Arquivo do mês: maio 2010

Silviah Carvalho (Sonoridade Poética)

VENTO DA MUDANÇA

Sinto o vento da mudança em meu rosto,
uma troca de pele fora de tempo,
sendo o vento a trazer o perfume desconhecido,
tornando as águas dentro de mim em lamento.

Como se eu pudesse controlar as estações,
misturo lugar e tempo, algo que não entendo…
acima do alcance da minha mente, da minha visão
mas que faz pulsar vorazmente meu coração.

Inquietude vã, pois o vento sopra onde quer,
e eu só diminuo a força do lume,
(querendo na verdade extingui-lo), move o meu
ser em discórdia com tempo, não remo contra a maré.

Aceito de bom grado a solidão… Novamente (!)
companheira e amiga da minha fé
dou a carta de alforria ao amor, porém, tristemente.

Peço que vá, é livre! leve seu amor e não lamente,
vives-te em mim o tempo necessário,
para não ser esquecido, infelizmente.

Deixe o frescor deste vento que me muda,
amadurecer dentro de mim a sua ausência,
sem lágrimas nem retorno… E sem clemência.

AS MÃOS E O FRUTO

Como olhar numa tela uma paisagem, ver-se dentro dela,
Fazer dela tua morada, ali tudo poderá acontecer,
Seremos marionetes na sua mão… Até quando!
O fruto maduro caiu da árvore, esmagou-se ao chão,
Quem se importa? O poder te enaltece,
Tens mais que uma vida, a minha. Quantas mais te fartarão?

Era só uma imitação, não era para vê-lo, nem amá-lo,
Nem confundi-lo com um menino? Sua fome era grande,
Quem poderia contê-lo? Alimentou-a, hoje ela vive morta!
As águas passam o rio não! A cor dos olhos não muda,
No lavar de nossas lágrimas. É tempo de recomeçar,
Seguir novo rumo. Simplesmente, muda seu destino.

Não acredite em seus sonhos, melhor mudar de plano,
Assim pusestes um fim. Temor? Talvez, pensava que era
Só um sonho de menina, mais um sonho… Outra menina!
Não era! É amor verdadeiro, Você se entristece ao vê-la de
Novo vivendo sem vida? Não deixe que eu creia no que penso,
Pois penso que tua verdade, não é ponto de partida.

Vem a tempestade, o vento sopra forte,
O Carvalho, porém, aprofunda suas raízes no chão,
Um fato. Tome como lição, tire proveito disto, finca tuas raízes
Na realidade, faz nela morada. Deixe de construir castelos na areia,
Pois, ainda há quem crer em contos de fadas.

Sou um carvalho, mas não tenho a força dele,
Sou só um galho agora preso ao seu coração,
Planta-me, deixe que eu aprofunde minhas raízes,
São raízes de amor sincero que não terminam nunca,
Ainda que caia o tronco, elas ficam numa eterna espera.

Será que as chuvas do amor sobre elas cairão, regando-as
Para que se vistam na primavera? Será que deixará que
Eu morra aos teus pés, será que sua estiagem matará seu coração?
Eu pensei que houvesse sentimento, que houvesse verdade nessa ilusão.
…Mas agora, você é o fruto, eu as mãos.

QUEM DERA…

Ah, alma, pode ser que você chegue às margens do pior
antes de ser libertada e, em uma síncope não voltes mais,
… Quem dera dominar o tempo e as estações!
contar meus dias, mudar de pele, dominar minhas emoções.

Quem dera poder voltar atrás, fazer outras escolhas, consertar
meus erros, eu escolheria não amar mais. Não é o amor que me
assusta e, sim, as conseqüências do amar desesperadamente…
Um amor plenamente possível morre, inconseqüentemente.

Não posso dizer que haja chance, ou que a vida faz sentido,
pois o fardo do sofrimento parece uma pedra pendurada
em meu pescoço, é ela que faz o peso necessário para conservar
no fundo o meu querer…talvez assim nunca mais me faça sofrer.

Na tempestade vi o quanto era frágil minha embarcação,
observei a Águia quando rasgava as alturas e não se inquietava
a respeito de atravessar o rio, enquanto que, o só imaginar, dentro
de mim desfalece o coração… Esvazio-me nesta triste e fria canção.

Descubro que nada é em vão, mas que tudo é propicio a mim,
o sofrimento me põe à parte na vida como um decreto de morte,
ausente de tudo que me faz bem, abatida, me entrego resignada,
esperando as palavras certas para, enfim, ser libertada.

Fonte:
http://www.silviah.net/

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A. A. de Assis (A Língua da Gente) Parte 11

10. Um régulo na panturrilha

Não se assuste se ouvir alguém dizer que fulano tem um régulo na panturrilha. Significará apenas que o tal fulano tem um reizinho na barriguinha. Se os diminutivos em português fossem todos marcados por inho ou zinho, seria moleza (barquinho, barzinho). O problema é que muitos deles vieram prontos do latim, mantendo a forma erudita; outros chegaram até nós via espanhol, francês, italiano, e alguns nem parecem diminutivos. Por exemplo: é fácil entender que caixinha é diminutivo de caixa, porém nem todos percebem de imediato que cápsula (do latim capsa = caixa) é a mesma coisa, isto é, uma caixinha.

Assim também acontece com régulo, diminutivo erudito de rei, e com panturrilha, palavra que pedimos emprestada ao espanhol e que em geral é empregada no sentido de barriga da perna (daí que os jogadores de futebol frequentemente se queixam de “contratura na panturrilha”). A palavra tem origem no latim pantex (= barriga), que virou panza em espanhol e pança em português. De pantex temos também os verbos empanturrar e empanzinar.

Pode ser útil anotar outros diminutivos igualmente interessantes: asterisco (diminutivo do lat. aster = astro, estrela – repare que o asterisco [*] é uma estrelinha); botija (do lat. buttis = pote, tonel); caniço (de cana, cano); cassete (do fr. casse = caixa – cassete é a caixinha onde se guarda a fita); castanhola (de castanha); castelo (do lat. castrum = fortaleza); cedilha (diminutivo da letra grega zeta [z] – o sinal que colocamos embaixo da letra ç era originalmente um pequeno z); crepúsculo (do lat. crepus = escuro); cubículo (de cubo); donzela (de dona); edícula (do lat. aedes = casa); espátula (de espada); fascículo (do lat. fascis = feixe – de varas, de folhas de papel etc.); flâmula (do lat. flama = chama); flóculo (de floco); flósculo, florículo (de flor); folíolo (de folha); goela (do lat. gula = esôfago); gorjeta (de gorja = garganta); grânulo (de grão); janela (do lat. janua = entrada, porta); lagartixa (de lagarto); lamparina (de lâmpada); luneta (do lat. luna = lua); maçaneta (de maçã – as maçanetas antigas tinham, quase todas, a forma de uma pequena maçã); mantilha (de manta); moela (provavelmente de mo, moinho); molécula (do lat. moles = massa, corpo); músculo (do lat. mus, muris = rato – observe que o bíceps tem a forma de um ratinho); neblina (do lat. nebula = névoa); nódulo (do lat. nodus = nó); opúsculo (do lat. opus = obra); ósculo = beijo (do lat. os, oris = boca – para beijar a pessoa contrai os lábios, faz uma “boquinha”); palito (do lat. palus = pau); parcela, partícula (de parte); pastilha (de pasta); película (de pele); pipeta (de pipa); radícula (do lat. radix, radicis = raiz); roseta (de rosa); sarjeta (de sarja = escoadouro de águas); Venezuela (de Veneza – o nome foi dado pelos colonizadores ao observarem o grande número de cabanas construídas sobre estacas nas águas do lago Maracaibo, lembrando uma pequena Veneza); versículo (de verso); vesícula (do lat. vesica = bexiga); vírgula (do lat. virga = vara – a vírgula tem a forma de uma varinha).
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Fonte:
A. A. de Assis. A Língua da Gente. Maringá: Edição do Autor, 2010

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Lucia Rodrigues (O Ócio e a Palavra)

Lá estava eu ociosa, o físico, porque serviço braçal tinha, e muito, mas quando tem algo me incomodando fico sem ação e o lado direito do cérebro trabalha sem parar, pensando sobre os acontecimentos da semana que se finda. Me vi questionando sobre o conceito de ótimo, bom, regular e ruim, aplicado às pessoas. Por exemplo, um educador só pode ser bom ou ruim. O conceito ótimo e regular não se mede. Afinal, o que é ser ótimo em algo? O ótimo é um bom melhorado, quanto? O regular é o medíocre, pois significa que o nominado não tem capacidade nem para ser ruim, que é o extremo do bom. O bom nos preenche até fisicamente, pois enchemos e esvaziamos nosso pulmão para pronunciar esse adjetivo de qualidade, lembrando que o ruim só existe devido a inveja pelo bom. Portanto, só podemos classificar (?) alguém como bom ou ruim! Outro espaço que ocupou meu ócio foi que pela milionésima vez observei duas pessoas trabalhando com o mesmo assunto, com diferenças de local e platéia, uma recebeu todo aplauso da crítica por ser famosa e a outra ficou na obscuridade ou até no esquecimento, pois alunos nem sempre percebem o jogo de palavras. O que difere uma pessoa da outra sair do anonimato e virar uma celebridade? Seria o destino? Sorte? Iluminada? Por quem? Da mesma maneira, vejo colegas que precisam lutar muito para publicar seus manuscritos ou outra expressão de arte, e nem sempre conseguem patrocínio. Será que tem a ver com nosso país que não valoriza a cultura, ou não é um bom investimento? Realmente o ócio é a oficina do demo, porque bons pensamentos não são fabricados nela, e o que ficaram são perguntas sem respostas. Só me resta a resignação, coisa de santa, o que não sou! Vou à luta agora! Fui!

Fonte:
http://www.osabordamaturidade.com/2010/05/as-palavras.html

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Astolfo Lima Sandy (Estante de Livros)

Astolfo Lima Sandy é autor do livro Mão de Martelo e outros contos (Fortaleza: Programas Editoriais Casa de José de Alencar/Coleção Alagadiço Novo – Imprensa Universitária da Universidade Federal do Ceará, 1998). Participou do Almanaque do conto cearense (Recife: Ed. Bagaço, 1997), da Antologia do Conto Nordestino ano 2000 (Recife: Ed. Micro, 2000) e da revista Caos Portátil: um almanaque de contos (Fortaleza: Letra & Música, 2007). Em 2002 recebeu o Prêmio da Biblioteca Nacional para escritores com obra em fase de conclusão, com o livro A Grande Fábrica de Brinquedos, inédito em 2007. Tem contos em suplementos literários e sites na internet. Vencedor de vários prêmios literários. Concluiu em 2007 o romance Exuberante pós-nada (vencedor do Edital de Literatura da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará/SECULT, em 2007).

Constituído de 23 narrativas curtas, Mão de Martelo e outros contos apresenta um painel de personagens e situações bastante variados, quase sempre localizados na zona urbana e num tempo histórico indefinido. A maioria das histórias se desenvolve no curto espaço de uma sala, de uma casa pequena. Em outras, o drama deixa estes espaços para alcançar a rua, como em “Bandeira Dois”. O protagonista se desloca de casa, onde promove uma baderna, para a rua, um táxi, e pratica um assalto. Assim, os demais personagens (como num filme) desaparecem do foco narrativo. Nesta linha (de denúncia da miséria, dos problemas sociais) se situa também “Os meninos”. A técnica utilizada neste, no entanto, é diversa daquele: toda a ação se desenrola na rua. Aliás, o conflito é narrado num só parágrafo, como se o narrador portasse uma câmera e focasse os personagens, um grupo de meninos de rua, em tempo restrito a uma ação rápida de assalto. Semelhante a este é “O grande salto”. Mais uma vez a rua como palco. As únicas falas são do protagonista – o palhaço, o contorcionista, sem nome – que tenta ganhar uns trocados dos transeuntes à custa de piruetas, saltos, malabarismos.

Os personagens de Astolfo são quase sempre disformes, tortos, grotescos, como caricaturas. O político descrito pelo narrador em “Tiro Certeiro” é um exemplo disso: “Elemento pernóstico, com seu crânio disforme afinando drasticamente para baixo, e que, de perfil, lembrou-me um cavalo com nariz de Pinóquio.” O mesmo ocorre quando o protagonista de “Mão-de-martelo” se descreve: “silhueta longa, grave inclinação para a esquerda, enquanto enorme nariz emoldura-me a face descorada.” Sandoval Balheiros, de “Teoria do equilibrista”, é descrito como semelhante a um faquir. Os “seios flácidos da índia velha”, da mulher do protagonista de “Bandeira dois”, aparecem algumas vezes, como a pintar a miséria em que viviam os personagens. A pintura distorcida de alguns personagens se mostra também em “O Debate”, no qual “senhores sisudos” debatem assunto da mais alta importância: a Constituição do País. Um, “muito magro, ares de intelectual”; outro, “meio estrábico”; um terceiro, “cara de pouca inteligência”. Além dos debatedores, personagens menores e também sem nome surgem e desaparecem como simples figurantes exóticos: “uma mulher muito loura enfeitada de batom e joias”, “um palhaço tomando coca-cola”, “uma garota sardenta”, “uma senhora gorda”.

O uso contínuo da narração, entremeada de breves diálogos e descrições físicas e psicológicas de personagens, dá vigor à linguagem dos contos de Astolfo. Em “Luz e Sombras” os movimentos narrados apresentam a linguagem do cinema, na visão de um homem paralisado, à espera de um ataque.

O ponto de vista nas narrativas de Astolfo é ora na primeira pessoa, ora na terceira. No conto que dá título ao livro o narrador é o protagonista, que vai se pintando ao longo da história: como adquiriu o codinome, como participa das rodas de samba, como se operou nele a transformação interior (o aperfeiçoamento de “alguns defeitos morais”, como a mentira, a hipocrisia, a inveja, o sadismo). A descrição que faz de si mesmo se mostra nos moldes do monólogo interior. Esta e outras descrições breves se apresentam dentro da narração, ausente de diálogos. Somente uma personagem menor surge de inopino, apenas mencionada – a mãe –, que não passa de simples adereço, complemento necessário à narração. No centro da trama está o narrador, o protagonista perfeito, porque personagem único. O mesmo se dá em “Barriga de Pano”. O personagem fantasiado de Papai Noel narra a sua breve história de aposentado em busca de uns trocados, até furtar um par de tênis e ser conduzido à polícia. Em “Tiro Certeiro” Astolfo alcança ponto mais alto, em relação aos dois primeiros contos, na maneira de narrar. Um homem indignado com a realidade se faz justiceiro em sua própria casa, como se o mundo se resumisse a uma tela de televisão. Ao se servir de expressões como “acionar o gatilho”, “mirar o distintivo prateado”, “atingir indiscriminadamente quem aparecesse à tela”, dá a ideia de uso de arma de fogo. Entretanto, ao correr da história, o leitor perceberá que o jogo verbal do contista conduz a uma leitura mais larga, mais funda, mais vertical. O protagonista “elimina” mentalmente os políticos que aparecem na tela, como num desabafo. Seria um louco, um esquizofrênico a agir e falar, como se os “personagens” da televisão, as figuras em movimento na tela fossem reais. O personagem lembra aqueles que veem nos personagens de novelas televisivas pessoas de carne e osso.

Poucas são as narrativas em que o ponto de vista é de narrador onisciente, como “Pequena História de Velhos”. Acompanham a narração a nomeação de móveis de uma casa: guarda-roupa, gancho da rede, lençóis, cadeiras, móveis do quarto, oratório. E nada de diálogo: “Há algum tempo, o ancião não discute mais. Perdeu o derradeiro fio de voz.” Em outro conto, “Teoria do equilibrista”, o foco narrativo se dá de duas maneiras, na terceira e na primeira pessoa. Naquela, a narração sai da pena ou da boca do escritor/narrador onisciente; nesta, constituída de falas, com travessão, o protagonista (o pai) se dirige a outro personagem (o filho), e este, em falas mais breves, ora contesta as lições do pai, ora lhe faz perguntas. No interior das falas mais longas, aqui e ali o narrador toma a palavra, como para quebrar a monotonia do diálogo. Semelhante a este conto, na forma, é “O Batom”, no qual médico e paciente conversam. A narração de pequenos incidentes é mero complemento da história lida nas falas dos personagens. Em outros contos se dá exatamente o inverso: a narração, mais longa, é intercalada de breves diálogos.

Em “O encontro” tudo gira em torno do tempo ou da psicologia do tempo. A imagem que o leitor vai formando é a de um homem desiludido com o tempo: “Até a comemoração dos meus aniversários esqueci.” Em “A carta”, desde os primeiros momentos o leitor é conduzido a ver na história em desenvolvimento a presença do ciúme: “o (envelope) farejei como se buscasse vestígios de um perfume.” Mais adiante outra pitada de ciúme: “Ela não tardaria em retornar de um tal curso que agora frequenta.” No final, o narrador confessa: “Antes que o demônio do ciúme envenenasse de vez minha alma” (…).

O choque entre personagens nem sempre significa conflito nos contos de Mão de Martelo, embora o leitor se prepare para um desenlace trágico. Leia-se “Escambo”, que pode ser visto como um conto fantástico. O narrador, cidadão urbano, depara um “desses povoados perdidos no meio do sertão” e, para espanto seu, encontra uma sociedade diferente da sua, espécie de sociedade alternativa, onde o escambo substituiu o comércio normal e, por consequência, tudo se transformou: a política, a religião, a segurança pública, a prática da educação e da saúde etc. Constituído de breves narrações e longo diálogo, esse conto pode ser visto como uma sátira. Essa singularidade pode ser encontrada também em “Meu tio Ambrósio e os poetas”, assim como em “Confissão”.

Ao término da leitura de Mão de martelo e outros contos, percebe-se em Astolfo Lima Sandy um contista “sisudo”, embora não lhe falte humor, aliado ao sarcasmo, dedicado a temas fundamentais da tragédia humana e voltado para a elaboração de narrativas em que as mais variadas técnicas se mesclem, dando origem a pequenas histórias simples, porém nada banais, e sem muitas arestas a serem aparadas.

Fontes:
Nilto Maciel. Contistas do Ceará: D’A Quinzena ao Caos Portátil. Fortaleza: Imprence, 2008. p. 277.

Imagem de Giuseppe Maria Crespi.

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Astolfo Lima Sandy (Casinha de Bonecas)

Eu sabia do esconderijo de Bebel, mas fingi que não. Mamãe, logo que recolheu a maninha, trancou-se no quarto com papai e lhe contou tudo. O velho saiu de lá furioso, deu socos na mesa e depois me chamou, para investigar se eu ocultava alguma coisa. Apertou meu pulso, me olhou longamente e exigiu que lhe contasse toda a verdade. Eu disse sem pestanejar que não sabia de nada, puxei meu braço e fugi.

Agi assim para proteger minha irmã. Bebel está na casa dos trinta, porém sua cabecinha é de uma criança. Ultimamente, sempre que o dia amanhece, ela corre com seu passo bambo, se mete no vestido branco de mamãe e fica na janela olhando a rua. Quando sumiu só conseguiram localizar a danadinha tarde da noite. Vinha suja e descabelada. Um vendedor de flores foi quem a viu no casarão abandonado, brincando com bonecas.

Meu pai é violento e não perdoaria se descobrisse meus segredos. Ele ainda não se livrou da mania de julgar que somos todas estúpidas. Eu, por exemplo, tenho doze anos e penso como adulta. Bebel é o contrário, mas nos damos muito bem. Aprendo com ela certas coisas que só mesmo uma pessoa de mais idade pode ensinar, e ela, comigo, tudo aquilo que mamãe não quer que a irmãzinha entenda. Acho que a gente se completa.

Os olhos de Bebel brilham iguais aos meus, quando estamos as duas em frente à TV e assistimos às cenas mais picantes de uma novela. Ela também fica trêmula ao deslizar a mão entre as pernas, deixando escorrer uma baba grossa pelo canto da boca. A única diferença é que sei me controlar: corro para o quarto, apago a luz e permaneço debaixo dos lençóis imaginando sonhos que papai nem desconfia.

Bebel ainda é meio tola em certas coisas. Nem sabe falar direito. Pronuncia apenas uns grunhidos que só eu sou capaz de compreender, porque aprendi a ler em seus olhos os desejos e desenganos; separar no tom desses gemidos os espantos e as alegrias. Ela confia em mim como se eu fosse a sua própria cabeça. Não larga do meu pé. O tempo todo atrás: “Dá, dá, dá…”

Conduzo Bebel diariamente até o sótão, abro o baú que só eu sei onde se esconde a chave e deixo que a mana remexa em tudo. Fico olhando enquanto ela se veste de branco diante do espelho quebrado, passa gel nos cabelos e pinta os lábios de batom. Adoro quando ela abre aquele sorriso inocente e tenta calçar os saltos altos que mamãe não usa mais. Gosto de ver Bebel caminhar com seu passo torto, cair, rolar pelo chão até compreender que precisa usar as próprias pernas. Quem não me conhece é de pensar que eu não presto. Mas se engana. A nossa amizade fica melhor assim. Bebel adora que seja assim. Às vezes ela passa a mão pesada sobre meus cabelos e me beija a face com seus lábios pegajosos.

Acho bárbaro ver Bebel se debruçar na janela, para aguardar que o moço da casa em frente atravesse a rua. Toda vez que isso acontece ela bate palmas com aflição, rosna feito uma gata em cima do telhado e deixa escapar mais saliva pelo canto da boca. Se ele acena para nós, minha irmã fica agitadíssima, coça a cabeça sem parar e repete muitas vezes a mesma lengalenga: “Dá, dá, dá…” Uma vez esse rapaz piscou um olho para nós e ficou na porta de sua casa, acenando. Acho que mamãe percebeu, porque logo nos chamou e repreendeu só a mim. Disse que o moço tinha débitos com a justiça e que era bem provável que usasse drogas; achava melhor não darmos cabimentos a ele. Ah, mamãe, mamãe! Sempre dependente do papai. Até o seu modo de falar, agora, é uma cópia perfeita daquilo que ele costuma dizer. Reparando melhor, até a cara dos dois está parecida. Também não é de se admirar: vivem no maior amasso. Coisa mais ridícula, meu Deus, um casal de velhos namorando! Ela pensa que eu não sei o que fazem quando finjo que vou para o colégio e fico trancada no sótão com Bebel; que não ouço seus gemidos.

Mas, no fundo, penso que mamãe só falou essas coisas todas do nosso vizinho porque não gosta que eu desperte em Bebel aquilo que julga prejudicial para uma mente despreparada. Entende que é perversidade eu alimentar certos delírios da maninha. Faço que escuto, mas ajo mesmo é de acordo com o que penso. É muito legal ver Bebel se sentindo mulher, vestir a calcinha pelo avesso, passar blush nas sobrancelhas, tudo de uma forma muito natural. Vibro ainda mais quando o rapaz de quem já falei olha diretamente para mim e sorri. Acho lindo o seu olhar sonhador, daí que detesto quando teima em colocar aqueles óculos enormes, escuros, sem graça nenhuma. Ele tem mais que a idade de nós duas juntas, mas é um homem muito bom. Há um tempo atrás ele disse que, se fosse do nosso interesse, a gente podia brincar de bonecas em sua casa. Alertou sobre o casarão desabitado, que era muito perigoso, e pediu apenas que eu não comentasse o assunto com mais ninguém.

Topei na hora a proposta porque vi que era ótimo nós termos mais um participante nessas distrações. Meu único medo é de que descubram lá em casa o novo esconderijo e venham brigar com o nosso amigo. Papai – como é de costume, aliás – anda cada vez mais bravo. Ontem caminhava de um lado para outro como se procurasse alguma coisa; cochichou pelos cantos com mamãe e depois o encontrei calibrando a velha espingarda de caça.

Também ando bastante ansiosa nesses últimos dias. Agora, quando as brincadeiras acontecem, eu sou sempre a filha e Bebel é a mãe. Do mesmo jeito que se faz numa casinha de bonecas, com a diferença de que, na nossa, as pessoas se mexem de verdade e todas têm alma. O moço pega Bebel pelo braço e seguem até o quarto dele. Tudo como na vida real. Os dois caem na cama, se cobrem com o lençol, enquanto eu fico na sala vendo um filme na TV e comendo pipocas. Depois ele vem, me põe no colo, acaricia minha nuca e me deixa toda arrepiada. Ele garantiu que hoje iremos trocar os papéis: Bebel será a filha…

Fontes:
Nilto Maciel e Soares Feitosa. Jornal do Conto.

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Astolfo Lima Sandy (1948)

Astolfo Lima Sandy, natural de Sobral (1948), fez sua estréia em 1998 com o livro Mão de Martelo e Outros Contos, pela UFC.

Em 2002 ganhou o Prêmio da Biblioteca Nacional para escritores com obra em fase de conclusão, com o livro A Grande Fábrica de Brinquedos.

Participou do JORNAL de Contos Cearenses (Ed. Bagaço, Recife); da Antologia do Conto Nordestino – Ano 2000 (Ed. Micro, Recife);

Ganhou alguns Prêmios Literários; tem inéditos dois livros de contos, um de novelas.

Fonte:
Nilto Maciel e Soares Feitosa. Jornal do Conto.

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Trova 148 – Antonio Manoel Abreu Sardenberg (São Fidélis/RJ)

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29 de maio de 2010 · 11:07