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Milton Nunes Loureiro (9 junho 1923 – 31 Janeiro 2011)

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31 de janeiro de 2011 · 19:33

Falecimento de Milton Nunes Loureiro, presidente da UBT Niterói-RJ e da UBT/RJ

Meus Queridos Irmãos,

O mundo Trovadoresco perdeu hoje um dos seus mais atuantes filhos.
Recebi de Edmar e de Tereza Costa Val a notícia que o Milton Nunes Loureiro nos deixou nesta manhã. Em meu nome e em nome de toda a ATRN (da qual sou 1º Secretário) deixo aqui os nossos votos de pesar a todos os parentes e Amigos.
Fraternalmente;

ADEMAR MACEDO
União Cultural – Natal-RN
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Não sou trovadora e no dia de hoje também não sei usar de palavras bonitas… Sou neta de Milton Nunes Loureiro e quero deixar aqui um recado para todos:

Onde ele estiver, ele sempre vai “olhar” pela trova e seus amigos trovadores… A trova era a vida dele! Sentirei saudades não somente dele como meu avô, mas também de ouvir uma trova para cada momento da minha vida… Tenho certeza que ele está em um lugar melhor do que nós e olhando por todos nós! Descanse em paz!…

MARIA GABRIELA
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Perdemos um dos maiores baluarte do movimento trovadoresco. Milton Nunes Loureiro é o símbolo dos trovadores do Estado do Rio de Janeiro. Todos nós da Delegacia da UBT de São Francisco de Itabapoana-RJ estamos de luto. A perda é sentida e irreparável!

Roberto Pinheiro Acruche
UBT – São Francisco de Itabapoana/RJ
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Caríssimos amigos.

Foi com imenso pesar que recebemos a notícia de falecimento do nosso destacado poeta e trovador Milton Nunes Loureiro, ilustre presidente da UBT Seção de Niterói.

Uma perda irreparável!

Homem extraordinário e grande amigo que nos deixa magnânimos exemplos de amor, de cultura, de civismo e de trabalho.

Distinguido por sua brilhante personalidade, sólidos princípios e memória privilegiada, Milton legou rastros de gigantes exemplos para a história de Niterói e do Brasil, diante de suas importantes referências poético-trovadorescas, de talento, garra e determinação.
Hoje, no plano Divino, a nossa saudade!

Vânia Maria Souza Ennes
Vice-presidente do Centro de Letras do Paraná.
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Milton Nunes Loureiro

Foi muito mais que um trovador.
Foi um dos mais importantes e dedicados apóstolos da Trova.
Durante cerca de meio século impulsionou o trovismo não somente em Niterói e em todo o RJ, mas em todo o Brasil.
Perdemos, realmente, um grande amigo e um queridíssimo irmão.
Mais um parceiro para São Francisco de Assis e Luiz Otávio no parnaso azul do céu.

A. A. de Assis
UBT Maringá/PR
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Agradeço ao Acadêmico JOSÉ FELDMAN do Blog Pavilhão Literário Singrando Horizontes , que me enviou esta triste NOTA DE FALECIMENTO do AMIGO TROVADOR.

Tive a honra de comparecer, com a Trovadora Zeni de Barros Lana, à inesquecível comemoração dos 4O anos dos Jogos Florais na UBT de Niterói-RJ, no períoido de 27 a 28 de novembro de 2010, sob a PRESIDÊNCIA DE MILTON LOUREIRO,

Em nome do CLUBE BRASILEIRO DA LÍNGUA PORTUGUESA outorgamos a ele, merecidamente, o TÍTULO DE POETA-TROVADOR-HUMANISTA HONORIS CASA, EM LÍNGUA PORTUGUESA, em razão da excelência de sua obra a favor dos DIREITOS HUMANOS.

Prestamos também, ao anfitrião MILTON NUNES LOUREIRO, a homenagem-acróstica nº 3233, publicada em nosso site:
http://clubedalinguaport@gmail.com/ e no Recanto das Letras.

Apesar do falecimento do nosso amigo, entristecidos, oramos para que ele descanse em Paz e que tenha um lugar iluminado na Casa do Pai Celestial, onde certamente merecerá ficar eternamente feliz.

Para os Famíliares e Trovadores enlutados agradecemos a oportunidade de ter conhecido e aprendido tanto com MILTON LOUREIRO…

Bênçãos poéticas imortais,

Sílvia Araújo Motta, Poeta-Trovadora da UBT-BH,Vive-Presidenta da Academia Mineira de Trova,Presidenta do Clube Brasileiro da Língua Portuguesa, Cônsul Poeta del Mundo/BH, Embaixadora Universal da Paz/Brasil/França/Suissa.
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Muitos homens deixaram a sua marca nas páginas da história do Brasil, não só de palavras, mas de ação, e cada um deles sempre visou o enriquecimento da cultura de nossa nação, e na data de hoje, 31 de janeiro de 2011, mais um brasileiro de valor cumpre a sua missão entre nós e deixa a sua marca neste livro e dentro de nós que acompanhamos o seu trabalho. Um trovador se vai, mas a sua garra, o seu trabalho, as suas trovas continuam vivos e presentes sempre e sempre, incrustados em nosso coração, e seu nome continuará sempre a brilhar e nos servir de inspiração. Brindemos a este homem: Salve, Milton Nunes Loureiro!!!

José Feldman
Academia de Letras do Brasil/ Paraná

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Milton Nunes Loureiro (1923 – 2011)

Nasceu em Campos dos Goitacases (RJ) no dia 9 de junho de 1923 e faleceu em 31 de janeiro de 2011.

Advogado, exerceu durante quarenta e três anos o cargo de delegado de polícia em diversas delegacias do interior do estado do Rio de Janeiro, da Baixada Fluminense e da capital.

Além de pertencer à ANL, presidiu a União Brasileira de Trovadores – seção Niterói e integrou os quadros das seguintes instituições culturais:

  • Academia Fluminense de Letras,
  • Ateneu Angrense de Letras e Artes,
  • Academia Itaboraiense de Letras, Ciências e Artes,
  • Academia de Letras de Uruguaiana,
  • Associação Uruguaiense de Escritores e Editores,
  • Academia de Letras Sudoeste,
  • Associação Niteroiense de Escritores,
  • Academia Internacional de Heráldica e Genealogia de Uruguaiana,
  • Academia Internacional de Letras Três Fronteiras,
  • Academia Internacional de Ciências Humanísticas de Uruguaiana e
  • Centro Cultural Literário e Artístico de Filgueiras (Portugal).

    Vinculou-se, também, à

  • Ordem dos Advogados do Brasil,
  • Associação dos Delegados de Polícia do Estado do Rio de Janeiro,
  • Associação dos Delegados do Brasil,
  • Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra,
  • Associação Fluminense de Jornalistas,
  • Sindicato dos Jornalistas Profissionais/RJ,
  • Associação Fluminense de Relações Públicas,
  • Conselho Regional de Relações Públicas,
  • Associação Fluminense de Turismo
  • Loja Maçônica Antônio Vieira de Macedo.

    Possui o título de Cidadão Honorário dos municípios fluminenses de Niterói, Cantagalo, São Gonçalo, Petrópolis, Cabo Frio e Teresópolis, além do de Cidadão Benemérito do Estado do Rio de Janeiro.

    Foi agraciado com a comenda Ordem do Mérito Araribóia e com as seguintes medalhas:
    Mérito Policial, José Cândido de Carvalho, José Clemente Pereira, Oswaldo Cruz e Jubileu de Ouro da Academia Niteroiense de Letras.

    Atuou como noticiarista e repórter nas rádios Tamoio, Tupi, Continental, Copacabana, Club de Niterói e na Agência Meridional.

    Participou de programas nas emissoras de televisão Tupi, Continental e Rio.

    Tem poemas publicados em revistas, jornais e antologias.

    Livros editados:

  • Dos sonhos brotaram versos (1976),
  • Sonetos de outono (1990) e
  • Varanda de sonhos (1992).

    Fonte:Academia Niteroiense de Letras

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Elizabeth Souza Cruz (Livro de Trovas)

Declarar-me não me atrevo,
com palavras mais ousadas…
E assim os versos que escrevo
são propostas camufladas!…

Qualquer que seja o motivo
que a razão nos tente impor,
não se passa o corretivo
quando um erro é por amor!

Se o teu amor foi miragem
no deserto da paixão,
que importa… me deu passagem
para o oásis da ilusão.

É tão forte a intensidade
das loucuras da paixão,
que no amor a insanidade
é o que eu chamo de razão.

É surpresa repetida,
surpresa mesmo… e bendigo
cada instante em minha vida
me repetindo contigo!

Nem mesmo a ilusão remenda,
com seus fios de saudade,
os velhos sonhos de renda
que eu teci na mocidade!

No desfile à fantasia,
de um carnaval de ilusão,
a saudade é a alegoria
que enfeita meu coração!

Minha saudade é um desvio
que a solidão me propõe
para fugir do vazio
que a tua ausência me impõe!

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Arquivado em livro de trovas

Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n.112)

Uma Trova Nacional

Uma lágrima, sequer,
eu vi no adeus… Nem depois.
Não faz mal… Eu sou mulher,
posso chorar por nós dois!
(DIVENEI BOSELI/SP)

Uma Trova Potiguar

A lágrima, na verdade,
por seu poder infinito,
traduz com fidelidade
o que não pode ser dito…
(REINALDO AGUIAR/RN)

Uma Trova Premiada

2008 > Balneário Camboriú/SC
Tema > LÁGRIMA(s) > Venc.

Em meus momentos aflitos
deixo-as nas faces rolando,
porque as lágrimas são gritos
dos meus sonhos se afogando.
(ALMERINDA LIPORAGE/RJ)

Simplesmente Poesia

– Inoema Nunes Jahnke/RS –
SAUDADE.

Se do nada uma lágrima
rolar no seu rosto…
Não tente entender,
se mesmo, sem você querer,
outra lágrima teimar
em embaçar teu sorriso…
Não procure nem tente entender,
com certeza é teu coração,
com vontade de me ver.

Uma Trova de Ademar

Da bebida fiquei farto,
bebendo, perdi quem amo;
hoje bebo no meu quarto,
as lágrimas que eu derramo!
(ADEMAR MACEDO/RN)

…E Suas Trovas Ficaram

Quem já foi homem de bem,
e se fez trapo na vida,
sabe as lágrimas que tem
cada copo de bebida…
(ALOÍSIO ALVES DA COSTA/CE)

Estrofe do Dia

Nossas conquistas são feitas,
o mundo é nosso cartório,
a vida é um laboratório
de diferentes receitas,
as lágrimas não são aceitas
como nossos risos são,
serenidade é canção
na voz que Deus abençoa;
passa a vida o tempo voa
nas asas da ilusão.
(GERALDO AMÂNCIO/CE)

Soneto do Dia

– Félix Pacheco/PI –
ESTRANHAS LÁGRIMAS.

Lágrimas… noutras épocas verti-as.
Não tinha o olhar enxuto como agora.
– Alma, dizia então comigo, chora!
Que assim minorarás as agonias!

Ah! Quantas vezes pelas faces frias,
umas, outras após, a toda hora,
gota a gota rolando elas, outrora,
marcaram noites e marcaram dias!

Vinham do oceano d’alma, imenso e fundo,
de espuma as ondas salpicando o flanco,
numa fremência amargurada e louca.

Nos olhos hoje as lágrimas estanco…
rolam, porém, sem que as descubra o mundo
sob a forma de risos pela boca.

Fonte:
Ademar Macedo

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Elisabeth Souza Cruz (Cristais Poéticos)

MISSÃO TERRESTRE

Não vim ao mundo para um breve passo,
trouxe roteiro e amor dentro da mala…
Deus me mandou… e me estendeu Seu braço,
deu-me os conselhos e eu sei bem da fala…

Deus me disse assim: – “- Pega o teu espaço,
usando… o amor, o teu traje de gala…
Prossegue o bom destino que eu te traço
e faz teu rumo, azul, em alta escala!!”

E muito atenta à fala do bom Deus,
estou na Terra e… esses caminhos meus
são adornados pelo verbo amar…

Porque eu tenho uma Rosa que viceja,
não pego o lugar de quem quer que seja…
eu me assumo e… conquisto o meu lugar!

SEGREDO

Viver a vida é parte de um mistério
na encenação da qual somos atores,
sem ter ensaio, sem qualquer critério,
misto de sombra e luzes multicores…

E nesta vida há sempre um revertério,
um dissabor, espinhos entre as flores…
Mas há segredos, sempre há um refrigério,
há muita luz atrás dos bastidores!

Então… comece a desvendar segredos,
descubra o sol brilhando entre os seus medos…
e ante a tristeza não se entregue ao léu!

Ouvir estrelas no breu da tormenta
é o grande alento de quem se alimenta
do Pão da Vida… o Pão que vem do céu!

AMOR DE EXTREMOS

O nosso Amor é um mar cheio de extremos…
Mar perigoso de navegação…
Às vezes… temo e abandonar os remos
parece a diretriz… a solução.

Eu me amedronto, mas, ante o que temos,
dou meia volta… vejo a salvação
nos tempos de prazer… tantos… supremos,
e eu sigo em frente, atrás dessa emoção…

O nosso Amor é uma cumplicidade…
é todo feito de diversidade….
é guerra… é fogo… é paz… é rebeldia…

É plantação… estio com fartura,
É sensatez vestida de loucura…
É breu… é noite… é Sol de meia dia!!!

BACHAREL

Não entristeço a folha de papel
que ela merece uma canção feliz…
Então, eu pego um sonho, o meu batel,
mudo o roteiro e inverto a diretriz!!!!

Meu sonho é diplomado… é um bacharel
contorna os desenganos com seu giz…
Conhecedor da vida, em seu farnel,
tem sempre uma ilusão… pedindo bis…

Meu sonho… faz a vez de um navegante,
pega a alegria, o seu farol constante,
e adentra os mares onde houver tristeza…

Eu sei que o mar nem sempre é meu amigo,
mas eu me exponho às ondas do perigo,
porque a esperança é sempre uma certeza!

DIA DE RESGATE

O caos, a fome, o medo, a frustração…
e os trinta e três guerreiros no combate…
dia após dia… a espera… a indecisão
da vida, por um fio, em xeque-mate!

Uma Esperança vence a escuridão,
porque o mineiro bom, jamais se abate
e enfrenta a fúria da Mineração
para esperar o Dia de Resgate!

O Chile comprovou a sua fibra
e o mundo, em energias, todo vibra
para trazer à Luz esses guerreiros!

E o Atacama emerge para a história
e escreve no deserto a trajetória
da inesquecível saga dos Mineiros!

Fonte:
1a. Antologia Poética Momento Litero Cultural

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Plinio Linhares (Trovamando V – Helena)

A HELENA
(minha musa inspiradora)

As forças da natureza,
Venham todas em amparo;
Que haja maior riqueza,
Para musa que preparo.

Que ela tenha as virtudes,
De um anjo divinal;
E venha com atitudes,
De uma dama bem formal.

Desejo que seja linda,
Num corpo escultural;
Espírito na berlinda,
Rainha universal.

Veja o bem nos irmãos,
Ampare o deserdado;
Estenda sempre as mãos,
A alguém desamparado.

Que sorria e mais encante,
O adulto e a criança;
Doando, sempre avante,
A paz e a esperança.

E com um simples olhar,
Faça o doente são;
O aflito acalmar,
Ao acenar de sua mão!

Precisa o trovador,
Receber a sua parcela;
Deste anjo salvador,
Do bem e paz, que ele sela.

Presentes eu lhe darei,
E todo dia bela rosa;
Amor, afeto, farei,
Pra ficar rindo e prosa.

Pra ela, como fiz outrora,
E deixando-a bem grata;
Na noite, em qualquer hora,
Farei linda serenata.

Passou bela, flutuante,
Fui, perguntei-lhe o nome;
E com voz estonteante,
Disse só o seu prenome: –

– HELENA, a sua criada,
Vejo que é bom rapaz;
Só serei a sua amada,
Se a trova for capaz!

Andar firme, bem andante,
Olhar doce e suave;
Fala macia, bem galante,
Linda, soberana ave.

HELENA, musa perfeita,
Ornamento, belo brinco;
Deusa mor de gala seita,
És, no TROVAMANDO CINCO…

Por seu passado seguro,
Pelo presente bem são;
Para um feliz futuro,
HELENA, quero sua mão!

Lavarei seus pés com flores,
Ao recebe-la por minha;
Demonstrando meus amores,
Mesmo quando não a tinha.

Pra poder lhe merecer,
Erradicarei defeitos;
Farei puro o meu ser,
E verás cantar meus feitos…

Cercar-lhe-ei de afetos,
Como mar cerca a terra;
Tal qual avós aos netos,
Como neblina na serra.

Amparo eu lhe darei,
E amor compreendido;
O afeto que farei,
Há de ser correspondido.

Haverá companheirismo,
E um trato fraternal;
Dose de cavalheirismo,
União no ideal.

Dois corpos a caminhar,
E as almas siamesas;
Impossível separar,
Nem com doutas sutilezas.

DON QUIXOTE DE LA MANCHA,
Eu, a derribar moinhos;
Terei a grata ensancha,
De mostrar os meus carinhos.

Eu, andante cavaleiro,
Montado no ROCINANTE;
Para ser-lhe prazenteiro,
E tornar apaixonante.

És estrela que me guia,
De luz deveras brilhante;
Clara noite, como dia,
Você é o meu calmante…

Meu amor, por que mantém?
Seu querer adormecido;
O meu ser só se sustem,
Com seu beijo aquecido.

Que coisa linda o beijo!
Exalta todo meu ser;
Põe cérebro em lampejo,
Dá vontade de viver…

Aquele abraço doce,
Que você me deu um dia;
Não esqueço nem que fosse,
O rei momo da folia!…

Seu arfar, no meu ouvido,
Nele, seu beijo ardente;
Ao chamar-me de querido,
Diz verdade, ou me mente?

No dia em que me levou,
Provar sua intimidade;
A minh’alma se lançou,
No orgasmo da verdade.

Você me deu o maná,
Que dado ao prometido;
E ainda o fará,
Com amor arremetido.

Seu afago, carinhoso,
O olhar mais dardejante;
Meu querer fica formoso,
O meu ser eletrizante!

Dançando, rostos colados,
E corpos em conjunção;
Ficam cupidos corados,
E anjos em aflição…

Você me põe no espaço,
Naquele, o sideral;
Sempre ledo no regaço,
Do seu bom manancial.

Me ame, minha querida,
Deixe-me amar também;
Extinga minha ferida,
Meu amor, meu forte bem!

O céu, dar-lhe-ei em verso,
Pois na prosa, se esvai;
Mas o grande universo,
Pra lhe dar, só nosso PAI!

Fundo extrato d’amor,
Perfumarei meu querer;
Far-lhe-ei do meu fulgor,
Como o amanhecer.

Para seu luxo, a teia,
Tecerei com fios d’ouro;
De amor, será a ceia,
Imortal e porvindouro.

Adorná-la e vestir-lhe,
Faze-la mais preciosa;
Do mar, pérolas roubar-lhe,
Do jardim, mais bela rosa…

Vamos, na realidade,
HELENA, meu bem querer;
Dar-lhe-ei a faculdade,
Em mi’a fala escolher.

Quero fazer, como dantes,
Amar-lhe na velha forma;
Sermos os finos amantes,
Na melhor, perfeita norma.

Prazeirar a natureza,
Atirar pedras no lago;
Sentir a lua benfazeja,
E acreditar em mago…

Em todas as coisas belas,
Igualá-las à você;
E a mais bonita delas,
Nunca há lhe merecer!

Agrupar as nossas almas,
Na mais doce lua de mel;
Pairar sobre nuvens calmas,
Sob bênçãos de lindo céu.

Vindo fundo sentimento,
Com amor forte, seguro;
Dar-lhe-ei enlaçamento,
De agora ao futuro…

Qualidade de amor,
Terá nosso matrimônio;
Afeto e esplendor,
Será o nosso binômio.

Ajuda lhe prestarei,
E você me cuidará;
Bom amor receberei,
Mais ternura hei de dar.

O amor é como luz,
E nas trevas ilumina;
Fortalece e seduz,
A sua saga, contamina.

Os casais indiferentes,
Ao verem nosso exemplo;
Tornar-se-ão firmes crentes,
E virão ao nosso templo.

Que bom, é o bem viver,
Que maldade, é discórdia;
Ore muito pra não ter,
Que pedir misericórdia.

Para viver desta forma,
E Ter essa harmonia;
Há de se seguir a norma: –
Só com DEUS, em sintonia!

No jantar a luz de velas,
Com a paz dos querubins;
Comporei trovas mais belas,
Na lira, dos serafins.

Suave música de fundo,
Aflorando sentimento;
Dar-lhe-ei do mais fecundo,
Amor e desprendimento.

O casamento perfeito,
Há de ter a BOA discórdia;
Pois, de rosas, não há leito,
Nem a forçada concórdia.

Ter bom senso de ouvir,
Mais a arte de calar;
Para tudo discernir,
E a vida aclamar.

A fala mansa, macia,
O cenho descontraído;
Forma a paz e sacia,
De bênçãos, um lar caído.

Um casal prenhe de paz,
Faz do lar, foco de luz;
Qualquer treva se desfaz,
Pois ali, está Jesus!

O amor não tem espécie,
É amor sem discussão;
É natural de sua messe,
E não tem comparação.

Não existe confusão,
Há de ter contentamento;
Sem amor, é ilusão,
O perfeito casamento.

A relação em conflito,
Só bem querer modifica;
Faz bendito o maldito,
E amor solidifica!

Quer viver fatal inferno?
É em casa atritar;
Ampare e seja terno,
Chegue até lisonjear.

Casamento com problema,
Já são muitos o da vida;
Só o amor como lema,
Há de faze-la querida!

Se no lar houver disputa,
E só uma eu admito: –
De amor e de labuta,
Pois a paz não é um mito.

Com uma linda atafona,
Lavarei seus pés com flores;
Bem, que a fada abona,
Prometendo meus amores…

Enxugar com alvo linho,
Com sândalo perfumado;
Que fará do nosso ninho,
Aposento consagrado.

Enfim, ó bela HELENA,
Você é minha gracinha;
É a mais linda pequena,
Entre moças da pracinha.

Com HELENA, há certeza,
De perene bem viver;
A sua alma de beleza,
Seu eterno bem querer.

Você é o douro trigo,
Saciando minha fome;
É caminho que eu sigo,
HELENA, sublime nome.

Bela de TRÓIA, viesse,
Mi’a HELENA, visitar;
A sua beleza fenece,
Se a minha comparar!

Adjetivo gentílico,
HELENA, igual à grego;
Povo culto e idílico,
Pelo amor têm apego.

HELENA, larga estrada,
Caminhou a minha vida;
De sedenta na parada,
É a água mais querida.

Com um sexo respeitoso,
Sempre, sempre sublimado;
No sagaz harmonioso,
Do OLIMPO, consagrado.

E será sempre assim,
Pois és deusa que encanta;
Muito mais que um jasmim,
Minha musa, minha mantra!

Eu tivesse um harém,
Amaria a todas elas;
Somente você porém,
É a bela, das mais belas!…

Sonho em ser um sultão,
Dono de gema formosa;
Todos reis invejarão,
Você, pedra preciosa!

A fausta tiara rica,
Que orna cabeça nobre;
Em vossa mercê, que fica,
Para quem o sino dobre.

E como agradecer,
Inspiração de HELENA;
Me fez mais enternecer,
Com sua beleza serena.

Despeço emocionado,
Minha musa, minha luz;
Sou o seu apaixonado,
Com auspícios de JESUS!

ANA PAULA, também AMANDA,
VALQUIRIA, linda pequena;
MARIA, a mais veneranda,
A Quinta, bela HELENA…

Digo sempre o que sinto,
E inspiro em SUAS, leis;
Para terminar o CINCO,
E a começar o SEIS.

O trovador sempre faz,
Consigo auto-ajuda;
Deseja ao LEITOR – PAZ!
Mais amor, que tudo muda.

Ao meu querido LEITOR,
Sou grato em profusão;
Minhas trovas de amor,
Em você, INSPIRAÇÃO!…

Fonte:
http://blogdodegasdc.blogspot.com/2010/04/trovamando-v-helena.html

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Machado de Assis (Adão e Eva)

UMA SENHORA de engenho, na Bahia, pelos anos de mil setecentos e tantos, tendo algumas pessoas íntimas à mesa, anunciou a um dos convivas, grande lambareiro, um certo doce particular. Ele quis logo saber o que era; a dona da casa chamou-lhe curioso. Não foi preciso mais; daí a pouco estavam todos discutindo a curiosidade, se era masculina ou feminina, e se a responsabilidade da perda do paraíso devia caber a Eva ou a Adão. As senhoras diziam que a Adão, os homens que a Eva, menos o juiz-de-fora, que não dizia nada, e Frei Bento, carmelita, que interrogado pela dona da casa, D. Leonor:

— Eu, senhora minha, toco viola, respondeu sorrindo; e não mentia, porque era insigne na viola e na harpa, não menos que na teologia.

Consultado, o juiz-de-fora respondeu que não havia matéria para opinião; porque as cousas no paraíso terrestre passaram-se de modo diferente do que está contado no primeiro livro do Pentateuco, que é apócrifo. Espanto geral, riso do carmelita que conhecia o juiz-de-fora como um dos mais piedosos sujeitos da cidade, e sabia que era também jovial e inventivo, e até amigo da pulha, uma vez que fosse curial e delicada; nas cousas graves, era gravíssimo.

— Frei Bento, disse-lhe D. Leonor, faça calar o Sr. Veloso.
— Não o faço calar, acudiu o frade, porque sei que de sua boca há de sair tudo com boa significação.
— Mas a Escritura… ia dizendo o mestre-de-campo João Barbosa.
— Deixemos em paz a Escritura, interrompeu o carmelita. Naturalmente, o Sr. Veloso conhece outros livros…
— Conheço o autêntico, insistiu o juiz-de-fora, recebendo o prato de doce que D. Leonor lhe oferecia, e estou pronto a dizer o que sei, se não mandam o contrário.
— Vá lá, diga.
— Aqui está como as cousas se passaram. Em primeiro lugar, não foi Deus que criou o mundo, foi o Diabo…
— Cruz! exclamaram as senhoras.
— Não diga esse nome, pediu D. Leonor.
— Sim, parece que… ia intervindo frei Bento.
— Seja o Tinhoso. Foi o Tinhoso que criou o mundo; mas Deus, que lhe leu no pensamento, deixou-lhe as mãos livres, cuidando somente de corrigir ou atenuar a obra, a fim de que ao próprio mal não ficasse a desesperança da salvação ou do benefício. E a ação divina mostrou-se logo porque, tendo o Tinhoso criado as trevas, Deus criou a luz, e assim se fez o primeiro dia. No segundo dia, em que foram criadas as águas, nasceram as tempestades e os furacões; mas as brisas da tarde baixaram do pensamento divino. No terceiro dia foi feita a terra, e brotaram dela os vegetais, mas só os vegetais sem fruto nem flor, os espinhosos, as ervas que matam como a cicuta; Deus, porém, criou as árvores frutíferas e os vegetais que nutrem ou encantam. E tendo o Tinhoso cavado abismos e cavernas na terra, Deus fez o sol, a lua e as estrelas; tal foi a obra do quarto dia. No quinto foram criados os animais da terra, da água e do ar. Chegamos ao sexto dia, e aqui peço que redobrem de atenção.

Não era preciso pedi-lo; toda a mesa olhava para ele, curiosa.

Veloso continuou dizendo que no sexto dia foi criado o homem, e logo depois a mulher; ambos belos, mas sem alma, que o Tinhoso não podia dar, e só com ruins instintos. Deus infundiu-lhes a alma, com um sopro, e com outro os sentimentos nobres, puros e grandes. Nem parou nisso a misericórdia divina; fez brotar um jardim de delícias, e para ali os conduziu, investindo-os na posse de tudo. Um e outro caíram aos pés do Senhor, derramando lágrimas de gratidão. “Vivereis aqui”, disse-lhe o Senhor, “e comereis de todos os frutos, menos o desta árvore, que é a da ciência do Bem e do Mal.”

Adão e Eva ouviram submissos; e ficando sós, olharam um para o outro, admirados; não pareciam os mesmos. Eva, antes que Deus lhe infundisse os bons sentimentos, cogitava de armar um laço a Adão, e Adão tinha ímpetos de espancá-la. Agora, porém, embebiam-se na contemplação um do outro, ou na vista da natureza, que era esplêndida. Nunca até então viram ares tão puros, nem águas tão frescas, nem flores tão lindas e cheirosas, nem o sol tinha para nenhuma outra parte as mesmas torrentes de claridade. E dando as mãos percorreram tudo, a rir muito, nos primeiros dias, porque até então não sabiam rir. Não tinham a sensação do tempo. Não sentiam o peso da ociosidade; viviam da contemplação. De tarde iam ver morrer o sol e nascer a lua, e contar as estrelas, e raramente chegavam a mil, dava-lhes o sono e dormiam como dous anjos.

Naturalmente, o Tinhoso ficou danado quando soube do caso. Não podia ir ao paraíso, onde tudo lhe era avesso, nem chegaria a lutar com o Senhor; mas ouvindo um rumor no chão entre folhas secas, olhou e viu que era a serpente. Chamou-a alvoroçado.

— Vem cá, serpe, fel rasteiro, peçonha das peçonhas, queres tu ser a embaixatriz de teu pai, para reaver as obras de teu pai?

A serpente fez com a cauda um gesto vago, que parecia afirmativo; mas o Tinhoso deu-lhe a fala, e ela respondeu que sim, que iria onde ele a mandasse, — às estrelas, se lhe desse as asas da águia — ao mar, se lhe confiasse o segredo de respirar na água — ao fundo da terra, se lhe ensinasse o talento da formiga. E falava a maligna, falava à toa, sem parar, contente e pródiga da língua; mas o diabo interrompeu-a:

— Nada disso, nem ao ar, nem ao mar, nem à terra, mas tão-somente ao jardim de delícias, onde estão vivendo Adão e Eva.
— Adão e Eva?
— Sim, Adão e Eva.
— Duas belas criaturas que vimos andar há tempos, altas e direitas como palmeiras?
— Justamente.
— Oh! detesto-os. Adão e Eva? Não, não, manda-me a outro lugar. Detesto-os! Só a vista deles faz-me padecer muito. Não hás de querer que lhes faça mal…
— É justamente para isso.
— Deveras? Então vou; farei tudo o que quiseres, meu senhor e pai. Anda, dize depressa o que queres que faça. Que morda o calcanhar de Eva? Morderei…
— Não, interrompeu o Tinhoso. Quero justamente o contrário. Há no jardim uma árvore, que é a da ciência do Bem e do Mal; eles não devem tocar nela, nem comer-lhe os frutos. Vai, entra, enrosca-te na árvore, e quando um deles ali passar, chama-o de mansinho, tira uma fruta e oferece-lhe, dizendo que é a mais saborosa fruta do mundo; se te responder que não, tu insistirás, dizendo que é bastante comê-la para conhecer o próprio segredo da vida. Vai, vai…
— Vou; mas não falarei a Adão, falarei a Eva. Vou, vou. Que é o próprio segredo da vida, não?
— Sim, o próprio segredo da vida. Vai, serpe das minhas entranhas, flor do mal, e se te saíres bem, juro que terás a melhor parte na criação, que é a parte humana, porque terás muito calcanhar de Eva que morder, muito sangue de Adão em que deitar o vírus do mal… Vai, vai, não te esqueças…

Esquecer? Já levava tudo de cor. Foi, penetrou no paraíso, rastejou até a árvore do Bem e do Mal, enroscou-se e esperou. Eva apareceu daí a pouco, caminhando sozinha, esbelta, com a segurança de uma rainha que sabe que ninguém lhe arrancará a coroa. A serpente, mordida de inveja, ia chamar a peçonha à língua, mas advertiu que estava ali às ordens do Tinhoso, e, com a voz de mel, chamou-a. Eva estremeceu.

— Quem me chama?
— Sou eu, estou comendo desta fruta…
— Desgraçada, é a árvore do Bem e do Mal!
— Justamente. Conheço agora tudo, a origem das coisas e o enigma da vida. Anda, come e terás um grande poder na terra.
— Não, pérfida!
— Néscia! Para que recusas o resplendor dos tempos? Escuta-me, faze o que te digo, e serás legião, fundarás cidades, e chamar-te-ás Cleópatra, Dido, Semíramis; darás heróis do teu ventre, e serás Cornélia; ouvirás a voz do céu, e serás Débora; cantarás e serás Safo. E um dia, se Deus quiser descer à terra, escolherá as tuas entranhas, e chamar-te-ás Maria de Nazaré. Que mais queres tu? Realeza, poesia, divindade, tudo trocas por uma estulta obediência. Nem será só isso. Toda a natureza te fará bela e mais bela. Cores das folhas verdes, cores do céu azul, vivas ou pálidas, cores da noite, hão de refletir nos teus olhos. A mesma noite, de porfia com o sol, virá brincar nos teus cabelos. Os filhos do teu seio tecerão para ti as melhores vestiduras, comporão os mais finos aromas, e as aves te darão as suas plumas, e a terra as suas flores, tudo, tudo, tudo…

Eva escutava impassível; Adão chegou, ouviu-os e confirmou a resposta de Eva; nada valia a perda do paraíso, nem a ciência, nem o poder, nenhuma outra ilusão da terra. Dizendo isto, deram as mãos um ao outro, e deixaram a serpente, que saiu pressurosa para dar conta ao Tinhoso.

Deus, que ouvira tudo, disse a Gabriel:

— Vai, arcanjo meu, desce ao paraíso terrestre, onde vivem Adão e Eva, e traze-os para a eterna bem-aventurança, que mereceram pela repulsa às instigações do Tinhoso.

E logo o arcanjo, pondo na cabeça o elmo de diamante, que rutila como um milhar de sóis, rasgou instantaneamente os ares, chegou a Adão e Eva, e disse-lhes:

— Salve, Adão e Eva. Vinde comigo para o paraíso, que merecestes pela repulsa às instigações do Tinhoso.

Um e outro, atônitos e confusos, curvaram o colo em sinal de obediência; então Gabriel deu as mãos a ambos, e os três subiram até à estância eterna, onde miríades de anjos os esperavam, cantando:

— Entrai, entrai. A terra que deixastes, fica entregue às obras do Tinhoso, aos animais ferozes e maléficos, às plantas daninhas e peçonhentas, ao ar impuro, à vida dos pântanos. Reinará nela a serpente que rasteja, babuja e morde, nenhuma criatura igual a vós porá entre tanta abominação a nota da esperança e da piedade.

E foi assim que Adão e Eva entraram no céu, ao som de todas as cítaras, que uniam as suas notas em um hino aos dous egressos da criação…

… Tendo acabado de falar, o juiz-de-fora estendeu o prato a D. Leonor para que lhe desse mais doce, enquanto os outros convivas olhavam uns para os outros, embasbacados; em vez de explicação, ouviam uma narração enigmática, ou, pelo menos, sem sentido aparente. D. Leonor foi a primeira que falou:

— Bem dizia eu que o Sr. Veloso estava logrando a gente. Não foi isso que lhe pedimos, nem nada disso aconteceu, não é, frei Bento?
— Lá o saberá o Sr. juiz, respondeu o carmelita sorrindo.

E o juiz-de-fora, levando à boca uma colher de doce:

— Pensando bem, creio que nada disso aconteceu; mas também, D. Leonor, se tivesse acontecido, não estaríamos aqui saboreando este doce, que está, na verdade, uma cousa primorosa. É ainda aquela sua antiga doceira de Itapagipe?

Fonte:
ASSIS, Machado de. Várias Histórias. Ed. Martin Claret.

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Machado de Assis (Análise dos Contos de “Várias Histórias”: 8. Adão e Eva)

Análise realizada pelo Prof. Bartolomeu Amâncio da Silva. Bacharel em Letras, pela USP, professor de literatura da rede Objetivo (colégios e cursos pré-vestibular).
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Outro conto que apresenta o esquema de história dentro de história. Em meio à degustação de doces, começa a discussão sobre quem é mais curioso: o homem ou a mulher? Um dos convivas apresenta uma narrativa com um quê de enigmático e que vem de um livro apócrifo (livro que não é reconhecido pela Igreja e que, portanto, está fora da Bíblia) da Bíblia.

É um relato que inverte a história de Adão e Eva. Primeiro porque apresenta a criação do Universo como fruto da ação do Diabo – Deus é que ia consertando as falhas provocadas pela malignidade. Dentro desse aspecto está a criação do homem e da mulher. Na forma crua, estavam dominados por instintos ruins. O toque divino atribui-lhes alma, tornando-os sublimes, sendo levados para o Paraíso. Inconformado com a destruição de sua obra, mas impossibilitado de entrar no campo divino, convence sua criação dileta, a serpente, a tentar Adão e Eva a comerem o fruto proibido. De pronto o animal o atende, mas, por mais que insistisse, não obteve sucesso. Satisfeito com tal proeza de caráter, Deus conduz os dois para o caminho da glória.

Termina assim o relato que deixa incrédulos entre a platéia, a maioria achando que tudo não passava de brincadeira do seu narrador. No entanto, o comentário final de um dos convivas é bastante interessante: “Pensando bem, creio que nada disso aconteceu; mas também, D. Leonor, se tivesse acontecido, não estaríamos aqui saboreando este doce, que está, na verdade, uma coisa primorosa”. Além de o conto apresentar o oposto (mais uma vez a visão dilemática machadiana!) de uma questão, ou seja, uma outra história da criação, há uma idéia já desenvolvida, por exemplo, em Dom Casmurro: a graça de nossa existência está justamente na imperfeição em que se processa.
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Continua… Análise do Conto “O Enfermeiro”
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Fonte:
http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/analises_completas/v/varias_historias

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Sonetos Soprados ao Léu

Silviah Carvalho
SONETO AO SOPRO DO SEU CARINHO

Traz no seu olhar um ar de menino ausente
Que me faz viajar por outros ares
Ao encontro de algo desejado, um presente
Como as águas dos rios encontram seus mares

O vento que toca de leve em meu rosto
É o sopro do seu meigo e doce carinho
Essa paz que recebo de bom gosto
Que vem e ilumina o meu caminho

Eu faria mornar o vento marinho pra você
Eu daria a brisa da noite por seu calor
Aquela que sopra a doçura e exala amor

Eu te daria a lua e a luz do amanhecer
Provaria no inverno o calor do seu verão
No cio eterno do amor na propicia estação

José Rainho Caldeira
ESPLENDOR

O azul que se confunde seja da água ou do céu.
Leva-nos à plenitude, da beleza natural,
Que só a sensibilidade, de um olhar sereno,
Consegue achar normal.

Este olhar, ainda que belo,
Remete-nos pra pequenez
Do humano Ser, perante a grandeza
Do mar imenso, do Céu pleno de incenso.

Cores várias, Arco-íris incendiado,
No negrume das nuvens, de gotículas de água,
Em Céu carregado, que se transforma em chuva,
Que rega os campos floresce a primavera,
De um coração atribulado.

Depende do ângulo de visão e dos olhos de quem vê.
Pode ser de mansidão ou, quem sabe?
De olhares perdidos, pra lá do horizonte,
Sem esperança e com revolta, pela triste vida,
Que de fronte, lhe aparece pela frente.

É, talvez, pela injustiça que sente no coração.
Pela vaidade, luxo, devassidão,
Paredes meias co’a pobreza,
A fome, a miséria, a falta de pão.

Só olhos limpos e claros, livres de todos os apegos,
Poderão sentir prazer, neste olhar de mar e céu,
Onde consegue vislumbrar
Obra magnífica de Deus.

Quem assim consegue olhar, ver, apreciar, beleza, enfim.
Talvez possa dar ao Mundo, a idéia de que é possível
Viver em harmonia, Criador e criaturas,
Natureza e seus elementos, floresta, arbustos e capim.

Álvares de Azevedo
SONETO

Passei ontem a noite junto dela.
Do camarote a divisão se erguia
Apenas entre nós – e eu vivia
No doce alento dessa virgem bela…

Tanto amor, tanto fogo se revela
Naqueles olhos negros! Só a via!
Música mais do céu, mais harmonia
Aspirando nessa alma de donzela!

Como era doce aquele seio arfando!
Nos lábios que sorriso feiticeiro!
Daquelas horas lembro-me chorando!

Mas o que é triste e dói ao mundo inteiro
É sentir todo o seio palpitando…
Cheio de amores! E dormir solteiro!

Antero de Quental
MORS – AMOR

Esse negro corcel, cujas passadas
Escuto em sonhos, quando a sombra desce,
E, passando a galope, me aparece
Da noite nas fantásticas estradas,

Donde vem ele? Que regiões sagradas
E terríveis cruzou, que assim parece
Tenebroso e sublime, e lhe estremece
Não sei que horror nas crinas agitadas?

Um cavaleiro de expressão potente,
Formidável, mas plácido, no porte,
Vestido de armadura reluzente,

Cavalga a fera estranha sem temor:
E o corcel negro diz: “Eu sou a morte!”
Responde o cavaleiro: “Eu sou o Amor!”

Florbela Espanca
EM BUSCA DO AMOR

O meu Destino disse-me a chorar:
“Pela estrada da Vida vai andando,
E, aos que vires passar, interrogando
Acerca do Amor, que hás-de encontrar.”

Fui pela estrada a rir e a cantar
As contas do meu sonho desfiando…
E a noite e dia, à chuva e ao luar,
Fui sempre caminhando e perguntando…

Mesmo a um velho eu perguntei: “Velhinho,
Viste o Amor acaso em teu caminho?”
E o velho estremeceu… olhou…e riu…

Agora pela estrada, já cansados,
Voltam todos pra trás desanimados…
E eu paro a murmurar: “Ninguém o viu!”…

Guilherme de Almeida
SONETO XXV

O nosso ninho, a nossa casa, aquela
nossa despretensiosa água-furtada,
tinha sempre gerânios na sacada
e cortinas de tule na janela.

Dentro, rendas, cristais, flores… Em cada
canto, a mão da mulher amada e bela
punha um riso de graça. Tagarela,
teu cenário cantava à minha entrada.

Cantava… E eu te entrevia, à luz incerta,
braços cruzados, muito branca, ao fundo,
no quadro claro da janela aberta.

Vias-me. E então, num súbito tremor,
fechavas a janela para o mundo
e me abrias os braços para o amor!

J. G. De Araújo Jorge
CARTAS

Vou correndo buscá-las – são tão leves!
mas trazem a minha alma um grande encanto,
– por que as cartas que escreves custam tanto?
– por que demora tanto o que me escreves?

Não deves torturar-me assim, não deves!
– Do teu silêncio muita vez me espanto…
Mando-te longas cartas – e entretanto
como tuas respostas são tão breves!…

Recebes cartas minhas todo dia,
e elas não dizem tudo o que eu queria
mas falam-te de amor… de coisas belas!

Tuas cartas… Mas dou-te o meu perdão,
– que me importa afinal ter razão,
se gosto tanto de esperar por elas!

Martins Fontes
O QUE SE ESCUTA NUMA VELHA CAIXA DE MÚSICA

Nunca roubei um beijo. O beijo dá-se,
ou permuta-se, mas naturalmente.
Em seu sabor seria diferente
se, em vez de ser trocado, se furtasse.

Todo beijo de amor, longo ou fugace,
deve ser u prazer que a ambos contente.
Quando, encantado, o coração consente,
beija-se a boca, não se beija a face.

Não toquemos na flor maravilhosa,
seja qual for a sedução do ensejo,
vendo-a ofertar-se, fácil e formosa.

Como os árabes, loucos de desejo,
amemos a roseira, olhando a rosa,
roubemos a mulher e não o beijo.

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Roberto Pinheiro Acruche lança a Revista Virtual Trovas e Poemas Nº 24 – FEVEREIRO DE 2011

Além das abaixo muito mais trovas, além dos poemas “Os Pratos da Vovó”, de Antonio Roberto Fernandes, “Poema para o meu amor” e “Indagações”, de Roberto Pinheiro Acruche, trovas formatadas deste, livros, fotos, etc. Baixe para seu computador clicando sobre a imagem ao lado.
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Se diante de algum tropeço
a minha fé sofre entraves,
perdão, Deus! É que me esqueço
de olhar os lirios e as aves.
Vanda Fagundes Queiroz-PR

Nessa paixão que me assalta,
misto de encanto e de dor,
quanto mais você me falta
mais aumenta o meu amor!…
Rodolpho Abbud – RJ

Rogo em preces, sem engodos,
ouvindo o planger do bronze,
que Deus Pai conceda a todos
um Feliz Dois Mil e Onze!
Antônio Juraci Siqueira-PA

A paz, numa sociedade,
entre tantas coisas boas,
só depende, na verdade,
da consciência das pessoas.
Nei Garcez-PR

O mar é o mais doce amante
pois não cansa de beijar,
num lirismo alucinante,
toda praia que encontrar!
Gislaine Canales – SC

Áureo outono, que beleza…
Nada abate o teu fulgor!
A esplendida natureza
te fez tão encantador.
Roberto Pinheiro Acruche – RJ

Quem conhece não contesta
esta verdade provada:
Na boca de quem não presta
quem é bom não vale nada!
Pedro Ornellas – SP

Os lábios, num beijo, unidos,
despertam grande paixão…
Tornam um só, dois sentidos,
de dois, um só coração.
Francisco Neves Macedo-RN

Fonte:
R. P. Acruche

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Antonio Augusto de Assis lança Trovia n. 134 – fevereiro de 2011

Além das abaixo, muitas outras podem ser encontradas na Revista Virtual de Trovas Trovia n. 134, fevereiro de 2011 baixando para o seu computador, ao clicar sobre a figura ao lado.
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INESQUECÍVEIS

Onde anda o corpo da gente,
a sombra vai pelo chão…
– É assim também a saudade,
a sombra do coração!
Adelmar Tavares

Dotada de amor profundo,
meiga e doce em seu mister,
que graça teria o mundo,
sem a graça da mulher?
Aparício Fernandes

Miséria de pão maltrata…
Mas quanta gente, Senhor,
sabeis que morre ou se mata
quando há miséria de amor!
Lilinha Fernandes

Se duas almas tivesse
– meu coração bem me diz –,
ainda que uma eu te desse,
seria a outra feliz…
Luiz Otávio

BRINCANTES

Fugindo pela janela,
o “dom juan” quis “dar no pé”.
– Um fantasma!, gritou ela.
E o marido: – Agora é!
Angélica V. Santos – SP

Toda vez que eu chego tarde,
lá em casa, rente ao portão,
minha esposa dá “boa-tarde”
com a vassoura na mão…
Nei Garcez – PR

Casa velha, quanto encanto!
… tem cobras, cupins, lagartos!
Uma história em cada canto
e fantasmas pelos quartos.
Nilton Manoel – SP

LÍRICAS E FILOSÓFICAS

Nos passos do bailarino,
na garganta do cantor,
em cada tango argentino
geme uma história de amor.
A. A. de Assis – PR

O amigo que nos quer bem
é aquele que, sem temor,
oculta uma dor que tem
e vem sanar nossa dor…
Ademar Macedo – RN

Somos anões sem idade,
a perseguir-te sem tréguas,
enquanto, felicidade,
tens botas de sete léguas…
Carolina Ramos – SP

Na esperança verde e bela
há o otimismo de luz!
Se a porta fecha, a janela
se abre em par e o sol reluz!
Dinair Leite – PR

Oh, minha mãe, quando eu falho,
tua lágrima rolada
é qual pérola de orvalho
sobre a rosa machucada!…
Domitilla B. Beltrame – SP

O verde em brasa estalando;
uivos doridos da mata:
gritos horrendos compondo
uma fúnebre sonata!
Eliana Palma – PR

A saudade dos meus filhos,
dói, machuca, me amordaça.
Comparo-me aos velhos trilhos,
Por onde o trem já não passa.
Francisco Macedo – RN

Ausência do bem, o mal
só traz sofrimento a quem
não conhece o especial
prazer que é se querer bem!
Jeanette De Cnop – PR

Minha amada foi-se embora
para bem longe de mim…
O que vou fazer agora
se a lembrança não tem fim?
Luiz Antonio Cardoso – SP

Amanhã… Depois… Depois…
Foi assim a vida inteira…
E entre os sonhos de nós dois,
a intransponível fronteira…
Milton Nunes Loureiro – RJ

Na vida, lutar, correr,
não me cansa tanto assim…
O que me cansa é saber
que estás cansada de mim!
Rodolpho Abbud – RJ

Agora peço somente,
ao tempo de que disponho,
que um tempo me dê, paciente,
para que eu viva o meu sonho…
Thereza Costa Val – MG

Fonte:
A. A. de Assis

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n.111)

(Imagem de São Francisco de Assis em Nova Friburgo, na tragédia ocorrida)

Uma Trova Nacional

“A bolsa ou a vida” – eu ouço
e retruco as ironias:
– Que leve as duas, seu moço,
pois ambas estão vazias.
(ROBERTO MEDEIROS/MG)

Uma Trova Potiguar

Nessa vida de rancores,
de fatos imprevisíveis,
coragem faz vencedores,
concórdia faz invencíveis.
(FABIANO WANDERLEY/RN)

Uma Trova Premiada

1999 > Niterói/RJ
Tema > TIMIDEZ > Menção Honrosa

Sou tímida, na verdade,
e você já percebeu.
Porém… me beije à vontade
porque a tímida sou eu…
(ALCY RIBEIRO S. MAIOR/RJ)

Simplesmente Poesia

– Eduardo A. O. Toledo/MG –
POR SOBRE AS NUVENS.

Por sobre as nuvens, meu sonho
vai dedilhando, disperso,
as ilusões que componho
na pauta azul do universo.
Por sobre as nuvens me ponho,
preso às estrelas, imerso,
como se fosse um risonho
canteiro cheio de versos.
Por sobre as nuvens, são tantos
devaneios e acalentos,
que o céu parece um coreto
de estrelas doidas, vadias,
declamando poesias
sob as nuvens de um soneto!!!

Uma Trova de Ademar

Vejo sentadas no chão,
trajadas de desamor;
crianças comendo pão
amanteigado de dor!
(ADEMAR MACEDO/RN)

…E Suas Trovas Ficaram

A morte não me intimida…
Perfil de dor que eu descarto.
A morte é somente a vida
fazendo um segundo parto!
(PAULO CESAR OUVERNEY/RJ)

Estrofe do Dia

Por decreto de um pai onipotente
e por ordem expressa de Jesus,
eu carrego pra sempre a minha cruz
que de Deus eu ganhei como presente;
e agradeço por eu ser tão contente
sem ter mágoa, sem dor, sem fantasia,
a minha vida é um poema de alegria
que eu me sinto feliz em declamar;
no “cotoco” da perna de Ademar
Deus plantou a semente da poesia.
(ADEMAR MACEDO/RN)

Soneto do Dia

– Sônia Sobreira/RJ –
EU GOSTO DA CHUVA.

Gosto da chuva, do seu marulhar,
dos pingos caindo com precisão,
do vento alegre que teima em soprar
folhas molhadas caídas no chão.

Gosto da chuva, do seu gotejar,
águas rolando, enxurrada em roldão
deixando nas pedras brilho sem par,
como o trabalho de fino artezão.

Gosto da chuva a cair sobre mim,
névoa de prata a envolver meu jardim,
que todo encharcado, em brilhos reluz!

Eu gosto de ouvir o som que ela faz,
qual retinir dos mais finos cristais
jorrando do céu, pedaços de luz!

Fonte:
Ademar Macedo

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n.110)

Uma Trova Nacional

Num pesadelo bem chato,
o infeliz grita: “socorro!”
Sonhava que era um gato
e a sua sogra… um cachorro!
(ÉLBEA PRISCILA SILVA/SP)

Uma Trova Potiguar

Sem querer ser mandingueiro,
nem que o corpo não se abra;
respeito o pai de chiqueiro
que manda em tudo que é cabra!
(MARCOS MEDEIROS/RN)

Uma Trova Premiada

1993 > Nova Friburgo/RJ
Tema > “LIVRE” > Menção Honrosa

Com sotaque nordestino
e usando linguagem chula,
grita o ladrão: “Seu menino,
mãos pra riba e não se bula!”
(ALOÍSIO GENTIL PIMENTA/MG)

Simplesmente Poesia

MOTE:
Mulher perto dos setenta,
Já não tem gosto de nada.

GLOSA:
Ela mesma se lamenta
e a cada dia piora,
por tudo, lamenta e chora
Mulher perto dos setenta;
nem o marido aguenta
porque só vive amuada,
fria, nervosa, apagada,
isto aí não é fofoca;
é como comer pipoca…
Já não tem gosto de nada.
(AUGUSTO MACEDO/RN)
(Mulherada, não xinguem meu irmão, Ele já está no Andar de cima! – Ademar Macedo)

Uma Trova de Ademar

O que a mulher não entende
é o seu marido na cama;
seu fogo nunca se acende…
Enquanto ela vive em chama!!!
(ADEMAR MACEDO/RN)

…E Suas Trovas Ficaram

O dentista colocou
nos dentes de Guiomar,
uma ponte e ela pensou:
– deve ser pra dor passar!…
(JOSÉ M. MACHADO ARAUJO/RJ)

Estrofe do Dia

Para montar o balanço
do que já fiz e não faço,
eis o meu novo compasso:
não fumo, não bebo, danço;
desse jeito eu não me canso
quando a velhice vier;
só meto minha colher
naquele prato pequeno…
mulher demais é veneno,
só quero minha mulher.
(JOSÉ LUCAS DE BARROS/RN)

Soneto do Dia

Renata Paccola/SP –
AZAR

Certo dia, acordei de mau humor –
resquício de uma noite mal dormida.
Peguei o carro, e então fundiu o motor,
Segui para o metrô, enfurecida.

Tentei continuar com minha lida,
mas fiquei presa num elevador.
Neste compartimento sem saída,
passei horas de angústia e terror,

e saí sob o som de bate-estaca.
Depois, no meio de um supermercado,
senti a dor de um burro quando empaca.

Foi aí que vi, quase ao meu lado,
irônicos dizeres numa placa:
“Sorria. Você está sendo filmado!”

Fonte:
Ademar Macedo

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Ederson Cardoso de Lima (Livro de Trovas)

Cigana e bela mulher…
Dessa romance eu me ufano.
– Não vive um amor qualquer,
quem vive um amor cigano!

Em cada canto da mente,
o vulto dela flutua!
Não é passado, é presente,
o meu amor continua!

Eu sou quem anula planos
(os grandes planos, talvez).
Rainha dos desenganos,
o meu nome é timidez!

Grita para a garçonete,
um homem simples do povo:
– Vou querer um omelete…
e traga também um ovo!

Imensa expressão na vida,
a renúncia pode ter:
– Quanto mais nobre e doída,
mais nos pode engrandecer!

Já de “porre” um ladrão bronco
cai no sono em casa alheia,
e, traído pelo ronco,
foi roncar lá na cadeia…

Lá, num canto do planeta,
é o siri que “ bota banca” .
O país é tão “careta”
que se chama Siri-Lanca…

Nessa angústia desmedida,
ficou mais do que provado:
eu só me encontro na vida,
se me encontrar ao seu lado!

Nos meus sonhos de guri,
tudo levei de vencida,
mas esse encanto eu perdi
pois hoje apanho da vida!

O café – fonte de renda –
traz-me o tempo de meus pais:
Fui menino da fazenda
no Brasil dos cafezais!

Os pensamentos dispersos
agora tomaram jeito,
pois a Musa de meus versos
divide comigo o leito!

Quem meditar por instantes,
certos conceitos refaz:
– O mais caro dos brilhantes
não vale o brilho da paz!

“Quem sabe ela quer voltar…”
Meu coração não se emenda,
pois não consegue riscar
seu nome de minha agenda!

Somente a troco da “bóia”
trabalhava o comilão.
E foi com essa tramóia
que quebrou o seu patrão.

Sua lira foi – em suma –
de romantismo repleta.
Hoje uma orquídea perfuma,
esse ocaso do poeta!

– Vá com Deus, “bebum” amigo…
E ele, em tropeço, ao andar,:
– Deus, tu podes vir comigo,
mas não precisa empurrar!

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Folclore, Superstição, Lendas e Histórias (Aves do Brasil: Japim)

O Castigo do Japim

O japim é um lindo passarinho. Sua penas são pretas e amarelas. É também chamado de xexéu e joão-conguinho. E, – coisa curiosa – não tem canto próprio. Vive a imitar o canto de outros pássaros. Os índios contam, sobre o japim a seguinte história:

Este passarinho vivia no céu, cantando para Tupã. Quando o chefe dos deuses queria dormir, chamava o japim e ele cantava até que o seu senhor dormisse.

Certa vez, os índios ficaram muito triste, por causa de uma peste terrível que havia atacado as tribos. Resolveram, então, implorar a Tupã que os levasse para o céu, onde não há doenças nem tristezas. É claro que não foram atendidos. Mas Tupã enviou o japim à terra para os consolar.

Com seu canto maravilhoso, o japim expulsou a peste e fez desaparecer as tristezas dos índios. Estes voltaram ao trabalho e ficaram de novo, tranqüilos e felizes. Por isso, pediram a Tupã que lhes desse o japim. Desta vez, o chefe dos deuses os atendeu.

O japim ficou, então, muito orgulhoso. Julgou-se o dono da floresta. E passou a imitar o canto dos outros pássaros por zombaria. Resolveram estes queixar-se a Tupã.

O deus dos índios mandou chamar o japim e censurou-o severamente. Mas o danado do passarinho não se emendou. E continuou a imitar o canto dos outros pássaros.

Tupã ficou indignado e disse para o japim:

– De hoje em diante, perderás o teu canto e só poderás imitar o cantos de outras aves. Além disso, todos os pássaros hão de te odiar e de te perseguir.

E foi o que aconteceu. O japim passou a ser atacado pelas outras aves, que lhe destruíram o ninho e os filhotes. Resolveu então o japim, pedir auxílio às vespas. Estas ficaram com pena do pássaro e disseram:

– Não te aflijas, amigo japim. Farás sempre o teu ninho perto de nossas casas, e coitado daquele que se atrever a destruí-lo. Nós os mataremos com nossas ferroadas.

E, desde então, o japim constrói o seu ninho junto da casa das vespas. Ele perdeu seu canto, mas pode criar seus pássaros.

Fontes:
SANTOS, Teobaldo Miranda. Lendas e mitos do Brasil. 9ª Ed., São Paulo, Ed. Nacional, 1985.

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Lubarrel (Poesias Avulsas)

Pintura a óleo de Constable
View of Dedham. 1814
AS FADAS

Seres iluminados
Cheios de bondade
São como anjos encarnados
Repartindo caridade.

Quem quiser ser uma fada
é tão fácil como o soprar do vento
Basta ter sempre na alma
o amor doando a todo o tempo.

Fada que se presa não empresta
doa o coração sem espera
pois seu galardão é seguro
Quando o seu sentimento é puro.

Fadas no mundo são poucas
mas valem por uma multidão
pois repartindo a bondade
vai ganhando coração.

A cada coração conquistado
Sua aura resplandece
Seu esplendor se enaltece
e o céu sutilmente , agradece.

Procure em seu interior
a fada então adormecida.
Desperte-a cheia de fulgor
e sejas feliz por toda a vida.

TRIBUTO AO MAR

Quando chego à praia
Fico a observar,
Como é revolto
O crepúsculo do mar.

O inefável murmurar das ondas
Induz meu peito a palpitar.
Dilacera a minh’alma,
Faz meu corpo trepidar.

O negrume da noite
Em contraste com a luz do luar,
Adorna, reluz e inebria
Essa imensidão salutar.

E eu fico a observar
O quase inexorável,
Adorável e infinito
Esplendor divino.

Oh, doce paz!
Ameaçada pelo ser audaz
Que se diz inteligente
E polui…Polui…Somente.

PLACIDEZ NOTURNA

Sento-me embaixo do arvoredo
Sob a sombra plácida e noturna.
Observo atentamente e percebo
Que a sublimidade não se desfigura.

Ainda em meu olhar atento
Pressinto que não estou só.
A altivez da folha farfalhando ao vento
Dá-me a certeza do que há ao redor.

As nuvens que povoam o céu
Não são as que me povoam por dentro.
Dentro, minhas nuvens fazem escarcéu
E as do céu incitam o meu sentimento.

O arrebol que a pouco se findara,
Aliciou a terra e debelou o momento.
Cheia de fulgor a terra se depara
Com a mágica transformação do tempo.

Aos poucos a natureza adormece
E os vigias soturnos sobrevoam ao léu.
Ouço sons suaves que enaltecem
A beleza inexprimível desse imenso véu.

REFÚGIO

Amo a noite cálida.
Inebriada fico a vagar,
Por entre as sombras plácidas,
Acalentadas pela luz do luar.

Noites de amores e súplicas,
Eternos e afoitos desejos,
Propicia a um amor encontrar.
Oh, noite! Irás me ajudar?

Procuro um amor saliente
Que preencha o meu coração.
Aplaca a minha sede,
Invada a minha existência
E suga a minha razão.

Na noite ardilosa,
Razões e incertezas
Caminham lado a lado.
Na aurora do porvir,
Quem vencerá de fato?

Sentimentos que me afloram
São incertos devaneios.
Tento vencer o medo,
Buscando fins através dos meios
Pra sair da solidão.

E por isso me refugio
Sob o véu negro do céu,
Que toca o meu ego.

Oh, noite!
Tira-me desse ardor,
Dessa dúvida…
Não me deixe ao léu.

ODE A IARA

Doce veneno
Entorpece o meu ego,
Aniquila a minha razão,
Esmaga o meu coração
Que sedução!

Debruço-me sobre o teu olhar
Que me inebria e enlouquece.
Ponho-me a admirar
Tua cauda escamada
A sacolejar ao léu,
Mostrando-me os recôncavos do céu.

Musa de meus sonhos
Desvairados e inconseqüentes.
És onisciente presente
Com teus lábios tão eloqüentes.

De teus lábios as notas que saem
Chegam suaves aos ouvidos meus.
Um dia, hei de sagrar o teu canto
Deixarei os meus prantos
E me entregarei aos encantos teus.

REENCONTRO

Quando os meus olhos se detêm aos seus
Em apenas um milésimo de segundo
O tempo perde-se no infinito,
A razão não tem mais razão de ser…
As entranhas de minh’alma se estremecem
Quando estou perto de você.

Meus pensamentos se põem a vagar
Em busca dos pensamentos seus.
Diga-me onde poderei lhe encontrar
Para o meu sol se pôr junto ao seu.

Procuro no ar, nas estrelas e no luar,
Solução para os anseios meus.
Sua presença em mim é salutar,
Reaviva o meu ego, inebria o meu “eu”.

Quero encontrar novamente
Você no íntimo do meu ser
Para que eu possa finalmente,
Ver o amor em mim, florescer.

Fonte:
http://www.revista.agulha.nom.br/lubarrel.html

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Luciene Barrel (Lubarrel)

Autobiografia

Lubarrel nasceu em Governador Valadares, situada a leste de Minas Gerais. Quando pequena, ativa e conversadeira, se dava bem com todas as coleguinhas do meio em que vivia. Gostava de ficar horas e horas lendo um livro de literatura que sua irmã mais velha estudava no curso superior de Letras. Fato esse que a ajudou muito.

Hoje, é professora primária, graduada no curso Normal Superior, Magistério de 2º grau , Adicional de Pré-escolar, Curso Técnico em Administração de Empresas.

Apaixonada pela literatura e pela arte de forma geral, teve duas poesias classificadas em 6º lugar, no X Concurso Internacional de Primavera promovido por Arnaldo Giraldo, as quais foram publicadas no livro “A Forja da Liberdade”. Tem uma poesia publicada na 16ª e outra na 21ª antologia, do CBJE (Clube Brasileiro dos Jovens Escritores).

Suas poesias encontram-se registradas na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

Escreveu vários contos: Renascimento, que retrata a vida de uma conhecida; Uma pequena peça de teatro “O Debate Ecológico” que fala sobre a fotossíntese e repassa a mensagem de amizade; “Perdão Assustador” que retrata uma realidade vivenciada por um antepassado, e outros.

Fonte:
http://www.revista.agulha.nom.br/lubarrel.html

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Machado de Assis (Análise dos Contos de “Várias Histórias”: 7. Trio em Lá Menor)

Análise realizada por Maria Inês Werlang Ghisleni (Mestre em Letras pela Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC)) , sob o título Machado de Assis e a Música: Uma Análise do Conto “Trio em Lá Menor”
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O conto se encontra em http://singrandohorizontes.blogspot.com/2009/03/machado-de-assis-trio-em-la-menor.html
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A TEORIA MUSICAL NO CONTO “TRIO EM LÁ MENOR”

No conto “Trio em lá menor”, Machado de Assis utiliza elementos da teoria musical no título, subtítulos e em toda a seqüência narrativa, relacionando a linguagem musical ao significado do próprio conto. Percebe-se ainda o intuito do autor de traduzir o que se passa no interior das personagens nas diferentes partes do texto através da música.

Segundo Kiefer (1987,) nas escalas musicais, há tons maiores e tons menores. Os tons maiores, como, por exemplo, lá maior (Lá M) ou dó maior (Dó M) transmitem alegria, júbilo, são festivos, cheios, harmônicos. Já os tons menores, como lá menor (Lá m) ou dó menor (Dó m), são tristes e traduzem sentimentos de melancolia e tristeza. Com o título “Trio em lá menor”, Machado de Assis quer nos adiantar a informação de que o conto vai tratar de uma história cujo desfecho não será feliz. Para o leitor menos avisado, poderá parecer que não há relação entre o texto e as expressões da teoria musical que Machado usou em todo o percurso da sua narrativa. Entretanto, a cada ocorrência de um desses signos, corresponde um sentido no desenrolar das ações. O título e os subtítulos são marcadores de significado musical que direcionam o pensamento do leitor para o que vai acontecer a seguir.

As expressões musicais presentes no texto nos apontam características da personalidade e também dos sentimentos de Maria Regina, protagonista da história, ilustrando seu estado de espírito em cada um dos momentos da seqüência narrativa.

“Trio em lá menor” narra o que poderia ter sido uma história de amor, mas não chegou a se concretizar. Maria Regina amava dois homens ao mesmo tempo: Maciel com 27 anos e Miranda, de 50 anos. Com esse cenário, surge o triângulo amoroso, o que já se poderia imaginar a partir das idéias que o título sugere.

Ao levarmos em consideração a teoria musical da qual Machado magistralmente se serve, poderemos antever que esse será um conto com um triângulo amoroso marcado pela tristeza, cujo final será, possivelmente, também infeliz.

ADAGIO CANTABILE

Machado introduziu a primeira parte do conto com o subtítulo de Adagio cantabile. Nessa primeira parte, o problema é apresentado e, após a visita dos dois homens que estavam enamorados por ela, Maria Regina sozinha, em seu quarto, põe-se a pensar em ambos. Há para este cenário um fundo musical, cantarolado pela personagem enquanto reconstitui, de memória, cada palavra da conversa ocorrida. É a melodia da sonata por ela executada ao piano momentos antes na sala, durante a visita.

Em linguagem musical, conforme Cosme (1959), Adagio refere-se a um andamento lento. Andamento é o grau de velocidade com que um trecho musical é executado. Uma composição pode conter várias partes que são chamadas de movimentos. Cada um poderá ser escrito para uma velocidade diferente. Os andamentos podem ser lentos, moderados ou rápidos. Dentro da sua categoria, Adagio é o menos lento, já próximo ao moderado. A primeira parte de uma música sempre mostra o tema, isto é, a melodia que vai ser desenvolvida a seguir. Por exemplo: a introdução, em música, é um movimento não muito longo, que costuma apresentar variações sobre o fraseado melódico que a peça contém no seu corpo principal.

Na primeira parte, portanto, aparece uma pequena amostra do tema. É o caso do Adagio cantabile no conto “Trio em lá menor”. Segundo Kiefer (1987), outra característica do Adagio é que permite ornamentos. Em música, ornamentos são sons extras com o objetivo de embelezar sem, no entanto, modificar ou se sobrepor ao tema melódico.

Esses significados de Adagio para a música podem ser aplicados para explicar essa primeira parte do conto. Sendo Adagio cantabile, o subtítulo significa um andamento lento que pode ser cantado, isto é, o tema deve ser interpretado como se estivesse sendo cantado. O fraseado melódico é executado com esse espírito para causar essa mesma sensação em quem ouve. Fica nítido para quem escuta que a música ainda não terminou. Não contém som conclusivo. É um movimento para o qual haverá seqüência. Poder-se-ia dizer que haverá solução. De acordo com Harnouncourt (1990), na música, essa solução chama-se resolução, que é o som que finaliza.

Ao ler a primeira parte descobrem-se pistas do que vai ser tratado. Tal como na música, são apresentadas pinceladas sobre o assunto principal do conto. Como no Adagio cantabile, os eventos surgem um tanto lentos, mas carregados de sentimentos como se estivessem sendo cantabile. A história começa enfeitada por detalhes de beleza da personagem e dos seus sentimentos de amor, respeito e busca da perfeição. Já que também o Adagio pode conter floreios, essa é uma relação direta com a apresentação do triângulo amoroso nesse início do conto: ressaltando o que é bom e belo.

ALLEGRO MA NON TROPPO

Na segunda parte do conto, chamada de Allegro ma non troppo, inicia o desenvolvimento da história. Há um fato envolvendo um dos homens. Maciel arrisca sua vida jogando-se na frente dos cavalos de uma carruagem para salvar um menino que imprudentemente atravessara a rua. Na carruagem, estão Maria Regina e sua avó. A tragédia é evitada, com ferimentos inexpressivos para ambos: vítima e salvador. A partir desse episódio, são ressaltados atributos positivos da personalidade do novo herói, Maciel. Maria Regina reconhece nele tantas qualidades que chega a se perguntar onde arranjaria melhor noivo.

Nessa segunda parte não aparece Miranda e nem Maria Regina menciona ter lembrado dele. Esse fato inclina o leitor a pensar que ela poderia ter se decidido a escolher Maciel, colocando fim ao triângulo amoroso, já predizendo um clássico final feliz, mas tal não acontece.

Analisando pela teoria musical, podemos referir dois significados. O primeiro seria em relação ao andamento dos eventos no conto. Allegro é um andamento rápido. Essa segunda parte chama-se Allegro ma non troppo, isto é, rápido, mas não muito. O desenrolar das ações acontece exatamente como a música descreve esse andamento. O fato concreto, ou seja, o salvamento protagonizado por Maciel, ocorre no início e logo Maria Regina devota-lhe profunda admiração.

Em seguida, transfere indevidamente seu deslumbramento pela atitude do rapaz para os sentimentos que nutria por ele, confundindo o próprio coração. Tal falta de discernimento deixa o leitor em dúvida sobre o futuro do triângulo amoroso.

A direção dos acontecimentos, no relato de Machado, aponta para um lado, vai mais rápido do que no Adagio, que é a primeira parte, mas não com muita velocidade. Em seguida, no final desse segmento, ficamos com uma concreta sensação de que os fatos não estão se encaminhando para a resolução do problema.

O segundo significado, de acordo com Wisnik (2004), o qual também pode ser relacionado com a música é a alegria no real sentido da palavra. Allegro ma non troppo começa com um ato heróico. A mocinha fica feliz, como que inebriada pela coragem do seu herói e, na seqüência, há demonstrações de contentamento. Em cada acontecimento, ela vai sendo tomada por uma satisfação comparável à alegria. Tal sentimento, porém, não é consistente, o que pode ser referido ao significado de ma non troppo porque, já no início da parte seguinte, seu encantamento por Maciel vai enfraquecendo até tornar-se insuficiente.

ALLEGRO APPASSIONATO

Allegro appassionato, terceira parte do texto, é a continuação da visita que Maciel estava fazendo a Maria Regina na noite do mesmo dia do salvamento. A conversa entre Maciel e a avó sobre futilidades corre solta e os sentimentos de Maria Regina vão passando de interesse para indiferença pelo rapaz. Ela tentava se prender na admiração ao belo gesto dele, mas tudo era insuficiente. Logo se descobria entediada de sua presença. Recorria, então, a um singular expediente: criava um personagem que existia só na sua imaginação. Construía uma combinação entre o presente (Maciel, na sua frente) e o ausente (Miranda que não a estava visitando naquele momento). Olhava para um, escutando o outro, de memória. Sua imaginação era tão eficaz que ela conseguiu, por algum tempo, contemplar uma criatura perfeita e única, porém inexistente, pela qual se via completamente apaixonada. Sua paixão era por uma pessoa ficcional.

Mais tarde, quando chegou Miranda, o seu segundo enamorado, Maciel se retirou. Maria Regina, então, na ordem inversa recorreu ao mesmo artifício. Voltou a construir na sua imaginação a complementação de um pelo outro. Na sua frente agora estava Miranda, que, embebido, a escutava na execução de uma sonata ao piano. Nele encontrava a expressão de uma porção de idéias que dentro dela lutavam vagamente sem forma. Tinham o mesmo gosto artístico: amavam a música. Ao contemplá-lo, sentiu nele uma expressão de pedra e fel.

Lembrava-se, então, do Maciel franco, meigo e bom. E, no seu pensamento, um ser irreal tomava forma, mais uma vez, reunindo o que a encantava em cada um deles.

Voltando-se para a interpretação através do que a música apresenta, Allegro appassionato, conforme Kiefer (1987) e Cosme (1959), é um andamento de certa velocidade, mas com claro tom apaixonado. Traduz paixão, move-se pela paixão. É executada apaixonadamente. A paixão é marca forte capaz de transmitir e despertar esse sentimento em quem a ouve.

Enquanto Maria Regina tocava ao piano a sonata ouvida por Miranda, ia formulando mentalmente a figura que amava: juntava este (Miranda) com o outro (Maciel). Amava as idéias e gostos do Miranda com a imagem e a bondade de Maciel. Estava apaixonada por esse terceiro homem, que ela não conhecia. Ele representava o objeto da sua espera e motivo da sua indecisão.

Com o fragmento “… e a música ia ajudando a ficção, indecisa a princípio, mas logo viva e acabada“ (p.135), confirma-se a intenção de Machado em se servir da teoria musical para explicar o conto como um todo, cada uma das partes separadamente e, dentro delas, os eventos que vão se entrelaçando rumo ao final do texto ou em busca de solução.

MINUETO

Minueto, a quarta parte do conto “Trio em lá menor”, inicia com incerteza de tempo transcorrido e reconhecimento da insuficiência individual dos dois homens. A indecisão de Maria Regina aborreceu-os até que, perdidas as esperanças, saíram para nunca mais. Após várias noites transcorridas, quando se convenceu de que estava tudo acabado, Maria
Regina foi até a janela observar os astros. Procurou no céu a confirmação de uma notícia lida no jornal, informando haver estrelas duplas que parecem ser um só astro. Não encontrando no firmamento o que buscava, procurou dentro de si mesma, fechando os olhos. Ao penetrar em seu interior, viu ali dentro a estrela dupla e única. Separadas, valiam bastante, juntas, davam um astro esplêndido. Ela queria o astro esplêndido. Ao abrir os olhos, percebeu a imensa distância que a separava do céu. E se desesperou porque teve consciência da impossibilidade de alcançar o astro escolhido. Notou que estava visualizando fora de si os astros que edificara em sua mente, então deitou e dormiu. Em seu íntimo, transitavam sentimentos de insaciedade, ambição, não contentamento e exigência de perfeição. Maria Regina sonha. No seu sonho, voa na direção de uma bela estrela dupla. O astro desdobra-se e ela fica vagando entre as duas porções em busca do sentimento de satisfação. Foi então que surgiram do abismo palavras incompreensíveis para ela, mas não para o leitor.

A voz disse que a pena de Maria Regina seria oscilar, por toda a eternidade, entre dois astros incompletos. No mesmo instante, a voz afirma que a eterna busca da personagem será sempre acompanhada pelo som da sonata do absoluto: lá, lá, lá… . O leitor entende que as palavras que a protagonista ouviu em sonhos reforçam a idéia do triângulo amoroso na sua vida. Ou ela não encontra o que idealiza ou então não se satisfaz com os valores de um único personagem, não conseguindo assumir uma escolha. Persiste, portanto, a insatisfação que gera o triângulo, antes caracterizado pelos dois homens e agora concretizado na busca por duas estrelas.

Continua, porém, na vida de Maria Regina a constante companhia da música que, nesse momento, é registrada pelo fundo musical proveniente da “velha sonata do absoluto: lá, lá, lá” (p.138).

Ao dizer velha, Machado quer se referir à sonata que a personagem central costumava tocar ao piano desde o início do texto. Ao referir-se a essa composição como “absoluto”, o autor quer defini-la como completa, perfeita, significando que, embora a vida das personagens possa ter tomado um rumo sem final feliz, o mesmo não acontece com a música cujo final repousa sobre um som harmônico.

Tentando entender essa quarta parte pela teoria musical, precisamos lembrar que Minueto é uma peça composta em compasso de três por quatro ao qual chamamos ternário. Conforme Cosme (1959), surgiu em 1650 e serviu para acompanhar uma dança francesa de mesmo nome na corte do rei Luís XIV. É importante registrar que há outra composição musical em compasso de três tempos chamada valsa. Embora possua certa semelhança, há características que a diferenciam do Minueto, sendo que a valsa popularizou-se através dos tempos, ficando conhecida, especialmente, como composição musical de três tempos para dança de salão.

Os episódios aqui relatados mostram eventos marcados por três personagens. Há uma tentativa de solucionar o problema do triângulo amoroso na segunda parte (Allegro ma non troppo), porém, nas seqüências descritas, percebe-se que tal situação é insolúvel já que a possibilidade de resolvê-lo é ficção: foi edificada no plano da imaginação. Quando dois personagens saem da história finalmente se desfaz o triângulo amoroso e Maria Regina continua sua busca. Duas estrelas tornam-se seus dois objetos de interesse. A personagem passa a se movimentar de uma para outra sem conseguir sentir satisfação com uma ou outra. Há, portanto, a manutenção de uma situação em que três elementos estão novamente em jogo.

Podemos relacionar tais fatos com os três tempos da composição chamada Minueto. Do início ao fim da peça, as notas se sucedem sempre obedecendo ao compasso ternário. Exatamente como no conto. Inicialmente com três personagens e, no final, com Maria Regina entre dois astros, os eventos vão seguindo seu percurso, mantendo o ritmo de três tempos como acontece com as notas musicais nos tempos do Minueto.

É importante também mencionar que Minueto é uma composição musical completa e não um andamento da música como são as outras partes do conto. Da mesma forma, Machado, na quarta parte do conto, não se refere a um andamento do romance, pois extinguiu-se. Fala, porém, da vida de Maria Regina, que se move entre dois objetivos. Aborda o tema da eternidade, afirmando que, para a personagem exigente de perfeição e incapaz de sentir satisfação, o ritmo da vida será sempre de três tempos tal qual o Minueto. Na dança de mesmo nome, os pares se deslocam em movimentos variados. Tomam direções diversas, ora para um lado, ora para outro e a dança, como os dias, as semanas e a vida, vai transcorrendo. O som da música acompanha todos os movimentos da dança.

Assim também ocorre no texto de Machado de Assis. Durante todo o conto há a presença da música no enredo, todas as vezes em que a personagem executa a sonata ao piano. E, em outros momentos, a sonata aparece como pano de fundo enquanto a protagonista relembra fatos e conversas. No final do conto, há o registro de que a sonata do absoluto é um fundo musical permanente para a vida daquela que, não conseguindo satisfazer-se com o que encontrou de bom num ponto, continua a oscilar entre dois objetos. A única companhia absoluta, completa que lhe restou foi a da sonata.

Machado de Assis se serve da teoria musical com muita propriedade e não por acaso usa a sonata para sugerir perfeição, porque sonata é uma composição musical em três ou quatro movimentos destinada a um instrumento de teclado. Suas diferentes partes têm começo, meio e fim, revelando-se completa. Movimentos são cada uma das partes que compõe a sonata. Os movimentos são escritos em diferentes andamentos, pois, dentro do mesmo tema, cada um deles tem algo diferente a comunicar. Formam um conjunto harmoniosamente belo, completo, perfeito e absoluto. O som da sonata, sempre presente no pano de fundo, complementa o clima significativo dos eventos.

Também no conto “Trio em lá menor”, as partes são individuais, com características próprias. Juntas formam, como na sonata, um todo completo, com início, desenvolvimento e fim.

Diante de tudo o que foi descrito pode-se dizer que não foi acidentalmente que Machado utilizou a linguagem musical para descrever o conto. Ficou demonstrado que o autor era profundo conhecedor da teoria musical, pois a música referendou o significado de cada uma das partes do conto em particular. Esteve presente no decorrer de toda a narrativa, deixando marcada sua função em todos os momentos. E, mais especialmente, quando a personagem principal colocava-se em silêncio para recordar. Nesses momentos as palavras calavam, mas o som musical continuava a ser escutado por Maria Regina como acompanhamento para seus pensamentos, acrescentando-lhes maior significância. Essa é uma amostra da intensa ligação de Machado e das suas personagens com a música e, nesse conto, com a sonata, em particular.

CONCLUSÃO

No título “Trio em lá menor”, e em todo o desenrolar dos acontecimentos percebe-se claramente que a teoria musical, permeia os eventos, agregando significado ao desenrolar da trama e oferece ao leitor uma oportunidade extra de conhecimento, que o torna capaz de melhor entender a personalidade que o autor pretende para a personagem central de sua obra. A narrativa assume uma maior significância, não ficando limitada ao enredo em si, pois desvenda muito mais do que os simples fatos. O leitor, ao enxergar através do véu, que é o texto de Machado, abre um leque de interpretações e descobre a música.

“Trio em lá menor” é mais uma obra machadiana em que o autor se releva como grande analista da alma humana. Pouco importam as circunstâncias que envolvem a protagonista, a não ser para perscrutar o que se passa em seu íntimo. A ânsia de perfeição que Maria Regina busca em seus namorados reflete a intenção de Machado em mostrar que a criatura humana jamais vai alcançar seus intentos, ficando irremediavelmente só, nesse caso, com sua música. Revela uma visão da vida, em as pessoas da sociedade de sua época têm ambições desmedidas em busca da perfeição numa sociedade imperfeita.

Ao utilizar-se da música como complemento do texto, Machado revelou seu profundo conhecimento e admiração por ela. Em cada momento em que se percebeu a presença da música entrelaçada ao conto, ela colaborou para que o leitor sentisse maior prazer na leitura. A música vai além dos limites que as palavras impõem. Seu entendimento é amplo e, principalmente, subjetivo, outra marca machadiana.

REFERÊNCIAS
ASSIS, Machado de. Trio em lá menor. In:__. Várias histórias. São Paulo: Mérito, 1961, p.125-
138.
COSME, Luís. Introdução à música. 2. ed. porto Alegre: Globo. 1959.
HARNONCOURT, Nikolaus. O discurso dos sons. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1990.
KIEFER, Bruno. Elementos da linguagem musical. 5. ed. Porto Alegre: Movimento, 1987.
TOMÁS, Lia. Ouvir o lógos: música e filosofia. São Paulo: UNESP, 2002.
WISNIK, José Miguel. O som e o sentido. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
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Continua… análise do conto 8. Adão e Eva
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Fonte:
Santa Cruz do Sul, v. 33 n especial, p. 88-98, jul., 2008. http://online.unisc.br/seer/index.php/signo/index

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Participação no Fanzine Episódio Cultural – Machado-MG

COMO PARTICIPAR NAS EDIÇÕES DO EPISÓDIO CULTURAL?

O Fanzine Episódio Cultural é uma publicação bimestral sem fins lucrativos, distribuído na região sul de Minas Gerais, São Paulo (capital), Belo Horizonte e Salvador-BA.

Para participar basta mandar um artigo:

poema, um conto que não ultrapasse 1 folha inteira no word (Times Roman 12).

Pode mandar também artigos que abordem: cinema, teatro, esporte, moda, saúde, comportamento, curiosidades, folclore, turismo, biografias, sinopses de livros, dicas de sites, institutos culturais, entre outros.

Mande em anexo uma foto pessoal para que seja publicada juntamente com a sua matéria..

Mande também (se desejar) uma imagem correspondente ao assunto abordado.

Caso o artigo não seja de sua autoria, favor informar a fonte.

CONTATOS COM CARLOS (Editor)
machadocultural@gmail.com

Fonte:
Movimento União Cultural

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Escola do Escritor (Cursos e Oficinas de Literatura)

29/01/2011 – Sábado –
Horário: das 9h00 às 16h00
Como montar e administrar com sucesso uma Editora
Docentes: João Scortecci e Maria Esther Mendes Perfetti

03/02/2011 – Quinta-feira –
Horário: das 15h00 às 20h00
Conhecendo e escrevendo literatura infantil
Docente: Ricardo Ramos Filho

05/02/2011 – Sábado –
Horário: das 9h00 às 14h00
A Arte de escrever, publicar e comercializar o produto livro –
Questões Práticas do Direito Autoral
Docentes: João Scortecci e Maria Esther Mendes Perfetti

07/02/2011 – Segunda-feira –
Horário: das 16h00 às 20h00
Marketing Editorial – Divulgando o seu livro e sua imag em na mídia
Docentes: João Scortecci e Maria Esther Mendes Perfetti

08/02/2011 – Terça-feira –
Horário: das 16h00 às 20h00
Preparação e Revisão de textos na edição de livros e publicações periódicas
Docente: Ana Cristina Mendes Perfetti

10/02/2011 – Quinta-feira –
Horário: das 16h00 às 20h00
A WEB e as Redes Sociais – As oportunidades de negócios por meio de novas tecnologias
Docente: Luiz Semine

11/02/2011 – Sexta-feira –
Horário: das 16h00 às 20h00
Livro de Família – Resgatando o presente e o passado
Docente: Armando Alexandre dos Santos

12/02/2011 – Sábado –
Horário: das 9h00 às 16h00
Segredos para despertar a sua criatividade –
Descubra o escritor que existe dentro de você!
Docente: Armando Alex andre dos Santos

Mais Informações e Inscrições:
http://www.escoladoescritor.com.br/home.php

ESCOLA DO ESCRITOR
escoladoescritor@escoladoescritor.com.br
http://www.escoladoescritor.com.br/
(11) 3034.2981

——
Fonte:
Movimento União Cultural http://uniaocultural.blogspot.com/

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Abilio Pacheco (Cheiro de café)

Não há nada que mais me pareça com a crônica que o cheiro do café.

É uma metáfora olfativa, sinestésica; não deveria explicá-la. Fico tentado a encerrar o texto por aqui. Continuo.Afinal posso até escrever contos curtos, mas ainda não optei por treinar as crônicas curtas, embora elas pareçam correr no meu dia a dia. Quem sabe eu tente ainda escrevê-las.

O cheiro do café: matutino, fresco, suave, de leve amargor… Caminhando pelo condomínio pela manhã, fazendo academia, assistindo ao noticiário matutino ou tentando se fechar do mundo num escritório/gabinete é sempre esse gostinho que chega às narinas trazendo um novo dia, as novidades do dia. Mesmo os barulhos da cidade chegam com o café e, antes dele, o seu cheiro.

A crônica seria esse agradável sabor de fragrância noviça e breve. Relativamente pontual e tão ligada ao presente. Logo surgindo e logo esvaecendo, mas sempre retomada.

A crônica, a despeito de ser chamada gênero menor, tem seu mistério. Mesmo quem não gosta de café, gosta de seu cheiro, mesmo quem não aprecia literatura ou não tenha hábito de ler, curte uma crônica. Se bem usada, a crônica traz para literatura o leitor iniciante, como o cheiro do café chama para a mesa, convida para uma boa conversa e, mesmo não o bebericando, a mesa fica rodeada e o diálogo flui.

A crônica, atrativa… logo o leitor prova de toda literatura: haicais, sonetos, poemas mais longos, contos, romances…

Fonte:
Colaboração do Autor

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Machado de Assis (Análise dos Contos de “Várias Histórias”: 6. A Causa Secreta)

Análise realizada pelo Prof. Bartolomeu Amâncio da Silva. Bacharel em Letras, pela USP, professor de literatura da rede Objetivo (colégios e cursos pré-vestibular).
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O conto pode ser obtido em http://singrandohorizontes.blogspot.com/2009/01/machado-de-assis-causa-secreta.html

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O conto A Causa Secreta é um dos mais fortes de Machado de Assis. Sua estrutura narrativa lembra um pouco a de A Cartomante, com início abrupto, flashback e retomada do eixo em direção ao desfecho. Machado faz talvez um de seus melhores “desenhos psicológicos”. Revela-nos a personalidade de um sádico, capaz de realizar “boas ações” desde que estas lhe permitam o exercício de seu prazer. A descrição da tortura a que submete um rato é página antológica na literatura brasileira.

Em 3ª pessoa, o narrador onisciente constitui uma notável caracterização psicológica em que revela, ao fazer o estudo do personagem Fortunato, o ápice do prazer que é conseguido na contemplação da desgraça alheia. O motivo do conto é explicar o verdadeiro sentido do termo “sadismo”. Conta a estória de dois homens que, após um salvar a vida do outro e passar-se algum tempo, tornam-se sócios. Mas pouco a pouco um deles vai demonstrando tendências sádicas, torturando animais, fato que atordoa a esposa. Quando ela morre, Fortunato, o sádico, presencia o amigo beijar a testa da mulher e derreter-se em choro, saboreando o momento de dor do amigo que lhe traía.

Um conto naturalista. Ainda que a ambientação seja burguesa, os personagens parecem ratos de laboratório, uma analogia bastante explorada pelo autor na cena mais forte do texto em que o personagem Fortunato tortura um rato, cortando-lhe as patas lentamente, revelando todo o sadismo (patologia) que até então estivera oculto de todos, inclusive dos leitores.

A análise do conto A Causa Secreta, mostra que na perfeita normalidade social de Fortunato – um senhor rico, casado e de meia-idade, que demonstra interesse pelo sofrimento, socorrendo feridos e velando doentes – reside, na verdade, um sádico, que transformou a mulher e o amigo num par amoroso inibido pelo escrúpulo. Este escrúpulo, que gera o sofrimento do par, é a causa secreta do prazer de Fortunato e de sua atitude de manipulação de que o rato, no conto, é símbolo (Garcia, o protagonista, estaca perante a representação do horror. Fascinado perante o gesto frio de Fortunato, Garcia não faz sequer um gesto. Apenas contempla o sócio torturar lentamente um rato. Cortes meticulosos, pata a pata, precediam a queima do mesmo no fogo. O lento ritual prolongava o prazer. O narrador não subsume a cena em poucas palavras, mostrando-a por inteiro ao leitor).

Assim, de um narrador onisciente, nos principia o relato de um triângulo amoroso, trama comum a diversas ficções machadianas, enriquecida aqui de uma novidade incomum nas demais, o sadismo.

Em A Causa Secreta, Machado faz talvez um de seus melhores “desenhos psicológicos”. Revela- nos a personalidade de uma pessoa, capaz de realizar “boas ações” desde que estas lhe permitam o exercício de seu prazer.

Começa-se com a informação de três pessoas, uma calma (Fortunato), outra intrigada (Garcia) e ainda uma terceira, tensa (Maria Luísa). Garcia havia visto pela primeira vez Fortunato durante a apresentação de uma peça de teatro, um “dramalhão cosido a facadas”. Este dava uma atenção especial às cenas, quase como se se deliciasse. Vai embora justo quando a obra entra em sua segunda parte, mais leve e alegre.

Mais tarde, Garcia volta a vê-lo quando do episódio de um esfaqueado, para o qual Fortunato dedica atenção especial durante o seu estágio crítico, tornando-se frio, indiferente quando a vítima melhora. Fica, portanto, seduzido pelo mistério sobre a explicação, a causa secreta de um comportamento estranho (não se deve esquecer que a postura de Garcia assemelha-se, guardadas as devidas proporções (já que não é dotado de onisciência), aos santos de Entre Santos, pois é dotado da capacidade de prestar atenção à personalidade humana. É, pois, quase um alter ego de Machado de Assis).

Tempos depois, passam a se encontrar constantemente no mesmo transporte, o que solidifica uma amizade. É a oportunidade para que o homem misterioso convide o amigo para conhecer casa e esposa. Estreitada a relação, duas conseqüências surgem daí. A primeira é a identificação entre Garcia e Maria Luísa, mulher do amigo. A sorte é que não se desenvolve nada mais do que isso. A segunda é a clínica que os dois homens vão abrir em sociedade. Nela, Fortunato vai-se destacar como um médico atencioso, principalmente para os doentes que se encontram no pior estágio de sofrimento.

E para aprimorar suas técnicas, pelo menos é o que confessa à cônjuge, o personagem dedica-se a dissecar animais. Chocada com o sofrimento dos bichos, Maria Luísa pede intervenção a Garcia, que faz com que Fortunato não praticasse mais tal ato, pelo menos, ao que parece, na clínica, tão perto da esposa.

A narrativa torna-se mais crítica quando Fortunato é flagrado vingando-se de um rato que supostamente teria roído documentos importantes: de forma paciente vai cortando as patas e rabo do bicho e aproximando do fogo, com cuidado para que o animal não morresse de imediato, possibilitando, assim, o prosseguimento do castigo. Maria Luísa havia pedido para Garcia interromper aquela cena, que foi a que justamente provocou o início do conto. A partir daí, encaminhamo-nos para o desfecho.

A mulher desenvolve tuberculose. É quando seu marido dedica-lhe atenção especial, extremada no momento terminal, ao qual ela não resiste. O final do texto é crucial para a total compreensão da história. Velando o corpo fica Garcia, enquanto Fortunato dorme. Em certa hora da noite, este acorda e vai até o local onde está a defunta. Vê Garcia dando um beijo naquela que amou. Ia dar um segundo beijo, mas não agüentou, entregando-se às lágrimas. Fortunato, ao invés de ficar indignado com a possibilidade de triângulo amoroso, aproveitou aquela dor “deliciosamente longa”. Descobre-se, assim, o seu caráter sádico.

É interessante notar como o autor deslinda aqui um comportamento doentio que norteia ações que aos olhos da sociedade podem parecer da mais completa bondade e dedicação ao próximo. É uma temática muito comum em Machado de Assis a idéia de que a aparência opõe-se radicalmente à essência.
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Continua… análise do conto 7. Trio em Lá Menor
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Fonte:
http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/analises_completas/v/varias_historias

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Associação Poetas na Praça (Convite para 14 de Março, em Salvador/BA)

Convite

Associação Poetas na Praça, convida para o grandioso evento, o 14 de Março, DIA NACIONAL DA POESIA, em homenagem ao 164º. Aniversario de nascimento do poeta Castro Alves.

Já há décadas realizamos com poetas do país e vindos de outros paises. Possibilitando o intercambio cultural vivo, trocando informações do que é de novo da nova linguagem poética.

Programação Dia 14 de Março

Local – Praça Nacional da poesia, Salvador, Bahia, Brasil

10 H : Abertura – Exposição de artes plástica

10:15 CRIANÇARTE (trabalhos pedagógicos com crianças , Pintura criação livre

11 H Recital dos Poetas na Praça e Lançamentos de livros de poetas convidados

13 H Distribuição do Poster e Biografia de Castro Alves

Lançamento da Coletânea dos Poetas na Praça em Homenagem a Castro Alves,

15 H Show Musical

16 H Show Folclórico

17 H Recital aberto

Sede – Rua Carmosina, 17, Barros Reis, Salvador, Bahia, Brasil
Tel. 5571 88042608
http://www.poetapedrocezar.com/ poetasnapraca@hotmail.com

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Ponto & Vírgula (Programação de 28 de janeiro a 4 de fevereiro)


Ribeirão Preto, 28 de janeiro de 2011.

.
Novidades do “Ponto & Vírgula” para a semana de 28 de janeiro a 04 de fevereiro de 2011, na TV/RP – Canal 9 – Net. Inédito hoje as 22.30h e várias reprises, conforme horário abaixo.

sábados: 16.30h
domingos: 17.30h
terças-feiras: 13.30h
quartas-feiras: 23.00h

1º Bloco

Curiosidades Literárias: União Brasileira de Trovadores.

Dicas de Português.

A Poeta de Ontem: Clarice Lispector – Poema – “Sonho”

O Poeta de Hoje: Marcos Moreira – Poeta Ribeirãopretano – Poema – “Pescador de Almas”.

2º. Bloco

– Entrevista: Coimbra – O Peregrino

– Ouvi e Gostei – “Canon in D” de Johann Pachelbel

Fonte:
Irene Coimbra

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n.109)

Uma Trova Nacional

Quando a noite vem chegando,
no peito bate a saudade,
sirvo o vinho e vou sonhando
com o amor da mocidade.
(CARMEN PIO/RS)

Uma Trova Potiguar

Já não há nenhum respeito
por nós, os seres humanos!
A violência é o conceito
ideal para os insanos.
(ROSA REGIS/RN)

Uma Trova Premiada

2008 > Bandeirantes/PR
Tema > AUDÁCIA > Menção Especial

Tem, do herói, santo ou profeta
– em meio às guerras e a dor –
a mesma audácia, o poeta
que teima em falar de amor!
(THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA/SP)

Simplesmente Poesia

– Solano Trindade/PE –
VOU PRA TERRA DE IRACEMA

Vou pra terra de Iracema,
amanhã – se Deus quiser,
dizem que a terra é bonita,
como olhar de mulher…

Vou pra terra de Iracema
vou mimbora pro Ceará
meu coração quer que eu siga
a minh’alma quer que eu vá…

Uma Trova de Ademar

Todinho, suco e licor,
ou qualquer outra iguaria,
jamais se iguala ao sabor
do “café que mãe fazia”!
(ADEMAR MACEDO/RN)

…E Suas Trovas Ficaram

Desconfio que a Saudade
não gosta de ti, meu bem.
– Quando tu vens ela vai…
Quando tu vais ela vem…
(LUIZ OTÁVIO/RJ)

Estrofe do Dia

Meu amor que não tem fim
reside num grande abrigo,
de noite sonha comigo
de dia escreve pra mim,
no meio do seu jardim
tem uma rosa amarela,
quando o vento toca nela
as pétalas caem a metade;
nasceu um pé de saudade
no jardim da casa dela.
(LOURO BRANCO/CE)

Soneto do Dia

– Francisco Macedo/RN –
… VOLTA JESUS!

Jesus Cristo Voltai! Eu pediria,
e de novo calçai Tua alpercata,
usai, mais uma vez, Tua chibata,
pregai mais uma vez Tua homilia!

Os “vendilhões do Templo”, de hoje em dia,
vendem fé como quem vende batata,
banalizam milagre com bravata,
misto de fanatismo e hipocrisia.

Vê como usam o teu Santo Evangelho,
que na igreja de alguns, torna-se velho,
desvirtuado da grande missão.

Esta “raça de víboras” muito erra,
e conseguem jogar hoje por terra,
dois mil anos da Tua pregação!

Fonte:
Ademar Macedo

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Dodora Galinari (Trovas)

No calor do seu abraço,
se é inverno… não importa;
que o frio, num embaraço,
vai saindo e fecha a porta!

O lago, num doce amplexo,
como prova de paixão,
criou, da lua… o reflexo
em forma de coração!

Meu coração é uma rua –
bem fechada, já se vê –
por onde transita… nua,
a lembrança de você.

Retire a noite do olhar…
deixe o dia amanhecer
– toda alvorada ao chegar,
alegra o nosso viver.

Cupido entrou em descrença…
O AMOR, sofrendo sem fala…
– eu fingindo indiferença
você… negando notá-la.

Enquanto existir criança
e seu olhar de inocência,
pode-se ter esperança
de um mundo sem violência.

De costas, nessa apatia,
ficaste ao me ver voltar;
mas, pelo espelho, eu bem via
um brilho no teu olhar!

As montanhas, de mãos dadas
enfeitam nosso horizonte…
São princesas encantadas,
que os astros beijam na fronte!

Fonte:
UBT Nacional

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Dodora Galinari

Dodora Galinari – nome literário e artístico de Maria Auxiliadora Galinari Nascimento – é membro da UBT-seção Belo Horizonte,onde reside.

Psicóloga. Pós-graduada em Pedagogia. Tem 30 anos de experiência na área da Educação: Magistério,do Ensino Fundamental ao Superior; Supervisão e Inspeção Escolar; Direção de Escola de Ensino Médio;Especialização em Superdotação.

Na chamada Melhor Idade,dedica-se às Artes cênicas como Atriz,Manequim,Modelo Fotográfico.

Natural de Dom Silvério/MG.

Desde adolescente,estudando interna em Ponte Nova/MG,diversas vezes foi premiada por seus trabalhos literários,tendo sido a 1″ Presidente do Grêmio literário Pio XII – fundado na época.

Em meados de 2003,iniciou-se na UBT/BH e,na sua primeira participação em Concurso Interno obteve o 6º lugar – 2004. Em 2005 e 2006,sucessivamente,obteve o 1º lugar Anual-Concursos Internos, Novos Trovadores.

Ao término de 2006, classificada em Concurso Nacional/lnternacional, passou para a categoria Veteranos.

Outros Prêmios:
. 2004: Conc. interno Anual-Medalha de Bronze;
. 2005: Conc. Crueilandia-Menção Honrosa ;
Conc. Hum/BH-3º lugar;
Comunidade Luso-Brasileira-Menção Honrosa;
. 2006: Concurso Hum/BH-3º lugar;
Concurso Nac/lnternac. Pindamonhangaba-Menção Especial;
Concurso Nac/lnternac. Cidade Belo Horizonte-Menção Especial;
. 2007: Concurso Hurn/BH-2º lugar;
Conc. Internos/BH-Menção Especial ;
. 2008: Concurso Nac/lnternac. Univerti-Menção Especial;
Concurso lnterno BH-Menção Especial;
2009: Concurso Intersedes Cidade BH-Menção Honrosa;
Concurso Hurn/BH-Vencedor;
Concurso Interno/BH-Medalha

Participação:

Coletâneas de Trovas, UBT/BH:
2004:”Caleidoscópio”;
2006:”Rosas de Cristal”;
2008:”Mosaico de Trovas”.

Coletânea – Coordenação Paulo Viotti: 2009/10:”Mineirices e Mineiridades”.

Dodora Galinari é a atual Vice-Presidente de Administração da UBT – seção Belo Horizonte (biênio 2009/2010).

Fonte:
UBT Nacional

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Folclore, Superstição, Lendas e Histórias (Aves do Brasil: Gavião)

A Tartaruga e o Gavião

Contam que, nos tempos primitivos, uma tartaruga matara um gavião, que deixou mulher e um filho pequeno. Sempre que o filho ia caçar camaleões, achava penas de pássaros. Chegando em casa perguntou à sua mãe:

– De quem são as penas que acho sempre no mato, quando vou caçar?

– Meu filho, são de teu pai, que morreu.

Calou-se ele e concentrou-se. Cresceu e estava quase moço.

Um dia foi caçar e encontrou umas tartaruguinhas. Estas disseram-lhe:

– Vamos nos banhar?

Ele disse:

– Vamos.

Dizem que se banharam e no banho, ele queria pegá-las com as unhas. Então elas disseram-lhe:

– Por isso minha avó matou teu pai.

– Agora sei quem verdadeiramente matou meu pai.

Cresceu e, quando já grande disse:

– Vou experimentar minhas forças.

Dizem que experimentou-as no grelo do meriti. Chegou e meteu as unhas para o arrancar. Experimentou, puxou e não o arrancou. Disse:

– Não tenho ainda forças.

Foi outra vez experimentá-las. Então arrancou o grelo e disse:

– Agora já tenho força. Agora vou deveras vingar meu defunto pai. Esperarei a saída da avó das tartarugas.

Dizem que um dia, aquela espalhou paracá em cima de uma esteira. Houve depois chuva com vento, e ela disse às netas:

– Vocês vão ajuntar para recolher da chuva o paracá.

As tartaruguinhas não foram, por ser aquele pesado, e por isso chamaram:

– Minha avó, venha ajudar-nos.

A avó subiu e foi ajudar as netas.

O gavião estava vigiando e, vendo-a sair, saltou-lhe em cima e a carregou para um galho de piquiá.

Então a velha tartaruga disse ao gavião:

– Como vou morrer agora, manda chamar teus parentes para que venham me ver morrer.

Vieram, então, todos os parentes do gavião. Chegaram todos os pássaros e ajudaram a matar a velha tartaruga. Os pássaros que a mataram ficaram sarapintados. Outros ficaram vermelhos. Aqueles que beliscaram o casco ficaram com o bico preto; outros que beliscaram o fígado ficaram verdes.

Assim acabaram as tartarugas assassinas; assim se acabaram.

Desde então os pássaros ficaram pintados.

Fontes:
Barbosa Rodrigues. Revista Selva. Rio de Janeiro, nº 1, setembro de 1946. In MELO, Anísio (org.). Estórias e lendas da Amazônia. São Paulo, Livraria Literat Editora, 1962. Antologia ilustrada do folclore brasileiro. Disponível em Jangada Brasil.

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Frederico Augusto Garcia Fernandes* (Saci, Curupira, Mãozão e João Galafoice:

*UNESP-FCL/Assis

Começamos esta comunicação, contando um mito pantaneiro, em que a oposição “civilização X natureza” faz-se presente:

História de mãozão, essas coisas? É, essas história aí é braba, né? Quer dizer, eu nunca vi, eu conheço pessoas que já foram envolvidas nesse tipo de coisa, né? E cê quando lembra pra ele, ele puxa outra conversa, sai de perto, não quer responder, né?

Esse rapaz que ficou vinte e um dia na posse, diz que é do mãozão, né? Mas onde tinha a batida dele, tinha batida duma anta. O dia que pegaram ele, tiveram que laçar ele à moda gado. Ele correu. O pessoal diz que não viu ele, quem tava junto, né? Só via esse cara que tinha uma oração, esse tal de Parentão. Ele foi que laçou o guri. Só ele que viu, o pessoal só via a anta. E representava ele.

Então, ele falava assim pra algumas pessoa, diz que ele comia fruta. Uma pessoa que trazia as fruta pra ele comer e deixava a bóia dele, ele dormia e levava ele lá em cima, na forquilha de um pau, rodeava ele lá. A única coisa que ele contava, né? No mais, ele não falava nada.”

Silvério, o nosso contador, vai juntando elementos da tradição pantaneira num único relato, de modo a criar uma forma simples (no caso, o mito). Em outros termos, ele amalgama elementos da tradição (como o mãozão, o vaqueiro Parentão, rapto do garoto), representando valores e crenças, pessoais e compartilhadas com a comunidade pantaneira. O interessante é que seu relato é amplo, no sentido de que é possível efetuar vários cortes temáticos, porém ao mesmo tempo conciso, quando estamos tratando da linguagem em si. A performance é marcada pela “rapidez”, aspecto peculiar à literatura manifestada pela voz. Ítalo Calvino (1993) observa

A técnica da narração oral na tradição popular obedece a critérios de funcionalidade: negligencia os detalhes inúteis mas insiste nas repetições, por exemplo quando a história apresenta uma série de obstáculos a superar. O prazer infantil de ouvir histórias reside igualmente na espera dessas repetições, frases, fórmulas.”

Os “detalhes inúteis” dizem respeito a citações redundantes, descrições com pormenores irrelevantes, aspectos externos à trama, que em nada poderiam mudar o seu sentido. Não à parte, Ítalo Calvino menciona as repetições, que dizem respeito às fórmulas rimadas, comuns aos contos populares, mas que também são recorrentes em temas, situações e motivos. Estas últimas não são encontradas no relato de Silvério, ao passo que a “rapidez” em sua fala é marcante. Existe uma diversidade (pluralidade de assuntos) em torno de uma unidade, no caso, o relato conciso. Tal pluralidade é decorrente de variantes de outras histórias do universo pantaneiro, com as quais Silvério vai compor seu relato.

De fato, a manifestação dessas variantes não se dá somente dentro de um único universo. Os mitos na cultura popular espalham-se, misturam-se, preservam alguns sentidos e significados, alteram imagens. Primeiro porque uma dada cultura (como, por exemplo, a pantaneira) não é fechada em si, está em intermitente diálogo e intercâmbio com outras representações de mundo; segundo porque há casos de culturas muito distantes, sem nenhum contato, terem mitos muito semelhantes. Lévi-Strauss cataloga diversos temas que se repetem em pontos eqüidistantes:

Ao propor esta visão sincrética, não pretendo provar que um mito ou um conjunto de mitos ter-se-ia difundido de um hemisfério para o outro. O espírito, quando elabora os mitos, se entrega a um automatismo que, desde que se lhe forneça um motivo inicial, qualquer que seja a sua proveniência, efetua todas as suas transformações em seqüência. Basta um mesmo germe cá e lá para que surjam conteúdos míticos talvez muito diferentes quando olhados superficialmente, mas entre cujas estruturas a análise revela relações invariantes.” (LÉVI-STRAUSS, 1993, p. 81-82.)

A criação de um mito não se trata de uma idiossincrasia, mas de uma resposta dada pelo contador aos anseios coletivos. No terreno das inquietações, problematizações ou símbolos mais ou menos comuns a todos, manifesta-se uma contigüidade. É o que acontece, por exemplo, com o caso do menino que ficou na posse de uma anta. Em História de lince, Lévi-Strauss analisa o caso do menino em poder de um mocho e vai percebê-lo como uma estrutura menor, ligada ao conjunto de histórias do mito de lince. A proximidade entre esses relatos, com estruturas semelhantes e aspectos mais ou menos comuns em relação ao meio primitivo, ainda são incógnitas. Se, a coincidência do caso lince com o do menino e a anta é difícil de ser explicada, pois faltam muitos dados; podemos contemplar, no plano literário erudito, uma fonte de inspiração do escritor com base na narrativa popular/primitiva.

Num estudo sobre as fábulas, na tese de livre-docência de Maria Lúcia Goés, perceberemos, entre outras coisas, como o popular/primitivo é assimilado pela literatura infantil. O escopo da pesquisadora recai sobre os animais, refletindo sobre como o escritor apresenta uma releitura das fábulas em “objeto novo”, isto é, a história percebida no plano das ilustrações e da narrativa compondo um único objeto, o livro. Maria Lúcia Góes vai classificar estas histórias de “Fábula Moderna”, em que se apresentam duas sub-categorias: “Estórias de animais” e “Estórias de animais em resgate de Formas”. No primeiro caso, o livro resulta de uma “Matriz-Fábula”, cujas personagens principais são animais, podendo ou não manifestar os secundários ou coadjuvantes (seres humanos ou sobrenaturais). Já, a respeito das “Estórias de animais em resgate de Formas”, opera-se a paródia ou paráfrase e suas sub-classes (apropriação e estilização). Elas dizem respeito a “formas novas e diferentes de ler o convencional: processos de liberação do discurso.” (GOÉS, 1994. p. 154)

Nosso objetivo ao falar da “Fábula Moderna” é de mostrar como a linguagem passa por uma reelaboração, tornando-se “forma artística”, no conceito jolliniano. Voltando ao mito, ele traz uma diferença essencial quanto à fábula: a atitude daquele é de verdade, ao passo que esta é de ficção. Entretanto, olhando mais detidamente, o mito traz certa semelhança com a fábula, na medida em que propicia um enredo de aventuras, não sendo exímio de uma moralidade e/ou lição sapiencial. Retomando Maria Lúcia Goés (1993, p.103): “a criação do mito supõe dois momentos:1º) animação de todas as coisas, como também acontece na vida da criança; 2º) a qualificação – aqui as histórias começam a aparecer (invenção novelesca) sob forma de aventuras.”

Decorre daí, que o mito e a fábula podem possuir estruturas narrativas próximas, ao passo que nos falam em uma linguagem simbólica, sendo cercados por uma trama. Tanto um como outro não estão isentos da adaptação do discurso em “objeto novo”. Desse modo, se o mito apresenta invariantes em culturas diferentes, porém com a essência primitiva ou popular, ele também pode ser reelaborado numa forma artística, em que as ilustrações vão assumir o mesmo relevo da própria linguagem verbal. Para a percepção de uma outra atualização da forma mítica, diferente da de G.O. e de Silvério, escolhemos o livro O saci e o curupira, de Joel Rufino dos Santos(1984), para ser analisado.

A história, em prosa, faz referência a três mitos: o saci, o curupira e João Galofoice, sendo o último ligado ao universo infantil, responsável pelo rapto de crianças desobedientes e mal comportadas. A “rapidez”, como no relato de Silvério, faz-se presente, compondo uma trama curta, sem divagações, em que os pormenores são enfatizados no plano pictórico. O ilustrador, nesse sentido, dá os detalhes dos espaços e formas às personagens, fazendo um contraste entre cores vivas (amarelo, vermelho, laranja, entre outras) e escuras (roxo e preto) ou tons pastéis, com a finalidade de marcar quadros e situações. Tal contraste desempenha função importante, uma vez que os ambientes estão restritos à casa de um caçador e à mata, sendo que as situações se repetem inúmeras vezes nesses espaços, com a modificação apenas de uma personagem. Dessa maneira, ele alerta o leitor para a mudança do tempo e de situação na narrativa, enaltecendo ainda mais a repetição da ação.

Retomando a citação de Ítalo Calvino (supra, p. 18), a repetição é responsável por boa parte do frenesi no ouvinte mirim, por causar uma expectativa da qual ele já supõe conhecer a resposta. Ela provoca, assim, uma empatia, na qual o escritor/contador convida o leitor/ouvinte a participar da construção de sua obra, envolvendo-o em situações já conhecidas, levando-o à assimilação da mensagem de maneira mais eficaz e fornecendo condições para que o mesmo leitor/ouvinte chegue ao desfecho antes de ele se concretizar, porque já assimilou a moral.

Assim, na página 2 do livro lemos:

Era uma vez um homem muito pobre” (cores vivas, mostra a penumbra de um homem saindo com uma espingarda, com o desenho de sua casa ao lado e o sol iluminando ao fundo).

e na seguinte:

Ele saía para caçar de dia, voltava sem nada. Aí resolveu experimentar de noite.” (cores escuras, repete-se a mesma imagem anterior, com exceção do sol que foi trocado pela lua e da posição da arma do caçador).

A repetição de imagens com tons diferentes será recorrente no livro, bem como da história em si. Indo direto ao tema, notaremos que ao abrir o livro, o escritor já procura inserir o leitor num universo do faz-de-conta. “Era uma vez” (página 2 do livro) é uma fórmula muito comum nos contos populares, capaz de alertar o ouvinte/leitor para uma ficção, ou melhor, um universo de fantasia do qual ele começa a fazer parte. Os mitos geralmente não se iniciam com tal fórmula, tendo em vista que o contador procura conferir a eles veracidade. Então, não é de um acontecimento verídico que o autor quer tratar, mas nos é feito um convite à fantasia, é o mundo do faz-de-conta que foi acionado, para que seja contada a história.

Em seguida, temos o caçador saindo à noite, pois não arruma alimento durante o dia. Na mata, ele encontra o saci e o diálogo é este:

“‑ Quem que lhe deu ordem pra caçar a esta hora?
‑ Ninguém – disse o homem, tremendo. – Mas é que sou muito pobre e não arrumo caça de dia.
‑ Gostei de você – falou o saci. – Você tem fumo?

O matuto deu fumo pro cachimbo do negrinho.
‑ Vamos fazer um trato – disse ele, baforando. Se você me trouxer fumo toda noite, eu lhe arrumo caça
.” (p. 6-11).

Numa comparação entre esta história e o mito do mãozão temos: saci é o dono da mata, como o mãozão, o caçador transgride o espaço do mito. O mito, ao contrário do mãozão, propõe uma relação de troca: alimento pelo fumo, estabelecendo uma situação de harmonia entre o homem (que depende da caça para sobreviver) e a natureza (representada pelo saci, que é atendido ao receber o fumo para seu cachimbo). Os dois ficam em harmonia: o homem com a caça e o saci com o fumo.

Tudo ia bem, até que um dia o fumo do caçador acabou e sua mulher, Maria Gomes, lhe sugeriu lograr o saci, dando, no lugar, estrume seco. O resultado é que o saci desapareceu e nunca mais trouxe caça. Por isso, volta a situação de penúria do caçador, encontrada no início da história. Reinstala-se o distúrbio entre o homem e a natureza, na qual, não conseguindo alimento, fica impossibilitada a sobrevivência daquele. Nas páginas seguintes, é a natureza que vai ao encontro do homem, representada pelo curupira:

Tornaram a bater. O homem se levantou para espiar pelo cantinho da janela. Era o curupira.
‑ O senhor não tem aí um pouquinho de pólvora? – perguntou o menino de calcanhar virado. Mas perguntou baixinho.
‑ Tenho e não tenho – respondeu o homem, maluco pra fazer comércio.
‑ Se o senhor me arrumar um pouco de pólvora – disse o curupira – cada noite lhe trago uma caça como essa. Só peço uma coisa: sua mulher não pode saber que sou eu
.” (p.20-23).

Novamente, com o curupira, é estabelecida a harmonia homem/natureza, a partir de uma outra relação de troca: caça pela pólvora. Só que o novo contrato foi também rompido, pois a situação imposta pelo curupira, de que o caçador deveria manter segredo para sua mulher, não se cumpriu. A repetição da situação, além de provocar a empatia no leitor, traz um norma ética, com um fundo moral: não devemos enganar a quem nos faz bem. Recorrendo à Maria Lúcia Goés (1993, p.80), notaremos uma aproximação desta história com a fábula ética, uma vez que tanto uma como a outra: “induz a um aprendizado quanto ao comportamento individual, o ser no mundo […]”

A história de Joel Rufino dos Santos enfatiza, por sua vez, com as repetições, uma conduta humana abusiva, pois o homem deveria ter respeitado o acordo com os mitos (saci e curupira), sua moralidade reside num aprendizado ético, do ser frente a ações e situações do mundo, de como ele deveria ter se comportado para não romper a situação de equilíbrio com a natureza.

O desfecho é a briga entre o caçador e sua esposa, com os dois deixando a casa. A penúltima imagem mostra a penumbra do homem saindo pelo lado esquerdo e a mulher, na página ao lado, pelo direito, ao centro está a casa (ocupando as duas páginas). O trecho é este:

Tanto brigaram, que um saiu prum lado e outro pro outro.
O homem se chama João Galafoice. E está sempre de surrão às costas. Tem gente que acredita que é pra esconder criança. Bobagem. É um montão de fumo pra trocar com o saci. Só que o saci não aparece pra ele , não
.” (SANTOS, 1984, p.30-31)

Ocorre aí a inserção de João Galafoice (CASCUDO, 1972. p. 482), até antes velado. Todavia, a apresentação do narrador tende a abrandar e até eliminar o temor infantil, pois ele confere uma outra função ao surrão do João Galafoice: a de levar fumo para o saci e não para esconder crianças. O objetivo do escritor começa a se clarear: dissipar o medo do leitor, sugerindo uma nova função para o mito.

No último trecho do livro, isso fica mais latente:

A mulher se chama Maria Gomes. Tá sempre de cabelo despenteado, anda que anda por aí. Maria Gomes espia o calcanhar de tudo quanto é menino, mas não precisa ter medo, não. Tá só procurando o curupira pra pedir desculpa.” (imagem centrada na face de uma mulher de cabelos vermelhos e volumosos, despenteada, olhos arregalados).

Maria Gomes é personagem muito comum nos contos maravilhosos (CASCUDO, 1997. p. 47-51). Geralmente, ela é a menina que, abandonada pelo pai, encontra um príncipe encantado (em forma de cavalo branco), demonstra obediência e lealdade a ele; e por fim, quebra o feitiço e casa-se com o príncipe. A identificação da história de Joel Rufino dos Santos com o conto “Maria Gomes” é mínima e os aspectos opostos são mais latentes.

Tais fatos nos levam à conclusão de que Joel Rufino dos Santos intenta demonstrar a ineficácia do medo, tendo em vista a descrição de Maria Gomes, assustadora na imagem, porém inofensiva, conforme a linguagem verbal.

Assim, ele reveste os mitos de uma nova roupagem, até o saci e o curupira são amigáveis e prestativos, sendo que a ilustração colabora com tais aspectos. Com isso, o autor passa duas mensagens: devemos ser sinceros nas relações, o que equivale num plano mais profundo a respeitar a natureza (uma vez que o saci e o curupira são representantes dela), e, por fim, não devemos nos assustar com os mitos que, na tradição popular, geralmente são deflagradores do medo infantil.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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________. Corumbá, abr. 1948, ano 2, nº 3. 8p.
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CANDIDO, A. Literatura e sociedade. 6. ed. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1980. p.1-70.
________. Os parceiros do Rio Bonito. 7. ed. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1987. 284p.
________. A educação pela noite e outros ensaios. São Paulo: Ática, 1989. p.163-180.
CASCUDO, L. da C. Contos tradicionais do Brasil. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997. 220p.
________. A literatura oral no Brasil. 3. ed. Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp, 1984. 435p.
________. Dicionário do folclore brasileiro. 3. ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 1972.
FERNANDES, F.A.G.F. Entre histórias e tererés: o ouvir da litera pantaneira. Assis, 1998. 371p. Dissertação (Mestrado em Letras) – Faculdade de Ciências e Letras , Universidade Estadual Paulista.
GOÉS, M.L..P. de S. A fábula brasileira ou fábula saborosa: tentativa paideumática da fábula no Brasil. São Paulo, 1994. 169p. Tese (Livre-Docência) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo.
JOLLES, A. Formas simples. Trad. Álvaro Cabral. São Paulo: Cultrix, 1976. 222p.
LÉVI-STRAUSS, C. História de lince. Trad. Beatriz Perrone-Moisés. São Paulo: Cia. das Letras, 1993. 249p.
NOGUEIRA, A. X. O que é Pantanal. São Paulo: Brasiliense, 1990. 79p. (Primeiros Passos, 223).
________. O pantaneiro e sua linguagem. Revista encontros e reversos (Corumbá), nº 1, p. 60-65, 1995.
________. Universo natural pantaneiro: uma leitura semiótica. Revista MS Cultura (Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul), ano III, nº1, p. 25-27, 1996.
SANTOS, J. R. dos. O saci e o curupira. il . Zeflávio Teixeira. São Paulo: Ática, 1984.
Fonte Oral
ENTREVISTA Silvério Gonçalves Narciso (filme-vídeo). Produção: Eudes F. Leite & Frederico A. G. Fernandes. Corumbá: Ceuc/UFMS, 1996. 90min (aprox.), color., son., VHSc.

Fonte:
XIII Seminario do CELLIP (Centro de Estudos Linguísticos e Literários do Paraná) – Campo Mourão, 1999 (CD-Rom)

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Machado de Assis (Análise dos Contos de “Várias Histórias”: 5. A Desejada das Gentes)

Análise realizada por Cristiane Teixeira de Amorim, sob o título Máscaras do Desejo em “A Desejada das Gentes”, De Machado De Assis
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O conto na íntegra se encontra em http://singrandohorizontes.blogspot.com/2008/10/machado-de-assis-desejada-das-gentes.html
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O conto “A desejada das gentes” foi publicado pela primeira vez em 1886. Em 1896, passa a integrar a coletânea Várias histórias.

A narrativa sustenta-se sobre um diálogo no qual um dos personagens, o Conselheiro, assume tom memorialista e nostálgico ao expor, para o amigo, seu passado – reminiscências do ano em que conhecera Quintília (1855) ao ano de sua morte (1859) – em uma seqüência quase integralmente cronológica (não fosse a referência inicial à própria morte), intercalada com reflexões, sobre fatos e comportamentos apresentados, provenientes do distanciamento temporal.

O texto deixa entrever que o diálogo já havia iniciado antes da narrativa, como se o autor tivesse feito um corte seletivo na conversa entre amigos – tipo de recurso recorrente na estética literária contemporânea.

A primeira “fala” pertence ao interlocutor que manifesta uma crítica ao estilo romanesco do Conselheiro: “Ah! Conselheiro, aí começa a falar em versos.” (p. 125). A nuance de teor sentimentalista se mantém na réplica: “Todos os homens devem ter uma lira no coração.” (p. 125). Em seguida, as razões para os “versos” e para a “lira no coração” são expostas. O espaço exterior exuma o passado; traz à tona não o real que jaz noutro tempo, mas a representação deste real, contraditoriamente assassinado e ressuscitado (embora nasça outro) no processo de rememoração. Durante o passeio pela Glória, o Conselheiro faz reviver a exuberante Quintília, ou melhor, sua imagem representativa, distanciada do real (que, em verdade, sob quaisquer circunstâncias, jamais é plenamente apreensível), embora mantenha com o mesmo certo grau de parentesco. Ela faz jus ao epíteto de deusa, ao se imortalizar através da memória, ainda que esta tenha sido orientada pela “lira que ressoa” e pela “imaginação” (p. 125).

O outeiro é apontado e, diante dele, há uma casa. A casa onde, o texto sugere, morou a “desejada das gentes”. A ironia machadiana se aproveita dos espaços. Aquela que nunca ambicionou se casar e com a qual todos cobiçavam se unir em matrimônio residia diante do altar.

O Conselheiro, ainda em réplica à fala inicial do interlocutor, questiona: “Sabe por que é que lhe pareço poeta, apesar das ordenações do Reino e dos cabelos grisalhos?” (p.125). A pergunta suscita algumas inferências: ao mencionar que o personagem possui cabelos grisalhos, o texto presta indiretamente a informação que um longo tempo se passara entre o presente do enunciado e o presente da enunciação, considerando que ele era mais novo que Quintília e que ela morrera com trinta e três ou trinta e quatro anos. O “parecer poeta”, o “falar em verso” e a “lira no coração” compõem uma tríade inicial que situa o personagem no âmbito da estética romântica. Ao mesmo tempo, o Conselheiro crê que as “ordenações do Reino” e os “cabelos grisalhos” constituem empecilhos para tais acessos romanescos.

O poeta, portanto, deveria ser jovem e não possuir nenhuma ligação com o sentido prático da existência. O autor inicia o processo de construção de seus personagens elásticos, que ocupam todas as esferas e a elas se contrapõem. No decorrer da narrativa, o interlocutor faz duas interrupções à fala do Conselheiro para criticar seu tom romantizado que será, através desta oposição e das reminiscências do discurso e do comportamento de Quintília, freqüentemente corroído. O ridículo se aproxima do Conselheiro e o riso que brota dos lábios da “desejada das gentes” parece estampado na face machadiana.

É tentador apontar a morte da estética romântica na produção da segunda fase do “bruxo do Cosme Velho”. Seria, no entanto, uma abordagem equivocada. Ela não sucumbe, ainda que se mantenha apenas para fazer contraponto a uma nova maneira de o homem ver o mundo e de se ver diante do mundo. Valentim Faciolli ao abordar, na análise do texto machadiano, “as formas artísticas”, afirma que elas são “capazes de captar o movimento social de forma contínua: a decomposição das formas velhas e, no interior destas, o nascimento das novas, com a convivência delas em tensão permanente, como movimento de contradições, dialético.” (1982, p. 39). Embora não se refira diretamente a questão aqui exposta, o autor parece corroborar a tese de que Machado não aniquila nenhuma fonte, abastece-se em todas, mesmo que tenha o aparente intuito de negá-las. Nada morre no texto machadiano; tudo vive em tensão permanente.

Ainda no início do diálogo, surgem as primeiras caracterizações de Quintília: “divina”, “linda”, “a mais bela”, “magra”, “alta”. Uma mulher que reúne atrativos que a tornam objeto de desejo. Seu nome, contudo, sugere a impossibilidade de apreensão deste objeto: o parônimo “quintilha” significa, de acordo com o Aurélio, “estrofe de cinco versos” e tem origem na combinação etimológica “quinto + ilha”, indicando, portanto, algo cercado e simultaneamente isolado. O termo “quintilho” oferece também sua contribuição: “Erva ornamental (…) de (…) flores solitárias e (…) vistosas”. A imagem do belo desabitado que brota das nomenclaturas parece autenticar a visão da personagem apresentada no decorrer do conto.

O anúncio da morte da “desejada das gentes” é feito no princípio da narrativa. Morreu em 20 de abril de 1859, durante a estação em que as flores perecem. O Conselheiro, que a conhecera em 1855, quanto ela tinha então trinta anos, faz questão de frisar que “não os parecia”. Relembra, posteriormente, que uma amiga de Quintília dizia que ela “não passava dos vinte e sete”, apenas para “diminuir-se a si própria” (p.125), já que ambas nasceram na mesma data. Inicia-se com sutileza o jogo machadiano de aparência versos essência: atitudes de feições inocentes (ou beneméritas) mascaram sempre o egocentrismo humano. O que está por traz das ações e das palavras, o não-dito, o não-confessado surge pelos espaços que a dissimulação não consegue encobrir: os personagens sempre arrastam uma barra de algodão.

O Conselheiro dá continuidade à descrição de Quintília:
(…) tinha os olhos, como eu então dizia, que pareciam cortados da capa da última noite, mas apesar de noturnos, sem mistérios nem abismos. A voz era brandíssima, um tanto apaulistada, a boca larga, e os dentes, quando ela simplesmente falava, davam-lhe a boca um ar de riso. Ria também, e foram os risos dela, de parceria com os olhos, que me doeram muito durante certo tempo. A “desejada das gentes” é inapreensível. Primeiro, porque as informações sobre ela são fornecidas através da memória, da imagem representativa e dos interesses daquele que conduz a narrativa. Segundo, porque a oposição de Quintília aos ideais femininos de sua época – que a torna fascinante em razão do distanciamento do comportamento comum – não é esclarecida ao logo do conto. No século XIX, as mulheres se casavam jovens e consideravam o casamento projeto central de vida. Permanecer solteira era motivo de infinitas tristezas, como esclarece Ingrid Stein em sua obra Figuras femininas em Machado de Assis: “O casamento representava, no quadro da época, a aspiração modelar da maior parte das moças. (…) As moças casavam muito cedo, com treze ou catorze anos. Se entrassem na casa dos vinte sem pretendente já podiam ser consideradas ‘solteironas’.” (1984, p. 31). Verifica-se, portanto, dois posicionamentos antagônicos em relação ao período: Quintília não quer se casar e os homens desejam se unir em matrimônio a uma mulher que já passara dos trinta anos!

A descrição dos olhos da personagem encerra a seguinte questão: Como possui olhos sem mistérios a mulher que constitui um enigma? Parece certo afirmar que a visão do Conselheiro é equivocada, já que ele declara em seguida: “Tanto não os tinha (mistérios) que cheguei ao ponto de supor que eram as portas abertas do castelo (…)” (p. 126). Quintília nunca “abriu as portas” a seu pretendente.

Seu olhar, misterioso ou não, encobria uma personalidade inatingível. O que desejava Machado: chacotear seu “narrador” ou sugerir nas entrelinhas que os olhos não são dignos de confiabilidade? Facioli, ao analisar a problemática do ponto de vista no texto machadiano, conclui:

(…) o próprio narrador é contestado continuamente em sua versão dos “fatos” narrados, sendo desmistificado pelos outros ou por seu próprio discurso. A verdade do texto é uma questão de ponto de vista e, portanto, sempre determinada pelos “interesses em jogo”.

O leitor estará diante dos movimentos de uma verdade sempre ambígua e instável. (Facioli, 1982, p. 40-1)

Em seguida, a descrição se foca no “ar de riso” da “desejada das gentes” que confere a sua face um tom permanentemente irônico. Quintília ri diante do discurso romântico do Conselheiro. Seu riso é pontiagudo e se dirige não apenas ao personagem, mas ao leitor habituado às paixões romanescas. Os demais leitores Machado convida a rir também. Não um riso frouxo, intenso, incontido, e sim um sutil e cáustico distender de lábios.

O Conselheiro passa a explicitar a origem de seu desejo. Ela era bela, mas não fora a beleza o chamariz da vontade. O interesse é despertado apenas quando ouve “um grupo de moços que falavam dela, como de uma fortaleza inexpugnável” (p. 126). Quintília se torna objeto de conquista valorizado pelo desejo do Outro e pela dificuldade de apreensão do próprio objeto.

Camille Dumouliè, professor de Literatura Comparada na Universidade de Paris X-Nanterre, em sua obra O desejo, reúne autores ao longo da filosofia e da psicanálise que tentaram compreender o universo deste afeto. Ao apresentar a contribuição lacaniana, assinala, tendo como foco o “seio da mulher”: Para se tornar causa do desejo, é necessário que tenha sido objeto do desejo de Outro, visto que, segundo a fórmula de Lacan, o desejo do homem é o desejo do Outro (2005, p. 110).

Embora a psicanálise alcance a concepção de desejo intrínseca no conto, a raiz deste tipo de aspiração possui um viés mais schopenhauriano e, por conseguinte, mais machadiano. Querer o que o Outro deseja centra-se não na mimese, mas na vaidade. Ao alcançar o que todos almejam, ganha-se a admiração (ou a idolatria) dos olhos da opinião. A vaidade mascarada por outros sentimentos é recorrente na obra de Machado e não são poucos os críticos que apontam a influência da doutrina do filósofo alemão. Ambos ambicionavam dissecar a alma humana e acreditavam nas aparências que camuflam verdades:

No trato humano, as pessoas fazem como a Lua e os corcundas, isto é, mostram apenas a metade; e cada um é dotado do talento inato de compor o rosto com habilidade mímica, de modo a parecer rigorosamente aquilo que devera ser; e como a máscara é feita adrede para ele, assenta-lhe tão bem, que a ilusão é completa. (Schopenhauer, 1956, p. 179)

A “cena” do grupo de moços que, feridos em seu orgulho, apontavam, sem pudor, razões para as negativas de Quintília diante de tantas propostas, se passa “entre dois atos dos Puritanos”. Machado mantém o tom irônico ao aproximar literariamente a malícia da pureza moral.

O Conselheiro e o amigo advogado João Nóbrega, que já conheciam a “desejada das gentes” e a consideravam belíssima, mas nunca pensaram em namorá-la, decidem, calcados no desejo do Outro e na dificuldade de apreensão do objeto (ela era a “fortaleza inexpugnável”), conquistá-la. Fazem, então, uma aposta e Nóbrega lembra que Quintília não era apenas bela. Era rica. Nenhum traço romântico, portanto, os impulsiona à aventura.

Um fato novo muda o rumo dos acontecimentos: os amigos, “violentamente enfeitiçados” pela “desejada das gentes”, perdem o controle da situação. A espécie é, então, responsabilizada: “(…) o homem põe e a espécie dispõe” (p. 127). Essa concepção, nitidamente schopenhauriana, coloca a Vontade da espécie, que visa sua perpetuação através da reprodução dos seres, sobreposta à vontade do indivíduo. De acordo com o filósofo, o amor constitui um “ardil da natureza” para obter seu único fim: “a combinação da próxima geração” (Schopenhauer, 1969, p. 16). Independente de a teoria alemã surgir no conto para ser reverenciada ou depreciada, o desejo nova mente aparece dissimulado. Os sentimentos dos personagens por Quintília espelham, nesta abordagem, a Vontade da espécie.

O Conselheiro e João Nóbrega se desentendem ao se tornarem rivais. A disputa pelo mesmo objeto (a “ação comum”) conduz à separação. O “narrador” afirma que “ou por desengano verbal que ela (Quintília) lhe desse, ou por desespero de vencer” (p. 127), o ex-amigo desistira da disputa. A utilização de orações alternativas põe em xeque as causas apresentadas. Em seguida, o Conselheiro assevera que Nóbrega morrera “apaixonado como um simples Werther”. (p. 127). O exagero próprio do estilo romântico é criticado na réplica do interlocutor: “Menos a pistola.” O “narrador” desconhece os motivos que levaram ao afastamento do advogado; apenas suposições são apresentadas. No texto, também não há nenhum indício de manutenção do contato entre estes personagens. Aparentemente a tendência romanesca do Conselheiro o induz a acreditar que Nóbrega falecera em decorrência do veneno exalado do amor de Quintília.

O desejo, pouco a pouco, ganha outra face. Ele já não é apenas desejo do Outro, mas o desejo narcísico de ser desejado (o desejo pelo desejo do Outro). A vaidade se mantém como a mola propulsora das vontades. Dumoulié, ao abordar esta questão, cita o pensamento de Hegel segundo Kojève:
(…) na relação entre o homem e a mulher, por exemplo, o Desejo só é humano se um deseja não o corpo, mas o Desejo do outro, se quer “possuir” ou “assimilar” o Desejo tomado enquanto Desejo, ou seja, se quer ser “desejado” ou “amado” ou então ainda: “reconhecido” no seu valor humano (…). (Hegel apud Dumoulié, 2005, p.125)

O Conselheiro afirma que “Quintília não deixava ninguém estar só em campo.” (p.128). A sentença faria o interlocutor (e o leitor) desconfiar de que “a desejada das gentes” saboreava seu lugar de “objeto de desejo”. Para evitar essa acepção, ele apressa-se por dizer:
“não digo por ela, mas pelos outros”. A imagem de sedutora mordaz rui para dar lugar a da mulher justa e piedosa. Em seguida, conclui a descrição: “(…) tinha essa espécie de olhos derramados que não foram feitos para homens ciumentos.” (p.128). O que significaria “olhos derramados” senão os que se projetam sobre o Outro, os que se alastram até tudo abarcar? Machado criou mais uma de suas personagens enigmáticas, que o “narrador” se esforça por decifrar inutilmente porque prisioneiro de seu próprio olhar. Ao leitor, resta um ponto de vista oscilatório, frágil, duvidoso. Quintília se deleitava com o desejo que incitava ou era apenas uma mulher bela a se esquivar com gentileza da cobiça alheia?

O lugar daquele que deseja é expresso por uma “voz” nada confiável, embora permita vislumbrar, pelas fendas na máscara, parte do que se encontra camuflado. A estética machadiana se assemelha a uma capa repleta de pequenos orifícios por onde escapam verdades” que os personagens ambicionavam encobrir. A narrativa se estrutura em discursos sobrepostos: o primeiro propositalmente falho, porque deixa entrever, mesmo que de forma precária, o subjacente que se ansiava por manter à sombra.

Mas quanto à nebulosa Quintília? Ela não tem “voz” e sua constituição ao longo do texto, como já referido, parte da imagem representativa do Conselheiro. Curiosamente a obra de Dumoulié, O desejo, também não aborda o tema sob a perspectiva do desejado, mas daquele que deseja, constituindo uma lacuna no entendimento desta relação.

O “narrador” sente ciúmes de sua “amada”. É tomado, portanto, por outro tipo de aspiração: o desejo de exclusividade. Ele não quer apenas que ela o deseje; ele quer que ela não deseje mais ninguém. Quintília, procurando se desvencilhar de seus pretendentes, faz uso, de acordo com o Conselheiro, da opinião contrária (e interesseira) do tio ao seu casamento. As ações dos personagens estão sempre voltadas para benefício próprio. Vale ressaltar que o Conselheiro se espanta com o fato de “uma pessoa tão amiga de bailes e passeios, de valsar e rir, fosse (…) tão severa e grave.” (p. 128). O trecho faz crer que Quintília, embora corrobore com o estereotipo da mulher da Corte, dada às futilidades e trivialidades sociais, possui uma essência contrária à aparência.

Pouco a pouco o estilo romantizado toma conta do “narrador”. Ele teme se declarar e escreve cartas que não envia. Seu pai morre e, em seguida, o tio da “desejada das gentes” adoece. O Conselheiro, então, vislumbra a felicidade frente à iminência da morte: “(…)a afeição principal ia-se embora e nessa transição da vida presente à vida ulterior podia eu alcançar o que desejava.” (p.129). Machado brinca sarcasticamente com o leitor: quando este se torna complacente com a angústia do personagem diante do desejo por Quintília, é posto frente a frente com a sordidez humana. No texto machadiano, bem e mal não constituem absolutos; encontram-se liquefeitos no íntimo dos seres.

Enfim, o Conselheiro decide pedir Quintília em casamento. O tom melodramático do “narrador” contrasta com a réplica seca da “desejada das gentes”: “Casar pra quê?” (p.129). Diante de uma reposta carregada de sentimentalismo exacerbado, ela ri. Quintília mais uma vez ri do ideário romântico. Após o relato da briga entre os amigos advogados, ela pergunta: “Mas então é um delírio?” (p.130). Posteriormente, ele declara que ela o olhava “como se olha para uma pessoa cujas faculdades pareciam transtornadas.” (p. 130). A obsessão, a idéia fixa, recorrente na ficção machadiana, invade os personagens e os conduz ao desvario. Como assinala Brás Cubas “(…) é ela a que faz os varões fortes e os doudos.” (Assis, 2001, p. 23).

Quintília jura que jamais se casará e o Conselheiro conclui: “Éramos dois sócios, que entravam no comércio da vida com diferente capital: eu, tudo o que possuía; ela, quase um óbulo.” (p.130). Aquele que deseja se mostra, portanto, obcecado pelo objeto a ponto de por ele se sacrificar.

A “desejada das gentes” adoece e, com a proximidade, o “amigo” encontra uma chave para a compreensão de sua alma: “escutando as suas leituras vi que os livros puramente amorosos achava-os incompreensíveis, e, se as paixões aí eram violentas, largava-os com tédio.” (p. 131). Quintília assume definitivamente uma postura anti-romântica, tornando-se personagem-símbolo da consolidação de uma nova estética.

Diante da finitude, ela se mostra “enérgica”; não há lágrimas ou lamentos. Casa-se com o Conselheiro à beira da morte. Ele a abraça “pela primeira vez feita cadáver”. (p. 132). O desejo deseja sua própria morte na aquisição, na conquista, na absorção do objeto, todavia a morte do objeto não configura a morte do desejo. Ao analisar o amor cortês, Dumoulié conclui que ele “se fundamenta sobre o mesmo princípio ascético que renuncia ao prazer e constrói uma forma de gerenciamento cujo fim é manter no mais alto grau a intensidade do desejo, eternizá-lo.” (Op. cit., p. 179). Quintília, portanto, fora mordaz com seu “amigo” de traços romanescos, ao presenteá-lo com um desfecho típico de romance-romântico. A partir desta concepção, pode-se compreender a combinação translógica dos epítetos “monstro” e “divino” com os quais o Conselheiro define a “desejada das gentes”.

Por outro ângulo, é possível vislumbrar a vertente schopenhauriana: o “narrador” viveu uma busca incessante que desemboca no encontro com o nada. Percorreu, portanto, a trajetória em direção à ilusão, a que todo desejo conduz, própria de todas as existências.

No conto, o desejo (ou o amor) perde a aura idealizada dos românticos e ganha agentes motivadores de feições pouco nobres. Dumoulié cita o ensaio de Girard Mentira romântica e verdade romanesca que corrobora o ponto de vista apresentado:
Nesse estudo analisa as obras de uma série de romancistas “realistas” que mostram claramente a ilusão da mentira romântica de um desejo autônomo, direto e livre por um objeto ao qual o ego atribui valor intrínseco, e revelaram a verdade do “desejo triangular”. Este último supõe a existência de um rival, de um modelo, de um obstáculo, que dá o valor a um objeto e o torna uma coisa desejável. (Dumoulié, Op. cit., p. 216)

Quintília é incontestavelmente bela e “o belo é a armadilha do desejo por excelência.” (Dumoulié, ibid., p.106). Possuir o belo significa saborear a inveja nos olhos da opinião. Todavia, a cobiça possui outros estímulos. Além de rica, a “desejada das gentes” não quer se casar. As freqüentes negativas constituem o tal obstáculo “que dá valor a um objeto”. Por outro lado, o desejo acirrado pelo desejo do Outro (deseja-se o que o Outro deseja) faz com que o número de candidatos mantenha curva ascendente. O Conselheiro, ao ambicionar o amor de Quintília, deixa entrever que o desejo também se fundamenta no desejo de ser desejado, porque “é sempre a si mesmo que se ama no amor.” (Id., ibid., p. 192). Todas as causas têm raízes, portanto, na vaidade como avalia Chamfort: Tire o amor próprio do amor e bem pouco há de restar. Uma vez purgado de vaidade, é um convalescente enfraquecido, que se arrasta com dificuldade. (Id., ibid., p. 189). A costura de todos esses elementos dá corpo a uma imagem distanciada do real e, por conseguinte, representativa do objeto: A realização do desejo não é portanto a posse de um objeto real, mas a reprodução alucinatória de uma percepção cuja imagem mnésica é de novo investida. Estamos precisamente, com o desejo, no mundo como representação: nunca temos uma relação direta com o real, (…) mas sempre com representações de afetos, ou até com representações de representações. (Dumoulié, op. Cit,, p.120)

Na estética machadiana, nada é o que parece, há sempre algo camuflado que requer um leitor atento a cada sutil movimento da narrativa para não ser lançado ao chão ou, ao menos, um leitor disposto a se levantar diante das quedas quase inevitáveis. A percepção das verdades (prováveis) surge do estranhamento provocado por expectativas frustradas. É esse estranhamento que incita o tatear textual. Machado, assim como a bela Quintília, atravessa os séculos sem se deixar apreender. O terreno é o das possibilidades de leitura limitadas pelo olhar e pela linguagem: “prisioneiros da linguagem e do nosso sistema de interpretações, ou de representações, vemo-nos obrigados a (…) projetar sobre ele noções que são próprias de nossa vida e de nossa experiência.” (Id., ibid., p.155).

O real não reside, portanto, atrás da máscara; ele é, em verdade, a própria máscara.

Referências Bibliográficas:
ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Sá Editora, 2001.
______. Papéis velhos e outras histórias. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, 1995.
BAUDELAIRE, Charles. La beauté. In: Les Fleurs du mal et autres poèmes. Paris: Garnier-Flammarion, 1964.
CÂNDIDO, Antônio. Esquema de Machado de Assis. In: Vários escritos. São Paulo: Pensamento, 1970.
DOUMOLIÉ, Camille. O desejo. Petrópolis, RJ: Vozes, 2005.
FACIOLI, Valentim Aparecido. Várias histórias para um homem célebre. In: BOSI, Alfredo, (et al.). Coleção escritores brasileiros: Antologia e estudos. Vol. 1. São Paulo: Ática, 1982.
FERREIRA. Aurélio Buarque de Holanda. Novo Aurélio século XXI. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.
SCHOPENHAUER, Arthur. Aforismos para a sabedoria na vida. São Paulo: Melhoramentos, 1956.
______. A vontade de amar. São Paulo: Edimax, 1969.
STEIN, Ingrid. Figuras femininas em Machado de Assis. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984.
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Continua… análise do conto 6.“A Causa Secreta”
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Fonte:
http://www.filologia.org.br/

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Joao Justiniano da Fonseca (Oswaldo Evandro Carneiro Martins – Contos Realistas)

A arte de escrever poesia e ficção é nem menos nem mais, que a sensibilidade de criar o ignoto ou recriar o vivido. Nessa, a dor de carregar o sofrimento da personagem ou alegria de viver o gozo de sua felicidade; a satisfação de gerar um filho. Quando a gente se põe dentro do próprio cérebro para tirar, daí, a composição literária, é como se fosse outro espírito, desligado deste da vida material. O mundo do escritor é, no momento de criar, o mundo do imaginário, um pouco o mundo dos deuses. Vem-me a lembrança ao fim da leitura de Oswaldo Evandro Carneiro Martins, em “Contos Realistas”.

Trabalhador das letras clássico e purista, o autor transita livre e desembaraçadamente pelas mais despenhadas cachoeiras da arte das letras. É uma simples comparação com as coisas que amo e por isso me ocorrem mais constantemente. Bem comparando, ele tem, no manejo da pena, a facilidade do nativo brasileiro navegando seu rio, remo firme nas mãos ao piloto da igara. Tem o desembaraço dos mestres no exercício de sua profissão; a força do poder criador; a sensibilidade do iluminado. No conto manobra com a vivacidade do intelectual mais experiente no jogo das luzes do intelecto para sua formulação. Bate firme e pesado. Seu vocabulário é farto e elegante, e sendo lírico é forte, fincado na realidade dos que sabem o que escrevem e como o escrever. A erudição transparente no encadeamento das idéias sugere um sábio devorador de livros e um vivido observador do mundo.

A história curta, seja no conto contemporâneo, realista; seja na ficção pura, científica ou lírica; seja na novela policial, tem a preferência dos que lêem a título de lazer, mais que as longas histórias romanceadas. Nestas o leitor quer o enredo e o encadeamento dos fatos que se movem no conjunto. Naquela, busca o suspense. E o suspense incita a ir à frente, na leitura. Pergunte-se a quem é aficionado ao prazer da palavra impressa. E a resposta não será outra.

Hoje já não são poucos os que se contentam em ver o escrito eletrônico, preferindo-o ao impresso, e é outra história, que aqui não se comporta. Pretendo, antes, dizer do que li e entendi sobre este livro. O contista Oswaldo Evandro revela uma maneira especial de deixar com o leitor a oportunidade de ser co-autor de suas cogitações, forma de contar que eu desconhecia. Fecha a estória de uma maneira tão de leve, que nos induz a reler e imaginar, ao cabo escrever sobre seu escrito.

Quer ver se sim ou se não? Vamos ler sentados numa poltrona ao lado da poltrona do autor, os dois primeiros contos – A ÙLTIMA PACA e 0 “TRABALHO”.

Abre as duas estórias criando suspense, acordando no leitor o vivo interesse pelo desfecho. E fecha-as simplesmente estimulando-o a idear sobre a sua fabulação, como se dissesse: conte você também o seu caso!

Com efeito. As palavras finais do primeiro conto: – “ela fugiu, mas ferida. Deixou sangue”, indicam quase perfeita segurança de que a paca voltará a ser caçada festivamente. De fato. Essa primeira caça foi uma festa. E a seguinte, competirá ao leitor.

De igual modo o segundo conto. O larápio levou uma semana espionando a casa onde pretendia tirar “o seu”. Mais quatro dias preparando a entrada. E o leitor ansioso pelo resultado do “trabalho”. O camarada cai, sem nunca o imaginar, em uma gaiola. Tire-o desta, agora, quem chegar ao fim da bem imaginada estória.

Vamos para o terceiro conto e encontramos a mesma filosofia de trabalho, o mesmo empenho de envolver o leitor na trama. O personagem pesquisa, pesquisa, trabalha, trabalha, busca informações, chega a uma conclusão e sabe-se que ao falecer deixa um volumoso texto, que não é encontrado. Vá, a partir daí, o leitor embrenhar-se na novela um tanto policial, para saber que fim levou este e, encontrando-o, saber qual o seu conteúdo e a conclusão a que chegara o pesquisador. É tarefa sua, se pretende ser co-autor do mestre na criação e no estímulo à criação de estórias realistas. Falar nisso, sendo formulados nas proximidades do real, isto é, do que pode acontecer deveras, os contos presentes neste livro, bem que trazem, na textura, bons punhados de pura imaginação, de história de fantasia e muito do simbolismo metafórico.

Continua o contista trilhando o mesmo caminho, com algum raro desvio para veredas nas quais passeia pela filosofia e pela ciência, às vezes pelo devaneio. O devaneio é quase inevitável aos escritores de imaginação fértil. Este e até o sonho, como que são intrínsecos ao desenvolvimento da narrativa de ficção e da poesia.

Surpresa é, por exemplo, e ao mesmo tempo mensagem espiritual, a história do homem que não acredita em Deus. “DEUS EXISTE…”, o título é seguro, insofismável. Apresenta, apesar disso, um incrédulo. E vai seguindo o caso até que o leitor entenda que se trata de um maluco. Ponto final. Ou não? Ou entenderá que o cara estava bêbado e o observador fazia mau juízo? À cena o leitor.

E “O MORTO E O VIVO”? E as seguintes estórias, bem engendradas e um tanto mentirosas, sendo realistas? Dissecar o que vem em cada uma delas, não. Para não reduzir ou tirar o gosto daquele a quem se destina, como foi comigo, a avaliação do livro e a quem desejo boa e alegre leitura, enquanto parabenizo o autor.

Mas… Mas… Por que não dizer um pouco mais? Por que não encerrar com o coração, essa modesta palavra? FEIRA DE PÁSSAROS, o último conto, apresenta vestida de inocência e simplicidade quase doces, uma abordagem humana. Uma temática tão forte que nos deixa a pensar nas implicações das necessidades do homem e nos problemas do dia-a-dia na vida das pessoas. Um cidadão simples e bom, honesto e sensível, chega a vazar os olhos dos passarinhos a vender na feira, porque descobre que cegos eles cantam melhor, e melhor cantando são mais vendáveis. Carecia do pão para a mesa de seus filhos. Ah, meu caro Oswaldo, só esse conto valeria pelo livro, se todo ele não valesse como esse conto.

Que, impresso, o trabalho chegue ao leitor. De certo este o entenderá como lazer e cultura.

Fonte:
http://www.joaojustiniano.net/files/prosa18.htm

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Oswaldo Evandro Carneiro Martins (1922)

Filho de Evandro Borges Martins e Laura Carneiro Martins, nasceu no dia 17 de Agosto de 1922 na cidade de Fortaleza, onde fez os primeiros estudos (Instituto São Luís do Professor Francisco de Menezes Pimentel), o ginasial no Colégio Militar do Ceará.

Em 14 de dezembro de 1945, diplomou-se pela Escola de Agronomia no Ceará. Professor da Universidade de Fortaleza e Titular aposentado pela Universidade Federal do Ceará, também é Bacharel em Direito (1962) e Licenciado em Filosofia (pura) pela Faculdade de Filosofia do Ceará (1966).

Colabora no Boletim da Sociedade Cearense de Agronomia, na Revista dos Municípios do Ceará, revista Razão, jornal O Democrata, O Povo, Revista da Sociedade Cearense de Geografia e História. Publicou: Memória Pró-Escola de Conservação dos Recursos Naturais.

A análise dos seus trabalhos de pesquisas denota o espírito de investigação científica e que evidencia também a visão metodológica de uma interpretação crítica à luz da Ciência. Suas obras retratam mesmo a evolução conhecimento com fundamento não só dentro da Teoria da Ciência do Comportamento, mas também, e notadamente, no campo das Ciências Naturais e especialmente na Ecologia.

Quanto a cultura é uma das inteligências mais lúcidas, com excepcional contribuição ao desenvolvimento da cultura cearense, sobretudo no Ensaio Literário de Sociológico e na pesquisa de conteúdo histórico, sempre a serviço dos altos ideais do espírito e da verdade.

No ano de 1970 foi Administrador da Unidade Avançada José Veríssimo, da Universidade Federal Fluminense, em Óbidos, PA.

É membro da Sociedade Cearense de Geografia e História e do Instituto do Ceará.

Fonte:
http://www.ceara.pro.br/Instituto-site/membros/OswaldoMartins.html

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n.108)

Uma Trova Nacional

No meu baú de lembranças
onde a rotina enterrei,
restaram minhas andanças
e os prantos que derramei…
(REJANE COSTA/CE)

Uma Trova Potiguar

Os quadros que já pintei,
usando a tinta da vida,
foi o modo que encontrei
pra torná-la colorida.
(MARCOS MEDEIROS/RN)

Uma Trova Premiada

2010 > Niterói/RJ
Tema > PALAVRA > Vencedora

Tu chegas de madrugada,
cabisbaixo e sempre mudo…
E o silêncio da chegada,
sem palavras, já diz tudo!
(SELMA PATTI SPINELLI/SP)

Simplesmente Poesia

MOTE.
E a terra caiu no chão!

GLOSA:
Eu fiz um jardim suspenso
com terra bem adubada,
planta selecionada
e flores de muito incenso,
depois fiquei muito tenso
numa noite de São João,
no céu zoou um Trovão
que o mundo se sacudiu,
meu belo jardim ruiu
e a terra caiu no chão!
(ZÉ DE SOUSA/PB)

Uma Trova de Ademar

A promessa quando é feita
num altar da santa sé,
no céu, só será aceita
se ela for feita com fé!
(ADEMAR MACEDO/RN)

…E Suas Trovas Ficaram

Gotas de amargas vivências,
ou de alegria incontida,
lágrimas são reticências
no texto frio da vida…
(WALDIR NEVES/RJ)

Estrofe do Dia

Vejam aquele rapaz
sentado naquele banco,
com um traje que já foi branco
mas está sujo demais;
na minha mente ele traz
uma caneta na mão,
e dos olhos desse cristão
vejo descer pingos d’água;
aquilo é alguma mágoa
que ele tem no coração.
(JOSÉ TOMAZ/PB)

Soneto do Dia

– Renato Alves/RJ –
SUSSURROS

Tudo o que é bom na vida é sussurrado
as melhores verdades vêm com calma
penetram devagar em nossa alma
deixando o coração apaixonado.

Sussurra a meiga chuva no telhado
sussurra docemente, ao vento, a palma…
Deus ouve a confissão, o homem acalma,
e, sussurrando, absolve o seu pecado.

Também sussurra o mar em seu marulho
o sol desponta sem fazer barulho,
e, na oração, em tom menor, eu clamo…

Por isso, o que eu queria, em voz pequena
era ouvir tua boca tão serena
bem fundo em meu ouvido a dizer: “Te amo!”

Fonte:
Ademar Macedo

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Cornélio Pires (Livro de Trovas)

A bica do maldizente
Que vive de reprovar;
É igual à boca da noite,
Que ninguém pode fechar.

Afirmação que interessa
Tanto ao fraco quanto ao forte:
Quem açambarca a fortuna,
Desconhece a lei da morte.

Ante a Lei de Causa e Efeito
Que nos libera ou detém,
Há muito bem que faz mal,
Muito mal produz o Bem.

A pessoa ponderada
Aceita o dever, age e pensa;
Não exagera perguntas,
Falar demais é doença.

As minhas trovas de agora;
Não guardam nada de novo,
São pensamentos dos sábios;
Com pensamentos do povo.

Até que haja na Terra
Limpeza de alma segura,
Todos nós carregaremos
Um pouco de loucura.

Computador é progresso,
Facilidade de ação,
Prodígio da inteligência,
Mas precisa direção.

Convidado para a festa
Não se adianta, nem demora,
Nunca surge tarde ou cedo,
Dará presença na hora.

Da multidão dos enfermos
Que sempre busco rever
O doente mais doente
É o que não sabe sofrer.

Diz o mundo que a nobreza
Nasce de berço opulento,
Mas qualquer pessoa é nobre,
Conforme o procedimento.

Em questões de livre-arbítrio,
Discernimento é preciso;
Todos temos liberdade,
O que nos falta é juízo.

Eis uma dupla correta
Que na vida é sempre clara:
O sofrimento nos une,
A opinião nos separa.

Estes versos me nasceram
Na intimidade do peito,
Se alguém lhes der atenção;
Fico grato e satisfeito.

Existem casos ocultos
Nos corações intranqüilos
Que, a benefício dos outros,
Não se deve descobri-los.

Existem homens famosos,
E muitos deles ateus,
Esquecidos de que moram
No grande Mundo de Deus.

Fenômeno admirável
Para os crentes e os ateus;
Notar em cada pessoa
A paciência de Deus.

Não te irrites, nem fraquejes;
Quando mais te desconfortas,
A tua vida é uma casa
Com saída de cem portas.

Não te revoltes se levas
Uma existência sofrida,
A provação, quando chega,
Age em defesa da vida.

No corre-corre dos homens
Há quadros fenomenais.
Anota: Quem sabe menos;
É fala muito mais.

No que fazer e fizeste
Registra em paz o que tens;
Há muitos bens que são males,
Muitos males que são bens

Observando a mim mesmo,
Anoto em linhas gerais;
Os nossos irmãos mais loucos
Estão fora de hospitais.

O orgulho é uma enfermidade
Na pessoa o que se aferra,
Doença que a vida cura
Usando emplastros de terra.

Provérbio antigo que achei,
Entre nobres companheiros:
“O avarento passa fome
Para luxo dos herdeiros “.

Quem quiser auxiliar
De qualquer modo auxilia;
Quem não quer, manda fazer
Ou deixa para outro dia.

Quem quiser saber o início
Das grandes obras do Bem,
Procure ajudar aos outros,
Nem fale mal de ninguém.

Sabedoria só age
No que for justo e preciso;
Mas a Ciência, por vezes,
Age fora do juízo.

Sem sofrimento em nós mesmos,
Não se sabe o que se é,
Não se sabe da ingenuidade
Nem se sabe se tem fé.

Silêncio é um amigo certo,
Guardando virtudes raras,
No entanto, a palavra livre,
Às vezes, tem muitas caras.

Sociedade é um jardim
De expressão risonha e bela;
Entretanto, a convivência
Exige muita cautela.

Vinha do enterro do avô,
Mas jogou na loteria;
Ganhando cem mil reais,
Antônio chorava e ria.

Fonte:
PIRES, Cornélio. “Alma Do Povo” – Médium: Francisco Cândido Xavier, 1995.

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Cornélio Pires (1884 – 1958)

Cornélio Pires (Tietê, 13 de julho de 1884 — São Paulo, 17 de fevereiro de 1958) foi um jornalista, escritor, folclorista e espírita brasileiro. Foi um importante etnógrafo da cultura caipira e do dialeto caipira.

Cornélio Pires nasceu na cidade de Tietê, Estado de São Paulo, no dia 13 de julho de 1884, e a sua desencarnação aconteceu na cidade de S. Paulo, no dia 17 de fevereiro de 1958.

Homem de personalidade inconfundível, tornou-se figura popular e de bastante destaque em todo o Brasil, graças ao trabalho, por ele encetado, de viajar pelas cidades do Interior do Estado de S. Paulo e outros Estados, estreando na condição de caipira humorista.

Em 1910, Cornélio Pires, apresentou no Colégio Mackenzie hoje Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, um espetáculo que reuniu catireiros, cururueiros, e duplas de cantadores do interior. O Colégio Mackenzie foi fundado e sempre mantido pela Igreja Presbiteriana, à qual Cornélio Pires pertencia.

Em sua juventude aspirava participar de um concurso de admissão numa Faculdade de Farmácia. Animado desse propósito viajou de Tietê para S. Paulo, a fim de se inscrever como candidato a um desses concursos, porém, apesar do seu desempenho não logrou êxito nesse seu intento.

Ambicionando cursar a Faculdade de Farmácia, deslocou-se de Tietê para a cidade de São Paulo, a fim de prestar concurso de admissão. Não teve sucesso em seu intento.

Tomou então a deliberação de dedicar-se ao jornalismo, passando a trabalhar na redação do jornal O Comércio de São Paulo, em cujo cargo desenvolveu um aprendizado bastante estafante. Posteriormente passou a exercer atividades nos jornais O São Paulo e O Estado de São Paulo, tradicional órgão da imprensa paulista, onde desempenhou a função de revisor e, finalmente, no ano de 1914, passou a dar a sua contribuição ao órgão O Pirralho.

Numerosos escritores teceram comentários sobre a personalidade de Cornélio Pires e, para ilustração, passemos a citar Joffre Martins Veiga, que em seu trabalho A Vida Pitoresca de Cornélio Pires, escreveu ” Ninguém amou tanto a sua gente como Cornélio Pires; ninguém se preocupou tanto com seus semelhantes como esse homem, que foi, antes de tudo, um Bom”. O famosos poeta Martins Fontes, por sua vez, escrevendo sobre ele, afirmou: “é um bandeirante puro, um artista incansável, enobrecedor da Pátria e enriquecedor da língua”.

Admirado também pelo grande jornalista Amadeu Amaral, este deu-lhe a sugestão de tornasse um dos maiores divulgadores do folclore brasileiro.

Pelos idos de 1910, Cornélio Pires lançou o livro Musa Caipira, obra que foi largamente saudada pela crítica, graças ao seu conteúdo tipicamente brasileiro. Sílvio Romero tornou-se um dos seus mais salientes críticos, comentando da seguinte forma o lançamento dessa obra: ” Apreciei imensamente o chiste, a cor local, a graça, a espontaneidade de suas produções que, além do seu valor intrínseco, são um ótimo documento para o estudo dos brasileirismos da nossa linguagem”.

Foi autor de mais de vinte livros, nos quais procurou registrar o vocabulário, as músicas, os termos e expressões usadas pelos caipiras. No livro “Conversas ao Pé do Fogo”, Cornélio Pires faz uma descrição detalhada dos diversos tipos de caipiras e, ainda no mesmo livro, ele publica o seu “Dicionário do Caipira”. Na obra “Sambas e Cateretês” recolhe inúmeras letras de composições populares, muitas das quais hoje teriam caído no esquecimento se não tivessem sido registradas nesse livro. A importância de sua pesquisa começa a ser reconhecida nos meios acadêmicos no uso e nas citações que de sua obra faz Antonio Candido, professor na Universidade de São Paulo, o nosso maior estudioso da sociedade e da cultura caipira, especialmente no livro Os Parceiros do Rio Bonito.

Foi o primeiro a conseguir que a indústria fonográfica brasileira lançasse, em 1928, em discos de 78 Rpm, a música caipira. Segundo José de Souza Martins, Cornélio Pires foi o criador da música sertaneja, mediante a adaptação da música caipira ao formato fonográfico e à natureza do espetáculo circense, já que a música caipira é originalmente música litúrgica do catolicismo popular, presente nas folias do Divino, no cateretê e na catira (dança ritual indígena, durante muito tempo vedada às mulheres, catolicizada no século XVI pelos padres jesuítas), no cururu (dança indígena que os missionários transformaram na dança de Santa Cruz, ainda hoje dançada no terreiro da igreja da Aldeia de Carapicuíba, em São Paulo, por descendentes dos antigos índios aldeados, nos primeiros dias de maio, na Festa da Santa Cruz, a mais caipira das festas rurais de São Paulo).

A criação de Cornélio Pires permitiu à nascente música caipira comercial, que chegou aos discos 78rpm libertar-se da antiga música caipira original, ganhar vida própria e diversificar seu estilo. Atualmente a música caipira é chamada de música raiz para se diferenciar da música sertaneja. A música caipira dos discos 78rpm nasce, no final da década de 1920, como o último episódio de afirmação de uma identidade paulista após a abolição da escravatura, em 1888, que teve seu primeiro grande episódio na pintura, especialmente a do piracicabano Almeida Júnior, expressa em obras como “Caipira picando fumo”, “Amolação interrompida”, dentre outras. A ironia e a crítica social da música sertaneja originalmente proposta por Cornélio Pires, situa-se na formação do nosso pensamento conservador, que se difundiu como crítica da modernidade urbana. O melhor exemplo disso é a “Moda do bonde camarão”, uma das primeiras músicas sertanejas e uma ferina ironia sobre o mundo moderno.

No início do presente século, Cornélio Pires começou a freqüentar a Igreja Presbiteriana, entretanto não conseguiu conciliar os ensinamentos dessa religião com o seu modo de pensar. Ele não admitia a existência das penas eternas e de um Deus que desse preferência aos seguidores de determinadas religiões. O demasiado apego aos formalismos da letra, na interpretação dos textos evangélicos fez com que ele quase descambasse para o materialismo.

Nessa época ele desconhecia o que era Espiritismo, entretanto, durante as suas viagens ao Interior, aconteceram com ele vários fenômenos mediúnicos, inclusive algumas comunicações do Espírito Emilio de Menezes, as quais muito o impressionaram. Como conseqüência ele passou a estudar obras espíritas principalmente as de Allan Kardec, Leon Denis, Albert de Rochas e alguns livros psicografados pelo médium Francisco Cândido Xavier.

Dali por diante integrou-se decididamente no Espiritismo, interessando-se muito pelos fenômenos de efeitos físicos. Nos anos de 1944 a 1947 ele escreveu os livros Coisas do Outro Mundo e Onde estás, ó morte?, tendo desencarnado quando escrevia Coletânea Espírita.

De sua vasta bibliografia destacamos: Musa Caipira, Versos Velhos, Cenas e Paisagens de minha Terra, Monturo, Quem conta um conto, Conversas ao Pé do Fogo, Estrambóticas Aventuras de Joaquim Bentinho – O Queima Campo, Tragédia Cabocla, Patacoadas, Seleta Caipira, Almanaque do Saci, Mixórdias, Meu Samburá, Sambas e Cateretês, Tarrafas, Chorando e Rindo, De Roupa Nova, Só Rindo, Ta no Bocó, Quem conta um Conto e outros Contos…, Enciclopédia de anedotas e Curiosidades, além dos dois livros espíritas acima citados.

Num de dos seus escritos sobre o Espiritismo, dizia ele: ” O Espiritismo, mais cedo ou mais tarde, fará aos católicos romanos, aos protestantes e aos adeptos de outros credos, a caridade de robustecer-lhes a Fé, com os fatos que provam a imortalidade da Alma, que se transforma em Espírito ao deixar o invólucro material” e mais adiante ” O Espiritismo nos proporciona a FÉ RACIOCINADA, nos arrebata ao jugo do dogma e nos ensina a compreender DEUS como Ele é”.

Pouco antes de sua morte, Cornélio Pires, demonstrando que havia assimilado o preceito de Jesus Cristo: ” Amai ao próximo como a ti mesmo”, voltou para a cidade do Tietê e ali comprou uma chácara, onde fundou a ” Granja de Jesus”, lar destinado a crianças desamparadas. Infelizmente ele não chegou a ver a conclusão da obra.

Cornélio Pires chegou a organizar o ” Teatro Ambulante Cornélio Pires” perambulando de cidade em cidade, sendo aplaudido por toda a população brasileira por onde passava. Esse intento foi concretizado após ter abandonado a carreira jornalística.

Causos sobre Cornélio

Cornélio foi descendente de Bandeirantes, era filho de Raimundo Pires de Campos e de Ana Joaquina de Campos Pinto, (D. Nicota), nasceu antes do tempo, pois Tia Nicota, grávida de Cornélio, escorregou em uma casca de laranja, caiu sentada e passou a sentir fortes dores, acabou indo para a cama por volta das 11 horas. Quando Tio Raimundo chegou da roça, teve que cortar o cordão umbilical do recém nascido.

Como vê, nascido antes do tempo e ainda com o nome trocado. E o próprio escritor diz: “Meu nome tem a sua historia”. Uma de minhas tias maternas andava de namoro com um parente chamado Rogério Daunt, e foi ela que me levou a Pia Batismal. Ao me batizar, Padre Gaudêncio de Campos, que era nosso parente, e nesta época já bem velho e muito surdo, pergunta: “Como se chama o inocente?”. Ao que responde sua Tia, “Rogério”. E o Padre – “Eu te batizo, Cornélio…”.

E Cornélio crescia, porém desde cedo revelou-se um chorão de primeira, por qualquer motivo soltava as lágrimas. Certa feita, sua mãe o levou para visitar alguns parentes, e em meio a conversa com os adultos, ele começou a chorar sem nenhuma razão. A dona da casa, muito preocupada, desdobrou-se para acalmá-lo dizendo: -Que é isso Cornélio…, o que você tem? – Perguntou ela com ternura, alisou-lhe os cabelos loiros e deu-lhe uma moeda de alguns reis. – Tá, tome este presentinho pra calar o bico. Coitadinho! O menino parou de chorar, limpou as lágrimas com as costas das mãos e exclamou. – Ah! A senhora pensa que eu choro por dinheiro? E bem rápido, agarrou o níquel, enfiou no bolso da calça de brim e iniciou outra choradeira.

De outra feita, um outro tio, muito zombeteiro, sempre que o encontrava, dava-lhe amáveis e doidos piparotes na cabeça. A brincadeira tornou-se monótona pela repetição. O menino não gostava dos gracejos, porém, nunca se queixou aos pais. D. Nicota, contudo, soube dos que se passava e recomendou ao filho, entre divertida e indignada. – Quando ele bater outra vez, você responda que não foi batizado por Cabeçudo. Certo domingo, o garoto se dirigia ao jardim, quando se encontrou com o parente e este repetiu o gesto e usou da mesma expressão. Cornélio, pensando no que sua mãe lhe disse, foi logo dizendo todo atrapalhado. – “Não fui BATIZUDO por CABECADO! E saiu de cara amarrada entre risos dos presentes.

Outra passagem, ocorreu em uma das tentativas de alfabetização de Cornélio. Seus pais já cansados em tentativas frustradas, conheceram um grande sábio dinamarquês, Alexandre Hummel, um professor ideal para o filho, pensavam os pais. Hummel era pobre, solteiro, sóbrio, vivia em hotéis quando podia, altivo de caráter. Vivia baixando em fazendas, lecionando quase que só a troca de cama e mesa. Ensinava tudo o que lhe pediam e dominava muito bem o português. Com a morte de Ruy Barbosa, o jornal “O Tietê” encomendou-lhe uma reportagem. O sábio Dinamarquês, sentou-se a mesa da redação e redigiu um bonito artigo sobre Ruy Barbosa, sem consultar livros ou biografias. Hummel era dono de uma memória prodigiosa, dominador de vários idiomas, tinha um bom senso de humor, porém não era humorista, no sentido popular. Isto não lhe deixava entender ou tolerar um menino gordo, muito feio, cheio de vontades. Talvez no seu íntimo, vendo a desatenção do caipirinha, às vezes o tachasse de burro. Mas não foi o que disse um dia irritado. – “CORRRNELIO PIRRES”, você e muito “INTELICHENTE, mas e muito “IGNORRANTE”!.

Já crescido, por volta de 1907, conhecido como Tibúrcio, este apelido, ele ganhou na passagem de um circo pela cidade, que possuía um orangotango chamado de Tibúrcio, seus amigos achando alguma semelhança, passaram então a chamá-lo de Tibúrcio. Cornélio foi trabalhar, a convite de um tal Dr.Vieira, na redação do jornal “O Movimento”, semanário político que circulava na cidade de São Manoel, em S.P. Certa noite, alguém lançou um concurso de feiúra e divulgou pela cidade. Poucas semanas depois, o redator do jornal de Dr. Vieira, anunciou que, Cornélio Pires, ele mesmo, ganhara o concurso – por unanimidade! – O tieteense sempre brincalhão, achou graça e cooperou no certame para sua melhor performance. No dia da entrega do premio, lá estava o vencedor pronto para receber seu premio: “Uma corda para se enforcar”!

Esta outra ocorreu pelo ano de 1933, já beirando os 49 anos, com a afamada superstição do numero 13. Um grande amigo das noitadas de Cornélio o encontrou sentado em um banco na Praça do Patriarca muito pensativo. Começaram a conversar e em pouco tempo estava formada a tradicional roda em volta dos dois. Alguém fez referências ao acaso de certas pessoas serem perseguidas pelo numero 13. Cornélio com aquele jeitão, achando sempre um “a propósito” para todos os casos, chamou a atenção da roda. – Pois saibam vocês que tenho grande predileção pelo número 13, e sou por ele fartamente retribuído. E Cornélio começou sua descritiva:

Cornélio Pires – 13 letras. Vi a luz em Julho – 13 letras. Nasci no dia treze – 13 letras. Século passado – 13 letras. Eu sou paulista – 13 letras. Sou brasileiro – 13 letras. Nasci no Brasil – 13 letras. Sul de São Paulo – 13 letras. Cidade de Tietê – 13 letras. D.Anna Joaquina (minha mãe) – 13 letras. Raimundo Pires (meu pai) – 13 letras. Poeta e caipira – 13 letras. Poeta e “conteur” 13 letras. Conferencista – 13 letras. Escrevo livros – 13 letras. Sou muito pobre – 13 letras. Sou muito feliz – 13 letras. Eu sou solteiro – 13 letras. Amei treze “emes” (o M e a 13 letra do alfabeto) – 13 letras. E o escritor regionalista concluiu: Não cito os nomes das minhas 13 namoradas, porque, vocês compreendem… E com esta, até logo. – Para aonde vais? – Vou tomar Bonde! – E note uma coisa, que sua pergunta e minha resposta, ambas tem 13 letras!

Até doente Cornélio ainda mostrava sua veia de humorista. Esta aconteceu no hospital que Cornélio estava internado, em São Paulo. Ele recebia visitas de parentes, em seu quarto, quando entrou uma enfermeira com sua medicação diária. Era composta de comprimidos e de uma injeção. Tomou os comprimidos enquanto a enfermeira preparava a seringa. Virou-se ela e perguntou. – Sr. Cornélio, aonde quer que aplique esta injeção? Cornélio olhou para os braços já todos picados, olhou para cima, para os lados e sem cerimônia disse: – Pode aplicar ali na parede mesmo!

Algum tempo depois, em 17 de Fevereiro de 1958, as 2:30 h , falecia Cornélio Pires no Hospital das Clínicas de São Paulo, vítima de câncer na laringe. Seus restos mortais foram trasladados no mesmo dia para sua cidade natal e sepultados no cemitério local. Faleceu solteiro convicto e em plena lucidez, tinha 74 anos incompletos. Foi enterrado de pijamas e descalço, conforme sua vontade.

Fontes:
http://www.widesoft.com.br/users/pcastro4/biogrcp.htm
http://www.espiritismogi.com.br/biografias/cornelio.htm
http://pt.wikipedia.org/

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Folclore, Superstição, Lendas e Histórias (Aves do Brasil: Beija-Flor)

Coacyaba – O primeiro beija-flor

Os índios do Amazonas acreditam que as almas dos mortos transformam-se em borboletas. É por esse motivo que elas voam de flor em flor, alimentando-se e fortalecendo-se com o mais puro néctar, para suportarem a longa viagem até o céu.

Coaciaba, uma bondosa índia, ficara víuva muito cedo, passando a viver exclusivamente para fazer feliz a sua filhinha Guanambi. Todos os dias passeava com a menina pelas campinas de flores, entre pássaros e borboletas. Dessa forma pretendia aliviar a falta que o esposo lhe fazia. Mesmo assim, angustiada, acabou por falecer.

Guanambi ficou só e seu único consolo era visitar o túmulo da mãe, implorando que esta também a levasse para o céu. De tanta tristeza e solidão, a criança foi enfraquecendo cada vez mais e também morreu. Entretanto sua alma não se tornou borboleta, ficando aprisionada dentro de uma flor próximo à sepultura da mãe, para assim permanecer do seu lado.

Enquanto isso, Coaciaba, em forma de borboleta, voava entre as flores, colhendo o seu néctar. Ao aproximar-se da flor onde estava Guanambi, ouviu um choro triste, que logo reconheceu. Mas, como frágil borboleta, não teria forças para libertar a filhinha. Pediu então ao deus Tupã que fizesse dela um pássaro veloz e ágil, que pudesse levar a filha para o céu. Tupã atendeu ao seu pedido, transformando-a num beija-flor, podendo assim, realizar o seu desejo.

Desde então, quando morre uma criança índia órfã de mãe, sua alma permanece guardada dentro de uma flor, esperando que a mãe, em forma de beija-flor, venha buscá-la, para juntas voarem para o céu, onde estarão eternamente.
O beija-flor

Um casal que tinha uma filha muito linda, trazia-a escondida, com medo que algum rapaz a roubasse.

Certa vez, uma escrava que foi à fonte buscar água, viu um beija-flor cantando bonito assim:

Esperança, esperança
Hum-hum
Tá… tá… tá-lê-lê
Sentada no cazumba
Helena Pereira,
Hum-hum

A negra deixou-se ficar, encantada. Como demorasse, a mãe da moça mandou outra negra, que também lá ficou. Depois outra e mais outra. Afinal, todos os escravos que foram, ficaram presos pelo encanto do pássaro. Por fim, a própria mãe da moça foi e ficou. Restava a moça, que não vendo ninguém voltar, foi à fonte, mas o beija-flor, logo que a viu, voou para ela, agarrou-a e despareceram juntos.

Fontes:
ANDRADE E SILVA, Waldemar de. Lendas e mitos dos índios brasileiros. São Paulo, FTD, 1997. Disponível em Jangada Brasil.

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Machado de Assis (Um Homem Célebre)

— AH! o SENHOR é que é o Pestana? perguntou Sinhazinha Mota, fazendo um largo gesto admirativo. E logo depois, corrigindo a familiaridade: — Desculpe meu modo, mas. .. é mesmo o senhor?

Vexado, aborrecido, Pestana respondeu que sim, que era ele. Vinha do piano, enxugando a testa com o lenço, e ia a chegar à janela, quando a moça o fez parar. Não era baile; apenas um sarau íntimo, pouca gente, vinte pessoas ao todo, que tinham ido jantar com a viúva Camargo, Rua do Areal, naquele dia dos anos dela, cinco de novembro de 1875… Boa e patusca viúva! Amava o riso e a folga, apesar dos sessenta anos em que entrava, e foi a última vez que folgou e riu, pois faleceu nos primeiros dias de 1876. Boa e patusca viúva! Com que alma e diligência arranjou ali umas danças, logo depois do jantar, pedindo ao Pestana que tocasse uma quadrilha! Nem foi preciso acabar o pedido; Pestana curvou-se gentilmente, e correu ao piano. Finda a quadrilha, mal teriam descansado uns dez minutos, a viúva correu novamente ao Pestana para um obséquio mui particular.

— Diga, minha senhora.
— É que nos toque agora aquela sua polca Não Bula Comigo, Nhonhô.

Pestana fez uma careta, mas dissimulou depressa, inclinou-se calado, sem gentileza, e foi para o piano, sem entusiasmo. Ouvidos os primeiros compassos, derramou-se pela sala uma alegria nova, os cavalheiros correram às damas, e os pares entraram a saracotear a polca da moda. Da moda, tinha sido publicada vinte dias antes, e já não havia recanto da cidade em que não fosse conhecida. Ia chegando à consagração do assobio e da cantarola noturna.

Sinhazinha Mota estava longe de supor que aquele Pestana que ela vira à mesa de jantar e depois ao piano, metido numa sobrecasaca cor de rapé, cabelo negro, longo e cacheado, olhos cuidosos, queixo rapado, era o mesmo Pestana compositor; foi uma amiga que lho disse quando o viu vir do piano, acabada a polca. Daí a pergunta admirativa. Vimos que ele respondeu aborrecido e vexado. Nem assim as duas moças lhe pouparam finezas, tais e tantas, que a mais modesta vaidade se contentaria de as ouvir; ele recebeu-as cada vez mais enfadado, até que, alegando dor de cabeça, pediu licença para sair. Nem elas, nem a dona da casa, ninguém logrou retê-lo. Ofereceram-lhe remédios caseiros, algum repouso, não aceitou nada, teimou em sair e saiu.

Rua fora, caminhou depressa, com medo de que ainda o chamassem; só afrouxou, depois que dobrou a esquina da Rua Formosa. Mas aí mesmo esperava-o a sua grande polca festiva. De uma casa modesta, à direita, a poucos metros de distância, saíam as notas da composição do dia, sopradas em clarineta. Dançava-se. Pestana parou alguns instantes, pensou em arrepiar caminho, mas dispôs-se a andar, estugou o passo, atravessou a rua, e seguiu pelo lado oposto ao da casa do baile. As notas foram-se perdendo, ao longe, e o nosso homem entrou na Rua do Aterrado, onde morava. Já perto de casa, viu vir dois homens: um deles, passando rentezinho com o Pestana, começou a assobiar a mesma polca, rijamente, com brio, e o outro pegou a tempo na música, e aí foram os dois abaixo, ruidosos e alegres, enquanto o autor da peça, desesperado, corria a meter-se em casa.

Em casa, respirou. Casa velha. escada velha. um preto velho que o servia, e que veio saber se ele queria cear.

— Não quero nada, bradou o Pestana: faça-me café e vá dormir.

Despiu-se, enfiou uma camisola, e foi para a sala dos fundos. Quando o preto acendeu o gás da sala, Pestana sorriu e, dentro d’alma, cumprimentou uns dez retratos que pendiam da parede. Um só era a óleo, o de um padre, que o educara, que lhe ensinara latim e música, e que, segundo os ociosos, era o próprio pai do Pestana. Certo é que lhe deixou em herança aquela casa velha, e os velhos trastes, ainda do tempo de Pedro I. Compusera alguns motetes o padre, era doudo por música, sacra ou profana, cujo gosto incutiu no moço, ou também lhe transmitiu no sangue, se é que tinham razão as bocas vadias, cousa de que se não ocupa a minha história, como ides ver.

Os demais retratos eram de compositores clássicos, Cimarosa, Mozart, Beethoven, Gluck, Bach, Schumann, e ainda uns três, alguns, gravados, outros litografados, todos mal encaixilhados e de diferente tamanho, mas postos ali como santos de uma igreja. O piano era o altar; o evangelho da noite lá estava aberto: era uma sonata de Beethoven.

Veio o café; Pestana engoliu a primeira xícara, e sentou-se ao piano. Olhou para o retrato de Beethoven, e começou a executar a sonata, sem saber de si, desvairado ou absorto, mas com grande perfeição. Repetiu a peça, depois parou alguns instantes, levantou-se e foi a uma das janelas. Tornou ao piano; era a vez de Mozart, pegou de um trecho, e executou-o do mesmo modo, com a alma alhures. Haydn levou-o à meia-noite e à segunda xícara de café.

Entre meia-noite e uma hora, Pestana pouco mais fez que estar à janela e olhar para as estrelas, entrar e olhar para os retratos. De quando em quando ia ao piano, e, de pé, dava uns golpes soltos no teclado, como se procurasse algum pensamento mas o pensamento não aparecia e ele voltava a encostar-se à janela. As estrelas pareciam-lhe outras tantas notas musicais fixadas no céu à espera de alguém que as fosse descolar; tempo viria em que o céu tinha de ficar vazio, mas então a terra seria uma constelação de partituras. Nenhuma imagem, desvario ou reflexão trazia uma lembrança qualquer de Sinhazinha Mota, que entretanto, a essa mesma hora, adormecia, pensando nele, famoso autor de tantas polcas amadas. Talvez a idéia conjugal tirou à moça alguns momentos de sono. Que tinha? Ela ia em vinte anos, ele em trinta, boa conta. A moça dormia ao som da polca, ouvida de cor, enquanto o autor desta não cuidava nem da polca nem da moça, mas das velhas obras clássicas, interrogando o céu e a noite, rogando aos anjos, em último caso ao diabo. Por que não faria ele uma só que fosse daquelas páginas imortais?

Às vezes, como que ia surgir das profundezas do inconsciente uma aurora de idéia: ele corria ao piano para aventá-la inteira, traduzi-la, em sons, mas era em vão: a idéia esvaía-se. Outras vezes, sentado, ao piano, deixava os dedos correrem, à ventura, a ver se as fantasias brotavam deles, como dos de Mozart: mas nada, nada, a inspiração não vinha, a imaginação deixava-se estar dormindo. Se acaso uma idéia aparecia, definida e bela, era eco apenas de alguma peça alheia, que a memória repetia, e que ele supunha inventar. Então, irritado, erguia-se, jurava abandonar a arte, ir plantar café ou puxar carroça: mas daí a dez minutos, ei-lo outra vez, com os olhos em Mozart, a imitá-lo ao piano.

Duas, três, quatro horas. Depois das quatro foi dormir; estava cansado, desanimado, morto; tinha que dar lições no dia seguinte. Pouco dormiu; acordou às sete horas. Vestiu-se e almoçou.

— Meu senhor quer a bengala ou o chapéu-de-sol? perguntou o preto, segundo as ordens que tinha. porque as distrações do senhor eram freqüentes.
— A bengala.
— Mas parece que hoje chove.
— Chove, repetiu Pestana maquinalmente.
— Parece que sim, senhor, o céu está meio escuro.

Pestana olhava para o preto, vago, preocupado. De repente:

— Espera aí.

Correu à sala dos retratos, abriu o piano, sentou-se e espalmou as mãos no teclado. Começou a tocar alguma cousa própria, uma inspiração real e pronta, uma polca, uma polca buliçosa, como dizem os anúncios. Nenhuma repulsa da parte do compositor; os dedos iam arrancando as notas, ligando-as, meneando-as; dir-se-ia que a musa compunha e bailava a um tempo. Pestana esquecera as discípulas, esquecera o preto, que o esperava com a bengala e o guarda-chuva, esquecera até os retratos que pendiam gravemente da parede. Compunha só, teclando ou escrevendo, sem os vãos esforços da véspera, sem exasperação, sem nada pedir ao céu, sem interrogar os olhos de Mozart. Nenhum tédio. Vida, graça, novidade, escorriam-lhe da alma como de uma fonte perene.

Em pouco tempo estava a polca feita. Corrigiu ainda alguns pontos, quando voltou para jantar: mas já a cantarolava, andando, na rua. Gostou dela; na composição recente e inédita circulava o sangue da paternidade e da vocação. Dois dias depois, foi levá-la ao editor das outras polcas suas, que andariam já por umas trinta. O editor achou-a linda.

— Vai fazer grande efeito.

Veio a questão do título. Pestana, quando compôs a primeira polca, em 1871, quis dar-lhe um título poético, escolheu este: Pingos de Sol. O editor abanou a cabeça, e disse-lhe que os títulos deviam ser, já de si, destinados à popularidade, ou por alusão a algum sucesso do dia, — ou pela graça das palavras; indicou-lhe dois: A Lei de 28 de Setembro, ou Candongas Não Fazem Festa.

— Mas que quer dizer Candongas Não Fazem Festa? perguntou o autor.
— Não quer dizer nada, mas populariza-se logo.

Pestana, ainda donzel inédito, recusou qualquer das denominações e guardou a polca, mas não tardou que compusesse outra, e a comichão da publicidade levou-o a imprimir as duas, com os títulos que ao editor parecessem mais atraentes ou apropriados. Assim se regulou pelo tempo adiante.

Agora, quando Pestana entregou a nova polca, e passaram ao título, o editor acudiu que trazia um, desde muitos dias, para a primeira obra que ele lhe apresentasse, título de espavento, longo e meneado. Era este: Senhora Dona, Guarde o Seu Balaio.

— E para a vez seguinte, acrescentou, já trago outro de cor.

Pestana, ainda donzel inédito, recusou qualquer das denominações compositor bastava à procura; mas a obra em si mesma era adequada ao gênero, original, convidava a dançá-la e decorava-se depressa. Em oito dias, estava célebre. Pestana, durante os primeiros, andou deveras namorado da composição, gostava de a cantarolar baixinho, detinha-se na rua, para ouvi-la tocar em alguma casa, e zangava-se quando não a tocavam bem. Desde logo, as orquestras de teatro a executaram, e ele lá foi a um deles. Não desgostou também de a ouvir assobiada, uma noite, por um vulto que descia a Rua do Aterrado.

Essa lua-de-mel durou apenas um quarto de lua. Como das outras vezes, e mais depressa ainda, os velhos mestres retratados o fizeram sangrar de remorsos. Vexado e enfastiado, Pestana arremeteu contra aquela que o viera consolar tantas vezes, musa de olhos marotos e gestos arredondados, fácil e graciosa. E aí voltaram as náuseas de si mesmo, o ódio a quem lhe pedia a nova polca da moda, e juntamente o esforço de compor alguma cousa ao sabor clássico, uma página que fosse, uma só, mas tal que pudesse ser encadernada entre Bach e Schumann. Vão estudo, inútil esforço. Mergulhava naquele Jordão sem sair batizado. Noites e noites, gastou-as assim, confiado e teimoso, certo de que a vontade era tudo, e que, uma vez que abrisse mão da música fácil…

— As polcas que vão para o inferno fazer dançar o diabo, disse ele um dia, de madrugada, ao deitar-se.

Mas as polcas não quiseram ir tão fundo. Vinham à casa de Pestana, à própria sala dos retratos, irrompiam tão prontas, que ele não tinha mais que o tempo de as compor, imprimi-las depois, gostá-las alguns dias, aborrecê-las, e tornar às velhas fontes, donde lhe não manava nada. Nessa alternativa viveu até casar, e depois de casar.

— Casar com quem? perguntou Sinhazinha Mota ao tio escrivão que lhe deu aquela notícia.
— Vai casar com uma viúva.
— Velha?
— Vinte e sete anos.
— Bonita?
— Não, nem feia, assim, assim. Ouvi dizer que ele se enamorou dela, porque a ouviu cantar na última festa de S. Francisco de Paula. Mas ouvi também que ela possui outra prenda, que não é rara, mas vale menos: está tísica.

Os escrivães não deviam ter espírito, — mau espírito, quero dizer. A sobrinha deste sentiu no fim um pingo de bálsamo, que lhe curou a dentadinha da inveja. Era tudo verdade. Pestana casou daí a dias com uma viúva de vinte e sete anos, boa cantora e tísica. Recebeu-a como a esposa espiritual do seu gênio. O celibato era, sem dúvida, a causa da esterilidade e do transvio, dizia ele consigo, artisticamente considerava-se um arruador de horas mortas; tinha as polcas por aventuras de petimetres. Agora, sim, é que ia engendrar uma família de obras sérias, profundas, inspiradas e trabalhadas.

Essa esperança abotoou desde as primeiras horas do amor, e desabrochou à primeira aurora do casamento. Maria, balbuciou a alma dele, dá-me o que não achei na solidão das noites, nem no tumulto dos dias.

Desde logo, para comemorar o consórcio, teve idéia de compor um noturno. Chamar-lhe-ia Ave, Maria. A felicidade como que lhe trouxe um princípio de inspiração; não querendo dizer nada à mulher, antes de pronto, trabalhava às escondidas; cousa difícil porque Maria, que amava igualmente a arte, vinha tocar com ele, ou ouvi-lo somente, horas e horas, na sala dos retratos. Chegaram a fazer alguns concertos semanais, com três artistas, amigos do Pestana. Um domingo, porém, não se pôde ter o marido, e chamou a mulher para tocar um trecho do noturno; não lhe disse o que era nem de quem era. De repente, parando, interrogou-a com os olhos.

— Acaba, disse Maria, não é Chopin?

Pestana empalideceu, fitou os olhos no ar, repetiu um ou dois trechos e ergueu-se. Maria assentou-se ao piano, e, depois de algum esforço de memória, executou a peça de Chopin. A idéia, o motivo eram os mesmos; Pestana achara-os em algum daqueles becos escuros da memória, velha cidade de traições. Triste, desesperado, saiu de casa, e dirigiu-se para o lado da ponte, caminho de S. Cristóvão.

— Para que lutar? dizia ele. Vou com as polcas. . . Viva a polca!

Homens que passavam por ele, e ouviam isto, ficavam olhando, como para um doudo. E ele ia andando, alucinado, mortificado, eterna peteca entre a ambição e a vocação. . . Passou o velho matadouro; ao chegar à porteira da estrada de ferro, teve idéia de ir pelo trilho acima e esperar o primeiro trem que viesse e o esmagasse. O guarda fê-lo recuar. Voltou a si e tornou a casa.

Poucos dias depois, — uma clara e fresca manhã de maio de 1876, — eram seis horas, Pestana sentiu nos dedos um frêmito particular e conhecido. Ergueu-se devagarinho, para não acordar Maria, que tossira toda noite, e agora dormia profundamente. Foi para a sala dos retratos, abriu o piano, e, o mais surdamente que pôde, extraiu uma polca. Fê-la publicar com um pseudônimo; nos dois meses seguintes compôs e publicou mais duas. Maria não soube nada; ia tossindo e morrendo, até que expirou, uma noite, nos braços do marido, apavorado e desesperado.

Era noite de Natal. A dor do Pestana teve um acréscimo, porque na vizinhança havia um baile, em que se tocaram várias de suas melhores polcas. Já o baile era duro de sofrer; as suas composições davam-lhe um ar de ironia e perversidade. Ele sentia a cadência dos passos, adivinhava os movimentos, porventura lúbricos, a que obrigava alguma daquelas composições; tudo isso ao pé do cadáver pálido, um molho de ossos, estendido na cama… Todas as horas da noite passaram assim, vagarosas ou rápidas, úmidas de lágrimas e de suor, de águas-da-colônia e de Labarraque , saltando sem parar, como ao som da polca de um grande Pestana invisível.

Enterrada a mulher, o viúvo teve uma única preocupação: deixar a música, depois de compor um Requiem, que faria executar no primeiro aniversário da morte de Maria. Escolheria outro emprego, escrevente, carteiro, mascate, qualquer cousa que lhe fizesse esquecer a arte assassina e surda.

Começou a obra; empregou tudo, arrojo, paciência, meditação, e até os caprichos do acaso, como fizera outrora, imitando Mozart. Releu e estudou o Requiem deste autor. Passaram-se semanas e meses. A obra, célere a princípio, afrouxou o andar. Pestana tinha altos e baixos. Ora achava-a incompleta. não lhe sentia a alma sacra, nem idéia, nem inspiração, nem método; ora elevava-se-lhe o coração e trabalhava com vigor. Oito meses, nove, dez, onze, e o Requiem não estava concluído. Redobrou de esforços, esqueceu lições e amizades. Tinha refeito muitas vezes a obra; mas agora queria concluí-la, fosse como fosse. Quinze dias, oito, cinco… A aurora do aniversário veio achá-lo trabalhando.

Contentou-se da missa rezada e simples, para ele só. Não se pode dizer se todas as lágrimas que lhe vieram sorrateiramente aos olhos, foram do marido, ou se algumas eram do compositor. Certo é que nunca mais tornou ao Requiem.

“Para quê?” dizia ele a si mesmo.

Correu ainda um ano. No princípio de 1878, apareceu-lhe o editor.

— Lá vão dois anos, disse este, que nos não dá um ar da sua graça. Toda a gente pergunta se o senhor perdeu o talento. Que tem feito?
— Nada.
— Bem sei o golpe que o feriu; mas lá vão dois anos. Venho propor-lhe um contrato: vinte polcas durante doze meses; o preço antigo, e uma porcentagem maior na venda. Depois, acabado o ano, podemos renovar.

Pestana assentiu com um gesto. Poucas lições tinha, vendera a casa para saldar dívidas, e as necessidades iam comendo o resto, que era assaz escasso. Aceitou o contrato.

— Mas a primeira polca há de ser já, explicou o editor. É urgente. Viu a carta do Imperador ao Caxias? Os liberais foram chamados ao poder, vão fazer a reforma eleitoral. A polca há de chamar-se: Bravos à Eleição Direta! Não é política; é um bom título de ocasião.

Pestana compôs a primeira obra do contrato. Apesar do longo tempo de silêncio, não perdera a originalidade nem a inspiração. Trazia a mesma nota genial. As outras polcas vieram vindo, regularmente. Conservara os retratos e os repertórios; mas fugia de gastar todas as noites ao piano, para não cair em novas tentativas. Já agora pedia uma entrada de graça, sempre que havia alguma boa ópera ou concerto de artista ia, metia-se a um canto, gozando aquela porção de cousas que nunca lhe haviam de brotar do cérebro. Uma ou outra vez, ao tornar para casa, cheio de música, despertava nele o maestro inédito; então, sentava-se ao piano, e, sem idéia, tirava algumas notas, até que ia dormir, vinte ou trinta minutos depois.

Assim foram passando os anos, até 1885. A fama do Pestana dera-lhe definitivamente o primeiro lugar entre os compositores de polcas; mas o primeiro lugar da aldeia não contentava a este César, que continuava a preferir-lhe, não o segundo, mas o centésimo em Roma. Tinha ainda as alternativas de outro tempo, acerca de suas composições a diferença é que eram menos violentas. Nem entusiasmo nas primeiras horas, nem horror depois da primeira semana; algum prazer e certo fastio.

Naquele ano, apanhou uma febre de nada, que em poucos dias cresceu, até virar perniciosa. Já estava em perigo, quando lhe apareceu o editor, que não sabia da doença, e ia dar-lhe notícia da subida dos conservadores, e pedir-lhe uma polca de ocasião. O enfermeiro, pobre clarineta de teatro , referiu-lhe o estado do Pestana , de modo que o editor entendeu calar-se. O doente é que instou para que lhe dissesse o que era, o editor obedeceu.

— Mas há de ser quando estiver bom de todo, concluiu.
— Logo que a febre decline um pouco, disse o Pestana.

Seguiu-se uma pausa de alguns segundos. O clarineta foi pé ante pé preparar o remédio; o editor levantou-se e despediu-se.

— Adeus.
— Olhe, disse o Pestana, como é provável que eu morra por estes dias, faço-lhe logo duas polcas; a outra servirá para quando subirem os liberais.

Foi a única pilhéria que disse em toda a vida, e era tempo, porque expirou na madrugada seguinte, às quatro horas e cinco minutos, bem com os homens e mal consigo mesmo.

Fontes:
ASSIS, Machado de. Várias Histórias. Ed. Martin Claret
Imagem = www.cce.ufsc.br/~nupill/literatura/homem.gif

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Machado de Assis (Análise dos Contos de “Várias Histórias”: 4. Um Homem Célebre)

Análise realizada pelo Prof. Bartolomeu Amâncio da Silva. Bacharel em Letras, pela USP, professor de literatura da rede Objetivo (colégios e cursos pré-vestibular).
––––––––––––––––––

Tipicamente machadiano, Um Homem Célebre, conto publicado, primeiramente, no periódico “A Estação”, em 1883, e, posteriormente, no livro Várias Histórias, em 1896, aborda o tema da incompatibilidade entre os ideais e a realidade, constituindo, uma quase parábola, a parábola da existência humana.

Nele, Machado de Assis mais uma vez não se atém somente ao aspecto historicista do Rio de Janeiro, na segunda metade do século XIX, invadido que foi pela música, ouvida nas ruas, advinda das casas, onde havia saraus, ou mesmo assobiada por transeuntes que passeavam nelas.

É a história da frustração de um compositor de polcas cujo maior desejo era criar obras clássicas. Conto repleto de humor, mostra a cruel ironia do destino, que persegue o pobre Pestana com as composições efêmeras de gosto popular, imediatamente “consagradas pelo assobio”. Morre “bem com os homens e mal consigo mesmo“.

A temática básica desse conto é a oposição entre vocação e ambição. Sua personagem principal, Pestana, é um famoso compositor de polcas, um estilo bastante popular de música, conhecido e louvado por todos que o cercam, mas ele vive um dilema pessoal: odeia suas composições e toda a popularidade que elas lhe proporcionam. Seu grande sonho é produzir música erudita no nível dos grandes mestres, como Chopin, Mozart, Haydn, é “compor uma peça erudita de alta qualidade, uma sonata, uma missa, como as que admira em Beethoven ou Mozart”. A busca pela perfeição estética marca a trajetória do famoso músico, que vê todas as alternativas lhe serem negadas no decorrer da vida: “Aspira ao ato completo, à obra total”. No entanto, eram as polcas, sempre as polcas, que lhe vinham à cabeça durante os momentos de composição:

Às vezes, como que ia surgir das profundezas do inconsciente uma aurora de idéia; ele corria ao piano, para aventurá-la inteira, traduzi-la em sons, mas era em vão, a idéia esvaía-se (…) Então, irritado, erguia-se, jurava abandonar a arte, ir plantar café ou puxar carroça; mas daí a dez minutos, ei-lo outra vez, com os olhos em Mozart, a imitá-lo ao piano (…) De repente (…) Compunha só teclando ou escrevendo, sem os vãos esforços da véspera, sem exasperação, sem nada pedir ao céu, sem interrogar os olhos de Mozart. Nenhum tédio. Vida, graça, novidade, escorriam-lhe da alma como de uma fonte perene. Em pouco tempo estava a polca feita. (ASSIS, 1997, p. 23)

O protagonista do conto é apresentado tal como se encontra intimamente: ”vexado e aborrecido”. Já no início da obra, depara-se com um Pestana incomodado e descontente com a popularidade que existe em torno de suas composições. Quando solicitado para que tocasse uma de suas polcas na comemoração do aniversário da viúva Camargo, percebe a sintonia entre sua música e os convidados, apesar de tê-la publicado apenas vinte dias antes. Frente ao ocorrido, qualquer compositor se sentiria realizado. Pestana, entretanto, abandona o recinto alegando estar com dor de cabeça e fica mais angustiado ainda quando ouve, nas ruas, uma de suas polcas sendo assobiadas. Segundo J. C. Garbuglio, existe uma distinção muito grande entre o pretendido e o alcançado na vida do compositor: nem mesmo as aclamações por parte da população facilitam e diminuem a dificuldade que há no caminho para se ir do anseio à realização, que é o “local” em que se encontra o músico no conto Um Homem Célebre.

Diante de tal situação, Pestana sente-se diminuído em suas produções, pois não quer compor apenas para as massas, quer ser portador de um modelo que simbolize e represente algo mais elaborado e elevado, que o transporte para além do seu momento, e não, simplesmente, o consagre na plenitude de sua existência. Essa plenitude efêmera representa pouco para o compositor. Sua ambição é a eternidade.

O desencontro é o que permeia a vida do protagonista Pestana. Esse problema é fundamental na formulação e interpretação do homem machadiano. ‘Malentendido original’, ou portador de tal atribuição, ele ganha estatuto centralizador da vida social e individual e se transforma em guia e desgoverno da criatura, para fazer do homem vítima e joguete de sua tessitura.

O início desse desencontro está na busca da satisfação pessoal, no desejo humano de realizar algo e nas interferências e dificuldades que aparecem diante dessa vontade, frustrando sua realização: há um impasse entre o anseio pessoal e a expressão do que se consegue ou se tenta conseguir. Pesta, o célebre compositor de polcas, vive triste e macambúzio; tem o poder criador e o domínio da língua, mas quer algo mais. Suas polcas não o conduzem ao encontro da satisfação plena, pois, para ele, representam algo inferior, que está apenas ligado ao sucesso. Pestana quer compor música erudita, uma forma superior de arte, que o leve à imortalidade. Sem os clássicos, há falta de glória; há, portanto, uma vida diretamente ligada à tristeza. “Por que não faria ele uma só que fosse daquelas páginas imortais?” (ASSIS, 1997, p. 23)

Esses desencontros são contradições: contradição entre o parecer e o ser, entre a máscara e o desejo, entre o que é público e a vida interior. E o protagonista de Um Homem Célebre vive, mesmo, envolto em contradições: é um famoso compositor de polcas, mas quer compor música erudita, assim como os “santos” que cultua: Mozart, Beethoven, Gluck, Bach, Shumann etc; deseja a glória com a produção de algo superior, mas sobrevive das suas polcas; é uma celebridade entre seus compatriotas, mas vive frustrado perante a sua falta de capacidade para a tão desejada glória e imortalidade.

Tamanha é a obstinação do músico para alcançar sua ambição, que chega até a se casar com uma cantora lírica tísica, Maria, crendo que, convivendo com ela, finalmente teria a fatídica inspiração. Mas sua vocação mais uma vez é colocada em segundo plano quando se casa:

O celibato era, sem dúvida, a causa da esterilidade e do transvio, dizia ele consigo; artisticamente considerava-se um arruador de horas mortas; tinha as polcas por aventura de petimetres. Agora sim, é que ia engendrar uma família de obras sérias, profundas, inspiradas e trabalhadas. (ASSIS, 1997, p. 25)

Contudo, ainda que sob o efeito de tal estratégia, mais uma vez sua investida ao tão sonhado mundo erudito cai por terra, pois, nem após a morte de sua esposa, quando se propõe a compor um Réquiem para executar no seu primeiro aniversário de morte, consegue realizar seu intento. Talvez, Pestana não pudesse (ou simplesmente não quisesse) desistir; o que se sabe, apenas, é que as lágrimas caídas de seus olhos durante o ocorrido se confundiam entre a dor do marido e a infertilidade do compositor.

E é assim que o personagem principal do conto se encontra durante toda a narrativa: confuso, frustrado e triste. Seu dilema entre ser brasileiro e produzir de acordo com as condições sociais internas ou usar uma imagem já fabricada (e consagrada) pela arte européia coloca-o diante de uma glória efêmera, não idealizada por ele, distanciando-o do reconhecimento eterno que, segundo o músico, só seria alcançado se compusesse seguindo os padrões dos compositores clássicos por ele admirados.

E, em meio a toda essa desilusão, aparece ainda o editor, importante peça do conto, que traz consigo uma carga muito pesada, que é transposta para Pestana: é ele quem decide os títulos das polcas, serve-se do produto totalmente, e controla o sistema, indicando sobre o que e quando o músico deve compor. Suas escolhas rendem-se às convenções: seu objetivo é a venda fácil, por isso age de forma a regular o mercado, levando Pestana a produzir discorrendo sobre os temas que ele, o editor, acredita serem de interesse da população.

Nesse sentido, a realização inatingível das composições idealizadas por Pestana dá lugar, como eixo central do conto, à postura do editor, figura que detém o poder sobre as produções.

Em Um Homem Célebre, Machado adota um viés que nos leva para uma sucessão de fatos que expõem alguns problemas: os da arte, os do artista e os da sociedade em que este e aquela estão inseridos. Mais que um problema situado entre a realização e o desejo, Pestana enfrenta uma delicada relação entre produção, público e valorização.

Para não chegar a essa condição marginal, nosso protagonista vive em meio a sua ambição, a sua vocação, a seu editor e a seus compatriotas, rendendo-se, em seus últimos momentos, a uma força maior que o atormenta durante toda sua existência: produzir aquilo que parece ser sua vocação e, ainda, de acordo com as determinações de seu editor. Assim, o narrador de Machado, nessa que pode ser considerada uma das mais complexas obras do autor, encerra a apresentação da vida de Pestana, fazendo questão de deixar clara a situação na qual o compositor deixa o mundo: “bem com os homens e mal consigo mesmo” (ASSIS, 1997, p. 27), destacando o fim do longo percurso percorrido entre o que o compositor era e o que (inutilmente) destinou toda sua vida a ser.

O drama de Pestana mostra-nos a impotência espiritual de um homem que, do mais profundo do seu ser, clama pela redenção, que não é alcançada. O sucesso irrealizável de glória culmina com o fracasso íntimo do compositor que, diante dos entraves sociais explicitados no conto, na pessoa do editor, vê sua música sendo levada para o que é comum, para o que é das massas. A polca é simples, e simplicidade é justamente o que Pestana não quer. Sua vocação é algo que o incomoda e que o frustra, pois sua ambição sempre falou mais alto e o tocou mais profundamente. Polca é o que é popular e representa o sucesso; um sucesso transitório para o artista, que resulta em uma vida de tristeza e totalmente desprovida de glória, de uma glória que, segundo o protagonista, só seria alcançada com a sua inserção no mundo dos clássicos, da música erudita.

Há uma crítica que ainda é atual: o mercado está mais interessado em obras de qualidade fácil, que satisfazem de forma imediata e rasteira o gosto do público. Sintomático disso é o fato de o editor já ter títulos prontos para obras que ainda nem existem, aproveitando-se de fatos do momento, da moda. Além disso, há um conflito interessante entre o efêmero (polca) e o eterno (música erudita), que pode ser também visto como entre o baixo e o sublime.

Foco narrativo

Ao analisar a obra, pode-se facilmente observar que é narrada com uma visão por trás, na qual o narrador, que não toma parte na história, possui um conhecimento amplo e irrestrito sobre todos os fatos, descrevendo não só o que é visível, como também os pensamentos das personagens e fatos que irão acontecer posteriormente ao que é apresentado na narrativa. Como exemplo da caracterização desse narrador, pode-se separar o seguinte trecho do texto:

…pouca gente, vinte pessoas ao todo, que tinham ido jantar com a viúva Camargo, Rua do Areal, naquele dia dos anos dela, cinco de novembro de 1875… Boa e patusca viúva! Amava o riso e a folga, apesar dos setenta anos em que entrava, e foi a última vez que folgou e riu, pois faleceu nos primeiros dias de 1876. (ASSIS, 1988, p. 63)

No entanto, apesar de se notar que, ao longo do conto, predomina a expressão de um narrador onisciente, pode-se observar também que, em determinados momentos, esse narrador oculta o seu conhecimento, simulando uma exposição restrita, que apresenta apenas o que é visível. Para isso, joga com o foco da narração, passando a apresentar e descrever fatos e demais personagens através das palavras e pensamentos de uma personagem específica. Cabe esclarecer, no entanto, que, apesar de parecer não ser mais o narrador que conta, tal recurso, na verdade, é apenas um artifício com o qual o narrador onisciente aparenta uma focalização interna, ou uma “visão com”, com objetivo de aproximar um pouco mais a história de quem a lê. Em Um Homem Célebre, Sinhazinha Mota é a personagem mais utilizada pelo narrador para essa “falsa” mudança de foco, valendo-se do seu olhar e das suas palavras para descrever Pestana e sua futura esposa em diversos trechos.

– Ah! o senhor é que é o Pestana? Perguntou Sinhazinha Mota, fazendo um largo gesto admirativo. E logo depois, corrigindo a familiaridade: Desculpe meu modo, mas… é mesmo o senhor? (ASSIS, 1988, p. 63)

– Casar com quem? Perguntou Sinhazinha Mota ao tio escrivão que lhe deu aquela notícia. – Vai casar com uma viúva. – Velha? – Vinte e sete anos. – Bonita? – Não, nem feia, assim, assim. Ouvi dizer que ele se enamorou dela porque a ouviu cantar na última festa de São Francisco de Paula. Mas ouvi também que ela possui outra prenda, que não é rara, mas vale menos: está tísica. (ASSIS, 1988, p.72)

Mesmo oculto, o narrador onisciente ainda está ali, valendo-se das personagens para exercer o ato de narrar. O resultado primeiro dessa técnica é o dinamismo que a leitura do conto adquire. E, nesse sentido, o uso do discurso indireto livre mostra-se a forma mais eficaz de aproximação, inserindo, diretamente nas palavras do narrador, frases ou pensamentos de alguma personagem, como acontece no exemplo a seguir, no qual o sujeito que narra introduz, no meio do seu discurso, pensamentos da Sinhazinha Mota: “Talvez a idéia conjugal tirou à moça alguns momentos de sono. Que tinha? Ela ia em vinte anos, ele em trinta, boa conta. A moça dormia ao som da polca, ouvida de cor”. (ASSIS, 1988, p. 67)

Quando se observam as formas de apresentação e tratamento, pode-se perceber que o narrador se vale tanto de cenas quanto de sumários em seu processo narrativo, por vezes mostrando o que está acontecendo, por vezes contando de maneira bastante acelerada, resumindo e ocultando diversos acontecimentos: “Pestana fez uma careta, mas dissimulou depressa, inclinou-se calado, sem gentileza, e foi para o piano, sem entusiasmo” (Assis, 1988, p. 64). “Releu e estudou o Requiem deste autor. Passaram-se semanas e meses. A obra, célere a princípio, afrouxou o andar” (ASSIS, 1988, p.75).

Ação / Temporalidade

Os dados temporais, que são diversos ao longo de todo o texto, permitem identificar claramente quando se passam as ações: durante o Segundo Império brasileiro, entre os anos de 1871 e 1885, mais precisamente, entre a publicação da primeira polca de Pestana e o falecimento da personagem. Além disso, é possível também caracterizar a narrativa como posterior, ou seja, feita depois de os fatos terem ocorrido, como se percebe pelo uso dos tempos verbais no pretérito: “Vexado, aborrecido, Pestana respondeu que sim, que era ele” (ASSIS, 1988, p. 63).

No entanto, a quebra da ordem cronológica na narrativa é uma das características mais marcantes do estilo machadiano, recurso que pode ser percebido facilmente em diversas obras do autor, entre elas, o conto analisado aqui. Nele, os fatos não são narrados na sua seqüência lógica. Em vez de iniciar a narrativa apresentando o “início da carreira” de compositor de Pestana, com a publicação da sua primeira polca, o narrador abre o conto já na época em que o músico experimenta um grande sucesso, com várias músicas publicadas e muito bem aceitas pelo gosto popular. Primeiro é apresentado o protagonista, sua intrigante rejeição diante do sucesso popular e a angústia que vive por não conseguir compor nenhuma peça musical à altura dos grandes compositores clássicos: “Pestana fez uma careta, mas dissimulou depressa, inclinou-se calado, sem gentileza, e foi para o piano, sem entusiasmo”. (ASSIS, 1988, p. 64)

A moça dormia ao som da polca, ouvida de cor, enquanto o autor desta não cuidava nem da polca nem da moça, mas das velhas obras clássicas, interrogando o céu e a noite, rogando aos anjos, em último caso ao diabo. Por que não faria ele uma só que fosse daquelas páginas imortais? (ASSIS, 1988, p. 67)

Apenas depois de introduzir a perturbação, o problema a ser resolvido, é que o narrador revela o passado do protagonista, os acontecimentos anteriores que desencadearam e elucidam a situação apresentada no início do conto, apresentação essa feita através de uma analepse: “Veio a questão do título. Pestana, quando compôs a primeira polca, em 1871, quis dar-lhe um título poético, escolheu este: Pingos de Sol”. (ASSIS, 1988, p. 69)

A anacronia identificada nesse trecho tem um alcance determinado, retrocedendo de um fato acontecido em 1875 para um evento ocorrido em 1871. Apesar de concentrar sua narração na publicação da primeira polca de Pestana, a amplitude dessa figura de anacronia abrange quatro anos, chegando, através de um sumário, ao ano de 1875: “e a comichão da publicidade levou-o a imprimir as duas, com os títulos que ao editor parecessem mais atraentes ou apropriados. Assim se regulou pelo tempo adiante”. (ASSIS, 1988, p. 70)

Mas a analepse não é o único recurso de alteração de ordem temporal de que se vale o narrador de Um Homem Célebre. Além dessa figura de anacronia, a obra também apresenta uma prolepse, de alcance curto, aproximadamente dois meses, e com uma amplitude também restrita, limitada ao fato da morte da “boa e patusca viúva” apresentada pelo narrador: “Boa e patusca viúva! Amava o riso e a folga, apesar dos setenta anos em que entrava, e foi a última vez que folgou e riu, pois faleceu nos primeiros dias de 1876”. (ASSIS, 1988, p. 63)

Como foi dito anteriormente, além da ordem de apresentação dos acontecimentos, outro ponto de contraste entre o tempo da história e o tempo do discurso diz respeito à duração, ao ritmo da narrativa. A própria palavra “ritmo” deixa clara a associação existente entre a condução temporal na narrativa e o tempo musical, uma proximidade que faz com que, nesta obra de Machado, mais do que um simples recurso narrativo, o tratamento temporal ganhe significação, permitindo que o discurso, o modo de narrar, esteja extremamente ligado ao tema. O narrador desenvolve o ritmo do texto de uma maneira “musical”, conduzindo lentamente a narração de um período de alguns dias em contraponto com a narração sumária de fatos transcorridos no intervalo de quase dez anos. Percebe-se uma diferenciação no tratamento temporal, nitidamente marcada no conto, visto que o narrador concentra o uso de alongamentos e pausas descritivas na primeira parte do texto. É interessante observar, no uso desses recursos, a sobreposição do tempo psicológico em relação ao tempo real.

Quando o preto acendeu o gás da sala, Pestana sorriu e, dentro d’alma, cumprimentou uns dez retratos que pendiam da parede. Um só era a óleo, o de um padre, que o educara, que lhe ensinara latim e música, e que, segundo os ociosos, era o próprio pai do Pestana (ASSIS, 1988, p. 65-66)

Por outro lado, a partir da metade do texto, nota-se uma quantidade significativamente maior de sumários e elipses. Podendo parecer irrelevantes à primeira vista, as diversas marcações temporais que o narrador distribui pelo texto exercem um papel fundamental para esse jogo de aceleração e retardamento do discurso. É apenas através delas que se pode perceber os saltos de tempo que, por exemplo, fazem passar quatro horas em uma única frase, ou mesmo meses entre um parágrafo e outro: “Duas, três, quatro horas. Depois das quatro foi dormir” (ASSIS, 1988, p. 68), “Passaram-se semanas e meses. A obra, célere a princípio, afrouxou o andar” (ASSIS, 1988, p. 75) e “Correu ainda um ano. No princípio de 1878, apareceu-lhe o editor” (ASSIS, 1988, p. 76).

Se, por um lado, percebem-se momentos de aceleração e retardamento na narrativa, é possível notar também que, em diversos trechos, o narrador se vale do recurso da cena para tentar aproximar ao máximo o tempo da história ao da narração, seja através da descrição direta de ações das personagens, seja através da apresentação de diálogos: “Veio o café; Pestana engoliu a primeira xícara, e sentou-se ao piano. Olhou para o retrato de Beethoven, e começou a executar a sonata” (ASSIS, 1988, p. 66).

– Lá se vão dois anos, disse este, que nos não dá um ar da sua graça. Toda a gente pergunta se o senhor perdeu o talento. Que tem feito? – Nada. – Bem sei o golpe que o feriu; mas lá vão dois anos. Venho propor-lhe um contrato: vinte polcas durante doze meses; o preço antigo, e uma porcentagem maior na venda. Depois, acabado o ano, pode renovar. (ASSIS, 1988, p. 76)

Além da ordem dos acontecimentos e da duração do tempo na narrativa, a freqüência também é um artifício bastante empregado nesta obra de Machado de Assis, em especial para demonstrar o processo, geralmente angustiante, pelo qual passava o protagonista todas as vezes que compunha suas polcas.

Às vezes, como que ia surgir das profundezas do inconsciente uma aurora de idéia; ele corria ao piano, para aventá-la inteira, traduzi-la, em sons, mas era em vão; a idéia esvaía-se. Outras vezes, sentado, ao piano, deixava os dedos correrem, à ventura, a ver se as fantasias brotavam deles. (ASSIS, 1988, p. 67-68)

Neste conto observa-se igualmente a importância que o tratamento temporal assume. Observa-se a semelhança que se estabelece entre a reiterada narração das tentativas de Pestana em compor peças clássicas e as repetições de motivos musicais ou leitmotivs. Ressalta-se a forma como Machado conduz, paralelamente à trama principal, ações secundárias que se contrapõem àquela, funcionando como linhas melódicas que têm a função de interromper a condução do motivo central da peça musical. São exemplos dessas rupturas as ações de Sinhazinha Mota e do editor musical de Pestana, apresentadas ao longo do texto para quebrar o ritmo do discurso narrativo.

Por fim, é interessante apontar que, além de estar relacionado intimamente com o tema da obra, no que se refere à forma como é conduzido, o tempo, especificamente o histórico, também desempenha um papel importante na narrativa. Nela, o sucesso das polcas de Pestana está, na visão de seu editor, intimamente relacionado à menção que fazem dos acontecimentos do momento. Sendo assim, para cair no gosto popular, os títulos não precisariam ter qualquer relação com as peças, mas sim fazer referência a algum fato político.

Mas a primeira polca há de ser já, explicou o editor. É urgente. Viu a carta o Imperador ao Caxias? Os liberais foram chamados ao poder; vão fazer a reforma eleitoral. A polca há de chamar-se: Bravos à Eleição Direta! Não é Política; é um bom título de ocasião. (ASSIS, 1988, p. 76)

A ressonância da espacialidade

Para compor o espaço onde se desenrolam as ações de Um Homem Célebre, o narrador se vale tanto de elementos que podem ser apontados como motivos associados, indispensáveis para a história em si, quanto de objetos que podem ser vistos como motivos livres, que têm influência sobre a forma como é contada e percebida a história. Entre estes últimos, que podem ser chamados também de caracterizadores, o texto apresenta seus dois tipos: heterólogo e homólogo. Como motivo heterólogo, ou seja, aquele que contradiz uma determinada situação ou traço da personagem, pode-se apontar a apresentação da casa de Pestana, um lugar cujas características fogem da imagem corriqueira de um compositor de sucesso, como Pestana: “Em casa, respirou. Casa velha, escada velha, um preto velho que o servia, e que veio saber se ele queria cear” (ASSIS, 1988, p. 65).

É interessante observar, no entanto, que, na medida em que esses motivos caracterizadores se mostram heterólogos quanto à imagem que via de regra se constrói de um compositor de sucesso, ao serem analisados como caracterizadores da figura singular de Pestana e, nesse caso, defrontados com outras características de sua personalidade, passam a ser homólogos da caracterização da personagem.

Por outro lado, como exemplo de motivos caracterizadores homólogos, pode-se tomar a descrição do trajeto feito por Pestana quando se dirige aos trilhos do trem para suicidar-se. A caracterização do ambiente pelo qual ele passa, que apresenta um “velho matadouro”, não tem qualquer relevância para a história, mas é fundamental para o discurso, uma vez que reforça o estado de espírito da personagem naquele momento: “E ele ia andando, alucinado, mortificado […] Passou o velho matadouro; ao chegar à porteira da estrada de ferro, teve a idéia de ir pelo trilho acima e esperar o primeiro trem que viesse e o esmagasse” (ASSIS, 1988, p. 74).

Ainda entre os motivos livres, pode-se apontar os objetos presentes no ambiente no qual a personagem compõe suas peças musicais. Entre os elementos desse espaço, carregados de grande significação, destacam-se os quadros de diversos compositores clássicos pendurados na parede. Mais do que simples elementos decorativos, essas imagens reforçam a caracterização da angústia vivida pelo protagonista ao tentar, sempre em vão, compor algo à altura dos gênios retratados, figuras que o cobram e o inspiram ao mesmo tempo. Sem exercer uma influência direta sobre a seqüência das ações da personagem, elas ajudam a criar a imagem de homem ao mesmo tempo pressionado pelo desejo de ser alguém comparável aos gênios emoldurados na parede e frustrado pelo fato de não conseguir criar uma peça do nível das obras de tais compositores.

Os demais retratos eram de compositores clássicos, Cimarosa, Mozart, Beethoven, Gluck, Bach, Schumann, e ainda uns três, alguns gravados, outros litografados, todos mal encaixilhados e de diferente tamanho, mas postos ali como santos de uma igreja. O piano era o altar; o evangelho da noite lá estava aberto: era uma sonata de Beethoven. (ASSIS, 1988, p. 66)

E aí voltaram as náuseas de si mesmo, o ódio a quem lhe pedia a nova polca da moda, e juntamente o esforço de compor alguma coisa ao sabor clássico, uma página que fosse, uma só, mas tal que pudesse ser encadernada ente Bach e Schumann. Vão estudo, inútil esforço. Mergulhava naquele Jordão sem sair batizado. (ASSIS, 1988, p. 71)

Quanto aos motivos associados, composicionais no que se refere à sua função narrativa, pode-se citar o piano da sala de música, ao mesmo tempo instrumento indispensável para Pestana concretizar seu sonho de compor uma peça clássica e objeto sem o qual o protagonista não alcançaria a glória, ou tormento, de ser um reconhecido compositor de polcas populares.

Por fim, cabe apontar também o interessante uso, por parte do narrador, do recurso da motivação falsa, personalizado, no conto, na figura da Sinhazinha Mota. Sua presença, introduzida já nas primeiras linhas do texto, leva a supor uma participação mais intensa no desenrolar dos fatos, talvez até um envolvimento direto com o próprio protagonista, expectativas, no entanto, que são frustradas ao final da narrativa.

A ambientação é muito mais do que a caracterização dos lugares onde se dão as ações. Ela desempenha um papel de significação dos mais importantes no processo narrativo, seja descrevendo ambientes cuja caracterização desempenha uma função primordial no discurso, confirmando ou contrariando a expectativa de um determinado evento, ação e característica da personagem, seja trazendo elementos cuja presença age diretamente sobre suas ações, ou, ainda, aproximando o leitor daquilo que está sendo narrado, valendo-se, para isso, do jogo das diferentes maneiras de apresentar o espaço. Através da análise de Um Homem Célebre foi possível identificar todos esses elementos que envolvem o processo de ambientação narrativa. E, por mérito das habilidades do narrador machadiano, pode-se levantar todos os efeitos que fazem da espacialidade uma peça tão importante na construção de uma grande obra literária.

Considerações Finais

Ao se estudar, em Um Homem Célebre, a focalização, o tempo e o espaço, três importantes componentes do discurso narrativo, muito mais do que identificar os elementos desses processos, pode-se levantar sua importância na narrativa, ou seja, o efeito que as escolhas feitas pelo narrador, sobre esse três aspectos, surtiram no leitor.

Em primeiro lugar, tratando da focalização onisciente do narrador, percebe-se claramente que, em conseqüência dessa visão, o leitor mantém-se a uma distância dos fatos narrados. No entanto, se, por um lado, a leitura é marcada por esse afastamento, por outro, o narrador, habilmente, introduz uma dinâmica ao texto através do uso de discursos diretos e, muitas vezes, disfarçando o seu olhar sob a ótica de algumas das personagens.

A forma como é tratada a questão da temporalidade também traz conseqüências para a leitura da obra. A principal delas, como foi já apresentado, diz respeito à forte relação que se estabelece entre a condução do tempo da narrativa e o próprio tema desta. Mas, além disso, percebe-se também que as escolhas feitas pelo narrador quanto às ordens temporais trazem efeitos sobre aquele que lê, induzindo-o a um envolvimento maior com os fatos narrados. As alterações seqüenciais acabam por instigar o leitor a tentar decifrar, por exemplo, por que o sucesso de suas polcas perturba tanto o protagonista.

Além disso, percebe-se, afinal, que também o espaço desempenha um importante papel nessa aproximação da narrativa. Ao mudar, em alguns trechos, a forma de apresentação do ambiente de franca para reflexiva, o narrador diminui o distanciamento do leitor. De forma semelhante, buscando uma participação deste com a construção de sentidos, o narrador carrega os elementos espaciais de significações, significações essas que só são apreendidas e organizadas no contexto ao longo da leitura.

Analisando esses três aspectos da construção de uma narrativa, percebe-se que, seja na aproximação do foco, seja no ritmo temporal ou na significação dos elementos espaciais, em cada uma dessas escolhas, mais do que uma preocupação com o discurso, Machado teve o objetivo de fazer desse discurso um eco do tema proposto. Debruçando-se sobre o conto, nota-se com clareza o desejo do autor de transformar em música a história de um frustrado compositor de polcas. Perfeccionista como era, Machado soube usar todos os recursos narrativos para encontrar a forma perfeita e criar uma obra-prima. É o sonho angustiante da personagem, realizado com maestria por seu criador.

Machado de Assis, neste conto, traçou a marca do tempo, mas levou o leitor, por outro lado, para muito além da História social, problematizando-a através da divisão do personagem Pestana entre a música popular e a erudita. Com isso não se está considerando no conto somente a interioridade do personagem, mas também a exterioridade, na História que se apresenta com a máscara da tranqüilidade, apenas aparente. Dessa maneira são os “eus” do personagem que revelam o tempo tecido de várias tensões. Sob o presente passa um “mar em fúria” que expõe a complexidade do tempo carregado de outros tempos. Assim temos o juízo de valor da crítica consagrada que eleva as obras canônicas ao altar da fama e do sucesso, modelos do passado que devem ser seguidos e imitados pelos que almejam se tornarem célebres estrelas da arte. Obras sagradas que imprensam Pestana, sempre desejoso de escrever “uma que fosse daquelas páginas imortais”. Por esta razão, o músico persegue noite e dia, dia e noite, com trabalho incessante, a composição de um Noturno ou de um Réquiem, tornando-se duplamente frustrado pelas impossibilidades de realizar tais criações. Pestana fica, dessa maneira, por fatores determinados pela Crítica, atrelado a um ideal que lhe vem do exterior, que lhe dita o que sejam “obras sérias, profundas, inspiradas e trabalhadas” (ASSIS, 1998, p. 373) e o que sejam as “aventuras de petimetres” (ASSIS, 1998, p.373).

Fontes:

Adriana Giarola Ferraz Figueiredo, Mestre – UEL
Rafael Guimarães, bacharel em Comunicação Social – UFRGS, aluno do curso de Especialização em Literatura Brasileira – Unisinos
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Continua… análise do conto “A Desejada das Gentes”
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Fonte:
http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/analises_completas/v/varias_historias

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n.107)

Uma Trova Nacional

Falta grave que dói fundo
e é por tantos repetida:
Trazer uma vida ao mundo
e não cuidar dessa vida!
(PEDRO ORNELLAS/SP)

Uma Trova Potiguar

As flores que me ofereces
perfumando os nossos dias,
são meu rosário de preces,
meu buquê de fantasias.
(GONZAGA DA SILVA/RN)

Uma Trova Premiada

2009 > Bandeirantes/PR
Tema > DEVANEIO > Vencedora

Devaneio é uma promessa
que a vida, às vezes, nos faz,
mas que o destino, sem pressa,
cobrando caro, desfaz!
(RODOLPHO ABUBUD/RJ)

Simplesmente Poesia

– Olympio Coutinho/MG –
IDEAIS

Na imensa solidão desta saudade,
em que me debruço e penso tristemente,
conforta-me saber que, estando ausente,
em ti, meu grande amor, estou presente.
Não importa nosso amor ser impossível
e que juntos não possamos ficar mais,
muito mais belo é o bem inatingível
e é mais lindo sonhar com os ideais.

Uma Trova de Ademar

Quando você foi embora
vi nascer dentro do mim,
um sentimento que chora
numa penúria sem fim!
(ADEMAR MACEDO/RN)

…E Suas Trovas Ficaram

Nada fala neste Mundo
tanto bem de nossas vidas,
como o silêncio profundo
de duas bocas unidas…
(LUIZ OTÁVIO/RJ)

Estrofe do Dia

Pular de árvore na areia,
Fazer furna de ameixa,
Ao receber uma queixa
Não fazer nem cara feia;
Respeitar quem nos rodeia,
Procurar ser cidadão,
Tomar benção a um ancião
Eram ordens dos meus pais;
Tudo isso e muito mais
Eu aprendi no sertão.
(DAMIÃO METAMORFOSE/RN)

Soneto do Dia

– Thereza Costa Val/MG –
DOCE ENVOLVIMENTO

Faz tanto tempo que da vez primeira
com ela me encontrei… e me envolvi!
Daí por diante, foi minha parceira
e sempre mais com ela convivi.

Tornou-se, em meu viver, a companheira
e só com ela a vida eu entendi.
Muita emoção sincera e verdadeira,
por entendê-la, afirmo que senti.

Quando os meus dias tornam-se enfadonhos,
ou quando sofro mágoas e incertezas,
com seu alento as penas me alivia.

Ela me abriu os olhos para os sonhos,
fez-me sentir ternuras e belezas,
a minha amada… a eterna POESIA!

Fonte:
Ademar Macedo

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Folclore, Superstição, Lendas e Histórias (Aves do Brasil: Acauã)

Introdução

Dos enfeites dos trajes indígenas às lendas sobre a origem do mundo, as aves estão presentes em todos os aspectos do folclore e etnografia. O uirapuru é a ave que causou a loucura de um jovem índio, por ter escolhido outra jovem como companheira, porém é considerado um talismã que traz boa sorte. Os tangarás são os filhos de Chico Santos que de tão apaixonados pelas danças e fandangos, não respeitaram os dias da Semana Santa, e foram condenados pelo Criador a dançar pela eternidade. O beija-flor é a mãe que busca a alma da filhinha morta, guardada dentro de uma flor. O japim é o pássaro mimético, e por esse motivo ganhou a antipatia das outras aves e o consequënte isolamento. O imaginário popular é rico em histórias para explicar a cor de suas plumagens, seus hábitos, suas características, suas personalidades diversas, seu canto, ora melodioso e encantador, repleto de bons presságios, ora agourento e enlouquecedor.

Acauã

Em 1862, eu passava por Serpa, vindo de Manaus. Essa cidade do Alto Amazonas, situada na margem esquerda do rio colossal, foi fundada mais ou menos nos meados do século XVIII. Na época em que lá estive a cidade conservava ainda seu nome português de Serpa; hoje retomou seu nome indígena: é chamada Itaquatiara, isto é, pedra pintada. Esse nome lhe foi dado por causa de um grupo de rochedos existentes nas suas proximidades, sobre os quais estão escritos hieróglifos, atribuídos aos primitivos habitantes da região. Todos os navios que sobem o Amazonas com destino a Manaus, mesmo os vapores vindos da Europa, fazem escala hoje, em Itaquatiara, destinada a se transformar em centro comercial de primeira ordem, graças à sua situação privilegiada: a cidade, com efeito, está situada em frente à embocadura do rio Negro.

Em 1862, um pequeno vaso de guerra para ali havia transportado o sábio e venrável bispo do Pará, monsenhor Macedo, apóstolo bem-amado dessas regiões, que ele procura dotar, atualmente, com uma basílica flutuante da qual toda a imprensa européia se ocupou há algum tempo. Eu fazia parte da comitiva do ilustre prelado.

Durante sua visita pastoral, chamaram-lhe a atenção para os feitos de um pajé, que estava, no momento, preparando-se para realizar uma cura.

Fui vê-lo e tenho ainda na memória, como se tivesse ocorrido ontem, a cena que presenciei.

Em local um pouco distante da aldeia erguia-se uma casa de aspecto pobre, mais propriamente uma choupana. As paredes e o teto eram feitos de folhas de palmeira, da mesma forma que a porta. A casa dividia-se em duas contruções independentes: na frente uma choupana com duas peças, , tendo uma varanda com beiral; atrás, uma cabana inteiramente aberta, que servia de cozinha.

De fora ouviam-se gritos espaçados, repetidos a intervalos regulares: Acauã! Acauã! As três sílabas destacavam-se lentamente: A-cau-ã!

Espiei pela porta levantando as folhas de palmeira entrançadas: o único mobiliário era, na peça principal, três redes grosseiras de tucum, algumas esteiras sobre o solo negro, de terra batida, e cerca de meia dúzia de banquinhos côncavos, bancos típicos do país, aos quais se dá o nome de bancos dos uaupés, e que imitam a forma de um jabuti deitado sobre a carapaça. Possuo, em Paris, numerosos desses banquinhos.

Duas das redes estavam ocupadas por jovens índias. Eram elas que gritavam: Acauã! Eram elas, as pobrezinhas, que tinham visto o Acauã!

O Acauã (Falcão Cachinans) é um pássaro do tamanho de uma galinha comum. Os índios afirmam que ele se alimenta exclusivamente de serpentes. Quando vê uma, lança o seu grito sonoro e prolongado: Acauã! (É daí que lhe vem o seu nome). Logo surge outro Acauã, respondendo ao seu chamado. Os dois lançam-se sobre a serpente: um ataca de um lado; o outro do outro lado. A serpente ergue-se sobre a cauda para mordê-los. Tempo perdido! Os acauãs servem-se de suas asas como de um escudo para aparar os botes da serpente. A luta prolonga-se por muito tempo. Ao fim, a serpente tomba esgotada, por maior que seja, e os acauãs a devoram.

Mas não fica aí o papel do acauã. Seu grito prolongado aterroriza a imaginação dos tapuias. Infeliz daquele que o ouve! Pouco a pouco enlanguece e definha. Vêm depois terríveis convulsões. A vítima cai por terra, rasgando com as unhas o próprio peito repetindo, de tempos em tempos, a palavra fatídica: Acauã! Acauã!

O mais estranho, no entanto, é que a doença passa de uma mulher à outra. Basta que uma tapuia tenha ouvido o acauã para contagiar todas as suas vizinhas.

Eu tinha diante dos olhos um exemplo do inexplicável contágio.

Uma das jovens fora atingida pelo mal misterioso. Logo depois, sua irmã começou a sofrer do mesmo mal, e conta-se que, na vizinhança, outras índias, vindas para visitá-las, começaram a apresentar sintomas do mal.

Eu continuava a olhar as duas redes. As índias agitavam-se dentro delas, como se arrepios percorressem seus corpos e, de quando em quando, uma delas lançava agudo grito: Acauã! Acauã!

A escuridão era completa. Nem um só lampião: a aldeia não os possuia. Quando saíam à noite, as pessoas transportavam tochas feitas de gravetos.

De repente, percebi uma sombra que se aproximava. Escondi-me. A sombra estava mais próxima. Deu a volta à casa entoando um canto lúgubre e monótono, com voz rouca e de falsete. Eu não podia entender as palavras, mas este canto parecia embalar as duas doentes, cujos gritos tornavam-se menos estridentes.

Era o pajé!

Ele penetrou na choupana entoando, com voz mais acalentadora, o mesmo canto. As jovens não se levantaram; pareciam mesmo não se terem apercebido da presença de um estranho, não terem ouvido o seu canto.

O pajé dirigiu-se, sucessivamente, às duas redes. Já não cantava. Mumurava alguma oração misteriosa, enquanto fumava um enorme charuto, cuja fumaça lhe servia para incensar as duas tapuias, uma de cada vez.

Elas, também, já não gritavam: de quando em quando um tremor agitava os seus membros, e, como em agonia, elas murmuravam: Acauã! Acauã!

Muitos anos se passaram desde então. O acauã continua a causar danos entre as jovens índias. Todos os dias ouve-se falar de qualquer tapuia atingida pelo mal terrível e, por vezes, o contágio se estende a toda uma aldeiazinha: frescas jovens são tranformadaas em horríveis megeras, macilentas, olhos fundos, presa de convulsões, repetindo o grito: Acauã! Acauã!

Fonte:
F. J. de Santana Néri. ‘Folk-lore Brésilien’. Paris, Librairie Académique Didier, 1889, p. 168-173, In MELO, Anísio. Histórias e lendas da amazônia. Disponível em Jangada Brasil.

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Machado de Assis (Uns Braços)

INÁCIO ESTREMECEU, ouvindo os gritos do solicitador, recebeu o prato que este lhe apresentava e tratou de comer, debaixo de uma trovoada de nomes, malandro, cabeça de vento, estúpido, maluco.

— Onde anda que nunca ouve o que lhe digo? Hei de contar tudo a seu pai, para que lhe sacuda a preguiça do corpo com uma boa vara de marmelo, ou um pau; sim, ainda pode apanhar, não pense que não. Estúpido! maluco!

— Olhe que lá fora é isto mesmo que você vê aqui, continuou, voltando-se para D. Severina, senhora que vivia com ele maritalmente, há anos. Confunde-me os papéis todos, erra as casas, vai a um escrivão em vez de ir a outro, troca os advogados: é o diabo! É o tal sono pesado e contínuo. De manhã é o que se vê; primeiro que acorde é preciso quebrar-lhe os ossos.. . Deixe; amanhã hei de acordá-lo a pau de vassoura!

D. Severina tocou-lhe no pé, como pedindo que acabasse. Borges espeitorou ainda alguns impropérios, e ficou em paz com Deus e os homens.

Não digo que ficou em paz com os meninos, porque o nosso Inácio não era propriamente menino. Tinha quinze anos feitos e bem feitos. Cabeça inculta, mas bela, olhos de rapaz que sonha, que adivinha, que indaga, que quer saber e não acaba de saber nada. Tudo isso posto sobre um corpo não destituído de graça, ainda que mal vestido. O pai é barbeiro na Cidade Nova, e pô-lo de agente, escrevente, ou que quer que era, do solicitador Borges, com esperança de vê-lo no foro, porque lhe parecia que os procuradores de causas ganhavam muito. Passava-se isto na Rua da Lapa, em 1870.

Durante alguns minutos não se ouviu mais que o tinir dos talheres e o ruído da mastigação. Borges abarrotava-se de alface e vaca; interrompia-se para virgular a oração com um golpe de vinho e continuava logo calado.

Inácio ia comendo devagarinho, não ousando levantar os olhos do prato, nem para colocá-los onde eles estavam no momento em que o terrível Borges o descompôs. Verdade é que seria agora muito arriscado. Nunca ele pôs os olhos nos braços de D. Severina que se não esquecesse de si e de tudo.

Também a culpa era antes de D. Severina em trazê-los assim nus, constantemente. Usava mangas curtas em todos os vestidos de casa, meio palmo abaixo do ombro; dali em diante ficavam-lhe os braços à mostra. Na verdade, eram belos e cheios, em harmonia com a dona, que era antes grossa que fina, e não perdiam a cor nem a maciez por viverem ao ar; mas é justo explicar que ela os não trazia assim por faceira, senão porque já gastara todos os vestidos de mangas compridas. De pé, era muito vistosa; andando, tinha meneios engraçados; ele, entretanto, quase que só a via à mesa, onde, além dos braços, mal poderia mirar-lhe o busto. Não se pode dizer que era bonita; mas também não era feia. Nenhum adorno; o próprio penteado consta de mui pouco; alisou os cabelos, apanhou-os, atou-os e fixou-os no alto da cabeça com o pente de tartaruga que a mãe lhe deixou. Ao pescoço, um lenço escuro, nas orelhas, nada. Tudo isso com vinte e sete anos floridos e sólidos.

Acabaram de jantar. Borges, vindo o café, tirou quatro charutos da algibeira, comparou-os, apertou-os entre os dedos, escolheu um e guardou os restantes. Aceso o charuto, fincou os cotovelos na mesa e falou a D. Severina de trinta mil cousas que não interessavam nada ao nosso Inácio; mas enquanto falava, não o descompunha e ele podia devanear à larga.

Inácio demorou o café o mais que pôde. Entre um e outro gole alisava a toalha, arrancava dos dedos pedacinhos de pele imaginários ou passava os olhos pelos quadros da sala de jantar, que eram dous, um S. Pedro e um S. João, registros trazidos de festas encaixilhados em casa. Vá que disfarçasse com S. João, cuja cabeça moça alegra as imaginações católicas, mas com o austero S. Pedro era demais. A única defesa do moço Inácio é que ele não via nem um nem outro; passava os olhos por ali como por nada. Via só os braços de D. Severina, — ou porque sorrateiramente olhasse para eles, ou porque andasse com eles impressos na memória.

— Homem, você não acaba mais? bradou de repente o solicitador.

Não havia remédio; Inácio bebeu a última gota, já fria, e retirou-se, como de costume, para o seu quarto, nos fundos da casa. Entrando, fez um gesto de zanga e desespero e foi depois encostar-se a uma das duas janelas que davam para o mar. Cinco minutos depois, a vista das águas próximas e das montanhas ao longe restituía-lhe o sentimento confuso, vago, inquieto, que lhe doía e fazia bem, alguma cousa que deve sentir a planta, quando abotoa a primeira flor. Tinha vontade de ir embora e de ficar. Havia cinco semanas que ali morava, e a vida era sempre a mesma, sair de manhã com o Borges, andar por audiências e cartórios, correndo, levando papéis ao selo, ao distribuidor, aos escrivães, aos oficiais de justiça. Voltava à tarde jantava e recolhia-se ao quarto, até a hora da ceia; ceava e ia dormir. Borges não lhe dava intimidade na família, que se compunha apenas de D. Severina, nem Inácio a via mais de três vezes por dia, durante as refeições. Cinco semanas de solidão, de trabalho sem gosto, longe da mãe e das irmãs; cinco semanas de silêncio, porque ele só falava uma ou outra vez na rua; em casa, nada.

“Deixe estar, — pensou ele um dia — fujo daqui e não volto mais.”

Não foi; sentiu-se agarrado e acorrentado pelos braços de D. Severina. Nunca vira outros tão bonitos e tão frescos. A educação que tivera não lhe permitia encará-los logo abertamente, parece até que a princípio afastava os olhos, vexado. Encarou-os pouco a pouco, ao ver que eles não tinham outras mangas, e assim os foi descobrindo, mirando e amando. No fim de três semanas eram eles, moralmente falando, as suas tendas de repouso. Agüentava toda a trabalheira de fora toda a melancolia da solidão e do silêncio, toda a grosseria do patrão, pela única paga de ver, três vezes por dia, o famoso par de braços.

Naquele dia, enquanto a noite ia caindo e Inácio estirava-se na rede (não tinha ali outra cama), D. Severina, na sala da frente, recapitulava o episódio do jantar e, pela primeira vez, desconfiou alguma cousa Rejeitou a idéia logo, uma criança! Mas há idéias que são da família das moscas teimosas: por mais que a gente as sacuda, elas tornam e pousam. Criança? Tinha quinze anos; e ela advertiu que entre o nariz e a boca do rapaz havia um princípio de rascunho de buço. Que admira que começasse a amar? E não era ela bonita? Esta outra idéia não foi rejeitada, antes afagada e beijada. E recordou então os modos dele, os esquecimentos, as distrações, e mais um incidente, e mais outro, tudo eram sintomas, e concluiu que sim.

— Que é que você tem? disse-lhe o solicitador, estirado no canapé, ao cabo de alguns minutos de pausa.

— Não tenho nada.

— Nada? Parece que cá em casa anda tudo dormindo! Deixem estar, que eu sei de um bom remédio para tirar o sono aos dorminhocos . . .

E foi por ali, no mesmo tom zangado, fuzilando ameaças, mas realmente incapaz de as cumprir, pois era antes grosseiro que mau. D. Severina interrompia-o que não, que era engano, não estava dormindo, estava pensando na comadre Fortunata. Não a visitavam desde o Natal; por que não iriam lá uma daquelas noites? Borges redargüia que andava cansado, trabalhava como um negro, não estava para visitas de parola, e descompôs a comadre, descompôs o compadre, descompôs o afilhado, que não ia ao colégio, com dez anos! Ele, Borges, com dez anos, já sabia ler, escrever e contar, não muito bem, é certo, mas sabia. Dez anos! Havia de ter um bonito fim: — vadio, e o covado e meio nas costas. A tarimba é que viria ensiná-lo.

D. Severina apaziguava-o com desculpas, a pobreza da comadre, o caiporismo do compadre, e fazia-lhe carinhos, a medo, que eles podiam irritá-lo mais. A noite caíra de todo; ela ouviu o tlic do lampião do gás da rua, que acabavam de acender, e viu o clarão dele nas janelas da casa fronteira. Borges, cansado do dia, pois era realmente um trabalhador de primeira ordem, foi fechando os olhos e pegando no sono, e deixou-a só na sala, às escuras, consigo e com a descoberta que acaba de fazer.

Tudo parecia dizer à dama que era verdade; mas essa verdade, desfeita a impressão do assombro, trouxe-lhe uma complicação moral que ela só conheceu pelos efeitos, não achando meio de discernir o que era. Não podia entender-se nem equilibrar-se, chegou a pensar em dizer tudo ao solicitador, e ele que mandasse embora o fedelho. Mas que era tudo? Aqui estacou: realmente, não havia mais que suposição, coincidência e possivelmente ilusão. Não, não, ilusão não era. E logo recolhia os indícios vagos, as atitudes do mocinho, o acanhamento, as distrações, para rejeitar a idéia de estar enganada. Daí a pouco, (capciosa natureza!) refletindo que seria mau acusá-lo sem fundamento, admitiu que se iludisse, para o único fim de observá-lo melhor e averiguar bem a realidade das cousas.

Já nessa noite, D. Severina mirava por baixo dos olhos os gestos de Inácio; não chegou a achar nada, porque o tempo do chá era curto e o rapazinho não tirou os olhos da xícara. No dia seguinte pôde observar melhor, e nos outros otimamente. Percebeu que sim, que era amada e temida, amor adolescente e virgem, retido pelos liames sociais e por um sentimento de inferioridade que o impedia de reconhecer-se a si mesmo. D. Severina compreendeu que não havia recear nenhum desacato, e concluiu que o melhor era não dizer nada ao solicitador; poupava-lhe um desgosto, e outro à pobre criança. Já se persuadia bem que ele era criança, e assentou de o tratar tão secamente como até ali, ou ainda mais. E assim fez; Inácio começou a sentir que ela fugia com os olhos, ou falava áspero, quase tanto como o próprio Borges. De outras vezes, é verdade que o tom da voz saía brando e até meigo, muito meigo; assim como o olhar geralmente esquivo, tanto errava por outras partes, que, para descansar, vinha pousar na cabeça dele; mas tudo isso era curto.

— Vou-me embora, repetia ele na rua como nos primeiros dias.

Chegava a casa e não se ia embora. Os braços de D. Severina fechavam-lhe um parêntesis no meio do longo e fastidioso período da vida que levava, e essa oração intercalada trazia uma idéia original e profunda, inventada pelo céu unicamente para ele. Deixava-se estar e ia andando. Afinal, porém, teve de sair, e para nunca mais; eis aqui como e porquê.

D. Severina tratava-o desde alguns dias com benignidade. A rudeza da voz parecia acabada, e havia mais do que brandura, havia desvelo e carinho. Um dia recomendava-lhe que não apanhasse ar, outro que não bebesse água fria depois do café quente, conselhos, lembranças, cuidados de amiga e mãe, que lhe lançaram na alma ainda maior inquietação e confusão. Inácio chegou ao extremo de confiança de rir um dia à mesa, cousa que jamais fizera; e o solicitador não o tratou mal dessa vez, porque era ele que contava um caso engraçado, e ninguém pune a outro pelo aplauso que recebe. Foi então que D. Severina viu que a boca do mocinho, graciosa estando calada, não o era menos quando ria.

A agitação de Inácio ia crescendo, sem que ele pudesse acalmar-se nem entender-se. Não estava bem em parte nenhuma. Acordava de noite, pensando em D. Severina. Na rua, trocava de esquinas, errava as portas, muito mais que dantes, e não via mulher, ao longe ou ao perto, que lha não trouxesse à memória. Ao entrar no corredor da casa, voltando do trabalho, sentia sempre algum alvoroço, às vezes grande, quando dava com ela no topo da escada, olhando através das grades de pau da cancela, como tendo acudido a ver quem era.

Um domingo, — nunca ele esqueceu esse domingo, — estava só no quarto, à janela, virado para o mar, que lhe falava a mesma linguagem obscura e nova de D. Severina. Divertia-se em olhar para as gaivotas, que faziam grandes giros no ar, ou pairavam em cima d’água, ou avoaçavam somente. O dia estava lindíssimo. Não era só um domingo cristão; era um imenso domingo universal.

Inácio passava-os todos ali no quarto ou à janela, ou relendo um dos três folhetos que trouxera consigo, contos de outros tempos, comprados a tostão, debaixo do passadiço do Largo do Paço. Eram duas horas da tarde. Estava cansado, dormira mal a noite, depois de haver andado muito na véspera; estirou-se na rede, pegou em um dos folhetos, a Princesa Magalona, e começou a ler. Nunca pôde entender por que é que todas as heroínas dessas velhas histórias tinham a mesma cara e talhe de D. Severina, mas a verdade é que os tinham. Ao cabo de meia hora, deixou cair o folheto e pôs os olhos na parede, donde, cinco minutos depois, viu sair a dama dos seus cuidados. O natural era que se espantasse; mas não se espantou. Embora com as pálpebras cerradas viu-a desprender-se de todo, parar, sorrir e andar para a rede. Era ela mesma, eram os seus mesmos braços.

É certo, porém, que D. Severina, tanto não podia sair da parede, dado que houvesse ali porta ou rasgão, que estava justamente na sala da frente ouvindo os passos do solicitador que descia as escadas. Ouviu-o descer; foi à janela vê-lo sair e só se recolheu quando ele se perdeu ao longe, no caminho da Rua das Mangueiras. Então entrou e foi sentar-se no canapé. Parecia fora do natural, inquieta, quase maluca; levantando-se, foi pegar na jarra que estava em cima do aparador e deixou-a no mesmo lugar; depois caminhou até à porta, deteve-se e voltou, ao que parece, sem plano. Sentou-se outra vez cinco ou dez minutos. De repente, lembrou-se que Inácio comera pouco ao almoço e tinha o ar abatido, e advertiu que podia estar doente; podia ser até que estivesse muito mal.

Saiu da sala, atravessou rasgadamente o corredor e foi até o quarto do mocinho, cuja porta achou escancarada. D. Severina parou, espiou, deu com ele na rede, dormindo, com o braço para fora e o folheto caído no chão. A cabeça inclinava-se um pouco do lado da porta, deixando ver os olhos fechados, os cabelos revoltos e um grande ar de riso e de beatitude.

D. Severina sentiu bater-lhe o coração com veemência e recuou. Sonhara de noite com ele; pode ser que ele estivesse sonhando com ela. Desde madrugada que a figura do mocinho andava-lhe diante dos olhos como uma tentação diabólica. Recuou ainda, depois voltou, olhou dous, três, cinco minutos, ou mais. Parece que o sono dava à adolescência de Inácio uma expressão mais acentuada, quase feminina, quase pueril. “Uma criança!” disse ela a si mesma, naquela língua sem palavras que todos trazemos conosco. E esta idéia abateu-lhe o alvoroço do sangue e dissipou-lhe em parte a turvação dos sentidos.

“Uma criança!”

E mirou-o lentamente, fartou-se de vê-lo, com a cabeça inclinada, o braço caído; mas, ao mesmo tempo que o achava criança, achava-o bonito, muito mais bonito que acordado, e uma dessas idéias corrigia ou corrompia a outra. De repente estremeceu e recuou assustada: ouvira um ruído ao pé, na saleta do engomado; foi ver, era um gato que deitara uma tigela ao chão. Voltando devagarinho a espiá-lo, viu que dormia profundamente. Tinha o sono duro a criança! O rumor que a abalara tanto, não o fez sequer mudar de posição. E ela continuou a vê-lo dormir, — dormir e talvez sonhar.

Que não possamos ver os sonhos uns dos outros! D. Severina ter-se-ia visto a si mesma na imaginação do rapaz; ter-se-ia visto diante da rede, risonha e parada; depois inclinar-se, pegar-lhe nas mãos, levá-las ao peito, cruzando ali os braços, os famosos braços. Inácio, namorado deles, ainda assim ouvia as palavras dela, que eram lindas cálidas, principalmente novas, — ou, pelo menos, pertenciam a algum idioma que ele não conhecia, posto que o entendesse. Duas três e quatro vezes a figura esvaía-se, para tornar logo, vindo do mar ou de outra parte, entre gaivotas, ou atravessando o corredor com toda a graça robusta de que era capaz. E tornando, inclinava-se, pegava-lhe outra vez das mãos e cruzava ao peito os braços, até que inclinando-se, ainda mais, muito mais, abrochou os lábios e deixou-lhe um beijo na boca.

Aqui o sonho coincidiu com a realidade, e as mesmas bocas uniram-se na imaginação e fora dela. A diferença é que a visão não recuou, e a pessoa real tão depressa cumprira o gesto, como fugiu até à porta, vexada e medrosa. Dali passou à sala da frente, aturdida do que fizera, sem olhar fixamente para nada. Afiava o ouvido, ia até o fim do corredor, a ver se escutava algum rumor que lhe dissesse que ele acordara, e só depois de muito tempo é que o medo foi passando. Na verdade, a criança tinha o sono duro; nada lhe abria os olhos, nem os fracassos contíguos, nem os beijos de verdade. Mas, se o medo foi passando, o vexame ficou e cresceu. D. Severina não acabava de crer que fizesse aquilo; parece que embrulhara os seus desejos na idéia de que era uma criança namorada que ali estava sem consciência nem imputação; e, meia mãe, meia amiga, inclinara-se e beijara-o. Fosse como fosse, estava confusa, irritada, aborrecida mal consigo e mal com ele. O medo de que ele podia estar fingindo que dormia apontou-lhe na alma e deu-lhe um calefrio.

Mas a verdade é que dormiu ainda muito, e só acordou para jantar. Sentou-se à mesa lépido. Conquanto achasse D. Severina calada e severa e o solicitador tão ríspido como nos outros dias, nem a rispidez de um, nem a severidade da outra podiam dissipar-lhe a visão graciosa que ainda trazia consigo, ou amortecer-lhe a sensação do beijo. Não reparou que D. Severina tinha um xale que lhe cobria os braços; reparou depois, na segunda-feira, e na terça-feira, também, e até sábado, que foi o dia em que Borges mandou dizer ao pai que não podia ficar com ele; e não o fez zangado, porque o tratou relativamente bem e ainda lhe disse à saída:

— Quando precisar de mim para alguma cousa, procure-me.

— Sim, senhor. A Sra. D. Severina. . .

— Está lá para o quarto, com muita dor de cabeça. Venha amanhã ou depois despedir-se dela.

Inácio saiu sem entender nada. Não entendia a despedida, nem a completa mudança de D. Severina, em relação a ele, nem o xale, nem nada. Estava tão bem! falava-lhe com tanta amizade! Como é que, de repente. . . Tanto pensou que acabou supondo de sua parte algum olhar indiscreto, alguma distração que a ofendera, não era outra cousa; e daqui a cara fechada e o xale que cobria os braços tão bonitos… Não importa; levava consigo o sabor do sonho. E através dos anos, por meio de outros amores, mais efetivos e longos, nenhuma sensação achou nunca igual à daquele domingo, na Rua da Lapa, quando ele tinha quinze anos. Ele mesmo exclama às vezes, sem saber que se engana:

E foi um sonho! um simples sonho!

Fontes:
ASSIS, Machado de. Várias Histórias. Ed. Martin Claret
Imagem = www.cce.ufsc.br/~nupill/literatura/bracos.gif

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Machado de Assis (Análise dos Contos de “Várias Histórias”: 3. Uns Braços)

Análise realizada pelo Prof. Bartolomeu Amâncio da Silva. Bacharel em Letras, pela USP, professor de literatura da rede Objetivo (colégios e cursos pré-vestibular).
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Inserido no volume que constitui as Várias Histórias, o conto Uns braços foi recebido pela crítica contemporânea a Machado de Assis muito elogiosamente.

Machado não emprega nunca tintas fortes e cruas; jamais lança mão de notas extremas nem chega às vias de fato, o que podemos comprovar com a leitura de Uns braços, onde dona Severina beija o rapaz, e este permanece dormindo; não acorda para surpreendê-la, seja positiva ou negativamente. Potencialmente, resta sempre uma dúvida, uma incerteza, uma sensação de desconforto provocada pela não resolução das questões no texto machadiano.

É a história de Inácio, jovem de 15 anos que vai trabalhar como ajudante do ríspido solicitador (funcionário do Judiciário, algo entre procurador e advogado) Borges, morando na casa deste. É lá que acaba se encantando com os braços de D. Severina, companheira do seu patrão. Deve-se lembrar que na época em que se passa a história, 1870, não era comum uma mulher exibir tal parte do corpo. Mas, antes que se pense que ela era despudorada, deve-se lembrar que só o fazia por passar por certas dificuldades que tornava o seu vestuário falto de peças mais adequadas. Ainda assim, os breves momentos em que via a mulher e principalmente os braços dela eram, para Inácio, o grande alívio diante de um cotidiano tão massacrante. Até que um dia D. Severina percebe o interesse que desperta no moço. Demora a aceitar, pois considera-o apenas uma criança. Mas, quando vê o homem já na forma do menino, entra num sentimento conflitante, misto de vaidade e pudor. Por isso oscila entre tratar mal o rapaz e mostrar preocupação com o seu bem-estar. Até que num domingo ocorre a cena mais importante da história. D. Severina encontra Inácio dormindo na rede. Dá-lhe um leve beijo na boca. A senhora não sabe que naquele exato instante o garoto sonhava com o beijo dela e ele não sabe que era beijado realmente enquanto estava mergulhado na fantasia do seu sono. Pouco tempo depois, Borges dispensa o garoto de forma admiravelmente amistosa. O menino não vê mais D. Severina, guardando a sensação daquela tarde como algo que não ia ser superado em nenhum relacionamento de sua existência.

Note que nesse conto Machado mostra o dom que possui para narrativas memorialistas. Veja também o seu início abrupto, sendo o leitor jogado de chofre no meio da história (técnica chamada de in media res). Repare, por fim, que a temática da descoberta do amor só vai perder em delicadeza e brilho para outro conto do autor, “Missa do Galo”, que infelizmente não faz parte dessa coletânea.

Segundo Roberto Acízelo de Souza, a posição subalterna ocupada pelas mulheres na sociedade brasileira oitocentista constitui noção que integra o saber do senso comum, mesmo porque se trata de um estado de coisas que se conservou no essencial até pelo menos os anos 50 do século XX.

A personagem feminina do conto ocupa papel semelhante ao descrito acima. Porém, dona Severina, na tentativa de recusa a esta clausura, não se conforma com esta posição, permitindo que, através de ações ambíguas e movimentos contraditórios que comentaremos posteriormente, revele-se a vontade de ser desejada por um outro homem e, por sua vez, a de desejá-lo também. Trata-se de um quadro de adultério pintado com suaves tintas por Machado de Assis, cuidadoso que é na estruturação de suas histórias, nunca ferindo as vistas dos leitores.

A contradição e a ambigüidade em Machado de Assis estão presentes, inicialmente, nos recursos lingüisticos e estilísticos adotados, ou seja, na forma que utiliza para expressar seu conteúdo. Então, de saída, percebemos a linguagem por ele usada possibilitando e incentivando movimentos contraditórios e ambivalentes dentro de sua narrativa.

O conto contêm vazios, que constituem a condição básica para o processo de comunicação. Isso porque eles se encontram intimamente relacionados à provocação do texto, para que o leitor reflita sobre os conflitos não solucionados. Tais vazios, variam de acordo com as interpretações dos leitores, ou, em outros termos, variam segundo as respostas que formulamos diante da experiência estética.

Em Uns Braços tem-se o personagem de Inácio, que está hospedado na casa do solicitador Borges, para quem trabalha de agente. Isso ocorre por ordens de seu pai, a quem a idéia de que Inácio se tornasse procurador parecia muito lucrativa. O menino apaixona-se por D. Severina, esposa de Borges.

Logo no início do conto tem-se os primeiros sinais dessa paixão, já que o mocinho é repreendido por Borges por andar tão distraído, confundindo papéis e errando casas. Logo em seguida, o narrador faz a seguinte observação acerca de Inácio: “Cabeça inculta, mas bela, olhos de rapaz que sonha, que adivinha, que indaga, que quer saber e não acaba de saber nada”. Essa frase já aponta para o próprio final do conto, e poderia mesmo ser repetida, em se tratando de um adiantamento de expectativas, já que é exatamente o que ocorre: Inácio sonha com Severina, adivinha que está por perto, indaga-se, e acaba não sabendo de nada, nem do interesse correspondido, nem da fusão do sonho com a realidade. Imediatamente após, temos certeza do interesse de Inácio pela senhora, já que o narrador confessa:

Inácio ia comendo devagarinho, não ousando levantar os olhos do prato, nem para colocá-los onde eles estavam no momento em que o terrível Borges o descompôs. Verdade é que seria agora muito arriscado. Nunca ele pôs os olhos nos braços de D. Severina que se não esquecesse de si e de tudo.

Durante as refeições, Inácio procura ao máximo prolongar sua permanência na mesa para poder continuar na presença de D. Severina:

Inácio demorou o café o mais que pôde. Entre um e outro gole alisava a toalha, arrancava dos dedos pedacinhos de pele imaginários ou passava os olhos pelos quadros da sala de jantar, que eram dois, um S. Pedro e um S. João, registros trazidos de festas encaixilhados em casa.

Severina, por sua vez, trazia sempre os braços nus à mesa, podendo-se tratar de uma provocação, ainda que inconsciente, mesmo se já gastara todos os vestidos de manga comprida que possuía. Ao apontar a diferença de idade entre Severina e Inácio, Machado é elegante e delicado; prefere a sugestão em vez da obviedade. Primeiro anuncia a idade do menino: “Tinha quinze anos feitos e bem feitos”, para mais a frente deixar-nos à par da idade da senhora: “Tudo isso com vinte e sete anos floridos e sólidos”. Assim como no conto “Missa do galo”, a sexualidade de um rapaz bem novo é despertada por uma mulher mais velha e casada. O leitor em sociedade, ou leitor real, como pensou Iser, sofre efeitos históricos produzidos pelo texto através da descrição de costumes e de padrões sociais, tudo isso experimentado pelo leitor durante o processo de recepção textual.

O sentimento de Inácio era “confuso, vago, inquieto, que lhe doía e fazia bem, alguma coisa que deve sentir a planta, quando abotoa a primeira flor”. Nesta passagem, Machado descreve exatamente o sentimento da paixão, que é por si só algo contraditório, dúbio e perturbador. Trata-se, aqui, do despertar sexual do rapaz que implica diversas impossibilidades: Severina não só é mais velha como casada, e ambos estão inseridos na sociedade oitocentista, impregnada de valores morais e sociais muito rígidos.

Machado também trata a questão do tempo como uma abstração, tal como faz em outras obras suas, como nas “Memórias Póstumas”, mais especificamente no capítulo “O delírio”. Sim, o tempo é uma abstração, e não importa o que passou, mas o que vem. O tempo também pode curar tudo e fazer com que mudemos de idéia, mesmo as que parecem fixas, definitivas e trágicas, como no conto “Noite de Almirante”, quando Deolindo promete suicidar-se e não o faz. Em Uns braços, Inácio promete um dia fugir daquela casa, e também não consegue fazê-lo:

Deixe estar, – pensou ele um dia – fujo daqui e não volto mais.
Não foi; sentiu-se agarrado e acorrentado pelos braços de D. Severina. Nunca vira outros tão bonitos e tão frescos.

Inácio, porém, não é o único a ter comportamentos contraditórios. Severina, principal figura do conto, adota uma postura essencialmente ambígua, contraditória e misteriosa, como muitas personagens femininas criadas por Machado de Assis, diga-se de passagem. Os personagens de Machado de Assis são geralmente caracteres indecisos, hesitantes, atormentados pela moléstia da dúvida; incoerentes? contraditórios? de acordo; mas verdadeiros por isso mesmo.

Na seguinte passagem do conto tem-se um exemplo deste tipo de comportamento por parte da mulher machadiana:

D. Severina, na sala da frente, recapitulava o episódio do jantar e, pela primeira vez, desconfiou alguma coisa. Rejeitou a idéia logo, uma criança! […] Criança? Tinha quinze anos; e ela advertiu que entre o nariz e a boca do rapaz havia um princípio de rascunho de buço. Que admira que começasse a amar? E não era ela bonita? Esta outra idéia não foi rejeitada, antes afagada e beijada.

Primeiro, a personagem rejeita a idéia de que o rapaz estivesse mesmo demonstrando interesse, certamente num azo de obediência aos padrões sociais da época, para logo depois descartar essa rejeição, afinal, ela não podia ser amada ou desejada? D. Severina começa a procurar justificativas para a atitude do rapaz, por querer, justamente, se sentir mais viva, e consequentemente, menos submissa.

Magalhães de Azeredo faz uma observação muito pertinente em se tratando das figuras femininas de Machado de Assis, e que se aplica muito bem a D. Severina, cujo nome já aponta para certa perversidade e conseqüente sedução, ou, conforme o próprio nome, severidade mesmo:

As mulheres, evocadas por Machado de Assis – para quem o eterno feminino é um vasto elemento moral -, têm de ordinário uma soberania de beleza, de sedução, de resistência ou mesmo de virtude, que lhe confere a vitória na luta com o sexo rival. Perversa, em rigor, não vejo nenhuma; perturbadoras há muitas, e de penosa decifração.

D. Severina, visivelmente perturbada com a presença de Inácio em sua casa, passa também a devanear e a assumir um comportamento semelhante ao do rapaz. Na passagem seguinte, a atitude do solicitador pode ser uma simples repressão, mas pode ser também que estivesse desconfiando de algum interesse por parte de sua mulher e de seu escrevente. Trata-se de um vazio que o texto cria e que o leitor deve resolver sozinho, porque a narrativa machadiana não se compromete em resolver os conflitos que ela mesma cria:

– Que é que você tem? disse-lhe o solicitador, estirado no canapé, ao cabo de alguns minutos de pausa.
– Não tenho nada.
– Nada? Parece que cá em casa anda tudo dormindo! Deixem estar, que eu sei de um bom remédio para tirar o sono aos dorminhocos…

A sujeição feminina encontra-se também manifesta na passagem em que Severina teme acariciar seu próprio marido por medo de irritá-lo ainda mais: “fazia-lhe carinhos, a medo, que eles podiam irritá-lo mais”. Porém, como quem se indigna com essa submissão, Severina tem atitudes mais que ousadas para uma senhora casada inserida na sociedade brasileira oitocentista. Como achasse por bem observar o rapaz Inácio antes de tomar uma atitude inapropriada e precipitada, aceitou estrategicamente que tudo fora apenas ilusão, e “percebeu que sim, que era amada e temida, amor adolescente e virgem, retido pelos liames sociais e por um sentimento de inferioridade que o impedia de reconhecer-se a si mesmo.”

Machado, através de seu texto, consegue transportar o leitor de qualquer época para dentro do seu conto, fazendo com que haja uma real comunicação entre texto e leitor, que, por sua vez, consegue se inserir de tal modo na própria narrativa que passa a vivenciar as mesmas experiências dos personagens, como se de fato estivesse fazendo parte daquele contexto, daquele exato momento histórico em que se insurge a narrativa.

Numa atitude tipicamente confusa, Severina conclui que se tratava de uma criança e que não havia o que temer. A partir disso, assume um comportamento essencialmente perturbador, indeciso e incoerente.

Inácio começou a sentir que ela fugia com os olhos, ou falava áspero, quase tanto como o próprio Borges. De outras vezes, é verdade que o tom da voz saía brando e até meigo, muito meigo; assim como o olhar geralmente esquivo, tanto errava por outras partes, que, para descansar, vinha pousar na cabeça dele; mas tudo isso era curto.

Por fim, na conclusão do conto, tem-se a fusão do sonho com a realidade. Inácio está dormindo em sua rede, e sonha com Severina encarando-lhe de frente, pegando-lhe nas mãos, cruzando-as nos braços, e dando-lhe um beijo na boca. Este exato momento do sonho coincide com a realidade, pois que Severina de fato beija a boca do rapaz para de imediato sair do quarto, assustada, confusa e arrependida com sua atitude. E não somente por vergonha, mas como forma de punir a si mesma por tamanha ousadia, Severina passa a cobrir os braços à mesa, mas também como punição ao próprio rapaz, a quem ela atribui uma parcela de culpa. A princípio Inácio não percebe que o famoso par de braços não mais está à vista, tão embriago pela sensação do beijo. Ao final, o rapaz deve ir embora da casa do comendador, mas não consegue se despedir de Severina, que inventa uma forte dor de cabeça. O mocinho jamais saberia que não foi um mero sonho, muito embora nunca tenha achado sensação igual à daquele domingo.

Machado de Assis incita o leitor a criar um significado próprio para a obra, de acordo com sua leitura pessoal, levando sempre em consideração as questões extrateóricas, realmente manifestas, ou seja, seu campo pragmático. As perspectivas textuais orientam as linhas de leitura, e não podemos atribuir a elas uma escala hierárquica de valor. Uma perspectiva sozinha não produz o significado do texto, pois tal significado é o resultado da convergência das diferentes perspectivas que se cruzam num específico ponto de encontro (meeting point), e que só é determinável pelo ponto de vista do leitor. O significado do texto não está dentro dele, nem fora; é um efeito a ser experimentado, não mais um objeto que se define. É, portanto, resultado da compreensão do leitor.
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Continua… análise do conto “Um Homem Célebre”
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Fonte:
http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/analises_completas/v/varias_historias

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n.106)

Uma Trova Nacional

Depois do agrado, é verdade,
apressado, ele partia…
Mas hoje tenho saudade
da saudade que eu sentia…
(DOMITILLA B. BELTRAME/SP)

Uma Trova Potiguar

Os sonhos da mocidade,
quase ninguém os esquece;
deixam fundo uma saudade
que nunca desaparece!
(JOAMIR MEDEIROS/RN)

Uma Trova Premiada

1994 > Bandeirantes/PR
Tema > FAMÍLIA > Vencedora

Triste… a criança dizia
ao colega do orfanato:
– uma família eu queria;
nem que fosse… no retrato!
(MARIA LÚCIA DALOCE/PR)

Simplesmente Poesia

MOTE.
Se batiza o sertanejo,
com sol, com seca e poeira.

GLOSA.
Surge o dia num bafejo
quente tal qual a fornalha,
no rescaldo da borralha
se batiza o sertanejo.
Não é mesmo malfazejo
para uma gente altaneira
que nasce mais brasileira
à mercê do seu destino,
lhe ministram sal divino
com sol, com seca e poeira.
(MANOEL DANTAS/RN)

Uma Trova de Ademar

Das colheitas dadivosas
que Deus deixa nos caminhos,
uns curvam-se e colhem rosas,
outros só colhem espinhos…
(ADEMAR MACEDO/RN)

…E Suas Trovas Ficaram

Fortuna bem merecida,
nas mãos de quem faz o bem,
multiplica os bens da vida,
depois divide o que tem.
(ALOÍSIO ALVES DA COSTA/CE)

Estrofe do Dia

Até pra uma falsa dama
usando de consciência,
dê a sua independência
pra que não faça programa;
pra meu irmão eu dei cama
para não vê-lo no chão,
ele forrou seu colchão
e o meu ficou desforrado;
sou um barco viajado
no mar da desilusão.
(JOÃO PARAIBANO/PB)

Soneto do Dia

– José Ouverney/SP –
O MONSTRO-MONTANHA

Montanha é linda enquanto só montanha:
intrépida guardiã da Natureza,
tal se fosse a Ministra da Defesa,
dando aos postais uma visão que assanha.

Quando, ao fremir das águas, desce e ganha
força incomum e uma mortal frieza,
impelindo com fúria a correnteza,
como explicar dissociação tamanha?

Cena dantesca: o monstro põe ao chão
tudo o que vê, de forma ensandecida:
de um antideus, voraz encarnação;

se aos mortos nossa prece é o contrapeso,
aos que sobreviveram falta vida,
porque ninguém sai dessa luta ileso…

Fonte:
Ademar Macedo

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Alba Krishna Topan Feldman (A Identidade da Mulher Indígena na Escrita de Zitkala-Ša e Eliane Potiguara)

RESUMO:
O estudo de crítica feminina tem se desenvolvido para abarcar mulheres de diferentes etnias e também de diferentes formações culturais e épocas. Este trabalho tem por objetivo discutir como a identidade de gênero e etnia se apresenta na escrita de duas autoras de origem indígena, uma brasileira contemporânea, Eliane Potiguara, e outra Estadunidense do início do século XX, Zitkala-Ša. As duas autoras estudadas misturam de forma vivaz a ficção, a escrita jornalística de informação com relação à situação indígena, além de poesia e narração com moldes na oralidade, reafirmando o papel da mulher indígena como contadora de histórias e como educadora. Ambas buscaram por caminhos às vezes diferentes, e muitas vezes conflitantes pela diferença de cultura e objetivo final com relação aos leitores, mas muitas vezes similares, mostrar aspectos desconhecidos e calados dos sentimentos e angústias vividas pela mulher indígena diante de uma sociedade opressora retomando fatos históricos e também as condições contemporâneas de suas tribos e do povo indígena como um todo.

PALAVRAS-CHAVE: Literatura étnica comparada; Eliane Potiguara; Zitkala-Ša; escrita feminina.

1 – Introdução

Eliane Potiguara é descendente de índios Potiguaras do Recife, escritora brasileira contemporânea, enquanto Zitkala-Ša é Yankton Dakota, e viveu no final do século XIX e início do século XX, nação Sioux, Estados Unidos. O foco de estudo deste artigo recairá nas estratégias utilizadas pelas duas autoras como forma de manter e questionar sua condição como mulher e como indígena em períodos igualmente marcados pela violência e repressão em seus respectivos países. Ashcroft (2002), Hall (2002), e Trinh (1989) fornecerão a base teórica para a análise. Uma breve intervenção biográfica das duas autoras será seguido do estudo de excertos que demonstram seus estilos e suas estratégias para tornarem-se agentes de suas etnias e de seu gênero. A primeira parte da análise se focará na etnia e na reafirmação do indígena procedido pelas duas autoras, enquanto a segunda discutirá o corpo indígena e o corpo feminino.

2 – As autoras: vidas e obras

Zitkala-Ša, nascida Gertrude Simmons (1876-1938), em uma das reservas mais pobres dos EUA era filha de mãe indígena e pai provavelmente branco, do qual quase nada se sabe. A autora enfrentou momentos amargos na história indígena americana, como as marchas forçadas, chamadas de trilhas de lágrimas, a aculturação em massa exercida pelas boarding schools, escolas indígenas que trouxeram doenças, trauma e morte, além das chamadas guerras índias, que dizimaram os indígenas no século XIX e início do século XX. Seus contos autobiográficos, poemas e artigos foram publicados em periódicos de renome na época, como o Atlantic Monthly Magazine, em 1900 e mais tarde transformada em dois livros, entre 1920 e 1922. Tornou-se Gertrude Bonnin pelo casamento, mas optou pelo nome indígena Zitkala-Ša como escritora, da língua Dakota, que significa “Pássaro Vermelho”. Ela tornou-se um dos raros Nativos Americanos que conseguiram chegar ao Ensino Superior, musicista, escritora e ativista pela causa indígena, autora da única ópera com tema indígena e composta por um indígena. Porém, mesmo com todas as suas realizações, caiu no esquecimento após sua morte. Seus escritos foram recuperados no final do século XX, quando os estudos da crítica feminina, do pós-modernismo e do pós-colonialismo questionaram a construção do cânone literário. Sua obra American Indian Stories aborda momentos de sua infância, na reserva Yankton, seus momentos de aluna em uma boarding school dirigida por missionários e também como professora de outra boarding school, a conhecida Carlisle School. Old Indian Legends recupera as estórias que ouvia enquanto criança, ao redor da fogueira (LISA, 1996).

Eliane Potiguara é brasileira, 56 anos, Conselheira do Impbrapi, Instituto Indígena de Propriedade Intelectual e Coordenadora da Rede de Escritores Indígenas na Internet e do Grumin – grupo de mulheres indígenas/ Rede de Comunicação Indígena. Nascida com outro nome, adotou Eliane Potiguara para homenagear a tribo de onde veio, da Paraíba, os Potiguares (Comedores de Camarão). É formada em Letras e participa de diversas ONGs. Foi indicada, por seu trabalho como ativista, como representante do Brasil na campanha “Mil Mulheres Para o Prêmio Nobel da Paz 2005”. Foi nomeada uma das 10 mulheres do ano em 1988, pelo Conselho das Mulheres do Brasil, por ter criado o GRUMIN. Participou durante anos, da elaboração da ”Declaração Universal dos Direitos Indígenas”, na ONU em Genebra. Recebeu em 1996 o título de “Cidadania Internacional”, concedido pela filosofia Iraniana Baha‟i, que trabalha pela implantação da Paz Mundial. Foi premiada pelo Pen Club da Inglaterra pelo seu livro A Terra é a Mãe do Índio. Sua última obra publicada é Metade Cara, Metade Máscara, que mescla informações sobre a situação indígena atual, confissões e histórias autobiográficas, além da narrativa poética ficcional de Cunhataí e Jurupiranga, um casal que se separa na época da colonização, e passa os séculos pelo sofrimento de seu povo, para se reencontrar no presente.

3 – A identidade fragmentada e reafirmada

A etnia indígena que vivia nos EUA na época de Zitkala-Ša passaram por diversos problemas que comprometiam suas identidades, que incluíam:

– a invasão cultural europeizante, que procurava aculturar e “assimilar” o indígena em um projeto bem planejado e que assumia diversas formas, algumas inclusive disfarçadas em “pele de cordeiro”, como a distribuição de terras aos índios através do Dawes Act, de 1887, que possibilitava aos brancos um roubo legalizado das terras das reservas indígenas, ou as boarding schools, internatos religiosos ou militares que traumatizaram as crianças, fazendo com que elas perdessem sua tradição étnica, sua linguagem, mas ao mesmo tempo não conseguissem se adaptar à sociedade euro-americana;

– as teorias secundárias às idéias darwinianas, que estabeleciam as raças não européias como inferiores, e o hibridismo como degeneração. No caso de Zitkala-Ša, há uma forte possibilidade de que seu pai seja um homem branco, o que ela nunca deixou transparecer em sua escrita. Mesmo assim, sua educação e criação acabou por representar nela o dilema existencial que fazia parte da vida da maioria do povo indígena na época: “Mesmo a natureza parecia não ter lugar para mim. Eu não era uma menina pequena, nem grande. Não era uma índia selvagem, nem domada” (ZITKALA-ŠA, 2003, contracapa).

A identidade fragmentada é apontada por Hall (2002) ao afirmar que, a partir de certos movimentos que tiveram início no final do século XIX, como a Psicologia (que cindiu a mente em consciente e inconsciente), o marxismo (que cindiu a sociedade em classes), Foucault e o feminismo, que questionaram o posicionamento de poder e de gênero, a identidade deixa de ser um todo, um “bloco” uno, com um único centro, e passa a ter diversos centros, ou seja, a identidade vista sob o prisma dos estudos pós-modernos vai variar de acordo com os sistemas culturais que a interpelam.

A questão da pluralidade de identidades está presente em Zitkala-Ša de diversas formas: ela assume, publicamente, sua condição de índia, abandonando sua hibridez física, mas utiliza sua hibridez cultural ao fazer uso de sua educação e conhecimento da língua inglesa para escrever, inclusive mostrando sua erudição, contra a cultura branca e seus efeitos devastadores dos processos de assimilação aos indígenas de sua época. Por outro lado, assume os dois papéis destinados às mulheres índias na época. O primeiro é a a squaw, palavra para “vagina” em algumas línguas indígenas e “moça” em outras, usada desdenhosamente pelos brancos para designar as mulheres indígenas que, são forçadas a se prostituírem e abandonarem suas aldeias para servirem aos homens brancos. O segundo estereótipo é a princesa, personificada pela filha do chefe Powhatan, a famosa Pocahontas, que, além de servir de mediadora entre brancos e índios, arrisca sua vida pelo homem branco, muitas vezes às custas da destruição de seu próprio povo. Zitkala-Ša deixa em suspenso o fato de que seria ou não neta de Tatanka Yotanka (O famoso chefe indígena Touro Sentado, místico e ativista, que participou da troupe circence do velho oeste de Buffalo Bill e venceu o general Custer na batalha de Little Big Horn), assumindo, portanto, o papel de princesa, neta do chefe. Também é chamada de squaw na forma de um cartaz quando ganha um concurso de oratória na faculdade, sendo a única concorrente indígena. Pode-se, então, observar que a autora subverte os dois papéis, uma vez que é comprovado através da análise dos anos de nascimento, que é impossível para Zitkala-Ša ser neta biológica de Touro Sentado. Por outro lado, ela usou esse expediente para ter acesso aos corredores do poder como ativista em Washington D.C.. Ela também subverte o estereótipo de squaw, porque recebe este nome não pela sua subordinação aos brancos, e nem por favores sexuais, mas por ousadia em competir em um ambiente cultural não-indígena, e sua por competência em ganhar.

Potiguara também deixa entrever o hibridismo e a fragmentação em sua história, quando afirma, narrando a própria história em terceira pessoa: “Foi impactante porque eram todas mulheres, as quatro filhas do índio X, mais a mãe Maria da Luz. Sua avó, a menina Maria de Lourdes, com apenas 12 anos, já era mãe solteira, vítima da violação sexual praticada por colonos que trabalhavam para a família inglesa X”(POTIGUARA, 2004, p. 27). A história reticente e muitas vezes imprecisa quanto a dados históricos, que são apenas entrevistos é utilizada pelas duas autoras, como forma de generalização e representação da identidade indígena como um todo: não são apenas elas ou suas famílias que passaram por situações parecidas, mas toda uma população indígena.

Ambas as autoras hibridizam também suas literaturas: fazem um resgate dos acontecimentos e as tradições de seus respectivos povos utilizando a linguagem do dominante, porém, também de forma híbrida: misturam diversos gêneros literários, como ensaio reflexivo, narrativa e poesia. Enquanto Potiguara se afirma diretamente e denuncia as violências sentidas por seu povo, Zitkala-Ša o faz de maneira velada, mas não menos incisiva, como quando, por exemplo, ao narrar o corte de seu cabelo no internato, considerada desonra para seu povo, ela o faz com as tintas de um estupro:

Eu me lembro de ter sido forçada e puxada, mesmo resistindo com chutes e unhadas selvagens. Totalmente contra minha vontade, fui carregada pela escadaria abaixo e amarrada com força a uma cadeira. Eu gritava alto, balançando minha cabeça o tempo todo até sentir as lâminas geladas da tesoura contra meu pescoço e as ouvir destruírem uma de minhas grossas tranças. Então, perdi meu espírito. (ZITKALA-ŠA, 2003, p. 69, tradução nossa).

A doçura da infância na reserva convivendo com o carinho da tribo contrasta com o tratamento desumano recebido na escola. E esta era a realidade de milhares de crianças indígenas na época de Zitkla-Ša, proibidas de usar as roupas e adereços das tribos, sua linguagem e qualquer elemento de suas tradições sob pena de surras e todo tipo de violência.

Potiguara mistura uma escrita informativa, ensaística e poética: “Em 18 de abril de 1997, o líder indígena Marçal Tupã-y, assassinado em 25 de novembro de 1983, esteve nas terras do Sul do Brasil e disse: ‘Eu não fico quieto não…⁄ Eu reclamo…⁄Eu falo… ⁄ Eu denuncio’.” (POTIGUARA, 2004, p. 47).

Uma das formas de resistência, segundo Ashcroft (2002), é o testimonio, ou seja, a narrativa de histórias do cotidiano dos povos dominados, a escrita autobiográfica. Esta é uma forma não apenas de auto-expressão e de arte literária, mas também uma forma de o dominado denunciar o que ocorre em seu mundo. Desta forma, o dominado também se apropria das armas do dominante, seja na forma da linguagem, ou de sua negação, seja através de mímica, de ironia, entre outros recursos, para a formação de seu próprio espaço e, fugindo ao controle do dominador, mescla sua cultura. O testemunho é usado pelas duas autoras em suas escritas autobiográficas e também na recuperação de tradições e da filosofia indígena.

Uma das provas da insistência na cultura dominada é a utilização, por parte de ambas, da arte de contar histórias. Esta é apontada por elas como o método de educação das crianças indígenas. Ambas as autoras o fazem por meio de suas narrativas autobiográficas e ficcionais, subvertendo a erudição e o uso da linguagem dominante aprendida como forma de chamar a atenção dos não-indígenas para a problemática indígena, e também como forma de recuperação da auto-estima alquebrada de seus povos. Potiguara aponta para caminhos mais esperançosos: ao final de sua saga de seu livro Metade Cara, Metade Máscara, Cunhataí e Jurupiranga se reencontram e juntos criam presenciam o renascimento da cultura; da união de suas lágrimas, produzem a felicidade para si e para seu povo. Enquanto isso, Zitkala-Ša oscila entre uma esperança febril e o desânimo ante os poucos resultados de sua luta. No início de sua obra, em diversos contos, ela entrevê índios dançando felizes, como nunca havia visto:

O presente era uma coisa fantástica, a textura muito mais delicada que a teia brilhante de uma aranha. Era uma visão! Uma figura de uma aldeia indígena, não pintada em tela, nem mesmo escrita. Era feita de sonhos, suspensa no ar, enchendo a área do baú de cedro. Quando ela olhou para dentro, a figura ficou mais e mais real, ultrapassando as dimensões do baú, Enquanto observava a figura, esta crescia mais. Era tão suave que parecia que uma respiração poderia tê-la destruído; ainda assim, era real como a vida – um acampamento circular, cheio de tendas brancas em forma de cone, viva com o povo indígena. […] Ela ouviu distintamente as palavras Dakota que ele proclamava ao povo. Alegrem-se, fiquem felizes! Olhem e vejam o novo dia nascendo! A ajuda está próxima! Ouçam-me todos.” Ela sentiu as ondas de alegria e ficou emocionada com nova esperança para seu povo” (ZITKALA-ŠA, 2003, p. 142, tradução nossa).

Porém, em algumas obras, como no conto Search of Bear Claws, the lost schoolboy, (em busca de Garras de Urso, o estudante perdido), onde ela conta a história de um menino que foge da repressão do internato, seu final não é feliz. A tribo usa sua tradição para encontrá-lo, na figura do Medicine Man, o curandeiro, mas isso não é suficiente, pois a morte aparece como a libertação para o pequeno fugitivo: “Ali, sob o manto da neve, eles encontraram o corpo do estudante fugitivo: o pequeno Garras de Urso fugira para onde os internatos não poderiam torturá-lo mais.” (IDEM, 2001, p. 96, tradução nossa) 4

Imagens como a reunião da tribo em volta de uma fogueira para contar histórias ou dançar, em Zitkala-Ša, o uso das ervas para Potiguara, a comunhão com a natureza e a aldeia, seja ela física ou simbólica em ambas, procuram estabelecer aspectos de identidade do índio e lembrar as tradições. Porém, ambas mostram-se conscientes de que é necessário o conhecimento do idoso e a ação do jovem para que a cultura indígena sobreviva, de forma a não ficarem presas ao passado, mas procurarem a resolução dos problemas no presente.

A relação respeitosa e simbiótica do indígena com a natureza também está presente nas autoras, como pode ser mostrado nesse excerto: “Quando o espírito penetra meu peito, gosto de andar calmamente entre as montanhas verdes; ou, às vezes, sentada às margens do Missouri sussurrante, eu me maravilho com o grande azul acima.” (IDEM, 2003, p. 114)

No poema “Eu não tenho minha aldeia”, Potiguara coloca a aldeia como símbolo da própria identidade indígena para aqueles que a perderam:

Eu não tenho minha aldeia / Minha aldeia é minha casa espiritual / Deixada pelos meus pais e meus avós / A maior herança indígena […]

Ah, Já tenho minha aldeia / Minha Aldeia é Meu Coração ardente / É a casa dos meus antepassados / E do topo dela eu vejo o mundo
(POTIGUARA, 2004, p. 131-132).

Desta forma, as duas autoras, por mais que estejam forçadamente no limiar de duas culturas, a cultura branca imposta e a cultura indígena perdida, fazem a opção pela cultura indígena, utilizando-se de expedientes da cultura e do conhecimento do dominante para transmitir seu conhecimento e sua indignação com a situação em que vivem suas respectivas etnias, hibridizando seus conhecimentos e o uso que fazem dele.

A identidade fragmentada e a opção pela indianidade (o desaparecimento das origens brancas) aparece propositadamente nas duas escritas autobiográficas. A união da modernidade e da tradição são patentes nas duas obras. No conto A dream of her grandfather, de Zitkala-Ša, a neta ativista recebe de presente do avô, um medicine man, uma visão. No mesmo sentido, Potiguara afirma que Jurupiranga “Percebeu a comunhão da nova e avançada tecnologia utilizada por alguns indígenas com as tradições indígenas, onde o diálogo jovens versus velhos era uma realidade” (POTIGUARA, 2004, p. 129).

Outros símbolos, como o cobertor e a fogueira do centro da aldeia (para Zitkala-Ša) e a pintura (para Potiguara) também representam a afirmação do índio e a busca de sua identidade, mas o choque entre a cultura branca e indígena procura ser resolvido pelas autoras de uma forma suave, não violenta, com respeito mútuo. Esta tentativa é mais forte em Zitkala-Ša, enquanto Potiguara é mais incisiva na apresentação e na busca da resolução dos conflitos em a que a solução aparece pela união da mulher indígena e do homem indígena.

4 – O corpo e o gênero

O corpo marca as diferenças visíveis entre etnias e entre gêneros, além de oferecer terrenos seguros para essencialismos, generalizações e ideologias sexistas e racistas. Os temas de outremização e identidade também estão presentes no corpo, pois a diferença gera hierarquias e dominação (TRINH, 1989).

Zitkala-Ša não é direta sobre questões sexuais, talvez pela educação rígida que recebera, pelos veículos nos quais publicou, ou pelas próprias limitações da época em que viveu, mas ela tem uma escrita que contrasta e ressalta sensações corporais, cores, e contrasta o corpo branco e indígena, além de reiterar exaustivamente a agência feminina. Metaforicamente, o conto the snow episode mostra uma outra faceta da relação índio/ branco: as meninas índias brincam de marcar a neve com seus corpos e são duramente repreendidas, pois é inconcebível que deixem as marcas de seu corpo vermelho na pureza da neve branca (mais uma vez, a neve representando o branco – como em outros contos da autora, a frieza e o motivo da dor do índio). Ao marcarem o branco da neve com seus corpos vermelhos, as crianças estariam indo contra a proposta assimilacionista, que era “embranquecer” o índio, e não “avermelhar” o branco.

O homem indígena em Zitkala-Ša é respeitável e amado, mas geralmente está perdido, louco, ou trata-se de um nobre antepassado já morto. A mulher tem a agência, no entanto, o homem indígena serve de inspiração à mulher, que sempre será a guerreira e portadora da tradição, utilizando-se de diferentes armas, como a personagem Tusee, do conto The Warrior’s daughter, que liberta o amado da tribo inimiga com sua inteligência e seu conhecimento da linguagem. Impressions mostra o tio da personagem narradora como um guerreiro honrado enterrado nas montanhas da reserva. A terra é mãe do índio, motivo de inspiração e contato com a divindade e a mulher é aquela que liberta o homem.

A escrita é sensorial em Zitkala-Ša – os sentidos são aguçados a todo o momento, e as descrições são vivazes neste sentido – gostos e cheiros da aldeia dentro da reserva são suaves e coloridos e é sempre verão ou primavera, enquanto a escuridão, o frio e a opressão da prisão são vivazes na escola e o inverno impera.

Enquanto isso, a escrita de Potiguara além de profundamente sensorial, como a de Zitkala-Ša, é também sensual: a terra não é apenas a mãe do índio, mas sua esposa prometida: a cunhã. A mulher é consciente de seu poder, mas está no aguardo de um momento para quebrar o silêncio:

Que faço com a minha cara de índia ?
E meus espíritos / E minha força / E meu Tupã / E meus círculos ?
Que faço com a minha cara de índia? / E meu sangue / E minha consciência / E minha luta / E nossos filhos ?
Brasil, o que faço com a minha cara de índia?
Não sou violência / Ou estupro / Eu sou história / Eu sou cunha / Barriga brasileira / Ventre sagrado / Povo brasileiro / Ventre que gerou / O povo brasileiro / Hoje está só … / A barriga da mãe fecunda / E os cânticos que outrora cantava / Hoje são gritos de guerra / Contra o massacre imundo
(POTIGUARA, 2004 p. 34-35).

O índio de Potiguara está fraco (Jurupiranga), mas é também um guerreiro nobre e está em vias de despertar, se levantar e voltar a usar as tintas de sua tradição, em consonância com a modernidade.

Então tomaremos o mel da manhã, / Pra que todos os antepassados renasçam / E olharemos pro céu do amanhã / Pra que nossos filhos se elevem / E beberemos a água do carimã / Pra suportar a dor da Nação acabada /
E os POTIGUARAS, comedores de camarão / Que HOJE – carentes / Nos recomendarão a Tupã / E te darão o anel do guerreiro – parceiro. / E a mim? / Me darão a honra do Nome / A ESPERANÇA – meu homem! / De uma pátria sem fim
” (IBIDEM, p. 138-139).

As mulheres nas obras das duas autoras podem ser empurradas e sofrerem pelas circunstâncias, mas são fortes e questionam o mundo que as cerca. Ela salva o homem em quase todas as obras, mesmo que seja uma salvação simbólica, pequena, como a avó que opta por ficar para trás num período de guerra, mesmo sabendo que ia morrer, para procurar seu netinho (Zitkala-Ša), ou Cunhataí, que faz Jurupiranga renascer, na obra de Potiguara.

As personagens femininas são fortemente retratadas dentro das obras das duas autoras, sejam elas o eu narrador autobiográfico, as parentes, como a mãe (no caso de Zitkala-Ša) ou a avó, no caso de Potiguara, ou personagens fictícias. Ambas autoras enfatizam o choque das culturas, mas apostam na sua resolução de maneira menos invasiva e violenta. O homem indígena não é superior ou inferior à mulher, mas reforça sua identidade (no caso de Potiguara) ou é fonte nobre e inspiradora de ação independente por parte da mulher (no caso de Zitkala-Ša).

5 – Considerações finais

As duas autoras misturam de forma vivaz a ficção, a escrita jornalística de informação com relação à situação indígena, poesia e narração com moldes na oralidade indígena, oferecendo uma hibridez e resistência tendo como uso a linguagem dominante subvertida. Ambas buscaram por caminhos às vezes diferentes, e muitas vezes conflitantes, pela diferença de cultura e por seu objetivo final com relação aos leitores, mas muitas vezes similares, mostrar aspectos desconhecidos e calados dos sentimentos e angústias vividas pela mulher indígena diante de uma sociedade opressora. A principal diferença nas formas está na denúncia direta por parte de Potiguara, com nomes e situações históricas comprovadas e claras contra o modo velado de Zitkala-Ša aludir a situações como as marchas forçadas, o massacre de índios em Wounded Knee e às guerras, com outros assuntos explorados de forma mais dramática, como o tratamento cruel recebido nos internatos.

As duas também fazem uma retomada dos mitos e tradições para esclarecerem às outras etnias e lembrarem os próprios indígenas de seu passado. Potiguara mistura a escrita acadêmica e sócio-histórica, com poesias que discutem a posição da mulher e do índio na sociedade e perante si mesmo, além da escrita autobiográfica, enquanto Zitkala-Ša recupera as histórias e a oralidade de seu povo, que ouvia quando criança, apostando na captura do leitor através da identificação do mesmo com o sofrimento e a bravura das personagensa, além de narrativa ficcional e também escrita autobiográfica.

Eliane Potiguara e Zitkala-Ša partiram de uma realidade até certo ponto parecida, mas não totalmente igual: os índios americanos nos século XIX não eram considerados cidadãos, não tinham direito a voto e muito menos representatividade política. Eram exterminados por doenças e pela fome, por marchas forçadas, por guerras e ataques do exército, além de estarem circunscritos ao bel prazer do governo em reservas, onde recebiam parcas rações de subsistência. Enquanto isso, os índios brasileiros passam por lutas parecidas com relação ao preconceito, à luta pela demarcação de suas terras, e a ONU, entre outros órgãos mundiais procuram garantir sua liberdade e tratamento humano, mesmo que essa não seja uma realidade. As duas autoras não deixaram que a ânsia e a necessidade de dizerem suas identidades ou a identidade da mulher indígena fosse maior que a forma de talento literário que se apresenta em suas obras, mas procuraram negociações de suas identidades, de forma que pudessem viver em um mundo de culturas e corpos híbridos sem caírem no identitarismo vazio.

Referências Bibliográficas
ASHCROFT, Bill. Post-colonial transformation. London and New York: Routledge, 2002.
HALL, Stuart. Identidade cultural na pós-modernidade. Tradução: Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. 7. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2002.
LISA, Laurie. The life story of Zitkala-Ša: Gertrude Simmons Bonnin: writing and creating a public image. 227 p. Dissertation of requirement for the Degree Doctor of Philosophy. USA: Arizona State University. may 1996.
POTIGUARA, Eliane. Metade Cara, Metade Máscara. São Paulo: Global, 2004
TRINH, T. Minh-ha. Woman, Native, Other: Writing Postcoloniality and Feminism. Bloomington and Indianapolis: Indiana University Press, 1989.
ZITKALA-ŠA. American Indian Stories, legends and other writing. (with introduction and notes by DAVIDSON, Cathy and NORRIS, Ada). USA: Penguin Classics, 2003.
______. Dreams and Thunder: Stories, Poems, and The Sun Dance Opera: Introduction by Jane Hafen. Lincoln: University of Nebraska, 2001.

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Sobre as autoras neste blog
Zitkala-Sa
http://singrandohorizontes.blogspot.com/2008/07/zitkala-sa-1876-1938.html

Eliane Potiguara
http://singrandohorizontes.blogspot.com/2008/03/eliane-potiguara.html
http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/04/eliane-potiguara-mulher-que-despertou.html
http://singrandohorizontes.blogspot.com/2008/03/eliane-potiguara-cunhata-menina-sagrada.html
http://singrandohorizontes.blogspot.com/2008/03/eliane-potiguara-em-memria-ao-ndio.html
http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/10/eliane-potiguara-fortalecendo-nossos.html
http://singrandohorizontes.blogspot.com/2008/03/eliane-potiguara-literatura-indgena.html
http://singrandohorizontes.blogspot.com/2008/03/eliane-potiguara-orao-pela-libertao-dos.html

Fonte:
II Seminário Nacional em Estudos da Linguagem: Diversidade, Ensino e Linguagem UNIOESTE – Cascavel, 06 a 08 de outubro de 2010

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Carlos Drummond de Andrade (Adeus a Sete Quedas )

Sete damas por mim passaram,
E todas sete me beijaram.
Alphonsus de Guimaraens

Aqui outrora retumbaram hinos.
Raimundo Correia

Sete quedas por mim passaram,
e todas sete se esvaíram.
Cessa o estrondo das cachoeiras, e com ele
a memória dos índios, pulverizada,
já não desperta o mínimo arrepio.
Aos mortos espanhóis, aos mortos bandeirantes,
aos apagados fogos
de Ciudad Real de Guaira vão juntar-se
os sete fantasmas das águas assassinadas
por mão do homem, dono do planeta.

Aqui outrora retumbaram vozes
da natureza imaginosa, fértil
em teatrais encenações de sonhos
aos homens ofertadas sem contrato.
Uma beleza-em-si, fantástico desenho
corporizado em cachões e bulcões de aéreo contorno
mostrava-se, despia-se, doava-se
em livre coito à humana vista extasiada.
Toda a arquitetura, toda a engenharia
de remotos egípcios e assírios
em vão ousaria criar tal monumento.

E desfaz-se
por ingrata intervenção de tecnocratas.
Aqui sete visões, sete esculturas
de líquido perfil
dissolvem-se entre cálculos computadorizados
de um país que vai deixando de ser humano
para tornar-se empresa gélida, mais nada.

Faz-se do movimento uma represa,
da agitação faz-se um silêncio
empresarial, de hidrelétrico projeto.
Vamos oferecer todo o conforto
que luz e força tarifadas geram
à custa de outro bem que não tem preço
nem resgate, empobrecendo a vida
na feroz ilusão de enriquecê-la.
Sete boiadas de água, sete touros brancos,
de bilhões de touros brancos integrados,
afundam-se em lagoa, e no vazio
que forma alguma ocupará, que resta
senão da natureza a dor sem gesto,
a calada censura
e a maldição que o tempo irá trazendo?

Vinde povos estranhos, vinde irmãos
brasileiros de todos os semblantes,
vinde ver e guardar
não mais a obra de arte natural
hoje cartão-postal a cores, melancólico,
mas seu espectro ainda rorejante
de irisadas pérolas de espuma e raiva,
passando, circunvoando,
entre pontes pênseis destruídas
e o inútil pranto das coisas,
sem acordar nenhum remorso,
nenhuma culpa ardente e confessada.
(“Assumimos a responsabilidade!
Estamos construindo o Brasil grande!”)
E patati patati patatá…

Sete quedas por nós passaram,
e não soubemos, ah, não soubemos amá-las,
e todas sete foram mortas,
e todas sete somem no ar,
sete fantasmas, sete crimes
dos vivos golpeando a vida
que nunca mais renascerá.

Fonte:
ANDRADE, Carlos Drummond. Jornal do Brasil, Caderno B, 09 de setembro de 1982

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Maria Rosa Moreira Lima (A Lenda dos Tatus Brancos)

A lenda dos tatus brancos, na opinião de Afonso Arinos, pertence ao folclore paulista e teve início da seguinte maneira:

Alguns bandeirantes audaciosos, buscando novos descobrimentos acompanhavam o traçado do rio Tietê e depois de longa jornada resolveram adentrar a mata bravia. Caminharam dias seguidos quando lhes veio a idéia de procurar ouro e pedras preciosas. Dirigiram-se, então, para as terras das Minas Gerais. Desta maneira chegaram a um local desconhecido, onde os campos ficavam perto de cavernas e furnas imensas, escuras, tenebrosas. Apesar do local agreste, as tendas foram armadas para repouso merecido. Acocorados em torno do lume, saboreando alguma bebida, os viajantes escutavam as mais curiosas e absurdas histórias contadas pelos caboclos nativos embora, ao mesmo tempo, insistissem para que levantassem acampamento o quanto antes pelo fato daquela região ser dominada por uma espécie de índios conhecidos como tatus brancos, habitantes das cavernas adjacentes e, enxergando tão bem dentro da escuridão como se tivessem olhos de coruja. Além desta qualidade excepcional, havia uma outra e esta verdadeiramente de apavorar pois as citadas criaturas davam um valor inestimável à carne humana, preferindo-a mesmo a qualquer caça ao alcance de suas flechas. Além da predileção absurda, tinham um faro especial sentiam o cheiro do alimento favorito, logo se aprestavam para caçá-lo.

O chefe paulista, sendo o mais interessado nos relatos concernentes à sanha antropófaga dos vampiros da tribo dos tatus brancos, prometeu a si mesmo desvendar o mistério. Daí não querer escutar os conselhos do mais experimentado caboclo, cujas palavras eram endossadas pelos outros guias também confirmando casos de pessoas sumidas, provavelmente levadas para as vastidões sombrias e jamais tornaram a aparecer. Mesmo assim, o moço insistia em ficar no local, dizendo somente partir depois de certificar-se quanto à veracidade das histórias contadas por aqueles homens que, embora reconhecidamente valentes, manifestavam grande pavor ao ouvir o menor ruído. Audacioso, o chefe da expedição sozinho começou investigando e, para isso penetrava nas furnas mais tenebrosas, examinando rastros, atento ao mais insignificante rumor.

Certa noite de escuridão cerrada, a tropa descansava numa clareira. O silêncio era profundo, perturbado apenas pelo bater de asas de algum pássaro retardatário buscando o aconchego do ninho. Pouco a pouco os homens foram percebendo um clamor estranho. Eram muitas vozes juntas, inicialmente confusas pela distância mas, aproximando-se rapidamente, enquanto um tropel diferente como se incalculável quantidade de animais pequeninos corressem desenfreados pelas quebradas em direção ao acampamento e, suas vozes, foram discernidas à medida que se aproximavam. Os componentes do grupo paulista puseram-se de sobreaviso com as armas engatilhadas. Súbito, uma horda de pigmeus, saindo da escuridão, iniciou o ataque. O imprevisto do acontecimento impossibilitou uma defensiva eficiente.

Mesmo assim a luta foi renhida mas rápida. Era a força dos homens grandes contra a astúcia e agilidade assombrosa dos assaltantes. Os pequenos seres arrastavam para as trevas os corpos dilacerados e sem vida dos vencidos inclusive os agonizantes e, nem escapou ao massacre o chefe da escolta. Este, ferido levemente, em companhia dos subalternos foi levado para uma das cavernas dos agressores. Mas aconteceu o seguinte: A princesa da tribo já vira o moço paulista e por ele se apaixonara, propiciando-lhe este fato, o direito de dispor da vida do prisioneiro.

No âmago da caverna o valente bandeirante passa algum tempo desacordado e quando recupera os sentidos vê, junto de si, um pequeno vulto de mulher. Quando seus olhos vão se acostumando às trevas nota e com horror o restante dos companheiros devorados pela horda sinistra que, comemorando a vitória dançavam satisfeitos dando por terminado o banquete macabro. Naquele antro escuro, o detido permaneceu por muito tempo sempre vigiado pela jovem apaixonada. Certa noite a malta assassina parte para os cerrados buscando alimento humano. Aproveitando a oportunidade, o moço deixa-se envolver pela turba apressada dos pigmeus e, sem ser notado, consegue sair também das cavernas mas, sempre vigiado pela amorosa companheira. Enfraquecido, não consegue chegar a saída da gruta e, exausto pela falta de alimentação, sentindo-se desfalecer, faz um sinal para descansar. Deitam-se no chão. Ele apesar de tudo, alimentando a esperança de alcançar a liberdade, finge adormecer, enquanto a jovem a seu lado, é, na verdade dominada pelo sono. Disfarçadamente o prisioneiro atento, aguarda o nascer do sol para ver onde se encontrava e quando os clarões da madrugada iluminaram a terra, levanta-se com muito cuidado e tenta fugir. No mesmo instante a moça acorda e, mal desperta, atordoada com a claridade, num esforço tenta arrastar o homem para o negrume da caverna. E naquele momento de aflição ele conseguiu observá-la. Era uma pequenina mulher e como os seus irmãos, mal atingindo a metade da altura de um homem de baixa estatura, pele clara de quem nunca sentiu os raios solares, os cabelos longos de um louro sem vida. Quanto aos olhos eram de um azul esbranquiçado e ela gemendo procurava conservá-los fechados ou protegê-los da claridade com uma das mãos, enquanto com a outra buscava o companheiro, desta maneira caminhando às tontas como se fosse inteiramente cega. O moço desvencilhando-se da criatura que fazia ingentes esforços para detê-lo, foge em desabalada carreira, daquele local maldito dominado pela tribo dos tatus brancos, considerados os mais ferozes canibais que infestavam aquela região do ouro.

Fonte
LIMA, Maria Rosa Moreira. A lenda dos tatus brancos. Diário de São Paulo, São Paulo, 09 de agosto de 1975.

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Solano Trindade (Antologia Poética)

POEMA AUTOBIOGRÁFICO

Quando eu nasci,
Meu pai batia sola,
Minha mana pisava milho no pilão,
Para o angu das manhãs…
Portanto eu venho da massa,
Eu sou um trabalhador…

Ouvi o ritmo das máquinas,
E o borbulhar das caldeiras…
Obedeci ao chamado das sirenes…
Morei num mucambo do “”Bode””,
E hoje moro num barraco na Saúde…

Não mudei nada…

CANTA AMÉRICA

Não o canto de mentira e falsidade
que a ilusão ariana
cantou para o mundo
na conquista do ouro
nem o canto da supremacia dos derramadores de sangue
das utópicas novas ordens
de napoleônicas conquistas
mas o canto da liberdade dos povos
e do direito do trabalhador…

CONVERSA

– Eita negro!
quem foi que disse
que a gente não é gente?
quem foi esse demente,
se tem olhos não vê…

– Que foi que fizeste mano
pra tanto falar assim?
– Plantei os canaviais do nordeste

– E tu, mano, o que fizeste?
Eu plantei algodão
nos campos do sul
pros homens de sangue azul
que pagavam o meu trabalho
com surra de cipó-pau.

– Basta, mano,
pra eu não chorar,
E tu, Ana,
Conta-me tua vida,
Na senzala, no terreiro

– Eu…
cantei embolada,
pra sinhá dormir,
fiz tranças nela,
pra sinhá sair,

tomando cachaça,
servi de amor,
dancei no terreiro,
pra sinhozinho,
apanhei surras grandes,
sem mal eu fazer.

Eita! quanta coisa
tu tens pra contar…
não conta mais nada,
pra eu não chorar –

E tu, Manoel,
que andaste a fazer
– Eu sempre fui malandro
Ó tia Maria,
gostava de terreiro,
como ninguém,
subi para o morro,
fiz sambas bonitos,
conquistei as mulatas
bonitas de lá…

Eita negro!
– Quem foi que disse
que a gente não é gente?
Quem foi esse demente,
se tem olhos não vê.

EU GOSTO DE LER GOSTANDO

Eu gosto de ler gostando,
gozando a poesia,
como se ela fosse
uma boa camarada,
dessas que beijam a gente
gostando de ser beijada.

Eu gosto de ler gostando
gozando assim o poema,
como se ele fosse
boca de mulher pura
simples boa libertada
boca de mulher que pensa…
dessas que a gente gosta
gostando de ser gostada.

NEGRA BONITA

Negra bonita de vestido azul e branco
Sentada num banco de segunda de trem
Negra bonita o que é que você tem?
Com a cara tão triste não sorri pra ninguém?
Negra bonita
É seu amor que não veio
Quem sabe se ainda vem
Quem sabe perdeu o trem
Negra bonita não fique triste não
Se seu amor não vier
Quem sabe se outro vem
Quando se perde um amor Logo se encontra cem
Você uma negra bonita Logo encontra outro bem.
Quem sabe se eu sirvo
Para ser o seu amor
Salvo se você não gosta
De gente da sua cor
Mas se gosta eu sou o tal
Que não perde pra ninguém
Sou o tipo ideal
Pra quem ficou sem o bem…

REFLEXÃO

Vieste acender o meu fogo poético,
E minh’alma se abriu pras grandes festas,
A música dos teus poemas,
Faz-me dançar o bailado, Da primeira mocidade…
Eu sinto vontade de não ser sexo,
Para brincar contigo como criança,
E brincar de cirandinha com tu’alma.
Mas como sou sexo, Vou assistir um espetáculo humano;
A confecção de bandeiras iguais,
Para seres que parecem diferentes.

POEMA DO HOMEM

Desci à praia
Para ver o homem do mar,
E vi que o homem
É maior que o mar

Subi ao monte
Pra ver o homem da terra,
E vi que o homem
É maior que a terra

Olhei para cima
Para ver o homem do céu,
E vi que o homem
É maior que o céu.

O CANTO DA LIBERDADE

Ouço um novo canto,
Que sai da boca,
de todas as raças,
Com infinidade de ritmos…
Canto que faz dançar,
Todos os corpos,
De formas,
E coloridos diferentes…
Canto que faz vibrar,
Todas as almas,
De crenças,
E idealismos desiguais…
É o canto da liberdade,
Que está penetrando,
Em todos os ouvidos…

MEU CANTO DE GUERRA

Eu canto na guerra,
Como cantei na paz,
Pois o meu poema
É Universal.
É o homem que sofre,
O homem que geme,
É o lamento
Do povo oprimido,
Da gente sem pão…
É o gemido
De todas as raças,
De todos os homens.
É o poema
da multidão!

ABOLIÇÃO NÚMERO DOIS

Parem com estes batuques,
Bombos e caracaxás,
Parem com estes ritmos tristes e sensuais

Deixem que eu ouça
Que eu veja
Que eu sinta
O grito
A cor
E a forma
da minha libertação…

QUEM TÁ GEMENDO?

Quem tá gemendo,
Negro ou carro de boi?
Carro de boi geme quando quer,
Negro, não,
Negro geme porque apanha,
Apanha pra não gemer…

Gemido de negro é cantiga,
Gemido de negro é poema…

Gemem na minh’alma,
A alma do Congo,
Da Niger, da Guiné,
De toda África enfim…
A alma da América…
A alma Universal…

Quem tá gemendo,
negro ou carro de boi?
————————–
mais poesias de Solano em http://singrandohorizontes.blogspot.com/2008/11/solano-trindade-1908-1974-poesias.html
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Ricardo Faria (Um Poeta chamado Solano Trindade)

Tempos de Teatro de Arena, Redondo, TBC, TAIB, do Teatro das Nações, inaugurado com uma ópera para mais de mil pessoas vestidas a rigor.

A gente se reunia no Ponto de Encontro, uma livraria no subsolo da Galeria Metrópole, em frente à Praça da Biblioteca, na então Paulicéia Desvairada dos anos sessenta. Que bom ter conhecido tantas pessoas especiais.

Aquele negrão era cativante, mais ainda quando declamava e se repartia.

Solano Trindade, pernambucano de Recife, filho do sapateiro Manuel Abílio e da quituteira Emerenciana, cresceu dançando o Pastoril e Bumba-meu-boi. Participou dos Congressos Afros dos anos trinta, especialmente quando Gilberto Freyre lança seu Casa Grande & Senzala.

Em 1936, Solano funda o Centro Cultural Afro-Brasileiro e a Frente Negra Pernambucana, uma extensão da Frente Negra Brasileira. Publica os seus Poemas Negros. Inquieto, viaja para Minas Gerais e depois para o Rio Grande do Sul, onde cria, em Pelotas, um Grupo de Arte Popular.

Aquele homem de andar manso, cabeça cheia de planos e energia inabalável foi depois para o Rio de Janeiro. Em 1944 publicou o livro Poemas de uma Vida Simples. Em 1945, junto com Abdias Nascimento, criou o Comitê Democrático Afro-Brasileiro.

Com Haroldo Costa fundou o Teatro Folclórico. Atuou em filmes como A hora e a vez de Augusto Matraga e O Santo Milagroso.

Na cidade maravilhosa, Solano gostava do Café Vermelhinho freqüentado por intelectuais, políticos, jornalistas, escritores e atores teatrais. Era amigo de pessoas como o Barão de Itararé e Santa Rosa.

Solano filiou-se ao Partido Comunista, as reuniões da Célula Tiradentes ocorriam na sua residência e, durante a perseguição aos comunistas, empreendida pelo governo Dutra, entram em sua casa. Seu filho, Liberto, está deitado, doente. A polícia vira o colchão, à procura de armas. Exemplares de seus livros são apreendidos.

A filha Raquel lembra: “Papai jamais esconderia armas. Sua luta era feita com idéias”. Preso, não se abala. Raquel e a mãe, Margarida, percorrem as cadeias até encontrá-lo.

Quando sai, Solano parece fortalecido. Embora com os olhos tristonhos, seu otimismo é contagiante, nasce do seu amor pela arte e pela vida. Continua escrevendo, fazendo teatro e espalhando sonhos e esperanças por onde passa.

Preocupava-se com o que chamava de folclore, com as danças populares. Dizia ser necessário pesquisar nas fontes de origem e devolver ao povo em forma de arte. Sua experiência mais bem sucedida neste sentido foi o Teatro Popular Brasileiro, criado por ele, por sua esposa Margarida Trindade e pelo sociólogo Édison Carneiro em 1950

Com Haroldo Costa fundou o Teatro Folclórico. Atuou em filmes como A hora e a vez de Augusto Matraga e O Santo Milagroso.

Na cidade maravilhosa, Solano era freqüentador do Café Vermelhinho, onde se reuniam intelectuais, políticos, jornalistas, escritores e artistas de teatro. Ali era amigo de pessoas como o Barão de Itararé e Santa Rosa.

O Embu é um agradável município distante cerca de uma hora do centro de São Paulo. Embora tão próxima à metrópole, a cidade guarda um clima bucólico, aconchegante.

Quem chega no Embu aos domingos, quando é grande o movimento de turistas, não imagina estar diante da concretização do sonho de artistas negros, dentre eles o poeta Solano Trindade, pesquisador das nossas tradições populares, teatrólogo, pintor e boêmio; um ser humano de grande carisma e visão, para quem a arte representava parte essencial da vida.

Solano vem a São Paulo e é convidado pelo escultor Assis para apresentar-se no Embu e leva o seu grupo. Dormem no barracão de Assis nos finais de semana, quando mostram sua arte para um número cada vez maior de pessoas. Participam da peça “Gimba”, de Gianfrancesco Guarnieri. Em 1967, apresentam-se para um dos criadores da Negritude: Leopold Senghor.

Solano apaixona-se pelo Embu, muda-se para lá e sua casa torna-se uma núcleo artístico. Na cidade já havia um movimento com artistas como Sakai e Azteca, mas a atividade de Solano e Assis faz surgir a feira de artesanato e revoluciona o local, aumentando o fluxo turístico.

Solano chegou a ser conhecido como “o patriarca do Embu”. A casa e o coração de Solano estavam sempre prontos para receber, na panela, havia comida para quem chegasse a qualquer hora.

Ironicamente, no final da vida, vários desses amigos se afastaram, mas talvez este seja o cruel destino dos grandes criadores, de profetas e poetas assinalados. A poesia de Solano o marcou. Orgulhava-se ser chamado de “poeta negro”; – “Sou negro, meus avós foram queimados pelo sol da África minh’alma recebeu o batismo dos tambores atabaques, gonguês e agogôs.”

Casou-se três vezes e teve quatro filhos. Raquel Trindade, que hoje continua o trabalho do pai, no Embu, descreve-o: “Existem artistas que aparentam ser uma coisa e, no fundo, são outra. Papai mostrava-se como era, um pai fantástico”.

Último ato: esse poeta dava-se completamente à arte e à vida sem se importar com bens materiais, ainda que seu trabalho tenha favorecido a muitos. A partir de 1970, sua saúde começou a apresentar problemas. Morreu no Rio de Janeiro, em 1974.

Em 1976, voltou aos braços do povo como tema da escola de samba Vai-Vai, com enredo elaborado por sua filha Raquel. Os versos do samba de Geraldo Filme ainda ecoam: “Canta meu povo, vamos cantar em homenagem ao poeta popular Vai-Vai é povo, está na rua saudoso poeta, a noite é sua.”

Palavras escritas num poema à filha Raquel se tornam proféticas: “Estou conservado no ritmo do meu povo Me tornei cantiga determinadamente, nunca terei tempo para morrer.”

Um de seus trabalhos mais famosos, intitulado “Tem gente com fome”, foi musicado e gravado por Nei Matogrosso: Trem sujo da Leopoldina correndo, correndo, parece dizer tem gente com fome, tem gente com fome, tem gente com fome. O ritmo é o de um trem em movimento. No final, quando vai parando, a voz ouvida pelo poeta exige: se tem gente com fome, dá de comer. Solano também cantou continuamente o amor. – Fonte Márcio Barbosa

Em tempos de Beto Carneiro, o Vampiro Brasileiro, e Emílio Surita com seu Pânico na TV, vale a pena homenagear Solano Trindade:

Tem gente com Fome

Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Piiiiii

Estação de Caxias
de novo a dizer
de novo a correr
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Vigário Geral
Lucas
Cordovil
Brás de Pina
Penha Circular
Estação da Penha
Olaria
Ramos
Bom Sucesso
Carlos Chagas
Triagem, Mauá
trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Tantas caras tristes
querendo chegar
em algum destino
em algum lugar

Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Só nas estações
quando vai parando
lentamente começa a dizer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer

Mas o freio de ar
todo autoritário
manda o trem calar
Psiuuuuuuuuuuu

Fonte:
Revista Entrementes

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