Arquivo do mês: agosto 2010

Efigenia Coutinho (A Poetisa e sua Poesia)

RECOMEÇAR

Na ousadia de recomeçar a Vida
eu tentaria refazer meus sonhos
tornando-os ainda mais grandiosos!…
Embelezando ainda mais a vida!

Porque os sonhos são infindos
sem opressão, sendo mais formosos
depois que se conhece e vive o Amor
como um salmo do próprio amor!

Nada mais grandioso que um Lacre
entre duas almas solidamente selado
do mesmo ideal do sonho encantado!

Não padeças se achares meu coração
triste, mas fique triste e desolado
se não encontrares o meu coração!

TEUS AIS

Por noites de esplendor e exaltação
desfrutávamos dos sonhos o alento!
Ainda, inquietação em mim provocas
Transmutando desejos com alento!…

Ao arrebatamento íntimo a caricia
Dos teus anelos sentindo na memória
Que retorna deixando-me enleada
Somente em recordar a nossa estória:

Duas almas enamoradas juntas,
reencontros pelas escritas
Não há todavia como esquecer!

Neste tempo, magia e rituais
da paixão, na derradeira cavalgada
você vinha, com vinho e teus ais!…

TEMPESTADE

Por essa pupila luzente e molhada,
um enigma sacro soberbo de ternura,
vem pela ampla noite de gozo e loucura
estende-se, quente e perfumada.

É por onde ansioso olhar alucinado,
embebe-se da noite espessa,
rompendo dela uma voz em cruz,
chega murmurando cânticos de Luz.

Parece a voz dos Anjos, com teu olhar
falando, murmuras sonhos a completar,
contando todas as histórias de Amores.

E chegas por ela, qual divindade sorrindo,
por silfos de sonhos de volúpia, ao enredo
duma Tempestade de Risos e Lágrimas!

CORAÇÃO

Conheço um coração, onde elevado sonho,
qual filho de um rei, dono de império vasto,
entre galas se alojou. E, cercando-o risonho,
um bando de ilusões mais lhe aumentava o fasto!

Contemplando-o agora, dolorido e tristonho,
por querer palmilhar do ideal o augusto rasto
sem de todo o lograr, a animá-lo me ponho,
para que não se abata o golpe tão nefasto!

Portanto, à veemência que ele se vai despindo
de um manto santeiro, acetinado e lindo,
e enverga de vagar vestes faltas de brilho…

As minhas lágrimas de dor, eu vou contendo,
e em bom tom digo: volta ao meu coração,
dentro dele você hospedou tua canção!…

TERNURA MATINAL

Na manhã, o sonho terno
lá longe em outro mar,
alguém me causa clamor
sem contudo me alcançar.

Uma brisa de desejos
sobe mansa,vem chegando,
borrifando aroma delicado
de sonhos enamorados…

Seria comigo o sonho dele
ou eu que sonho com ele
pelas noites de luar!…

A vida pulsa ardente, longe…
chegando-me por tuas
mãos lençóis de Ternuras!

CONFIDÊNCIAS

Se existe algum segredo
sem medo ou receio dar
a cada dia novo sentido
no amor que sentimos…

Não sendo egoísta, onde
tudo arrisca ,vem até mim.
aroma delido de jasmim
pela espessa romaria…

Acolhe em teu peito
sorve os rumores que
brado, sentindo o feito!

Pode ser loucura o lume
somente desejaria
que este se consume!…

CORAÇÃO DE CRISTAL

Tenho um coração de Cristal,
minha fonte pura de magia;
rei de minhas noites de luar
aos tons suaves duma cantoria.

Fonte cristalina que vida encerra,
com sua luz engravida a terra,
de todo bem que em ti alcança
o sonho, se imortalize a senda!

Vem em mim amoroso sonho
ânsias infinitas, olor e desejo
palpitando rumores – teu beijo!…

Ó fonte cristalina que corre cheia,
que eu me desmanche alva e sonora
em teu coração, por dentro e por fora!

UM ACENO

Um aceno, e a terna recordação.
Na tua presença, sigo pela Vida
A cada segundo,tua imagem querida
Faz um ninho dentro do meu coração!

Vem um bailado por tuas mãos
Envolvendo uma suave atração
Não tem como conter o sonho
Esse murmurar cheio de afeição.

Clamo céus, que possam me dar
Tua presença eterna para sempre
Que, em minha alma vem acalentar!

Por este teu carinho resplandecente
Juntos, perpetuaremos, iremos exultar
Por infinitos reencontros premente!…

QUANDO ANOITECE

Quando anoitece gosto de te sentir
meu corpo colado ao seu,docemente
acolhemos o amor que é presente
esse contentamento que enternece

Hospedada em ti, teu corpo me aquece
sublimando, são momentos de desejos
ardentes, colados, ficam nossas peles
somos tu e eu exaltar numa prece…

Queridas são tuas mãos em mim
caricias que enaltecem o interior
amor ardente, é pecado Amar assim!

Quando me beijas e me mordes infindo,
é magia e loucura sem ter fim, extenso
é teu gemido do meu prazer sentido!

AMOR INFINITO

Dos sonhos e ilusões, os tons
mais azuis, se é verdadeiro o
Amor com que me queres, tornando-me
a primeira entre todas as Mulheres!

Eu nada mais desejo neste mundo, sendo
senhora de um afeto tão profundo,
certo suportarei as horas duras,
ditosas e altivas até nas amarguras!!!

Que na poesia fecundem todos os Mistérios
e inflame a rima clara e ardente, que
brilhem sonoramente, luminosamente…

O Amor, constelamento Puro, em suas
formas claras, fluídas e cristalina!
Amor que repurifica, canta Paz Infinita!

Fonte:
http://www.avspe.eti.br/coutinho/sonetos_efigenia.htm

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Arquivado em Poemas

Efigenia Coutinho

Nascida em Petrópolis-RJ, cresceu em São Paulo-SP, e na caminhada da vida, morou no Rio e Janeiro-RJ, Florianópolis-SC e atualmente vive em Balneário Camboriu-SC.

Formada em Artes, se especializou em Tapeçaria de TEAR, buscando os seguimentos Indígenas e sua História Natural,tendo participado de várias exposições.
Em 1977 foi residir em Florianópolis SC, e há três anos mudou-se para Balneário Camboriú -SC – 1999 –

A poesia surgiu em minha vida ainda nos sonhos de adolescente, quando menos esperava , lá estava eu com o papel e a caneta na mão, extravasando a minha emoção…Com o passar dos anos, acho que fui me perdendo, esquecendo de como era gostoso embarcar nesta viagem.

Não segui carreira ligada ao mundo das letras, e pouco conhecimento tenho de Literatura. Escolhi Artes como profissão, mesmo sem haver retorno financeiro, pois nada se compara aos tesouros da alma.

Este dom maravilhoso de escrever ficou hibernado durante muitos anos, e como na vida nada acontece por acaso, foi em um desses acasos, na paixão, que ressurgiu a poetisa. Percebi que existiam em mim sentimentos que extasiavam meu coração, mas a única forma de vivenciá-los era através de palavras. Meu estilo preferido é o
lírico, onde escrevo sobre as inquietações do coração, mas também adoro o erotismo, estimula a minha libido.

O incentivo para continuar a escrever surgiu em Junho/1989, quando tive uma das minhas poesias, editada pelo grande poeta VALDEZ, para divulgar o meu trabalho em seu Site.

Fontes:
http://www.avspe.eti.br/efi/efigenia.html
http://www.nadirdonofrio.com/biografia_efigenia_coutinho/biografia_efigenia_coutinho.htm

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Arquivado em Biografia, Santa Catarina

Lígia Antunes Leivas (Teia de Poemas)

QUANTAS VEZES QUIS TE DIZER…
PAIXÃO

Quantas vezes quis te dizer “Te amo!”
Não sei por que dobrei essa vontade.
Não sei por que guardei essas palavras.
Nem sei por que tanto adiei esse dizer
que tão feliz faz quem o declara calmamente!
Estranho… talvez não possas entender tão fácil
(assim também comigo acontece)
mas já naquela primeira frase
que me escreveste tão desinteressadamente
fascínio intenso assomou-me inteiramente…
o coração e todos os melhores sentimentos
(eu os senti no entusiasmo do meu viver)
Sim!… Como foi bom! Foi como pensei
devesse ser o verdadeiro amor:
contemplação, ardor, arrebatamento
carinho mel, enlevo céu, doce afeição
sentidos e aquerenciados
sem qualquer presença além da imaginação.
Sei… neste ‘ser mais ser’ vivi o pranto, a dor,
senti o coração sofrido…
transparente, porém… muito mais bonito!
Nenhum silêncio foi suficientemente forte
para constranger tão fiel amor
que a ti dediquei sem nada pedir em troca.
Sim! Este amor que hoje ainda tanto se propaga
e que não cansa de andar por todo meu ser
me faz feliz mesmo que por todo lado
com ele – tão calado – eu sempre ande!

Teu – desconhecido(?) – amor

NAMORADO

Veio chegando junto com a juventude
Veio sorrateiro, disfarçado, de mansinho
E eu cuidava nos olhos seus o sorriso
e em sua boca eu buscava todo riso

Algo invisível (não sei se era o silêncio)
dizia-me muito… tudo que meu coração queria
e eu o seguia, espreitava-o em cada canto
e nesse jeito ia encantando todo meu dia

Passou o tempo, a hora, cada momento
e no meu peito foi brotando um sentimento
que era mel (não era fel!…) era começo
de um amor que igual até hoje desconheço!

Ah! mas veio o destino, a sina e não sei mais
Ele se foi… pra onde? …não soube jamais
Voltou a vida em seus caminhos na calçada
e aqui fiquei… às lembranças abraçada.

CARÍCIA MANSA NO HORIZONTE DE MUITOS SILÊNCIOS

A tarde começa calma… uma carícia mansa diante de um horizonte
de muitos silêncios que aparentam guardar expectativas que, de verdade, estão mesmo é dentro de nós.
Me acomodo na varanda da casa (… da casa ou do mundo?)
Aqui é meu mundo, a intimidade de mim mesma e tudo mais que vive em mim.
De onde estou descortina-se um horizonte sem fim, me parece. Não faço a menor idéia se ele termina logo ali ou não: onde o fim? onde o limite? …Infinito!
Mar, areia, certa aragem. Alguma coisa de um sol tímido aparece de vez em quando pra me dizer que a luz não sumiu totalmente. De repente, uma rajada de vento atira montes de folhas da goiabeira que já pressente o ar outonal chegando.
Aqui me derramo… a mim mesma e tudo mais que existe em mim… meu próprio recolhimento, meus subterrâneos, meu sentimento. Cato
presságios que dominam o ar, este estado de ficar refletindo sobre, enfim, o que é ‘estar no mundo’. Mas não… Hoje não dá. Não me arrisco a fazer rodar a manivela da tristeza. Deixa pra lá, deixa pr’amanhã… ou sei lá pra quando, pra onde…
Afinal, é Sexta-Feira da Paixão!
ELE morreu…
Nós estamos vivos no mundo… infinito!

QUISERA SER PÁSSARO SEM TER DE DIZER ‘ADEUS’

Pelo vidro da janela, a paisagem viaja embaçada.
(- … meus olhos marejados? – ou o vidro esfumaçado?)
Afinal,em que destino embarquei ao entrar por esta porta?

Já não sei mais nada… Já faz tempo demais…

No bilhete que ficou, jaz uma única palavra.

Quisera eu que nenhuma saudade me afligisse.
Quisera ser pássaro sem ter de dizer ‘adeus’…

QUANDO O AMOR SE DESPEDE

“Adeus!”, dissemos… nunca mais nos vimos
Nem mesmo nos procuramos sequer…
Permutamos olhares… tantos mimos!!
(Ele? Garoto sem plano qualquer.)

Menina eu (quando nos despedimos),
Jamais supunha um dia ser mulher
Para ter prova do que nós sentimos,
Mesmo sabendo o que o amor requer.

Hoje sozinha aqui, vou refletindo
E concluo que mesmo ele partindo,
Foi puro o nosso amor… quase fraterno.

Pois sem a dúbia sensação carnal,
A nossa união foi divinal
E fez nosso amor tornar-se eterno.

SOB O MESMO CÉU

Por muito tempo fiquei sem prumo
perdida e só não distinguia o rumo
e sobre mim, silencioso e triste,
prostrou-se o mal, quase punhal em riste.

Jamais julguei ter a paixão assim
motivo (in)justo de impor-se um fim
eis que quem ama humanamente o faz
sem nem pensar que tudo se desfaz.

Se a distância, o não-encontro, a dor
se o calvário deste louco amor
nos impediram a vida sob um mesmo teto,

se o chão não temos, se tudo é dissabor,
(por Deus!)temos estrelas, um céu compensador
a nos cobrir com a vastidão do afeto.

Fontes:
http://www.ligia.tomarchio.nom.br/ligia_amigos_ligialeivas.htm
http://www.avspe.eti.br/sonetos/LigiaAntunesLeivas.htm

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Arquivado em A Poetisa no Papel, Poesias

Orlando Brito (1927 – 2010)

Orlando Brito era natural de Niterói-RJ, onde nasceu aos 27 de novembro de 1927, filho de Amaro Brito e de Irma Denti Brito.Residiu em Pindamonhangaba de 1966 a 1975, sendo diretor da Tribuna do Norte e do jornal Sete Dias (extinto). Foi redator do Diário de Pindamonhangaba e correspondente do jornal ‘Agora’, de São José dos Campos. Também em Pinda, foi membro do Lions Clube e exerceu grande atividade artística, participando de muitas atividades culturais da cidade.

Notabilizou-se como trovador, tendo merecido capítulo especial no livro ‘Nós os Trovadores’, do escritor e poeta Eno Teodoro Wanke, editado em 1991, no Rio de Janeiro. É citado no Dicionário de Poetas Contemporâneos, de Francisco Igreja, e em várias antologias e coletâneas de trovas. Autodidata, publicou os livros seguintes: ‘Lua de sonho’ – trovas (1958), ‘Cantigas de ninar tristezas’ – trovas (1962), ‘Viola de marinheiro’ – trovas (1991), ‘Cantigas do céu e da terra’ – trovas (1992). ‘Esta vida é uma graça’ – trovas (1994), ‘Sonetos’ (1996), ‘Ruas de São Luís’ – poesia (1998).

No estilo cordel, publicou: ‘O estranho amor de um médico por um esqueleto’ (1987), ‘Os lírios do professor’ (1988), 1ª Canção de Eleusa’ (1989), ‘Histórias de Silvestre, o pintor vaidoso’ (1991), ‘Coxinho, dono dos bois’ (1991), ‘Viola fuxiqueira’ (1994). Em 1986, uma indústria do Maranhão publicou um livro dele que foi considerado de utilidade pública: ‘Normas de Prevenção de Acidentes de Trabalho’.

Provavelmente, houve outras publicações de Orlando após 2001, data em que Francisco Piorino publicou o valioso ‘Biografias’ contendo dados de todos os membros da Academia Pindamonhangabense de Letras e os patronos de suas respectivas cadeiras. Orlando Brito era acadêmico titular da APL, ocupava a cadeira nº 9

Fonte:
http://www.tribunadonorte.net/noticias.asp?id=6097&cod=4&edi=128

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Arquivado em Biografia, Nota de Falecimento

Orlando Brito: Uma Eterna Saudade

(artigo de José Valdez de Castro Moura, para a Tribuna do Norte, seção Cultura e Lazer)

Orlando Brito, um dos maiores trovadores do Brasil, que teve marcante atuação intelectual na década de 70 aqui em Pindamonhangaba, um mestre na arte de trova, já não está entre nós. Faleceu na madrugada do dia 21 de agosto em São Luiz do Maranhão. Publicou vários livros de trovas e poesias, entretanto, um dos livros de poesias mais elogiados no meio literário nos últimos anos é uma bela obra de sua autoria, obra marcada pelo lirismo, pelo uso da linguagem simples e correta e, sobretudo, pela inspiração dos temas cujo título é “Sonetos”.

A poesia de Orlando Brito caracteriza-se, acima de tudo, por um profundo humanismo, no conteúdo e na forma, e por uma simplicidade impressionante. Ele é o artista ciente e consciente das virtualidades expressivas de seu instrumental: o verso espontâneo e o idioma pátrio, mostrando o mundo com o poder sintético das imagens, metáforas, onde o intimismo, a ternura, o amor e a nostalgia dos entes familiares e amigos queridos constituem os “leit – motivos” do seu mundo poético. E, é o que apreciamos nesse soneto simples e magistral:

MINHA MÃE

Minha mãe era quase analfabeta,
quase nada sabia de leituras,
mas tinha o instinto dessas almas puras
que sabe, entre as ações, a mais correta.

Criou dez filhos, boas criaturas,
fiéis a Deus, de educação seleta.
Sabia ser valente ou ser discreta
nos momentos de dor, nas horas duras.

Os filhos, todos eles são felizes,
pois ela, não deixando coisa alguma,
deixou, com seu exemplo, as diretrizes.

Uns herdaram seus olhos, outro, a calma,
outro, seu jeito simples, mas, em suma,
fui o mais bem- dotado- herdei-lhe a alma!

Como verdadeiro Poeta, Orlando Brito tinha consciência de que toda poesia é um ato de assombro que conduz às paragens da filosofia, espantando-se ante as belezas do universo e aterrorizando-se perante o sofrimento humano. Assim, estabelecendo a dialética: emoção diante da beleza e indignação ao conscientizar-se da dor humana, constrói o seu ato poético, conduzindo-o à altura do ato filosófico. E, o nosso poeta Orlando mostra isso, muito bem, nos sonetos : “A Última Árvore “, “A Voz da Terra” e “O Rio “. Por outro lado, os objetos que o impressionam são comuns: as gaiolas, as pombas, os amigos que foi encontrando ao longo do caminho, a montanha…

As sensações que o fazem pulsar são, portanto, as do cotidiano: “o vento que passa”, o “palhaço” que, no seu desejo,” abra, a quem chora, a porta da esperança, e não permita que a maldade apague o sorriso nos lábios de uma criança”.
Em uma análise sucinta, vamos desvelar um poeta em que o poema é a consubstanciação perfeita entre o viver e o cantar (como me confessou, certa vez, outro grande poeta, o Mestre da Trova: Waldir Neves, nosso amigo fraterno) entre sofrer vivendo e sofrer cantando.

O nosso estimado Orlando Brito teve o talento e o gênio dos grandes poetas líricos, que apresentam resistência à passagem do tempo, possuindo domínio da forma e, ao mesmo tempo, trazendo consigo uma fantástica agilidade criadora que lhe dão amplas condições de passar de um estado a outro, de uma inspiração a outra, sem afundar nos lugares comuns.

Platão, no Fedro, assim se referiu ao êxtase vivenciado pelos Aedos, poetas da antiga Grécia: “A possessão e o delírio das musas apoderam-se de uma alma sensível, despertam-na e extasiam-na em cantos”. É o que acontecia com o inesquecível Orlando Brito. Para deleite nosso e para o maior enriquecimento da poesia Brasileira!

Orlando Brito foi cantar nas paragens celestiais levando consigo as flores da nossa admiração e da nossa eterna saudade.Com a sua partida o mundo,com certeza, ficou mais pobre.

Fonte:
http://www.tribunadonorte.net/noticias.asp?id=6096&cod=4&edi=128

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Arquivado em homenagem, Sopa de Letras

Carlos Drummond de Andrade (Livro de Poemas)

AO AMOR ANTIGO

O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
a antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.

A RUA DIFERENTE

Na minha rua estão cortando árvores
botando trilhos
construindo casas.

Minha rua acordou mudada.
Os vizinhos não se conformam.
Eles não sabem que a vida
tem dessas exigências brutas.

Só minha filha goza o espetáculo
e se diverte com os andaimes,
a luz da solda autógena
e o cimento escorrendo nas formas.

A FOLHA

A natureza são duas.
Uma,
tal qual se sabe a si mesma.
Outra, a que vemos. Mas vemos?
Ou é a ilusão das coisas?

Quem sou eu para sentir
o leque de uma palmeira?
Quem sou, para ser senhor
de uma fechada, sagrada
arca de vidas autônomas?

A pretensão de ser homem
e não coisa ou caracol
esfacela-me em frente à folha
que cai, depois de viver
intensa, caladamente,
e por ordem do Prefeito
vai sumir na varredura
mas continua em outra folha
alheia a meu privilégio
de ser mais forte que as folhas.

BEIJO-FLOR

O beijo é flor no canteiro
ou desejo na boca?
Tanto beijo nascendo e colhido
na calma do jardim
nenhum beijo beijado
(como beijar o beijo?)
na boca das meninas
e é lá que eles estão
suspensos
invisíveis

CANÇÃO AMIGA

Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.
Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.
Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.
Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.
Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.

CIDADEZINHA QUALQUER

Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.
Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar…as janelas olham.
Eta vida besta, meu Deus.

DIANTE DE UMA CRIANÇA

Como fazer feliz meu filho?
Não há receitas para tal.
Todo o saber, todo o meu brilho
de vaidoso intelectual

vacila ante a interrogação
gravada em mim, impressa no ar.
Bola, bombons, patinação
talvez bastem para encantar?

Imprevistas, fartas mesadas,
louvores, prêmios, complacências,
milhões de coisas desejadas,
concedidas sem reticências?

Liberdade alheia a limites,
perdão de erros, sem julgamento,
e dizer-lhe que estamos quites,
conforme a lei do esquecimento?

Submeter-se à sua vontade
sem ponderar, sem discutir?
Dar-lhe tudo aquilo que há
de entontecer um grão-vizir?

E se depois de tanto mimo
que o atraia, ele se sente
pobre, sem paz e sem arrimo,
alma vazia, amargamente?

Não é feliz. Mas que fazer
para consolo desta criança?
Como em seu íntimo acender
uma fagulha de confiança?

Eis que acode meu coração
e oferece, como uma flor,
a doçura desta lição:
dar a meu filho meu amor.

Pois o amor resgata a pobreza,
vence o tédio, ilumina o dia
e instaura em nossa natureza
a imperecível alegria.

“EU HOJE JOGUEI TANTA COISA FORA….”

Não importa onde você parou…
em que momento da vida
você cansou…
o que importa
é que sempre é possível
e necessário” recomeçar”.
Recomeçar é dar
uma nova chance a si mesmo…
é renovar as esperanças
na vida e o mais importante…
acreditar em você de novo.
Sofreu muito nesse período?
foi aprendizado…
Chorou muito?
foi limpeza da alma…
Ficou com raiva das pessoas?
foi para perdoá-las um dia…
Sentiu-se só por diversas vezes?
é por que fechaste
a porta até para os anjos…
Acreditou
que tudo estava perdido?
era o indício da tua melhora…
Pois …agora é hora de reiniciar… de pensar na luz…
de encontrar prazer
nas coisas simples de novo.
Que tal um novo emprego?
Uma nova profissão?
Um corte de cabelo
arrojado… diferente?
Um novo curso…
ou aquele velho desejo
de aprender a pintar…
desenhar…
dominar o computador…
qualquer
outra coisa…
Olha quanto desafio…
quanta coisa nova
nesse mundo de meu Deus
te esperando.
Está se sentindo sozinho? besteira…
tem tanta gente
que você afastou
com o seu período de isolamento
tem tanta gente esperando
apenas um sorriso teu
para “chegar” perto de você.
Quando nos trancamos
na tristeza…
nem nós mesmos nos suportamos…
ficamos horríveis…
o mal humor
vai comendo nosso fígado…
até a boca fica amarga.
Recomeçar…
hoje é um bom dia
para começar
novos desafios.
Onde você quer chegar?
ir alto…
sonhe alto…
queira o melhor do melhor…
queira coisas boas para a vida…
pensando assim trazemos
prá nós aquilo que desejamos…
se pensamos pequeno…
coisas pequenas teremos…
se desejarmos fortemente
o melhor e principalmente
lutarmos pelo melhor…
o melhor vai se instalar
na nossa vida.
É hoje o dia da faxina mental…
joga fora tudo
que te prende ao passado…
ao mundinho de coisas tristes… fotos…
peças de roupa…
papel de bala…
ingressos de cinema…
bilhetes de viagens…
e toda aquela tranqueira
que guardamos
quando nos julgamos apaixonados…
jogue tudo fora…
mas principalmente…
esvazie seu coração…
fique pronto para a vida…
para um novo amor…
Lembre-se somos apaixonáveis…
somos sempre capazes
de amar muitas
e muitas vezes…
afinal de contas…
Nós somos o “Amor”…
––––––––––––––––––––––––-

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Certas Palavras
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Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) – Biografia
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Ivan Jaf (A Gata Apaixonada)

Ilustração: Andréa Ebert
Quando perguntam como é que eu consegui sair com a Carla, eu respondo que foi por causa do Aldemir Martins. O pintor famoso.

Eu estava, tranqüilo, estudando. Juro. Lá pelas 3 da tarde o telefone tocou. Era ela, a vizinha da casa 3.

A mãe morreu há uns quatro anos. O pai é superciumento, não a deixa satir de casa nunca.

– Oi, Rodrigo… Você tem um gato grande, malhado?

– Tenho. O nome dele é Sorvete.

– Sorvete?

– Quando a gente encosta a mão, ele se derrete todo.

– Ele briga com a minha gata, a Tati. Já aconteceu várias vezes. Acho que é ciúme.

– De outro gato?

– Não. De um quadro. Uma pintura. Do Aldemir Martins.

Dez minutos depois eu estava na sala da casa dela. Só nós dois.

– Você vai ver – ela disse.

– É sempre na mesma hora. Já ouviu falar do Aldemir Martins?

– Já. É um pintor famoso pra caramba. Mora aqui em São Paulo.

– Morava. Morreu há pouco tempo. Minha mãe era apaixonada pela pintura dele. Ele ilustrava livros, revistas, jornais… Pintava cangaceiros, galos, passarinhos, peixes…

– Tô sabendo. Desenhava até rótulos de maionese, de vinho…

– Minha mãe comprava tudo que podia. A gente comia em pratos desenhados por ele, tinha lençóis, tapetes, cortina de banheiro…

Carla me levou pra um canto da sala. Em cima de uma imitação de lareira, havia uma tela do Aldemir Martins, pequena, com o desenho de um gato. Um gato gordo, vermelho e azul, um focinho enorme, mostrando as garras, sedutor, os olhos verdes calmos, hipnóticos.

– Minha mãe adorava esse quadro.

Então ela me puxou pra trás de uma cortina pesada, que cobria a vidraça que dava pro jardim.

Tati entrou na sala. Pulou pro beiral da falsa lareira e parou em frente ao quadro, olhando pro gato pintado. Ficamos assim uns 20 minutos, escondidos, calados. Até que ele apareceu. O velho Sorvete. O gato mais descolado do pedaço. Veio gingando, passou entre os móveis, parou na frente da lareira, olhou pro alto e não gostou nada do que viu.

Carla segurou no meu braço.

Sorvete pulou pro beiral.

Briga de gato é mais rápido que videogame. Tati pulou, atravessou uma janela aberta e fugiu pro jardim, com o Sorvete atrás.

– Minha mãe dizia que um artista é capaz de recriar a vida. Se Deus existe, com certeza é um artista. Mas acho que você vai ter de trancar o Sorvete em casa, Rodrigo. Não gostei daquilo.

– Não, Carla. A gente encontra outro jeito. Pra mim as pessoas, os bichos, qualquer coisa que se mexa… têm de ter liberdade. Têm de ter uma janela aberta.

– Mas o Sorvete é meio selvagem…

– Isso. É assim que eu gosto dele. Eu também sou meio selvagem. Sabe o que eu faço? Eu como o tomate inteiro. Eu não fico esperando a minha mãe partir e colocar na salada!

Ela riu. Não sei de onde eu tirei essa história do tomate. Aí me empolguei, e ia dar mais exemplos de como eu era selvagem, mas a cortina se abriu de repente e o pai dela apareceu.

O cara ficou nervoso, quase chamou a polícia, mas depois a gente explicou, ele se arrependeu e acabou até deixando a filha sair comigo.

Eu e a Carla estamos namorando. Juro.
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Fonte:
Revista Nova Escola. abril de 2007

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