Andrade Jorge (Poesias Escolhidas)

DESENCANTO

“Entre pedras e solo árido
a flor luta pra sobreviver…”

Enquanto cantas
e pelas ruas encantas,
sigo a correnteza
desse rio promessa de (in) certeza.

Enquanto refugias em si,
silenciosamente abri
a alma expondo-a nua
aos olhos da lua.

Enquanto procuras as verdades
em bocas loucas que soam maldades,
não busco texto,
nem palavra sem contexto.

Enquanto escutas vãs cantigas
de tristes atrizes antigas,
o dia findou o tempo passou
a noite se fez e nosso encanto cessou.

MORTE DA REALIDADE

Quatro velas velam a nua realidade
no fundo espaço frio,
cova do fruto da desilusão,
aonde jaz
no eterno vazio.
A vida traz
noite sem luz,
noite sem lua,
a carpideira contrita chora,
a mão crispada ordenadamente
encena o sinal da cruz,
depois levanta, olha e vai embora,
afinal a vida continua!

E a morte?
Ah! Quem quer saber
da morte?

ENCONTRO

Conheço-Te Há Pouco Tempo
mas parece uma eternidade,
são sonhos deslizando
pelas paredes do coração,
ora acendendo, ora apagando,
a emoção no contraponto da razão;
Conheço-te há pouco tempo
porém parece eternidade,
a efemêra felicidade
ronda, baila com leveza
apresenta-se decidida
para em seguida
mostrar o caminho da incerteza;
Conheço-te há pouco tempo,
todavia parece eternidade,
pela intensidade, densidade,
contido nesse projeto de amor,
arquitetado sem muito desvelo,
motivo de duros dizeres,
seccionando friamente
muitas horas de prazeres,
assim crescemos sabiamente;
Conheço-te há pouco tempo
entretanto parece uma eternidade,
que nos remete na infinita imensidão
mapeando rumos, tateando encantos
driblando a desilusão,
suspiro no vento
e na sua boca busco alento
pra alimentar minh’alma
que estava ao relento.
assim foi nosso encontro,
seres tão diversos
que se encontraram
nos rabiscos dos versos.

ANJO MENINO

Anjo, anjo,
luz estelar
flutua nesse espaço,
corre nesse chão colorido,
encanta o mundo
num segundo
com seu sorriso florido;
Anjo, anjo,
pequeno sol aqui na terra
futuro que se anuncia,
no brilho daqueles olhinhos;
De repente
a realidade diz presente,
a besta apocalíptica, demonios do mal
nefasta visão à sua frente
prenunciam o final,
e o anjo menino
cai vítima da sanha maldita
daqueles amaldiçoados,
a mãe desdita
chora, grita,
o povo agita,
e o céu chorou
quando o anjo voou
mais além…
Pouco tempo pra viver
uma eternidade pra não esquecer.

João Helio menino anjo vitimado por bandidos no Rio de Janeiro.
Andrade Jorge

HIATO

O tempo passa,
remontam momentos,
repassam fatos,
juntam atos,
a vida indo,
inexoravelmente seguindo,
outras surgirão, é verdade,
mas e eu e você?
Ficamos assim constrangidos
da alegria despidos?
O tempo passa,
você surgindo,
a vida indo,
eu seguindo,
aonde vamos?
Assim infelizes,
nos tropeços, nos deslizes.
O tempo passa,
a vida indo,
você seguindo,
eu perseguindo,
juntando atos,
explicando fatos,
como?
Deve haver um hiato
um parêntese,
onde possamos parar
e aprender querer, gostar, amar.

RESOLUÇÃO

Então está resolvido,
o sonho não tem hora
prá ser vivido
nem prá ir embora;
Está explicado,
então
somos resultado da trama
da invisível mão
que faz os roteiros
e os capítulos
do nosso drama.
G G G G G G G G G

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