Agnaldo Rodrigues (A Esfinge)

– Não sei decifrar o enigma! – Disse eu à Esfinge.

Mas, ela abriu a boca e jogou o bafo quente sobre meu corpo gelado. Senti o inferno corroendo minhas carnes, meus ossos tremiam de dor, minha consciência deixou de existir por alguns instantes.

– Esfinge maldita! Vá embora, não és bem vinda na minha vida! – Disse isso diversas vezes, mas ela apenas sorria e balançava a cabeça reprovando minha atitude. Permaneci ali, parado, todo queimado, em carne viva, olhando aquele monstro alado. Então, comecei a analisar aquela grande ameaça: a Esfinge era uma leoa alada com cabeça de mulher, enigmática e cruel, uma espécie de monstro terrível, um símbolo da dignidade pervertida.

– Monstro feio! Horrível… Horrível! Gritei.

Logo pensei nas lendas gregas, em que uma esfinge afligia a região de Tebas, aquele monstro meio leoa meio mulher que devorava àqueles que não conseguiam decifrar seus enigmas.

Devassidão, dominação, perversão.

Praga, vulgarização, tirania.

– Qual é o animal que anda sobre quatro pés de manhã, sobre dois ao meio-dia e sobre três à noite? Perguntou a Esfinge.

– Não sei! Respondi aos prantos.

Cai de joelhos, soluçando pedi clemência, disse-lhe que eu era cristão, declamei várias rezas para ela saber que eu não era ateu e, ainda, prometi fazer tudo o que pedisse. Ela fitava minha aflição com seu olhar altivo, impiedoso, e, sem que minhas palavras fizessem o menor significado abriu a boca. O fogo acabou dilacerando o resto de vida que sobrava no meu corpo.

Gritei…chorei…nada adiantou.

– Eu não sei o enigma…não sei…não sei. Senhora Esfinge arrume um espelho para mim, este é o meu último desejo. Quero ver se eu ainda sou um ser humano.

Um ser humano queimado.

Sem pele.

Sem couro.

Quase em ossos podres, dilacerados pelas chamas.

Ela sorriu apenas com o canto da boca, pingou um pouco de baba sobre o meu corpo queimado, depois meteu as patas dentro dos pêlos e retirou um espelho todo dourado, contornado por pedrinhas de brilhantes. Depois me entregou lentamente cantarolando se esta rua se esta rua fosse minha eu mandava eu mandava ladrilhar com pedrinhas com pedrinhas de brilhantes para o meu para o meu amor passar. Peguei o espelho, fitei minha imagem. Eu já não tinha mais imagem. Ou queria não tê-la mais. Era infame, ridículo, a Esfinge ter vencido minha inteligência.

Querendo finalizar o processo de todos os que nascem devem morrer, a Esfinge perguntou pela última vez o enigma. Um último sopro quente lançaria minh’alma ao encontro do anjo rebelde.

Certa de que Cérbero iria recepcionar-me às portas do Inferno, perguntou-me convicta sobre o tal animal que anda sobre quatro pés de manhã, sobre dois ao meio-dia e sobre três à noite. Sem saber o que responder, tentando defender-me do fogo fatal mostrei o espelho à Esfinge, então ela viu refletida a própria imagem. Ela era um ser humano. Sentiu vergonha de si. “Eu também sou humana”, pensou. A resposta do enigma estava dentro do espelho: O homem destruindo o próprio homem. Ele que se arrasta no chão quando infante, caminha ereto na idade adulta e que durante a velhice anda encostado na sua bengala.

-Maldito homem! Maldito! Gritou desesperada a Esfinge.

Em seguida, furiosa ela se precipitou no mar. Mar de angústia. Mar de lágrimas que cobre mais da metade da Terra.

Olhei no espelho.

Vi a medusa. Agora vou sair por aí petrificando as pessoas já que ninguém terá a coragem de passar as mãos nos meus cabelos, nem a ousadia de olhar no fundo de meus olhos. Agora eu sou a Esfinge: o que é o que é que tem o reto segurando o mole, o mole segurando o torto, o torto segurando o morto e o morto enganando o vivo?

Quem não souber ou errar… terá de olhar nos meus olhos para dar bom dia à Cérbero. Se acertar, precipito-me no Rio Paraguai.
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Sobre o Autor
Agnaldo Rodrigues da Silva é professor na Universidade do Estado de Mato Grosso.

Escritor, crítico, ensaísta e contista, tem como principais publicações: O futurismo e o teatro (2002), Ensaios de Literatura Comparada – org. (2003) e A Penumbra – Contos de introspecção (2004).

Preside o Conselho Editorial da Unemat Editora, coordena a editoração da Revista Ecos (Língua e Literatura), do Instituto de Linguagem e integra o Conselho Temático Consultivo do Caderno Científico Fênix, da Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação – UNEMAT.

Agnaldo é natural de Cáceres, Mato Grosso, e tem se dedicado aos estudos literários e teatrais nos últimos anos.

Fonte:
Projeto Cultural ABRALI. http://www.abrali.com

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