Eloisy Oliveira Batista (Graciliano Ramos: escritor, narrador, autor e herói. Uma leitura do “eu” na obra Memórias do Cárcere)

Resumo: Esse artigo discute o modo como a escrita autobiográfica revela a construção do “eu” de Graciliano Ramos, que em Memórias do Cárcere assume os papéis de escritor (profissional), narrador (voz que encena a história), autor (que garante a unidade do texto) e herói (personagem). A obra é um relato das experiências vividas por Ramos quando ele esteve preso durante a Ditadura de Getúlio Vargas, no ano de 1936. Para tanto, algumas questões são centrais: a primeira delas é a relação entre tempo e espaço que se apresenta de modo constitutivo na própria estrutura do texto, “o tempo deixara de existir” (RAMOS, 1953); a segunda é o uso dos pronomes que revelam a construção do gênero autobiográfico e da identidade dos participantes do discurso, “desgosta-me usar a primeira pessoa” (RAMOS, 1953); e a terceira é a discussão do “estilo” da autobiografia, “Quem dormiu no chão deve lembrar-se disto, impor-se disciplina, sentar-se em cadeiras duras, escrever em tábuas estreitas” (RAMOS, 1953).

Palavras-chave: memória, autobiografia, tempo, narrativa

A obra Memórias do Cárcere foi escrita por Graciliano Ramos a partir de sua vivência quando preso durante a Ditadura Vargas, em 1936, e o título dessa narrativa apresenta o seu propósito mais evidente: relatar as lembranças dessa experiência Nosso objetivo é fazer uma reflexão sobre como a escrita autobiográfica revela a construção do “eu” de Graciliano Ramos nesse relato, revelando que esse “eu” assume os papéis de escritor, narrador, autor e herói.

Ramos permaneceu em poder da polícia por dez meses, embora tenha sido condenado sem processo jurídico; por isso, não se sabe oficialmente qual a causa de sua prisão, mas tudo faz crer que ele foi vítima de vingança política por suas decisões quando diretor da Instrução Pública de Alagoas. Ao longo das memórias, ele não insiste na tentativa de desvendar esse mistério, ou seja, mostra-se mais interessado em relatar a experiência do que em buscar respostas.

Enquanto presidiário, Ramos transitou por diferentes lugares que são recuperados por fases em sua narrativa da memória, ou seja, a ordem cronológica dos acontecimentos é submetida à ordem de lugares em que ele vivenciou as experiências: primeiro no 20º Batalhão, em Maceió; em seguida em um quartel, no Recife; depois no porão do navio Manaus; mais tarde na Casa de Detenção no Rio de Janeiro, onde ficou no Pavilhão dos Primários; houve ainda o período em que permaneceu no Pavilhão dos Militares; também a Colônia Correcional, em Ilha Grande; na Polícia Central, novamente no Rio de Janeiro e, por último, na Casa de Correção. O espaço é, portanto, o eixo organizador da experiência traumática; uma escolha totalmente coerente a partir da constatação de que “o tempo deixara de existir” (RAMOS, 1953, vol. 4, p. 7)

. Nesse caso, a questão temporal é de extrema importância, pois o narrador faz diversas considerações a esse respeito ao longo da obra; mas, além disso, Márcio Seligmann-Silva afirma tratar-se de uma constante em narrativas que abordam experiências de presídio ou perseguições políticas:

Uma das características mais marcantes da experiência em instituições totais (ou sob regimes de exceção), onde a qualquer momento e por qualquer motivo absurdo pode-se perder a vida, é a temporalidade marcada pela ditadura do agora. (SELIGMANN–SILVA, 2006, p. 55)

A opção de utilizar o espaço como substituto da referência temporal é muito significativa, pois, do ponto de vista da linguagem, a relação entre tempo e espaço é intrínseca, o que se comprova nas metáforas que utilizamos para falar do tempo. Metáforas como: passar do tempo, anos atrás, daqui para frente, pertencem a princípio ao universo semântico do topos, pois só podemos pensar sobre o abstrato passando pelo sensível. Em outras palavras, não somos capazes de falar do tempo sem nos referirmos ao espaço (como metáfora), mesmo que esse vocabulário espacial não seja suficiente para tratar da atividade espiritual. Nesse sentido, observa Gagnebin (1997):

Não basta, pois, passar de uma noção espacial exterior do tempo a uma noção espacial interior, mesmo que houvesse aí um progresso em direção a uma descrição mais específica de como agimos ‘no’ tempo, com o tempo, ‘sobre’ o tempo. Ramos, portanto, no que se refere ao tempo, abre mão do processo metafórico e utiliza a linguagem de modo mais concreto. Trata-se de sua linguagem seca e direta tantas vezes comentada pelos crítico s, mas também da escrita de um “eu” que quer ser o mais autêntico e verossímil possível.

Foi mantida a grafia original em todas as citações.

Graciliano, portanto, dialoga com o questionamento sobre a (im)possibilidade da divisão do tempo primeiramente proposto por Santo Agostinho. Esse filósofo fundamental para se entender o pensamento acerca do tempo afirma que o passado e o futuro somente existem no presente. Além disso, ele reflete sobre a “veracidade” da memória, uma outra questão cara para Graciliano Ramos:

Ainda que se narrassem os acontecimentos verídicos já passados, a memória relata, não os próprios acontecimentos que já decorreram, mas sim as palavras concebidas pelas imagens daqueles fatos, os quais, ao passarem pelos sentidos, gravaram no espírito uma espécie de vestígios. (Santo Agostinho, 1973, livro XI, 18\23, p. 246)

A relação entre memória e imagem mencionada na citação é fundamental também para Ricoeur (2007), para quem a memória é uma possibilidade da imaginação, com a diferença de que ela exige uma associação entre a imagem do presente e a do passado.

É na contracorrente dessa tradição de desvalorização da memória, nas margens de uma crítica da imaginação, que se deve proceder a uma dissociação da imaginação e da memória, levando essa operação tão longe quanto possível. Sua idéia diretriz é a diferença, que podemos chamar de eidética, entre dois objetivos, duas intencionalidades: uma, a da imaginação, voltada para o fantástico, a ficção, o irreal, o possível, o utópico; a outra, a da memória, voltada para a realidade anterior, a anterioridade que constitui a marca temporal por excelência da ‘coisa lembrada’, do ‘lembrado’ como tal. (RICOEUR, 2007, pp. 25-26)

Ricoeur observa também que o fenômeno da memória só existe porque há passagem do tempo, ou seja, é preciso uma situação de anterioridade. A obra aqui estudada tem um caráter bastante específico em relação ao tempo nessa concepção. Ela começou a ser escrita em 1946 e foi publicada em 1953, sendo que os acontecimentos narrados datam de 1936. Portanto, há uma gr ande distância temporal entre os acontecimentos e a imagem, os “vestígios” e a palavra; o que evidencia a diferença entre o escritor (profissional), o autor (aquele que garante a unidade literária do texto), o narrador (voz que encena a história) e o herói (personagem); elementos distintos, mas que possuem uma identidade comum a fim de garantir a realização dessa autobiografia.

Sobre a imaginação, Memórias do Cárcere também suscita reflexões, pois trata-se da obra de um romancista, ou seja, de um hábil manipulador de palavras, que sabe criar, ainda que respeite o referencial. A desconfiança da veracidade de seu testemunho é legítima, até porque suas obras ficcionais trazem também elementos da sua realidade vivida, filtrados de outra maneira, evidentemente, mas que sinalizam o quanto é rico esse enfrentamento de escritor no que diz respeito a delimitação de um gênero. Ele se utiliza dessa desconfiança e interage com ela, por isso, ele assume a sua parcialidade e se permite narrar o esquecimento:

Foi ali com certeza que achei meio de renovar a minha provisão de fósforos e cigarros. Não me recordo. Também não sei como nos forneciam água. Lembro-me de que ela se achava à entrada, perto do camarote do padeiro, mas esqueci completamente se estava em balde ou ancoreta, se vinha de encanamento. Afasto a última suposição, estou quási certo de que não existia nenhuma torneira. Esta lacuna me revela o desarranjo interno, pois a sêde era grande, estávamos sempre a beber. (RAMOS, 1953, vol. 1, p. 160)

Starobinski (1970) afirma que a autobiografia não é um gênero “regrado”, mas que possui como condição indispensável uma identificação entre o narrador e o herói, assim como é necessário que seja uma narração e não uma descrição. Notadamente, exige-se que a narração aborde uma experiência pessoal que interesse a outras pessoas, pressuposição que legitima o uso de uma experiência passada como tema do discurso.

Starobinski afirma ainda que o “eu” é confirmado em sua função de sujeito permanente pela presença do “tu”, que aparece como motivação da escrita. Memórias do Cárcere corresponde à definição de Starobinski, no entanto, apresenta especificidades, especialmente com relação ao uso dos pronomes.

Vamos nos concentrar principalmente no primeiro capítulo da obra, quando há uma apresentação dos motivos que a provocaram. Esse é um capítulo que se distingue dos demais, pois apresenta de modo mais evidente a voz do autor. Embora seja apresentado como um capítulo qualquer – recebe numeração como os outros, ou seja, não aparece intitulado como introdução – nota-se uma distinção da voz narrativa: “Resolvo-me a contar, depois de muita hesitação, casos passados há dez anos – e, antes de começar, digo os motivos por que silenciei e por que me decido“. (RAMOS, 1953, vol. 1, p. 5)

Esse tom “justificatório”, que pode ser recorrente em muitas outras autobiografias, não volta a aparecer no texto de Memórias do Cárcere, no qual possui apenas o papel de definir – “antes de começar” – qual o tipo de texto apresentado, ou seja, funciona muito mais como uma necessidade do “gênero” (Gênero, nesse caso, aparece entre aspas pelo fato de ser uma categoria não discutida nesse momento.) do que como um elemento da narrativa propriamente dita, que começa, de fato, a partir do segundo capítulo:

No começo de 1936, funcionário na instrução pública de Alagoas, tive a notícia de que misteriosos telefonemas, com veladas ameaças, me procuravam o endereço. Desprezei as ameaças: ordinariamente o indivíduo que tenciona ofender o outro não o avisa. Mas os telefonemas continuaram. (RAMOS, 1953, vol. 1, p. 12)

Observa-se, portanto, que a partir do segundo capítulo a narração assume um tom muito mais romanesco. O primeiro funciona como um pacto inicial, um “pacto autobiográfico” (Conceito amplamente difundido por Philippe Lejeune em Le pacte autobiog raphique, 1975), no qual o autor oferece os parâmetros para a leitura de sua obra:

Nesta reconstituição de factos velhos, neste emiuçamento, exponho o que notei, o que julgo ter notado. Outros devem possuir lembranças diversas. Não as contesto, mas espero que não recusem as minhas: conjugam-se, completam-se e não dão hoje impressão de realidade. (RAMOS, 1953, vol. 1, p. 10)

Nota-se uma apresentação daquilo que, para o autor, classifica a sua obra como memorialista. O próprio termo memórias que aparece no título é significativo. Paul Ricoeur (1997, p. 41) nomeia aquilo de que nos lembramos como lembranças, o que exige de nós um esforço de retomada do passado; para ele, o termo memória é singular, pois seria o ato de se voltar para o passado. Esse termo, que aparece no título no plural, conjuga a experiência do lembrar e a lembrança em si, ou seja, enfoca não apenas o ocorrido, mas também o processo de rememoração.

O termo lembrança é também instigante, visto que, pertence ao campo conceitual de Walter Benjamin (Benjamin escreveu no mesmo período que Graciliano Ramos, por isso, é quase certo que um não conheceu a obra do outro. Mesmo assim, Walter Benjamin é um teórico importante no sentido de pensar questões e conceitos muito relacionados com o período histórico em que o autor escreveu; portanto, esse presente histórico vivenciado pelos dois autores têm sentido em suas respectivas obras. Assim, é possível aproximá-los, apesar da distância espacial, buscando coerências discursivas esclarecedoras.) em diferente par de opostos. Em “O narrador” (1980), Benjamin propõe uma comparação entre lembrança (do domínio da narrativa) e recordação (do domínio do romance) nos seguintes termos: a lembrança é uma retomada do passado o mais próximo possível do acontecido, nela há o compromisso com a verdade; já a recordação refere-se a muitos acontecimentos dispersos, escolhidos em função do presente.

Pode-se considerar que o uso de memórias para Ramos é a conjugação também dessas duas possibilidades, pois há justamente uma tentativa de recuperação do passado com um certo respeito pelo acontecido, mas há também a consciência da impossibilidade de se obter sucesso nessa tentativa. Graciliano Ramos lida, portanto, com um material riquíssimo: dados de uma vivência que contam uma outra versão da história do país, não a versão oficial; e a sua própria visão de mundo após essa experiência, após Segunda Guerra Mundial e após o seu reconhecimento como escritor.

O comprometimento com o passado centra-se em um elemento fundamental também mencionado no capítulo inicial: o uso da primeira pessoa. Desgosta-me usar a primeira pessoa. Se se tratasse de ficção, bem: fala um sujeito mais ou menos imaginário; fora daí é desagradável adoptar o pronomezinho irritante, embora se façam malabarismos por evitá-lo. Desculpo-me alegando que êle me facilita a narração. Além disso não desejo ultrapassar o meu tamanho ordinário. (RAMOS, 1953, vol. 1, p. 5)

O “tamanho ordinário”, a “insignificância”, essa modéstia que contrasta com a noção de que alguém considera a sua experiência digna de ser relatada também está presente no texto de forma abundante e participa do pro cesso de definição do “eu”. Essa visão de si próprio é uma maneira de Ramos transformar em valor estético o uso da primeira pessoa “necessário” à autobiografia, ou seja, acaba definindo também o que Starobinski denomina “estilo”.

Starobinski (1970) observa que a autobiografia oferece um quadro muito amplo de possibilidades, que permite a manifestação de uma grande variedade de estilos particulares. O estilo de Graciliano Ramos revela não apenas o seu talento como escritor, mas também a imagem que ele constrói do “eu” em sua narrativa, que funciona como uma chave de leitura da obra. O próprio autor apresenta no primeiro capítulo três aspectos que nortearão o estilo que predominará em sua escrita. Em primeiro lugar, com relação ao “tom” da narrativa: “Quem dormiu no chão deve lembrar-se disto, impor-se disciplina, sentar-se em cadeiras duras, escrever em tábuas estreitas. Escreverá talvez asperezas, mas é delas que a vida é feita: inútil negá-las, contorná-las, envolvê-las em gaze.” (RAMOS, 1953, vol. 1, p. 7)

Em segundo, com relação ao conteúdo dela: “Omitirei acontecimentos essenciais ou mencioná-los-ei de relance, como se os enxergasse pelos vidros pequenos de um binóculo; ampliarei insignificâncias, repetí-las-ei até cansar, se isto me parecer conveniente.” (RAMOS, 1953, vol. 1, p. 9)

E, também, de acordo com o seu direcionamento político: “Esgueirar-me-ei para os cantos obscuros, fugirei às discussões, esconder-me-ei prudente por detrás dos que merecem patentear-se.” (RAMOS, 1953, vol. 1, p. 11)

Starobinski (1970) afirma que o estilo é o índice da relação entre o escritor e o seu próprio passado. Portanto, ao observarmos as citações anteriores, o estilo de Graciliano Ramos nos revela que seu sentimento para com o passado é áspero, não totalmente compreendido e destituído de um posicionamento político.

Graciliano Ramos vai privilegiar em sua narrativa os episódios vivenciados ao lado de seus companheiros de prisão. Ricoeur afirma que, entre todas as coisas de que nos lembramos, privilegiamos os acontecimentos: “No plano fenomenológico, no qual nos situamos aqui, dizemos que nos lembramos daquilo que fizemos, experimentamos ou aprendemos em determinada circunstância particular“. (2007, p. 42) Portanto, no estudo de um texto memorialista é imprescindível atentar para o “quem” se lembra, pois é o centro da circunstância. O acionamento da lembrança é particular não só pela parcialidade da vivência, mas também por aquilo que Ricouer chama de “fundo memorial”:

Sob esse aspecto, as lembranças podem ser tratadas como formas discretas com margens mais ou menos precisas, que se destacam contra aquilo que poderíamos chamar de um fundo memorial, com o qual podemos nos deleitar em estados de devaneio vago. (RICOEUR, 2007, p. 41)

O fundo memorial é, portanto, o que nos constitui como indivíduos, ou seja, uma espécie de indefinível conjugação de todas as nossas experiências. Dessa forma, percebemos que o uso do “eu ” não é uma escolha indiferente.

Benveniste, em Problémes de linguistique générale (1966), discute o sentido dos pronomes pessoais na estrutura das relações entre as pessoas verbais. Esse teórico faz a diferenciação entre a primeira, a segunda e a terceira pessoa a partir da distinção proposta pelos gramáticos árabes, segundo os quais: a primeira pessoa é aquela que fala, a segunda é aquela com quem se fala e a terceira é a que está ausente. Essa distinção demonstra que a primeira pessoa se impõe à necessidade de Graciliano Ramos porque a sua verdade está dita por todas as “vozes” possíveis no texto (escritor, autor, narrador e herói), portanto, a terceira pessoa não estaria de acordo com o seu projeto de escrita.

A primeira pessoa de Memórias do Cárcere não se dirige diretamente ao seu interlocutor, embora a sua presença seja constituinte do discurso; comprovando a afirmação de Benveniste de que a primeira e a segunda pessoa somente existem uma em função da outra. Ele defende também que as duas primeiras pessoas não se colocam no mesmo plano da terceira, que não é tratada como uma verdadeira “pessoa” verbal. No entanto, a terceira pessoa tem posição privilegiada nas Memórias, pois é a partir da relação com o outro (que no passado exerceu o papel de segunda pessoa) que o “eu” vai aos poucos compreendendo a si próprio. Portanto, a relação discursiva entre o narrador e o leitor é muito mais de apresentação da experiência do que de diálogo; em outras palavras, há uma espécie de encenação do passado.

De fato, Graciliano Ramos não escreve as memórias com o intuito de servir de exemplo, como Santo Agostinho em suas Confissões; também não precisa se justificar, como o faz Rousseau nas suas; e nem faz uma escrita de denúncia, como se poderia supor pelo cenário político apresentado. Ramos não diz claramente qual é o seu objetivo, mas insinua querer registrar sua “ressurreição”.

Aqui findo o resumo dos empecilhos até hoje apresentados à narração que inicio. Terão eles desaparecido? Alguns se atenuaram, outros se modificaram, determinam o que impediam, converteram-se em razões contrárias. Estarei próximo dos homens gordos do primado espiritual? Não, felizmente. Se me achasse assim, iria roncar, pensar na eternidade. (…) Contudo é indispensável um mínimo de tranqüilidade, é necessário afastar as miseriazinhas que nos envenenam. Fìsicamente estamos em repouso. Engano.

O pensamento foge da folha meio rabiscada. Que desgraças inomináveis e vergonhosas nos chegarão amanhã? Terei desviado esses espectros? Ignoro. Sei é que, se obtenho sossego bastante para trabalhar um mês, provavelmente conseguirei meio de trabalhar outro mês. Estamos livres das colaborações de jornais e das encomendas odiosas? Bem. Demais já podemos enxergar luz a distância, emergimos lentamente daquele mundo horrível de treva e morte. Na verdade estávamos mortos, vamos ressuscitando. (RAMOS, 1953, vol. 1, p. 7)

O termo ressurreição aproxima Graciliano Ramos do Walter Benjamin ( LÖWY, 2005) das “Teses sobre o conceito de história”, que atribui ao passado grande importância na busca pela redenção e pela felicidade. Benjamin, assim como Ramos, não tem entusiasmo pelo futuro. A intenção de ambos é observar o passado e acertar as dívidas para transformar o presente. Trata-se, possivelmente, de uma necessidade de reagir contra o esquecimento:

Buscamos aquilo que tememos ter esquecido, provisoriamente ou para sempre, com base na experiência ordinária da recordação, sem que possamos decidir entre duas hipóteses a respeito da origem do esquecimento: trata-se de um apagamento definitivo dos rastros do que foi aprendido anteriormente, ou de um impedimento provisório, este mesmo eventualmente superável, oposto à sua reanimação? Essa incerteza quanto à natureza profunda do esquecimento dá à busca o seu colorido inquieto. (…) A recordação bem-sucedida é uma das figuras daquilo a que chamaremos de memória ‘feliz’. (RICOEUR, 2007, p. 46)

Assim, por mais que as recordações sejam doloridas, a recuperação delas pode gerar uma espécie de bem-estar, devido a sensação de tarefa cumprida, talvez. Ramos participa ao leitor a informação de que os outros exigem dele essa narrativa do passado e que ele considera a exigência justa: “Acho que estão certos: a exigência se fixa, domina-me” (RAMOS, 1953, vol. 1, p. 7). É evidente também a auto-exigência a que o escritor se submete, pois ele fez diversas anotações durante o período em que esteve preso, mas elas se perderam. Nota-se que Ramos, como autor, considera seu o papel de registrar uma experiência que deve ser narrada.

O narrador das memórias, nesse caso, é um narrador apto e comprometido, mas que na realização da escrita goza de liberdade. Ele não promete relatar a verdade, quer apenas oferecer ao leitor a sua percepção a respeito do passado. Ao se referir às tentativas frustradas de registrar os fatos no momento presente das experiências, comenta:

Quási me inclino a supor que foi bom privar-me dêsse material. Se êle existisse, ver-me–ia propenso a consultá-lo a cada instante, mortificar-me-ia por dizer com rigor a hora exacta de uma partida, quantas demoradas tristezas se aqueciam ao sol pálido, em manhã de bruma, a côr das fôlhas que tombavam das árvores, num pátio branco, as formas dos montes verdes, tintos de luz, frases autênticas, gestos, gritos, gemidos. Mas que significa isso? Essas coisas verdadeiras podem não ser verossímeis. (RAMOS, 1953, vol. 1, p. 9)

Sabe-se que não é possível recuperar no presente um acontecimento tal qual ele ocorreu pela própria definição de passado; no entanto, Paul Ricoeur (2007) defende a memória como sendo a única e mais eficiente maneira de acessarmos uma experiência anterior. Ele enfatiza o saldo positivo da memória:

A meu ver, importa abordar a descrição dos fenômenos mnemônicos do ponto de vista das capacidades das quais eles constituem a efetuação ‘bem sucedida’. (…) o que justifica essa preferência pela memória ‘certa’ é a convicção de não termos outro recurso a respeito da referência ao passado, senão a própria memória (...). (RICOEUR, 2007, p. 40)

Dessa forma, fica evidente a importância do testemunho, que, para Ricoeur, é o elemento de transição entre a memória e a história; e a “verdade” é resultado do confronto de diversos testemunhos, sendo definidos quais são confiáveis e quais não o são; ou quais são convenientes e quais não o são.

Ramos conta uma história paralela à historiografia oficial e constrói sua relação com o “outro” (leitor) segundo a noção de Benveniste (1966, p. 232) do “tu” como sendo a pessoa “não-eu ”, no sentido de não-identificação. Ao contrário de muitos narradores de autobiografias, seu narrador não demonstra interesse nem no reconhecimento de sua escrita como documento histórico, nem na aproximação com o leitor.

Em certo sentido, a sua narrativa pode ser considerada mais “realista”, pelo seu principal propósito: o de encenar alguns episódios. Realista entre aspas, pois, como já foi dito, a memória não retoma um fato em si, que não pode nunca ser dito de maneira justa pela inevitável interferência da subjetividade de quem narra.

Graciliano Ramos esclarece ao seu leitor o que parece óbvio: afirma que não vai escrever um romance, entendido como ficção, pois os personagens existiram; mas avisa que os acontecimentos narrados podem ser frutos de sua imaginação. O escritor dá vazão a sua memória, mas o autor disciplina as imagens que surgem em sua lembrança a fim de alcançar a verossimilhança.

Em Memórias do Cárcere é evidente o distanciamento entre o narrador e o herói. O narrador está no presente da narração e o herói está no passado, porém, é especialmente a relação entre ambos que nos dá a noção do “eu” que perseguimos. A distância temporal e o ato da escrita os diferenciam a ponto de o narrador perceber e comentar com estranhamento algumas atitudes e alguns pensamentos do herói. “Na atrapalhação da partida, esquecera-me de um aviso importante. De facto não havia importância, mas ali, ausentando-me do mundo, começava a dar às coisas valores novos. Sucedia um desmoronamento”. (RAMOS, 1953, vol. 1, p. 41)

Essa citação exemplifica um outro elemento q ue coloca Memórias do Cárcere nos poucos parâmetros com que Starobinski define a autobiografia, trata-se da transformação:
Ajoutons encore cette remarque: Il n’y aurait pas eu de motif suffisant pour une autobiographie, s’il n’était intervenu, dans l’existence antérieure, une modification, une transformation radicale: conversion, entrée dans une nouvelle vie, opération de la Grâce. (STAROBINSKI, 1970, p. 261 ) – Tradução “caseira”: Acrescentamos ainda esta observação: não haveria motivo suficiente para uma autobiografia, se não houvesse intervindo, em uma existência anterior, u ma modificação , uma transformação radical: conversão, entrada em uma nova vida, operação da Graça.

A transformação do “eu” de Memórias do Cárcere acontece sempre a partir da convivência com seus companheiros. De forma que se retoma aqui a importância da terceira pessoa. São os outros, aqueles que estão ausentes na interação discursiva entre narrador e leitor que motivaram a escrita do autor. Não é contingente o fato de que quando o narrador utiliza a primeira pessoa no plural está sempre retomando a si e aos seus companheiros de prisão. Benveniste (1966, p. 233) observa que a passagem do singular para o plural no caso dos pronomes pessoais não apresenta apenas uma pluralização, mas que em muitas línguas há uma diferenciação da forma verbal da primeira pessoa do plural sobre aspectos inclusivos e exclusivos que apresentam uma complexidade particular. Observe a seguinte passagem: Formámos um grupo muito complexo, que se desagregou. De repente nos surge a necessidade urgente de recompô-lo. Define-se o ambiente, as figuras se delineiam, vacilantes, ganham relevo, a acção começa. (RAMOS, 1953, vol. 1, p. 10)

O narrador exclui o leitor, na medida em que une “eu” a “eles”. A primeira pessoa do plural é sempre enunciada por um “eu” que predomina em relação aos outros, por isso, quando Ramos utiliza essa forma pronominal não abandona o seu projeto autobiográfico, apenas marca a constituição de seu herói junto daqueles que lhe acompanharam e a muitos dos quais ele atendeu a exigência da escrita. Ao leitor cabe o papel de espectador ou de testemunha, conforme o envolvimento a que se disponha.

Assim se percebe de que maneira Graciliano Ramos articula as palavras a fim de se apresentar como escritor, autor, narrador e herói. Seu trabalho é tão exato que ele conseguiu coerência inclusive em um quesito que Starobinski não menciona como exigência da autobiografia: “Estou a descer para a cova, este novelo de casos em muitos pontos vai emaranhar-se, escrevo com lentidão – e provavelmente isto será publicação póstuma, como convém a um livro de memórias”. (RAMOS, 1953, vol. 1, p. 8)

A “publicação póstuma” de fato ocorreu. Graciliano Ramos deixou o livro incompleto com um único capítulo faltante que, segundo relato de seu filho Ricardo Ramos, traria as “sensações de liberdade” (RAMOS, 1953, vol. 4, pp. 162-164). O que nos interessa nesse estudo é perceber que a obra Memórias do Cárcere independe do fim e da finalidade, mas que se constitui nessa construção sempre incompleta do “eu”. E, assim, essas reflexões se encerram, aproveitando a possibilidade que o próprio Graciliano Ramos nos oferece de manter em aberto as possibilidades de leitura, sem a responsabilidade da “verdade”.

Fonte:
Revista Espaço Acadêmico. N. 100. Maringá: UEM. Setembro de 2009.

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