Bárbara Lia (A Escritora em Xeque)

Entrevista concedida a Rodrigues de Souza Leão

RL – Como você se insere na poesia atual?

BL – Como a Gata Borralheira em pleno baile no palácio dos nobres. Não tenho títulos, mestrado, doutorado, prêmios. Mas ousei entrar no grande baile. Só com minha poesia-cora-coralina de vivências, leituras, e vôos por céus e infernos. Poesia plantada na infância, e que brotou com as lágrimas das perdas. A poesia, minha terapia, meu ópio, minha pedra de Sísifo, meu paraíso perdido, meu manto de Penélope. Na verdade, eu chego como uma estrangeira (este é o meu nome) e pode ser que me sinta assim ao adentrar este palco da poesia atual, por ter sido sempre – a estrangeira. Aquela que não se enquadra, a exótica. Ontem reencontrei uma ex-colega do Banco do Brasil. Ela fez a clássica pergunta que a gente faz quando encontra algum ex-bancário: “O que você está fazendo agora?”. Disse que era professora e escrevia poesia, e então ela disse: “Você sempre foi exótica”. Acabo de descobrir nesta semana que sou exótica. Um poeta jovem que leu meus poemas quis saber como eu construía os meus poemas exóticos. Então, sou a estrangeira no baile da literatura. A Gata Borralheira. Exótica, talvez.

RL – Qual a força da imagética nos seus poemas?

BL – Eu cresci em meio às ricas narrativas da minha avó e do meu pai. As lendas da mitologia, as lendas indígenas e as histórias que eram contadas em um tempo em que não existia tevê, em que não existiam livros infantis repletos de gravuras, era preciso usar a imaginação, e eu amo isto, usar a imaginação. Sempre tive esta ligação com um mundo interior rico, onde eu construía meus sonhos. Lembro que passava horas, perdida em pensamentos, que nada mais eram que construções interiores. Livros pensados. Essa memória interior sempre me acompanhou e sempre vivi assim, como escreveu Fernando Pessoa. Uma vida que era vivida e outra que era sonhada. Ler os grandes poetas e escritores que possuem linguagem rica, conhecer a magnífica obra de Jorge Luis Borges foi o complemento necessário para criar esta poesia repleta de cenas & cores. Fernando Koproski disse que meus poemas parecem pinturas.

RL – O que é mais importante no poema: forma ou conteúdo?

BL – Tenho dificuldade com a forma, confesso. Dificuldade de quem começou escrevendo prosa. A forma é importante como estrutura. Mas, penso sempre que o conteúdo é imprescindível. É preciso a fagulha, a poesia dentro desta forma, senão é apenas uma arapuca, como disse Ted Hughes. Li um poema de Ted Hughes em “Cartas de Aniversário”, em que ele coloca a metáfora da arapuca para falar sobre a importância da essência poética. Depois de ter lido um dos primeiros poemas de Sylvia Plath, ele o comparou ao teorema de uma arapuca. Você desvenda o teorema e não encontra nada dentro. Onde está o pássaro azul?

RL – O que sua experiência com a História traz para a sua poesia?

BL – Minha experiência como professora de História é recente. Mas, meu vínculo com a História sempre foi muito forte. Eu sempre me curvei sobre os fatos, e pesquisei o que me interessava, sempre. Dar aulas foi opção depois de começar a escrever, para libertar minha mente dos trabalhos burocráticos que são extenuantes, quis me voltar para algo vinculado ao que eu queria – escrever. Minha prosa é mais influenciada pela História que a poesia, eu creio. Penso em escrever Romances Históricos, como “Boca do Inferno”, de Ana Miranda. Tenho um personagem que pretendo transportar para um romance – Joaquim Nabuco. Li “Minha Formação” em 99, depois disto esta idéia não me abandona. E é um dos meus projetos guardados. Já esboçado inclusive.

Existem discursos a favor da escrita como aprimoramento da linguagem apenas, etc. etc. Sou leiga para entrar nestes debates teóricos. Eu só compreendo a Literatura como uma expressão do seu tempo, por conseqüência, da própria História. E isto é desde a antiguidade – Ilíada e Odisséia. Penso que a poesia tem esta função. Lembro “Dentro da Noite Veloz”, de Ferreira Gullar, a poesia de Thiago de Mello, poemas nascidos no calor de um tempo difícil, poesia vertiginosa. Esta voz contestatória do poeta parece ter desmoronado diante do sufocante momento que vive o mundo, a chamada globalização. Parece que migrou para o rap e o hip-hop esta postura de enfrentamento ao que de errado acontece ao redor. O poeta é o transgressor. O que aponta a terceira via, a terceira margem do rio, sempre foi assim, em qualquer tempo. Ele pode se chocar com os padrões de cada época. Mas, neste choque ele traduz o momento histórico com mais primor e verdade. Devo admitir que raramente isto ressoa na poesia que está sendo escrita agora. Guardei todos os poemas que escrevi em homenagem aos personagens históricos que eu admiro, pois elas não encontraram o espaço que encontram os meus poemas líricos. De qualquer forma, mesmo meu lirismo está vinculado ao que me contém.

RL – Você também é romancista. O que deve ter um romance para que seja seu?

BL – Deve ter aquela fórmula secreta que rapta o leitor para a glória ou castigo.
Gosto das narrativas que fazem um homem totalmente aniquilado – vivendo a total degradação, naquele momento em que ele é subumano, quase verme – conseguir descortinar belezas, mostrar a humanidade pura que há também nos antros ou entre os malditos. Senti isto ao ler Notre-Dame-des-Fleur, de Jean Genet. E nos romances de Camus. O escritor tem que acender o desejo, desejo de ser e estar ali. Quando li “Pergunte ao pó” de John Fante, eu quis ser Camila, quis ser amada como ela foi amada por Arturo Bandini. Acho que só se alcança isto quando a alma do escritor navega a celulose pura. Queria escrever com a beleza instigante e vigorosa com que Fausto Wolff escreveu “À mão esquerda”.

Um romance tem que transpirar realidade, esta é a minha busca, raptar o leitor e acrescentar algo à sua alma. Conseguir isto em ficção é um tremendo desafio. Gosto de escritores refinados, gosto de Borges, Lezama Lima, Hilda Hilst. Pisarei nuvens se um dia escrever algo que se assemelhe a estes monstros da literatura que eu admiro.

Estão sempre à procura de um novo Guimarães Rosa e de uma nova Clarice. Ter que superar o insuperável é difícil. O importante é cada um explorar o seu potencial e contar a sua história. Só o tempo vai dizer quem é o novo Guimarães Rosa, quem é a nova Clarice.

RL – Qual a importância de seu pai na sua formação como poeta?

BL – O que de mais importante ele me ensinou foi o amor pelos livros. Não qualquer livro, mas poesia e literatura. Guardo a imagem dele na cadeira de balanço com um livro nas mãos. Quando ele estava em casa sempre tinha um livro nas mãos. Ele vivia declamando poemas épicos, guardo fragmentos longos na memória. Meu pai morreu no ano em que retomei a escrita, talvez eu tenha suprido a sua ausência com a poesia, não sei. Acho que a vida poética que meu pai levava foi o que me impulsionou a abraçar este caminho. Mais que plantar versos na minha memória, a forma como ele viveu, em encantada liberdade, filosofando, cantando canções de serestas, dizendo poemas e rindo muito. Ele tinha um desapego das coisas materiais que só os poetas têm, ainda que eu resista ao desejo de escrever sua vida, acredito que ele é o personagem mais rico sobre o qual eu poderia, e deveria escrever.

RL – Como anda a poesia paranaense? Há algum poeta novo que admire?

BL – A poesia paranaense ainda sofre a prematura perda de Marcos Prado, Paulo Leminski e de Rollo de Rezende. Uma ausência, uma espécie de orfandade. Esta fase preciosa da poesia paranaense, que surgiu com os poetas Tadeu Wojcichowski, Marcos Prado, Leminski, Alice Ruiz e influenciou a geração do Ademir Assunção, Rodrigo Garcia Lopes e Ricardo Corona e outra mais jovem ainda. Desta geração mais jovem ainda eu admiro muito o Fernando Koproski, o Márcio Davie Claudino e a Stella de Rezende. Desses, apenas o Fernando Koproski já lançou livros. A Stella de Rezende sofreu e sofre ainda a morte de seu único irmão, o poeta Rollo de Rezende e se afastou um pouco de tudo. Ela escreve com a mesma beleza que Rollo escrevia. Poemas curtos, mas belíssimos, pulsantes. Márcio devia sair da cripta e mostrar seu trabalho, Espero que seja em breve. Ele me convocou a ser uma poeta marginal, ele gosta do Fante, do Bukowski, do Henri Miller, seus poemas figuram em antologias de concursos literários apenas. Quando se trata do novo, é claro que eu não conheço tudo o que de novo existe por ai.

RL – Quais são as suas influências?

BL – Dos escritores os que eu mais li – Camus, Borges, Clarice Lispector. Poesia eu leio alucinadamente, ainda assim desconheço muitos poetas contemporâneos e não consigo tempo para ler todos os poetas que desejo. Poesia é algo que leio por puro prazer, diferente dos livros de História. Nunca leio um autor com olhar clínico, com desejo de desvendar a sua escrita, escrever como ele. Os contos magníficos de Borges, estes me influenciaram, mudaram o meu trajeto poético. Quando seus contos me seduziram, eu abri o compartimento onde guardava meus signos, meus sonhos, símbolos, toda a pintura, os tigres, centauros, rosas azuis. Todo o mundo imaginado desde menina, Aleph no porão da memória, talvez. Eu escrevia poemas confessionais, e começaram a se tornar mais líricos, mais ricos, repletos de imagens.

RL – Como é ser lançada pelas edições Kafka?

BL – Para mim é uma honra. Pelo simples fato de que o Fernando Koproski e o Paulo Sandrini colocaram qual seria a filosofia da Kafka Edições Baratas, no dia em que eles me fizeram a proposta. Livros de bolso, a preços acessíveis, mas que tivesse qualidade literária. Eles haviam lido meus poemas nas revistas literárias, e o original do livro de poesias (“Chá para as borboletas”). Foi uma parceria que fluiu, e o livro saiu em um tempo curto, para mim que sou um pouco impaciente foi um processo menos doloroso. Não houve a espera angustiante que o autor tem que enfrentar cada vez que manda um livro para uma editora. Koproski e Sandrini são dois escritores jovens, com muito talento e uma energia, azul, que é uma constante nos poemas do Koproski, e nos meus também. Em entrevista à Gazeta do Povo, Koproski diz que a intenção da Kafka é se transformar em uma cooperativa, como fazem as bandas independentes. Na verdade é uma forma de mostrar a cara, no caso, os poemas.

RL – Você tem poemas com o personagem Leonardo da Vinci. É inegável a importância de Da Vinci para as artes e para vida de hoje. Qual a importância de Da Vinci para a sua poesia e para você como pessoa? O que o Mestre lhe ensinou?

BL – “Dissecar cadáveres/para buscar/a perfeita anatomia” era a forma de Leonardo buscar a perfeição dentro de sua arte. Tarefa difícil, mas é preciso saber que a arte merece isto, a busca da perfeição. Talvez esta seja a lição de Da Vinci. Penso que estes poemas “leonardianos” são frutos do espírito da época – zeitgeist. Todo mundo desvendando Da Vinci neste início de milênio. Nostalgia do belo, talvez. Escrevi estes poemas ao ler uma biografia de Da Vinci. Apaixonei-me pela descrição de sua figura iluminada, imaginei-o com uma toga cor-de-rosa libertando pássaros no mercado de Florença, e senti realmente um desejo enorme de ver o sorriso de Leonardo, pois ele nunca pintou um auto-retrato sorrindo.

Leonardo Da Vinci é um dos gênios da Humanidade. E eu tenho este hábito de escrever sobre aquilo que me apaixona. Escrevi “Deus no orvalho” em uma época de férias em que passei lendo livros de Borges e “O centauro no jardim”, depois de ler o livro do Moacyr Scliar que tem este título. O mais recente poema “Chiar(o)scuro” eu escrevi quando li “La cantidad hechizada” de Lezama Lima, um ensaio que ele escreveu sobre o poeta cubano Zenea, que Lezama dizia ser o poeta do crepúsculo – senti necessidade de pintar o crepúsculo.

RL – O que nunca virará poesia?

BL – O ódio, a barbárie, a prepotência. Não dá para poetizar isto. Mas o que este mal produz, acaba sendo registrado em versos, sim. Li os poemas de Mahmoud Darwich, poeta palestino que vive em Ramallah. A literatura tem este poder, a poesia, fundamentalmente, de falar com beleza da própria tragédia. Mesmo que seja aquele confronto que eu disse há pouco, mesmo que seja uma luta do poeta, uma indignação, um protesto. Por isto eu creio que a poesia está em toda a parte, e se perpetua quando um olhar capta o instante do poema e o registra.

RL – Tem algum mote que a acompanhe pela vida?

BL – “A vida é combate
Que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos
Só pode exaltar…”.
Ouvi tantas vezes a “Canção do Tamoio”, de Gonçalves Dias, que sempre ouço a voz paterna quando as coisas se tornam difíceis. Não com nostalgia ou como quem busca uma âncora, é só como uma lembrança quando as forças ameaçam me abandonar, que a vida só exalta os fortes.

Fonte:
http://www.germinaliteratura.com.br/pcruzadas_abril.htm

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