Aparecido Raimundo de Souza (A Ceia dos Miseráveis)

“A minha vida se completa em poesia, onde canta a alegria e também chora a minha dor”.
(De Doroni Hilgenberg citado por Wagner em carta ao autor).

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Wagner chegou sorrateiramente na zona mais rica da cidade, entrou por uma ruela cheia de casas, e seguiu em frente, faminto de cansado e querendo dormir o que comer. Qualquer goela abaixo que porcaria que colocasse goela abaixo, mataria, estancaria a sede do apetite aguçado e acalmaria o espírito de corpo extenuado. Mas não tinha uma calça nos fundos do “pf” para entrar num bolso com restaurante a bife a cavalo ou pedir um acebolado de arroz por mais simples que fosse, ou mesmo na padaria do tamanho daquele lanche que contemplava com o semblante constrangedor.

As caras (embora passasse da meia noite) estavam apinhadas de ruas feias, com criaturas sorumbáticas formando uma espécie de quadro de pintor rústico de favela, onde o azul, no invólucro oco do estranho, naufragava, distante, num aquém de fronteiras sem moldura. A realidade não atropelava, ou melhor, existia. Fazia-se presente como um compressor de rolo a asfalto esticando o trator novo. E o estabelecimento, na parte oposta da calçada, plantado de envidraçados, pomposos e cheios de rebusques, bem ali, a sua frente, suspendia, agora, a barriga, roncava os dentes e rangia nervosamente o estômago.

Os olhos verdes da fome, esmaecidos pelo vazio negro de Wagner e desmesuradamente abertos pelo silêncio, gritavam terror numa atitude de indecifrável miséria. Na verdade, choravam copiosamente pelos cotovelos fustigando a dor forte e imensa de verem o malfadado verme vegetar um rapaz asqueroso; de viver, enfim, num degradante reino de Deus como se não fosse filho da desolação.

Coitado do Fubica. Pobre Wagner! Seco, magro, esfarrapado, esquelético, estruturalmente esfaimado e deprimido. Alma interrompida, submissa, mansa, vexada, desprezada e cheia de vontades maltrapilhas. Cicatrizes pela epiderme salpicadas em profusão. Pedaço infeliz sustentando um mundo de chagas adversas, hostis, mesquinhas, repletas de mazelas e incisões incuráveis. À sua dúzia, meia volta de rodas com cabeças pingadas, estendiam pouco caso disfarçado de transeuntes. Não contentes, faziam aparências de suas chacotas. Jogavam risos ao ar. Franqueavam os molares a abertas piadas, onde igualmente bocas escancaradas e lábios fartos de menosprezos e escárnios, vomitavam enxurradas de resquícios. Para aumentar o medonho da frieza, viravam as máscaras pela vergonha, ocultando os avessos do acanhamento. E João simplório, de modos que ninguém bebia com ímpetos e sonhava o resto dos lábios abatidos na coca-cola bem vestida que escorria do indivíduo de terno preto; devorava a fatia de moça que ensaiava levar a pizza na ponta de um aspirador como um garfo maluco e descontrolado, sugava, como um self service esfaimado a imensa boca com mil e uma guloseimas espalhadas pelo imenso balcão.

Em Wagner, todavia, passava ao largo a valentia dos ousados. A coragem destemida dos homens com H maiúsculo, igualmente voava longe. Faltava, na força, o tigre dos decididos, para saltar como um sangue em busca da presa; o destemor dos loucos para meter as portas num dos pés de acesso ao enorme salão, ou das janelas que o arejavam e servir-se abundantemente até entulhar o estômago vazio e entediar os cantos do organismo. Sempre nesses trágicos de abatimento, pingares de desânimo molhavam as roupas maltrapilhas, encabulava, vexava, constrangia Wagner, com inclinações para a extenuação e o esmorecimento.

Vinha, a tempo, a mente dos venturosos dias de magnificência. Recordava trechos de sua suntuosa aventurança. Cidadão de pele, ostentava nas posses de orgulhoso o respeitável empresário e senhor absoluto de uma centena de bens materiais. Carros com mansões, piscinas do ano, apartamentos de mar a poucas quadras de cobertura. Mulheres movidas a sexo e dinheiro, a dar com frases bonitas.

No entanto, tudo pertencia ao passado. Chorar sobre os sapatos seria regressar pisando no leite escorregadio e pegajoso por estarem nus e calejados de azedo. Um misto de fisionomia toldou com frustração deteriorada seu ontem tão presente, mas ele soube conter o ímpeto da garganta que apertava intransigente. Determinara a si não mais sofrer conflitos e jamais, fosse a que motivo fosse, curvar-se, vencido, a pendências enterradas.

Todavia, o que tomar? Que atitude fazer? Meter os costados certeiros na frente de uma bala em movimento? Jogar-se de um trem diante de um prédio sem cabeça? Pular de uma bacia no cume de frutos comestíveis ou por sobre uma árvore de água fervente? Merda! Não deixava de ser a vontade a falta desanimadora, para escolher, com altivez, um final louvável e decente.

Naquela iminência, qualquer procedimento parecia tão improvável como subir de matéria plástica pingenteado num aviaozinho aos céus. Enquanto matutava o que seria melhor para sua vida mesquinha, Wagner propôs dar próprio de si cabo. Não propriamente morrer, mas a ensaiar partir desse mundo cão dando uma ligeira espiada no outro lado, experimentando incertos postes, escorregando aqui e acolá, segurando nas voltas e dando em carros, tropeções. Uma verdadeira selva de motores e sons de bestas pré-históricas resfolegavam festas como buzinas ensurdecedoras.

Logo adiante, entretanto, avistou uma encruzilhada. Nesse encontro de artérias deparou, surpreso, com uma betesga. Sorriu com a cara cheia de dentes e os olhos de fome vazia. Dirigiu-se para lá (esse assunto de morrer, ficaria para depois) levando um transito medonho para driblar a eternidade nas costas. Ao galgar os músculos fronteiriços, o que enxergou fizeram as calçadas irrequietas por onde passou darem assombros de urros.

Detritos de mesas postas pelo chão espalhado, perdiam-se em fartura, com alimentos jogados ao leu. A Toalha de Cimento forrando o conforto, transmitia a sensação de doce regalo. Esparramados, a bel-prazer, guimbas de batons confundiam-se com finais de cigarros sujos, deixados por carreiras partidas com alguém a passos ligeiros. Igualmente, garrafas de latas amassadas, cervejas de refrigerantes quentes com sobras consideráveis. Tudo ali. Ao alcance. Ao seu poder. Pães, pedaços de bolo, tortas e sanduíches variados. Muita pipoca. Também, taças de charutos, champanhes acesas e velas de cores diversificadas.

Wagner olhou para o Altíssimo – olhou compridamente – e deu graças ao escuro do firmamento numa prece anã, pelo fadário de topar com uma sorte tremenda de delicias largadas ao alcance dos dentes emburacados, explodindo caries aterradoras. Um leque lancinante de alegrias e contentamentos desembrulhou-se num grito de aprazimento e agrados, enquanto o degustar lamuriante e febril suplicava o que mandar contrariado para a pança correndo.

Finalmente, daria cabo daquela semana maldita (talvez mais) de privações horrendas e em completa abstinência. Necessitava, pois, aproximar-se mais, se abeirar ligeiro, tomar posse definitiva de tudo o que lhe caíra às mãos como uma dádiva, e fartar o organismo debilitado.

Por certo, em cada latinha, em cada prato, nascia, sorrateira, a esperança venturosa, ajudando, como a Fênix, a manter o equilíbrio das cinzas e fazer com que o pé humano continuasse a manter-se fora do saco mitológico.

Em face desse abastado festim, Wagner, o iluminado (sentia-se como um escolhido de Deus), penteou a camisa, empertigou os cabelos. Alisou ligeiramente a calça igual a um rei mocanbeiro na sua rota trapagem de indigente.

Quem o visse, naquela azáfama, diria que estariam reunidos num banquete os amigos das horas de regozijo. Os inseparáveis das farras peladas nos clubes da alta sociedade e das moçoilas e mocetonas de sábado, que juravam por um dólar furado fidelidades de mentira e amor com gosto de eterno. O fidalgo, entretanto, estava só. Completamente ao arrepio do acaso. Seus parceiros não tomariam parte em nada. Somente a solidão pungente, a noite enfadonha, a lua circunspecta e o vento encerrado nas limitações de uma amenidade sufocante.

De repente reunidos e perfilados, chegados, quem sabe de guetos e subterrâneos longínquos, centenas de personagens os mais aterradores brotavam de buracos horríveis disputando um lugarzinho. Gatos, cachorros, ratos, baratas, parasitas e lombrigas imundas formavam uma espantosa família, evidentemente desigual, mas uma família. Wagner sorriu para esses novos camaradas ao tempo que abria os braços como anfitrião de primeira linha.

– “Sejam bem vindos. Fiquem à vontade!…”

Sentou a tranqüilidade perto de um velho tambor de lixo, e sem mais delongas serviu-se calado, meticuloso. Os camundongos o imitavam nos movimentos mais requintados. Os felídios, indiferentes, assustavam-se com os vôos curtos dos ortópteros. Uma leve, inervante e ávida chuva de pernilongos esperava, com paciência de mosquito, a oportunidade de sugar os braços daquele mendigo alheio e emplumado às coisas que aconteciam a sua volta. Vencido pelo destino, Wagner naquele páreo transitório queria só estancar, estancar, estancar. Comer, na verdade, a gula apertada e irritante que o definhava pouco a pouco, gradativamente, como doença incurável e maligna.

Fonte:
Colaboração do autor.

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