Rodolfo Witzig Guttilla (Boa Companhia Haicai)

Existem três hipóteses para o gosto dos escritores brasileiros pelo haicai, poema de origem japonesa Estudioso há 25 anos da aclimatação da forma poética mais importante do Japão, Rodolfo Witzig Guttilla explica os motivos em “Boa Companhia Haicai” (Companhia das Letras), antologia em que ele reuniu a produção de autores de tendências e gerações diversas.

Para ele, a brevidade e o humor são características fundamentais do haicai (segundo o dicionário Houaiss, hai significa gracejo e brincadeira, enquanto kai, harmonia e realização). “De modo breve, um haicaísta mostra a grata aceitação pela vida”, diz. “O autor expressa o aqui e agora sem ser cerebral e com economia de força.” A prática do haicai exige certos estados de espírito. Guttilla menciona como principais a abnegação, a aceitação da solidão, o acolhimento das contradições, a busca por simplicidade e o sentimento de liberdade.

Jornalista e antropólogo, Guttilla explica que a forma poética aportou no País com o aparecimento do modernismo, que implodiu a sintaxe e métrica tradicionais. “O humor se tornou desejável e um traço comum.” Ele cita as blagues cortantes de Oswald de Andrade que, em vez de haicais, eram classificadas como “poemas piada, uma forma de diminuí-lo”.

O terceiro elemento está no aspecto formal. As redondilhas maiores (versos de sete sílabas) e menores (cinco sílabas), as estruturas mais comuns na poesia de língua portuguesa, têm semelhanças com o haicai, fixado no Brasil por Afrânio Peixoto como um poema de três versos – de 5, 7 e 5 sílabas. A diferença é que, no Japão, o haicai se afirmou como caminho para o autoconhecimento e, no Brasil, ele se tornou uma forma poética.

Alice Ruiz é um dos autores da antologia. Convidada para dividir uma mesa com Olga Savary e Carlos Vogt, Alice fala sobre a sua produção na Livraria da Vila, às 19 horas de quarta-feira (28), em evento que lança “Haicai”. Paranaense, ela teve o primeiro contato com o poema minimalista em 1968, levada por Paulo Leminski, que seria seu companheiro por mais de 20 anos. Nos anos 1980, lançou os primeiros livros com os poemetos: “Pelos Pelos” e “Vice-Versos”. Tradutora de poetas japoneses do século 18, ela é hoje uma das principais divulgadoras do haicai.

Há 20 anos, Leminski atualizou o poema japonês, popularizado no Brasil, entre os anos 1950 e 1970, por Millôr Fernandes, que os divulgava na imprensa. Guttilla afirma que o período dos anos 1990 em diante foi de pasmaceira, sacudida por Alice e seu livro “Desorientais”. Poeta da geração de 1960, o paulista Carlos Vogt flertou com o haicai em “Cantografia”, sua estreia, marcada pelo senso de humor e o exercício da brevidade. Nos anos 1980, a paraense Olga Savary recebeu o primeiro reconhecimento por seus haicais, aos quais se dedicava fazia 40 anos. Em “O Livro dos Hai-Kais”, ela traduziu Matsuó Bashô (1644-1694), Yosa Buson (1716-1784) e Kobayashi Issa (1763-1827).

Segundo Guttilla, Bashô elevou o haicai à condição de kadô (caminho da poesia), impregnando-lhe a visão de mundo zen. Essa percepção incorpora a herança do confucionismo e do budismo e, o mais importante, a ideia de totalidade. Aos 25 anos, Bashô renunciou à sua condição de samurai para ser monge andarilho. A sua produção expressa a beleza das coisas simples, imperfeitas e transitórias.

Em seu estudo pioneiro, Guttilla revela que o primeiro a falar sobre haicais foi o paulista Monteiro Lobato. Publicado por “O Minarete” em 1906, o artigo “Poesia Japonesa” trazia seis poemetos traduzidos por Lobato. Essa descoberta desbanca a versão de que Afrânio Peixoto, criador da forma abrasileirada, teria sido o primeiro a tocar no assunto. De qualquer maneira, estava aberto o caminho para autores de diferentes estilos, como Erico Verissimo, Haroldo de Campos, José Paulo Paes, Luís Aranha e Waldomiro Siqueira Jr., alguns dos 24 selecionados para a antologia

Guttilla publica, pela primeira vez em livro, os primeiros haicais de Carlos Drummond de Andrade, divulgados na revista “Para Todos”, em 1925. Ele mostra a importância de Guilherme de Almeida, que teria premiado “Magma” (1936), livro de estreia de João Guimarães Rosa. A especulação faz sentido porque “Magma”, inédito até 1997, traz nove haicais que podem ter comovido Guilherme, o único jurado do prêmio de poesia da Academia Brasileira de Letras.

TRECHOS

DRUMMOND

Num automóvel aberto
riem mascarados.
Só minha tristeza não se diverte.

Não tenho dinheiro no banco,
porém,
meu jardim está cheio de rosas.

AFRÂNIO PEIXOTO

Na poça da alma.
Como no divino céu
Também passa a lua

As coisas humildes,
Têm o seu encanto discreto:
O capim melado…

PAULO LEMINSKI

essa estrada vai longe
mas se for
vai fazer muita falta

nadando num mar de gente
deixei lá atrás
meu passo à frente

MILLÔR FERNANDES

Há colcha mais dura
Que a lousa
Da sepultura?

Quando estamos sós,
Devemos nos tratar
Por vós.
====================

Sobre o autor e seus escritos

Rodolfo Witzig Guttilla nasceu na cidade de São Paulo, em 1962. Formado em Comunicação e em Ciências Sociais, é mestre em Antropologia, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Foi repórter, editor, pesquisador e professor. Há 15 anos atua no campo dos relacionamentos públicos, do marketing e da comunicação corporativa. Publicou o livro Apenas (1986) e participou de duas coletâneas: 100 haicaístas brasileiros (Fundação Brasil-Japão e Massao Ohno Editores, 1990) e Qu4rta-Feira: antologia de prosa & verso (Escrituras, 2003). Livro de poemas Uns e Outros (Landy Editora).

O livro Uns & Outros, de Rodolfo Guttilla, é resultado de um projeto iniciado faz 20 anos. Segundo o escritor e poeta Carlos Felipe Moisés, autor da apresentação que precede a obra, “ao primeiro contato, o leitor logo perceberá que o timbre dominante de Uns & Outros é o do humor discreto, por vezes velado, em perfeita sintonia com a também discreta dissonância dos seus acordes breves. Só uma segunda leitura revelará que por trás (melhor, nos meandros) de sua descontraída leveza pulsa um forte e denso sentimento da gravidade da vida. A desejada união desses pendores, em princípio dispares, talvez constitua a marca mais característica do poeta estreante, mas nem por isso inseguro em relação a seu ofício”.

Além de investigar “a gravidade da vida” e o próprio ofício poético, Guttilla expõe, em seus poemas, a sua “angústia da influência”, como caracterizada por Harold Bloom. Segundo a poeta Alice Ruiz, que assina a orelha do livro, “essa é uma poesia que brinca de trazer à tona muitas das referências/ influências, fontes de víveres que pintam, bordam e transbordam neste Uns & Outros. Uns como a peripécia de reler a idéia da Odisséia, revendo Homero, via Joyce e a atirando nas vias pops do século XXI. Outros com traços do Modernismo ou com traços da Poesia concreta. Lembrando a Poesia caligrama de Edgar Braga e tocando na musicalidade de Chico e Caetano. E ainda, uns e outros à moda de Pessoa, Drumonnd, Pedro Xisto, Bandeira, Millôr, Leminski”.

Fontes:
Colaboração de Douglas Lara. Cruzeiro on line.
www.antoniomiranda.com.br
http://www.paulomarra.com.br/

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Estante de Livros, notas biográficas, Sopa de Letras

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s