Waldir Neves(Livro de Trovas)

Abandono… O Sol declina…
Vem baixando a cerração…
E solidão com neblina
é muito mais solidão!

A cortina da janela…
A cama… Tudo tal qual…
— Só que o cenário, sem ela,
nunca mais vai ser igual…

A glória dos homens brilha
com fulgor de eternidade,
toda vez que uma Bastilha
tomba aos pés da Liberdade!

Ah!, meu peito… Esta saudade…
Quero que a expulses, que grites…
Tu lhe deste intimidade,
e ela passou dos limites!

Amanhece… A névoa fina
vai cobrindo a serração…
E solidão com neblina
é muito mais solidão!

A saudade, em horas mortas,
sem ver que o tempo passou,
teima em abrir velhas portas
que há muito a vida fechou…

Cai a noite… Seu negrume,
mercê de um mistério estranho,
faz de um ínfimo perfume
um lamento sem tamanho…

Circo novo na cidade!
– No poleiro, a dar risada,
olhem lá minha saudade
no meio da garotada!

Deste-me um beijo – um somente!
E queres que eu me console …
– O desejo é sede ardente,
que não se mata de um gole!…

Deus intangível, etéreo,
mas sempre amor e indulgência,
guarda no próprio mistério
sua infinita evidência.

Deus que é paz… amor profundo,
em sua excelsa grandeza,
se é mistério para o mundo,
para mim é uma certeza!

É uma lágrima sentida
que toda mulher enxuga:
a que lhe rola escondida
por sobre a primeira ruga!

Faz teu ciúme um barulho
que me soa encantador.
– Ele acorda o meu orgulho
de dono do teu amor!…

Fugi do amor com receio
do seu fascínio… e o que fiz
foi só cortar, pelo meio,
meu meio de ser feliz….

Homem sem rasgos nem brilho,
a que a luz não atrai,
vou me orgulhar se meu filho
tiver orgulho do pai.

Irmãos no meu insucesso
o peito implora, a alma pede…
Todos querem teu regresso…
Só meu orgulho não cede!

Mais vibrantes, mais risonhos
a palpitar de inquietude,
diferem dos outros sonhos
os sonhos da juventude!

Meus braços estão vazios,
meus desejos transbordando,
meus pensamentos vadios
no quarto te procurando.

Muito moço inconseqüente,
despreparado e revel,
ganha têmpera de gente
na bigorna do quartel.

Neste abandono sofrido,
sou mais um, que, por vaidade,
deixou que o orgulho, ferido,
matasse a felicidade…

No rubro céu da alvorada,
um ponto pisca e alumia…
– É uma estrela embriagada
que volta da boemia!

Nos abismos do mistério,
onde a razão perde a voz,
talvez o desvão mais sério
se oculte dentro de nós…

No teu sucesso, milhares
Vêm implorar-te favores.
Uns poucos, se fracassares,
partilham das tuas dores

O abismo maior que existe,
o mais fundo que já vi,
é aquele que um homem triste
carrega dentro de si…

O golpe da despedida
foi tão rápido e tão fundo,
que fracionou minha vida
numa fração de segundo…

Opondo orgulho e egoísmo
aos meus acenos risonhos,
cavaste o profundo abismo
onde enterrei os meus sonhos.

O vento leva a amizade,
leva o amor, o riso e os ais,
só não carrega a saudade,
– acha pesada demais!

Para a “sede de saber”
há no mundo água abundante.
Para a “sede do poder”
água nenhuma é bastante…

Perante a Divina Luz
a Ciência se ajoelha,
pois, sendo sábia, deduz
quem lhe acendeu a centelha…

Perguntou-me, à despedida:
– Quem sabe é melhor assim?…
E uma lágrima incontida
deu-lhe a resposta por mim!…

Posso jurar de mãos postas,
Pesando o que já passei,
Que as mais difíceis respostas
Foi em silêncio que eu dei.

Quando a vida, qual verdugo,
me trespassa de agonias,
minhas lágrimas enxugo
num lenço de Ave-Marias…

Quando Deus cobrar meu prazo,
hei de sempre aqui voltar,
ou numa sombra de ocaso,
ou num raio de luar !

Que momento abençoado
e que gesto redentor,
quando o orgulho, derrotado,
cai, humilde, aos pés do amor !…

Quem um filho vê feliz,
seguir por si, resoluto,
vive a glória da raiz
orgulhosa pelo fruto.

Que estranho mistério existe
no lamento da viola:
– queixume que me faz triste;
– tristeza que me consola!…

Quisera que Deus me desse,
acima de qualquer bem,
um orgulho que pusesse
bem abaixo o teu desdém.

Saudoso dos braços dela,
voltei, contrito e humilhado.
– Quando a saudade martela,
qualquer orgulho é quebrado!…

Saudade é gota caída,
é pranto que ninguém vê:
-É uma lágrima sentida
que leva sempre a você. …

Saudade é uma diligência
que nos leva, docemente,
com repetida freqüência,
ao velho oeste da gente!

Saudade!…Foto em pedaços,
que eu colei, com mão tremida,
tentando compor os traços
de quem rasgou minha vida!

Saudade!… Raio de lua,
suprindo o Sol que brilhou…
Tábua solta, que flutua,
depois que o amor naufragou!

Senhora de cada instante
das minhas horas vazias,
a Saudade é uma constante
na inconstância dos meus dias…

Sonha sim, pobre, com festa!
Que a fantasia, afinal,
é tudo qu ainda te resta
neste mundo desigual!

Terminamos… e ela pensa
que será logo esquecida.
O que ganhou foi presença
para sempre, em minha vida!

Velho cultor de utopias
e de ambições sobranceiras,
sonho ver, ainda em meus dias,
um mundo igual, sem fronteiras!

Vista seda ou popeline,
seja Amélia ou seja Inês,
toda mulher se define
no dia em que diz: -“Talvez!…”

Zerando ofensas e afrontas,
o beijo é o mago auditor
que faz o ajuste de contas
depois das brigas de amor!

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Arquivado em livro de trovas, Rio de Janeiro

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