Francisco José Pereira (A Velha Senhora e seus Cachorros)

A velha senhora vivia só, preferira assim.

Quando ficou viúva, suas duas filhas propuseram levá-la. Ela não quis. – Assim sozinha e tão longe, mamãe – ponderaram, inutilmente.

Embora não fosse necessário, e tampouco elas houvesses pedido, a velha senhora justificou-se. Alegou razões conhecidas, atribuindo-lhes caráter de irreversibilidade. Assim, as filhas poderiam sentir-se consoladas ou redimidas. Disse-lhes:

– Casei aqui, nesta casa que ele mesmo construiu. Vocês nasceram aqui, viveram aqui e também casaram aqui. Ele morreu aqui. E eu vou morrer aqui.
– Ô mãe, que bobagem, – em uníssono. Sem que pudessem dissimular um certo tom de conforto.

Uma eternidade parecia separá-la das meiguices de suas meninas. Elas cresceram e foram perdendo aquela ternura. Ele acompanhara esse lento e natural distanciamento delas, e lamentava. Ela também acompanhara, mas sem lamentar. Afinal a vida é mesmo assim, fora assim também com ela, bifurcando-se igualmente lenta e definitiva. Elas casaram e procriaram com genros chatos. Ele os estima, ela não – e com razão. Por onde, afinal, andavam durante o calvário da penosa enfermidade que terminou por matá-lo? Só ela, solitária, estivera ali, na hora de fechar-lhe os olhos. Depois vestiram lutos, todos. Os netinhos inclusive, com tarjeta preta na manga da camisa curta. Coitados, três pequenos idiotas.

As filhas a visitavam com alguma frequência e traziam os netos que cresciam sem que ela se desse conta. E tampouco se deu conta de como as visitas das filhas, com o tempo, se tornaram cada vez menos frequentes e, agora, já muito raras. Raras mesmo.

Mas havia seus cachorros.

Ela sempre os tivera, dividindo com ele um igual carinho pelos bichos. Foram vários. Agora restavam apenas esses dois, que haviam chorado com ela a morte dele: o mais velho, Zimbo, tão velho quanto ela – exagerava, obviamente- e o Xapado, que chegou bem depois, à época em que surgira a enfermidade dele, e fora ele quem o trouxera e lhe dera o nome.

A velha senhora passava parte dos dias falando com seus cachorros. Não só porque carecesse de gente com quem falar – o que era um fato – mas porque eles a entendiam e compartilhavam seus pesares e sua solidão.

Há muitos séculos, aliás, que humanos e cães partilham seus alimentos, suas moradais e suas vidas. Neste planeta fortuito,entre outras formas de vida que nos circundam,nenhuma – exceto o cão – tem feito aliança conosco.

Após o café matinal, a velha senhora seguia sua antiga rotina de afazeres domésticos que, há muito sozinha, já se reduzido a quase nada. Ocupava-se também de pequena horta, com o mesmo desvelo dele, e preparava sem prazer o parco almoço.

Nas tardes longas e ociosas, senta-se no degrau mais alto da escada lateral, que dá acesso à sala, toma Zimbo no colo, com o Xapado sentado no degrau abaixo, e os faz confidentes de infindáveis revelações de seu tempo de menina, de sua adolescência, e sobretudo de sua vida feliz junto a ele.

Nessas ocasiões, como acontece também com a gente, Zimbo se deixa envolver pelo hipnótico som da velha senhora, cochila e dorme. Desperta minutos depois, apruma-se com olhos de espanto, sacode repentinamente a cabeça num eficaz esforço para afastar o sono, e não cochila mais. Xapado, este sempre desligado, logo estendia suas pernas traseiras e dormia a sono solto.

Vencidas as longas tardes, segue-se repetitivo ritual. A velha senhora se levanta, beija Zimbo, acaricia Xapado e os afugenta com delicadeza para os fundos do quintal. Ambos obedecem, caminhando a passos lentos e em silêncio, com as compridas e úmidas línguas lambendo seus gelados focinhos – um antigo e atávico cacoete.

Há dias em que Zimbo sente vontade de alertar Xapado para a recente tristeza da velha senhora. Esta tristeza, preocupava Zimbo, não era como as outras tristezas, tão antigas e conhecidas desde a morte dele. Essa nova tristeza era uma tristeza que lhe reduzia o cheiro. E isso, Zimbo sabia, não era boa coisa. Mas não dissera nada ao Xapado, porque este – desde pequeno – se revelara um cachorro retardado ou de poucos ouvidos.

Em verdade, essa tristeza que preocupava Zimbo tomara forma quando a velha senhora, há algum tempo já, percebera, acabrunhada, uma insuportável fadiga que – ela se convencera – iria prostrá-la definitivamente. E, desde então, um sentimento de que sua vida se tornara inútil instalara-se dolorosamente em seu coração. Após anos de tantas ausências a velha senhora finalmente sucumbia à sua imensa solidão.

Suas pernas já nem sempre lhe obedeciam, seguindo, cansadas, direção que ela não pretendia. Os pulmões respirando menos ajudavam menos, quando as pernas cansavam. A cabeça insistia em se esquecer, só tendo lembranças muito antigas. Espantou-se, por fim, quando a cabeça embaralhou dia e mês da morte dele. E, então, se horrorizou no limite do desespero, temendo que viesse a esquecer-se de si mesma. Foi quando decidiu não esperar mais pela morte que se tardava tanto, e começou a organizar sua morte com pungentes cuidados.

Utilizaria o veneno que ele trouxera para ser usado quando o suplício da dor lhe fosse insuportável. Tinha efeitos semelhantes ao arsênico, dissera, e a ensinou como preparar a dose que ela deveria servir a ele. O suplício dele se estendeu e a dor o matava lentamente, mas ela não teve coragem. Ele morreu, já sem dor, agradecendo o gesto dela.

Pensou, sem mágoas, em suas filhas que não apareciam. E resolveu, aflita, não abandonar os cachorros, temendo que eles fossem recolhidos por mãos malvadas. Havia suficiente veneno para os três.

Na véspera, à noite, ela preparou meticulosamente e com estranha frieza – da qual, aliás, já não tinha consciência – doses adequadas de veneno. Não havia nela qualquer outra emoção, senão a de concluir, com isenção, esses ritos finais.

Desde o quintal, chegavam uivos que – também à véspera – haviam anunciado a morte dele. Como soubera Zimbo? E como soube agora, se ela apenas pensara sozinha? E tem gente que não crê na percepção sensorial dos cachorros! – exclamou baixinho. Ou, quem sabe, é a morte que lhes avisa? – indagou-se ainda, já muito abalada. E dormiu tarde.

Despertou cedo. Com o café, comeu mais torradas do que normalmente comia, pois com o estômago vazio – acreditava assim – a dor do veneno seria maior. Tomaria cuidados iguais com os cachorros.

No quintal, Zimbo se movia em pequenos círculos sem parar, num verdadeiro desassossego. Xapado, distante dele, arrastava as patas na vegetação rala, buscando, paciente, algo que só ele aparentemente sabia.

Serviu-lhes a ração, como fazia a cada manhã; desta vez, porém, em quantidade excessiva. Zimbo comeu lenta e passivamente, como se já houvesse esquecido seus premonitórios uivos. Xapado, como sempre, digeriu vorazmente sua ração.

Após, como também era costume, estendeu-lhes as pequenas tinas com água – agora com o veneno dissolvido em ambas. Zimbo fixou seus olhos remelentos nos olhos exauridos da velha senhra, lambeu-lhe os pés, que já haviam perdido o antigo cheiro, bebeu a água envenenada de sua tina, e toda a água da tina do Xapado – antes que este a bebesse.

A velha senhora perturbou-se e, sem ânimo para entender o incidente, voltou à cozinha, encheu a tina de água com nova dose de veneno e depositou-a na frente de Xapado, que se deteve confuso. Zimbo, com seus movimentos já muito afetados pela ação do veneno que agia rápido, ainda teve forças para impulsionar as patas dianteiras e derramar, novamente, a água da tina do Xapado.

Só então a velha senhroa percebeu nos olhos moribundos de Zimbo sua derradeira súplica pela vida de Xapado. Não teve tempo sequer de afagá-lo, Zimbo não se movia mais.

Com a alma esvaindo-se, a velha senhora retornou a casa. Esqueceu-se de fechar a porta e de se banhar, como pretendera. Sentiu-se aliviada, enquanto sorvia o veneno no copo, escutando, lá fora, latidos alegres do Xapado provocados pelo prazer da barriga cheia.

Fonte:
PEREIRA, Francisco José. Contos Completos. Florianópolis: Garapuvu, 2006. Disponível em http://grandesautorescatarinas.blogspot.com/

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Arquivado em O Escritor com a Palavra, Santa Catarina

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