Emilia Pardo Bazán (Oito Nozes)

Ela escreveu todos os gêneros, num total de quase cinqüenta títulos, mas ficou conhecida como contista: durante anos, escrevia uma média de um conto por semana, textos que eram disputados por periódicos do Espanha e da América Hispânica. De origem aristocrata, chegou a catedrática de Literatura Comparada da Universidade de Madri, mas, por ser mulher, não conseguiu ingressar na Academia Espanhola. Junto com Sexta-feira Santa e Neto de Cid, este Oito Nozes é considerado um dos seus melhores contos, com situações cotidianas e personagens comuns de uma aldeia ao Norte da Espanha.
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Todas as noites depois do jantar o senhor das Baceleiras recebia em sua desconjuntada mesa da sala seus fiéis parceiros de jogo; o médico, Dr. Juan da Mata; o padre, Padre Serafim; e o mestre-escola, Sr. Dionísio. Chegavam os três ao mesmo tempo e saudavam-no com idênticas palavras, viravam o mesmo cálice de vinho que D. Ramón das Baceleiras lhes oferecia. E limpavam a boca com as costas da mão, à falta de guardanapos. Em seguida, Padre Serafim, que era serviçal e hábil, acendia as velas, não sem antes arrumar o pavio com a espevitadeira prateada, e até às dez e meia disputavam, eles quatro, o ganho de alguns centavos. A essa hora os jogadores apanhavam sala de entrada os tamancos, se a noite era chuvosa ou havia lodo nos caminhos esburacados, e dirigia-se cada qual pacificamente para seu canto.

Duravam cinco anos estes encontros para o mais inofensivo dos passatempos, e já eram o único prazer do velho e bolorento senhor da aldeia, que passava a metade da vida pregado em sua poltrona pela gota e pelo reumatismo. Aquelas horinhas de jogo e de bate-papo davam algum interesse ao dia, que deslizava lento, interminável, prolongado pela solidão, pela quietude dominante e pelo tédio da velhice sem família, sem obrigações e sem ter o que fazer. Os três homens que vinham jogar com D. Ramón não eram nem sábios nem eloqüentes no dedo de prosa, e nem sequer estavam a par do que ia pelo mundo; mas mesmo assim traziam notícias, boatos, opiniões, brincadeiras, manias e humorismo deste ou daquele; o Dr. Juan da Mata, por sua profissão, recolhia aqui e ali a crônica do lugar, o mexerico das pessoas de roupa simples e das de jaquetas de rico – que o têm, e muito picante; o Padre Serafim se encarregava da política maior, porque lia o “Correio espanhol” e estava a par dos pensamentos do Czar da Rússia e do imperador da Áustria; e quanto ao Sr. Dionísio, ele discordava enfaticamente do divino e do humano, e pelas malditas eleições conhecia de cor e salteado a política local. O senhor das Baceleiras tomava parte na conversa, tão à vontade que seus pareceres eram ouvidos com respeito pelos três companheiros, habituados a nele ver o senhor – um ser superior, pois que nada fazia e vivia de rendas.

O senhor de Baceleiras era dono de muitas terras na aldeia e arredores. Se é verdade que se nasce proprietário, e que o instinto de conservação e defesa do adquirido é tão forte quanto a morte, desde os primitivos alvores do mundo, este instinto em ninguém se revelou mais vigoroso, nem arraigou-se com mais profundas raízes do que em D. Ramón. Amava com exagero e defendia com raiva a sua propriedade, como se tivesse uma prole considerável a quem transmiti-la e não estivesse, pelo inexorável decreto dos anos, prestes a deixar tudo o que tinha para a alegria de uns sobrinhos que viviam em Mondoñedo e não tinham visto o tio nem uma só vez na vida. Apesar de que o momento em que se abandona a fazenda com a vida se aproximava, D. Ramón, sempre que a gota e a maldita perna permitiam, saía para examinar suas fazendas mais próximas, ver como o milho espigava, como a grama havia agradecido à rega, se os pinheiros medravam e se a nogueira estava mais carregada do que no ano anterior.

O dono tinha posto seus olhos e coração nesta nogueira. Árvore como aquela não se encontrava num raio de quilômetros. Crescia o formoso exemplar à beira do caminho, em frente à taipa da casa dos Baceleiras e nas imediações de uma quinta semeada de batatas pertencente ao Dr. Juan da Mata, o médico. Por que, sendo a quinta do médico, o limite e a árvore eram de D. Ramón? Que o verifique quem conseguir desenrolar o inextricável emaranhado da subdividida propriedade rural galega.

Ora, o caso foi que uma certa manhã, uma manhãzinha radiante de outubro em que tudo no campo era paz e sossego, o senhor das Baceleiras, arrastando a perna mas cheio de ânimo, parou diante da nogueira e deslumbrou-se ao vê-la tão carregada de frutos. Em certos galhos ao sol do meio-dia, viam-se mais nozes do que folhas, e sobre a erva que amaciava o limite de D. Ramón, algumas nozes já caídas, gordas e luzentes. Tentado esteve a apanhá-las, mas não o fez, por causa da perna. “Alberto me trará essas nozes mais tarde”, pensou; e chegando em casa ordenou ao criado, satisfeito:

– Hoje no jantar, sobremesa de nozes frescas.

E como no jantar as nozes não apareceram, ele interpelou Alberto. Alberto respondeu que foi apanhar as nozes caídas, mas não encontrou nenhuma no chão.

– Mas como se eu mesmo vi as nozes, e elas eram pelo menos uma dúzia! desabafou, desanimado, o senhor de Baceleiras.

– Pois então as crianças devem ter apanhado… – respondeu Alberto, com a satisfação velhaca dos camponeses quando acontecem coisas que contrariam seus amos.

À hora do voltarete, o primeiro a chegar foi D. Juan da Mata. Ao entrar tirou um embrulho do bolso de sua velha jaqueta.

– Nozes frescas – murmurou ele com um sorriso triunfal, oferecendo a dádiva ao senhor, que ficou gelado.

– Nozes frescas! – murmurou. – E colheu-as de qual nogueira?

– Da nossa – reagiu o médico com a maior fleuma, colocando-as num prato, pois elas já vinham limpas e descascadas.

– Da nossa? Nossa qual, pode me dizer?

– Essa é boa! O Sr. D. Ramón não a conhece! Da grande, aquela do caminho… a que me faz sombra à plantação de batatas… e até que chega a prejudicá-las.

– Mas Dr. Juan, essa nogueira…. é tão sua quanto do Papa. Essa nogueira não é de outra pessoa que não esta aqui que está falando consigo.

Caiu das nuvens o Dr. Juan da Mata ao escutar aquelas frases e o tom em que elas eram ditas. Era um velhinho seco como bacalhau, ágil e conservado por milagre, a despeito dos seus muitos anos, grande andarilho, carinhoso e sensível, embora gasto e contido à sua maneira; e o tom inesperado de D. Ramón sugeriu-lhe esta resposta ferina:

– Quer dizer que eu roubei as nozes que nem eram minhas? Então não é meu o que cai na minha propriedade, em cima das minhas batatas? Quer dizer que eu sou um ladrão?

Existe um ditado árabe muito sábio, evangelho do laconismo, que reza assim: “Antes de falar, a língua dá quatro voltas na boca.” D. Ramón, para azar seu, esqueceu-se do provérbio naquela hora, se é que o conhecia, coisa que não posso afirmar; e dando rédeas à impaciência e à irritação, respondeu com o ar mais agressivo do mundo:

– O senhor pode me dizer como se chama alguém que se apodera do alheio sem o consentimento do dono? As nozes não eram suas; portanto, tire sua própria conclusão.

– Dr. Juan da Mata recalcitrou e, levantando-se num ímpeto e jogando as nozes, não na cara, mas na barriga e nas pernas de D. Ramón, gritou fora de si:

– Pois fique com essa porcaria das suas oito nozes… Que raios me partam se eu voltar alguma vez a pôr os pés onde me tratam de ladrão, seu… alma danada! Fique com Judas e que só venham aqui seus escravos, que eu sou uma pessoa tão decente quanto o senhor!

Ao sair como um foguete, o médico se encontrou na escada de pedra com o Sr. Dionísio, o mestre-escola, a quem contou o que acabara de acontecer, gaguejando de raiva.

O mestre-escola entrou no refeitório com cara muito comprida, guardando um silêncio diplomático, a princípio. Mas D. Ramón deu logo vazão ao seu mau humor, contando-lhe o caso, e qual não foi a sua surpresa ao constatar que o Sr. Dionísio, com argumentações pedantes e desatinadas, e com argúcias e circunlóquios, vinha a dar toda a razão ao médico.

– Em meu humilde e meio eclipsado ponto de vista, desde logo – dizia o Sr. Dionísio, apertando os lábios – tenho de me inclinar a reconhecer que, se a terra ou a propriedade onde as nozes foram apresadas ou colhidas pertenciam por justa causa ao Dr. Juan da Mata, pois ele era respectiva e colegamente dono dos frutos.

Ao notar D. Ramón que também o mestre-escola o contradizia, fico mais bravo e novas palavras imprudentes emitiu ele:

– Como? Então o Dr. Juan estava lá no seu direito? Pois vamos ver como sustenta ele este argumento perante os tribunais, caramba, vamos ver! Para mim, aqueles que defendem um ladrão de sua casta são.

Sr. Dionísio enrubesceu. Toda a dignidade profissional subiu-lhe com o ao rosto e, com a língua emperrada de pura indignação, conseguiu balbuciar-.

– Mais… devagar… mais… devagar… Modere-se, meu senhor… Eu me retiro desta casa!

O padre, que cruzava a porta quando o mestre-escola ia saindo, encontrou o fidalgo chispando e rugindo como cratera de vulcão em plena ebulição. Que logo no dia seguinte iria interpor uma acusação judicial, e o médico que se virasse, pois que iria dar com os costados na cadeia! Frente ao arrebatamento do fidalgo, o Padre Serafim, excelente homem, um santo varão em toda a extensão da palavra, mas desses que, como se diz, vivem no mundo da lua, caiu na tolice de pespegar ao furibundo D. Ramón uns textos ascéticos e morais que tinham tanto a ver com as nozes como com as estrelas no céu; e os nervos já esticados do senhor – que era do tipo colérico, defeito de quase todos que sofrem de gota por terem o sangue muito ácido – simplesmente não suportaram o sermão do pároco. Desatinado e cego, D. Ramón tomou de seu cajado semimuleta e levantou-o contra o pregador, que, espavorido, saiu escada abaixo como um foguete, oferecendo aquele transe a Deus em resgate de suas culpas…

E assim acabou e se dissolveu, como sal na água, a tradicional partida de voltarete de D. Ramón das Baceleiras. Mas não acaba aqui a história das oito nozes, que mais não eram as que, despojadas da casaca verde e partidas para maior facilidade de comê-las, em má hora presenteou o médico.

Irritado mais ainda pelo aborrecimento de ter passado a noite inteira sozinho, e desejoso de vingança, D. Ramón entrou no dia seguinte com a acusação judicial contra o Dr. Juan da Mata, por motivo de roubo dos frutos. O médico suportou com brio a iniciativa; advogados e procuradores foram consultados; não houve acordo no julgamento e a cúria de Brigâncio apoderou-se do assunto e fez o fidalgo gastar um despropósito de dinheiro durante os anos que durou a pendenga: milhares de pesetas suficientes para carregar de nozes um par de navios. E como o despeito e o pesar do fastio e da solidão produzissem em D. Ramón um ataque de gota mais forte dos que lhe eram comuns, e tivesse ele de chamar o Dr. Juan da Mata para lhe atender, este se negou, alegando que poderiam imputar-lhe a morte do seu adversário e inimigo. Com a falta do socorro oportuno, o fidalgo piorou e terminou entregando a alma muitíssimo a contragosto. O ano de sua morte foi de grande alegria para os meninos herdeiros da aldeia que comeram toda a colheita da venerável nogueira.

Fonte:
COSTA, Flávio Moreira da (organizador). Os 100 Melhores Contos de Humor da Literatura Universal. 5.ed. RJ: Ediouro, 2001.

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