não se vê mulher bonita
Prá despertar emoção.

Eu agora me recordo
Por isso vou lhe contar,
O caso Zé Amarelo
Que não queria casar
Mas mudou de opinião
Quando tomou EPRAMAR.

Aliás, Zé Amarelo,
Toda doença ele tinha,
Não podia comer queijo,
Bolo de arroz com galinha
Laranja, maçã ou uva,
Charque, feijão ou farinha.

O coitado sempre triste
A sua vista amarela,
Tinha mais barriga inchada
Caroço no nó da goela,
O sangue feito o de jaca
Ou toucinho de mortadela.

Tudo isso era do fígado
Ou da hepática função,
Mas EPRAMAR resolveu
Além desta outra questão
Aliás, a principal,
A questão do coração.

Pois Zé resolveu casar,
Viver só não agüentou,
Deixou de ser vergonhoso
Com mais de dez namorou,
No correr de 15 dias
O nosso herói se casou.

Também com tanta saúde,
Razão de sobra ele tem,
Se sabe que se Deus tarda
Já no caminho Ele vem,
Agradece a EPRAMAR
E a DEUS do CÉU também.

EPRAMAR tem Sorbitol,
Mais Citrato de Colina
Restaura as funções hepáticas
Com a B6 Vitamina
Qualquer Cirrose tem fim
Co´ Adenosina e Metionimna.

Você pode engolir chumbo
Que o fígado não vai sofrer
Pode até solver arsênico
Nada vai acontecer
Desde que o EPRAMAR
Você tenha prá beber.

Qualquer intoxicação
De bebida ou de alimento
Eu lhe receito EPRAMAR
Como bom medicamento
Pois seus componentes são
Para o fígado Cem por Cento.

Quem tem EPRAMAR em casa
Prá família proteger,
E se alguém se intoxicar
Poderemos socorrer,
EPRAMAR está curando
Até quem a bula ler.

Se gostou do meu folheto
Mostre a outro camarada,
Se não gostou, dê a outro
Que encontrar na estrada
Com a ajuda dos amigos
A corrente tá formada.
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Geraldo Magella de Menezes Neto (A literatura de cordel no Pará)

Quando se fala em literatura de cordel a primeira referência que temos é o Nordeste. Logo lembramos os repentistas nordestinos cantando poemas com personagens e temas do Nordeste, como Lampião, Antônio Conselheiro, Antônio Silvino, Padre Cícero, a seca, o cangaço, a guerra de Canudos. Mas o que muitas pessoas desconhecem é que o cordel também se manifestou em outros lugares do Brasil, incorporando novos temas e olhares. Um desses lugares é o Pará, que teve na primeira metade do século XX uma das maiores editoras de folhetos do Brasil, a editora Guajarina.

A tradição do cordel chega ao Pará com a migração nordestina no período do auge da economia da borracha (1870 – 1910). Muitos nordestinos vinham para a Amazônia fugindo da seca e com a perspectiva de enriquecimento com a extração do látex, matéria-prima da borracha. A migração traz também tradições e valores culturais do Nordeste, como as histórias contadas em versos. Essa tradição oral se expande pela Amazônia, principalmente nos grandes núcleos de imigrantes nordestinos, que no Pará se fixavam principalmente no nordeste paraense, na chamada zona bragantina.

Em 1914 o pernambucano Francisco Lopes cria a editora Guajarina para a difusão da literatura de cordel. Os folhetos da Guajarina tiveram grande aceitação, visto que a tradição oral já estava enraizada, tanto a poesia já tradicional da Amazônia, quanto a poesia nordestina. Além de publicar folhetos de poetas famosos do Nordeste, como Leandro Gomes de Barros, João Martins de Athayde, Firmino Teixeira do Amaral e Tadeu Serpa Martins, muitos dos quais sem a autorização de seus autores, a Guajarina publicava folhetos de poetas paraenses e de nordestinos radicados no Pará, como Zé Vicente, Ernesto Vera, Mangerona-Assu, Apolinário de Souza e Arinos de Belém.

Uma particularidade dos poetas paraenses é que, ao contrário dos nordestinos, eles utilizavam pseudônimos. Zé Vicente era o pseudônimo de Lindolfo Mesquita; Ernesto Vera, de Ernani Vieira; Mangerona-Assu, de Romeu Mariz; Arinos de Belém, de José Esteves. A razão disso é que esses poetas, diferentemente dos poetas do Nordeste, não viviam exclusivamente da produção dos folhetos de cordel. O caso mais significativo é o de Zé Vicente. Lindolfo Mesquita era um conhecido jornalista que trabalhou nos jornais Folha do Norte e O Estado do Pará. Durante o Estado Novo foi prefeito da cidade de Vigia e diretor do DEIP (Departamento Estadual de Imprensa e Propaganda). Já Romeu Mariz, além de jornalista, era membro da Academia Paraense de Letras. Como o cordel era mais identificado com as classes populares, esses poetas não queriam que seus verdadeiros nomes fossem associados às classes mais baixas. Contudo, eles assimilaram o modelo da escrita com a linguagem popular em versos e produziram folhetos de muito sucesso.

Além dos temas nordestinos, que tinham grande aceitação, principalmente as histórias sobre Lampião, os folhetos da Guajarina traziam temas locais como o Círio de Nazaré, a interventoria de Magalhães Barata, a vida do seringueiro, e os crimes de grande repercussão. Também devemos acrescentar os folhetos com temas nacionais e internacionais, destacando os folhetos sobre a Revolução de 1930, o Estado Novo, e a Segunda Guerra Mundial. Os folhetos eram verdadeiros jornais populares, informando sobretudo a população das camadas mais baixas, que não tinham acesso aos jornais ou ao rádio.

A Guajarina se localizava em Belém, mas ela tinha uma extensa rede de revendedores: no interior do Pará, em cidades como Santarém e Marabá; na região amazônica, em cidades como Manaus e Rio Branco; e até mesmo no Nordeste, principal centro irradiador da literatura de cordel, em cidades como São Luís, Fortaleza, Teresina, Natal, Juazeiro e Campina Grande. O fato dos folhetos da Guajarina circularem no Nordeste demonstra o sucesso que essa editora teve na primeira metade do século XX.

A editora Guajarina fechou em 1949. Desde então, o Pará não teve outra editora de folhetos de cordel com o mesmo destaque. Apesar disso, os poetas paraenses continuaram a produzir folhetos, muitos de maneira independente. Outros temas passaram a ser abordados como a Ditadura Militar, os conflitos agrários na Amazônia, a morte de Juscelino Kubitschek e Tancredo Neves, a construção da Transamazônica, a visita do Papa João Paulo II, a corrida do ouro em Serra Pelada, a inflação no governo Sarney, a eleição de Fernando Collor, a morte da missionária Dorothy Stang. Entre os poetas que produzem folhetos de forma independente hoje, temos Antônio Juraci Siqueira, Apolo de Caratateua, João de Castro, Manoel Ilson Feitosa, Paulo Melo, João Bahia.
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Geraldo Magella de Menezes Neto. Graduando em História pela UFPA, bolsista do projeto de pesquisa Literatura de cordel e experiências culturais em Belém do Pará nas primeiras décadas do século XX, coordenado pela Prof. Dra. Franciane Gama Lacerda.
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Fonte:
http://www.ablc.com.br/comercial/comercial.htm

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João Dias de Souza Filho (A importância da biblioteca)

Uma biblioteca, sempre é importante. Muito importante. E, é muito importante, na medida em que é circulante e em que é freqüentada. Ou na medida em que seus livros são consultados. Essa importância atinge seu clímax, quando quem cuida do setor é alguém que gosta de ler. Alguém que orienta e sugere leituras. Os bibliotecários das escolas estão sempre disponíveis para o empréstimo de livros e, inclusive para apresentar sugestões, em consonância com interesses de pesquisas, que complementam as informações de salas de aulas.

Ao longo de minha vida profissional, no exercício da missão de professor, trabalhei em unidade escolar do Sesi, onde, entre minhas obrigações, cuidava da biblioteca, dentro de uma missão, muito específica: Curso de Orientação de Leitura. Esse Curso tinha uma missão peculiar, ou seja: os alunos retiravam livros e, depois, ao devolvê-los participavam de reunião, para comentar o livro e tirar dúvidas. Ao lado dessa tarefa, discutia-se muito. Havia, também, tratativa do noticiário da Imprensa.

Anteriormente a essa fase, fui aluno do Estadão. Estive entre os que foram alunos do Professor João Tortelo e, com ele tive uma ampla visão da importância do livro. E, mais. A biblioteca do Estadão era dirigida pelo bibliotecário Adail Odin de Arruda. Ia com freqüência à biblioteca e, com ele, Adail, trocava idéias sobre livros e, muitos dos quais li, sugeridos por ele. Ele era elétrico, rápido no raciocínio. Posteriormente, bem posteriormente, vim, a saber, também, que ele foi um grande maçom, com o mesmo perfil de energia e liderança. É um exemplo e referencial nos meios maçônicos até hoje.

Em Sorocaba não se pode falar de livros, sem que se faça menção ao histórico Gabinete de Leitura Sorocabano, fundado em 13 de janeiro de 1867, por alemães e pelo húngaro Luiz Matheus Maylasky. Interessante o espírito prático do estatuto redigido por ele: poderiam ser sócias, todas as pessoas sem distinção de nacionalidade, de profissão honrada, de bons costumes, maiores de 18 anos. Os menores poderiam ser apresentados pelos pais ou tutores. Estatutariamente observa-se que jornais e dicionários não poderiam sair da sede. Seus fundadores, além de Maylasky, foram: Joaquim Pereira de Castro Vasconcellos, Virgílio Augusto de Aguiar e Manoel F. Lallemant.

O maior historiador de Sorocaba (exemplo consumado de humildade cristã) Aluísio de Almeida, diz em seu livro Sorocaba: três Séculos de História que com a formação dessa primeira diretoria, desaparecia o caráter alemão da sociedade que se tornava nitidamente sorocabana e, é hoje uma das glórias de Sorocaba. Uma das melhores bibliotecas do interior do Estado. Tive honra de ser diretor de biblioteca dessa instituição, quando a mesma foi presidida pelo saudoso mestre e saudoso amigo, Dr. José Pereira Cardoso.

Sorocaba tem atualmente excelente acervo reunido em bibliotecas que se espalham pela cidade, a partir de unidades escolares, além de se dar, também, destaque e referencial em relação àquelas que integram.

Bibliotecas das Universidades e de outras instituições, inclusive, Lojas Maçônicas. Um outro aspecto interessante e de oportunidade, é que no terminal de ônibus da Avenida Afonso Vergueiro, também há um serviço de biblioteca, destinado ao atendimento dos que ali tomam condução. Uma experiência corajosa. Seu êxito depende, e muito, da própria maturidade de seus consultantes. Como modesto observador do cotidiano de Sorocaba, almejamos que o corajoso projeto dê certo.

Esse rápido bosquejo traduz a importância que as bibliotecas têm dentro da comunidade.

Bem a propósito desse tema, há algum tempo, um companheiro de ideal, Paulo Maurício Guimarães de Andrade, escreveu para O Esquadro, afirmando que a Biblioteca antecedeu o próprio livro, através de papiros. A mais antiga data de 2000 anos a.C. Já imaginaram os leitores, o que significa isto, em termos de cultura? Posto isto, consta que essa Biblioteca foi organizada em Mênfis, fundada pelo Rei Osimandias, em 2000, antes do nascimento de Cristo.

A biblioteca tem uma importância histórica. Importância incrível, fantástica e extraordinária. Não obstante a referência à biblioteca de Mênfis, ainda registra-se que a História destaca como a de grande importância, também, a que foi instituída em Alexandria, por Ptolomeu Sóter (General de Alexandre, O Grande). Essa Biblioteca chegou a reunir 700.000 volumes e sofreu três incêndios, um dos quais quando a cidade foi atacada pelas tropas de Júlio César, em 46 antes de Cristo.

No rol deste tema registra-se dentro da modernidade, que a Biblioteca do Congresso Nacional dos Estados Unidos, foi criada em 24 de abril de 1800 e, conta com mais de 110 milhões de itens, dispondo de um quadro de 5.000 funcionários.

Biblioteca dinâmica é sinal visível e de cultura. A afirmação é óbvia em tempos em que se valoriza, resumos. O hábito da leitura não é muito cultivado. O que se quer é resumo. É a esperteza das cópias. A importância da Biblioteca é minimizada, por muitos.

Pesquisas desenvolvidas nessa área levam a registrar que grandes Bibliotecas Públicas existem em Nova York, em Boston e a do Museu Britânico, a Lênin (Moscou), a Nacional de Paris e a do Vaticano. No Brasil, a Biblioteca mais antiga é a Nacional, situada no Rio de Janeiro. Ela foi instituída em 1811 e, seu acervo há alguns anos era de 10 milhões de livros.

Dentro da perspectiva histórica da Biblioteca, destaca-se a do Banco do Brasil, no Rio de Janeiro. É considerada, tecnicamente, uma das maiores do país, no que diz respeito às finanças. E, de grande importância, também, é a do Grande Oriente do Brasil/ Brasília. Segundo consta, esse espaço tem todas as condições de conforto, para os que lá se dirigem para desenvolver trabalhos de pesquisa de temática maçônica.

Ao longo do tempo os Grãos-Mestres Gerais, sensíveis à importância do acervo cultural, têm investido na aquisição de obras que propiciam qualidade à formação de maçons. A Biblioteca é do GOB é digna de sua importância.

Essa Biblioteca tem grande catálogo de editoras especializadas em publicações maçônicas, entre as quais A Trolha, Gazeta Maçônica, Madras e Aurora, totalizando 358 títulos. A este acervo some-se ainda 530, originárias da Kessinger Publications dos Estados Unidos da América, onde estão incluídas obras raríssimas.

Nesse contexto consideram-se a Enciclopédia Britânica e a coleção completa de Os Pensadores, além de dicionários de vários idiomas, entre os quais a Bíblia – a Vulgata – de Jerusalém, além de Livros como o Alcorão e o Torah. Sempre na perspectiva de atender aos que gostam de leitura, há que se considerar no GOB, a coletânea integral de anuários da mais antiga Loja Maçônica de Pesquisa do Mundo, que é a Quatuor Coronati Lodge, de Londres, cujo primeiro volume é do ano de 1886.

De outro lado enfatiza-se a importância de cuidadoso e detalhado trabalho de catalogação, utilizando-se modernas técnicas de comunicação, através da Informática. Todas essas técnicas propiciam um atendimento de longa distância, dentro do contexto de Brasil. A técnica em questão reflete aspecto de modernidade, através da amplitude que se nos oferece a Informática. Essa dinâmica aumentou de forma considerável, a qualidade do atendimento para os que fazem da Cultura fonte inesgotável de conhecimento.

Agora, o que é o óbvio, é que as pessoas não façam desse valioso recurso, oportunidade de mau gosto, o que acaba por implicar o comprometimento de metas de trabalho sério. Muito sério. O que deve fazer é estimular, sempre, a consulta, valorizando-a como fator de qualidade e de crescimento cultural. Esse processo todo tem o grande mérito e condão de ser educativo, propiciando crescimento intelectual e de ordem espiritual. É nesse particular que entra o decisivo papel do Professor, enquanto valioso colaborador do crescimento da sociedade como um todo.

Fazendo um pequeno e breve parênteses na seqüência deste artigo, a figura do Professor deve ser sempre respeitada. Ele é, em nossa opinião, a dinâmica do crescimento e da sedimentação de uma Nação. Infelizmente o professorado não é prestigiado e valorizado como seria uma meta ideal. Sem essa valorização e motivação, o que acaba por ser comprometida é a qualidade do ensino, tendo como vítima primária o aluno. Ao trabalho do professor ao vivo e a cores, a Informática hoje é, também, fator de importância para a Educação.

Na perspectiva deste tema ao lado do Gabinete de Leitura Sorocabano, há que se considerar e destacar, por oportuno e por ser de justiça, a Biblioteca Pública Municipal, que se situa no Alto da Boa Vista, nas proximidades do Palácio dos Tropeiros. Essa Biblioteca é um primor. Dentro da amplitude das obras que se constituem em um acervo de grande importância, some-se, por ser, também de relevância, a qualidade do atendimento.

Por ser de justiça e por propiciar atendimento de qualidade, temos a levar em consideração a Biblioteca Infantil, que funciona na Rua da Penha e, a Biblioteca do Parque Municipal Quinzinho de Barros. Acrescente-se a estas, a da Casa de Aluísio de Almeida, as de nossas Universidades e estabelecimentos de ensino e classistas.

Esse conjunto é um importante instrumental de cultura, disponível à população. Agora, por derradeiro, consideramos o exemplo do Cidadão Pedro Alves de Souza, catador de materiais recicláveis, que recolhe livros do lixo e montou uma Biblioteca e empresta livros para a vizinhança. É exemplo superior de vida. Merece lembrança e homenagem. Por testemunho, exemplo de vida ele sabe, a importância de uma Biblioteca. É assim que se fazem grandes os pequenos. Parabéns.

Fonte:
Notícia publicada na pag.2 do Caderno A, do Jornal Cruzeiro do Sul, em 23/06/2008 e 07/07/2008

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Viegas Fernandes da Costa (O velho, a velha e o violino)

Hoje as lembranças estão confusas e as pernas se enroscam em um tango solitário. Escuto as notícias do dia ao longe, mantra de sangue onde mergulham meus olhos; as mãos, suspensas no ar, caçando suspiros perdidos no éter. Quero parir o poema dorido abortado nos lábios – poema suspiro! Encontro-o na placenta do mundo; ao fundo, as cordas desafinadas de um violino que um dia vi tocado numa praça em Curitiba: dedos rugosos esgravatando sons num tempo conhecidos por aqueles ouvidos setuagenários e que por hora reconhecem apenas o tilintar das pobres moedas ao prato. E a chuva lava meu dia.

Hoje procuro o verso urbano que aquela senhora pendura à sacada: o verbo grafado nos olhos que buscam ao cio. Quero subir as escadas, bater-lhe na porta; a estrada, no entanto, devolve-me à praça e ao violino desafinado e infestado de cupins: gargalha a boca de moles gengivas ao som dos gemidos do arco às cordas. Que toca, desejo saber? Inaudíveis sinfonias, reconhecidas apenas por si. E dança a velhinha a polca imaginária: rotas chinelas, gretados os pés. Carrega consigo tão alvos cabelos, tão pobre vestido, tão poucos desejos. Mira seu homem que toca contente, ternura e lembrança do amante de ontem. Para onde migrarão, depois, tão flácidos corpos? À cama de tábuas, ao estrado de palha?

Busco o alento nas pias batinas ou sob o hábito da freira que me sorri todas as manhãs: os olhos devassos, as mãos e o rosário. É tenra. Escuta minha pele, arranha minha alma; amor nervoso às sombras dos muros. Não é o caso, agora; é claro o dia e os muros, iluminados, refletem sombras passageiras e apressadas. A polca, meu deus! A polca, das pernas de canelas tão finas! Como dançam as pernas e os braços que abraçam o vazio! É praça, e há toda esta multidão de juízes que reconhece a loucura ao ritmo de palmas, balança a cabeça e abandona centavos. Pálida razão de multidão que pasta em nossas cidades.

Há sempre uma história e muitos destinos: violino encontrado na lata de lixo. Sim, e a lembrança das notas fluídas em som, por que não? Arco improvisado, cordas choradas; e a velhinha que chega curiosa, escuta e entende que o dia chegara: há amores tardios. Assim, três eram os destinos – o velho, a velha e o violino – estes que vejo em minhas lembranças confusas. Estão aqui, neste banco que buscam meus olhos, nestes pombos que ciscam o chão, ainda que praça vazia, ainda que mortos se vão. Estão aqui, as mesmas mãos carinhosas, de senhora, que domaram seu rosto magro, tomaram seu corpo ralo, ensinaram-lhe o amor. Por isso sorri o sorriso de velho maluco? Não, de velho feliz, suponho, que conheceu a quentura de dormir abraçado e do passado lembra apenas os muitos violinos que seus dedos já tocaram. Não o reconhecem os músicos da filarmônica por trás de toda aquela barba, por trás de todo aquele riso. Siso, esperam sempre os que de sério se supõem. Não o reconhecem, portanto, em toda aquela praça tão sua, naqueles trapos tão seus. Passam senis, com suas tubas e flautas, suas cordas e percussões, ensimesmados e murchos, olhos no palco buscando aplausos, no anonimato da razão e do conjunto da orquestra. “Quem vai lá – perguntam alguns – com os cabelos desgrenhados?” “O tocador de tuba” – respondem uns, “O que soa a flauta” – afirmam outros. “Quem está cá?” – indago. “O velho do violino e sua velha dançarina” – sabem todos. Estão identificados na identidade do desvario.

Este verso urbano que sempre vi dependurado à sacada, preso às esquinas, esparramado sob os semáforos, diluído nestas lembranças confusas; viu-o esta que ora dança, e soube tomá-lo. Não o velho que meus olhos enxergam, mas de antanho o músico, dos tempos da tez louçã da atraente mulher que era: primeira fileira, poltrona central, suspiros perdidos no palco, naqueles olhos que nunca a viram, nos nervos atentos à música, o corpo teso na cadeira. Como era bonito então! E bonito lhe parece agora, também, porém seu! Dança-lhe de dia, compartilham o pão, a pobreza e a cama, e o recebe, ela, em seu corpo, tais quais arco e violino seus dedos delicados.

Anseio este poema onde busco enternecer-me: choque no concreto. Anseio piegas de chorar baixinho e sentir o alento do sol. Procurava-no ela: o poema e o profeta que roubara seu futuro. Tomou-lhe neste presente que vejo passar, aleatório e espectral, pelas retinas da memória. É bonita esta história que nunca aprendi a contar, que nunca souberam entender: viam apenas a miséria das roupas, o encardido desta que deveria parecer respeitável barba, o desarranjo do som e a flacidez da sua senhora. Sua senhora, enfim! Era tudo que viam, porém – doença, demência e fome – , esta multidão apressada e aprisionada em sua significância de gado. No entanto, a honra do abandonar do dia quando se punham em marcha aos lares infaustas massas dispersadas nas calçadas – tão cansadas! Recolhia seu caixote e seu instrumento, ele; ela, recolhia seu homem ao peito, e caminhavam lentos para onde minhas vontades nunca me levaram: vaga alusão à tragicômica despedida chapliniana. Andar curvado e claudicante, o dele; de princesa altiva, o dela, que conduz um príncipe fatigado e seu violino sustentando sob o braço.

Hoje as lembranças estão confusas e as pernas se enroscam em um tango solitário! Fujo das notícias embebidas em linfa, dos versos de alcovas, dos prazeres em casta carne sob os muros. Tudo que procuro é o alento deste encontro na praça: o velho, a velha e o violino, que já não estão mais. Como também eu há tanto já não estava. Tantos rostos que passam por esta praça. A alguns pergunto para onde foram, mas ninguém nunca os vira. Àquela vendedora de bonés, sim, que também por aqui andava naqueles tempos, que tanto reclamava dos barulhos do violino que lhe afastavam a freguesia, pergunto sobre o casal e seu instrumento, mas apenas me olha com a surpresa e piedade com que se olha para um louco. Então nunca os houve? Nunca houve esta história daquela moça ainda jovem, tão bonita, que sozinha se sentava na platéia para o admirar amoroso do violinista já maduro? Nunca houve esta história do desencontro e do vazio por tantos anos, e da desrazão senil, o esquecimento, deste músico que certo dia mirou no lixo o velho instrumento carcomido, improvisou-lhe as cordas, e foi tocá-lo à praça, numa Curitiba que nunca conhecera? Nunca houve esta senhora de peles flácidas, vestido pobre, finas pernas, a encontrá-lo e reconhecer sob tanta barba e velhice o homem maduro que nunca deixara de amar? Nunca houve assim, tampouco, a polca ao som indefinível de uma sinfonia inteligível apenas aos ouvidos da sua imaginação? Então nunca sentiu nosso músico o calor da carne, as mãos e o prazer daquela sua bailarina? E o alento que este poema urbano – reescrito a cada novo dia, as mesmas roupas, o mesmo som, a mesma dança – me trazia? Também não houve este alento?

“Queria parir o poema dorido abortado nos lábios” – disse-o. Descobri-me este poema abandonado em meio à praça estranhamente vazia. Da sacada, aquela senhora me abana nudez e promessas. Quero subir as escadas, bater-lhe na porta; a estrada, no entanto, devolve-me à praça e ao violino desafinado e infestado de cupins, às moles gengivas, à polca imaginária da sua senhora. Toca para mim, dança para mim! E a chuva lava meu dia…

Blumenau, setembro de 2005.

Fontes:
http://literaturasemfronteiras.blogspot.com/2008/11/o-velho-velha-e-o-violino-viegas.html
Fotomontagem em cima de foto da http://www.fotopg.com.br/

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Viegas Fernandes da Costa (1977)

(Blumenau/ SC/ Brasil – 21/02/1977)

Filho do português Carlos Alberto Fernandes da Costa e da brasileira Anneli Fernandes da Costa.

Realizou seus estudos fundamentais e secundários em escolas públicas. Formou-se no curso de Magistério em 1995. Já no ano seguinte começou a trabalhar como professor de Geografia no colégio onde se formara. Em 1997 ingressa na faculdade de História da Universidade Regional de Blumenau, licenciando-se historiador em fevereiro de 2001.

Durante o curso superior participou ativamente do movimento estudantil, sendo um dos fundadores do Movimento Estudantil Independente Rompendo Amarras.

Participou ainda da diretoria do Centro Acadêmico de História (que ajudou a fundar), do Departamento de História e Geografia como representante do corpo discente, do Conselho do Centro de Ciências Humanas e da Comunicação e da comissão que redigiu o projeto do Laboratório de História Oral da FURB.

Também desenvolveu atividades de pesquisa de história regional, e dentre seus orientadores estava a professora Maria Luiza Renaux.

Foi ainda na graduação que iniciou suas leituras do filósofo francês Michel Foucault e começou a estudar a história dos “corpos diferentes”.

Como professor, leciona desde os 19 anos, tendo passado por diversas instituições de ensino públicas e privadas, lecionando História, Filosofia, Sociologia, Atualidades e Geografia.

Em 2003 produziu e apresentou, em parceria com Ilze Zirbel e Ricardo Machado, o programa “Freqüência Alternativa”, na Rádio Comunitária Fortaleza de Blumenau, dedicado à música brasileira e a entrevistas com artistas, professores e pesquisadores universitários.

Teve seu primeiro poema publicado (Refúgio Escuro) em 1996, na efêmera revista “Top News”. Em 1999 teve o conto “A Voz Sem Som” escolhido para integrar a antologia Conto Poesia, publicado pelo Sinergia de Florianópolis. Em 2004 seu poema “Quem Plantou os Cogumelos?” escolhido pela Câmara Brasileira do Jovem Escritor dentre quase seis mil poemas de todo Brasil para integrar a antologia dos 100 melhores poemas de 2004.

Neste mesmo ano realiza intervenções culturais nas praças e ruas de Blumenau juntamente com um grupo de artistas locais. Sua coluna de crônicas é distribuída para milhares de endereços eletrônicos do Brasil e do exterior e seus textos publicados e A editora Hemisfério Sul publica seu primeiro livro, “Sob a Luz do Farol” (crônicas) em 2005.

Bibliografia de Viegas Fernandes da Costa:

Livro:
– SOB A LUZ DO FAROL. Blumenau: Hemisfério Sul, 2005 (Crônicas)

Participação em Antologias:
– Quem Plantou os Cogumelos? (poema). In. PANORAMA LITERÁRIO BRASILEIRO 2004/2005: Poesia: as 100 melhores de 2004. Rio de Janeiro: Câmara Brasileira do Jovem Escritor, 2004, p. 104.

– Quem Plantou os Cogumelos? (poema). In. ANTOLOGIA DE POETAS BRASILEIROS CONTEMPORÂNEOS, v. 1. Rio de Janeiro: Câmara Brasileira do Jovem Escritor, 2003, p. 64.

– Canto Guajira (poema). In. PAINEL BRASILEIRO DE NOVOS TALENTOS, v. 20. Rio de Janeiro: Câmara Brasileira do Jovem Escritor, 2003, p. 64-65.

– A Voz Sem Som (conto) In. CONTO POESIA: 3º Concurso Literário: Florianópolis: Sinergia, 1999, p. 47-54.

Artigos em Revistas Especializadas

– A Arte e a História da Arte: Caminhos e Descaminhos na Pós-Modernidade. In. REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL. Ano 24, nº 76, Blumenau, janeiro/abril, 2002, p. 56 – 59.

– Um Projeto de Nação: O Discurso de Afonso Balsini. In. BLUMENAU EM CADERNOS. Tomo XLII, nº 5/6, Blumenau, maio/junho, 2001, p. 73 – 82.

– Concurso de Robustez Infantil: Um olhar sobre a política eugenista em Blumenau. BLUMENAU EM CADERNOS. Tomo XL, nº 5, Blumenau, maio, 1999, p. 47 – 54.

Fontes:
http://viegasdacosta.hpg.ig.com.br/biografia.htm
Foto = http://www.verdestrigos.org/

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Humberto de Campos (A "Festa dos Ovos")

O último número do “Pathé-Journal”, que está sendo exibido em um dos nossos cinemas, registra, entre outros acontecimentos curiosos, a chamada “Festa dos Ovos”, levada a efeito recentemente em Wilkes Barre, nos Estados Unidos.

Entre os divertimentos populares dessa pequena cidade da Pensilvânia, está esse, que é, realmente, pitoresco. Em um parque das redondezas, são escondidos cuidadosamente, nos ramos das árvores, nas raízes, na cavidade das pedras, nos montes de folhas e nos tufos de relva, milhares de ovos, que devem ser descobertos pela criançada das escolas. Conduzida, este ano, ao parque, e dado o sinal, a pequenada composta de sete mil colegiais, dispersou-se pela enorme planície arborizada, à procura dos vinte e cinco mil ovos escondidos. E era de ver a algazarra, o tumulto, a alegria bulhenta, com que aquele exército de crianças se lançava em todos os rumos, na ânsia de fazer a maior colheita possível!

O comendador Inocêncio Coutinho havia estado, anteontem, com a sua jovem esposa, D. Odaléa, no conhecido cinema da Avenida, e gozado, em gargalhadas enormes, o interessante episódio de Wilkes Barre, quando resolveu, ontem, reproduzi-lo em família, para afugentar, bonacheirão, o tédio da sua encantadora companheira. Com esse intuito, saiu ele do Banco de que é diretor e, dirigindo-se a uma quitanda das proximidades, adquiriu, aí, três ovos, que escondeu, cuidadosamente acondicionados, no forro do chapéu. Chegado à casa, foi gritando, logo, do vestíbulo:

– Sinhazinha? Ó Sinhazinha? Sinhazinha? Vem cá!

A esposa acorreu, displicente, e o comendador convidou, feliz, num riso largo, ingênuo, bonachão:

– Vamos fazer a “festa dos ovos”? Olha: eu comprei uns ovos, e os escondi, comigo. Se os encontrares, como as crianças do cinema, ganharás um colar novo, de pérolas, para as festas do Rei. Está feito?

Incentivada pela idéia do prêmio, a linda senhora atirou-se, sorrindo, à procura dos objetos que o esposo ocultara. Lépida, risonha, barulhenta como uma colegial, meteu as mãozinhas de neve nos fundos bolsos do marido, remexeu-lhe a bainha da calça, examinou-lhe a manga do casaco, passou, em suma, no comendador, uma revista completa.

E não os achou, a infeliz!…

Fontes:
http://www.biblio.com.br
Imagem =
http://www.oesteinforma.com.br

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Antonio Feijó (A Lenda dos Cysnes)

António Joaquim de Castro Feijó (Ponte de Lima, 1 de Junho de 1859 – Estocolmo, 20 de Junho de 1917) foi um poeta e diplomata português.

Fez os estudos liceais em Braga e estudou Direito na Universidade de Coimbra terminando o curso em 1883.

Em 1886 ingressou na carreira diplomática.

Exerceu cargos no Brasil (consulados de Pernambuco e Rio Grande do Sul) e, a partir de 1895, na Suécia, bem como na Noruega e Dinamarca.

Casou em 24 de Setembro de 1900 com a sueca Maria Luisa Carmen Mercedes Joana Lewin (nascida em 19 de Agosto de 1878), cuja morte prematura, em 21 de Setembro de 1915, o viria a influenciar numa temática fúnebre, patente na sua obra

Como poeta, António Feijó é habitualmente ligado ao Parnasianismo.

Principais obras
Transfigurações, 1862
Líricas e Bucólicas, 1884
Cancioneiro Chinês, 1890
Ilha dos Amores, 1897
Bailatas, 1907
Sol de Inverno, 1922
Novas Bailatas, 1926
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O Lago dos Cisnes (pintura de Elisabete Abreu)
À Julio Dantas
Gedulde Dich, stilles, hoffendes Herze! Was Dir im Leben versagt
ist, weil Du es nicht ertragen könntest, giebt Dir der Augenblick
Deines Todes.
Herder.

Da praia longinqua, na areia doirada,
O Cysne pensava, fitando a Alvorada:

— «Que immensa ventura, na minha mudez,
Se dado me fôsse cantar uma vez!»

— «Meu canto seria, na luz do arrebol,
Dos hymnos mais altos á gloria do Sol…»

Não é das gaivotas e gansos do lago
O canto que em sonhos ardentes afago;

É quando nos bosques as aves escuto
Que a inveja confrange minh’alma de luto.

Se a Aurora se lança do cume dos montes,
Até d’alegria murmuram as fontes;

Só eu, passeando o meu tedio supremo,
Nem rio, nem choro, nem canto, nem gemo.

Oh Sol, que já vejo surgindo do Mar,
Tem dó de quem, mudo, não pode cantar!»–

E o Cysne, em silencio, chorava, escutando
A orchestra das aves que passam em bando.

Das aguas rompia a quadriga d’Apollo,
E o pobre a cabeça escondia no collo…

Mas Phebo detem-se nas nuvens ao vê-lo,
Com feixes de raios no fulvo cabello,

E diz-lhe, sorrindo, n’um halo de fogo:
— «No Olympo sagrado ouviu-se o teu rogo…»–

E nesse momento a Lyra Sem Par,
Da mão luminosa deixou resvalar…

O Cysne, orgulhoso da graça divina,
Da Lyra d’Apollo as cordas afina,

E rompe cantando… Calaram-se as fontes,
Calaram-se as aves… As urzes dos montes

Tremiam de goso a ouvi-lo cantar…
E o vento sonhava na espuma do Mar.

O Cysne cantava, tirando da Lyra
Um hymno que nunca na terra se ouvira;

Não pára, nem sente, na sua emoção,
Que a vida lhe foge naquella canção.

Mas quando, entre nuvens, a tarde cahia
No enlevo do canto que a essa hora gemia,

E Apollo no seio de Thetis desceu,
O pobre do Cysne, cantando, morreu…

Gemeram as aves; choraram as fontes;
Torceu-se nas hastes a giesta dos montes,

E o mar soluçava na tarde sombria,
Que o manto de luto com astros tecia.

Sollicita espera-o, das aguas á beira,
Do Cysne, já morto, fiel companheira;

Espera que o Esposo de prompto regresse,
Mas treme e suspira, que a Noite já desce…

As aguas luzentes parecem-lhe, ao vê-las,
Um panno d’enterro picado d’estrellas.

Então, no seu luto, sentindo que morre,
Oceanos e praias distantes percorre;

Mergulha nas aguas, colleia nas ondas,
Espreita as galeras de velas redondas,

Que ao longe parece que vão a voar…
E o Cysne não volta, não pode voltar!

Chorosa viuva, nas aguas deslisa,
Levada na fresca salsugem da brisa…

No seu abondono nem sente canseira;
Caminha, caminha, fiel companheira,

Chorando o perdido, desfeito casal…
Tão funda era a mágoa, tão grande o seu mal,

Que o peito sentindo de dor estalar,
— De dor e d’angustia começa a cantar!

E canta com tanta ternura e paixão,
Que a Vida lhe foge naquella canção.

As aves despertam; calaram-se as fontes;
Nas hastes tremiam as urzes dos montes;

A Lua escutava; detinha-se a Aurora,
E as vagas gemiam no vento que chora…

Na terra, no espaço, nos astros, no ceu,
Mais alta harmonia ninguem concebeu;

E os Deuses recebem, ouvindo-a, a chorar,
A alma do Cysne que expira a cantar…

Desde esse momento, no Olympo onde entraram,
Em honra dos Cysnes que tanto se amaram,

Das almas que foram leaes e sinceras,
Se Venus se mostra, surgindo da bruma,
São elles que tiram, nas altas espheras,
A concha de nácar, cercada de espuma…

Fonte:
http://pt.wikisource.org/
Pintura = http://www.elisabeteabreuartes.com

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