Anair Weirich (A Escritora em Xeque)

Anair Weirich é uma guerreira. Há mais de quinze anos na estrada, ela tornou-se bastante conhecida em Santa Catarina pela sua incansável rotina de viagens pelo estado comercializando livros – tanto seus quanto de colegas escritores. Participante de inúmeras feiras, divulgadora da cultura literária catarinense, Anair, abaixo, fala um pouco sobre sua vida, suas estratégias para venda de suas obras, suas dívidas nas gráficas, suas andanças e histórias….

*Nome:

Anair Weirich

*Data e local de nascimento:

02-11-51 – Chapecó – SC

*Fale um pouco de sua vida e carreira.

A poesia é a grande paixão da minha vida. Prosa é complemento, mensagem é complemento… E a única coisa que nunca deixo de pedir a Deus todas as noites, é saúde, por que sem ela eu não poderia andar tudo que ando o dia todo, visitando escolas, empresas e livrarias, vendendo meus livros, e quando estou de carro com meu marido, vendendo os livros de autores da terra também…

*Como é ser uma escritora praticamente independente hoje no sul do Brasil?

É viver endividada em gráficas. Estou sempre devendo, mas estou sempre mandando fazer. E ver um olhar brilhando quando alguém ouve ou lê minha poesia, para mim, é mais pagamento do que o dinheiro que me dão pelo livro. Mas acabo de passar pela experiencia de ter um livro saído por editora. Gostei porque meu nome foi pra mais de 8.000 endereços, junto com o convite. E gostei porque a Hemisfério Sul é um nome respeitável, e porque minha amiga Urda, sua proprietária, – ela é a autora mais conhecida de SC- é uma pessoa maravilhosa e fizemos uma ótima parceria.

*O que lhe levou a viajar tanto para vender seus livros?

Depois de nove anos, meu primeiro livro saiu – 1995 – e o que poderia vender na minha cidade, já tinha vendido. O que faria com o resto? Meu marido, – grande incentivador do meu trabalho – sugeriu viajar e vender, dando palestras em escolas e eventos. E deu certo, mais do que certo. Cada carta que recebo dos meus leitores, é um incentivo para continuar. Tudo tem sido muito incentivador.

*Conte algumas histórias marcantes que você já viveu na estrada ou em cidades que esteve?

Foram tantas… tantas. Bom, numa viagem de volta de Laranjeiras do Sul PR, para Chapecó, eu vi que o cobrardor olhava muito para mim, mas esqueci disso e adormeci. Quando cheguei, ele disse: Moça… a renda preta da tua calcinha vermelha está aparecendo….e não é que meu zíper estava aberto o tempo todo, enquanto eu dormia?

*Como é a recepção das pessoas em geral? Já ouvi pessoas falando mal e considerando “coitados” aqueles que vendem livros porta a porta. O que acha disso?

Os cultos, me recebem bem, e me incentivam e compram. Os que não tem cultura, me recebem com a cara amarrada e eu quebro o gelo. Esse é o desafio que mais gosto. Eu recito uma poesia, derreto o gelo e geralmente compram. E nunca enfiei um livro goela abaixo nesses 14 anos.

*Como você vê a literatura hoje aqui no sul?

É difícil, mas quanto mais difícil, mais gosto. Tudo que é fácil não tem graça.

*Você tem estratégias especiais para vender seus livros. Marcadores ecológicos, por exemplo. Fale um pouco sobre isso.

De novo meu marido entra na história. Ele tira o invólucro das sementes das árvores de Jacarandá Mimoso, lixa, fura, pinta e monta marcadores ecológicos que viram colar de pescoço. E também ele perfuma meus livros com óleo puro de rosas, que custa quatrocentos reais o litro. Ele pega um conta gostas e perfuma de um em um. Quero que cada um, ao ver meu nome nos livros, lembrem do cheiro de rosas…

*Você vende livros de outros escritores também? Como isso funciona? Eles lhe procuram e lhe dão seus livros para que você faça as vendas? Qual a sua percentagem de ganho por livro vendido?

Bom, só levo autores da terra, quando vou em algum evento ou estou de carro, com meu marido. Quando estou de onibus, não dá… Mas é um acervo flutuante, um dia acaba um, outro dia nasce outro. Alguém tem que se doer pelos autores regionais. Tem muito café no bule escondido em armários e gavetas.

*Você tem um sebo também? Tem funcionários trabalhando pra você ou você consegue trabalhar nele de vez em quando, já que muito viaja?

Não, o Sebo meu marido e eu demos pra nossa filha de 21 anos, estudante de biologia. A família toda é apaixonada por livros. E quando eu não aguentar mais viajar, quero o meu Sebo, pra estar no meu habitat natural.

*Quantos livros em media você vende de cada novo livro que publica?

O “Mensagens para um dia melhor”, vendi em torno de duzentos mil de 1999 pra cá, e o Livro Ludico das cores, por se tratar de um livro diferente, vai ser minha aposentadoria, nunca mais posso ficar sem ele. O meu primeiro de poesia, vendi oito mil, mil ex. cada edição. Alguns outros, eu fiz menos. E amo criança e poesia infantil, amo meeeesmo!

*200.000 (duzentos mil) livros em 11 anos? Isso é possível para um autor independente? Calculando por cima, para que isso aconteça, (4015 dias em 11 anos) é necessário que você tenha vendido 50 livros por dia aproximadamente, o que também lhe daria muito dinheiro, a ponto de poder viver só de literatura – o que você diz nesta mesma entrevista que não dá. Seu cálculo está realmente certo? Em que você se baseia para dar este número?

Tá, vamos lá: É que quando ele nasceu, – o Mensagens para um dia melhor, – em 99, foi no auge da venda desse estilo de livrinhos. Hoje já não se vende tanto. Tinha escolas e prefeituras, nos primeiros anos, que eu vendia 200, 300 ou até mais por dia, para o dia do Professor, para festas de final de ano, para escolas que davam presentes nos aniversários, e assim, na quantia, eu ganhava na média de um real cada livro. Quando vendia avulso, em eventos tipo feira de livros e palestras, minha margem era maior. Foi quando uma gráfica, de Erechim, me passou a perna. Eles me convenceram a passar a imprimir com eles, e então, em vez de executar a minha edição de 10.000 ex., eles executaram muuuuuuuuuuito mais e ficaram com os livros. E de lá pra cá a venda foi caindo, caindo, por causa da competitividade que a própria gráfica criou, coletando material da internet ou editando material sem pagar direitos autoriais de outros autores. Enfim, é um número estimativo, o que nos deu, nesses anos de boas vendas, um carro, – que hoje está bem judiadinho, pois fomos trocando, na medida em que fomos nos apertando. e também móveis novos e outras coisas mais. E depois, eu ganhava bem, mas gastava bem. Nunca liguei pra luxo, mas conforto, nas minhas viagens, é fundamental, pra que no outro dia esteja disposta para andar o dia todo ou fazer palestras o dia todo. Há também os hotéis, as passagens de ônibus, e eu, por mais que coma pouco, gosto de comer bem, sou um pouco chata. E tenho mania de comprar presentes pra todo mundo, sou muito perdulária – rss. Mas mesmo assim, garanto pra você, a gente se aperta e muito. Vivo atolada na gráfica, pois cada livro que executam, fico devendo em média de sete a dez mil exemplares, e eles me dão pouco prazo. E de uns anos pra cá, sempre tenho comigo de tres a cinco títulos diferentes. Enfim, pode colocar aí uma quantia bem menor, se quiser, pois mais que um já me questionou, e embora o número seja mais ou menos isso, não quero encrencas com o leão.

*Usa o dinheiro que consegue ganhar para investir num próximo e em alguma outra coisa ou sobra suficiente para que consiga fazer boas economias?

Autor independente nunca tem dinheiro sobrando, tá sempre devendo. Mas temos nossa casa e nosso carrinho. E trabalho há quatorze anos em um livro que é minha auto biografia, desde que comecei a viajar, vivendo de livros na região Sul. Tive que trocar o titulo, porque qualquer coisa que lembre motivação é malhado pela crítica… se bem que que críticos não são críticos, são só cretinos.

*De tudo que já escreveu, o que você gosta mais? Qual seu livro ou texto melhor na sua opinião, que sempre gosta de vender e até oferece com mais brilho nos olhos?

É o que citei antes, o Livro ludico das cores. Tem que entrar no meu site pra conhecer. http://www.literaturacatarinense.com.br/anair

Você é uma escritora ativa, feliz e bastante apaixonada pelo que faz. Você se preocupa com o reconhecimento ou busca sucesso nacional? Se sim, acha que isso é possível?

Nem tô com fama, isso é vaidade, só quero fazer o que gosto e pronto.

*Deseja dizer mais alguma coisa ou deixar alguma mensagem?

Que adoro ler e leio de tudo. Acabo de ler o livro de Fernando Morais, O Mago. Cara… mago é – o Fernando – ele, que conseguiu contar com elegancia todas as barbaridades do Paulo Coelho. Eu jamais imaginaria que foi o Paulo que meteu o Raul Seixas nas drogas.
E baseada na minha experiencia pessoal de luta, quero deixar um recado bem meu:
É DO QUERER ARDENTE QUE NASCE A CONQUISTA DA VITÓRIA.

Fonte:
Escritores do Sul

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