Arquivo do mês: junho 2009

Trova XXXIII

Deixe um comentário

30 de junho de 2009 · 23:16

Inglês de Sousa (A Quadrilha de Jacob Patacho )

Palavras negritadas veja vocabulário ao final do texto
—————————–

Eram sete horas, a noite estava escura, e o céu ameaçava chuva.

Terminara a ceia, composta de cebola cozida e pirarucu assado, o velho Salvaterra dera graças a Deus pelos favores recebidos; a sora Maria dos Prazeres tomava pontos em umas velhas meias de algodão muito remendadas; a Anica enfiava umas contas destinadas a formar um par de braceletes, e os dois rapazes, espreguiçando-se, conversavam em voz baixa sobre a última caçada. Alumiava as paredes negras da sala uma candeia de azeite, reinava um ar tépido de tranqüilidade e sossego, convidativo do sono. Só se ouviam o murmúrio brando do Tapajós e o ciciar do vento nas folhas das pacoveiras. De repente, a Anica inclinou a linda cabeça, e pôs-se a escutar um ruído surdo que se aproximava lentamente.

– Ouvem? – perguntou.

O pai e os irmãos escutaram também por alguns instantes, mas logo concordaram, com a segurança dos habitantes de lugares ermos:

– É uma canoa que sobe o rio.

– Quem há de ser?

– A estas horas, – opinou a sora Maria dos Prazeres, – não pode ser gente de bem.

– E por que não, mulher? – repreendeu o marido, – isto é alguém que segue para Irituia.

– Mas quem viaja a estas horas? – insistiu a timorata mulher.

– Vem pedir-nos agasalho, redargüiu. – A chuva não tarda, e esses cristãos hão de querer abrigar-se.

A sora Maria continuou a mostrar-se apreensiva. Muito se falava então nas façanhas de Jacob Patacho, nos assassinatos que a miúdo cometia; casos estupendos se contavam de um horror indizível: incêndios de casas depois de pregadas as portas e janelas para que não escapassem à morte os moradores. Enchia as narrativas populares a personalidade do terrível Saraiva, o tenente da quadrilha cujo nome não se pronunciava sem fazer arrepiar as carnes aos pacíficos habitantes do Amazonas. Félix Salvaterra tinha fama de rico e era português, duas qualidades perigosas em tempo de cabanagem. O sítio era muito isolado e grande a audácia dos bandidos. E a mulher tinha lágrimas na voz lembrando estes fatos ao marido.

Mas o ruído do bater dos remos n’água cessou, denotando que a canoa abicara ao porto do sítio. Ergueu-se Salvaterra, mas a mulher agarrou-o com ambas as mãos:

– Onde vais, ó Felix?

Os rapazes lançaram vistas cheias de confiança às suas espingardas, penduradas na parede e carregadas com bom chumbo, segundo o hábito de precaução naqueles tempos infelizes; e seguiram o movimento, do pai. A Anica, silenciosa, olhava alternativamente para o pai e para os irmãos.

Ouviram-se passos pesados no terreiro, e o cão ladrou fortemente. Salvaterra desprendeu-se dos braços da mulher e abriu a porta. A escuridão da noite não deixava ver coisa alguma, mas uma voz rústica saiu das trevas.

– Boa-noite, meu branco.

Quem está aí? – indagou o português. – Se é de paz, entre com Deus.

Então dois caboclos apareceram no círculo de luz projetado fora da porta pela candeia de azeite. Trajavam calças e camisa de riscado e traziam na cabeça grande chapéu de palha. O seu aspecto nada oferecia de peculiar e distinto dos habitantes dos sítios do Tapajós.

Tranqüilo, o português afastou-se para dar entrada nos noturnos visitantes. Ofereceu-lhes da sua modesta ceia, perguntou-lhes donde vinham e para onde iam.

Vinham de Santarém, e iam a Irituia, à casa do tenente Prestes levar uma carga de fazendas e molhados por conta do negociante Joaquim Pinto; tinham largado do sítio de Avintes às quatro horas da tarde, contando amanhecer em Irituia, mas o tempo se transtornara à boca da noite, e eles, receando a escuridão e a pouca prática que tinham daquela parte do rio, haviam deliberado parar no sítio de Salvaterra, e pedir-lhe agasalho por uma noite. Se a chuva não desse, ou passasse com saída da lua para a meia-noite, continuariam a sua viagem.

Os dois homens falavam serenamente, arrastando as palavras no compasso preguiçoso do caboclo que parece não ter pressa de acabar de dizer. O seu aspecto nada oferecia de extraordinário. Um, alto e magro, tinha a aparência doentia; o outro reforçado, baixo, e de cara bexigosa, não era simpático à dona da casa, mas afora o olhar de lascívia torpe que dirigia a Anica, quando julgava que o não viam, parecia a criatura mais inofensiva deste mundo.

Depois que a sora Maria mostrou ter perdido os seus receios, e que a Anica serviu aos caboclos os restos da ceia frugal daquela honrada família, Salvaterra disse que eram horas de dormir. O dia seguinte era de trabalho e convinha levantar cedo para ir em busca da pequena e mais da malhada, duas vacas que lhe haviam desaparecido naquele dia. Então um dos tapuios, o alto, a quem o companheiro chamava cerimoniosamente – seu João – levantou-se e declarou que iria dormir na canoa, a qual posto que muito carregada, dava acomodação a uma pessoa, pois era uma galeota grande. Salvaterra e os filhos tentaram dissuadi-lo do projeto, fazendo ver que a noite estava má e que a chuva não tardava, mas o tapuio, apoiado pelo companheiro, insistiu. Nada, que as fazendas não eram dele e seu Pinto era um branco muito rusguento, e sabia lá Deus o que podia acontecer; os tempos não andavam bons, havia muito tapuio ladrão aí por esse, acrescentava como um riso alvar, e de mais ele embirrava com esta história de dormir dentro de uma gaiola. Quanto à chuva pouco se importava, queria segurança e agasalho para as fazendas: ele tinha o couro duro e um excelente japá na tolda da galeota.

No fundo quadrava perfeitamente à sora Maria a resolução do seu João, não só porque pensava que mais vale um hóspede do que dois, como também por lhe ser difícil acomodar os dois viajantes na sua modesta casinha. Assim não duvidou aplaudir a lembrança, dizendo ao marido:

– Deixa lá, homem, cada um sabe de si e Deus de todos.

O caboclo abriu a porta e saiu acompanhado pelo cão de guarda, cuja cabeça amimava, convidando-o para lhe fazer companhia, por via das dúvidas. A noite continuava escura como breu. Lufadas de um vento quente, prenúncio de tempestade, açoutavam nuvens negras que corriam para o sul como fantasmas em disparada. As árvores da beirada soluçavam, vergadas pelo vento, e grossas gotas de águas começavam a cair sobre o chão ressequido, de onde subia um cheiro ativo de barro molhado.

– Agasalhe-se bem, patrício, – gritou o português ao caboclo que saía. E, fechando a porta com a tranca de pau, veio ter com a família.

Logo depois desejavam boa-noite uns aos outros; o hóspede que deu o nome de Manuel, afundou-se numa rede, que lhe armaram na sala, e ainda não havia meia hora que saíra seu João, já a sora Maria, o marido e os filhos dormiam o sono reparador das fadigas do dia, acalentado pela calma de uma consciência honesta.

A Anica depois de rezar à Virgem das Dores, sua padroeira, não pudera fechar os olhos. Impressionara-a muito o desaparecimento da pequena e da malhada, que acreditava filho de um roubo, e sem querer associava na sua mente a esse fato as histórias terríveis que lhe lembrara a mãe pouco antes, sobre os crimes diariamente praticados pela quadrilha de Jacob Patacho. Eram donzelas raptadas para saciar as paixões dos tapuios; pais de família assassinados barbaramente; crianças atiradas ao rio com uma pedra ao pescoço, herdades incendiadas, um quatro interminável de atrocidades inauditas que lhe dançava diante dos olhos, e parecia reproduzido nas sombras fugitivas projetadas nas paredes de barro escuro do seu quartinho pela luz vacilante da candeia de azeite de mamona.

E por uma singularidade, que a rapariga não sabia explicar, em todos aqueles dramas de sangue e de fogo havia uma figura saliente, o chefe, o matador, o incendiário, demônio vivo que tripudiava sobre os cadáveres quentes das vítimas, no meio das chamas dos incêndios, e, produto de um cérebro enfermo, agitado pela vigília, as feições desse monstro eram as do pacífico tapuio que ela ouvia roncar placidamente no fundo da rede na sala vizinha. Mas por maiores esforços que a moça fizesse para apagar da sua imaginação a figura baixa e bexigosa do hóspede, rindo nervosamente da sua loucura, mal fechava os olhos, lá lhe apareciam as cenas de desolação e de morte, no meio das quais progrediam os olhos ardentes, o nariz chato e a boca desdentada do tapuio, cuja figura, entretanto, desenrolava-se inteira na sua mente espavorida, absorvendo-lhe a atenção e resumindo a tragédia feroz que o cérebro imaginava.

Pouco a pouco, procurando provar a si mesma que o hóspede nada tinha de comum com o personagem que sonhara, e que a sua aparência era toda pacífica, de um pobre tapuio honrado e inofensivo, examinando-lhe mentalmente uma a uma as feições, foi-lhe chegando a convicção de que não fora aquela noite a primeira vez que o vira, convicção que se arraigava no seu espírito, à medida que se lhe esclarecia a memória. Sim, era aquele mesmo; não era a primeira vez que via aquele nariz roído de bexigas, aquela boca imunda e servil, a cor azinhavrada, a estatura baixa e vigorosa, sobretudo aquele olhar indigno, desaforado, torpe que a incomodara tanto na sala, queimando-lhe os seios. Já uma vez fora insultada por aquele olhar. Onde? Como? Não podia lembrar-se, mas com certeza não era a primeira vez que o sentia. Invocava as suas reminiscências. No Funchal não podia ser; no sítio também não fora; seria no Pará quando chegara com a mãe, ainda menina, e acomodaram-se em uma casinha da rua das Mercês? Não; era mais recente, muito mais recente. Bem; parecia recordar-se agora. Fora em Santarém, havia coisa de dois anos ou três, quando ali estivera com o pai para assistir a uma festa popular, o sahiré. Hospedara-se então na casa do negociante Joaquim Pinto, patrício e protetor de seu pai, e foi ali, em uma noite de festa, quando se achava em companhia de outras raparigas sentada à porta da rua, a ver passar a gente que voltava de igreja, que se sentiu atormentada por aquele olhar lascivo e tenaz, a ponto de retirar-se para a cozinha trêmula e chorosa. Sim, nenhuma dúvida mais podia haver, o homem era um agregado de Joaquim Pinto, um camarada antigo da casa, por sinal que, segundo lhe disseram as mucamas da mulher do Pinto, era de Cametá e se chamava Manuel Saraiva.

Neste ponto de suas reminiscências, a Anica foi assaltada por uma idéia medonha que lhe fez correr um frio glacial pela espinha dorsal, ressecou-lhe a garganta, e inundou-lhe de suor a fronte. Saraiva! Mas era este o nome do famigerado tenente de Jacob Patacho, cuja reputação de malvadez chegara aos recônditos sertões do Amazonas, e cuja atroz e brutal lascívia excedia em horror aos cruéis tormentos que o chefe da quadrilha inflingia às suas vítimas. Seria aquele tapuio de cara bexigosa e ar pacífico o mesmo salteador da baía do Sol e das águas dos Amazonas, o bárbaro violador de virgens indefesas, o bandido, cujo nome mal se pronunciava nos serões das famílias pobres e honradas, tal o medo que incutia? Seria aquele homem de maneiras sossegadas e corteses, de falar arrastado e humilde o herói dos estupros e dos incêndios, a fera em cujo coração de bronze jamais pudera germinar o sentimento da piedade?

A idéia da identidade do tapuio que dormia na sala vizinha com o tenente de Jacob Patacho, gelou-a de terror. Perdeu os movimentos e ficou por algum tempo fria, com a cabeça inclinada para trás, a boca entreaberta e os olhos arregalados, fixos na porta da sala; mas de repente o clarão de um pensamento salvador iluminou-lhe o cérebro; convinha não perder tempo, avisar o pai e os irmãos, dar o grito de alarma; eram todos homens possantes e decididos, tinham boas espingardas; os bandidos eram dois apenas, seriam prevenidos, presos antes de poderem oferecer séria resistência. Em todo o caso, fossem ou não fossem assassinos e ladrões, mais valia estarem os de casa avisados, passarem uma noite em claro do que correrem o risco de serem assassinados a dormir. Saltou da cama, enfiou as saias e correu para a porta, mas a reflexão fê-la estacar cheia de desânimo. Como prevenir o pai, sem correr a eventualidade de acordar o tapuio? A sala em que este se aboletara interpunha-se entre o seu quarto e o de seus pais; para chegar ao dormitório dos velhos era forçoso passar por baixo da rede do caboclo, que não podia deixar de acordar, principalmente ao ruído dos gonzos enferrujados da porta que, por exceção e natural recato da moça, se fechara aquela noite. E se acordasse seria ela talvez a primeira vítima, sem que o sacrifício pudesse aproveitar à sua família.

Um silvo agudo, imitante do canto do urutaí, arrancou-a a estas reflexões, e pondo os ouvidos à escuta, pareceu-lhe que o tapuio da sala vizinha cessara de ressonar. Não havia tempo a perder, se queria salvar os seus. Lembrou-se então de saltar pela janela, rodear a casa e ir bater à janela do quarto do pai. Já ia realizar esse plano quando cogitou de estar o outro tapuio, o seu João, perto da casa para responder ao sinal do companheiro, e entreabriu com toda precaução a janela, espreitando pelo vão.

A noite estava belíssima.

O vento forte afugentara as nuvens para o sul, e a lua subia lentamente no firmamento, prateando as águas do rio e as clareiras da floresta. A chuva cessara inteiramente, e do chão molhado subia uma evaporação de umidade, que, misturada ao cheiro ativo das laranjeiras em flor, dava aos sentidos uma sensação de odorosa frescura.

A princípio a rapariga, deslumbrada pelo luar, nada viu, mas afirmando a vista percebeu umas sombras que se esgueiravam por entre as árvores do porto, e logo depois distinguiu vultos de tapuios cobertos de grandes chapéus de palha, e armados de terçados, que se dirigiam para a casa.

Eram quinze ou vinte, mas à rapariga de susto pareceu uma centena, porque de cada tronco de árvore a sua imaginação fazia um homem.

Não havia que duvidar. Era a quadrilha de Jacob Patacho que assaltava o sítio.

Todo o desespero da situação em que se achava apresentou-se claramente à inteligência da rapariga. Saltar pela janela e fugir, além de impossível, porque a claridade da lua a denunciaria aos bandidos, seria abandonar seus pais e irmãos, cuja existência preciosa seria cortada pelo punhal dos sicários de Patacho durante o sono, e sem que pudessem defender-se ao menos. Ir acordá-los seria entregar-se às mãos do feroz Saraiva, e sucumbir aos seus golpes antes de realizar o intento salvador. Que fazer? A donzela ficou algum tempo indecisa, gelada de terror, com o olhar fixo nas árvores do porto, abrigo dos bandidos, mas de súbito, tomando uma resolução heróica, resumindo todas as forças em um supremo esforço, fechou rapidamente a janela e gritou com todo o vigor dos seus pulmões juvenis:

– Aqui d’el-rei! Os de Jacob Patacho!

A sua voz nervosa repercutiu como um brado de suprema angústia pela modesta casinha, e o eco foi perder-se dolorosamente, ao longe, na outra margem do rio, dominando o ruído da corrente e os murmúrios noturnos da floresta. Súbito rumor fez-se na casa até então silenciosa, rumor de espanto e de sobressalto em que se denunciava a voz rouca e mal segura de pessoas arrancadas violentamente a um sono pacífico; a rapariga voltou-se para o lado da porta da sala, mas sentiu-se presa por braços de ferro, ao passo que um asqueroso beijo, mordedura de réptil antes do que humana carícia, tapou-lhe a boca. O tapuio bexigoso, Saraiva, sem que a moça o pudesse explicar, entrara sorrateiramente no quarto, e se aproximara dela sem ser pressentido.

A indignação do pudor ofendido e a repugnância indizível que se apoderou da moça ao sentir o contato dos lábios e do corpo do bandido, determinaram uma resistência que o seu físico delicado parecia não poder admitir. Uma luta incrível se travou entre aquela branca e rosada criatura seminua e o tapuio que a enlaçava com os braços cor de cobre, dobrando-lhe o talhe flexível sob a ameaça de novo contato de sua boca desdentada e negra, e procurando atirá-la ao chão. Mas a rapariga segurara-se ao pescoço do homem com as mãos crispadas pelo esforço espantoso do pudor e do asco, e o tapuio, que julgara fácil a vitória, e tinha as mãos ocupadas em apertar-lhe a cintura em um círculo de ferro, sentiu faltar-lhe o ar, opresso pelos desejos brutais que tanto o afogavam quanto a pressão dos dedos nervosos e afilados da vítima.

Mas se a sensualidade feroz do Saraiva, unida à audácia que lhe inspirara a consciência de terror causado por sua presença lhe fazia esquecer a prudência que tanto o distinguia antes do ataque, o brado de alarma solto pela rapariga dera aos quadrilheiros de Patacho um momento de indecisão. Ignorando o que se passava na casa, e as circunstâncias em que se achava o tenente comandante da expedição, cederam a um movimento de reserva, da índole do caboclo, e voltaram a esconder-se por detrás dos troncos de árvores que ensombravam a ribanceira. A moça ia cair exausta de forças, mas teve ainda ânimo para gritar com suprema energia:

– Acudam, acudam, que me matam!

Bruscamente o Saraiva largou a mão da Anica, e atirou-se para a janela, naturalmente para abri-la, e chamar os companheiros, percebendo que era tempo de agir com resolução, mas a moça advertindo-se do intento, atravessou-se no caminho, com inaudita coragem, opondo-lhe com o corpo um obstáculo que de fácil remoção seria para o tapuio, se nesse momento, abrindo-se de par em par, a porta da sala não desse entrada a Félix Salvaterra, seguido por dois filhos, todos armados de espingardas. Antes que o tenente de Jacob Patacho tivesse podido defender-se, caía banhado em sangue com uma valente pancada no crânio que lhe deu o velho com a coronha da arma.

O português e os filhos mal despertos do sono, com as roupas em desalinho, não se deixaram tomar do susto e da surpresa, expressa em dolorosos gemidos pela sora Maria dos Prazeres, que abraçada à filha, cobria-a de lágrimas quentes. Pai e filhos compreenderam perfeitamente a gravidade da situação em que se achavam; o silêncio e ausência do cão de guarda, sem dúvida morto à traição, e a audácia do tapuio bexigoso, mais ainda do que o primeiro grito da filha, do qual apenas haviam ouvido ao despertar o nome do terrível pirata paraense, os convenceram de que não haviam vencido o último inimigo, e enquanto um dos moços apontava a espingarda ao peito do tapuio que banhado em sangue tinha gravados na moça os olhos ardentes de volúpia, Salvaterra e o outro filho voltaram à sala, com o fim de guardar a porta de entrada. Esta porta tinha sido aberta, achava-se apenas cerrada apesar de havê-la trancado o dono da casa quando despediu o caboclo alto. Foram os dois homens para pôr-lhe novamente a tranca, mas já era tarde.

Seu João, o companheiro de Saraiva mais afoito do que os outros tapuios, chegara à casa, e percebendo que o seu chefe corria grande perigo, assobiou de um modo peculiar, e em seguida, voltando-se para os homens que se destacavam das árvores do porto, como visões de febre, emitiu na voz cultural do caboclo o brado que depois se tornou o grito de guerra da cabanagem:

– Mata marinheiro! Mata! Mata!

Os bandidos correram e penetraram na casa. Travou-se então uma luta horrível entre aqueles tapuios armados de terçados e de grandes cacetes quinados de massaranduba, e os três portugueses que heroicamente defendiam o seu lar, valendo-se das espingardas de caça, que, depois de descarregados, serviram-lhes de formidáveis maças.

O Saraiva recebeu um tiro à queima-roupa, o primeiro tiro, pois que o rapaz que o ameaçava, sentindo entrarem na sala os tapuios, procurara livrar-se logo do pior deles, ainda que por terra e ferido: mas não foi longo o combate; enquanto mãe e filha, agarradas uma à outra, se lamentavam desesperada e ruidosamente, o pai e os filhos caíam banhados em sangue, e nos seus brancos cadáveres a quadrilha de Jacob Patacho vingava a morte de seu feroz tenente, mutilando-os de um modo selvagem.

Quando passei com meu tio Antônio em junho de 1932 pelo sítio de Félix Salveterra, o lúgubre aspecto da habitação abandonada, sob cuja cumeeira um bando de urubus secava as asas ao sol, chamou-me a atenção; uma curiosidade doentia fez-me saltar em terra e entrei na casa. Ainda estavam bem recentes os vestígios da luta. A tranqüila morada do bom português tinha um ar sinistro. Aberta, despida de todos os modestos trastes que a ornavam outrora, denotava que fora vítima do saque unido ao instinto selvagem da destruição. Sobre o chão úmido da sala principal, os restos de cinco ou seis cadáveres, quase totalmente devorados pelos urubus, enchiam a atmosfera de emanações deletérias. Era medonho de ver-se.

Só muito tempo depois conheci os pormenores desta horrível tragédia, tão comum, aliás, naqueles tempos da desgraça.

A sora Maria dos Prazeres e a Anica haviam sido levadas pelos bandidos, depois do saque de sua casa. A Anica tocara em partilha a Jacob Patacho, e ainda o ano passado, a velha Ana, lavadeira de Santarém, contava, estremecendo de horror, os cruéis tormentos que sofrera em sua atribulada existência.
======================
Vocabulário
Sora – senhora
Alumiava – iluminava
Ciciar – sibilar, sussurrar
Pacoveira – bananeira
Cabanagem – violência, selvageria
Galeota – canoa provida de toldo onde se fazem comércio itinerante
Japá – esteira tecida de folhas de palmeira, que serve como toldo em pequenas embarcações, para cobrir barracas, alpendres etc. ou para fechar portas e janelas
Herdades – fazendas; quintas
Azinhavrada – coberto de azinhavre, camada esverdeada que se forma em objetos de cobre ou latão devido à umidade.
Mucama – no Brasil e na África portuguesa, escrava ou criada negra, ger. jovem, que vivia mais próxima dos senhores, ajudava nos serviços caseiros e acompanhava sua senhora em passeios; ama de leite dos filhos dos seus senhores.
Aboletara – acomodara-se, instalara-se
Cumeeira – parte mais elevada de um telhado.
Deletéria – insalubre, nociva

Fonte:
SOUZA, Inglês de. Contos Amazônicos. São Paulo: Martin Claret, 2006.

Deixe um comentário

Arquivado em Contos, O Escritor com a Palavra

Antônio Cândido da Silva (Bar do Zizi)

Pintura de Talles Cabral

A última telha importada de Marselha
Virou pó na dureza do cimento.
Resta somente o espaço, o pó e o tempo
levando tudo para o esquecimento.

E a tristeza nos arquivos da memória
guarda mais um registro de saudade
misturada com indignação
e o sentimento de impotência
diante de que tem nas mãos
a força do poder.

Levanta do silêncio Guapindaia,
Doutor Tanajura, Mario Monteiro
e Bohemundo Álvares Afonso.
Protesta Professor Carlos Mendonça,
Doutor Celso Pinheiro
e Rui Brasil Cantanhede
que o prédio finalmente concluiu.

Venham ver o que fizeram do mercado
e da luta de vocês que foi em vão.
Ninguém se levantou pra defender
o pedaço de nossa história
que teimava em não cair.
Segismundo se calou, nem Zé Catraka
botou “Lenha na Fogueira” e se apagou.
Zizi, nosso velho Zizi, tombou cansado depois de tanto tempo resistir.

A última telha de Marselha virou pó.
Guarde a sua lembrança com carinho
pois o passado perdeu a realeza.
Só nos resta mandar nossa saudade
convocar Ernesto Melo
pra cantar nossa tristeza.

Do livro inédito: “Passarela de Emoções”
———

Deixe um comentário

Arquivado em O poeta no papel, Poesia, Rondônia

Antônio Cândido da Silva (5 Novembro 1941)

Nasceu no dia 5 de novembro de 1941, na cidade Amazonense de Humaitá. Filho de Artur Elpídio da Silva e Raimunda Cândida da Silva. Veio para Porto Velho em 10 de maio de 1945.

Iniciou seus estudos no Colégio Dom Bosco e passou pela Escola Normal Carmela Dutra. Em 1980 concluiu o 2º Grau no Colégio Dom Bosco.

Como o próprio autor auto-biografa-se, alguém escreveu:
“Antônio Cândido nasceu num seringal meio perdido lá para as bandas do “Igarapé dos Botos” no Município de Humaitá – AM, mudando-se para Porto Velho ainda criança, onde fixou residência e permanece até hoje.

Sua primeira experiência artística foi no teatro, com apenas 10 anos de idade. Logo em seguida mergulhou pela poesia e dela nunca emergiu. Tornou-se a própria.

Considerado o poeta de Porto Velho, tanto nas suas colaborações literárias publicadas no jornal Alto Madeira, como no seu livro “Marcas do Tempo”, Antônio Cândido canta Porto Velho com seus bairros, ruas, travessas, vielas e outros logradouros.

Antônio Cândido criou a bandeira e o brasão do município de Porto Velho; a bandeira e hino do município de Costa Marques e os hinos dos municípios de Jarú e Cerejeiras.
Recebeu homenagens da Câmara Municipal com o Título – Amigo de Porto Velho, e a comenda José do Patrocínio, alusiva aos 100 anos da Abolição da Escravatura.

Intelectual com rara capacidade de percepção, bem antes de a Ecologia “entrar na moda”, o poeta, nas rodas de amigos, já defendia o meio ambiente”.
Sua grande paixão pela cidade de Porto Velho é demonstrada no poema que tem seu nome, além da história da legendária Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, toda contada em poesia, no livro “Madeira-Mamoré – O Vagão dos Esquecidos”.

É membro efetivo da Academia de Letras de Rondônia.

Além de inúmeros trabalhos publicados nos jornais literários, escreveu os livros “Marcas do Tempo” e “Madeira-Mamoré – O Vagão dos Esquecidos” (1ª Edição, 1998; 2ª Edição, 2000).

Fonte:
Academia de Letras de Rondônia

Deixe um comentário

Arquivado em Acadêmico, Biografia, Rondônia

Samuel Castiel Jr. (Flor Tropical)

Flor tropical, soberba e encantadora
Que cresce e floresce em terrenos hostis
Como guardiã desafiadora
Do belo nativo e essências sutis!…

Como brisa que soprou todas as vidas
Nascestes bela, livre e agreste,
Repartindo-te em pétalas coloridas
Invejam-te o crisântemo e o cipreste…

Não queiras nunca te tornar rainha
Pois sempre foste à preferida minha!
Fascinam-me teu porte, tua cor…

Quero- te sempre assim bela e formosa
Como um livro escrito em verso e prosa
Como a mulher que me ensinou o amor!
—–

Deixe um comentário

Arquivado em O poeta no papel, Poesia, Rondônia

Samuel Castiel Jr. (Reflexões Noturnas)

Altas horas, madrugada em curso! Noite cálida de um verão tórrido e abrasador, aqui, abaixo dos trópicos! Só, da sacada de meu apartamento, espreito o silêncio desta madrugada, quebrado vez por outra pelo ronco e os faróis de um carro que passa….A brisa úmida que começa soprar levanta folhas secas e papéis que dormiam atirados ao solo. Um cachorro vem de longe, sem latir, sozinho, e desaparece no final da rua. A cidade inteira parece adormecida! Milhares de lâmpadas piscam em todas as direções. O céu estrelado completa essa harmonia silente!

São nessas horas mortas que a insônia me leva a refletir sobre a origem e objetivos da vida, sobre o destino e a trajetória dos seres humanos. Nada mais patético! Logo mais, ao amanhecer, todos estarão em mais um dia de rotina, fazendo sempre as mesmas coisas, desafiando e sendo desafiados a novas conquistas, numa competitividade cada vez mais acirrada, sem fim. Logo, alguns vão morrer, vão se matar ou serem mortos, tendo conquistado ou não seus objetivos, acumulados de conquistas, vitórias e derrotas. E daí surge mais uma elocubração: e no pós-morte tudo se acaba, vira pó, ou entramos em uma outra dimensão, outro mundo melhor (ou pior)?. Em outras palavras: vai dar Allan Kardec ou Sir Charles Darwin! Infelizmente esta questão não é tão simplória assim, não se pode “pagar-pra-ver” como no pôquer. Não podemos blefar! Em nenhuma das teorias tanto no espiritismo como na seleção natural, jamais poderemos saber quem foi o vencedor. Até porque não vão restar nem vencidos nem vencedores. Para este mundo todos estaremos mortos!…

No início da rua surge o vulto de um homem, que vem a passos lentos, com se estivesse cansado. Aproxima-se cada vez mais, então, pára e bate a porta do Colégio Dom Bosco. São batidas insistentes, fortes, quase incomodativas. Sob a luz do poste poderia ver o seu rosto, não fosse o boné que usava. Sua roupa bastante amarrotada, como se viesse de sua rotina de trabalho que terminara àquela hora. As batidas à porta daquele estabelecimento não tiveram nenhuma resposta, e seus ecos ficaram reverberando nos meus ouvidos. O homem então, solitário, parte desaparecendo no final da rua, na escuridão!

Fico então a pensar que aquele homem sou eu, em busca de tantas respostas que jamais obterei. As portas não se abriram e mesmo que tivessem se aberto, não teria eu as respostas para meus enigmas e fantasmas.

Fecho então a minha sacada e volto para tentar conciliar o sono perdido, com a mesma angústia que aflige todo ser humano que se debruça sobre a vida e a morte! Apago a luz!
========================
Samuel Castiel Jr.

Médico Radiologista
Membro das Academias de Letras e Medicina de Rondônia

Fontes:
Academia de Letras de Rondônia
Imagem = Estrela Guia NF

Deixe um comentário

Arquivado em O Escritor com a Palavra, O nosso português de cada dia, Rondônia, Teoria Literária

Cláudio Batista Feitosa (12 Agosto 1933)

Cláudio Batista Feitosa é amazonense, nascido na cidade de Porto Velho no dia 12 de agosto de 1933.

Ainda muito jovem, participou ativamente dos movimentos culturais promovidos pelo Colégio Dom Bosco em Porto Velho, onde fez o Primeiro Grau em 1949, concluindo o Segundo Grau em Fortaleza/CE onde residiu por alguns anos, seguindo dali para São Paulo, retornando em 1956 para Porto Velho à partir de quando exerceu diversas atividades nos setores público e privado, tendo participado de inúmeras atividades comunitárias com destaque para o Movimento Brasileiro de Alfabetização – MOBRAL como presidente da Comissão Municipal de Porto Velho, no período de agosto de 1971 até abril de 1976, época em que o Movimento conseguiu alfabetizar de mais dez mil pessoas.

É de sua autoria a Canção da Brigada Príncipe da Beira (17ªBrigada de Infantaria de Selva) com sede em Porto Velho (1982), homologada pela Portaria nº63 de 14/09/1982 da Chefia/E.M.E. ; o Hino do Município de Porto Velho (1983), homologado pela Câmara Municipal de Porto Velho; as Canções da Base Aérea de Porto Velho (1986) e da Polícia Militar do Estado de Rondônia (1994), assim como o Brasão do Grande Oriente Estadual de Rondônia -GOER.

O dia 12 de agosto de 1994 marcou sua participação definitiva no campo literário (prosa) com a publicação de um pequeno ensaio do que considerava “anedotário” de Porto Velho sob o título de “O Bloco da Cobra” e o “O Bote da Boiuna, Primeiro e Último”, incluídos na Antologia Da Prosa E Do Verso Rondoniense (pgs.19 a 30) lançada naquela data pela FUNCER- Fundação Cultural do Estado de Rondônia, após compilar os melhores textos de um Concurso Literário que promoveu em 1993.

Na Antologia Da Prosa E Do Verso Rondoniense -Vol.II – FUNCER/Set-94, Cláudio está também presente (pgs.13 a 24) com o conto intitulado “ O Enterro do Balbino”.
Registre-se também sua co-autoria do livro Porto Velho Em Prosa E Verso lançado pela Secretaria Municipal de Cultura, Esporte e Turismo-SEMCE da Prefeitura do Município de Porto Velho, em 25/11/1998; co-autoria do livro Escritos De Rondônia lançado pela Secretaria de Estado de Esportes, Cultura e Lazer – SECEL – Ano 2000 – (pg. 170);
co-autoria do livro Gente De Rondônia-Personagens Da Nossa História – (coletânea) lançado pela SECEL e Instituto Histórico e Geográfico de Rondônia – Ano 2001 (pg. 88).

É de sua autoria o livro Gente Da Gente lançado, no dia 7 de agosto de 2005.

Cláudio Batista Feitosa é Membro da Academia Maçônica De Letras Do Estado De Rondônia – AML, ocupando a cadeira Nº 12 e também Membro da Academia De Letras De Rondônia (ACLER), tendo sido eleito para a cadeira nº 26 em 14/10/2003 e solenemente empossado no dia 01 de dezembro de 2003.

Sua atividade principal, atualmente, é a prestação de serviços como Leiloeiro Público Oficial (Matrícula nº 002/92-JUCER), com jurisdição no território do Estado de Rondônia.

Cláudio Batista Feitosa é casado com a guajaramirense Sílvia Carvajal Feitosa, havendo nascido, do enlace, os seguintes filhos: Ricardo (Eng.Eletricista), Sérgio (Geólogo), Sílvio (Arquiteto) e Cláudia (Médica). É, também, avô de Diego, Daniel, Eduardo, Amanda, Julius, Hector e Katharina.

O Acadêmico Cláudio Batista Feitosa foi eleito, no dia 04 de janeiro de 2008, compondo a nova Diretoria da Academia -biênio 2008/2009 – para o cargo de Diretor Financeiro.
É, portanto, o Acadêmico responsável pelas finanças da Academia.

Fonte:
Academia de Letras de Rondônia

Deixe um comentário

Arquivado em Acadêmico, Biografia, Rondônia

Trova XXXII

Deixe um comentário

29 de junho de 2009 · 23:22

Otto Melander (A Mulher e o Cachorro)

O alemão Melander (1571 – 1640) sabia latim tão bem quanto seus colegas italianos e franceses. Protestante, quando podia alfinetava frades e freiras. Ele inclui-se no grupo de humanistas do Renascença, Escrevendo num gênero típico da época, que constituía em coletâneas ao mesmo tempo instrutivas e recreativas, misturando anedotas e fatos curiosos. O conto em questão faz porte de Joco-Seria (Coisas Jocosas e Sérias) e inclui-se dentro da tradição boccaciana.
————————–
Costumava certo fidalgo da Vestefália convidar para o almoço domingueiro o seu presbítero, homem moço, conversador e faceto, conduzido havia pouco ao leme da Igreja.

Um dia teve de viajar para o estrangeiro. Estando já a meia milha de seu castelo, disse ao escudeiro, de repente:

– Lembro-me agora de uma coisa de que faço muita questão que minha esposa seja advertida; para ela também é muito importante. Volta, pois, imediatamente, e adverte-a em meu nome, de modo grave e solene, que não dê ao presbítero, em minha ausência, nem almoço nem jantar; não o deixe entrar em casa durante todo o tempo em que eu não estiver lá; e, principalmente, não ponha os pés em casa dele, e se abstenha de qualquer conversa com ele.

O escudeiro prometeu a seu amo cumprir a ordem, e regressou ao castelo. Mas, apenas se afastara um pouco, pôs-se a meditar e a resmungar: – “Decerto o meu amo assustou-se com a idéia de que esse nosso presbítero novato, cheio de seiva como é natural em um moço, rapaz forte, formoso e lúbrico, se pusesse a assaltar o pudor da senhora.

Deve ser por isso que lhe proibiu toda espécie de familiaridade com ele. Mas eu, por Hércules, conheço os costumes dessas mulherezinhas. Elas praticam de preferência justamente as coisas de que têm ordem de se abster. Portanto, para que em nossa ausência ela não tenha ligações com o tal acólito, nada lhe direi, absolutamente, sobre a ordem do meu amo, mas inventarei algum outro recado por ele dado a mim.”

Mal entrara o escudeiro no castelo, já à senhora acudia, e, com lágrimas nos olhos, perguntou-lhe:

– Que significa a tua volta tão apressada? Será que os negócios de meu marido não andam bem?

– Andam, sim, muito bem – respondeu o criado, – Meu senhor mandou-me voltar para, em seu nome, advertir-vos de uma coisa. Quer e manda o meu nobre senhor que em sua ausência não vos ponhais a brincar com aquele nosso grande molosso, acostumado a rédeas, nem o monteis. Teme que aquele cachorro irritável e sempre disposto a morder venha a morder-vos, por acaso.

– Não entendo muito bem esta proibição – respondeu a mulher. – Por Hércules, nunca tive a idéia de acariciar o molosso, ainda menos de montá-lo. Digo mais: não há ninguém no mundo que me haja visto brincar com ele. Por tudo isso, esta recomendação era inteiramente supérflua.

Mas o escudeiro, antes de se ir, insistiu:

– Compreendestes, então, minha senhora, o recado de vosso marido? Ponde, pois, todo o empenho em lhe obedecer.

– Volta a meu marido – respondeu a mulher -, transmite-lhe os meus votos de felicidade, e dize-lhe que fique tranqüilo, não se preocupe comigo, pois farei todo o possível para lhe provar, pelo meu procedimento, quanto lhe estou submissa neste ponto, como em outro qualquer.

Mal o escudeiro tinha virado as costas, eis que a mulher começa a matutar: – “Não posso imaginar por que razão meu marido me proíbe de acariciar o molosso ou montar nele. Deve haver aí algum motivo oculto. Não me lembro, por Castor, de o ter o feito ou mesmo tentado. Bem, de qualquer maneira está certo: morra eu se tocar o cão com um dedo sequer!”

Depois de tais reflexões, vai buscar alguns pedaços de pão e joga-os ao cachorro. Verificando que este os devora avidamente e vem lisonjeá-la depois, traz mais pão e repasta o animal até saciá-lo. Acaba acariciando-o, sem dúvida para experimentar se é tão irritável como pretende o marido. Vendo que o animal suporta bem o tratamento, exclama:

– Vejam só como é tratável o nosso molosso!

Nisto, senta-se no cão, apertando-lhe um tanto as costas com as nádegas. O cachorro se enfurece, arreganha os dentes e crava-os no braço da mulher.

Ensangüentada, agoniada pela dor, ela vê-se forçada a chamar um médico para tratar-lhe da ferida.

Passam-se os dias. Retorna o fidalgo, e encontra a esposa de cama, com ar abatido, muito pálida.

– Que desgraça te aconteceu, minha luz? – pergunta-lhe, alarmado.

– Tudo isto é por tua causa – respondeu ela. – Se não me houvesses recomendado, pelo escudeiro, que não brincasse com o molosso, nunca me haveria atrevido a tocá-lo.

O fidalgo, surpreendido, procura justificar-se por todos os meios e jura por Júpiter não ter mandado dizer pelo escudeiro nada de semelhante; depois, chama-o:

– Então, patife, eu mandei dizer a minha mulher que não acariciasse o molosso?

– Nada disso – responde o criado. – Mandastes-me proibi-la de introduzir o presbítero em vossa casa enquanto estivésseis ausente. Eu, porém, inventei outro recado, por saber do costume que têm as mulheres de fazer precisamente o que se lhes proíbe. Se de fato eu lhe tivesse vedado todo e qualquer contato com o padrezinho, sem nenhuma dúvida ela o haveria introduzido em casa, e agora, em vez de terdes uma esposa honesta, teríeis o vosso lar transformado em hediondo prostíbulo. Foi isso que eu quis evitar, convencido de que a mulher procura sempre o que se lhe proíbe; e podeis ver a prova manifesta disso no fato de ela ter acariciado o cachorro e tê-lo montado, embora eu lho houvesse vedado com a maior insistência.

O fidalgo não deixou de aprovar a atitude do prudente criado, a quem daí em diante teve em melhor conceito, e encerrou o incidente com as palavras:

– Prefiro ver minha mulher mordida pelo cachorro a sabê-la desonrada pelo acólito.

Fontes:
COSTA, Flávio Moreira da (organizador). Os 100 Melhores Contos de Humor da Literatura Universal. 5.ed. RJ: Ediouro, 2001.
Imagem = Revista Virtual de Variedades

Deixe um comentário

Arquivado em Alemanha, Contos, Humorismo, O Escritor com a Palavra

Mario Quintana (80 anos de poesia)

A coletânea 80 anos de poesia, é uma antologia publicada pela Editora Globo para homenagear os 80 anos de vida de Mário Quintana. Com organização de Tânia Franco Carvalhal, a obra contém poemas que mostram as várias facetas do poeta.

Apresentados em ordem cronológica, eles atestam a procura de diferentes maneiras de dizer e indicam como o poeta vai optando por uma expressão próxima do coloquialismo, vizinha da prosa. Isto permite ao leitor uma visão geral do percurso poético de Quintana, mestre em estabelecer uma comunicação imediata e efetiva com quem o lê: ao dizer o humano em suas múltiplas facetas, ele fala a todos nós.

São poesias pertencentes ao Segundo Tempo Modernista (1930-1945), onde aparecem temas constantes de suas obras como a infância (que é tratada com certo lirismo), os meninos, as ruas de Porto Alegre e a velhice.

Suas poesias, aparentemente simples, trazem a complexidade de quem viveu intensamente o sentimento de mundo. A vasta percepção possibilita uma engenharia sólida no que toca à compreensão da natureza humana. Convicto com relação à sua capacidade criadora, manteve-se distante dos modismos literários, cultuando forte independência com relação a qualquer tipo de classificação que viesse a rotulá-lo, ou à sua obra. Esse individualismo creditou-lhe um orgulho persistente, haja visto a sua autenticidade, instigando-lhe a dividir grandes lições de vida com o leitor que vier a prestigiá-lo.

Fere de leve a frase… E esquece… Nada
Convém que se repita…
Só em linguagem amorosa agrada
A mesma coisa cem mil vezes dita.

O interessante com relação à obra de Quintana é a sua natureza múltipla. Apesar da postura crítica e da ironia refinada, há uma ternura explícita coexistindo, assim como uma envolvente honestidade conceitual.

Ainda que Mário Quintana inicie muitos de seus versos com uma fina ironia, a densidade de suas questões não permite ocultar que fazer poesia é refugiar-se do incômodo existencial e filosófico que sua extrema sensibilidade insiste em sacudir.

Da primeira vez em que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha…
Depois, de cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha…

A postura encontrada diante da compreensão da morte, da religião ou da existência divina não deixa dúvidas quanto ao recurso da poesia como uma tentativa de apaziguamento com a ausência de respostas de um ser humano intenso,comprometido e intrigado com a grandeza da vida. Apesar disso, ele luta bravamente para não se considerar diminuído por ela.

Quintanares

Meu Quintana, os teus cantares
Não são, Quintana, cantares:
São, Quintana, quintanares.

Quinta-essência de cantares…
Insólitos, singulares…
Cantares? Não! Quintanares!

Quer livres, quer regulares,
Abrem sempre os teus cantares
Como flor de quintanares.

São cantigas sem esgares.
Onde as lágrimas são mares
De amor, os teus quintanares.

São feitos esses cantares
De um tudo-nada: ao falares,
Luzem estrelas luares.

São para dizer em bares
Como em mansões seculares
Quintana, os teus quintanares.

Sim, em bares, onde os pares
Se beijam sem que repares
Que são casais exemplares.

E quer no pudor dos lares.
Quer no horror dos lupanares.
Cheiram sempre os teus cantares

Ao ar dos melhores ares,
Pois são simples, invulgares.
Quintana, os teus quintanares.

Por isso peço não pares,
Quintana, nos teus cantares…
Perdão! digo quintanares

(BANDEIRA, Manuel)

Das utopias

Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos, se não fora
A mágica presença das estrelas!

Canção da janela aberta

Passa nuvem, passa estrela,
Passa a lua na janela…

Sem mais cuidados na terra,
Preguei meus olhos no Céu.

E o meu quarto, pela noite
Imensa e triste, navega…

Deito-me ao fundo do barco,
Sob os silêncios do Céu.

Adeus, Cidade Maldita,
Que lá se vai o teu Poeta.

Adeus para sempre, Amigos…
Vou sepultar-me no Céu!

Fonte:

Todas as poesias selecionadas de Mário Quintana e Manuel Bandeira – In: Coletânea 80 anos de Poesia. Organizada por Tânia Carvalhal. Editora Globo, 1986
Portal de Estudos Passeiweb

1 comentário

Arquivado em Estante de Livros, Poesias, Resumos

Guimarães Rosa (3 contos do Livro Primeiras Histórias)

Sorôco, sua mãe, sua filha

Conto narrado em terceira pessoa, mas com a participação ambígua do narrador como personagem. Isto se dá pelo fato do narrador ser um observador dos fatos, mas também fazer parte do povo: “A gente se esfriou (…)” “A gente estava levando agora o Sorôco (…)” Ou seja, “a gente “, no conto, pode ser a gente, o povo da estação, como também o marcador oral “a gente” enquanto nós.

O conto tem uma temática triste, trabalha com o sentido circular de passar a angústia do personagem Sorôco com sua solidão e desespero ao ter que deixar ir para longe as únicas pessoas que tem no mundo, ficando mais solitário ainda. Tudo gira em torno da separação, da perda, da ausência e da distância.

A grande temática do conto é a solidariedade. Há a compaixão do povo para com Sorôco e sua dor. O povo se solidariza com Sorôco. A irracionalidade entoada na cantiga da mãe e da filha loucas realiza o elo de ligação entre as dores de todos os homens. É uma cantiga compreendida só por aqueles que possuem sentimento, a razão de ser do humano. Esta cantiga metaforiza a união entre os homens por meio da solidariedade.

É possível imaginar o sofrimento de Soroco, o vazio dolorido sentido e a profunda solidão na alma. A solidão só não é absoluta, porque existe a solidariedade do povo acalentando seu coração.

Pode-se observar também as sugestões sonoras oferecidas pelo nome do personagem: Sorôco – só louco; Sorôco – socorro, como compreensão do forte sentido do contexto do texto. Por outro lado, é interessante perceber a gradação do título, sugerindo a união da família como vagões que se engatam no trem da existência e se desengatam no destino. Cada vagão carrega sua própria solidão e dor, mas forma o trem da solidão e da dor coletivas, na metáfora de uma cantiga.

Sorôco é comparado a Jó, personagem da Bíblia, por causa de seu sofrimento. Passado e futuro, ele, no meio. Ele, a terceira margem. A eternidade. E as proporções gigantescas dele lembram as personagens grotescas que são castigadas, eliminadas em outros contos. O padecimento a que foi submetido ao cuidar das duas, no entanto, redimiu-o.

Enredo

O conto inicia com a descrição de um vagão diferente, gradeado, que seria levado pelo “trem do sertão”. A população sabia que ele levaria “duas mulheres, para longe, para sempre”: a mãe e a filha de Sorôco. “A mãe de Sorôco era de idade, com para mais de uns setenta. A filha, ele só tinha aquela. Sorôco era viúvo.” Homem simples e rude, vivia com sua mãe e sua filha:

A mãe de Sorôco era de idade, com para mais de uns setenta. A filha, ele só tinha aquela. Sorôco era viúvo. Afora essas, não se conhecia dele o parente nenhum.

Mãe e filha eram loucas. Sorôco tentou ficar com as duas ao seu lado, mas não foi possível. Tomou a decisão mais difícil de sua existência: interná-las. O governo mandaria o trem para levá-las para Barbacena, longe. “Para o pobre, os lugares são mais longe.” Sorôco deveria encaminhá-las à estação, pois “o trem do sertão passava às 12h45m.”

Sorôco seguiu para a estação acompanhando as duas, uma de cada lado, “parecia entrada em igreja, num casório.” O povo esperava, protegendo-se do sol. “As pessoas não queriam poder ficar se entristecendo, conversavam (…) Sempre chegava mais povo – o movimento.” Alguém avisa que Sorôco aponta da Rua de Baixo, onde mora. Ele vestia a sua melhor roupa para a despedida, que a população acompanhava com pesar – “Todos diziam a ele seus respeitos, de dó.” Diziam palavras que tentavam consolá-lo e ele muito humilde respondia: – “Deus vos pague essa despesa...” Todos compreendiam a atitude de Sorôco, pois não havia outro jeito.Porém todos pensavam que a partida delas seria bom para ele, visto não haver cura para a doença e também pelo fato de elas terem piorado nos últimos 2 anos, a ponto de Sorôco pedir ajuda médica para elas.

Em frente ao trem, a filha de Sorôco começa a cantar uma cantiga que ninguém entende. A mãe de Sorôco começa a cantar também a cantiga entoada pela moça, antes de serem alojadas dentro do trem. Principia o embarque das duas. E o canto ecoa longe. Sorôco não espera o trem desaparecer de vez, nem olha, fica de chapéu na mão calado. “De repente, todos gostavam demais de Sorôco.”

O trem partiu e “Sorôco não esperou tudo se sumir. Nem olhou. Só ficou de chapéu na mão, mais de barba quadrada, surdo – o que nele mais espantava.” Todos os presentes ficaram condoídos com o sofrimento do homem. Entretanto, Sorôco pára e “num rompido – ele começou a cantar. Alteado, forte, mas sozinho para si – e era a cantiga, mesma, de desatino, que as duas tanto tinham cantado. Cantava continuando.” E eis que “todos, de uma vez, de dó de Sorôco, principiaram também a acompanhar aquele canto sem razão. E com vozes tão altas! (…) A gente estava levando agora o Sorôco para a casa dele, de verdade. A gente, com ele, ia até aonde que ia aquela cantiga.
============================================

A menina de lá

A menina de lá , conto de Guimarães Rosa, da obra Primeiras estórias, é narrado em terceira pessoa.

Em um momento do texto, o narrador também passa a ser personagem (“Conversávamos, agora”), em outros, funciona como um narrador testemunha dos fatos, ora mais próximo, ora distanciado. Sabe de todos os acontecimentos por presenciá-los e por ouvir falar deles, porém, não diz a revelação que Nininha fez para Tiantônia, quando apareceu o arco-íris. Isso só acontecerá depois da morte da menina.

Semanticamente é possível perceber que a menina não pertence ao cá (terra), mas sim ao lá (céu), pela presença de palavras ligadas ao universo do mundo do lá: lua, estrelinhas, céu, alturas, aves, mortos, saudade, milagre, a mãe não tirava o terço da mão, e a menina mora no “Temor-de-Deus” e principalmente a palavra arco-íris, dentre outras. Arco-íris é a palavra-chave, pois remete ao imaginário coletivo de fazer um pedido ao arco-íris quando este aparece no céu. Pela metonímia “caixão colorido”, Nininha pede a morte e metaforicamente, o que ela deseja, acontece. Há, nesse momento, o clímax do conto, pois é o confronto entre os dois mundos: o cá (mundo terreno), de Tiantônia, em que a morte é vista como ruim, repreendendo a menina versus o lá, que para Ninhinha é a alegria , a libertação de um mundo que não é o seu, esperando cumprir o seu destino e realizar o seu desejo de ser “a menina de lá”. Desta forma, fecha-se o círculo do universo premonitório traçado pelo conto, calcado no destino fatídico de uma menina que não pertence ao mundo de cá, entretanto possui a magia de um outro mundo encantado: o mundo da criação artística.

É uma menina “com seus nem quatro anos”, franzina, filha de um pai sitiante e de uma mulher que não tirava o terço das mãos para nada, mesmo quando dava bronca nos empregados.. Vivia em Temor-de-Deus, por trás da Serra do Mim. Seu nome era Maria, ou apenas Nininha.

Era muito quieta, ficava sempre sentada em um canto (e ninguém entendia muito bem o que ela dizia).

Nininha (seu nome, o sufixo diminutivo triplicado, reforça sua fragilidade), louca (provavelmente tem hidrocefalia), é sensitiva, dotada de contatos místicos, poderes paranormais: seus desejos, por mais estranhos que fossem sempre se realizavam.

A menina começa a falar mais, e coisas estranhas começam a acontecer. Um dia, em meio à seca, ela diz que gostaria de ver um sapo em sua casa – momentos depois um sapo entra pulando pela porta; outro dia ela comenta que gostaria de comer “pamonhinha de goiaba” – nem meia hora depois chega uma senhora trazendo o doce. Quando sua mãe fica doente, pedem que a faça melhorar, mas a menina simplesmente diz que não pode. No entanto, abraça-a e, coincidência ou não, a cura chega.“O que ela queria, que falava, súbito acontecia.”

A menina era marcada por inventar histórias absurdas e por se calar subitamente em diversos momentos: “Não se importava com os acontecimentos. Tranqüila, mas viçosa em saúde. Ninguém tinha real poder sobre ela, não se sabiam suas preferências. Como puni-la? E, bater-lhe, não ousassem; nem havia motivo. (…) E Nininha gostava de mim.”

Seus poderes começam a dar uma mostra de maior intensidade quando a menina cura a doença de sua mãe e também quando ela atende o pedido de seu pai e faz chover. “Pai e Mãe cochichavam, contentes: que, quando ela crescesse e tomasse juízo, ia poder ajudar muito a eles, conforme à Providência decerto prazia que fosse.”

Pouco tempo depois deseja ver o arco-íris. A chuva chega e, junto, o arco. A visão dele no céu proporciona uma alegria que ela nunca tinha expressado em sua vida. Mas, fica quieta quando recebe uma bronca de Tiantônia, que xinga e repreende a menina, que, a partir daí, volta a ficar quieta. Nininha adoece e morre pouco tempo depois. Tiântonia explica, então, a razão para ter xingado a menina naquele dia em que ela fizera chover: “Nininha tinha falado despropositado desatino, por isso ela ralhara. O que fora: que queria um caixãozinho cor-de-rosa, com enfeites verdes brilhantes.” Os pais discutem se deveriam ou não encomendar o caixão como a filha havia solicitado.

Como explicar para o pessoal do arraial que quem tinha pedido o caixão assim tinha sido Nininha? No meio de uma discussão sobre isso, seus pais percebem que não seria preciso explicar nada para ninguém, pois Nininha queria daquele jeito (e daquele jeito seria). Mas a mãe percebe que “não era preciso encomendar, nem explicar, pois havia de sair bem assim, do jeito, cor-de-rosa com verdes funebrilhos, porque era, tinha de ser! – pelo milagre, o de sua filhinha em glória, Santa Nininha.”

Nota: O que de fato aconteceu: o arco-íris era o aviso de Deus de que Nininha voltaria ao seio d’Ele. E isso já vinha sendo anunciado nas entrelinhas desde o início do conto: o dedinho dela quase alcançava o céu, quando se falava de parentes mortos, ela dizia que ia visitá-los, sem mencionar o próprio título do texto, entre outros elementos. Esses aspectos místicos acabam transforma-a em mais uma milagreira, como tantas crianças que povoam o imaginário popular.
=================================

Os irmãos Dagobé

Análise da obra

Os irmãos Dagobé, conto de Primeiras estórias, obra de Guimarães Rosa, tem narração em primeira pessoa (alguém do arraial, presente no velório e no enterro, que registra suas impressões sobre os irmãos Dagobé e possíveis acontecimentos futuros).

Não há marcação de tempo e espaço (velório e o enterro) e traz a violência como tema.

Seus personagens são: Damastor (morto), Derval (caçula), Dismundo, Doricão e Liojorge.

Em sua linguagem o autor usa aliterações (repetição da letra D nos nomes dos irmãos Dagobé); frases incompletas: “Aquilo era quando as onças.” e aglutinação de palavras: “perguntidade”.

Este conto confirma a idéia popular de que Deus escreve certo por linhas tortas. Damastor Dagobé, bandido extremamente feroz, foi surpreendentemente assassinado por um sujeito aparentemente fraco, Liojorge, pressionado por legítima defesa. É em meio ao velório que o narrador se coloca, para captar mais vivamente a reação das pessoas presentes, todos com inúmeras conjecturas sobre como será a vingança dos irmãos Dagobé.

O mais surpreendente é que chega o recado de Liojorge, querendo deixar claro que havia matado com respeito e que queria estar na presença dos irmãos, para mostrar sua boa vontade. Se isso já deixou todos sobressaltados, muito mais quando se fica sabendo que o bom moço queria ajudar a carregar o caixão de Damastor. Parecia que o medo havia feito do rapaz um maluco.

Surpreendentemente os irmãos Dagobé concordam, mas impõem uma condição: só depois do caixão ser fechado. Os presentes imaginam algum plano malévolo e traiçoeiro dos bandidos. No entanto, a narrativa apresenta frustração após frustração. Liojorge chega e não é assassinado. Conduz o caixão. No caminho, tropeça e quase derruba o féretro. Para os espectadores é um prenúncio de desgraça. E comentam que os irmãos Dagobé estão na realidade realizando o pior dos planos: usar o homem como carregador e no cemitério dar cabo dele.

No entanto, este é outro conto a lidar com anticlímax. Enterrado Damastor, seus irmãos agradecem a atenção dos acompanhantes, mostram compreensão em relação a Liojorge e reconhecem que o falecido, em vida, era mesmo muito ruim. Comunicam que estão de mudança para a cidade, o que indica evolução.

O conto é uma alusão irônica: “Viviam em estreita desunião…” É a imaginação popular versus o real: Liojorge vai sofrer a vingança dos três irmãos mais novos. Todos acreditam nisso. Vitória da justiça: matara em legítima defesa. Damastor que era mau e perverso. Merecia morrer. “Damastor, o grande pior.” Alegria dos três irmãos remanescentes, einfim livres do grande pior.

Enredo

O conto inicia com durante o velório de “Damastor Dagobé, o mais velho dos quatro irmãos, absolutamente facínoras. (…) Todos preferiam ficar perto do defunto, todos temiam mais ou menos os três vivos. Demos, os Dagobés, gente que não prestava.” Damastor era tido como o “grande pior, o cabeça, ferrabrás e mestre, que botara na obrigação da ruim fama os mais moços – ‘os meninos’, segundo seu rude dizer.” Os outros irmãos eram Derval, Doricão e Dismundo.

Damastor fora morto em legítima defesa por Liojorge, homem pacato e honesto, que fora ameaçado pelo Dagobé. Após o fato, tudo indicava, e todos acreditavam, que os irmãos vivos buscariam imediatamente a vingança. Entretanto, eles iniciam os preparativos para o enterro do irmão. O narrador acentua este sentimento: “Sangue por sangue; mas, por uma noite, umas horas, enquanto honravam o falecido, podiam suspender as armas, no falso fiar. Depois do cemitério, sim, pegavam o Liojorge, com ele terminavam.”

Durante o velório, os irmãos confabulavam em voz baixa. Neste momento chega a informação de que Liojorge gostaria de ir até o velório para provar que seu ato não fora desleal. O narrador expõe a surpresa da notícia: “Viesse: pular da frigideira para as brasas. E em fato até de arrepios – o quanto se sabia – que, presente o matador, torna a botar sangue o matado.” Os irmãos não se opõem a esta idéia.

Após o velório, Liojorge chega e se propõe a carregar o caixão. O narrador nos estimula a idéia de que os irmãos acabariam por se vingar: “E, agora, já se sabia: baixado o caixão na cova, à queima-bucha o matavam.” Damastor é enterrado. Entretanto, Doricão fala a Liojorge: “Moço, o senhor vá, se recolha. Sucede que o meu saudoso irmão é que era um diabo de danado...” Ele ainda agradece a presença de todos antes de dizer o que a família faria: “A gente, vamos’embora, morar em cidade grande...”

Fonte:
Portal de Estudos Passeiweb

Deixe um comentário

Arquivado em Análise da Obra, Estante de Livros, Resumos

Antonio Brás Constante (Uma Feira de Doces para Alimentar o Pensamento)

Todos os anos acontecem em diversas partes do mundo as chamadas feiras do livro. Essas feiras mais parecem feiras de quitutes de vários sabores, que atendem a todos os gostos dos leitores. São iguarias que alimentam o espírito e a mente, sem engordar.

As obras podem ser devoradas a qualquer momento e em qualquer lugar, em dias frios ou noites quentes e vice-versa. Os livros já vêm embalados em belas capas. Para consumi-los, basta adquirir um exemplar e sair provando seu recheio literário, sem se preocupar em sujar os dedos. Suas deliciosas páginas podem passar de mil folhas, fazendo alguns se perguntarem: “será que dou conta de ler tudo isso?”. São dúvidas que desaparecem, quando a magia da leitura acontece.

Cada livro é um doce diferente que guarda um gostinho cheio de novidades a espera de olhares ávidos pelos mistérios e encantos de suas páginas. Podemos degustar sem pressa, pois o livro não derrete, ao contrário, incendeia nossa imaginação à medida que vamos experimentando o sabor e o saber de suas histórias. A leitura transpassa os nossos olhos, invadindo nossas mentes e alterando nossas percepções sobre o mundo e sobre nós mesmos. Dispõe de características que lhe tornam um tipo de alimento não perecível, desde que se tomem alguns cuidados no seu manuseio e guarda. Cada volume possui um tempero diferente, proveniente de todos os recantos deste gigantesco globo azul. O bom de um livro é que um único exemplar pode saciar a fome literária de várias pessoas, sendo uma fonte de alimento praticamente inesgotável.

As feiras do livro conseguem demonstrar que existem opções para a televisão e o videogame, bastando para isso que as pessoas tirem um pouquinho de seu tempo para sorver o néctar extasiante da leitura, exercitando e excitando suas mentes a cada parágrafo, pois o livro é uma academia de bolso.

Tudo acontece na velocidade de um olhar. Ao tocar em um volume com seus olhos, a pessoa imediatamente deixa de estar onde estava, passando a viver em outro mundo, em outra dimensão, pois a feira do livro é um portal de passagem para múltiplos universos. Lá você alcança o livro e o livro alcança sua alma. Mas do que um amigo imaginário trata-se de um amigo que invade nosso imaginário, com quem passamos a nos relacionar e conviver.

Por isso é importante que seja incutido desde cedo nas crianças o gosto pela leitura, para que depois elas não passem a encarar o livro como quem encara um pedaço de brócolis ou uma salada de beterraba e diga: “eu não gosto disso, eu não vou ler isso” (a propósito, eu gosto de brócolis e adoro beterraba).

A feira do livro é um lugar onde muitas vezes autores e leitores se encontram, ligados por um mesmo elo que é a obra literária ali exposta, fazendo com que suas vidas passem a ficar eternamente ligadas pelos livros que compartilham. Estas feiras são ótimos lugares para alguém se perder e ao mesmo tempo se encontrar, se perdendo em mil histórias e se encontrando no hábito saudável da leitura.

Espero que este texto tenha conseguido abrir seu apetite literário, pois quero encerrar deixando um convite para os leitores prestigiarem as feiras que vão surgindo como jardins floridos de livros pelas cidades e escolas, entre elas a minha jovem e bela cidade de Canoas no Rio Grande do Sul, que está lançando sua 25º feira do livro de 20 de junho a 04 de julho de 2009, a cidade também comemora os 70 anos de sua história, com inúmeras atrações que deixarão muitas recordações. Mas as feiras não param por aí, depois haverá eventos do livro em Porto Alegre, Jaraguá do Sul (julho), em Arroio dos Ratos (outubro) entre outras tantas cidades. Participe de quantas feiras você puder, afinal a sede de leitura não enfastia, e ainda é 100% sadia.

Fontes:
Texto enviado pelo autor.
Imagem = Universus Paralelus

Deixe um comentário

Arquivado em O Escritor com a Palavra, O nosso português de cada dia, Teoria Literária

Trova XXXI

Deixe um comentário

27 de junho de 2009 · 20:55

Guimarães Rosa (Aniversário de Nascimento)

Deixe um comentário

Arquivado em aniversário, datas comemorativas, nascimento

Guimarães Rosa (4 Contos do Livro Primeiras Histórias)

Pirlimpsiquice

Conto narrado em primeira pessoa, apresentando um narrador protagonista.

O período a que o autor nos remete é o tempo prazeroso da infância, repleto de aventuras e de experiências inéditas, como a da arte de representar.

O nome desse conto parece uma união de duas idéias, Pirlimpimpim, o pó de faz de conta do Sítio do Picapau Amarelo e psique, que tanto pode significar “alma”, “espírito”, “mente”. É a história de onze ou doze crianças que estão ensaiando uma peça, Os Filhos do Dr. Famoso, para ser encenada diante da escola. É notável como crianças, símbolo da liberdade, agem no rigor dos ensaios constantes. Chama a atenção também como os adultos têm uma linguagem tão empolada, próxima do vazio. O pior é que um grupo de crianças, liderado pelo Gamboa, ficou de fora de todo esse processo e começa a espalhar que tem conhecimento da obra que os meninos ensaiam tão em segredo. Então, como disfarce, os atores criam uma terceira história.

Tudo perfeitamente programado, mas em cima da hora o Ataualpa, quem iria abrir a peça, tem um parente que está para morrer e, por isso, precisa ir embora. Quem assume o seu lugar é o narrador, que sabia todas as falas de cor, pois era o ponto. No entanto, na estréia é que perceberam que a peça devia ser aberta por um poema conhecido só pelo Ataualpa. O narrador fica parado, sem saber o que fazer. A gafe é paga com vaias monstruosas.

A situação é salva por Zé Boné, garoto limítrofe que teve sua participação limitada a um papel sem fala. Inesperadamente começa a encenar a própria peça do Gamboa, no que é seguido pelos demais garotos, como se estivessem num transe, que se transfere para a platéia, paralisando-a. Esse transe coletivo pode ser entendido como o poder da Arte.

Em Pirlimpsiquice, a invencionice infantil é lembrada com saudades pelo narrador levantando um tênue limite entre o real e a imaginação.

No conto, o narrador-personagem, já adulto, narra um episódio transcorrido em sua infância, quando estudava interno em um colégio:

Um grupo de alunos é convocado para encenar uma peça teatral [Os filhos do doutor Famoso]. Entusiasmados, os meninos ouvem o resumo do drama, lido pelo Dr. Perdigão “lente de corografia e história-pátria”. O narrador é escalado para ser apenas o ponto.

Passam a ensaiar todo o final de tarde, depois do jantar, enquanto os outros cumprem horas obrigatórias de estudo e prometem badernas e vaias durante a apresentação e sovas depois.

No dia da apresentação, Ataualpa, o menino que representaria o papel mais importante – o Dr. Famoso – tem de viajar às pressas, pois seu pai está à morte. O ponto, por conhecer todas as falas das personagens, é escalado para substituí-lo.

Quando já está frente ao público, o menino se dá conta de que deveria iniciar com a declamação de um poema que falava na “Virgem Padroeira e na Pátria!”, mas este era conhecido somente por Ataualpa. Diante da hesitação e do silêncio do menino em cena, o público ri.

Este, por fim, diz trêmulo: “-Viva a Virgem e viva a Pátria”. Porém a confusão não para aí. Mandam abaixar as cortinas do palco, mas elas não descem. Entram as crianças para a próxima cena, mas “apalermados” não proferem palavra. Como conseqüência: “- A vaia, que ninguém imaginava. O que era um mar – patuléia, todos em mios, zurros, urros, assobios: pateada. A gente, nada”.

No meio da confusão, Zé Boné, um que “regulava de papalvo [indivíduo simplório, pateta] começa a representar; só que não a história prevista, mas uma outra, inventada por um colega – Gamboa – com quem os atores tinham rixas. A partir daí, os meninos passam a improvisar e conquistam o respeito da platéia que os aplaude.

A história vai se tornando tão envolvente que eles não percebem que têm de concluí-la: “Entendi. Cada um de nós se esquecera de seu mesmo, e estávamos transvivendo, sobrecrentes disto: que era o verdadeiro viver? E era bom demais, bonito – milmaravilhoso – a gente voava, num amor, nas palavras: no que se ouvia dos outros e no nosso próprio falar. E como terminar?”

O narrador é o único a perceber que a ilusão havia tomado o lugar da realidade e que isso teria de ter um fim. Então resolve dar uma cambalhota, para cair, de propósito. Perde os sentido e a peça é interrompida.
=============================

Fatalidade

Conto narrado em primeira pessoa (testemunha), cujos personagens são: Meu Amigo, delegado filósofo, que já foi de tudo na vida, e Zé Centeralfe, caboclo perseguido por um valentão que lhe quer roubar a esposa.

Os recursos de linguagem utilizados são barbarismos e elipses (“adonde” barbarismo popular).

O conto contrapõe o poder da autoridade ao poder do homem comum, submetido às leis e tematiza, em última instância, a violência arbitrária existente no sertão. Esta, por sua vez, justifica o título, pois assume um caráter de fatalidade. Portanto, a fatalidade (a morte) é o tema do conto, sem associação com o cômico, mas com o místico.

Trata-se da história de Zé Centeralfe, que vive acochado, pois sua esposa desonrosamente está sendo cortejada por um facínora, Herculinão. O casal, para evitar problemas, mudou-se do Pai-do-Padre para Amparo. Mas o bandido segue-os. Mudam-se então para a cidade, onde deveria haver lei, ordem, segurança, mas continuam sendo seguidos. É por isso que o pobre homem vai pedir ajuda ao delegado, chamado pelo narrador de Meu Amigo, figura que cita intensamente os filósofos gregos. A intenção é obter o apoio da justiça dos homens. No entanto, Zé Centeralfe é induzido a outro tipo de moral. Aparentemente, é a justiça pelas próprias mãos, pois o delegado convence Centeralfe, apenas com o olhar, a pegar as armas. Assim que saem, encontram Herculinão, que é assassinado com um tiro no peito (coração) e outro na cabeça (mente).

Em Fatalidade, aprende-se a viver, não debaixo da lei do determinismo de um destino alheio e estranho aos reclamos do coração, mas sob a graça da liberdade de transformar a inexorabilidade de uma sentença fatal na maleabilidade de uma disposição vital capaz de não desperdiçar a ocasião oportuna de reespiritar-se.
===============================

Substância

Este conto, Substância, tem como personagem principal Sionésio, homem simples, trabalhador e calado. O vocabulário reduzido limita-lhe a expressão, não a sensibilidade. O narrador, em terceira pessoa, onisciente, fala por ele, transformando seus sentimentos em linguagem.

O título desse texto, um verdadeiro conto de fadas, estaria relacionado a três fatos. Substância pode significar “o essencial”. Seria um conselho para que nos atenhamos apenas ao que é importante. É a lição aprendida por Sionésio. A palavra pode também estar ligada à idéia de alguns textos místicos medievais, que diziam que os anjos eram todos iguais – assim como o moço muito branco, de Um Moço Muito Branco, que é indefinido por ser feito de uma substância divina. Pode ainda estar ligada ao polvilho, material extremamente branco que Maria Exita, empregada de Sionésio, manipula.

Este conto apresenta uma bela metáfora sobre a pureza de sentimento decorrente da retidão e do sofrimento. Há trabalho incessante, e o cotidiano de uma menina dedicada a bater o polvilho, num movimento incansável, é descrito nos planos objetivo e subjetivo. No enredo, vemos a descrição do trabalho, da lida e da luta pela sobrevivência, e temos um valioso retrato dos costumes de uma comunidade que tem como uma das formas de subsistência o fabrico e o depuramento do polvilho, bem como as condições precárias e primitivas em que este trabalho é realizado.

Em Substância os contrários aparecem harmonizados ao final do conto. Os personagens transcenderam assim o nível imediato de uma realidade, superando a cisão dos opostos. Para falar deste outro estágio em que eles se encontram Guimarães Rosa lança mão de estruturas lingüísticas carregadas de paradoxos: “acontecia o não-fato”, “em-si-juntos”, “avançavam, parados”.

Deve-se também observar no conto a notação fonética dos nomes: Maria Exita (Mariasita), Sionésio (senhor Onésio) e Nhatiaga (senhora Tiaga). Essa é uma das marcas de Guimarães Rosa.

Enredo

É a história de amor entre Maria Exita e Sionésio. Maria Exita havia chegado à fazenda de Sionésio, trazida por ele por pena: a mãe havia abandonado a casa, seus dois irmãos eram criminosos e seu pai, leproso, também havia partido. Ela era ainda menina, feia e desengonçada.

Na fazenda, aceitaram-na porque a velha Nhatiaga, peneirinha de polvilho, compadecera-se dela. À Maria Exita deram porém ingrato serviço, de todos o pior: o de quebrar, à mão, o polvilho, nas lajes.

A fazenda mantinha-se do plantio da mandioca e da produção de farinha e polvilho. Sionésio herdou-a. Prazer era ver, aberto, sob o fim do sol, o mandiocal de verdes mãos. Amava o que era seu – o que seus fortes olhos aprisionavam.

Não havia reparado nela enquanto, quieta e imperturbável, crescia, transformando-se numa linda moça – ela, flor.

Sionésio vai-se apaixonando por Maria Exita. Todo esse tempo. Sua beleza, donde vinha? Sua própria, tão firme pessoa? A imensidão do olhar – doçuras. Se um sorriso, artes como de um descer de anjos. Sionésio nem entendia. Somente era bom, a saber feliz, apesar dos ásperos.

Surpreendentemente, tornara-se aos seus olhos, deslumbrante, dona de uma beleza radiante digna das musas de Petrarca e Camões. Essa luminosidade é reforçada pela matéria com a qual lida, o polvilho, e para a qual é a única que está acostumada, mesmo sob o forte sol do sertão, que torna essa substância dotada de um brilho cegante. Essa familiaridade a torna divina.

No entanto, Sionésio tem medo. Ele preocupa-se com o fato de que alguém pudesse afastar sua quente presença para longe dele. A mãe de Maria Exita era leviana, tendo abandonado o lar. O pai estava num lazareto (lugar para leprosos). Seus irmãos eram bandidos, um preso e outro foragido. O fazendeiro tem, portanto, teme que em sua amada exista a marca de algumas dessas malignidades.

Sionésio sente que a paixão é maior que o preconceito, vence todos esses receios e pede-a em casamento. Atingir a realização, a felicidade plena exige a coragem de suplantar obstáculos. Caminha para a eternidade, para a luz, para o “não tempo” e o “não fato”.
===============================

A partida do audaz navegante

Conto narrado em terceira pessoa, onde há duas histórias justapostas: a que nos conta o narrador, envolvendo as crianças; e a que Brejeirinha inventa sobre o “Audaz Navegante”. O conto desenvolve, portanto, duas narrativas absolutamente simétricas e correspondentes, a do narrador onisciente e a de Brejeirinha sobre as mesmas personagens e ações, Zito, a namorada, a separação e o reencontro. A intenção é privilegiar a linguagem e o universo infantil, seus jogos e brincadeiras.

Guimarães Rosa olha o mundo neste conto através de Brejeirinha, personagem central.

Neste conto os barbarismos são explorados poeticamente.

Logo no início do conto, quando o narrador procura situar o leitor dentro do “espaço”, é apresentada a personagem “Mamãe”. Pelo tratamento, pode-se compreender que o narrador se inclui como personagem da cena, sem manter um distanciamento de quem narra fatos experimentados por outros.

Zito é o elemento “de fora”; portanto aquele que rompe a harmonia. Metáfora do desejo, Zito é símbolo do pai ausente e desdobra-se na figura do “audaz navegante”. Pode-se, então, compreender que a narrativa de Brejeirinha como uma construção que, a um só tempo, denuncia a falta (do pai) e tenta, pela linguagem, pela fantasia, reverter a perda em conquista, uma situação na qual a passividade (sofrer a perda) transforma-se em poder: impor a saída (do navegante).

Enredo

Os acontecimentos giram em torno de quatro crianças: três meninas – Pele, Ciganinha e Brejeirinha, irmãs – e um menino – Zito.

É de manhã e a mãe das meninas está às voltas com as lides da casa. Nurka, a cachorrinha, dorme. As crianças ainda estão em casa, porque, lá fora, chove.

O narrador nos informa a respeito das crianças: Pele, meiga e prestativa; Ciganinha, linda, o retrato da mãe; Zito, imaginativo, “sonhava ir-se embora, teatral”; Brejeirinha, a menor e mais arteira.

Brejeirinha, como se pressentisse os sonhos de Zito, diz -Zito, você podia ser o pirata, inglório marujo, num navio intacto, para longe, longe no mar, navegante que o nunca-mais, de todos? Empolgada, a menina começa a contar sua história: narra a partida de um “Audaz Navegante” que deixa a todos que ama para descobrir os lugares, que nós não vamos nunca descobrir. A história termina com todos chorando por causa da partida do “Aldaz”.

A história é interrompida por Pele: -Você é uma analfabetinha “aldaz”, referindo a pronúncia inadequada da menina. Ciganinha não gostou da história: Por que você inventou essa história de tolice, boba, boba?

Brejeirinha responde: – Porque depois pode ficar bonito, ué!

Mas o tempo melhorou, a mãe ia visitar uma doente e as crianças pediram para ir riacho.

Mamãe deixava, elas não eram mais meninas de agarra-a-saia. Zito devia acompanhá-las, pois já era um ‘meiozinho’ – homem, leal de responsabilidades.

As crianças dirigem-se alegres para o riacho: Zito dando o braço a Ciganinha, por vezes, muito, as mãos se encontravam. Pele se crescia, elegante. E ágil ia Brejeirinha com seu casaquinho coleóptero. Ela andava pés-para-dentro, feito periquitinho, impávido.

Já no riacho e em meio a brincadeiras, Brejeirinha pede a atenção de Zito e Ciganinha. Queria continuar sua história. Dessa vez, o “Aldaz” é pego de surpresa pelo mar, que leva seu navio.

Mas a menina perde o fio da história, e Pele, impaciente, aponta um estrume seco de vaca, dizendo eha o seu aldaz navegante, ali. É aquele…

Em cima do estrume ressequido – chamado por Brejeirinha de “bovino”, crescera um cogumelo.

A menina enfeita o “bovino” com florezinhas. Todos riem e batem palmas: -Pronto. É o Aldaz Navegante…

Depois disso, Brejeirinha ainda continua a história. Conta que o “Aldaz” sozinho e temeroso deu um pulo onipotente…Agarrou, de longe a moça, em seus braços…Então, pronto […] Agora, acabou-se, mesmo: eu escrevi – “Fim”.

A chuva recomeçava e cercava o “bovino”. O “Aldaz” logo partiria, levado pelas águas. As crianças decidem mandar recados por ele: -Zito põe um moeda. Ciganinha, um grampo. Pele, um chicle. Brejeirinha – um cuspinho, é o seu estilo. E a estória? Haverá, ainda tempo para recontar a verdadeira estória? Brejeirinha ainda inventa outro final. Dessa vez, o Aldaz e sua amada partem juntos, desde o início.

A chuva aumentava e Brejeirinha, assustada, tranqüiliza-se quando vê a mãe, “fada, inesperada, surgia, ali de contraflor”. Juntos observam a partida do “bovino”: Olha! Lá se vai o “Aldaz Navegante”.
–––––––––––––
Análise do Livro Primeiras Histórias, em http://singrandohorizontes.blogspot.com/2008/08/guimares-rosa-primeiras-estrias.html

Biografia de Guimarães Rosa
http://singrandohorizontes.blogspot.com/2008/04/guimares-rosa-1908-1967.html
––––––––––––––
Fonte:
Portal de Estudos Passeiweb

Deixe um comentário

Arquivado em Análise da Obra, Contos, Estante de Livros

Lya Luft (Canção na plenitude)

Não tenho mais os olhos de menina
nem corpo adolescente, e a pele
translúcida há muito se manchou.
Há rugas onde havia sedas, sou uma estrutura
agrandada pelos anos e o peso dos fardos
bons ou ruins.
(Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)

O que te posso dar é mais que tudo
o que perdi: dou-te os meus ganhos.
A maturidade que consegue rir
quando em outros tempos choraria,
busca te agradar
quando antigamente quereria
apenas ser amada.
Posso dar-te muito mais do que beleza
e juventude agora: esses dourados anos
me ensinaram a amar melhor, com mais paciência
e não menos ardor, a entender-te
se precisas, a aguardar-te quando vais,
a dar-te regaço de amante e colo de amiga,
e sobretudo força — que vem do aprendizado.
Isso posso te dar: um mar antigo e confiável
cujas marés — mesmo se fogem — retornam,
cujas correntes ocultas não levam destroços
mas o sonho interminável das sereias.
————-

Fonte:
LUFT, Lya. Secreta Mirada. SP: Editora Mandarim, 1997.

Deixe um comentário

Arquivado em A Poetisa no Papel, Poesia

Lafcádio Hearn (A Promessa)

Não temo a morte – disse a esposa agonizante. – Só tenho uma preocupação neste momento: Quisera saber quem ocupará meu lugar nesta casa.

Minha querida – replicou o marido aflito – ninguém ocupará jamais teu lugar na minha casa. Nunca, nunca tornarei a casar-me.

Ao dizer isto, dizia-o com o coração, porque amava a mulher que estava a ponto de perder.

– Jura pela fé do samurai? – perguntou ela, com um sorriso apagado.

– Pela fé do samurai – respondeu ele, acariciando-lhe o rosto consumido e pálido.

– Então, amado meu, – continuou ela – sepultar-me-ás perto daquelas ameixeiras que plantamos a um canto do jardim. Havia muito que queria pedir-te isso, mas pensei que, se voltasses a casar-te, não gostarias de ter meu sepulcro tão perto. Agora que prometeste que nenhuma mulher ocupará o meu lugar, não é mais necessário que eu titubeie em formular meu desejo… tenho tanta vontade de ser sepultada no meu jardim! Imagino que ali ainda ouvirei, às vezes, tua voz e que verei as flores na primavera.

– Far-se-á como desejas, – respondeu o marido – mas não fales agora disso; não é tão grave assim o teu mal para que tenhamos perdido a esperança.

– Eu a perdi; – replicou ela – morrerei amanhã… Mas, enterrar-me-ás no jardim?

– Sim; – disse ele – à sombra das ameixeiras que plantamos, e terás um belo sepulcro.

– Dar-me-ás uma campainha?

– Uma campainha?

– Sim, quero que, no ataúde, ponhas uma campainha, como essas que levam os peregrinos budistas. Prometes?

– Terás a campainha… e tudo quanto mais desejares.

– Nada mais desejo… amado meu, sempre foste muito bom para mim. Agora posso morrer feliz.

Fechou os olhos e expirou com a mesma facilidade com que as crianças cansadas adormecem. Mesmo morta, continuava bela, e havia um sorriso em seu rosto.

Enterraram-na no jardim, à sombra das árvores que amara, e colocaram uma campainha dentro do seu esquife. Sobre a sepultura erigiu-se um formoso monumento, ornado com o escudo da família e ostentando o seguinte Kaymio: Grande Irmã Maior, Sombra Luminosa da Câmara da Flor de Ameixeira, moras na Casa do Grande Mar da Compaixão.

Todavia antes que transcorresse um ano da morte de sua esposa, os parentes e amigos do samurai começaram a instá-lo que contraísse novo matrimônio.

– Ainda és jovem, – diziam-lhe – és filho único e não tens descendentes. Um samurai tem o dever de tomar esposa. Se morres sem filhos, quem fará as oferendas? Quem recordará os antepassados?

Com muitos argumentos dessa índole, persuadiram-no, por fim, a casar-se novamente. A nova esposa tinha apenas dezessete anos; e o samurai a amou ternamente, apesar do mudo protesto da tumba no jardim.

II

Nos seis primeiros dias que se seguiram ao casamento, nada turvou a felicidade da jovem esposa. No sétimo, o samurai recebeu ordem de cumprir certos deveres, que requeriam sua presença, à noite, no castelo. Na primeira noite em que se viu obrigado a deixar só a esposa, ela sentiu-se amedrontada, sem poder explicar por quê. Deitou-se, mas não pôde dormir. Havia uma estranha opressão no ambiente, um peso indefinível na atmosfera, como o que precede uma tormenta.

À hora do Boi, ouviu ela, no silêncio noturno, uma campainha… uma campainha de peregrino budista, e perguntou quem seria o peregrino que atravessava as possessões do samurai a tal hora. Depois de uma pausa, a campainha soou de novo, mas muito mais próxima; mas por que se aproximava pelo fundo, onde não havia caminho algum?… De repente os cachorros começaram a gemer e a latir e modo estranho e horrível e um temor, como o que se experimenta em certos pesadelos, apossou-se da jovem… Era indubitável que a campainha soava no jardim… Tratou de levantar-se para chamar um criado, mas compreendeu que não podia mover-se nem falar… E o som da campainha se ouvia cada vez mais próximo, mais próximo… E como ladravam os cachorros!… De repente, com a ligeireza com que desliza uma sombra, entrou no aposento uma mulher – ainda que todas as portas estivessem fechadas e todas as cortinas descidas – uma mulher envolta em um sudário, trazendo uma campainha de peregrino. Não tinha olhos… porque, desde havia muito, estava morta; seus cabelos soltos caíam-lhe em cascata sobre o rosto e ela olhava sem olhos através do emaranhado dos cabelos e falava sem língua:

– Nesta casa, não; nesta casa não ficarás! Aqui ainda sou eu a dona. Vai-te! A ninguém dirás o motivo de tua partida. Se o disseres a ele, far-te-ei em pedaços.

Assim dizendo, o fantasma desapareceu. A jovem esposa desmaiou de terror e, até ao amanhecer, permaneceu inconsciente.

À alegre luz do dia, duvidou da realidade do que havia visto e ouvido. Ainda que a recordação da advertência pesasse tanto em seu coração que não se atreveu a falar a seu esposo, nem a pessoa alguma sobre a visão da noite, esteve a ponto de convencer-se de que havia sido vítima de um pesadelo que a fizera doente.

Na noite seguinte, no entanto, suas dúvidas se dissiparam. Uma vez mais, à Hora do Boi, os cachorros começaram a uivar e gemer; uma vez mais ouviu-se o som da campainha aproximando-se lentamente pelo jardim; uma vez mais, a jovem tentou, em vão, levantar-se e chamar por socorro; uma vez mais a morta entrou no aposento e disse, com voz sibilante:

– Vai-te. A ninguém dirás por que deves ir-te. Sim, se o disseres a ele, mesmo que num sussurro, far-te-ei em pedaços.

Desta vez a aparição aproximou-se do leito e inclinou-se sobre a moça, resmungando e fazendo caretas…

Na manhã seguinte, quando o samurai regressou do castelo, sua jovem esposa se prostrou diante dele, implorante:

– Suplico-te – disse – que perdoes minha ingratidão e minha grande descortesia ao falar-te deste modo, mas quero voltar para casa; quero ir-me imediatamente.

– Não és feliz aqui? – perguntou ele sinceramente surpreso. – Alguém se atreveu a ser pouco cortês contigo durante minha ausência?

– Não se trata disso – respondeu ela, soluçando. – Todos têm sido bons comigo… Mas não posso continuar a ser tua esposa. Devo ir-me.

– Minha querida – exclamou ele – é tremendamente doloroso saber que encontraste nesta casa motivo para ser infeliz. Mas não posso sequer imaginar por que queres ir-te… a menos que alguém tenha sido muito descortês contigo… Naturalmente, não queres dizer que desejas o divórcio?

Ela respondeu temerosa, chorando:

– Se não me concedes o divórcio, morrerei.

O samurai permaneceu um instante em silêncio, tratando em vão de adivinhar o motivo daquela assombrosa declaração. Por fim, sem revelar qualquer emoção, respondeu:

– Devolver-te à tua casa, sem que hajas cometido falta alguma, seria um ato vergonhoso. Se me revelares o motivo do teu desejo – qualquer motivo que me permita explicar as coisas honradamente – dar-te-ei o divórcio. Mas se não me ofereceres motivo, um motivo razoável – não to darei, porque a honra de nossa casa deve manter-se invulnerável a qualquer censura.

Então, ela se sentiu obrigada a falar, e lhe contou tudo, acrescentando no auge do terror:

– Agora que contei tudo, ela me matará! Me matará!

Embora homem valente e pouco propenso a acreditar em fantasmas, o samurai sentiu-se, no primeiro instante, consideravelmente alarmado. Porém, logo veio-lhe ao espírito uma explicação fácil e natural para o caso.

– Minha querida – disse – estás muito nervosa e temo que alguém tenha estado a contar-te histórias tolas. Não posso conceder-te o divórcio apenas porque tiveste um pesadelo. Mas lamento muito que tenhas sofrido tanto durante a minha ausência. Esta noite também deverei ir ao castelo, mas não te deixarei só. Mandarei dois de meus soldados montarem guarda aos teus aposentos, assim poderás dormir em paz. São bons homens, e saberão cuidar de ti.

E falou-lhe com tanta segurança, com tanto carinho, que ela quase sentiu vergonha de seus temores e resolveu continuar na casa.

III

Os dois soldados encarregados eram homens robustos, valentes e simples, experimentados guardiães de mulheres e crianças. Contaram à jovem histórias agradáveis para mantê-la alegre. Ela conversou com eles durante muito tempo, festejando-lhes as tiradas isentas de malícia, e quase esqueceu seus temores. Quando por fim se recolheu para dormir, postaram-se eles a um canto do aposento, atrás de um biombo, e começaram a jogar uma partida de go(1), falando em voz baixa, para não despertar a jovem, que dormia como uma criança.

Porém, uma vez mais, à Hora do Boi, despertou ela com um gemido de terror… A campainha! Já estava próxima e se aproximava cada vez mais. Ergueu-se; deu um grito, mas no quarto não se ouvia nada… só um silêncio de morte, um silêncio que crescia, um silêncio que se avolumava. Correu para os soldados; estavam sentados diante do tabuleiro, imóveis, olhando-se com os olhos fixos. Gritou-lhes, sacudiu-os: estavam como que gelados…

Depois, contaram os guardas que haviam ouvido a campainha e o grito da jovem, e que havia mesmo sentido quando ela os sacudira para despertá-los; todavia, não haviam podido mover-se nem falar. A partir desse momento, deixaram de ouvir e de ver: um sono negro havia-se apoderado deles.

Ao amanhecer, quando na câmara nupcial, o samurai viu, à difusa luz de uma candeia, o cadáver decapitado de sua jovem esposa, que jazia num charco de sangue. Os dois guerreiros dormiam ainda, acocorados, diante da partida inconclusa. Ao ouvirem o grito de seu amo, acordaram num átimo e ficaram a olhar estupidificados aqueles horror que jazia a seus pés.

A cabeça desaparecera e a espantosa ferida mostrava que não havia sido cortada, e sim arrancada. Um caminho de sangue ia desde a câmara até um canto da galeria exterior, onde as cortinas pareciam haver sido rasgadas. Os três homens seguiram o rastro; embrenharam-se pelo jardim, atravessaram grupos de ciprestes e caminhos aquosos, contornaram um tanque bordejado de lírios, passaram sob densas ramagens de cedros e bambus. E de repente, em um recanto, repararam com uma figura de pesadelo, que guinchava como um morcego: a figura de uma mulher, sepultada havia muito, de pé, diante de sua tumba; numa das mãos trazia uma campainha e, na outra, a cabeça ensangüentada. Por um instante, permaneceram os três aturdidos. Depois, um dos soldados desembainhou a espada, pronunciando uma oração budista, e assentou um golpe na aparição, que se desfez instantaneamente num desarticulado montão de panos de sudário, cabelos e ossos, ao mesmo tempo em que, dessa ruína, se desprendia a campainha, rodando e tilintando.

Mas a descarnada mão esquerda, mesmo depois de cortada, continuava a se retorcer, os dedos segurando ainda a cabeça ensangüentada, rasgando-a, lacerando-a como as pinças de um caranguejo amarelo, tenazmente cravado a uma fruta caída…

(Essa é uma história perversa – disse eu ao amigo que ma havia contado. – A vingança da morta, no caso de cumprir-se, deveria recair sobre o homem.

– Isso é o que crêem os homens – respondeu-me. – Mas não é o que sente uma mulher.
E tinha razão.)
================
Nota:
(1) Go, Weiqi ou Baduk se trata de um jogo estratégico de soma zero e de informação perfeita para tabuleiro , em que duas pessoas posicionam pedras de cores opostas. Sua origem vem da antiga China, entre 2000 aC e 200 aC. O jogo é popular no leste da Ásia. O desenvolvimento do jogo pela internet aumentou muito a sua popularidade no resto do mundo. É reconhecido como um jogo que envolve grande capacidade estratégica, tendo grande número de praticantes na Coréia, na China, no Japão, nos EUA e na Europa. Em outros lugares, como Brasil, é praticado basicamente pelos da diáspora asiática e curiosos.
———–
Fontes:
http://victorian.fortunecity.com/postmodern/135/hearn.htm
Wikipedia
Imagem = Inkwebane

Deixe um comentário

Arquivado em Contos, O Escritor com a Palavra

Lafcádio Hearn “Koizumi Yakumo” (27 Junho 1850 – 26 Setembro 1904)

Patrick Lafcádio Hearn (27 de junho de 1850 – 26 de setembro de 1904), também conhecido como Koizumi Yakumo, nome que adotou após adquirir cidadania japonesa, foi um jornalista e escritor conhecido por seus livros a respeito do Japão. Ele é especialmente conhecido pelos japoneses devido às suas coleções de contos de fadas, um dos quais foi transformado em filme por Masaki Kobayashi (Kwaidan (1965)). Viveu muito tempo no Japão e conquistou, com sua obra, grande renome internacional.
–––––––––––
Hearn nasceu na Grécia, na ilha de Leocádio, uma das ilhas jônicas (Em grego a ilha se chama Lefkas – de onde se origina seu nome). Filho do major cirurgião Charles Hearn, nascido em King’s County na Irlanda e de Rosa Antonia Kassimati nascida em Leocádio. Seu pai estava servindo na ilha durante a ocupação inglesa das ilhas jônicas. Aos seis anos de idade Lafcádio Hearn mudou-se para a Irlanda. O gosto pelas artes e pela Boemia estava no sangue de Hearn. O irmão de seu pai, Richard, foi um membro renomado do grupo de artistas Barbizon, embora não tenha feito fama como pintor devido à sua falta de energia.

O jovem Hearn teve uma educação casual, mas estudou por um curto período (1865) no Ushaw Roman Catholic College em Durham. A fé religiosa na qual ele foi criado, foi logo perdida e, aos 19, ele foi enviado para viver nos Estados Unidos da América, se instalando na cidade de Cincinnati, Ohio. Lá ele desenvolveu uma amizade que durou toda a sua vida com o impressor inglês Henry Watkin. Com a ajuda de Watkin, iniciou uma carreira no baixo escalão do jornalismo. Devido ao seu talento como escritor, subiu rapidamente e se tornou repórter no Cincinnati Daily Enquirer, onde permaneceu de 1872 a 1875. Com liberdade criativa em um dos maiores jornais em circulação na cidade, ele desenvolveu uma reputação pelos sensíveis, sombrios e fascinantes relatos sobre os desfavorecidos de Cincinnati. Ele continuou a se ocupar do jornalismo, leituras e observações da sociedade local, enquanto suas idiosincrasias românticas e por vezes mórbidas se desenvolviam.

Ainda em Cincinnati, casou-se com Mattie, uma mulher negra, o que na época era uma prática ilegal. Quando o escândalo foi descoberto e tornado público, ele foi demitido do Enquirer e foi trabalhar no jornal rival, o Cincinnati Commercial, mas a poluição da cidade irritava seus olhos sensíveis e ele se mudou para New Orleans, Luisiana em 1877

De 1877 a 1888 permaneceu em New Orleans escrevendo para o Times Democrat. Seus escritos nessa cidade se concentravam na história creole da cidade, sua culinária peculiar, a marginalidade e o Vodu. Seus artigos para publicações como a Harper’s Weekly e Scribner’s Magazine ajudaram a moldar a imagem de New Orleans como um colorido reduto da decadência e do hedonismo. Seu livro mais conhecido sobre a Luisiana é Gombo Zhebes (1885).

O Times Democrat enviou Hearn para as Índias Ocidentais como correspondente em 1889. Ele passou dois anos nas ilhas e lá produziu Two Years in the French West Indies (Dois Anos nas Índias Ocidentais Francesas) e Youma, The Story of a West-Indian Slave (Youma, a História de um Escravo das Índias Ocidentais), ambos em 1890.

Em 1891 foi ao Japão comissionado como correspondente em um jornal, mas o contrato foi logo rompido. Foi no Japão, no entanto, que encontrou seu lar definitivo e sua maior fonte de inspiração.

Durante a década de 1890, ele se tornou professor de literatura inglesa na Universidade Imperial de Tóquio e logo se viu totalmente enfeitiçado pelo Japão. Casou-se com uma japonesa, filha de um samurai, se naturalizou japonês sob o nome de Koizumi Yakumo e adotou o budismo. Sua saúde tornou-se frágil nos últimos anos de sua vida, forçando-o a parar de dar aulas na Universidade. Morreu em 26 de setembro de 1904 vítima de um ataque cardíaco.

No fim do século XIX o Japão era ainda desconhecido e exótico para o mundo ocidental. Com a introdução da estética japonesa, particularmente na Exposição Universal de 1900, em Paris, o Ocidente adquiriu um apetite insaciável pelo Japão e Hearn se tornou mundialmente conhecido pela profundidade, originalidade e sinceridade dos seus contos. Em seus últimos anos, alguns críticos, como George Orwell, acusaram Hearn de transferir seu nacionalismo e fazer o Japão parecer mais exótico, mas, como o homem que ofereceu ao Ocidente alguns de seus primeiros lampejos do Japão pré-industrial e do Período Meiji, seu trabalho ainda é valioso até hoje.

Livros sobre temas japoneses
Glimpses of Unfamiliar Japan (1894)
Out of the East: Reveries and Studies in New Japan (1895)
Kokoro: Hints and Echoes of Japanese Inner Life (1896)
Gleanings in Buddha-Fields: Studies of Hand and Soul in the Far East (1897)
Exotics and Retrospectives (1898)
Japanese Fairy Tales – Contos de fadas japoneses (1898) e seqüências
In Ghostly Japan (1899)
Shadowings (1900)
A Japanese Miscellany (1901)
Kottō: Being Japanese Curios, with Sundry Cobwebs (1902)
Kwaidan: Stories and Studies of Strange Things (1903)
Japan: An Attempt at Interpretation (1904; publicado logo após sua morte)
The Romance of the Milky Way and other studies and stories (1905; publicado postumamente)

Fonte:
Wikipedia

Deixe um comentário

Arquivado em Biografia, Grécia, Japão

Carlos Reverbel (21 Julho 1912 – 27 Junho 1997)

Carlos de Macedo Reverbel (Quaraí, 21 de julho de 1912 — Porto Alegre, 27 de junho de 1997) foi um jornalista, cronista e historiador brasileiro.

Reverbel nasceu em 1912, em Quaraí. Criou-se numa vida de fazendeiro, em família de largas posses e bastante ilustrada, coincidência que era relativamente comum até certo tempo atrás. Veio a Porto Alegre, para estudar, em 1927, e seguiu estudando no antigo Anchieta até 1933, quando abandonou os estudos formais sem formar-se e sem habilitar-se, portanto, para qualquer curso superior, para desgosto de sua família. Resolveu ingressar no jornalismo, vocação rara em sua geração e classe; para começo de carreira, preferiu trabalhar num jornal de cidade acanhada, a Florianópolis de 1934. Depois disso retornou ao Rio Grande do Sul, onde fez carreira de sucesso no Correio do Povo. Militou na Livraria do Globo, como secretário burocrata e como jornalista, nas duas revistas da época, a popular Revista do Globo e a super-intelectualizada Província de São Pedro.

Na altura de 45, intensificou a convivência (que jamais terminaria) com a obra de Simões Lopes Neto. Primeiro, numa extensa reportagem com a viúva, que ainda vivia; depois com a redescoberta dos textos que viriam a compor o livro Casos de Romualdo; tempos adiante, com a biografia que agora se reproduz. Em suas memórias, fez questão de apor título alusivo ao escritor pelotense: aquela “arca de Blau”, que é o tesouro das memórias de Reverbel, evocava o personagem-narrador dos Contos gauchescos. Em 47, vendeu quase tudo que tinha para viver por dois anos em Paris, já casado. Na volta, viria a ser um dos mais importantes, senão o mais importante, dos jornalistas culturais de século 20 no estado, ao protagonizar uma seção de literatura e cultura no Correio, a partir de 1954. Não apenas editou, escreveu, resenhou e fez reportagens ali; também inventou pautas, propôs textos para escritores daqui e de fora, promoveu enquetes, fez andar a fila da vida cultural letrada.

Viveu até 1997. Sua presença faz uma falta enorme: para além da figura gentil e acolhedora que era, tratava-se de um daqueles sujeitos que tinha, já de moço, a perspectiva da história e o gosto das reminiscências, motivo por que soube desde cedo aproveitar idéias que os jornalistas nem sempre percebem como importantes. Exemplo: em 1948, se lançou a Santana do Livramento entrevistar uma senhora de 93 anos que tinha conhecido, adolescente, naquela cidade, ninguém menos que José Hernández, o autor do Martin Fierro, clássico escrito em parte ali mesmo, na fronteira brasileiro-uruguaia.

Seu faro histórico o fazia igualmente detectar valores no presente. É o caso de uma extensa reportagem que faz, no calor da hora de 48, sobre os jovens gravuristas de Bagé, terra que, segundo o bem humorado mas nunca nihilista Reverbel (o nihilismo é uma das flores fáceis do jornalismo cultural, garantindo sucesso junto aos impressionáveis e aos tolos de todos os tempos mas improdutivo a longo prazo — o prazo mental com que Reverbel e os bons trabalham), seria uma das mais improváveis para a eclosão de movimento artístico de tipo moderno.

Na crônica propriamente dita, é um dos bambas da língua portuguesa, sem favor algum. Com estilo agradável na linha de Rubem Braga (ou, no campo da memória, de Pedro Nava), brincando com o tema e consigo mesmo, manejando a alta cultura letrada e com a vivência profunda da cidade — especialmente a cidade de Porto Alegre, que ele retratou em detalhes e minúcias a que os amantes do tema devemos agradecer penhorados —, ele soube comentar o miúdo recente, como a estranha mania do “chispa”, nos anos 70 do Parcão, tanto quanto o graúdo das questões profundas, em particular as mudanças na paisagem da cidade, tudo sempre tomado de um ângulo capaz de mostrar o ridículo que se esconde na solenidade.

Maragato de família, antigetulista nos anos 30, espantado com o sucesso do Tradicionalismo mas capaz de elogiar a importância das pesquisas de Paixão Cortes; apreciador de intelectuais lusófilos como Gilberto Freyre ou Moysés Vellinho, amigo de Erico Verissimo e admirador de Darcy Azambuja; incorformado com o barulho em Porto Alegre e envolvido sempre com a divulgação das leituras antigas da terra, que ele cultivava com requintes de colecionador de livros e o paladar refinado dos grandes leitores — Reverbel é daquelas figuras que engrandeciam o interlocutor, ao vivo, e fazem o bem do leitor, por escrito.

Foi escolhido como o patrono da Feira do Livro de Porto Alegre de 1993.

Obra literária

Barco de papel (crônicas), 1978;
Saudações aftosas (crônicas), 1980;
Um capitão da Guarda Nacional (biografia de Simões Lopes Neto), 1981;
Diário de Cecília de Assis Brasil, 1984;
Pedras Altas – A vida no campo segundo Assis Brasil, 1984;
Maragatos e Pica-paus, 1985;
O gaúcho, 1986;
Arca de Blau (memórias), 1993.

Fontes:
Luís Augusto Fischer. In Cafezinho na Net
Wikipedia

Deixe um comentário

Arquivado em Biografia, Quaraí, Rio Grande do Sul

Lia Luft (A Asa Esquerda do Anjo)

A escritora Lia Luft escreveu o romance A Asa Esquerda do Anjo nos anos 70, baseada no cotidiano dos descendentes de alemães de Santa Cruz do Sul.

Segundo romance, Lya Luft, mostra que a vida patética da personagem Gisela se desenvolve entre frustrações que se acumulam a ponto de a encaminharem para a autodestruição. O orgulho, a hipocrisia, o ressentimento são componentes fatais do universo familiar e social em que dia a dia se constrói o sofrimento de Gisela. Sem reticências e com destemor, Lya Luft desce às dobras mais recônditas da opressão, ou seja, do aniquilamento do ser humano. E é a própria condição humana que passa a ser objeto de relfexão, uma reflexão que traz à tona, de forma vigorosa e implacável, as fraquezas e os anseios, os desalentos e os impulsos mais obscuros, presentes inapelavelmente na vida de todas as pessoas.

Sem reticências e com destemor, Lya Luft desce às dobras mais recônditas da opressão, ou seja, do aniquilamento do ser humano. E é a própria condição humana que passa a ser objeto de reflexão, uma reflexão que traz à tona, de forma vigorosa e implacável, as fraquezas e os anseios, os desalentos e os impulsos mais obscuros, presentes inapelavelmente na vida de todas as pessoas.

A personagem Gisela é criada em uma rígida família alemã, e sofre por se sentir exilada em um mundo comandado por sua avó, a temida e autoritária matriarca Frau Wolf. Dividida entre a obrigação de seguir as duras normas da educação alemã e a vontade de ser como as outras crianças, admirando a mãe, uma “intrusa” que tenta se integrar na família “germânica”, a menina cresce ambivalente, censurada pelo olhar crítico da avó e sentindo-se à sombra da prima, a preferida e perfeita Anemarie. Gisela sofre por ser a imagem da exclusão e pelo autoritarismo da matriarca da família e depois de adulta refaz sua trajetória em busca de sua identidade.

Em A Asa Esquerda do Anjo, Gisela conta a história de sua família, seus segredos – escondidos metaforicamente em uma portinha no porão; as mortes dolorosas e o anjo que guarda o mausoléu dos Wolf, os anseios e a culpa que a impedem de viver uma relação amorosa; a busca incessante pela aprovação em um lugar onde elas jamais seria igual aos outros.

O romance aborda, principalmente, a luta contínua entre o princípio da vida e da morte, entre Eros e Tanatos. A criação das personagens esta ligada à sua visão de mundo, não aceita mais a perpetuação do poder masculino, embora aponte para a decadência do patriarcado. A contestação aos valores patriarcais se revela, em Lya Luft, de forma cortante, mostrando o drama da mulher, educada dentro de rígidos padrões moralistas. As protagonistas continuam presas à família, presas às regras do jogo social. A situação social da personagem tem importância à medida que representa condicionamentos impostos por práticas sociais.

As personagens femininas são flagradas num determinado momento de sua trajetória: o momento em que o mundo, carecendo de sentido, se esvazia sob a ótica feminina. Lya Luft constrói em suas obras um mundo decadente que se desagrega e se desmancha, compondo um universo feminino marcado pela loucura, pela doença e pela morte; o jogo e o grotesco, o trágico e o grotesco se articulam para desvelar as regras, desvendando os absurdos de uma sociedade repressora e injusta, em que a mulher é o “lado esquerdo”, que fica sempre à margem da sociedade.

Na obra romanesca de Luft a narrativa é sempre feita por uma mulher que relata sua problemática, partindo de um universo fragmentado, procurando sua verdadeira identidade.

Fonte:
Portal de Estudos Passeiweb

Deixe um comentário

Arquivado em Análise da Obra, Estante de Livros

Lya Luft (15 Setembro 1938)

“Não existe isso de homem escrever com vigor e mulher escrever com fragilidade. (…) É um erro pensar assim. Eu sou uma mulher. Faço tudo de mulher, como mulher. Mas não sou uma mulher que necessita de ajuda de um homem. Não necessito de proteção de homem nenhum. Essas mulheres frageizinhas, que fazem esse gênero, querem mesmo é explorar seus maridos. Isso entra também na questão literária. Não existe isso de homens com escrita vigorosa, enquanto as mulheres se perdem na doçura. (…) Eu quero escrever com o vigor de uma mulher. Não me interessa escrever como homem.”

Lya Luft nasceu no dia 15 de setembro de 1938, em Santa Cruz do Sul, Rio Grande do Sul.

Por se tratar de cidade de colonização alemã, as crianças, em quase sua totalidade, falavam alemão, e os livros utilizados nas escolas vinham da Alemanha. Com onze anos, Lya decorava poemas de Goethe e Schiller.

Posteriormente, estudou em Porto Alegre (RS), onde se formou em pedagogia e letras anglo-germânicas.

Iniciou sua vida literária nos anos 60, como tradutora de literaturas em alemão e inglês. Lya Luft já traduziu para o português mais de cem livros. Entre outros, destacam-se traduções de Virginia Wolf, Reiner Maria Rilke, Hermann Hesse, Doris Lessing, Günter Grass, Botho Strauss e Thomas Mann. Ela diz que traduzir é sua verdadeira profissão. E que faz tradução para ganhar dinheiro. Mas também porque gosta. Um trabalho que exige respeito. Seu desejo é aproximar o escritor estrangeiro do leitor brasileiro. Confessa que não pode ser inteiramente fiel, porque pode-se correr o risco de ninguém entender nada. Mas não faz um carnaval em cima do texto alheio, não inventa, não cria frases que não existem.

Conheceu Celso Pedro Luft, seu primeiro marido, quando tinha 21 anos. Ele tinha quarenta. Era irmão marista. Foi numa prova de vestibular. Achou-se ridícula quando pensou: esse é o homem da minha vida! O irmão marista tirou a batina para casar com ela em 1963.

Nessa paixão, começou a escrever poesia. Os primeiros poemas foram reunidos no livro “Canções de Limiar” (1964).

Tiveram três filhos: Suzana, em 1965; André, em 1966; e Eduardo, em 1969.

Em 1972 lança mais um livro de poemas, “Flauta Doce”.

Em 1976, escreveu alguns contos e mandou para Pedro Paulo Sena Madureira, que era editor da Nova Fronteira. Pedro Paulo respondeu dizendo que os contos eram todos “publicáveis”. Pedro Paulo, no entanto, aconselhou Lya a escrever um romance, dizendo que ela era romancista. Dois anos depois ela escreveu “As Parceiras”.

Em 1978 lança seu primeiro livro de contos, “Matéria do Cotidiano”.

A ficção entrou em sua vida dois anos depois de um acidente automobilístico quase fatal em 1979. Como teve uma visão mais próxima da morte, diz a autora que começou a fazer tudo que evitava.

Primeiro foram crônicas, com o lançamento de “As Parceiras”, em 1980, e “A Asa Esquerda do Anjo”, em 1981. Textos amenos. Uma espécie de fingimento de que na vida tudo é bom. A morte é encarada como uma coisa normal. Mas gostaria que todos os seus amigos fossem eternos. Mesmo assim, acha a morte uma coisa mágica.

Em apenas oito anos Lya Luft sofreu duas perdas grandes demais. Dos 25 aos 47 anos foi casada com Celso Pedro Luft. Separou-se dele em 1985 e foi viver com o psicanalista e escritor Hélio Pellegrino, que morreu três anos depois. Em 1992 voltou a casar-se com o primeiro marido, de quem ficou viúva em 1995.

A escritora é conhecida por sua luta contra os estereótipos sociais. “Essas coisas que obrigam as pessoas a ser atletas. Hoje é quase uma imposição: a ordem é fazer sexo sem parar, o tempo todo. A ordem é não fumar, não beber. É essa loucura o dia inteiro na cabeça. Quem não for resistente acaba enlouquecendo. E a vida fica para trás. Hoje as pessoas estão sofrendo muito. Um sofrimento absolutamente desnecessário. Especialmente as mulheres que fazem plástica logo que vêem uma ruga no rosto. Plásticas de inteira inutilidade“.

Lya Luft deixa claro que nada tem contra as cirurgias plásticas, mas contra o rumo disso tudo. A autora diz ser uma constatação precária dizer que ela escreve sobre mulheres. Mulheres não são seus personagens exclusivos. “Escrevo sobre o que me assombra”, observa. E nisso está a infância. O importante é o compromisso com a dignidade. Toda a sua obra poderia ser resumida — como afirma — num livro de indagações.

Em 1982 publica “Reunião de Família”, e em 1984 outros dois livros: “O Quarto Fechado” e “Mulher no Palco”. “O Quarto Fechado” foi lançado nos E.U.A. sob o título “The Island of the Dead”.

Quem é Lya Luft?
Uma mulher gaúcha, brasileira, que faz cada vez mais, aos sessenta e um anos, o que desde os três ou quatro desejava fazer: jogar com as palavras e com personagens, criar, inventar, cismar, tramar, sondar o insondável.

Tento entender a vida, o mundo e o mistério e para isso escrevo. Não conseguirei jamais entender, mas tentar me dá uma enorme alegria. Além disso, sou uma mulher simples, em busca cada vez mais de mais simplicidade. Amo a vida, os amigos, os filhos, a arte, minha casa, o amanhecer. Sou uma amadora da vida. O que você nunca vai esquecer? Escutar o vento e a chuva nas árvores do imenso jardim que cercava a casa de meu pai, na minha infância”.

Puro maravilhamento. O que lhe causa repugnância? Preconceito, hipocrisia. Vale a pena escrever?

“Não escrevo porque “valha a pena”, mas porque me faz feliz, simplesmente”.

O que falta à literatura brasileira?

“Nada, não falta nada. Ela é o que é, simplesmente, cheia de graça, desgraça, florescente, múltipla, lutando com a crise econômica que atinge também as editoras, mas, como não se escreve para ficar rico, tudo bem”.

E Deus?

“Deus eu imagino como força de vida: luminosa, positiva, imperscrutável”.

E o Brasil? Brasil cujo jeito é parecer não ter jeito.

“Não quero jamais ter de morar longe dele. Aqui tudo é possível. E tanto está ainda por fazer”.

O que fazer para reverter esse quadro de miséria?

“Que os responsáveis por isso criem vergonha na cara”.

Quem não merece respeito algum de ninguém?

“Todos merecem algum respeito, no mínimo compaixão”.

Você costuma rezar?

“Não tenho nenhuma religião instituída, mas tenho uma profunda visão “religiosa”, sagrada, da natureza, das pessoas, do outro”.

Qual é seu momento ideal para escrever?

“O momento em que meu livro quer ser escrito. Mas normalmente produzo mais de manhã bem cedo. Gosto de ver o dia nascer, aqui na minha mesa de trabalho e do meu computador“.
Se confessa uma mulher tímida, embora não pareça.

Em 1987 lança “Exílio”; em 1989 o livro de poemas “O Lado Fatal” e, em 1996, o premiado “O Rio do Meio” (ensaios), considerado a melhor obra de ficção do ano.

Lya Luft afirma que hoje prefere ficar quieta consigo mesma. Já casou demais. Já enviuvou demais. Não se imagina mais vivendo ao lado de ninguém. Mas não quer desprezar os encantamentos que surgem por seu caminho. Lya afirma ter sido um privilégio ter conhecido e vivido com dois homens que muito lhe ensinaram. Sua visão do masculino é muito positiva. Foram três homens, na verdade, que a influenciaram e percorreram sua vida, erguendo seu rosto, seu percurso, abrindo seus rumos: seu pai, Arthur Germano Fett, que considerava um homem culto, amigo e também solitário; seu cúmplice, Celso Pedro Luft, de quem herdou o sobrenome; e Hélio Pellegrino. Três homens inesquecíveis. Que sempre vão permanecer nas palavras, nos pensamentos, nos acenos possíveis.

Não faz tarde de autógrafos, sente-se desconfortável com isso. Não gosta de discutir teorias literárias, especialmente quando se referem à sua obra. Nunca pensou em tradição literária ou, especialmente, em tradição literária gaúcha. Não quer fazer literatura regional. Não quer ser representante de descendentes. Não quer pertencer a grupo nenhum. Quer mesmo é ser livre. Quer ficar quieta no seu canto. No livro “Secreta Mirada”, lançado em 1997, ela se deixou com ela mesma e discorreu sobre temas que nunca fala em discussões literárias, em entrevistas, depoimentos.

Sou dos escritores que não sabem dizer coisas inteligentes sobre seus personagens, suas técnicas ou seus recursos. Naturalmente, tudo que faço hoje é fruto de minha experiência de ontem: na vida, na maneira de me vestir e me portar, no meu trabalho e na minha arte.

Não escrevo muito sobre a morte: na verdade ela é que escreve sobre nós – desde que nascemos vai elaborando o roteiro de nossa vida.

O medo de perder o que se ama faz com que avaliemos melhor muitas coisas.

Assim como a doença nos leva a apreciar o que antes achávamos banal e desimportante, diante de uma dor pessoal compreendemos o valor de afetos e interesses que até então pareciam apenas naturais: nós os merecíamos, só isso. Eram parte de nós.

O amor nos tira o sono, nos tira do sério, tira o tapete debaixo dos nossos pés, faz com que nos defrontemos com medos e fraquezas aparentemente superados, mas também com insuspeitada audácia e generosidade. E como habitualmente tem um fim – que é dor – complica a vida. Por outro lado, é um maravilhoso ladrão da nossa arrogância.

Quem nos quiser amar agora terá de vir com calma, terá de vir com jeito. Somos um território mais difícil de invadir, porque levantamos muros, inseguros de nossas forças disfarçamos a fragilidade com altas torres e ares imponentes.

A maturidade me permite olhar com menos ilusões, aceitar com menos sofrimento, entender com mais tranqüilidade, querer com mais doçura.

Às vezes é preciso recolher-se“.

Em 1999 a escritora lança o livro “O Ponto Cego”.

A vida é maravilhosa, mesmo quando dolorida. Eu gostaria que na correria da época atual a gente pudesse se permitir, criar, uma pequena ilha de contemplação, de autocontemplação, de onde se pudesse ver melhor todas as coisas: com mais generosidade, mais otimismo, mais respeito, mais silêncio, mais prazer. Mais senso da própria dignidade, não importando idade, dinheiro, cor, posição, crença. Não importando nada”.

Bibliografia:
– Canções de Limiar, 1964
– Flauta Doce, 1972
– Matéria do Cotidiano, 1978
– As Parceiras, 1980
– A Asa Esquerda do Anjo, 1981
– Reunião de Família, 1982
– O Quarto Fechado, 1984
– Mulher no Palco, 1984
– Exílio, 1987
– O Lado Fatal, 1989
– O Rio do Meio, 1996
– Secreta Mirada, 1997
– O Ponto Cego, 1999
– Histórias do Tempo, 2000
– Mar de dentro, 2000
(Todos os livros foram publicados pelas Edições Siciliano e Mandarim, São Paulo – SP)

– Perdas e ganhos, 2003 – Editora Record

Fonte:
Arnaldo Nogueira Jr. In Projeto Releituras

Deixe um comentário

Arquivado em Biografia, Rio Grande do Sul, Santa Cruz do Sul

Trova XXX

Deixe um comentário

26 de junho de 2009 · 22:17

Cintian Moraes (A diferença entre Viver Bem e Viver Melhor)

Hoje dei um descanso a minha mente agitada e aos meus dedos cansados de digitar no teclado do computador, por um momento respirei e passei a me interessar pelo que via nas ruas.

O que vi foram meninos brincando de pés descalços na rua de asfalto, morrendo de rir e exaustos por correrem atrás da bola.

Naquele momento, eu transferi para mim a felicidade que eles sentiam. A felicidade deles me alegrava completamente.

Parei e também ouvi os pássaros que faziam festa na árvore da casa do vizinho da frente. Olhei um carro que passava, passou tão rápido que quase atropelou os meninos que distraídos jogavam bola. Alguns minutos depois, eis que surge um caminhão na esquina que dizia pelo auto falante…

– Hei, você que está aí dentro de casa, venha conhecer o artesanato nordestino, vendemos tapetes artesanais, redes, colchas, esculturas feitas em barro, jogos de cozinha, tudo para a sua casa.

Impossível não rir, no caminhão que passava, todos os artesanatos estavam pendurado nas portas, até os que estavam dentro do baú do pequeno caminhão dava para ver. As portas estavam abertas, tinham tantas coisas lá dentro que era difícil saber o que exatamente estavam carregando. A cena me impressionou, fiquei observando aquilo que era tão diferente. Senti inveja da criatividade que tiveram. A mercadoria cobria todo o caminhãozinho que ficou lindo, me senti no nordeste. O sotaque arrastado no auto falante me fez rir e senti muita felicidade.

Depois de admirar o caminhão, os meninos olharam para mim, com ar de estranhisse e voltaram a jogar, certamente eles também nunca tinham visto coisa parecida. Alguns vizinhos curiosos também saíram na rua para ver o tal do caminhão. Era bizarro e pitoresco.

Olhei para o lado de cima da rua e vi duas vizinhas conversando, de certo estavam botando a fofoca em dia, esse encontro sempre acontecia no mínimo uma vez por semana.

Em um outro dia…

Precisei ir até a casa de uma amiga em um condomínio fechado em um bairro distante do meu.

Ao chegar, me identifiquei na portaria, o porteiro ficou atrapalhado, não olhou para mim enquanto eu dizia o meu nome, olhou para o carro que estava chegando no portão principal do condomínio. Só depois de abrir o portão é que ele foi olhar para o meu rosto. Então, repeti o meu nome e disse que a minha amiga estava me aguardando.

Ele me fez esperar uns 10 minutos e depois eu entrei.

Eu andava a pé, ainda bem, porque pude ver com todos os detalhes as belíssimas casas do condomínio. Me senti muito bem lá, era confortável, mas não era como na rua de casa. Depois de andar e observar, o isolamento me incomodou, não vi nenhum vizinho, crianças fazendo barulho – para atrapalhar os vizinhos, é claro – vi somente imagens paradas. Se não fossem os ventos, seriam estáticas.

Me senti sozinha, como se fizesse parte de uma bela imagem pregada em um quadro na parede da sala. Havia vida no lugar, belíssimos jardins, moldados pelas mãos humanas, bem diferente do jardim da minha casa, cheia de matos entre as cebolinhas para o tempero da minha mãe, hortelã para meu chá da noite, e de onde colho acerolas e morangos.

Quando cheguei, minha amiga me esperava com a porta semiaberta. Ela me convidou para entrar, o silêncio era predominante na casa, ela estava sozinha com a empregada. Me senti novamente na bela imagem pregada em um quadro na parede da sala e me perguntei:

– Para que tanto isolamento? O barulho faz mal? Os vizinhos do condomínio nem ao menos se cumprimentavam quando se viam, os jovens e a garotada tinham o seu canto reservado nos fundos do condomínio, um campo, uma quadra e uma piscina, onde não vi ninguém.

Sai de lá sem sentir felicidade e fui embora recordando do meu tempo de criança, onde o meu mundo era perfeito e ria todos os dias. Lembro de quando eu me juntava com as meninas da rua de casa para brincar de fazer perfumes com as pétalas de rosa que nasciam no meu jardim. Às vezes pegávamos caramujos e brincávamos de experiências. Quando sentia cheiro de bolo, logo sabia que a minha vizinha mais tarde apareceria no muro de casa chamando a minha mãe para lhe entregar o pedaço de bolo que acabava de sair do forno. Os meus vizinhos nem batiam palma no portão, entravam e chamavam da garagem. Não tinha vergonha nenhuma de comer na casa de algum vizinho e depois voltar de barriga cheia para a casa. Quando minha mãe precisava sair, fazia um trato com alguma vizinha para cuidar de mim e dos meus irmãos e ia tranquila resolver os problemas no centro da cidade. Depois falava: – quando precisar pode deixar os seus meninos aqui que eu cuido também.

Que tempos diferentes que parecem nem fazer parte de uma só vida. Não faz tanto tempo assim, apenas 20 anos e nem consigo imaginar o que será daqui mais 20. As coisas mudam tão depressa que a minha felicidade caminha, se acostuma e se adapta com essa nova vida que às vezes me perco nela.

Não entendo se é porque estou vivenciando isso, mas o que sei, é que a minha geração está passando por sérias mudanças de tecnologias que nos cutucam por todos os lados e sei que essas mudanças ainda serão grandiosas e bastante significativas para pessoas divididas entre viver bem e viver melhor.

Fontes:
Cenário Cultural

Deixe um comentário

Arquivado em A Escritora com a Palavra, O nosso português de cada dia, Sorocaba, Teoria Literária

V Prêmio Literário Valdeck Almeida de Jesus de Poesia

REGULAMENTO – Edição 2009

1 – O Prêmio Literário Valdeck Almeida de Jesus visa estimular novas produções literárias na modalidade Poesia e é dirigido a candidatos de qualquer nacionalidade, residentes no Brasil ou no exterior, desde que seus trabalhos sejam escritos em língua portuguesa.

2 – Inscrição:

2.1 – As inscrições estão abertas até 30 de novembro de cada ano, através dos correios, no seguinte endereço:

Prêmio Literário Valdeck Almeida de Jesus, Rua Sargento Camargo, 95-A, São Caetano, CEP 40391-152, Salvador/BA (acompanhada de CD ou disquete com o material inscrito):
ou via e-mail para: valdeck2007@gmail.com

2.2 – As inscrições que não vierem com todos os arquivos (poesia, minibiografia, endereço completo, com CEP) em serão automaticamente desclassificadas. Serão desclassificadas, também, as inscrições via e-mail, cujos arquivos anexados não vierem numa versão mais recente do Word.

3 – A inscrição se dá com o envio de 01 (um) poema, inédito ou não, com até 20 (vinte) linhas, versando sobre qualquer tema, e mais 5 (cinco) linhas de biografia, em fonte Times New Roman, tamanho 12, alinhada pela esquerda. No mesmo arquivo o autor deve enviar seu nome completo (não há necessidade de pseudônimo), endereço completo com CEP e fones de contato.

O autor pode enviar mais de uma poesia, mas apenas uma poderá ser selecionada. Cada autor responderá perante a lei por plágio, cópia indevida ou outro crime relacionado ao direito autoral. Não será selecionada nenhuma poesia que faça apologia ao uso de drogas, com conteúdo racista, preconceituoso, faça propaganda política ou contenha intolerância religiosa ou de culto.

3.1 – O simples ato de se inscrever implica na concordância do autor/escritor em ceder os direitos autorais de seu poema, apenas para a primeira edição do livro. O autor que desejar adquirir exemplares do livro deverá fazê-lo diretamente com a editora ou com o organizador do prêmio. Os dez primeiros colocados receberão um exemplar do livro. Os demais classificados, a critério da organização do evento e da disponilidade de verba, poderão receber um exemplar do livro.

3.2 – A comprovação da data de postagem validará a inscrição.

Seleção:

4 – Os poemas selecionados serão publicados na antologia.

Premiação:

5 – A premiação é a publicação do poema selecionado.

6 – Os casos omissos serão decididos soberanamente pela equipe promotora.

Mais informações:
Valdeck: valdeck2007@gmail.com ou pelo fone (71) 8805 4708

Fontes:
http://www.literaturaecritica.blogspot.com/
Rol – Região OnLine

Deixe um comentário

Arquivado em Concursos em Andamento

Valdeck Almeida de Jesus (Poesias)

A Vida Pulsa

Moro no mesmo lugar
Há mais de dez anos
E todos os dias vejo
Ouço, Sinto, Respiro
Todas as manhã
Os mesmos movimentos.

Não há mais árvores
Não há mais sombras
Tampouco água corrente.
Só o canto mavioso
Das aves diurnas
Ecoa de alegria
Pelo nascer do dia.

Comemoram a chegada
Do sol que vivifica
No entanto, eu não via
Nem mesmo percebia
Que a vida mágica e frágil
Em se mostrar insistia.

Com o passar do tempo
Do alto da soberbia
Através de um olhar
A vida passando eu via
Sem que nada daquilo
Me fizesse ter alegria…
========================

Coração de Pedra

Vivi traições e mentiras,
Alegrias e tristezas.
Com você, surge no horizonte
O amor que me tira da torpeza.

Sensação boa, gratificante,
Vivifica o corpo e a alma,
Desperta o humano,
Revive o poeta.

Os versos retornam,
A sensibilidade aflora,
Quando a paixão me devora.

O amor faz rir ao triste,
Dá sorriso a quem chora
E quebra o coração de pedra.
=========================

Cicatrizes

A vida é uma sucessão
Sucessão de cicatrizes
Cicatrizes do amor
Cicatrizes da alegria
Cicatrizes da dor
Cicatrizes da euforia.
Não quero viver
Sem cicatrizes
Alegres os tristes
Quase felizes
Meus dias terão
Várias cicatrizes
========================

Deixe um comentário

Arquivado em O poeta no papel, Poesias

Valdeck Almeida De Jesus (1966)

Funcionário público federal, nasceu a 15 de fevereiro de 1966 em Jequié/BA, onde viveu até aos seis anos de idade, quando foi residir na Fazenda Turmalina (região de Itagibá/BA), onde continuou a estudar em escola pública até os 12 anos de idade. Aluno exemplar retornou a Jequié/Ba para se matricular na 5ª série do primeiro grau, em escola pública. Ingressou nas Faculdades de Enfermagem e de Letras, da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia em 1990; na Faculdade de Turismo, na Faculdade São Salvador, não concluindo os cursos. Reside em Salvador, desde fevereiro de 1993. Atualmente faz o curso de Jornalismo na Faculdade Social da Bahia.

Prêmios Literários:

– Menção Honrosa em 1989 no 1° Concurso Nacional de Poesia, promovido pelo Instituto Internacional da Poesia, de Porto Alegre/RS

– Menção Honrosa no Concurso Literário Oswald de Andrade, promovido pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, em 1990, na cidade de Jequié/BA

– Classificação no concurso literário Bahia de Todas as Letras, promovido pela Universidade Estadual de Santa Cruz, em Ilhéus/Ba, no ano de 2007, com o conto “Eu e o Word”, com nota 7 (sete)

– Classificação no concurso literário realizado pelo Sindicato dos Trabalhadores no Poder Judiciário Federal da Bahia, com a crônica “Alice”, no ano de 2007, em Salvador/BA

– Destaque no XII Concurso de Poesias, Contos e Crônicas realizado em 2007 pela ALPAS XXI, em Cruz Alta/RS com o texto “Minha paixão por livros”.

Livros publicados

“Heartache Poems. A Brazilian Gay Man Coming Out from the Closet”, iUniverse, New York, USA, 2004; poesias

“Feitiço Contra o Feiticeiro”, Scortecci, São Paulo, 2005; Livro de poesias.

“Memorial do Inferno. A Saga da Família Almeida no Jardim do Éden”, Scortecci, São Paulo, 2005;

“Memorial do Inferno. A Saga da Família Almeida no Jardim do Éden”, Giz, São Paulo, 2007;

Editor da “1ª Antologia Poética Valdeck Almeida de Jesus”, Casa do Novo Autor, São Paulo, 2006;

“Jamais Esquecerei do Brother Jean Wyllys”, Casa do Novo Autor, São Paulo, 2005;

“Poemas Que Falam”, Casa no Novo Autor, São Paulo, 2007.

“Valdeck é Prosa, Vanise é Poesia”, Câmara Brasileira do Jovem Escritor, Rio de Janeiro, 2007.

Editor da “2ª Antologia Poética Valdeck Almeida de Jesus”, Casa do Novo Autor, São Paulo, 2007;

“30 Anos de Poesia”, Câmara Brasileira do Jovem Escritor, Rio de Janeiro, 2008;

Editor da “3ª Antologia Poética Valdeck Almeida de Jesus”, Giz Editorial, São Paulo, 2008.

“Memories from Brazilian Hell: The Saga of Almeida Family in the Garden of Éden”, iUniverse, Nova York (USA), 2008.

Trabalhos Realizados e Entidades que Pertence

Expositor, como escritor independente, na Bienal do Livro da Bahia, em 2005, 2007 e 2009.

Expositor no III Corredor Literário da Paulista, de 09 a 14 de outubro de 2007, em São Paulo/SP

Participação no V Fórum Social Mundial, em Porto Alegre/RS, de 26 a 31 de janeiro de 2005;

Participação, como organizador da Mostra de Arte e Cultura, no II Congresso Estadual do Sindjufe-BA, de 01 a 03.06.2007, no Hotel Sol Bahia Atlântico, em Salvador/BA

Tem poemas publicados nos jornais de grande circulação da capital e do interior do estado da Bahia, além de jornais de Brasília/DF; Colaborador, desde 1985, do jornal A PROSA, de Brasília/DF.

Colaborador da revista cultural Art’Poesia, de Salvador, editada por Carlos Alberto Barreto, que publica poemas de autores do mundo inteiro.

Palestra na ONG Vento em Popa, no bairro Jardim Gaivotas, em São Paulo, em 2007, com o tema “Motivação através da leitura”.

Colunista dos sites http://www.zonamix.com.br, http://www.radarmix.com e http://www.portalvilas.com.br, desde março de 2006.

Membro da Federação Canadense de Poetas desde 2004.

Membro da Associação Artes e Letras (França) desde 2005.

Membro da União Brasileira de Escritores – UBE, desde março de 2006.

Colaborador do Café Literário de Camaçari/BA, evento realizado pela coordenação do PROLER – vários anos.

Participação na Feira do Livro Internacional de Paraty (FLIP), 2008.

Lançamento de três livros na Bienal Internacional de São Paulo, 2008.

Membro Correspondente da Academia de Letras de Jequié.

Participante da “Mostra Poética: Cores das Letras no Brasil”, realizado como atividade paralela do 4° Encontro Açoriano da Lusofonia,, promovido pela Sociedade dos Poetas Advogados de Santa Catarina – SPA/SC, de 31 de março a 04 de abril de 2009, na Biblioteca da Escola Secundária de Lagoa, Açores, Portugal.

Palestra e oficina de poesias na Biblioteca Comunitária do Calabar, bairro remanescente de quilombo, em Salvador/BA

Membro da Real Academia de Letras, Ordem da Confraria dos Poetas.

Fonte:
http://www.galinhapulando.com/perfil.php

Deixe um comentário

Arquivado em Bahia, Biografia

Trova XXIX

Deixe um comentário

Arquivado em Balaio de Trovas

Miguel Falabella (Saudade)

Em alguma outra vida, devemos ter feito algo de muito grave, para sentirmos tanta saudade…”

Trancar o dedo numa porta dói.
Bater com o queixo no chão dói.
Torcer o tornozelo dói.
Um tapa, um soco, um pontapé, doem.
Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim.
Mas o que mais dói é a saudade.

Saudade de um irmão que mora longe.
Saudade de uma cachoeira da infância.
Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais.
Saudade do pai que morreu, do amigo imaginário que nunca existiu.
Saudade de uma cidade.
Saudade da gente mesmo, que o tempo não perdoa.

Doem essas saudades todas.
Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama.
Saudade da pele, do cheiro, dos beijos.
Saudade da presença, e até da ausência consentida.

Você podia ficar na sala e ela no quarto, sem se verem, mas sabiam se lá.
Você podia ir para o dentista e ela para a faculdade, mas sabiam se onde.
Você podia ficar o dia sem vê la, ela o dia sem vê lo, mas sabiam se amanhã.

Contudo, quando o amor de um acaba, ou torna se menor, o outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.
Saudade é basicamente não saber. Não saber mais se ela continua fungando num ambiente mais frio.
Não saber se ele continua sem fazer a barba por causa daquela alergia.
Não saber se ela ainda usa aquela saia.
Não saber se ele foi na consulta com o dermatologista como prometeu.
Não saber se ela tem comido bem por causa daquela mania de estar sempre ocupada, se ele tem assistido às aulas de inglês, se aprendeu a entrar na Internet e encontrar a página do Diário Oficial, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua preferindo Skol, se ela continua preferindo suco, se ele continua sorrindo com aqueles olhinhos apertados, se ele continua cantando tão bem, se ela continua adorando o Mac Donald’s, se ele continua amando, se ela continua a chorar até nas comédias.

Saudade é não saber mesmo!

Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as páginas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.

Saudade é não querer saber se ela está com outro, e ao mesmo tempo querer.
É não saber se ele está feliz, e ao mesmo tempo perguntar a todos os amigos por isso…
É não querer saber se ele está mais magro, se ela está mais bela.
Saudade é nunca mais saber de quem se ama, e ainda assim doer.
Saudade é isso que senti enquanto estive escrevendo e o que você, provavelmente, está sentindo agora depois que acabou de ler.

Fontes:
Estudio Raposa

Deixe um comentário

Arquivado em O Escritor com a Palavra, O nosso português de cada dia, Teoria Literária

Natália Correia (Caravelas da Poesia)

“A DEFESA DO POETA”

Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto.

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim.

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes.

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei.

Senhores professores que pusestes
a prêmio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição.

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis.

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além.

Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa.

Sou um instantâneo das coisas
apanhadas em delito de perdão
a raiz quadrada da flor
que espalmais em apertos de mão.

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
Ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.

FIZ UM CONTO PARA ME EMBALAR

Fiz com as fadas uma aliança.
A deste conto nunca contar.
Mas como ainda sou criança
Quero a mim própria embalar.

Estavam na praia três donzelas
Como três laranjas num pomar.
Nenhuma sabia para qual delas
Cantava o príncipe do mar.

Rosas fatais, as três donzelas
A mão de espuma as desfolhou.
Nenhum soube para qual delas
O príncipe do mar cantou.

AUTO RETRATO

Espáduas brancas palpitantes:
Asas no exílio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
Para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vozes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
Embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
Presa na teia dos seus ardis.

(1955)

QUEIXA DAS ALMAS JOVENS CENSURADAS

Dão nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão nos um prêmio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam nos os crânios ermos
com as cabeleiras dos avós
para jamais nos parecermos
conosco quando estamos sós

Dão nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte.

ODE À PAZ

Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
pela branda melodia do rumor dos regatos,
Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego, dos pastos,
Pela exatidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz,
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
deixa passar a Vida!
–––––––––––––––––––––––––-
(durante o debate da Lei contra o alcoolismo)

Num país de beberrões
Em que reina o velho Baco
Se nos tiram os canjirões
Ficamos feitos num caco.

E querem os deputados
Com um ar de beatério
Que fiquemos desmamados
Quais anjos num baptistério.

Se o verde e o tinto são
As cores da nossa bandeira,
Ai, lá se vai a nação
Se acabar a bebedeira.

De abstemia não se faça
A lex neste plenário
Que o direito à vinhaça
Esse é consuetudinário.

A ALMA

Votada ao fogo obediente ao perigo
feroz do amor ser muito e o tempo pouco,
Chegas ébrio de sonho, ó estranho amigo
E eu não sei se por mim és anjo ou louco

Num beijo infindo queres morrer comigo.
Nesse extremo és sagrado e eu não te toco
Esquivo me. o teu sonho mais instigo.
Fujo te: a tua chama mais provoco.

A incêndio do teu sangue me condenas
E com ciumentas ervas te envenenas
Dizendo às nuvens que só tu me viste.

Bebendo o vinho de amantes mortos queres
Que eu seja a mais prateada das mulheres.
E de ser tão amada eu fico triste.

FALAVAM ME DE AMOR

Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,

menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.

Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.

O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.

Fonte:
Estudio da Raposa

Deixe um comentário

Arquivado em A Poetisa no Papel, Poesias, Portugal

Natália Correia (1923 – 1993)

Natália de Oliveira Correia nasceu na ilha de São Miguel – Açores, em 1923.

Veio ainda criança estudar para Lisboa, iniciando muito cedo a sua atividade literária.

Importante figura da cultura portuguesa da segunda metade do século XX, notabilizou se como poetisa, ensaísta, romancista, passando pelo teatro e investigação literária, Natália foi também uma figura destacada da luta contra o fascismo. Vários livros seus foram apreendidos pela censura, tendo sido condenada a três anos de prisão com pena suspensa, por abuso de liberdade de imprensa. Foi também deputada depois do 25 de Abril e também nesse papel foi uma figura marcante e inesquecível.

Colaborou com frequência em diversas publicações portuguesas e estrangeiras.

Faleceu em Lisboa em 1993.

A sua obra está traduzida em várias línguas.

Obras poéticas:
“Rio de Nuvens” (1947),
“Poemas” (1955),
“Dimensão Encontrada” (1957),
“Passaporte” (1958),
“Comunicação” (1959),
“Cântico do País Imerso” (1961),
“O Vinho e a Lira” (1966),
“Mátria” (1968),
“As Maçãs de Orestes” (1970),
“Mosca Iluminada” (1972),
“O Anjo do Ocidente à Entrada do Ferro” (1973),
“Poemas a Rebate” (1975),
“Epístola aos Iamitas” (1976),
“O Dilúvio e a Pomba” (1979),
“Sonetos Românticos” (1990),
“O Armistício” (1985),
“O Sol das Noites e o Luar nos Dias” (1993),
“Memória da Sombra” (1994).

Ficção:
“Anoiteceu no Bairro” (1946),
“A Madona” (1968),
“A Ilha de Circe” (1983).

Teatro:
“O Progresso de Édipo” (1957),
“O Homúnculo” (1965),
“O Encoberto” (1969),
“Erros meus, má fortuna, amor ardente” (1981),
“A Pécora” (1983).

Ensaio:
“Poesia de arte e realismo poético” (1958),
“Uma estátua para Herodes” (1974).

Obras várias:
“Descobri que era Europeia” (1951 viagens),
“Não Percas a Rosa” (1978 diário),
“A questão académica de 1907” (1962),
“Antologia da Poesia Erótica e Satírica” (1966),
“Cantares Galego Portugueses” (1970),
“Trovas de D. Dinis” (1970),
“A Mulher” (1973),
“O Surrealismo na Poesia Portuguesa” (1973),
“Antologia da Poesia Portuguesa no Período Barroco” (1982),
“A Ilha de São Nunca” (1982).

Fonte:
Estudio Raposa.

Deixe um comentário

Arquivado em Biografia, Portugal

Nicanor Pereira (Por enquanto)

Pintura de Iman Maleki
O sentimento que me move ao canto
E que, talvez, te cause algum espanto,
É o mesmo que, às vezes, me leva ao pranto,
Pelo intenso amor que te tenho tanto.

É preciso que saibas, entretanto,
Que, se por amar-te com tanto encanto,
Tendo para ti, n’alma, um só recanto,
Eu faço dos meus dias sacrossantos.

Longe de ti, então, me desencanto,
Por ora, não ter de ti o acalanto
Que me sufoca a dor em doce canto.

Mas, ao lembrar-te distante, vou ao pranto,
Na intensa saudade que sinto tanto,
De não ter-te em meus braços, por enquanto.

Deixe um comentário

Arquivado em O poeta no papel, Poesia, Sorocaba

Livros no Cenário Cultural Sorocabano

Das Gavetas
Coletânea de vários autores

O presente volume é, na verdade, o ponto de partida de um projeto literário há muito tempo acalentado por um grupo de amigos: criar em Sorocaba uma cooperativa de escritores que tire da gaveta textos inéditos por meio de publicações de baixo custo para os consumidores de poemas, crônicas, contos e romances.

Este livro é uma coletânea de crônicas dos autores:
Antônio Querino Neto
Carlos Araújo
Davi Deamatis
João Alfredo Terra Alvarenga
João Alvarenga
Luiz Antônio Terra Alvarenga
Valdecir Rocha Pinto

Escrever é saudável. Escrever bem, mais que saudável.

O escritor busca, invariavelmente, o contato com o outro. Autor algum escreve só para si.

Das Gavetas” pretende ser uma troca. Aqui, você vai encontrar autores, bons autores, que vão das minudências às reflexões mais profundas, partilhando elogios a amigos e mestres. Há até tragédia, típica de autores soturnos. Desta feita, Cristo não está chorando. Ao contrário, abre-se num largo sorriso. De satisfação. É sempre conhecer coisas boas. E o mestre gosta delas. Como você. Experimente.
Armando Oliveira Lima
=========================

Estrelas Luzindo Saudades
Sandra M. Julio

Tudo começou com a morte do meu pai…

A saudade era grande e eu não sabia bem como lidar com ela.

Comecei então a escrever, minh’alma ganhou asas e no mundo da fantasia encontrei a paz e a alegria de fazer poemas.

Assim, meus escritos ganharam um tema específico “A saudade”. Claro os conteúdos são diversos, mas ela, saudade… Uma constante. Minha paixão pela leitura, muitas vezes inspira alguns escritos, em outras apenas uma música (que é outra paixão) faz com que as letras fluam, ao sussurro de sentimentos e devaneios, criados de acordo com a melodia do momento, desabafos de amigas, um artigo de jornal, também se fazem versos.

O micro ajudou muito na escrita dos meus poemas, com ele existe uma facilidade incrível, de mudar frases, consertar erros, substituir palavras sem rasuras ou borrões. Como vocês podem imaginar, sou uma perfeccionista.

Gosto de colocar em meus poemas, de quando em quando, algumas palavras de pouco uso, fazendo assim com que as pessoas aprendam sempre um pouquinho mais, pois nossa língua é tão farta em palavras…

Minhas primeiras obras escritas em livro se deram na Antologia Roda Mundo, depois várias Antologias vieram. Douglas Lara sempre incentivando… Um grande amigo, um grande homem na cultura de nossa cidade. Através dele, conheci Sonia Orsiolli, que me incentivou a fazer um site para colocar meus poemas, aceitei a sugestão e o “Estrelas Luzindo Saudade.com.br” entrou no ar em 24/11/2004, tendo essa amiga muito querida como minha webdesigner. O próximo passo foi um livro só meu. Achei que seria legal para o primeiro livro, o mesmo nome do site.

E… Está ele aí, lançado ontem com muita alegria entre amigos.

Quando o vi prontinho em minhas mãos, as lágrimas inundaram meu rosto e minh’alma, foi uma alegria indescritível…

Entrevista para a rádio Cruzeiro FM
================================

Fonte:
Cintian Moraes, in Cenário Cultural

Deixe um comentário

Arquivado em Estante de Livros, Sorocaba

Tatuí Promove Concursos Literários para Divulgar Obra de Paulo Setúbal

Estão abertas as inscrições ao 7º Concurso Literário Paulo Setúbal. Os interessados em participar devem buscar as informações no Centro Cultural Municipal, anexo à Secretaria da Cultura, Turismo, Esporte, Lazer e Juventude, na Praça Martinho Guedes nº. 12.

As categorias do concurso literário são: “Conto”, “Crônicas” e “Poesia”, com tema livre e apresentação dos alunos que melhor se destacarem na execução desses trabalhos.

Neste ano, as inscrições poderão ser feitas no prazo de um mês, com início no dia 18 de junho e término em 18 de julho, visando resgatar a memória do escritor Paulo Setúbal, autor de obras como “Alma Cabloca”, “O Príncipe de Nassau” e “O Ouro de Cuiabá”.

O ganhador do primeiro lugar de cada modalidade receberá diploma e um prêmio no valor de R$ 800,00 em dinheiro. O segundo lugar, também levará diploma e R$ 500,00, já o terceiro lugar, será contemplado com um diploma e R$ 400,00.

Já o 8º Concurso Literatura e Artes Visuais, que tem o intuito de destacar a importância de Setúbal na literatura brasileira, levando os estudantes do ensino fundamental e ensino médio da rede municipal, estadual, e colégios particulares, a conhecerem suas renomadas obras, teve como tema escolhido este ano o livro “A Marquesa de Santos”.

No ensino fundamental, do 1º ao 5º ano, os trabalhos deverão apresentar um desenho com pintura sugerida pela leitura da obra indicada ou um trecho dela. O ensino fundamental, do 6º ao 9º ano, fará uma redação ou comentário crítico com limite máximo de duas laudas, assim como os alunos do ensino médio.

As redações deverão ser datilografadas ou digitadas em papel sulfite tamanho A4, em 04 vias e os desenhos também devem ser entregues no mesmo tipo de folha, utilizando as técnicas sugeridas por cada professor.

Para essa modalidade a premiação é a seguinte: primeiro lugar, certificado e prêmio de R$ 500,00, segundo lugar, certificado e R$ 300,00 e o terceiro lugar, receberá um certificado e R$ 200,00 em dinheiro.

Ainda será realizado o 2º Paulo Setúbal Show, uma disputa com perguntas e respostas sobre o tema deste ano, com coordenação do professor de história, Sérgio Schimidt.

Nesta segunda edição do “game”, cada escola irá escolher um estudante do 6º ou 7º ano, cujo tema do páreo, também será inspirado em “A Marquesa de Santos”, além do contexto histórico da época.

Os três participantes que obtiverem mais pontos na primeira rodada, responderão questões de múltipla escolha, até que fique somente um aluno, que será declarado o vencedor. Para o primeiro lugar, será oferecido um certificado e prêmio no valor de R$ 500,00.

Os vencedores serão divulgados pela Secretaria de Cultura no dia 31 de julho, que será a abertura oficial da 67ª. Semana Paulo Setúbal e do 183º. Aniversário de Tatuí. As pessoas interessadas podem se inscrever na própria Secretaria, de segunda à sexta-feira, das 9 às 17horas. Outras informações podem ser solicitadas através do telefone (15) 3259-3993.

Em caso de dúvidas ligue: (15) 3259-8424
site: www.tatui.sp.gov.br
e-mail: comunicacao@tatui.sp.gov.br

Fonte:
ROL – Região Online. Notícia divulgada em 18 junho 2009

Deixe um comentário

Arquivado em Concursos em Andamento, Eventos, Tatuí

Trova XXVIII

Montagem sobre Imagem de Impressões de Viagem

1 comentário

Arquivado em Balaio de Trovas, São Paulo em Trovas

Lançamento do Livro “A Brisa é Você”

Pintura de Iman Maleki
Trata-se de uma antologia de minicontos composta por 200 mininarrativas escritas por 10 autores, editada pela Araucária Cultural.

Esta coletânea teve um longo processo de elaboração, desde o feitio de cada conto ao projeto final.

Organizada por José Marins e publicada pela editora Araucária Cultural

Lançamento no dia 10 de julho, às 18 horas, na Biblioteca Pública do Paraná.

O título do livro é em homenagem a Dalton Trevisan.

Aguardamos a presença de todos!

* A brisa é você – parte da frase da ministória 52, do livro “Ah, é?”, p.42, de Dalton Trevisan.

Os autores:
Alvaro Posselt
Consolação Buzelin
Daniel Zanella
Diego Oliveira
Eumar Sicuro
Geraldo Magela Cardoso
José Marins (também organizador e editor)
Luís Ronconi
Regina Bostulim
Rodrigo Araújo
————————–

O miniconto é um gênero que surgiu na literatura latino-americana e se firmou no Brasil com Dalton Trevisan, Marina Colasanti, Marcelino Freire, João Gilberto Noll entre outros. Os dez autores de A BRISA É VOCÊ querem mostrar que aprenderam com seus mestres, e apresentam textos que vão do humor ao drama urbano, guardando sempre um efeito seja o da surpresa ou do impacto.

Dez autores, 200 minicontos, dez estilos diferentes de narrar 200 histórias. A leitura deste livro é um passeio por uma nova paisagem literária, onde realismo e fantasia se encontram nos vislumbres do miniconto”, afirma José Marins, organizador da coletânea.

Marcelo Spalding, um dos maiores estudiosos do gênero no país, autor de dissertação de mestrado sobre minicontos, é o apresentador de “A BRISA É VOCÊ”, e diz: “… construindo narrativas com personagens, conflitos, enredos capazes de fisgar o leitor e transformar brisa em ventania”.

E prossegue, registrando um toque de cada autor: “Abacaxi Dourado”, de Consolação Buzelin, e “Cãozinho cego”, de Regina Bostulim, são exemplares neste sentido: brisas que movem moinhos. E há várias formas de se fazer mover esse moinho, o humor de Alvaro Posselt em “Vestida”, e de Eumar Sicuro em “Admiração”, o coloquial de Luís Ronconi em “Barrado no baile”, a epístola de Rodrigo Araújo em “Apelo”, o lirismo de José Marins em “Pipa”. Trevisan, o grande mestre, em “Uma coisa”, de Daniel Zanella,a intertextualidade com “Kafka”, de Geraldo Magela, e com a Bíblia, em “Não roubarás”, de Diego Oliveira”.
––––––––––––––-
UM MINUTO
por Diego Oliveira

Um minuto é o que separa, dezessete andares do chão de concreto. Chama-se “Liberdade”.
Agora pense, viva, respire devagar. Pronto? Pule.

Fontes:
A Ilha
Simultaneidades
Alvaro Posselt

Deixe um comentário

Arquivado em Lançamento

Seminário de Jornalismo Literário (Maringá/PR)

Período:
6 à 8 de Outubro de 2009

Local: SESC Maringá
—————–

O evento é uma iniciativa do SESC Paraná no campo dos estudos da reportagem e da literatura de não-ficção. Entre os palestrantes: profissionais como Miguel Sanchez Neto, Domingos Pellegrini, José Carlos Fernandes, Fábio Massali e outros.

Programação

06/10/2009

19 horas
Abertura do Seminário:
– O que é jornalismo Literário?
– José Carlos Fernandes-Gazeta do Povo
– Domingos Pellegrini -escritor
– Fabio Massalli – Jornalista- O Diário

07/10/2009

19 horas
Influência de Gêneros literários no Jornalismo
– Miguel Sanchez Netto -Jornalista -Gazeta do Povo
-João Bacellar de Siqueira – Licenciado em Letras e Mestre em Teoria da Literatura – UEM
-José Henrique Rollo – UEM

14 horas

Oficina de Crônica
– Antonio Roberto De Paula- Jornalista e Escritor -Academia de Letras de Maringá.

08/10/2009

19 horas
Imprensa Literária- desafios no cotidiano das redações
-Samuel Levi Ferreira – Editor Chefe – Hoje Notícias
-Jari Mércio – Editor e jornalista – O Diario
-Danyane Rafaella Barbosa- Jornal do Povo
===============

Evento: Seminário SESC de Jornalismo Literário

Local: SESC DE MARINGÁ

Endereço: Av. Lauro Eduardo Weneck – 531 – Maringá-Pr

Data: 06, 07 e 08 de outubro de 2009

Telefones: (44) 3262-3232 ramal 2755

Será oferecida 1 oficina de crônica, com 25 vagas .

As inscrições devem ser feitas via e-mail. Ou no Sesc de Maringá – Av. Lauro Eduardo Werneck. 531 – z 7

Para receber o certificado do evento é necessário ter feito a inscrição.

Dados: nome completo, e-mail, instituição de ensino onde estuda ( se for estudante), mencionar qual oficina ou mesa redonda quer participar.

E-mail para inscrição, programação e detalhes: laidesousa@sescpr.com.br

O seminário é gratuito e aberto, mas quem deseja receber certificado deve se inscrever através do e-mail acima

VAGAS LIMITADAS

Fonte:
Laíde Cecilia de Sousa
Assistente de Atividades do SESC – Maringá

Deixe um comentário

Arquivado em Cursos, Eventos, Maringá, Seminários, SESC

Trova XXVII

Deixe um comentário

23 de junho de 2009 · 23:56

Padre Celso de Carvalho (Poesias)

A lenda dos caminhos

No sertão muitas estradas
Foram e são mal medidas,
Umas de léguas mirradas,
Outras de léguas compridas.

Para explicar-me este fato
Na volta de uma fazenda
Um homem simples do mato
Contou-me um dia esta lenda.

A medição dos caminhos
Por estes matos rasgados
Foi sempre entregue aos carinhos
De pares enamorados.

Iria o casal andando,
andando sem trégua
para abraçar-se só quando
tivesse andando uma légua.

Havia casais velhinhos,
Havia-os jovens em flor,
Sofrem, por isso, os caminhos,
Das diferenças do amor.

Casais de velhos, suspensos,
Em recordar o passado,
Deixavam trechos imensos
Sem o sinal combinado.

Os jovens, não iam avante,
vendo que a légua aprazada
estava muito distante,
marcavam outras na estrada.

Isto explica medidas
de estradas tão desiguais:
às vezes léguas compridas,
às vezes curtas demais..
———————

Soneto (*)

Beth, não tenho luneta
como você imagina
que corajosa se meta
pela morada divina.

Vejo a lua, borboleta,
no céu-jardim, ou campina,
vejo mais longe um planeta,
uma estrela pequenina…

Mas ver a Nossa Senhora,
ver o céu onde Deus mora,
ou ver os anjos de Deus…

Ver isso, Beth, somente
um coração inocente
e olhos puros com os seus.

(*) Para Maria Elisabeth Becaccini, de Curvelo.
—————————

Diamantina em Serenata

Quando a noite alinda lua
Torna as pedras cor de prata
Diamantina sai à rua
Transformada em serenata
Seresteiros indomados
Dedilhando violões
Levam música aos ouvidos
E saudade aos corações.

A seresta apaixonada
Corre as ruas do Macau
Capistrana Cavalhada
São Francisco, Burgalhau
Essas ruas serpeantes
É tão fácil entendê-las
Descem doidas por diamantes
Sobem ávidas de estrelas.

O Itambé mesmo de longe
Ouve os sons quase em surdina
Ergue as mãos azuis de monge
E abençoe Diamantina
Se de um sonho nada resta
Só saudade, só, mais nada,
Como é linda uma seresta,
Numa noite enluarada.
—-

Deixe um comentário

Arquivado em O poeta no papel, Poesias

Arthur Rimbaud (Poesias)

O BARCO ÉBRIO

Como descesse ao léu nos Rios impassíveis,
Não me sentia mais atado aos sirgadores;
Tomaram-nos por alvo os Índios irascíveis,
Depois de atá-los nus em postes multicores.

Estava indiferente às minhas equipagens,
Fossem trigo flamengo ou algodão inglês.
Quando morreu com a gente a grita dos selvagens,
Pelos Rios segui, liberto desta vez.

No iroso marulhar dessa maré revolta,
Eu, que mais lerdo fui que o cérebro de infantes,
Corria agora! e nem Penínsulas à solta
Sofreram convulsões que fossem mais triunfantes.

A borrasca abençoou minhas manhãs marítimas.
Como uma rolha andei das vagas nos lençóis
Que dizem transportar eternamente as vítimas,
Dez noites sem lembrar o olho mau dos faróis!

Mais doce que ao menino os frutos não maduros,
A água verde estranhou-se em meu madeiro, e então
De azuis manchas de vinho e vômitos escuros
Lavou-me, dispersando a fateixa e o timão.

Eis que a partir daí eu me banhei no Poema
Do Mar que, latescente e infuso de astros, traga
O verde-azul, por onde, aparição extrema
E lívida, um cadáver pensativo vaga;

Onde, tingindo em cheio a colcha azulecida,
Sob as rutilações do dia em estertor,
Maior que a inspiração, mais forte que a bebida,
Fermenta esse amargoso enrubescer do amor.

Sei de céus a estourar de relâmpagos, trombas,
Ressacas e marés; eu sei do entardecer,
Da Aurora a crepitar como um bando de pombas,
E vi alguma vez o que o homem pensou ver!

Eu vi o sol baixar, sujo de horrores místicos,
Para se iluminar de coagulações cianas,
E como um velho ator de dramas inartísticos
As ondas a rolar quais trêmulas persianas!

Sonhei com a noite verde em neves infinitas,
Beijo a subir do mar aos olhos com langores,
Toda a circulação das seivas inauditas
E a explosão auriazul dos fósforos cantores!

Segui, meses a fio, iguais a vacarias
Histéricas, a vaga a avançar os rochedos,
Sem cogitar que os pés piedosos das Marias
Pudessem forcejar a fauce aos Mares tredos!

Bati, ficai sabendo, em Flóridas perdidas
Ante os olhos em flor de feras disfarçadas
De homens! Eu vi abrir-se o arco-íris como bridas
Refreando, no horizonte, às gláucicas manadas!

E vi o fermentar de enormes charcos, ansas
Onde apodrece, nos juncais, em Leviatã!
E catadupas dágua em meio das bonanças;
Longes cataratando em golfos de titãs!

Geleiras, sóis de prata, os bráseos céus! Abrolhos
Onde encalhes fatais fervilham de esqueletos;
Serpentes colossais devoradas de piolhos
A tombar dos cipós com seus perfumes pretos!

Bem quisera mostrar às crianças as douradas
Da onda azul, peixes de ouro, esses peixes cantantes.
A espuma em flor berçou-me à saída de enseadas
E inefável o vento alçou-me por instantes.

Mártir que se cansou das zonas perigosas,
Aos soluços do mar em balouços parelhos,
Vi-o erguer para mim negra flor de ventosas
E ali fiquei qual fosse uma mulher de joelhos…

Quase ilha, a sacudir das bordas as arruaças,
E o excremento a tombar dos pássaros burlões,
Vogava a ver passar, entre as cordagens lassas,
Afogados dormindo a descer aos recuões!…

Ora eu, barco perdido entre as comas das ansas,
Jogado por tufões no éter de aves ausente,
Sem ter um Monitor ou veleiro das Hansas
Que pescasse a carcaça, ébria de água, à corrente;

Livre, a fumar, surgindo entre as brumas violetas,
Eu que rasguei os rúbeos céus qual muro hostil
Que ostentasse, iguaria invulgar aos bons poetas,
Os líquenes do sol e as excreções do anil;

Que ia, de lúnulas elétricas manchado,
Prancha doida, a arrastar hipocampos servis,
Quando o verão baixava a golpes de cajado
O céu ultramarino em árdegos funis.

Que tremia, de ouvir, a distâncias incríveis,
O cio dos Behemots e os Maelstroms suspeitos,
Eterno tecelão de azuis inamovíveis,
Da Europa eu desejava os velhos parapeitos!

Vislumbrei siderais arquipélagos! ilhas
De delirantes céus se abrindo ao vogador:
Nessas noites sem fundo é que dormes e brilhas,
Ó Milhão de aves de ouro, ó futuro Vigor? –

Certo, chorei demais! As albas são cruciantes.
Amargo é todo sol e atroz é todo luar!
Agre amor embebeu-me em torpores ebriantes:
Que minha quilha estale! e que eu jaza no mar!

Se há na Europa uma água a que eu aspire, é a mansa,
Fria e escura poça, ao crepúsculo em desmaio,
A que um menino chega e tristemente lança
Um barco frágil como a borboleta em maio.

Não posso mais, banhado em teu langor, ó vagas,
A esteira perseguir dos barcos de algodões,
Nem fender a altivez das flâmulas pressagas,
Nem vogar sob a vista horrível dos pontões.

VOGAIS

A negro, E branco, I rubro, U verde, O azul: vogais.
Explico um dia vossas origens latentes:
A, negro corpete é um pelo em moscas luzentes
Que zumbem ao redor de fedores brutais,

Golfo de sombra; E, albor de vapores e tendas,
Lanças de alto gelo, alvos reis, tremor de umbelas;
I, lacre, sangue em cuspe e rir de lábios belos
Dentro da cólera ou do torpor penitente;

U, ciclos, vibração divina em verde mar,
Paz de animais no pasto, paz desse enrugar
Alquímico na fronte de quem muito leu;

O, supremo Clarim de estranhos sons diversos,
Silêncio atravessado em Anjos e Universos;
– O Ômega, raio roxo entre esses olhos Seus!

MINHA BOÊMIA
(Fantasia)

Eu andava com punhos em bolsos rasgados;
Também meu paletó tornava-se ideal;
Andava sob o céu, Musa! e a ti leal;
Oh! lá lá! amores lindos eu tenho sonhado!

Minhas únicas calças com um grande furo.
— Pequeno Polegar sonhador, em meu curso
De rimas. Meu albergue era lá na Grande-Ursa.
— As estrelas no céu num frufru de doçura.

E as ouvia sentado à margem destas rotas,
Setembro em belas noites ao sentir as gotas
De orvalho em minha fronte, como um vinho são;

Onde, rimando em meio as sombras fantásticas,
Tal como as liras, eu arrancava os elásticos
Dos sapatos feridos, pé no coração!

AURORA — XXII (de: As iluminações)

Abracei a aurora do verão.
Nada ainda se movia à frente dos palácios. A água estava morta. Os acampamentos de sombra não abandonavam o caminho do bosque. Andei, despertando os sopros vivos e tépidos, e as pedrarias olharam, e as asas se levantaram sem ruído.
O primeiro objetivo foi, na vereda já cheia de lívidos e recentes lampejos, uma flor que me disse seu nome.
Eu ri diante da fulva queda d’água que se desgrenhava através dos abetos: no cimo prateado, reconheci a deusa.
Então, eu levantava os véus, um a um. Na alameda, agitando os braços. Pela planície, onde mostrei-a para o gato. Na grande cidade, ela fugia entre as cúpulas e campanários, e, correndo como um mendigo sobre as plataformas de mármore, eu a perseguia.
No alto do caminho, perto de um bosque de loureiros. envolvi-a com seus véus amontoados e senti um pouco seu corpo imenso. A aurora e a criança tombaram no bosque.
No despertar, era meio-dia.

Fonte:
RIMBAUD, Arthur. Poesia completa. Rio de Janeiro: Topbooks, 1995.

Deixe um comentário

Arquivado em O poeta no papel, Poesias

Jorge Luis Borges (O Outro)

O fato ocorreu no mês de fevereiro de 1969, ao norte de Boston, em Cambridge. Não o escrevi imediatamente, porque meu primeiro propósito foi esquecê-lo para não perder a razão. Agora, em 1972, penso que, se o escrevo, os outros o lerão como um conto e, com os anos, o será talvez para mim.

Sei que foi quase atroz enquanto durou e mais ainda durante as noites desveladas que o seguiram. Isto não significa que seu relato possa comover a um terceiro.

Seriam dez da manhã. Eu estava recostado em um banco, defronte ao rio Charles. A uns quinhentos metros à minha direita havia um alto edifício cujo nome nunca soube. A água cinzenta carregava grandes pedaços de gelo. Inevitavelmente, o rio fez com que eu pensasse no tempo. A milenar imagem de Heráclito. Eu havia dormido bem; minha aula da tarde anterior havia conseguido, creio, interessar aos alunos. Não havia ninguém à vista.

Senti, de repente, a impressão (que, segundo os psicólogos, corresponde aos estados de fadiga) de já ter vivido aquele momento. Na outra ponta de meu banco, alguém se havia sentado.

Teria preferido estar só, mas não quis levantar em seguida, para não me mostrar descortês. O outro se havia posto a assobiar. Foi então que ocorreu a primeira das muitas inquietações dessa manhã. O que assobiava, o que tentava assobiar (nunca fui muito entoado), era o estilo crioulo de La Tapera de Elias Regules. O estilo me reconduziu a um pátio lá desaparecido e à memória de Álvaro Mellián Lafinur, morto há muitos anos. Logo vieram as palavras. Eram as da décima do princípio. A voz não era a de Álvaro, mas queria parecer-se com a de Álvaro. Reconheci-a com horror.

Aproximei-me e disse-lhe:

– O senhor é oriental ou argentino?

– Argentino, mas desde o ano de 1914 vivo em Genebra – foi a resposta.

Houve um silêncio longo. Perguntei-lhe:

– No número dezessete da Malagnou, em frente à igreja russa?

Respondeu-me que sim.

– Neste caso – disse-lhe resolutamente – o senhor se chama Jorge Luis Borges. Eu também sou Jorge Luis Borges. Estamos em 1969, na cidade de Cambridge.

– Não – respondeu-me com a minha própria voz um pouco distante.

Ao fim de um tempo insistiu:

– Eu estou aqui em Genebra, em um banco, a alguns passos do Ródano. 0 estranho é que nos parecemos, mas o senhor é muito mais velho, com a cabeça grisalha.

Respondi:

– Posso te provar que não minto. Vou te dizer coisas que um desconhecido não pode saber. Lá em casa há uma cuia de prata com um pé de serpentes, que nosso bisavô trouxe do Peru. Há também uma bacia de prata que pendia do arção. No armário do teu quarto, há duas filas de livros. Os três volumes das Mil e Uma Noites de Lane, com gravações em aço e notas em corpo menor entre os capítulos, o dicionário latino de Quicherat, a Germania de Tácito em latim e na versão de Gordon, um Dom Quixote da casa Garnier, as Tábuas de Sangue de Rivera Indarte, o Sartor Resartus de Carlyle, uma biografia de Amiel e, escondido atrás dos demais, um livro em brochura sobre os costumes sexuais dos povos balcânicos. Não esqueci tampouco um entardecer em um primeiro andar da praça Dubourg.

– Dufour – corrigiu.

– Está bem. Dufour. Te basta, tudo isto?

– Não – respondeu. -Essas provas não provam nada. Se eu estou sonhando, é natural que eu saiba o que sei. Seu catálogo prolixo é totalmente vão.

A objeção era justa. Respondi:

– Se esta manhã e este encontro são sonhos, cada um de nós dois tem que pensar que o sonhador é ele. Talvez deixemos de sonhar, talvez não. Nossa evidente obrigação, enquanto isto, é aceitar o sonho, como aceitamos o universo e termos sido engendrados e olharmos com os olhos e respirarmos.

– E se o sonho durasse? – disse com ansiedade.

Para tranqüilizá-lo e me tranqüilizar, fingi uma serenidade que certamente eu não sentia. Disse-lhe:

– Meu sonho já durou setenta anos. Afinal de contas, ao rememorar, não há pessoa que não se encontre consigo mesma. É o que nos está, acontecendo agora, só que somos dois. Não queres saber alguma coisa de meu passado, que é o futuro que te espera?

Assentiu sem uma palavra. Prossegui, um pouco perdido:

– A mão está saudável e bem, em sua casa de Charcas y Maipú, em Buenos Aires, mas o pai morreu há uns trinta anos. Morreu do coração. Uma hemiplegia o liquidou; a mão esquerda posta sobre a mão direita era como a mão de uma criança posta sobre a mão de um gigante. Morreu com impaciência de morrer, mas sem uma queixa. Nossa avó havia morrido na mesma casa. Alguns dias antes do fim chamou-nos a todos e disse-nos: ‘”Sou uma mulher muito velha que está morrendo muito devagar. Que ninguém se perturbe por uma coisa tão comum e corrente”. Norah, tua irmã, se casou e tem dois filhos. A propósito, em casa como estão?

– Bem. O pai sempre com seus gracejos contra a fé. Ontem à noite disse que Jesus era como os gaúchos que não querem se comprometer e que, por isto, pregava através de parábolas.

Vacilou e disse:

– E o senhor?

– Não sei o número de livros que escreverás, mas sei que são demasiados. Escreverás poesias que te darão uma satisfação não partilhada e contos de índole fantástica. Darás aulas como teu pai e como tantos outros de nosso sangue.

Agradou-me que nada perguntasse sobre o fracasso ou êxito dos livros. Mudei de tom e prossegui:

– No que se refere à História… Houve outra guerra, quase entre os mesmos antagonistas. A França não tardou a capitular; a Inglaterra e a América travaram contra um ditador alemão, que se chamava Hitler, a cíclica batalha de Waterloo. Buenos Aires, ao redor de mil novecentos e quarenta e seis, engendrou outro Rosas, bastante parecido com nosso parente. Em cinqüenta e cinco, a província de Córdoba nos salvou, como antes Entre Rios. Agora, as coisas andam mal. A Rússia está se apoderando do planeta; a América, travada pela superstição da democracia, não se resolve a ser um império. Cada dia que passa nosso país está mais provinciano, Mais provinciano e mais presunçoso, como se fechasse os olhos. Não me surpreenderia se o ensino do latim fosse substituído pelo do guarani.

Notei que mal me prestava atenção. O medo elementar do impossível, e no entanto certo, o aterrorizava. Eu, que não fui pai, senti por esse pobre moço, mais íntimo que um filho da minha carne, uma onda de amor. Vi que apertava entre as mãos um livro. Perguntei-lhe o que era.

– Os possessos ou, segundo creio, Os Demônios, de Feodor Dostoiewski – me replicou não sem vaidade.

– Já o esqueci. Que tal é?

Nem bem o disse, senti que a pergunta era uma blasfêmia.

– O mestre russo – sentenciou – penetrou mais que ninguém nos labirintos da alma eslava.

Essa tentativa retórica me pareceu uma prova de que se havia acalmado.

Perguntei-lhe que outros volumes do mestre havia percorrido. Enumerou dois ou três, entre eles O Sósia.

Perguntei-lhe se, ao lê-los, distinguia bem as personagens, como no caso de Joseph Conrad, e se pensava prosseguir o exame da obra completa.

– A verdade é que não – respondeu-me com uma certa surpresa.

Perguntei-lhe o que estava escrevendo e disse que preparava um livro de versos que se chamaria Os hinos vermelhos. Também havia pensado em Os ritmos vermelhos.

– Por que não? – disse-lhe. – Podes alegar bons antecedentes. O verso azul de Rubén Darío e a canção gris de Verlaine.

Sem me fazer caso, esclareceu que seu livro contaria a fraternidade entre todos os homens. O poeta de nosso tempo não pode voltar as costas à sua época.

Fiquei pensando e perguntei-lhe se verdadeiramente se sentia irmão de todos. Por exemplo, de todos os empresários de pompas fúnebres, de todos os carteiros, de todos os escafandristas, de todos os que vivem nas casas de números pares, de todos os afônicos, etc. Disse-me que seu livro se referia à grande massa dos oprimidos e dos párias.

– Tua massa de oprimidos e párias – respondi – não é mais que uma abstração. Só os indivíduos existem, se é que existe alguém. O homem de ontem não é o homem de hoje, sentenciou algum grego. Nós dois, neste banco de Genebra ou Cambridge, somos talvez a prova.

Salvo nas severas páginas da História, os fatos memoráveis prescindem de frases memoráveis. Um homem a ponto de morrer quer se lembrar de uma gravura entrevista na infância; os soldados que estão por entrar na batalha falam do barro ou do sargento. Nossa situação era única e, francamente, não estávamos preparados. Falamos, fatalmente, de literatura; temo não haver dito outras coisas que as que costumo dizer aos jornalistas. Meu alter ego acreditava na invenção ou descobrimento de metáforas novas; eu, nas que correspondem a afinidades íntimas e notórias e que nossa imaginação já aceitou. A velhice dos homens e o acaso, os sonhos e a vida, o correr do tempo e da água. Expus-lhe esta opinião que haveria de expor em um livro anos depois.

Quase não me escutava. De repente, disse:

– Se o senhor foi eu, como explicar que tenha esquecido seu encontro com um senhor de idade que, em 1918, lhe disse que ele também era Borges?

Não havia pensado nessa dificuldade. Respondi, sem convicção:

– Talvez o fato tenha sido tão estranho que eu tenha tratado de esquecê-lo.

Aventurou uma tímida pergunta:

– Como anda sua memória?

Compreendi que, para um moço que não havia feito vinte anos, um homem de mais de setenta era quase um morto. Respondi:

– Costuma parecer-se com o esquecimento, mas ainda encontra o que lhe pedem. Estou estudando anglo-saxão e não sou o último da classe.

Nossa conversação já havia durado demais para ser a de um sonho. Uma súbita idéia me ocorreu.

– Eu posso te provar imediatamente – disse-lhe – que não estás sonhando comigo. Ouve bem este verso, que nunca leste, que eu me lembre.

Lentamente entoei o famoso verso:

L’hydre – univers tordant son corps ecaillé d’astres.

Senti seu quase temeroso estupor. Repetiu-o em voz baixa saboreando cada resplandescente palavra.

– É verdade – balbuciou – Eu não poderei nunca escrever um verso como este.

Antes, ele havia repetido com fervor, agora recordo, aquela breve peça em que Walt Whitman rememora uma noite compartilhada diante do mar em que foi realmente feliz.

– Se Whitman a cantou – observei – é porque a desejava e não aconteceu. O poema ganha se não adivinhamos que é a manifestação de um anelo. Não a história de um fato.

Ficou a me olhar.

– O senhor não o conhece – exclamou. – Whitman é incapaz de mentir.

Meio século não passa em vão. Sob nossa conversação de pessoas de leitura miscelânea e de gostos diversos, compreendi que não podíamos nos entender. Éramos demasiado diferentes e demasiado parecidos. Não podíamos nos enganar, o que torna o diálogo difícil. Cada um de nós dois era o arremedo caricaturesco do outro. A situação era anormal demais para durar muito mais tempo. Aconselhar ou discutir era inútil, porque seu inevitável destino era ser o que sou.

De repente, lembrei uma fantasia de Coleridge. Alguém sonha que atravessa o paraíso e lhe dão como prova uma flor. Ao despertar, ali esta a flor.

Ocorreu-me artifício semelhante.

– Ouve – disse-lhe -, tens algum dinheiro?

– Sim me replicou. – Tenho uns vinte francos. Esta noite convidei Simón Jichlinski ao Crocodile.

– Diz a Simón que exercerá a medicina em Carouge e que fará muito bem… agora, me dá uma de tua moedas.

Tirou três escudos de poeta e umas peças menores. Sem compreender, me ofereceu um dos primeiros.

Eu lhe estendi uma dessas imprudentes notas americanas que têm valor muito diferente e o mesmo tamanho. Examinou-a com avidez.

– Não pode ser – gritou. – Leva a data de mil novecentos e sessenta e quatro.

(Meses depois, alguém me disse que as notas de banco não levam data.)

– Tudo isto é um milagre – conseguiu dizer – e o milagroso dá medo. Os que foram testemunhas da ressurreição de Lázaro terão ficado horrorizados.

Não mudamos nada, pensei. Sempre as referências livrescas.

Fez a nota em pedaços e guardou a moeda.

Eu resolvi lançá-la ao rio. O arco do escudo de praia perdendo-se no rio de prata teria conferido à minha história uma imagem vivida, mas a sorte não quis assim.

Respondi que o sobrenatural, se ocorre duas vezes, deixa de ser aterrador. Propus a ele que nos víssemos no dia seguinte, nesse mesmo banco que está em dois tempos e dois lugares.

Assentiu logo e me disse, sem olhar o relógio, que já era tarde. Os dois mentíamos e cada qual sabia que seu interlocutor estava mentindo. Disse-lhe que viriam me buscar.

– Buscá-lo? – interrogou.

– Sim. Quando alcançares a minha idade, terás perdido a visão quase por completo. Verás a cor amarela, sombras e luzes. Não te preocupes. A cegueira gradual não é uma coisa trágica. É como um lento entardecer de verão.

Despedimo-nos sem nos termos tocado. No dia seguinte, não fui. O outro tampouco terá ido. Meditei muito sobe esse encontro, que não contei a ninguém. Creio ter descoberto a chave. O encontro foi real, mas o outro conversou comigo em um sonho e foi assim que pude me esquecer. Eu conversei com ele na vigília e a lembrança ainda me atormenta.

O outro me sonhou, mas não me sonhou rigorosamente. Sonhou, agora o entendo, a impossível data no dólar.

Fonte:
BORGES, Jorge Luis. O Livro de Areia. Porto Alegre: Editora Globo, 1978.

Deixe um comentário

Arquivado em Contos, O Escritor com a Palavra

Trova XXVI

Deixe um comentário

22 de junho de 2009 · 23:21

Antonio Brás Constante (Mamãe, a Professora Sumiu!)

Quantas pessoas já não pensaram em como seria bom conciliar o prazer de continuar na cama quentinha com o dever de estudar. Pois essas pessoas provavelmente terão suas preces atendidas, visto que é cada vez mais forte o movimento em prol do estudo à distância. Uma nova forma de aprendizado que promete trazer vantagens (mas também desvantagens), algumas delas descritas neste texto.

Podemos imaginar que mudarão as desculpas para matar a aula: “não estava sem guarda-chuva”, “estava sem conexão”. O aluno não poderá mais dar uma maçã para professora, mas poderá enviar uma mensagem para seu avaliador, cheia de anjinhos, florzinhas e até fotos de maçã. Também não terá mais graça arremessar bolinhas de papel (atirar em quem?).

Os trotes escolares serão resumidos a algum tipo de vírus baixado no computador do calouro. Você não terá mais o endereço residencial de seus colegas, terá apenas o eletrônico, e eles serão reconhecidos pelo IP que usam. Todos os alunos terão carinhas de “smales” e não haverá mais problemas de distância na educação (poderá dizer para sua mãe que seu coleginha é japonês, e ele será mesmo, inclusive vivendo no Japão), porém, toda esta tecnologia tornará mais distantes as relações no mundo real (este lugar quase obsoleto, onde ainda vivemos).

Os ruídos de comunicação darão lugar aos erros de comunicação. Ao invés de não entender seu professor, você não entenderá o software educacional instalado em seu computador, achando que ele não gosta de você, e criando comunidades no orkut do tipo: “Eu odeio meu computador”. As discussões acaloradas de outrora, onde todos falavam e ninguém escutava, serão substituídas por discussões acaloradas em chats onde todos escrevem, mas ninguém lê.

As diferenças entre as classes sociais (ricos e pobres) não serão mais evidenciadas pelas roupas de grife (você poderá assistir às aulas pelado, que ninguém notará), e carros importados, mas poderão ser observadas pela potência de processamento e armazenamento das máquinas, e a velocidade da banda larga de cada um. Para que este tipo de ensino possa contemplar também públicos de renda mais baixa, haverá planos sociais de inclusão disponibilizados em lan houses.

Seu histórico escolar passará a ser chamado de log, registrando todos os seus erros em uma memória tão boa quanto à de qualquer esposa. A televisão que era, em muitos casos, utilizada como forma de entretenimento e aprendizado de inúmeras crianças quando não estavam estudando, terá no computador um reforço desta técnica, criando indivíduos literalmente através de caixas pseudo-educativas.

Enfim, a figura ultrapassada do professor fatalmente será substituída por uma programação de ensino e avaliação à distância, produzida por uma equipe técnica e pedagógica, que encapsulará tudo de forma fria e competente, parametrizando resultados e potencializando rendimentos, visando tornar seu público-alvo uma perfeita máquina biológica de aprendizado, mais eficiente e mais… Humana?

Fontes:
Recanto das Letras
Imagem = Clube Caiubi

Deixe um comentário

Arquivado em Cronicas - Contos, Magia das Palavras, O Escritor com a Palavra

Antonio Brás Constante (A Partida Do Homem Mais Veloz Do Mundo)

Ele era considerado o melhor maratonista do mundo. Possuía diversos títulos, medalhas e troféus. Nunca havia perdido uma única corrida. Era tão veloz que não havia adversários que pudessem acompanha-lo. Foi ficando arrogante. Não encontrava desafios dignos de sua pessoa.

Dentre os prêmios conquistados, ganhou uma viagem para uma cidadezinha do interior. A cidade era localizada em um país distante, com hospedagem em um hotel de luxo, utilizado para conferencias internacionais. Como estava cansado e entediado, resolveu aceitar a viagem.

Ao chegar ao vilarejo da cidade onde se localizava o hotel, ficou sabendo que aquele lugar era rodeado por crenças e superstições. Um lugar místico. “Um monte de bobagens” ele pensou, pois não acreditava em nada.

Após se registrar no hotel, foi direto para seu quarto. Jogou-se na cama, percebendo que havia deitado em cima de alguma coisa. Era um panfleto sobre uma corrida que iria acontecer na cidade. Um sorriso cruel preencheu seus lábios, ao imaginar a humilhação que poderia causar aqueles caipiras se resolvesse participar da corrida e deixar todos os demais competidores a quilômetros de distância. Pensou que seria divertido aquilo e resolveu se inscrever.

O evento era patrocinado pelo Hotel. Todos os competidores receberam um abrigo com capuz para corrida, com o número do corredor na frente e o nome do hotel escrito nas costas.

A corrida seria por dentro de uma trilha que cruzava a floresta. Não haveria risco de se perderem, pois era uma única trilha, bastante regular e ampla o suficiente para comportar os corredores.

Dada a largada ele foi passando com facilidade por todos os outros atletas, até conseguir ficar a uma boa distância deles, sumindo por entre as árvores. A floresta era fechada. Um ar suave penetrava por suas narinas enquanto ia vencendo os quilômetros do trajeto.

Foi então que percebeu alguém correndo na sua frente. Ele de inicio não acreditou. Achara que já havia passado por todos os demais competidores. Aquele corredor devia ter entrado na competição em alguma parte do caminho, achando que assim poderia levar vantagem sobre os outros. Isto até seria possível se ele não fosse um dos competidores. Passaria pelo trapaceiro e no final da corrida avisaria os organizadores sobre o caso.

O homem a sua frente era muito veloz. Por mais que aumentasse seu ritmo não conseguia alcança-lo. Aquele corredor era incrível. Nunca tinha visto alguém correr tão rápido, conseguindo se manter à frente dele por tanto tempo. O corredor misterioso só poderia estar drogado para se manter correndo tão rápido. Mas sua determinação era mais forte. Foi forçando suas passadas, e aos poucos se aproximando do outro corredor. O coração se acelerando com o esforço. O suor escorrendo pelo seu rosto.

Começou a escutar passos atrás de si. Seria outro corredor? Sim, e era alguém que ia se aproximando dele aos poucos. Que loucura. Se não bastasse ter encontrado um corredor tão rápido quanto ele, agora aparecia outro tentando ultrapassa-lo.

A floresta passou a ficar ainda mais escura e assustadora. Um calafrio percorreu todo seu corpo, sinalizando o medo de encontrar alguém melhor do que ele. De perder sua fama de invencível. De ser derrotado por meros camponeses de um lugarejo perdido no mapa.

Não poderia aceitar aquela humilhação. Ele venceria aquela competição a qualquer custo. Já estava a poucos metros do homem a sua frente. Infelizmente sentia a aproximação do outro nas suas costas ensopadas de suor.

O ar parecia estar faltando em seus pulmões. O excesso de esforço trazendo cãibras nas suas pernas. Dores nas costelas. O suor aflorando como uma vertente que escorria por todo seu corpo.

A cada passada a distância diminuía, e os três mais próximos ficavam. A visão passou a ficar embaçada. O coração parecia querer explodir em seu peito. Não podia parar. Tinha que vencer.

Já estava tão perto que quase podia ver o rosto do outro corredor. Intensificou ainda mais seu ritmo. Mas, por incrível que pareça quando ele fazia isto os outros dois faziam o mesmo. Quase como se lessem seus pensamentos.

A luta do homem contra seus limites estava sendo travada a cada momento. Nunca em todas as suas outras disputas havia corrido tão rápido. Parecia voar pelo caminho. A distância do primeiro corredor era agora tão pequena que podia toca-lo com o braço se assim desejasse e foi o que tentou fazer.

Ao longe se podia vislumbrar o final do percurso e os sons distantes das pessoas que gritavam em torcida. Esticou o braço e pousou a mão no competidor que seguia em primeiro lugar. Já se encontrava praticamente ao seu lado. Foi neste momento que também sentiu algo em seu ombro. Por reflexo se virou. Mas ainda pôde ver de relance o rosto do homem na sua frente, para enfim enxergar o homem atrás de si que também se virava e ao lado dele havia outros.

Seus olhos se arregalaram de horror ao ver sua própria face nos rostos daqueles homens, como se estivesse em uma sala de espelhos. O coração falhou. O ar abandonou de vez seus pulmões. Suas passadas, porém continuaram. A floresta se abriu. Tudo girava ao seu redor. Sentiu a faixa da linha de chegada rasgar em contato com seu peito.

Caiu no chão. Aos poucos foi perdendo a consciência. Já quase desmaiado, escutou passos de pessoas correndo ao seu encontro. Sua vista escureceu. A respiração parou.

Ele morreu, mas entrou para a história, por ter batido seu próprio recorde, um recorde praticamente impossível de se vencer. Ganhou de si mesmo, consagrando-se o homem mais veloz do mundo. O preço da vitória, porém, foi alto, já que para ganhar de si mesmo, teve que perder a vida…

Fonte:
Recanto das Letras

Deixe um comentário

Arquivado em Contos, O Escritor com a Palavra

VI Concurso Rubem Braga de Crônicas da Academia Cachoeirense de Letras

Nota:
O Presidente da Academia Cachoeirense de Letras, no uso de suas atribuições, FAZ SABER aos interessados que foi prorrogado, até o dia 30 de junho de 2009, o prazo de entrega dos trabalhos dos candidatos ao VI CONCURSO RUBEM BRAGA DE CRÔNICAS.
––––––––––––––––-

A Academia Cachoeirense de Letras (ACL) promove o VI CONCURSO RUBEM BRAGA DE CRÔNICAS, em nível nacional, com o objetivo de incentivar e divulgar a produção literária, e, principalmente, despertar o gosto pela linguagem escrita, em prosa, de acordo com o seguinte

REGULAMENTO:

1.
O tema é de livre escolha, podendo cada concorrente inscrever até 2 (dois) trabalhos inéditos, separadamente, datilografados ou digitados, em 3 (três) vias e em espaço 2 (dois), vedada a participação dos membros efetivos da ACL.

2.
Com os trabalhos deverá seguir um envelope menor lacrado, constando, em sua parte externa, o título da obra e o pseudônimo; e, na parte interna, uma ficha de inscrição do autor, contendo: nome completo, pseudônimo, título da obra, endereço (com CEP), número de documento de identidade, data do nascimento, telefone para contato (com DDD) e e-mail (se houver).

3.
A remessa dos trabalhos, sem qualquer identificação, deverá ser feita para: Academia Cachoeirense de Letras – VI CONCURSO RUBEM BRAGA DE CRÔNICAS – Rua Cel. Francisco Braga, 71 – Sala 1101 – Ed. Itapuã – Centro – CEP 29300-220 – Cachoeiro de Itapemirim (ES), valendo o carimbo postal como data de inscrição.

4.
O prazo de entrega terminará no dia 30 de junho, correspondendo à inscrição a simples remessa ou entrega dos trabalhos, ficando implícita a concordância dos candidatos às disposições deste Regulamento, sendo os casos omissos resolvidos pela Diretoria da ACL, cujas decisões serão irrecorríveis.

5.
As crônicas serão julgadas por uma Comissão constituída por Membros Efetivos da Academia ou intelectuais por ela indicados, desde que não tenham participado do Concurso, não havendo, em nenhuma hipótese, devolução dos trabalhos remetidos, reservando-se a Academia o direito de não conceder as premiações anunciadas, caso não sejam as crônicas examinadas merecedoras de tais distinções.

6.
Havendo 2 (dois) trabalhos do mesmo candidato, se ambos forem classificados, só será considerado o que obtiver a maior nota.

7.
Na classificação geral, se houver empate, prevalecerá o trabalho do concorrente mais idoso.

8.
Os 3 (três) melhores concorrentes receberão, em sessão solene da Academia, em dia, horário e local a serem definidos, além de medalhas e diplomas, prêmios em dinheiro, que são os seguintes:
1º lugar – R$ 800,00 (oitocentos reais);
2º lugar – R$ 600,00 (seiscentos reais);
3º lugar – R$ 400,00 (quatrocentos reais),
sendo os vencedores avisados com antecedência, podendo a Academia publicar os melhores trabalhos, com a citação do nome do autor.

SOLIMAR SOARES DA SILVA
Presidente da Academia Cachoeirense de Letras

Fonte:
Academia Cachoeirense de Letras

Deixe um comentário

Arquivado em Concursos em Andamento

Melhorando seu Vocabulário (2)

As palavras destacadas estão negritadas. Tente entender o significado antes de obter as respostas, clicando Aqui.
=======================
A parte 1 você encontra em http://singrandohorizontes.blogspot.com/2009/06/melhorando-seu-vocabulario-1.html

Continuaremos estudando a poesia Monólogo de uma Sombra, de Augusto dos Anjos, em seu livro Eu e Outras Poesias:

MONÓLOGO DE UMA SOMBRA

Aí vem sujo, a coçar chagas plebéias,
Trazendo no deserto das idéias
O desespero endêmico do inferno,
Com a cara hirta, tatuada de fuligens
Esse mineiro doido das origens,
Que se chama o Filósofo Moderno!

Quis compreender, quebrando estéreis normas,
A vida fenomênica das Formas,
Que, iguais a fogos passageiros, luzem…
E apenas encontrou na idéia gasta,
O horror dessa mecânica nefasta,
A que todas as coisas se reduzem!

E hão de achá-lo, amanhã, bestas agrestes,
Sobre a esteira sarcófaga das pestes
A mostrar, já nos últimos momentos,
Como quem se submete a uma charqueada,
Ao clarão tropical da luz danada,
O espólio dos seus dedos peçonhentos.

Tal a finalidade dos estames!
Mas ele viverá, rotos os liames
Dessa estranguladora lei que aperta
Todos os agregados perecíveis,
Nas eterizações indefiníveis
Da energia intra-atômica liberta!

Será calor, causa ubíqua de gozo,
Raio X, magnetismo misterioso,
Quimiotaxia, ondulação aérea,
Fonte de repulsões e de prazeres,
Sonoridade potencial dos seres,
Estrangulada dentro da matéria!

E o que ele foi: clavículas, abdômen,
O coração, a boca, em síntese, o Homem,
– Engrenagem de vísceras vulgares –
Os dedos carregados de peçonha,
Tudo coube na lógica medonha
Dos apodrecimentos musculares!

A desarrumação dos intestinos
Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos
Dentro daquela massa que o húmus come,
Numa glutoneria hedionda, brincam,
Como as cadelas que as dentuças trincam
No espasmo fisiológico da fome.

==============================
Continua…
==============================

Deixe um comentário

Arquivado em Estudos, Vocabulário

Dicionário do Folclore (Letra O)

OBÁ. Orixá nagô da macumba carioca. Obá é a mulher de Agodô.

OBATALÁ. É o maior dos orixás iorubanos. Veja ORIXÁ.

OBRA-DE-SANTA-INGRÁCIA. Diz-se quando um trabalho nunca acaba, nunca chega ao fim.

O-CÃO-CHUPANDO-MANGA. Na linguagem que o povo usa, no seu dia-a-dia, a expressão o-cão-chupando-manga é usada quando a pessoa é boa, é bamba em determinado assunto (em informática, José é o-cão-chupando-manga), valente, determinado, inteligente.

OJÁ. É um fetiche (objeto animado – com movimentos, ou inanimado – sem movimentos próprios, feito pelo homem ou produzido pela natureza, ao qual se atribui poder sobrenatural e se presta culto, se venera) do candomblé, que consta de uma faixa ornada de conchas do mar e contas.

OLHADO. Veja MAU-OLHADO.

OLHAR-DE-CABRA-MORTA ou DE-PEIXE-MORTO. Diz-se das pessoas que têm o olhar inexpressivo, perdido no espaço, no mundo do sonho, fora da realidade.

OLHAR-PARA-TRÁS. O ato de olhar-para-trás é uma das tradições religiosas mantidas no populário brasileiro. Quem olha para trás, viajando só, principalmente à noite, fica assombrado e com medo. Dizem os caçadores que a onça mata a pessoa que, ao caminhar na mata, olha para trás. Os noivos, quando vão saindo da igreja, acompanhados dos padrinhos e convidados não devem olhar para trás. A Bíblia diz que a mulher de Ló, porque olhou para trás, foi transformada em uma estátua de sal. Quando se atira o primeiro dente de leite no telhado, não se deve olhar para trás. Quando uma moça passa por um rapaz e olha para trás, para ele, diz-se que está quebrando-o-catolé.

OLHO-DE-SECA-PIMENTA. Diz-se de quem tem o poder de botar mau-olhado nas pessoas, nos animais, nas coisas. As pessoas adoecem, os animais morrem, as plantas murcham.

OLHO-GRANDE. Olho que irradia malefício, ruindade, infelicidade, tudo de ruim que possa acontecer a uma pessoa. Há pessoas que têm esse poder que faz com que os casamentos se desfaçam, os negócios não dêem certo, etc. Quem tem olho-grande tem mau-olhado.

OLHOS. Que os olhos sejam as janelas da alma, ninguém tenha a menor dúvida porque é olhando bem os olhos de uma pessoa que podemos saber se ela é boa ou má, romântica ou sensual, pura ou pecaminosa, sincera ou falsa. É que os olhos sempre deixam transparecer o mundo de sentimentos, defeitos e qualidades que moram dentro de cada um de nós. Quando estamos preocupados ou angustiados, falando uma verdade ou dizendo uma mentira, quando somos dominados por uma emoção qualquer, os nossos olhos são capazes de revelar tudo quanto sentimos com uma exatidão que a ciência ainda não conseguiu explicar. Até mesmo a própria cor dos olhos pode qualificar as pessoas. Dizem que os ciumentos têm olhos azuis. As pessoas sinceras, leais, costumam ter olhos castanhos. Têm olhos verdes as pessoas capazes de enganar, assegura a sabedoria popular através de um antigo e muito conhecido fado português. Os olhos pretos são misteriosos, difíceis; guardam muito, escondem a alma de seus donos. E o que dizer, então, da força que certas pessoas têm nos olhos, força capaz de fenecer as flores, adoecer a saúde, entristecer a alegria e até mesmo de matar pessoas, animais e plantas? São pessoas que têm mau-olhado e, através de seus olhos de seca-pimenta, olhos maus, invejosos, podem até mesmo fazer o mal, espalhando tristeza, gerando preocupações de toda natureza. Os olhos também participam da linguagem popular. Tanto é assim que botar no olho da rua é mandar alguém embora, expulsar. Ir de olhos fechados, é conhecer bem o caminho sem precisar de guia. Com um olho no padre e outro na missa é prestar atenção a tudo, sem perder nenhum detalhe do que está sendo observado. Ter olhos de cabra morta diz-se das pessoas de olhar lânguido, triste, sem expressão. Ter sangue no olho é qualidade de quem é valente, esperto, de quem não tem medo de nada. Com o olho no caminho fica quem está esperando alguém com certa ansiedade. Ter os olhos maiores do que a barriga é a qualificação do guloso, cuja vontade de comer é maior do que o tamanho da fome. Ter o olho grande exprime o desejo incontrolável de certas pessoas. Estar de olho, é estar atenciosamente observando algo. Dever os olhos da cara é a situação de quem está devendo muito, devendo até os cabelos da cabeça. Num abrir e fechar de olhos, o que é feito com a maior rapidez possível. Botar areia nos olhos, é ato de quem usa de subterfúgio para esconder a verdade. Custar os olhos da cara, diz-se de tudo que está muito caro, caro demais. Ter olhos de peixe morto é qualidade de quem tem o olhar parado, perdido na distância, como se não tivesse vida. Olhos pidões são olhos de quem suplica, de quem pede sem usar palavras, sem falar. Olhos de pitomba são os olhos pulados, salientes. Ter ou Estar de olho vivo, significa perspicácia de seu dono. Pinicar o olho, é piscar o olho, dar um sinal, namorar à antiga. Quando se faz alguma coisa em pouco espaço de tempo, o que se fez foi feito enquanto o Diabo esfregou um olho. Arriscar um olho, é aventurar pra ver se algo dá certo. Abrir os olhos, além de ser uma advertência é também nascer para a vida, para o mundo. Fechar os olhos é morrer para o mundo e nascer para a Eternidade.

OMALÁ. O conjunto de alimentos votivos destinados ao orixá. Cada orixá tem seu omalá. O omalá de Ibeji é composto de caruru, acaçá, acarajé, abará e farofa de azeite-de-dendê.

O-MAR-NÃO-ESTÁ-PARA-PEIXE. Expressão usada para se dizer que nada está bom, que as coisas não andam boas, que não é o momento oportuno para as coisas serem feitas.

ONÇA. 1. Nome que o povo dá às várias espécies do mamífero carnívoro do gênero felino, entre as quais a onça pintada, a suçuarana, a preta. 2. A onça participa bastante da linguagem popular: a) No tempo da onça – tempo muito antigo; b) Espécie de jogo em tabuleiro como o de damas, representando as pedras a onça e um certo número de cachorros, ganhando a partida quem conseguir encurralar a onça na furna formada por um triângulo com a base para cima; c) Andar-na-onça, diz-se de quem está sem dinheiro, liso; d) Comer-a-onça é comer devagar, aos pouquinhos; e) Amigo-da-onça é o amigo falso, importuno, inconveniente.

ONDE-O-DIABO-PERDEU-A-BOTA. Lugar ermo, distante, desconhecido. Igual à expressão nos-cafundós-de-judas, onde-o-vento-faz-a-curva.

ONDE-O-VENTO-FAZ-A-CURVA. O mesmo que ONDE-O-DIABO-PERDEU-A-BOTA.

ONOFRE, Santo. É um santo muito popular no Brasil. O povo acredita que Santo Onofre guarda a despensa, o guarda-comida e todo e qualquer lugar que tenha alimento. É, assim, o padroeiro da fartura.

OS-PÉS-DA-BESTA. Diz-se da pessoa danada, inteligente, o-cão-chupando-manga, que faz tudo bem feito.

O-QUE-É-BOM-PRA-TOSSE. Revidar; dar um corretivo; tomar uma medida em represália a uma afronta sofrida, é mostrar o-que-é-bom-pra-tosse.

ORAÇÃO. Orar é conversar com Deus e os santos, pedindo-lhes saúde, emprego, chuva, etc. A oração-forte (amuleto ou talismã), guardada num saquinho, lida ou rezada todas as noites antes de dormir, tem o poder de proteger a pessoa que a conduz contra as doenças, os maus negócios, tudo de ruim que possa acontecer na vida de uma pessoa.

ORELHA. Era costume dos guerreiros antigos cortar as orelhas dos inimigos abatidos em combate e presenteá-las ao seu chefe, ao seu rei, como prova de coragem e de habilidade na arte de guerrear. No alto Sertão brasileiro, costumava-se cortar as orelhas dos ladrões, costume que esteve em uso até a primeira década do século XX. Ainda hoje muitos pais puxam as orelhas de seus filhos, como castigo, quando fazem coisas erradas. Puxar as orelhas de alguém era fazer com que as pessoas se lembrassem das coisas, de vez que as orelhas eram consagradas à deusa Memória, da mitologia greco-romana. E quando na pessoa a orelha direita arder é porque estão falando de bem do dono da orelha; mas, se a orelha que estiver ardendo for a esquerda, é porque estão falando de mal. Estar a pessoa de orelha em pé, diz-se da pessoa que está atenta, vigilante, desconfiada. Torcer-a-orelha-e-não-sair-sangue diz-se da pessoa arrependida do que fez.

ÓRIO. No rito jeje-nagô é o sacrifício de animais para que se possa conseguir a benevolência divina.

ORIXÁ. Simbolizando as forças naturais, os orixás são divindades da religião iorubana. Os orixás moram nas costas africanas e, atraídos pelos cântico e ritmo dos tambores em sua honra, eles se encarnam e se apossam de seus médiuns, cavalos, intérpretes, tomando o aspecto que tiveram na terra.

OVELHA-NEGRA. Dá-se o nome de ovelha-negra ao filho de uma família diferente dos demais, e que é mau-caráter, enganador, jogador, sem palavra, mentiroso e que possui todas as más qualidades que uma pessoa possa ter.

OVO. As crendices e superstições tendo o ovo como motivo estão ligadas à fecundidade. Para se botar uma galinha para chocar seus ovos é preferível fazê-lo com a Lua em quarto crescente. Para que os ovos não gorem é bom fazer uma cruz com tinta de escrever em cada um e depois colocá-los no ninho, dizendo: – “Nas horas de Deus,/ Por São Salvador,/ Nasçam todos fêmeas/ E um só galador “. Depois de nascerem os pintos é bom queimar as cascas dos ovos. É bom colocar as cascas dos ovos na extremidade das varas das cercas, para combater o mau-olhado. Quando muita gente enche um teatro, um campo de futebol, o povo diz: “Está cheio que só um ovo!” Entre os bons bebedores, corre a seguinte expressão: – “Todo mundo bebe. Menos o sino, que tem a boca para baixo e o ovo, que já está cheio“.

OVOS-DE-PÁSCOA. Nas grandes cidades do Sul, a partir de 1920, começaram a aparecer, vindos de Paris, os ovos-de-páscoa. Eles foram popularizando-se como um hábito de gente rica. Os ovos-de-páscoa tiveram a seguinte origem: No século XIII, os estudantes da Universidade de Paris iam cantar laudes na porta da catedral e, depois, coletavam presentes de ovos que eram distribuídos aos amigos, vizinhos e parentes, depois de tingidos de azul e vermelho. Durante a Páscoa as crianças ficam com a incumbência de procurar ovos-de-páscoa feitos de chocolate, escondidos nos mais diferentes lugares da casa. É um costume recente.

OXALÁ. Entidade andrógina, Oxalá é o maior dos orixás e de maior tradição religiosa na Bahia. Oxalá, de caráter bissexual, simboliza as energias produtivas da natureza.

OXENTE. Interjeição designativa de admiração, de desdém, de desprezo: – “Oxente, não está vendo que o que você quer é uma coisa impossível?” Deve ser corruptela (forma popular) de ó gente!

OXÓSSI. É o orixá da caça e dos caçadores, e tem, na quinta-feira, o seu dia. O fetiche que representa Oxóssi, no peji, é um arco com uma flecha, uma frigideira de barro e uma pedra. Suas insígnias são: rabo de boi, polvarinho e o capanga de Oxóssi, reunião das coisas usadas por um caçador, como espingarda, bucha, vareta, bornal, etc. As filhas de Oxóssi têm as vestimentas de cor verde e amarelo, usam pulseiras de bronze e colares de contas verde-branco nos candomblés bantos e azul-claro nos nagôs. Os animais votivos são o galo e o carneiro. Seu alimento é o achochô, feito de milho.

OXUM. Oxum é o orixá das fontes, dos rios, deusa do rio Oxum, na África, égide das águas doces, enquanto que Iemanjá é das águas salgadas e Ananburucu, Nanburucu ou Nanâ é orixá da chuva. Oxum é filha de Iemanjá, casada com seu irmão Xangô. Seu fetiche é uma pedra marinha ou um seixo polido. Sua insígnia é um leque de latão (o abadê), tendo uma estrela branca no centro ou uma sereia. O Omalá de Oxum é a tainha, a cobra, a galinha e o feijão.
===================
O Dicionário completo pode ser obtido em http://sites.google.com/site/pavilhaoliterario/dicionario-de-folclore
============================
Fontes:
LÓSSIO, Rúbia. Dicionário de Folclore para Estudantes. Ed. Fundação Joaquim Nabuco
Imagem = http://www.terracapixaba.com.br/

Deixe um comentário

Arquivado em Folclore

Palavras e Expressões mais Usuais do Latim e de de outras linguas) Letra J-L

jam satis est
Latim: Já é bastante: Intrigaram, desonraram, caluniaram; agora, jam satis est.

Jesus autem tacebat
Latim: Jesus porém se calava. Refere-se ao episódio evangélico em que Jesus permaneceu em silêncio enquanto seus inimigos o acusavam.

jeu de mots
Francês: Jogo de palavras; trocadilho.

joco remoto
Latim: Fora de brincadeira; falando sério.

John Bull
Inglês: João Touro. Expressão caricatural por que é designado o povo inglês.

judex damnatur, ubi nocens absolvitur
Latim: O juiz é condenado quando o culpado é absolvido.

jurare in verba magistri
Latim: Jurar nas palavras do mestre. Horácio em suas epístolas refere-se aos alunos que aceitam sem discussão a opinião do professor. V magister dixit.

jure et facto
Latim: De direito e de fato.

juris et de jure
Latim Direito: De direito e por direito. Estabelecido por lei e considerado por esta como verdade.

juris tantum
Latim Direito: De direito somente. O que resulta do próprio direito e somente a ele pertence.

jus agendi
Latim Direito: Direito de agir, de proceder em juízo.

jus conditum
Latim Direito: Direito constituído; que está em vigor.

jus est ars boni et aequi
Latim: O direito e a arte do bem e do justo.

jus et norma loquendi
Latim: A lei é a norma da linguagem. Horácio refere-se ao uso, que ele considera fator preponderante na formação da língua.

jus gentium
Latim: Direito das Gentes. Direito aplicado aos estrangeiros, equivalente ao atual Direito Internacional.

jus privatum
Latim: Direito privado; o direito civil.

jus publicum
Latim: Direito público, isto é, das relações dos cidadãos com o Estado; direito político.

jus sanguinis
Latim: Direito de sangue. Princípio que só reconhece como nacionais os filhos de pais nascidos no país.

jus soli
Latim: Direito do solo. Princípio pelo qual a pessoa tem a cidadania no país onde nasceu.

justae nuptiae
Latim: Justas núpcias. Expressão usada pelos romanos para designar o casamento legal.

labor improbus omnia vincit
Latim: O trabalho persistente vence tudo. Pensamento de Virgílio (Geórgicas, 144 e 145).

lacrima Christi
Latim: Lágrima de Cristo. Nome do vinho moscatel de vinhas cultivadas nas proximidades do Vesúvio.

la critique est aisée, l’art est difficile
Francês: A crítica é fácil, a arte difícil. Máxima falsamente atribuída a Boileau.

laisser faire, laisser passer
Francês: Deixar fazer, deixar passar. Princípio que Turgot-Gournay pretenderam aplicar à economia a ser regida por leis naturais, como a lei da oferta e da procura.

la mouche du coche
Francês: A mosca do coche. Alusão à fábula de La Fontaine “O Coche e a Mosca”, que se aplica às pessoas que aparentam muito esforço, enquanto outras trabalham realmente.

lapsus calami
Latim: Erro de pena. Diz-se do erro inadvertido de quem escreve.

lapsus linguae
Latim: Erro de língua. Diz-se das distrações que se cometem na linguagem falada.

lapsus loquendi
Latim: Um lapso ao falar. O mesmo que lapsus linguae.

lapsus scribendi
Latim: Um lapso no escrever. O mesmo que lapsus calami.

lasciate ogni speranza, voi ch’entrate
Italiano: Vós que entrais, deixai toda a esperança. Inscrição na porta do inferno da “Divina Comédia”.

last but not least
Inglês: Último mas não o menor. Emprega-se para ressalvar numa enumeração de pessoas a que foi citada por último.

latet anguis in herba
Latim: A serpente se esconde sob a erva. Frase de Virgílio que se aplica a fim de aludir a um perigo oculto.

lato sensu
Latim: No sentido lato, geral.

laudator temporis acti
Latim: Encomiasta do tempo passado. Defeito comum aos velhos, que Horácio ridiculariza na Arte Poética.

laus Deo
Latim: Louvor a Deus. Frase que alguns autores colocam no final do livro como sinal de gratidão a Deus.

laus in ore proprio vilescit
Latim: O louvor na própria boca envilece.

L. B.
Latim: Ao leitor benévolo. Palavras ou abreviatura que se antepõe ao texto de um livro, como explicação preliminar; prefácio, proêmio ou prefação.

legem habemus
Latim Direito: Temos lei. Expressão usada contra dissertações que ferem dispositivos legais.

le mieux est l’ennemi du bien
Francês: O melhor é inimigo do bom. O desejo excessivo de perfeição pode estragar o que estava bom ou tornar incômoda uma situação tolerável.

le roi est mort, vive le roi
Francês: O rei morreu, viva o rei. Frase pronunciada na proclamação dos reis em França, citada para lembrar a ingratidão humana. Os homens se esquecem facilmente de seus ídolos, tão logo eles caem, para se apegarem aos que os sucedem.

l’Etat c’est moi
Francês: O Estado sou eu. Frase de Luís XIV, da França. Nela se baseava a monarquia absoluta.

lever de rideau
Francês: Levantar de cortina. Pequena peça de um ato, no início da função teatral.

levius fit patientia quidquid corrigere est nefas
Latim: A paciência torna mais leve o que é impossível corrigir (pensamento de Horácio).

lex est quod notamus
Latim: O que escrevemos é lei; isto é, tem força de lei. (Divisa da Câmara de Notários de Paris).

libera Chiesa in libero Stato
Italiano: A Igreja livre no Estado livre. Frase atribuída a Montalembert mas popularizada pelo Conde de Cavour que por ela evidenciou os princípios liberais que o animavam, durante a campanha da unificação da Itália.

libertas quae sera tamen
Latim: Liberdade ainda que tardia. Palavras de Virgílio, tomadas como lema pelos chefes da Inconfidência Mineira e que figuram na bandeira daquele Estado.

lignum crucis
Latim: O lenho da cruz de Cristo ou relíquia da santa cruz: No lignum crucis encontraremos a paz que tanto almejamos.

litterae Bellerophontis
Latim: Carta de Belerofonte, isto é, carta perigosa e que contém sentença de morte ou coisa semelhante para quem a conduz.

litterature engagée
Francês: Literatura comprometida. Gênero literário cujo autor assume posições definidas relativamente aos problemas políticos e sociais.

loco citato
Latim: No trecho citado. Referência, num livro, a um trecho anteriormente citado.

loco dolenti
Latim: No lugar dolorido. Indicação usada na medicina antiga.

l’oeil du Maître
Francês: O Olho do Dono. Título de uma fábula de La Fontaine que inspirou diversos provérbios, entre os quais: O olho do dono engorda o cavalo.

===================================
As outras letras:
LETRA A http://singrandohorizontes.blogspot.com/2008/10/palavras-e-expresses-mais-usuais-do.html
LETRA B http://singrandohorizontes.blogspot.com/2008/10/palavras-e-expresses-mais-usuais-do_07.html
LETRA C http://singrandohorizontes.blogspot.com/2008/10/palavras-e-expresses-mais-usuais-do_21.html
LETRA D http://singrandohorizontes.blogspot.com/2008/11/palavras-e-expresses-mais-usuais-do.html
LETRA E http://singrandohorizontes.blogspot.com/2008/11/palavras-e-expresses-mais-usuais-do_28.html
LETRA F http://singrandohorizontes.blogspot.com/2009/01/palavras-e-expressoes-mais-usuais-do.html
LETRA G-H http://singrandohorizontes.blogspot.com/2009/05/palavras-e-expressoes-mais-usuais-do.html
LETRA I http://singrandohorizontes.blogspot.com/2009/06/palavras-e-expressoes-mais-usuais-do.html

Fonte:
Por Tras das Letras

Deixe um comentário

Arquivado em Curiosidades

Trova XXV

Deixe um comentário

20 de junho de 2009 · 22:32

Obras de Shakespeare no Cinema

Seus textos literários são verdadeiras obras de arte e permaneceram vivas até hoje, onde são retratadas freqüentemente pelo teatro, televisão, literatura e cinema. As principais obras do bardo inglês foram transpostas para o cinema – segundo o “Guinness Book” é o autor com maior número de adaptações para a tela (para o cinema e tv são 736 adaptações) -, principalmente “Hamlet” e “Romeu e Julieta”.

Até o cinema brasileiro já se inspirou nele, justamente com a tragédia “Romeu e Julieta“, que serviu de paródia na chanchada “Um Candango na Belacap“, de Roberto Farias, 1961; na comédia “O Casamento de Romeu e Julieta“, de Bruno Barreto, 2005, com Luana Piovani e Marco Ricca; e no drama “A Herança“, 1970, de Ozualdo Candeias.

Baseados na tragédia “Romeu e Julieta”:
Amor Sublime Amor“, de Robert Wise, 1961, com Richard Beymer e Natalie Wood;
Romeu e Julieta“, de George Cukor, 1936, com Norma Shearer e Leslie Howard;
Romeu e Julieta“, de Renato Castellani, 1954 com Laurence Harvey;
Romanoff e Julieta“, de Peter Ustinov, 1961, com Sandra Dee e John Gavin;
Romeu e Julieta“, de Franco Zeffirelli, 1968, com Olivia Hussey e Leonard Whiting;
Romeo + Juliet“, de Baz Luhrmann, 1996, com Leonardo di Caprio e Claire Danes.

Baseados na tragédia “Hamlet”:
Hamlet“, de Laurence Olivier, 1948, com Laurence Olivier;
Homem Mau Dorme Bem“, de Akira Kurosawa, 1960;
Hamlet“, de Grigori Kozintsev, 1964, com Innokenti Smoktunovski;
Hamlet“, de Bill Colleran e John Gielgud, 1964, com Richard Burton;
Hamlet“, de Tony Richardson, 1969;
Hamlet“, de Franco Zeffirelli, 1990, com Mel Gibson e Glenn Close;
Rosencrantz e Guilderstern Estão Mortos”, de Tom Stoppard, 1990, com Gary Oldman e Richard Dreyfuss;
Hamlet“, de Kenneth Branagh, 1996, com Kenneth Branagh e Kate Winslet;
Hamlet“, de Michael Almereyda, 2000, com Ethan Hawke e Julia Stiles;
O Banquete“, de Feng Xiaogang, 2006.

Baseados na comédia “A Megera Domada”:
A Megera Domada“, de 1929, com Mary Pickford e Douglas Fairbanks;
A Megera Domada“, de Franco Zeffirelli, 1967, com Elizabeth Taylor e Richard Burton;
Dá-me um Beijo“, de George Sidney, 1953, com Howard Keel e Kathryn Grayson;
Dez Coisas Que Eu Odeio em Você“, de Gil Junger, 1999, com Julia Stiles;
A Megera Domada“, de David Richards, 2005.

Baseado na comédia “A Tempestade”:
Céu Amarelo“, de William A. Wellman, 195 com Gregory Peck;
Planeta Proibido“, de Fred M. Wilcox, de 1956, com Walter Pidgeon e Anne Francis;
A Tempestade“, de Derek Jarman, 1979,
A Tempestade“, de Paul Mazursky, 1982, com Gena Rowlands e John Cassavetes;
A Última Tempestade“, de Peter Greenaway, 1991, com John Gielgud.

Baseados na tragédia “Otelo, o Mouro de Veneza”:
Othello“, 1952, de Orson Welles, 1952, com Orson Welles;
Otelo“, de Sergei Yutkevich, 1955, com Sergei Bondarchuk;
Othello“, de Oliver Parker, 1995, com Laurence Fishburne;
Jogo de Intrigas“, de Tim Blake Nelson, 2001, com Josh Artnett e Julia Stiles.

Baseados na comédia “Sonho de uma Noite de Verão”:
Sonho de uma Noite de Verão“, de William Dieterle e Max Reinhardt, 1935, com James Cagney e Olivia de Havilland;
Sonho de uma Noite de Verão“, de Woody Allen, 1982, com Woody Allen e Mia Farrow;
Sonho de uma Noite de Verão“, de Michael Hoffman, 1999, com Kevin Kline e Michelle Pfeiffer.

Baseados na tragédia “Macbeth”:
Macbeth“, de Orson Welles, 1948, com Orson Welles;
Trono Manchado de Sangue“, de Akira Kurosawa, 1957;
Macbeth“, de Roman Polanski, 1971, com Jon Finch
Homens de Respeito“, de William Reilly, 1991, com John Turturro.

Baseado na tragédia “Rei Lear”:
Rei Lear“, de Petrer Brook, 1971, com Paul Scoffield;
Rei Lear“, de Grigori Kozintsev, 1971;
Ran“, de Akira Kurosawa, 1958;
Terras Perdidas“, de Jocelyn Moorhouse, 1997, com Michelle Pfeiffer, Jessica Lange e Colin Firth.

Baseados na tragédia “Júlio César”:
Júlio César“, de David Bradley, 1950, com Charlton Heston;
Júlio César“, de Joseph L. Mankiewicz, 1953, com Marlon Brando;
Júlio César“, de Stuart Burge, 1970, com John Gielgud.

Baseados na comédia “O Mercador de Veneza”:
O Mercador de Veneza“, de John Sichel, 1973, com Laurence Olivier;
O Mercador de Veneza“, de Michael Radford, 2004, com Jeremy Irons e Al Pacino.

Baseados na comédia “Como Gostais”:
Como Gostais“, 1936, de Paul Czinner, 1936, com Laurence Olivier;
Como Quiser“, de Kenneth Branagh, 2006, com Kevin Kline.

Baseado na comédia “Muito Barulho Por Nada”:
Muito Barulho Por Nada“, de Kenneth Branagh, 1993, com Emma Thompson e Keanu Reeves.

Baseado na tragédia “Antônio e Cleópatra”:
À Sombra das Pirâmides“, de Charlton Heston, 1972, com Charlton Heston.

Baseado na comédia “Noite de Reis”:
Ela É o Cara“, de Andy Fickman, 2006, com Amanda Bynes.

Shakespeare ainda foi personagem em “Shakespeare Apaixonado“, de John Madden, 1982, interpretado por Joseph Fiennes.

Fonte:
Blog Demais

Deixe um comentário

Arquivado em Dos livros para as Telas

Antonio Brás Constante (Poesias)

Pintura de Iman Maleki (O Estudante)
O QUE É SER POETA…

É descrever o ritmo na batida do coração,
Utilizar asas imaginárias para poder sair do chão,
Soprar brisas no deserto,
Desenhar nuvens no ar,

Trilhar caminhos incertos,
Criar um brilho no olhar,
Pintar arco-íris com rimas,
Brincar com letras no papel,
É mesmo acordado poder voar pelo céu,

É bordar as estrelas no firmamento,
Salgando lágrimas,
Adoçando beijos,
Transformando o cinza em alegria,
Ser poeta é misturar sabores,
É temperar frases com um gostinho de poesia.
======================

CARTAS MOLHADAS, SEGREDOS PERDIDOS.

Quantas cartas espalhadas sobre uma cama molhada.
Do forro gotejam goteiras. Furtivas lágrimas da intensa tempestade.

Escritas borradas embaralham palavras envelopadas.
Confidencias gravadas que mancham colchas ensopadas,
desenhando marcas em tecidos de tergal.

A gota, a cama, a água imóvel no ventre do móvel.
A letra, o papel, a cumplicidade em forma de cartas,
abandonadas em um quarto de motel.

Finda a chuva, seca a cama, sobram as cartas ali deitadas.
Sumiram seus símbolos.
Perderam-se seus segredos.
Cessaram suas palavras.
Pedaços de papel inútil, vítimas de uma chuvarada.
============================

Deixe um comentário

Arquivado em O poeta no papel, Poesias