O Mito de Sisifo

Existe uma história grega sobre Sísifo: O Mito de Sísifo. Camus (Albert Camus) escreveu esta história, e ela traz em si um conteúdo muito aproveitador para todo homem e mulher que buscam, na espiritualidade, alcançar a paz e a felicidade que dão sentido à vida. Mas, muitas vezes, essa felicidade e essa paz são buscadas no mundo material e, assim, jamais podem ser alcançadas. Nesses casos, apenas quando a procura pela felicidade material levar uma pessoa a passar por sua impossibilidade é que a busca espiritual começa.

Por isso, a busca pela felicidade material tem realmente uma contribuição muito significativa para a busca pela felicidade espiritual. Cada vez mais que procurarmos a felicidade por meio de prazeres materiais, cada vez mais falharemos. A felicidade material sempre fracassará, é impossível alcançar a felicidade e a paz nas coisas do mundo. E isso é muito interessante, e parece ser muito paradoxal: não só a escada ligada ao céu nos ajuda a chegar lá, mas, ainda mais, e antes disso, a escada que liga ao inferno tem nos ajudado. E, em muitos casos, a menos que a verdade que leva ao inferno se mostre completamente fútil, nenhuma jornada em direção ao céu pode ter início. Até que se torne completamente claro que a estrada na qual uma pessoa está seguindo leva ao inferno, não fica claro qual é o caminho para o céu.

Nesta história mitológica, Sísifo está sendo punido pelos deuses, ele tem de levar uma pedra muito pesada ao topo de uma montanha. Mas essa é somente uma parte da punição que Sísifo recebeu. A outra parte da punição é que assim que ele chegar ao topo — cansado, suando e sem fôlego por ter carregado a pedra — a pedra escorrega de seus dedos e volta a cair lá embaixo, no vale. Sísifo volta a descer, e sobe com a pedra para o topo da montanha, e a mesma coisa acontece novamente — e segue acontecendo de novo e de novo. Essa punição continua, repentindo-se sem parar.

Sísifo volta ao vale e começa a arrastar a pedra outra vez. Todas as vezes ele vai com esperança de que desta vez vai conseguir, que desta vez vai ser capaz de levar a pedra ao topo, e que vai mostrar aos deuses que eles estavam errados, e então eles dirão: “Veja, Sísifo finalmente trouxe a pedra ao topo!”. Ele arrasta a pedra novamente, ele tenta com esforço por semanas e por meses e, de alguma forma, meio morto, volta ao topo da montanha. Mas quando está lá a pedra escorrega e volta a cair no vale. E Sísifo desce outra vez.

Você pode dizer que ele é louco: por que não esquece essa idéia e fica onde está? Por que não aceita a situação como ela é? As pessoas estão hipnotizadas, iludidas pelo pensamento de que “para que a felicidade aconteça, é necessário que algo seja feito”. Não importa o que — algo sempre necessita ser feito –, a felicidade nunca pode brotar da situação, do momento como a vida é neste instante. Esse é o pensamento que tem iludido as pessoas e, por causa dele, elas não são capazes de confiar no momento presente. A felicidade está lá no futuro, nunca aqui. Para que o homem possa conhecer o divino e a alegria que brota do divino, ele necessita atingir um estado de profunda entrega. Quando a espiritualidade acontece a alguém, a pessoa sente e vive tal experiência, mas em momento algum se utiliza de suas próprias forças.

Pelo contrário: a experiência só ocorre se nenhum esforço pessoal estiver sendo empreendido. Todos nós queremos viver uma experiência elevada, que nos permita conhecer e comungar com Algo maior do que nós. Nunca buscamos algo menor do que nós mesmos, sempre desejamos as “coisas do Alto”. E isso é algo muito saudável/natural. Mas, se as coisas que queremos viver são experiências maior do que nós, porque tentamos fazê-las acontecer com nossas forças? É impossível. Se algo é maior, então não importa o quanto sejamos fortes, não podemos controlá-la. Nós não temos forças para alcançá-la, tudo o que podemos fazer é deixar que ela venha a nós; deixar que o Alto venha até o que está “em baixo”. O homem não consegue se elevar ao nível onde Deus se encontra; mas se o homem permitir — se puder recebê-Lo… a questão é o quanto o homem é capaz de se tornar receptivo — então o encontro acontece, Deus desce ao nível humano e encontra o homem. A entrega é essencial. E, se não existir a confiança no momento presente, como poderá haver a entrega?

Como a pedra pode ser útil, proveitosa para Sísifo? O que ele ganha com isso? Por que ele a continua carregando? Por que simplesmente não se livra da pedra e se alivia do fardo de toda a situação? Aceite o seu momento presente do jeito que ele é. A felicidade já está aí. Se você realmente consegue perceber isso, então a percepção da espiritualidade logo se desdobrará em sua vida.

Este mito tem grande importância para nós, porque todos nós somos Sísifos. Nossas histórias podem ser diferentes, nossas montanhas podem ser diferentes, nossas pedras podem ser diferentes, mas somos Sísifos. Fazemos sempre as mesmas coisas. Procuramos pela felicidade empreendendo esforços em coisas que se mostrarão completamente inúteis. Usamos e gastamos nossa energia e tempo nas coisas do mundo. Buscamos obter alegria em algum prazer material/mundano e pensamos que ele nos trará a felicidade. Mas as coisas do mundo não nos satisfazem completamente, são efêmeras, e logo sentimos um sentimento de vazio/miséria interior novamente. A pedra sempre cai do topo da montanha e volta para o vale, mas a mente humana (que deve ser transcendida, deixada de lado, para que a espiritualidade comece a ser vivida conscientemente) é muito estranha, ela sempre se consola: “Parece que alguma coisa deu errado desta vez, mas da próxima vez tudo vai dar certo”. E assim sempre começa novamente.

O desejo por prazeres materiais tem um papel essencial na busca espiritual, porque o seu fracasso, seu profundo fracasso, pode ser o primeiro passo em direção à busca da alegria espiritual. A pessoa que está à procura de felicidade material também é uma pessoa religiosa. Ela também está procurando a religiosidade, a espiritualidade, mas na direção errada; ela também está procurando a alegria, só que é num lugar onde ela não pode ser encontrada. Ela só procurará na outra direção quando perceber que no mundo material é impossível encontrar.

Esse foi exatamente o caso com Lao-Tsé. Lao-Tsé foi um dos maiores sábios que o mundo já teve; ele viveu na China à época de 600 anos A.C (ele foi contemporâneo de Buda). Mas, antes de alcançar a alegria e a paz da realização espiritual, Lao-Tsé procurou muito, de todas as formas que lhe eram possíveis. Ele buscou no mundo e fracassou. Depois foi procurar obter a Sabedoria lendo as escrituras. Mas mesmo as escrituras pertencem ao mundo, elas não podem por si só levar ninguém a ver o reino de Deus, são apenas instrumentos que auxiliam na caminhada. As escrituras também pertencem ao mundo, são coisas materiais. Elas não são puramente, 100% espirituais; se o fossem, só a leitura faria com que pessoa entrasse em êxtase e alcançasse a iluminação espiritual. Bastaria sua mera leitura sem que fosse necessário fazer nenhum esforço individual. Assim, as escrituras também são meios materiais. Mas, dentre todas as coisas materiais, as escrituras estão no topo, elas são as que estão mais próximas da dimensão espiritual.

Um dia alguém perguntou a Lao-Tsé: “Você diz que não se ganha nada com as escrituras, mas nós temos ouvido que você lê as escrituras.” E Lao-Tsé responde: “Não, eu tenho ganhado muito com a escrituras. A maior coisa que aprendi nelas é que nada pode ser aprendido com elas. Isso não é pouco. Não há nada que possa ser aprendido com as escrituras, mas isso também não poderia ser compreendido sem que elas fossem lidas primeiro. Eu li muito, procurei muito — e então percebi que nada pode ser aprendido com elas”.

Essa não é uma recompensa pequena para tamanho esforço. Só quando ficar claro que nada pode ser obtido com as palavras, com as escrituras — com as coisas do mundo –, é somente então que começaremos a procurar na existência, na Vida. Quando finalmente compreendemos que a felicidade não pode ser encontrada no material, é que podemos começar a procurar por ela em paz. A segunda busca somente começa quando a primeira falha.

Fonte:
http://busca-espiritual.blogspot.com

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Arquivado em mitologia, Sopa de Letras

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