Nelson Capucho (A Vaca do Oitavo Andar)

Trrriiiiimmm.

Turíbio esfrega os olhos, olha o relógio sobre a cômoda: 9 horas. Não pode ser o despertador. Trabalha à noite, só vai para a cama por volta das 3 horas. Assim, teoricamente, alguém está lhe telefonando às 6 horas da madrugada.

Trrriiiimmm.

Vira-se, cobre a cabeça com o travesseiro. “Ninguém me deixa dormir”, pensa. Quando não é o cachorro da vizinha do 803 é o telefone.

Triiiiiimmm.

Não deve ser alguém da família. Todos os parentes sabem que ele dorme até mais tarde, que é diferente da maioria dos mortais.

Trrriiiiimmm.

Arrepende-se por não ter desligado o aparelho da tomada. Depois começa a imaginar que aconteceu alguma desgraça. Tio Luís não anda bem de saúde. O irmão que se casou com uma nissei e está morando no Japão. Lá tem muito terremoto. Movimenta a mão na direção do telefone com a agilidade de um astronauta em solo lunar.

Trrim…

Desligaram. Antes que pudesse dizer alô.

Resmunga um palavrão, ofende o coitado do Graham Bell e decide retomar o sono. Lembra-se que estava sonhando com a Sandrinha. E era bom. Tenta recuperar o roteiro do sonho. O maldito cachorro do 803 começa a latir.

Ah, a Sandrinha…

Trrriiiiimmmm.

Ah, não…

Trrriiiimmm.

Atende.

– Hum?

– Bom dia. É da residência do senhor Turíbio? (Voz feminina. Alguma secretária – logo deduz).

– É.

– O senhor Turíbio está?

– Ele.

– Aqui é da Associação dos Pecuaristas Anônimos e o senhor participou do nosso concurso beneficente, não foi?

– E eu por acaso sou boi para participar do concurso de vocês?

– Muito boa, essa. O senhor comprou uma de nossas rifas, certo?

– Sei lá, compro tanta porcaria…

– O senhor ganhou o primeiro prêmio, seu Turíbio!

– Ganhei alguma coisa? Não é possível, minha filha. Ultimamente ando perdendo até no jogo da velha para o meu sobrinho de quatro anos.

– Pois a sua sorte mudou. O senhor ganhou a novilha.

– Como é que é?

– A vaca. O primeiro prêmio!

Agradece à moça, senta-se na cama e sorri. Enfim, uma boa notícia. Mas logo começa a se preocupar. Mora em um edifício, oitavo andar. O que vai fazer com uma vaca? Precisa ir buscar o prêmio na manhã seguinte. Telefona para alguns conhecidos: ninguém quer comprar uma novilha. Quem sabe os açougues? Não, não teria coragem.

Vai à Associação dos Pecuaristas disposto a contar o seu drama, entregar o animal ao primeiro que se interessar. De graça. Mas quando vê a vaquinha, aquele olhar carente, Turíbio muda de idéia:

– Tudo bem. Vou levar. Agora a vizinha do 803 vai ver o que é bom para tosse!

Fonte:
CAPUCHO, Nelson. O Jardineiro de Flores Estranhas. Curitiba: Imprensa Oficial, 2002. (Série Crônicas de Londrina).

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