Wilson Martins (Folhetim e Telenovela)

A história da editora Ática não tem nenhuma relação necessária com a de Marcos Rey enquanto escritor, de forma que a sua reunião num estudo de conjunto só se justificaria se esclarecessem mutuamente em aspectos fundamentais. Não é o que acontece na realidade e, por conseqüência, não é o que acontece no livro de Sílvia Helena Simões Borelli (Ação, suspense, emoção. Literatura e cultura de massa no Brasil. São Paulo: EDUC/Estação Liberdade, 1996). A autora os tomou como “focos privilegiados” para análise do “mercado de bens simbólicos”, escreve Edgard de Assis Carvalho na introdução: “a Ática, porque edita, principalmente, livros didáticos, paradidáticos e ensaísticos; Marcos Rey, porque escritor que consegue combinar literatura adulta e infanto-juvenil com áudio-visual, crônicas, teleplays, minisséries, telenovelas, numa espécie de escritor hologramático []” – versatilidade que, em si mesma, não caracterizaria a cultura de massa, assim como a não caracteriza a multiplicidade editorial da Ática.

De fato, a expressão “cultura de massa” tem sentido específico no vocabulário intelectual e, por surpreendente que pareça, não depende do volume do público a que se destina. É, antes de mais nada, uma noção de qualidade, é a cultura popular implicitamente contrastada com o que se tem por alta cultura, identificando-se com os produtos destinados especificamente ao entretenimento mais do que por seu valor intrínseco, e com artefatos destinados à venda no mercado em resposta ao gosto das massas mais do que ao dos entendidos, e com coisas criadas pela reprodução mecânica, como a imprensa, os discos e as ilustrações.

Não se trata de distinções “direitistas” e reacionárias: um esquerdista como Dwight Macdonald declarou que a cultura de massa corrompeu a alta cultura, se é certo que outros, como Edward Shils, sem dar pela incoerência, defendem a idéia de que as gravações de música séria e outras de arte elevam o gosto popular, incluindo um público maior na sociedade (v. The Harper dictionary of modern thought. Eds. Alan Bullock/Oliver Stallybrass). É também o que pensa Sílvia Borelli: há um “preconceito” da crítica contra a literatura popular, tratando-se agora de “remover mecanismos de exclusão e transformar estes objetos em legítimas manifestações culturais e literatura.” O que corresponde a reconhecer a validade do “preconceito”.

Assim, a literatura didática e paradidática não pode ser vista como literatura de massas, da mesma forma por que, apesar dos seus milhões de exemplares anuais, não se enquadram na categoria convencional dos “mais vendidos”. A poesia popular autêntica, que é de natureza folclórica, não se confunde com a literatura de massas, fabricada segundo estereótipos invariáveis. No campo literário, escreve Sílvia Borelli, “as contraposições parecem localizar-se mais nos limites entre a produção de uma textualidade erudita e a elaboração de narrativas construídas de acordo com padrões de fabricação industrializados inerentes à indústria cultural.”

A telenovela, por exemplo, pertence ao universo da literatura de massas e, claro está, à subliteratura: é o folhetim melodramático do nosso tempo, com penetração, aliás, incomparavelmente maior que a dos seus pobres antepassados tipográficos. A tal ponto que, “adaptando” para a TV o romance Helena, de Machado de Assis, o roteirista não hesitou em “melhorá-lo” nem em acrescentar-lhe numerosas seqüências para conformá-lo ao gosto do público e, claro, estender-lhe a duração. O folhetim, de seu lado, não se confunde com a crônica, apesar do que sugere a autora. Suas regras são específicas e invioláveis, a mais importante sendo o suspense obrigatório ao fim de cada episódio. Os antigos filmes em série eram a realização perfeita do folhetim jornalístico, assim como a telenovela é a forma contemporânea do filme em série. Não é pela serialização que se definem, mas pelas interrupções dramáticas dos episódios.

Inclinada às digressões, a autora recapitula em pormenor as teorias e autores de perto ou de longe relacionados com o seu tema. Ela sabe, por exemplo, que a concepção arcaica de romance “não deve ser confundida com outras formas posteriores do romance moderno”, mas nem por isso quer perder a oportunidade de resumir as idéias do medievalista Paul Zumthor. Seria de esperar que também reexpusesse a doutrina da Escola de Frankfurt, referência canônica até há pouco nos trabalhos universitários. Da Escola de Frankfurt passamos a Umberto Eco e deste para Antônio Gramsci sobre o conceito de popular nas sociedades modernas. Os franceses mais recentes não são tampouco esquecidos, além de tudo o que já se congeminou sobre a natureza e singularidades da novela policial.

Em tudo isso, faltou o essencial e é o fato de Marcos Rey, escritor talentoso e versátil, jamais ter alcançado a estatura de escritor nacional. O que acima de tudo o distingue, observa Sílvia Borelli, “é a pluralidade de atividades”: produtor cultural de múltiplas faces, “escreve romances e literatura infanto-juvenil; faz novelas e minisséries para TV; trabalha em agências de publicidade; colabora na confecção de inúmeros roteiros cinematográficos”, além das crônicas e trabalhos menores. Ele é “universalmente conhecido” em São Paulo, como diria aquele personagem de Lubitsch, mas ainda não foi incluído no elenco das referências indispensáveis.

A verdade é que, levado pela versatilidade do seu talento, ele se dispersou em atividades apressadas e “fáceis”. Encontram-se nos seus livros e em todos eles numerosos trechos de boa literatura, logo diluídos no ácido das letras de carregação. É autor que devia desconfiar da facilidade e seguir as suas inclinações – no sentido da subida, como recomendava o malicioso André Gide.

Fonte:
Jornal A Gazeta do Povo. 3 de fevereiro de 1997.

Imagem = montagem de imagens capturadas da Internet, por Yussef Khalifman
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Arquivado em O Escritor com a Palavra, Sopa de Letras

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