Urda Alice Klueger (A escritora em Xeque)

Data e local de nascimento:
Blumenau/SC, em 16.02.1952 – numa madrugada de Carnaval.

Como você se define?
Como uma cidadã da América dita Latina. Já não consigo pensar a vida em termos locais ou nacionais. A América é uma grande unidade que está dentro de mim.

Qual o seu próprio livro preferido?
“Cruzeiros do Sul” e “Sambaqui” – ambos romances-históricos.

Você é uma leitora voraz desde criança pequena. Comente um pouco da sua infância e de como começou o seu amor pela leitura.
Eu tive aquela tradicional infância de quem se criou antes da geladeira e da televisão. Meus pais, ambos, eram os primeiros de cada família a terem saído da agricultura, e até hoje sei um bocado a respeito, aprendido na nossa horta, pomar, galinheiro, jardim. Antes de ir para a escola, eu passava todo o tempo possível imaginando histórias. Quando fui para a escola e fui alfabetizada, continuei a imaginá-las, mas passei a lê-las, também. Ainda não parei.

Já li a respeito do medo que você tinha na época da ditadura, bem como as dificuldades de manifestação na sua época de juventude. Fale um pouco sobre isso.
Eu me auto-classifico como fazendo parte da geração do medo. Fui da turma que se criou tendo um medo danado de dar opinião política, de “achar” alguma coisa – e sumir, ser torturada, talvez nunca voltar. É bem difícil a gente vencer tais coisas. Hoje milito em Movimentos Sociais e enfrento bastante situações de perigo, como confrontos com a polícia (noutro dia, numa ocupação do MST em Papanduva/SC, tivemos que enfrentar até o exército brasileiro, hehe!) ou com idéias de outros – e o medo permanece. O que aprendi é que a gente tem que encarar o medo e fazer o que acha que está certo, senão a vida não vale a pena.

Você é de uma família de direita e conservadora. Como eles reagiram quando, digamos assim, você foi para o outro lado?
Minha mãe também foi mudando, conforme as coisas no mundo foram mudando. Meu pai faleceu muito cedo, não chegou a ver tais coisas. Penso que minhas irmãs, até hoje, não se conformam muito com a minha mudança.

Já tendo trabalhado na Telesc, na Caixa, entre outros, em seus períodos de lutas, você acredita que é possível um escritor ter um emprego muito diferente da sua área de atuação (geralmente por questões financeiras, já que é difícil ganhar dinheiro com literatura) e ainda assim ser feliz?
Sou a própria. Abrindo cadernetas de poupança na Caixa Econômica Federal conheci tanta gente e tantas histórias de tanta gente que pude compor um livro como “Cruzeiros do Sul”, por exemplo. Talvez não tivesse aprendido tanto sobre gentes se não tivesse trabalhado lá.

Você sempre acreditou em sua vocação para os livros? Aliás, você acredita em vocação, talento, dom, estas coisas? E para escrever?
Acreditar eu acreditava, desde criança – mas acreditava numa coisa muito menor. Eu sonhava que escreveria um livro que teria 1.000 exemplares e que seria lido em Blumenau. Esta coisa de ser lida em três continentes (às vezes quatro, quando me traduzem para o árabe) nunca tinha passado pela minha cabeça até começar a acontecer. Vocação, talento, dom – é uma discussão braba, pois tem muita gente que discorda completamente. Mas eu acredito que existe. Lá pelos três anos de idade a minha vida já era uma vida de imaginar histórias – e ainda o é! Na adolescência descobri que queria ser arqueóloga – acabei historiadora, envolvida com arqueologia. Como explicar tais gostos tão poderosos?

Quando você decidiu escrever o primeiro livro?
Um pouco depois dos vinte anos. Achei que era tempo de levar a sério aquilo que fazia sem parar. Então sentei, e em pouco mais de um ano escrevi “Verde Vale”.

Você tem rotina para escrever?
Algumas. Gosto muito de escrever em campings. Ou em lugares com natureza. Tenho um lap-top só para tais ocasiões. Também não sei escrever nada tendo tomado algum álcool. Escrevo melhor à noite do que de manhã.

Quais as suas influências literárias?
Muitíssimas! Todas as leituras, tudo na vida, todas as viagens… A vida e a arte são coisas intrinsicamente enoveladas.

Pode citar pelo menos 1 ou 2 livros marcantes na sua vida e dizer o por quê?
“Os frutos da terra”, de Knut Hamsun. “O tempo e o vento”, de Érico Veríssimo. “Os pastores da noite”, de Jorge Amado. Por que? Porque são livros que me falaram profundamente à alma.

Você se considera uma escritora blumenauense, catarinense, brasileira ou sem rótulos?
Eu me considero uma escritora.

Já tendo conhecidos diversos lugares no Brasil e no mundo, você nunca pensou em construir sua vida longe de Blumenau?
Já pensei muito, sim. Antigamente, tal lugar seria Salvador, que eu acho um dos melhores lugares do mundo. Hoje, além de Salvador, penso muito, também, em Cusco e em Quito.

E os hippies em Blumenau nos anos 70? Eles verdadeiramente lhe fascinavam?
Quanto aos hippies – que dizer mais forte que o encanto que eles tinham e deixaram? Minha vida ainda hoje é encantada por aquele tempo, por aqueles acontecimentos. Eu acho que eles não me fascinavam, eles me fascinam até hoje!

Quando se fala em Blumenau, a primeira coisa que muitas pessoas associam é a Oktoberfest. O que você recomenda em sua cidade além desta festa? E em literatura? Quais os escritores da cidade que você gosta?
Complicou. Na verdade, para mim, quando se fala em Blumenau, a primeira coisa que penso não é a Oktoberfest, mas os desalojados das suas casas e terrenos pela Tragédia das Águas de novembro de 2008. Até hoje não se fez uma casinha que fosse para eles, que continuam vivendo da pior forma possível, em abrigos coletivos, apesar das imensas quantidades de dinheiro que vieram para esta cidade para que tal fosse feito. Não é nada fácil viver aqui. Sobre escritores, eu gosto muito do Viegas Fernandes da Costa, do Maicon Tenfen, da Taninha Rodrigues…

E os escritores do sul. Quais os seus preferidos?
Sem dúvida, cá no sul, a grande estrela, para mim, é Érico Veríssimo. Faz pouco tempo que cheguei a ir passar uns dias em Cruz Alta/RS, só para ver de verdade a terra dele, os campos dele. Tenho uma série de crônicas intituladas “Os campos de Érico Veríssimo”. Penso que um dia elas comporão um livro.

O que é ser uma “romancista histórica”, como já vi você se auto-denominar?
É não conseguir trabalhar com a ficção sem um fundo histórico. Na verdade, penso que a grande maioria dos escritores vive dando testemunho da História, testemunho do seu tempo. Ouvi Salim Miguel, faz algum tempo, dizer que não gosta de romances-históricos, quando acabava de lançar um fascinante romance-histórico chamado “Nur na escuridão”! (livro que a gente não deve deixar de ler)

Fale um pouco dos aspectos germânicos e da miscigenação em seus livros.
Um dia, mais de 30 anos atrás, eu escrevi dois livros sobre alemães e seus descendentes. Um sobre a imigração para o Vale do Itajaí (Verde Vale) e outro sobre os descendentes daqueles (No tempo das tangerinas) vivendo o período da segunda guerra mundial – e adquiri o rótulo de escritora que fala sobre alemão. Depois disso já escrevi mais 18 livros sobre os mais variados assuntos, mas não tem o que me faça perder aquele rótulo antigo. Não sou absolutamente germânica – sou uma brasileira de muitas origens (em mim se misturam, no mínimo, seis etnias) – e acho que é este fato de ser tão mestiça que me leva a falar, de vez em quando, nas miscigenações.

Você acha que pra se tornar um grande escritor é necessário trabalho duro, como um “operário da escrita” ou é uma questão de mero talento?
Acho que há que haver as duas coisas. E muita leitura, muita mesmo – pelo menos uns 2.000 livros, quando me perguntam a quantidade. Tem escritor que nunca leu nada, escreve qualquer coisa meio intragável, e depois culpa o mundo pela sua falta de sucesso.

Dois mil livros? Se uma pessoa ler 1 livro por semana ininterruptamente (48 por ano) levará em média então 42 anos para ser um escritor? Isso é possível?
Eu considero nesses 2.000 livros a começar por aqueles livrinhos que a sua mãe leu para você lá n infância (eles são um bocado importantes!). Depois, provavelmente você leu livros dos quais não se deu conta, como um livro inteirinho de bulas de remédio, por exemplo. No meu caso, no comprido período que abrange o final da infância/adolescência/começo da vida adulta, lia algo como um livro por dia – era rata de biblioteca mesmo. Depois, as leituras começam a ficar mais profundas, e a gente demora mais – mas aí já tem um bocado de livro lido na reserva. Para você ter uma idéia, o meu sonho de criança era completar 12 anos, para poder ser sócia da biblioteca pública daqui de Blumenau – pois antes dos 12 anos já lera tudo o que havia na minha casa, na minha escola, nos meus parentes, nos meus vizinhos, e isto incluía as enciclopédias Barsa e Dela Larousse inteiras. Eu digo 2.000, mas isto é um número aleatório, só para dar um corte naquela gente que chega dizendo que quer ser escritor, e a gente pergunta: “E costumas ler?” e a pessoa, cheia de empáfia, declara: “Claro! Já li 12 livros!” – comprendes, não?

Você acha que publicar livros no Brasil é fácil ou difícil?
Para mim, sempre foi fácil.

O que você acha das publicações virtuais? Para vão os livros com inovações como o Kindle?
Ih, eu ainda nem conheço o Kindle – mas imagino o que seja. Acho é que sempre terá que haver um livro (de papel ou de outro jeito) que a gente poderá levar para a cama, para a praia, para a rede… Ler direito na telinha do computador é bastante cansativo.

Hoje você já consegue viver da literatura?
Nem pensar. Vivo do meu salário de aposentada, e de outros trabalhos.

Você gosta mais de escrever crônicas, romances, ensaios, artigos históricos?
O romance-histórico e a crônica, nesta ordem.

Você já escreveu para o Jornal Diário Catarinense. Por que você saiu? É verdade que aconteceu uma briga?
Briga das feias – e que me fez o maior bem. Quando o editor chefe do jornal me contatou para escrever para eles, eu já disse a ele que não daria certo, pois tínhamos pensamentos opostos, eu e o jornal, mas ele disse que o meu pensamento seria respeitado. Então passei a escrever para eles, algo como 80 semanas, penso, e me respeitaram durante tal tempo. Mas há um assunto que os donos do jornal não suportam: que se defenda a Palestina. E foi por aí a coisa: numa das minhas defesas da Palestina, o bicho pegou. A briga foi tão feia, na época, que envolveu gente de 12 países. Claro que fui demitida – mas saí de um pequeno universo de 30.000 leitores para um outro universo que envolve três continentes, às vezes quatro. Foi muito bom.

Quando você se formou? Conte um pouco sobre a sua escolha na faculdade.
Lá na época certa, na juventude, andei fazendo Economia, mas não cheguei a me formar. O sonho era ser arqueóloga, e quando não se pode ser arqueóloga, o caminha seguinte é ser historiadora. Esperei um bocado para tanto, no entanto. Fui fazer minha faculdade de História às vésperas da aposentadoria, quando decidi que era tempo de ser feliz!

O que você vê de mais negativo e positivo nas universidades brasileiras hoje, seja numa faculdade de História ou qualquer outra?
Vejo muito ranço, um ranço danado. Há uma ou outra que escapa daquela coisa de ser mera reprodutora da sociedade vigente e fazer o jogo do Capital e dos poderes estabelecidos – mas a maioria se ajoelha diante dos velhos preconceitos da sociedade e das regras do deus Capital com a maior subserviência. Felizmente, há as exceções.

Você acredita que um escritor precisa de algum diploma em alguma área determinada?
Um escritor precisa ler muito – e escrever.

Como surgiu a editora na sua vida?
Medo de não ter o que fazer quando me aposentasse. Não queria me aposentar e ficar vendo a sessão da tarde.

Como deve proceder quem tem interesse em publicar pela sua editora?
Procurar a Sandrinha no hemisferiosul@san.psi.br e encaminhar para ela um original impresso, para ser passado para o conselho editorial. Só vale romance, conto e cônica. A Hemisfério Sul não publica livros técnicos, poesia, auto-ajuda, etc.

Defina algumas palavras:
Amor – Boooommmm!!!
Sexo – Booommm!!!
Liberdade – Melhor ainda!
Religião – Procuro respeitar todas
Deus – Sou agnóstica
Inteligência – conseguir enxergar adiante do que diz a televisão normal e a revista Veja.
Burrice – das piores: acreditar na revista Veja, por exemplo.
Prosperidade – Estar em harmonia consigo próprio, com o mundo, com a natureza – e com as outras pessoas capaz de estarem assim.
Vida – É muito curta.
Morte – Que pena – poderia demorar mais um pouco.

Qual o sentido da vida pra você?
Vou citar o Che: “Se és capaz de indignar-te diante de qualquer injustiça , esteja onde estiveres, então somos companheiros”.

Como gostaria de morrer?
Gostaria de poder viver uns 800 anos, para dar conta de fazer todas as coisas que queria, principalmente escrever. E morrer rapidinho, sem sofrimento, assim dum infarto, como a minha tia Frieda.

Quais teus sonhos?
Algum dia escrever muito bem. Algum dia ver o mundo sem guerras, sem fome, sem injustiças.

Já usou drogas, inclusive bebidas?
Muito, mas muito mesmo cuba-libre. Só que parei, faz uns dez anos.

Gostaria de deixar alguma mensagem?
Que deixemos de olhar para os nossos próprios umbigos. Que nos inteiremos que estamos cercados por um mundo onde há bilhões de pessoas com fome de comida e de justiça, e de tantas guerras horripilantes, quase sempre criadas pelo deus Capital.

Fonte:
http://www.escritoresdosul.com.br/

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em A escritora em xeque, Contos, Entrevista, Entrevistas, Trovas

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s