Arquivo do mês: julho 2010

Trova 166 – José Feldman (PR)


À minha esposa, Alba Krishna

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Paraná em Trovas

Na luta pelas vitórias
só sente satisfação
quem não usa a luz das glórias
para humilhar um irmão!
AMÁLIA MAX – Ponta Grossa

Dois caminhos há na vida,
o do egoísmo e o da cruz:
– um leva à eterna descida;
o outro leva à eterna luz!
ANTONIO AUGUSTO DE ASSIS – Maringá

Sem sonhos, velho e cansado,
tão distante a mocidade…
Lembrando o tempo ao teu lado,
eu choro e abraço a saudade…
DÉSPINA ATHANÁSIO PERUSSO – Londrina

Na hora de concebê-las,
tendo a luz da inspiração,
Deus foi rimando as estrelas
e trovando na amplidão!
FERNANDO VASCONCELOS – Ponta Grossa

Nosso amor é uma certeza
dentro do meu coração;
e a luz da paixão acesa
apaga a luz da razão!…
ISTELA MARINA GOTELIPE LIMA – Bandeirantes

Por mais que o mundo propague
que a vida eterna é irreal,
viva em mim e não se apague…
“a Luz de um grande ideal”!
JANETE DE AZEVEDO GUERRA – Bandeirantes

A luz que vem de um olhar,
se passar por um sorriso,
talvez nem leve ao altar,
mas nos leva ao paraíso!
JOSÉ BIDÓIA – Maringá

O tempo, veloz, avança,
consumindo nossos anos.
Vamos perdendo esperança
e colhendo desenganos…
JOSÉ CORRÊA FRANCISCO – Ponta Grossa

Errei!… Deixei-a abandonada
Perdida na solidão.
Com palavra apaixonada
Hoje imploro o teu perdão!…
JOSÉ FELDMAN – Ubiratã

Quisera ser como o sol,
que ao declinar no poente,
enche de luz o arrebol
e volta a ser sol nascente!
LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DECARLI – Bandeirantes

Ao cair a saia dela,
apertada no salão,
ficou claro que a donzela
escondia um barrigão
MARIA APARECIDA PIRES – Bandeirantes

Mais que ouro, fama, respeito…
Mais que honraria, abastança,
é trazer dentro do peito
simplesmente uma esperança!
MARIA FARIAS INOCÊNCIO – União da Vitória

Nas mais árduas empreitadas,
sou feita de luz e raça;
porque à fúria das pedradas,
não temo em ser a vidraça!
MARIA LÚCIA DALOCE CASTANHO – Bandeirantes

No jardim do meu solar,
Flores tem a sua história…
Sempre me fazem lembrar,
O que ficou na memória.
MARITA FRANÇA – Curitiba

Ao me ver na escuridão
e totalmente indeciso,
Deus ouve a minha oração
e envia a luz que eu preciso!
NEIDE ROCHA PORTUGAL – Bandeirantes

Um mar de esperanças novas
magicamente brotou
na ternura dessas trovas
que o teu carinho inspirou!
VICTORINA SAGBONI – Curitiba

Pernas tortas, magricela,
assusta até o cirurgião…
para que a vejam mais bela,
aconselha: a escuridão.
WANDA ROSSI DE CARVALHO – Bandeirantes

Transcendo o sonho e refaço
toda a rota do passado,
para ter de novo o abraço
do ventre em que fui gerado.
WANDIRA FAGUNDES QUEIROZ – Curitiba

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Concursos de Trovas em Andamento

1. UBT-Seção Nova Friburgo – CONCURSO INTERSEDES
Tema: IMAGEM (L/F)
Máximo: 1 trova por participante / Prazo: 31.08.2010
Remeter: Concurso Intersedes – A/C de Elisabeth Souza Cruz
Rua Santa Marta, 70
28633-080 – Nova Friburgo / RJ
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2. IV CONC. de TROVAS do Grêmio Português de Nova Friburgo
Tema: Estadual: FADO (L/F) + GALO (Hum)
Máximo: 3 trovas por participante / Prazo: 30.09.2010
Remeter: IV Conc. Trovas Grêmio Português Avenida Euterpe Friburguense, 108 – Centro 28605-13 Nova Friburgo – RJ
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3. XX CONCURSO de TROVAS da ATRN / 2010
Temas: Nacional: INSPIRAÇÃO (L/F)
Máximo: 3 trovas por participante / Prazo: 30.09.2010
Remeter: Francisco Neves de Macedo Rua Ribeirão Preto, 218 – Gramoré 59135-550 Natal / RN
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4. V CONCURSO LIITERÁRIO “Cidade de Maringá” – ALM
Temas: CELEIRO (L/F)
Máximo: 3 trovas por participante / Prazo: 15.10.2010
Remeter: Francisco Neves de Macedo Rua Ribeirão Preto, 218 – Gramoré 59135-550 Natal / RN
Obs: Há também concursos com o mesmo tema (Celeiro) nas modalidades Soneto, Poema Livre e Crônica.
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5. II CONCURSO DE TROVAS “Poeta Antônio Roberto Fernandes”
Temas: NOEL ROSA (Centenário de nascimento)
Máximo: 3 trovas por participante / Prazo: 30.11.2010
Remeter: II Conc.Trovas “Poeta A. R. Fernandes” A/C Roberto Pinheiro Acruche
Caixa Postal 123.192 28230-000 S.Francisco do Itabapoana/RJ
Observação: Obrigatório constar o nome do tema.

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Ruth Rocha (O Direito das Crianças)

Toda criança no mundo
Deve ser bem protegida
Contra os rigores do tempo
Contra os rigores da vida.

Criança tem que ter nome
Criança tem que ter lar
Ter saúde e não ter fome
Ter segurança e estudar.

Não é questão de querer
Nem questão de concordar
Os diretos das crianças
Todos tem de respeitar.

Tem direito à atenção
Direito de não ter medos
Direito a livros e a pão
Direito de ter brinquedos.

Mas criança também tem
O direito de sorrir.
Correr na beira do mar,
Ter lápis de colorir…

Ver uma estrela cadente,
Filme que tenha robô,
Ganhar um lindo presente,
Ouvir histórias do avô.

Descer do escorregador,
Fazer bolha de sabão,
Sorvete, se faz calor,
Brincar de adivinhação.

Morango com chantilly,
Ver mágico de cartola,
O canto do bem-te-vi,
Bola, bola,bola, bola!

Lamber fundo da panela
Ser tratada com afeição
Ser alegre e tagarela
Poder também dizer não!

Carrinho, jogos, bonecas,
Montar um jogo de armar,
Amarelinha, petecas,
E uma corda de pular.

Um passeio de canoa,
Pão lambuzado de mel,
Ficar um pouquinho à toa…
Contar estrelas no céu…

Ficar lendo revistinha,
Um amigo inteligente,
Pipa na ponta da linha,
Um bom dum cahorro-quente.

Festejar o aniversário,
Com bala, bolo e balão!
Brincar com muitos amigos,
Dar pulos no colchão.

Livros com muita figura,
Fazer viagem de trem,
Um pouquinho de aventura…
Alguém para querer bem…

Festinha de São João,
Com fogueira e com bombinha,
Pé-de-moleque e rojão,
Com quadrilha e bandeirinha.

Andar debaixo da chuva,
Ouvir música e dançar.
Ver carreiro de saúva,
Sentir o cheiro do mar.

Pisar descalça no barro,
Comer frutas no pomar,
Ver casa de joão-de-barro,
Noite de muito luar.

Ter tempo pra fazer nada,
Ter quem penteie os cabelos,
Ficar um tempo calada…
Falar pelos cotovelos.

E quando a noite chegar,
Um bom banho, bem quentinho,
Sensação de bem-estar…
De preferência um colinho.

Embora eu não seja rei,
Decreto, neste país,
Que toda, toda criança
Tem direito de ser feliz!

E quando a noite chegar,
Um bom banho, bem quentinho,
Sensação de bem-estar…
De preferência um colinho.

Uma caminha macia,
Uma canção de ninar,
Uma história bem bonita,
Então, dormir e sonhar…

Embora eu não seja rei,
Decreto, neste país,
Que toda, toda criança
Tem direito a ser feliz!

Fontes:
http://www.uniblog.com.br/poesiasinfantis/

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Ruth Rocha (A Menina que Não Era Maluquinha)

Maluquinha, eu?

Eu não! Não sou nenhuma maluquinha!

Quem me pôs esse apelido foi aquele menino de casacão e panela na cabeça.

Ele me botou esse apelido quando eu fui brincar na casa do Mauricinho.

Eu nem queria ir.

Mas a mãe dele telefonou pra minha mãe, ela disse que o Mauricinho era muito tímido e que ela queria que ele brincasse com umas crianças mais… Não sei o que ela disse, acho que ela queria que ele brincasse com umas crianças mais descoladas…

E aí minha mãe me encheu um pouco e eu acabei indo.

A gente chegou na casa do Mauricinho e foi logo almoçar.

E depois do almoço a mãe dele botou a gente pra fazer a lição.

Eu não me incomodo de fazer lição logo depois do almoço, porque eu fico logo livre.

Mas a mãe do Mauricinho começou a fazer uns discursos sobre responsabilidade e coisa e tal, que a gente já era grandinha e tinha que cumprir com os compromissos… Um saco!

Eu tô careca de saber disso!

E então eu fiz minha lição correndo e o Mauricinho ficou lá toda a vida, ele não acabava mais de fazer a lição dele.

Aí eu comecei a rodar pela casa até que encontrei um gato.

Gato não, gata. Chamava Pom-pom. Ou era Fru-fru… Ou era Bom-Bom, sei lá.

E eu peguei a gata e ela estava meio fedida.

Então eu resolvi dar um banho nela. Gato não gosta de banho, vocês sabem.

Mas meu avô tinha me contado que quando ele queria dar banho no gato ele botava o bicho dentro da banheira e ele não conseguia sair e meu avô dava banho à vontade!

Mauricinho tinha um banheiro dentro do quarto dele.

Quando eu fui chegando perto da banheira a gata arrepiou toda e eu joguei ela bem depressa lá dentro e tapei o ralo e enchi de água.

E esfreguei a gata todinha com um shampoo todo perfumado que tinha lá e eu estava achando que todo mundo ia gostar de ver a gata toda limpinha. A gata estava muito infeliz e ela miava miaaauuu… e tentava sair do banho, mas meu avô tinha razão: ela arranhava a parede da banheira, mas não conseguia sair.

Mas acho que aí caiu shampoo no olho da gata, porque ela deu um pulo e agarrou na minha roupa e conseguiu pular fora e saiu correndo, espalhando espuma de shampoo por todo lado e nisso a mãe do Mauricinho vinha chegando e levou o maior susto e caiu sentada e a gata continuou correndo e assustando todo mundo e respingando tudo de espuma.

Eu não sei quem estava mais assustado: se era o Mauricinho, a mãe dele, a gata, ou se era eu.

Eu corri atrás da gata, mas ela pulou pela janela, atravessou o jardim, saiu pela rua e eu atrás.

Só que no meio da rua estava a turma daquele menino, aquele da panela na cabeça, e a gata passou pelo meio deles todos e eu atrás!

E eles levaram o maior susto, cada um correu para um lado, e atrás de mim vinha a mãe do Mauricinho e o Mauricinho e a cozinheira e o jardineiro todos correndo e gritando e eu resolvi correr para a minha casa e me esconder lá.

Mas no dia seguinte… a escola toda já sabia da história e aquele menino, aquele da panela na cabeça começou a me chamar de maluquinha…

Mas eu não sou maluquinha, não! Só se for a vó dele!

Fonte:
http://www2.uol.com.br/ruthrocha/historias_03_in.htm

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Ruth Rocha (1931)

Uma das escritoras infantis mais conhecidas e prestigiadas, Ruth Rocha nasceu na cidade de São Paulo, em 2 de março de 1931. Filha dos cariocas Álvaro de Faria Machado, médico, e Esther de Sampaio Machado, tem quatro irmãos, Rilda, Álvaro, Eliana e Alexandre. Teve uma infância alegre e repleta de livros e gibis. O bairro de Vila Mariana, onde morava, tinha nessa época muitas chácaras por onde Ruth passava, a caminho da escola – estudava no Colégio Bandeirantes. Mais tarde, terminou o Ensino Médio no Colégio Rio Branco.

É graduada em Sociologia e Política pela Universidade de São Paulo e pós-graduada em Orientação Educacional pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Casada com Eduardo Rocha, tem uma filha, Mariana e dois netos, Miguel e Pedro.

Durante 15 anos (de 1956 a 1972) foi orientadora educacional do Colégio Rio Branco, onde pôde conviver com os conflitos e as difíceis vivências infantis e com as mudanças do seu tempo. A liberação da mulher, as questões afetivas e de auto-estima foram sedimentando-se em sua formação.

Em 1965 escreve artigos sobre educação para a revista Claudia. Participou da criação da revista Recreio, da Editora Abril, onde teve suas primeiras histórias publicadas a partir de 1969. “Romeu e Julieta”, “Meu Amigo Ventinho”, “Catapimba e Sua Turma”, “O Dono da Bola”, “Teresinha e Gabriela” estão entre seus primeiros textos de ficção.

Deixa a Editora Abril no mesmo ano e inicia prolífera produção literária, inspirada na filha, Mariana. Marcelo, Marmelo, Martelo (1976) vende 1 milhão de exemplares.

Publicou seu primeiro livro, “Palavras Muitas Palavras”, em 1976

De 1973 a 1981, volta a dirigir publicações infantis da Editora Abril, participa das coleções Conte um Conto, Beija-Flor e Histórias de Recreio e lança O Reizinho Mandão (1978). Em 1989 é escolhida pela ONU (Organização das Nações Unidas) para assinar a versão infantil da Declaração Universal dos Direitos Humanos, intitulada Iguais e Livres, publicada em nove línguas.

Monteiro Lobato foi sua grande influência. Em sua obra, essa influência se traduz pelo seu interesse nos problemas sociais e políticos, na sua tendência ao humor e nas suas posições feministas.

Seu livro de forte conteúdo crítico, “Uma História de Rabos Presos”, foi lançado em 1989 no Congresso Nacional em Brasília, com a presença de grande número de parlamentares. Em 1988 e 1990 lançou na sede da Organização das Nações Unidas em Nova York seus livros “Declaração Universal dos Direitos Humanos” para crianças e “Azul e Lindo – Planeta Terra Nossa Casa”.

Participou durante seis anos do programa de televisão Gazeta Meio-Dia como membro fixo da mesa de debates.

Em 1998 foi condecorada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso com a Comenda da Ordem do Mérito Cultural do Ministério da Cultura.

Ganhou os mais importantes prêmios brasileiros destinados à literatura infantil da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, da Câmara Brasileira do Livro, cinco Prêmios “Jabuti”, da Associação Paulista de Críticos de Arte e da Academia Brasileira de Letras, Prêmio João de Barro, da Prefeitura de Belo Horizonte, entre outros.

Seu livro mais conhecido é “Marcelo, Marmelo, Martelo”, que já vendeu mais de 1 milhão de cópias.

Em 2002 ganhou o prêmio Moinho Santista de Literatura Infantil, da Fundação Bunge. Também nesse ano foi escolhida como membro do PEN CLUB – Associação Mundial de Escritores no Rio de Janeiro, além de conquistar, neste mesmo ano, o Prêmio Jabuti pelo livro Escrever e Criar.

Atualmente é membro do Conselho Curador da Fundação Padre Anchieta.

Membro da Academia Paulista de Letras, integrante da cadeira 38 desde 25 de outubro de 2007.

No site oficial da escritora podem ser encontradas mais informações sobre a escritora, livros e histórias, entre outros: http://www2.uol.com.br/ruthrocha/home.htm

Fontes:
http://www.algosobre.com.br/biografias/ruth-rocha.html
http://www2.uol.com.br/ruthrocha/historiadaruth.htm
http://www.infoescola.com/escritores/ruth-rocha/

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Poesias na Educação Infantil: A Literatura como Geradora de Experiências Estéticas e Expressivas

Trabalho desenvolvido por Adrianne Ogêda Guedes, Daniela de Oliveira Guimarães, Nuelna da Gama Vieira, Ruani Maceira.
Casa Monte Alegre – Educação Infantil (Cidade do Rio de Janeiro)

RESUMO

Este trabalho tem como objetivo apresentar uma experiência no campo da linguagem, com crianças de 4 a 6 anos de uma instituição de Educação Infantil na cidade do Rio de Janeiro. Através da abordagem do gênero poesia, a leitura e a escrita foram vividas como práticas expressivas, atravessadas pelas experiências sócio-culturais do grupo. Assim, o contato com a poesia desdobrou-se em possibilidades estéticas: objetos transformaram-se em palavras, palavras geraram movimentos, etc. Ao mesmo tempo que mergulharam no acervo poético brasileiro, as crianças foram sendo mobilizadas por diferentes estilos e modos de produção que passaram a compor seus trabalhos e suas próprias poesias. Enfim, percorrendo caminhos da linguagem plástica à poesia ou do gesto à palavra, experimentamos a linguagem como concretização do pensamento e a produção de significados atravessada pelo afeto e pelas interações sociais.

Contextualizando a experiência: a organização do grupo de crianças, o lugar do professor e alguns princípios pedagógicos.

Este trabalho tem como objetivo apresentar uma experiência no campo da linguagem desenvolvida com um grupo de 13 crianças de 4 a 6 anos numa instituição de Educação Infantil do Rio de Janeiro, a Casa Monte Alegre. Trata-se de compreender implicações da dimensão expressiva da linguagem para a prática pedagógica.

Alguns aspectos relativos a forma de organização do trabalho com as crianças, tais como as divisões dos grupos e a coordenação dos mesmos, serão aqui explicitadas, possibilitando a contextualização desta experiência. Estaremos também situando o leitor quanto aos princípios teóricos que subsidiam as práticas desenvolvidas na Casa Monte Alegre, dando destaque às idéias sobre a função da Educação Infantil, as práticas de leitura e escrita nesse segmento e as relações de linguagem. Esses aspectos possuem especificidades, mas também estão imbricados, à medida que só podemos pensar nas práticas de leitura e escrita e na relação com diferentes linguagens, por exemplo, a partir do que pensamos ser a função da Educação infantil.

Procuramos abrigar, na forma como organizamos os grupos de crianças, a presença da diferença como mola fundamental para potencializar as trocas de experiências. Sendo assim, os grupos são compostos por crianças de idades variadas, tendo em vista uma faixa de aproximadamente três anos de diferença. O grupo com o qual desenvolvemos a proposta aqui apresentada, possui crianças de 4 anos completos até 6 anos. Essa heterogeneidade marcada pela idade implica, para a prática pedagógica, em levar em conta movimentos, interesses, possibilidades que se diferenciam.

De toda forma, acreditamos que a diferença não é marcada só pela idade. Na verdade, nenhum grupo é homogêneo. Ao olhar a criança sob esta perspectiva, dispomo-nos a acolher respostas variadas para mesmas perguntas, expressões distintas, movimentos diversos. Portanto, o ponto de partida de nosso trabalho sustenta-se no olhar que lançamos à criança, que acolhe a diferença, que não busca a homogeneização, que está aberto às expressões singulares, próprias dos sujeitos envolvidos.

No dia a dia da Casa Monte Alegre, os grupos são identificados por um nome que é escolhido pelas crianças ao longo do primeiro bimestre de atividades. Assim, o nome ganha sentido de identidade, e é escolhido a partir dos interesses infantis, conferindo significado a esse nome. O grupo em questão se chama “Grupo Gelo” e foi criado no início do ano de 2003, quando as curiosidades acerca desse tema estavam avivadas.

Dois educadores assumem a coordenação deste grupo, conjuntamente. O desafio da parceria e da troca entre adultos é também vivido com intensidade nessa disposição. Pensar o trabalho juntos, organizar as ações, desejos e idéias coletivas, fazer-se presente considerando a presença do outro são desafios que deslocam o professor do lugar de centralidade que habitualmente assume. Nessa perspectiva, o professor tem lugar de mediador sim, mas partilha com outro esse lugar, buscando sempre a parceria do grupo na organização do cotidiano. A perspectiva é a da construção da unidade na diversidade.

É importante acrescentar que o diálogo com a experiência italiana (Edwards, Forman e Gandini, 1999) leva-nos a apontar a importância de valorizarmos as cem linguagens da criança na formulação do cotidiano e na perspectiva da construção de uma Pedagogia da Educação Infantil.

Juntamente com Rocha(1999), afirmamos que é fundamental focalizar a especificidade educativa no trabalho com as crianças de 0 a 6 anos, diferenciando-o do ensino fundamental, à medida que neste segmento há lugar privilegiado para o domínio dos conhecimentos básicos. A Educação Infantil define-se pela complementariedade em relação à famíla e, portanto, “tem como objeto as relações educativas travadas num espaço de convívio coletivo que tem como sujeito a criança de 0 a 6 anos” (p.62). Isso não significa que os conhecimentos sistematizados e a aprendizagem não pertençam ao universo da Educação Infantil, muito pelo contrário!

a dimensão que os conhecimentos assumem na educação das crianças pequenas coloca-se numa relação extremamente vinculada aos processos gerais de constituição da criança: a expressão, o afeto, a sexualidade, a socialização, o brincar, a linguagem, o movimento, a fantasia, o imaginário,… as suas cem linguagens” (Rocha, 1999, p.62)

Nosso movimento converge no sentido de sistematizarmos as idéias que particularizam o trabalho com as crianças de 0 a 6 anos. Neste caminho, no dia a dia da Casa Monte Alegre, valorizamos tanto os objetos culturais portadores de escrita (livros, jornais, revistas, etc) e a possibilidade de escrita e leitura por parte das crianças, como outras formas de expressão, tais como a dança, a música, o desenho, a produção plástica, etc. Ler, escrever, desenhar, pintar, dançar são experiências mergulhadas no movimento de comunicação e construção de sentidos possíveis sobre o mundo. Acima de tudo, o trabalho focaliza a constituição da criança, sua auto-estima, autonomia, expressividade, auto-confiança. Os projetos e objetos sobre os quais nos debruçamos como pesquisadores do mundo cultural mais amplo favorecem essa constituição, mola mestra de nosso trabalho.

Princípios como a escuta e o protagonismo das crianças; o reconhecimento de seus desejos, palavras e afetos; a valorização do imprevisto (diferente do improviso); a perspectiva da criança como produtora de cultura; o fortalecimento das relações sociais entrelaçam-se no trabalho da Casa Monte Alegre e nos passos vividos no Projeto com as poesias.

A seguir, iremos expor os nortes teóricos que nos fizeram apostar na poesia como um caminho de abertura de possibilidades junto às crianças, à medida que as características expressivas e estéticas deste gênero literário, aproximam-se do modo de expressão das crianças. A possibilidade de concretizar afetos e pensamentos, a exploração da palavra em suas múltiplas formas e sentidos, a intensidade da dimensão do sentido em cada palavra, a reverberação das poesias no corpo, no desenho e no ritmo das crianças são aspectos fundamentais a serem destacados. Por último, relataremos processos vividos, ressaltando o impacto da leitura e produção de poesias no cotidiano das crianças do grupo Gelo.

A linguagem e a criança: gesto, palavra, desenho, leitura, escrita como formas de expressão

De acordo com Vygotsky (1991), nas crianças pequenas, a fala apresenta-se paralela à ação. As crianças falam enquanto fazem, nomeiam objetos enquanto os exploram, acompanhando de palavras os movimentos. É no mergulho nas interações, participando de conversas e contextos povoados pelas palavras em seus usos sociais diversos, que vai acontecendo e fortalecendo-se a diferenciação entre fala para si (organizadora da experiência, geradora do pensamento) e fala para o outro (comunicativa).

Ao mesmo tempo, o mundo dos significados fixados na cultura vai sendo internalizado e cada palavra cola-se a um conjunto específico de eventos ou objetos. Uma única palavra quer dizer muito para a criança pequena. Uma palavra condensa um mundo de possibilidades. Pouco a pouco, no mergulho nas interações sociais, o acervo de palavras diversifica-se e as possibilidades de significar o mundo especializam-se, multiplicando-se. Novos sentidos vão sendo descobertos, novas possibilidades de expressão, à medida que espaços vão sendo abertos para o confronto com o outro, e consequentemente, a criação, a contraposição entre o antigo e o novo, a realidade e a fantasia.

O significado une pensamento e palavra no desenvolvimento da criança, materializando a comunicação e as possibilidades de interação social. A palavra é concretização do pensamento que nela ganha vida e expressão. Nesta corrente viva da linguagem, a fala e a troca social possibilitam a expansão da criança, ou seja, ir além dos significados convencionais, criando novos sentidos para objetos e eventos cotidianos.

a criança está sempre pronta para criar outros sentidos para os objetos que possuem significados fixados pela cultura dominante, ultrapassando o sentido único que as coisas novas tendem a adquirir (…) sonhando a vida na ação e na linguagem, descontextualizando espaço e tempo, subvertendo a ordem e desarticulando conexões, a infância problematiza as relações do homem com a cultura e com a sociedade” (Jobim e Souza, 1994, p.160)

Na verdade, é na brincadeira e na linguagem que podemos compreender a apropriação e re-criação do mundo por parte das crianças. De acordo com Vygotsky, no brincar: “sob o impacto do novo significado adquirido, modifica-se a estrutura corriqueira do objeto“(p.124).

É importante ressaltar que a brincadeira transforma-se ao longo do desenvolvimento. No início, os significados dos objetos são subordinados às ações e às suas funções estabelecidas (por exemplo, uma vassoura serve para varrer). Com o desenvolvimento, os significados é que irão gerar ações na relação com os objetos (uma vassoura pode fazer as vezes de um cavalo, ou um trem onde sentam várias crianças, etc). Assim, no brincar, regidas pelo movimento de significar e compreender o mundo, as crianças criam novas relações entre as coisas, subvertem os usos e funções dos objetos cristalizados na cultura dominante. Esse movimento de descontextualização do objeto e reinvenção de papéis sociais, que se opera na brincadeira, provoca a possibilidade das crianças experimentarem-se em lugares variados, diferentes das situações reais e cotidianas que pertencem. Isto favorece o desenvolvimento, entendido como ampliação de perspectivas e diversificação de experiências.

o menino que cavalga sobre um pau e imagina que monta um cavalo, a menina que joga com sua boneca e se crê mãe, as crianças que brincam de ladrões, soldados, marinheiros, todas elas mostram em suas brincadeiras exemplos da mais autêntica e verdadeira criação. Verdade é que seus jogos reproduzem muito do que vêem (…) mas tais elementos de experiência alheia nunca são levados pela criança nas suas brincadeiras como eram na realidade. Não se limitam em suas brincadeiras a recordar situações vividas, mas sim as elaboram criativamente, combinando-as entre si e edificando com elas novas realidades de acordo com suas afeições e necessidades” (Vygotsky, 1987, p.12)

Portanto, na compreensão da produção de linguagem pela criança é fundamental levar em conta a centralidade da produção de significado e o implicamento das diferentes formas de expressão. A significação que se opera na relação entre pensamento e fala precisa do corpo para fortalecer-se. Assim também as primeiras grafias, na ordem do desenho e, posteriormente, da escrita, inscrevem expressões que nascem no movimento, no brincar, no deslocamento do corpo no espaço.

É fundamental ressaltar que palavra e gesto conjugam-se na criança pequena, especialmente na produção do novo, da singularidade. Muitas vezes, o movimento nasce junto com a idéia, e de uma expressão do corpo irrompe um personagem, uma história, um enredo . Por outro lado, a fala no grupo social gera pensamento, ampliando as formas de interação e as possibilidades de organizar as experiências partilhadas. Ao mesmo tempo, o nascimento das grafias conjuga-se aos gestos da criança pequena, como primeiros registros dos movimentos. Juntamente com Vygotsky, entendemos que movimento, palavra, desenho e escrita são possibilidades de compreender o mundo e expressar-se na relação com ele. Daí a íntima relação que têm no desenvolvimento da criança.

o brinquedo de faz-de-conta, o desenho e a escrita devem ser vistos como momentos diferentes de um processo essencialmente unificado de desenvolvimento da linguagem escrita” (Vygotsky, 1989,p.129)

De acordo com o autor, analisando as particularidades da escrita, pode-se afirmar que ela desloca-se do desenho de coisas para o desenho de palavras, ou seja, de um simbolismo de primeira ordem (a denotação de objetos) para um simbolismo de segunda ordem (a denotação da fala). No entanto, a experiência dessa transição não pode ser vista como algo linear e mais evoluído ou bem formado no futuro, ou seja, tendo como campo de performance ideal da criança a representação do som, desligada do objeto. Percebemos que ao desenhar, a criança fala e é como se estivesse organizando no papel o movimento, o fluxo do corpo e do pensamento. Por outro lado, as crianças que usam a escrita como representação da fala, “precisam” do desenho, complementando o que querem dizer com a representação do objeto. A relação íntima entre movimento, objeto e desenho, ou ainda, objeto, desenho e escrita compõe a linguagem da criança.

Ainda, no diálogo com Vygotsky (1989), podemos afirmar que assim como a fala e o brinquedo, a linguagem escrita e a leitura devem ser necessárias à criança, operando no campo da significação do mundo. Portanto, “é necessário que as letras se tornem elementos da vida das crianças, da mesma maneira como, por exemplo, a fala (…) o que se deve fazer é ensinar às crianças a linguagem escrita e não apenas a escrita de letras“(p.134).

Benjamin (1993) abre outra perspectiva sobre a linguagem que contribui no entendimento da priorização de sua dimensão expressiva. Nesta perspectiva, a linguagem promove a emergência da capacidade mimética humana, entendida não como ilusão ou engano, para além da cópia ou representação fidedigna do objeto, mas como possibilidade de produzir semelhanças entre o humano e os objetos ou a natureza.. A “aprendizagem mimética” se dá no prazer em desnudar a relação entre objeto e imagem. Ou seja, há prazer, crescimento e deslocamento no movimento de dar sentido que é gerado na brincadeira de transformar-se nas coisas e misturar-se com elas.

a mímeses designa um processo de aprendizagem específico do homem (e, em particular, das crianças). A aquisição de conhecimento é favorecida pelos aspectos prazerosos do processo(…) o impulso mimético está na raiz do lúdico e do artístico” (Gagnebin, 1987,p.86)

A autonomia da linguagem revela-se na possibilidade de invenção de metáforas, por exemplo, permitindo a descoberta de semelhanças insuspeitas. Assim, a linguagem não só reconhece ou representa o mundo, mas produz semelhanças e possibilita que “aderido” à coisa, o sujeito possa transformar-se no tatear, cheirar, sentir a partir desse lugar. Para Benjamin (apud Gagnebin, 1987), a semelhança independe de uma comparação entre elementos iguais. A atividade mimética sempre é uma mediação simbólica, ela nunca se reduz a uma cópia.

Na experiência do menino- Benjamin, uma forma de concretizar essas idéias:

a criança que se posta atrás do reposteiro se transforma em algo flutuante e branco, num espectro. A mesa sob a qual se acocora é transformada no ídolo de madeira do templo, cujas colunas são as quatro pernas talhadas. E, atrás de uma porta, a criança é a própria porta; é como se a tivesse vestido como um disfarce pesado e, como bruxo, vai enfeitiçar a todos que entrarem desavisadamente” (Benjamin, 1994, p.91)

De acordo com Benjamin (1993), a capacidade somente humana de produzir semelhanças foi sendo transformada com a evolução do homem e as mudanças nas formas de comunicação. Assim, a leitura/escrita através das vísceras, dos astros, dos acasos, onde se presentificavam produções de semelhanças no homem primitivo foram sendo substituídas pela linguagem e pela escrita, produzindo um arquivo de semelhanças extra-sensíveis, onde “o contexto significativo contido nos sons da frase é o fundo do qual emerge o semelhante, num instante, com a velocidade do relâmpago“. (p.132)

Na verdade, a brincadeira da criança, o desenho, a expressão plástica e a escrita são formas de atualização da produção de semelhanças, à medida que destas elaborações brotam possibilidades diversas de significar a realidade vivida.

pelo movimento de seu corpo inteiro, a criança brinca, representa o nome e assim aprende a falar. O movimento da língua só é um caso particular dessa brincadeira, desse jogo. Para as crianças, as palavras não são signos fixados pela convenção, mas primeiramente, sons a serem explorados. Benjamin diz que a criança entra nas palavras como entra em cavernas entre as quais ela cria caminhos estranhos.” (Gagnebin, 1987, p.99)

Dessa forma, entendemos a linguagem como busca de expressão de si e do mundo, busca do semelhante, da compreensão do mundo sem prendê-lo ou oprimi-lo. No caso da escrita e da leitura, para além de ensinar as letras ou fortalecer a dimensão de decodificação de símbolos gráficos, é preciso produzir práticas que possibilitem às crianças mergulharem na dimensão mimética da linguagem, capacidade de produzirem e encontrarem semelhanças entre objetos e representações/apresentações deles, na fala, no desenho, na escrita. Quando as crianças se apropriam da escrita como representação dos sons da fala, o desenho e o corpo continuam como recursos de expressão paralelos e complementares, fundamentais.

Nesta perspectiva, é fundamental o encontro das crianças com textos que as afetem, que provoquem curiosidade, desejo de exploração, enredamento. Ao mesmo tempo, é importante o espaço de expansão e expressão de cada uma, de diferentes formas. Este deve ser um compromisso da Educação Infantil nas experiências de leitura e escrita que propicia .

Poesia como campo de produção expressiva: ampliação das experiências infantis

Podemos afirmar que a linguagem poética guarda semelhança em relação à linguagem da criança pois ambas trazem para o primeiro plano o aspecto material da linguagem, ou seja, suas possibilidades sonoras e imagéticas a serem exploradas.

Por isso, trazer a linguagem poética para o cotidiano da criança significa potencializar o modo de produção inventivo, a capacidade expressiva da linguagem, permitindo o re-encontro da palavra com o movimento, do som com a imagem, muitas vezes enfraquecidos quando tomamos a linguagem puramente como representação, ou a escrita como marca do real, decodificação de som, de modo instrumental.

O poeta infantil José Paulo Paes (1996), colabora na elaboração dessa compreensão, quando afirma que a poesia promove uma intensificação do sentido das palavras, possibilitando:

mostrar a perene novidade da vida e do mundo, atiçar o poder de imaginação das pessoas, libertando-as da mesmice da rotina; fazê-las sentir mais profundamente o significado dos seres e das coisas, estabelecer entre essas correspondências e parentescos inusitados que apontem para uma misteriosa unidade cósmica; ligar entre si o imaginado e o vivido; o sonho e a realidade como partes igualmente importantes de nossa experiência de vida” (Paes, 1996, p.27)

Percebemos uma grande identidade entre nossa compreensão do brincar, falar, desenhar e escrever da criança com o trabalho do poeta, à medida que ambos comprometem-se acima de tudo com o plano do sentido, a relação entre palavra e imagens, palavra e movimento.

Mais do que a rima, a poesia destaca-se pela repetição de sons semelhantes em palavras próximas, pelo ritmo dos versos, comparações e oposições de sentido, ou seja, recursos que dão vivacidade, sugestividade e poder de sedução à linguagem. Mais do que aproximar-se do cotidiano da criança, promovendo relações com a experiência vivida (o que faz a prosa/narrativa), a poesia tende a chamar a atenção da criança para as surpresas que podem estar escondidas na língua.

Trata-se de descobrir novas possibilidades para palavras já conhecidas, explorar caminhos inusitados entre as cavernas-palavras, tal como sugeria Benjamin. Na poesia, é possível dizer algo ao contrário do que é na realidade, criar efeitos novos para elementos já conhecidos, realizar a produção do “novo” como re-criação do “velho”, tal como propõe Vygotsky.

Desta forma, podemos perceber a conexão estreita entre as poesias e a dança, à medida que a leitura de algumas sugere movimentos, e ritmos. Ou, a conexão com produção plástica, à medida que alguns objetos e pinturas sugerem poesias e estas mobilizam produção de imagens.

Enfim,

quando a criança se apropria da linguagem, revelando seu potencial expressivo e criativo, ela rompe com as formas fossilizadas e cristalizadas de seu uso cotidiano, iniciando um diálogo mais profundo entre os limites do conhecimento e da verdade na compreensão do real” (Jobim e Souza, 1994, p.159)

O diálogo da criança com a poesia possibilita essa aventura estética e criativa, pois provoca uma aproximação do belo e das emoções que ele suscita, à medida que as coisas e acontecimentos comuns aparecem de maneira nova e palavras também comuns associam-se de modo imprevisto para gerar efeitos de surpresa, de beleza e de humor.

No intuito de circunscrever uma possível compreensão da poesia, Morin (2002) surge como interlocutor importante, quando afirma a existência de pelo menos duas linguagens em qualquer cultura: uma racional, prática, técnica e outra, simbólica, mítica, mágica. A primeira constrói definições, precisão, apoiando-se sobre a lógica e a objetivação. A segunda, é caracterizada pela metáfora, analogia, conotação, como aberturas às possíveis significações que circundam cada palavra, cada enunciado, revelando a subjetividade. De acordo com o autor, o segundo estado pode ser denominado, estado poético: “o estado poético pode ser produzido pela dança, pelo canto, (…) e, evidentemente, pelo poema” (p. 36).

É fundamental organizar a experiência da criança nesses dois planos, no sentido de que haja circulação e diálogo entre eles. Nesta perspectiva, trazer a poesia para o primeiro plano no cotidiano implica em valorizar a dimensão subjetiva, expressiva e metafórica da linguagem.

A experiência com as poesias na Casa Monte Alegre

Para mudá-la [a sociedade] são necessários homens criativos que saibam usar sua imaginação… desenvolvam …. a criatividade de todos para mudar o mundo.” (Gianni Rodari, 1920)

Rodari, nesta citação, faz-nos lembrar que a criatividade é algo inerente aos homens e está sempre presente no desenvolvimento humano e social. Homem e mundo são infinitamente grandes, complexos. Como desbravá-los?! Os mundos que estão próximos a nós, aqueles que a nossa imaginação e ação habilitam-se a criar, estes sim, possuem tamanhos e formas que podemos habitar. Estão ao alcance de nossas mãos, sonhos, nossa existência.

No início de 2003, após as folias carnavalescas, investigamos que tipo de texto se aproximava mais das necessidades do Grupo Gelo.

Percebíamos que o movimento do grupo apontava para padronizações. Crianças de quatro a seis anos descobrindo-se meninos e meninas. Pareciam necessitar marcar igualdades e diferenças. Nesse sentido, o ser igual, o fazer igual, o estar igual marcava a identidade de cada um e muitas possibilidades de estarem juntos, de serem reconhecidos. Desejavam ter os mesmos brinquedos, contar histórias parecidas, vestir-se de modo semelhante. O fazer sempre igual ganhava presença nos desenhos das crianças, com muitas bonecas compridas, sol, cores, robôs; também nas falas, onde bastava uma criança responder para que todas as demais dessem a mesma resposta. Verificamos a presença do sentimento de pertencimento, chave mestre das e nas relações sociais , sendo experienciado pelas crianças.

O sentimento de pertencimento funciona como um mecanismo utilizado por pessoas e instituições (máquina social) para referenciarem-se socialmente. Pertencer sugere a possibilidade de ser nomeado – fazer parte. É um movimento presente no processo do desenvolvimento humano e social. Porém, fazer da identificação a única forma para estar no grupo, deslocando-a para uma repetição contínua, favorecia um empobrecer das potencialidades de cada um.

a questão fundamental é como evitar que as crianças se prendam às semióticas dominantes a ponto de perder, muito cedo, toda e qualquer liberdade de expressão.” (Jobim e Souza, 1994, p.22)

O desafio, neste momento, era poder viver as igualdades abrindo espaços para que as crianças pudessem se encontrar nas diferentes possibilidades de expressão de cada uma, visto que vivemos numa sociedade que facilita o processo de massificação e identificação, à medida que “está implicada com o ideário de uma igualdade, empobrecida nas próprias possibilidades de SER e encantada pela riqueza do TER.” (VIEIRA, 2001, p.30).

Compartilhamos com Deleuze e Guatarri (apud Jobim e Souza, 2000) quando apontam a existência de processos heterogêneos no seio do assujeitamento da subjetividade: processos criativos que produzem desvio, diferença na mesquinharia do “sempre igual”.

A partir da necessidade de instigar o grupo a buscar movimentos de diferenciação, abrindo espaço para que a singularidade de cada um fosse fomentada, pensamos na poesia como geradora de possibilidades. Por que a poesia? Pela multiplicidade de imagens que evoca, pelo seu tangenciamento com o universo da sensibilidade, da emoção, tão particulares a cada um, e tão subjetivos! Seria com certeza um convite a que a diferença entrasse em nosso cotidiano.

A poesia é um texto por si, sem explicação. Atua na nossa sensação e emoção. Ela nos leva para outros mundos novos e desconhecidos, encantando-nos. Traz para o primeiro plano a metáfora, a subjetividade, a criação.

Assim, esse gênero parecia garantir, pela sua forma, sonoridade, imagens a possibilidade de um encontro único, com cada corpo, cada criança. Um encontro com os desenhos, com as palavras, com os sons produzidos e sentidos por cada um. Ao ouvirmos uma poesia, compartilhamos risos, sustos, contentamento, movimento, palavras, sonhos, expressões singulares de nossa história de vida.

Desta forma, a diferença ia sendo encontrada na emoção, nos afetos que nos marcavam:

Eu gosto da do cavalo!

Eu acho que é Manuel Bandeira. Eu adoro ele!

Sorrisos. Olhares ao longe. Corpos bailando, trotando, as imagens poéticas convidavam ao movimento e à expressão plástica.

Apostando na diferença, na criatividade e nas paixões evocadas pelas poesias, fomos ao encontro de Cecília Meireles, Carlos Drumond de Andrade, Manuel Bandeira, Vinício de Moraes, Henriqueta Lisboa, Vicente de Carvalho, e muitos outros.

Com a Cecília “descobrimos” bailarinas e bailarinos. A poesia “A Bailarina” conquistava os olhares, ouvidos, corpos desejantes de movimento e expressão.

Já conhecida por todos, esta poesia permitiu que as meninas viajassem pelo território das bailarinas cada vez que era recitada. Elas iam para o centro da sala, ou onde houvesse espaço e….

“Esta menina
Tão pequenina
Quer ser bailarina
Não conhece nem dó, nem ré,
Mas sabe ficar na ponta do pé…”

Um momento mágico! Meninas entregues aos encantos e leveza de serem bailarinas. Meninos envolvidos pela sutileza dos movimentos das meninas – bailarinas.

Um dia, uma menina que acabara de ser bailarina comenta:

Lembra? Minha mãe veio aqui na escola de bailarina!?

É verdade. Isso aconteceu há uns dois anos atrás, quando sua mãe tinha presenteado o grupo com uma apresentação de bailarina. Deste encontro tínhamos as nossas lembranças, emoções que ficaram, fotos e um CD ( gravação de uma música instrumental editada especialmente para a apresentação).

Colocamos a música ao fundo baixinho e recitamos mais uma vez a poesia de “Cecília”. Esse encontro da poesia com a música levou todas as meninas ao centro. E como num desejo latente…. surgiram dançantes bailarinas. Os meninos não conseguiram impedir seus corpos pulsantes (cheios de regras e saberes masculinizados) de entregarem-se ao encontro.

Música, poesia. Adultos e crianças experimentavam suas sensações e criavam na liberdade e singularidade dos corpos, expressões únicas, inigualáveis, bailando pela sala afora.

Trazer a mãe bailarina que esteve na CMA para o presente, junto com a bailarina da Cecília Meirelles era levar em conta as histórias que tecemos, que nos constituem e potencializar as relações que estabelecemos como geradoras de saberes.

Uma poesia tão querida e experimentada precisou ganhar um novo corpo, um corpo coletivo. Assim, num movimento de registrarmos algo significativo para o grupo, o educador escreveu-a em conjunto com as crianças. Desse modo, as crianças estavam vivendo uma das funções vitais da escrita: registrar e guardar nossas lembranças. Nesse sentido, acreditamos que as funções da escrita não devem ser didatizadas, mas sim, vivenciadas em situações reais de uso, que possam favorecer a que a criança compreenda seu sentido.

Esta escrita coletiva contou com a participação do grupo na reflexão sobre as letras necessárias para escrever a poesia. Assim, todos juntos num mesão, deram início à discussão:

– Qual é o título? (educador)
– A bailarina. (crianças)

A escrita coletiva abrange os diferentes saberes das crianças sobre a mesma. Neste momento, estávamos mais atentas ao reconhecimento das letras e das relações entre sons e letras. Por isso, as perguntas ficavam em torno de: com qual letra começa, termina? Já escrevemos essa palavra, onde ela está? No decorrer do texto algumas palavras, como “bailarina, pé, menina, sorrir”… foram sendo escolhidas pelas crianças para que fizessem desenhos relativos a elas.

Cecília Meireles encanta as crianças com muitas poesias. Uma outra que sobressaiu-se no grupo foi, “Ou isto ou Aquilo”. Ao lermos a poesia, partimos para a experiência de criar o nosso próprio Isto ou Aquilo. Esta poesia nos fazia sonhar, viajar pelos caminhos da imaginação num universo de possibilidades (ou se tem chuva, ou se tem sol, ou se tem sol e não se tem chuva….).

A primeira proposta era brincar com as crianças com esta idéia do Ou isso ou Aquilo. Muitas composições foram surgindo e observamos que, num primeiro momento o “aquilo” surgia como a negação do que fora dito antes (ou como carne ou não como carne, ou vou no parquinho ou não vou no parquinho…). Relemos a poesia outras vezes e cada vez que fazíamos esta releitura, abria-se um espaço para brincarmos de ou isto ou aquilo, que acabou se tornando uma brincadeira no cotidiano das crianças (ou vamos brincar na casinha ou vamos brincar no terraço, ou vamos desenhar ou vamos pintar…).

Propomos então a criação da nossa própria poesia. Tendo o professor como intermediador, fomos pensando em diferentes possibilidades: -Se você não vai ao parquinho, onde você pode ir? Se você não come carne, o que você pode comer? Assim, foi-se construindo a compreensão de uma nova lógica, de uma nova estrutura lingüística que permitia brincar com a idéia da contradição, da possibilidade. Neste momento o professor assume o papel de escriba do grupo, registrando a idéia que cada criança imaginou. Neste instante a poesia ganha um corpo, uma forma.

Ou se come carne, ou se come peixe
Ou vai na praia, ou vai na pracinha
Ou anda de carro, ou anda a pé

A articulação da criação poética com outras formas de produção se fazia presente em cada construção do novo. Nesta perspectiva, durante o processo de criação do nosso Ou Isto ou Aquilo, as idéias foram ganhando formas com desenhos que vinham não só dar vida à poesia, mas serviam também como suporte para compreensão desta nova lógica que se estabelecia.

Nos encontramos também com Carlos Drummond de Andrade, que fez todo mundo “tropeçar, cair, pular”, com “Uma pedra no meio do caminho”.

O brincar das palavras desta poesia levou-nos para muitos caminhos. Com ela e seus jogos de palavras, experimentamos o efeito das palavras sobre o imaginário de cada um. Assim, os registros individuais nos cadernos tiveram muita inventividade inspirados na pedra e no caminho.

– Meu caminho é de casas.
– Um caminho de pedras.

Uma pedra preciosa surge no meio de um dos caminhos, cujo nome recebido foi o mesmo de uma das mães das crianças:

– É a Rubi!
– Então Rubi, sua mãe, é pedra preciosa.

Um rock-animal, brinquedo-brinde de uma revista infantil, surge sobre o caderno, ao sair do bolso de uma criança. Este brinquedo tem forma de uma pedra que ao ser montada transforma-se num animal. Brinquedo que caiu no “modismo consumista atual”, sendo adquirida semanalmente por todos os meninos e algumas meninas do grupo.

A possibilidade do encontro de um brinquedo marcado pelas estratégias do mercado de consumo (rock animal) com o universo literário da poesia dá a este objeto um novo lugar. Muitas brincadeiras surgem relacionando esta pedra, do rock-animal, com a pedra do poema do Drumond. Momento de risadas, comentários e deslocamento do objeto. Ele desvia do instituído até então, descontextualizando-se e abrindo um caminho de criação do novo, de reconstrução através de um encontro entre conhecimento, saberes e outras possibilidades.

“E agora José?” Com Carlos Drummond e muitos outros, prosseguimos, percorrendo diversos autores e íamos descobrindo seus nomes, suas poesias, desenhos.

– Vicente de Carvalho! É igual ao meu nome.
– Em homenagem a ele, há um bairro na nossa cidade chamado Vicente de Carvalho.
– Cecília é igual a Cecília. Nome da nossa estagiária.

A presença da leitura de diferentes autores, nomeando-os em nosso cotidiano, permitiu uma familiarização com suas formas e estilos variados.

Com significativos conhecimentos sobre as poesias, os desenhos por elas inspirados foram surgindo com irreverências, diferenças e muita singularidade.

No meio das brincadeiras, as dramatizações das poesias. Com muita maquiagem, panos que se transformavam em saias, enfeites e muito mais que a imaginação pode alcançar.

Estávamos alimentados: dançamos, escutamos, desenhamos, imaginamos, registramos, desbravamos o mundo das poesias. Um novo desafio surgia: criar nossas próprias poesias.

Ser poeta. Poder experimentar as palavras com suas sonoridades, combinações, distorções. À princípio, as construções coletivas aconteceram no entremear de idéias, rimas, risos, sonhos.

Criar coletivamente é garantir que cada criança seja autora de uma única obra, de um momento da nossa história. Foi assim que, inspirados pela sonoridade das poesias com rimas, especialmente a do Cavalo, de Manoel Bandeira, construímos coletivamente a poesia SEREIA.

Depois, mergulhados ainda na onda da criação coletiva, registramos um pouco da nossa intimidade com a poesia dos Nomes Malucos. Uma delícia! Nesta proposta o objetivo central era criar rimas a partir dos nomes das crianças do grupo. O diferencial, nesta produção, foi a relação das crianças com o outro. A escolha das palavras foi feita não apenas tendo em vista a rima, mas, também, buscando palavras cujo sentido falasse do outro, ressaltando algum aspecto peculiar de sua presença/personalidade/história. Para rimar com “Marcos” foram buscar os “barcos” que, como ele, vivem viajando. A palavra foi ganhando assim a dupla função de dizer do outro e ao mesmo tempo, brincar com os sons semelhantes. Não basta rimar, é preciso significar! Saímos da reflexão sobre a forma da língua para alcançar suas possibilidades de expressão, comunicação e mobilização afetiva.

Fizemos também a experiência de propor a produção de poesias a partir das pinturas feitas pelas crianças. Experimentando as cores, as tintas, um papel “branquinho”, nasceram pinturas evocadoras de imagens e sonoridades.

“A chuva colorida”, “Branquinho”, “O monstro”, “O colorido”, “O fogo”, produções que emergem dos mundos suscitados pelo material plástico. Transformar pinturas em poesias, com nomes, rimas, contos, imagens, foi desafio vivido com intensidade.

As poesias criadas a partir das pinturas infantis foram a princípio, escritas pelo o adulto, para garantir a produção textual das crianças. O que possibilitou uma atenção única, por parte das crianças, para as idéias, sentimentos, sem que fosse necessário pensar nas letras e suas combinações, necessárias para a escrita. Posteriormente, resolvemos fazer um livro com todas as poesias e desenhos das crianças. Para a realização deste livro, eles reescreveram individualmente seus textos, com o apoio do adulto e com estratégias apropriadas para os conhecimentos que cada um tinha sobre a escrita.

Por exemplo, as crianças que já escrevia alfabeticamente puderam reescrever seus textos a partir da leitura do adulto; para aqueles que estavam descobrindo os espaços entre as palavras, os textos foram escritos de modo a refletir sobre a quantidade de palavras na frase em questão.

Poesias de super-heróis, super-homem, de gente, vento, de saberes vão surgindo no nosso cotidiano, dando formas a muitos desenhos e textos.

A riqueza em produzir poesias diante de brinquedos, pinturas, desejos, imaginação, sons garantiu uma experiência diversificada em sentidos, relações, conhecimentos e muita criatividade. Uma possibilidade de saborearmos novidades nos encontros e desencontros que vivemos, relacionando-as com os nossos próprios mundos.
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atenção: a bibliografia do trabalho não foi incluída propositalmente.
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Fontes:
Associação de Leitura do Brasil = http://www.alb.com.br/portal.html
Imagem = http://www.alobebe.com.br

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Arquivado em Sopa de Letras

Joaquim Cardozo (O Relógio)

Quem é que sobe as escadas
Batendo o liso degrau?
Marcando o surdo compasso
Com uma perna de pau?

Quem é que tosse baixinho
Na penumbra da ante-sala?
Por que resmunga sozinho?
Por que não cospe e não fala?

Por que dois vermes sombrios
Passando na face morta?
E o mesmo sopro contínuo
Na frincha daquela porta?

Da velha parede triste
No musgo roçar macio:
São horas leves e tenras
Nascendo do solo frio.

Um punhal feriu o espaço…
E o alvo sangue a gotejar;
Deste sangue os meus cabelos
Pela vida hão de sangrar.

Todos os grilos calaram
Só o silêncio assobia;
Parece que o tempo passa
Com sua capa vazia.

O tempo enfim cristaliza
Em dimensão natural;
Mas há demônios que arpejam
Na aresta do seu cristal.
No tempo pulverizado
Há cinza também da morte:
Estão serrando no escuro
As tábuas da minha sorte.

Fontes:
http://www.joaquimcardozo.com

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Antonio Cândido (Letras e Idéias no Período Colonial) Parte 4, final


A geração que fez os estudos em Coimbra, depois da Reforma Pombalina de 1759, encontrou oportunidades novas de formação científica. Os brasileiros as agarraram com notável sofreguidão, sendo proporcionalmente grande o número dos que seguiram cursos de matemática, ciências naturais e medicina. Além disso, começam a ir segui-los em outras universidades européias, como Edimburgo e Montpellier, alargando os horizontes mentais. Não nos esqueçamos que eram médicos formados nesta Jacinto José da Silva, um dos principais acusados no processo da Sociedade Literária, e Manuel de Arruda Câmara, mentor dos liberais pernambucanos, enquanto um dos ideadores da Inconfidência Mineira, José Álvares Maciel, estudara ciências naturais e química, em Coimbra e na Inglaterra.

Ocorre então um fato ainda não bem estudado — o da quantidade de jovens bem dotados e de boa formação que, não obstante, se perdem para a vida científica, ou não tiram dela os frutos possíveis. É que a multiplicidade das tarefas que então se apresentam os solicita para outros rumos, enquanto a pobreza do meio condena a sua atividade ao empirismo, ou ao abafamento pela falta de repercussão. Isto, não só para os que trabalham na pátria, mas ainda para os que servem na metrópole. O motivo se prende em parte à própria estrutura social, pois a inexistência de estratos intermédios entre o homem culto e o homem comum, bem como a falta de preparação dos estratos superiores, os forçava às posições de liderança administrativa ou profissional. Eram por assim dizer aspirados pelos postos de responsabilidade, quaisquer que eles fossem — vendo-se o mesmo homem ser oficial, professor, escritor e político; ou desembargador, químico e administrador. Outros, que logravam ficar nos limites da sua especialidade, viam os seus trabalhos votados ao esquecimento, inéditos por desinteresse do meio ou dispersos pela desídia e desonestidade.

De qualquer modo, representam um triunfo relativo das Luzes, e muitos marcaram o seu tempo. Poucas vezes o Brasil terá produzido, no espaço dum quarto de século, numa população livre que talvez não atingisse dois milhões, na absoluta maioria analfabetos, homens da habilitação científica de Alexandre Rodrigues Ferreira, Francisco José de Lacerda e Almeida, José Bonifácio de Andrada e Silva, Francisco de Melo Franco, José Vieira Couto, Manuel Ferreira da Câmara de Bittencourt e Sá, seu irmão José de Sá Bittencourt Câmara, José Mariano da Conceição Veloso, Leandro do Sacramento — para citar os de maior porte, deixando fora uma excelente segunda linha de estudiosos e divulgadores, que se contam por dezenas.

Todos, ou quase todos estes homens tinham, como era próprio às concepções do tempo, uma noção muito civil da atividade científica, desejando que ela revertesse imediatamente em benefício da sociedade, como proclamavam tanto um Rodrigues Ferreira no último quartel do século XVIII, quanto o matemático Manuel Ferreira de Araújo Guimarães em 1813, na apresentação da sua revista O Patriota. A eles devemos os primeiros reconhecimentos sistemáticos do território, em larga escala, seja do ponto de vista geodésico (Lacerda e Almeida), seja zoológico e etnográfico (Rodrigues Ferreira), seja botânico (Veloso, Leandro), bem como as primeiras tentativas de exploração e utilização científica das riquezas minerais (Vieira Couto, Câmara). Entre eles se recrutaram alguns dos líderes mais importantes da Independência e do Primeiro Reinado, como o naturalista José Bonifácio, os matemáticos Vilela Barbosa e Ribeiro de Resende, pois muitos deles passaram (consequência natural da filosofia das Luzes, e solicitação de um meio pobre em homens capazes) da ciência à política, da especulação à administração.

Ao seu lado avulta um segundo grupo (a que muitos deles pertencem igualmente), também formado sob o influxo das reformas do grande marquês: são os publicistas, estudiosos da realidade social, doutrinadores dos problemas por ela apresentados, como José da Silva Lisboa (1756-1835), divulgador da economia liberal entre nós, porta-voz dos interesses comerciais da burguesia litorânea; ou Hipólito José da Costa Pereira (1774-1823), o nosso primeiro jornalista, que a partir de 1808 empreendeu no Correio Brasiliense, publicado em Londres, uma esclarecida campanha a favor da modernização da vida brasileira, sugerindo uma série de medidas do maior alcance, como responsabilidade dos governadores, representação provincial, abolição do cativeiro, imigração de artífices e técnicos, fundação da Universidade, transferência da capital para o interior.

Figura de relevo foi a de D. José Joaquim da Cunha de Azeredo Coutinho (1743-1821), que talvez encarne como ninguém as tendências características da nossa Ilustração — ao mesmo tempo religiosa e racional, passadista e progressista, realista e utópica, misturando as influências dos filósofos ao policiamento clerical. A sua obra de educador no famoso Seminário de Olinda é considerada o marco do ensino moderno entre nós, enquanto o Ensaio econômico (1794) entra pelo devaneio e o plano salvador (que tanto nos caracteriza daí por diante), procurando associar o índio ao progresso graças ao aproveitamento das suas aptidões naturais, canalizando-as para a navegação, e esta para o comércio do sal, reputada fonte revolucionadora de riqueza.

Com este bispo ilustre, tocamos num terceiro grupo intelectual que desempenhou papel decisivo nas nossas Luzes e sua aplicação ao plano político: os sacerdotes liberais, diretamente ligados à preparação dos movimentos autonomistas. Núcleo fundamental foi, por exemplo, o que se reuniu em Pernambuco à volta do padre Manuel de Arruda Câmara (1752-1810), provavelmente de caráter maçônico — o chamado Areópago de Itambé — e se prolongou através do proselitismo do padre João Ribeiro Pessoa, seu discípulo, formando OS quadros das rebeliões de 1817 e 1824, a que se ligam outros tonsurados liberais: os padres Roma e Alencar; os frades Miguelinho e Joaquim do Amor Divino Caneca (1779-1825), este, panfletário e jornalista de extraordinário vigor, teórico do regionalismo pernambucano, fuzilado pelo seu papel na Confederação do Equador.

Os oradores sacros se desenvolveram então em grande relevo, graças à paixão de D. João VI pelos sermões; e muitos deles, além de contribuírem para formar o gosto literário, usaram o púlpito como tribuna de propaganda liberal, sobretudo na preparação final da Independência e no Primeiro Reinado, sendo muitos deles maçons praticantes, como Januário da Cunha Barbosa (1780-1846), companheiro de Gonçalves Ledo no jornal Revérbero Constitucional. Outros, como os frades Sampaio e Monte Alverne, chegaram a exercer acerbamente o direito de crítica em relação às tendências autoritárias do primeiro imperador. Assim, pela mistura de devoção e liberalismo, o clero brasileiro do primeiro quartel do século XIX — classe culta por excelência — encarnou construtivamente alguns aspectos peculiares da nossa Época das Luzes, ardente e contraditória.

O quarto grupo nos traz de volta aos escritores propriamente ditos, os literatos, que então eram quase exclusivamente poetas. Entre 1750 e 1800 nascem umas duas gerações, unificadas em grande parte por caracteres comuns e, no conjunto, nitidamente inferiores às precedentes. Árcades, eles ainda o são; mas empedernidos, usando fórmulas que muitos deles começam a pôr em dúvida. Como recebem algumas influências diversas, ampliam, por outro lado, as preocupações, ou modificam o rumo com que elas antes se manifestavam. É o caso de certo naturismo didático ou meditativo, que aprendem no inglês Thomson, nos franceses Saint-Lambert e Delille, e ocorre nalguns versos de José Bonifácio (1765-1837) e Francisco Vilela Barbosa (1769-1846). E se este não sai, poeticamente falando, do âmbito setecentista, o primeira chega a interessar-se por Walter Scott e Byron, enquanto sua boa formação de helenista o conduz a traduções e imitações, reveladoras de um Neoclassicismo diferente do que, entre os árcades anteriores, decorria da leitura assídua de autores em língua latina.

Se um Bento de Figueiredo Tenreiro Aranha (1769-1811) é continuador puro e simples dos aspectos neoquinhentistas da Arcádia, José Elói Ottoni (1764-1851) opta decididamente pelas cadências melodiosas da poética bocagiana, usando o decassílabo sáfico (acentuado na 4a, 8a e 10a sílabas) de um modo bastante próximo ao dos futuros românticos.

Estes costumavam dizer de dois outros poetas — padre Antônio Pereira de Sousa Caldas (1762-1814) e frei Francisco de São Carlos (1763-1829) — que haviam sido seus precursores, por se terem aplicado à poesia religiosa em detrimento das sugestões mitológicas. A opinião é superficial, ao menos quanto ao segundo, e se explica pelo desejo de criar uma genealogia literária, pois não apenas os temas religiosos foram largamente versados na tradição portuguesa, como, estética e ideologicamente, o poema Assunção, de São Carlos, é prolongamento do nativismo ornamental de outros poetas nossos (Itaparica, Durão). É aliás uma obra frouxa, sem inspiração, prejudicada pela monotonia fácil dos decassílabos rimados em parelhas. Mas como foi composta no tempo da vinda de D. João VI, manteve muito mais que os anteriores, o senso de integração nacional, abrangendo todo o país na sua louvação ingênua e descosida.

A maior destas figuras literárias é Sousa Caldas, inspirado na intimidade pelas idéias de Rousseau, que o levaram à humilhação dum auto-de-fé penitenciário e à reclusão em convento. Mas o seu liberalismo era acompanhado de fé igualmente viva, que o fez tomar ordens sacras aos trinta anos e destruir quase todas as poesias profanas que compusera. Daí por diante escreveu poemas sagrados, duros, corretos, fastidiosos — e traduziu com mão bem mais inspirada a primeira parte dos Salmos de Davi. Mas permaneceu fiel as idéias, sempre suspeito às autoridades. Por altura de 1812-1813 redigiu uma série de ensaios político-morais sob a forma de cartas, de que infelizmente restam apenas cinco, para amostra do quanto perdemos. Elas manifestam ousadia e penetração, versando a liberdade de pensamento e as relações da Igreja com o Estado, num molde de avançado radicalismo. Já em 1791 escrevera uma admirável carta burlesca, em prosa e verso, alternadamente, sugerindo atitude mais adequada ao homem moderno, inclusive repúdio à imitação servil da antiguidade e à tirania dos clássicos no ensino.

Provavelmente por influência de Sousa Caldas — que admirava e cujo epitáfio redigiu — Elói Ottoni se dedicou a traduzir textos sagrados, publicando os Provérbios (1815) e deixando inédito o Livro de Jó. Note-se a preocupação destes poetas com o Velho Testamento — que seria largamente utilizado no Romantismo — definindo um universo religioso diverso da piedade rotineira que São Carlos representa.
Em 1813, o matemático Araújo Guimarães (1777-1838) fundou no Rio O Patriota, que durou até o ano seguinte e foi a primeira revista de cultura a funcionar regularmente entre nós, estabelecendo inclusive o padrão que regeria as outras pelo século afora: trabalhos de ciência pura e aplicada ao lado de memórias literárias e históricas, traduções, poemas, notícias. Como diretriz, o empenho em difundir a cultura a bem do progresso nacional.

O Patriota publicou versos de Tomás Antônio Gonzaga, Cláudio Manuel da Costa, Silva Alvarenga. Dentre os colaboradores contemporâneos, sobressaiu, com a inicial B. em oito artigos de ciência aplicada, Domingos Borges de Barros (1779-1855), árcade influenciado pelos franceses, sobretudo Parny e Delille, que encontrou a certa altura uma tonalidade pré-romântica de melancolia e meditação, redimindo a banalidade de uma obra medíocre tanto na parte frívola quanto na patética, esta representada por um poema fúnebre sobre a morte do filho, Os túmulos (1825). Com José da Natividade Saldanha (1795-1830) — tipo curioso de agitador liberal, exilado a partir de 1824, — chegamos ao fim da poesia brasileira anterior ao Romantismo, no que ela tem de aproveitável. É um árcade meticuloso, nas obras líricas e nas patrióticas, mostrando que o civismo incrementava e consolidava a diretriz neoclássica, em virtude do apelo constante aos modelos romanos. Maior agitação interior e claras premonições de Romantismo encontramos nos sermões do referido frei Francisco de Monte Alverne (1784-1857), que sofreu a influência de Chateaubriand e manifestou pela primeira vez, entre nós, aquele sentimento religioso simultaneamente espetacular e langue, típico dos românticos, parecendo menos devoção que ensejo de emoção pessoal. Apesar da pompa convencional e da monotonia nas idéias, muitos dos seus discursos ainda resistem hoje à leitura, permitindo avaliar o fascínio que exerceu sobre os contemporâneos.
* * *
As letras e idéias no Brasil colonial se ordenam, pois, com certa coerência, quando encaradas segundo as grandes diretrizes que as regeram. Em ambas coexistiram a pura pesquisa intelectual e artística, e uma preocupação crescente pela superação do estatuto colonial. Esse pendor, favorecido pela concepção ilustrada da inteligência a partir da segunda metade do século XVIII, permitiu a precipitação rápida da consciência nacional durante a fase joanina, fornecendo bases para o desenvolvimento mental da nação independente.

Fonte:
CANDIDO, Antonio. Literatura e Sociedade. 9. ed. RJ: Ouro Sobre Azul, 2006.

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Casa do Poeta de Canoas (Carta aos Sócios)

Carta aos sócios

Canoas, 30/07/2010.

Prezado(a) Senhor(a),

A Casa do Poeta de Canoas, ao longo de seus quase oito anos de trabalho, conquistas e realizações, vem crescendo em importância e prestígio no cenário cultural de nossa cidade e nos mais diversos recantos de âmbito literário. Para firmarmos tal posição é imprescindível que possua regularidade documental e participação efetiva de todos os membros.

Assim, levamos ao conhecimento de Vª. Sª. que a Casa do Poeta de Canoas está procedendo à atualização do cadastro dos associados. Para tanto, solicitamos que os interessados em permanecer no quadro de Associados compareçam às reuniões para inteirar-se do andamento da Entidade, conhecer e opinar sobre questões importantes relacionadas aos assuntos do interesse de todos e participar ativamente dos projetos e das atividades em realização.

Outrossim, enviamos em anexo o formulário de atualização cadastral, (necessário preencher todos os campos com letra legível) anexar cópia de Cédula de Identidade, de CPF e de comprovante de residência no nome do associado (pode ser de correspondência) e uma foto 3×4 atual Assinar no local o proposto. (Caso enviar por e-mail, escanear e enviar a ficha preenchida, com foto e assinatura. Também escanear e enviar comprovante de residência e RG).

Os associados que não devolverem as fichas preenchidas no prazo de 30 dias a contar da data de recebimento, serão considerados automaticamente excluídos, bem como os que, embora devolvam a ficha não regularizem inadimplência de anuidade porventura existente (referente ao exercício de 2009/2010), conforme Direitos e deveres constantes do Estatuto.

Salientamos que as mensalidades pagas até 30 de agosto permanecem com valor de R$ 5,00 (cinco reais), valendo isto também para quitar antecipadamente as mensalidades relativas aos meses subsequentes de 2010; e a partir de 1º de julho a mensalidade passará a ser de R$ 10,00.

Honrados com o seu interesse em permanecer no nosso quadro de associados, firmamo-nos com particular apreço e distinta consideração.

Atenciosamente,

Nelsi Inês Urnau
Secretaria
Maria Santos Rigo
Presidente

A Ficha Cadastral pode ser obtida em http://sites.google.com/site/pavilhaoliterario/Home/Cartaaoss%C3%B3ciosdaCPC.doc?attredirects=0&d=1

Fonte:
Casa do Poeta de Canoas

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Trova 165 – Héron Patrício (SP)

Imagem criada por Silvares

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Baú de Trovas

Ando perdido a buscar-te
e busco, em vão, te esquecer…
Tenho temor de alcançar-te,
por medo de te perder!
ALBANO LOPES DE ALMEIDA

Tal como, quando o sol nasce,
somem-se logo as estrelas,
quando surge a tua face,
as outras… quem pode vê-las?
ANTÔNIO SALES

Saudade é coisa que a gente
não explica nem traduz;
faz do passado o presente
e traz sombras, sendo luz.
COLOMBINA

Quem seus segredos revela,
sem pensar, a qualquer um,
é porteira sem tramela,
não tem segredo nenhum.
DURVAL MENDONÇA

Por mais que nos fira e doa,
a saudade um bem nos faz…
É o resto da coisa boa
que o tempo deixou pra trás!
GERALDO GUIMARÃES

Não foste a minha metade,
pois jamais me deste um “sim”…
Mas fizeste que a saudade
fosse a metade de mim.
JOSÉ MARIA M. DE ARAÚJO

Verdes anos são riquezas,
milionária é a mocidade…
A velhice é pobre e vive
das esmolas da saudade!
JOÃO MARTINS DE ALMEIDA

Nesta vida malfadada,
é bem melhor se viver
merecendo sem ter nada
do que ter sem merecer…
JOSUÉ TABIRA DA SILVA

O mar que geme e palpita
no seu tormento profundo
é uma lágrima infinita
que Deus chorou sobre o mundo!
LILINHA FERNANDES

A trova, quando tem alma,
até parece oração:
alivia e traz a calma
às dores do coração…
LINDOURO GOMES

Saudade quase se explica
nesta trova que te dou:
saudade é tudo que fica
daquilo que não ficou.
LUIZ OTÁVIO

Ah se eu pudesse saber
qual a mulher que ele quer…
Que não iria eu fazer
para ser essa mulher?
MAGDALENA LÉA

Ei-lo, de todos os casos,
o mais estranho do mundo:
– como nuns olhos tão rasos
cabe um olhar tão profundo?
PEREIRA DA SILVA

Tudo tão fácil, tão justo,
tão perto o nosso desejo,
e todavia que custo
para a permuta de um beijo!
SERAFIM FRANÇA

Mais trovas na Revista Virtual Mensal Trovia, de Antonio Augusto de Assis, em http://www.academiadeletrasdemaringa.com.br/?page_id=2634

Fonte:
Trovia – Ano 11 – nº. 127 – julho de 2010

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Silviah Carvalho (O Poeta)

É aquele que ama um pouco mais,
E nunca ama por amar
E sonha um pouco mais, voa um pouco mais alto
E um pouco mais longe…

Chega onde poucos conseguem chegar
Entra nos labirintos da mente
Conhece o passado e presente
Deduz o futuro com tanta exatidão
Que parece viver um passo a frente

Nele existe um pouco mais de emoção
Um pouco mais de atenção
Um pouco mais de alegria
E um pouco mais de solidão

Um pouco mais de sinceridade
Coisa pouca dentro de muita gente
Um pouco mais da louca igualdade
Que o faz assim, tão diferente

Ele tem um pouco mais de quase tudo
Guardado dentro da mente
De tudo faz um poema, revela tudo que sente

Assim é o poeta
Ama sem ser amado; espera sem ser esperado
E muitas vezes, morre abandonado

Por vezes, só depois da morte
Tem seus poemas lembrados…

Fonte:
Colaboração da Poetisa

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Joaquim Cardozo (Os Anjos da Paz)

Aos mortos de Lídice e de Coventry
Aos mortos de Hiroshima e Nagasaki

Serão os anjos da paz
Estes seres nebulosos
Surgidos da noite enorme
– Noite de luto e mortalha. . .

Vestidos de dor, manchados
Da lama de terra e sangue
Que há nos campos de batalha?
Serão os anjos da paz?

Eles vieram da noite
No sopro da tempestade
Trazendo nas vestes negras
Do lado do coração
Uma camélia tão branca
De um branco muito mais branco
Que as asas de uma ave branca
Que as asas de uma ave mansa
Passando na claridade
Num vôo só de esperança
Sem sombra deixar no chão.

Mas eles têm sobre o peito
Têm sobre o peito a couraça
Feita de ferro e marfim. . .
Feita do plasma candente
Que restringe e que amordaça. . .
Feita de fluidos ardentes:
Matéria que cristaliza
Na saliva das serpentes.

Serão os anjos da paz
Estes seres nebulosos
Surgidos na noite enorme?

Porque vieram de longe
Da mais distante paisagem,
Porque solenes chegaram
De além das nuvens, de além
Dos ninhos da ventania,
Não se pense, não se diga
Que trazem de Deus mensagem,
Que são anúncios de aurora,
Que os seus cantos são consolos
São divinos de harmonia.

Porque do rosto arrancaram
A velha e sinistra máscara
De algozes petrificados
E sobre o rosto colaram
A doce e ferida face
De mortos purificados
Não são menos as reservas
De rudes conquistadores
Não são menos as relíquias
Dos injustos, dos impróprios,
Dos de sempre vencedores.

Estes seres nebulosos
Que passam nos ares mortos
Entre o fumo e o sol do incêndio
Como estranhos meteoros
Não são os anjos da paz.

Soldado desconhecido
Cinza de carne e de terra
Duro minério sofrido
Planta do amor e da guerra
Soldado desconhecido
Escuro soldado pobre
Agora mostra o teu rosto
Agora limpa os teus olhos
Da seca espuma de sangue
Que toda a face te cobre.

Soldado desconhecido
Escuro soldado pobre
Afasta a nuvem de sono
Com que a morte te humilhou
Desfaz o véu de vertigem
Que o céu das almas nublou
Verás então que estes anjos
Agora os ares rompendo
Em luz de sonho e de amor
São aqueles mesmos fantasmas
As mesmas aves sedentas
Que em longos tempos antigos
Sempre o teu corpo rondaram
Pelo calor do teu sangue
Pelo sal de teu suor.

Soldado desconhecido
Enxuga os vidros do dia
Da névoa azul da distância:
Que se estenda além das cores
Além das ondas impuras
A visão maravilhosa,
Céus mais justos se incorporem
Aos relevos das alturas

Que nos campos se propague
Se renove eternamente
Do teu ser a flor perene,
Nasçam folhas nas ramagens
Em manhãs resplandecentes
Nasçam frutos, madrugadas. . .
E a erva má do desespero
Não ressurja entre as sementes.

Soldado, soldado pobre
Soldado desconhecido
Símbolo dos deserdados
Marca de treva e silêncio
Muda memória encoberta
Força adulta e indefinida
Que a própria dor não consome
Soldado desconhecido
Soldado escuro, soldado
Agora mostra o teu rosto
Agora diz o teu nome.

O soldado:

Embora o corpo repouse
Já livre do meu cansaço
E o nível da luz se estenda
Na ausência do sofrimento,
Uma dor sinto no braço
Profunda como a lembrança,
Dor ainda na perpétua
Cicatriz do movimento.

Pois assim mesmo encerrado
Nestas muralhas de frio,
Daqui, da sombra fechada
Do chão que eu próprio formei,
Eu vejo a chama do dia
Eu vejo a glória do rei,
Vejo a flor, o verde, o gado,
O idílio, a pátria de alguém
Por quem feri e matei.

Aqui no centro isolado
Deste casulo de cinza
Guardo o sopro que me resta,
Ouvindo os surdos gemidos,
As vozes desesperadas,
As palavras proferidas
Pelas bocas soterradas,
Pelos lábios das feridas,
Como a chuva sobre o sono
Dessa eterna madrugada.

Mas a dor de mim reflui,
Dor que exprimo e em que me exalto
Sentindo bater nas lajes,
Como em tambores de asfalto,
A marcha da multidão:
Sentindo as ondas de ferro,
Sentindo as ondas de assalto
Que vêm dos carros de guerra
Até às grades de pedra
Que encerram meu coração.

Um desejo então consagro,
Profiro sobre as memórias;
Desejando que me dessem
Uma terra, um chão mais doce,
Uma terra sem fronteiras,
Sem crateras, sem trincheiras,
Um chão puro e mais feliz
Onde pastassem ovelhas
Ou, bebendo o azul do dia,
Crescessem também roseiras.

Terra fértil, solo ativo,
Chão materno e universal,
Onde o meu corpo voltasse
Ao seu repouso natal;
Onde o meu corpo lavrado,
Perdido em nome e lembrança,
Chegasse enfim à amplitude
Da pureza vegetal.

1947

Fonte:
http://www.joaquimcardozo.com/

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Joaquim Cardozo (A Pesca de Lagostim)

Pintura de Imarly Bosetti Martinez,
A noite estava escura, com nuvens pesadas ameaçando chuva, nuvens densas não deixando ver as estrelas, e um vento pequeno soprava; esse ambiente tempestuoso e fusco anunciava a possibilidade de uma boa pesca de lagostim. Por isso resolvemos fazê-la. Estávamos, para isso, preparados na praia; dispostos a partir numa jangada, em demanda de uns recifes de pedras, distantes, no mar àquela hora em maré vazante.

Ótimo! A maré baixa facilitaria descobrir nas pedras as melhores locas desse apreciado crustáceo. Equipados com os utensílios indispensáveis à pescaria – os cestos, as iscas, as forquilhas, os feixes de folhas secas de bananeira que acenderíamos e com eles ofuscaríamos os lagostins –, com tudo isso, ficamos aguardando a vinda da jangada. Éramos quatro: eu e mais três amigos, dois dos quais nunca tinham participado de semelhante proeza.

A maré continuava a descer. Estávamos já impacientes com a espera, um pouco longa; por fim a jangada, com a sua doce pancada, o seu choque uniforme na água levemente intranqüila, chegou bem perto da praia. Entramos n’água e alcançamos aqueles paus flutuantes, que nos levariam aos recifes distantes e, a essa hora, já quase inteiramente descobertos; nos aconchegamos, o melhor que pudemos, no seu dorso, e logo depois o jangadeiro deu sinal de partida.

Atravessamos aquele mar macio, manso, de água parada, contida pelos recifes. Íamos alegres, satisfeitos, esperançosos no bom êxito da nossa atuação como pescadores de lagostim. Era mais uma experiência que realizávamos como pescadores improvisados. De longe ainda avistávamos a praia, e as luzes das casas iam, aos poucos, se envolvendo na bruma que cobria, àquela hora – quase dez horas da noite – o povoado de onde partimos. Por fim, tudo do lado da terra desaparecera. Daquele lado, tudo eram sombras tempestuosas. Navegamos por pouco tempo e chegamos afinal aos recifes. Era um conjunto de pedras eriçadas, surgindo, naquele momento, das águas da maré baixa, e que fica, quase sempre, inteiramente coberto nas marés altas.

Chegamos, derivamos um pouco à procura de um bom lugar para saltarmos sobre as pedras; não foi muito fácil encontrá-lo, no entanto conseguimos desembarcar, e, numa pedra das mais salientes, o jangadeiro amarrou a jangada. Do lado do mar aberto vinham, no sopro de um vento forte, alguns golpes de ressaca.

Saímos depois os cinco, pois o jangadeiro ia conosco – pescador experimentado que era nos ajudaria naquela pesca. Saímos a caminhar sobre os recifes, pisando com precaução para não escorregar nas pedras lisas, úmidas e musgosas. Percorremos, nos afastando do ponto em que desembarcamos, uma grande distância, até que deparamos com um lugar onde, por certo, existiam boas locas de lagostim. Acendemos os feixes de folhas secas de bananeiras; empunhamos o archote, iluminando a região, dirigindo-o para as locas, agora visíveis, dos lagostins, que iam aos poucos saindo dos seus esconderijos, que eram muitos. Atraídos pela luz cegante das tochas, os crustáceos ficavam fascinados e se deixavam facilmente apanhar. Usamos então as forquilhas sobre o dorso de cada um, prendendo-os, um após outro, sem grande dificuldade. Presos nas forquilhas os jogávamos depois dentro dos cestos. Cada um de nós se ocupava de uma loca, fazendo descer a isca na ponta de um pau, como chamariz; fazendo saírem da toca os mais recalcitrantes.

Estávamos tão empenhados naquela distração e tão embevecidos com o sucesso da pescaria que não tínhamos o sentimento de que tudo aquilo devia se passar em poucos momentos, pois era certo que aquelas pedras, dentro de pouco tempo, estariam cobertas totalmente pelas águas. Daqueles recifes, não mais se veria daí a pouco, uma ponta de pedra aflorante. Estávamos dominados realmente por uma verdadeira fascinação, uma espécie de atração que nos provocava aquele exercício de pescar. Era uma obsessão permanente, aquela de querer desvendar e prender os pequenos seres que apareciam à luz dos fachos acesos. Os lagostins se deslumbravam e nós ficávamos enlevados em vê-los evoluir dentro da noite das águas; noite dentro da noite tempestuosa e que se converteria muito em breve no mais escuro e rumoroso aguaceiro.

Pescávamos e nada mais víamos ou pressentíamos, como se toda aquela festa pudesse se prolongar até alta madrugada. Pescamos, de qualquer modo, ainda por algum tempo, e estávamos já com os nossos cestos repletos de crustáceos, mas eram tantos e tão fáceis de apanhar que continuávamos sem o menor receio do surgimento de qualquer imprevisto. De repente, porém, alguém lembrou que a maré tinha virado. Precisávamos bater em retirada quanto antes; precisávamos voltar com urgência ao ponto onde desembarcamos da jangada; foi uma surpresa, e como que um despertar. Com toda a pressa, começamos a juntar os cestos e todos os outros utensílios usados na pesca, e logo procuramos chegar, o mais breve possível, ao local onde tínhamos deixado amarrada a jangada. Estávamos bastante longe do local.

Devíamos caminhar depressa e com maior precaução do que tivemos antes, pois as águas agora cobriam grande parte das pedras, e era difícil manter o equilíbrio sobre elas, dado o jogo de ondas da maré crescente. Conosco, voltava também o jangadeiro, que conhecia bem o local onde tínhamos desembarcado. Saímos como que de um sonho, para, aos poucos, entrarmos num verdadeiro pesadelo. A marcha de volta, que sobre os recifes fazíamos, se realizava com dificuldade crescente. Carregados com os apetrechos da pesca, sobretudo o cesto com os lagostins, enfrentávamos uma situação muito diferente daquela em que nos encontramos em nossa vinda: as pedras, mais do que pensávamos, estavam quase todas levemente cobertas pelas águas da maré. Algumas pontas, entretanto, ainda afloravam; em muitos lugares caminhávamos com os pés já mergulhados e o perigo de escorregar era mais freqüente. Prosseguimos, apesar de tudo, com rapidez, e, quando escorregávamos, tínhamos o cuidado de nos amparar nas pedras mais altas e agudas. As águas do mar, cada vez mais fortes, espadanavam, fazendo mesmo pequenas ressacas, que molhavam a todos nós; íamos, cautelosamente, sobre as pedras alagadas, mantendo acesos os fachos de folhas de bananeiras; restavam, porém, poucos luzeiros desse tipo e, se não alcançássemos em tempo o ponto onde deixamos a jangada, teríamos que ficar no escuro, e enfrentar as trevas daquela noite fechada; de vez em quando, atirávamos na água uma tocha quase inteiramente consumida; acendíamos outra e, aos poucos, chegamos ao ponto onde devíamos ter amarrado a jangada. Digo devíamos ter, porque, no referido local, a situação das pedras, com o crescimento da maré, modificou-se por completo; e a ausência da embarcação em que viéramos nos dava uma incerteza se que era realmente aquele o lugar do nosso desembarque.

Havia dúvida a respeito do local, até que o jangadeiro reconheceu a pedra onde amarrara a jangada, constatando realmente que a mesma se tinha desprendido e devia estar à deriva, perdida na escuridão da noite. O jangadeiro pensava em lançar sobre as pedras o tauaçu, as depois achou que ele não daria uma ancoragem suficiente, e desistira. Aqueles paus flutuantes estariam, agora, à deriva no mar; mas em que direção? A que distância das pedras do recife?

Não se podia saber. Talvez estivesse na direção da praia, talvez se afastando mar adentro. Estávamos perplexos e confusos. E agora, como voltar ao povoado de onde viéramos? Um certo nervosismo se apoderou de nós todos. Ficamos ainda comentando o que tinha acontecido e esquecemos por um momento que a maré subia. A maré subia! De cada vez que a onda vinha, atingia as pedras ainda descobertas num ponto mais alto. De repente, tivemos que fazer as nossas confissões.

Soube então que dois dos que estavam comigo não sabiam nadar; numa atitude nervosa, quase alucinados, eles estavam prevendo um fim desesperado: se a maré, crescendo, chegasse a cobrir totalmente as pedras e, sobre estas, as águas atingissem, como de habitual, a altura de um metro, decerto morreríamos afogados.

Eu e o meu amigo, que sabíamos nadar, ficamos também dominados por uma angústia terrível, que era pensar como íamos deixar ali, sobre as pedras, os dois que não sabiam nadar; e pensar de que maneira poderíamos vencer a nado a distância, agora mais longa, e num mar muito agitado; distância dos recifes até a praia.

E a maré subia! Subia! Ouvíamos a onda bater cada vez mais alta nas pedras, cada vez mais avançava e se arrastava de volta, em curvas caprichosas. A maré subia! Os fachos que ainda nos iluminavam iam, pouco a pouco, acabando. A luz não dava para distinguir cinco metros de noite sobre o mar, e, na área, nada se via que pudesse ser uma jangada. Certamente ela estava bastante afastada dos recifes.

Foi então que o jangadeiro tomou uma resolução: atirar-se à água e procurar a jangada. Não devia estar muito longe, dizia ele. E assim fez; lançou-se na água e começou a nadar; logo perdemo-lo de vista, penetrou na noite escura, marítima. Perguntamos aos berros:

– Jangadeiro! Algum sinal da jangada?

Ouvíamos, vindo da distância escura, a sua resposta:

– Nenhum! A escuridão não me deixa distinguir coisa alguma!

A aflição entre nós prosseguia, ou melhor, subia, como subia a maré, no mesmo compasso da maré, com a mesma ondulação, as mesmas súbitas pancadas. Os amigos que não sabiam nadar começaram a chorar, desolados, perdidos na ausência de tomarem uma decisão. Depois de algum tempo, todos os fachos quase queimados, ficamos à espera de qualquer sinal do jangadeiro; por fim, vimo-lo aproximar-se, nadando, para o local onde estávamos; chegava cansado e desanimado.

– Então? dissemos todos. Já com a água no meio da canela, respondeu:

– Nada! Está muito escuro, é impossível ver dois metros adiante.

Tomei então a deliberação seguinte: disse-lhe que voltasse a nadar em torno daquele ponto onde estávamos, mas agora levaria um facho na mão, um dos que ainda restavam, para melhor iluminar aquelas águas escuras.

E ele voltou a investigar a densa escuridão, agora erguendo numa das mãos um luzeiro; nadando somente com os pés e o braço livre, avançou mar adentro; em breve saiu daquela treva espessa, tornou-se apenas um ponto luminoso que, de repente, desaparecera. Ficamos aflitos. Cada vez mais os que não sabiam nadar não davam pausa ao seu desespero, choravam, gemiam, arrancavam os cabelos. E a maré subia! Subia! Subia; as águas do mar subiam, e os fachos de luz morriam. De repente, ouvimos um grito distante:

– Achei a jangada!

Foi um alívio. Aos lábios de todos voltou um sorriso de alegria, houve um desafogo, até os que choravam criaram novo ânimo, convictos de que o seu terrível dilema tinha cessado. Mas logo, para destruir toda a esperança, veio outro grito:

– Não! Não é; é um tronco boiando.

De novo, e agora mais profunda, a decepção; um desânimo total apoderou-se de todos nós; naquele momento, pensamos e decidimos morrer todos. Nunca deixaríamos ali, abandonados, os que estavam fadados a perder a vida sob as águas de maré cheia; tínhamos determinado.

Faríamos, entretanto, o máximo que pudéssemos. Tentaríamos levá-los, os dois em nossas costas, até a praia, enfrentando aquele mar já encapelado pela crescente ameaça de próximos aguaceiros, procurando vencer a nado a distância até a praia; lutando contra as águas da maré cheia e os açoites do vento cada vez mais constantes e violentos.

As nuvens se espessavam, se escureciam cada vez mais; ameaçava chover dentro em breve. O jangadeiro não dava mais sinal de vida, os feixes de folhas secas de bananeira tinham-se esgotado; e a maré subia, subia sempre. A água cobria agora todas as pedras; estávamos com os pés inteiramente dentro d’água, e em muitos, lugares, também as pernas mergulhadas mais de um palmo. O equilíbrio sobre as pedras tornava-se cada vez mais difícil. Sobre elas, as águas passavam com um movimento vivo e oscilante, numa dança de avanços e recuos, de giros e rodopios, confirmando que a maré continuava subindo.

Já estávamos preparados, na escuridão, para lançarmo-nos ao mar e nadarmos, levando os nossos companheiros em direção à praia, quando uma voz longínqua, quase apagada, falou da noite do mar, como uma revelação misteriosa; como uma voz vinda do além, uma voz distante, vinda do outro lado do mundo, vinda da morte de alguém.

E a voz dizia, ao mesmo tempo que a água subia:

– Achei a jangada! Achei a jangada!

Parecia a voz do jangadeiro, ou a voz de além-túmulo. Estacamos, paramos, a escutar, não acreditando na realidade daquela voz, que parecia uma ressonância, dentro de nós mesmos, da outra que já tínhamos ouvido, pronunciando as mesmas palavras; ou como o canto ilusório de uma sereia:

– Achei a jangada!

Era de fato a jangada que se aproximava: ouvíamos ainda distante, dentro do clamor das ondas, o seu resvalar sobre a superfície do mar. Com um grito de júbilo, todos nós o esperamos no escuro, uma vez que não havia mais um facho para acender: o que o jangadeiro levara consigo, tinha se apagado.

Tirei a minha camisa que estava ainda seca; enrolei-a em torno de um pau que ainda restava, tirei fósforos e com dificuldade consegui inflamá-la, aliás quase depois de gastar todos os fósforos; empenhei-me vivamente nesse trabalho, único meio de indicarmos onde nós estávamos. O pano afinal pegou fogo e se tornou o último archote; dirigida por essa luz, a jangada encontrada chegou enfim até nós; à sua aproximação, atiramo-nos os quatro de bruços sobre os seus paus flutuantes.

Abandonamos tudo: os cestos com lagostins e todos os aparelhos de pesca; o jangadeiro, sem mais nada, impeliu a jangada em direção à praia, com a maré já alta. O céu continuava enfarruscado. De súbito, sobre nós, começou a cair uma chuva intensa e pesada: uma chuva cantante, completa, amargurada.

Fonte:
http://www.joaquimcardozo.com/

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Joaquim Cardozo (1897 – 1978)

Joaquim Moreira Maria Cardozo, nasceu no Recife (bairro do Zumbi), a 26 de agosto de 1897.

No campo da dramaturgia escreveu, inovando o gênero bumba-meu-boi: Coronel de Macambira, De uma noite de festa e Marechal, boi de carro . Escreveu ainda os dramas O Capataz de Salema , e Antônio Conselheiro , além do pastoril Os anjos e os demônios de Deus.

Com Oscar Niemeyer e Lúcio Costa participou da construção da cidade de Brasília, respondendo pelos cálculos estruturais. Dentre os edifícios calculados por Joaquim Cardozo, em Brasília, destacam-se o Palácio da Alvorada, o Congresso Nacional e a Catedral.

Como engenheiro calculista, sensível à beleza das formas da arquitetura moderna, Joaquim Cardozo, à época em que foi, no Recife, professor das escolas de Engenharia e Belas Artes (década de 30) escreveu também sobre questões pertinentes à engenharia e à arquitetura. Esses escritos foram publicados em periódicos como Módulo, Arquitetura e Revista do SPHAN..

No final de 1939, paraninfando uma turma de engenheiros, criticou, no seu discurso, o mau uso e as distorções que o poder público fazia no tocante à utilização da engenharia. Ficou mal visto pelo governo do estado e essa situação, intolerável para ele, motivou sua transferência para o Rio de Janeiro.

Lá fez diversas amizades, dentre as quais Oscar Niemeyer e Rodrigo M. F. de Andrade. Pouco tempo depois de sua transferência para o sul do país foi convidado pelo arquiteto que projetou o Conjunto de Pampulha, em Belo Horizonte, para fazer os cálculos dos edifícios (Igreja, Cassino, Casa do Baile). Mais tarde, como funcionário da Novacap, passou a integrar a equipe de Niemeyer nos cálculos da cidade de Brasília.

Desde criança, Cardozo interessava-se pelas manifestações da cultura popular. Ele próprio relata que muitas vezes ficava até altas horas da noite vendo o bumba-meu-boi. Não é difícil concluir que tal interesse representou o solo onde fincou raízes. Onde se formou a personalidade artística responsável por uma obra literária em que o povo, com suas crenças, mitos, lendas, estaria sempre presente. O mesmo interesse levou-o, mais tarde, a pesquisar as origens do bumba, remontando aos autos pastoris da idade média. De uma noite de festa é um texto popular e ao mesmo tempo erudito, em que ao saber popular – como por exemplo a utilização de plantas medicinais – misturam-se outros saberes, como a física.

Ainda no Recife, nos meados da década de 30, Cardozo integrou a equipe que fazia a Revista do Norte, junto com José Maria de Albuquerque Melo. Nessa época freqüentava a Esquina Lafayette, onde se reuniam artistas e intelectuais como Luiz Jardim, Ascenso Ferreira, Benedito Monteiro, Otávio Moraes e outros, que ali se encontravam para conversar sobre assuntos de interesse geral, incluindo evidentemente poesia e as novas tendências artísticas.

Pessoas que conviveram mais de perto com o poeta comentam que, devido à sua timidez e senso crítico, Cardozo falava de tudo, mas a sua poesia era quase toda guardada “de cor”. Sua maneira preferida de dar a conhecê-la era dizendo-a em voz alta, nas reuniões com os amigos. Tanto é que foram alguns deles que tomaram a iniciativa de publicar em livro os seus poemas. Dessa iniciativa veio à luz o primeiro livro de Joaquim Cardozo, Poemas, editado em 1947, quando o poeta estava com 50 anos de idade.

Na poesia do Signo Estrelado, o Nordeste aparece transfigurado em imagens e ritmos entrelaçados; ao colorido, aos cheiros, aos sabores, às formas, à fauna nordestina, transfundidos por uma finíssima sensibilidade aberta às dimensões universais da arte. O livro é uma demonstração da altura em que o sentimento lírico de identificação com a terra se transcende numa dimensão introspectiva, como em A várzea tem cajazeiras, lembrando o Fernando Pessoa das sondagens do próprio eu:

(…)
A várzea tem cajazeiras…
Cada cajazeira um ninho
Que entre o verde e o azul oscila;
Mocambo de passarinho…
(…)

Nessa várzea sou planície,
vaga dimensão dormente,
tendida no chão conforme
sou de mim sombra somente.

Rumos de céus desvelados
onde chego e me afugento?
– já me escuto como em sonho
de tão longe que me ausento!

Em redes de ramos verdes
me estendo como um caminho,
me espreguiço dessa várzea,
e me embalo desse ninho.

O poder de transfiguração dos motivos temáticos refina-se em várias outras composições, como “Imagens do Nordeste”, na qual uma vela de jangada pode ser uma flâmula, uma lâmina (notem as correspondências sonoras), ou uma mariposa.

Joaquim Cardozo foi também crítico de artes plásticas e exerceu, durante algum tempo de – 1955 a 1958 – essa atividade, escrevendo artigos na revista Para Todos, dirigida por Jorge Amado. Muitos artistas de renome tiveram suas exposições comentadas por ele, numa linguagem que não era apenas fruto de um saber técnico, mas da convivência amorosa com as mais diversas expressões da criação artística.

Joaquim Cardozo faleceu aos 81 anos, em Olinda, em 4 de novembro de 1978.

Seu nome conquistou um lugar ímpar entre os poetas modernos brasileiros, além da participação que teve como um dos pioneiros em introduzir no Brasil as formas ousadas da arquitetura moderna.

Sinopse cronológica da vida e da obra de Joaquim Cardozo:

1897 – Nasce em 26 de agosto, no bairro do Zumbi, em Recife, Joaquim Moreira Cardozo. Filho de José Antônio Cardoso e Elvira Moreira Cardoso.
1910 – Muda-se com a família para Jaboatão (PE).
1914 – Começa a trabalhar como caricaturista no Diário de Pernambuco.
1915 – Inicia os estudos na Escola de Engenharia de Pernambuco.
1919 – Interrompe o curso de engenharia para servir no exército.
1920/24 – Realiza trabalhos de levantamento topográfico no município do Recife e no estado da Paraíba. Frequenta a Esquina Lafayette, onde se reuniam intelectuais de diversas tendências, entre os quais o grupo ligado à Revista do Norte, dirigida então por José Maria de Albuquerque Melo.
1924/25 – Dirige e colabora com a Revista do Norte.
1927 – Reinicia os estudos na Escola de Engenharia.
1930 – Cola grau como engenheiro civil.
1931 – Trabalha na Secretaria de Viação e Obras Públicas.
1935 – Leva para a Exposição comemorativa da Revolução Farroupilha, em Porto Alegre, a primeira mostra da arquitetura brasileira moderna. Giro pelo Uruguai e pela Argentina.
1936 – Reassume as cadeiras nas Escolas de Engenharia e de Belas Artes.
1938 – Permanência de três meses na Europa, aonde vai para realizar o desejo de visitar museus e lugares artísticos.
1939 – Paraninfo da turma de engenharia de 1939. Discurso considerado subversivo e atrito com o governo de Pernambuco. Mudança para o Rio.
1940 – Começa a trabalhar no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN) com Rodrigo de Andrade, Lúcio Costa e Burle-Marx.
1941 – Conhece o arquiteto Oscar Niemeyer e começa a fazer os cálculos dos projetos. do arquiteto. Dentre esses, os mais famosos seriam as obras que integram o Conjunto Pampulha, em Minas, e os da cidade de Brasília (Palácio da Alvorada, Catedral, Itamarati, Congresso Nacional e outros).
1946 – Incluído por Manuel Bandeira na “Antologia de Poetas Bissextos”. A Revista do Norte, nos 50 anos do poeta, dedica-lhe o número de outubro.
1952 – Escreve o primeiro poema do livro Trivium “Prelúdio e Elegia para uma Despedida” editado pela Hipocanpo, em tiragem limitada.
1955/58 – Colabora com a revista “Para Todos”, dirigida por Jorge Amado e a revista Módulo, de arquitetura.
1956 – Convidado por Oscar Niemeyer para fazer os cálculos estruturais dos mais importantes edifícios de Brasilia, entre eles a Catedral.
1960 – Editado o livro “Signo Estrelado”,pela Livros de Portugal.
1963 – Editada a peça “O Coronel de Macanbira”, pela Civilização Brasileira.
1967 – Sob a direção de Amir Haddad é encenado “O Coronel de Macanbira”.
1968 – Participa, junto com Audálio Alves e outros poetas do Recife, do movimento poético denominado “Espectralismo”.
1973 – Paraninfo da Escola Politécnica do Recife.
1974 – Homenageado pelo I..A..B. da Guanabara, em 17 de dezembro.
1975 – Edição de “O Interior da Matéria”, com ilustrações de Burle-Marx.
1981 – Editado o livro póstumo “Um Livro Aceso e Nove Canções Sombrias”.

Fonte:
Maria da Paz Ribeiro Dantas. Apresentando Joaquim Maria Moreira Cardozo.
http://www.joaquimcardozo.com/paginas/joaquim/biografia8.htm

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Antonio Candido (Letras e Idéias no Período Colonial) Parte 3


Essa visão transfiguradora se incorporou para sempre à literatura e aos estudos, constituindo um dos elementos centrais da nossa educação e do nosso ponto de vista sobre as coisas. Em meados do século XVIII veio juntar-se a ela uma concepção até certo ponto nova que representa, nas idéias em geral, a influência das correntes ilustradas do tempo; a literatura do Classicismo de inspiração francesa e do Arcadismo italiano. Sem anular as tendências anteriores, as correntes então dominantes no gosto e na inteligência apresentam caracteres diversos. Poderíamos esquematizá-las dizendo:

1) que a confiança na razão procurou, senão substituir, ao menos alargar a visão religiosa;

2) que o ponto de vista exclusivamente moral se completou — sobretudo nas interpretações sociais — pela fé no princípio do progresso;

3) que, em lugar da transfiguração da natureza dos sentimentos, acentuou-se a fidelidade ao real. Em suma, formou se uma camada mais ou menos neoclássica, rompida a cada passo pelos afloramentos do forte sedimento barroco.

Aproximadamente com tais características, ocorreu no Brasil uma pequena Época das Luzes, que se encaminhou para a independência política e as teorias da emancipação intelectual, tema básico do nosso Romantismo após 1830. Historicamente, ela se liga no pombalismo, muito propício ao Brasil e aos brasileiros, e exemplo do ideal setecentista de bom governo, desabusado e reformador. Para uma colônia habituada à tirania e carência de liberdade, pouco pesaria o despotismo de Pombal; em compensação, avultaram a sua simpatia pessoal pelos colonos, que utilizou e protegeu em grande número, assim como os planos e medidas para o nosso desenvolvimento. Algo moderno parecia acontecer; e os escritores do Brasil se destacam no ciclo do pombalismo literário, com o Uraguai, de Basílio da Gama, justificando a luta contra os jesuítas; O desertor, de Silva Alvarenga, celebrando a reforma da Universidade; O reino da estupidez, de Francisco de Melo Franco, atacando a reação do tempo de D. Maria I. Isto, sem contar uma série de poemas ilustrados de Cláudio Manuel da Costa e Alvarenga Peixoto, formulando a teoria do bom governo, apelando para as grandes obras públicas, louvando o governante capaz: Pombal, Gomes Freire de Andrada, Luís Diogo Lobo da Silva.

Daí resultou incremento do nativismo, voltado, agora, não apenas para a transfiguração do país, mas para a investigação sistemática da sua realidade e para os problemas de transformação do seu estatuto político. As condições econômicas eram outras, impondo-se a libertação dos monopólios metropolitanos — sobretudo o do comércio — num país que sofrerá o baque do ouro decadente e necessitava maior desafogo para manter a sua população. As revoluções norte-americana e francesa, o exemplo das instituições inglesas, o nascente liberalismo oriundo de certas tendências ilustradas completariam o impacto do pombalismo, formando um ambiente receptivo para as idéias e medidas de modernização político-econômica e cultural, logo esboçadas aqui com a presença da Corte, a partir de 1808. No Brasil joanino conjugaram-se as tendências e as circunstâncias, tornando inevitável a autonomia política.

Estas considerações visam sugerir que, no período em questão, houve entrosamento acentuado entre a vida intelectual e as preocupações político-sociais. As diretrizes respectivas — conforme as entreviam os nossos homens de então nos modelos franceses e ingleses — se harmonizavam pela confiança na força da razão, considerada tanto como instrumento de ordenação do mundo, quanto como modelo de uma certa arte clássica, abstrata e universal. A isto se juntavam:

1) o culto da natureza, que favoreceu a busca da naturalidade de expressão e sinceridade de emoção, contrabalançando a sua eventual secura;

2) o desejo de investigar o mundo, conhecer a lei da sua ordem, que a razão apreendia;

3) finalmente, a aspiração à verdade, como descoberta intelectual, como fidelidade consciente ao natural, como sentimento de justiça na sociedade.

No caso brasileiro, estes pendores se manifestaram frequentemente pelo desejo de mostrar que também nós tínhamos capacidade para criar uma expressão racional da natureza, generalizando o nosso particular mediante as disciplinas intelectuais aprendidas com a Europa. E que havia uma verdade relativa às coisas locais, desde a descrição nativista das suas características, até a busca das normas justas, que deveriam pautar o nosso comportamento como povo.

A passagem a esta nova maneira de ver é clara na diferença entre dois grêmios, que se sucederam na segunda metade do século XVIII. A Academia dos Renascidos, fundada na Bahia em 1759 por um grupo de legistas, clérigos e latifundiários, abordava temas literários e históricos, — de uma história lendária e próxima à epopéia, ou de uma crônica mais ou menos ingênua de acontecimentos. Dela resultaram os Desagravos do Brasil, de Loreto Couto, a História militar, de José Mirales, as Memórias para a história da capitania de São Vicente, de frei Gaspar da Madre de Deus. A Academia assinala um instante capital na formação da nossa literatura, ao congregar homens de letras de várias partes da colônia, num primeiro lampejo de integração nacional.

A Academia Científica, fundada no Rio em 1771 por médicos, e reformada sob o nome de Sociedade Literária em 1786, para durar intermitentemente até 1795, propagou a cultura do anil e da cochonilha, introduziu processos industriais, promoveu estudos sobre as condições do Rio e acabou criticando a situação da colônia, com base em Raynal e inspirações também em Rousseau e Mably.

Nos escritores deste período encontramos os que representam uma passagem, ou mistura, de Barroco e Arcadismo; os que manifestam diferentes aspectos de um nativismo que vai deixando de ser apenas extático para ser também racional; os que procuram superar a contorção do estilo culto por uma expressão adequada à natureza e à verdade; os que passam da transfiguração da terra para as perspectivas do seu progresso.

Muito interessantes como sintoma são os Diálogos político-morais (1758), de Feliciano Joaquim de Sousa Nunes, ou antes a sua introdução, onde vem claramente expresso o tema do ressentimento dos intelectuais brasileiros, que desejavam ser reconhecidos a par dos metropolitanos e se apegavam, como defesa, à teoria de que o critério da avaliação deveria ser o mérito, não as circunstâncias de naturalidade ou posição social.

Esta atitude ocorre também em Cláudio Manuel da Costa (1729-1789), escritor de transição entre o cultismo e as novas tendências, representando de algum modo o início de uma atividade literária regular e de alta qualidade no seu país. Contemporâneo dos fundadores da Arcádia Lusitana (1756), que empreendeu a campanha neo-clássica em Portugal, reajustou conforme os seus preceitos a forte vocação barroca, encontrando a solução numa espécie do Neoquinhentismo — parecendo um novo Diogo Bernardes pela síntese da simplicidade clássica e certo maneirismo infuso. Há muita beleza nas suas éclogas, apesar da eventual prolixidade; mas nos sonetos está o melhor do seu estro, como forma e elaboração dos dados humanos.

Apegado à terra natal, é visível nele a impregnação em profundidade dos seus aspectos típicos, naturais e sociais: rocha, ouro, mineração, angústia fiscal. Neste sentido, empreendeu cantar numa epopéia a vitória das normas civis sobre o caos da zona pioneira de aventureiros, narrando a história da capitania de Minas. O resultado foi mau, não chegando a publicar o referido poema — VILA RICA — embora o tivesse aprontado antes de 1780.

Seu amigo Inácio José de Alvarenga Peixoto (1744-1793) deixou obra pequena, próxima da sua pela forma e as preocupações políticas, e igualmente embebida na realidade mineira. Com Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), companheiro de ambos em Ouro Preto, o Arcadismo encontrou no Brasil a mais alta expressão. Na sua obra há um aspecto de erotismo frívolo, expresso principalmente nas poesias de metro curto, anacreônticas em grande parte, celebrando a namorada, depois noiva, sob o nome pastoral de Marília. Mas ela vale sobretudo pelas de metro longo, voltadas para a expressão lírica da sua própria personalidade. Nelas, com admirável simplicidade e nobreza, traça um roteiro das suas preocupações, da sua visão do mundo e, depois de preso, do seu otimismo estóico. A ele se tem atribuído cada vez mais a autoria das famosas Cartas chilenas, sátira violenta contra um governador de Minas, verberando desmandos administrativos e revelando costumes do tempo, em verso enérgico e expressivo.

Estes três poetas se envolveram na Inconfidência Mineira, mas parece que apenas Alvarenga Peixoto desempenhou nela papel militante. De qualquer modo, foram duramente castigados e representam no Brasil o primeiro e até hoje maior holocausto da inteligência às idéias do progresso social.

Igualmente progressistas e muito estritamente pombalinos (como ficou dito) foram dois outros contemporâneos, que formam um par separado: José Basílio da Gama (1741-1795) e Manuel Inácio da Silva Alvarenga (1749-1814).

O Uraguai (1769), do primeiro (porventura a mais bela realização poética do nosso Setecentos), classificado em geral como epopéia, é na verdade um curto poema narrativo de assunto bélico, visando ostensivamente atacar os jesuítas e defender a intervenção pombalina nas suas missões do Sul. Visivelmente atrapalhado por um material polêmico que não teria tempo, ou disposição de elaborar, o poeta relegou-o para as notas o mais que pôde. No corpo do poema resultou a simpatia pelo índio, esmagado entre interesses opostos; e a fantasia criadora elaborou um admirável universo plástico, descrevendo a natureza e os feitos com um decassílabo solto de rara beleza e expressividade, nutrido de modelos italianos. Graças a isto, o Uraguai se tornou um dos momentos-chave da nossa literatura, descrevendo o encontro de culturas (européia e ameríndia), que Inspiraria o Romantismo indianista, para depois se desdobrar, como preocupação com o novo encontro entre a cultura urbanizada e a rústica, até Os sertões, de Euclides da Cunha, o romance social e a sociologia. No tempo de Basílio, tratava-se de optar, neste processo, entre a tradicional orientação catequética e a nova direção estatal, colocando-se ele francamente ao lado desta.

Na mesma linha se pôs seu amigo Silva Alvarenga, que veio para o Rio depois de formado, enquanto ele permanecia em Portugal. Silva Alvarenga, no poema herói-cômico O desertor (1774), apoia a reforma da Universidade, atacando os velhos métodos escolásticos; e, pela vida afora, mesmo após a reação que sucedeu à queda de Pombal, continuou fiel à sua obra e às tendências ilustradas, em poemas didáticos e, sobretudo, pela já referida atuação na Sociedade Literária, de que foi mentor e lhe valeu quase quatro anos de prisão. O seu papel foi muito importante no Rio dos últimos decênios do século XVIII, pois influiu, como professor, na geração de que sairiam alguns próceres da Independência, — o que faz do velho árcade um elo entre as primeiras aspirações ilustradas brasileiras e a sua consequência político-social.

Como poeta, entretanto, é sobretudo o autor de Glaura (1799), que contém uma série de rondós e outra de madrigais. Os primeiros são uma forma poética inventada por ele com base numa estrofe de Metastasio e constituindo, apesar da monotonia, melodioso encanto em que perpassam imagens admiravelmente escolhidas para denotar o velho tema da esperança e decepção amorosa. Os madrigais, mais austeros como forma, mostram a capacidade clássica de exprimir os sentimentos em breve suma equilibrada. Dentre os árcades, é o mais fácil e musical dos poetas, já que Domingos Caldas Barbosa (1740-1800) é antes um modinheiro cujas letras têm pouca força sem a partitura.

Para encerrar este grupo de homens superiormente dotados, falta mencionar frei José de Santa Rita Durão (1722-1784), que fica à parte pela decidida oposição à ideologia pombalina e fidelidade à tradição camoniana. A sua cultura escolástica e o afastamento dos meios literários, mais a influência de cronistas e poetas que se ocuparam do Brasil no modo barroco (Vasconcelos, Rocha Pita, Jaboatão, Itaparica), fazem dele, sob muitos aspectos, prolongamento da visão religiosa e transfiguradora atrás mencionada, levando-o a avaliar a colonização do ângulo estritamente catequético. Mas a época e o talento fizeram-no buscar, superando a falsa e afetada epopéia pós-camoniana, um veio quinhentista mais puro, para celebrar a história da sua pátria no Caramuru (1781). Resultou um poema passadista como ideologia e fatura, mas fluente e legível, com belos trechos descritivos e narrativos, devido à imaginação reprodutiva e à capacidade de metrificar as melhores sugestões das fontes que utilizou. Ele representa uma posição intermediária importante, por ter atualizado a linha nativista de celebração da terra, abrindo caminho para a sua florescência no século XIX.

Costumava-se abranger estes poetas sob o nome coletivo de Escola Mineira. Na verdade, formam, como vimos, três segmentos distintos no movimento arcádico, e a designação só se justificaria caso tomada como sinônimo do grupo brasileiro dentro do Arcadismo português, dada a circunstância de todos eles terem ou nascido em Minas, ou lá passado as partes decisivas da vida.

Fonte:
CANDIDO, Antonio. Literatura e Sociedade. 9. ed. RJ: Ouro Sobre Azul, 2006.

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Olavo Bilac (Plutão)

Negro, com os olhos em brasa,
Bom, fiel e brincalhão,
Era a alegria da casa
O corajoso Plutão.

Fortíssimo, ágil no salto,
Era o terror dos caminhos,
e duas vezes mais alto
Do que seu dono Carlinhos.

Jamais à casa chegara
Nem a sombra de um ladrão;
Pois fazia medo a cara
Do destemido Plutão.

Dormia durante o dia,
Mas, quando a noite chegava,
Junto à porta se estendia,
Montando guarda ficava.

Porém Carlinhos, rolando
Com ele ás tontas no chão,
Nunca saía chorando
Mordido pelo Plutão…

Plutão velava-lhe o sono,
Seguia-o quando acordado
O seu pequenino dono
Era todo o seu cuidado.

Um dia caiu doente
Carlinhos… Junto ao colchão
Vivia constantemente
Triste e abatido, o Plutão.

Vieram muitos doutores,
Em vão. Toda a casa aflita,
Era uma casa de dores,
Era uma casa maldita.

Morreu Carlinhos… A um canto,
Gania e ladrava o cão;
E tinha os olhos em pranto,
Como um homem, o Plutão.

Depois, seguiu o menino,
Segui-o calado e sério;
Quis ter o mesmo destino:
Não saiu do cemitério.

Foram um dia à procura
dele. E, esticado no chão,
Junto de uma sepultura,
Acharam morto o Plutão.

Fontes:
Bilac, Olavo. Poesias Infantis. RJ: Francisco Alves. 1929.
Imagem = http://pt.dreamstime.com

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José Feldman (Uma Vez Conheci um Anjo)

Uma vez conheci um anjo.
Não tinha asas e nem auréola,
mas tinha um olhar de anjo.

Uma vez conheci um anjo.
Era meiga, sincera,
e falava coisas tão bonitas
que sentia meu coração derreter.

Uma vez conheci um anjo.
sorria como só os anjos sabem sorrir,
e fazia biquinhos tão encantadores
que a vida parecia se tornar mais leve.

Uma vez conheci um anjo.
Ela viu algo dentro de mim,
que ninguém conseguia ver.
Viu beleza e amor.

Uma vez conheci um anjo.
E nos abraçamos,
nos beijamos,
cantamos juntos
e olhamos a lua
com olhar de apaixonados.

Uma vez conheci um anjo.
Juntamos nossas coisas,
e fomos morar juntos,
em um mundo angelical.

Uma vez conheci um anjo.
Tivemos gatos e cachorros,
presente dos céus para nós.
Mas estavamos juntos,
e nos amavamos.

Alguns morreram
outros apareceram em nossas vidas
e enfrentamos a vida juntos
Mas nos amavamos,
e tudo era benção dos céus.

Uma vez conheci um anjo.
A situação se apertou
e fomos para o Paraná.
Caminhavamos pelos parques,
riamos com novos amigos,
batalhando eramos felizes.

Uma vez conheci um anjo.
Voltamos ao seu lugar de origem.
Mas ríamos, cantavamos,
nos amavamos,
nos divertiamos,
mas estavamos ficando velhos.

Uma vez conheci um anjo.
Kika morreu.
Lad morreu.
Gwyddion morreu.
Baby morreu.
Bibo morreu.
Floquinho morreu.
Fluffy morreu.
Eramos felizes e nos amavamos,
e riamos, e bebiamos e nos beijavamos.

Uma vez conheci um anjo,
e agora sei o que é sofrer
por querer um anjo.
O preço foi muito alto
Meu anjo morreu.

Uma vez conheci um anjo.
Hoje sei que são trevas,
Como a noite é escura,
fria e triste.
O que é solidão.

Uma vez conheci um anjo…

————-
Imagem por Alexa, retirada da internet

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Ialmar Pio Schneider (Baú de Trovas)

Abacateiros que crescem
num vaso à minha sacada,
dá-lhes água que merecem
ostentar sua ramada!

A beleza do jardim
está contida na flor;
e a graça que não tem fim
encontro no teu amor…

Ainda sonho contigo
de noite na minha cama;
és a musa que persigo
com a paixão de quem ama !

Amo a trova em devaneio
porque quero teu carinho:
é por ela que em ti creio
e te espero em meu caminho.

A noite sucede ao dia
e assim se passam os anos
eu vivo sem alegria
e morro de desenganos…

A noite já vem chegando
para trazer-me a saudade,
pois o tempo foi levando
toda a minha mocidade…

As trovas que a gente escreve,
mesmo que sejam banais:
é um pouco da vida breve
que não volta nunca mais…

Como uma musa eu te quis
e depois como mulher,
oh, como fui infeliz
por amar quem não me quer !

Conheci-a linda outrora
no esplendor da juventude,
mas o tempo leva embora
toda vaidade que ilude.

Das flores todas que planto
em meu modesto jardim,
aquela de mais encanto
vem ser você, meu Jasmim!

Da vida não tenho medo,
da morte ainda não sei
qual há de ser o segredo
que nela desvendarei…

Dentro do peito escondido,
no silêncio da saudade,
chora o coração ferido
pelo punhal da maldade.

Desce a noite devagar:
é o começo do verão…
As aves vão descansar
na calma da solidão.

Deve a trova ser singela
para sabê-la de cor;
quanto mais simples mais bela,
quanto mais terna melhor…

Do amor, fez sua doutrina,
o filho de Deus: Jesus.
E no alto de uma colina
morreu pregado na cruz…

Entre amar e ser amado
eu não sei o que é melhor;
porém, viver desprezado,
é, sem dúvida, o pior.

Eras uma linda fada
num jardim cheio de flores;
assim foste minha amada
na canção dos meus amores.

És a mulher do meu sonho,
digo sonhando outra vez,
este delírio tristonho
é a própria vida que o fez.

Eu só fiz de minha vida
uma história mal escrita;
cavalgando a toda brida,
mas sem fugir da desdita.

Eu vou relendo meus versos,
trovas atuais e antigas,
que rolam hoje dispersos,
formando minhas cantigas.

Fiz de teu corpo uma glória:
me inspiraste uma canção…
Quem vai contar nossa história
de saudade e solidão ?!

Hoje a vejo com saudade
sem o viço da beleza,
pois perdeu a mocidade
na guerra c’o a natureza.

Lembro-me às vezes de ti,
nas horas de solidão,
com amor e frenesi
e uma dor no coração…

Mais do que a própria vida
vives em mim, noite e dia,
e mesmo a esperança perdida
ainda em ti esperaria.

Meu coração tem amores
que me perturbam e quanto !
pois até parecem dores
nascidas do desencanto.

Meus olhos guardam ainda
o momento em que te vi…
Oh! meu Deus, eras tão linda
que nunca mais te esqueci!

Morrer cantando, quem dera,
para você, para o povo,
e ao florir a primavera
nascer cantando de novo!

Neste sábado risonho,
embora esteja sozinho,
procuro deixar que o sonho
encontre, enfim, seu caminho…

No jardim da minha vida,
quantas flores cultivei;
Mas em cada despedida
muitas delas arranquei…

O exemplo mais convincente
de minha triste existência,
foi só… quando inteligente,
paguei o mal com paciência…

Ouve os versos que componho
ao te lembrar, ó querida!
A vida parece um sonho,
um sonho parece a vida…

Ouvi dizer que meus versos
não são os teus preferidos;
não creias nesses perversos
que nos querem desunidos.

Pelo sabor dos teus beijos
me apaixonei, certo dia;
hoje vivo nos desejos
que me traz a nostalgia!

Penso em ti de vez em quando
e se não posso te amar,
quero somente, sonhando
teus olhares recordar.

Pudesse um dia chorar
como nos tempos da infância;
é que o passado no lar
escondeu-se na distância.

Quando chegaste trazias
um mundo imenso no olhar,
ao partires deixarias
só tristeza em teu lugar.

Quando estás à beira-mar,
caminhando sobre a areia,
eu me ponho a meditar
que sejas uma sereia.

Quando lembro do passado
sempre fico convencido
que hoje vivo condenado
por ter o tempo perdido.

Quando te vejo formosa,
passeando pelo jardim,
eu penso que és uma rosa
desabrochando pra mim.

Quando te vi, de repente,
meu desejo foi te amar;
tens um quê tão envolvente,
que tanto me faz sonhar…

Quanta dor num verso apenas
quem sofre pode dizer;
eu mesmo sei de centenas
que assim dizem a sofrer.

Quase sempre estou sozinho,
pensando no que virá
por este árduo caminho
minha vida seguirá!…

Quisera trovas suaves
para um mundo mais feliz
e conversar com as aves
qual São Francisco de Assis !

Quisera um buquê de rosas,
cujo aroma se desfaz
pelas horas dolorosas
deste silêncio mordaz.

Quis viver sempre contigo:
assim era meu desejo.
Agora só por castigo
eu fujo quando te vejo.

Se a Humanidade soubesse
tudo o que a poesia encerra,
certamente não houvesse
tanta desgraça na Terra…

Se te querer foi pecado,
sou um grande pecador;
e por isto, condenado
pelo Tribunal do Amor !

Sigo triste solitário
por este mundo a cantar,
não sei fazer o contrário,
desaprendi de chorar.

Sou amigo das mulheres,
elas só me fazem bem;
sê assim se tu puderes
e serás feliz também…

Tanto te amei… foi em vão;
eu te perco de hora em hora,
mas um dia brotarão
lágrimas de quem não chora.

Tem trovas que a gente diz,
tem outras que a gente lê,
e pra mim a mais feliz
é a que fala de você !

Tenho amigos trovadores
e trovadoras amigas;
às mulheres meus amores
e a todos minhas cantigas…

Tenho amor e penso nela
toda noite, todo dia,
cada vez está mais bela
no meu céu de fantasia…

Tens razão quando tu dizes
que o poeta é um sonhador;
neste mundo de infelizes
só assim suporta a dor.

Um verso pobre, uma trova,
merecem sempre acolhida,
pois o sonho se renova
a cada instante da vida.

Velha lira abandonada
dos tempos da mocidade,
hoje cantas magoada,
não de dor, mas de saudade !

Vive então com muita fé,
inda que a dor te consome…
Diz o ditado: “O que é
d’homem o bicho não come”.

Vivemos na contingência
de alimentar a crendice,
que o caminho da existência
vai nos levar à velhice.

Vou fazer-lhe uma proposta;
pense bem no que lhe digo:
se disser que não me gosta,
quero ser só seu amigo !

Fonte:
Colaboração de Ialmar Pio Schneider

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Ialmar Pio Schneider (1942)

Nasceu no município de Sertão, RS, em 26/8/1942.

Residiu por mais de 20 anos em Canoas, e atualmente reside em Porto Alegre.

Poeta, advogado, cronista e bancário aposentado,

Entidades a que pertence:
Casa do Poeta Rio-Grandense,
União Brasileira de Trovadores – Sede de Porto Alegre,
Grêmio Literário Castro Alves,
Agei – Associação Gaúcha dos Escritores Independentes,
Casa do Poeta de Canoas,
entre outras.

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Antonio Cândido (Letra e Idéias no Período Colonial) Parte 2

Procurando sintetizar estas condições, poderíamos dizer que as manifestações literárias, ou de tipo literário, se realizaram no Brasil até a segunda metade do século XVIII, sob o signo da religião e da transfiguração.

Aquela foi a grande diretriz ideológica, justificando a conquista, a catequese, a defesa contra o estrangeiro, a própria cultura intelectual. Era idéia e princípio político, era forma de vida e padrão administrativo; não espanta que fosse, igualmente, princípio estético e filosófico. À sua luz se abriga toda a obra de José de Anchieta (1533-1597), desde as admiráveis cartas-relatórios, descrevendo o quadro natural e social em que se travavam as lutas da fé, até os autos didáticos, os cantos piedosos em que as suas verdades eram postas ao alcance do catecúmeno. As crônicas do jesuíta português Simão de Vasconcelos obedecem a um princípio declaradamente religioso, de informar e edificar; mas o mesmo acontece, no fundo, à História do franciscano brasileiro Vicente do Salvador (156?-163?), sob aparência de piedade menos imediata. E até a crônica do militar português Francisco de Brito Freire, tão política, pinta no fundo os progressos da fé, encarnados no guerreiro e administrador que luta contra o protestante flamengo — o que também verificamos no Valeroso Lucideno, de frei Manuel Calado.

Se sairmos dessa literatura histórica, deparamos com a oratória sagrada, seara do maior luso-brasileiro do século, o jesuíta Antônio Vieira (1608-1697). Já aqui a religião-doutrina se mistura indissoluvelmente à religião-símbolo. Estamos em pleno espaço Barroco, e a dialética intelectual esposa as formas, as metáforas, toda a marcha em arabesco da expressão culta. Estamos, além disso, no gênero ideal para o tempo e o meio, em que o falado se ajusta às condições de atraso da colônia, desprovida de prelos, de gazetas, quase de leitores. Nunca o verbal foi tão importante e tão adequado, sendo ao mesmo tempo a via requerida pela propaganda ideológica e o recurso cabível nas condições locais. E nunca outro homem encarnou tão bem este conjunto de circunstâncias, que então cercavam a vida do espírito no Brasil — pois era ao mesmo tempo missionário, político, doutrinador e incomparável artífice da palavra, penetrando com a religião como ponta de lança pelo campo do profano. Seu contemporâneo Gregório de Matos (1633-1696) foi o profano a entrar pela religião adentro com o clamor do pecado, da intemperança, do sarcasmo, nela buscando guia e lenitivo. Ao orador junta-se este poeta repentista e recitador para configurar ao seu modo, e também sob o signo do Barroco, a oralidade característica do tempo, que permaneceu tendência-limite no meio baiano até os nossos dias. Apesar de conhecido sobretudo pelas poesias burlescas, talvez seja nas religiosas que Gregório alcance a expressão mais alta, manifestando a obsessão com a morte, tão própria da sua época, e nele muito pungente, porque vem misturada à exuberância carnal e ao humorismo satírico, desbragados e saudáveis. Nascido na Bahia, amadureceu no Reino e só voltou à pátria na quadra dos quarenta; lá e aqui não parece ter cuidado em imprimir as obras, que se malbarataram nas cópias volantes e no curso deformador da reprodução oral, propiciando a confusão e a deformação que ainda hoje as cercam.

Em torno dessas duas grandes figuras circulam outras, também da Bahia — clérigos e homens de prol, cultores do discurso e da glosa. Mas um apenas dentre eles parece ter-se considerado realmente homem de letras, tendo sido o primeiro brasileiro nato a publicar um livro: Manuel Botelho de Oliveira (1636-1711). Já aqui não estamos na região elevada em que o estilo culto exprime uma visão da lima e do mundo, emprestando-lhe o seu caprichoso vigor expressivo, listamos, antes, no âmbito do Barroco vazio e malabarístico, contra o qual se erguerão os árcades, e que passou à posteridade como índice pejorativo da época. Botelho de Oliveira é, deste ponto de vista, mais representativo que os outros da média da nossa literatura culta, as mais das vezes apenas alambicada. E nos serve para Introduzir o segundo tema dominante, que se definiu justamente graças ao espírito Barroco.

O espanto ante as novidades da terra levou facilmente à hipérbole. As modas literárias e artísticas, dominantes desde os fins do século XVI, somaram-lhe a agudeza e a busca deliberada da expressão complicada e rica. Em consequência, estendeu-se sobre o Brasil, por quase dois séculos, um manto rutilante que transfigurou a realidade — ampliando, suprimindo, torcendo, requintando. Sobre o traço objetivo e descarnado de certos cronistas atentos ao real — Gabriel Soares, Antonil — brotou uma folhagem até certo ponto redentora, que emprestou à terra bruta estatura de lenda e contornos de maravilha. Lembremos apenas o caso do mundo vegetal, primeiro descrito, depois retocado, finalmente alçado a metáfora. Se em Gabriel Soares de Sousa (1587) o abacaxi é fruta, nas Notícias curiosas e necessárias das cousas do Brasil (1668), de Simão de Vasconcelos, é fruta real, coroada e soberana; e nas Frutas do Brasil (1702), de frei Antônio do Rosário, a alegoria se eleva ao simbolismo moral, pois a regia polpa é doce às línguas sadias, mas mortifica as machucadas — isto é, galardoa a virtude e castiga o pecado. Por isto, o arguto franciscano constrói à sua roda um complicado edifício alegórico, nela encarnando os diferentes elementos do rosário. Nesta fruta, americana entre todas, compendiou-se a transfiguração da realidade pelo Barroco e a visão religiosa. Em Botelho de Oliveira, Rocha Pita, Itaparica, Durão, São Carlos, Porto-Alegre, ela e outras do seu séquito conduzem, até o cerne do século XIX, a própria idéia de mudança da sensibilidade européia nas condições do Novo Mundo.

A historiografia barroca estendeu o processo a toda a realidade, natural e humana, e os esforços de pesquisa documentária promovidos pelas Academias (dos Esquecidos, 1724-1726; dos Renascidos, 1759-1760) só deixam de ser listas neutras de bispos e governadores quando os seus dados se organizam num sistema nativista de interpretação religiosa e de metáfora transfiguradora. É o caso, sobretudo, da História da América portuguesa, de Sebastião da Rocha Pita (1660-1738), onde o Brasil se desdobra como um portento de glórias nos três reinos da natureza, enquadrando a glória do homem, — que converte o gentio, expulsa o herege e recebe como salário as dádivas vegetais e minerais, a cana e o ouro.

Não suprimindo, mas envolvendo e completando o conhecimento objetivo da realidade, a visão ideológica e estética da colônia se fixa de preferência na apoteose da realidade e no destino do europeu, do pecador resgatado pela conquista e premiado com os bens da terra, quando não redimido pela morte justa. Isto mostra como o verbo literário foi aqui — ajudado e enformado pela mão do Barroco — sobretudo instrumento de doutrina e composição transfiguradora. Alegoria do mundo e dos fatos; drama interior da carne e do espírito; concepção teológica da existência. Rocha Pita, Gregório de Matos, Antônio Vieira encarnam as vigas mestras do ajustamento do verbo ocidental à paisagem moral e natural do Brasil.

Fonte:
CANDIDO, Antonio. Literatura e Sociedade. 9. ed. RJ: Ouro Sobre Azul, 2006.

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Vicência Jaguaribe (Com Gosto de Massa de Bolo Crua)

Aqueles, talvez, fossem os últimos dias da avó. Embora continuasse lúcida, os órgãos vitais já davam sinal de falência. Quase não se alimentava mais, e o coração estava muito fraco.

A moça se aproximou da cama que a avó ocupara depois de muita resistência. Durante os anos de prostração, ela negara-se a abandonar a rede. A neta entendera que chegara o fim quando a velha concordara em ir para a cama. Com cara de poucos amigos, mas concordara. Ela aproximou-se, mas não ficou dentro do campo de visão da doente.

– Quem está aí? – perguntou a avó, descerrando os olhos.

Aqueles olhos, até bem pouco tempo, falavam uma linguagem que toda a família e todos os amigos entendiam. Eles, sozinhos, sem a ajuda da fala, dos gestos, ou de qualquer outro recurso, davam ordem, mandavam e desmandavam. Bastava um olhar da dona Olívia para que todo mundo assumisse a postura que ela exigia. Agora, porém, pareciam ter perdido a força e o brilho.

– Sou eu, vovó, a Maria Helena.

– Venha cá. Chegue mais perto.

**********

– Venha cá. Chegue mais perto.

A menina aproximou-se da avó. A velha terminara de pôr a massa do bolo na forma e tinha os dedos sujos da mistura que a neta adorava. Se deixassem, comeria toda aquela massa, crua mesmo. Mas os adultos a afastavam, falando em dor de barriga. A avó, no entanto, quando terminava aquela operação, deixava que ela chupasse seus dedos sujos da massa.

Naquele dia, depois que limpou toda a massa dos dedos da avó, a menina ficou parada vendo-a dirigir-se ao quintal, onde o pai mandara construir um forno a lenha. Observando aquela avó, mãe de sua mãe, ela pensou na outra avó, a mãe de seu pai. Tão diferentes as duas! Ela não sabia exatamente o que sentia por aquela mulher forte e decidida, que não dispensava muita atenção a crianças, mas que a deixava limpar seus dedos sujos de massa de bolo.

Mas de uma coisa ela sabia, embora não entendesse muito bem por que tinha aqueles sentimentos: o que ela sentia por esta avó era algo diferente do que sentia pela outra avó. Da outra ela tinha pena. Tinha sempre vontade de protegê-la. Aquela avó não estava preparada para enfrentar o mundo. Não sabia impor sua vontade. Não era dona de sua própria casa. Da outra – a que lhe dera os dedos sujos da massa do bolo para que ela os chupasse feito um bebê sugando o leite do peito da mãe – dessa, ela tinha medo, mas era um medo misturado com admiração. Admirava suas atitudes decididas, seu porte ereto, seu ar de quem não temia nem gente nem bicho; sua franqueza, que chegava a ultrapassar os limites da conveniência. Perto dela, sentia-se protegida, embora a temesse.

Gostava de ouvi-la assoviando, com o bico afinado, suas músicas favoritas – “Lua Branca”, por exemplo. A outra avó, não, achava que assovio não era para mulheres. E brigava quando ouvia as netas tentando imitar esta avó.

Ela deixara a cidadezinha onde a menina morava com os pais, e fora para a capital. Só voltava em ocasiões especiais. Morava com uma filha que enviuvara com sete filhos pequenos. Mas não vendera o casarão onde morara e onde criara os filhos. Não o vendera nem o alugara. Quando os netos tivessem discernimento suficiente, voltaria para o interior, onde pretendia viver até a morte – visita que ela não esperava com muita tranquilidade. Nada de sorrir-lhe, nada de pôr a mesa, nada de lavrar o campo, de limpar a casa. Nada de colocar cada coisa em seu lugar. E, principalmente, nada de cumprimentos. Se tivesse condições, fecharia a porta para que ela não entrasse.

Era também muito controlada em relação a dinheiro. A menina não se lembrava de haver recebido um presente de suas mãos. Presente, para ela, era o mesmo que esbanjar dinheiro. Os presentes que ela dava aos filhos, aos netos, à família, de maneira geral, eram sempre em forma de serviço, em forma de socorro na hora das necessidades.

**********

– Helena Maria, você não ouviu? Chegue mais perto.

Aquela ordem arrancou a menina do mundo da infância, ainda degustando a massa de bolo crua. Ela puxou uma cadeira e sentou-se em uma posição que permitia à avó ver-lhe o rosto. A claridade que penetrava pela porta aberta dava condições a que a moça distinguisse com perfeição os traços fisionômicos da avó. Ou era somente a recordação do que ela fora? O rosto quadrado, com feições bem marcadas. Os lábios finos, contrastando com o nariz meio grosso – que a mãe da menina herdara. Os olhos castanhos e firmes, as maçãs do rosto, salientes. E a testa alta, de onde saíam os poucos cabelos claros e muito finos, que ela usava presos dos lados por grampos. Como estava magrinha! Fora uma mulher forte, com curvas bem acentuadas. Agora, aquele corpo parecia, antes, o de uma criança. Perdera as formas exuberantes, que deixara como herança para as filhas e as netas.

– Pronto, vovó, estou aqui.

– Vá à sala de jantar, abra a cristaleira e me traga aquele aparelho de porcelana verde. Aquele pequeno serviço de chá. Aquele que você sempre cobiçou.

– Não, vovó, eu não o cobiçava. Achava-o bonito. Admirava-o. É diferente.

A velha quis replicar e tentou abrir um sorriso, que acabou em esgar.

– Vá! Não perca tempo.

A moça trouxe as delicadas peças e espalhou-as na cama, de modo que a avó pudesse tocá-las. Mas a velha não perdeu tempo com sentimentalismo.

– Leve-o. É seu.

– Mas, vovó…

– Não diga nada. Só você gosta dessas antiguidades, que seus irmãos e primos chamam velharia. Agora vá. Deus a abençoe.

Ao cair da noite daquele dia, a velha se viu obrigada a abrir a porta para a indesejada das gentes, em uma cena da qual ela nunca quis admitir que um dia seria protagonista.

A neta, a cada vez que conciliava o sono naquela noite, sonhava com a avó batendo bolo. E, em todas as vezes em que sonhou, acordou com o gosto de massa de bolo crua na boca.

Fonte:
Colaboração da Autora
Imagem = http://www.rainhasdolar.com.br/

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Constelação de Trovas II

PARANÁ

Cada momento vivido
na vida que se renova,
às vezes é definido
apenas em uma trova!
ALBERTO PACO – PR

Mesmo soltas e espalhadas,
as pétalas são formosas;
porém somente abraçadas
é que elas se tornam rosas!
A. A. DE ASSIS – PR

Se todos, sinceramente,
mostrarem paz e labor,
nós teremos, brevemente,
menos ódio, mais amor!
ARLENE LIMA – PR

Quero ser sempre a criança
com desejo de estudar,
curiosa e na esperança
de nunca me completar…
DINAIR LEITE – PR

Quem tem sonhos hoje em dia
Nunca perca a esperança
Diz velha sabedoria
Quem espera sempre alcança.
JOSÉ FELDMAN – PR

Do livro da tua vida,
sou página, enfim, virada;
tornei-me cena esquecida,
por tudo, só tive o nada.
LAIRTON TROVÃO DE ANDRADE – PR

Quem diz que eu olho e não vejo
a lágrima em seu olhar
não merece mais meu beijo,
pois sofro a me controlar.
NEI GARCEZ – PR

No rosto, um leve sorriso
disfarça a dor da saudade…
– Há vezes em que é preciso
fingir a felicidade.
OLGA AGULHON – PR

Se a vida te desafia
qual gigante Adamastor,
desperta, na travessia
teu gigante interior.
ROSA DE OLIVEIRA – PR

Juraste-me ser fiel,
mas do nosso amor, contudo,
hoje resta o velho anel
num estojo de veludo.
VANDA ALVES DA SILVA – PR

Num dos lances mais astutos
que a vida tem-me inspirado,
eu mostro os olhos enxutos,
e escondo o lenço molhado.
VANDA FAGUNDES QUEIROZ – PR

Sou mulher, luto, decido,
sei de cor muitos poemas,
mas com seu beijo atrevido,
esqueço até dos problemas!
VÂNIA MARIA SOUZA ENNES – PR

Na vida, essa pauta imensa,
por direito ou por dever,
a gente escolhe a sentença
e a cumpre, sem perceber.
WANDIRA F. QUEIROZ – PR

MINAS GERAIS

A bondade é um sábio
meio de ajudar-se e de ajudar:
— quem enxuga o pranto alheio
não tem tempo de chorar!
ALFREDO DE CASTRO – MG

“Eu te amo” – a frase bendita
não veio…e o orgulho forte
fez da sentença não dita
minha sentença de morte!
ARLINDO TADEU HAGEN – MG

As almas de muita gente
São como o rio profundo:
-A face tão transparente,
E quanto lodo no fundo!…
BELMIRO BRAGA – MG

As flores do seu jardim
os versos de sua história
trouxeram também pra mim
uma canção pra memória.
DÁGMA VERÔNICA -MG

Meu barracão na favela,
Onde vou vivendo ao léu,
Na moldura da janela,
Não tem vidraça: -Tem céu!
JOSÉ ANTONIO JACOB – MG

Cometi, não por vingança,
um crime que foi surpresa:
matei a tua lembrança,
em legítima defesa!
JOSÉ FABIANO –MG

Mãe,tuas simples sentenças,
em minha infância enraizadas,
ainda norteam crenças
e escolhas de encruzilhadas.
WANDA DE PAULA MOURTHÉ-MG

SÃO PAULO

Meus pequenos descendentes,
podendo ajudar, ajudo.
Protejo e rego as sementes,
que o berço é berço de tudo.
ALBA CHRISTINA-SP

Faltar um pouco à verdade
por questão de educação,
diga com sinceridade,
merece ou não o perdão?
AMILTON MACIEL MONTEIRO-SP

Tal e qual meu pé de rosa,
que ao ser podado floresce,
esta saudade teimosa,
quanto mais podo, mais cresce!…
CAROLINA RAMOS – SP

Nos laços presos às tranças
da cigana envelhecida
entrelaçam-se lembranças
das tranças todas da vida…
DIVENEI BOSELI – SP

Tricotando o casaquinho,
à espera de ser vovó,
teço ternura e carinho
nos pontos em cada nó!
DOMITILA BORGES BELTRAME-SP

Sabedoria há de sobra
para deixar de te amar,
mas, se o coração me cobra,
eu não consigo pagar…
IZO GOLDMAN – SP

Baú velho, tampo torto,
cartas e fotos mofando…
-Refúgio de um sonho morto
que eu vivo ressuscitando!…
JOSÉ OUVERNEY – SP

Qual um Sol assim já posto,
totalmente num ocaso,
meu coração por desgosto
chorou nosso fim de caso.
MIFORI-SP

Toda a noite, quando saio,
vendo o céu luminescente,
sinto a paz que é como um raio
de luar dentro da gente.
MYRTHES MAZZA MASIERO-SP

Persiste, mas por maldade,
a tua luz não tem fim:
-Brilha o luar da saudade
no céu que há dentro de mim!
PEDRO MELLO-SP

Se o erro ficou distante,
seja pleno o teu perdão:
não se cobra ao diamante
seu passado de carvão!
PEDRO ORNELLAS – SP

Não busco outras alianças,
nem procuro um novo afeto:
em tua ausência, as lembranças
me povoam por completo…
RENATA PACOLLA-SP

Que tu sejas, nos teus brios,
quando buscares a glória,
altivo nos desafios,
mas humilde na vitória!
SELMA PATTI SPINELLI-SP

A humildade se ilude,
quando a justiça que faz:
– Prega na cruz a virtude
e liberta… Barrabás!…
SÉRGIO FERREIRA DA SILVA-SP

RIO DE JANEIRO

Eu canto triste no canto
saudades do teu amor,
porém se ouvires meu canto,
peço graças ao Senhor.
AGOSTINHO RODRIGUES CAMPOS-RJ

Namorei por toda a vida
todos os sonhos que sonhei,
até meus sonhos perdidos
confesso que namorei!
ANTONIO MANUEL ABREU SARDENBERG – RJ

Todo amor nos eterniza,
pois toda morte perece
e todo tempo agoniza
aonde a paixão floresce.
CARLOS AUGUSTO ALENCAR-RJ

Nosso amor, mais que sagrado,
tem brasa que o fogo atiça:
-É um feitiço do passado
que, até hoje, me enfeitiça!
CLENIR NEVES RIBEIRO – RJ

Quem por cigarros se entrega
às mãos do vício, sem medos,
não percebe que carrega
a morte acesa entre os dedos…
EDMAR JAPIASSÚ MAIA -RJ

Por um capricho da sorte,
por uma estranha tortura,
o amor que me leva à morte
é o que me dá mais ventura!
ELIZABETH S. CRUZ – RJ

Nosso amor, que coisa estranha:
conflitos… poucos assuntos…
Ficamos “de mal…” no entanto
queremos sempre estar juntos.
GILVAN CARNEIRO DA SILVA – RJ

Para uma vida melhor,
nada mais se faz preciso:
Pedir ao Senhor-Maior
sabedoria e… juízo!
HERMOCLYDES S. FRANCO-RJ

Esta é uma vida engraçada
e até parece pilhéria,
uns com a sorte sonhada,
outros, apenas, miséria!
JOSÉ F. SALLES –RJ

Saudade, quase se explica
Nesta trova que te dou:
Saudade é tudo que fica
Daquilo que não ficou.
LUIZ OTÁVIO – RJ

O primeiro e grande amor
é o doce amor de Jesus,
que, salvando o pecador,
morreu pregado na cruz.
NEIVA FERNANDES – RJ

Se foi presságio, não sei;
mas eu senti, na partida,
que aquele adeus que eu te dei
dava adeus à nossa vida…
OTÁVIO VENTURELLI-RJ

Em teu silêncio, bem sei,
um conselho me enviaste…
Foi quando te perguntei
se me amavas… E calaste!
RENATO ALVES -RJ

Hoje, nós, os pecadores,
oramos por salvação
a quem só pagou com dores
para ganharmos perdão.
ROBERTO PINHEIRO ACRUCHE – RJ

É emoção que só conhece,
numa corrente do bem,
quem junta as mãos numa prece
para pedir por alguém!
RODOLPHO ABBUD – RJ

Devotamento no lar
prova a presença do amor,
dando exemplo singular
de família de valor.
RUTH FARAH NACIF-RJ

Se o meu silêncio diz tudo
que a minha boca não diz,
o amor no peito é escudo
que me faz viver feliz!
WALTER SIQUEIRA-CAMPOS-RJ

RIO GRANDE DO NORTE

Quando o poeta se extasia,
nas asas, da inspiração,
faz do sonho, a poesia,
põe no verso, o coração.
FABIANO WANDERLEY-RN

Entre as mãos, o lenhador,
tem o machado que corta,
e o seu cabo, que a rigor,
é de outra árvore já morta!
FRANCISCO NEVES MACEDO-RN

Versos soltos ou fragmentos
são as trovas que componho,
que amenizam meus tormentos
e dão mais vida ao meu sonho!
JOAMIR MEDEIROS-RN

A vida e o sonho, querida,
são graças que Deus nos deu:
quem não ama não tem vida,
quem não sonha, já morreu!
JOSÉ LUCAS DE BARROS – RN

Eu sempre quis numa trova,
provar tudo quanto fiz.
Mas nunca passei na prova,
nem fiz a trova que quis.
PROFESSOR GARCIA – RN

CEARÁ

Para exaltar a beleza,
notória num puro amor,
é necessário pureza,
ter alma de trovador.
ANA MARIA NASCIMENTO-CE

Mesmo que a lembrança marque
de um certo modo cruel,
aos domingos vou ao parque
dar voltas no carrossel.
FRANCISCO JOSÉ PESSOA-CE

Já não adianta insistir,
pedindo para te amar,
eu já cansei de pedir
tu não cansas de negar.
GERALDO AMANCIO PEREIRA – CE

SANTA CATARINA

A Poesia nasce na alma,
transmite amor e amizade,
beleza, ternura e calma,
é a própria felicidade!
GISLAINE CANALES – SC

RIO GRANDE DO SUL

Pelos caminhos sem fim,
que a vida me fez trilhar,
fiquei perdida de mim,
sem conseguir me encontrar!
DELCY CANALLES-RS

PARÁ

Seja na paz ou na guerra,
quer na alegria ou na dor,
o maior poder da terra
tem quatro letras: Amor!
ANTÔNIO JURACI SIQUEIRA-PA

Ó Senhor, com o teu poder,
deixa na praia eu sonhar,
pois as ondas irão ver
que eu também pertenço ao mar!
SARAH RODRIGUES – PR

BAHIA

Principalmente no amor
deve haver devotamento,
sem o qual pode haver dor
e até mesmo esquecimento.
RAYMUNDO SALLES BRASIL-BA

PERNAMBUCO

Soprei. Apagou-se a chama.
Disse-te adeus em seguida.
-Quem diz adeus a quem ama
diz adeus à própria vida!
OLEGÁRIO MARIANO – PE

MARANHÃO

Mãos que imploram, na pobreza;
mãos que assistem seus irmãos.
– Quanto amor, quanta beleza,
há no encontro dessas mãos!
ORLANDO BRITO – MA

PORTUGAL

Pelas procelas da vida
passei tanto vendaval…
A cada onda vencida
nela afundei o meu mal!
MARIA JOSÉ FRAQUEZA – PORTUGAL

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Antonio Cândido (Letra e Idéias no Período Colonial) Parte 1

(exposição didática)

Os primeiros estudiosos da nossa literatura, no tempo do Romantismo, se preocuparam em determinar como ela surgiu aqui, já que o relativismo então reinante ensinara que as instituições da cultura radicam nas condições do meio, variando segundo elas. E como a época era de exigente nacionalismo, consideravam que lutara dois séculos para se formar, a partir do nada, como expressão de uma realidade local própria, descobrindo aos poucos o verdadeiro caminho, isto é, a descrição dos elementos diferenciais, notadamente a natureza e o índio. Um expositor radical desta corrente, Joaquim Norberto, chegou a imaginar a existência de uma literatura indígena, autenticamente nossa, que, a não ter sido sufocada maliciosamente pelo colonizador, teria desempenhado o papel formador que coube à portuguesa…

Daí, a concepção passou à crítica naturalista, e dela aos nossos dias, levando a conceber a literatura como processo retilíneo de a brasileiramente), por descoberta da realidade da terra ou recuperação de uma posição idealmente pré-portuguesa, quando não antiportuguesa. Resultaria uma espécie de espectrograma em que a mesma cor fosse passando das tonalidades esmaecidas para as mais densamente carregadas, até o nacionalismo triunfal dos indianistas românticos.

Este ponto de vista é historicamente compreensível como elemento de tomada de consciência da jovem nação, tanto mais quanto os letrados brasileiros, a certa altura do século XVIII, passaram conscientemente a querer fundar ou criar uma literatura nossa, embora sem as aspirações separatistas que os românticos teriam mais tarde. O ponto de vista moderno tenderia mais ao deles, pois o que realmente interessa é investigar como se formou aqui uma literatura, concebida menos como apoteose de cambucás e morubixabas, de sertanejos e cachoeiras, do que como manifestação dos grandes problemas do homem do Ocidente nas novas condições de existência. Do ponto de vista histórico, interessa averiguar como se manifestou uma literatura enquanto sistema orgânico, articulado, de escritores, obras e leitores ou auditores, reciprocamente atuantes, dando lugar ao fenômeno capital de formação de uma tradição literária.

Sob este aspecto, notamos, no processo formativo, dois blocos diferentes: um, constituído por manifestações literárias ainda não inteiramente articuladas; outro, em que se esboça e depois se afirma esta articulação. O primeiro compreende sobretudo os escritores de diretriz cultista, ou conceptista, presentes na Bahia, de meados do século XVII a meados do século XVIII; o segundo, os escritores neo-clássicos Ou arcádicos, os publicistas liberais, os próprios românticos, porventura até o terceiro quartel do século XIX. Só então se pode considerar formada a nossa literatura, como sistema orgânico que funciona e é capaz de dar lugar a uma vida literária regular, servindo de base a obras ao mesmo tempo universais e locais.

Historicamente considerado, o problema da ocorrência de uma literatura no Brasil se apresenta ligado de modo indissolúvel ao do ajustamento de uma tradição literária já provada há séculos — a portuguesa — às novas condições de vida no trópico. Os homens que escrevem aqui durante todo o período colonial são, ou formados em Portugal, ou formados à portuguesa, iniciando-se no uso de instrumentos expressivos conforme os moldes da mãe-pátria. A sua atividade intelectual ou se destina a um público português, quando desinteressada, ou é ditada por necessidades práticas (administrativas, religiosas etc). É preciso chegar ao século XIX para encontrar os primeiros escritores formados aqui e destinando a sua obra ao magro público local.

Por isso, não se deve perder de vista duas circunstâncias capitais: o imediatismo das intenções e a exiguidade dos públicos, que produziram algumas importantes consequências. Assim, ou a obra se confundia à atividade prática, como elemento dela (sermão, relatório, polêmica, catequese), ou se fechava na fronteira de pequenos grupos letrados, socialmente ligados às classes dominantes, com a tendência consequente ao requinte formal. Num caso e noutro pesava a composição da obra o destino que ela teria. O auditório de igreja, os convivas de sarau seriam os públicos mais à mão; o curso oral, à boca pequena, o meio principal de divulgar. Também a obra exclusivamente escrita pouco se aparta da intenção e pontos de vista práticos, na medida em que é crônica, informação, divulgação.

Estas considerações sugerem alguns dos modos por que se teria processado o ajuste entre a tradição européia e os estímulos locais, faltando mencionar que os padrões estéticos do momento — os do atualmente chamado Barroco — atuaram como ingrediente decisivo.

Fonte:
CANDIDO, Antonio. Literatura e Sociedade. 9. ed. RJ: Ouro Sobre Azul, 2006.

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Trova 164 – Arlene Lima (Maringá/PR)

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20 de julho de 2010 · 00:39

Arlindo Tadeu Hagen (Baú de Trovas)

Garimpeiro, pelos vãos
dos teus dedos que envelhecem,
muda a riqueza de mãos
para mãos que não merecem!…

É nossa união perfeita
magia para os ateus:
se este amor for “coisa feita”,
foi coisa feita por Deus!

Por magia, o sonho lindo,
que me segue ao fim da estrada,
é um pombo alegre fugindo
de uma cartola surrada!

Trata o amor com fantasia
para fazê-lo viver;
o amor que perde a magia
tem muito pouco a perder!…

Ser seu amigo é um valor
que para mim não compensa,
para quem deseja o amor,
a amizade é quase ofensa!.

Cansei de crer tolamente
nos meus sonhos de menino.
Nem sempre o que agrada a gente
também agrada ao Destino!

Eu não troco as ilusões
Pelos caminhos mais certos.
Meu sonho de abrir portões
Despreza os portões abertos!

Bate à porta… e a desconfiança
põe o Salim na agonia:
tem mais medo de cobrança
do que gato de água fria!

Por mais que a vida dê volta,
nosso carinho perdura…
que a mão do tempo não solta
as mãos dadas com ternura!

Recordo o velho sobrado…
meus pais… a infância inocente…
e as essências do passado
vão perfumando o presente!…

Como negar evidências
sobre um Ser especial
se, na essência das essências,
Deus é sempre essencial!?…

– Casamento é mesmo o fim!
diz ela, no seu enfado,
– Quem suspirava por mim
agora ronca ao meu lado!…

– Quero um suspiro, – Anuncia,
em frente, ao balcão, o Rui;
e o luso da padaria,
bem distraído, diz: – Ui!…

Enganador é o Ramiro,
que finge como ninguém,
e só de “último suspiro”
ele já deu mais de cem!…

Ela voltou de surpresa
e eu pude assim, num só dia,
após chorar de tristeza
também chorar de alegria!

Faltaram surpresa e encanto
em nosso encontro no cais…
Eu te esperei tanto, tanto,
que eu nem esperava mais…

Num mau-humor quase eterno,
há quem, no viver sombrio,
faz da vida um grande inverno…
depois reclama do frio!

No verão ela anuncia
que o nudismo é a sensação
e o que só o marido via,
agora todos verão!

É inverno… e ao vê-Ia passar
num shortinho tentação,
eu mal consigo esperar
a chegada do verão!

Lembrando o amor que a iludia
minha alma, feliz, revive…
Eu sei que foi fantasia
porém foi tudo que eu tive!

Ante a clonagem, desmaia
o cientista pouco esperto:
fez a sogra de cobaia
e a experiência deu certo!

Minhas mágoas mais secretas
em versos vou transformando.
No horizonte dos poetas
Há sempre estrelas brilhando!

Se a vida é mera passagem
por este plano somente,
o preço desta viagem
é a própria vida da gente

Na rede, pela manhã,
sonhei com a loura incomum.
Na melhor hora do tchan,
a rede arrebenta e … tchun!

Num constante caminhar,
a minha vida consiste
na procura de um lugar
que nem mesmo sei se existe!

Meu coração tem lutado
na guerra contra a razão:
soldado, à força alistado
no exército de paixão!

Saudade são velhos trapos,
pedaços do coração,
que fica feito farrapos
na cerca da solidão!

“Boa viagem” – perdoa
mas te atender não consigo
que a viagem só é boa
quando tu segues comigo!

Numa batalha incontida
eu luto a ver se domino,
na imensa arena da vida,
os touros do meu destino!

Infância é um brinquedo usado
que um dia a vida resolve
tomar um pouco emprestado
e nunca mais nos devolve!

Senti, no suave cheiro
que o vento me trouxe agora,
que o vento passou primeiro
pela rua onde ela mora!

Para mudar a visão
de quem não muda as retinas,
Deus, em sábia decisão,
encheu as ruas de esquinas!

Violando os frágeis abrigos,
a chuva lembra uma espada
cortando os sonhos mendigos
no meio da madrugada.

Ao te esperar, na agonia,
entre o dilema e a incerteza,
minha vida é tão vazia
que transborda de tristeza

Indecisos, nossos dias
vivem dilemas sem fim,
revezando as fantasias
de pierrô e de arlequim…

Minha alma reflete o tema
de um passarinho fujão,
vivendo o eterno dilema
entre a fome e o alçapão

Num dilema de amargura,
a Deus eu tento culpar
meu fascínio pela altura
sem asas para voar.

Partir… ficar… e o problema
de espinhosa solução
enlaça em nós de dilema
as cordas da indecisão !

Por ver a nossa ansiedade
ao ter de nos separar,
o dilema da saudade
é saber com quem ficar.

Se alguns sofrem se sozinhos
e outros sofrem por amar,
dilema é ter dois caminhos
e nenhum para trilhar

Sou gota d’água a cismar
num dilema-desafio,
entre a ventura do mar
e a segurança do rio

Ter ou não ter seu amor…
Este dilema profundo
me faz o mais sofredor
dos sofredores do mundo.

Vens… não vens… e na incerteza
do dilema que me cansa,
a minha vida está presa
neste fio de esperança!

Meu sogro cheio de medo,
tenta a peruca esconder
e o que ele guarda em segredo
“tô” careca de saber !

Para manter a mensagem
daquele adeus, na partida,
eu gastei toda a coragem
que eu juntei durante a vida!

Minha sogra é uma desgraça:
magricela e jururu;
a coroa é mais sem graça
que rodízio de chuchu!

Pobre horizonte pequeno
de quem crê, sem ver mais nada,
que uma rosa com sereno
é só uma rosa molhada

Selei, ao negar-te o abraço,
a minha sina de só.
A mão que desfaz um laço
nem sempre desfaz um nó!

Eras corda enfraquecida…
e eu era uma corda só…
Fez-se o nó… e a mão da vida
jamais defez este nós!

Maria é um resto somente
no cais, largada ao desdém…
ontem – mar de tanta gente…
hoje – porto de ninguém!…

As leis do sangue são vãs
pois sinto, nas horas calmas,
nossas almas tão irmãs…
e não há sangue nas almas…

Eu te imploro, por favor,
não insistas neste adeus.
Se não for por meu amor,
fica pelo amor de Deus!

Mil conquistas… sonhos vãos
que passaram como a bruma…
Eu apertei tantas mãos
e não segurei nenhuma!…

As ruas são labirintos
onde eu noto, em profusão,
milhões de dramas distintos
vagando na multidão!

Respeita as dores e anseios
na igualdade que proclamas
e vê que os dramas alheios
são dos outros… mas são dramas!

A casa quase vazia
mostra ao ator, numa trama,
que outro drama se inicia
quando ele encerra o seu drama

Do trigo da meninice
e do pão da mocidade
só restaram na velhice,
as migalhas da saudade!

Em dupla transformação,
a dois milagres assista:
o trigo em forma de pão…
e o pão em forma de Cristo.

Olho o perfil da cascata
e tenho a impressão estranha
de ver um manto de prata
sobre as costas da montanha!

O sol, em plena alvorada,
abrindo o dia bonito,
é uma cascata dourada
jorrando luz do Infinito.

Nossa seleção – coitada…
nesta copa, em desatino,
em vez de dançar lambada,
dançou um tango argentino!

Diz o burro: – Não dá pé
minha paquera travessa!
Não sei fazer cafuné
numa “mula sem cabeça”!!!

No forró, lá no escurinho,
ante tanta iniqüidade,
foi que meu primo Santinho
perdeu sua “santidade”. .

O toureiro Chico Louro
é chífrado onde estiver:
Na tourada… pelo touro,
No forró… pela mulher.

Num constante caminhar,
a minha vida consiste
na procura de um lugar
que nem mesmo sei se existe!

Fonte:
UBT/ Juiz de Fora

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Arquivado em Minas Gerais, Trovas

Arlindo Tadeu Hagen (1964)

ARLINDO TADEU HAGEN nasceu em Juiz de Fora-MG, em 01 de agosto de 1964, filho de Arlindo Hagen e Isaura Pinto Hagen. Profissionalmente é Engenheiro Civil, formado pela UFJF e atua no ramo da construção civil.

Trovador atuante, pertence à União Brasileira de Trovadores – Seção de Juiz de Fora, onde já ocupou diversos cargos, sendo atualmente seu Presidente. Magnífico Trovador nos Jogos Florais de Nova Friburgo, tem centenas de Troféus e Medalhas obtidos em Concurso de Trovas e Jogos Florais por todo o Brasil. Possui, também, premiações em Poesias, Contos, Crônicas e outros gêneros menos visitados.

Pertence à Academia Juizforana de Letras, Cadeira nº 07 – Patrono Oscar da Gama, cujo ocupante anterior foi Célio Grünewald, seu tio e grande incentivador na Trova e à Academias Mineira de Trovas, Cadeira nº 36 – Patrono Luiz Otávio.

Fonte:
UBT/ Juiz de Fora

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Arquivado em Biografia

Antonio Cândido (O Escritor e o Público) – Parte Final

As considerações anteriores procuram apontar algumas condições da produção da literatura no Brasil, quase até os nossos dias, do ponto de vista das relações do escritor com o público e dos valores de comunicação.

Na primeira metade do século XX houve alterações importantes no panorama traçado, principalmente a ampliação relativa dos públicos, o desenvolvimento da indústria editorial, o aumento das possibilidades de remuneração específica. Em consequência, houve certa desoficialização da literatura, que havia atingido nos dois primeiros decênios extremos verdadeiramente lamentáveis de dependência ideológica, tornando-se praticamente complemento da vida mundana e de banais padrões acadêmicos. A partir de 1922 o escritor desafogou; e embora arriscando a posição tradicionalmente definida de “ornamento da sociedade” e as consequentes retribuições, pôde definir um papel mais liberto, mesmo não se afastando na maioria dos casos do esquema traçado anteriormente — de participação na vida e aspiração nacionais. A diferenciação dos públicos, alguns dos quais melhor aparelhados para a vida literária, permitiu maiores aventuras intelectuais e a produção de obras marcadas por visível inconformismo, como se viu nas de alguns modernistas e pós-modernistas. Convém mencionar que as elites mais refinadas do segundo quartel do século XX não coincidiram sempre, felizmente, a partir de então, com as elites administrativas e mundanas, permitindo assim às letras ressonância mais viva.

Se considerarmos o panorama atual, talvez notemos duas tendências principais no que se refere à posição social do escritor. (O “atual” deste escrito é o ano de 1955, quando foi publicado) De um lado, a profissionalização acentua as características tradicionais ligadas à participação na vida social e à acessibilidade da forma; de outro, porventura como reação, a diferenciação de elites exigentes acentua as qualidades até aqui recessivas de refinamento, e o escritor procura sublinhar as suas virtudes de ser excepcional. Há, portanto, uma dissociação do panorama anterior, que lhe dá maior riqueza e, afinal, um contraponto mais vivo. Ao contrário do que se tinha verificado até então, quase sem exceções (pois a supervisão dos grupos dominantes incorporava e amainava imediatamente as inovações e os inovadores), assistiu-se entre nós ao esboço de uma vanguarda literária mais ou menos dinâmica.

É preciso agora mencionar, como circunstância sugestiva, a continuidade da “tradição de auditório”, que tende a mantê-la nos caminhos tradicionais da facilidade e da comunicabilidade imediata, de literatura que tem muitas características de produção falada para ser ouvida. Daí a voga da oratória, da melodia verbal, da imagem colorida. Em nossos dias, quando as mudanças assinaladas indicavam um possível enriquecimento da leitura e da escrita feita para ser lida, — como é a de Machado de Assis, — outras mudanças no campo tecnológico e político vieram trazer elementos contrários a isto. O rádio, por exemplo, reinstalou a literatura oral, e a melhoria eventual dos programas pode alargar perspectivas neste sentido. A ascensão das massas trabalhadoras propiciou, de outro lado, não apenas maior envergadura coletiva à oratória, mas um sentimento de missão social nos romancistas, poetas e ensaístas, que não raro escrevem como quem fala para convencer ou comover.
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Próximo Tópico = Letras e Idéias no Período Colonial
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Fonte:
CANDIDO, Antonio. Literatura e Sociedade. 9. ed. RJ: Ouro Sobre Azul, 2006.

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Arquivado em O Escritor com a Palavra, Sopa de Letras

José Feldman (O Trovador)

18 de Julho – Dia do Trovador
Hoje é o Dia Nacional do Trovador. E, em homenagem a este dia, tantas e tantas trovas são colocadas. Mas, afinal quem é o trovador?

Trovadores são os nossos sonhos, nossos momentos de tristeza, de revolta, de solidão, de alegria, de amor, de fé.

Os trovadores carregam dentro de si uma bagagem enorme de suas realizações, decepções, sonhos e principalmente, doação.

O trovador doa a si, para poder compartilhar o momento com os outros. É como se recebesse um pão e deste fizesse brotar tantos e tantos pâezinhos para que pudesse saciar a nossa fome de esperança.

O trovador é coração, é alma, é sangue, é lágrima, é riso.

O trovador busca em cada cantinho escondido da vida um mínimo que seja de um grão de areia para poder mostrar ao mundo, e transformar este grão em uma praia enorme para que todos possam aproveitar ela e se encantar com a maravilha que é um mero grão.

O trovador é luz. É luz que ilumina o caminho de muitos que vivem nas trevas. É luz daqueles que a perderam nas encruzilhadas da vida.

O trovador é sonho. Tantos sonhos são sonhados, e o trovador carrega nestes quatro versos sonhos que se perderam na névoa do tempo.

Enfim, o trovador é amor. É o amor dos apaixonados, o amor dos casados e dos que ainda um dia irão amar. É o amor de amigos, o amor ao próximo, o amor aos animais.

O trovador foi, é e sempre será VIDA!

Meus parabéns a todos trovadores, todos que batalharam e batalham por manter esta chama acesa.

Meus especiais parabéns a
Eduardo Toledo, presidente da União Brasileira dos Trovadores (UBT);
Arlindo Tadeu Hagen, seu vice-presidente;
Carolina Ramos, presidente da Seção Santos/SP;
Vânia Maria Souza Ennes, presidente da UBT Paraná;
Antonio Augusto de Assis, caminho de fé;
Sinclair Pozza Casemiro, delegada de Campo Mourão;
Domitila Borges Beltrame, presidente da UBT São Paulo;
Maria Stinglin, presidente da UBT Curitiba.

São tantos nomes, por isto deixo os meus parabéns a TODOS OS TROVADORES E AMANTES DA TROVA.

E em especial o meu muito obrigado a
Luiz Otávio, nosso mestre maior, o estopim do movimento trovadoresco
e
Izo Goldman, meu eterno amigo e mentor.
.

José Feldman 18/07/2010

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Arquivado em datas comemorativas, Dia do Trovador, Paraná em Trovas

Dinair Leite (Homenagem aos Irmaõs Trovadores)


Trovador e passarinho,
dois arautos da poesia:
Se perdem amor ou ninho
gorjeiam dor…todavia.

Trovador quando ama a rosa
respeitando seus espinhos,
da flor carinho ele goza
perfumando seus caminhos.

Trovador por ironia,
quando a trova terminou,
da pena viu que escorria
pranto que a trova borrou.

Dinair Leite (Paranavaí/PR)


Não pode haver criação literária mais popular e que mais fale diretamente ao coração do povo do que a trova. É através dela que o povo toma contato com a poesia e por isto mesmo a trova e o trovador são imortais. (Jorge Amado)

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Arquivado em datas comemorativas, Dia do Trovador, Trovas

Nilton Manoel (Parabéns, Trovador)

Nilton Manoel é de Ribeirão Preto/SP

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Arquivado em datas comemorativas, Dia do Trovador

Ialmar Pio Schneider (Homenagem ao Dia do Trovador)

Seresteiro e trovador
ambos têm equivalência:
porque os dois fazem do amor
o motivo da existência.

O poeta é um visionário,
mas quanta verdade encerra;
mesmo sendo um solitário
ele abrange toda a Terra…

Na cadência de uma trova
vou embalar meu desejo.
Minha vida se renova
quando te abraço e te beijo.

As trovas que a gente escreve,
mesmo que sejam banais,
é um pouco da vida breve
que não volta nunca mais…

Tem trovas que a gente diz,
tem outras que a gente lê,
e pra mim a mais feliz
é a que fala de você…

Fonte:
http://ialmarpioschneider.blogspot.com/

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Arquivado em datas comemorativas, Dia do Trovador, Trovas

Pedro Viana Filho (O Trovador)

Imagem = Professor Mario Fernando de Mori

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Arquivado em datas comemorativas, Dia do Trovador

18 de Julho – Dia do Trovador


O dia 18 de julho é considerado em todo o território nacional, o Dia do Trovador, por ser a data de nascimento de Luiz Otávio, fundador e presidente perpétuo da União Brasileira de Trovadores.

Luiz Otávio era o pseudônimo usado por Gilson de Castro, cirurgião dentista nascido no Rio de Janeiro em 1916 e falecido em Santos em 1977. Foi ele, na década de cinqüenta que deu um grande impulso à trova, divulgando-a, maciçamente, no rádio, nas revistas e nos jornais, culminando com o lançamento do livro “Meus Irmãos, os Trovadores”, em 1956. Este livro que reuniu 2.000 trovas de autores diversos pode ser considerado como marco inicial do movimento dos atuais trovadores. Em 1960, contando com a colaboração de J. G. de Araújo Jorge, Luiz Otávio lançou os I Jogos Florais de Nova Friburgo, iniciativa que se espalhou por todo o território brasileiro e ainda hoje e a principal forma de divulgação da trova no Brasil. Com os Jogos Florais multiplicaram-se os trovadores a tal ponto que para melhor congrega-los foi fundada em 1966 a União Brasileira de Trovadores.

E é desta UBT que partem as principais comemorações do 18 de julho. Praticamente todas as seções e delegacias criam formas para tais celebrações como reuniões festivas, palestras, almoços ou jantares de confraternização, lançamento de livros, concursos de trovas, etc.

O dia 18 de julho se transformou, por força de lei, no Dia do Trovador em dezenas de municípios por todo o Brasil e em alguns estados da federação.

Cada momento vivido
na vida que se renova,
às vezes é definido
apenas em uma trova!
Alberto Paco

A Trova não morre nunca,
Retempera a humanidade
E vence a tristeza adunca,
Alegrando a mocidade!
Apollo Taborda França

A trova é gota de pranto
que cai dos olhos de alguém
e por alguém chorou tanto
que nem mais lágrima tem.
Antonio Salomão

Sete sílabas por cima
Com idéia sempre nova,
E cadência, boa rima,
Numa quadra… a bela Trova!
Apollo Taborda França

A trova pra ser bonita
tal qual filhinha dileta:
traz sempre o laço de fita
da inspiração do poeta!
Joaquim Carvalho

Sou trovador, tenho senso
Da importância da poesia:
Encerra tudo o que penso,
Realidade e fantasia!
Apollo Taborda França

Há trovas que o vento leva;
outras, o vento desfaz…
Mas, as minhas, sem reserva
são trovas que o vento traz.
Maria Nicolas

Uma Trova pra ser boa,
Expressiva, universal,
Na mensagem apregoa
A cultura e a moral!
Apollo Taborda França

Dia dezoito de julho,
é dia do trovador.
Eu faço trovas – me orgulho,
pois as faço com amor.
HLuna

Canta, canta, trovador
e promove a festança,
convidando com amor
todo mundo para a dança.
Ana Maria Gazzaneo

E desse dia festivo
eu venho participar,
pois das trovas sou cativo:
não sei ficar sem trovar.
Mário Roberto Guimarães

Da poesia fiz meu canto,
do meu canto a alegria!
Fiz meus versos com amor,
a canção do trovador.
Maurélio Machado

Trova é cantiga bonita,
nascida do coração!
Dessa inspiração bendita
vertida em linda canção.
Zélia Nicolodi

A minha vida é uma Trova,
trova de ilusão perdida,
pois a vida é grande prova,
que prova a Trova da vida!
Gislaine Canalles

Trovador, qual o motivo
desse teu mundo risonho?
O segredo é porque vivo
envolvido no meu sonho!
Pedro Viana Filho

Nesta casa tão singela
Onde mora um Trovador
É a mulher que manda nela
Porém nos dois manda o amor.
Clério José Borges

Ó linda trova perfeita,
que nos dá tanto prazer,
tão fácil, – depois de feita,
tão difícil de fazer.”
Adelmar Tavares

“A trova tomou-me inteiro!
tão amada e repetida,
agora traça o roteiro
das horas de minha vida.”
Luiz Otávio

No simples fazer da trova
A Poesia tem valor.
E o poeta tem a prova
Que, se trova, é por amor!
Luiz Carlos Lemos

“Trovador, grande que seja,
tem esta mágoa a esconder:
a trova que mais deseja
jamais consegue escrever … “
Luiz Otavio

Quando nasce a boa trova
O coração está cheio
Do amor que sempre renova
O homem, para o seu meio!…
Luiz Carlos Lemos

Por estar na solidão,
tu de mim não tenhas dó.
Co trovas no coração,
eu nunca me sinto só.”
Luiz Otavio

Trovando, deixa pegadas
Que outros podem seguir.
Porque as pedras, paradas,
Não têm razão pra sorrir!
Luiz Carlos Lemos

“Pelo tamanho não deves
medir valor de ninguém.
Sendo quatro versos breves
como a trova nos faz bem.
Luiz Otávio

É dia do trovador,
sonhando a sua dama.
Faz poesia e amor,
rosa vermelha lhe chama…
António Zumaia

Tão simples, as trovas são
cantigas com que a alma expande
tudo que há no coração
do poeta – um menino grande.
J. G. de Araújo Jorge

Tudo é trova: a flor, a onda,
a nuvem, que passa ao léo…
E a lua… trova redonda
que a noite canta no céu!
J. G. de Araújo Jorge

Cartilhas do coração,
onde o povo se inicia,
os livros de trovas são
um ABC de poesia!
J. G. de Araújo Jorge

A trova, conta de um canto,
poça d’água sobre o chão
– tão pequenina, e entretanto,
reflete toda a amplidão!
J. G. de Araújo Jorge

A trova é como uma conta
de um rosário multicor,
é a cantiga que desponta
do peito de um trovador.
J. G. de Araújo Jorge

Pequeninas e redondas
as trovas são contas, são
como as cantigas das ondas
que se espraiam no coração.
J. G. de Araújo Jorge

Uma quadrinha é uma cova,
onde a poesia é uma flor,
por isso é que numa trova
vou sepultar este amor.
J. G. de Araújo Jorge

Quis tornar-me um trovador
para dizer que ela é minha,
mas tudo em vão, meu amor
não coube numa quadrinha.
J. G. de Araújo Jorge

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Nany Schneider (Poemas Avulsos)

EMBALOS DE LUZ

Sem ao menos esperar,
Puxa-me pela mão e enlaça nossos corpos,
Para que juntos possamos sentir a harmonia,
Daquele som que inebria.
Pela madrugada escura, brilha a luz desses momentos.
Pois deles sempre renasce, a sensação violenta do amor.
Dançando sobre o tapete, pés descalços, só o toque.
Sentindo mais e mais a proximidade que nos envolve.
Essa é a dança da luz, luz que vem do coração.
Só a música quebra o silêncio, dos beijos apaixonados.
Dança da luz, onde estrelas descem para acompanhar,
A pureza de sentimentos, da beleza desse par.
Luz que dança a nossa volta,
Luz que está dentro de nós.
Luz que embala nossos passos,
Nesta dança que me faz tão sua em seus braços.
REI DO NADA
Se a dor que hoje causas,
Faz bem à tua alma perversa…
Alegra-te !!
Se as lágrimas que fazes correr,
Dão forças às águas escuras de teus sentimentos…
Beba-as !!
Se os destroços de sonhos dourados
Constroem teu reino de sadismo…
Aproveite-os !!
Pois os teus desejos pequenos,
Não alcançam a plenitude do amor…
Pois a tua indiferença ingrata,
Não conhece a extensão da doação…
Teu caminho é calçado, na esperança destruída…
Teu leito é forrado, de amarguras e solidão…
Pobre de teu reino pobre !!!
Teu cetro de egoísmo, se erguerá ao nada…
E no meio de tanta angústia…
Lembrarás, tardiamente, que um dia…
Foste a razão de viver, de alguém…
IMPOSSÍVEL!!!?
O que na vida será impossível, senhor?
Se tiver um amor para amar…
O que pode tornar-se impossível, Senhor?
Se aquela pessoa ficar…
O que pode chamar de impossível, Senhor?
Se a alegria de um sonho viver…
Como pode achar impossível, Senhor?
Tendo amor em cada amanhecer…
Não há nada que o faça impossível, Senhor.
Pois da terra é o florescer….
Nunca diga que é impossível, Senhor…
É meu ar, da manhã ao anoitecer…
Por isso tudo não é impossível, Senhor…
Nesta vida jamais se sentir dor…
É possível que a tristeza me leve, Senhor…
Se de mim, afastar-se esse amor….
CIRANDA DA FELICIDADE
Cria no amor a criatura,
que criará a ciranda.
Ciranda da vida criada,
da cantiga entoada.
Cria no perdão a vivência,
que transita pelo eterno.
Retira do mundo a carência,
do louco viver moderno.
Cria na mente a lembrança,
dos pés descalços, da liberdade.
Cirandando como herança,
Uma semente de felicidade.
ENTÃO, CARNAVAL!
Chega outra vez a alegria de tantos,
A espera trabalhosa dos sonhos da avenida.
Montam-se verdadeiros cenários, madeira, papel, lantejoulas…
Bordam-se os panos da bandeira, fantasias e mantos.
Ensaia sonhando em encantos, a cabrocha escolhida.
Com seu par tão bem formulado, dança, seduz, tão brejeira…
Cheios de evoluções, cada um tomando cuidado, para melhor demonstrar,
O requinte apaixonado, do Mestre-Sala e sua Porta-Bandeira.
Mas mesmo com tanta magia, tanto samba e dedicação…
O coração da saudade, não deixa de relembrar,
A história meiga e antiga, tão cheia de emoção…
De um tristonho Pierrot e sua linda Colombina,
Em todos os carnavais, presentes na eterna canção.
DOIS LADOS DE MIM
Há um lado de mim que se mostra frio, escuro.
O outro lado recria a aurora de esperança.
Um lado de mim claudica por vielas.
O outro lado rompe barreiras ao que procuro.
Há um lado de mim que ruma perdido pelo céu.
O outro encontra a paz na terra.
Um lado de mim esconde medos, inseguranças.
O outro vê o futuro entre doces véus.
Há um lado de mim que em desvantagem.
O outro é forte, leonino, em eterna luta.
Um lado de mim permanece sombrio.
O outro grita em voz límpida a coragem.
Há sempre dois lados nessa vida irreal.
Há sempre dois gumes nessa afiada adaga.
Há sempre dois caminhos a escolher viver.
Há sempre dois lados no amplo espelho moral.
ILUSÃO
Ilusão é sonhar um sonho perfeito,
Querendo guardar no peito, a sensação do seu sono?
Ilusão é sonhar acordada,
Cada gesto perfeito, do seu modo protetor?
Ilusão é se pegar pensando,
Na maneira de você respirando, olhando a me chamar?
Se tudo o que vivo é ilusão,
Permita, meu Deus que seja eterna.
Que nunca, nunca termine,
Essa linda sensação.
JANGADA DA DOR
Na madrugada dos sentimentos,
Parte a débil jangada da esperança.
Com a coragem ingênua em proventos,
Inspirada pelo sonhar de mudança.
Acolhida pelas águas inconstantes,
De um mar de humor caprichoso.
Deixa para trás rostos em nuances,
Procurando provável futuro ardiloso.
Não pensa o que deixa, tola jangada,
Parte em busca de um horizonte qualquer.
Não vê que a maré a mudanças é dada,
Não vê a tempestade em andamento, sequer.
Jangada que procura vida sem pensar,
Encontra na próxima vaga de um mar revolto,
Pedaços de felicidade jogados a boiar,
Estilhaços do amor que ao vento foi solto.
Não sabe se volta jangada amargura.
Não sabe se algo vai encontrar.
Esquece da praia onde ficou a doçura,
Por dias e dias a lhe esperar.
Assim vai a jangada, agora sem rumo.
Assim entra a renúncia salgada do mar.
Agora sabe que é jangada sem prumo.
Agora sente a dor infinita do desamar.
SONHO
De tão reais nossos sonhos,
O véu do passado desvendou.
Desvendou o amor torturado,
De puro coração arrancado.
Mas a vida não é cega.
Nem o tempo, sem razão.
Da espera fez-se o encanto,
Do encontro, pura emoção.
Fontes:
– Poetas Del Mundo

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Nany Schneider

Nasceu e vive em Curitiba capital do Paraná, Brasil.
Nany Schneider, escreve desde pequena, sempre participando ativamente de movimentos literários.
Desenhista, fazendo cursos de aperfeiçoamento e estudante extra-curricular de japonês e alemão.
Tem como formação psicologia/parapsicologia/professora, atuando hoje, como escritora, webmistress e designer.
Possui e-books presenteados por grandes formatadores e escritores e poemas traduzidos em vários idiomas.
Tem como site, seu BETTY BOOP STAR, onde lança escritores amadores e mantém uma gama imensa de poemas e mensagens para divulgação da cultura.
Seus poemas podem ser encontrados em vários sites famosos, como Castillo Sekher, Locura Poética,Sokarinhos, Ligia Tomarchio e outros.
Possui membresia como ‘Dama de Honra’ em Castillo Sekher e em Puent de La Amistad.
Sua luta é pela divulgação cultural, ajuda espiritual de irmãos em sofrimento e à proteção dos animais por diversas ONGS.

Fonte:

Poetas Del Mundo

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Inscrições para o Concurso Literário “Um olhar sobre Sorocaba” são prorrogadas

Os interessados têm até o dia 19 para entregar os textos
As inscrições para o Concurso “Um olhar sobre Sorocaba”, que tem como um dos objetivos a preservação da memória da cidade, foram prorrogadas até o dia 19 de julho de 2010.
Os interessados podem enviar os trabalhos pelo correio, desde que chegue até a data limite, ou entregar no endereço: Rua Fernandópolis, 514 – Jardim Iguatemi – CEP 18085-550 – Sorocaba/SP. Os originais devem ser acompanhados de uma ficha de inscrição assinada pelo autor a ser retirada no mesmo endereço ou ainda solicitada através do e-mail contato@hagentedecomunicacao.com.br
Os textos selecionados farão parte de um livro – coletânea que registrará o olhar de cada autor, cujo lançamento será durante a 6ª Semana do Escritor e do Livro de Sorocaba que acontece de 24 a 28 de agosto de 2010 na FUNDEC.
Formato – Os trabalhos deverão ter no mínimo uma e no máximo três laudas, inéditos, digitados em papel ofício A4, fonte em tamanho 12, espaço 1,5 em 2 ( duas) vias assinadas, com nome completo do concorrente, endereço, telefone e e-mail, juntamente com todos os trabalhos gravados em um CD.
Seleção – Uma Comissão julgadora ficará encarregada da análise dos trabalhos que serão publicados no livro.
O Concurso é aberto às pessoas com mais de 18 anos de idade, que possuam textos em prosa e/ou em verso e contemplem a cidade Sorocaba.
Informações: (15) 3228.6209 ou (15) 8119.2476 – http://www.hagentedecomunicacao.com.br
Cintian Moraes e Sonia Orsiolli – Hágente de Comunicação
Fonte:
Colaboração de Hágente de Comunicação

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Caravana da Leitura chega a Osasco para comemorar o "Dia do Escritor"

O projeto realizado em praça pública disponibiliza ao público livros por um preço simbólico.
O projeto “Caravana da Leitura” criado pelo escritor Laé de Souza, depois de percorrer mais de 100 cidades brasileiras chega ao município de Osasco pela terceira vez. Aplicado desde 2004, em parceria com as Secretarias de Educação e de Cultura dos municípios e apoio do Ministério da Cultura, o trabalho acontecerá nos dias 22 e 23 de julho/2010, no Calçadão da Rua Antonio Agu, próximo ao Osasco Plaza Shopping das 9h30 às 17h, em homenagem ao Dia do Escritor que é comemorado no dia 25.
Até o final de 2010 o público terá a oportunidade de conferir a passagem da “Caravana” em diferentes praças públicas do país, oferecendo livros para o público infantil, juvenil e adulto, pelo valor simbólico de R$1,99. O projeto reúne uma grande variedade de obras literárias do escritor Laé de Souza, apresentando histórias do cotidiano, em uma linguagem bem-humorada e pontuada por reflexões.
Aos amantes da literatura, a atividade oferece uma ótima oportunidade para rechear a estante e saciar o desejo de boa cultura. De acordo com Laé de Souza, idealizador do projeto, a ação é inédita e tem como objetivo gerar oportunidades de leitura a pessoas de todas as idades e classes sociais.
Este ano, o evento deverá passar por mais de 40 cidades dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo, com previsão de distribuição de cerca de 120 mil livros. “O objetivo do trabalho é levar cultura e incentivar o hábito da leitura em todo o Brasil. Dessa forma acreditamos que a leitura pode ser democratizada”, destaca Laé de Souza.
Interessados poderão conhecer outros projetos de incentivo à leitura, de Laé de Souza e o roteiro da Caravana da Leitura, em “Agenda”, no site http://www.projetosdeleitura.com.br

Fonte:
Colaboração de Laé de Souza.

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Taba Cultural abre espaço para Novos Autores

A Taba Cultural Abre Espaço Para Novos Autores Com Projetos de Antologias de Poesia e Prosa
Inscrição e publicação
gratuitas.
VEJA ABAIXO AS PROPOSTAS

CONTOS MÍNIMOS
Antologia de microcontos. Tema livre.
Os contos devem ter no máximo 800 (oitocentos) caracteres, contando os espaços, independente
do título.
Você poderá mandar até 3(três) trabalhos para avaliação.
Prazo de recebimento dos textos: 30 de julho de 2010
Data de lançamento do livro: outubro de 2010
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À FLOR DA PELE
Antologia de Poemas
Você pode enviar no máximo 3(três) poemas para avaliação, com qualquer tema ou modalidade poética.
Verso livre ou metrificado.
Prazo de recebimento dos textos: Até 30 de julho de 2010
Data de lançamento do livro: outubro de 2010
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CONTOS DA MEIA-NOITE

Contos de assombração e mistério.
O tema aqui é o terror, mas não precisa ser necessariamente sério, uma história de terror com humor cai muito bem. Histórias de assombração, almas penadas, vampirismo, bruxas, aliens etc, deixe sua imaginação rolar.
Você pode mandar até 3 (três) trabalhos.
Prazo de recebimento dos textos: Até 30 de agosto de 2010
Data de lançamento do livro: novembro de 2010
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CONTOS DE ALCOVA

Antologia para público adulto.
Aqui o tema são os encontros amorosos, a sedução, o romance, o erotismo, o adultério e outras faces do relacionamento amoroso.
Você pode mandar até 3 (três) contos para avaliação.
Prazo de recebimento dos textos: Até 30 de agosto de 2010
Data de lançamento do livro: novembro de 2010
Antes de mandar os trabalhos leia os regulamentos completos no site:
e faça sua inscrição através do próprio site.
Fonte:

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Nilto Maciel (Poemas Escolhidos)

POEMA EM DÓ MAIOR

Agora, longe da praça,
dos pássaros, de meus passos,
longe de mim, do passado.
Aqui, no sofá estendido,
silencioso, só, presente,
porvir. Ao fundo,
música, chorinho,
valsa inacabada.
Tudo pequeno,
o mundo, o tempo.
Ou tudo sem fim,
e sem começo,
sem meio.

Agora o sono,
a mariposa insone,
a lua perplexa,
a noite sumindo.

VISIONARIO

Da varanda do apartamento
olho para a cidade.
Torre de marfim,
torre de babel.
Árvores agitadas,
carros correndo na avenida,
pessoas andando à toa,
um cão vadio.
Cheiros diversos,
chiados, barulhos.
Onde estará o centro do mundo?
Onde estará acontecendo
a notícia de amanhã?
Dentro daquele ônibus
viajará a moça iludida
e que poderia estar comigo.
Viajará o rapaz triste,
embriagado e que poderia
me contar sua vida
– arcabouço de um conto.
O motorista irá atropelar
uma criança sem futuro.
No automóvel de luxo
vai a mulher
que brigou com o marido
e anda atrás de vingança.
Na parada de ônibus
talvez esteja o assassino
de logo mais.
Na tela do cinema
a musa de todos nós,
estrela que se apagará.
Numa cadeira
um homossexual olhará
para as pernas do rapaz
que come pipoca.
Noutra cadeira um senhor
alisará o próprio bigode
pensando no passado.
No banco da praça
o mendigo comerá pão
olhando para as nádegas
das mocinhas que passam.
No palácio o presidente
alinhará o decreto
que me dará dor de cabeça.
O deputado beberá uísque
no bar e falará de si mesmo.
Sentado num sofá o homem
lerá o romance da mulher
deitada eternamente
em berço esplêndido.
O poeta escreverá uns versos
que lerão daqui a dez anos,
versos sem rima ou sem ímã,
sem métrica e sem ritmo.
No meio do mato a onça
farejará o veado;
o macaco morderá o rabo
do tatu; a formiga
caminhará sem rumo;
e tudo estará escuro.
No rio o peixe, a água,
o frio, o pescador.
No mar o tubarão,
a baleia, o turbilhão.
No céu a estrela virando pó,
o foguete se espatifando,
o infinito e nada.

Aqui, sozinho, longe e perto
de todos, de tudo,
quero estar no centro do mundo,
na crista da onde,
quero ser testemunha do crime,
da crise, do apocalipse.
Quero ver de perto o amor, o ódio,
a solidão, a multidão.
Quero estar no palco, no show,
no centro da cidade,
do campo, do rio, do mar,
do céu, do universo.
Quero a onipresença,
a onisciência,
toda a ciência.

O JANGADEIRO

Para Edinardo, às vésperas do primeiro
ano de sua partida.

Arrodeio a superesfera
na minha jangada amiga,
rindo de quem me espera,
chorando à moda antiga.

De quantos paus ela é feita
só dizem os jangadeiros
velhos e companheiros,
fugidos da rota estreita.

Não rio por palhaçada
nem choro angustiado;
já me bastava a maçada
de ansiar o desejado.

Levo comigo a coroa
dos filhos da Eternidade,
relendo Fernando Pessoa
frente a toda realidade.

Passeio as nebulosas,
os astros, o espaço sem fim,
saudadoso das carinhosas
meninas do Otávio Bonfim.

De dois velhos meus criadores,
meu primeiro e doce abrigo,
de duas pequenas flores,
em quem pensando prossigo.

De uma soidade que amei
e que na Bahia deixei,
de sete meus germanos
deixados a fazer planos.

Dos parceiros risonhos
do pobre Amadeu Furtado,
esses bebedores bisonhos
de fel, cachaça e melado.

Mergulho a atmosfera
montado em cavalo-de-pau,
zombando da besta-fera,
lembrando o primeiro mau.

Conduzo comigo um poema
jamais publicado em papel
para reler na suprema
corte do mais alto céu.

Vasculho os tempos perdidos
no carro dos deuses gregos,
tristonho de ver iludidos
os que ficaram aos pregos.

De recordar os pileques
que com meu mano bebi,
choroso de ver os moleques
famintos do que comi.

Cavalgo o cavalo das eras
na mais incrível carreira,
carregando uma flor de parreira
para o homem e para as feras.

Na minha ida desejei
deixar o que sempre sonhei:
projetos de muito amar
para a terra e para o mar.

O mundo que nos aguarda
não tem regulamentos nem leis,
é o país do povo sem guarda,
não tem um, nem dois, nem três,

tem milhões de seres iguais,
é a utopia dos pensadores,
o sonho dos ancestrais,
a terra só dos amores.

Comigo navegam poetas,
revolucionários e santos,
partimos no rumo das metas,
dos fins, começos e cantos.

Fonte:
Nilto Maciel. Visionário.
http://www.niltomaciel.net.br

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Panorama da Literatura Italiana

Após a queda do Império Romano, verificou-se na Europa uma série de transformações políticas que determinaram um processo de desenvolvimento das línguas faladas, dando origem ao “vulgar”, no qual a língua do povo prevalece sobre a língua erudita. Entre as línguas românicas, isto é, derivadas do “romano”, ou seja do latim, tiveram especial importância para o início da literatura italiana a língua e a literatura provençal, e a língua e a literatura francesa. No Século XII, a cultura ainda é monástica e assim não surpreende o florescer de uma literatura religiosa com Francisco de Assis, Jacopone da Todi, etc. Mais importante, na segunda metade do século, foi o movimento do Dolce Stil Nuovo, que teve início em Bolonha com Guido Guinizelli e prosseguiu em Florença com Guido Cavalcanti, Dante Alighieri, Lapo Gianni, etc.

No final do século, aparece a primeira obra de Dante Alighieri (Vida Nova) e os anos iniciais do século XIV são marcados pela publicação das outras obras de Dante (Convivio, De Vulgari Eloquentia, De Monarquia) e, sobretudo, pela Divina Commedia, a grande composição em versos que sintetiza e conclui a Idade Média, obra que tanta importância teve em toda a história literária da Europa até à nossa época. Mas quando a Idade Média entrava em declínio, uma nova cultura, inspirada na redescoberta das obras clássicas da antiguidade, dava os seus primeiros passos. Dessa nova era são testemunhas imortais as obras de Francesco Petrarca, do Secretum ao Canzoniere, inspiradas no mais alto lirismo, cristão e profano, clássico e renovador ao mesmo tempo.

Se as obras do Petrarca já parecem voltadas no sentido de uma nova cultura humanista, o Decameron de Giovanni Boccaccio demonstra estar profundamente ligado à realidade comum, numa narração cómico-realística, inspirada nos horizontes da classe mercantil que nela encontrava o seu momento privilegiado.

O século XV oferece-nos a explosão do conhecido movimento humanista que, nos primeiros cinquenta anos procura e estuda os clássicos, mas que, na segunda metade do século, dá-nos uma floração de obras de inspiração nova e de uma beleza singular.

E do Humanismo passou-se ao Renascimento, que domina toda a cultura italiana do século XVI. Eis aqui as obras de Ludovico Ariosto (autor do poema Orlando Furioso), Torquato Tasso (autor da Gerusalemme Liberata), de Niccolò Machiavelli (autor de Il Principe e I Discorsi), de Francesco Guicciardini (Storia d’Italia), de Castiglione (Il Cortegiano). Foi uma época memorável não só para a literatura, bem como para todas as artes e até a língua se renovou, não somente nas obras dos autores, mas também nos estudos dos filólogos.

A busca de um esmero formal exagerado, as dificuldades criadas pelas autoridades religiosas, a decadência política, privou a Itália daquela supremacia cultural da qual até então tinha desfrutado. Entretanto, a Europa se encaminhava para um novo ciclo de civilização, o Iluminismo, que chegou à Itália só em meados do século XVIII.

O século regista também um nome importante, o de Carlo Goldoni, reformador da Commedia dell’arte e do teatro italiano em geral. As suas peças são ainda hoje representadas em todo o mundo.

Depois de um breve período neoclássico, o romantismo, que já se tinha afirmado na Europa do Norte, chegou à Itália, precedido de mil disputas e polémicas com os defensores do Classicismo.

As motivações principais do Romantismo italiano resumem-se ao princípio de espontaneidade da poesia, na recusa das regras clássicas e da imitação de modelos, no carácter popular da literatura que deve ter motivações nacionais e patrióticas, na exaltação dos grandes acontecimentos do passado, na função social, moral, educativa e religiosa da literatura e, finalmente, na pesquisa de uma linguagem cada vez menos académica.

Ugo Foscolo e Giacomo Leopardi encontram-se numa posição dialéctica entre Classicismo e Romantismo. Enquanto Le ultime lettere di Jacopo Ortis de Foscolo são ricas em influências pré-românticas e Le Grazie reproduzem uma arquitectura clássica, os Sepolcri ainda estão parcialmente ligados a modelos do século XVIII com a criação de grandes mitos e a pesquisa romântica do sublime. De Leopardi podemos sublinhar a classicismo de alguns Canti, a elegância e o equilíbrio da composição e o romantismo da autobiografia, o sentimento do infinito, a concepção existencial, a ideia do destino e da natureza, a linguagem poética que tanto nos Idilli, quanto nas Operette morali, oferece a lúcida constatação da inelutável infelicidade humana.

Rejeitando o Romantismo lírico e individualista, Alessandro Manzoni revoluciona de vez a tradição clássica italiana, de tipo lírico e ainda inspirada em Petrarca, a fim de actuar na História, vista como relação homem-sociedade, dirigida pela Providência e pela Graça.

Após a tensão espiritual que nos Inni Sacri parece uma verdade reencontrada e nas tragédias colide com a história e com a descoberta da vitória do mal, o autor de I Promessi Sposi chega a uma afirmação confiante de que o bem acaba finalmente triunfando. O romance histórico torna-se, com Manzoni, um romance de ideias e o realismo literário coincide com a substância do seu cristianismo numa concepção da obra de arte estritamente ligada a um fim moral e civil.

O Romantismo italiano correspondeu ao espírito nacional e literal do Risorgimento, ao qual transmitiu também um firme fundamento ideológico, influenciando o público que viveu o problema nacional mais como um problema moral do que político. A literatura dos primeiros anos do século XIX é, portanto, uma literatura “militante”, visando a criação de uma consciência nacional e a pesquisa de um conteúdo moderno, popular e concreto. Podemos distinguir duas correntes dentro do Romantismo, de acordo com a distinção feita por Mazzini: os manzonianos eram os escritores que actuavam baseando-se num prudente reformismo; os foscolianos, os que procuravam soluções radicalmente revolucionárias. O crítico De Santis aceitou esta distinção e falou de uma escola liberal cujos máximos expoentes foram Manzoni, Cesare Cantù, Massimo D’Azeglio, Niccolò Tommaseo, Tommaso Grossi, o grupo toscano da Antologia e uma escola democrática que se desenvolveu em torno da figura de Giuseppe Mazzini e que produziu uma corrente de adeptos que chegou até Carlo Cattaneo.

No período do Risorgimento desenvolveu-se o género “memorialístico” que, por um lado, correspondia a uma precisa exigência de compromisso ético-político e, por outro lado, apoiava o gosto romântico pela confissão autobiográfica. Desta corrente, que voltará um século mais tarde com a literatura memorialística do segundo pós-guerra, são testemunhas Le mie prigioni, de Silvio Pellico, Le ricordanze della mia vita, de Luigi Settembrini e I miei ricordi, de Massimo D’Azeglio.

Na poesia, ao lado das composições épico-políticas de Berchet e das sátiras de Giuseppe Giusti, verificou-se uma grande produção de obras em dialecto, como as Poesie do milanês Carlo Porta, os Sonetti do romano Giuseppe Goacchino Belli, La scoperta dell’America de Cesare Pascarella e as poesias napolitanas de Salvatore di Giacomo.

Uma característica da segunda metade do século XIX é o novo papel intelectual que explode em toda a sua contraditoriedade com o movimento chamado Scapigliatura segundo o título de um romance de Cletto Arrighi.

A Scapigliatura não encontrou uma formulação teórica e poética completa como o Futurismo, mas teve, da mesma forma, o papel de colocar em crise a cultura oficial e o gosto burguês, embora não tenha com seguido evitar muitos motivos da escola romântica, como a ideia do suicídio, da morte, do macabro, do individualismo, motivos que até mesmo o Romantismo dos primeiros anos do Século XIX não tinha recusado. Emilio Praga, Arrigo Boito, Iginio Ugo Tarchetti e Giovanni Camerana são considerados os escritores mais interessantes do movimento.

A “Scapigliatura” é o momento no qual a literatura italiana começa a se separar do provincianismo e da falta de correspondência com a grande literatura europeia: começa-se a ler Victor Hugo, Edgar Allan Poe, Charles Baudelaire, Heinrich Heine e, mais tarde, Maupassant, Zola, Goncourt e Balzac.

Dali vemos surgir o fenómeno do Verismo, literalmente ligado ao Naturalismo francês, mas com a notável diferença que o Verismo italiano tem carácter regional, dialectal e provincial (sobretudo do Sul de Itália), enquanto o Naturalismo francês se coloca num ambiente de proletariado urbano (Zola). O maior teórico do Verismo é Luigi Capuana, mas não podemos esquecer Federico De Roberto, Matilde Serao e os representantes da cultura regional toscana, Mario Pratesi e Renato Fucini. O maior representante do Verismo italiano é Giovanni Verga, cuja actividade literária é claramente dividida em dois períodos pela primeira novela de ambiente siciliano e de inspiração verística, Nedda, do ano de 1874, Grazia Deledda da Sardenha, Prémio Nobel no ano de 1926, escreveu seus romances com um estilo sóbrio, vigoroso e austero.

Também Carducci, Pascoli e D’Annunzio representam um problema para a crítica contemporânea, embora esta concorde em sublinhar a sua importância para a poesia do século XX. Os três poetas representam três diferentes soluções para um único problema, o métrico-estilístico, que se torna uma tentativa de superar a métrica italiana tradicional no sentido do verso livre e da grande revolução poética deste século.

Crítico e filólogo, Giosuè Carducci inaugurou um tipo de escola chamada “histórica” erudita, dirigida no sentido de pesquisas positivistas e analíticas, de edições críticas e da reconstrução do desenvolvimento da cultura e da vida nacional italiana, influenciando as tendências historiográficas sucessivas.

Gabriele D’Annunzio é considerado o maior representante do Decadentismo famoso graças aos romances Il Piacere e L’Innocente aos quatro livros das Laudi às poesias de Alcyone, às tragédias La figlia di Iorio e La Fiaccola sotto il moggio e à sua poesia, rica de uma temática variada, que abrange problemas de estética, parnasianismo, a ideia do super-homem, etc., características estas do chamado fenómeno do dannunzianesimo. A poesia torna-se, para D’Annunzio, uma descoberta intuitiva, para além das mediações intelectuais e reais, uma verdadeira orgia de imagens, sons, sensações, que encontram a sua expressão literária num estilo refinado e sensual.

A personagem-homem (naturalista) morre num dos romances mais famosos de Luigi Pirandello, Il fu Mattia Pascal, aonde, pela primeira vez, um protagonista actua sem motivações, podendo ou não fazer certas coisas. A personagem é desumanizada, avulso do seu próprio ser, observa a realidade, mas não participa nela.

É esta a linha da grande literatura europeia, de Pasternick a Beckett, que na Itália continua até hoje, nos romances de Moravia ou nas tentativas da nova-vanguarda.

Além de Pirandello, autor de romances, novelas e dramas (Così è se vi pare, Sei personaggi in certa d’autore, Enrico IV, Tutto per bene) è preciso recordar um inovador da nossa tradição cultural: Italo Svevo de Trieste, pseudónimo de Schmitz. Representante da cultura da Europa Central, foi o criador do romance psicológico La coscienza di Zeno, ao qual se seguiu Una vita e Senilità.

Ao lado de uma poesia denominada “crepuscular”, cujos maiores expoentes são Sergio Corazzini, Guido Gozzano e Marino Moretti, que nos transmitiram uma produção poética e narrativa de tipo intimista e decadente, porém rica, como demonstrou a crítica mais recente, de temas e técnicas que relembram as experiências de Pascoli e Montale, encontramos a poesia futurista.

O movimento que se desenvolveu em torno da figura de Filippo Tommaso Marinetti é importante, não só pela produção artística em si, mas também por ter sido a primeira verdadeira vanguarda, na Itália e na Europa, em que a arte tem ligação com a vida. O Futurismo é caracterizado pelo gesto, pela revolução anarquista, voltada no sentido da destruição, do enfraquecimento do poder burguês, através dos mesmos mitos que da sociedade eram símbolo e produto.

O período entre as duas guerras regista uma série de fenómenos: na poesia, o Hermetismo; na prosa, o Surrealismo italiano, o Realismo e o Neo-realismo de Vittorini e Pavese. Vittorini, depois da experiência de revolta política de Il garofano rosso atingiu, apenas em 1936-37, a superação definitiva do Naturalismo e a identificação da celebração histórica da personagem com o seu lirismo. Toda a produção de Pavese se desenvolveu na dialéctica entre o mundo do campo e a cidade, pólo negativo que significa falsidade e engano. Entre as suas obras lembramos Paesi tuoi, la Spiaggia, Ferie d’Agosto, La luna e i Falò, Il carcere, Il Compagno e I dialoghi com Leucò.

Ungaretti, Montale, Quasimodo e Saba, representam as vozes mais importantes da lírica do século XX, dirigida no sentido de uma realidade inexplicável, desdobrada em momentos, impossível de ser configurada num significado preciso, num estilo justamente chamado “hermético” que, como foi demonstrado em recentes estudos, representa o último desenvolvimento de uma tendência clássica que percorre toda a literatura italiana.

Em torno da década de 30, paralelamente à literatura tradicional, embora renovada com romances tipo Il Mulino del Po, de Bacchelli, Le Sorelle Materassi, de Palazzaschi, desenvolve-se, em Itália, o fenómeno chamado Realismo ou Primeiro Realismo, para diferenciá-lo do Neo-realismo da década de 50, parcialmente inspirado na tradição literária do período entre as duas guerras.

Levi e Pratolini não se incluem cronologicamente na geração do Realismo da década de 30, mesmo tendo ressentindo-se da sua influência. O primeiro escolheu um caminho criado com a experiência de Turim e o exemplo de Gobetti, e o segundo voltou ao regionalismo toscano, seguindo a linha Pratesi-Palazzeschi-Tozzi.

Levi foi o arquétipo do escritor que transmitiu nas suas obras o empenho e a problemática do pós-guerra, como em Cristo si è fermato a Eboli e L’orologio, enquanto Pratolini se manteve sempre em equilíbrio entre autobiografia lírica, o memorialismo e o compromisso político.

O clima cultural do imediato pós-guerra sofreu enormemente com os problemas que a reconstrução impôs à classe política e, logo, também à intelectual.

No entanto, o termo “Neo-realismo” dilatou-se até atingir um arco de produção que abrange Vittorini, Pavese, Moravia, Calvino, Fenoglio, Soldati, Levi, Pratolini, Mastronardi e Seminara.

O fenómeno esgota-se no decénio 1950-60 por um processo interno de esclerotização. De qualquer modo, é importante lembrar Moravia que, a partir de 1929, assumiu o papel de moralista crítico da sociedade burguesa, ainda que permanecendo exclusivamente no campo narrativo. Da sua vasta produção podemos lembrar Gli Indifferenti, Le ambizioni sbagliate, L’imbroglio, Agostino, La romana, La ciociaria, Il conformista e i Racconti romani.

Tommasi di Lampedusa, autor do Gattopardo, representa o retorno a uma forma literária mais refinada e ao gosto do romance histórico.

Um discurso à parte merecem dois autores como Carlo Emilio Gadda e Pier Paolo Pasolini, os quais, na sua diversidade estilística, cronológica e literária, representam duas soluções diferentes para o problema da linguagem. Gadda iniciara a sua actividade literária em 1926, com Il giornale di guerra e di prigionia, ao qual se seguiram La madonna dei filosofi, Il castello di Udine, L’Adalgisa, Novelle del ducato in fiamme, até ao sucesso com Quer pasticciaccio brutto de Via Merulana, editado em 1957, mas já anteriormente publicado em capítulos, em 1947, na revista Letteratura. Gadda depois de ter passado por três diferentes fases literárias, inaugurou um tipo de experimentação linguística que se tornou o produto de uma série de elementos diversos, amalgamados de forma, às vezes, caricatural.

Pasolini pertence a uma geração mais jovem de escritores. Começou a escrever em dialecto friulano com La meglio gioventù até chegar à ideologia marxista, interpretada através de uma visão pessoal de Gramsci (Le ceneri di Gramsci). O momento final deste processo – do individual ao colectivo – é representado pelos romances, pela exaltação do primitivo, da adolescência e do proletariado urbano. Nascem, assim, Ragazzi di vita e Una vita violenta e, mais tarde, as poesias de La religione del mio tempo e Poesia in forma di rosa.

Cassola e Bussani são talvez os escritores mais representativos de uma certa atitude intelectual, visando mais a análise dos insucessos do que a interpretação da situação.

Depois de 1968, também a neo-vanguarda se encaminhou no sentido da liquidação de certos produtos que já tinham perdido grande parte da sua característica provocatória junto do público, que agora os consome como um produto literário qualquer. Por um lado, assiste-se à repetição de experimentações já conhecidas e parcialmente desgastadas, por outro lado, é restaurada uma literatura tradicional que põe entre aspas a neo-vanguarda: explode, com toda a sua força, a literatura kitsch.

Ressurge a literatura de tipo naturalístico e o romance psicológico, tendências que frequentemente se entrelaçam até mesmo numa única obra. Saem os novos romances de Cassola, Bassani, Berto, Piovene, Prisco, Pomilio e das escritoras Manzini, Morante e Ginzburg.

Um caso a parte é representado pelo escritor Ignazio Silone. Ele viveu a sua utopia em apartada solidão: o sonho do encontro entre socialismo e cristianismo. Dão disso testemunho os seus romances: Fontamara, talvez o primeiro romance coral do século XX italiano, Vino e Pane, Una manciata di mare, L’avventura di un povero cristiano, expressões do drama da sua consciência.

Fonte:
www.iicbelgrado.esteri.it/

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Marcus Vinicius (Os Vasos)

O verso é um vaso sagrado
com tampa e adorno incrustrado
se aberto assim com cuidado
revela a palavra encantada
a muito tempo aguardada
que vai se sentar no poema
bela como um diadema
feito um cristal burilado

Mas se o vaso ao chão for lançado
em mil pedaços partido
seus cacos forem esmagados
seu pó então diluído
basta ao poeta apanhá-lo
bebê-lo em taça de vinho
saborear cada gole
engolir bem devagarinho

Tomai nas mãos e bebei
o rubro sangue da poesia!

Come a carne do verso
deixe-o embeber seu corpo
circular nas suas veias
numa profusão epilética
em cada cadeia genética
cada elétron fundido
que o coração semi-morto
bata quase explodindo

O poeta não é humano
nem nada tem de divino!

Mas diferente dos sábios
que arrancam tudo do vaso
a canção lhes queima a alma
num ardor que nunca acalma
numa paz que não serena
e com simples gestos de afeto
em noites quentes e amenas
o sonhador delirante
descobre a lágrima errante
beleza e dor: seu dilema
assim se sente mais vivo
e vira a própria poesia
como as daquele vaso
que nunca foram escritas

Nessa hora
a carne do poeta se entrelaça
no insólito mistério das palavras
o templo incabável do etéreo
agora se quiser
ante a magia que se encerra
provar da fantasia que há nos livros
esquece o vaso
deixa o verso vagar livre

Devorem o poeta ainda vivo!

Fonte:
http://literaciapoemasetc.blogspot.com/

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Alexandre Drayton (Domingo de Chuva)


Domingo, mais um dia como tantos outros, no frio janeiro da Cidade Luz. Dia de lavar a roupa suja, de tentar arrumar a bagunça (permanente!) da casa, de passar o pano no chão, de pensar na semana que começa. Um momento de reflexão desleixada, de estudar o atrasado, dia diferente talvez.

E’ pena que a meteorologia não ajudou, empurrando todo mundo algumas horas a mais na cama. Vento, chuva, frio e tempo cinzento podem vencer a idéia de visitar um museu gratuitamente, como é o caso do primeiro domingo de cada mês. E sou capaz de apostar que muitos cederam à tentação da preguiça e, absortos neste clima envolvente, em pouco ou quase nada pensaram.

E comigo não foi diferente. Até que a físico-química dependência de “checar“ o e-mail, fez-me vir ao tal computador. Eis-me aqui, donc, sem sono e com o estoque de sites a visitar esgotado, tentando escrever algo que tenha sentido ao fim.

Experimento dar uma sacudida e animada no espírito, saindo um pouco para espiar o tempo. Teve jeito não: as amigas ventania e temperatura baixa me receberam com pompa e circunstância. Sem outra opção entrei, e teimoso como sou, recomecei a teclar.

Foi difícil não sentir o que se tenta afastar num dia como esse: a tal da cruel saudade. Palavra impar, que dizem só existir em português, chegou sem pedir licença. Entrou, puxou a cadeira e, saboreando um café amargo com Malboro ligths, pôs-se a me incomodar. Esboçando uma resistência esqueço-me dela por longos segundos, ao fim dos quais recebo um direto de direita, perdendo por knock-out.

Numa ultima tentativa, ensaio comparar àquela do inicio, quando cheguei, essa de hoje. Queria ver se tinha amadurecido, se era mais forte, se podia vir a ser exemplo para os amigos recém-desembarcados. Uma vez mais, o gongo deu-lhe ganho de causa. Houvera de fato apenas uma mudança de nomes, pois a antiga Senhora Saudade hoje se chamava La Madame Nostalgie.

E assim continuei a senti-la, na certeza de que uma vez mais um mundo de lembranças viria-me à mente. Pensei na família distante, nos amigos que ha’ muito não vejo, em praia, na comidinha gostosa do fundo da panela. Imaginei coisas simples, lugares comuns, mentiras infantis e os tempos de infância. Em verdade, senti-me só.

Vi, portanto, que solidão e saudade são almas gêmeas. Velhas conhecidas de outrora, promovem incômodos e aleatórios encontros, onde tentam desafiar o sorriso e a alegria, banindo-os para longe algumas vezes. E foi justamente num desses rendez-vous casuais em que vi-me metido. Pensei poder sair de fininho, mas ao final do corredor encontrei porta fechada.

Não existia outra alternativa, a não ser mascar feito chiclete e digerir sozinho minha angústia. Injusto seria fazer conjecturas, pois tristeza que se preze não se explica, sente-se. E caminhando por essa mesma estrada, imaginei os milhares de solitários mundo afora: habitantes de um mesmo universo, do grande consciente coletivo poeticamente chamado la solitude.

Mas percebi que esta mesma solidão, inenarrável, dura e difícil, tinha outras facetas. Não era a maior de todas, pois conseguia guardar traços de beleza dentro de si. A maior solidão, na verdade, é dos quem não amam e fecham-se no absoluto vazio do nada. Solitários são aqueles que temem a ajuda mútua e que não partilham com o próximo os pequenos segundos da vida. Triste e mísero é o homem que evita sentir suas emoções, permutando solidariedade com egoísmo. A maior solidão é a dos que não acreditam e fazem de seus sentimentos algo torpe, que reflete o amargo e apaga a luz do bem-viver. Solidão real é aquela do infeliz que perdeu suas esperanças, vivendo um pesadelo constante, permeado de pseudo-angústias e cego em relação ao belo mundo ao seu redor.

Eu, do alto dessas tolas idéias, acreditando na vida e num mundo melhor, vi-me um feliz e pequeno solitário, nada mais. Pois, como bem disse o poetinha:

— “A fé desentope as artérias; a descrença é que dá câncer“.

Fonte:
http://www.lardobomleitor.com

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Miguel Marelenquelem (O Conto de Fadas e o Imaginario Infantil)

RESUMO: Este artigo apresenta uma pesquisa em andamento, que questiona a preocupação do corpo docente em buscar um sentido didático para a utilização da literatura em sala de aula, não levando em consideração a importância dos contos de fadas para a construção do imaginário infantil. O estudo é baseado em autores como Bruno Bettelheim e Nelly Novaes Coelho, que tratam de contos de fadas cada autor, em uma área específica: psicanalítica e literária, e outros autores como, por exemplo, Gianni Rodari e Marcel Postic, que tratam do imaginário. O objetivo desse trabalho é observar a influência dos contos de fadas no imaginário infantil. Acredita-se que o contato com os contos de fadas possibilitará a criança o ensaio de vários papéis sociais, proporcionando a construção de uma personalidade sadia, bem como, promover a socialização, a troca de experiência e uma maior inserção no grupo social.

INTRODUÇÂO

Acredita-se cada vez mais na importância e na influência dos contos de fada, no desenvolvimento do imaginário infantil.

Ouvir e contar histórias é fundamental para o desenvolvimento da identidade da criança, pois através dos contos ela tem a possibilidade de ensaiar seus papéis na sociedade, adaptando-se a situações reais e colocando-se dentro da história, como também desencadeia idéias, opiniões, sentimentos e criatividade, antecipando situações que a criança só iria experimentar na vida adulta.

Objetivamos neste projeto demonstrar que os contos de fadas proporcionam desenvolvimento da imaginação, socialização em grupo, percepção de mundo, e na construção da identidade e autonomia da criança.

O CONTO DE FADAS

Os contos de fadas têm origem Celta, e surgiram como poemas que revelaram amores eternos, ou estranhos e até mesmo fatais. A princípio estes poemas eram independentes, mais tarde foram integrados como um ciclo novelesco, idealista, preocupado com os valores humanos. Historicamente, os contos clássicos nasceram na França no século XVII, na corte do rei Luís XIV e pela mão de Charles Perrault, inicialmente para falar aos adultos. Mas foram encontrados por estudiosos, fontes antes do nascimento de Cristo eram estas orientais e célticas, que a partir da Idade Média foram conhecidas por fontes européias.

Hoje em pleno século XXI os contos maravilhosos ainda têm algo a nos dizer? Com certeza! “o que nelas parece apenas infantil, divertido ou absurdo, na verdade carrega uma significativa herança de sentidos ocultos e essenciais para a nossa vida” NELLY (1987: 09). Em nossa sociedade os contos de fadas ganharam um nova roupagem indo além do prazer da leitura, pois com a “descoberta” de sua importância simbólica, do lúdico, da imaginação e da fantasia proporcionamos a construção de uma personalidade sadia na criança.

Além dos tradicionais contos de fadas, encontramos autores que se apropriam dos personagens ou situações dos contos de fadas, para recriarem novos textos simbólicos, como: “O menino e o Lobo”, “A fada que tinha idéias”, “A fada desencantada”, “A verdadeira história dos três porquinhos”, “Chapeuzinho amarelo”, entre muitas outras.

Segundo Nelly apund Câmara Cascudo, o conto popular maravilhoso é justamente o mais amplo e mais expressivo, pois ele nos traz informações históricas, etnográficas, sociológicas, e jurídicas. É um documento vivo, mostrando costumes, idéias, decisões e julgamentos da Humanidade em um determinado momento histórico. Para todos nós é o primeiro “leite intelectual”, os primeiros heróis, as primeiras cismas, os primeiros sonhos, os movimentos de solidariedade, amor, ódio, e compaixão vêm com as histórias fabulosas, ouvidas na infância.

De acordo com Khéde, os contos de fadas surgiram como forma de produção e organização social pré-capitalista. Eles representam em seus personagens valores burgueses que surgiram e se consolidaram entre os séculos XVII e XIX.

O Gato de Botas é o pícaro, pois tira proveito da corrupção social. O Pequeno Polegar, é o anão astuto que vence gigantes bobos. Perraut, também utiliza em seus contos o confronto dualista entre bons e maus, feios e belos, fracos e fortes, como exercício de crítica a corte, onde personagens pobres superam a nobreza com sua inteligência. “A presença da fada unívoca do narrador nos contos de fadas sugere um modelo fechado de narrativa que, por sua vez, reproduz uma realidade sociocultural também fechada. Mas eles apresentam o confronto entre, geralmente, duas posições: A dos que dominam, e a dos são dominados” (KHÉDE, 1990:19). Os contos de fadas são caracterizados por um único traço, e quando este é muito repetido, faz com que surja um esteriótipo, onde a bruxa será sempre um personagem maravilhoso, a serviço do mal; a fada sempre bondosa; o sapo vai virar príncipe; os gênios ora são bons ora maus (os magos são de origem pagã e exibem sabedoria); reis e rainhas, podem usar seus poderes tanto para o bem, quanto para o mal, reproduzindo sempre valores clássicos, significam a fantasia do poder e os conflitos dos relacionamentos interpessoais; príncipes e princesas, estão ligados a aventuras, e são transgressores. A princesa é caracterizada por sua função social ligado ao cuidar da casa e da família, são bonitas, honestas, e piedosas, e por isso merecem como prêmio seu príncipe encantado.

O Pinóquio, o qual podemos comparar como a volta do filho pródigo sustentado pela Bíblia. A história possui forte cunho moralista e Pinóquio alterna situações de infração, punição e salvação. Como prêmio pelo seu bom coração acaba transformado em um menino de verdade, perdoando-o as estrepolias do passado, e ao mesmo tempo ganha bens materiais como um quarto bem equipado, e também recupera a saúde de seu pai. “Os contos, representam valores que se cruzaram através de ciclos históricos, assim, podem significar ritmos de iniciação, símbolos tatômicos e a luta mítica entre forças da natureza” (KHÉDE, 1990:24).

Os personagens maravilhosos seguem inúmeras funções, tanto dentro da narrativa eminentemente lúdica, quanto à de denúncia social. As soluções maravilhosas são hoje questionadas por sociólogos, lembrando o estímulo à alienação provocada por resoluções mágicas, que são defendidas pela psicanálise mostrando a possibilidade de resoluções de problemas reais, através da representação simbólica. A criança aparece pouco, ou simbolizando o bom sendo e a inteligência, ou aparece como vítima da autoridade familiar.

OS IRMÃOS GRIMM

Na pesquisa prática com as crianças, foi utilizado as Obras dos Irmão Grimm.

A Família GRIMM, de Hanau, na Alemanha, teve o privilégio de dar ao mundo três nomes ilustres no terreno das Letras e das Artes. Contudo, como “Irmãos Grimm”, são mais conhecidos os dois mais velhos, Jakob Ludwig Karl e Wilhelm Karl, ambos filólogos e colecionadores de histórias populares.

Com o Irmão, fez preciosas pesquisas no campo da tradição popular, anotando ambos, diretamente da boca do povo humilde, histórias, lendas, superstições e fábulas da velha germânia. Wilhelm Karl, com estudos acurados nesse setor, fez-se o precursor da moderna ciência do folclore.

As histórias recolhidas pelos Irmãos Grimm, que tem na fantasia e no sobrenatural seus elementos constitutivos, são conhecidas de todo o mundo civilizado, e apoiam-se em recontos da antiguidade ou da Idade Média. Muito se fala numa senhora Katheri Wiehmann, esposa de um alfaiate, que com sua memória extraordinária, transmitiu aos dois curiosos das tradições germânicas um verdadeiro tesouro de sagas.

Tais sagas foram levadas ao livro através da pena de Wilhelm Karl, e vieram dar a coleção de histórias que de gerações a gerações foi se repetindo, e apresentadas sob formas diversas e atribuídas a autores diversos, encontrando traduções e adaptações mais ou menos livres em todos os recantos do mundo.

A LEITURA DOS IRMÂOS GRIMM HOJE

Hoje, discute-se a conveniência de fornecer a crianças essas leitura relacionada com o mundo fabuloso da imaginação, histórias em que se mesclam fatos cruéis, criaturas fantásticas, bem como animais encantados, heróis impossíveis, madrastas perversas. Fala-se, ainda, na incongruência de dar à infância desta época, essencialmente científica e informatizada, histórias que se ajustariam, talvez, à cultura medieval, mas não tem razão de ser na nossa época.

Ora, acreditamos que a necessidade do maravilhoso se conserva latente, é positiva nas criaturas, mesmo naquelas que já se despediram da quadra efêmera em que se vê o mundo do nível dos olhos infantis. O dragão de goela chamejante de ontem, é tão excitante para a imaginação alerta de uma criança quanto a nave espacial de hoje, cuspindo fogo em busca de mundos inexplorados. E, no fundo do coração, todos desejaríamos dispor de um fada madrinha que nos cobrisse de dons, ou de uma vara de condão que nos permitisse atravessar sem medo as florestas sombrias, latejantes de mistérios e avejões, que surgem no caminho de nossas vidas, por muito prosaicas que elas sejam.

O DESENHO DA CRIANÇA

“Se a literatura infantil se destina a crianças e se acredita na qualidade dos desenhos como elemento a mais para reforçar a história e a atração que o livro pode exercer sobre os pequenos leitores, fica patente a importância da obra infantil. É o caso, por exemplo, da ilustração”. (LAJOLO, 1991: 13)

Nessa pesquisa, o desenho é uma fonte fundamental para compreendermos como os contos de fadas influenciam no Imaginário Infantil. Portanto, faz-se necessário, fazermos uma pequena abordagem sobre o tema, a fim de conhecermos de maneira mais apropriada, este foco de estudo.

No livro “O Desenho Infantil”, escrito por MEREDIEU e traduzido por LORENCI, coloca o desenho como sendo uma expressão da personalidade, “As análises infantis demonstram sempre que por detrás do desenho, da pintura e da fotografia, escondeu-se uma atividade inconsciente muito mais profunda: trata-se da procriação e da produção no inconsciente do objeto representado”. Cada traço, cor, forma, pressão do lápis, tem um significado específico na interpretação do desenho. Para analisarmos o desenho temos três principais aspectos:

1. A maneira como a criança utiliza as linhas e formas. As linhas curvas e sinuosas nos indivíduos sensíveis e temerosos; ângulos retos, linhas firmes, nos opositores e nos realistas. (CARDOSO e VALSASSINA, completam sua idéia dizendo que as crianças realistas, por vezes agressivas tendem a desenhar linhas retas, as crianças sensíveis, imaginativas, com pouca confiança, tendem a desenhar linhas curvas, e linhas em zigue – zague, representam sinais de instabilidade).

2. O modo de distribuição do espaço-localização dos personagens. A terça parte superior, representa o ideal; a terça parte média, representa o sentido da realidade; a terça parte, inferior, representa as pulsões inconscientes. Vale lembrar que segundo o autor, a criança tímida desenha-se pequenina no centro da página, enquanto a instável preenche toda a superfície como traços nervosos.

3. Escolha da cor. A ausência de cor pode ser considerada como a marca de “vazio afetivo”, sua integração harmoniosa” ao desenho mostraria, pelo contrário, um bom equilíbrio. O emprego das cores puras: vermelho, amarelo e azul, e das tonalidades firmes seria um bom sinal até seis anos. Além daí, a utilização abusiva do vermelho traria a agressividade, a ausência de qualquer controle emocional. A frequência do tons escuros preto e marrom, e sujos amarelo e castanho, indicam uma má adaptação e denuncia num estado de regressão.

Vale lembrar que CARDOSO e VALSASSINA, afirmam que “a escolha da cor é feita segundo a sua sensibilidade e descobertas de momento”. (1988:86), citando Ebenezer Looke, 1985, complementa “Tão profundamente interessada está a criança pela cor que nenhum ensino de desenho adaptado à natureza Infantil poderá excluí-la” (1988:84).

Segundo CARDOSO, Camilo e VALSASSINA, Manuela M., apud Duquet, “a criança quando desenha reproduz o seu modelo interno e ainda as impressões que vive através dos traços a formas que executa, fase que esse autor denominou de realismo intelectual” (1988:82)

É importante destacar que quando a criança desenha, ela desenha para alguém, com alguma finalidade, esteja essa pessoa presente ou não, o objetivo claro ou não. A criança espera uma troca, uma resposta deste pessoa. A criança pinta para se exprimir, ainda segundo o autor “a criança é criadora duma expressão viva porque, dotada de faculdades que no adulto vão estar mutiladas, ela representa a sua maneira o mundo que vive (…) A criança não transmite recordações visuais, antes traduz plasticamente as sensações e os pensamentos” (1988:69).

O desenho é o “palco” para onde caminham a observação da criança, guiado pela sua memória aliado a sua imaginação. Através do desenho a criança tem a possibilidade de desenvolver toda sua motricidade, como é de conhecimento geral, e também o seu cognitivo, pois traz a luz da imagem que representa no papel, suas recordações já há muito tempo guardadas. Com a mesma facilidade que recorda seu passado a criança também imagina o futuro, criando personagem, e situações, em busca do novo. Afirma DERDYK, Edith “A memória evoca fatos vividos, a imaginação projeta no futuro desejos de conquista. E o presente é a materialização desses instantes, é a ponte de comunicação entre o que já foi e o que será. O desenho vai registrando, em seu processo de trabalho, o mapa da ampliação da consciência” (1989:130).

A capacidade de imaginação, é fundamental para a construção do conhecimento. Ela é o eixo norteador entre o desenho, e a criança. Continua DERDYK, “Imaginar é projetar, é antever, é a mobilização interior orientada para determinada finalidade antes mesmo de existir a situação concreta. A imaginação possui uma natureza visionário, detectando a intencionalidade contida na ação humana” (1989:131).

O IMAGINÁRIO INFANTIL

O imaginário da criança pode ser comparado a um rio, quando jogamos uma pedra no rio, ondas circulares se formam ao redor e vão se movimentando e atingindo correntes de águas cada vez mais longe. A pedra ao mergulhar vai assustando peixes, atraindo curiosos, e mudando a rotina do local, mesmo que por pouco tempo.

Uma criança ao ouvir contos de fadas, transforma a pedra em cada uma das palavras que lhe são contadas, trazendo lembranças, sonhos, desejos, personagens, dúvidas, medos e associações.

Marcel Postic (1993:19) apund Gurvitch, 1996, coloca-nos que imaginar não é só pensar, não significa apenas relacionar fatos, e analisar situações, tirando-lhe significados. “imaginar é penetrar, explorar fatos dos quais se retira uma visão. Esta só poderá ser comunicada ao outro através de símbolos, que provocam harmônicos e estabelecem a comunhão. O símbolo age como mediador para revelar ocultando, ocultar revelando, e ao mesmo tempo incitar à participação que, embora com impedimentos e obstáculos, fica favorecida”.

Gianni Rodari (1982:142), apund Dewey, apresenta nos a função da imaginação: “A função da própria imaginação é a visão de realidades e possibilidades que não se mostram nas condições normais da percepção visível. Seu objetivos é penetrar claramente no remoto, no ausente, no obscuro. Não só a história, a literatura, a geografia, e a aritmética, contém uma quantidade de argumentos sobre os pais a imaginação deve operar, para que possam ser compreendidos” e completa; “A função criativa da imaginação pertence ao homem comum, ao cientista, ao técnico, é essencial para descobertas científicas bem como para o nascimento da obra de arte, é realmente condição necessária da vida cotidiana”.

No conto, o símbolo pode ser um personagem, que irá enriquecer a identidade da criança, porque ela ira experimentar outras formas, de ser e de pensar, possibilitando a ampliação de suas concepções sobre o meio, pois no faz de conta a criança desempenha vários papéis sociais, e aprende com eles, acreditamos que ela os imita para compreendê-los.

Quando a criança entra no “mundo” da fantasia e da imaginação de um conto de fadas, ela elabora hipóteses para a resolução de seus problemas e toma atitudes do adulto indo além daquelas de sua experiência cotidiana, buscando alternativas para transformar a realidade. No faz de conta, seus desejos podem facilmente ser realizados e quantas vezes a criança desejar, criando e recriando situações que ajudam a satisfazer alguma necessidade presente em seu interior. Bettlheim, afirma que a criança precisa compreender seu inconsciente, para poder dominar seus problemas psicológicos de crescimento, superar suas decepções narcisistas, dilemas édipicos, ser capaz de abandonar dependências infantis, obtendo um sentimento de individualidade e valorizando-se.

Segundo POSTIC “ O pensamento progride de forma linear. A imaginação se processa em espiral, por alargamento de seu espaço. Ela não se dirige para níveis mais diferenciados, mais especializados, estende-se por extensão e por conquista de novos territórios” (1993:19).

Vygotsky, contribui com seus estudos do brincar, afirmando que ele irá permitir que a criança aprenda e elaborar e resolver situações conflitantes que vivencia ou vivenciará no seu cotidiano. Para isso a criança usará suas capacidades básicas como a observação, imitação e imaginação.

Segundo Gianni Rodari (1982:139), “Germes da imaginação criativa, reforça Vygotski, manifestam-se nas brincadeiras dos animais: assim manifestam-se ainda mais na vida infantil. A brincadeira, o jogo não é uma simples recordação de impressões vividas, mas uma reelaboração criativa delas, um processo através do qual a criança combina entre si os dados de experiência no sentido de construir uma nova realidade, correspondente às suas curiosidades e necessidades”.

Quando Vygotsky discute o papel do brinquedo refere-se especificamente à brincadeira do faz de conta, como o brincar de casinha, de escolinha, de cavalo com o cabo da vassoura, entre outras. Faço relação com Vygotsky, porque o faz de conta, do conto de fadas é também um jogo lúdico, e faz parte do brincar. As crianças amadurecem por intermédio de suas próprias brincadeiras e das invenções das brincadeiras de outras crianças e adultos. No princípio suas imitações poderão ser simples, de acordo com a idade, e a experiência de vida de cada criança, mas com o passar do tempo, (e com o desenvolvimento das atividades programadas), o faz de conta da criança fica mais elaborado.

Para Vygotsky, ao reproduzir o comportamento social do adulto em seus jogos, a criança esta combinando situações reais com elementos de sua ação fantasiosa. Esta fantasia surge da necessidade da criança de reproduzir o cotidiano da vida do adulto da qual ela ainda não pode participar como gostaria. Contudo, esta elaboração no faz de conta necessita de conhecimentos prévios do mundo que a cerca, portanto, quanto mais rica forem suas experiências, mais informações a criança irá dispor para materializar em seus jogos lúdicos.

A brincadeira e o faz de conta criam a Zona de Desenvolvimento Proximal na criança, que através da mediação de colegas, família, e educadores, a criança irá passar para o desenvolvimento potencial. No faz de conta, a criança passa a dirigir seu comportamento pelo mundo imaginário, isto é, o pensamento está separado dos objetos e a ação surge das idéias.

Assim do ponto de vista do desenvolvimento, o jogo do faz de conta pode ser considerado um meio para desenvolver o pensamento abstrato, em que a imaginação é uma ação, sendo ela concreta ou não, mas acima de tudo é algo em permanente amadurecimento, e não uma coisa, “A imaginação da criança, estimulada a inventar palavras, aplicará seus instrumentos sobre os traços da experiência que provocarão sua intervenção criativa”. Valotto (1997:19), fala nos sobre o contato com as histórias, sendo que elas não somente ampliam o horizonte cultural das crianças, e promovem seu enriquecimento lingüístico e literário, mas também colocam em doação, a disponibilidade do contador, contemplando a equilibrada formação das crianças em sua relação com eles mesmos e com o mundo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Tendo como base os objetivos deste projeto:

Possibilitar as crianças o contato com a Literatura Infantil, através dos contos de fada;
Promover o desenvolvimento da imaginação, da criação, e da percepção de mundo, a partir das possíveis interpretações dos contos de fada.; e
observar através da aplicação do trabalho a importância que é dada aos contos de fadas na escola. É possível definir alguns parâmetros:

Na escola pública, existem trabalhos isolados que valorizam a literatura infantil, mas em sua maioria todos a utilizam para fins didáticos. No centro de Educação Infantil, existe uma preocupação do corpo docente em valorizar o imaginário da criança, bem como suas demais potencialidades.

Percebemos que em ambas as instituições as crianças participam das atividades, e demonstram através de textos, desenhos, dramatizações, gestos, e conversas suas angústias, alegrias, vontades e dúvidas ao colocarem-se no lugar dos personagens, vivenciando momentos do seu cotidiano.

REFERENCIAL BIBLIOGRÁFICO:

BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas.15.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2001.
CARDOSO, Camilo.VALSASSINA,Manuela. Arte Infantil. Linguagem Plástica. 2ed. Lisboa: Presença, 1988.
CHAUI, Marilena. Convite a Filosofia. 8 ed. São Paulo: Ática, 1997.
LAJOLO, Marisa, ZILBERMAN, Regina. Literatura Infantil Brasileira – Histórias e Histórias. 5 ed. São Paulo: Ática,1.991.
NOVAES, Nelly. Coelho Literatura Infantil. 7.ed.Ed. São Paulo: Moderna, 2.000.
______* O Conto de Fadas. São Paulo: Ática, 1987.
PAULINO, Graça. O Jogo do Livro Infantil. Textos Selecionados para Formação de Professores .Belo Horizonte: Dimensão, 1.997.
POSTIC, Marcel. O imaginário na Relação Pedagógica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993.
RODARI, Gianni. Gramática da Fantasia. 8 ed. São Paulo: Summus, 1982.
VYGOTSKY, Lev Semenovich. A Formação Social da mente. 6 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

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Contos (A Verdade)

Conto Judaico

Um dia, a Verdade andava visitando os homens sem roupas e sem adornos, tão nua como o seu nome. E todos que a viam viravam-lhe as costas de vergonha ou de medo e ninguém lhe dava as boas vindas.

Assim, a Verdade percorria os confins da Terra, rejeitada e desprezada.

Uma tarde, muito desconsolada e triste, encontrou a Parábola, que passeava alegremente, num traje belo e muito colorido.

– Verdade, por que estás tão abatida? – perguntou a Parábola.

– Porque devo ser muito feia já que os homens me evitam tanto!

– Que disparate! – riu a Parábola – não é por isso que os homens te evitam. Toma, veste algumas das minhas roupas e vê o que acontece.

Então a Verdade pôs algumas das lindas vestes da Parábola e, de repente, por toda à parte onde passa era bem-vinda.

– Pois os homens não gostam de encarar a Verdade nua; eles a preferem disfarçada.
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Conto Árabe (Maneira de Dizer as Coisas)

Uma sábia e conhecida anedota árabe diz que, certa feita, um sultão sonhou que havia perdido todos os dentes. Logo que despertou, mandou chamar um adivinho para que interpretasse seu sonho.

– Que desgraça, senhor! – exclamou o adivinho. Cada dente caído representa a perda de um parente de vossa majestade.

– Mas que insolente! – gritou o sultão, enfurecido. Como te atreves a dizer-me semelhante coisa? Fora daqui!

Chamou os guardas e ordenou que lhe dessem cem acoites. Mandou que trouxessem outro adivinho e lhe contou sobre o sonho.

Este, após ouvir o sultão com atenção, disse-lhe:

– Excelso senhor! Grande felicidade vos está reservada. O sonho significa que haveis de sobreviver a todos os vossos parentes.

A fisionomia do sultão iluminou-se num sorriso e ele mandou dar cem moedas de ouro ao segundo adivinho. E quando este saía do palácio, um dos cortesãos lhe disse admirado:

– Não é possível ! A interpretação que você fez foi a mesma que o seu colega havia feito. Não entendo porque ao primeiro ele pagou com cem acoites e a você com cem moedas de ouro.

– Lembra-te meu amigo – respondeu o adivinho – que tudo depende da maneira de dizer…

Um dos grandes desafios da humanidade é aprender a arte de comunicar-se. Da comunicação depende, muitas vezes, a felicidade ou a desgraça, a paz ou a guerra.

Que a verdade deve ser dita em qualquer situação, não resta dúvida. Mas a forma com que ela é comunicada é que tem provocado, em alguns casos, grandes problemas. A verdade pode ser comparada a uma pedra preciosa. Se a lançarmos no rosto de alguém pode ferir, provocando dor e revolta. Mas se a envolvemos em delicada embalagem e a oferecemos com ternura, certamente será aceita com facilidade.

A embalagem, nesse caso, é a indulgência, o carinho, a compreensão e, acima de tudo, a vontade sincera de ajudar a pessoa a quem nos dirigimos.

Ademais, será sábio de nossa parte se antes de dizer aos outros o que julgamos ser uma verdade, dizê-la a nós mesmos diante do espelho.

E, conforme seja a nossa reação, podemos seguir em frente ou deixar de lado o nosso intento.

Importante mesmo, é ter sempre em mente que o que fará diferença é a maneira de dizer as coisas…

Fontes:
http://textos_legais.sites.uol.com.br/
Imagem = http://sandersonmoura.blogspot.com

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Hilda Simões Lopes (Tempo de Ler Clarice)


Perceba os paradoxos e pense em como nunca o homem foi tão poderoso para o bem e para o mal. Podemos modificar espécies, viajar no sistema solar e destruir o planeta. Montamos uma rede de comunicação universal e instantânea, vemos e ouvimos tudo, falamos quando e com quem queremos. E vivemos imersos em corrupção e violência, banalizamos a vida e a morte e, ruminando pânico, erguemos grades, trancamos portas e nos encarceramos. É o tempo da contradição onde se aprofundam abismos, medos e inseguranças. O homem está abandonado, perdeu o contato com a terra, com o céu. Ele não vive mais, ele existe. Clarice Lispector disse assim.

Nessa época de homens poderosos em todos os sentidos, ler Clarice, a hermética, a intimista, a escritora que se afasta da sociedade em crise para a crise do indivíduo, a escritora do torvelinho das almas, cada vez mais parece água fresca em dia de quarenta graus à sombra.

Clarice Lispector também fala em assassinato mais profundo: aquele que é um modo de relação….. um modo de nos vermos e nos sermos e nos termos, assassinato onde não há vítima nem algoz, mas uma ligação de ferocidade mútua.

Clarice não enxergava a desumanidade do social e sim a das almas, punha a mão na fome de integridade e não na de comida, gritava pela ausência de ser e não pela de saúde e saneamento. Queria mexer na seiva e não nos galhos da árvore. Coisa difícil, afinal a “fome” é imensa e tem muitas faces, e metaforicamente Clarice explica: a pessoa come a outra de fome, mas eu me alimentei de minha própria placenta. E me pergunto se ler sua literatura não é isso mesmo, comer placenta, engolir fermento de vida, deixar as bordas e afundar no miolo.

O interessante é que essa fome por uma humanidade centrada no ser, presente na obra de Clarice Lispector, vive no imaginário dos africanos e faz parte de seu vocabulário. Eles diriam que Clarice Lispector anseia um mundo de “ubuntu”. Tal expressão, usada hoje para sistemas operacionais simples e gratuitos, vem da África onde é bonita em significado como em seu uso virtual. Tem a ver com nossa essência, algo como “sou o que sou devido ao que todos somos”, e para os africanos, quanto mais nos apropriamos dessa idéia mais humanos ficamos. Tem muito “ubuntu” quem não se intimida com o sucesso, a capacidade ou a beleza dos outros porque sabe que, igual ao outro, é parte de um todo, ou quem não rouba do outro porque sabe como atingirá o todo do qual faz parte. Este sentimento nutriu o “ontem eu tive um sonho, todos éramos cidadãos do mesmo mundo” de Martin Luther King, o “Imagine” de John Lennon e vários discursos de Bill Clinton.

Ignoro se Clarice conhecia a palavra africana, mas a idéia se derrama de sua literatura: Não me mostre o que esperam de mim porque vou seguir meu coração, não me façam ser o que não sou, não me convidem a ser igual porque sinceramente sou diferente…….. Não copie uma pessoa ideal, copie a você mesma…….. O que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesmo.

Claro, Clarice, claríssimo, ser o que se é porque cada um é um e temos de nos somar e não nos copiar.

Os todos poderosos homens de hoje, para o bem e para o mal, como diz Clarice Lispector, não vivem, existem. Vivem apenas um carnaval de vaidades, teres e poderes, usando as fímbrias de suas existências cambaleantes, controladas por comprimidos e sedentas por paz e alegria genuína.

Imagine todas as pessoas/ vivendo pelo hoje / nada porque matar ou morrer / nenhuma necessidade de ganância ou fome / imagine todas as pessoas / compartilhando o mundo todo. John Lennon disse assim. Bem igual a Clarice.

Ele usou a música, ela as metáforas. Era uma humanidade deslumbrada pelo poder tecnológico alcançado, mas eles queriam alcançar a mudança das almas. E alma, sabe? é um negócio imenso. Clarice usou as metáforas porque as palavras não chegavam lá, e acharam difícil de entender. Passou o tempo e o deslumbramento implodiu, todo mundo viu, os poderes avançaram, para o bem e para o mal. Por dentro, fome por outro tempo. Tempo de ler Clarice.

Fonte:
Zero Hora.

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Hilda Simões Lopes (1945)

Hilda Simões Lopes nasceu em Pelotas/RS em 23 de novembro de 1945.

Advogada, socióloga, professora universitária.

Individualmente, publicou livros de ensaios sociológicos, romances e crônicas.

É autora dos ensaios
Do Abandono à Delinqüência (Editora Shogun, Rio de Janeiro) e Senhoras e Senhoritas, Gatas e Gatinhas (Editora da Universidade Federal de Pelotas/RS).

Em 1998 publicou o romance A Superfície das Águas (Editora do Instituto Estadual do Livro/RS), ganhador do Prêmio Açorianos de Literatura daquele ano.

Em 2000, foi finalista do Prêmio Açorianos de Literatura, com o livro de crônicas de viagem Cuba: Casa de Boleros (AGE Editora, Porto Alegre/RS).

Em 2001, publicou a novela Um Silêncio Azul (AGE Editora, Porto Alegre/RS).

Tem contos e poesias publicados em coletâneas de autores gaúchos, como Mulher Poeta (Editora Alcance, Porto Alegre/RS), Mercopoemas (Editora Alcance, Porto Alegre/RS) e Contos de Oficina (Editora PUC/RS).

Hilda Simões Lopes participa de cursos de criação literária no Brasil e no exterior.

Fonte:
http://www.amigosdolivro.com.br/lermais_materias.php?cd_materias=6967

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Silva Barreto (1918 – 2010)

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17 de julho de 2010 · 01:57

Silva Barreto (Decálogo do Poeta)

1. O amor constitui a principal essência do poeta;

2. Toda poesia deve conter uma mensagem em defesa do bem-estar da humanidade;

3. O Poeta é um amigo da Natureza, quem a destrói, rouba-lhe uma de suas principais fontes de inspiração;

4. O egoísmo, a covardia, a crueldade, a calúnia, a inveja, a avareza e a mesquinhez são sentimentos incompatíveis com a alma do Poeta;

5. O sofrimento não será motivo para sua derrocada, mas alicerce de onde nascerá seu mundo de sonhos;

6. A luta do Poeta é transcendental porque busca o caminho da perfeição;

7. O problema da vida e o da morte não o devem preocupar porque a poesia o eternizará;

8. A arma do Poeta é a poesia e ela deve ser a guardiã dos indefesos, principalmente das crianças, dos animais e das árvores.

9. O Poeta tem o dom da premonição, e, por isso, percebe que o homem, cegamente, caminha para a autodestruição: como missionário, cabe-lhe evitar sua queda no caos;

10. A poesia não tem fronteiras e nem idade, sob qualquer padrão o Poeta deve eternizar o belo.

Fontes:
http://espacomulher.com.br/cnpl/cnpl_edicao34.html
Imagem =
http://virtualiaomanifesto.blogspot.com

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