José Usan Torres Brandão (Caldeirão Literário do Paraná)

MEU ANIVERSÁRIO

De hoje a cinco anos, serei sexagenário
Estou tranqüilo, cônscio daquilo que me espera
Pois afinal festejo o meu aniversário
Mesmo sendo natural, ele agride e fere.

Debalde compensar com sonhos, dor que me invade
É o ser que desce a serra na sua calmaria
É o silêncio da noite na pequena cidade
A peraltice hipócrita da própria nostalgia.

É a ave que já tem o seu vôo mais curto
É o vôo que tem uma breve, curta duração
É o buquê em vaso de água que está murcho
Pouca vontade ademais de cantar uma canção.

QUE MUNDO!

Se nasce, já sai lutando
Se vive, já está sofrendo
Que estranho é o ser humano
Que aprende, mesmo morrendo

Na luta do dia-a-dia
No ouro para conquistar
Para contar, pouca alegria
Muita cousa para chorar

Na caminhada para o fundo
Quase nada para dizer
Voz uníssona do mundo
É melhor ter do que ser

Se essa voz a mim não veio
E o ouro não conquistei
Então nada tenho, eu sou
No meu reinado, sou rei!

O MÉDICO

Entre quatro paredes, seu mundo restrito
De grandes emoções, suas horas, dia-a-dia
Aliviar a dor, salvar vidas, está escrito
Sua missão, um sacerdócio sem hipocrisia.

Marcas do tempo, cedo batem à sua porta
Esclerose, enfarte, cansaço, depressão
Seu lar, que não é seu ninho, teme sua sorte
Médico, imagem tão mudada neste mundo cão.

Já não se fala dele como ser superior
Hoje, nome desgastado, luta pra viver
Como qualquer ser, anônimo, sem valor
Num mundo de mercado em que mais vale ter.

Médico, operário de Deus, salvando vidas
Também chora, também ama e também sonha
Na sua labuta com alma e corpo, suas feridas
Leva uma existência bem tristonha.

Não é sem luta que ele ganha fama
Nem é na flor que ele vê espinho
Num pedestal também joga-se lama
Médico, não ligues, segue o teu caminho.

MEU VELHO CHICÃO

Caminhas lento com a mesma altivez
Já não sou o mesmo, os anos se passaram
Minha infância está ligada a ti, velho Chicão
Fonte dos primeiros sonhos que voaram.

Brinquei em tuas águas
De dono do mundo
Que ironia
Com meus amigos de infância
Que nunca mais eu vi
Pois tudo se passou.

As imagens vivas
Que hoje guardo
Pura fantasia
No meu mundo de sonhos
Que o tempo desabou.

És perene
Mas de ti sinto saudades
Pois sei, nada temos em comum
Vives passeando alegre entre cidades
E eu, entre os tristes da vida
Sou mais um.
–––––––––––––––––––

O médico José Usan Torres Brandão nasceu em Senhor do Bonfim – BA, no dia 30 de novembro de 1929. Formou-se em medicina em 1953, pela Escola de Medicina da Bahia, em Salvador. Exerceu a medicina no Recôncavo Baiano e em Maringá. Autor de Descendo a serra. Membro da Academia de Letras de Maringá, Cadeira nº. 03, cujo patrono é Alphonsus de Guimarães.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Caldeirão Literário, notas biográficas, Paraná, Poesias

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s