Arquivo do mês: agosto 2009

Humberto de Campos (Senadores "Barbeiros")

Zacarias de Gois e Vasconcelos era orgulhosíssimo e fazia questão de, quando falava, ser ouvido atentamente por toda a casa. Um dia, achava-se ele na tribuna, quando notou que dois velhos colegas, o Barão do Rio-Grande e o Barão de Pirapama, que eram profundamente surdos, conversavam em voz alta, para se entenderem sobre navalhas afiadas. Zacarias parou.

E como a interrupção causasse estranheza:

– Estou esperando que os Barões de Pirapama e do Rio-Grande acabem de se barbear!

Fontes:
– Taunay – Reminiscências – vol. I. In CAMPOS, Humberto de. Brasil Anedótico.
– Imagem = http://aturminhado6d.blogspot.com

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Roza de Oliveira (Poetas do Paraná)

A PALMEIRA

Na escalada da Montanha
a palmeira ameaçada
por estranho vendaval
entrelaçou-se a um Carvalho
que contente lhe ofertou
segurança paternal

Embora tão diferente
dentro da vegetação…
unida é bem mais feliz
do que todas as demais
que vivem na solidão.

===============

INSTANTÂNEO

Sempre que me inauguro
em teu sorriso
sinto tocar de leve
o Paraíso

===============

METAMORFOSE

Dentre as setas
com que me feres
eu forjarei a Agulha
com que bordarei a tela
da minha noite escura.
Nela tecerei
a Estrela que nos guia
com mãos de ternura
====================

RELÓGIO DE SOL

Relógio de sol
Eu sou.
Nuvens e trevas
Rejeitando vou…
Só registro as horas
Em que o sol brilhou
===============

MAGIA

Sempre que me inauguro
Em teu sorriso
Sinto tocar de leve o paraíso!
===============

PRIMAVERA

Todo ser tem seu tempo de expressão.
Baila a ave se a vida é movimento,
E canta quando a vida é uma canção,
Seja na alegria ou no tormento.

A primavera é um festival de vida.
Da planta sai poesia colorida:
Poesia-flor que transborda docemente
O prazer de ser fruto e ser semente.

Cada flor tem seu verso e sua rima
Nas florestas, nas praças e nas casas,
Do amor é poesia cristalina!

E na expressão que vitaliza esse planeta
Se, de repente as flores criam asas…
Não é verso-fantasma! – é borboleta!
===============

CASA ONÍRICA

Bem no pico dos meus sonhos
Construí minha morada
Sem paredes, sem telhados…
Sem limites nos seus lados.

Bem que o telhado varia:
Varia…conforme o dia:
Há telhado de gaivotas…
De estrelas…de andorinhas.

Minha cama – é uma nuvem.
Minha mesa – a lua cheia.
O vento – é o meu cavalo!
Sou turista do infinito!…
––––––––––––

Fontes:
– Andrea Motta. http://simultaneidades.blogspot.com/
– Antologia dos Acadêmicos – Edição comemorativa dos 60 anos da Academia de Letras José de Alencar. SP: Scortecci, 2001.

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Roza de Oliveira (1941)

Roza de Oliveira, nasceu em Monte Alegre, distrito de Santo Antônio de Pádua, no Rio de Janeiro a 26 de agosto de 1941, Filha de Sebastião Bembém de Oliveira (de saudosa memória) e Dona Elazir Azevedo de Oliveira.

Morou em Paranavaí dos 7 aos 38 anos, onde concluiu seus estudos no curso de Letras e lá exerceu o magistério. Professora desde os 15 anos de idade. Já atuou no primeiro, segundo e terceiro graus em Paranavaí, Londrina e Curitiba. Tem mestrado em literatura brasileira. Mora em Curitiba desde 1979. Docente do Departamento de Letras da Universidade Tuiuti do Paraná. Casada com o maestro Júlio Enrique Gomez, participa do projeto poético musical “Lançando a rede na Lua”

Roza de Oliveira é eximia declamadora, fez palestras e conferências em entidades de várias cidades do Estado do Paraná. Recebeu várias homenagens, diplomas, medalhas, troféus e menções honrosas referentes aos serviços prestados e participações de concursos literários.

A escritora desenvolve, ainda, a Oficina Permanente de Poesia, na Biblioteca Pública do Paraná,

Formação Escolar:
Letras Franco-Portuguesas pela faculdade de filosofia de Paranavaí.
Mestrado em Letras-Literatura Brasileira – pela Universidade Federal de Santa Catarina.

Membro de:
– Academia Paranaense da Poesia, da qual é presidente.
– Centro de Letras do Paraná.
– Academia Feminina de Letras do Paraná. Cadeira 32.
– Centro Paranaense Feminino de Cultura.
– Academia de Letras José de Alencar, Cadeira 17.
– União Brasileira de Trovadores (UBT).
– Círculo de Estudos Bandeirantes (PUC).

Livros Publicados:

POESIAS:
– Escalada, 1979.
– Halley Cruzado & Cia – Poesia do Dia-a-Dia, 1986.
– S.O.S. Vida, Verde, Paz, no Pesadelo da Violência, 1990.
– Poemas de Amor, 1993.
– Minhas Trovas de Humor e Retrucando Minhas Trovas de Humor, 1993.
– Paródias Musicais, Poemas e Trovas para as Celebrações Escolares, 1992
– Caracolando – Poesias, 1997.

PROSA INFANTO-JUVENIL:
– Passeio Cósmico, 1989.
– A Menina que Queria Voar, 1990.
– O Cavalinho de Guilherme, 1993.

ENSAIO CRÍTICO:
– As Imagens do Ar nos Poemas de Tasso da Silveira – Publicação da Secretaria de Estado da Educação – 2001

PARTICIPAÇÕES EM ANTOLOGIAS:
– Seara Nova – Contos e Poesias, 1978.
– Sesquicentenário da Poesia Paranaense,1985

– Caderno Pedagógico da Assintec – Associação Interconfessional de Curitiba, 1994.
– O Lúdico na Trova, 1995.
– Mulheres Escrevem – Centro Paranaense Feminino de Cultura, 1997.
– Antologia dos Acadêmicos – Edição comemorativa dos 60 anos da Academia de Letras José de Alencar, 2001
– Semeadura da Paz – Publicação do Clube Soroptismista Internacional, 2000.

Fontes:
– Agência de Notícias do Estado do Paraná. http://www.aenoticias.pr.gov.br/modules/news/article.php?storyid=9359
– Andrea Motta. http://simultaneidades.blogspot.com/

– Antologia dos Acadêmicos – Edição comemorativa dos 60 anos da Academia de Letras José de Alencar. SP: Scortecci, 2001.

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Rachid Boudjedra (Topografia Ideal para uma Agressão Caracterizada)

Argel. Marselha. Paris. E depois, os infindáveis corredores do metrô parisiense, que enclausuram o personagem central de Topografia ideal para uma agressão caracterizada. Assim é que a capital francesa é posta em cena nesta narrativa, que faz pensar no mito literário de Paris, este “mito moderno”, como disse Roger Caillois. Um mito de diversas facetas, entre as quais a de “cidade-luz”, expressão imortalizada pela memória coletiva, e segundo a qual a capital francesa aparece como um concentrado de esplendores: cidade da cultura e das artes, da revolução, do amor, das canções, dos prazeres mundanos.

Mas a perspectiva da representação de Paris aparece aqui como que invertida, pois a topografia parisiense segundo Boudjedra reduz a cidade aos corredores e plataformas do metrô: lugar subterrâneo, angustiante, dédalo inextricável levando a direções diversas. Região de obscuridade simbólica por excelência, pela qual se constrói a imagem de uma Paris antípoda do mito da “cidade-luz”. Tal inversão se completa pelo fato de a narrativa por em cena ainda a relação de um homem triplamente despossuído de si mesmo — estrangeiro, imigrante e analfabeto — com a cidade de Paris. E como se não bastasse, uma Paris transformada em palco do ódio racista. O resultado é uma espécie de clichê fotográfico em negativo.

Topografia ideal para uma agressão caracterizada é um texto da errância e do extravio levados ao paroxismo. Ao sentimento de perda no espaço labiríntico, vem juntar-se o de perda em relação ao tempo. E nisso o estilo de Rachid Boudjedra é de uma eficácia impressionante: ele conjuga as constantes mudanças de foco narrativo — quem é de fato o narrador? — com o manejo hábil na construção de frases intermináveis, multivocais, entrecortadas por parênteses. Ao que acrescenta uma expressiva maestria na utilização de diferentes tempos verbais que projetam o leitor do passado para o presente, do antes para o depois, incessantemente. A oscilação deliberada e sistemática entre diferentes vozes (narrador, personagem central e outros) e tempos resulta em mudanças contínuas de planos de consciência.

O mito é aqui visitado às avessas, na pele do personagem extraviado nas tripas urbanas do metropolitano. Daí, aliás, a universalidade e atualidade desta narrativa em que o ódio da alteridade explode na confrontação de dois mundos: de um lado, o excluído, o analfabeto em busca de trabalho e sobrevivência e, de outro, a cruel e opulenta urbe ocidental, “cosmos lingüístico” (Walter Benjamin) repleto de imagens, ruídos, signos, enfim, de tudo o que o estrangeiro abominado não pode decifrar.

Trecho

“… ele está acostumado ao ar livre, acabará perdendo os dedos, as mãos, os braços, as pernas, o crânio, os pulmões, e as tiras de sua carne ficarão dependuradas num cilindro ou numa biela: e caso ele não goste disso, poderá ainda experimentar um canteiro de obras onde terá o prazer de brincar de dançarino equilibrista até o dia em que cairá de um guindaste, as mãos, trincadas pela geada, na frente, mas sem poder evitar que sua coluna vertebral arrebente no cimento armado que ele mesmo preparou um dia antes com seu desejo de fazer o melhor, de agradar ao chefe do canteiro de obras… Isso há de lhe ensinar a querer trabalhar direito, a merecer seu salário construindo as casas dos outros para que depois, passando por eles na rua ou no metrô, eles o ignorem, o desprezem, batam nele, o assassinem: de qualquer forma ele é feito um rato e por mais que conte que saiu vitorioso do labirinto (Cheguei são e salvo) ele não sabe o que o espera…”

“E eles, então, dizendo na língua secreta: como ele nunca acredita na gente, é melhor dizer o contrário do que pensamos, assim ele vai acabar entendendo que ninguém vai para lá impunemente e que sempre se corre o risco de perder alguma coisa lá (Quando um tomate entra no forno ele corre o risco de) sejam quais forem as precauções tomadas (amuleto, rabugice, má fé, passividade, sangue frio, talismã etc.) para escapar da desgraça.”

“Difícil dormir nos lençóis que outros acabam de usar deixando neles seus cheiros, seu hálito, seus escoamentos noturnos e sua raiva e seus pesadelos e seus sonhos e seu horror e seu suor, deixando no marrom do lençol cujos vestígios de vida nunca foram lavados desde que ele foi comprado; amontoando-se a vinte ou trinta naqueles redutos constantemente ocupados, jamais ventilados nos quais eles tossem loucamente a cada despertar traumatizante e desencorajador, esquentando o café amanhecido em panelas amassadas, às escondidas do gerente, um homem que como eles veio do País, perdeu-se em labirintos, enriqueceu por obstinação e esqueceu depressa dos tempos passados quando era parecido com eles como duas gotas de café preto que eles estão esquentando escondido e do qual bebem panelas inteiras”

Fonte:
Resenha de Flávia Nascimento, em http://www.estacaoliberdade.com.br/releases/topografia.htm

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Rachid Boudjedra (1941)

Rachid Boudjedra nasceu em 1941 em Aïn-Beïda, Argélia. Sua obra ocupa importante espaço na literatura produzida após a guerra de libertação de seu país (1954-1962). Escreveu sempre em francês, mas atualmente se dedica também à produção em árabe. Desde seu primeiro romance, La Répudiation (1969), Boudjedra volta seu olhar para as contradições da Argélia independente — nação em que ainda é notável o embate entre a modernidade e o respeito à tradição.

Preocupação constante em seu trabalho são as condições do imigrante magrebino na Europa, especialmente na França, como ocorre no presente Topografia ideal para uma agressão caracterizada. Fortemente influenciado pelo nouveau roman francês, ganhou notoriedade por sua escrita sofisticada.

Além de romancista, Rachid Boudjedra é professor, poeta, ensaísta, autor de teatro e cinema, tendo assinado o roteiro do notável Crônica dos anos de brasa (Palma de Ouro em Cannes, 1975), dirigido por Mohammed Lakhdar Amina. Ministrou aulas em diversas universidades do mundo árabe e europeu. Em 1987, uma fatwa islâmica com sentença de morte foi emitida contra o escritor, por considerarem que sua obra representa uma afronta aos fundamentos do Islã. Entre suas obras mais recentes, constam La Fascination(2000), Les Funérailles (2002) e L’Hôtel Saint Georges (2007).

Fonte:
http://www.estacaoliberdade.com.br/autores/boudjedra.htm

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Flávia Nascimento, Professora da UFPB Concorre ao Prêmio Jabuti de Literatura

Flávia Nascimento, doutora em Literatura Francesa pela Universidade de Paris, está entre as 10 finalistas do Prêmio de Literatura, na categoria da Tradução.

A professora adjunta da Universidade Federal da Paraíba (DLEM/PPGL), pesquisadora do CNPq e tradutora literária e de humanidades, Flávia Nascimento, é uma das dez finalistas do Prêmio Jabuti de Literatura, concorrendo na categoria ‘Tradução de Obra Literária Francês-Português’ com o trabalho “Topografia ideal para uma agressão caracterizada”, publicado pela Editora Estação Liberdade Ltda.

Em entrevista à Agência de Notícias da UFPB, a doutora em Literatura Francesa pela Universidade de Paris falou sobre seu trabalho e a importância do prêmio a que está concorrendo.

ENTREVISTA:

Agência de Notícias – Qual a importância no mundo literário do prêmio Jabuti?

Flávia Nascimento – O prêmio Jabuti é o prêmio literário mais relevante do país. Mas sua importância deve ser entendida mais propriamente no âmbito do mundo editorial brasileiro, e não apenas no do mundo literário. Isso porque o Jabuti não contempla somente textos literários (romance, conto, poesia), mas também outras categorias textuais importantes, entre as quais “tradução”, “biografia”, “ciências humanas”, e etc. Ao todo, são vinte categorias, que premiam, inclusive, aspectos artísticos do processo de fabricação do objeto estético a que chamamos livro; assim, por exemplo, as categorias “projeto gráfico” e “ilustração de livro infantil ou juvenil”. O prêmio é anual. Todos os anos, há uma premiação para a melhor tradução de língua estrangeira. Agora, em 2009, foi criada excepcionalmente a categoria “melhor tradução francês-português” (21ª categoria), no âmbito das comemorações do ano da França no Brasil. Meu trabalho está concorrendo como finalista nesta última categoria.
O Jabuti, que está em sua 51ª edição, foi criado por iniciativa da CBL (Câmara Brasileira do Livro). A escolha do pequeno quelônio para simbolizar a premiação ocorreu num contexto de valorização da cultura popular brasileira, na esteira do pensamento de Sílvio Romero, Mário de Andrade, Câmara Cascudo e Monteiro Lobato (um dos personagens de Lobato é precisamente um jabuti).

Agência de Notícias – De que trata o seu trabalho?

Flávia Nascimento – Topografia ideal para uma agressão caracterizada (1ª edição francesa: 1975), que traduzi para a editora paulista Estação Liberdade, é de autoria do escritor argelino de expressão francesa Rachid Boudjedra (nascido em 1941), um dos mais importantes, hoje, de seu país (Boudjedra escreve também em árabe). Essa é a primeira tradução de uma obra sua em língua portuguesa. Nesse texto, ele narra as desventuras de um herói anônimo – um imigrante argelino – pelos corredores do metropolitano parisiense, labirinto urbano subterrâneo em que ele se perde por algumas horas e do qual não sairá vivo. A intriga é minimalista, como se vê, mas seu poder de impacto sobre o leitor é desconcertante, graças à sofisticada arte do narrador de Boudjedra. O tema do imigrante pobre em busca de melhores condições de vida, do imigrante vitimado pelo ódio racista, é universal, e já originou obras em línguas diversas. Creio que ele encontra um eco longínquo, por exemplo, tanto em certos versos de João Cabral de Melo Neto quanto na letra da canção “Construção”, de Chico Buarque. A atualidade desse tema é desesperadoramente real: quer sejam eles nordestinos ou “hermanos” em São Paulo, indianos em Londres, haitianos em Nova Iorque, turcos em Berlim, angolanos em Lisboa ou argelinos em Paris, nosso mundo está repleto de migrantes e imigrantes em busca de trabalho. Escrevi para minha tradução um posfácio que intitulei precisamente “Morte e vida magrebina”, lembrando-me dos terríveis versos de João Cabral em “Morte e vida severina”.

Agência de Notícias – Qual a classificação de sua obra nessa disputa, até agora?

Flávia Nascimento – Meu trabalho ficou entre os dez finalistas, depois de ter concorrido com dezenas de outras traduções de obras literárias originalmente escritas em francês. Ao todo, nas 21 categorias, foram mais de 2.000 inscrições (uma média de quase 100 inscritos para cada uma). A próxima etapa, agora, é a escolha dos três primeiros colocados. Sinto-me profissionalmente muito gratificada por já estar entre as dez melhores traduções do francês para o português selecionadas pelo júri do Jabuti.

Agência de Notícias – Quando sairá o resultado final do concurso?

Flávia Nascimento – Os nomes dos três vencedores serão anunciados em São Paulo, no final de setembro.

Fonte:
Douglas Lara (http://www.sorocaba.com.br/acontece)

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Convite na I Bienal do Livro de Curitiba

Fonte: museu de imagem e som

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4a. Coletânea do Espaço Literário “Sorocult”

A capa dele continua seguindo o mesmo padrão dos livros anteriores, porém agora vem com alguns diferenciais devido ao fato do site Sorocult ter mudado de visual desde o início deste ano. As capas são iguais porque os livros fazem parte de uma coleção

Ele passou por duas revisões ortográficas ao invés de uma só, seguindo assim padrões mais modernos de revisão. Uma delas foi feita pela também co-autora no livro, Angela Cristina Santos de Jesus, que já faz a revisão dos livros dos Sorocultinhos. A outra está sendo feita pela revisora da Ottoni editora, com ambos os trabalhos se completando, dando assim ainda mais qualidade para o livro.

Uma Leitura Crítica da parte teórica, que estará no final do livro, feita pela também co-autora no livro, Angela Maria de Godoy Theodorovickz. Um livro muito bom que trará excelentes textos e belíssimas poesias. Um livro completo em vários sentidos.

O prefácio do livro foi feito pelo Secretário da Cultura de Sorocaba, Anderson Santos,. Ele escreveu um excelente texto, agregando desta forma, ainda mais valor ao livro.

O lançamento do livro será na 3ª Expo Literária de Sorocaba que acontecerá de 21 a 24 de outubro, na Biblioteca Municipal de Sorocaba. O lançamento será no último dia do evento, sábado, dia 24, provavelmente em torno das 14h.

Co-autores
Amadeu de Carvalho Junior—Pilar do Sul)
Angela Cristina Santos de Jesus—(Sorocaba) – (participa com 2 cotas no livro)
Angela Maria de Godoy Theodorovicz—(São Paulo)
Carmen Silveira de Abreu —( Sorocaba)
Cláudia Salck—( Sorocaba)
Daniela Larissa Madureira Salcedo —(Sorocaba)
Débora Valio Corrêa Fidêncio—(Pilar do Sul)
Dorothy Jansson Moretti —( Sorocaba)
Fabiana Aparecida dos Anjos Souza —(Sorocaba)
Fábio Souza Santos—(Votorantin)
Gonçalves Viana —( Sorocaba)
Isabela Maria Madureira Salcedo —(Sorocaba)
Jair Pereira da Silva—(Pilar do Sul)
Jairo Valio (Sorocaba)—(Sorocaba)
Joaquim Evónio —(Portugal) – (participa com 2 cotas no livro)
Josefa Maria Portela —(Sorocaba)
Leandro Galhardi Paez—(São Caetano do Sul)
Lourdinha Ribeiro Blagitz —(Sorocaba)
Luis Fernando Costa Daher —(Sorocaba)
Maria Antonia Canavezzi Scarpa —(Sorocaba) – (participa com 3 cotas no livro)
Maria Antonieta Pincerato—(Salto de Pirapora)
Maria Thereza Moreira Pereira (Sorocaba)
Mariana Domitila Padovani Martins (Sorocaba)
Marianice Straub Terra Barth—(São Paulo)
Natali Cristiane dos Santos Silva —(Sorocaba)
Neusa Padovani Martins —(Sorocaba)
Nícolas Estevan Padovani Martins —(Sorocaba)
Paula Regina Bissoli Nattis—(Itu)
Pedro Milan—(Itu)
Tereza Cristina Galvão Cesar —(Sorocaba)
Therezinha Aparecida Válio Corrêa—(Pilar do Sul)
Tífani Postali —(Sorocaba)
Valter de Jesus Martins —(Sorocaba)
Vânia Moreira Diniz—(Brasília)
Vilma Padovani Borsari—(Itu)
Wagner Ferreira —(Sorocaba)

Fonte:
Douglas Lara (http://www.sorocaba.com.br/acontece)

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3ª Expo Literária de Sorocaba

Como será a Expo Literária: haverá uma tenda gigante para 600 pessoas destinada às apresentações dos escritores convidados (grandes escritores da atualidade) e os escritores sorocabanos.

Cada escritor sorocabano poderá se inscrever, para palestrar, declamar poesias e para bater papo com os visitantes (o que ocorrerá na tenda gigante). O Sorocult terá alguns horários pré-definidos para atender todos seus escritores em atividades diferenciadas. Gostaríamos de receber sugestões e pedidos de vocês para podermos acertar nossa agenda.

Todos que são do Sorocult participarão automaticamente do evento, em espaço que será montado nele e também assistindo as palestras que forem oferecidas pelo evento, mediante a retirada de convite antecipadamente.

Quem desejar fazer algum tipo de apresentação na Expo poderá se inscrever previamente através de uma ficha de inscrição que se encontra à disposição de todos em Divulgação no site http://www.sorocult.com. É só copiar a ficha, imprimir, preencher e entregá-la na Secretária da Cultura ou na Biblioteca Municipal em Sorocaba.

A data limite para inscrição é dia 31 de agosto, mas a data será prorrogada. De qualquer forma, se tiverem interesse em participar com alguma atividade individual, preencham a ficha e entreguem. Os colegas de fora de Sorocaba poderão enviar a ficha preenchida via e-mail para : taniakalil@yahoo.com.br .

Maiores informações pelo fone (15) 3238-1955 com Tânia Kalil. Caso marquem alguma apresentação, avisem para ser colocada na programação também. Mas, observem: só participa palestrando, declamando e outros, quem quiser. Quanto aos livros a serem vendidos na Expo, junto há uma ficha própria para eles. O nº de títulos que consta lá também será mudado.

Se´rá lançado também na Expo a “5ª Coletânea dos Sorocultinhos – Profissões e trabalho” que faz parte do PLRS (Projeto Leitura Responsável Sorocult) e é feito para ser doado para crianças carentes das entidades assistenciais de Sorocaba e região.

Fonte:
Doulas Lara (http://www.sorocaba.com.br/acontece)

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Caldeirão Poético do Pernambuco

Saulo Novaes

QUADRO DE OUTONO

Cai a última folha da árvore nua
Lentamente
Amparada pelos traços invisíveis
Do vento de Outono
E da janela, olhos que não vêem
Observam a dança da natureza
Enquanto os olhos reais
Passam ilesos por aquela cena

EXPLOSÃO POÉTICA

Pratico meu egoísmo
Numa poesia em primeira pessoa
Ao rimar-me num oásis poético
De versos livres.
Cantando a liberdade,
Saio à procura da perfeita
Forma que expressará
Aquilo que sinto,
E que me foge
Como a explosão de átomos.
============================
Sérgio Bernardo

HERANÇA DAS VÁRZEAS

-Que herança foi deixada
por teu pai, poeta?
-Uma serra gasta de suor
seixos de maré faminta
que afiava a lua minguada
em suas mãos

-E o teu pai, o que deixou?
-Uma casa no campo
outra na praia e contas bancárias
pela cidade

-Mas, e o teu? Só a lua minguada
e nada mais?
-Ele fora carpinteiro
e tantas vezes canoeiro
sabia das marés obesas e nuas.
Por isso não sou poeta
sou canoa e serra amanhecendo

-Diga-me então, já que não és poeta:
-o que ele faz hoje?
-Poda as nuvens em silêncio
para a minha chegada.

UMA LUZ, SÓ UMA LUZ

A um ano-luz ou laços infinitos
De uma aritmética suicida?

O calendário no mofo da parede
Sustenta a agonia das asas
E milhões de vidas
Juntam-se aos tigres enterrados

Quando começa a morrer o sol
De teus olhos
O calendário outra vez
Mostra-me o inatingível

Aí, vem a consciência:
Não compreendes?
A China já mora em teu rosto.

As nuvens de um chão aberto
Em rugas e brasas
Ainda se vestem de esperança.

O coração do amado
Viaja continentes
E chega ao teu, faz morada,
As fontes renascem
E a incadescência da manhã
Vive cantigas de pássaros.
===============================

Sergio Leandro

CANÇÃO PARA LISBOA

Há um mundo de águas e seres abissais
entre meu coração e Lisboa.
Mas eu sei que nos confins do dia
uma fogueira arde contra o frio e minha pátria espera

Minha canção também é feita de silêncio
e o meu tumulto se derrama nas horas vazias da noite…

Eu invoco as palavras sagradas
e ergo ao vento o meu estandarte
porque nos confins do dia
uma fogueira arde contra o frio e minha pátria espera.

ETERNA SÚPLICA

Morrer na flor da idade
Sem andar pelos pomares,
Sem colher os frutos doces…

Ai, meu Deus, não permitas tal!

Morrer na flor da idade
Sem ver se quer um filho.
Um filho!

Ai, Deus meu, não permitas tal, Senhor.

Ó Deus de todos os mortais,
De todos os crentes,
Deus de todos os ateus…

Deixa crescer a árvore junto às águas,
Deixa em silêncio a voz dos sinos,
Deixa.

CONCLUSÃO

O amor,
O ódio,
A violência,
O cosmo,
O infinito.

O que há de novo em tudo isso?

Nenhum dia se passou
Sem que eu pensasse na morte…

A vida é como a poeira
Que o vento leva,
Como teus olhos embaçados pela chuva,
Como eu mesmo quando me escondo.
======================
Sérgio Ricardo Soares

EPILIMNO

nunca bordou-se de singelas ondinhas azuis
o lago frio
nunca foi cisterna por cujo brilho
via-se plâncton

existiu -como é o comum nos dias –
com demasiada pouca luz
mal se distinguia o extenso lodo
que afinal nunca fora muralha assim tão mordaz

nunca o lago frio coalhou-se de gansos
os últimos fugiram sem grasnar
da sombra dos salgueiros

nunca pôde haver inverno branco
sob a sombra dos salgueiros
nunca se soube o sabor da pouca água
porque se desprezava com simples olhar
as poças pululantes de camarões

era remoto de qualquer rio
entre três montes humildes
só cheirava o vento forte
a longos juncos amarelados
aroma até doce
se vagasse em brisa
que no frio do lago nunca houve
e durou tanto

DRAMA

em verdade não é mais belo
o vôo do ranforrinco

atenção e notarás
como hesita um de seus braços
como se o espaço baixo fosse vastidão
e mãe dramática a vociferar algemas
como seus olhos repitílicos estão cheios
de falta de brilho de quem não encontra sua paz
e não a busca
e nem discerne os seres que lhe causam
esses embriões de pavor

o ranforrinco já é o assombro
de hibridez e esterilidade
vôo alçado ontem
e urgência de repouso
mas não se pousa no chão do futuro

não funciona por enquanto
a vida do ranforrinco
se ele soubesse que à frente
do ir está apenas a morte tamanha
—-

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Hélio Pólvora (A Chuva, Sol e Grilo Falante)

Veio a chuva e disse:

— Amigo, você anda triste, mas aqui estou para lhe dar firmeza. Deite, durma e esqueça tudo. Esqueça que árabes e israelenses se matam, não pense no Iraque devastado, esqueça as crianças mutiladas no Pará, as balas perdidas, o desemprego, as drogas, os assaltos, o roubo quase institucionalizado.

E a chuva companheira se pôs a cair no telhado e a pingar no cimento com o leve rumor doce de fonte escorrendo no prado.

— Ora essa, Chuva, você promete firmeza e, mal o sol surge em Salvador, você desaba outra vez. É chuva de mais para as minhas lavouras. Mas, sendo pessoa de ordinário cordata, eu lhe digo: obrigado, Chuva, você chove dentro de mim, lava minhas nódoas, que são poucas, e renova minhas purezas, que são muitas e sem valia.

— Não tem de que, amigo. Chovo porque você merece chuvas novas e antigas, grossas e finas, especialmente sem trovões, para serem bem melodiosas — chuvas mozartianas, que tal? Chuvas são para adiar, imaginar e criar, sonhar, recriar, conhecer falsas condessas e ciganas esquivas. Vamos, feche esses olhos e vá dormir, amanhã é outro dia e talvez você acorde num Brasil rico, direito e decente.

Acordei horas depois com o sol ardendo nos olhos e me queimando a cara inteira. E o Sol me disse, zangado:

— Levante, endireite a vida, você já pensou demais, quando é que resolve botar a cartucheira e empunhar o fuzil? Seus amigos já estão todos no campo de batalha.

— Bom dia, Sol. Sou da guerrilha e não sei atirar. Hay que pelear, pero sin perder la ternura. Você fala igual ao meu pai, que me mandava arar muito cedo para garantir no futuro minha cabeça de vento. Muito tenho laborado, quarenta, cinqüenta anos, sei lá, em repartições e jornais, dando aulas, redigindo, emendando prosa alheia, fazendo discursos para ministros. Pois é, acho que aprendi a escrever, o que já é alguma coisa, também a beber e traduzir,.e respirei na cidade grande o gás venenoso dos ônibus. Agora eu lhe pergunto, amigo Sol: adiantou?

— Adiantou, sim. Então você não vê que o trabalho de que tanto fala é falso, aparente e vão, servindo somente de base para o outro trabalho, o verdadeiro, do seu íntimo, do seu interior?

Fiquei comovido, mas não convencido. O sol tirou um reflexo da vidraça.

— É isso aí, filho. Você tem crescido com nossa ajuda de muitos sóis, luas e chuvas. Parabéns por sua riqueza.

— Eu, rico? Não tenho um décimo da aposentadoria de um desembargador.

— Rico, sim senhor. Veja as minas que você explora dentro de si. Você é uma África do Sul em diamantes, e sem apartheid. E agora, contista, com licença, tenho de ir ao Iguatemi conversar com os escritores que acordam sempre cedo e arregimentam forças para a Academia.

E o Sol sumiu. Pela janela avistei apenas os mares da baía, que pareciam anoitecidos em plena manhã. O Grilo Falante saudou-me então com sua voz estridente:

— Não acredite nessas falas de sonhos embalados pela chuva, nem em promessas de diamantes de metáfora. São miragens, meu velho, miragens de sol no deserto. Para encher os seus dias de riqueza deveras substancial, maior que a dos cantores de trio elétrico e dos auditores corruptos, basta ler Turgueniev em francês.

A essa altura, irritei-me com tanto conselho desatinado, pois afinal o sol arde demais no Nordeste calcinado, a chuva chove em demasia nas terras úmidas do sul, e Grilo Falante eu só conheço de contos da carochinha. O Grilo saltou. Gritou-me que ia dar um piparote na cabeça da ministra Benedita da Silva. Subi a Ladeira da Barra por entre levas de pivetes, pedintes e bandidos armados, e lá em cima Franz Kafka de roupa preta me piscou um olho, enquanto Joyce me acusava aos berros de nunca ter lido o Ulisses inteiro.

Fonte
http://www.jornaldecontos.com/cronica_achuvasolegrilofalante.htm

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Monteiro Lobato (O Saci)

A rotação da terra produz a noite; a noite produz o medo; o medo gera o sobrenatural: – divindades e demônios têm a origem comum da treva

Quando o sol raia, desdemoniza-se a natureza. Cessa o Sabá. Satã afunda no Inferno, seguido da alcatéia inteira dos diabos menores.

A bruxa reveste a forma humana. O lobisomem perde a natureza dupla. Os fantasmas diluem-se em névoa. Evaporam-se os duendes. Os gnomos subterrâneos mergulham no escuro das tocas. A caipora deixa em paz o viajante. As mulas sem cabeça reincabeçam-se e vão pastar mansamente. As almas penadas trancam-se nas tumbas. Os sacis param de assobiar e, cansados duma noite inteira de molecagens, escondem-se nos socavões das grotas, no fundo dos poços, em qualquer couto onde não penetre a luz, sua mortal inimiga. Filhos da sombra, ela os arrasta consigo mal o Sol anuncia, pela boca da Aurora, o grande espetáculo em que a Luz e sua filha a Côr esplendem numa fulgurante apoteose.

A treva, batida de todos os lados, refoge para os antros onde moram a coruja e o morcego. E nessas nesgas de escuro apinha-se a fauna inteira dos pesadelos, tal qual as rãs e os peixinhos aprisionados nas poças sem esgoto, quando após as grandes enchentes as águas descem. E como nas poças verdinhentas a atraíra permanece imóvel e a rã muda, assim toda a legião dos diabos se apaga. Inutilmente tentaríamos surpreender unzinho sequer.

O saci, por exemplo.

Abundante à noite como o morcego, nunca se deixou pilhar de dia. Metido nas tocas de tatú, ou nos ocos das árvores velhas, ou alapado à beira-rio em solapões de pedra limosa com retrança de samambaias à entrada, o moleque de carapuça vermelha sabe como ninguém o segredo de invizibilizar-se. Não colhesse ele, todos os anos, nas noites de São João, a misteriosa flor da samambaia!…

Mal, porém, o sol afrouxa no horizonte e a morcegada faminta principia a riscar de vôos estrouvinhados o ar cada vez mais escuro da noitinha, a “saparia” pula dos esconderijos, assobia o silvo de guerra – Saci-pererê! – e cai a fundo nas molecagens costumadas.

As primeiras vítimas são os cavalos. O saci corre aos pastos, laça com um cipó o animal escolhido – e nunca errou laçada! – trança-lhe a crina para armar com ela um estribo e dum salto monta-o à sua moda. O cavalo toma-se de pânico, e deita a corcovear pelo campo afora enquanto o perneta lhe finca os dentes numa veia do pescoço e chupa gostosamente o sangue. Pela manhã o pobre animal aparece varado, murcho dos vazios, cabeça pendida e suado como se o afrouxasse uma caminheira de dez léguas beiçais.

O sertanejo premune-o contra esses malefícios pendurando-lhe ao pescoço um rosário de capim ou um bentinho. É água na fervura.

Farto, ou impossibilitado daquela equitação vanpírica, o saci procura o homem para atenazá-lo.

Se encontra na estrada algum viajante tresnoitado, ai dele! Desfere-lhe de improviso um assobio ao a ouvido escarrancha-se-lhe à garupa – e é uma tragédia inteira o resto da jornada. Não raro o mísero perde os estribos e cai sem sentidos à beira do barranco.

Outras vezes diverte-se o saci a pregar-lhe peças menores: desafivela um lóro, desmancha o freio, escorrega o pelego, derruba-lhe o chapéu e faz mil outras picuinhas brejeiras.

O saci tem horror à água. Um depoente no inquérito demonológico do “Estadinho” narra o seguinte caso típico. Havia um caboclo morador numa ilha fluvial onde nunca entrara saci, porque as águas circunvolventes defendiam a feliz mansão. Certa vez, porém, o caboclo foi ao “continente” de canoa, como de hábito, e lá se demorou até à noite. De volta notou que a canoa vinha pesadíssima e foi com enormes dificuldades que conseguiu alcançar o abicadouro da margem oposta. Estava a ‘maginar no estranho caso – um travessio que fora fácil de dia e virara osso de noite – quando, ao firmar o varejão em terra firme, viu saltar da embarcação um saci às gargalhadas. O malvado aproveitara o incidente do travessio a deshoras para localizar-se na ilha, onde, desde então, nunca mais houve sossego entre os animais nem paz entre os homens.

Nos casebres da roça há sempre uma pequena cruz pendurada às portas. É o meio de livrar a vivenda do hospede não convidado. Mesmo assim ele ronda a moradia, arma peças a quem se aventura a sair para o terreiro, espalha a farinha dos monjolos, remexe o ninho das poedeiras, gora os ovos, judia das aves.

Se a casa não é defendida, é lá dentro que ele opera. Estraga objetos, esconde a massa do pão posta a crescer, esparrama a cinza dos fogões apagados em cata de algum pinhão ou batata esquecidos. Se encontra brasas, malabariza com elas e ri-se perdidamente quando consegue passar uma pelo furo das mãos. Porque, além do mais, tem as mãos furadas, o raio do moleque…

As porteiras, como as casas, são vacinadas contra o saci. Rara é a que não traz uma cruz escavada no macarrão. Sem isto o saci divertir-se-ia fazendo-a ringir toda a noite ou abrindo-a inopinadamente diante do transeunte que a defronta, com grande escândalo e pavor deste, pois adivinharia logo o autor da amabilidade e o repeliria com esconjuros.

Os cães apavoram-se quando percebem um saci no terreiro, e uivam retransidos.

Refere um depoente o caso da Dona Evarista. Morava esta excelente senhora numa casinha de barro, já velha e buraquenta, em lugar bastante infestado. Certa noite ouviu a cachorrada prorromper em uivos lamentosos. Assustada, pulou da cama, enfiou a saia e, tonta de sono, foi à cozinha, cuja porta abria para o quintal. E lá estarreceu de assombro: um saci arreganhado erguia-se de pé na soleira da porta, dizendo-lhe com diabólica pacholice: Boa noite, dona Evarista! A veha perdeu a fala e desabou na terra-batida, só voltando a si pela manhã. Desde então nunca mais lhe saiu das ventas um certo cheirinho a enxofre…

Se fossem só essas aparições…

Mas o saci inventa mil coisas para azoinar a humanidade. Furta o piruá da pipóca deixado na peneira, entorna vasilhas d’água, enreda a linha dos novelos, desfaz os crochês, esconde os roletes de fumo.

Quando um objeto desaparece, dedal ou tesourinha, é inútil campeá-lo pela casa inteira. Para reavê-lo basta dar três nós numa palha colhida num rodamoinho e pô-la sob o pé da mesa. O saci, amarrado e imprensado, visibilizará incontinente o objeto em questão para que o libertem do suplício.

Rodamoinho… A ciência explica este fenômeno mecanicamente, pelo choque de ventos contrários e não sei mais que. Lérias! É o saci que os arma. Dá-lhe, em dias ventosos, a veneta de turbilhonar sobre si próprio como um pião. Brincadeira pura. A deslocação do ar produzida pelo giroscópio de uma perna só é que faz o remoinho, onde a poeira, as folhas secas e as palhinhas dançam em torno dele um corrupio infrene. Há mais coisa no céu e na terra do que sonha a tua ciência, Ganot!

Nessas ocasiões é fácil apanhá-lo. Um rosário de capim, bem manejado, laça-o infalivelmente. Também há o processo da peneira: é lançá-la, emborcada, sobre o núcleo central do rodamoinho. Exige-se, porém, que a peneira tenha cruzeta…

A figuração do saci sofre muitas variantes. Cada qual o vê a seu modo. Existem, todavia, traços comuns em relação aos quais as opiniões são unânimes: uma perna só, olhos de fogo, carapuça vermelha, ar brejeiro, andar pinoteante, cheiro a enxofre, aspecto de meninote. Uns têm-no visto de camisola de baeta, outros de calção curto; a maioria o vê nu.

Quanto ao caráter, há concordância em lhe atribuir um espírito mais inclinado à brejeirice do que à malvadez. Vem daí o misto de medo e simpatia que os meninos peraltas revelam pelo saci. É um deles – mais forte, mais travesso, mais diabólico; mas é sempre um deles o moleque endemoniado capaz de diabruras como as sonha a “saparia”.

A curiosidade despertada pelo inquérito do “Estadinho” denota como está generalizada entre nós a crendice. Raro é o brasileiro que não traz na memória a recordação da quadra saudosa em que “via sacis” e os tinha sempre presentes na imaginação exaltada. Convidados agora para falar sobre o duendezinho, todos impregnam seus depoimentos da nota pessoal das coisas vividas na infância. Referem-se a ele como a um velho conhecido que a vida, a idade e o discernimento fizeram perder de vista, mas não esquecer…

E – dubitativos uns, cépticos outros, afirmativos muitos – a conclusão de todos é a mesma: o Saci existe!…

– Como o Putois, de Anatole France?

Que importa? Existe. Deus e o Diabo ensinaram-lhe essa maneira subjetiva de existir…

Fontes:
http://contosdocovil.wordpress.com/2008/05/15/o-saci/
Imagem = http://brincandonaescola.blogspot.com

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Dicionários e sua Utilidade

Fonte de informação de uso freqüente e generalizado, o dicionário é extremamente útil. É a primeira obra de consulta a que recorremos para saber o significado de uma palavra, para checar sua ortografia e para conferir sua pronúncia exata ou sua categoria gramatical

Consulta ao dicionário enciclopédico

No dicionário enciclopédico é possível encontrar informações sobre os principais assuntos científicos, humanísticos e artísticos e também sobre a vida dos mais ilustres personagens das ciências e das artes, tudo organizado por ordem alfabética. Nomes de pessoas devem ser procurados pelo último sobrenome conhecido. Exemplo: Fernando Pessoa deve estar no verbete Pessoa, Fernando. No caso de pseudônimos, como Molière (Jean-Baptiste Poquelin), deve-se procurar pelo pseudônimo. Na lombada de cada volume existe geralmente a primeira e a última palavra tratada em cada tomo.

Alguns elementos permitem localizar a informação que procuramos num livro:
– Sumário ou índice geral, em que estão indicados os capítulos e subtítulos do livro, pela ordem em que aparecem
– Prólogo ou introdução, com dados e comentários sobre o autor e a obra. Às vezes convém ler o prólogo após a leitura do livro, para evitar que a opinião do comentarista influencie demasiadamente a nossa
– Índices (temático, de autores, de topônimos, de ilustrações). Geralmente eles se encontram no final do livro e permitem localizar alfabeticamente aquilo que procuramos, dando indicação da página
– Bibliografia, também ordenada alfabeticamente, indica outros textos em que o assunto foi tratado

Definição

O dicionário é uma obra que reúne por ordem alfabética e explica, de maneira ordenada, o conjunto de vocábulos de uma língua ou os termos próprios de uma ciência ou arte. Há também dicionários que explicitam o significado das palavras e a sua correspondência em outros idiomas. Esses livros especiais classificam-se de acordo com seus objetivos didáticos e finalidades a que se propõem.

Origens dos dicionários

Os dicionários existem desde os tempos antigos. Os gregos e romanos já recorriam a eles para solucionar dúvidas e esclarecer termos e conceitos. Esses primeiros dicionários não eram organizados alfabeticamente. Apenas reuniam definições de conteúdos lingüísticos ou literários. Só no final da Idade Média foi que começaram a aparecer dicionários e glossários organizados alfabeticamente. Quando as glosas desses manuscritos latinos ficaram muito numerosas, os monges passaram a ordená-las alfabeticamente para facilitar sua localização. Nasceu aí uma primeira tentativa de dicionário bilíngue latim-vernáculo. A invenção da imprensa, no século XV, deu novo impulso à difusão e ao uso dos dicionários.

Variedade

Há diferentes tipos de dicionário. Entre os mais comuns destacam-se:

Dicionários gerais da língua: em versão extensa ou adaptada a usos escolares. Contêm um grande número de palavras, definidas em suas várias acepções ou significados.
Dicionários etimológicos: trazem a origem de cada palavra, sua formação e evolução.
Dicionários de sinônimos e antônimos: definem o significado das palavras, apresentando as que são equivalentes ou afins –palavras sinônimas – e as de significados opostos – palavras antônimas.
Dicionários analógicos: reúnem as palavras por campos semânticos, ou por analogia a uma idéia. Não costumam ser organizados por ordem alfabética.
Dicionários temáticos: reúnem o vocabulário específico de determinada ciência, arte ou atividade técnica: Dicionário de Comunicação, de Astronomia e Astronáutica.
Dicionários de abreviaturas: muito úteis, facilitam a comunicação, principalmente nesta época repleta de abreviaturas e siglas.
Dicionários bilíngües ou plurilíngües: explicam o significado dos vocábulos estrangeiros e sua correspondência com os vocábulos nativos.

Há outros tipos de dicionário, que atendem às mais diversas finalidades: de dúvidas e dificuldades de uma língua, de frases feitas, de provérbios.

Os dicionários no Brasil

O Vocabulário Português, de Raphael Bluteau, lançado entre 1712 e 1728, é considerado a primeira tentativa bem-sucedida de edição de um dicionário da língua portuguesa. Entre os pioneiros destaca-se, porém, o Dicionário da Língua Portuguesa, de Antônio Moraes Silva. Publicado em Lisboa, em 1789, é reconhecido como o melhor e o mais completo dicionário da língua. A segunda edição desse Dicionário, enriquecida e publicada em 1813, é considerada a produção definitiva de Moraes Silva.

Entre os dicionaristas de produção mais recente sobressaem: Francisco Caldas Aulete (1823-1878), autor do Dicionário Caldas Aulete; Carolina Michaëlis de Vasconcelos (1851-1925), que escreveu Lições de Filologia Portuguesa; José Rodrigues Leite e Oiticica (1882-1957), autor de Estudos de Fonologia. Na segunda metade do século XX, destaca-se o trabalho de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira (1910-1989), que lançou a primeira edição do Novo Dicionário da Língua Portuguesa em 1975. A segunda edição revisada e ampliada é de 1986. A grande difusão dessa obra popularizou tanto o autor que seu nome tornou-se sinônimo de dicionário: Você me empresta um aurélio?

Organização dos dicionários


Remissões: em algumas palavras aparece ao final um V, abreviatura de Ver Também, que remete o leitor a outra palavra do dicionário.
Etimologia: origem da palavra, vem normalmente entre parênteses.
Significados especiais: são aqueles relativos às linguagens específicas.
Verbete: conjunto de informações, acepções e exemplos que dizem respeito a um vocábulo.
Acepções: cada palavra tem vários ou diferentes significados, as chamadas acepções. Elas especificam-se conforme a ordem escolhida em cada dicionário: a partir das acepções mais antigas ou por sua importância e uso mais freqüente. Pequenos números separam os diversos significados.
Categoria gramatical ou morfologia: aparece sempre abreviada.

Alguns exemplos de línguas especiais

Linguagem jurídica e administrativa

O campo do direito é muito amplo. Existe o direito civil, o penal, o administrativo, o mercantil, o canônico, o processual, entre outros. Essa diversificação resulta em um vocabulário muito variado e específico:

Características da linguagem jurídica
– Objetividade: é extremamente importante, pois a subjetividade dificultaria sua função social
– Amplitude: é necessário legislar para todos os cidadãos
– Clareza e concisão: ela precisa ser compreendida por todos os interlocutores

Terminologia jurídica e administrativa
– Palavras obtidas da linguagem cotidiana: extrajudicial, decreto-lei
– Palavras e expressões latinas: ab initio (desde o princípio); ipso facto (por isso mesmo); usufruto
– Termos arcaicos: débito (em vez de dívida)
– Fórmulas: em virtude do acordado…
– Abundância de apartes e citações

Linguagem bancária

O sistema bancário, dedicado a negociar dinheiro e realizar outras operações comerciais e financeiras, tem um léxico próprio:

Léxico bancário
– Investimento: aplicação de capitais em títulos
– Crédito: empréstimo de dinheiro
– Juros: valor pago pelo empréstimo recebido
– CDB: Certificado de Depósito Bancário

Linguagem da informática

A informática é um campo de atividade que se ocupa do tratamento da informação em um meio físico automatizado, o computador. Sua linguagem, bastante específica, vem-se incorporando com rapidez à língua cotidiana:

Léxico da informática
– Computador: aparelho eletrônico de processamento de dados
– Hardware: conjunto de componentes físicos do computador
– Software: conjunto de programas do computador
– Programa: conjunto de instruções de uma linguagem de computador que permite solucionar um tipo determinado de problema
– Caracteres: símbolos utilizados para escrever dados e programas
– Bit: é o menor elemento de armazenamento de informação
– Byte: é a unidade mínima que representa um caractere ou número composto por 8 bits
– Programa-fonte: programa escrito pelo programador em linguagem simbólica: Assembler, Cobol, Fortran, Basic
– Entradas: dados e programas que podem ser colocados no computador
– Saídas: informação que o computador pode nos dar depois de processar os dados
– Memória: dois tipos de memória: ROM (Read Only Memory) – armazena a informação que controla o funcionamento do computador – e RAM (Random Access Memory) – pode-se ler e atualizar a informação por meio dos programas instalados no computador

Linguagem do cinema e da teledramaturgia

Os métodos e técnicas empregados no cinema e na teledramaturgia possuem uma linguagem variada e bastante característica:

Léxico do cinema e da teledramaturgia
– Tema e argumento: mensagem do filme, apresentada em seqüências e cenas
– Roteiro cinematográfico: apresenta os diálogos, situações dos personagens, movimentos das câmeras, planos, iluminação e sons
– Planos:
Grande plano geral (GPG) – enquadramento geral da paisagem
Plano geral (PG) – apresentação dos personagens no local da ação
Primeiro plano (PP) – a câmera destaca apenas uma parte do assunto; no caso de personagens, enquadra somente ou rosto ou as mãos
Primeiríssimo plano (PPP) – tomada bem próxima, isolando um detalhe. Também chamado plano de detalhe
Plano americano – enquadramento dos personagens a meio-corpo; utilizado nos diálogos
– Pausas dramáticas: fundido em preto (a câmera se fecha numa mancha preta para passar de uma seqüência a outra), encadeamento (junção de cenas) e corte (separação de duas cenas)
– Ângulo da câmera: posição da câmera em relação ao tema

Linguagem publicitária

Tem por objetivo informar o público consumidor sobre as características e utilidades de um determinado produto, com o objetivo de induzi-lo ao consumo. Além dos cartazes e folhetos, que são seus meios próprios, a imprensa, o rádio e a televisão são os canais de divulgação privilegiados dessa linguagem:

Características da linguagem publicitária

A mensagem publicitária deve ser:
– Visível: para tanto lança mão das fotografias, do jogo de cores, da variedade de letras e símbolos
– Fácil de lembrar: por meio de jogos de palavras e slogans fáceis de memorizar
– Legível
– Impactante

Uso dos dicionários

Todo dicionário tem sua organização e suas finalidades explicadas em um prólogo. É importante lê-las para saber como aproveitar todas as possibilidades da obra. Embora as informações sobre a língua em seu conjunto sejam objeto dos dicionários gerais – de palavras e enciclopédicos –, vários dicionários especializados podem trazer um enfoque lingüístico (dicionários de sinônimos, analógicos, etimológicos) ou enciclopédico (dicionários de psicologia, de informática, de cinema, de literatura). Os dicionários, além disso, geralmente trazem como apêndice, no começo ou no final, uma lista das abreviaturas utilizadas e dos sinais de pontuação específicos. Conhecê-los também facilita o manuseio.

Funções dos dicionários gerais

Suas principais funções são:
– Definir o significado das palavras e sua representação ortográfica.
– Informar a etimologia das palavras, explicando se elas se originam do latim, do grego, do árabe, de alguma outra língua antiga ou se é o caso de empréstimo de alguma língua estrangeira moderna.
– Informar a categoria gramatical da palavra (substantivo, verbo, pronome etc.) e outros aspectos gramaticais (gênero, número).
– Auxiliar, como instrumento de estudo de uma língua estrangeira.
– Ajudar a uniformizar e manter a unidade da língua.

Fontes
http://www.portrasdasletras.com.br/pdtl2/sub.php?op=dicionarios/docs/origemdicionario
http://www.klickeducacao.com.br

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Lima Barreto (O Número da Sepultura)

Que podia ela dizer, após três meses de casada, sobre o casamento? Era bom? Era mau? Não se animava a afirmar nem uma coisa, nem outra. Em essência, “aquilo” lhe parecia resumir-se em uma simples mudança de casa.

A que deixara não tinha mais nem menos cômodos do que a que viera habitar; não tinha mais “largueza”; mas a ” nova” possuía um jardinzito minúsculo e uma pia na sala de jantar.

Era, no fim de contas, a diminuta diferença que existia entre ambas.

Passando da obediência dos pais, para a do marido, o que ela sentia, era o que se sente quando se muda de habitação.

No começo, há nos que se mudam, agitação, atividade; puxa-se pela idéia, a fim de adaptar os móveis à casa “nova” e, por conseguinte, eles, os seus recentes habitantes também; isso, porém, dura poucos dias.

No fim de um mês, os móveis já estão definitivamente ” ancorados”, nos seus lugares, e os moradores se esquecem de que residem ali desde poucos dias.

Demais, para que ela não sentisse, profunda modificação, no seu viver, advinda com o casamento, havia a quase igualdade de gênios e hábitos de seu pai e seu marido.

Tanto um como outro, eram corteses com ela; brandos no tratar, serenos, sem impropérios, e ambos, também, meticulosos, exatos e metódicos. Não houve, assim, abalo algum, na sua transplantação de um lar para outro.

Contudo, esperava, no casamento alguma coisa de inédito até ali, na sua existência de mulher: uma exuberante e contínua satisfação de viver.

Não sentiu, porém, nada disso.

O que houve de particular na sua mudança de estado, foi insuficiente para lhe dar uma sensação nunca sentida da vida e do mundo. Não percebeu nenhuma novidade essencial…

Os céus cambiantes, com o rosado e dourado de arrebóis, que o casamento promete a todos, moços e moças; não os vira ela. O sentimento de inteira liberdade, com passeios, festas, teatros, visitas — tudo que se contém para as mulheres, na idéia de casamento, durou somente a primeira semana de matrimônio.

Durante ela, ao lado do marido, passeara, visitara, fora a festas, e a teatros; mas assistira todas essas coisas, sem muito se interessar por elas, sem receber grandes ou profundas emoções de surpresa, e ter sonhos fora do trivial da nossa mesquinha vida terrestre. Cansavam-na até! No começo, sentia alguma alegria e certo contentamento; por fim, porém, veio o tédio por elas todas, a nostalgia da quietude de sua casa suburbana, onde vivia à négligé e podia sonhar, sem desconfiar que os outros Lhe pudessem descobrir os devaneios crepusculares de sua pequenina alma de burguesia, saudosa e enfumaçada.

Não era raro que também ocorresse saudades da casa paterna, provocadas por aquelas chinfrinadas de teatros ou cinematográficas. Acudia-lhe, com indefinível sentimento, a 1embrança de velhos móveis e outros pertences familiares da sua casa paterna, que a tinham visto desde menina. Era uma velha cadeira de balanço de jacarandá; era uma leiteira de louça, pintada de azul, muito antiga; era o relógio sem pêndulo, octogonal, velho também; e outras bugigangas domésticas que, muito mais fortemente do que os móveis e utensílios adquiridos recentemente, se haviam gravado na sua memória.

Seu marido era um rapaz de excelentes qualidades matrimoniais, e não havia, no nebuloso estado d’alma de Zilda, nenhum desgosto dele ou decepção que ele lhe tivesse causado.

Morigerado, cumpridor exato dos seus deveres, na seção de que era chefe seu pai, tinha todas as qualidades médias, para ser um bom chefe de família, cumprir o dever de continuar a espécie e ser um bom diretor de secretaria ou repartição outra, de banco ou de escritório comercial.

Em compensação, não possuía nenhuma proeminência de inteligência ou de ação. Era e seria sempre uma boa peça de máquina, bem ajustada, bem polida e que, lubrificada convenientemente, não diminuiria o rendimento daquela, mas que precisava sempre do motor da iniciativa estranha, para se pôr em movimento.

Os pais de Zilda tinham aproximado os dois; a avó, a quem a moça estimava deveras, fizera as insinuações de praxe; e, vendo ela que a coisa era do gosto de todos, por curiosidade mais do que por amor ou outra coisa parecida, resolveu-se a casar com o escriturário de seu pai. Casaram-se, viviam muito bem. Entre ambos, não havia a menor rusga, a menor desinteligência que lhes toldasse a vida matrimonial; mas não existia também como era de esperar, uma profunda e constante penetração, de um para o outro e vice-versa, de desejos, de sentimentos, de dores e alegrias.

Viviam placidamente numa tranqüilidade de lagoa, cercada de altas montanhas, por entre as quais os ventos fortes não conseguiam penetrar, para encrespar-lhe as águas mortas.

A beleza do viver daquele novel casal, não era ter conseguido de duas fazer uma única vontade; estava em que os dois continuassem a ser cada um uma personalidade, sem que, entanto, encontrassem nunca motivo de conflito, o mais ligeiro que fosse. Uma vez, porém.. Deixemos isso para mais tarde… O gênio e a educação de ambos muito contribuíam para tal.

O marido, exato burocrata, era cordato, de temperamento calmo, ponderado e seco que nem uma crise ministerial. A mulher era quase passiva e tendo sido educada na disciplina ultra-regrada e esmeriladora de seu pai, velho funcionário, obediente aos chefes, aos ministros, aos secretários destes e mais bajuladores, às leis e regulamentos, não tinha assomos nem caprichos, nem fortes vontades. Refugiava-se no sonho e, desde que não fosse multado, estava por tudo.

Os hábitos do marido eram os mais regulares e executados, sem a mínima discrepância. Erguia-se do leito muito cedo, quase ao alvorecer, antes mesmo da criada, a Genoveva, levantar-se da cama. Pondo-se de pé, ele mesmo coava o café e, logo que estava pronto, tomava uma grande xícara.

Esperando o jornal (só comprava um), ia para o pequeno jardim, varria-o, amarrava as roseiras e craveiros, nos espeques, em seguida, dava milho às galinhas e pintos e tratava dos passarinhos.

Chegando o jornal, lia-o meticulosamente, organizando, para uso do dia, as suas opiniões literárias, científicas, artísticas, sociais e, também, sobre a política internacional e as guerras que havia pelo mundo.

Quanto à política interna, construía algumas, mas não as manifestava a ninguém, porque quase sempre eram contra o governo e ele precisava ser promovido.

Às nove e meia, já almoçado e vestido, despedia-se da mulher, com o clássico beijo, e lá ia tomar o trem. Assinava o ponto, de acordo como regulamento, isto é, nunca depois das dez e meia.

Na repartição, cumpria religiosamente os seus sacratíssimos deveres de funcionário.

Sempre foi assim; mas, após o casamento, aumentou de zelo, a fim de pôr a seção do sogro que nem um brinco, em questão de rapidez e presteza no andamento e informações de papéis.

Andava pelas bancas dos colegas, pelos protocolos, quando o serviço lhe faltava e se, nessa correção, topava com expediente em atraso, não hesitava: punha-se a “desunhar”.

Acontecendo-lhe isto, ao sentar-se à mesa, para jantar, já em trajes caseiros, apressava-se em dizer a mulher — Arre ! Trabalhei hoje, Zilda, que nem o diabo ! — Porque ? — Ora, porque? Aqueles meus colegas são uma pinóia…

— Que houve ? — Pois o Pantaleão não está com o protocolo dele, o da Marinha, atrasado de uma semana? Tive que o pôr em dia…

— Papai foi quem te mandou? — Não; mas era meu dever, como genro dele, evitar que a seção que ele dirige, fosse tachada de relaxada. Demais não posso ver expediente atrasado…

— Então, esse Pantaleão falta muito? — Um horror ! Desculpa-se com estar estudando direito. Eu também estudei, quase sem faltas.

Com semelhantes notícias e outras de mexericos sobre a vida íntima, defeitos morais e vícios dos colegas, que ele relatava à mulher, Zilda ficou enfronhada no viver da diretoria em que funcionava seu marido, tanto no aspecto puramente burocrático, como nos da vida particular e famílias dos respectivos empregados.

Ela sabia que o Calçoene bebia cachaça; que o Zé Fagundes vivia amancebado com uma crioula, tendo filhos com ela, um. dos quais com concurso e ia ser em breve colega do marido; que o Feliciano Brites das Novas jogava nos dados todo o dinheiro que conseguia arranjar que a mulher do Nepomuceno era amante do General T., com auxílio do qual ele preteria todos nas promoções, etc., etc.

O marido não conversava com Zilda senão essas coisas da repartição; não tinha outro assunto para palestrar com a mulher.Com as visitas e raros colegas com quem discutia, a matéria da conversação eram coisas patrióticas: as forças de terra e mar, as nossas riquezas naturais, etc.

Para tais argumentos tinha predileção especial e um especial orgulho em desenvolvê-los com entusiasmo. Tudo o que era brasileiro era primeiro do mundo ou, no mínimo, da América do Sul. E — ai! — de quem o contestasse; levava uma sarabanda que resumia nesta frase clássica: — É por isso que o Brasil não vai para adiante. O brasileiro é o maior inimigo de sua pátria.

Zilda, pequena burguesa, de reduzida instrução e, como todas as mulheres, de fraca curiosidade intelectual quando o ouvia discutir assim com os amigos, enchia-se de enfado e sono; entretanto, gostava das suas alcovitices sobre os lares dos colegas…

Assim ela ia repassando a sua vida de casada, que já tinha mais de três meses feitos, na qual, para quebrar-lhe a monotonia e a igualdade, só houvera um acontecimento que a agitara, a torturara, mas, em compensação, espantara por algumas horas o tédio daquele morno e plácido viver. É preciso contá-lo.

Augusto — Augusto Serpa de Castro — tal era o nome de seu marido — tinha um ar mofino e enfezado; alguma coisa de índio nos cabelos muito negros, corredios e brilhantes, e na tez acobreada. Seus olhos eram negros e grandes, com muito pouca luz, mortiços e pobres de expressão, sobretudo de alegria.

A mulher, mais moça do que ele uns cinco ou seis anos, ainda não havia completado os vinte. Era de uma grande vivacidade de fisionomia, muito móbil e vária, embora o seu olhar castanho claro tivesse, em geral, uma forte expressão de melancolia e sonho interior. Miúda de feições, franzina, de boa estatura e formas harmoniosas, tudo nela era a graça do caniço, a sua esbelteza, que não teme os ventos, mas que se curva à força deles com mais elegância ainda, para ciciar os queixumes contra o triste fado de sua fragilidade, esquecendo-se, porém, que é esta que o faz vitorioso.

Após o casamento, vieram residir na Travessa das Saudades, na estação.

É uma pitoresca rua, afastada alguma coisa das linhas da Central, cheia de altos e baixos, dotada de uma caprichosa desigualdade de nível, tanto no sentido longitudinal como no transversal.

Povoada de árvores e bambus, de um lado e outro, correndo quase exatamente de norte para sul, as habitações do lado do nascente, em grande número, somem-se na grota que ela forma, com o seu desnivelamento; e mais se ocultam debaixo dos arvoredos em que os Cipós se tecem.

Do lado do poente, porém, as casas se alteiam e, por cima das de defronte, olham em primeira mão a Aurora, com os seus inexprimíveis cambiantes de cores e matizes.

Como no fim do mês anterior, naquele outro, o segundo término de mês depois do seu casamento, o bacharel Augusto, logo que recebeu os vencimentos e conferiu as contas dos fornecedores, entregou o dinheiro necessário à mulher, para pagá-los, e também a importância do aluguel da casa.

Zilda apressou-se em fazê-lo ao carniceiro, ao padeiro e ao vendeiro; mas, o procurador do proprietário da casa em que moravam, demorou-se um pouco. Disso, avisou o marido, em certa manhã, quando ele lhe dava uma pequena quantia para as despesas com o quitandeiro e outras miudezas caseiras. Ele deixou o importe do aluguel com ela.

Havia já quatro dias que ele se havia vencido; entretanto, o preposto do proprietário não aparecia.

Na manhã desse quarto dia, ela amanheceu alegre e, ao mesmo tempo apreensiva.

Tinha sonhado; e que sonho ! Sonhou com a avó, a quem amava profundamente e que desejara muito o seu casamento com Augusto. Morrera ela poucos meses antes de realizar-se o seu enlace com ele; mas ambos já eram noivos.

Sonhara a moça com o número da sepultura da avó — 1724; e ouvira a voz dela, da sua vovó, que lhe dizia: “Filha, joga neste número ! ” O sonho impressionou-a muito; nada, porém, disse ao marido. Saído que ele foi para a repartição, determinou à criada o que tinha a fazer e procurou afastar da memória tão estranho sonho.

Não havia, entretanto, meios para conseguir isso. A recordação dele estava sempre presente ao seu pensamento, apesar de todos os seus esforços em contrário.

A pressão que lhe fazia no cérebro a 1embrança do sonho, pedia uma saída, uma válvula de descarga, pois já excedia a sua força de contenção. Tinha que falar, que contar, que comunicá-lo a alguém…

Fez confidência do sucedido à Genoveva. A cozinheira pensou um pouco e disse: — Nhanhã: eu se fosse a senhora arriscava alguma coisa no “bicho”.

— Que “bicho” é ? — 24 é cabra; mas não deve jogar só por um lado. Deve cercar por todos e fazer fé na dezena, na centena, até no milhar. Um sonho destes não é por aí coisa à toa.

— Você sabe fazer a lista? — Não, senhora. Quando jogo é o Seu Manuel do botequim quem faz ” ela”. mas a vizinha, Dona Iracema, sabe bem e pode ajudar a senhora.

— Chame ” ela” e diga que quero lhe falar.

Em breve chegava a vizinha e Zilda contou-lhe o acontecido.

Dona Iracema refletiu um pouco e aconselhou: — Um sonho desses, menina, não se deve desprezar. Eu, se fosse a vizinha, jogava forte.

— Mas, Dona Iracema, eu só tenho os oitenta mil-réis para pagar a casa. Como há de ser? A vizinha cautelosamente respondeu: — Não lhe dou a tal respeito nenhum conselho. Faça o que disser o seu coração; mas um sonho desses…

Zilda que era muito mais moça que Iracema, teve respeito pela sua experiência e sagacidade. Percebeu logo que ela era favorável a que ela jogasse. Isto estava a quarentona da vizinha, a tal Dona Iracema, a dizer-lhe pelos olhos.

Refletiu ainda alguns minutos e, por fim, disse de um só hausto: — Jogo tudo.

E acrescentou: — Vamos fazer a lista – não é Dona Iracema? — Como é que a senhora quer? — Não sei bem. A Genoveva é quem sabe.

E gritou, para o interior da casa: — O Genoveva! Genoveva! Venha cá, depressa! Não tardou que a cozinheira viesse. Logo que a patroa lhe comunicou o embaraço, a humilde preta apressou-se em explicar: — Eu disse a nhanhã que cercasse por todos os lados o grupo, jogasse na dezena, na centena e no milhar.

Zilda perguntou à Dona Iracema: — A senhora entende dessas coisas? — Ora! Sei muito bem. Quanto quer jogar? — Tudo ! Oitenta mil-réis ! — É muito, minha filha. Por aqui não há quem aceite. Só se for no Engenho de Dentro, na casa do Halavanca, que é forte. Mas quem há de levar o jogo? A senhora tem alguém? — A Genoveva.

A cozinheira, que ainda estava na sala, de pé, assistindo os preparativos de tão grande ousadia doméstica, acudiu com pressa: — Não posso ir, nhanhã. Eles me embrulham e, se a senhora ganhar, a mim eles não pagam. É preciso pessoa de mais respeito.

Dona Iracema, por aí, lembrou : — É possível que o Carlito tenha vindo já de Cascadura, onde foi ver a avó… Vai ver, Genoveva! A rapariga foi e voltou em companhia do Carlito, filho de Dona Iracema. Era um rapagão dos seus dezoito anos, espadaúdo e saudável.

A lista foi feita convenientemente; e o rapaz levou-a ao “banqueiro”.

Passava de uma hora da tarde, mas ainda faltava muito para as duas. Zilda lembrou-se então do cobrador da casa. Não havia perigo. Se não tinha vindo até ali, não viria mais.

Dona Iracema foi para a sua casa; Genoveva foi para a cozinha e Zilda foi repousar daqueles embates morais e alternativas cruciantes, provocados pelo passo arriscado que dera. Deitou-se já arrependida do que fizera.

Se perdesse, como havia de ser? O marido… sua cólera… as repreensões… Era uma tonta, uma doida… Quis cochilar um pouco; mas logo que cerrou os olhos, lá viu o número — 1724. Tomava-se então de esperança e sossegava um pouco da sua ânsia angustiosa.

Passando, assim, da esperança ao desânimo, prelibando a satisfação de ganhar e antevendo os desgostos que sofreria, caso perdesse — Zilda, chegou até à hora do resultado, suportando os mais desencontrados estados de espírito e os mais hostis ao seu sossego. Chegando o tempo de saber “o que dera” , foi até à janela. De onde em onde, naquela rua esquecida e morta, passava uma pessoa qualquer.

Nesse ínterim, surge o Carlito a gritar: — Dona Zilda! Dona Zilda! A senhora ganhou, menos no milhar e na centena.

Não deu um “ai” e ficou desmaiada no sofá da sua modesta sala de visitas.

Voltou em breve a si, graças às esfregações de vinagre de Dona Iracema e de Genoveva. Carlito foi buscar o dinheiro que subia a mais de dous contos de réis. Recebeu-o e gratificou generosamente o rapaz, a mãe dele e a sua cozinheira, a Genoveva. Quando Augusto chegou, já estava inteiramente calma. Esperou que ele mudasse de roupa e viesse à sala de jantar, a fim de dizer-lhe: — Augusto: se eu tivesse jogado o aluguel da casa no “bicho”. — você ficava zangado? — Por certo! Ficaria muito e havia de censurar você com muita veemência, pois que uma dona de casa não…

— Pois, joguei.
— Você fez isto, Zilda? — Fiz.
— Mas quem virou a cabeça de você para fazer semelhante tolice? Você não sabe que ainda estamos pagando despesas do nosso casamento? — Acabaremos de pagar agora mesmo.
— Como? Você ganhou? — Ganhei. Está aqui o dinheiro.
Tirou do seio o pacote de notas e deu-o ao marido, que se tornara mudo de surpresa. Contou as pelejas muito bem, levantou-se e disse com muita sinceridade. abraçando e beijando a mulher..

— Você tem muita sorte. É o meu anjo bom.

E todo o resto da tarde, naquela casa, tudo foi alegria.

Vieram Dona Iracema, o marido, o Carlito, as filhas e outros vizinhos.

Houve doces e cervejas. Todos estavam sorridentes, palradores; e o contentamento geral só não desandou em baile, porque os recém-casados não tinham piano. Augusto deitou patriotismo com o marido de Iracema.

Entretanto, por causa das dúvidas, no mês seguinte, quem fez os pagamentos domésticos foi ele próprio, Augusto em pessoa.

Fontes:
– Revista Sousa Cruz. Rio de Janeiro. maio 1921.
– Imagem = http://profiles.friendster.com

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Robert Frost (O Poeta no Papel)

A ESTRADA NÃO TRILHADA

Num bosque, em pleno outono, a estrada bifurcou-se,
mas, sendo um só, só um caminho eu tomaria.
Assim, por longo tempo eu ali me detive,
e um deles observei até um longe declive
no qual, dobrando, desaparecia…
Porém tomei o outro, igualmente viável,
e tendo mesmo um atrativo especial,
pois mais ramos possuía e talvez mais capim,
embora, quanto a isso, o caminhar, no fim,
os tivesse marcado por igual.
E ambos, nessa manhã, jaziam recobertos
de folhas que nenhum pisar enegrecera.
O primeiro deixei, oh, para um outro dia!
E, intuindo que um caminho outro caminho gera,
duvidei se algum dia eu voltaria.
Isto eu hei de contar mais tarde, num suspiro,
nalgum tempo ou lugar desta jornada extensa:
a estrada divergiu naquele bosque – e eu
segui pela que mais ínvia me pareceu,
e foi o que fez toda a diferença.
––––––––––––––
A FAMÍLIA DA ROSA

A rosa é uma rosa
E sempre foi rosa.
Mas hoje se usa
Crer que a pêra é rosa
E a maçã vistosa
E a ameixa, uma rosa.
Pergunta a amorosa
Que mais será rosa.
Você, claro, é rosa –
Mas sempre foi rosa.
––––––––––––––
NUM CEMITÉRIO EM DESUSO

O vivos vêm pisando a grama,
vêm ler no morro as inscrições;
o cemitério ainda os atrai;
os mortos é que não vêm mais.
Os versos nele se repetem:
“Aqueles que hoje vivos vêm
a ler as pedras e se vão
mortos é que amanhã virão.”
Certas da morte as lousas rimam,
mas não sem deixar de notar
que nenhum morto já não vem.
Do que é que os homens medo têm?
Seria fácil ser esperto
e lhes dizer: “Eles detestam
a morte, e já não entram nela.”
Talvez caíssem na esparrela.
––––––––––––––
EM WOODWARD’S GARDENS

Por mera conjetura, um menino acercou-se
certa vez de uma jaula e expôs a dois macacos
uma lente de aumento – objeto que macacos
não podem compreender, nem podem ser levados
a compreender, por mais que se empreguem palavras
ou que se diga que tais lentes são capazes
de concentrar num ponto as radiações do sol.
Mas, para lhes mostrar a arma em funcionamento,
ele fez um pontinho em cima do nariz
do primeiro macaco e, após, do outro, gerando
uma névoa de espanto em seus olhos perplexos,
que piscadela alguma alcançou dissipar.
De braços dados junto às grades, os macacos,
com grande confusão, olhavam para a vida.
Um levou ao nariz uma mão pensativa,
como se recordasse – ou como se estivesse
parado a alguns milhões de anos de alguma idéia.
Atingiram-se os nós de seus rosados dedos.
O já sabido foi outra vez confirmado
por meio dessa experiência psicológica.
E então a descoberta acabaria nisso,
não houvesse o menino, em suas conjeturas,
se demorado tanto e aproximado tanto.
Como um relâmpago de braço, houve um puxão,
e agora era do símio o que foi do menino.
Correram, num tropel, para o fundo da cela
e deram logo início a uma investigação
por conta própria e sem a intuição necessária.
Perscrutaram o gosto, a mordiscar a lente;
destroçaram o cabo e a argola que o prendia.
E, não mais sábios, desistiram em seguida.
E eis que, ocultando-a sob a palha onde dormiam,
na ampla modorra de outro dia de prisão,
voltaram novamente às grades, com secura,
a si mesmos dizendo: E quem disse que importa
o que os macacos compreendem, e o que não?
Podem não compreender o vidro que incendeia.
Podem não compreender a luz do próprio sol.
Saber o que fazer das coisas é que conta.
––––––––––––––
UM PÁSSARO MENOR

Quis, de fato, que o pássaro voasse
E próximo ao meu lar não mais cantasse.
Cheguei à porta para afugentá-lo,
Por sentir-me incapaz de suportá-lo.
Penso que a inteira culpa fosse minha,
E não do pássaro ou da voz que tinha.
O erro estava, decerto, na aflição
De querer silenciar uma canção.

(Tradução de Renato Suttana)
––––––––––––––
MURO REMENDADO

Alguma coisa existe que não aprecia o muro,
Que enfia bojos de terra gelada por baixo,
E derrama as pedras superiores ao sol,
E faz buracos onde até dois podem passar abraçados.
O trabalho dos caçadores é outra coisa:
Eu cheguei depois deles e fiz a reparação
Onde não deixaram pedra sobre pedra,
Mas conseguiram pôr a lebre fora do esconderijo,
Para deleitar cães latidores. As brechas, quero dizer,
Ninguém as viu fazer ou as ouviu fazer,
Mas na época primaveril dos arranjos encontramo-as lá,
faço o meu vizinho saber para lá da colina;
E um dia encontramo-nos para percorrer a linha
E assentarmos o muro outra vez entre nós.
Mantemos o muro entre nós enquanto avançamos.
A cada um as pedras que caíram para cada um.
E algumas são formas e outras são tão como bolas
Que temos de usar um feitiço para as equilibrar:
“Fica onde estás até voltarmos as costas!”
Ficamos com os dedos ásperos de as manipular.
Oh, somente outro género de jogo ao ar livre,
Um de cada lado. Mas vai mais longe:
Aí onde se encontra, nós não precisamos de muro:
Ele é todo pinheiros e eu sou um pomar de maçãs.
As minhas macieiras nunca atravessarão
Para comer os cones sob os seus pinheiros, digo-lhe eu.
Ele só me diz, “Boas cercas fazem bons vizinhos.”
A primavera instiga-me e pergunto-me
Se lhe posso despertar a razão:
“Porque razão fazem bons vizinhos? Isso não é
Onde existem vacas? Mas aqui não há vacas.
Antes de construir um muro eu inquiriria para saber
O que estaria a incluir ou a excluir,
E a quem era suposto ofender.
Alguma coisa existe que não aprecia o muro,
Que o quer no chão”. Poderia dizer-lhe “duendes”,
Mas não são duendes exactamente, e eu prefiro
Que ele o diga a si próprio. Vejo-o por ali,
A agarrar uma pedra com firmeza pelo topo
Em cada mão, como um antigo selvagem armado de pedras.
Move-se na escuridão e parece-me,
Não apenas a das florestas e a da sombra das árvores.
Ele não irá atrás do dito de seu pai,
Gosta de ter pensado naquilo tão bem
E diz novamente, “Boas cercas fazem bons vizinhos.”
––––––––––––––

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Robert Frost (1874 – 1963)

Robert Lee Frost (San Francisco, Califórnia, 26 de março de 1874 – 29 de janeiro de 1963) foi um dos mais importantes poetas dos Estados Unidos do século XX. Frost recebeu quatro prêmios Pulitzer.

O pai bebia, jogava e era excêntrico e irascível. A mãe era o oposto: religiosa e culta, foi quem apresentou ao filho o mundo da literatura. Com a morte do pai em 1885, a família muda-se para a Nova Inglaterra, região à qual Frost e sua poesia seriam permanentemente associados no futuro (embora o poeta também tenha passado longas temporadas em Michigan e na Flórida).

Em 1890, publica seu primeiro poema, começa a dar aulas e realiza pequenos serviços em fazendas e moinhos. A vida que levava nesse período moldou sua personalidade poética: Frost foi um dos poetas norte-americanos que melhor combinou em seus versos o popular e o moderno, o local e o universal.

Em 1895, inicia-se uma nova fase em sua vida: casa-se com Elinor White em 19 de dezembro; o primeiro filho nasce no ano seguinte (teria seis ao todo), e passa a envolver-se cada vez mais com a vida no campo: em 1901 já administra sua própria fazenda. Adquire o hábito de escrever seus poemas à noite, na mesa da cozinha. A partir de 1906, quando começa a lecionar em tempo integral na Pinkerton Academy, a vida profissional de Frost não se dissociaria mais do ramo das letras. Começa a proferir palestras e conferências, atividade que não abandonaria até a morte.

Entre 1912 e 1915 viveu na Inglaterra, país onde publicou seus dois primeiros livros de poemas, A Boy’s Will (1913) e North of Boston (1914). Os livros foram bem recebidos pela crítica européia, e Frost é apresentado a poetas famosos, como Ezra Pound, Ford Madox Ford e W. B. Yeats.

Em 1915 volta aos Estados Unidos, e no mesmo ano publica em seu país natal seus dois primeiros livros. Com a carreira literária cada vez mais sólida, recebe o Pulitzer em duas ocasiões (1924, por New Hampshire, e 1931, por Collected Poems).

A morte da esposa em 1938 e o suicídio da filha Carol em 1940 causaram um impacto tremendo em sua estabilidade emocional. Em 1941, muda-se para Cambridge, onde viveria pelo resto da vida, o tempo todo assessorado por sua secretária Kathleen Morrison (logo em seguida à morte da esposa, Frost a pedira em casamento, mas Kathleen recusou).

As viagens como conferencista incluíram uma visita ao Brasil (Rio de Janeiro e São Paulo) em agosto de 1954. Em 1957 volta a visitar a Europa, ocasião em que conhece grandes nomes da literatura da época: W. H. Auden, E. M. Forster, Cecil Day Lewis, Graham Greene. Plenamente reconhecido como um dos maiores poetas norte-americanos do século, Robert Frost morre em 29 de janeiro de 1963.

Obras

A produção literária de Frost é variada e abundante. Sua poesia inclui sonetos, poemas em forma de diálogo, poemas curtos, poemas longos. Escreveu três peças teatrais (A Way Out, In an Art Factory e The Guardeen). São numerosíssimos os registros de suas conferências. A correspondência, os ensaios e as histórias merecem o mesmo comentário. Frost tem a capacidade de dar um tratamento simples e ao mesmo tempo profundo a temas elementares (fogo, gelo, natureza), tirando verdadeiras “lições de moral” de suas observações do mundo natural (lições nem sempre otimistas, como se pode notar em Nothing Gold Can Stay). Tal traço, aliado à modernidade de sua linguagem (Frost era um defensor do uso da linguagem vernácula nas obras literárias), fez com que Frost jamais deixasse de figurar entre os escritores prediletos dos norte-americanos, ao lado de nomes como Whitman, Emerson e Thoreau. Seu poema The Road Not Taken é peça obrigatória em qualquer antologia poética de língua inglesa. Prova adicional de sua popularidade são as várias referências em filmes como Sociedade dos Poetas Mortos e Daunbailó. Um de seus poemas está no prefácio do livro Eclipse, de Stephenie Meyer, o terceiro livro da série Crepúsculo.

Fonte:
wikipedia

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Dan Brown (Anjos e Demonios)

Anjos e Demônios é um romance policial do escritor Dan Brown que conta a primeira aventura de Robert Langdon. É públicado pela editora Sextante.

Robert Langdon, um respeitado professor de simbologia de Harvard, recebe uma ligação de Maximilian Kohler, diretor do CERN, a organização européia para pesquisa nuclear, pedindo para que ele venha investigar a morte do fisíco Leonardo Vetra.

Robert Langdon aceita o convite e vai para a sede do CERN em Genebra,na Suíça.
Leonardo Vetra estava desenvolvendo um estudo sobre as anti-partículas, uma fonte de energia não poluente e que não contêm radioatividade. No entanto, as anti-partículas são instáveis e não podem entrar em contato com nada, nem mesmo com o ar.

Leonardo Vetra era religioso e acreditava que ciência e religião poderiam existir juntas e que o big-bang provaria o genesis na Bíblia.

Leonardo Vetra foi assassinado e sua invenção foi roubada e a marca dos Illuminati, uma fraternidade inimiga da igreja católica extinta a quatrocentos anos, foi gravada com ferro em brasa em seu corpo.

Robert Langdon conhece Vittoria Vetra, a filha de Leonardo Vetra, e ingresa em uma caçada para achar o experimento de Leonardo Vetra antes que os Illuminati usem-o para destruir a cidade do vaticano.

PERSONAGENS

ROBERT LANGDON
Robert Langdon é um fictício professor de simbologia de Harvard e o personagem princípal que é chamado por Maximilian Kohler para investigar a morte de Leonardo Vetra.

Quando chegou ao CERN, conheceu Vittoria Vetra, filha adotiva de Leonardo Vetra. Ao ver o corpo de Leonardo Vetra, ele fica chocado com o ambigrama dos Illuminati em seu peito. Esse seria um sinal de que os Illuminati ainda existem.

VITTORIA VETRA
Vittoria Vetra é a filha adotiva de Leonardo Vetra.

Ela foi abandonada por seus pais quando criança. Morava em um orfanato católico. Ela conheceu Leonardo Vetra, um jovem padre que tinha um interese por fisíca. Vittoria Vetra foi adotada por ele. Quando Leonardo Vetra recebeu um convite para trabalhar no CERN, eles se mudam para Genebra na Suiça.

MAXIMILIAN KOHLER
Maxmilian Kohler é o diretor do CERN. Perdeu o movimento das pernas e se locomove com uma cadeira de rodas.

Ele é conhecido como “Der König”que significa “o rei” em alemão

A Invalidez de Kohler deu-se de uma forma triste, explicando seu ódio por religiões. Kohler adoeceu gravemente quando criança, e seus pais não o deixavam ser assistido pois achavam que Deus o iria curar. Kohler quase morreu, não fosse um médico o ajuda-lo as escondidas.

CAMERLENGO VENTRESCA
Carlo Ventresca é o camerlengo em atividade quando ocorre a crise no Vaticano. Ventresca tinha um grande amor por sua mãe, Maria, a quem chamava de Bendita. Um dia na Igreja, Carlo distanciou-se dela para ver umas Imagens e uma bomba terrorista a atingiu. A partir daí ele foi adotao por um bispo, futuro papa, ingressou no exercito e no seminário. Ventresca é o vilão da história, se passando por um mestre Illuminatti ele planeja destruir a Igreja, pois descobriu que seu mentor, o PAPA, era seu verdadeiro pai. Ventresca o matou e bolou um plano diabólico para acabar com a Igreja.

FATOS

O CERN existe de fato e sua sede realmente fica em Genebra. O CERN foi responsável pela criação da Word Wide Web, a Internet.

A energia das anti-partículas é real. Ela pode ser o combustível do futuro, pois não é poluente e não contém radioatividade. As anti-partículas são instáveis e podem liberar uma energia de 20 quilotons, a mesma energia da bomba atômica. Isso a torna muito perigosa..

A fraternidade dos Illuminati realmente existiu. Era uma organização formada por intelectuais que discordavam das idéias da igreja.

Fonte:
wikipédia

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Dan Brown (1964)

(Exeter, 22 de Junho de 1964) é um escritor norte americano. Seu maior sucesso foi o polêmico best-seller O Código da Vinci, mas seus outros três livros também tiveram uma grande vendagem. É um dos escritores mais famosos no globo atualmente, tendo seus livros traduzidos e vendidos em grande escala em diversos lugares do mundo. Entre seus grandes feitos, está o de conseguir colocar seus quatro primeiros livros simultaneamente na lista de mais vendidos do The New York Times. Atualmente, encontra-se desenvolvendo um novo projeto, um livro ainda sem prazo para lançamento, The Solomon Key.

Nascido no estado de Nova Hampshire, sendo o mais velho de três filhos. Sua mãe Constance (Connie) foi uma musicista profissional, tocando órgão na igreja. Seu pai, Richard G. Brown, ensinava matemática para o Ensino Médio na Phillips Exeter Academy, um colégio interno particular, e escreveu o didático best-seller matemático Advanced Mathematics: Precalculus with Discrete Mathematics and Data Analysis, que foi muito utilizado no país.

Professores do colégio foram requisitados a viver no campus por diversos anos, então Brown e seus irmãos literalmente foram criados na escola. Na maior parte, o ambiente social foi o cristão. freqüentou a escola dominical, cantando no coro da igreja, e passou seus verões no acampamento da igreja. Seu próprio estudo foi em escolas públicas em Exeter até a 9ª série, até matricular-se em Phillips Exeter, assim como seus irmãos mais novos Valerie e Gregory quando chegaram suas vezes.

Após a graduação na Phillips Exeter em 1982, Brown entrou para o Amherst College, onde foi membro da Fraternidade Psi Upsilon. Durante seu primeiro ano em Amherst, foi à Europa para estudar História da Arte na Universidade de Sevilha, Espanha, onde começou a estudar seriamente os trabalhos de Leonardo Da Vinci, que mais tarde teriam importância crucial em um de seus romances.

Fonte:
wikipedia

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Lucilene Machado (Sequência de Sonho)

Por hoje, bastava-me uma garrafa de vinho para embriagar-me. Espírito dionísico para beber um sonho. Mas o cálice da realidade impede-me conquistar a eternidade do céu de uma boca ou de qualquer paraíso feito de suspiros e palavras. A razão não compreende a emoção. Embates e embustes. A paixão vale pelo silêncio que engloba. Vale por tudo que não conseguimos dizer, por tudo que não conseguimos perguntar, porque muitas vezes as perguntas não são possíveis.

Debruço-me sobre o parapeito de uma janela que não me pertence. Nada me pertence. Poucas pessoas no mundo são tão despidas quanto eu. Tenho uma nudez que fere. Uma nudez que quer ser dividida. É sublime doar um pedaço de si. Uma mutilação que constrói sonhos. Quantos sonhos seriam necessários para desvendar o mistério de um homem? Talvez nenhum. Pode-se desintegrar os átomos de um homem com atitudes. Com algum impulso de sangue latino pode-se brindar belas descobertas. Mas amor é outra coisa. Amor é o nome que eu persigo e pelo qual me perdi algumas vezes. Fui infeliz em todas as felicidades. Minha alma é uma capela vazia esperando por um anjo. Um anjo cheio de pecados a fazer-me confissões.

A lua rasteja o futuro por caminhos inexplorados. Quero estar suficientemente viva para trafegar com meus sonhos por esses desígnios. Já não estarei confinada num canto do mundo com essa sobrecarga de imagens. Já não estarei precisando pensar, precisando concentrar-me na amarração do texto que toma corpo de crônica. Isso estica minha angustia. Queria pensar sem formas, mas já não posso. Tudo acaba padronizado. O medo de decepcionar, o medo de não ter medo… Toda palavra tem seu preço. Sou vítima de um sistema coletivo de encadeamento de idéias. Até o amor tem suas terminologias. Até o amor tem suas ciências. Mas hoje estou incurável. Quero um amor de botequim. Amor sem pressa e sem causa. É porque é, porque tem de ser. Um amor sem história, acontecendo ao acaso, como se eu nunca tivesse sonhado isso.

De verdade, quando se vive milhares de noites, já não se pode precisar em que noite antiga, muito antiga, se plantou o sonho. Deve ser quando raspei as pernas pela primeira vez, calcei sapatos de salto e todo mundo percebeu, “Essa menina cresceu, tá virando mulher”. Estava concluído um ciclo. Nunca mais voltei ao sótão para brincar de bonecas. Voltei sim, para ver das alturas o destino que subia da terra. O destino tinha corpo e cheiro de homem. Senti vergonha do meu sentimento sem pudor. Vergonha dos meus pensamentos ousados. Meu corpo era um mar que precisava de muitos rios para satisfazê-lo. Era assim mesmo? Puberdade, ouvi na aula de ciências. Só não falaram da necessidade de simbiose de espírito. Mas, instintivamente iniciei a busca pelo amor real. Raramente o vivi por inteiro. Queria alcançar com a mão aquilo que está à altura da inteligência.

Mas essa memória afetiva me cansa! Poderia dizer que hoje estou pronta para o desafio, mas o amor tem viés que desconheço. Mal posso falar da anatomia. Tanta beleza em uma só. Tanto pecado num mesmo pecado. Resgate, remissão… Eros, Ágape, Fileu… gravitar em torno do outro… melhor mergulhar numa taça de vinho e lamber a emoção altruística (ou seria egoística?) de ter escrito esta página.

Fontes:
http://www.lunaeamigos.com.br/lucilene/indice.htm

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Joao Silverio Trevisan (Dois Corpos que Caem)

Por simples acaso, dois desconhecidos encontraram-se despencando juntos do alto do Edifício Itália, no centro de São Paulo.

– Oi – disse o primeiro, no alvoroçado início da queda. – Eu me chamo João. E você?

– Antônio – gritou o segundo, perfurando furiosamente o espaço.

E, só pra matar o tempo do mergulho, começaram a conversar.

– O que você faz aqui? – perguntou Antônio.

– Estou me matando – respondeu João. – E você?

– Que coincidência! Eu também. Espero que desta vez dê certo, porque é minha décima tentativa. Há anos venho tentando. Mas tem sempre um amigo, um desconhecido e até bombeiro que impede. Você afinal está se matando por quê?

– Por amor – respondeu João, sentindo o vento frio no rosto. – Eu, que amava tanto, fui trocado por um homem de olhos azuis. Infelizmente só tenho estes corriqueiros olhos castanhos…

– E não lhe parece insensato destruir a vida por algo tão efêmero como o amor? – ponderou Antônio, sentindo a zoada que o acompanhava à morte.

– Justamente. Trata-se de uma vingança da insensatez contra a lógica – gritou João num tom quase triunfante. – Em geral é a vida que destrói o amor. Desta vez, decidi que o amor acertaria contas com a vida!

– Poxa – exclamou Antônio – você fez do amor uma panacéia!

– Antes fosse – replicou João, com um suspiro. – Duvidoso como é, o amor me provocou dores horríveis. Nunca se sabe se o que chamamos amor é desamparo, solidão doentia ou desejo incontrolável de dominação. O que na verdade me seduz é que o amor destrói certezas com a mesma incomparável transparência com que o caos significante enfrenta a insignificância da ordem. Não, o amor não é solução para a vida. Mas é culminância. Morrer por ele me trouxe paz.
Ante o vertiginoso discurso, ambos tentaram sorrir contra a gravidade.

– E você, como se sente? – perguntou João a Antônio.

– Oh, agora estou plenamente satisfeito.

– Então por que busca a morte?

– Bom – respondeu Antônio – me assustou descobrir um fiasco primordial: que a razão tem demônios que a própria razão desconhece. Daí, preferi mergulhar de vez no mistério.

– Sim, da razão conheço demasiados horrores. Mas que mistério é esse tão importante a ponto de merecer sua vida?

– Não sei – respondeu Antônio. – Mistério é mistério.

– Mas morto você não desvendará o mistério! – protestou João.

– Por isso mesmo. O fundamental no mistério é aguçar contradições, e não desvendar. Matar-me, por exemplo, é bom na medida que me torna parte do enigma e, de certo modo, o agudiza. Tem a ver com a fé, que gera energias para a vida. Ou para a história, quem sabe…

– Taí um negócio que perdi: a fé. Deus para mim… – e João engasgou.

– Ora – revidou Antônio vivamente. – A fé nada tem a ver com Deus, que se reduziu a uma pobre estrela anã de energias tão concentradas que já nem sai do lugar. Deus desistiu de entender os homems, e virou também indagador. Sem Deus nem Razão, a única fé possível é mergulhar neste abismo do mistério total.

– Mas para isso é preciso ao menos saber onde está o mistério – insistiu João com os cabelos drapejando ao vento.

– Ué, o mistério está em mim, por exemplo, que me mato para coincidir comigo mesmo. Mas há mistério também em você: seu morrer de amor é o mais impossível ato de fé. Graças a ele, você participa do mistério. Porque se apaixonou pelos abismos. João olhou com olhos estatelados, ao compreender. E Antônio, que já faiscava na semi-realidade da vertigem, gritou com todas as forças:

– Há sobretudo este mistério maior de estarmos, na mesma hora e local, cometendo o mesmo gesto absurdo e despencando para a mesma incerteza, por puro acaso. Além de cúmplices, a intensidade deste mergulho nos tornou visionários. Você não vê diante de si o desconhecido? É que já estamos perfurando a treva.

E como tudo de fato reluzia, João também ergueu a voz:

– Sim, sim. É espantoso o brilho do absurdo.

– E agora – disse Antônio bem diante do rosto de João – falemos um pouco da permanência. Você gosta dos meus olhos azuis?

Foi quando os dois corpos se estatelaram na Avenida São Luiz.
———————–
Sobre o Autor
João Silvério Trevisan (Ribeirão Bonito, 23 de junho de 1944) é um escritor, jornalista, dramaturgo, tradutor, cineasta e ativista GLBT brasileiro. Até setembro de 2005 atuava como diretor da oficina literária do SESC. Assina uma coluna mensal na revista G Magazine.
Em Literatura = Testamento de Jônatas Deixado a David (1976); As Incríveis Aventuras de El Cóndor’ (1980); Em Nome do Desejo (1983); Vagas Notícias de Melinha Marchiotti (1984); Devassos no Paraíso (1986); O Livro do Avesso (1992); Ana em Veneza (1994); Troços & Destroços (1997); Seis Balas num Buraco Só: A Crise do Masculino (1998); Pedaço de Mim (2002).
Roteiro (adaptação)= Doramundo, obra de Geraldo Ferraz e direção de João Batista de Andrade (1º tratamento, 1977) – aclamado com o prêmio de melhor filme, cenografia e diretor no Festival de Gramado de 1978; A mulher que inventou o amor, de Jean Garrett (1981)
Teatro = Heliogábalo & Eu; Em Nome do Desejo; Troços & Destroços; Hoje é dia do Amor

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Literatura Africana

A África possui uma rica e variada literatura que foi se desenvolvendo através dos tempos. Sua literatura escrita esteve sempre em débito com a literatura oral, na qual se incluem os contos populares, frutos da imaginação popular cujos personagens mais famosos são a tartaruga, a lebre e a aranha, difundidos por todo o continente e também no Caribe, Estados Unidos e Brasil, como resultado do tráfico de escravos africanos.

A primeira literatura escrita aparece no norte da África e, assim como as obras do teólogo cristão Santo Agostinho e do historiador islâmico do século XIV Ibn Khaldun, apresenta fortes vínculos com as literaturas latina e árabe.

As primeiras obras escritas da África ocidental datam do século XVI e são fruto do trabalho de eruditos islâmicos sudaneses como Abd-al Rahman al-Sadi e Mahmud Kati. A primeira poesia escrita era de caráter religioso e o poeta mais relevante foi AbdulAh ibn Muhammed Fudi.

Na África oriental também nota-se a influência dos modelos árabes. Uma historia anônima da cidade-estado Kilwa Kisiwani, escrita por volta de 1520 em árabe, é o primeiro exemplo conhecido desta literatura. A primeira obra conhecida em swahili é o poema épico Utendi wa Tambuka (História de Tambuka), que data de 1728. Em torno do século XIX, a poesia swahili abandonou os temas árabes e adotou formas bantos como as canções rituais.

Os principais poemas escritos em swahili datam dos séculos XIX e XX. O poema religioso mais conhecido, Utendi wa Inkishafi (O despertar das almas), foi escrito por Sayyid Abdallah ibn Nasir. A tradição oral a respeito de Liyongo é retratada no poema épico Utendi wa Liyongo Fumo (Epopéia de Liyongo Fumo), escrito em 1913 por Muhammad ibn Abubakar.

Na África do Sul surgiram diversos poetas e romancistas de prestigio. Samuel E. K. Mqhayi é autor de uma abundante obra em língua e romancistas como Thomas Mofolo e Solomon T. Plaatje escreveram textos denunciando a ditadura dos brancos. Outros exilaram-se, como Peter Abrahams e Ezekiel Mphahlele.

Outros autores importantes são A. C. Jordan, o poeta zulu R. R. R. Dhlomo, Alex La Guma, Bloke Modisane, Lewis Nkosi e Dennis Brutus.

Os brancos sul-africanos cultivam uma longa tradição literária, tanto em africâner como em inglês. Entre os escritores figuram poetas como D. J. Opperman, Breyton Breytenbach, J. M. Coetzee, Olive Schreiner, Alan Stewart Paton, Doris Lessing, Nadine Gordimer — prêmio Nobel de Literatura em 1991 — e Athol Fugard.

A poesia tem sido a forma literária dominante entre os escritores africanos em língua francesa, como Léopold Sédar Senghor, Briago Diop e David Diopos, mas os romancistas em francês da África ocidental figuram entre os mais brilhantes do continente, como o guineano Camara Laye e os camaroneses Mongo Beti e Ferdinand Oyono. Entre os autores em língua inglesa destacam-se os nigerianos Amos Tuotola, Gabriel Okara, John Pepper Clark, Chinua Achebe, Wole Soyinka — agraciado com o prêmio Nobel de Literatura em 1986 —, William Conton (de Serra Leoa), o ganense Kofi Awoonor e Ayi Kwei Armah.

A literatura contemporânea da África oriental inclui importantes autores como os quenianos Josiah Kariuki, R. Mugo Gatheru, James Ngugi, Jean Joseph Rabearivelo (de Madagascar) e Shaaban Robert (nascido em Tanganica, atual Tanzânia). Uma das obras mais lidas na África oriental continua sendo curiosamente Júlio César, de Shakespeare, traduzida para swahili em 1966 pelo então presidente de Tanzânia Julius Nyerere.

Fontes:
Portal Literário
Imagem = Professor Paulinho

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Edgar Allan Poe (Al Aaraaf)

Parte I

Oh! nada de terrestre além da luz
do olhar (que em cada flor se reproduz)
da Beleza, tal como em jardins, onde o dia
de gemas circassianas se desata;
oh! nada de terrestre, além da melodia
trêmula do regato dentre a mata;
ou (música de apaixonado peito)
o canto de um prazer suavemente desfeito
de que o eco há de, eterno, perdurar,
como vive na concha a saudade do mar;
nenhuma dor terrena, alanceante;
porém toda a beleza e cada flor
que o bosque enfeita e escuta o nosso amor,
é que adornam o mundo tão distante
daquela estrela errante.

Para Nesace era esse um tempo abençoado,
pois de quatro brilhantes sóis bem perto
o seu mundo oscilava no ar dourado…
Repouso efêmero… Oásis num deserto
de venturas… e longe, longe, em meio
a um luminoso mar, em que se alaga
de fulgores do Empíreo o espírito liberto…
a custo abrindo (tão espessa é a vaga)
a estrada dos destinos celestiais,
ela, de tempo em tempo, se encaminha
a orbes distantes, e hoje ao nosso veio,
favorito de Deus. Porém, rainha
de reino bem mais firme, atira o cetro a um lado,
deixa o leme e por entre hinos espirituais
banha em quádrupla luz seu corpo imaculado.

Será ela mais feliz, na terra suave e doce,
distante, onde nasceu a “Idéia da Beleza”
(caída em espirais da estrelada surpresa,
qual trança feminil de pérolas cercada
para em montes aqueus ter eterna morada)?
Olhou para o Infinito… e ajoelhou-se.
Nuvem linda à sua volta se recurva
– zimbório que seu mundo reproduz –
vista só na beleza e que não turva
outra visão tão bela, a cintilar na luz…
grinalda que entre os atros espirala
e a enlaçá-los colore o ar de opala.

Em flores ajoelhou-se, avidamente:
lírios como os que a fronte erguiam, de alabastro
sobre o Cabo Deucato e, de repente,
irromperam do chão, para encobrir o rastro
fugitivo da que – soberba rara –
morreu, tão-só porque um mortal amara;
e a Sefálica, que de abelhas mil se inunda,
ergue a haste purpurina e os joelhos lhe circunda;
e a flor preciosa, a que um engano dava
de Trebizonda o nome e que, habitando
outrora os mais longínquos atros, quando
tudo quanto era belo suplantava,
dos céus seu mel dulcíssimo esparzia
(o néctar dos pagãos) no orvalho que caía
sobre o jardim do pária em Trebizonda e sobre
a flor que a imita e que de sol se cobre,
tão semelhante à sua irmã da altura
que, hoje ainda, atormenta a abelha que a procura,
com sonhos e loucuras desvairadas;
no céu, perto do céu, da bela planta
a flor e as folhas onde, desoladas,
e sua fronte, de dor, não se levanta,
– remorso. das loucuras já passadas
o seio de ar balsâmico a lhe inflar,
bela que errou, e que é mais casta e linda;
e ao pefurmar a noite ela receia ainda
as Nictantes sagradas perfumar;
E Clítia, pensativa entre sóis numerosos,
a face a rorejar de prantos invejosos;
e a magnífica flor que na terra nasceu
e morreu, mal a vida começara,
rasgando o seio redolente, para
que dos jardins de um rei sua alma fosse ao céu,
e o lótus valisnério, que a torrente
do Ródano atirou, após luta inclemente.
e teu perfume rubro e encantador, ó Zante
“Isola d`oro! Fior di Levante!”
E do Netuno a flor, que ao deus do amor conduz
a boiar sempre sobre o rio santo;
flores magas a que é dado, em perfume, o canto
da Deusa transmitir ao céu de luz.

“Deus! Espírito, que habitas
lá onde, no céu profundo,
o que é belo e o que é terrível
na beleza se assemelham;
para além da linha azul
que marca um limite à estrela,
mas quem à vista se desvia
da barreira que lhe ergueste,
da barreira ultrapassada
pelos cometas lançados
de seu orgulho e seu trono
para até o fim ser escravos,
para conduzir o fogo
vermelho, que arde em seu peito,
incansáveis, em carreira
sempre e sempre dolorosa;
Tu, que vives (bem sabemos)
na eternidade (e o sentimos),
que espírito há de mostrar
a sombra de tua fronte?
Embora tua mensageira,
Nesace, encontrasse seres
que à sua medida e imagem
Teu Infinito sonhassem,
tua vontade, ó Deus, foi feita!
A estrela pairou, na altura,
entre imensas tempestades,
sob o teu olhar ardente;
e hoje, a ti, em pensamento
(pois só o pensamento pode
ascender a teu império
e partilhar de teu trono)
pela Fantasia alada
minha mensagem envio,
até o dia em que o segredo
se revele junto aos céus.”

Calou-se e mergulhou a face ardente e bela
entre os lírios, humilde, a procurar
abrigar-se do ardor de seu olhar;
porque treme, ante Deus, a própria estrela.
Nem respira, imóvel, pois ouvia
uma voz, dominando as amplitudes quietas,
um rumor de silêncio, que aturdia
o ouvido e que, em seus sonhos, os poetas
“musica das esferas” denominam.
O nosso mundo é feito de mil termos
e chamamos “Silêncio” à quietude dos ermos,
a mais vã das palavras existentes.
A Natureza inteira fala e os entes
imaginários, mesmos, disseminam
sombras de sons das asas de ficção;
mas, ah! tal não se dá no reino alto e fulgente
onde perpassa a voz de Deus, eternamente,
e o vento rubro murcha na amplidão.

“Que importa, nesses mundos apagados,
a um pequeno sistema e a um sol ligados,
seja loucura meu amor a multidão
minha cólera veja no trovão
em tormentas, tremor de terra, iras do mar
(por que vêm meu caminho irado assim cruzar?);
que importa se, com um sol somente, em tais planetas,
se extinguem, a correr, do Tempo as ampulhetas?
Teu é meu resplendor; recebe-o e leva
o meu segredo ao céu que mais se eleva.
Voa, deixa deserto o cristal de teu lar,
vai com tua corte pelo céu lunar
(e apartando-vos, como, em noite siciliana,
os pirilampos), leva em sua asa
a outros mundos, a luz que agora de ti emana.
Os mistérios a ti confiados revelam
a cada mundo que a soberba abrasa;
e por barreira os corações te tomem,
barreira e maldição, para que a estrela
não vacile perante os crimes do homem.”
Pôs-se a virgem de pé na noite amarelada
de um só lua! Aqui, na Terra, é só adorada
uma lua e só de um amor fica a alma presa;
não o possuía mais o berço da Beleza.
Como a estrela nascida em horas de alvorada,
ergueu-se a virgem da florida alfombra
e por montes de luz e planícies de sombra
seguiu, sem, entretanto, abandonar ainda
sua morada teraseana e linda.

Parte II

Num cume de montanha em flor, alcantilada,
tal como a que o pastor, imerso no seu leito
de imensa pradaria, satisfeito,
vê, atônito, erguendo a pálpebra pesada
e “espero ser perdoado” então murmura,
sob a luz que paira, há muito, na ampla altura;
num cume cor-de-rosa, que se erguia
no éter iluminado e recebia,
à tarde, a última luz dos sóis morrentes:
sobre esse cume, em plena noite, quando
mais bela e estranha a lua vai dançando,
é que se ergue um palácio; resplendentes
colunas riem, cintilam no leve ar
e o mármore de Paros, a faiscar,
ri de novo, bem longe, sobre vaga
que no abismo reflete essa montanha maga.
É sua base de estrelas em fusão
como, no ébano do ar, as que tombam e vão
prateando, ao morrer, a mortalha que as veste,
para assim adornar a morada celeste.
A abóbada, que ao céu prende radiosa tela,
nas colunas, de leve, a coroá-las, se deita.
Redonda, de um diamante, apenas, feita,
olha o espaço purpúreo uma janela.
E a luz vinha da mão de Deus, atravessando
a cadeia meteórica, abençoar
toda aquela beleza, a não ser quando,
entre o Empíreo e esse liame, sacudia
algum espírito a asa impaciente e sombria.
Dos pilares tombou, dos serafins, o olhar
nas trevas deste mundo; e as verdes cores graves
e plúmbeas, que costuma a Natureza
preferir para a tumba da Beleza,
contornaram cornijas e arquitraves.
E cada querubim, ali em volta esculpido,
que olhava de seu lar marmóreo, comovido,
parecia terrestre, em seu nicho, à penumbra,
como estátua da Acaia, em região que deslumbra.
Ó frisas de Balbec, Persépolis, Tadmor,
da Gomorra de encantos abissais,
oh, a onda hoje a vós se veio sobrepor
e é, para vos salvar, tarde demais!
Gosta o som de brincar nas noites de verão;
testemunha-o o rumor do entardecer cinéreo,
que em Eiraco escutava, outrora, em seu mistério,
quem contemplasse os astros da amplidão,
e que ouve sempre quem, perdido ao longe o olhar,
vê numa nuvem fusca a treva se adensar.

Não possui forma e voz mais palpável, sonora,
Mas, que é isto? Alguém chega e traz, consigo, agora,
um rumor musical… bater de asas parece…
silêncio… e o som depois se arrasta e desvanece.
Nesace está de novo em sua linda morada.
O esforço da veloz carreira alucinada
fá-la ofegar e as faces lhe enrubesce;
e a faixa que rodeia os seios virginais
rompeu-se com o bater do coração.
Parou, a descansar, no centro do salão,
sob a mágica luz, que lhe beijava
o cabelo dourado, e que aspirava
repousar, porém só podia brilhar mais!

Cada flor jovem a outra flor e cada
árvore a outra, em doce melodia
suspirava, feliz, na noite iluminada.
E a música, a gemer dentre as fontes, caía
sobre bosques, que a luz das estrelas recobre,
vales vestidos de lua; mas sobre
as belas flores, as cascatas de ouro
e asas de querubins, o silêncio imperava;
e só o som a irromper do espírito era o coro
da encantada canção que a donzela cantava:

“Sob lianas, campânulas
e sebes de mata
que abrigam quem sonha
dos raios da lua,
erguei-vos, ó seres
de luz, que pensais
nos atros, que atônitos
dos céus extraístes
para, dentre as sombras,
sobre vós descerem,
como o olhar da virgem
que agora vos chama.

Erguei-vos dos sonhos
por entre violetas,
cumprindo os deveres
desta hora estrelada.
Sacudi das tranças
pesadas de orvalho
o hálito dos beijos
que o repouso embalam!
(sem ti, Amor, seriam
felizes os anjos?),
beijos de amor puro
que o repouso embalam!
Sacudi das asas
tudo que as detém:
que o orvalho da noite
os vôos retarda.
E as doces carícias
deixai-as de parte!
São plumas nas tranças,
mas chumbo no peito.
Ligéia! Ligéia!
Tu, que és a mais bela
e a mais rude idéia
exprimes em música,
será teu desejo
na brisa embalar-te?
Ou, calma, em descanso,
como os albatrozes
na noite estendidos
(tal ficas nos ares),
vigiar, encantada,
a harmonia célica?

Ligéia, por onde
surgir tua imagem,
que magia pode
soltá-la da música?
Prendeste os olhares
num sono de sonhos,
mas erguem-se sempre
cantos protetores
de tua vigília:
o ruído da chuva
que salta nas flores
e volta dançando
no ritmo das gotas;
e o rumor que brota
da relva crescendo,
música das coisas,
não passam de cópias.
Corre, então, querida,
às fontes mais claras
que jazem ao luar…
ao lago ermo, rindo
num sonho de morte,
às ilhas de estrelas
que o seio lhe adornam,
e onde as flores toscas
misturam as sombras,
lá dorme, nas margens,
multidão de virgens.
Algumas, deixando
a fria clareira,
repousam com a abelha.
Desperta-as, ó virgem,
na várzea e no prado.
Sussurra, em seu sonho,
de leve, no ouvido,
o ritmo cantante
que esperam, dormindo.
Pois nada desperta
mais rápido os anjos,
que assim adormecem,
sob a luz fria,
do que o doce encanto
nunca superado
do ritmo cantante
que embala o repouso.”

Anjos vieram, e espíritos alados,
mil serafins cortaram os espaços,
sonhos jovens aspirando em vôos estonteados…
Seres que sabem tudo, exceto a Ciência, aquela
luz que, ó Morte, caiu, refratada em teus laços,
longe, do olhar de Deus, sobre a distante estrela.
Doce era essa ignorância; e essa morte, mais doce.
Doce era essa ignorância: em NÓS, o próprio alento
da Ciência embaça o espelho da alegria.
para eles, um simum arrasador seria.
Que lhes adiantaria o atroz conhecimento
de que a Verdade é Engano e a Ventura é Má Sorte?
Era doce sua morte e, para eles, morrer
de um vida saciada era o enlevo final;
para além dessa morte inexiste o imortal,
mas o sono que pesa é do “Não-Ser”.
Possa minha alma, exausta, ali habitar do eterno
Céu distante, e também tão distante do Inferno.
Que espírito culpado, em seu bosque trevoso,
não ouviu, daquele hino, o apelo clamoroso?
Dois só; caíram, pois o céu não dá perdão
a quem só ouve o bater do próprio coração.
A angélica donzela e o seráfico amado…
Mas onde estava o Amor, o cego amor
sempre fiel ao Dever austero? (Esforço vão
e buscá-lo na célica amplidão.)
Sem guia, o amor, caiu, desnorteado,
por entre “prantos de perfeita dor”.

Tombou: que belo espírito era esse!
Vagueava pelas fontes que a hera veste
a contemplar a luz da abóbada celeste,
junto de seu amor, sonhando ao luar.
Cada estrela não é qual doce olhar
que sobre as tranças da Beleza desce?
E elas, e as fontes, tudo era sagrado
para seu coração, de amor povoado
e de melancolia. A noite foi achar
Ângelo, o jovem (noite de pesar)
junto a escarpado monte, numa penha
erguida sob o céu solene a que desdenha
os mundos estelares a seus pés.
Sentou-se com sua amada, o negro olhar,
qual de águia, o firmamento a pesquisar.
Para ela se voltou depois e, novamente,
até a Terra desceu, tremulamente.

“Que débil luz, não vês, querida Iante?
Como é delicioso olhar tão longe assim!
Bem diversa, naqueles outono, para mim
era ela, quando à tarde abandonei,
sem lastimar, seu paço fulgurante,
ó tarde que jamais esquecerei!
Beijava o sol morrente, em Lemnos, com magia
o arabesco salão dourado em que jazia,
os tapetes sem conta, os meus olhos fechados,
sob o peso da luz na noite mergulhados,
e antes cheios de amor, das flores, da neblina,
que no seu Gulistan evoca o persa Saadi.
Mas essa luz!… Dormi… E a Morte invade
os meus sentidos, na ilha peregrina,
tão de leve, que nem sequer pressente
o adormecido, que ela está presente.

“O último ponto então por mim pisado
foi Parthenon, o templo sublimado.
Suas colunas são de maior maravilha
do que a beleza que em teu seio brilha;
e quando o Velho Templo soltar veio
minhas asas, alcei meu vôo, alcei-o
como águia que da torre se alcandora,
vendo fugirem séculos numa hora.
Enquanto assim nos ares me embalava,
metade do jardim terreno se mostrava
a meus olhos, tal como um mapa aberto,
com sua ermas cidades do deserto.
E tanta era a beleza, Iante, ali presente,
que quase desejei ser homem novamente.”

“- Meu Ângelo! E por que a eles voltar,
se aqui possuis mais luminoso lar,
campos mais verdes que nesse mundo afastado,
carinhos feminis… e amor apaixonado?

“- Mas ouve, Iante! Quando o ar me faltou,
tão suave, e a alma às alturas se lançou,
talvez numa vertigem, cuidei ver
o mundo, que eu deixara, a abismar-me num caos,
turbilhonando, ao léu de ventos maus,
rolando em chamas no ígneo firmamento.
Querida, então julguei que, em lugar de ascender,
eu caía, num lento movimento
oscilante, através de luminosa estrada,
até pousar em áurea estrela: nesta!
Mas foi rápido o tempo da descida,
pois era a tua estrela a menos distanciada…
Terrível astro! a vir, numa noite de festa,
como um Dédalo rubro, à Terra comovida.”

“-Viemos… Só os da terra… mas não nós…
da deusa podem discutir a voz:
viemos de toda parte, meu amor,
pirilampos alegres, em revoada,
não indagues por quê; basta que o visse impor,
num gesto angelical, ELA, por Deus mandada.
Jamais o velho tempo, Ângelo, se deteve,
sobre mundo mais velo a abrir a asa de neve!
O olhar dos anjos, do pequeno e baço
globo não via mais que o fantasma, no espaço,
quando Al Aaraaf lançou-se a atravessar,
para alcança-lo, o mar que se constela!
Mas quando sua glória aos céus veio pompear,
como a Beleza, exposta a olhar terreno, brilha,
detivemo-nos, ante a humana maravilha,
e, tal como a Beleza, estremeceu a estrela.”

Os amantes assim falavam e escorria
a noite, a declinar, sem que trouxesse o dia.
Caíram: porque os Céus esperanças não dão
a quem só ouve o bater do próprio coração.
––––––––––-

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Reforma Ortográfica 5

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Fonte:
Blog do Orlandeli

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VII Concurso Nacional e Internacional de Trovas de Guaxupé/ MG – 2009

(classificações em ordem alfabética de autores)

ÂMBITO NACIONAL

TEMA = “INSENSATEZ”
TROVAS VENCEDORAS
A insensatez mostra a todos
aos que de amor ouvem juras
que há muitas tramas e engodos
por detrás das aventuras!
HÉRON PATRÍCIO – SP

Na insensatez da paixão
que me pega, e não tem cura,
deixo de lado a razão
e dou razão á loucura!
MARINA BRUNA – SP

Quando a verdade se alinha
a humanidade se alegra,
a insensatez se amesquinha,
ser feliz passa a ser regra.
MIGUEL RUSSOWSKY – Joaçaba / SC

Insensatez… Causa? Efeito?
Sentimento ou atitude?
Para quem pensa, é defeito;
para quem sonha, é virtude!
RENATA PACCOLA – SP

MENÇÕES HONROSAS

Insensatez de verdade
que a distância tenta impor
é nos matar de saudade
quando se vive de amor!
ARLINDO TADEU HAGEN – Juiz de Fora/MG

Na insensatez que atordoa,
quantas loucuras se apronta,
mas a vida não perdoa,
cedo ou tarde, manda a conta!
CAMPOS SALES – SP

Pobres racistas, insanos,
é a insensatez que os impele
a julgar seres humanos
a partir da cor da pele!…
DARLY O. BARROS – SP

Insensatez?!… Não! As horas,
no limiar do sol-pôr,
eu eternizo em auroras
nos braços do meu amor.
RELVA DO EGIPTO R. SILVEIRA – Belo Horizonte/MG

Se a insensatez determina
o valor que o homem tem,
não lhe basta a luz Divina,
ele quer ser Deus também…
WANDIRA FAGUNDES QUEIROZ – Curitiba/PR

MENÇÕES ESPECIAIS

Pela insensatez da idade
e pelo que o amor requer,
choro, às vezes, de saudade
fingindo outra dor qualquer!
ADEMAR MACEDO – Natal/RN

Num sonho que vou vivendo
a cada noite pressaga,
cada estrela que eu acendo
tua insensatez apaga…
GILVAN CARNEIRO DA SILVA – São Gonçalo/ RJ

Ante os problemas da vida,
desistir é insensatez.
Fracassou? Retorne à lida.
Insista! Tente outra vez!
JOÃO COSTA – Saquarema/ RJ

Foste embora e a dor avança
na insensatez que me invade:
eu te espero na esperança,
mas só voltas na saudade!…
MARILÚCIA REZENDE – SP

A insensatez tem dois lados
quando a paixão toma cor:
Num os beijos são pecados,
noutro, são provas de amor.
MIGUEL RUSSOWSKY – Joaçaba/SC
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CONCURSO INTERSEDES MINAS GERAIS
(âmbito estadual)

TROVA VENCEDORA

Arrancada na euforia,
amanhece, sem requinte,
a camisola do dia
no chão do dia seguinte!
ARLINDO TADEU HAGEN

MENÇÕES HONROSAS (ordem alfabética)

Em harmonia perfeita,
jogados ao pé da cama,
tua camisola aceita
o abraço do meu pijama!
ARLINDO TADEU HAGEN

A paixão se descontrola
e a saudade em mim se inflama,
quando encontro a camisola
sem ela… na minha cama!
EDUARDO A. O. TOLEDO – Pouso Alegre

No baú, deixei guardada
a camisola tecida
para uma noite sonhada,
mas… que nunca foi vivida.
THEREZA COSTA VAL – Belo Horizonte

MENÇÕES ESPECIAIS (ordem alfabética)

A camisola de fita
no varal me consternou:
agora só o vento agita
o que o desejo agitou!
ARLINDO TADEU HAGEN

Casaste. Triste eu sofria,
pois vestiste, bem contente,
a camisola macia
que eu te dera de presente!
LUIZ CARLOS ABRITTA – Belo Horizonte

Valeu a espera tardia
o amor se encaixa, perfeito…
E a camisola macia
descansa aos pés do meu leito…
MARIA DE FÁTIMA SOARES OLIVEIRA – Juiz de Fora
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Fonte:
José Ouverney.
Fotomontagem = José Feldman

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José Carlos Capinan (O Poeta no Papel)

MUDANDO DE CONVERSA

Não me venham falar de éticas
Prefiro locomotivas
Ou motivos loucos para ser feliz
Prefiro vagões de urânio e feijão
Atravessando o país
Vendo o povo acenando lenços brancos
(Campos férteis)
Aos que vão sul a norte
Leste oeste
Trilhos novos, outros brasis

E eu menino outra vez a dar adeus aos tempos da antihistória
Quero sorrir das janelas de trens supersônicos
Em trilhos magnéticos
E novamente pensar que podemos alcançar as estrelas

(Dakar, em maio/2006)
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ALGUMAS FANTASIAS

I

É noite, tudo é mistério, eu vejo
Há quem chore, há quem ligue a chave de ignição
Entretanto em meu coração fortemente chove
Chove chove chove

Enquanto chove, choro e relampeja
Se despem e se despedem todos os amantes
As chaves de ignição acendem os trovões
Apagam-se as velas e assim seja

VII

Os carros são cada ano mais potentes
E capazes de desenvolver velocidades surpreendentes
São capazes de atirar quilômetros animais árvores
gente
Não sei porque a vida se faz tão urgente

VIII

Sou político
E nem sei o que possa dizer com isso
Mas é da época ser político
E há vários políticos
E cada um tem a sua verdade política
E a sua maneira política de ser político
E cada político tem o seu melhor mundo a oferecer
Sou político e também penso que talvez tenha um mundo
Mas nem por isso, talvez somente fantasie inútil
E acredite poder alterar esse inexorável rumo.

Fui tão político às vezes que desdenhei as formas
E contestei as normas
E confessei ridículas as pétalas de rosas
Fui tão político às vezes que fiz da beleza uma coisa perigosa
E tão político às vezes que tornou-se a noite pavorosa
Fui tão político às vezes que se desfizeram as minhas
mãos amorosas
E tão político às vezes que pensei entender a guerra
O chumbo e a pólvora
Fui tão político às vezes que despendi mil impossíveis horas
Dissolvendo em amnésia todas as memórias

As máquinas são políticas
As poéticas são políticas
As canções são políticas
Mas eu desconfio que alguma coisa possa deixar de ser
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MADRUGADAS DE NARCISO

Encalho nas madrugadas as minhas velas em farrapos
Sou eu mesmo os marinheiros
Sou eu mesmo a cabotagem
Sou eu quem traça os portos do roteiro
E torna em desespero a bússola da viagem

Naufrago nas madrugadas
Mas eu mesmo me faço nadar em vão até as mais
longínquas praias
Sou eu a maresia, a calmaria e a tempestade
Sou eu mesmo a terra à vista
Inalcançável
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OUTRAS CONFISSÕES

Narciso se despe, é noite, estão ladrando os cães
Os cães provavelmente ladrarão inteiramente a noite
Enquanto a lua cheia obtura os dentes podres das canções
Um traficante boliviano
Diz alô de Amsterdã
Um fracassado governante
Diz alô num telegrama
Tudo é ópio, para um ex-marxista
Para um ex-espiritualista, tudo é transe.
Tudo é provisoriamente eterno para os poetas
Tudo é eternamente provisório para os amantes
E o poema apenas a configuração do instante
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DIDÁTICA

A poesia é a lógica mais simples.
Isso surpreende
Aos que esperam ser um gato
Drama maior que o meu sapato.
Ou aos que esperam ser o meu sapato,
Drama tanto mais duro que andar descalço
E ainda aos que pensam não ser o meu andar descalço
Um modo calmo.

(Maior surpresa terão passado
Os que julgam que me engano:
Ah, não sabem o quanto quero o sapato
Nem sabem o quanto trago de humano
Nesse desespero escasso.
Não sabem mesmo o que falo
Em teorema tão claro.

Como não se cansariam ao me buscar os passos
Pois tenho os pés soltos e ando aos saltos
E, se me alcançassem, como se chocariam ao saber que faço
A lógica da verdade pelos pontos falsos)
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POESIA PURA

Se esta é a busca da noite enquanto noite,
A busca intensa que nada perturba,
Nego a sensibilidade, pois ela acrescenta.
Nego a compreensão, pois ela já tem noções
E pode perturbar a flor pelo conhecer do homem.
Hoje não relaciono, não comprometo.
Quero a coisa em seu íntimo mais grave
Quero a coisa, essencialmente a coisa,
A coisa metafísica, para provar a impossibilidade.
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O REBANHO E O HOMEM

O rebanho trafega com tranqüilidade o caminho:
É sempre uma surpresa ao rebanho que ele chegue
Ao campo ou ao matadouro.
Nenhuma raiva
Nenhuma esperança o rebanho leva.
Pouco importa que a flor sucumba aos cascos
Ou ainda que sobreviva.
Nenhuma pergunta o rebanho não diz:
Até na sede ele é tranqüilo
Até na guerra ele é mudo.
O rebanho não pronuncia,
Usa a luz mas nunca explica a sua falta
Usa o alimento sem nunca se perguntar
Sobre o rebanho o sexo
Que ele nunca explicara
E as fêmeas cobertas
Recebem a fecundidade sem admiração.
A morte ele desconhece e a sua vida.
No rebanho não há companheiros,
Há cada corpo em si sem lucidez alguma.

O rebanho não vê a cara dos homens
Aceita o caminho e vai escorrendo
Num andar pesado sobre os campos.
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Fontes:
– CAPINAN, José Carlos. Confissões de Narciso. Civilização Brasileira, 1995.
– CAPINAN, José Carlos. Inquisitorial. Civilização Brasileira, 1995.

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José Carlos Capinan (Letras de Músicas)

Com trechos de depoimentos do autor em Vinte Canções de Amor e Um Poema Quase Desesperado

PONTEIO

(Parceria com Edu Lobo)

Era um, era dois, era cem
Era o mundo chegando e ninguém
Que soubesse que eu sou violeiro
Que me desse ou amor ou dinheiro
Era um era dois era cem
Vieram pra me perguntar
Oh você de onde vai de onde vem
Diga logo o que tem pra cantar
Parado no meio do mundo
Pensei chegar meu momento
Olhei pro mundo e nem via
Nem sombra nem sol nem vento

Quem me dera agora
Eu tivesse a viola
Pra cantar

Era um dia, era claro, quase meio
Era um canto calado sem ponteio
Violência, viola violeiro
Era a morte em redor mundo inteiro
Era um dia, era claro, quase meio
Era um que jurou me quebrar
Mas não lembro de dor nem receio
Só sabia das ondas do mar
Jogaram a viola no mundo
Mas fui lá ho fundo buscar
Se toma a viola eu ponteio
Meu canto não posso parar

Quem me dera agora
Eu tivesse a viola
Pra cantar

Era um era dois, era cem
Era um dia, era claro, quase meio
Encerrar meu cantar já convém
Prometendo um novo ponteio
Este dia bem claro por inteiro
Eu espero não vá demorar
Este dia estou certo que vem
Digo logo que vim pra buscar
Parado no meio do mundo
Não deixo a viola de lado
Vou ver o tempo mudado
E um novo lugar pra cantar
Quem me dera agora

Eu tivesse a viola pra cantar
Ponteio, ponteio
Todo mundo
Pontear

“Em 1967, Ponteio ganhou o III Festival da MPB, enquanto era morto em SantaCruz de la Sierra, Bolívia, um mito latino americano, que derrubara em Cuba, ao lado de Fidel, a ditadura de Fulgêncio Baptista, criando pela primeira vez uma república socialista nas Américas. Neste festival, foram plantadas as sementes da Tropicália. Caetano Veloso defende Alegria, Alegria, e enquanto se preparava para cantar Domingo no Parque, entreguei a Gilberto Gil o poema-letra Soy Loco Por Ti, América. Considero estas três canções precursoras do Tropicalismo. E considero Ponteio o encerramento do ciclo que elejera o Nordeste como síntese de nossa postura estético-política”.

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SOY LOCO POR TI AMERICA
(Parceria com Gilberto Gil)

Soy loco por ti, América
Yo voy traer una mujer playera
Que su nombre sea Marti, que su nombre sea Marti
Soy loco por ti de amores
Tenga como colores la espuma blanca de Latinoamérica
Y ei cielo como bandera, y ei cielo como bandera

Soy toco por ti, América,
Soy toco por ti de amores

Sorriso de quase nuvem, os rios, canções, o medo
O corpo cheio de estrelas, o corpo cheio de estrelas
Como se chama a amante
Esse país sem nome, esse tango, esse rancho,
Esse povo, dizei-me, arde o fogo de conhecê-la!
O fogo de conhecê-la

Soy toco por ti, América!
Loco por ti de amores
El nombre dei hombre muerto
Ya no se puede decirlo, quién sabe?
Antes que o dia arrebente, antes que o dia arrebente
El nombre del hombre muerto
Antes que a definitiva noite se espalhe em Latinoamérica
El nombre del hombre es pueblo,
El nombre del hombre es pueblo

Soy loco por ti! América!
Loco por ti de amores

Espero o amanhã que cante
El nombre del hombre muerto
Não sejam palavras tristes, soy loco por ti de amores
Um poema ainda existe
Com palmeiras, com trincheiras, canções de guerra
Quem sabe, canções do mar
Ai, hasta te comover, ai, hasta te comover

Soy toco por ti! América
Soy toco por ti de amores

Estou aqui de passagem,
Sei que adiante um dia vou morrer
De susto, de bala ou vício
De susto, de bala ou vício
Num precipício de luzes
Entre saudades, soluços, eu vou morrer de bruços Nos braços, nos olhos, nos braços de uma mulher
Nos braços de uma mulher
Mas apaixonado ainda
Dentro dos braços da camponesa, guerrilheira, manequim,
Ai de mim, nos braços de quem me queira
Nos braços de quem me queira

Soy loco por ti, América
Soy loco por ti de amores

O anúncio da vitória de Ponteio no III Festival da Record coincidiu com a notícia da morte do Che, que me levou a chorar e a escrever, num repente alucinado, do começo ao fim, sem reescrever uma só linha ou palavra (…). Entreguei o poema, nos bastidores do Festival, a Gilberto Gil. Ele criou o hino que hoje se mantém vivo e que talvez me dê a maior satisfação de tudo que fiz. Esta canção tem um grande significado, talvez seja a que melhor expressa meu sentimento rebelde e lírico e me faz acreditar que pertenço a um momento em que a América Latina era central em nossas idéias e destino, tudo sonhado revolucionariamente. Soy Loco por Ti, América me dá o imenso prazer de, querendo ser poeta, poder assim testemunhar nosso estar no mundo.”

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CLARICE
(Parceira com Caetano Veloso)

Há muita gente
Apagada pelo tempo
Nos papéis desta lembrança
Que tão pouca me ficou
Igrejas brancas, luas claras nas varandas
Jardim de sonho e cirandas
Foguetes claros no ar

Que mistério tem Clarice
Pra guardar-se assim tão firme
No coração

Clarice era morena
Como as manhãs são morenas
Era pequena no jeito de não ser quase ninguém
Andou conosco caminhos de frutas e passarinhos
Mas jamais que se despiu
Entre os meninos e os peixes
Entre os meninos e os peixes
Do rio

Eu pergunto o mistério
Que mistério tem Clarice
Pra guardar-se assim tão firme
No coração

Tinha receio do frio
Medo de assombração
Um corpo que não mostrava
Feito de adivinhação
Os botões sempre fechados
Clarice tinha o recato
De convento e procissão

Que mistério tem Clarice
Que mistério tem Clarice
Pra guardar-se assim tão firme
No coração

Soldado fez continência
O coronel reverência
0 padre fez penitência
Três novenas e uma trezena
Mas Clarice era inocência
Nunca mostrou-se a ninguém
Fez-se modelo das lendas
Das lendas que nos contaram
As avós

Eu pergunto o mistério
Que mistério tem Clarice
Pra guardar-se assim tão firme
No coração

Tem que um dia amanhecia e Clarice
Assistiu minha partida
Chorando pediu lembrança
E vendo o barco se afastar de Amaralina
Desesperadamente linda
Soluçando e lentamente
E lentamente despiu o corpo moreno
E entre todos os presentes
Até que seu amor sumisse
Permaneceu no adeus chorando e nua
Para que a tivesse toda
Todo tempo que existisse

Que mistério tem Clarice
Que mistério tem Clarice
Pra guardar-se assim tão firme
No coração?

1966 (…) Morava no Rio de Janeiro, numa espécie de exílio interno, que vivi ao sair da Bahia, em 1964. Eu tinha uma idéia recorrente de voltar. Algumas vivências de adolescente insistiam em permanecer no meu coração, resistindo ao sex appeal das garotas de Ipanema, pelejando com as novas emoções que o Rio oferecia. E eram muitas. Mas a quase namoradinha do interior permaneceu como ícone da beleza nativa, a cobiçada filha de seu Cícero (…). Escrevi Clarice num surto de banzo. E mostrei o poema a Suzana (filha de Vinícius de Moraes) e Macalé. Suzana identificou Caetano como parceiro ideal (…) A morena Clarice foi gravada também por Orlando Silva, o que vim a descobrir após a sua morte”.
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PAPEL MACHÊ
Parceria com João Bosco

Cores do mar
Festa do Sol
Vida é fazer
Todo sonho brilhar
Ser feliz
No seu colo dormir
E depois acordar
Sendo seu colorido brinquedo
De papel machê

Dormir no teu colo
É tornar a nascer
Violeta e azul
Outro ser
Luz do querer
Não vai desbotar
Lilás cor do mar
Seda cor do batom
Arco-íris crepom
Nada via desbotar
Brinquedo de papel machê

Poucas canções eu fiz tomando como ponto de partida uma melodia já composta. Ponteio e Papel Machê foram raras exceções. Gosto de escrever os poemas ou letras livremente, sem um padrão a ser alcançado… Esta parceria com João Bosco é um dos maiores sucessos de tudo que escrevi. Eu estava feliz e bem amado quando a fiz e me interessava muito pelas relações amorosas que dão certo, porque me sinto mal-educado afetivamente (…)”

Fonte:
http://www.antoniomiranda.com.br

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Arquivado em Bahia, Esplanada, Letras de Musicas, O poeta no papel

José Carlos Capinan (1941)

Nasceu em 19 de fevereiro de 1941, em Esplanada, Bahia, filho de Osmundo Capinan e Judite Bahiana Capinan com mais 12 irmãos.

Começou a escrever poesia aos 15 anos.

Em 1960, mudou-se para Salvador, iniciando o Curso de Direito na Universidade Federal da Bahia. Por essa época, estudando também teatro no Centro Popular de Cultura, ligado à UNE, conheceu Caetano Veloso e Gilberto Gil, ambos cursando as faculdades de Filosofia e Administração de Empresas, respectivamente. Atuou na peça “Os fuzís da Senhora Cará”, de Brecht, dirigida por Álvaro Guimarães.

No ano de 1963, escreveu e estreou a peça “Bumba-meu-boi”, musicada por Tom Zé.

Em 1964 formou-se Artes Cênicas e Direito. Com o golpe militar, foi forçado a deixar Salvador, transferindo-se para São Paulo, indo trabalhar como redator publicitário na agência Alcântara Machado. Por essa época, conheceu Geraldo Vandré (que fazia jingles para a agência), além de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal (do Teatro de Arena) que o levaram para o meio musical de São Paulo. Logo depois foi apresentado a Edu Lobo.

Participou ativamente dos movimentos culturais da década de 1960: Centro Popular de Cultura (CPC), Feira da Música (Teatro Jovem, ao lado de Paulinho da Viola, Caetano Veloso, Torquato Neto e Gilberto Gil) e Tropicalismo, com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Os Mutantes, Nara Leão, Torquato Neto, Rogério Duarte, Rogério Duprat e Gal Costa.

Em 1965, foi co-autor, com Caetano Veloso e Torquato Neto, da peça “Pois É”, interpretada por Gilberto Gil, Maria Bethânia e Vinicius de Moraes, no teatro Opinião, no Rio de Janeiro. Compôs com Caetano Veloso a trilha sonora do filme “Viramundo”, de Geraldo Sarno, que contou também com a música-título “Viramundo”, esta, composta em parceria com Gilberto Gil.

No ano de 1966, publicou o livro de poemas “Inquisitorial”. Em seguida, voltou a Salvador, onde cursou Medicina, profissão que chegou a exercer por algum tempo.

Em 1967, com Torquato Neto, escreveu o programa de televisão “Vida, Paixão e Banana do Tropicalismo”, interpretado por Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa, sob a direção de José Celso Martinez Corrêa.

Na década de 1970, foi co-editor ao lado de Abel Silva da “Revista Anima”.

Em 1973, dirigiu e produziu o show de Gal Costa e Jards Macalé, no teatro Oficina, em São Paulo, e o espetáculo “Luiz Gonzaga, o Rei do Baião”, no teatro Teresa Raquel, no Rio de Janeiro.

Em 1976, publicou poemas na antologia “26 poetas hoje”, organizada por Heloísa Buarque de Hollanda. No ano seguinte, lançou pela editora Macunaíma “Ciclo de navegação Bahia e gente”.

Em 1982 formou-se em Medicina, pela UFBA. Dois anos depois, estruturou a TV Educativa da Bahia, criando diversos programas para seu lançamento e em 1985 atuou como diretor da emissora.

Em 1986 foi nomeado Secretário Municipal da Cultura, de Camaçari (BA), passando a integrar o Conselho Nacional de Direito Autoral, do Ministério da Cultura (MinC), participando também de comissões de Divulgação Autoral

De 1987 a 1989, atuou como Secretário da Cultura do Estado da Bahia, e como presidente dos Fóruns Nacional de Secretários da Cultura e Estadual de Cultura. Neste mesmo ano editou três livros: “Inquisitorial” (reedição, o original é de 1967) e “Confissões de Narciso”, pela editora Civilização Brasileira, além de “Balança Mas Hai Kai”, pela editora BDA.

Em 1990, fez o show “Poeta, mostra a tua cara”, tendo como convidados especiais Gilberto Gil, Paulinho da Viola e Geraldo Azevedo, no Jazz Club, no Rio de Janeiro.

No ano de 1995, relançou do pela Editora Civilização Brasileira, “Inquisitorial”, seu livro de poemas, contou com ensaio crítico de José Guilherme Merquior, escrito em 1968 e publicado no livro “A astúcia da mímese” em 1969. No ano seguinte, em 1996, publicou “Uma canção de amor às árvores desesperadas”, livro de poemas. Neste mesmo ano apresentou-se no projeto “Fala, poeta”, acompanhado pelo grupo Confraria da Bazófia, em Salvador, Bahia.

Publicou também “Signo de Navegação Bahia e Gente” e “Estrela do Norte, Adeus”.

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Capinan (por Gilberto Gil)

Conheci Capinan estre 1962 e 1963 quando, estudantes em Salvador, todos em diferentes níveis e graus, ele, eu, Caetano, Tom Zé, Torquato Neto, Waly Salomão, Duda Machado, Álvaro Guimarães, Rogério Duarte, Fernando Batinga e tantos outros vivíamos o dia-a-dia da iniciação nas lides culturais, na política estudantil, nas experiências do sexo, do amor, da aventura de conduzir-nos, num incessante entra-em-beco-sai-de-beco corpoalma a dentro de uma cidade mítica, bela e sensual, de mil histórias antes por outras gentes e poetas vividas e mais outras tantas mil histórias então por outras tantas gentes e poetas por viver.

Éramos todos, ali, um uníssono unissonho de sermos — nos tornarmos gente e poetas a um só tempo. Gente no sentido de indivíduos/átomos do coletivo povo com sua massa material em labuta e luta. (…) Poetas no sentido religioso de mensageiros de Deus, no sentido psicoanalítico de intérpretes dos sonhos, alma psicossocial, qualidade da comida, musculatura distendida após o orgasmo, palco, beijo, idéia-flor, pensamento-ungüento, carnaval, celebração piedosa, a vida no seu vale-quanto-reza, fundamentalismo espiritual.

(…) Capinan, como todos nós outros, vivia aquela aventura com a sofreguidão das almas jovens. Vindo de um interior ainda mais agreste, ainda mais nordeste do que o de onde vínhamos eu e Caetano — porque ainda mais longe do mar de águas e de luzes da baía —, Capinan era portador e manifestante de uma alma ainda mais severina, no sentido joãocabralino da palavra. Mais caprino, mais cismado mais dependurado nas argolas das interrogações, como se elas fossem aquelas gangorras toscas pendendo dos galhos das mangueiras dos quintais das casas no seu sertão. De pensamento arisco, arredio, mais litera(l)riamente desconfiado do que os outros, Capinan viria depositar a palavra nas mãos do seu coração semiárido. A sua poesia estava, então, naquela região do sertão, naquele coração semiúmido e de lá ela se faria escrever e falar.

Aqui e ali essa poesia viria a ser, mais tarde, um pouco mais entumescida pelo mar da viagem ao desconhecido ou pelo orvalho das últimas madrugadas neoromânticas, quando dos estertores da revolução política e cultural dos sessenta e dos setenta e logo dos oitenta e tantos quantos foram os anos-luzes do seu percurso por sampas e riodejaneiros. Mas, no fundo, eu quase arriscaria afirmar que a poesia de Capinan repousa, ainda e eternamente, no caroço de umbu da sua caatinga. Umbu cuja carne é assim meio fibra, meio nervo e um tanto pouca, que ao morder se dá mais parca que farta, com seu doce ancorado em seu azedo, cujo gosto é bom mas exigente e dificultoso, e cujo caroço é duro e traiçoeiro para os dentes. Creio que assim será sempre a poesia de Capinan, embora seu verso tenha uma vez ameaçado que “já não somos como na chegada”.

Sabemos que em todos nós há sempre um que vai e um que fica, um que muda e um que permanece, e que há um outro que atento os observa a ambos, quase sempre a um deles distinguindo como se com um amor de pai.

(…) A poesia de Capinan distingue, elege e prestigia aquilo/aquele que nele permanece. Aquilo que não se perde nas névoas do delírio. Como a um fio de Ariadne atado. Aquilo que, como no sonho acordado do menino, leva-o à exploração das grutas obscuras da fantasia mas o traz sempre de volta ao ser do presente, ao claro recinto do seu quarto — ainda que sob tênue luz de lamparina iluminado. Quatro paredes, o teto, seu ambiente. Sempre de volta à obstinada recusa da solidão. De volta a algum/alguém sempre ao seu lado. Ele mesmo, o seu amigo ambíguo, um tanto quanto deslocado, quase que num quarto ao lado, contíguo a si mesmo, mas ainda no âmbito da sua con(si)guidade.

Convidado oficial da I Bienal Internacional de Poesia de Brasília, participa da antologia POEMÁRIO da I BIP.

Fontes:
– CAPINAN, José Carlos. Confissões de Narciso, Civilização Brasileira, 1995.
http://www.dicionariompb.com.br/

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Dalila Teles Veras (A Cidade do meu Desejo)

Desenho de Thomas Larson (Thomate)
A cidade do meu desejo será aquela onde se tenha direito ao trabalho e seja possível realizar o encontro e caminhar por calçadas amplas, mãos dadas com o companheiro(a), sem tropeçar em obstáculos e sem medo de assalto.

Na cidade do meu desejo, não haverá aberrações de arquitetura antimendigo e antiladrão, abomináveis invenções a substituir a invenção maior que é a de melhorar o homem e, quando necessário, aplicar-lhe penas que o possa recuperar e devolvê-lo mais humano ao seio da comunidade.

Na cidade do meu desejo, haverá transporte coletivo abundante para todos e o automóvel será um objeto quase obsoleto, não terá prioridades, obedecerá rigorosamente aos códigos estabelecidos e não será usado como arma nem símbolo de poder.

Na cidade do meu desejo, não haverá confinamento e os logradouros públicos serão realmente públicos, sem grades nem cancelas, os parques serão parques e não prisões com vigias eletrônicos ou iluminação feérica – simulacro de centros de compras.

Na cidade do meu desejo, os cidadãos não precisarão cumprir os seus deveres apenas quando se souberem vigiados, mas saberão cumpri-los porque os mesmos já estarão incorporados aos seus hábitos éticos e culturais.

A cidade de meu desejo será aquela onde todos possam facilmente (re)conhecer os marcos de sua história, contados e recontados através de seus poetas e artistas.

Na cidade do meu desejo, haverá placas indicativas nas casas onde nasceram ou residiram pessoas que melhor contribuíram para a sua melhoria, forma de recordá-las como marcos culturais do lugar.

A cidade de meu desejo deverá estabelecer políticas públicas que propiciem o envolvimento dos cidadãos, criando pontos de contato entre suas culturas distintas, celebração de tolerâncias e diferenças.

A cidade de meu desejo deverá eleger homens probos para administrá-la e legislá-la, que saibam distinguir a diferença entre ser eleito para um cargo público e apoderar-se dele como dono, valendo-se disso para benefício próprio e de apadrinhados.

A cidade só será construída quando os seus habitantes estiverem conscientes de que uma cidade é feita de cidadãos e não apenas de governantes, cabendo a cada um fazer a sua parte na coletividade. O futuro, é preciso lembrar, é hoje e precisa começar a ser construído.

Fontes:
http://www.dalila.telesveras.nom.br/crônicasdalilatelesveras2.htm

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Folclore do Piauí (Barba Ruiva, o duende filho de Iara)

As fábulas e as lendas, são estórias que devem ser contadas e recontadas, para que não se percam as vigas mestras da formação de um povo”
Rosane Volpatto

Um mundo de mistérios nos envolve. Por detrás das lendas há um novo mundo que nos aguarda. Um mundo que vive dentro de nós e que aspira reflexões, mas raramente damos ouvidos a esta “voz interior”, que nada mais é do que a nossa consciência-intuição que busca apresentar soluções para os nossos problemas, dos mais insignificantes aos mais importantes. Somente o diário exercício da compreensão e da paciência nos abrirão as portas para este mundo silencioso e tão íntimo.

Para mantermos nosso equilíbrio, precisamos manter unidos o interior e o exterior, o visível e o invisível, o conhecido e o desconhecido, o temporal e o eterno, o antigo e o novo. E…nenhuma outra pessoa pode empreender esta tarefa por nós!

A Lenda do Barba Ruiva nos fala de como uma “voz” pode ficar aprisionada e sofrer com a indiferença daqueles que não querem ouvir.

A LENDA…

Esta é uma lenda popular sobre a Lagoa de Paranaguá no Piauí, que por volta de 1830, já era conhecida. Conta-se que de tão pequena (a lagoa), era quase uma fonte e que cresceu por encanto. Tal magia aconteceu mais ou menos assim:

Na Salinas, ponta leste do povoado de Paranaguá, vivia uma viúva muito pobre com três filhas. Certo dia, a sua filha mais nova adoeceu sem que ninguém conseguisse o fato que produzira tal moléstia. Permaneceu triste e pensativa até que descobriu que esperava um menino de seu namorado que morrera, sem ter tido a oportunidade de levá-la ao altar.

Chegando ao tempo de dar à luz ao bebê, a moça embrenhou-se nos matos, porém, arrependida, resolveu abandonar a criança. Deitou o filhinho em um tacho de cobre e colocou-o dentro da lagoa. O tacho afundou, mas foi trazido à tona pela Iara, que tremia de raiva e amaldiçoou a moça que chorava à beira da lagoa.

Enraivecida, a Iara provocou o crescimento das águas, que em uma enchente sem fim, alagavam, encharcavam e aumentavam sem cessar. “Tomou toda a várzea, passando por cima das carnaubeiras e buritis, dando onda como maré de enchente na lua”, nos conta Câmara Cascudo. Desde então, a lagoa tornou-se um lugar mágico, onde se ouvem estranhas vozes e observam-se luzes de origem desconhecida.

Todos os que já se atreveram a morar às margens da lagoa, tiveram que fugir assustados, pois durante à noite, ouviam o choro de um bebê, procedente do fundo das águas, como que solicitando o peito da mãe para alimentar-se. Mas, com o passar dos anos, o choro cessou.

Conta ainda a lenda, que às vezes surge das águas um ser humano que pela manhã é um menino, ao meio-dia um rapaz de barbas ruivas e, pela noite, um velho de barbas brancas. Muito tímido, foge dos homens quando é visto, porém aproxima-se das moças bonitas para observá-las e depois foge. Este é um dos motivos pelas quais as mulheres evitam de lavar roupas sozinhas.

O Barba Ruiva, como ficou conhecido, é tido como filho de Iara, a Sereia. Pacífico, a entidade não fere e não maltrata ninguém e é tido como um duende bom. A sina à qual está preso, só terminará quando uma mulher atirar sobre sua cabeça algumas gotas de água benta e algumas contas de um rosário, para convertê-lo então, ao cristianismo.

Bibliografia
O Folklore Piauiense – Leônidas e Sá (Litericultura, II, 125-128 e 363-370)
Folklore no Brasil – Basílio de Magalhães
Lendas Brasileiras – Câmara Cascudo

Fontes:
http://www.rosanevolpatto.trd.br/lendabarbaruiva.htm
Imagem = http://indiosdobrasilsomostodosirmaos.blogspot.com

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Guy de Maupassant (A Morta)

Eu a amara perdidamente! Por que amamos? É realmente estranho ver no mundo apenas um ser, ter no espírito um único pensamento, no coração um único desejo e na boca um único nome: um nome que ascende ininterruptamente, que sobe das profundezas da alma como a água de uma fonte, que ascende aos lábios, e que dizemos, repetimos, murmuramos o tempo todo, por toda parte, como uma prece.

Não vou contar a nossa história. O amor só tem uma história, sempre a mesma. Encontrei-a e amei-a. Eis tudo. E vivi durante um ano na sua ternura, nos seus braços, nas suas carícias, no seu olhar, nos seus vestidos, na sua voz, envolvido, preso, acorrentado a tudo que vinha dela, de maneira tão absoluta que nem sabia mais se era dia ou noite, se estava morto ou vivo, na velha Terra ou em outro lugar qualquer.

E depois ela morreu. Como? Não sei, não sei mais.

Voltou toda molhada, nutria noite de chuva, e, no dia seguinte, tossia. Tossiu durante cerca de uma semana e ficou de cama.

O que aconteceu? Não sei mais.

Médicos chegavam, receitavam, retiravam-se. Traziam remédios; uma mulher obrigava-a a tomá-los. Tinha as mãos quentes, a testa ardente e úmida, o olhar brilhante e triste. Falava-lhe, ela me respondia. O que dissemos um ao outro? Não sei mais. Esqueci tudo, tudo, tudo! Ela morreu, lembro-me muito bem do seu leve suspiro, tão fraco, o último. A enfermeira exclamou: “Ah! Compreendi, compreendi!”

Não soube de mais nada. Nada. vi um padre que falou assim: “Sua amante.” Tive a impressão de que a insultava. Já que estava morta, ninguém mais tinha o direito de saber que fora minha amante. Expulsei-o. Veio outro que foi muito bondoso, muito terno. Chorei quando me falou dela.

Consultaram-me sobre mil coisas relacionadas com o enterro. Não sei mais. Contudo, lembro-me muito bem do caixão, do ruído das marteladas quando a enterraram lá dentro. Ah! meu Deus!

Ela foi enterrada! Enterrada! Ela! Naquele buraco! Algumas pessoas tinham vindo, amigas. Caminhei durante muito tempo pelas ruas. Depois voltei para a casa. No dia seguinte, parti para uma viagem.

Ontem, regressei a Paris.

Quando revi o meu quarto, o nosso quarto, a nossa cama, os nossos móveis, toda essa casa onde ficara tudo o que resta da vida de um ser depois da sua morte, o desgosto apoderou-se de mim novamente, de uma forma tão violenta que quase abri a janela para atirar-me à rua. Não podendo mais permanecer no meio daqueles objetos, daquelas paredes que a tinham encerrado, abrigado, e que deviam conservar em suas fendas imperceptíveis milhares de átomos seus, da sua carne e da sua respiração, peguei meu chapéu para sair. De súbito, ao atingir a porta, passei diante do grande espelho que ela mandara colocar no vestíbulo para mirar-se, dos pés à cabeça, todos os dias antes de sair, para ver se toda a sua toalete lhe ia bem, se estava correta e elegante, das botinas ao chapéu.

E parei, de chofre, diante desse espelho que tantas vezes a refletira. Tantas, tantas vezes, que também deveria ter guardado a sua imagem.

Fiquei lá, de pé, trêmulo, os olhos fixos no vidro liso, profundo, vazio, mas que a contivera toda, que a possuíra tanto quanto eu, tanto quanto o meu olhar apaixonado. Tive a impressão de que amava aquele espelho – toquei-o – estava frio! Ah! recordação! recordação! Espelho doloroso, espelho ardente, espelho vivo, espelho horrível, que inflige todas as torturas! Felizes os homens cujo coração, como um espelho onde os reflexos deslizam e se apagam, esquece tudo o que conteve, tudo o que passou à sua frente, tudo o que se contemplou e mirou na sua feição, no seu amor! Como sofro! Saí e, involuntariamente, sem saber, sem querer, dirigi-me ao cemitério. Encontrei seu túmulo, um túmulo singelo, uma cruz de mármore com algumas palavras: “Ela amou, foi amada, e morreu.”

Lá estava ela, embaixo, apodrecendo! Que horror! Eu soluçava, a fronte no chão.

Fiquei lá por muito tempo, muito tempo. Depois, percebi que a noite se aproximava. Então, um desejo estranho, louco, um desejo de amante desesperado apoderou-se de mim. Resolvi passar a noite junto dela, a última noite, chorando no seu túmulo. Mas me veriam, me expulsariam. Que fazer? Fui esperto. Levantei-me e comecei a vagar pela cidade dos desaparecidos. Vagava, vagava. Como é pequena essa cidade ao lado da outra, daquela em que vivemos! Precisamos de casas altas, de ruas, de tanto espaço, para as quatro gerações que vêem a luz ao mesmo tempo, que bebem a água das fontes, o vinho das vinhas e comem o pão das planícies.

E para todas as gerações dos mortos, para toda a série de homens que chegaram até nós, quase nada, um terreno apenas, quase nada! A terra os toma de volta, o esquecimento os apaga. Adeus!

Na extremidade do cemitério habitado, avistei subitamente o cemitério abandonado, onde os velhos defuntos acabam de misturar-se à terra, onde as próprias cruzes apodrecem, e onde amanhã serão colocados os últimos que chegarem. Está cheio de rosas silvestres, de ciprestes negros e vigorosos, um jardim triste e soberbo alimentado com carne humana.

Estava só, completamente só. Agachei-me perto de uma árvore verde. Escondi-me completamente entre os galhos grossos e escuros.

E esperei, agarrado ao tronco como um náufrago aos destroços.

Quando a noite ficou escura, bem escura, deixei o meu abrigo e comecei a caminhar de mansinho, com passos lentos e surdos, por essa terra repleta de mortos.

Vaguei durante muito, muito tempo. Não a encontrava. Braços estendidos, olhos abertos, esbarrando nos túmulos com as mãos, com os pés, com os joelhos, com o peito, e até com a cabeça, eu vagava sem encontrá-la. Tocava, tateava como um cego que procura o caminho, apalpava pedras, cruzes, grades de ferro, coroas de vidro, coroas de flores murchas! Lia nomes com os dedos, passando-os sobre as letras. Que noite! Que noite! Não a encontrava!

Não havia lua! Que noite! Sentia medo, um medo horrível, nesses caminhos estreitos entre duas filas de túmulos! Túmulos! Túmulos! Túmulos. Sempre túmulos! À direita, à esquerda, à frente, à minha volta, por toda parte, túmulos! Sentei-me num deles, pois não podia mais caminhar, de tal forma meus joelhos se dobravam. Ouvia meu coração bater! E também ouvia outra coisa! O quê? Um rumor confuso, indefinível! Viria esse ruído do meu cérebro desvairado, da noite impenetrável, ou da terra misteriosa, da terra semeada de cadáveres humanos? Olhei à minha volta!

Quanto tempo fiquei ali? Não sei. Estava paralisado de terror, alucinado de pavor, prestes a gritar, prestes a morrer.

E, de súbito, tive a impressão de que a laje de mármore onde estava sentado se movia. Realmente, ela se movia, como se a estivessem levantando. Com um salto, precipitei-me para o túmulo vizinho e vi, sim, vi erguer-se verticalmente a laje que acabara de deixar; e o morto apareceu, um esqueleto nu que empurrava a lápide com as costas encurvadas. Eu via, via muito bem, embora a escuridão fosse profunda. Pude ler sobre a cruz:

“Aqui jaz Jacques Olivant, morto aos cinqüenta e um anos de idade. Amava os seus, foi honesto e bom, e morreu na paz do Senhor.”

O morto também lia o que estava escrito no seu túmulo. Depois, apanhou uma pedra no chão, uma pedrinha pontiaguda, e começou a raspar cuidadosamente o que lá estava. Apagou tudo, lentamente, contemplando com seus olhos vazios o lugar onde ainda há pouco existiam letras gravadas; e, com a ponta do osso que fora seu indicador, escreveu com letras luminosas, como essas linhas que traçamos com a ponta de um fósforo:

“Aqui jaz Jacques Olivant, morto aos cinqüenta e um anos de idade. Apressou com maus tratos a morte do pai de quem desejava herdar, torturou a mulher, atormentou os filhos, enganou os vizinhos, roubou sempre que pode e morreu miseravelmente.”

Quando acabou de escrever, o morto contemplou sua obra, imóvel. E, voltando-me, notei que todos os túmulos estavam abertos, que todos os cadáveres os tinham abandonado, que todos tinham apagado as mentiras inscritas pelos parentes na pedra funerária, para aí restabelecerem a verdade.

E eu via que todos tinham sido carrascos dos parentes, vingativos, desonestos, hipócritas, mentirosos, pérfidos, caluniadores, invejosos, que tinham roubado, enganado, cometido todos os atos vergonhosos, abomináveis, esses bons pais, essas esposas fiéis, esses filhos devotados, essas moças castas, esses comerciantes probos, esses homens e mulheres ditos irrepreensíveis.

Escreviam todos ao mesmo tempo, no limiar da sua morada eterna, a cruel, terrível e santa verdade que todo mundo ignora ou finge ignorar nesta Terra.

Imaginei que também ela devia ter escrito a verdade no seu túmulo. E agora já sem medo, correndo por entre os caixões entreabertos, por entre os cadáveres, por entre os esqueletos, fui em sua direção, certo de que logo a encontraria.

Reconheci-a de longe, sem ver o rosto envolto no sudário.

E sobre a cruz de mármore onde há pouco lera:

“Ela amou, foi amada, e morreu”, divisei:

“Tendo saído, um dia, para enganar seu amante, resfriou-se sob a chuva, e morreu”.

Parece que me encontraram inanimado, ao nascer do dia, junto a uma sepultura.
(31 de maio de 1887)

Fontes:
MAUPASSANT, Guy de. Contos Fantásticos. (Trad. José Thomas Brum). Porto Alegre: L&PM, 1997. Coleção L&PM Pocket, vol. 24.
Imagem = http://camaradostormentos.blogspot.com/

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Guy de Maupassant (1850 – 1893)

“O beijo fulmina-nos como o relâmpago, o amor passa como um temporal, depois a vida, novamente, acalma-se como o céu, e tudo volta a ser como dantes. Quem se lembra de uma nuvem?”

Henry René Albert Guy de Maupassant (5 de Agosto de 1850, Fécamp – 6 de Julho de 1893, Paris) foi escritor, poeta e um dos maiores contistas de todos os tempos. Sua obra é conhecida por retratar situações psicológicas e fazer crítica social com técnica naturalista.

Maupassant teve uma infância e uma juventude aparentemente felizes no campo, em companhia da mãe, uma mulher culta e depressiva, que foi abandonada pelo marido.

Na década de 1870, ele se dirigiu a Paris, onde se firmou como contista e teve contato com os grandes escritores realistas e naturalistas da época: Zola, Flaubert e o russo Turguêniev.

Entre 1875 e 1885, produziu a maior parte de seus romances e contos. Escreveu pelo menos 300 histórias curtas, muitas das quais algumas se tornaram mundialmente conhecidas, como Bola de Sebo, O Colar, Uma Aventura Parisiense, Mademoiselle Fifi, Miss Harriett e O Horla.

Maupassant talvez tenha sido, nos últimos anos do século XIX, o escritor mais lido no mundo.

Rico e famoso, ele teve muitos casos amorosos, mas a sífilis o atormentou por mais de uma década, ocasionando-lhe pesadelos, angústia e de alucinações.

A riqueza e a fama bateram à sua porta, e ele teve uma profusão de casos amorosos. No entanto, a partir de 1884 a sífilis manifestou-se em seu organismo, ocasionando-lhe uma doença nervosa feita de angústias inexplicáveis, de estremecimentos e de alucinações. Algumas dessas sensações estranhas e opressivas foram registradas em contos tão célebres quanto assustadores, como O Horla e É ele. Em 1882, após terríveis sofrimentos, tentou o suicídio. Hospitalizado, veio a morrer no ano seguinte, em estado de semidemência, com apenas 43 anos de idade. Foi enterrado no cemitério de Montparnasse, em Paris.
–––––––––-
A Obra de Maupassant

O primeiro aspecto que chama atenção na obra de Maupassant é a sua variedade temática. Poucos escritores conseguem dar esta impressão de registro de totalidade da existência, de criação de um universo fecundo, múltiplo e quase inesgotável. Escreve sobre Paris, então capital do Ocidente, enfocando várias classes: burgueses, operários, prostitutas, boêmios, intelectuais, funcionários. Escreve também sobre a vida rural, fixando a avareza, a selvageria e a capacidade de resistência dos camponeses. Algumas de suas obras-primas referem-se à Guerra Franco-Prussiana, de 1870. No fim da vida, atormentado por pesadelos, cria histórias cheias de personagens paranóicas.

Há contos para todos os gostos: dos cômicos aos dramáticos, dos pitorescos aos trágicos. Alguns mostram a dor da passagem do tempo; outros, a alegria do presente. Há os que celebram o amor ideal e há os que cantam a brevidade do amor erótico. Muitos registram o cotidiano, alguns enveredam pelo caminho da assombração. Como um pintor impressionista, Maupassant pinta as luzes de Paris: as que reverberam no Sena, as que cintilam nos parques e as que brilham à noite nos boulevards. Luzes que envolvem as personagens nos dramas essenciais da condição humana: a paixão, o prazer, a solidão, o tédio, a morte. É o cronista da vida européia do fim dos Oitocentos, mas também um escritor de dimensão universal.

Quanto à estrutura do gênero, Maupassant fundamenta e dá prestígio a um tipo de narrativa breve, hoje chamada de conto tradicional ou conto anedótico. Caracteriza-se por uma reviravolta surpreendente, quase sempre no desfecho da história. Ou seja, o final do relato deve apresentar algo de inesperado e de impactante ao leitor. Para que esse efeito de surpresa se realize, o contista francês confere a seus textos um teor objetivo mediante a máxima economia de detalhes, da linguagem seca e direta e do diálogo coloquial. Além disso, entre suas virtudes principais situa-se a capacidade de, em poucos traços, definir caracteres e revelar a classe social dos protagonistas.

Há quem julgue Maupassant um artista de superfície, por tentar reproduzir apenas a realidade exterior, sem maior aprofundamento psicológico. Alguns de seus contos, de fato, são crônicas de época; outros, meras anedotas. Contudo, como observou um crítico, “o escritor é profundo na aparente superficialidade porque reconhece o vazio da vida de suas personagens, que buscam o prazer, mas que encontram apenas a destruição fatal”.

05/08/ 1850, Tourville-sur-Arques, França
06/07/1893, Paris, França

Fontes:
http://educacao.uol.com.br/biografias/ult1789u759.jhtm
http://educaterra.terra.com.br/literatura/temadomes/2003/10/07/004.htm
http://www.pensador.info/p/obras_guy_de_maupassant/1/

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A A de Assis (Concurso é Concurso)

Sempre é válido insistir: quem participa de concursos precisa estar preparado para o que der e vier. O resultado é imprevisível e há necessidade de muito espírito esportivo. Você faz a trova com máximo carinho, toma todos os cuidados para evitar cochilos, e só envia quando acredita haver boas chances de ser premiado. O problema é que os demais concorrentes fazem a mesma coisa… e eles são tão bons quanto você.

A grande aventura começa no momento em que o envelope é colocado no correio. Chegará ou não ao seu destino? Como a norma é o remetente usar o mesmo endereço do destinatário, nunca se está seguro do que acontecerá no percurso.

Dando tudo certinho, a trova entrará na “briga”. Três, cinco, dez julgadores, todos dignos da maior confiança e geralmente mestres no ofício. Mas, claro, cada qual com seu jeito de gostar e sua maneira de avaliar.

E aí é que entra aquela velha história de que em um concurso você joga com 70 por cento de competência e 30 por cento de sorte. A sorte vai por conta de sua trova cair ou não no gosto da maioria dos julgadores. Há trovas que recebem nota 10 de um julgador e nota 01 de outro, ou às vezes nem isso. Há também o risco de um belo achado passar despercebido, como há o risco de um grave defeito não ser notado, etc. Quer dizer: a intenção dos julgadores é sempre a melhor possível, porém ninguém é perfeito.

Cabe então a cada concorrente entender que concurso é assim mesmo… e o jeito é bater palmas para os irmãos premiados e esperar pela próxima oportunidade. Mesmo porque, na grande maioria dos casos, se a trova da gente não ganha é porque outras havia realmente melhores…

Fonte:
Editorial Trovia Junho / 2003

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Reforma Ortográfica 4

Fonte:
Imagem = Quar4o Mundo: coletivo de quadrinistas independentes

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Kavera (O Amigo Esquisito)

Detestava conversa. Foi sozinho, como sempre ia, a um bar alemão onde havia o péssimo costume de se dividir a mesa com estranhos, caso estivesse lotado.

Foi logo se estressando…

— Pô, não está vendo que a mesa tá ocupada?

— Estou, mas, e daí?

— Como, e daí?

— Mas essa cadeira está vazia!

— Mas a mesa não!

— Mas eu não me sentarei na mesa e, sim, na cadeira.

— Mas essa cadeira está na minha mesa, não tá vendo?

— A cadeira ou a mesa?

— Vem cá, você é louco, é?

— Bem, se eu for, a minha resposta não terá nenhum valor técnico, apenas nominal.

— Ah, confirma?

— Essa sua pergunta descende de uma indagação minha, estando, portanto, atrelada a ela.

— Como assim? Que papo é esse?

— Bem, se você estiver correto e eu for louco, as minhas respostas serão meros devaneios. Logo, se estamos conversando, o nosso diálogo é insano.

— Insano é você, louco! Sai fora!

— Não posso. Estamos conversando.

— Eu não! Não tô conversando nada com você, ô maluco! Doido!

— Claro que está! Acabou de dizer “doido” pra mim. Não vê? Estamos dialogando.

— Que droga, meu Deus! O cara é doido de tudo! Que azar!

— Não acho! Acho até sorte sua!

— Sorte? Chama isso de sorte? Tô numa conversa franca aqui com o meu amigo, você chega e me interrompe assim? Isso é sorte, é?

— Você não iria aguentar muito tempo com esse seu amigo esquisito aí! Os algoritmos dele estão ó…!

— Algoritmos? Esquisito? Por acaso está chamando o meu amigo aqui de esquisito?

— Sim, estou. Mal consigo vê-lo! Tampouco ouvi-lo!

— Ele é discreto. Bem diferente de você, né?

— De fato, eu sou visível e falo, portanto somos significativamente diferentes.

— Hum…

— Mas podemos ter algo em comum.

— Ah é? O quê, por exemplo?

— Você! Você seria a nossa interface.

— Interface? Que papo doido é esse?

— A nossa ponte, o nosso elo. Você nos conecta um ao outro. Quando ele falar alguma coisa, você traduz para mim. Simples, não? Porque, olha, sinceramente, não consigo entender absolutamente nada desse seu amigo aí.

— É, pra entender tem que ter inteligência, sabia? Não é pra qualquer um não.

— O meu cérebro é bastante limitado, tenho que admitir. O meu sistema ocular insiste em não vê-lo.

— Ver quem?

— Ora, o seu amigo aí.

— O meu amigo? Escuta aqui ó, vou sair fora, tá legal? Você é piradão mesmo! Fique aí com ele, já que devem ter muito em comum. Tchau pra vocês dois.

— Tchau. E obrigado, hein? Estava mesmo procurando uma mesa só pra mim.

Fonte:
– Kavera. Bazófias peristálticas: cronicas de botequim. SP: Marco Zero, 2005.
– Imagem = http://www.flickr.com

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José Valdir Pereira (Lançamento do Livro "Semeador de Emoções")

C O N V I T E

29 de agosto, sábado, às 17h, no Teatro Cacilda Becker, em Cacoal

O escritor e poeta José Valdir Pereira, a Academia de Letras de Rondônia, a Academia de Letras de Cacoal e a Fundação Cultural de Cacoal convidam para o lançamento do livro

“Semeador de Emoções”,
de José Valdir Pereira,
dia 29 de agosto, sábado, às 17h,
no Teatro Cacilda Becker,
no município de Cacoal, Rodnônia.

Ficha técnica:

Gênero: Poesia
Autor: José Valdir Pereira
Editora: Scortecci
Capa e ilustrações: Viriato Moura
Ano: 2009

Sinopse:
“Semeador de Emoções” traz lições das quais emanam advertências, sugestões e exemplos de dignidade humana, convincentes e oportunas que encerram e nos transmitem verdadeiras lições de sabedoria e proficiência de vida.

Informações:

(69) 3441 1192 (Cacoal)
(69) 8451 3424 (Porto Velho)
E-mail acler@acler.org

Fonte:
Academia de Letras de Rondônia

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Pedro Albino de Aguiar (Acadêmicos da Academia de Letras de Rondônia em Trovas)

A vida dos Acadêmicos
Eu vou contar em trovinhas,
Se alguém de mim discorda,
Pode me dar uns “tapinhas”.

Capitão Esron Menezes,
“Retalhos da Nossa História”,
Só falta ser Marechal,
Pra ser maior a vitória.

A Yêdda Borzacov,
Historiadora da boa,
Não guarda papas na língua,
Mas nunca falou à toa.

Tem a Eunice Bueno,
Poetisa requintada,
Já morou até na índia;
Precisa dizer mais nada.

Tem o Viriato Moura,
É médico tão renomado,
Que eternizou Porto Velho,
Bastou mandar um recado.

Temos o Matias Mendes,
Escritor de Guajará
E também do Guaporé;
Vive pra lá e pra cá.

Tem o confrade Jakobi,
Telemedicina, meu!
Daí eu tenho certeza,
Entende mais do que eu.

E tem o Átila Ibañez,
Que mora ali em Vilhena,
É o portão de entrada
Desta terra brazileña.

Conheço o Joaquim Cercino,
Do tempo da fundação,
Pelo que tenho lembrança,
Entramos pelo portão.

Antônio Cândido da Silva,
“Enganos da Nossa História”,
Por causa desses enganos,
Merece uma palmatória.

O Bolívar Marcelino,
Sonetista de primeira,
Escreve tudo certinho,
Só na língua brasileira.

Já o Gesson Magalhães,
Que também é sonetista,
Escreve que nem Camões,
Parece ser mais letrista.

Zelite Andrade Carneiro,
Nossa Desembargadora,
Além de ser poetisa,
É uma ótima escritora.

Tem o Édson Jorge Badra,
Que nasceu em Guajará,
Ele é crítico literário;
Escritor melhor não há.

Temos o Abnael,
Exemplo de educação,
Que além de Historiador,
É nosso fiel irmão.

Temos o Cláudio Feitosa,
O Diretor Financeiro,
Que além de Historiador,
Cuida do nosso dinheiro.

O Aparício Carvalho,
Que é autor de “Candelária”,
Além de Ex-Presidente,
Vem curando até malária.

Temos o Hélio Fonseca,
Nosso membro fundador,
O primeiro Presidente;
Ele é ótimo escritor.

Dimas Ribeiro Fonseca,
Outro Desembargador,
Além de escrever bem,
É um ótimo Orador.

Emmanuel Pontes Pinto,
Ele é um dos pioneiros;
Fundador da Academia,
Junto a outros companheiros.

Também temos o Raymundo,
Que é Nonato de Castro,
Pois, além de fundador,
Sempre deixou o seu rastro.

E temos o João Teixeira,
Para engrossar a lista,
Escreve diariamente,
É um ótimo Jornalista.

Temos o Dante Fonseca,
Marco Domingues Teixeira;
Escrevem juntos a História
Desta terra alvissareira.

Temos os que já se foram:
O Dr. Ary Pinheiro,
O Paulo Nunes Leal,
Outro fiel companheiro.

Tivemos Paulo Saldanha,
Vitor Hugo, Amizael,
Irmão Calixto Medeiros,
Cada qual o mais fiel.

E tem o Valdir Pereira,
josevaldir.com,
Que além de Presidente,
Tem um Site muito bom!

O último é Pedro Albino,
Que além de Trovador,
Escreveu Sessenta e Nove
Poemas com muito humor,
E ainda tem no prelo
Novos Poemas de Amor.

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Pedro Albino de Aguiar (1944)

Nasceu em 03-03-1944, no antigo distrito de Ibicuitinga, hoje município, onde fez o Primário. Registrou-se em Morada Nova – Ce, para onde se mudou em 1964 para continuar os estudos. Filho de Raimundo Castelo de Aguiar e Maria Francisca de Jesus. Sempre contando com a ajuda dos pais, transferiu-se para Fortaleza – Ce em 1967, objetivando trabalhar para poder continuar estudando.

Em Fortaleza concluiu o 2º Grau no Colégio Estadual Liceu do Ceará e o curso superior de Administração de Empresas, na Escola de Administração da Universidade Estadual do Ceará – UECE. Juntamente com outros intelectuais cearenses, entre eles Carneiro Portela, Antônio Girão Barroso, Jader de Carvalho, Rembrandt de Matos Esmeraldo e outros, fundou o Clube dos Poetas Cearenses – CLUPCE, onde se reuniam semanalmente na Casa de Juvenal Galeno, objetivando discutir e expandir a poesia e a cultura regional.

Através do CLUPCE participou da I e III Antologia “Os Novos Poetas do Ceará’, Editora Henriqueta Galeno, 1971/73. Escreveu vários artigos no jornal Tribuna do Ceará, como correspondente do interior. Trabalhou de 1968 a 1977 na Cia. de Eletricidade do Ceará – COELCE (antiga CONEFOR)

Quando concluiu o curso superior, em dezembro de 1977, foi selecionado para trabalhar no Governo do Ex-Território Federal de Rondônia, onde prestou serviços como Administrador e exerceu várias funções públicas no período de 17-02-1978 a 19-08-2002, quando se aposentou.

Mestre em Engenharia da Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC.

Professor da UNIR, da UNIRON e da FATEC.

Publicou os seguintes livros:
Poemas, Sonetos & Trovas, 1989;
Versos Soltos X Rimados & Pensamentos, 1992;
69 Poemas de Amor, 1995,

Participou de várias antologias editadas pela Secretaria de Cultura do Estado de Rondônia.

Cadeira numero 18 da Academia de Letras de Rondônia, tendo por patrono Humberto de Campos.

Secretário Geral da Academia de Letras de Rondônia – ACLER, eleito no dia 04 de janeiro de 2008, para um mandato de dois anos – 2008/2009.

Fonte:

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Artur de Azevedo (A Filosofia do Mendes)

Decididamente o Fulgêncio não nascera para cavalarias altas: não havia rapaz de trinta anos mais tímido nem mais pacato vivendo só, na sua casinha de solteiro, independente e feliz.

Aconteceu, porém, que um dia o Fulgêncio foi tão provocado pelos bonitos olhos de uma senhora, que se sentara ao seu lado num bondinho da Carris Urbanos, que se deixou arrastar numa aventura de amor.

Quando, depois da primeira entrevista, na casa dele, Bárbara – ela chamava-se Bárbara – lhe confessou que era casada com um sujeito chamado Mendes, o pobre rapaz, que a supunha solteira ou pelo menos viúva, ficou horrorizado de si mesmo. Ficou horrorizado, mas era tarde: gostava dela, e não teve forças para fugir-lhe.

As entrevistas amiudaram-se. Quando Bárbara não ia ter pessoalmente com o Fulgêncio escrevia-lhe cartas inflamadas, e nenhuma ficava sem resposta.

Essa imprudência teve mau resultado: um dia Bárbara Mendes entrou em casa do amante acompanhada de duas malas, uma trouxa e um baú.

– Que é isto?

– Alegra-te! Meu marido, que é muito abelhudo, encontrou debaixo do meu travesseiro a tua última carta e expulsou-me de casa.

– Hein?

– Foi melhor assim: agora sou tua, só tua, e por toda a vida!… Não estás contente?

– Muito…

– Estou te achando assim a modo que…

– É a surpresa… a comoção… a alegria…

– Como vamos ser felizes! Mas olha, peço-te que não te exponhas nestes primeiros tempos… O Mendes é ciumento e brutal e, mesmo antes de ter certeza de que eu o enganava, andava armado de revólver!

O Fulgêncio, que não tinha sangue de herói, viveu dali por diante em transes terríveis. Saía de casa o menos possível, e nas ruas só andava de tilburi, recomendando aos cocheiros que fossem depressa. Quando via ao longe um sujeito qualquer parecido com o Mendes, punha-se a tremer que nem varas verdes.

Um dia, tendo descido de um tílburi no Largo da Carioca, para comprar cigarros, encontrou na charutaria o Mendes, que comprava charutos. Ficou de repente muito pálido e trêmulo e quis fugir, mas o outro agarrou-o por um braço, dizendo-lhe com muita brandura:

– Faça favor… venha cá… não se assuste… não trema… não lhe quero mal… ouça-me… é para o seu bem…

O Fulgêncio caiu das nuvens. O marido continuou:

– Eu sei que o sr. tem medo de mim que se péla: receia que eu o mate, ou que lhe bata… Tranqüilize-se: não lhe farei o menor mal. Pelo contrário!

O pobre Fulgêncio não conseguiu articular um monossílabo.

As maxilas batiam uma na outra.

– Matá-lo? Bater-lhe? Seria uma ingratidão! O Sr. Prestou-me um relevante serviço: livrou-me de Bárbara! E não era meu amigo, sim, porque em geral são os amigos que têm a especialidade desses obséquios…

O Fulgêncio continuava a tremer.

– Não esteja assim nervoso! Depois que o Sr. me libertou daquela peste, sou outro homem, vivo mais satisfeito, como com mais apetite, tudo me sabe melhor e durmo que é um regalo… Aqui entre nós, se o amigo quiser uma indenização em dinheiro, uma espécie de luvas, não faça cerimônia; estou pronto a pagar – não há nada mais justo… Ande desassombradamente por toda a parte… não receie uma vingança que seria absurda… e se, algum dia, eu lhe puder servir para alguma coisa, disponha de mim. Não sou nenhum ingrato.

Daí por diante, o Fulgêncio nunca mais teve receio de estar na rua, mas em pouco tempo se convenceu de que não podia estar em casa, porque Bárbara era definitivamente insuportável. O Mendes foi o mais feliz dos três.

Fonte:
– Domínio Público
– Imagem = http://wellcorp.blogspot.com

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Antonio Hohlfeldt (O Conto de Atmosfera)

(…) Em Autran Dourado (…) o escritor está sempre a reescrever seus textos, e mais do que isso, a combiná-los em conjuntos diversos. Isso ocorreu tanto em relação às obras de estréia quanto a outras que se seguiram, na aparente busca de uma obra ampla e contínua, que permita ao leitor grandes relações ou que, ao contrário, as esconda. Estreando em 1947, com uma novela, Teia, a que se seguiria outra, “Sombra e Exílio” (1950), narrativas de dimensões médias que bem poderiam caber na classificação com que se preocupa este volume, Autran Dourado viria porém a preocupar-se com a questão dos “gêneros ao longo do tempo. criando em outro momento obra congênere, sobre a qual os críticos discutiram, e discutiram, sem que se chegasse a qualquer conclusão. Refiro-me a O Risco do Bordado — (1970), para uns, romance, como no caso do critico Hélio Pólvora, para outros, contos, talvez enquadrados na melhor tradição clássica, como parece decidir Temístocles Linhares, que termina por considerá-las representantes de qualquer gênero; uma vez que “todas as suas estórias autônomas. Podem ser lidas cada uma de per si, sem necessidade de imbricá-las uma na outra. Depois, cada uma delas conserva o seu tom peculiar“.

O que importa, porém, neste caso, é que, como anotava Hélio Pólvora, a obra de Autran Dourado “é uma das mais felizes combinações, em nossa prosa, de regionalismo e psicologismo“, com o que viria a concordar depois o crítico norte-americano Malcolm Silverman, ao falar de uma “introspecção regionalista, mostrando que” através de uma cuidadosa e calculada manipulação desse influxo regionalista ou ambiental (isto é, o material), Dourado canaliza e desdobra a psique de suas criaturas (isto é, o espiritual) para levá-las a revelar-se num crescendo geralmente orientado para um “clímax”.

É o mesmo crítico quem, citando ao romancista, lembra não se ter nem ele mesmo decidido a respeito do gênero desta obra, embora tenha-se preocupado com outras questões que envolvam seu trabalho. Em depoimento a Edla van Steen, por exemplo, Dourado afirma: “eu fui um dos primeiros a usar a técnica do fluxo de consciência, o que espantou, escandalizou um pouco. O diálogo incluso, o diálogo dentro da própria narrativa, o sujeito vendo, falando e pensando ao mesmo tempo, criou alguma dificuldade de leitura.”

A troca de pessoas durante a narrativa, apontada em relação a Clarice Lispector, também é prática comum em Autran Dourado, que sobre isso assim se refere: “venho usando desses recursos conscientemente. Em certos casos (. .. ) passo uma história escrita originalmente na terceira pessoa para a primeira, e o efeito é sempre surpreendente, quando não desconcertante, mesmo para mim ( … ). Na mudança da pessoa ou do tempo do verbo, é espantoso como somos obrigados a ser bons artesãos; senão nos perdemos, e o recurso não funciona“. Também à semelhança de outro mineiro, Guimarães Rosa, enfocado neste volume no capítulo dedicado ao conto rural, Autran Dourado preocupa-se com a etimologia dos nomes de suas personagens, criando-as e estudando-as cuidadosamente.

Nem sempre, porém, houve esta consciência tão forte no escritor, o que leva Silverman a dizer que a primeira grande modificação em direção ao que depois se tornaria o Autran Dourado que todos admiramos, dar-se-ia com Tempo de Amor, em que “um personagem-tipo persistentemente perseguido pelo autor torna-se de repente tridimensional e refinado. Não é mais mostrado: ele próprio mostra o que é, passando de títere atormentado a atormentado ator“. O próprio escritor, aliás, concorda que todo seu aprendizado se deu justamente a partir deste livro, que ante as dificuldades de editoração, ele reescreveu diversas vezes. Dai nasceria a experiência dos blocos narrativos entremeados que reutilizaria em O Risco do Bordado, principalmente, tornando-o uma espécie de “esfinge” enigmática, pronta a devorar todo e qualquer leitor — inclusive o crítico — que dela se aproxime.
Graças a todo o seu artesanato, cuidadosamente elaborado e exercitado (todo o livro de Autran Dourado leva alguns anos para construir-se, seja um romance ou uma coletânea de narrativas curtas), chegou ele a um “sistema expressivo altamente eficaz. Autran Dourado, aperfeiçoando cada vez mais a sua linguagem narrativa, pousa entre o realismo e o simbolismo, interpondo uma cortina de valores poéticos entre o leitor e a descrição dos cenários, dos caracteres e dos vertiginosos acontecimentos“, no dizer de Fábio Lucas.

Tematicamente, poder-se-ia referir à obra de Autran Dourado na base da síntese que Hélio Pólvora dela realizou: “a decadência senhorial, o desajuste entre o tempo histórico e o tempo social“, mas isso não basta. Silverman observou, corretamente, haver “similaridades” que entrelaçam todas as obras, como um continuum — “uma por vezes densa ‘cor local’ em ,que ou frente à qual as personagens de ordinário atormentadas de Dourado lutam consigo (e em si) mesmas, ora com sucesso, o mais das vezes não, para tornar as suas vidas suportáveis“.

O tom da maioria destas narrativas, segundo ainda o mesmo crítico, “tende a ser de modo geral soturno, em harmonia com o arquétipo sistematicamente conturbado do escritor; os finais quase sempre acomodam-se ao caráter predominante; e o estilo mostra-se tão agudamente analítico quanto no caso das composições mais largas, em que pesem as limitações estruturais“.

Quem melhor apreendeu, em sua globalidade, a obra de Autran Dourado, alcançando ver a totalidade dos imbricamentos que todos os elementos até aqui levantados pelos diversos críticos, realizam, foi Maria Lúcia Lepecki. Em obra fundamental para a compreensão do escritor, a crítica mostra que “todas as narrativas de Autran Dourado organizam-se em torno de um núcleo ideológico mínimo e totalizante como significação-significado: a morte. Problema fundamental com que se debatem, consciente ou inconscientemente, seus personagens, agentes da narrativa, amor te caracteriza-os e torna-se presença inarredável em nível de conflitos, de ambiente físico, de objetos, de animais e até de matéria“. A morte confere sentido ao mundo e à própria vida, pois, como ela demonstra em seguida, “entendendo a morte como passagem, esta ficção no-la mostra qual prova (que até pode ser, mas nunca, apenas, provação) inevitável, cujo cumprimento integra o ciclo vital e não o interrompe. Os mortos de toda a obra de Autran Dourado ( … ) continuam a viver, tornando-se até agentes provocadores de conflitos no protagonista e/ou outras personagens“.

É sob esta perspectiva que surge a dimensão mítica da literatura de Autran Dourado, estruturada sobre a oposição entre espaços e, consequentemente, entre tempos” (. .. ) As oposições de tempos e espaços vinculam-se, por sua vez, à problemática da busca — integrante da vivência do homo religiosus, sempre e necessariamente à procura do absoluto, do transcendente ou do ‘real’ suscetível de conferir sentido ao ‘mundo de baixo’. Através da correlação tempo-espaço-vida, chega-se à viagem como submotivo desta ficção” .

Maria Lúcia Lepecki mostra haver um tempo narrativo primordial, o imperfeito do indicativo, em todas as narrativas de Autran Dourado, o que a) veicula a persistência de valores arcaicos, dentro de um tempo histórico subtextual; e b) cria o conteúdo mítico (que não só existiu como ainda existe em processo de criação): o passado é a fonte de sabedoria, tanto mais valiosa e digna de crédito, quanto mais remotamente se localize em relação aos agentes. Mas também a imaginação cumpre importante papel, pois preenche as lacunas possíveis.

O próprio escritor concorda plenamente com a tese da crítica, ao afirmar que sempre utiliza “uma pessoa real filtrada pelas lentes da memória e da imaginação (a pessoa real pode morrer que continuará viva na memória do autor)”, seja para inspirar-se, seja para conduzir sua narrativa .

Para Silverman, este tempo, “em si, é não mais que incidental na obra de Dourado, mais uma parte da mente deformada e deformante dos protagonistas que uma medida para a evolução da trama. A intemporalidade significa em si mesma universalidade, e é precisamente o talento de Autran Dourado em projetar padrões universais de comportamento humano ao focalizar introspecções individuais que fez dele um dos mais destacados ficcionistas brasileiros“. AIiás, o aspecto acima citado é especialmente verificável nos recentes Novelário de Donga Novais e sobretudo no livro de contos As Imaginações Pecaminosas (1981), em que, a todo o momento, o narrador está a interrogar-se sobre se tal fato terá mesmo ocorrido ou terá sido mera imaginação sua e dos demais agentes que com ele repartem o conhecimento do(s) fato(s) pretenso(s).

Esta mesma ambigüidade, já anotada em Salim Miguel e essencial em Autran Dourado, ocorre também episodicamente nos contos do crítico literário e ficcionista baiano Hélio Pólvora. Estreando na ficção curta com Os Galos da Aurora (1958), a que se seguiria A Mulher na Janela (1961) — projetando-se aqui mais uma vez uma questão de gênero, pois o volume pretende mesclar crônicas e contos — sua obra viria a afirmar-se com Noites Vivas, (1972), que cheguei a aproximar das narrativas das mil e uma noites, em plena área mítica, através da introdução ambígua de um constante “talvez”, onde a memória suportava a ponte de transição do universo rural para o urbano. Seguir-se-ia Estanhos e Assustados (1966), que Flávio Loureiro Chaves vincularia ao regionalismo, em aparência, para mostrar, ferem, que seu texto “esconde camadas mais profundas sob a superfície do cenário exótico e particularizado“, embora ocorra neste livro, como no anterior e no que se seguiria, e que se constitui até o momento na obra mais recente do autor, Massacre no Km. 13 (1980), um condicionante da paisagem à existência das personagens, provavelmente devido às “raízes evidentemente naturalistas do escritor, traduzias, desde o primeiro conto, no telurismo, no animalismo que marca suas personagens, num quase fatalismo“. A propósito deste último livro, numa observação extensiva a todos os seus demais trabalhos, Lygia Fagundes Telles afirma que “sua emoção é trabalhada por um estilo vigoroso, implacável, e é esse estilo que imprime às idéias uma força selvagem, um vigor original, impregnado às vezes de alto sopro lírico. Temos assim um texto raro, arrebatador, que nos comove e nos provoca a lúcida admiração que só as verdadeiras obras de arte conseguem nos provocar“.

Na verdade, os enredos de Hélio Pólvora, como registrei justamente a respeito deste livro mais recente, são apenas razões aparentes para que ele possa ampliar o estudo dos climas que muito gosta de desenvolver: pairam sobre suas personagens e as narrativas que delas emanam ou sobre elas se constroem, uma tensão provocada pela indagação constante sobre o que irá lhes suceder. Mas o narrador, longe de cair na armadilha do simples conto de ação, dilata o enredo, suspende a trama, tece longos circunlóquios a respeito de uma série de outros elementos para, então, num repente, reunir a tudo num único parágrafo, geralmente curto, que não é aquele “clímax” do conto clássico de um Maupassant, porque na verdade não resolve nada, mas, ao contrário, apenas permite uma ampliação do que o narrador vinha realizando: é como se, dado o “motivo”, o escritor dissesse ao leitor: suspendo aqui a narrativa. Complete-a você. O leitor, evidentemente, pensará em Machado de Assis. O que terá ocorrido exatamente com o filho de Capitu? E com o estudante do conto sempre citado, “Missa do Galo”? E o casal inspirador da tão ansiada canção? Pois o mesmo ocorre no caso de Hélio Pólvora: como irá o adolescente situar-se na cidade? O que esperar da mulher louca (será ela a débil mental ou realmente o marido e padastro, um perverso?), presa junto à casa? Escapará o assassino que usa a gilete contra indefesas donzelas? E assim por diante.

Eminentemente interrogativo é o texto do carioca mineiro Sérgio Sant’Anna. Com apenas dois livros de contos, O Sobrevivente (1969) com que estreava na literatura, e Notas sobre Manfredo Rangel, Repórter (1973). Sérgio goza de imenso renome, possuindo mais dois largos romances e tendo publicado recentemente duas narrativas de dimensões menores. No entanto, não há gênero fixo para o escritor, se bem que vários críticos, já à época de sua estréia, prognosticassem sua maior dedicação ao romance, a partir do conto, como ocorreu com Assis Brasil e Fausto Cunha . (Assis Brasil, em A nova literatura, já assinalava: “é outro escritor que tende também para o romance, daí a sua predileção por enredos” (op. cit., p. 136). enquanto Fausto Cunha escrevia. “Sérgio Sant’Anna incorpora ao seu conto – que em alguns casos já aspira a ser novela e dirige-se visivelmente para a marca do romance – alguns elementos do jornal, do cinema e da publicidade” A leitura aberta.)

Seja como for, todos os contos de Sérgio Sant’ Anna, como aliás, seus romances, mantêm constantes, que, sinteticamente estudadas por Malcolm Silverman, mostram que, “salvo poucas exceções, Sérgio Sant’ Anna baseia seus enredos ou no ramerrão da vida diária (urbana). ou, inversamente, em alguma forma de (romântico) escapismo” .

Para este crítico, há também unidade quanto às perspectivas espaciais, pois os locais, ou seja, o espaço, desempenham um papel capital na ficção de Sérgio Sant’ Anna, suprindo, em conjunto com as atmosferas a eles inseparavelmente ligadas, a força externa que enseja o desenvolvimento interno das personagens. Esta atmosfera, em geral, “reduz-se a uma sensação única, dosada em termos ora físicos, ora psíquicos“, em que a ironia e a semidemência, ou um estado de “infernização demoníaca” é a melhor imagem que as pode expressar, seja ao nível dos contos mais realistas em sua linguagem, como os encontramos em qualquer um dos dois volumes, seja mesmo em seus romances. Dir-se-ia que as personagens passam a ser possuídas ou manejadas por forças ou elementos externos que as comandam, quase como autômatos, até o final de suas reações possíveis.

O crítico Hélio Pólvora, quando da estréia de Sérgio Sant’ Anna, tecia-lhe algumas restrições quanto à inconclusa dos climas que o escritor buscava criar, enquanto Assis Brasil acreditava haver boa situação dos flagrantes escolhidos pelo escritor. Seja como for, e a evolução da obra de Sérgio Santana bem o demonstrou, o escritor enveredou para’ um caminho relativamente raro em nossa literatura, identificável a partir de O Alienista de Machado de Assis e que tem boa prática, hoje em dia, num escritor como Marcos Rey, que estudamos em outro capítulo deste volume, dedicado ao conto de costumes. Há qualquer coisa de “pícaro” nas personagens de Santana, até mesmo pela intensa mobilidade que — em especial nos romances — suas personagens experimentam, embora ao nível do enredo os espaços se fixem em diminutas porções, através de figuras arquetípicas, como observa Malcolm Silverman, para quem, ainda, “o autor mostra marcada preferência por uma linguagem espontânea, coloquial e fluente, que, em suas variações, é manejada de modo a refletir realisticamente as diversas índoles dos variados narradores-protagonistas“.

Falecido recentemente, o caráter experimental da obra literária de Osman Lins coloca-o como figura excepcional em nossas letras. Ensaísta, dramaturgo, romancista, Osman Lins produziu apenas um livro de contos, com que estreava na literatura, Os Gestos (1957) e posteriormente Nove, Novena (1966), a que classificaria, generalizadamente, apenas como “narrativas”.

Quando de sua estréia, Fausto Cunha queixava-se do excesso de “poeticidade” que seus contos apresentavam. Este aspecto seria mais tarde ampliado, o que levaria João Alexandre Barbosa a referir que Osman Lins “não conta: escreve. Mas, por este ato, cria um espaço em que se situa a fabulação. E faz surgir, então, a narrativa como se fora uma imposição inevitável decorrente do enlaçar-se e fundir-se das palavras, refundindo a indagações da sensibilidade ao encontro com a realidade. Daí, possivelmente, o caráter ornamenta da linguagem utilizada ( … ) e que nos parece responder, por outro lado, a um princípio estrutural de extração de significados a partir da própria organização literária” .

Um jogo refinado e um jogo em estado bruto a que se entrega o autor“, ainda no dizer do mesmo crítico, nada se apresenta de maneira gratuita ou casual nesta literatura, até mesmo os títulos, como em Nove, Novena, em que se faz referência não apenas ao número de narrativas como ao elemento religioso — novena — que integra o ritual em seu contexto: “a todo o instante, Osman Lins procura buscar a gênese do homem, mobiliza as noções acerca da evolução da espécie, escora-se em explicações antropológicas para considerar a natureza mutável e transitiva do gênero humano“, afirma Fábio Lucas em extenso estudo sobre o escritor. Para ele, “o autor cria e, ao mesmo tempo, se interroga acerca da linguagem, progride impulsionado por uma asa escondida — o talento, que, no caso, compete com o artesanato. A síntese, vai encontrá-la na velha arte egípcia, aquela de traços breves e dimensões monumentais“, porque “enquanto cria tensões, alinha entre elas as indecisões do escritor, põe em questão a própria arte” .

Metatexto, neste sentido, seus contos “ambicionam apresentar um simultaneísmo de eventos, de diálogos, de cenários e de monólogos, tentando a instauração de tensões multipolarizadas. É a sua originalidade. A totalidade de cada conto é menos uma soma de diversos elementos vitais e técnicos do que a compactação de tudo em torno de conflitos que se repetem em níveis, contextos, instâncias e situações diferentes. Daí a multiplicação de recursos tipográficos para situar cada pólo em seu compartimento”, ainda no dizer do mesmo crítico, que conclui: “A sucessão de monólogos indica apenas a mudança de ângulo visual pelo qual se filtra a relação humana nos seus diferentes índices de profundidade. ( … ) Os diálogos perdem muito da função tradicional, pois são mais ilustrativos de situações, prolongamento de um conflito interior ( … ); o jogo não é de palavras, mas crispação no plano da consciência, onde a linguagem procura inaugurar-se e compreender o destino do homem, investigar as origens humanas, a finalidade da existência“.

Em depoimento realizado pouco antes de sua morte, indagado sobre o que entendia por “ficção”, Osman Lins respondeu: “Acho ser a fixação, através da palavra escrita. e com ênfase na aparência das coisas, pelo autor decompostas e reorganizadas, de uma visão pessoal de mundo, não raro absurda e quase sempre insólita, que, no entanto. se confunde, sob a pressão do gênio do escritor, com o universo onde todos habitamos“.

Por isso mesmo, tem razão Wendel Santos ao dizer que “não é a estória que conta, mas a forma da estória. Não tendo mais uma forma fixa de começo, meio e fim, a narrativa não permite, em momento nenhum, o repouso da percepção: suspensa, ela precisa descobrir o melhor modo de ir até o mundo. Tudo isso divide a consciência leitora, que fica indecisa entre o histórico e o meta-histórico“, o que determina o nível de exigência no texto de Osman Lins: o que a narrativa exige é a aprendizagem da leitura aberta; da leitura que não se pretende fechar, pois sabe que a única realidade que se fecha, na existência do homem, é a realidade da morte” , afirmativa contra a qual, quem sabe, posicionar-se-ia Autran Dourado, mas que permite, em todo o caso, a Antonio Houaiss afirmar: “acabados, arredondados, cuidados, que sugerem, que impressionam, que podem, às vezes, ajudar a confiar — todos, aliás, colocando um problema ético ou filosófico de forma vivencial, excluído qualquer aparato técnico Explícito, a não ser aquele atribuído à personagem de que tal aparato possa derivar” (o crítico referia-se, evidentemente, ao primeiro livro do escritor), a verdade é que a obra de Osman Lins poderia ter ido bem mais além. E embora seus textos provoquem certa reação por parte dos leitores ainda presos ao folhetinesco romantizo, nem por isso são efetivamente tão complexos: seu vocabulário não foge ao comum, a psicologia de suas personagem é bastante acessível à nossa compreensão e, enfim, excluído o eventual aparato visual de alguns contos, os demais — mesmo numa primeira complexidade pela múltipla perspectiva das narrativas — amoldam-se à atenção do leitor, desde que este entenda estar a lidar com palavras que, fora do “estado de dicionário” a que se referiu o poeta, estarão sempre amplamente dispostas a ofertar a seu manipulador — escritor ou leitor — amplo chão de interpretações. Se o estilo é a casa do homem, como já se disse, o clima a ser criado pela palavra é o teto da “construção. E sob certa perspectiva, sua motivação.

(Extraído de Conto Brasileiro Contemporâneo. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1981, 230 p.)

Fontes:
http://www.jornaldecontos.com/
imagem =
http://botecoliterario.wordpress.com

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Almir Câmara (Caldeirão Literário da Bahia)

POUCO, MAS BASTANTE

As coisas boas que não conhecemos,
sabendo até que elas estão em vida,
de faltas suas não padeceremos
se a nossa alma estiver abastecida.

Não vale a pena a elas se ter acesso
se para consegui-las for preciso
sentir nosso conforto agora opresso,
pois tempo futuro é muito impreciso.

Feliz do ser que o pouco for bastante
para levar a vida que ele gosta
sem a riqueza ver muito importante.

Quem reputa o bastante muito pouco
de muita coisa boa se desgosta
e se consome num viver de louco.

(04/07/1989)
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O SABOR DA TRISTEZA

Nada pode ser tanto condolente
quanto ver a chorar um sofredor
que está cativo de uma grande dor
sem ver um só calor que lhe acalente.

Não, não há nada mais comovedor
do que assistir as lágrimas de um ente,
que está a sofrer uma dor ardente,
fluírem sem tirá-lo dessa dor.

Suas lágrimas são sangue incolor,
mas que deixa impressões de alto calor,
fazendo a gente chorar com certeza.

Elas têm o sabor da água do mar,
sabor que não dá para costumar,
pois é também o gosto da tristeza.

(18/07/1990)
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CONFERÊNCIAS AMARGAS

Tenho do meu rincão muita saudade,
mas só do tempo que eu era criança,
pois lá eu só vivi toda essa idade
e tudo ficou fixo na lembrança.

Hoje se vê por lá outra verdade,
tudo se transformou, houve mudança.
Por toda parte tudo é novidade.
Para mim não existe mais pujança.

As árvores antigas não há mais.
O povo mais velho, também jamais.
De amigos que deixei, só referências

Até seu rio não é mais o tal,
está sujo, doentio, não vital.
É triste fazer estas conferências.

(10/10/1990)
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ENDEREÇO DA FELICIDADE

Se é um endereço onde há felicidade
que você está tanto na procura,
não vá onde houver pompa com fartura
nem onde muito houver necessidade.

No primeiro lugar há corredura
para sempre se ter prosperidade,
enquanto no outro, que disparidade,
só manter-se vivo é carreira dura.

Investigue onde o pouco for bastante,
onde não haja inveja assinalada,
onde parar se possa algum instante,

onde valor ninguém dê a adereço
e onde a raiva ninguém veja instalada,
pois, com certeza, é lá esse endereço.

(12/10/1990)
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O HOMEM FELIZ

O homem feliz não é muito exigente.
No geral é de classe média baixa.
Não é considerado diligente,
mas sempre tem algum dinheiro em caixa.

Também não é julgado inteligente,
sua cultura é de pequena faixa,
mas todos o acham uma boa gente
e a amizade de todos, ele encaixa.

Muitas vezes eu fico-lhe observando
viver bem sem haver tanta exigência,
e nesse exame dou-lhe o grau distinto.

E assim, sem ganas, vai se conservando.
Pode não ser de grande inteligência,
porém é um racional de grande instinto.

(14/10/1990)
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CALÚNIA, ARMA DO MAL

Se tua ira algum dia aconselhar-te
fazer acusações falsas a alguém,
contém-te, nada inventes de ninguém,
ainda que se ponha a atrapalhar-te.

Defende-te com as armas só do bem,
usando-as com justiça e com muita arte,
mas a calúnia deixe bem à parte.
Ela atingirá tua alma também.

Se a vomitares, num lance cruel,
pedes logo desculpas da desfeita,
confessando que tu foste infiel.

Faças como o cachorro que retoma
sua vomição logo após a feita
e do mal sanarás seu hematoma.

(03-11-1990)
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Sobre o Autor
Almir Querino Câmara, filho de Antonio Querino Câmara e Maria Madalena Lemos Câmara, nasceu em Faisqueira, vila do Município de Ubaitaba, Bahia, em 16 de outubro de 1932. Reside em Vitória da Conquista, Bahia, desde maio de 1964. É casado com Heleusa Figueira Câmara, tem 4 filhos (Diana, Mônica, Danilo e Verônica) e 6 netos (Matheus, Heleusa, Raquel, Isaque, João Pedro e Leonardo).
Formado em engenharia civil em 11 de dezembro de 1958 pela Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia. Foi engenheiro da Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista, Bahia de 16/03/1973 a 31/12/2005. É engenheiro credenciado da Caixa Econômica Federal desde maio de 1975.
Vem se dedicando a fazer versos rimados desde maio de 1989. Participou no livro Coletânia de Poesias, Volume I, da Usina de Letras, publicado em 2005

Fonte:
Antonio Miranda

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Marli Savelli de Campos (A Personagem do Romance)

Quando lemos um romance, fica a impressão de uma série de fatos organizados em enredo e de personagens que vivem estes fatos. Enredo e personagem exprimem, ligados, os intuitos dos romances, a visão da vida que decorre dele, os significados e valores que o animam. Portanto os três elementos centrais de um desenvolvimento novelístico são: o enredo, a personagem e as idéias, que juntos formam um conjunto elaborado pela técnica, por isso são elementos inseparáveis nos romances bem realizados.

Um erro freqüente é pensar que o essencial do romance é a personagem, como se este pudesse existir separado das outras que lhe proporcionam vida. Pode-se dizer que, este é o elemento mais atuante, mas a construção estrutural é a maior responsável pela força e eficácia de um romance.

A personagem é um ser fictício, isto é, algo que, sendo uma criação da fantasia, comunica a impressão da mais lídima verdade existencial. É uma relação entre o ser vivo e o fictício que se concretiza através do personagem. Entre o ser vivo e a ficcção há tanto diferenças como afinidades e ambas são extremamente importantes para criar o sentimento de verdade que é a verossimilhança. Para isso é preciso uma investigação sumária sobre as condições de existência essencial do personagem, começando por descrever do modo mais empírico possível a nossa percepção do semelhante.

Os seres são por sua natureza misteriosos, inesperados, daí concluímos que a noção a respeito de um ser elaborada por outro ser, é sempre incompleta. Por isso, no romance, o escritor estabelece algo mais coeso, menos variável que é a lógica do personagem. Podemos dizer então que, embora mais lógica e fixa não seja mais simples do que o ser vivo. O personagem é complexo e múltiplo porque o romancista pode combinar os elementos de caracterização organizados segundo uma certa lógica de composição que cria a ilusão do ilimitado.

No romance moderno percebemos a complicação crescente da psicologia das personagens imposta pela necessidade de caracterização, tratando os personagens de dois modos principais:

Seres íntegros delimitáveis: marcados com certos traços que os caracterizam.
Seres complicados: não se esgotam nos traços característicos, podendo jorrar a cada instante o desconhecido e o mistério.

Na técnica de caracterização definem-se duas famílias de personagens: os personagens de costumes de Fielding, e os personagens de natureza de Richardson.

Personagens de Costume: são muito divertidos e podem ser compreendidos por um observador superficial. São caracterizados por personagens cômicos, pitorescos, sentimentais ou trágicos, dominados por uma característica invariável e desde logo revelada.

Personagens de Natureza: não são imediatamente identificáveis, é preciso mergulhar nos recursos do coração humano. A cada mudança do seu modo de ser, o autor precisa lançar mão de uma caracterização diferente, geralmente analítica e não pitoresca.

Em nossos dias, Forster retomou a distinção de modo mais sugestivo e amplo falando em personagens planas e personagens esféricas.

Personagens planas: eram chamadas “temperamentos”. São construídas em torno de uma única idéia ou qualidade, podendo ser expressa numa frase.

Personagens esféricas: é capaz de nos surpreender de maneira convincente; traz em si a imprevisibilidade da vida.

Forster também estabelece uma distinção pitoresca entre o personagem de ficção e a pessoa viva. É a comparação entre o Homo fictus e o Homo sapiens.O homo fictus é e não é equivalente ao homo sapiens, pois vive segundo as mesmas linhas de ação e sensibilidade, porém numa proporção e avaliação, diferentes.

Quando estabelecidas as características da personagem fictícia, surge um problema que Forster aborda: o personagem deve dar a impressão que vive, de que é como um ser vivo, para tanto, deve lembrar um ser vivo, isto é, manter relações com a realidade do mundo. E um personagem só nos parece real quando o romancista sabe tudo a seu respeito. É como se a personagem fosse inteiramente explicável e isto lhe dá uma originalidade maior que a vida.

Para François Mauriac, o grande arsenal do romancista é a memória, pois é dela que se extraem os elementos da invenção e isto confere acentuada ambigüidade aos personagens, pois não correspondem as pessoas vivas, mas nascem delas. Ele propõe uma classificação de personagens levando em conta o grau de afastamento em relação ao ponto de partida na realidade:

Disfarce leve do romancista como ocorre ao adolescente que quer exprimir-se.

Cópia fiel de pessoas reais que não constituem propriamente criações, mas reproduções.

Inventadas a partir de um trabalho tipo especial sobre a realidade, sendo esta um dado inicial, servindo para concretizar virtualidades imaginadas.

Tomando o desejo de ser fiel ao real como um dos elementos básicos na criação do personagem, podemos admitir que oscila entre dois pólos de idéias: transposição fiel de modelos e invenção totalmente imaginária. E é essa combinação variável que define cada romancista.

Baseando-se nos dois tipos polares acima referidos, podemos esquematizar, entre outros, do seguinte modo:

Personagens transpostas com relativa fidelidade de modelos dados ao romancista por experiência direta _ seja interior (incorpora a sua vivência, os seus sentimentos); seja exterior (Transposição de pessoas com os quais o romancista teve contato direto, como por exemplo: pai, mãe…)

Personagens transpostas de modelos anteriores, que o escritor reconstitui indiretamente _ por documentação ou testemunho, sobre os quais a imaginação trabalha.

Personagens construídas a partir de um modelo real, conhecido pelo escritor, que serve de eixo ou ponto de partida. O trabalho criador desfigura o modelo que, todavia se pode identificar.

Personagens construídas em torno de um modelo, direta ou indiretamente conhecido, mas que é apenas um pretexto básico, um estimulante para o trabalho de caracterização, que explora ao máximo as suas virtualidades por meio da fantasia, quando não as inventa de maneira que os traços da personagem resultante não poderiam, logicamente convir ao modelo.

Personagens construídas em torno de um modelo real dominante, que serve de eixo, ao qual vem juntar-se outros modelos secundários, tudo refeito e construído pela imaginação.

Personagens elaboradas com fragmentos de vários modelos vivos, sem predominância sensível de uns sobre outros, resultando uma personalidade nova.

Ao lado de tais tipos de personagens, cuja realidade pode ser traçada mais ou menos na realidade, é preciso assinalar aquelas cujas raízes desaparecem de tal modo na personagem fictícia resultante, que, ou não tem qualquer modelo consciente, ou os elementos eventualmente tomados à realidade não podem ser traçados pelo próprio autor.

Para finalizar, é possível dizer que a natureza da personagem depende em parte da concepção que preside o romance e das intenções do romancista e antes do mais, da função que exerce na estrutura do romance, do modo a concluirmos que é mais um problema de organização interna que à realidade exterior.

Cada traço adquire sentido em função de outro de tal modo que a verossimilhança, o sentimento da realidade, depende da unificação do fragmentário pela organização do contexto. Esta organização é o elemento decisivo da verdade dos seres fictícios, o princípio que lhes infunde vida, calor e o faz parecer mais coesos, mais apreensíveis e atuantes do que os próprios seres vivos.

Fontes:
– CANDIDO, Antonio. A personagem de Ficção. 3º edição. São Paulo. Perspectiva, 19
http://mscamp.wordpress.com/a-personagem-do-romance/

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Anton Tchekhov (A Aposta)

I

Era uma noite escura de outono. O velho banqueiro media a passadas o seu gabinete e recordava como, quinze anos atrás, no outono, dera uma festa. Nessa reunião estivera muita gente inteligente e houvera muitas conversas interessantes. Entre outros assuntos, falara-se da pena de morte. Os convidados, entre os quais havia não poucos sábios e jornalistas, na sua maioria tinham uma atitude negativa para com a pena de morte. Achavam esse método de punição obsoleto, impróprio para os Estados cristãos e imoral. A opinião de alguns deles era que a pena de morte deveria ser definitivamente abolida e substituída pela prisão perpétua.

— Não estou de acordo — disse o banqueiro, dono da casa. — Nunca experimentei nem a pena de morte nem a prisão perpétua, mas, se é possível julgar a priori, a minha opinião é que a pena de morte é mais moral e mais humana do que a prisão. A execução mata duma vez, ao passo que a prisão perpétua mata aos poucos. Que carrasco é, pois, mais humano — aquele que mata de repente ou o que arranca a vida no decorrer de muitos anos?

— Tanto uma coisa como outra são igualmente imorais — observou um dos convidados —, porque ambas têm a mesma finalidade — tirar a vida. O Estado não é Deus. Não tem o direito de tirar aquilo que não pode devolver, se quiser.

Entre os convidados estava um jurista, jovem de uns vinte e cinco anos. Quando lhe perguntaram a sua opinião, ele disse:

— Tanto a pena de morte como a prisão perpétua são igualmente imorais, mas, se me oferecessem a escolha entre a morte e a prisão perpétua, eu certamente escolheria a segunda. Viver de qualquer maneira é melhor do que não viver de todo.

Começou uma discussão animada. O banqueiro, que era então mais jovem e mais nervoso, súbito ficou fora de si, deu um murro na mesa e gritou para o jovem advogado:

— Não é verdade! Aposto dois milhões que o senhor não agüentaria numa cadeia nem cinco anos.

— Se o senhor fala sério — respondeu-lhe o advogado —, eu aposto que posso agüentar a prisão não por cinco, mas por quinze anos!

— Quinze? Aceito! — gritou o banqueiro. — Senhores, eu ponho na mesa dois milhões!

— De acordo! O senhor põe dois milhões, e eu, a minha liberdade! — disse o jurista.

E essa aposta selvagem e insensata realizou-se! O banqueiro, que naquele tempo não tinha conta dos seus milhões, mimado e leviano, estava encantado com a aposta. Durante a ceia, ele pilheriava com o jurista e dizia:

— Caia em si, jovem, enquanto ainda não é tarde. Para mim, dois milhões são uma ninharia, mas o senhor se arrisca a perder três ou quatro dos melhores anos de sua vida. Eu digo três ou quatro, porque o senhor não agüentará mais do que isso. Não esqueça tampouco, infeliz, que a prisão voluntária é muito mais penosa do que a compulsória. O pensamento de que, a cada momento, o senhor pode sair para a liberdade vai lhe envenenar toda a existência na prisão. Eu tenho pena do senhor!

E, agora, o banqueiro, andando dum lado para outro, recordava tudo isso e se perguntava:

— Para que foi essa aposta? Qual era o proveito disso? O jurista perdeu quinze anos de sua vida, e eu jogo fora dois milhões? Será que isso poderá provar aos outros que a pena de morte é pior ou melhor que a prisão perpétua? Não e não — é tolice e insensatez. De minha parte, isso foi um capricho de homem enfastiado, e, da parte do jurista, nada mais que avidez de dinheiro…

E ele continuou recordando o que aconteceu depois da famosa noitada. Ficou resolvido que o advogado passaria a sua reclusão, sob a mais severa vigilância, numa das alas construídas no jardim do banqueiro. Combinou-se que, no decorrer de quinze anos, ele ficaria privado do direito de atravessar a soleira da sua ala, de ver gente, ouvir vozes humanas e receber cartas e jornais. Permitiu-se que ele possuísse um instrumento musical, lesse livros, escrevesse cartas, tomasse vinho e fumasse. Pelo trato, suas comunicações com o mundo exterior poderiam ser apenas mudas, através de uma janelinha especialmente construída para esse fim. Tudo aquilo de que precisasse, livros, notas musicais, vinho e o resto, ele receberia, por intermédio de bilhetes, em qualquer quantidade, mas somente pela janelinha. O contrato previa todos os detalhes e minúcias, que faziam a reclusão rigorosamente solitária, e obrigava o advogado à permanência de quinze anos exatos, das doze horas de 14 de novembro de 1870 até às doze horas de 14 de novembro de 1885. A menor tentativa, da parte do jurista, de quebrar qualquer das condições, ainda que dois minutos antes do término do prazo, libertava o banqueiro da obrigação de pagar-lhe os dois milhões.

Durante o primeiro ano o jurista, conforme se podia julgar pelos seus lacônicos bilhetes, sofreu muito da solidão e do tédio. Da sua ala, constantemente, dia e noite, ouviam-se os sons do piano. Ele recusou o vinho e o tabaco. O vinho, escrevia ele, excita os desejos, e os desejos são os primeiros inimigos do prisioneiro; além disso, não existe nada mais aborrecido do que tomar bom vinho sem ver ninguém. Quanto ao tabaco, poluía o ar do seu quarto. No primeiro ano, mandaram-lhe livros, de preferência de conteúdo leve: romances com complicadas intrigas amorosas, contos policiais e fantásticos, comédias, etc.

No segundo ano, a música silenciou na ala, e o jurista, nos seus bilhetes, exigia somente os clássicos. No quinto ano, novamente ouviu-se música, e o prisioneiro pediu vinho. Aqueles que o observavam através da janelinha diziam que todo esse ano ele só comia, bebia e ficava deitado na cama, bocejava muito e falava consigo mesmo, em tom irado. Não lia livros. Às vezes, durante a noite, ele se punha a escrever, escrevia longamente e, pela madrugada, rasgava em pedaços tudo o que escrevera. Mais de uma vez ouviram-no chorar.

No sexto ano de reclusão, o prisioneiro dedicou-se com afinco ao estudo de línguas, filosofia e história. Ele se entregou a esses estudos com tamanha avidez, que o banqueiro mal tinha tempo de fazer vir os livros necessários. No decorrer de quatro anos, por exigência do prisioneiro, foram importados cerca de seiscentos volumes. No período dessa paixão, o banqueiro recebeu, entre outras, esta carta:

“Meu caro carcereiro! Escrevo-lhe estas linhas em seis idiomas. Mostre-as a pessoas competentes, para que as leiam. Se não encontrarem nem um erro, peço-lhe encarecidamente que mande dar um tiro de espingarda no jardim. Esse tiro me informará que os meus esforços não foram vãos. Os gênios de todos os séculos e países falam línguas diversas, mas em todos eles arde a mesma chama. Oh, se soubesse que inefável felicidade experimenta hoje a minha alma porque agora eu os posso compreender!” O desejo do prisioneiro foi atendido. O banqueiro mandou dar dois tiros de espingarda no jardim.

Mais tarde, depois do décimo ano, o jurista ficou sentado, imóvel, à mesa, e lia somente o Evangelho. Parecia estranho ao banqueiro que um homem que assimilara em quatro anos seiscentos tomos eruditos gastasse um ano inteiro na leitura de um único livro, de fácil compreensão e pouca espessura. Depois do Evangelho, vieram a história das religiões e a teologia.

Nos últimos dois anos de reclusão, o encarcerado leu em quantidade enorme, sem nenhum critério. Ora ele se ocupava de ciências naturais, ora exigia Byron ou Shakespeare. Havia bilhetes seus em que pedia que lhe mandassem simultaneamente uma obra de química, um compêndio de medicina, um romance e um tratado de filosofia ou de teologia. Suas leituras semelhavam algo como se ele, boiando no mar entre os destroços de um navio naufragado e querendo salvar sua vida, se agarrasse convulsivamente ora a um destroço, ora a outro!

II

O velho banqueiro relembrava tudo isso e pensava:

“Amanhã às doze horas ele recuperará a liberdade. Pelo contrato, eu terei de lhe pagar dois milhões. Se eu pagar, tudo estará perdido — eu estarei definitivamente arruinado”.

Quinze anos atrás ele não tinha conta dos seus milhões, mas agora tinha medo de se perguntar o que tinha mais: dinheiro ou dívidas? Jogadas imprudentes na Bolsa, especulações arriscadas e a impulsividade, da qual ele não conseguira se libertar nem mesmo na velhice, pouco a pouco minaram os seus negócios, e o ricaço orgulhoso, destemido e auto-suficiente transformou-se num banqueiro de categoria mediana, que tremia a cada alta ou baixa das ações.

— Maldita aposta — balbuciava o velho, apertando cabeça, em desespero. Por que esse homem não morreu? Ainda está com quarenta anos apenas. Ele me tirará os últimos recursos, casar-se-á, gozará a vida, jogará na Bolsa, e eu, como um mendigo, ficarei a olhá-lo com inveja e a ouvir dele, todos os dias, a mesma frase: “Eu lhe devo toda a felicidade da minha vida, permita-me que o ajude!” Não, isso é demais! A minha única salvação da bancarrota e da vergonha é a morte desse homem!

Soaram as três horas. O banqueiro ficou atento: na casa todos dormiam e só se ouvia, atrás das janelas, o farfalhar das árvores friorentas. Procurando não fazer nenhum ruído, ele tirou do cofre-forte a chave da porta que não fora aberta durante quinze anos, vestiu o capote e saiu da casa.

O jardim estava escuro e frio. Chovia. Um vento áspero e gelado uivava no jardim e não dava sossego às árvores. O banqueiro forçava a vista, mas não conseguia distinguir nem a terra, nem as alvas estátuas, nem a ala, nem as árvores. Aproximando-se do lugar onde ficava a ala, ele chamou o guarda por duas vezes. Não houve resposta. Decerto, o guarda se abrigara do mau tempo e agora dormia em algum canto da cozinha ou do caramanchão.

“Se eu tiver coragem suficiente para executar o meu plano”, pensou o velho, “as primeiras suspeitas recairão sobre o guarda.”

Ele encontrou, tateando no escuro, os degraus e a porta, e entrou no vestíbulo da ala; depois, tateando sempre, entrou no pequeno corredor e acendeu um fósforo. Ali não se via vivalma. Havia uma cama sem colchão e, num canto, a mancha escura de uma estufa de ferro. Os lacres da porta que dava para o quarto do prisioneiro estavam intactos.

Quando o fósforo se apagou, o velho, tremendo de emoção, espiou pela janelinha.

No quarto do prisioneiro ardia a chama baça de uma vela. Ele mesmo estava sentado diante da mesa. Só se viam as suas costas, os cabelos e as mãos, Sobre a mesa, nas duas poltronas e no tapete junto à mesa, espalhavam-se livros abertos.

Cinco minutos transcorreram sem que o prisioneiro se mexesse uma só vez… Quinze anos de reclusão tinham-no ensinado a permanecer perfeitamente imóvel. O banqueiro bateu na janelinha, e o prisioneiro não respondeu às batidas com um movimento que fosse. Então o banqueiro arrancou, com cuidado, os lacres da porta e introduziu a chave no buraco da fechadura. A fechadura enferrujada emitiu um som rouco e a porta rangeu. O banqueiro esperava que imediatamente se ouvisse uma interjeição de espanto e passos, mas transcorreram uns três minutos e atrás da porta tudo continuava silencioso como antes. Ele decidiu-se a penetrar no quarto.

Diante da mesa estava sentado um homem que não se parecia com os homens comuns. Era um esqueleto coberto de pele, com longos cachos femininos e barba hirsuta. Sua tez era amarela, com matizes terrosos, as faces encovadas, as costas longas e estreitas, e a mão que sustentava a cabeça descabelada era tão fina e magra que dava arrepios olhar para ela. Nos seus cabelos já brilhavam fios de prata e, olhando o seu rosto encovado de velho, ninguém acreditaria que ele tinha apenas quarenta anos. Ele dormia… Diante da sua cabeça inclinada, na mesa, estava uma folha de papel, na qual estava escrita alguma coisa em letra miúda.

“Homem lamentável!”, pensou o banqueiro. “Dorme e, decerto, sonha com os seus milhões! E, no entanto, basta que eu segure esse semimorto, atire-o na cama, abafe-o de leve com o travesseiro, e a mais minuciosa diligência policial não encontrará sinal algum de morte violenta. Mas leiamos primeiro o que ele escreveu aí…”

O banqueiro apanhou o papel da mesa e leu o seguinte:

“Amanhã às doze horas eu receberei a liberdade e o direito de comunicação com os meus semelhantes. Mas, antes de deixar este quarto e rever o sol, julgo necessário dizer-vos algumas palavras. Em sã consciência e diante de Deus, que me vê, eu vos declaro que desprezo a liberdade, a vida, a saúde, e tudo aquilo que nos vossos livros é chamado de bens da vida.

“Durante quinze anos estudei atentamente a vida terrena. É verdade que eu não via a terra e os homens, mas, nos vossos livros, sorvia vinhos aromáticos, entoava canções, caçava nos bosques cervos e porcos selvagens, amava mulheres… Beldades, leves como nuvens, criadas pela magia dos vossos poetas geniais, visitavam-me de noite e me sussurravam contos encantados que embriagavam a minha mente. Nos vossos livros, eu escalava cumes do Elbruz e do monte Branco e via de lá como nascia o sol de madrugada e, ao anoitecer, como ele inundava o firmamento, o oceano e os cumes das montanhas de ouro rubro; eu via de lá os relâmpagos fendendo as nuvens por cima da minha cabeça; eu via os campos verdejantes, os rios, os lagos, as cidades, ouvia o canto das sereias e a música das flautas dos pastores, sentia as asas de formosos demônios que vinham conversar comigo a respeito de Deus… Nos vossos livros, eu mergulhava em abismos sem fundo, fazia milagres, matava, queimava cidades, pregava novas religiões, conquistava reinos inteiros…

“Os vossos livros deram-me sabedoria. Tudo aquilo que a infatigável mente humana criou durante séculos está comprimido no meu cérebro num pequeno novelo. Eu sei que sou mais sábio do que todos vós. E eu desprezo os vossos livros, desprezo todos os bens terrenos e a sabedoria. Tudo é mesquinho, perecível, espectral e ilusório, como a miragem. Podeis ser orgulhosos, sábios e belos, mas a morte vos apagará da face da terra, assim como às ratazanas, e a vossa descendência, a vossa história, a imortalidade dos vossos heróis serão congelados ou queimados junto com o globo terrestre.

“Vós enlouquecestes e tomastes o caminho errado. Tomais a mentira pela verdade e a deformidade pela beleza. Vós ficaríeis admirados se, em conseqüência de circunstâncias imprevistas, nascessem, nas macieiras e laranjeiras, em vez de maçãs e laranjas, sapos e lagartixas, ou se as rosas de repente começassem a exalar odores de cavalo suado. Assim eu me admiro de vós, que trocastes o céu pela terra. Não vos quero compreender.

“Para demonstrar-vos na prática o meu desprezo para com tudo o que é a vossa vida, renuncio aos dois milhões com os quais sonhei em outros tempos como se fossem o paraíso que hoje eu desdenho. Para me privar do direito a eles, sairei daqui cinco horas antes do prazo combinado e, desse modo, quebrarei o trato…”

Tendo lido isso, o banqueiro repôs a folha na mesa, beijou a cabeça do estranho homem e, chorando, saiu da ala. Nunca antes, em tempo algum, mesmo após uma perda pesada na Bolsa, ele sentira por si mesmo um desprezo tamanho, como naquele momento. Chegando em casa, ele se deitou na cama, mas a emoção e as lágrimas não o deixaram adormecer…

No dia seguinte de manhã os guardas vieram correndo, pálidos, e lhe comunicaram que tinham visto o homem que vivia na ala se esgueirar pela janela para o jardim, dirigir-se para o portão e desaparecer. O banqueiro dirigiu-se imediatamente para a ala e, diante dos criados, constatou a fuga do seu prisioneiro. Para não dar azo a comentários supérfluos, tirou da mesa o papel com a renúncia e, voltando para o seu gabinete, trancou-o no cofre-forte.

Fontes:

– TCHEKHOV, Anton. O malfeitor e outros contos da Velha Rússia. RJ: Ediouro.

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Lygia Fagundes Telles (Seminário dos Ratos)

Seminário dos ratos, é um conto de Lygia Fagundes Telles, e está também presente no livro de mesmo nome. Neste conto a autora também rompe com a realidade e com a lógica racional.

Enredo

Conto em terceira pessoa que apresenta uma alegoria de nossas estruturas político-burocráticas. Trata-se de ratos, pequenos e temerosos roedores, numa treva dura de músculos, guinchos e centenas de olhos luzindo negríssimos, que invadem e destróem uma casa recém restaurada localizada longe da cidade. Ali aconteceria um evento denominado VII Seminário dos Roedores, uma reunião de burocratas, sob a coordenação do Secretário do Bem-Estar Público e Privado, tendo como assessor o Chefe de Relações Públicas. O país fictício encontra-se atravancado pela burocracia, invertendo-se a proporção dos roedores em relação ao número de homens: cem por um.

O conto aparece em livro homônimo, no ano de 1977, época em que o Brasil se encontrava em um momento histórico de repressão política. No trabalho gráfico da capa da primeira edição do livro Seminário dos ratos, aparecem dois ratos empunhando estandartes com bandeiras à frente de uma figura estilizada – uma espécie de monstro com coroa, um rei no trono, a ser destronado pelos animais?

O próprio nome do conto “Seminário dos ratos” já causa uma inquietação. Um seminário evoca atividade intelectual, local de encontro de estudos, possuindo etimologicamente mesma raiz de semente/sementeira – local para germinar novas idéias. Também traz uma ambigüidade: seminário no qual se discutirá a problemática dos ratos, ou seminário no qual os ratos serão participantes? Essa questão ficará em aberto ao final do conto. A narrativa é introduzida através de uma epígrafe – versos finais do poema “Edifício Esplendor” de Carlos Drummond de Andrade (1955) – da qual já emana um clima de terror, em que os ratos falam, humanizados pelo poeta: Que século, meu Deus! – exclamaram os ratos e começaram a roer o edifício. A imagem evocada por este verso já traz um efeito em si, remetendo à história de homens sem alma e a construções sem sentido, que não vale a pena conservar, condensando uma perplexidade frente a situações paradoxais daquele século surpreendente. O nome “esplendor” no título do poema é uma ironia, visto que o edifício descrito pelo poeta é pura decadência.

O espaço privilegiado no relato é um casarão do governo, espécie de casa de campo afastada da cidade, recém-reconstruída especialmente para a realização do evento. Portanto, o seminário aconteceria em uma casa de ambiente acolhedor, longe de temidos inimigos como insetos ou pequenos roedores, equipada com todo o conforto moderno: piscina de água quente, aeroporto para jatinhos, aparelhos eletrônicos de comunicação, além de outras comodidades e luxos. A narrativa fantástica transcorre neste cenário insólito com protagonistas ambivalentes que carecem de nomes próprios. Até mesmo os acontecimentos e seus indícios nesta representação espacial transmitem uma sensação ameaçadora ao leitor. A intenção política fica atestada nesta escolha da mansão restaurada no campo, evidenciando um plano físico/espacial expandido ao psicológico: distante, porém íntimo para quem lá está. Embora o processo psicologizante seja lento, a total e inevitável destruição ao final é completamente bem-sucedida.

A primeira personagem apresentada no conto é o Chefe das Relações Públicas, um jovem de baixa estatura, atarracado, sorriso e olhos extremamente brilhantes, que se ruboriza facilmente e possui má audição. Ele pede permissão, através de batidas leves na porta para entrar na sala do Secretário do Bem Estar Público e Privado, a quem chama de Excelência – homem descorado e flácido, de calva úmida e mãos acetinadas […] voz branda, com um leve acento lamurioso. O jovem chefe encontra o secretário com o pé direito calçado, e o outro em chinelo de lã, apoiado em uma almofada, e bebendo um copo de leite. Curiosamente, a personagem do jovem chefe é a única que sobreviverá ao ataque dos ratos, restando ao final da história para contá-la.

As personagens desse conto são nomeadas através de suas ocupações profissionais e cargos hierárquicos, havendo portanto uma focalização proposital nos papéis sociais. Também nesse primeiro momento, há descrição pormenorizada do físico das personagens já apresentadas, que levam a inferências sobre aspectos psicológicos, que permitem conhecer a interioridade.

No caso destas duas personagens, parece que ambos não têm contato com seus selves, nem com o inconsciente. Elas não se apoderam de si mesmas: não está em contato consigo mesma, mas com sua imagem refletida. As individualidades do chefe e do secretário encontram-se completamente confundidas com o cargo ocupado, resultando num estado de inflação, num papel social representado, longe da essência de seus núcleos humanos e de suas sensibilidades. A ênfase dada à ocupação e ao cargo da primeira personagem mostra que se trata do responsável pela coordenação dos assuntos que dizem respeito ao relacionamento com o público em geral. Em outras palavras, sua função está ligada aos tópicos referentes à mídia, à comunicação com o coletivo.

Esta primeira cena do conto já remete a uma dualidade que acentua oposições: embora seja o responsável pelo bem-estar coletivo, o secretário sofre de um mal-estar individual, pois tem uma enfermidade que ataca seu pé – a gota – em cujas crises seu sentido da audição também se aguça. Cria-se uma figura contraditória: um secretário do bem-estar que se encontra mal.

A narrativa apresenta a divisão da unicidade física e psíquica desta personagem, que já vem nomeada com esta cisão de forças antagônicas: o público e o privado. Este índice já pertence ao duplo – um pé esquerdo doente – que desvela a cisão em que se encontra o secretário. Embora aparentemente restrita ao nível físico, há uma divisão da unidade psíquica também. No outro dia ele calçará os sapatos, para aparecer “uno” diante do mundo externo. Através do discurso, revela-se uma bivocalização, uma relação de alteridade, uma interação da voz de um eu com a voz de um outro. Este diálogo que se estabelece entre os dois acontece com um pano de fundo: a crise de artrite que acomete o secretário. A partir deste momento, estabelece-se uma ênfase acentuada nesta parte-sustentáculo do corpo humano, enfermo na personagem. Ao receber em chinelos seu subordinado – que, também detém um cargo de chefia – ele revela sua intimidade, denunciando sua deficiência física e tornando-se vulnerável. Confessa que fará o sacrifício de calçar sapatos, porque não deseja apresentar-se assim aos demais convidados. Dessa forma, o secretário encontra-se destituído de um dos símbolos de sua autoridade: os sapatos.

No conto, o fato de o secretário estar com a saúde do pé abalada, e não poder se locomover (a não ser de chinelos) nem calçar sapatos, parece significar justamente não poder gozar de sua plena autoridade. É uma pessoa fragilizada, com limitações expostas, cuja “persona” não está sintonizada com o exigido, além de beber leite, alimento relacionado com a infância.

Na continuação da conversa, o secretário solicita notícias sobre o coquetel que ocorrera à tarde, ao que o Chefe das Relações Públicas responde ter sido bem-sucedido, pois havia poucas pessoas, só a cúpula, ficou uma reunião assim aconchegante, íntima, mas muito agradável. Continua informando em que alas e suítes estão instalados os convidados: o Assessor da Presidência da RATESP na ala norte, o Diretor das Classes Conservadoras Armadas e Desarmadas na suíte cinzenta, a Delegação Americana na ala azul. Complementa dizendo que o crepúsculo está deslumbrante, dando indícios do tempo cronológico do conto, que transcorre entre um entardecer e um alvorecer: o ciclo de uma noite completa. A conversa inicia quase às seis horas, indicando um momento de passagem, de transição entre a luz/claridade e a noite, quando a consciência vai pouco a pouco dando lugar ao mundo da escuridão, do inconsciente. Como bem assinala Franz: …a hora do poente pode ser interpretada como dormir, o apagar-se da consciência.

O secretário solicita explicações sobre a cor cinzenta escolhida na suíte do diretor das classes, por sua vez representando também uma síntese de contrários, e o jovem Relações Públicas explica os motivos de suas escolhas para distribuir os participantes. Depois indaga se o secretário por acaso não gosta da cor cinza, ao que ele responde com uma associação, lembrando tratar-se da cor deles. Rattus alexandrius.

O secretário os chama pelo nome latino, o que sugere um artifício para minimizar a gravidade da situação. Aqui é trazida uma perspectiva polarizada: norte-sul. Entre as duas, uma zona cinzenta. É interessante perceber que o ocupante desta área tem uma responsabilidade contraditória de defender as classes conservadoras com as forças armadas e com as forças desarmadas. No conto, a cor da suíte que lhe é destinada – cinzenta – remete a algo que não é preto nem branco, mas à mescla destas duas cores, como se faltasse uma definição na cor e nas forças que utiliza.

No prosseguimento da conversa entre ambos, o secretário confessa ter sido contrário à indicação do americano, argumentando que, se os ratos são pertencentes ao país, as soluções devem ser caseiras, ao que o chefe objeta ser o delegado um técnico em ratos. Fica evidente a posição política contrária à intervenção americana no país, principalmente porque na época havia suspeitas de que agentes americanos especializados em repressão política vinham ao Brasil treinar torturadores. O secretário aproveita para indicar ao jovem chefe (que está sendo orientado, pois é um candidato em potencial) uma postura de positividade diante dos estrangeiros, devendo esconder o lado negativo dos fatos: mostrar só o lado positivo, só o que pode nos enaltecer. Esconder nossos chinelos. Aqui a personagem expõe sua visão de mundo, suas relações consigo mesmo e com o mundo externo – aspectos que são motivo de orgulho e envaidecimento devem ser mostrados, porém aspectos da psique individual e coletiva que envergonhem e representam dificuldades não. Em outras palavras: o mundo da sombra deve ser escondido.

No discurso sobre as aparências, a personagem relaciona os ratos com os pés inchados e com os chinelos. O aspecto que estes três elementos têm em comum é que são todos indesejáveis para a personagem: o rato, pela ameaça da invasão, epidemia e destruição (além de prejudicarem sua gestão e pôr em dúvida sua competência de zelar pelo bem-estar coletivo), o pé enfermo por denunciar sua deficiência física, e os chinelos, finalmente, por revelarem um status inferior, uma espécie de destituição de seu poder. Também não agrada ao secretário saber que o americano é um especialista em jornalismo eletrônico, solicitando ser informado sobre todas as notícias veiculadas a esse respeito na imprensa a partir dali. Já se encontram no sétimo seminário e ainda não solucionaram o problema dos roedores, porém não desejam ajuda estrangeira. O jovem Relações Públicas conta que a primeira crítica levantada fora a própria escolha do local para o seminário – uma casa de campo isolada -, e a segunda questão se referia aos gastos demasiados para torná-la habitável: tem tanto edifício em disponibilidade, que as implosões até já se multiplicam para corrigir o excesso. E nós gastando milhões para restaurar esta ruína….

O chefe continua relatando sobre um repórter que criticou a medida do governo e este torna-se alvo do ataque dos dois homens: estou apostando como é da esquerda, estou apostando. Ou, então, amigo dos ratos, diz o secretário. Franz sublinha que a sombra, o que é inaceitável para a consciência, é projetada num oponente, enquanto a pessoa se identifica com uma auto-imagem fictícia e com o quadro abstrato do mundo oferecido pelo racionalismo científico, algo que provoca uma perda constantemente maior do instinto e, em especial, uma perda do amor ao próximo, tão necessário ao mundo contemporâneo.

Entretanto, o jovem chefe salienta a cobrança de resultados por parte da mídia. Acentua que, na favela, as ratazanas é que andam de lata d’água na cabeça e reafirma ser uma boa idéia a reunião se realizar na solidão e ar puro da natureza no campo. Nesta primeira afirmação, percebe-se uma total falta de sensibilidade, empatia, solidariedade e humanidade para com os favelados: tanto faz que sejam as Marias ou as ratazanas que precisem carregar latas d’água na cabeça. Esta parte do conto é reforçada pela citação supracitada. Neste momento, o secretário ouve um barulho tão esquisito, como se viesse do fundo da terra, subiu depois para o teto… Não ouviu mesmo?, porém o jovem relações públicas nada ouve. O secretário encontra-se tão paranóico com a questão dos ratos e do seminário, que desconfia da possibilidade de um gravador estar instalado veladamente, talvez da parte do delegado americano. O relações públicas conta ainda que o assessor de imprensa sofrera um pequeno acidente de trânsito, estando com o braço engessado.

No prosseguimento da conversa, um ato falho do secretário faz confundir braço com perna quebrada. Franz faz ver que os braços são em geral os órgãos de ação e as pernas nossa postura na realidade. O jovem chefe diz que o assessor de imprensa dará as informações pouco a pouco por telefone, mas que virão todos ao final, para o que ele denomina “uma apoteose”. A tradução do texto latino Finis coronat opus, ou seja, “o fim coroa a obra”, evidencia que para ele não importam os meios. Denuncia-se desse modo a falta de princípios éticos das personagens. O secretário confessa se preocupar com a incomunicabilidade, preferindo que os jornalistas ficassem mais perto, ao que o jovem assessor contra-argumenta que a distância e o mistério valorizam mais a situação. A preocupação da personagem é com o mundo externo, com os meios de comunicação, com as boas notícias, mesmo que inverídicas. Entretanto, permanece incomunicável com seu mundo interno, não lhe dando atenção.

O secretário pede inclusive para seu assessor inventar que os ratos já estão estrategicamente controlados. Fica evidenciada no diálogo a manipulação da informação, principalmente na vocalização do chefe: […] os ratos já se encontram sob controle. Sem detalhes, enfatize apenas isto, que os ratos já estão sob inteiro controle. Além disso, aqui são visíveis os mecanismos da luta pelo poder: o binômio mandante/poder – executor/submissão representa parte de um sistema sócio-político explorador e falso, prevalecendo a atitude de ludibriar.

Novamente, o secretário chama a atenção para o barulho que aumenta e diminui. Olha aí, em ondas, como um mar… Agora parece um vulcão respirando, aqui perto e ao mesmo tempo tão longe! Está fugindo, olha aí…, mas o chefe das relações públicas continua a não escutar. A comparação com forças poderosas e potencialmente destrutivas da natureza mostram o quanto ele estava apreensivo. O barulho desconhecido e esquisito que persegue o secretário aparece como uma ameaça severa, como se algo já existente em potencial estivesse por acontecer.

O secretário afirma que escuta demais, devo ter um ouvido suplementar. Tão fino. e que é o primeiro a ter premonições quando coisas anormais acontecem, evocando sua experiência na revolução de 32 e no golpe de 64. Esta verbalização aponta indícios de que a sede do sétimo seminário é o Brasil, ao menos como inspirador do país ficcional do texto. No entanto, o cenário é ampliado para a América do Sul, com o uso repetido do termo “bueno” pelo jovem assessor, em várias de suas vocalizações, e o nome da safra do vinho, mais adiante analisado. Respira-se uma atmosfera latina em função disto. Em geral há um tom de tragédia, típico da simbologia isomorfa das trevas.

O jovem assessor lança um olhar suspeitoso sobre uma imagem de bronze: aqui aparece, sob a forma de uma estatueta – da justiça – uma figura feminina no conto: tem os olhos vendados, empunha a espada e a balança. Desta, um dos pratos está empoeirado, novamente numa alusão à situação de injustiças em que vive o país. A balança é o elemento mais evidenciado da imagem, como se estivesse em primeiro plano. Através dessa alegoria, há como um convite para refletir sobre as diferentes polaridades que se evidenciam, já que se trata de um instrumento que serve para medir e pesar o equilíbrio de duas forças que se colocam em pratos opostos: bem estar x mal estar, pé sadio x doente, ratos x governo, mansão x ruína.

Os dualismos apontados acabam por sintetizar uma confrontação simbólica entre homens e animais, entre racionalidade e irracionalidade. A espada é o símbolo por excelência do regime diurno e das estruturas esquizomorfas. A arma pode representar a reparação e o equilíbrio entre o bem e o mal. No tecido do conto, a imagem da espada nas mãos da justiça adquire sentido de separação do mal. Neste conto, a correspondência das situações e personagens apresentadas corrobora uma significação dualista, através do uso de antíteses pela escritora.

Somente então o secretário faz menção ao pé enfermo, usando o termo “gota” pela primeira vez na narrativa.

E o jovem assessor de imediato canta Pode ser a gota d’água! Pode ser a gota d’água!, estribilho da canção popular do compositor Chico Buarque de Holanda, na época um crítico dos fatos políticos do país. A associação musical do chefe parece não agradar ao secretário. O jovem chefe defende-se, dizendo ser uma música cantada pelo povo, ao que o secretário aproveita a deixa para declarar que só se fala em povo e no entanto o povo não passa de uma abstração […] que se transforma em realidade quando os ratos começam a expulsar os favelados de suas casas. Ou roer os pés das crianças da periferia. O secretário complementa que quando a “imprensa marrom” começa a explorar o fato, aí “o povo passa a existir”.

Na afirmação de que o povo não existe enquanto realidade, o secretário parece ser um secretário mais para privado do que para público, porém é forçado a reconhecer o povo quando suas mazelas e infortúnios aparecem nos jornais, expostos em manchetes, o que muito abomina.

Na rede de intertextualidade do Seminário dos ratos, a alusão à canção “Gota d’água” completa uma série de referências presentes no conto a poetas brasileiros: Carlos Drummond de Andrade, Chico Buarque de Holanda, Vinícius de Moraes, presentes no texto. Poderíamos contar ainda com a presença da letra de “Lata d’água”, música de carnaval tipicamente brasileira. É como se a narrativa quisesse enfatizar as coisas boas do país, em contraponto com a situação política vigente.

Outra teia intertextual possível é o conto de fadas O flautista de Hamelin: a personagem-título livra a população da peste dos ratos apenas com sua música. A condução/expulsão dos ratos para longe é um contraponto ao texto de Lygia, que, por sua vez, trata da chegada de ratos.

O secretário lembra também que no Egito Antigo, resolveram esse problema aumentando o número de gatos, ao que o assessor responde que aqui o povo já comera todos os gatos, ouvi dizer que dava um ótimo cozido!, em uma resposta claramente irônica, aludindo ao fato de que o povo estaria esfaimado a ponto de comer carne de gato.

Com o escurecer, o jovem relações públicas recorda que o jantar será às oito horas, e a mesa estará decorada com a cor local: orquídeas, frutas, abacaxi, lagostas, vinho chileno. O preparo cuidadoso e aparência requintada do alimento não o afastará de ao final tornar-se comida dos animais. Aqui aparece outro fio intertextual – com a política de outro país da América do Sul, o Chile – pois na narração o nome da safra do vinho é Pinochet, referência explícita ao ditador na época da publicação do conto, recentemente julgado por seus atos.

O ruído retorna de forma bem mais forte: agora o relações públicas identifica-o, levantando-se de um salto. Aparece a satisfação do secretário ao ver confirmadas suas intuições, porém ele mal imagina que esta satisfação logo irá também por sua vez inverter-se, pois é a confirmação de um barulho prenunciador da catástrofe que logo a seguir se abaterá sobre o casarão, o ruído surdo da invasão dos ratos que se articula. Novamente compara com vulcão ou bomba, e o jovem assessor sai apavorado murmurando: Não se preocupe, não há de ser nada, com licença, volto logo. Meu Deus, zona vulcânica?!….

No corredor, ele encontra-se com Miss Glória, secretária da delegação americana, a única personagem feminina do conto, com quem conversa rapidamente em inglês, praticando seu aprendizado de idiomas. Parece haver uma ironia também no nome, pois contrariamente à glória esperada, o seminário parece fadado ao fracasso. Ela tem um papel secundário no seminário, que aparece como um evento de poder eminentemente masculino. O chefe encontra-se em seguida com o diretor das classes conservadoras armadas e desarmadas, vestido com um roupão de veludo verde e encolheu-se para lhe dar passagem, fez uma mesura, ‘Excelência’ e quis prosseguir mas teve a passagem barrada pela montanha veludosa, e ainda lhe admoesta sobre o ruído e o cheiro. Informa-lhe que os telefones estão mudos (no país os meios de comunicação estavam sob censura), o que o surpreende. A comparação que a escritora faz com uma montanha veludosa, em correspondência ao chambre de veludo verde, neste contexto, alude à cor do conservadorismo e do poder. Trata-se de cor muito utilizada pela escritora, já referido em outros contos. O uso desta cor na obra da escritora é tão notável, que mereceu análise de Fábio Lucas no ensaio Mistério e magia: contos de Lygia Fagundes Telles.

Neste momento surge a personagem do cozinheiro-chefe, que anuncia a rebelião dos animais, aparece correndo pelo saguão – sem gorro e de avental rasgado – com mãos sujas de suco de tomate que limpa no peito, a cor vermelha em clara alusão a sangue, revolução, esquerda – dizendo aos gritos que acontecera algo horrível: Pela alma de minha mãe, quase morri de susto quando entrou aquela nuvem pela porta, pela janela, pelo teto, só faltou me levar e mais a Euclides! – os ratos haviam comido tudo, só se salvara a geladeira. Relata, como o secretário, que o barulho fora percebido antes, feito um veio d’água subterrâneo. Depois havia sido um apavoramento, um espanto com aquela invasão desproposital e aterrorizante em meio aos preparativos para o seminário. O estranhamento que causa a invasão dos ratos dentro desta atmosfera é abrupta, apesar dos indícios, pois não existe uma explicação lógica da desmesura dos ataques. A violência do ocorrido, de uma certa forma, reflete aspectos “monstruosos” dentro do homem, e que também dá a medida de como a sociedade se constitui. Aqui, o fato fantástico instala-se no âmago do real, confundindo os parâmetros racionais e provocando uma ruptura da ordem do cotidiano. A não resolução da narrativa e o sistema metafórico fazem da narração, um drama e da leitura, um exercício conflitual.

No conto, a comparação com nuvem traz uma alusão ao coletivo de gafanhotos, pois os ratos do conto agiram feito uma nuvem destes insetos, praga que tudo destrói. O cozinheiro-chefe conta que ao tentar defender a comida um rato ficou de pé na pata traseira e me enfrentou feito um homem. Pela alma de minha mãe, doutor, me representou um homem vestido de rato!. O vínculo entre o terror e o duplo aparece de modo exemplar aqui, pois há convergência de ambos na figura do animal. A narração promove inversões características de narrativas fantásticas, no sentido de humanizar os ratos. Trata-se do relato de um atributo humano de intimidação, ameaça, arrogância e enfrentamento. E também busca animalizar as personagens, através do uso expressivo de verbos, como farejar e rosnar, para assim conferir atributos animais, relacionados com a postura de pessoas.

Homens com atitudes de ratos e ratos com posturas de homens: a animalidade associada à irracionalidade humana. Às vezes o duplo vinga-se ele próprio. Considera-se essa idéia aplicável a esse duplo corporificado pelos animais (sobrenatural, espectral) que se vinga dos homens destruindo o próprio seminário. Nesse caso do conto, os “outros” eram os ratos, incluindo o fato de que davam uma impressão de humanizados. A trama do conto é bastante óbvia, por suas implicações sócio-políticas, mas nem por isto perde o caráter sobrenatural. Não há dúvidas sobre a existência e o caráter antropomórfico dos ratos, também considerando o alegorismo desse conto. A presença da alegoria, por considerar significados externos ao texto, impediria a reação de hesitação do leitor, que para ele é a característica principal do texto fantástico. Acredita-se que a alegoria de cunho político não prejudica nem descaracteriza o sobrenatural nesse conto.

O jovem assessor preocupa-se com as aparências, pedindo que o cozinheiro-chefe fale baixo, não faça alarde sobre os acontecimentos. A cozinha é, no conto, o local por onde inicia a invasão dos roedores.

Como é sugerido desde o título do conto, os agentes instauradores da estranheza são os ratos, símbolos teriomorfos, uma vez que se constituem responsáveis pela invasão, tomando conta do espaço físico conhecido, e pela destruição do local. Convertem-se no centro das preocupações das personagens e, depois, no ponto deflagrador do pânico. Os atributos desses animais significam o poder destruidor do tempo, possuindo uma grande resistência ao extermínio. Ratos são considerados animais esfomeados, prolíficos e noturnos, aparecendo como criaturas temíveis, até infernal. No conto, os ratos são totalmente subversivos, no sentido de corroerem a ordem e estabelecerem o caos e o terror.

Na seqüência do conto, o jovem chefe tenta que o cozinheiro volte à cozinha, porém este mostra que a gravidade da situação não está sendo compreendida pelo jovem: nenhum carro está funcionando […] Os fios foram comidos, comeram também os fios, ir embora só se for a pé, doutor. Foram retirados todos os símbolos que remetem à acessibilidade e à comunicação com o mundo exterior, e agora, sem subterfúgios externos para se salvarem, somente restam suas próprias forças e recursos. Os ratos devastaram toda a infra-estrutura do VII Seminário de Roedores. O relações públicas com olhar silencioso foi acompanhando um chinelo de debrum de pelúcia que passou a alguns passos do avental embolado no tapete: o chinelo deslizava, a sola voltada para cima, rápido como se tivesse rodinhas ou fosse puxado por algum fio invisível.

Esta imagem é dúbia, não se sabe se o secretário está sendo arrastado junto com o chinelo ou se o chinelo é o que resta do corpo devorado; voltemos à sua premonição: o pé fora roído por ratos como o das crianças pobres? De qualquer forma, o destaque é dado para o chinelo, justamente aquilo que fora desprezado pela personagem: era tudo o que restara de si.

Nesse momento a casa é sacudida em seus alicerces por algo que parece uma avalanche e as luzes se apagam. Invasão total. O texto compara a irrupção dos animais aos milhares, brotando do nada e de todos os lugares, a uma erupção vulcânica, incontrolável. A própria narrativa vai avisando que foi a última coisa que viu, porque nesse instante a casa foi sacudida nos seus alicerces. As luzes se apagaram. Então deu-se a invasão, espessa como se um saco de pedras borrachosas tivesse sido despejado em cima do telhado e agora saltasse por todos os lados numa treva dura de músculos, guinchos e centenas de olhos luzindo negríssimos.

Do ataque rapidíssimo dos roedores, salva-se somente o chefe das relações públicas, que se refugia entrincheirando-se na geladeira: arrancou as prateleiras que foi encontrando na escuridão, jogou a lataria para o ar, esgrimou com uma garrafa contra dois olhinhos que já corriam no vasilhame de verduras, expulsou-os e, num salto, pulou lá dentro, mantendo-a aberta com um dedo na porta para respirar, logo em seguida substituindo-o pela ponta da gravata. No início do conto, a gravata representa o status, o prestígio, o mundo das aparências. Já no final, aparece como símbolo de sobrevivência. Há aqui, portanto, uma transformação de um símbolo em função das ameaças e do perigo que se apresentaram à personagem, modificando o contexto. E ainda pode-se apontar mais uma inversão: as pessoas fogem espavoridas enquanto os ratos se instalam, e o chefe das relações públicas esconde-se na cozinha (depósito de mantimentos) como se fosse um rato.

Aqui tem-se o início do segundo bloco. Em flashback, avisa-se ao leitor que, após os acontecimentos daquele dia, houve um inquérito – medida obscura que ocorria no panorama do país naquela época. É a única coisa que o narrador conta de concreto após os fatos. O elemento invasor, portanto, conseguiu exterminar o seminário.

A estada do jovem chefe no interior da geladeira parece ter se constituído em um ritual de passagem, até mesmo um cerimonial, pois de um certo modo ele não renasceu? Afinal, somente ele sobreviveu e regressou ao social para relatar, tendo ficado privado de seus sentidos, que ficaram enregelados durante um tempo. A personagem, buscando refúgio na geladeira, tenta sobreviver e se salvar.

Aqui o narrador suspende a história. Este final é ambíguo, talvez em uma alusão aos ratos se reunindo para realizar o VII Seminário dos Roedores, deliberando e decidindo o destino do país em lugar dos homens dizimados… Após a iluminação do casarão, inicia-se uma nova era, governada pelo mundo das sombras, com os ratos assumindo o poder.

Todo o conto é filtrado por indicativos do fantástico, tendo seus limites no alegórico. Predomina a inversão e os animais corporificam o duplo. O clima permanente é o medo apavorante de algo que se desconhece – e principalmente, que não se controla. E sob esta capa do fantástico, Lygia compôs um conto denunciador da situação não menos terrificante em que vivia o país, abordando uma temática sobre as complexas relações entre o bem e o mal-estar coletivo e pessoal. O atributo sobrenatural – a hesitação experimentada por um ser que só conhece as leis naturais, face a um acontecimento aparentemente sobrenatural, aparece neste conto, fazendo o leitor hesitar ao realizar a interpretação.

Esta narrativa de Lygia é outro exemplo da literatura como duplo, ou seja, o próprio conto como um todo é uma duplicidade de uma situação real. Uma situação política de um país, as forças militares que nele operavam, praticamente toda sua doença social personificadas nas personagens que se desdobram, os ratos como imagem de um povo faminto de liberdade e justiça que refletem (se duplicam) no conto literário. O epílogo do conto prova a existência do povo, sob forma de ratos rebelados, que mostra sua revolta e vingança, ao contrário da crença do secretário, de que ele não existiria. Neste conto, na luta entre os homens do poder e os ratos (os duplos – representantes do fantasmático), os vencedores são aparentemente estes últimos, que conseguem aniquilar com o VII Seminário. Porém, o final ambíguo (com a iluminação da mansão) e a sobrevivência do Chefe das Relações Públicas podem encaminhar a outras possibilidades de interpretação. Porém, a dúvida se instala: se os ratos haviam roído a instalação elétrica, de onde provinha a iluminação? Mais um enigma proposto pelo fantástico.

Este conto, por se tratar de uma temática social, distingue-se dos demais e traz um diferencial. Uma praga sobrenatural de ratos: eis a fantasia de Lygia Fagundes Telles para dizer de sua indignação com a situação do país e com a censura instalada. Os ratos aqui aparecem como elementos que subvertem a ordem estabelecida. A ironia, o humor negro e o sentido crítico perpassam as linhas dessa história satírica, sem abandonar o sentido de uma invasão sobrenatural dos animais. A inversão de papéis realizada entre os animais e os homens apresenta-se como a principal característica do fantástico e do duplo nesse tenso universo representado no conto.

Fonte:
http://www.passeiweb.com

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Reforma Ortográfica 3

(Clique sobre a imagem para ampliar)

Fonte:
Blog do Orlandeli

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Marilda Diório (Poesias Escolhidas)

EU

A vida para ser entendida precisa
estar em constante busca.
De repente…
surpreendi-me em meio a versos
que descreviam os meus momentos vividos.

Percebi que havia ganho um companheiro de sonhos,
de saudades e de esperanças.

Os versos agrupavam-se e findavam
em poesias sem rimas, sem técnicas
e sem pretensão alguma de me fazer poetisa,
apenas uma mulher que faz da sensibilidade da alma
a transparência de seus momentos.

Aqui você encontrará vários poemas,
alguns com lamentos de saudades ,
de mágoas adormecidas,
de sentimentos que marcaram
as paredes de meu coração,
de sonhos concluídos e muitos em construção.

Os escritos em versos só agradam e
tocam fundo no ser quando são iluminados
pela alma de quem os lê.

Espero com carinho, que você se encontre
em meus versos,
muitas vezes parecidos com os seus
e faça da reflexão um crescer da alma.
===================

A ALMA EM POEMA

Escrever poemas,
é sentir-se absorto
com o que está ao seu lado.
É anestesiar a realidade
para contar em versos
o que se viveu…

Escrever poemas,
é também esculturar,
o sonho ainda por realizar
com a argila dos sentimentos,
aparadas pela emoção do construir.

Escrever poemas,
é entregar-se as brumas
do que se foi,
do que se vive
e do que virá !

Escrever poema,
é simplesmente magnetizar as palavras
em versos que vem da alma.
====================

A BELA DA TARDE EM VITRINE

A bela da tarde
são todas as mulheres
que de alguma maneira ou outra
chama a atenção de alguém…

Quer pelo seu andar,
pelas suas curvas estonteantes
que levam a imaginação de um homem,
a percorrer túneis de desejos.

Quer pelo seu olhar misterioso,
solicitando que se decifre,
o convite que está embutido
no cintilar de seu olhar.

Quer pelo sorriso enigmático
que pode muito bem,
esconder uma mulher suave,
como ocultar uma mulher felina.

A bela da tarde…
poderá ser a Maria,
a Eugênia, a Vanessa
a vizinha da direita ou
a mulher do comércio ao lado.

Cada qual com sua essência,
assaltando as mentes fervilhantes,
que procuram emoções
nas tardes em que a vida
perde o colorido.

A bela da tarde…
é mais uma opção de fantasia da mente,
para quem gosta de viver
em ousados desafios.

A bela da tarde
São tantas…
a liberdade de escolha é sua
Qual você escolhe?
========================

A ESSÊNCIA DA VIDA

A vida é tudo que queremos que ela seja…
A vida é você
A vida sou eu
A vida é o pássaro que gorjeia em sua janela
A vida é a flor que floresce em seu jardim
A vida é de cada um…

Descortinar a vida… é algo maravilhoso !
A vida é o amigo que lhe sorri e que lhe empresta o ombro
A vida é o amor em inúmeras nuances
A vida é a lágrima que cai, o sorriso que ilumina
A vida é a mão solidária
A vida é a compreensão da maldade
A vida é a ternura no olhar
A vida é a paixão que lhe dá prazer
A vida é a saudade que lhe acaricia
A vida é a construção da paz
A vida é simplesmente a sabedoria
sendo mansamente absorvida.
–––––––––––––-

Sobre a Poetisa
Marilda Diório (1949)
Marilda Diório (Olhos De Lince) – Natural de Andirá/Estado do Paraná – Nascida em 07/09/1949 – Há vinte anos residindo na cidade de Curitiba.
Profissional da Educação (elaboração e coordenação em projetos sociais e educacionais)
Poesias, textos e e-book publicados no Site Olhos de Lince http://www.olhosdelince.net
Prêmio Medalha de Mérito Fernando Amaro/ Câmara Municipal de Curitiba

Amante da boa leitura, notívaga por natureza, a música é a minha companheira e a escrita a minha cúmplice ao relatar em versos os meus momentos do passado e do presente. Quando escrevo não me preocupo com as técnicas e muito menos com as rimas, deixo fluir as palavras conforme a sonoridade de meu coração e dos meu sentimentos. Uso da ” liberdade poética”.
Sempre fui adepta da reflexão e mesmo antes de escrever em versos, usava a escrita para as minhas íntimas descobertas da vida.
Foi no virtual, no ano de 1998 que incentivada por amigos, timidamente iniciei o meu caminho poético e pretendo deixar de escrever, somente, quando não puder mais respirar neste mundo.
Até este dia chegar, continuarei a escrever os meus momentos e a sonhar com o meu amanhã.
Aos poucos meus poemas e textos foram atravessando mares e grandes distâncias, aportando em sites nacionais e internacionais.
Poetas preferidos: Florbela Espanca, William Douglas e William Shaskepeare pelos seus magníficos Sonetos.

Fontes:
http://www.olhosdelincemarilda.com/menu.htm
http://www.avpb.olga.kapatti.nom.br/academicos_em_destaque_5a_edicao_pagimas_de_eugenio_de_sa.html

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I Bienal do Livro de Curitiba (Lançamento de livros)

Imagens de Inocência
Autora: Maivillis Amaro
Dia: 28 de agosto de 2009
Horário: 16:00 horas

Tudo é Poesia
Autor: Paulo Gomes
Dia: 29. de agosto de 2009
Horário: das 14:00 às 16:00hs

Sonhos Pluviais
Autor :Ralf Gunter Rotstein, o Poeta da Chuva

Dia 29 de agosto de 2009
Horário: das 14:00 às 16:00hs

Antologia Blablablogue e Jornal Memai
Autores: Marília Kubota e Outros
Dia: 29 de agosto às 19:00hs

Todos os lançamentos ocorrerão na Expo Unimed Curitiba – Espaço de lançamentos
Rua Prof. Pedro Viriato Parigot de Souza, 5300
Campo Comprido – Curitiba – PR – CEP 81280-330
Tel.: (41) 3340-4300 Fax: (41) 3340-4343

Fonte:
Andrea Motta

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Reforma Ortográfica 2

Fonte:
Blog do Orlandeli

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Camila Giangrossi Meleke (A Poetisa e sua Poesia)

LEMBRANÇAS

Infância,
Doce, serena…
Lembranças saudosas…
Criança manhosa,
Infância…
Brincadeiras…
Casinha, bola, boneca…
Peão, corrida, peteca…
Realidade imitada, inventada…
Sou mamãe, sou professora, empregada…
Realidade imitada…
Tenho isso ou aquilo, vou onde precisar…
Deixo minha imaginação voar…
Sou poeta, escritora, dona do meu destino…
Faço e aconteço…
Imagino,
Deixo a infância me levar…
Brincadeiras…
Realidade imitada…
Pouco a pouco…
A infância se acaba…
O real se concretiza,
E as lembranças tão saudosas…
Fazem-se pelas mãos da poetisa!
–––––––––––––––

AMORES, AMIGOS, AMANTES…

Amores, amigos, amantes…
Pensamentos enlouquentes, distantes…
Amores,
Proibidos, secretos, platônicos, surreais …
Amigos,
Sinceros, sucintos, leais…
Amantes
Dementes, insanos, carnais…
–––––––––––––––––––––

RECOMEÇO

Chuva,
Escorrendo suave sobre a vidraça…
Olhos fixos no horizonte,
Chuva espessa, caindo sem cessar…
Olhos miúdos, serenos, cansados,
Noite em claro,
Olhos fixos, concentrados…
A espera de um sinal,
Qualquer resquício…
Qualquer esboço,
De um mísero ponto…
No horizonte a brilhar…
Uma esperança!
Por entre as nuvens,
O esboço toma forma, a luz…
Após tamanha relutância,
Desponta, desfila, reacende a esperança…
De mais um dia esplendoroso recomeçar…
Pouco a pouco, vencendo a timidez…
Lá está ele…
No quarto a adentrar, brilhando como nunca…
Expectativas renovadas,
Não há mágoa, não há nada,
E os olhos ralos d’água, já extinguiram o chorar…
Pois o tempo é agora,
E a chuva que outrora…
Deixava-me em agonia…
Já não podes mais molhar…
–––––––––––––-

O IDEAL NÃO MORRE

Sou mais um em meio à multidão…
Sou um grão no meio da porção…
Sou um solitário no descampado…
Estou desacordado…
O lírio miúdo, defronte ao vendaval…
Sou o passista, logo a diante o carnaval.
Sou isso ou aquilo,
O que sei, já não importa…
O que importa já não sei…
A vida está lá fora, que outrora desdenhei,
Ontem, hoje…
Amanhã…
Já não importa…
Estou desacordado,
Agora, sofro calado.
São lembranças, restos, ruídos…
Passado,
A odisséia chegou ao fim…
A idéia se propaga…
Findo é a pequenez…
O ideal não morre, é infinito…
Contudo, estou desacordado…
Já não há sofrimento, lamento ou tormento…
O ideal é infinito…
É imortal.
–––––––––––––––––-

Fonte:
http://camilacg.wordpress.com/
Montagem da imagem = José Feldman

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Camila Giangrossi Meleke (Alfabetizar… Quando e Como?)

Introdução

Neste texto irei discorrer um pouco a respeito da alfabetização, das expectativas dos pais, quanto a essa tão sublime fase, as dificuldades enfrentadas pelas crianças e seus mestres, enfim… A palavra alfabetizar vem de “alfabeto”, que por sua vez é o conjunto das letras de uma língua, colocadas em “certa ordem”. A palavra “alfabeto” é formada com as duas primeiras letras do alfabeto grego ↔ “alfa” e “beta”.

Al•fa•be•ti•zar ↔ v.t.d. Ensinar a ler e a escrever. Partindo desta premissa, será que existe idade ideal para que uma criança seja alfabetizada? Perguntas deste tipo permeiam “a cabeça” de muitos pais, que cheios de expectativas, não veem a hora de tal acontecimento, para poderem se “gabar”, ou melhor, “babar” sobre seu filho querido. Há muita angústia e ansiedade por parte dos pais, que por sua vez acabam depositando toda essa expectativa, muitas vezes, em crianças que ainda não estão preparadas para iniciar sua alfabetização. Sabe-se que não há idade certa para tal ato, o que existe é o momento certo.

Esse caminho começa, desde pequeno, antes mesmo dos seis anos, as atividades de “pré alfabetização” são de extrema importância para que esse processo ocorra da melhor forma possível, com tranquilidade. O que são atividades de pré alfabetização? É quando a criança tem oportunidades de interagir com o mundo letrado, isso já proporciona, para nós adultos e para as próprias crianças, identificar quando “chegou a hora”, ou seja, ela (criança) procura, faz perguntas, além de se mostrar ávida por conhecer, descobrir, vivenciar e experimentar…

As crianças necessitam de muito estímulo, afetividade e integração, não esquecendo o conteúdo. É também, nesta fase, que as brincadeiras dos pequenos se tornam mais intensa, onde transpassam a realidade vista, para o mundo de fantasias e da imaginação, desenvolvendo assim aspectos emocionais, cognitivos e sociais, outra coisa importante a ser analisada é o espaço físico em que essa criança passa a maior parte do tempo, é essencial que a criança, entre dois e três anos, tenha espaço suficiente para desenvolver o lúdico.

Cada criança é única, assim como umas aprendem a andar cedo ou a falar cedo, a alfabetização não é diferente, existem crianças que aos quatro anos já podem ser alfabetizadas, outras com cinco ou seis anos, contudo, há também aquelas que são estão prontas aos oito anos, e isso de forma alguma quer dizer que uma ou outra criança é mais ou menos inteligente, ela só não está madura ainda.

O importante é respeitar o desenvolvimento e o ritmo de cada um, seja qual for sua idade, é claro, que depois de certa idade (9 anos ou mais) os pais e professores devem ficar atentos quanto a aprendizagem da criança, pois existem casos em que há uma certa dificuldade nas aprendizagens ou até mesmo problemas emocionais, que fazem com que esta criança não atinja o objetivo esperado, nesses casos, é necessária ajuda profissional, seja do pedagogo, do psicopedagogo ou até mesmo do psicólogo.

Por onde começar a alfabetização?

Hoje, o mais comum é alfabetizar letrando, o que significa orientar a criança para que ela aprenda a ler e escrever na perspectiva da convivência com práticas reais de leitura e de escrita, porém isso implica “abandonar” o uso das cartilhas (onde o aluno aprende a ser copista e não um leitor ou ledor) e adotar o manuseio de revistas, livros, jornais, enfim, pelo material que irá auxiliar a criança neste processo.

Contudo, é preciso fazer um diagnóstico, ou seja, uma sondagem para saber o nível de conhecimento de palavras e verificar o que a criança já pensa a respeito da escrita.

Valorizando a Prioridade…

Logo no primeiro ano, do ensino fundamental, a prioridade é alfabetizar todas as crianças ou pelo menos grande parte delas. O ato de escrever se torna uma consequência daquilo que a criança já conhece na leitura.

As brincadeiras, o canto, as histórias e os desenhos já fazem parte do cotidiano dos pequenos, no inicio da fase escolar, a leitura e a escrita também, mas é importante ressaltar que, o trabalho é realizado em conjunto educando/educador, ou seja, o aluno deve realizar as tarefas por iniciativa própria, porém o professor deve dar as oportunidades e subsídios para que isso aconteça, o que não se deve pensar é que a criança vai aprender tudo sozinha e por iniciativa da mesma.

Sabe-se que as crianças que convivem num ambiente rico em materiais de leitura, apresentam maior interesse em saber o que está escrito, sendo assim, a criança motivada aprende mais e mais rápido.

A alfabetização e o construtivismo

Segundo Emilia Ferreiro (psicóloga e pesquisadora argentina), o ato de ensinar desloca-se para o ato de aprender por meio da construção de um conhecimento que é realizado pelo educando, que por sua vez passa a ser visto como o sujeito que constrói tal conhecimento a partir daquilo que vivencia, ou seja, é preciso trabalhar com a criança o contexto da própria criança, com textos e histórias que façam sentido para as mesmas.

Vale lembrar que o construtivismo não é um método de ensino, mas sim um processo de aprendizagem que coloca o sujeito dessa aprendizagem como alguém que conhece e que o conhecimento se dá através da ação deste sujeito, não esquecendo que o ambiente exerce papel significativo neste processo.

E para finalizar, outra questão bastante discutida é “em quanto tempo se alfabetiza?”. Partindo do pressuposto de que já foram eliminados todos os “entulhos” do período preparatório, se for clara e objetiva a decifração da escrita, basta apenas uma hora de atividades específicas por dia, em dois ou três meses, e os alunos estarão alfabetizados, é claro que não serão todos, pois sabemos que dependerá do momento de cada um.

“… A minha contribuição foi encontrar uma explicação segundo a qual, por trás da mão que pega o lápis, dos olhos que olham, dos ouvidos que escutam, há uma criança que pensa.” (Emilia Ferreiro)

Fontes:
http://camilacg.wordpress.com/2009/05/23/alfabetizar/
Imagem =
http://nteitaperuna.blogspot.com

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Alcântara Machado (O Filósofo Platão)

(Senhor Platão Soares)

Fechou a porta da rua. Deu dois passos. E se lembrou de que havia fechado com uma volta só. Voltou. Deu outra volta. Então se lembrou de que havia esquecido a carta de apresentação para o diretor do Serviço Sanitário de São Paulo. Deu uma volta na chave. Nada. É verdade: deu mais uma.

– Nhana! Nhana! Nhana!

Nhana apareceu sem meias no alto da escada.

– Estou vendo tudo.

– Ora vá amolar o boi! Que é que você quer?

– Na gaveta do criado-mudo tem uma carta. Dentro de um envelope da Câmara dos Deputados. Você me traga por favor. Não. Eu mesmo vou buscar. Prefiro.

– Como queira.

E foi buscar. Saiu do quarto e parou na sala de jantar.

– Ainda tem geléia ai, Nhana?

– No armário debaixo de uma folha de papel.

– Obrigado.

Escolheu cuidadosamente o cálice. Limpou a colherinha no lenço. Nhana ia passando com o ferro de passar. Mas não se conteve.

– Platão, Platão, você não vai falar com o homem, Platão?

– Calma. Muita calma. Glorinha entregou o ordenado?

Nhana sacudiu a cabeça:

– Sim senhor!

Fingiu que não compreendeu. Raspado o fundo do cálice lavou meticulosamente as mãos. E enxugou sem pressa. Dedo por dedo. Abriu a porta. Fechou. Vinha vindo um bonde a duzentos metros. Esperou. Agora o ônibus. Esperou. Agora um automóvel do lado contrário. Esperou. Olhou bem de um lado. Olhou bem de outro. Certificou-se das condições atmosféricas de nariz para o ar. Marcialmente atravessou a rua.

O poste cintado esperava os bondes com gente em volta. Platão quando ia chegando escorregou numa casca de laranja. Todos olharam. Platão equilibrou-se que nem japonês. Encarou os presentes vitoriosamente. Na lata, seus cretinos. Esfregou a sola do sapato na calçada e foi esperar em outro poste. Chegou de cabeça baixa.

– Boa tarde, Platão.

– O mesmo, Argemiro, como vai você?

– Aqui neste solão esperando o maldito 19 que não chega!

Platão cavou um arzinho risonho. Acendeu um cigarro. Disse sem olhar:

– Eu espero o ônibus da Light.

– Milionário é assim.

Primeiro deu um puxão nos punhos postiços. Depois respondeu:

– Nem tanto…

O 19 passou abarrotado. Argemiro não falava. Platão sim de vez em quando:

– Esse é um dos motivos por que eu prefiro o ônibus da Light apesar do preço. Tem sempre lugar. Depois é um Patek.

Mas era só para moer.

Argemiro deu adeusinho e aboletou-se à larga num 19 vazio. Então Platão soltou um suspiro e pegou o 13 que vinha atrás.

Ficou no estribo. Agarrado no balaustre. Imaginando desastres medonhos. Por exemplo: cabeçada num poste. Escapando do primeiro no segundo. Impossível evitar. Era fatal. Uma sacudidela do bonde e pronto. Miolos à mostra. E será que a Nhana casaria de novo?

– O senhor dá licença?

– Toda.

Não tinha visto o lugar. Pois a mulher viu. Que danada. Toda a gente passava na frente dele. Triste sina. Tomava cocaína. Ora que bobagem.

– Ô Seu Platãozinho!

A voz do Argemiro. Enfiou o rosto dentro do bonde.

– Ô seu pândego!

O cavalheiro do balaústre foi amável:

– Parece que é com o senhor.

– Olá, Argemiro, como vai você?

– Te gozando, Platãozinho querido!

Resolveu a situação descendo.

– Não tem nada de extraordinário3 Argemiro. Não precisava lazer tanto escândalo. Homessa! Então eu sou obrigado a andar de ônibus só? E ainda por cima da Light? E não tendo dinheiro trocado no bolso? Homessa agora! Homessa agora!

– Até outra vez, seu bocó!

Profunda humilhação com o sol assando as costas.

Mas não é que tinha de descer ali mesmo? Praça da República, Rua do Ipiranga, Serviço Sanitário. Esta agora é de primeiríssima ordem. Argemiro sem querer fez um favor. Um grande? Um grandérrimo.

Para a satisfação consigo mesmo ser completa só faltava abrir o guarda-sol. Você não quer abrir. desgraçado? Você abre, desgraçado, amaldiçoado, excomungado. Abre nada. Nunca viu, seu italianinho de borra? Guarda-sol, guarda-sol, não me provoque que é pior. Desgraçado, amaldiçoado, excomungado. Platão heroicamente fez mais três tentativas. Qual o quê. Foi andando. Batia duro com a ponteira na calçada de quadrados. De vingança. Se duvidarem muito as costas já estão fumegando. Depois asfalto foi feito ES-PE-CI-AL-MEN-TE para aumentar o calor da gente. Platão parou. Concentrou toda a sua habilidade na ponta dos dedos. É agora. Não e não. Vamos ver se vai com jeito. Guarda-solzinho de meu coração, abra, sim meu bem? Com delicadeza se faz tudo. Você não quer mesmo abrir, meu amorzinho? Está bem. Está bem. Paciência. Fica para outra vez. Você volta pro cabide. Cabide é o braço. Que cousa mais engraçada.

Rua do Ipiranga. Êta zona perigosa. Platão não tirava os olhos das venezianas. Só mulatas. Êta zona estragada.

– Entra, cheiroso!

– Sai, fedida!

Que resposta mais na hora, Nossa Senhora. É longe como o diabo esse tal de Serviço Sanitário. Pensando bem.

– Boa tarde, Seu Platão, como vai o senhor? Ó Dona Eurídice, como vai passando a senho… ora que se fomente!

Olhou para trás. Não ouviu. Que ouvisse. Parou diante da placa dourada. Sem saber se entrava ou não. Não será melhor não? Tanta escada para subir, meu Deus.

O tição fardado chegou na porta contando dinheiro.

– O doutor diretor já terá chegado?

– Parece que ainda não chegou, não senhor.

Aí resolveu subir.

– O doutor diretor ainda não chegou?

O cabeça-chata custou para responder.

– Chegou, sim senhor. Quer falar com ele?

– Ah, chegou?

O cabeça-chata papou uma pastilha de hortelã-pimenta e falou:

– Agora é que eu estou reparando… o Seu Platão Soares… Sim senhor, Seu Platão. Desta vez o senhor teve sorte mesmo: encontrou o homem. Vá se sentando que o bicho hoje atende.

Platão deu uma espiada na sala.

– Xi! Tem uns dez antes de mim.

– Paciência, não é?

Platão se abanava com o chapéu-coco. Triste. Triste. Triste.

– Que é que você está chupando?

– Eu? Eunãoestouchupandonadanãosenhor!

Platão deu um balanço na cabeça.

– Sabe de uma cousa? Aai!.. . Eu volto amanhã…

– O senhor dá licença de um aparte, Seu Platão? Eu se fosse o senhor não deixava para amanhã não. O senhor já veio aqui umas dez vezes?

– Não tem importância. Eu volto amanhã.

– Admiro o senhor, Seu Platão. O senhor é um FI-LÓ-SO-FO, Seu Platão, um grande FI-LÓ-SO-FO!

– Até amanhã.

– Se Deus quiser.

Desceu a escada devagarzinho. Tirando a sorte. Pé direito: volto. Pé esquerdo: não volto. Foi descendo. Volto, não volto, volto, não volto, vol…. to, não vol… to, vol… to! Parou. Virou-se. Mediu a escada. Virou-se. Olhou a rua. É verdade: e o degrau da soleira da porta? Mais um não-volto. Mais um. Porém para chegar até ele justamente um passo: volto. Ai está. Azar. O que se chama azar. Platão retesou os músculos armando o pulo. Deu. De costas na calçada. A mocinha que ia chegando com a velhinha suspendeu o chapéu. A velhinha suspendeu o guarda-sol. O chofer do outro lado da rua suspendeu o olhar. Platão Soares finalmente suspendeu o corpo. Ficou tudo suspenso. Até que Platão muito digno pegou o chapéu. Agradeceu. Ia pegando o guarda-sol. A velhinha quis fechá-lo primeiro.

– Não, minha senhora! Prefiro assim mesmo aberto, por favor. Muito agradecido. Muito agradecido.

De guarda-sol em punho deu uns tapinhas nas calças. Depois atravessou a rua. Parou diante do chofer. Cousa mais interessante ver mudar um pneumático.

E não demorou muito.

– Eu se fosse o senhor levantava um pouquinho mais o macaco, não acredita?

Fonte:
MACHADO, Alcântara. Laranja-da-China. IMESP, 1982.

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