J. G. de Araujo Jorge (Baú de Trovas I)

” A Trova “

Tão simples, as trovas são
cantigas com que a alma expande
tudo que há no coração
do poeta – um menino grande.
01
Tudo é trova: a flor, a onda,
a nuvem, que passa ao léo…
E a lua… trova redonda
que a noite canta no céu!
02
Cartilhas do coração,
onde o povo se inicia,
os livros de trovas são
um ABC de poesia!
03
A trova, conta de um canto,
poça d’água sobre o chão
– tão pequenina, e entretanto,
reflete toda a amplidão!
04
A trova é como uma conta
de um rosário multicor,
é a cantiga que desponta
do peito de um trovador.
05
Pequeninas e redondas
as trovas são contas, são
como as cantigas das ondas
que se espraiam no coração.
06
Uma quadrinha é uma cova,
onde a poesia é uma flor,
por isso é que numa trova
vou sepultar este amor.
07
Quis tornar-me um trovador
para dizer que ela é minha,
mas tudo em vão, meu amor
não coube numa quadrinha.

” Vida “

01
“Quem canta os males espanta”
Disto, afinal, tenho prova,
pois meu sofrer hoje canta
e se desfaz numa trova.
02
O tal ditado é um conselho,
não te mostres desolado:
– “há sempre um chinelo velho
para um pé doente e cansado…”
03
Na sua inquieta beleza,
sob o mistério de um véu,
sua vida é uma asa presa
que há de soltar-se no céu.
04
Gota d’água transparente
que brilha, cresce… e que cai!
Assim a vida da gente
que num momento se vai…
05
Vida amarga! E na amargura
da vida, eu pensei, querida:
– quem dera a tua doçura
para adoçar minha vida!
06
Pobre alma triste e cativa!
E há quanta gente como eu
a pensar que ainda está viva,
sem saber que já morreu!
07
No carnaval de verdade,
da vida não tive nada…
– Quem dera a felicidade,
nem que fosse mascarada!
08
A vida – mistério vão –
sombra agora, depois luz.
Estranho traço de união
ligando um berço a uma cruz.

“Trovas de Saudades “

01
– “Quem espera desespera….”
– “Quem espera, sempre alcança…”
Ah, meu amor, quem me dera
esperar tendo esperança!
02
Definir a eternidade
é fácil, já a defini:
é o instante de saudade
e eu vivo longe de ti.
03
“Matar saudades”, querida
é uma expressão, simplesmente,
pois, em verdade, na vida,
saudade é que mata a gente
04
Vi teu retrato, – revivo
um velho amor que foi meu…
A saudade é um negativo
de foto que se perdeu…
05
Saudade, – estranha ilusão,
que a solidão recompensa,
presença no coração
maior que a própria presença…
06
Quando estas longe, querida,
na minha angústia sem fim,
saudade é o nome da vida
que morre dentro de mim…
07
A saudade, intimamente,
devagarzinho nos rói;
é uma emoção diferente,
como uma dor que não dói.
08
Nesse jardim de surpresas,
que foi o amor que me deste,
as violetas são tristezas,
minha saudade, um cipreste.
09
No peito dos marinheiros
nasceu , cresceu, emigrou…
Mas nos porões dos “negreiros”
foi que a saudade… chorou!
10
A vida passa e a saudade
passa a ser a vida ausente,
– é uma vaga claridade
de um clarão de antigamente…
11
Partiu com sonhos de glória!
Ficou com a dor e a tristeza!
Eis afinal toda a história
da saudade portuguesa!
12
A saudade é este vazio
que a vida, ao partir, deixou;
rio seco, que foi rio,
porque a água já secou…
13
Sempre fiel, e verdadeira
vigia da nossa dor,
ó saudade, companheira
dos solitários do amor…
14
Misto de pranto e alegria,
sol e chuva, sonho e dor,
a saudade é o sol num dia
de chuva, no nosso amor…
15
Longe o amor, quem pode amar?
Tudo é inquietude, aflição…
A saudade é falta de ar
asfixiando o coração…
16
A saudade me atormenta
e pesa como uma cruz,
– é como a sombra que aumenta
quanto mais se afasta da luz…
17
Persistente e fina dor,
sombra da felicidade,
ânsia e gemido de amor,
lembrança e espera… Saudade.
18
Saudade é fidelidade,
e eis como a imagem se explica:
partem o amor, a amizade,
todos partem… ela fica.
19
A vida passa e a saudade
passa a ser a vida ausente,
– é uma vaga claridade
de um clarão de antigamente…
20
Partiu com sonhos de glória!
Ficou com a dor e a tristeza!
Eis afinal toda a história
da saudade portuguesa!
21
A saudade é este vazio
que a vida, ao partir, deixou;
rio seco, que foi rio,
porque a água já secou…
22
Sempre fiel, e verdadeira
vigia da nossa dor,
ó saudade, companheira
dos solitários do amor…
23
Misto de pranto e alegria,
sol e chuva, sonho e dor,
a saudade é o sol num dia
de chuva, no nosso amor…
24
Longe o amor, quem pode amar?
Tudo é inquietude, aflição…
A saudade é falta de ar
asfixiando o coração…
25
A saudade me atormenta
e pesa como uma cruz,
– é como a sombra que aumenta
quanto mais se afasta da luz…
26
Persistente e fina dor,
sombra da felicidade,
ânsia e gemido de amor,
lembrança e espera… Saudade.
27
Saudade é fidelidade,
e eis como a imagem se explica:
partem o amor, a amizade,
todos partem… ela fica.

“Esperança”

01
– “Crê na vida!” – eis o conselho
da Esperança, ante a desgraça…
A face fria do espelho,
de calor ainda se embaça…
02
A vida – uma onda que avança
e volta – vai-vem do mar…
Quando vai, quanta esperança!
Quanta amargura, ao voltar!
03
No meu carro vou tranqüilo,
tenha a estrada sombra ou luz,
pois bem sei que, ao dirigi-lo,
eu dirijo… Deus conduz…
04
Na vida, de vez em quando,
em meio aos meus desatinos,
percebo Deus me falando
nas brônzeas bocas dos sinos.
05
Poesia, velha poesia
que o tempo não esmaece:
– um sino de Ave-Maria…
um por de sol… uma prece…
06
Os sinos, em badaladas,
são, na hora da Ave-Maria,
taças de bronze emborcadas
que entornam melodia…

” Variados “

01
Velhos mastros, a oscilar,
– nos céus, há estranhos violinos
que vossos arcos divinos
vão tocando sobre o mar!
02
Velhos mastros, verticais
como certos pensamentos,
vossas bandeiras de paz
são almas soltas aos ventos.
03
Quem tais acordes te pôs
nas rodas desengonçadas,
ó velho carro de bois,
sanfoneiro das estradas?
04
Obra prima. Adolescência,
como um sopro de alvorada.
Formas que nascem da essência
da beleza irrevelada.
05
Poesia: flor de mistério
que brota do coração,
e abre as pétalas de etéreo
no céu da imaginação.
06
Matemática esquisita
que das suas sempre faz,
somando dois, multiplica!
e são três, são quatro, ou mais!
07
Se a coisa dada, algum dia,
de nós não fosse tirada,
ainda assim, gente haveria
que nunca daria nada.
08
Ó vento, que em ti resumes
tudo quanto a vida tem:
– tu, que trazes perfumes,
levantas poeira também…
=========

Fonte:
Extraído de J.G. de Araujo Jorge. “Cantiga de Menino Grande”. 1962
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