Arquivo do mês: novembro 2008

Balaio de Trovas IV

No presépio, um quadro lindo:
a jovem mãe e a criança.
– Era a ternura sorrindo,
amamentando a esperança!
A. A. de Assis – PR
Fiz trovas para vencer,
mas já me dei por vencido.
Ganhar… é saber perder,
sem merecer ter perdido!
Ademar Macedo – RN

Paquerador, mas casado,
da aliança faz segredo.
Sai por aí, o safado,
com um bandeide no dedo…
Adilson de Paula – PR

Meu pai, muito te agradeço
por tudo que me ensinaste;
não existe nenhum preço
pelo tanto que me amaste.
Agostinho Rodrigues – RJ

Neste Natal eu vou pôr
minha boca na janela
para você, por favor,
deixar o seu beijo nela…
Antônio Roberto Fernandes

Os poetas sempre estão
trazendo alegria à terra.
Cada verso é uma oração,
cada rima um sonho encerra!
Arlene Lima – PR

O mar, de língua sonora,
sabe o presente e o passado.
Canta o que é meu, vai-se embora,
que o resto é pouco e apagado.
Cecília Meireles

Quanto esta vida seria
difícil de suportar,
se não fosse essa mania
que a gente tem de sonhar!
Carolina Azevedo Castro

Todos os picos da serra,
nos Andes, nos Pirineus,
são dedos grandes da terra
mostrando a casa de Deus!
Célio Grünewald

Natal… repicam os sinos…
banha-se o mundo de luz…
Há nos lábios dos meninos
o sorriso de Jesus!
Colbert Rangel Coelho

Creio, pensando em Jesus
e em São Francisco também,
que existe um arco de luz
ligando Assis a Belém!
David de Araújo

Minha toalha de banho
encontra a tua, na corda,
e, no vento, é tanto assanho,
que em pouco tempo uma engorda…
Flavio Stefani – RS

Eu tenho te amado tanto,
com tão intensa paixão,
que muitas vezes me espanto
de ter um só coração!
Galdino Andrade

– Esse biquíni agarrado…
Meu bem, o que aconteceu?
– Foi na água que, molhado,
rapidinho se encolheu…
Gasparini Filho – SP

Um mundo melhor… queria,
para deixar aos meus netos,
onde imperasse a alegria
numa transfusão de afetos!
Gislaine Canales – SC

Vendo a perua chegar,
pergunta logo a vizinha:
– Querida, que vai tomar?
– Seu marido, queridinha…
Istela Marina Lima – PR

Pior que não ver estrelas
sobre os caminhos que eu trilho
é olhar para o céu e vê-las,
mas não enxergar seu brilho…
Izo Goldman – SP

Se sofres, poeta, canta,
que essa cantiga, aonde for,
consola, embala, acalanta,
quem vive pobre de amor!
Jeanette De Cnop – PR

A morena, quando passa,
no molejo das cadeiras,
deixa nos olhos a graça;
no pensamento, besteiras!…
J. J. Germano – RJ

Para os jovens, de ordinário,
este é um problema somenos:
o velho, no aniversário,
comemora um ano a menos…
José Fabiano – MG

Uma chave carregamos,
porta de um mundo melhor,
entretanto não largamos
a muleta de um pior.
José Feldman – PR

Ante as sandálias furadas
que entre cascalhos gastei,
não culpo o chão das estradas,
culpo os maus passos que dei.
José Maria M. de Araújo

Tudo que é vivo precisa
de carinho e de afeição;
sempre foi minha divisa
aprender essa lição.
José Marins – PR

Com seu jeitinho de santa,
no mesmo olhar ela oferta
a timidez que me encanta
e a audácia que desconcerta!
José Ouverney – SP

O amor que se oferta a Deus
é essência da caridade.
E o cuidado aos filhos seus
chama-se fraternidade.
Lairton T. Andrade – PR

Procurei por Deus em tudo
pra ter, de novo, esperança;
achei-O, após grande estudo,
… num meigo olhar de criança.
Lóla Prata – SP

Quisera que o mundo visse
meu ar de felicidade
assim que você me disse:
“Namoro” – e não: “Amizade”.
Luiz Hélio Friedrich – PR

Quanto mais festa e mais luz
nesses Natais de salões,
mais nós sentimos Jesus
ausente dos corações!
Luiz Otávio

Tirei da gaveta o sonho,
limpei o mofo, espanei;
revi meu viver bisonho
e, afinal, recomecei.
Nádia Huguenin – SC

Preguiça é grande pecado!,
diz minha sábia vizinha.
– Vem “preguiçar” ao meu lado,
assim não peco sozinha…
Neiva Pavesi – SP

E’ Deus que forja o destino,
distribuindo talento.
O poeta é só um menino
soltando letras – ao vento…
Newton Meyer

Nas capelas, a candura
das esposas, nas novenas.
Fora delas, a aventura
dos maridos “noutras” cenas…
Olga Agulhon – PR

A amizade Deus criou
naquele exato momento,
quando estrelas semeou
nas trevas do firmamento!
Roza de Oliveira – PR

Passado? Foi num repente.
Futuro – não descortino…
Melhor viver o presente,
que ele é um presente divino!
Rose Mari Assumpção – PR

Revezam-se em nossas rotas
sombra e luz, contras e prós,
e as vitórias e derrotas
começam dentro de nós…
Vanda F. Queiroz – PR

O sabiá de peito roxo,
passarinho cantador…
Seus gorjeios sem muxoxo
são melodias de amor!
Vidal Idony Stockler – PR

Velha rendeira sofrida!…
A malha viva em teu rosto
é amarga renda que a vida
teceu, desgosto a desgosto.
Waldir Neves
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Fonte:
TROVIA – Revista Virtual Mensal – ano 10 – n.110 – dezembro de 2008
Esta é uma revista mensal de trovas realizada em Maringá/PR, distribuída virtualmente por seu coordernador, o trovador, poeta e haicaista Antonio A. de Assis.

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O Mundo Curioso da Literatura

Lemony Snicket (Desventuras em Série)

A série de livros conta a história dos irmãos Baudelaire, que perdem os pais em um incêndio e são obrigados a ir morar com seu tio, o Conde Olaf. Ele é um sujeito ganancioso e egoísta, e só está de olho na herança dos garotos. Por isso, apronta poucas e boas com eles, fazendo-os sofrer bastante.

A coleção foi escrita pelo misterioso Lemony Snicket. Esse é o pseudônimo do norte-americano Daniel Handler. Antes de lançar Desventuras em Série, o escritor publicou dois livros para adultos que não obtiveram muito sucesso.

A biografia de Snicket presente na obra diz que ele nasceu numa pequena vila que hoje está submersa. Um povoado aparentemente pacato, mas cercado de segredos. ?Para escrever essas desventuras dos irmãos Baudelaires fui obrigado a conhecer a fundo as artimanhas de vilões como o conde Olaf. Passei anos mergulhado no mundo do crime. Não dos crimes reais, é claro: minha formação é estritamente técnica”, completa.

Na época do lançamento do primeiro livro, Handler disse ao público que não era Snicket, apenas o representava. “As crianças ouvem mentiras constantes de adultos, então acho que não foi algo incomum para elas”, falou ele sobre o disfarce.

Até 2005, haviam sido lançados 11 dos 13 volumes previstos para a série. Seus nomes são Mau Começo (The Bad Beginning), A Sala dos Répteis (The Reptile Room), O Lago das Sanguessugas (The Wide Window), Serraria Baixo-Astral (The Miserable Mill), Inferno no Colégio Interno (The Austere Academy), Elevador Ersatz (The Ersatz Elevator), A Cidade Sinistra dos Corvos (The Vile Village), O Hospital Hostil (The Hostile Hospital), O Espetáculo Carnívoro (The Carnivorous Carnival), O Escorregador de Gelo (The Slippery Slope) e The Grim Grotto (sem título em português).

Os livros foram traduzidos para 39 idiomas e venderam 27 milhões de cópias em todo mundo.

Foram os primeiros livros a tirarem a série Harry Potter do alto da lista de best-sellers infantis do jornal The New York Times.

Em 2004, foi lançada a adaptação da série para o cinema. Desventuras em Série levou oito meses para ser feito e custou 125 milhões de dólares. Jim Carrey e Meryl Streep estão no elenco.
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Bram Stocker (Drácula)

Durante o século XVIII, lendas gregas e sérvias falavam sobre vampirismo. Isso despertou a imaginação do escritor irlandês Bram Stoker (1847-1912). Primeiro ele pensou num personagem chamado Conde Vampiro. Até que um amigo, professor de história, falou de Vlad Tepes, herói romeno do século XV, famoso por sua crueldade. O personagem do livro, lançado em 1897, logo se transformou em Conde Drácula.

Parte da ação do romance Drácula, de Bram Stoker, é passada na cidade romena de Bistrita. Para aproveitar a fama, a cidade batizou um dos seus hotéis de ?Coroa de Ouro?, como no livro, e os restaurantes oferecem o cardápio Jonathan Harker, homenagem ao corretor de imóveis inglês que, na imaginação de Stoker, se hospedou no Castelo de Drácula. O cardápio consiste em espeto de carne, toucinho e cebola, temperado com pimenta vermelha, vinho da região, frios, queijos e crepe com geléia.

Também em Bistrita foi fundada a Sociedade Transilvânia Drácula. Para atrair turistas, a entidade criou três roteiros do Drácula Tour. Um deles, que inclui uma noite inteira num cemitério, dá o título de membro da sociedade aos corajosos.

Na cidade de Bran, um castelo atrai turistas usando o apelo de Drácula, embora Vlad Tepes nunca tenha vivido ali. Foi construído em 1377. A única relação é que o castelo pode ter sido atacado por Vlad. Um turista americano morreu do coração ali quando funcionários se escondiam para dar sustos nos visitantes. A brincadeira acabou.

O primeiro Congresso Mundial de Drácula foi realizado em Bukovina, a 40 quilômetros de Bistrita, em maio de 1995. Reuniu 300 participantes.

Vlad Tepes

Vlad Tepes (1431-1477) nasceu na Transilvânia e governou outra região da Romênia, a Valáquia, entre 1448 e 1476. Virou herói nacional na luta contra os turcos. Seu pai, também chamado Vlad, fora nomeado cavaleiro da Ordem do Dragão.

Dragão em romeno é Dracul, a mesma palavra para “demônio”. O sufixo “a” significa “filho” em romeno. Tepes, filho de Dracul, virou Dracula.

Tepes era conhecido também como “o empalador”. Na empalação, o condenado era espetado, pelo ânus ou pelo umbigo, em uma estaca fincada no chão. A vítima tinha o corpo atravessado até morrer.

Vlad Tepes bebia sangue? Os romenos repelem essa pergunta. É uma ofensa a um herói nacional. Mas as lendas existem mesmo. São várias versões. Uma diz que Vlad Tepes gostava de molhar o pão no sangue de suas vítimas. Outra afirma que, nos três últimos anos de vida, ele bebia o sangue das garotas virgens crendo que isso aumentaria sua força. Aparentemente, os malfeitos do romeno foram muito exagerados por seus inúmeros adversários.

Morto em combate pelos turcos, em 1477, Vlad Tepes teve a cabeça cortada. O corpo foi enterrado num monastério, construído em 1519. Fica no meio de um lado de Snagov, de difícil acesso. O túmulo de Vlad Tepes está localizado em frente ao altar. Há quem diga que os ossos teriam sido roubados dali.

Fontes:
http://guiadoscuriosos.ig.com.br/
Imagem Desventuras em Série = http://universoliterario.wordpress.com/
Imagem Drácula = http://kimbofo.typepad.com/

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Alcântara Machado (Apólogo Brasileiro sem Véu de Alegoria)

O trenzinho recebeu em Maguari o pessoal do matadouro e tocou para Belém. Já era noite. Só se sentia o cheiro doce do sangue. As manchas na roupa dos passageiros ninguém via porque não havia luz. De vez em quando passava uma fagulha que a chaminé da locomotiva botava. E os vagões no escuro.

Trem misterioso. Noite fora noite dentro. O chefe vinha recolher os bilhetes de cigarro na boca. Chegava a passagem bem perto da ponta acesa e dava uma chupada para fazer mais luz. Via mal-e~mal a data e ia guardando no bolso. Havia sempre uns que gritavam:

– Vá pisar no inferno!

Ele pedia perdão (ou não pedia) e continuava seu caminho. Os vagões sacolejando.

O trenzinho seguia danado para Belém porque o maquinista não tinha jantado até aquela hora. Os que não dormiam aproveitando a escuridão conversavam e até gesticulavam por força do hábito brasileiro. Ou então cantavam, assobiavam. Só as mulheres se encolhiam com medo de algum desrespeito.

Noite sem lua nem nada. Os fósforos é que alumiavam um instante as caras cansadas e a pretidão feia caía de novo. Ninguém estranhava. Era assim mesmo todos os dias. O pessoal do matadouro já estava acostumado. Parecia trem de carga o trem de Maguari.
————
Porém aconteceu que no dia 6 de maio viajava no penúltimo banco do lado direito do segundo vagão um cego de óculos azuis. Cego baiano das margens do Verde de Baixo. Flautista de profissão dera um concerto em Bragança. Parara em Maguari. Voltava para Belém com setenta e quatrocentos no bolso. O taioca guia dele só dava uma folga no bocejo para cuspir.

Baiano velho estava contente. Primeiro deu uma cotovelada no secretário e puxou conversa. Puxou à toa porque não veio nada. Então principiou a assobiar. Assobiou uma valsa (dessas que vão subindo, vão subindo e depois descendo, vêm descendo), uma polca, um pedaço do Trovador. Ficou quieto uns tempos. De repente deu uma cousa nele. Perguntou para o rapaz:

– O jornal não dá nada sobre a sucessão presidencial?

O rapaz respondeu:

– Não sei: nós estamos no escuro.

– No escuro?

– É.

Ficou matutando calado. Claríssimo que não compreendia bem. Perguntou de novo:

– Não tem luz?

Bocejo.

– Não tem.

Cuspada.

Matutou mais um pouco. Perguntou de novo:

– O vagão está no escuro?

– Está.

De tanta indignação bateu com o porrete no soalho. E principiou a grita dele assim:

– Não pode ser! Estrada relaxada! Que é que faz que não acende? Não se pode viver sem luz! A luz é necessária! A luz é o maior dom da natureza! Luz! Luz! Luz!

E a luz não foi feita. Continuou berrando:

– Luz! Luz! Luz! Só a escuridão respondia.

Baiano velho estava fulo. Urrava. Vozes perguntaram dentro da noite:

– Que é que há?

Baiano velho trovejou:

– Não tem luz!

Vozes concordaram:

– Pois não tem mesmo.
*
Foi preciso explicar que era um desaforo. Homem não é bicho. Viver nas trevas é cuspir no progresso da humanidade. Depois a gente tem a obrigação de reagir contra os exploradores do povo. No preço da passagem está incluída a luz. O governo não toma providências? Não torna? A turba ignara fará valer seus direitos sem ele. Contra ele se necessário. Brasileiro é bom, é amigo da paz, é tudo quanto quiserem: mas bobo não. Chega um dia e a cousa pega fogo.

Todos gritavam discutindo com calor e palavrões. Um mulato propôs que se matasse o chefe do trem. Mas João Virgulino lembrou:

– Ele é pobre como a gente.

Outro sugeriu uma grande passeata em Belém com banda de música e discursos.

– Foguetes também?

– Foguetes também.

– Be-le-za!

Mas João Virgulino observou:

– Isso custa dinheiro.

– Que é que se vai fazer então? Ninguém sabia. Isto é: João Virgulino sabia. Magarefe-chefe do matadouro de Maguari, tirou a faca da cinta e começou a esquartejar o banco de palhinha. Com todas as regras do ofício. Cortou um pedaço, jogou pela janela e disse:

– Dois quilos de lombo!

Cortou outro e disse:

– Quilo e meio de toicinho!

Todos os passageiros magarefes e auxiliares imitaram o chefe. Os instintos carniceiros se satisfizeram plenamente. A indignação virou alegria. Era cortar e jogar pelas janelas. Parecia um serviço organizado. Ordens partiam de todos os lados. Com piadas, risadas, gargalhadas.

– Quantas reses, Zé Bento?

– Eu estou na quarta, Zé Bento!

Baiano velho quando percebeu a história pulou de contente. O chefe do trem correu quase que chorando.

– Que é isso? Que é isso? É por causa da luz?

Baiano velho respondeu:

– É por causa das trevas!

O chefe do trem suplicava:

– Calma! Calma! Eu arranjo umas velinhas.

João Virgulino percorria os vagões apalpando os bancos.

– Aqui ainda tem uns três quilos de colchão-mole!

O chefe do trem foi para o cubículo dele e se fechou por dentro rezando. Belém já estava perto. Dos bancos só restava a armação de ferro. Os passageiros de pé contavam façanhas. Baiano velho tocava a marcha de sua lavra chamada Às Armas Cidadãos! O taioquinha embrulhava no jornal a faca surripiada na confusão.

Tocando a sineta o trem de Maguari fundou na estação de Belém. Em dois tempos os vagões se esvaziaram. O último a sair, foi o chefe muito pálido.
*
Belém vibrou com a história. Os jornais afixaram cartazes. Era assim o titulo de um: Os Passageiros no Trem de Maguari Amotinaram-se Jogando os Assentos ao Leito da Estrada. Mas foi substituído porque se prestava a interpretações que feriam de frente o decoro das famílias. Diante do Teatro da Paz houve um conflito sangrento entre populares.

Dada a queixa à polícia foi iniciado o inquérito para apurar as responsabilidades. Perante grande número de advogados, representantes da imprensa, curiosos e pessoas gradas, o delegado ouviu vários passageiros. Todos se mantiveram na negativa menos um que se declarou protestante e trazia um exemplar da Bíblia no bolso. O delegado perguntou:

– Qual a causa verdadeira do motim?

O homem respondeu:

– A causa verdadeira do motim foi a falta de luz nos vagões.

O delegado olhou firme nos olhos do passageiro e continuou:

– Quem encabeçou o movimento?

Em meio da ansiosa expectativa dos presentes o homem revelou:

– Quem encabeçou o movimento foi um cego!

Quis jurar sobre a Bíblia mas foi imediatamente recolhido ao xadrez porque com a autoridade não se brinca.

Fonte:
SALES, Herberto (org.). Antologia de Contos Brasileiros. 9.ed. SP: Ediouro, 2005. p.109-113.
Imagem = http://antonini-eunice.spaces.live.com/

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Folclore do Norte e Sul (Pé de Garrafa)

O equilíbrio espiritual está em um só ponto e não em vários. Essa é a lição que nos passa o Pé-de-Garrafa. Além disso, mostra que todos nós temos uma faceta “saltadora”, que nos torna eternos peregrinos pela vida.

O Pé-de-Garrafa é um ente misterioso, um ser feérico que vive nas matas do centro e meio-norte do país. Raramente é visto, mas sempre se ouvem seus gritos estridentes, ora amedrontadores, ora familiares, capazes de confundir os caçadores, que acreditam ouvir os gritos de um companheiro em apuros. Em algumas ocasiões o pobre caçador enlouquece com os gritos arrepiantes.

Ouve-se muito falar dele no Paraná, em Goiás, no Piauí e no Tocantins, vivendo nas matas e capoeiras. Ele tem muitos outros nomes, como Cão-Coxo, Capenga, Cambeta e Pé de Quenga. Em Goiás, dizem que ele é negro e com o umbigo branco. Tem um chifre só na cabeça, um só olho, uma única mão com garras e um pé só, redondo.

CARACTERÍSTICAS:

Muitas pessoas que já o viram, nos dão outras características:

1. Ele é uma criatura semelhante à um homem, que pode apresentar-se de pele alva ou na cor negra. Pode surgir com dois ou um braço, porém é dotado de uma só perna. Deixa um rastro que se assemelha ao fundo de uma garrafa, perfeitamente redondo.

Algumas pegadas atribuídas supostamente a esta entidade, encontradas no estado de Piauí, mostra que o Pé-de-Garrafa deve ser muito pesado, deixando marcas profundas na terra dura.

2. Ele costuma gritar alto para informar o caminho na mata, mas as pessoas não devem lhe responder, pois caso contrário, ele o seguirá.

3. Segundo alguns, ele possui um ponto vulnerável, o seu umbigo branco, que deve ser atingido para se alcançar à fuga.

Câmara Cascudo o descreve:
O Pé-de-Garrafa é um ente misterioso que vive nas matas e capoeiras. Não o vêem ou o vêem raríssimamente. Ouvem sempre seus gritos estrídulos ora amedrontadores ou tão familiares que os caçadores procura-nos, certos de tratar-se de um companheiro transviado. E quanto mais rebuscam menos o grito lhes serve de guia, pois, multiplicado em todas as direções, atordoa, desvaira e enlouquece. Os caçadores terminam perdidos ou voltam à casa depois de luta áspera para reencontrar a estrada habitual. Sabem tratar-se do Pé-de-Garrafa porque este deixa sua passagem assinalada por um rastro redondo, profundo, lembrando perfeitamente um fundo de garrafa. Supõe que o singular fantasma tenha as extremidades circulares, maciças, fixando vestígios inconfundíveis. Vale Cabral , um dos primeiros a estudar o Pé-de-Garrafa, disse-o natural do Piauí, morando nas matas como o Caapora e devia ser de estatura invulgar a deduzir-se da pegada enorme que fica na areia ou no barro mole do massapé”.

Nosso Pé-de-Garrafa é similar ao Fachan, um elfo que vive na Irlanda e nas Terras Altas do Oeste da Escócia. Sua figura também é espantosa, com uma mão que sai do meio do peito, uma perna que brota do tronco, com um olho no meio do rosto e com grandes dentes. Apesar desse aspecto tão horrível, se diz que ele possui a propriedade de absorver todas as energias negativas dos seres impregnados pela perversidade e corrupção, transformando-as em energias positivas.

Quem viu, não quer ver!

No escuro da noite sem lua.
Por entre as árvores da mata.
Um grito ecoa.
Como um gemido agonizante.
Seus passos soam tuc, tuc, tuc, como pilão socando o chão.
Dizem matutos experientes que um Pé de Garrafa quando pega uma pessoa espanca-o drasticamente…estraçalha-o.
Pequenos e horripilantes, suas pernas são unidas numa só, tomando a forma de uma garrafa.
Morenos cor de terra, cabelos desgrenhados e bocarra na cara de mau, moram sob as locas das grandes pedras.
Se alimentam de animais e ervas.
E só aparecem a noite.
Huuuuuuu!!!!
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Folclore Paulista (Ipupiara, o demonio da água)

Os sentimentos que procedem do espaço mais profundo e recôndito de nossas mentes são manifestações de tudo o que expressa o Ipupiara. Inclusive os piores e mais ruins.

O Ipupiara é um homem-marino, homem-peixe ou homem-sapo, inimigo dos pescadores e lavadeiras. O cronista português Pero de Gandâvo nos contou que, no ano de 1564, um monstro marinho, que os índios chamavam de Ipupiara, tinha sido morto nas costas de São Vicente, no litoral do estado de São Paulo.

Outro cronista colonial, o jesuíta Fernão Cardim, dizia que tais criaturas tinham boa estatura, mas eram muito repulsivas. Matavam as pessoas abraçando-as, beijando-as e apertando-as até o sufocamento. Tais monstros, também devoravam os olhos humanos, narizes, ponta dos dedos dos pés e das mãos e as genitálias.Existiam também na forma feminina, possuindo cabelos longos e eram muito formosas. O Ipupiara era, segundo estes cronistas, um ser “bestial, faminto, repugnante, de ferocidade primitiva e brutal”.

A LENDA…

Conta a lenda brasileira que,em São Vicente, no ano de 1564, a linda escrava índia, IRECÊ ao ir à praia a noite, para um de seus encontros com o jovem ANDIRÁ, que vinha ao continente de canoa, deparou com um animal marinho gigantesco, com cerca de três metros de altura, com uma grande cabeça, bigode, braços longos, dentes pontiagudos e pés de barbatanas. IRECÊ encontrou a canoa de seu amado no mar, vazia.

Esse animal, a princípio, foi descrito como sendo CURUPIRA – o fantasma do mar, que foi morto pelo capitão Baltazar Ferreira assistente do Capitão-Mór, ao acudir o clamor de IRECÊ.

Os indios identificaram o animal como sendo IPUPIARA o demônio da água. Diziam que ele habitava o espaço entre a velha “Casa de Pedra” ( primeira construção de alvenária do Brasil) e a Praia de São Vicente (gonzaguinha). O fato, misto de horror e fantasia, teria sido comentado por todo o Brasil e até por estrangeiros de vários paises. Entretanto, ninguém jamais falou da única vítima presumível do IPUPIARA o vicentino ANDIRÁ, que deixou para trás sua canoa solitária à beira mar e o coração partido de IRECÊ. Como toda lenda, a do IPUPIARA parte de algumas premissas verdadeiras. Estudiosos e historiadores entendem que o tal monstro não passava de um leão marinho, desviado pelas águas frias do inverno que, desavisado, veio parar nas praias brasileiras.

No estado do Bahia e Goiás, ainda sobrevive a crença do “negro d’água”, homens de cor negra que respiram debaixo da água e vem à tona em determinadas noites para assustar e afogar os humanos. Dizem que sua morada é uma cidade subaquática, onde existem riquezas, principalmente diamantes. Em lugar das mãos e dos pés, possuem membranas semelhantes a pés de pato.

No Xingu existe a crença do homem-sapo, que costuma assustar, raramente matar, os indígenas Seu corpo é coberto de escamas, que o protegem das flechas, mas o rosto é o de um sapo. Sua boca é enorme e babenta e flutua nos remansos como se fosse um jacaré.

Quando não tem alimento, o homem-sapo devora os próprios filhos. Anda aos saltos como uma rã, dando pulos de até cinco metros, na água ou na terra.

É quando se agarra firmente às costas dos pescadores, derovando-lhe preferencialmente a cabeça da vítima.

O homem-sapo só teme as tempestades e os ventos e é quando vai para os rios. Lá fica mergulhado até o tempo melhorar.

No mundo inteiro, o conhecimento indígena relativo aos animais, tem nos conduzido e ainda conduzirá à descoberta de novas espécies que a ciência desconhecia. Entretanto, algumas crendices populares fazem exageros óbvios, contendo na maioria das vezes elementos sobrenaturais altamente ressaltados. Podemos nos perguntar se talvez os monstros da mitologia antiga não contribuíram um pouco na adulteração progressiva da descrição de alguns animais. Tentando explicar o processo de formação das lendas, o filósofo Evêmero, já no século 4 a.C., defendia este ponto de vista. Lendas são deformações de uma realidade e foram poetizadas através das gerações, até acabarem deturpando consideravelmente a realidade prosaica.

Um dos argumentos que reforçam esta tese é que a maioria destes animais fabulosos, se apresentam como híbridos impossíveis, pois são formados pela justaposição absurda de fragmentos anatômicos de diferentes animais , inclusive o homem. Acredito, que os seres que entram nestas composições híbridas, foram cuidadosamente escolhidos pelas qualidades que simbolizam. Se nos deparamos com um monumento de faraó com corpo de leão, sabemos que nele está contido a intenção de atribuir a este monarca as qualidades de rei do deserto. Já a deusa com cabeça de vaca, simboliza a fertilidade. Estamos aqui diante de uma teoria alegórica, mas que dá o que pensar. Hoje, também o cristão acredita que o Espírito Santo tem realmente a forma de uma pomba. Para criarmos um guardião de tesouros, também pensaríamos na força do leão, na sagacidade da águia, na maldade da serpente e na dissimulação do escorpião.

Mas há, entretanto, alguns, como os unicórnios, as sereias, os pigmeus, a fauna de gnomos e duendes, a fênix, o leviatã, entre outros, que perduram através dos milênios e pela sua coerência anatômica nos dá a esperança de encontrá-los na natureza, feito que aliás, muitos já obtiveram.

Bibliografia
CASCUDO, Luís da Camara – Geografia dos Mitos Brasileiros. Belo Horizonte/ São Paulo, edit. Itatiaia Ltda/Edusp, 1983.
HOLANDA, Sérgio B. de – Raízes do Brasil. 17ª edição. Rio: José Olympio editora, 1984.
KAPPLER, Claude – Monstros, Demônios e Encantamentos no Fim da Idade Média. 1ª edição brasileira. São Paulo: Liv. Martins Fontes editora, 1994.
Inferno Atlântico – Demonologia e Colonização (séculos XVI – XVIII). São Paulo: Cia. das Letras, 1993.
Planeta – Editôra Três. Em busca da Serpente Marinha, por Bernard Heuvelmans

Fonte:
http://www.rosanevolpatto.trd.br/lendaipuiara.htm

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Antônio Carlos Tórtoro (Um Poeta e Sua Poesia)

O Poeta Viajeiro (Gustave Moureau)
O dia está na minha frente esperando para ser o que eu quiser. Tudo depende só de mim !”
Charles Chaplin

O cirurgião dentista Cavalheiro Verardo, poeta, escritor e trovador de São Vicente de Minas, sabe que “poesia é terapia / que envolve e explica / nossas carências, lembranças, ilusões / nossos amores, sonhos, dissabores; / tomando por base / cada saudade que sentimos / e cada esperança que temos “.

E sabedor disso tudo, tal qual “ um grande caminhão / de coleta de lixos recicláveis / passando em nossas vidas … / Ele passa recolhendo : / cacos de sonhos , / pedaços de ilusões , / e esperanças com datas vencidas “ , e escreve um livro com 36 poemas : Um poeta e sua poesia.

Num mundo em que a violência e o desamor tomam conta das páginas de jornais e revistas , das telas das tevês e dos monitores dos computadores acessados via Internet, a poesia de Verardo é um oásis no qual podemos beber da mais pura e adolescente poesia, mas que é, ao mesmo tempo, madura, concreta, originada na realidade da vida.

Os versos do Cavalheiro Verardo, livres, ou presos às rimas e métricas de sonetos, compõem uma teia de vida, entrelaçando histórias, danças, risadas, esperanças, cinzas, saudades, paz, surpresas, felicidade, amor, lágrimas, aniversários, festas, e me fazem lembrar as palavras de sua irmã, Laudicéia, escritas na contracapa de um outro seu livro “Amor e poesia”: “falar dele é lembrar-me de seu jeito manso, mineiro; de seus olhos que muitas vezes procuram explicações para as mais simples coisas; de seus cabelos brancos que traduzem a clareza de seus sonhos que na adolescência tivera e muitos não realizou”.

Enfim, para quem continua, apesar de tudo, acreditando na aurora de um novo dia, vale a pena tentar desvendar, nas entrelinhas, todo o mistério e beleza que permeiam as relações entre um poeta e sua poesia, entre o poeta e o mundo que o rodeia, e, a partir daí, empenhar-se em tornar o mundo melhor: só depende de nós.

Fonte:
http://www.movimentodasartes.com.br/arl/pop/051203a.htm

Pintura = http://nonas-nonas.blogspot.com/

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O Nosso Português de Cada Dia (Passar Daí)

Segundo o Dicionário Houaiss, o verbo passar possui 77 significados diferentes, incluídos nesse número os regionalismos.

Quando alguém diz a outra pessoa “passarei daí em 15 minutos”, esse verbo foi utilizado no sentido de “fazer-se presente, em deslocação; circular” segundo o Houaiss. Esse sentido é o de número 15 segundos esse mesmo dicionário.

Ainda esse dicionário dá os seguintes exemplos de frases: “o trem costuma passar por aqui às 9h35m” e “passou por São Paulo e seguiu para o Paraná”.

Observemos que nesses exemplos não se usou a palavra DE + AÍ = DAÍ. E por quê? Porque após o verbo passar, no sentido de que estamos tratando aqui, a palavra correta para ser usada é POR, classificada como preposição pela gramática normativa.

Portanto, está errada a expressão: passarei daí em 15 minutos. Devemos dizer “passarei por aí em 15 minutos”.

Fonte:
Prof. Dr. Ozíris Borges Filho.
http://www.movimentodasartes.com.br/

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