Arquivo do mês: julho 2010

Trova 166 – José Feldman (PR)


À minha esposa, Alba Krishna

Deixe um comentário

Arquivado em Paraná em Trovas

Paraná em Trovas

Na luta pelas vitórias
só sente satisfação
quem não usa a luz das glórias
para humilhar um irmão!
AMÁLIA MAX – Ponta Grossa

Dois caminhos há na vida,
o do egoísmo e o da cruz:
– um leva à eterna descida;
o outro leva à eterna luz!
ANTONIO AUGUSTO DE ASSIS – Maringá

Sem sonhos, velho e cansado,
tão distante a mocidade…
Lembrando o tempo ao teu lado,
eu choro e abraço a saudade…
DÉSPINA ATHANÁSIO PERUSSO – Londrina

Na hora de concebê-las,
tendo a luz da inspiração,
Deus foi rimando as estrelas
e trovando na amplidão!
FERNANDO VASCONCELOS – Ponta Grossa

Nosso amor é uma certeza
dentro do meu coração;
e a luz da paixão acesa
apaga a luz da razão!…
ISTELA MARINA GOTELIPE LIMA – Bandeirantes

Por mais que o mundo propague
que a vida eterna é irreal,
viva em mim e não se apague…
“a Luz de um grande ideal”!
JANETE DE AZEVEDO GUERRA – Bandeirantes

A luz que vem de um olhar,
se passar por um sorriso,
talvez nem leve ao altar,
mas nos leva ao paraíso!
JOSÉ BIDÓIA – Maringá

O tempo, veloz, avança,
consumindo nossos anos.
Vamos perdendo esperança
e colhendo desenganos…
JOSÉ CORRÊA FRANCISCO – Ponta Grossa

Errei!… Deixei-a abandonada
Perdida na solidão.
Com palavra apaixonada
Hoje imploro o teu perdão!…
JOSÉ FELDMAN – Ubiratã

Quisera ser como o sol,
que ao declinar no poente,
enche de luz o arrebol
e volta a ser sol nascente!
LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DECARLI – Bandeirantes

Ao cair a saia dela,
apertada no salão,
ficou claro que a donzela
escondia um barrigão
MARIA APARECIDA PIRES – Bandeirantes

Mais que ouro, fama, respeito…
Mais que honraria, abastança,
é trazer dentro do peito
simplesmente uma esperança!
MARIA FARIAS INOCÊNCIO – União da Vitória

Nas mais árduas empreitadas,
sou feita de luz e raça;
porque à fúria das pedradas,
não temo em ser a vidraça!
MARIA LÚCIA DALOCE CASTANHO – Bandeirantes

No jardim do meu solar,
Flores tem a sua história…
Sempre me fazem lembrar,
O que ficou na memória.
MARITA FRANÇA – Curitiba

Ao me ver na escuridão
e totalmente indeciso,
Deus ouve a minha oração
e envia a luz que eu preciso!
NEIDE ROCHA PORTUGAL – Bandeirantes

Um mar de esperanças novas
magicamente brotou
na ternura dessas trovas
que o teu carinho inspirou!
VICTORINA SAGBONI – Curitiba

Pernas tortas, magricela,
assusta até o cirurgião…
para que a vejam mais bela,
aconselha: a escuridão.
WANDA ROSSI DE CARVALHO – Bandeirantes

Transcendo o sonho e refaço
toda a rota do passado,
para ter de novo o abraço
do ventre em que fui gerado.
WANDIRA FAGUNDES QUEIROZ – Curitiba

Deixe um comentário

Arquivado em Paraná em Trovas

Concursos de Trovas em Andamento

1. UBT-Seção Nova Friburgo – CONCURSO INTERSEDES
Tema: IMAGEM (L/F)
Máximo: 1 trova por participante / Prazo: 31.08.2010
Remeter: Concurso Intersedes – A/C de Elisabeth Souza Cruz
Rua Santa Marta, 70
28633-080 – Nova Friburgo / RJ
—————-
2. IV CONC. de TROVAS do Grêmio Português de Nova Friburgo
Tema: Estadual: FADO (L/F) + GALO (Hum)
Máximo: 3 trovas por participante / Prazo: 30.09.2010
Remeter: IV Conc. Trovas Grêmio Português Avenida Euterpe Friburguense, 108 – Centro 28605-13 Nova Friburgo – RJ
—————-
3. XX CONCURSO de TROVAS da ATRN / 2010
Temas: Nacional: INSPIRAÇÃO (L/F)
Máximo: 3 trovas por participante / Prazo: 30.09.2010
Remeter: Francisco Neves de Macedo Rua Ribeirão Preto, 218 – Gramoré 59135-550 Natal / RN
—————-
4. V CONCURSO LIITERÁRIO “Cidade de Maringá” – ALM
Temas: CELEIRO (L/F)
Máximo: 3 trovas por participante / Prazo: 15.10.2010
Remeter: Francisco Neves de Macedo Rua Ribeirão Preto, 218 – Gramoré 59135-550 Natal / RN
Obs: Há também concursos com o mesmo tema (Celeiro) nas modalidades Soneto, Poema Livre e Crônica.
—————-
5. II CONCURSO DE TROVAS “Poeta Antônio Roberto Fernandes”
Temas: NOEL ROSA (Centenário de nascimento)
Máximo: 3 trovas por participante / Prazo: 30.11.2010
Remeter: II Conc.Trovas “Poeta A. R. Fernandes” A/C Roberto Pinheiro Acruche
Caixa Postal 123.192 28230-000 S.Francisco do Itabapoana/RJ
Observação: Obrigatório constar o nome do tema.

Deixe um comentário

Arquivado em Concursos em Andamento

Ruth Rocha (O Direito das Crianças)

Toda criança no mundo
Deve ser bem protegida
Contra os rigores do tempo
Contra os rigores da vida.

Criança tem que ter nome
Criança tem que ter lar
Ter saúde e não ter fome
Ter segurança e estudar.

Não é questão de querer
Nem questão de concordar
Os diretos das crianças
Todos tem de respeitar.

Tem direito à atenção
Direito de não ter medos
Direito a livros e a pão
Direito de ter brinquedos.

Mas criança também tem
O direito de sorrir.
Correr na beira do mar,
Ter lápis de colorir…

Ver uma estrela cadente,
Filme que tenha robô,
Ganhar um lindo presente,
Ouvir histórias do avô.

Descer do escorregador,
Fazer bolha de sabão,
Sorvete, se faz calor,
Brincar de adivinhação.

Morango com chantilly,
Ver mágico de cartola,
O canto do bem-te-vi,
Bola, bola,bola, bola!

Lamber fundo da panela
Ser tratada com afeição
Ser alegre e tagarela
Poder também dizer não!

Carrinho, jogos, bonecas,
Montar um jogo de armar,
Amarelinha, petecas,
E uma corda de pular.

Um passeio de canoa,
Pão lambuzado de mel,
Ficar um pouquinho à toa…
Contar estrelas no céu…

Ficar lendo revistinha,
Um amigo inteligente,
Pipa na ponta da linha,
Um bom dum cahorro-quente.

Festejar o aniversário,
Com bala, bolo e balão!
Brincar com muitos amigos,
Dar pulos no colchão.

Livros com muita figura,
Fazer viagem de trem,
Um pouquinho de aventura…
Alguém para querer bem…

Festinha de São João,
Com fogueira e com bombinha,
Pé-de-moleque e rojão,
Com quadrilha e bandeirinha.

Andar debaixo da chuva,
Ouvir música e dançar.
Ver carreiro de saúva,
Sentir o cheiro do mar.

Pisar descalça no barro,
Comer frutas no pomar,
Ver casa de joão-de-barro,
Noite de muito luar.

Ter tempo pra fazer nada,
Ter quem penteie os cabelos,
Ficar um tempo calada…
Falar pelos cotovelos.

E quando a noite chegar,
Um bom banho, bem quentinho,
Sensação de bem-estar…
De preferência um colinho.

Embora eu não seja rei,
Decreto, neste país,
Que toda, toda criança
Tem direito de ser feliz!

E quando a noite chegar,
Um bom banho, bem quentinho,
Sensação de bem-estar…
De preferência um colinho.

Uma caminha macia,
Uma canção de ninar,
Uma história bem bonita,
Então, dormir e sonhar…

Embora eu não seja rei,
Decreto, neste país,
Que toda, toda criança
Tem direito a ser feliz!

Fontes:
http://www.uniblog.com.br/poesiasinfantis/

Deixe um comentário

Arquivado em A Poetisa no Papel, poema., Poesias

Ruth Rocha (A Menina que Não Era Maluquinha)

Maluquinha, eu?

Eu não! Não sou nenhuma maluquinha!

Quem me pôs esse apelido foi aquele menino de casacão e panela na cabeça.

Ele me botou esse apelido quando eu fui brincar na casa do Mauricinho.

Eu nem queria ir.

Mas a mãe dele telefonou pra minha mãe, ela disse que o Mauricinho era muito tímido e que ela queria que ele brincasse com umas crianças mais… Não sei o que ela disse, acho que ela queria que ele brincasse com umas crianças mais descoladas…

E aí minha mãe me encheu um pouco e eu acabei indo.

A gente chegou na casa do Mauricinho e foi logo almoçar.

E depois do almoço a mãe dele botou a gente pra fazer a lição.

Eu não me incomodo de fazer lição logo depois do almoço, porque eu fico logo livre.

Mas a mãe do Mauricinho começou a fazer uns discursos sobre responsabilidade e coisa e tal, que a gente já era grandinha e tinha que cumprir com os compromissos… Um saco!

Eu tô careca de saber disso!

E então eu fiz minha lição correndo e o Mauricinho ficou lá toda a vida, ele não acabava mais de fazer a lição dele.

Aí eu comecei a rodar pela casa até que encontrei um gato.

Gato não, gata. Chamava Pom-pom. Ou era Fru-fru… Ou era Bom-Bom, sei lá.

E eu peguei a gata e ela estava meio fedida.

Então eu resolvi dar um banho nela. Gato não gosta de banho, vocês sabem.

Mas meu avô tinha me contado que quando ele queria dar banho no gato ele botava o bicho dentro da banheira e ele não conseguia sair e meu avô dava banho à vontade!

Mauricinho tinha um banheiro dentro do quarto dele.

Quando eu fui chegando perto da banheira a gata arrepiou toda e eu joguei ela bem depressa lá dentro e tapei o ralo e enchi de água.

E esfreguei a gata todinha com um shampoo todo perfumado que tinha lá e eu estava achando que todo mundo ia gostar de ver a gata toda limpinha. A gata estava muito infeliz e ela miava miaaauuu… e tentava sair do banho, mas meu avô tinha razão: ela arranhava a parede da banheira, mas não conseguia sair.

Mas acho que aí caiu shampoo no olho da gata, porque ela deu um pulo e agarrou na minha roupa e conseguiu pular fora e saiu correndo, espalhando espuma de shampoo por todo lado e nisso a mãe do Mauricinho vinha chegando e levou o maior susto e caiu sentada e a gata continuou correndo e assustando todo mundo e respingando tudo de espuma.

Eu não sei quem estava mais assustado: se era o Mauricinho, a mãe dele, a gata, ou se era eu.

Eu corri atrás da gata, mas ela pulou pela janela, atravessou o jardim, saiu pela rua e eu atrás.

Só que no meio da rua estava a turma daquele menino, aquele da panela na cabeça, e a gata passou pelo meio deles todos e eu atrás!

E eles levaram o maior susto, cada um correu para um lado, e atrás de mim vinha a mãe do Mauricinho e o Mauricinho e a cozinheira e o jardineiro todos correndo e gritando e eu resolvi correr para a minha casa e me esconder lá.

Mas no dia seguinte… a escola toda já sabia da história e aquele menino, aquele da panela na cabeça começou a me chamar de maluquinha…

Mas eu não sou maluquinha, não! Só se for a vó dele!

Fonte:
http://www2.uol.com.br/ruthrocha/historias_03_in.htm

Deixe um comentário

Arquivado em A Escritora com a Palavra

Ruth Rocha (1931)

Uma das escritoras infantis mais conhecidas e prestigiadas, Ruth Rocha nasceu na cidade de São Paulo, em 2 de março de 1931. Filha dos cariocas Álvaro de Faria Machado, médico, e Esther de Sampaio Machado, tem quatro irmãos, Rilda, Álvaro, Eliana e Alexandre. Teve uma infância alegre e repleta de livros e gibis. O bairro de Vila Mariana, onde morava, tinha nessa época muitas chácaras por onde Ruth passava, a caminho da escola – estudava no Colégio Bandeirantes. Mais tarde, terminou o Ensino Médio no Colégio Rio Branco.

É graduada em Sociologia e Política pela Universidade de São Paulo e pós-graduada em Orientação Educacional pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Casada com Eduardo Rocha, tem uma filha, Mariana e dois netos, Miguel e Pedro.

Durante 15 anos (de 1956 a 1972) foi orientadora educacional do Colégio Rio Branco, onde pôde conviver com os conflitos e as difíceis vivências infantis e com as mudanças do seu tempo. A liberação da mulher, as questões afetivas e de auto-estima foram sedimentando-se em sua formação.

Em 1965 escreve artigos sobre educação para a revista Claudia. Participou da criação da revista Recreio, da Editora Abril, onde teve suas primeiras histórias publicadas a partir de 1969. “Romeu e Julieta”, “Meu Amigo Ventinho”, “Catapimba e Sua Turma”, “O Dono da Bola”, “Teresinha e Gabriela” estão entre seus primeiros textos de ficção.

Deixa a Editora Abril no mesmo ano e inicia prolífera produção literária, inspirada na filha, Mariana. Marcelo, Marmelo, Martelo (1976) vende 1 milhão de exemplares.

Publicou seu primeiro livro, “Palavras Muitas Palavras”, em 1976

De 1973 a 1981, volta a dirigir publicações infantis da Editora Abril, participa das coleções Conte um Conto, Beija-Flor e Histórias de Recreio e lança O Reizinho Mandão (1978). Em 1989 é escolhida pela ONU (Organização das Nações Unidas) para assinar a versão infantil da Declaração Universal dos Direitos Humanos, intitulada Iguais e Livres, publicada em nove línguas.

Monteiro Lobato foi sua grande influência. Em sua obra, essa influência se traduz pelo seu interesse nos problemas sociais e políticos, na sua tendência ao humor e nas suas posições feministas.

Seu livro de forte conteúdo crítico, “Uma História de Rabos Presos”, foi lançado em 1989 no Congresso Nacional em Brasília, com a presença de grande número de parlamentares. Em 1988 e 1990 lançou na sede da Organização das Nações Unidas em Nova York seus livros “Declaração Universal dos Direitos Humanos” para crianças e “Azul e Lindo – Planeta Terra Nossa Casa”.

Participou durante seis anos do programa de televisão Gazeta Meio-Dia como membro fixo da mesa de debates.

Em 1998 foi condecorada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso com a Comenda da Ordem do Mérito Cultural do Ministério da Cultura.

Ganhou os mais importantes prêmios brasileiros destinados à literatura infantil da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, da Câmara Brasileira do Livro, cinco Prêmios “Jabuti”, da Associação Paulista de Críticos de Arte e da Academia Brasileira de Letras, Prêmio João de Barro, da Prefeitura de Belo Horizonte, entre outros.

Seu livro mais conhecido é “Marcelo, Marmelo, Martelo”, que já vendeu mais de 1 milhão de cópias.

Em 2002 ganhou o prêmio Moinho Santista de Literatura Infantil, da Fundação Bunge. Também nesse ano foi escolhida como membro do PEN CLUB – Associação Mundial de Escritores no Rio de Janeiro, além de conquistar, neste mesmo ano, o Prêmio Jabuti pelo livro Escrever e Criar.

Atualmente é membro do Conselho Curador da Fundação Padre Anchieta.

Membro da Academia Paulista de Letras, integrante da cadeira 38 desde 25 de outubro de 2007.

No site oficial da escritora podem ser encontradas mais informações sobre a escritora, livros e histórias, entre outros: http://www2.uol.com.br/ruthrocha/home.htm

Fontes:
http://www.algosobre.com.br/biografias/ruth-rocha.html
http://www2.uol.com.br/ruthrocha/historiadaruth.htm
http://www.infoescola.com/escritores/ruth-rocha/

Deixe um comentário

Arquivado em Biografia

Poesias na Educação Infantil: A Literatura como Geradora de Experiências Estéticas e Expressivas

Trabalho desenvolvido por Adrianne Ogêda Guedes, Daniela de Oliveira Guimarães, Nuelna da Gama Vieira, Ruani Maceira.
Casa Monte Alegre – Educação Infantil (Cidade do Rio de Janeiro)

RESUMO

Este trabalho tem como objetivo apresentar uma experiência no campo da linguagem, com crianças de 4 a 6 anos de uma instituição de Educação Infantil na cidade do Rio de Janeiro. Através da abordagem do gênero poesia, a leitura e a escrita foram vividas como práticas expressivas, atravessadas pelas experiências sócio-culturais do grupo. Assim, o contato com a poesia desdobrou-se em possibilidades estéticas: objetos transformaram-se em palavras, palavras geraram movimentos, etc. Ao mesmo tempo que mergulharam no acervo poético brasileiro, as crianças foram sendo mobilizadas por diferentes estilos e modos de produção que passaram a compor seus trabalhos e suas próprias poesias. Enfim, percorrendo caminhos da linguagem plástica à poesia ou do gesto à palavra, experimentamos a linguagem como concretização do pensamento e a produção de significados atravessada pelo afeto e pelas interações sociais.

Contextualizando a experiência: a organização do grupo de crianças, o lugar do professor e alguns princípios pedagógicos.

Este trabalho tem como objetivo apresentar uma experiência no campo da linguagem desenvolvida com um grupo de 13 crianças de 4 a 6 anos numa instituição de Educação Infantil do Rio de Janeiro, a Casa Monte Alegre. Trata-se de compreender implicações da dimensão expressiva da linguagem para a prática pedagógica.

Alguns aspectos relativos a forma de organização do trabalho com as crianças, tais como as divisões dos grupos e a coordenação dos mesmos, serão aqui explicitadas, possibilitando a contextualização desta experiência. Estaremos também situando o leitor quanto aos princípios teóricos que subsidiam as práticas desenvolvidas na Casa Monte Alegre, dando destaque às idéias sobre a função da Educação Infantil, as práticas de leitura e escrita nesse segmento e as relações de linguagem. Esses aspectos possuem especificidades, mas também estão imbricados, à medida que só podemos pensar nas práticas de leitura e escrita e na relação com diferentes linguagens, por exemplo, a partir do que pensamos ser a função da Educação infantil.

Procuramos abrigar, na forma como organizamos os grupos de crianças, a presença da diferença como mola fundamental para potencializar as trocas de experiências. Sendo assim, os grupos são compostos por crianças de idades variadas, tendo em vista uma faixa de aproximadamente três anos de diferença. O grupo com o qual desenvolvemos a proposta aqui apresentada, possui crianças de 4 anos completos até 6 anos. Essa heterogeneidade marcada pela idade implica, para a prática pedagógica, em levar em conta movimentos, interesses, possibilidades que se diferenciam.

De toda forma, acreditamos que a diferença não é marcada só pela idade. Na verdade, nenhum grupo é homogêneo. Ao olhar a criança sob esta perspectiva, dispomo-nos a acolher respostas variadas para mesmas perguntas, expressões distintas, movimentos diversos. Portanto, o ponto de partida de nosso trabalho sustenta-se no olhar que lançamos à criança, que acolhe a diferença, que não busca a homogeneização, que está aberto às expressões singulares, próprias dos sujeitos envolvidos.

No dia a dia da Casa Monte Alegre, os grupos são identificados por um nome que é escolhido pelas crianças ao longo do primeiro bimestre de atividades. Assim, o nome ganha sentido de identidade, e é escolhido a partir dos interesses infantis, conferindo significado a esse nome. O grupo em questão se chama “Grupo Gelo” e foi criado no início do ano de 2003, quando as curiosidades acerca desse tema estavam avivadas.

Dois educadores assumem a coordenação deste grupo, conjuntamente. O desafio da parceria e da troca entre adultos é também vivido com intensidade nessa disposição. Pensar o trabalho juntos, organizar as ações, desejos e idéias coletivas, fazer-se presente considerando a presença do outro são desafios que deslocam o professor do lugar de centralidade que habitualmente assume. Nessa perspectiva, o professor tem lugar de mediador sim, mas partilha com outro esse lugar, buscando sempre a parceria do grupo na organização do cotidiano. A perspectiva é a da construção da unidade na diversidade.

É importante acrescentar que o diálogo com a experiência italiana (Edwards, Forman e Gandini, 1999) leva-nos a apontar a importância de valorizarmos as cem linguagens da criança na formulação do cotidiano e na perspectiva da construção de uma Pedagogia da Educação Infantil.

Juntamente com Rocha(1999), afirmamos que é fundamental focalizar a especificidade educativa no trabalho com as crianças de 0 a 6 anos, diferenciando-o do ensino fundamental, à medida que neste segmento há lugar privilegiado para o domínio dos conhecimentos básicos. A Educação Infantil define-se pela complementariedade em relação à famíla e, portanto, “tem como objeto as relações educativas travadas num espaço de convívio coletivo que tem como sujeito a criança de 0 a 6 anos” (p.62). Isso não significa que os conhecimentos sistematizados e a aprendizagem não pertençam ao universo da Educação Infantil, muito pelo contrário!

a dimensão que os conhecimentos assumem na educação das crianças pequenas coloca-se numa relação extremamente vinculada aos processos gerais de constituição da criança: a expressão, o afeto, a sexualidade, a socialização, o brincar, a linguagem, o movimento, a fantasia, o imaginário,… as suas cem linguagens” (Rocha, 1999, p.62)

Nosso movimento converge no sentido de sistematizarmos as idéias que particularizam o trabalho com as crianças de 0 a 6 anos. Neste caminho, no dia a dia da Casa Monte Alegre, valorizamos tanto os objetos culturais portadores de escrita (livros, jornais, revistas, etc) e a possibilidade de escrita e leitura por parte das crianças, como outras formas de expressão, tais como a dança, a música, o desenho, a produção plástica, etc. Ler, escrever, desenhar, pintar, dançar são experiências mergulhadas no movimento de comunicação e construção de sentidos possíveis sobre o mundo. Acima de tudo, o trabalho focaliza a constituição da criança, sua auto-estima, autonomia, expressividade, auto-confiança. Os projetos e objetos sobre os quais nos debruçamos como pesquisadores do mundo cultural mais amplo favorecem essa constituição, mola mestra de nosso trabalho.

Princípios como a escuta e o protagonismo das crianças; o reconhecimento de seus desejos, palavras e afetos; a valorização do imprevisto (diferente do improviso); a perspectiva da criança como produtora de cultura; o fortalecimento das relações sociais entrelaçam-se no trabalho da Casa Monte Alegre e nos passos vividos no Projeto com as poesias.

A seguir, iremos expor os nortes teóricos que nos fizeram apostar na poesia como um caminho de abertura de possibilidades junto às crianças, à medida que as características expressivas e estéticas deste gênero literário, aproximam-se do modo de expressão das crianças. A possibilidade de concretizar afetos e pensamentos, a exploração da palavra em suas múltiplas formas e sentidos, a intensidade da dimensão do sentido em cada palavra, a reverberação das poesias no corpo, no desenho e no ritmo das crianças são aspectos fundamentais a serem destacados. Por último, relataremos processos vividos, ressaltando o impacto da leitura e produção de poesias no cotidiano das crianças do grupo Gelo.

A linguagem e a criança: gesto, palavra, desenho, leitura, escrita como formas de expressão

De acordo com Vygotsky (1991), nas crianças pequenas, a fala apresenta-se paralela à ação. As crianças falam enquanto fazem, nomeiam objetos enquanto os exploram, acompanhando de palavras os movimentos. É no mergulho nas interações, participando de conversas e contextos povoados pelas palavras em seus usos sociais diversos, que vai acontecendo e fortalecendo-se a diferenciação entre fala para si (organizadora da experiência, geradora do pensamento) e fala para o outro (comunicativa).

Ao mesmo tempo, o mundo dos significados fixados na cultura vai sendo internalizado e cada palavra cola-se a um conjunto específico de eventos ou objetos. Uma única palavra quer dizer muito para a criança pequena. Uma palavra condensa um mundo de possibilidades. Pouco a pouco, no mergulho nas interações sociais, o acervo de palavras diversifica-se e as possibilidades de significar o mundo especializam-se, multiplicando-se. Novos sentidos vão sendo descobertos, novas possibilidades de expressão, à medida que espaços vão sendo abertos para o confronto com o outro, e consequentemente, a criação, a contraposição entre o antigo e o novo, a realidade e a fantasia.

O significado une pensamento e palavra no desenvolvimento da criança, materializando a comunicação e as possibilidades de interação social. A palavra é concretização do pensamento que nela ganha vida e expressão. Nesta corrente viva da linguagem, a fala e a troca social possibilitam a expansão da criança, ou seja, ir além dos significados convencionais, criando novos sentidos para objetos e eventos cotidianos.

a criança está sempre pronta para criar outros sentidos para os objetos que possuem significados fixados pela cultura dominante, ultrapassando o sentido único que as coisas novas tendem a adquirir (…) sonhando a vida na ação e na linguagem, descontextualizando espaço e tempo, subvertendo a ordem e desarticulando conexões, a infância problematiza as relações do homem com a cultura e com a sociedade” (Jobim e Souza, 1994, p.160)

Na verdade, é na brincadeira e na linguagem que podemos compreender a apropriação e re-criação do mundo por parte das crianças. De acordo com Vygotsky, no brincar: “sob o impacto do novo significado adquirido, modifica-se a estrutura corriqueira do objeto“(p.124).

É importante ressaltar que a brincadeira transforma-se ao longo do desenvolvimento. No início, os significados dos objetos são subordinados às ações e às suas funções estabelecidas (por exemplo, uma vassoura serve para varrer). Com o desenvolvimento, os significados é que irão gerar ações na relação com os objetos (uma vassoura pode fazer as vezes de um cavalo, ou um trem onde sentam várias crianças, etc). Assim, no brincar, regidas pelo movimento de significar e compreender o mundo, as crianças criam novas relações entre as coisas, subvertem os usos e funções dos objetos cristalizados na cultura dominante. Esse movimento de descontextualização do objeto e reinvenção de papéis sociais, que se opera na brincadeira, provoca a possibilidade das crianças experimentarem-se em lugares variados, diferentes das situações reais e cotidianas que pertencem. Isto favorece o desenvolvimento, entendido como ampliação de perspectivas e diversificação de experiências.

o menino que cavalga sobre um pau e imagina que monta um cavalo, a menina que joga com sua boneca e se crê mãe, as crianças que brincam de ladrões, soldados, marinheiros, todas elas mostram em suas brincadeiras exemplos da mais autêntica e verdadeira criação. Verdade é que seus jogos reproduzem muito do que vêem (…) mas tais elementos de experiência alheia nunca são levados pela criança nas suas brincadeiras como eram na realidade. Não se limitam em suas brincadeiras a recordar situações vividas, mas sim as elaboram criativamente, combinando-as entre si e edificando com elas novas realidades de acordo com suas afeições e necessidades” (Vygotsky, 1987, p.12)

Portanto, na compreensão da produção de linguagem pela criança é fundamental levar em conta a centralidade da produção de significado e o implicamento das diferentes formas de expressão. A significação que se opera na relação entre pensamento e fala precisa do corpo para fortalecer-se. Assim também as primeiras grafias, na ordem do desenho e, posteriormente, da escrita, inscrevem expressões que nascem no movimento, no brincar, no deslocamento do corpo no espaço.

É fundamental ressaltar que palavra e gesto conjugam-se na criança pequena, especialmente na produção do novo, da singularidade. Muitas vezes, o movimento nasce junto com a idéia, e de uma expressão do corpo irrompe um personagem, uma história, um enredo . Por outro lado, a fala no grupo social gera pensamento, ampliando as formas de interação e as possibilidades de organizar as experiências partilhadas. Ao mesmo tempo, o nascimento das grafias conjuga-se aos gestos da criança pequena, como primeiros registros dos movimentos. Juntamente com Vygotsky, entendemos que movimento, palavra, desenho e escrita são possibilidades de compreender o mundo e expressar-se na relação com ele. Daí a íntima relação que têm no desenvolvimento da criança.

o brinquedo de faz-de-conta, o desenho e a escrita devem ser vistos como momentos diferentes de um processo essencialmente unificado de desenvolvimento da linguagem escrita” (Vygotsky, 1989,p.129)

De acordo com o autor, analisando as particularidades da escrita, pode-se afirmar que ela desloca-se do desenho de coisas para o desenho de palavras, ou seja, de um simbolismo de primeira ordem (a denotação de objetos) para um simbolismo de segunda ordem (a denotação da fala). No entanto, a experiência dessa transição não pode ser vista como algo linear e mais evoluído ou bem formado no futuro, ou seja, tendo como campo de performance ideal da criança a representação do som, desligada do objeto. Percebemos que ao desenhar, a criança fala e é como se estivesse organizando no papel o movimento, o fluxo do corpo e do pensamento. Por outro lado, as crianças que usam a escrita como representação da fala, “precisam” do desenho, complementando o que querem dizer com a representação do objeto. A relação íntima entre movimento, objeto e desenho, ou ainda, objeto, desenho e escrita compõe a linguagem da criança.

Ainda, no diálogo com Vygotsky (1989), podemos afirmar que assim como a fala e o brinquedo, a linguagem escrita e a leitura devem ser necessárias à criança, operando no campo da significação do mundo. Portanto, “é necessário que as letras se tornem elementos da vida das crianças, da mesma maneira como, por exemplo, a fala (…) o que se deve fazer é ensinar às crianças a linguagem escrita e não apenas a escrita de letras“(p.134).

Benjamin (1993) abre outra perspectiva sobre a linguagem que contribui no entendimento da priorização de sua dimensão expressiva. Nesta perspectiva, a linguagem promove a emergência da capacidade mimética humana, entendida não como ilusão ou engano, para além da cópia ou representação fidedigna do objeto, mas como possibilidade de produzir semelhanças entre o humano e os objetos ou a natureza.. A “aprendizagem mimética” se dá no prazer em desnudar a relação entre objeto e imagem. Ou seja, há prazer, crescimento e deslocamento no movimento de dar sentido que é gerado na brincadeira de transformar-se nas coisas e misturar-se com elas.

a mímeses designa um processo de aprendizagem específico do homem (e, em particular, das crianças). A aquisição de conhecimento é favorecida pelos aspectos prazerosos do processo(…) o impulso mimético está na raiz do lúdico e do artístico” (Gagnebin, 1987,p.86)

A autonomia da linguagem revela-se na possibilidade de invenção de metáforas, por exemplo, permitindo a descoberta de semelhanças insuspeitas. Assim, a linguagem não só reconhece ou representa o mundo, mas produz semelhanças e possibilita que “aderido” à coisa, o sujeito possa transformar-se no tatear, cheirar, sentir a partir desse lugar. Para Benjamin (apud Gagnebin, 1987), a semelhança independe de uma comparação entre elementos iguais. A atividade mimética sempre é uma mediação simbólica, ela nunca se reduz a uma cópia.

Na experiência do menino- Benjamin, uma forma de concretizar essas idéias:

a criança que se posta atrás do reposteiro se transforma em algo flutuante e branco, num espectro. A mesa sob a qual se acocora é transformada no ídolo de madeira do templo, cujas colunas são as quatro pernas talhadas. E, atrás de uma porta, a criança é a própria porta; é como se a tivesse vestido como um disfarce pesado e, como bruxo, vai enfeitiçar a todos que entrarem desavisadamente” (Benjamin, 1994, p.91)

De acordo com Benjamin (1993), a capacidade somente humana de produzir semelhanças foi sendo transformada com a evolução do homem e as mudanças nas formas de comunicação. Assim, a leitura/escrita através das vísceras, dos astros, dos acasos, onde se presentificavam produções de semelhanças no homem primitivo foram sendo substituídas pela linguagem e pela escrita, produzindo um arquivo de semelhanças extra-sensíveis, onde “o contexto significativo contido nos sons da frase é o fundo do qual emerge o semelhante, num instante, com a velocidade do relâmpago“. (p.132)

Na verdade, a brincadeira da criança, o desenho, a expressão plástica e a escrita são formas de atualização da produção de semelhanças, à medida que destas elaborações brotam possibilidades diversas de significar a realidade vivida.

pelo movimento de seu corpo inteiro, a criança brinca, representa o nome e assim aprende a falar. O movimento da língua só é um caso particular dessa brincadeira, desse jogo. Para as crianças, as palavras não são signos fixados pela convenção, mas primeiramente, sons a serem explorados. Benjamin diz que a criança entra nas palavras como entra em cavernas entre as quais ela cria caminhos estranhos.” (Gagnebin, 1987, p.99)

Dessa forma, entendemos a linguagem como busca de expressão de si e do mundo, busca do semelhante, da compreensão do mundo sem prendê-lo ou oprimi-lo. No caso da escrita e da leitura, para além de ensinar as letras ou fortalecer a dimensão de decodificação de símbolos gráficos, é preciso produzir práticas que possibilitem às crianças mergulharem na dimensão mimética da linguagem, capacidade de produzirem e encontrarem semelhanças entre objetos e representações/apresentações deles, na fala, no desenho, na escrita. Quando as crianças se apropriam da escrita como representação dos sons da fala, o desenho e o corpo continuam como recursos de expressão paralelos e complementares, fundamentais.

Nesta perspectiva, é fundamental o encontro das crianças com textos que as afetem, que provoquem curiosidade, desejo de exploração, enredamento. Ao mesmo tempo, é importante o espaço de expansão e expressão de cada uma, de diferentes formas. Este deve ser um compromisso da Educação Infantil nas experiências de leitura e escrita que propicia .

Poesia como campo de produção expressiva: ampliação das experiências infantis

Podemos afirmar que a linguagem poética guarda semelhança em relação à linguagem da criança pois ambas trazem para o primeiro plano o aspecto material da linguagem, ou seja, suas possibilidades sonoras e imagéticas a serem exploradas.

Por isso, trazer a linguagem poética para o cotidiano da criança significa potencializar o modo de produção inventivo, a capacidade expressiva da linguagem, permitindo o re-encontro da palavra com o movimento, do som com a imagem, muitas vezes enfraquecidos quando tomamos a linguagem puramente como representação, ou a escrita como marca do real, decodificação de som, de modo instrumental.

O poeta infantil José Paulo Paes (1996), colabora na elaboração dessa compreensão, quando afirma que a poesia promove uma intensificação do sentido das palavras, possibilitando:

mostrar a perene novidade da vida e do mundo, atiçar o poder de imaginação das pessoas, libertando-as da mesmice da rotina; fazê-las sentir mais profundamente o significado dos seres e das coisas, estabelecer entre essas correspondências e parentescos inusitados que apontem para uma misteriosa unidade cósmica; ligar entre si o imaginado e o vivido; o sonho e a realidade como partes igualmente importantes de nossa experiência de vida” (Paes, 1996, p.27)

Percebemos uma grande identidade entre nossa compreensão do brincar, falar, desenhar e escrever da criança com o trabalho do poeta, à medida que ambos comprometem-se acima de tudo com o plano do sentido, a relação entre palavra e imagens, palavra e movimento.

Mais do que a rima, a poesia destaca-se pela repetição de sons semelhantes em palavras próximas, pelo ritmo dos versos, comparações e oposições de sentido, ou seja, recursos que dão vivacidade, sugestividade e poder de sedução à linguagem. Mais do que aproximar-se do cotidiano da criança, promovendo relações com a experiência vivida (o que faz a prosa/narrativa), a poesia tende a chamar a atenção da criança para as surpresas que podem estar escondidas na língua.

Trata-se de descobrir novas possibilidades para palavras já conhecidas, explorar caminhos inusitados entre as cavernas-palavras, tal como sugeria Benjamin. Na poesia, é possível dizer algo ao contrário do que é na realidade, criar efeitos novos para elementos já conhecidos, realizar a produção do “novo” como re-criação do “velho”, tal como propõe Vygotsky.

Desta forma, podemos perceber a conexão estreita entre as poesias e a dança, à medida que a leitura de algumas sugere movimentos, e ritmos. Ou, a conexão com produção plástica, à medida que alguns objetos e pinturas sugerem poesias e estas mobilizam produção de imagens.

Enfim,

quando a criança se apropria da linguagem, revelando seu potencial expressivo e criativo, ela rompe com as formas fossilizadas e cristalizadas de seu uso cotidiano, iniciando um diálogo mais profundo entre os limites do conhecimento e da verdade na compreensão do real” (Jobim e Souza, 1994, p.159)

O diálogo da criança com a poesia possibilita essa aventura estética e criativa, pois provoca uma aproximação do belo e das emoções que ele suscita, à medida que as coisas e acontecimentos comuns aparecem de maneira nova e palavras também comuns associam-se de modo imprevisto para gerar efeitos de surpresa, de beleza e de humor.

No intuito de circunscrever uma possível compreensão da poesia, Morin (2002) surge como interlocutor importante, quando afirma a existência de pelo menos duas linguagens em qualquer cultura: uma racional, prática, técnica e outra, simbólica, mítica, mágica. A primeira constrói definições, precisão, apoiando-se sobre a lógica e a objetivação. A segunda, é caracterizada pela metáfora, analogia, conotação, como aberturas às possíveis significações que circundam cada palavra, cada enunciado, revelando a subjetividade. De acordo com o autor, o segundo estado pode ser denominado, estado poético: “o estado poético pode ser produzido pela dança, pelo canto, (…) e, evidentemente, pelo poema” (p. 36).

É fundamental organizar a experiência da criança nesses dois planos, no sentido de que haja circulação e diálogo entre eles. Nesta perspectiva, trazer a poesia para o primeiro plano no cotidiano implica em valorizar a dimensão subjetiva, expressiva e metafórica da linguagem.

A experiência com as poesias na Casa Monte Alegre

Para mudá-la [a sociedade] são necessários homens criativos que saibam usar sua imaginação… desenvolvam …. a criatividade de todos para mudar o mundo.” (Gianni Rodari, 1920)

Rodari, nesta citação, faz-nos lembrar que a criatividade é algo inerente aos homens e está sempre presente no desenvolvimento humano e social. Homem e mundo são infinitamente grandes, complexos. Como desbravá-los?! Os mundos que estão próximos a nós, aqueles que a nossa imaginação e ação habilitam-se a criar, estes sim, possuem tamanhos e formas que podemos habitar. Estão ao alcance de nossas mãos, sonhos, nossa existência.

No início de 2003, após as folias carnavalescas, investigamos que tipo de texto se aproximava mais das necessidades do Grupo Gelo.

Percebíamos que o movimento do grupo apontava para padronizações. Crianças de quatro a seis anos descobrindo-se meninos e meninas. Pareciam necessitar marcar igualdades e diferenças. Nesse sentido, o ser igual, o fazer igual, o estar igual marcava a identidade de cada um e muitas possibilidades de estarem juntos, de serem reconhecidos. Desejavam ter os mesmos brinquedos, contar histórias parecidas, vestir-se de modo semelhante. O fazer sempre igual ganhava presença nos desenhos das crianças, com muitas bonecas compridas, sol, cores, robôs; também nas falas, onde bastava uma criança responder para que todas as demais dessem a mesma resposta. Verificamos a presença do sentimento de pertencimento, chave mestre das e nas relações sociais , sendo experienciado pelas crianças.

O sentimento de pertencimento funciona como um mecanismo utilizado por pessoas e instituições (máquina social) para referenciarem-se socialmente. Pertencer sugere a possibilidade de ser nomeado – fazer parte. É um movimento presente no processo do desenvolvimento humano e social. Porém, fazer da identificação a única forma para estar no grupo, deslocando-a para uma repetição contínua, favorecia um empobrecer das potencialidades de cada um.

a questão fundamental é como evitar que as crianças se prendam às semióticas dominantes a ponto de perder, muito cedo, toda e qualquer liberdade de expressão.” (Jobim e Souza, 1994, p.22)

O desafio, neste momento, era poder viver as igualdades abrindo espaços para que as crianças pudessem se encontrar nas diferentes possibilidades de expressão de cada uma, visto que vivemos numa sociedade que facilita o processo de massificação e identificação, à medida que “está implicada com o ideário de uma igualdade, empobrecida nas próprias possibilidades de SER e encantada pela riqueza do TER.” (VIEIRA, 2001, p.30).

Compartilhamos com Deleuze e Guatarri (apud Jobim e Souza, 2000) quando apontam a existência de processos heterogêneos no seio do assujeitamento da subjetividade: processos criativos que produzem desvio, diferença na mesquinharia do “sempre igual”.

A partir da necessidade de instigar o grupo a buscar movimentos de diferenciação, abrindo espaço para que a singularidade de cada um fosse fomentada, pensamos na poesia como geradora de possibilidades. Por que a poesia? Pela multiplicidade de imagens que evoca, pelo seu tangenciamento com o universo da sensibilidade, da emoção, tão particulares a cada um, e tão subjetivos! Seria com certeza um convite a que a diferença entrasse em nosso cotidiano.

A poesia é um texto por si, sem explicação. Atua na nossa sensação e emoção. Ela nos leva para outros mundos novos e desconhecidos, encantando-nos. Traz para o primeiro plano a metáfora, a subjetividade, a criação.

Assim, esse gênero parecia garantir, pela sua forma, sonoridade, imagens a possibilidade de um encontro único, com cada corpo, cada criança. Um encontro com os desenhos, com as palavras, com os sons produzidos e sentidos por cada um. Ao ouvirmos uma poesia, compartilhamos risos, sustos, contentamento, movimento, palavras, sonhos, expressões singulares de nossa história de vida.

Desta forma, a diferença ia sendo encontrada na emoção, nos afetos que nos marcavam:

Eu gosto da do cavalo!

Eu acho que é Manuel Bandeira. Eu adoro ele!

Sorrisos. Olhares ao longe. Corpos bailando, trotando, as imagens poéticas convidavam ao movimento e à expressão plástica.

Apostando na diferença, na criatividade e nas paixões evocadas pelas poesias, fomos ao encontro de Cecília Meireles, Carlos Drumond de Andrade, Manuel Bandeira, Vinício de Moraes, Henriqueta Lisboa, Vicente de Carvalho, e muitos outros.

Com a Cecília “descobrimos” bailarinas e bailarinos. A poesia “A Bailarina” conquistava os olhares, ouvidos, corpos desejantes de movimento e expressão.

Já conhecida por todos, esta poesia permitiu que as meninas viajassem pelo território das bailarinas cada vez que era recitada. Elas iam para o centro da sala, ou onde houvesse espaço e….

“Esta menina
Tão pequenina
Quer ser bailarina
Não conhece nem dó, nem ré,
Mas sabe ficar na ponta do pé…”

Um momento mágico! Meninas entregues aos encantos e leveza de serem bailarinas. Meninos envolvidos pela sutileza dos movimentos das meninas – bailarinas.

Um dia, uma menina que acabara de ser bailarina comenta:

Lembra? Minha mãe veio aqui na escola de bailarina!?

É verdade. Isso aconteceu há uns dois anos atrás, quando sua mãe tinha presenteado o grupo com uma apresentação de bailarina. Deste encontro tínhamos as nossas lembranças, emoções que ficaram, fotos e um CD ( gravação de uma música instrumental editada especialmente para a apresentação).

Colocamos a música ao fundo baixinho e recitamos mais uma vez a poesia de “Cecília”. Esse encontro da poesia com a música levou todas as meninas ao centro. E como num desejo latente…. surgiram dançantes bailarinas. Os meninos não conseguiram impedir seus corpos pulsantes (cheios de regras e saberes masculinizados) de entregarem-se ao encontro.

Música, poesia. Adultos e crianças experimentavam suas sensações e criavam na liberdade e singularidade dos corpos, expressões únicas, inigualáveis, bailando pela sala afora.

Trazer a mãe bailarina que esteve na CMA para o presente, junto com a bailarina da Cecília Meirelles era levar em conta as histórias que tecemos, que nos constituem e potencializar as relações que estabelecemos como geradoras de saberes.

Uma poesia tão querida e experimentada precisou ganhar um novo corpo, um corpo coletivo. Assim, num movimento de registrarmos algo significativo para o grupo, o educador escreveu-a em conjunto com as crianças. Desse modo, as crianças estavam vivendo uma das funções vitais da escrita: registrar e guardar nossas lembranças. Nesse sentido, acreditamos que as funções da escrita não devem ser didatizadas, mas sim, vivenciadas em situações reais de uso, que possam favorecer a que a criança compreenda seu sentido.

Esta escrita coletiva contou com a participação do grupo na reflexão sobre as letras necessárias para escrever a poesia. Assim, todos juntos num mesão, deram início à discussão:

– Qual é o título? (educador)
– A bailarina. (crianças)

A escrita coletiva abrange os diferentes saberes das crianças sobre a mesma. Neste momento, estávamos mais atentas ao reconhecimento das letras e das relações entre sons e letras. Por isso, as perguntas ficavam em torno de: com qual letra começa, termina? Já escrevemos essa palavra, onde ela está? No decorrer do texto algumas palavras, como “bailarina, pé, menina, sorrir”… foram sendo escolhidas pelas crianças para que fizessem desenhos relativos a elas.

Cecília Meireles encanta as crianças com muitas poesias. Uma outra que sobressaiu-se no grupo foi, “Ou isto ou Aquilo”. Ao lermos a poesia, partimos para a experiência de criar o nosso próprio Isto ou Aquilo. Esta poesia nos fazia sonhar, viajar pelos caminhos da imaginação num universo de possibilidades (ou se tem chuva, ou se tem sol, ou se tem sol e não se tem chuva….).

A primeira proposta era brincar com as crianças com esta idéia do Ou isso ou Aquilo. Muitas composições foram surgindo e observamos que, num primeiro momento o “aquilo” surgia como a negação do que fora dito antes (ou como carne ou não como carne, ou vou no parquinho ou não vou no parquinho…). Relemos a poesia outras vezes e cada vez que fazíamos esta releitura, abria-se um espaço para brincarmos de ou isto ou aquilo, que acabou se tornando uma brincadeira no cotidiano das crianças (ou vamos brincar na casinha ou vamos brincar no terraço, ou vamos desenhar ou vamos pintar…).

Propomos então a criação da nossa própria poesia. Tendo o professor como intermediador, fomos pensando em diferentes possibilidades: -Se você não vai ao parquinho, onde você pode ir? Se você não come carne, o que você pode comer? Assim, foi-se construindo a compreensão de uma nova lógica, de uma nova estrutura lingüística que permitia brincar com a idéia da contradição, da possibilidade. Neste momento o professor assume o papel de escriba do grupo, registrando a idéia que cada criança imaginou. Neste instante a poesia ganha um corpo, uma forma.

Ou se come carne, ou se come peixe
Ou vai na praia, ou vai na pracinha
Ou anda de carro, ou anda a pé

A articulação da criação poética com outras formas de produção se fazia presente em cada construção do novo. Nesta perspectiva, durante o processo de criação do nosso Ou Isto ou Aquilo, as idéias foram ganhando formas com desenhos que vinham não só dar vida à poesia, mas serviam também como suporte para compreensão desta nova lógica que se estabelecia.

Nos encontramos também com Carlos Drummond de Andrade, que fez todo mundo “tropeçar, cair, pular”, com “Uma pedra no meio do caminho”.

O brincar das palavras desta poesia levou-nos para muitos caminhos. Com ela e seus jogos de palavras, experimentamos o efeito das palavras sobre o imaginário de cada um. Assim, os registros individuais nos cadernos tiveram muita inventividade inspirados na pedra e no caminho.

– Meu caminho é de casas.
– Um caminho de pedras.

Uma pedra preciosa surge no meio de um dos caminhos, cujo nome recebido foi o mesmo de uma das mães das crianças:

– É a Rubi!
– Então Rubi, sua mãe, é pedra preciosa.

Um rock-animal, brinquedo-brinde de uma revista infantil, surge sobre o caderno, ao sair do bolso de uma criança. Este brinquedo tem forma de uma pedra que ao ser montada transforma-se num animal. Brinquedo que caiu no “modismo consumista atual”, sendo adquirida semanalmente por todos os meninos e algumas meninas do grupo.

A possibilidade do encontro de um brinquedo marcado pelas estratégias do mercado de consumo (rock animal) com o universo literário da poesia dá a este objeto um novo lugar. Muitas brincadeiras surgem relacionando esta pedra, do rock-animal, com a pedra do poema do Drumond. Momento de risadas, comentários e deslocamento do objeto. Ele desvia do instituído até então, descontextualizando-se e abrindo um caminho de criação do novo, de reconstrução através de um encontro entre conhecimento, saberes e outras possibilidades.

“E agora José?” Com Carlos Drummond e muitos outros, prosseguimos, percorrendo diversos autores e íamos descobrindo seus nomes, suas poesias, desenhos.

– Vicente de Carvalho! É igual ao meu nome.
– Em homenagem a ele, há um bairro na nossa cidade chamado Vicente de Carvalho.
– Cecília é igual a Cecília. Nome da nossa estagiária.

A presença da leitura de diferentes autores, nomeando-os em nosso cotidiano, permitiu uma familiarização com suas formas e estilos variados.

Com significativos conhecimentos sobre as poesias, os desenhos por elas inspirados foram surgindo com irreverências, diferenças e muita singularidade.

No meio das brincadeiras, as dramatizações das poesias. Com muita maquiagem, panos que se transformavam em saias, enfeites e muito mais que a imaginação pode alcançar.

Estávamos alimentados: dançamos, escutamos, desenhamos, imaginamos, registramos, desbravamos o mundo das poesias. Um novo desafio surgia: criar nossas próprias poesias.

Ser poeta. Poder experimentar as palavras com suas sonoridades, combinações, distorções. À princípio, as construções coletivas aconteceram no entremear de idéias, rimas, risos, sonhos.

Criar coletivamente é garantir que cada criança seja autora de uma única obra, de um momento da nossa história. Foi assim que, inspirados pela sonoridade das poesias com rimas, especialmente a do Cavalo, de Manoel Bandeira, construímos coletivamente a poesia SEREIA.

Depois, mergulhados ainda na onda da criação coletiva, registramos um pouco da nossa intimidade com a poesia dos Nomes Malucos. Uma delícia! Nesta proposta o objetivo central era criar rimas a partir dos nomes das crianças do grupo. O diferencial, nesta produção, foi a relação das crianças com o outro. A escolha das palavras foi feita não apenas tendo em vista a rima, mas, também, buscando palavras cujo sentido falasse do outro, ressaltando algum aspecto peculiar de sua presença/personalidade/história. Para rimar com “Marcos” foram buscar os “barcos” que, como ele, vivem viajando. A palavra foi ganhando assim a dupla função de dizer do outro e ao mesmo tempo, brincar com os sons semelhantes. Não basta rimar, é preciso significar! Saímos da reflexão sobre a forma da língua para alcançar suas possibilidades de expressão, comunicação e mobilização afetiva.

Fizemos também a experiência de propor a produção de poesias a partir das pinturas feitas pelas crianças. Experimentando as cores, as tintas, um papel “branquinho”, nasceram pinturas evocadoras de imagens e sonoridades.

“A chuva colorida”, “Branquinho”, “O monstro”, “O colorido”, “O fogo”, produções que emergem dos mundos suscitados pelo material plástico. Transformar pinturas em poesias, com nomes, rimas, contos, imagens, foi desafio vivido com intensidade.

As poesias criadas a partir das pinturas infantis foram a princípio, escritas pelo o adulto, para garantir a produção textual das crianças. O que possibilitou uma atenção única, por parte das crianças, para as idéias, sentimentos, sem que fosse necessário pensar nas letras e suas combinações, necessárias para a escrita. Posteriormente, resolvemos fazer um livro com todas as poesias e desenhos das crianças. Para a realização deste livro, eles reescreveram individualmente seus textos, com o apoio do adulto e com estratégias apropriadas para os conhecimentos que cada um tinha sobre a escrita.

Por exemplo, as crianças que já escrevia alfabeticamente puderam reescrever seus textos a partir da leitura do adulto; para aqueles que estavam descobrindo os espaços entre as palavras, os textos foram escritos de modo a refletir sobre a quantidade de palavras na frase em questão.

Poesias de super-heróis, super-homem, de gente, vento, de saberes vão surgindo no nosso cotidiano, dando formas a muitos desenhos e textos.

A riqueza em produzir poesias diante de brinquedos, pinturas, desejos, imaginação, sons garantiu uma experiência diversificada em sentidos, relações, conhecimentos e muita criatividade. Uma possibilidade de saborearmos novidades nos encontros e desencontros que vivemos, relacionando-as com os nossos próprios mundos.
————–

atenção: a bibliografia do trabalho não foi incluída propositalmente.
————–
Fontes:
Associação de Leitura do Brasil = http://www.alb.com.br/portal.html
Imagem = http://www.alobebe.com.br

Deixe um comentário

Arquivado em Sopa de Letras