J. Heitor Montans Condé (O Tronco do Capeta)

Meu nome é Firmino Fonseca; isso mesmo, com dois fês, o Firmininho falado pra arrematar os fês; valente que nem a onça pintada, rápido e rusguento que nem gato do mato e ladino igual à raposa.

Vim ao mundo no meio do mato, filho de uma bugra das brabas, mulher de todas as coragens que só sossegou quando o velho meu pai, um mateiro, acho que meio português, que nunca lhe perguntei de onde vinha, lhe botou a mão no cangote. E então se embrenharam mato adentro a buscar uns palmos de terra que o pai ganhou de um coronel, talvez por não valerem nada, não compensar nem o machado.

Alguns trocados que o velho andou guardando a duras penas garantiram as ferramentas, alguns animais e uma carroça. Mais alguns sacos de mantimentos e esse foi o começo de uma luta sem trégua com a terra bruta.

A mãe me pariu agachada com as mãos apertando um galho de murici, à moda bugre mesmo, e aquele lugar esquecido de Deus foi meu berço e minha escola, a caneta era a enxada, a natureza os livros.

Já meio rapazote então, certa feita, ao voltar com o pai do povoado, que era bem longe, não encontramos minha mãe. Não fumegava a chaminé da choupana, nada no terreiro, ninguém no roçado! Sumiu!

O velho observou calado os quatro cantos, eu com o coração apertado, o fôlego curto, e tomou o rumo do rio, comigo nos calcanhares. À beira d’água jazia a tina de madeira cheia de roupas ainda por lavar, e a areia em redor toda marcada de rastros e sulcos, folhas e galhos quebrados por todo lado.

A onça pegou ela, filho! – o pai olhou para o nada. – Mas não se entregou sem luta, não, que a bugra tinha fibra!

E esse foi seu último comentário sobre o ocorrido, e eu, buscando lá no fundo uma nesga de valentia, engoli o nó na garganta e me calei para sempre, … Ou pelo menos até hoje, quando cismei de contar a vocês esse meus passados.

Correu o tempo, sempre sem tempo pra muito matutar, até que um dia, quando a barba já me nascia farta, umas idéias de me vestir no mundo a ma rondar e martelar, o velho, como que adivinhando o que me ia na cachola, arreou a mula rosilha e me pôs as rédeas na mão;

– Rapaz, você já é homem feito e aqui não é lugar para enterrar sua vida. Vá e busque para você o que eu não consegui achar neste fim de mundo.

A mão firme em meu ombro, que o pai não era de muita prosa nem muitos afagos, me fez apenas olhar aquele olhar sereno no rosto firme, de longas barbas, a testa vincada de muitos sóis.

Um tantinho de farinha, carne seca, uns poucos trocados, e saí pela porteira de paus roliços, ganhando o trilho. Uma vez ainda, com um soluço, olhei para trás a tempo de ver a mão acenando e ouvir suas últimas palavras:

– Em três coisas jamais acredite, rapaz: cavalo do olho pelado, choro de mulher dama e promessa de político.

E de lá para hoje venho medindo esse mundo de Deus, enfrentando o que aparece, seja animal xucro pra quebrar, viagem com boiada estrada afora, qual um errante cigano, e até mesmo alguma empreita pra criador de gado. Assim foi até o dia em que um entrevero me mudou o rumo da vida …

Calma que eu conto, mas antes me deixem molhar a goela que essa cachaça está um especialidade!

… Pois é, gente, como eu dizia, a hora da virada na vida chega sempre quando menos se espera!

Andava eu por estas paragens, seguindo a estrada batida. Era já final de tarde, o céu se avermelhando lá detrás da serra, o cavalo e a besta cargueira suspirando de cansaço, quando parei em uma encruzilhada. Ao braço direito, um tronco de angico preto deitado no barranco marcava o começo de descida suave, num caminho mais estreito. Mais além, o trilho cortava um capãozinho de mato e, por cima das copas, uma fumacinha esbranquiçava o ar. Um galo cantou ao longe e, como diz a moda roceira, no lugar que canta o galo, decerto que mora gente, desci pelo caminho estreito esperando encontrar onde passar a noite.

Parei o cavalo ante uma cerca de arames bambos. Lá no meio do terreiro batido, uma casinha simples, sem pintura , com paiol de milho e chiqueiro nos fundos. O cachorro pintado e grande latiu e a porta foi aberta deixando escapar uma luz amarelada.

Assomou ao umbral um vulto alto e magro que caminhou em minha direção, as feições se delineando à medida que se aproximava deixando para trás o brilho da lamparina. Era um homem de mais de meia idade, bem moreno, o corpo magro mas musculoso, cabelos cor de carvão.

Chegou à beira da cerca e saudou-me levando a mão à aba do chapéu.

– Boas tarde “sô” moço! Apeie e vamos acabar de chegar!

Conversamos ali por um fiozinho de tempo e eu lhe disse a que vinha.

– Ora, mas é com muito gosto que “lhe” recebo, “sô” moço.Tem um quarto e uma cama sobrando. Desarreie os animais, solte no piquete lá detrás que a grama está verdinha, e venha para dentro que a janta está pronta.

De fato o cheiro dos temperos e da banha de porco viajava o ar aguçando o apetite. Serviu o jantar uma moça morena, linda, uma beleza cabocla, o rosto delicado emoldurado pela cabeleira negra e brilhante que lhe caía pelos ombros.

O velho, “sô” Pedro Reis, apresentou.

– Essa é minha filha Esmeralda, a única família que tenho. A mãe, que Deus a tenha, partiu nas águas de novembro três anos atrás, e o rapaz sumiu no mundo faz muito tempo, que nunca teve um pingo de juízo.

De barriga cheia, sentamo-nos em tamboretes do lado de fora observando uma meia lua solitária por entre a fumaça dos cigarros de palha. Ali ficamos um tempo em silêncio, olhando para ontem, e então o velho virou-se para mim e disse, meio de surpresa, me embasbacando um pouco:

– “Sô” Firmino, o senhor acredita em assombração?

– Ora, não sei não! Já ouvi muita história, e de gente que não conta mentira, mas ver mesmo …

– Pois eu lhe digo, “sô” Firmino, que aqui mesmo andam acontecendo coisas de arrepiar os cabelos!

E “sô” Pedro me contou o que se passava. Fazia um tanto de tempo que sua casa se transformou num inferno; era um barulho só, e toda noite, como tive ensejo de confirmar. Lá pelas tantas, acho que meia noite, começou uma algazarra infernal; pancadas no telhado como se alguém quisesse derrubar tudo, assobios agudos e esturro de onça ao redor da casa, uivo de lobo. Do outro quarto chegava até mim o som meio abafado da reza de “sô” Pedro e da moça, pedindo por tudo que é santo, mas a coisa continuou noite adentro.

Assim que amanheceu, tive uma conversa com o dono da casa.

– Mas, “sô” Pedro, como é que o senhor vive com essa fuzarca?

– A gente reza, “sô” Firmino, reza e agüenta, sei lá como.

– Mas isso é o capeta, “sô” Pedro, é o próprio! O senhor já viu?

– Ver eu não vi não! Me disseram que fica sentado num tronco de angico que tem lá na encruzilhada, amolando e assombrando todo viajante que passa, mas nunca andei por lá depois que escurece.

– Pois eu vou lá, “sô” Pedro. E é hoje mesmo que acerto as contas com esse filho da puta!

– “Sô” Firmino, não vá não, pode ser perigoso!

– Deixe comigo, “sô” Pedro, deixe comigo!

Assim disse e assim fiz. Quando foi de tarde, logo que o sol começou sua caminhada morro abaixo, arreei o cavalo, botei o “cospe-fogo” na goiaca e vim tomar um trago aqui na venda, menos de légua de distância. Passei pelo tronco e já vim maquinando:

– Na volta vamos ver onde é o ninho da onça!

Fiquei aqui tomando cachaça, essa mesmo, a boa, devagar e sem pressa, esperando o cair da noite e quando isso se deu, virei o último gole e me finquei no caminho. Lá vinha eu pela estrada e ao me aproximar do tal lugar ouvi um assobio alto que até doeu nos ouvidos e quando olhei para o lado do tronco lá estava o excomungado, sentadão, com os olhos vermelhos de fogo, sorrindo para mim um sorriso debochado com os dentes amarelos maiores que eu já vi!

Nem pensei duas vezes; saquei do “fala a verdade” e já fui fazendo barulho! E eu lhe digo, rapaz, que descarreguei o danado e tenho certeza de que não errei um tiro, que sou bom nisso, mas o desgraçado continuou lá, com aquela dentaria à mostra, se rindo de mim.

De repente, como um raio, ele saltou para a garupa do cavalo e bufou nas minhas costas; e sapecou-me um tapa no pé da orelha que me jogou ao chão, levantando poeira, e desceu atrás. Levantei-me e ficamos frente a frente.

Mas ora, “sô” menino, que eu sou o Firmininho falado!

Medi bem o cornudo e pensei:

– Se bala não adianta, a coisa vai ser é no braço mesmo!

Assim pensei, assim me aviei! Assentei-lhe um soco no bucho com a força desse braço lavrado na lida. O punho foi fundo, entrou até nos “como é que chama” lá dele arrancando um bufado feio.

Aí, pois, que só escutei um estouro de rojão e o fiadaputa sumiu numa nuvem de fumaça fedendo a enxofre …

Bem, isso já faz um tempo. O Capeta se foi e eu fiquei.

Fiquei lá no sítio sossegadão!

“Sô” Pedro Reis hoje é meu sogro e minha cabocla Esmeralda vai parir um neto de bugra, mês que vem ou pouco mais.

Até qualquer dia, rapaziada …

Fontes:
J.H.Montans Condé. Queimando Campo.
Imagem = http://fantacos.com.sapo.pt/

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