Aparecido Raimundo da Souza (Conversa de cavalos)

quadro de David Moraes (Cavalos)
No enorme e luxuoso salão da estrebaria daquele SPA exclusivo para cavalos de fino trato, onde foram deixados, por seus donos, para banho, troca de ferraduras e embelezamento dos pêlos, enquanto esperavam a vez, para regressarem as suas fazendas, dois vistosos quadrúpedes entabulam conversa:

– Desculpe. Ia passando. Conheço o prezado de algum lugar?
– Talvez…
– Como é seu nome?
– Ali.
– Ali aonde?
– Você entendeu errado. Eu sou Ali. Ali de Aculá. E o amigo?

Antes de responder o outro fez uma pose deveras engraçada:

– Bucéfalo VIII. Em romano, esse oitavo. Às suas ordens.

Risos.

– Qual a graça?
– Acaso trabalhou para Alexandre Magno?
– Não tive o prazer. Meu bisavô, Bucéfalo VI deu mais sorte. Chegou a ser o animal predileto dele.

Os dois se voltaram para um terceiro cavalo que, afastado alguns metros, falava e gesticulava ao celular. De vez em quando batia no chão com a pata esquerda, cheio de satisfação.

– E aquele quem é?
– Fale baixo – sussurrou – Ali. – Estamos diante de Rocinante.
– Quem é Rocinante? Nunca ouvi falar, pelo menos até agora. Para mim é um quadrúpede igual ou pior que nós. Olhe para o jeitão dele. Não vejo nada demais nesse sujeitinho. Ao contrário, parece posudo… Meio cheguei, sou o tal…
– Trabalha para Dom Quixote.
– O presidente?
– Seu besta, Rocinante é funcionário de Dom Quixote.
– Confesso que a ferradura não caiu!
– Bucéfalo, você precisa assistir mais televisão. Ler jornais, revistas. Pra ficar inteirado. Cavalo burro, hoje em dia, com toda essa tecnologia de ponta que anda por ai, só serve para puxar carroças. Daqui a alguns anos, até para puxar carroça será preciso fazer um teste de QI.
– Tá. Chega de sermão. Quem é o figuraço?
– O braço direito de Dom Quixote de La mancha.
– Ah! Tô ligado.
– Sabe, ao menos, quem é Dom Quixote?
– Sinceramente? Não!

Ali se preparava para retrucar alguma coisa quando um elegantíssimo manga larga marchador, cheio de medalhas no peito pede licença, interrompendo o bate-papo:
– Perdão, ilustres companheiros: meu nome é Pégaso.

Ali de Aculá se virou para o que acabara de chegar e fez um aceno respeitoso com a cabeça.

– Bem vindo. Em que podemos ajudá-lo?
– Desculpe. Estava ouvindo a conversa de vocês e não pude deixar de perceber que o amigo é bastante esclarecido. Tem “catiguria”.
– Faço o possível. Mas espere um minuto: já o vi por aqui, ou em algum outro lugar?
– É possível. Sou muito popular por estas redondezas.

Ali relinchou e sacudiu o rabo para espantar uma mosca chata.

– Lembrei. Claro, como poderia me esquecer?

Bucéfalo, alheio a tudo, o queixo caído, só observava. Não entendia nada de nada do diálogo que seu amigo Ali travava.

– Bucéfalo, meu prezado, este é Pégaso. O famoso Alado da Mitologia Grega.
Pégaso se abriu num sorriso, ao tempo que estendia a pata bem tratada para Bucéfalo.
– Em pessoa. Mil escusas. Em pêlo e presença. Pertenço, com muita honra, a terceira linhagem de excelentes animais de sangue nobre.

Ali também estendeu a pata:

– Bem, amigo Pégaso, eu sou Ali de Aculá. – Bem vindo à roda.
– Então você é o famoso Bucéfalo?
– Na verdade, Bucéfalo VIII. Em romano.
Pégaso relinchou um sorriso maroto:
– Claro, senão ficaria v3.
– Como? V o quê?
– Deixa pra lá. A propósito: Bucéfalo, Bucéfalo… Espere um instante. Meu bisavô, raios, meu bisavô conheceu o seu…
– É?
– Aliás, foram grandes amigos. Para ter uma idéia, pastaram juntos, chegaram a puxar carroças juntos e dividirem a mesma baia. Uma vez, fiquei sabendo, por tio Pangaré Doidão, chegaram a ser flagrados dentro de um paiol de milho…

Ali se interessou pela historia e propôs:

– Por que não nos conta esse fato em detalhes, amigo Pégaso?
– Será um enorme prazer, Ali. Ainda mais agora, que acabo de conhecer dois alazões tão agradáveis.
– E ele ainda está vivo, Pégaso?
– Infelizmente partiu há anos. Contudo, deixou boas recordações à nossa família.

Como integrante dessa terceira geração, me orgulho de fazer parte da linhagem de animais puro sangue.

– Ta legal. Mas e ai?
– Quem me contou, como mencionei a pouco, foi o tio Pangaré Doidão. Bucéfalo – no caso, o seu bisavô, Bucéfalo VI, e o meu, Pégaso I, de certa feita, foram acordados, de supetão, a poder de coices, por nossas bisas.
– E o que eles faziam de errado?
– Estavam, como disse, amoitados num velho paiol de milho.
– Aprontando o quê?
– Dando um trato, numa potranca virgem, que chegara de fora. Bucéfalo VI e, Pégaso I, cansados de transarem com as éguas da fazenda, resolveram partir para cima de uma bela novata que chegara de muito longe. Rapazes deu uma baita de uma confusão. Encrenca das feias, pra ninguém botar defeito. Resumindo, os dois levaram tantas bordoadas, que acabaram no hospital veterinário de um pacato vilarejo de nome Cavalaria. Na confusão, perderam cada um deles, um par de ferraduras novinho em folha.
– Credo-em-cruz! Quem diria!…
– Então, pelo que entendi – os antepassados de vocês dois não eram flores que pudessem ser cheiradas?
– Perfeito, amigo.
– Bem vamos deixar essas coisas de família de lado. Que tal cuidarmos das nossas vidas? Sugiro comemorarmos este encontro. Tem aqui dentro uma lanchonete que serve boa refeição de grama, com folhas verdinhas, sem agrotóxico e água potável geladinha, geladinha.
– Será que eles têm alfafa?
– Tudo o que imaginar meu amigo Bucéfalo. Tudo. Vale à pena conferir. Vamos nessa?

Ali de Aculá, Bucéfalo VIII e Pégaso se puseram a caminho da lanchonete, onde fariam a rápida refeição. Ao se colocarem em marcha, precisaram pedir licença a Rocinonte que, incansavelmente, continuava a tagarelar feito um debilóide, no seu telefone celular.

Fonte:
Colaboração do autor

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1 comentário

Arquivado em O Escritor com a Palavra

Uma resposta para “Aparecido Raimundo da Souza (Conversa de cavalos)

  1. Olá Aparecido.Que conto bem escrito e interessante.Parabéns.

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