Daphne Du Maurier (Rebecca)

Resumo

No clássico de Daphne du Maurier, suspense romântico, o novo narrador é definido por seu sentido de desejo. É este sentido de insuficiência que lhe dá características distintas e lhe faz ser original. Como obedece desejos, perde seu sentido de identidade, tornando se o mesmo que um espectro. Está colocado então de maneira que, enquanto supera finalmente o fantasma, o viúvo de Rebecca, Manderley se queima.

Isto explica também sua irritação ao revelar que o Maxim matou sua primeira esposa.
Nietzsche escreve em seu ensaio sobre a moralidade do mestre e do escravo, todos estes instintos que não acabam, voltando sempre ao seu interior, transformando a substância da alma. É então, esta insuficiência do narrador que lhe dá até mais identidade. Começa seu talhe como o companheiro da pretensiosa Sra. Pick-up Funnk, cujo objetivo e interesse é ver o Maxim rico. Descreve sua posição como inferior e subserviente à ela. Sua cegueira subseqüente para Maxim é tão forte quanto a curiosidade de Pick-up Funnk. Diz-se sentido com o novo, e inexperiente com si próprio. Embaraçado em se livrar de Pick-up Funnk e Maxim, porque a vê em um papel maternal (e conseqüentemente por sua própria reflexão).

No segundo capítulo de Rebecca, o narrador atesta a mudança que ocorreu dentro dela, porque consegue cumprir o seu destino. Diz que supõe que sua dependência dela o fêz forte. Anota como diferente ficou da menina tímida que veio antes a Manderly.

Vai então saber comparar seu perfil anterior com a figura de Rebecca, desta figura que veio substituir. O narrador faz esta transição de empregada a patroa negligente, superação da Sra. Pick-up Funnk, no mesmo recipiente em que põe o fantasma do Maxim.

Excerto do livro Rebecca (Capítulo I)

À Noite Passada sonhei que tinha ido novamente a Manderley. Pareceu-me ter ficado por algum tempo diante do portão de ferro, fechado a cadeado. Chamei, no meu sonho, pelo porteiro; não obtive resposta; espiando com mais atenção por entre os varões ferrujentos, vi que a portaria estava deserta.

Nenhuma fumaça na chaminé; as janelazinhas se abriam numa atitude de tristeza infinda. Então, como acontece nos sonhos, senti-me de súbito possuída de poderes sobrenaturais, e transpus, qual um espírito, aquela barreira. O caminho serpenteava à minha frente, com as mesmas curvas de outrora; à medida que avançava, porém, notei mudança; mais estreito e descuidado; não era mais o caminho que tínhamos conhecido. Fiquei perplexa a princípio, sem nada compreender; e só quando tive de baixar a cabeça para não roçar um galho de árvore percebi o que acontecera. A Natureza havia reconquistado os seus direitos, e pouco a pouco, na sua maneira insidiosa, ia abafando o caminho. A vegetação invasora triunfava. Plantas sombrias e rebeldes sobre ele debruçavam seus ramos. As faias de troncos lisos e esbranquiçados, crescidas muito próximas umas das outras, entrelaçavam a galharia, fechando-se em abóbada sobre a minha cabeça. E havia ainda outras árvores que eu não reconhecia: carvalheiras atarracadas, olmos tortuosos, emersos da terra silenciosa em conjunto com outras plantas que me pareciam monstruosas e de que eu não tinha recordação.

O caminho de outrora transformara-se em simples trilha, com o pedregulho desaparecido sob a invasão de musgos e grama. Galhos rasteiros embaraçavam-me a marcha; raízes nodosas pareciam garras macabras… Dispersos aqui e ali, em meio a essa vegetação desordenada, eu reconhecia arbustos que nos tinham servido de marcos em nosso tempo; criaturas de beleza e graça, famosas hortênsias de tufos azuis. Como nada lhes houvesse embaraçado o desenvolvimento, asselvajaram-se, tornaram-se primitivas, elevando-se a alturas incríveis, mas sem flores, de folhagem sombria e feia como a das parasitas anônimas que ao lado cresciam. Mais e mais, agora para leste, depois para oeste, desdobrava-se a simples trilha que fora outrora o nosso caminho. Sumia-se às vezes, para ressurgir de novo de sob um tronco deitado, ou para além de pequenos brejais criados pelas chuvas do inverno. E nunca me pareceu tão longa a distância, como se as milhas também se houvessem multiplicado. E a senda conduzia provavelmente a algum ermo labirinto selvagem, não mais à casa que eu tinha em vista. Não obstante, dei de súbito com ela: o crescimento louco da vegetação ocultara-ma até o último momento. Entreparei. Meu coração palpitava acelerado; um ardor nos olhos impedia-me as lágrimas.

Ali estava Manderley, nossa Manderley, reservada e silenciosa como sempre; a pedra gris rebrilhava ao luar do meu sonho; nas vidraças refletiam-se o terraço e o gramado verde… O Tempo não quebrara a perfeita simetria daqueles muros, nem o encanto daquele sítio maravilhoso — jóia no côncavo da mão de alguém.

O terraço erguia-se a cavaleiro do gramado que se projetava até o mar; voltando-me pude ver o lençol prateado, tão calmo sob o olhar da lua, de uma placidez de lago que os ventos não perturbam. Não havia ondas para encrespar aquele mar de sonho, nem nuvens a obscurecerem o suave palor do céu. Olhei de novo para a casa: embora permanecesse inviolada, como se a tivéssemos deixado na véspera, o jardim em torno obedecera à lei da jângal, como sucedera com o caminho. Os rododendros elevaram-se a cinqüenta pés de altura, enlaçados a outras plantas, em estranho conúbio com arbustos sem nome, pobre ralé a arrastar-se-lhes humildemente sobre o raizame.

Um lilazeiro se unira a uma faia; e para ligá-los ainda mais intimamente, a hera maldosa — eterna inimiga da graça — enroscara-se à volta deles. Começava a hera a preponderar naquele jardim perdido, com os longos tentáculos avançando sobre a relva, rumo à casa. Plantas invasoras, vindas de sementes muito tempo adormecidas sob as árvores, viçavam agora, desgraciosamente, em companhia da hera; sugeriam a forma de ruibarbos gigantes emersos da relva macia outrora pintalgada de narcisos. Urtigas por toda parte — a vanguarda do exército. Cobriam o terraço, espalhavam-se pelas alamedas do jardim e, frouxas, encostavam-se até às janelas da casa. Sentinelas descuidadas, pois suas fileiras tinham sido rompidas em
muitos pontos pelas plantas loucas que ali exibiam a sua vulgaridade. Cheguei até o terraço, pois as urtigas não constituem obstáculo a quem sonha — no meu encantamento nada podia deter-me. O luar tem grande influência sobre a imaginação, mesmo a imaginação de quem sonha. E ali, queda e silenciosa, eu juraria não ser a casa uma concha morta, mas um ser que respirava, que palpitava de vida como outrora. A luz coava-se pelas vidraças, as cortinas balouçavam-se com suavidade no relento da noite, e lá na biblioteca a porta estaria entreaberta como a deixáramos, com o meu lenço sobre a mesa, ao lado do vaso com rosas do outono.

O quarto trairia a nossa presença. Livros, um número já lido do The Times. Cinzeiros, um toco de cigarro; sobre as cadeiras, almofadas denunciando a pressão de nossas cabeças; tições envoltos de cinza branca na lareira, ainda mornos. E Jasper, o nosso querido Jasper, estirado sobre o tapete, de cauda erguida ao perceber os passos do seu senhor. Uma nuvem erradia velou a lua, mão de sombra a cobrir um rosto. Com o desaparecer da lua foi-se-me a ilusão; as
luzes das janelas se apagaram. A casa fizera-se concha vazia, sem alma, sem suspiros ou evocações do passado. Um túmulo, a casa; nossos sofrimentos e temores sepultos em ruínas. Impossível a ressurreição. Não me viriam pensamentos amargos, quando em minhas horas de insônia evocasse Manderley. Pensaria na mansão como ela o fora.

Teria recordações do jardim-das-rosas no estio, dos pássaros a cantarem pela manhã. Do chá sob o castanheiro, do murmúrio do mar subindo até nós. Lembrar-me-ia do Vale Feliz e do lilazeiro em flor. Essas coisas eram permanentes, não podiam esvair-se nunca. Eram memórias felizes. Tudo isto resolvi eu no meu sonho, enquanto a sombra velava o rosto da lua. Porque, como é comum entre os que sonham, eu sabia estar sonhando.

Achava-me, na realidade, a centenas de milhas dali, em terra estranha, e acordaria dentro de poucos segundos num pequeno quarto de hotel, consolador justamente pela falta de ambiente. E daria um suspiro, e me espreguiçaria, e ao abrir os olhos ficaria admirada de ver brilhar o sol num céu metálico, tão diferente do meigo luar do meu sonho… O dia se estenderia diante de nós, longo sem dúvida, sem acontecimentos, mas impregnado de certa quietude, duma tranqüilidade feliz que dantes não conhecêramos. Não falaríamos sobre Manderley, eu não contaria o meu sonho. Porque Manderley não era mais nossa. Manderley não mais existia.

Fontes:
Daphne Du Maurier. Rebecca. Abril Cultural.
http://www.netsaber.com.br/resumos/
Imagem = http://kennebunkfreelibrary.wordpress.com/

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1 comentário

Arquivado em Estante de Livros, Excerto de livro

Uma resposta para “Daphne Du Maurier (Rebecca)

  1. Olá, Tenho 18 anos, e ganhei Rebecca ano passado, presente de minha irmã mais velha, que na adolescencia leu a versão em inglês do livro, e se encantou.Porém comigo, não foi o mesmo. Axei a leitura detalhista demais e muito cansativa, por isso parei logo no inicio do livro. Despois de ler o resumo do livro, vi o quã fui tola, pois estou a perder uma leitura estupenda, vou retoma-la hoje mesmo.Parabéns pelo site.Carinhosamente, Stéphanie Paixão.

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