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Alonso Rocha, IV Príncipe dos Poetas do Pará falece em 22 de Fevereiro de 2011

Se tivessemos o poder de prolongar a vida do corpo físico de quem quisessemos, Alonso Rocha certamente estaria entre os nomes que desejamos. Mas, somos mortais, e assim mesmo, quando nos encantamos com versos tão soberbos como os de Alonso, mesmo que não presente em corpo físico, seu espírito estará sempre imortal dentro de nós. Este poeta-trovador se indagava em sua trova:

Sem resposta que conforte,
dúvida imensa me corta:
Qual o segredo da morte?
Fim? Partida? Porto? Porta?

Fim? Não existe fim para alguém que escreve versos tão sublimes. Serás sempre imortal.
Partida? Apenas deste plano físico, pois onde vais é apenas o repouso merecido pelo que fez.
Porto? Voce, caro poeta, era o porto de nossas almas, de nossas emoções.
Porta? Para ti, uma porta em direção a um andar superior onde observarás a nós que o reverenciamos, e que perpetuaremos seus versos e sua pessoa.

Eu te saudo pelo legado que nos deixou. Salve, Alonso Rocha!
(José Feldman)

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Alonso Rocha (Livro de Poesias)

SONETO À LUA CHEIA

Lua de celofane – lua amarga,
a mensagem de amor que hoje me trazes
rasga no coração como tenazes,
essa dor que se alarga, que se alarga.

Lua de gesso estéril, em tua carga,
por não me decifrar, tu te comprazes,
em ver que eu sou, em tons tristes, lilases,
jogral de um circo azul, na noite larga.

De sofrer já cansei, mas dizes: – “Ama!”
e tua luz – espelho onde me encanto –
na ante-manhã deserta, se derrama.

Porém não creio mais no teu milagre;
– quem teve tanto amor, odeia tanto;
eu que fui vinho agora sou vinagre.

SONETO À MESMA FLOR

Quando moço roubei na madrugada
do seio de uma flor recém-aberta
uma gota de orvalho e como oferta
a deixei em teus lábios, abrigada.

Hoje, quando recordo (Oh! Doce Amada!)
esse tempo de arroubo e descoberta
uma saudade, trêmula, desperta
e vem sangrar-me com a sua espada.

Iguais a flor, também envelhecemos
mas ao despetalar ainda trazemos
almas unidas, mãos entrelaçadas,

porque do amor a essência mais preciosa
( assim como o perfume de uma rosa)
permanece nas pétalas secadas.

SONETO À JOVEM ESPOSA

Hoje eu te trago, em minhas mãos, guardada,
a gota d’água – a pérola serena –
que eu roubei de uma pálida açucena
recém-aberta pela madrugada.

Louco poeta que sou! (Oh! Doce Amada!)
Em trazer-te essa dádiva pequena.
Culpa as estrelas, culpa a cantilena
do vento. E em nossa alcova penumbrada

dormes. E nem percebes no teu sono
que em teus lábios, fechados, abandono
a lágrima de luz – um mundo pleno.

Não despertes, ririas certamente
se me visses beijando, ingenuamente,
tua boca molhada de sereno.

POEMA DO ULTIMO INSTANTE

( ao poeta José Guilherme, onde estiver)

.
Havia o sonhador
a mesa e os seus convivas.
O pão infermentado
fragmentado
e o vinho das angústias.
– Senhor! Afasta o cálice ( câncer sobre a carne)
e a cruz dos sem-perdão.
Deixa-me (ainda) repartir os peixes
e os lírios de teus campos
– dízimo deste encanto
lobo que me devora.
Atira sobre o poema o círculo perfeito
e os dados da palavra.
Derrama a chuva
tua lança e os teus cravos
na terra que semeio.
Assim falava o Poeta
enquanto o sol e outros deuses (os mortos esquecidos)
com essência de mirra em seus turíbulos
já perfumavam a pedra
– altar para o seu corpo.

MINHA PRECE
POR MEU FILHO NO DIA DA SUA MORTE
(… para Ronaldo Alonso)

Ele era um pássaro, Senhor,
cujas asas feriste antes do vôo.
Ele era fonte
e sufocaste o canto em sua garganta
e pouca além da lágrima e do riso
– como apelo ou mensagem –
lhe deixaste.
Ele era frágil, Senhor,
e lhe enevoaste o entendimento
e com agudos espinhos o pregaste
tantos anos no seu leito.
Até seus olhos, Senhor,
– inquietos peixinhos coloridos –
aprisionaste
no reduzido aquário do seu quarto.
Mas eu te louvo, Senhor,
por Tua bondade
quando lhe ensinaste a gritar a palavra “mãe”
– única de sua boca –
como sinal de angústia e como hino de amor.
Hoje, Dá-me a beber, Senhor,
o Vinho de Tua Paz
na mesma taça de fel e sofrimento
com que o premiaste,
para que eu possa de joelhos
celebrar contigo
um retorno de um anjo ao Teu reinado!

BREVE TEMPO

Se me queres amar ama-me nesta hora
enquanto fruto dando-te a semente.
Se te apraz me louvar louva-me agora
quando do teu louvor vivo carente.

Aprende a te doar antes que a aurora
mude nas cores cinza do poente.
Se precisas chorar debruça e chora
hoje que o meu regaço é doce e quente.

A vida é breve dança sobre arame.
Sorve teu cálice antes que derrame
ninho vazio que o vento derrubou.

Porque quando eu cair num dia incerto
parado o coração o olhar deserto
nem mesmo eu saberei que já não sou.

NO ESPELHO

Da armadura do medo me desnudo
o estandarte na mão, a flor no peito
e enfrento, temerário, o cristal vivo
de tua face – espelho onde me busco.

Sou dócil ao teu poder e mel e seiva
da boca se derramam em doce riso,
como a rasgar a carne me entretenho
para me alimentar de encantamento.

Entrego-te meu rosto e o desfiguras
e a máscara real pesada tomba
– envelhecido pó – na tua lâmina.

E na visão da imagem refletida
em desespero e espanto me descubro
na placenta da morte prisioneiro.

Fontes:
Portal dos Sonhos e das Poesias
http://www.sarahmrodrigues.com/luau/prece_alonso.htm
http://covadospoetas.blogspot.com/2011/02/alonso-rocha-o-principe-dos-poetas.html

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Alonso Rocha (1926 – 2011)

Nascido a 15 de dezembro de 1926, foi casado com Rita Ferreira Rocha e pai de cinco filhos: Sérgio Alonso (médico), Nelson Alonso (médico), Ângela Rosa (arquiteta), Geraldo Alonso engenheiro-elétrico e eletrônico) e Ronaldo Alonso (falecido em 1977). Filho do poeta Rocha Júnior e Adalgiza Guimarães Pinheiro Rocha. Faleceu em 22 de fevereiro de 2011.

É IV Príncipe dos Poetas do Pará, escolhido após consulta a um colégio eleitoral constituído de 200 personalidades integrantes dos círculos culturais, científicos e sociais do Estado, pessoas essas ligadas às artes e selecionadas por uma comissão especial formada pelos escritores Georgenor de Sousa Franco Filho, Pedro Tupinambá, Victor Tamer e Albelardo Santos. O resultado de votação através de voto assinado, foi apurado em sessão pública do dia 8 de outubro de 1987, tendo recebido sufrágios de 14 poetas residentes no Pará. Por maioria absoluta de votos (56,77%) do total, Alonso Rocha foi eleito, tendo recebido na sessão solene de 21 de julho de 1989 (sesquicentenário de Machado de Assis) a comenda de 35 gramas de ouro, oferecida pelo governo do Estado do Pará.

Na adolescência, em 1942, fundou a Academia dos Novos em companhia de Jurandyr Bezerra, Max Martins e Antônio Comaru Leal. Ao grupo vieram juntar-se jovens intelectuais da época, como Benedito Nunes, Haroldo Maranhão, Leonan Cruz, Raimundo Melo, Fernando Tasso de Campos Ribeiro, Arnaldo Duarte Cavalcante, Gelmirez Melo, Edmar Souza, Benedito Pádua, Otávio Blatter Pinho, Antero Soeiro, Eduálvaro Hass Gonçalves, Alberto Bordalo e Lúcia Clairefort Seguin Dias.

Seu livro de poesias Pelas Mãos do Vento, obteve os prêmios Vespasiano Ramos (1954) da Academia Paraense de Letras E Santa Helena magno (1955) do governo do Estado do Pará.

Raimundo Alonso Pinheiro Rocha ocupou a cadeira n° 32 da Academia Paraense de Letras, eleito em 22.11.96, em sucessão a Olavo Nunes e Bruno de Menezes, tendo como patrono o poeta Natividade Lima.

Participou da diretoria da Academia desde o ano de 1964, ininterruptamente, com mandato até 2.006.

Possui vários troféus, medalhas e diplomas, resultantes de certames poético como:
1º. Lugar no concurso promovido pelo jornal “A Província do Pará” e Prefeitura Municipal de Belém (1961),
2° Concurso do Norte e Nordeste de Poesia, patrocinado pelo jornal “Folha do Norte”, Palma de Ouro e Palma de Bronze,
no concurso Poetas do Mundo Lusíada da Academia de Poemas de Massachusetts (Estados Unidos da América -1987),
Medalha de Bronze, no concurso Evolução da Cultura Brasileira, na segunda metade do século XX,
do Cenáculo Brasileiro de Letras e Artes (Rio de Janeiro, 1933),
1º. Lugar, por unanimidade, do 1º. Concurso Nacional de Poesia do Clube dos Magistrados do Rio de Janeiro (1997) e
honrosas classificações em concurso de sonetos em Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de janeiro.

Foi presidente (4º. Mandato) da União Brasileira de Trovadores – seção Belém, tendo promovido em 1997 o I Jogos Florais de Belém, bem como o XIII Concurso nacional de Trovas no ano de 2.002/Belém-Pará.

A trova, forma poética que cultivou somente há pouco tempo, proporcionou a Alonso Rocha inúmeras vitórias em Jogos Florais e concursos pelo Brasil, notadamente no Pará, no Ceará, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Rio Grande do Norte e Rio Grande do Sul.

Como sonetista, foi apontado como um dos melhores dos últimos tempos e um dos maiores dos últimos 50 anos do Pará.

Malba Than, no livro A Lua (editora Luz, Rio, 1955) publica o seu soneto à Lua Cheia e o classifica como “autêntico príncipe da poesia contemporânea).

Alonso Rocha que, com muito encanto, declamou os seus trabalhos em festas literárias pelo Brasil, foi sócio-correspondente das:
Academia Norte Rio-Grande de Letras,
Academia Municipalista de Letras do Brasil,
Academia Sete-Lagoana de Letras,
Academia Eldoradense de Letras,
Cenáculo Brasileiro de Letras e Artes,
sócio honorário da Academia Piauiense de Letras e
cidadão honorário do Município de Marapanim-PA.

Livros Publicados:
“Pelas Mãos do Vento” (poesia) – Editora Falangola – Belém – 1955;
“Bruno de Menezes” ou a sutiliza da transição – (Ensaio ao lado de Célia Coleho Bassalo, J.Arthur Bogéa, João Carlos Pereira e Joaquim Inojosa) – Universidade Federal do Pará – 1994;
Nota: o mesmo trabalho (ensaio) foi publicado pela Universidade Amazônia, na Revista do Curso de Letras (Asas da Palavra) – Outubro de 1996.
“O Tempo e o Canto” (poesia) – Universidade da Amazônia – Agosto de 2009.

Medalha e diploma possuídos:

Medalha condecorativa José Veríssimo, medalhas culturais Olavo Bilac, Paulino de Brito, Dr. Acylino de Leão, D. Pedro I, Centenário do Teatro da Paz, Bicentenário da Igreja São João Batista, Centenário da Fundação da Biblioteca e Arquivos Públicos do Pará,conferidos pelo governo do Estado do Pará, Conselho de Cultura do Pará e Academia paraense de Letras. Medalha Olavo Bilac, do Cenáculo Brasileiro de Letras e Artes, medalha condecorativa da Academia Municipalista de Letras do Brasil e diploma de honra ao mérito do Instituto de Educação do Pará.

Como bancário atuou no sindicalismo de 1954 a 1976, tendo sido membro fundador da Federação dos Bancários do Norte-Nordeste (Recife 1958) e da Confederação Nacional dos Trabalhadores nas Empresas de Crédito- CONTEC (Belo Horizonte, 1958) de onde foi diretor. Também diretor do Sindicato dos Bancários de Belém. Atuou como delegado em 17 congressos de trabalhadores em vários Estados. No Pará, foi coordenador-geral dos I e II Encontro de Trabalhadores do Pará (1962 e 1968), membro da executiva e secretário-geral do I Congresso de Trabalhadores da Amazônia (1963).

No último conclave a que compareceu (RJ-1976), foi unanimemente escolhido como representante dos bancários e securitários do Norte-Nordeste, tendo presidido uma das cinco sessões plenárias e pronunciado o discurso oficial em nome das duas regiões. Deixou as atividades sindicais por recomendação médica, tendo recebido a medalha do Cinqüentenário do Sindicato dos Bancários do Pará e Amapá.

Poeta eclético, não aprisionado a escolas e sem preconceito com qualquer forma de manifestação poética, Alonso Rocha foi dinâmico colaborador da gestão e representatividade da Academia Paraense de Letras.

Fontes:
Portal dos Sonhos e das Poesias

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Arquivado em Biografia, Pará

Academia de Letras do Brasil (Lucia Constantino, nova Imortal do Paraná)

No quadro acima dos Imortais da Academia de Letras do Brasil, pelo Estado do Paraná, houve a inclusão de Lúcia Constantino, de Curitiba (Biografia em http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/12/lucia-constantino.htm . Poesias em http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/12/lucia-constantino-antologia-poetica.html. Texto Ao Mestre de Assis, em http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/12/lucia-constantino-ao-mestre-de-assis.html.}

Estou aguardando a confirmação do aceite do poeta e artista plástico Celito Medeiros, de Curitiba (Biografia em http://singrandohorizontes.blogspot.com/2009/12/celito-medeiros-1951.html. Poesias em http://singrandohorizontes.blogspot.com/2009/12/celito-medeiros-album-de-poesias-de.html e http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/01/celito-medeiros-poesias-avulsas.html)

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n.133 e 134)

Por alguma falha do correio eletronico não havia recebido as Mensagens Poéticas de domingo (20 de fevereiro), por isso insiro em conjunto com as de hoje. Em cada tópico, primeiro as de hoje, e em seguida as de domingo

Duas Trovas Nacionais

Transformei meus descaminhos
em fortunas grandiosas:
quem não navega entre espinhos,
não encontra o Mar de Rosas!
(SÉRGIO FERREIRA DA SILVA/SP)

Quando a inspiração vagueia
à procura de um motivo,
o meu passado passeia
em cada verso que eu vivo!
(SELMA PATTI SPINELLI/SP)

Duas Trovas Potiguares

Quantas lições primorosas,
num pequeno beija-flor,
que beija todas as rosas
enchendo o mundo de amor!
(PROF. GARCIA/RN)

Toda espera é dolorida,
nos faz sofrer ou chorar.
Mas, é pior nesta vida,
não ter por quem esperar!
(FRANCISCO MACEDO/RN)

Duas Trovas Premiadas

2007 > Itabapoana/RJ
Tema > VIRTUDE > Menção Honrosa

O belo da juventude
traz orgulho, por costume.
Mas beleza sem virtude,
é qual rosa sem perfume.
(RUTH FARAH/RJ)

2010 > ABT-Rio de Janeiro/RJ
Tema > DISFARCE > Menção Honrosa

Mulher de rara beleza
não deve, jamais, pintar-se,
pois obra da natureza
não necessita disfarce.
(RUTH FARAH/RJ)

Simplesmente Poesia

– Zé de Cazuza/PB –
A CIÊNCIA É MENTIROSA.

Vê-se as flores naturais
perfumando o ambiente
e é muito diferente
das flores artificiais,
umas cheirando demais
e a outra sem ser cheirosa,
quando o homem faz a rosa
fica faltando a essência;
diante da providência
a ciência é mentirosa.
–––––––––––––––––-
MOTE:
Mastigo um pão todo dia
amanteigado de verso.
(ADEMAR MACEDO/RN)

GLOSA:
Eu busco a paz e a alegria
desde que o dia amanhece.
Após fazer uma prece,
mastigo um pão todo dia.
Rimo amor com harmonia
e evito o mundo perverso.
Só quero a luz do universo
e ofereço aos meus leitores
um prato cheio de amores
amanteigado de verso.
(GILSON FAUSTINO MAIA/RJ)

Duas Trovas de Ademar

Tu me mandaste uma rosa,
perfumada e muito bela;
mas você é mais cheirosa
do que esta rosa amarela.
(ADEMAR MACEDO/RN)

Num triste e cruel enredo
escrito por poderosos,
a Terra treme com medo
das mãos dos gananciosos…
(ADEMAR MACEDO/RN)

…E Suas Trovas Ficaram

Não te comparo a uma rosa,
porque, se a rosa souber,
vai ficar muito orgulhosa
e intitular-se mulher!
(BALTAZAR DE GODOY MOREIRA/SP)

Diz-me a razão: “renuncia;
essa paixão é um fracasso !”
e o que até louco eu faria,
louco de amor eu não faço…
(WALDIR NEVES/RJ)

Estrofe do Dia 22 de Fevereiro

Se faltar no final uma canção
nenhum brilho virá dos horizontes,
nossos olhos verão além das fontes
umas marcas de chagas pelo chão,
todas rosas do campo morrerão
e secarão as roseiras do pomar,
nem sequer uma ave irá cantar
para o dia nascer com mais beleza;
nada mais restará da natureza
quando o ultimo poeta se calar.
(SEBASTIÃO DIAS/RN)

Estrofe do Dia 20 de Fevereiro

Este é um capítulo da história
pelo tempo contada e definida,
um resgate da dívida compulsória
que há tempos atrás foi contraída;
conta estúpida, perversa e esquisita
que com juros o mundo deposita
nos extratos da vida da pessoa;
é um débito guardado em seus arquivos,
no caderno dos saldos negativos
que o gerente do tempo não perdoa.
(DINIZ VITORINO/PB)

Soneto do Dia 22 de Fevereiro

ROSA TATUADA.
– Divenei Boseli/SP –

Meu coração foi uma flor viçosa,
foi uma rosa rubra e perfumada,
embora fosse rosa tatuada
por quem sabia tatuar a rosa;

quem, no meu peito, a fez misteriosa,
juntou meu corpo ao seu na madrugada
e me fez crer, sem que dissesse nada,
no gozo da alma quando o corpo goza…

Agora, só escuto só a voz do vento
que avisa: – “quem partiu não vai voltar…”
e eu choro e sangro um negro mar de mágoas.

Que algum corsário escute o meu tormento:
rasgue o meu peito, enterre-me no mar,
deixe que a rosa bóie à flor das águas!

Soneto do Dia 20 de Fevereiro

– J. G. de Araújo Jorge/AC –
ALVORADA ETERNA.

Quando formos os dois já bem velhinhos,
já bem cansados, trôpegos, vencidos,
um ao outro apoiados, nos caminhos,
depois de tantos sonhos percorridos…

Quando formos os dois já bem velhinhos
a lembrar tempos idos e vividos,
sem mais nada colher, nem mesmo espinhos
nos gestos desfolhados e pendidos…

Quando formos só os dois, já bem velhinhos,
lá onde findam todos os caminhos
e onde a saudade, o chão, de folhas junca…

Olha amor, os meus olhos, bem no fundo,
e hás de ver que este amor em que me inundo
é uma alvorada que não morre nunca!

Fonte:
Ademar Macedo

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Anis Murad (Caderno de Trovas)

Debaixo da nossa cama,
que tu deixaste vazia,
o meu chinelo reclama
o teu chinelo – Maria.

Não, saudade, não açoite
o carro de bois, dolente,
gemendo dentro da noite…
chorando dentro da gente…

Estes teus olhos brejeiros!
– ah! se eu pudesse, meu Deus!
por noites, dias inteiros,
ver meus olhos nos teus!

Saudade – rede vazia
a balançar tristemente…
ninando a melancolia
que dorme dentro da gente.

Manhã de sol, que alegria!
De pés descalço, meu ser,
é um garoto que assovia,
na alegria de viver.

Quando eu partir – não sei quando,
não ponhas, minha querida,
teus olhos, lindos, chorando,
sobre os meus olhos, sem vida.

Saudade – tristeza imensa,
por meu amor que não vem.
Saudade – tristeza imensa,
de alguém ausente… de alguém!

Disseste não, fiquei triste,
mas disseste sim, depois.
Maldito “sim”, que persisti,
no eterno “não”, de nós dois.

Na noite triste, vazia,
ouvi a voz de meu bem.
Corri louco de alegria,
abri a porta – ninguém!

Mandei a saudade, um dia,
à procura de meu bem,
desse meu bem – que é Maria,
mas que é saudade – também…

Vendo-a passar, ficou triste,
quando alguém lhe perguntou:
– E aquele amor… inda existe?
– Não! – respondeu… Já passou!…

Com a luz, pai, que me deste,
do teu meigo olhar profundo,
eu vejo – no mundo agreste,
toda a beleza do mundo.

Saudade – doce maldade,
que a gente sente e não vê,
mas eu vejo esta saudade,
esta saudade é você!…

Saudade – sonho, desejo,
lembrança, recordação……
Um beijo – que já foi beijo,
um amor – que foi paixão…

Olho o boi, de olhar parado,
que me fica amargamente
Parece que o desgraçado
tem piedade da gente.

Bebida da mesma adega,
serás igual a teu pai…
Tu, Anis novo – que chega,
– “Quem é?” – Eu, Anis velho – que vai…

No meu ermo – “Soledade”,
alguém bateu, certo dia.
“Sou eu, a Saudade!”
– “Meu Deus! A voz de Maria!”

Amo no amor a ternura,
a meiguice, a suavidade;
o amor – que é todo doçura,
o amor – que é todo amizade.

Guardo esta crença comigo,
com carinho e devoção:
todo mundo é meu amigo,
todo amigo: – meu irmão!

Se todo mundo quisesse,
melhor o mundo seria,.
se todo mundo soubesse,,
do nosso mundo, Maria.

Vem o trem cortando a serra,
no seu grito lancinante
Talvez saudade da terra
que foi ficando distante.

Mente, descaradamente,
o coração da mulher.
Diz que não gosta da gente,
só pra dizer que nos quer..

Não sei se foi por maldade,
não sei se foi por vingança:
mataram minha saudade…
roubaram minha esperança..

Tens o sentido profundo
da fé – que é paz, é perdão!
Braços abertos ao mundo,
portal do céu – redenção!

No teu grande simbolismo,
é um cruzeiro de luz,
de um abismo ao outro abismo,
dos homens até Jesus!…

Mãe que traz uma criança,
nas entranhas de seu ser,
carrega a própria esperança,
no filho que vai nascer.

Esperei-a toda a vida…
Nessa espera envelheci…
Ela – de verde, vestida
passou por mim e não vi…

Na triste quadra da vida,
rima-se a felicidade,
com esta rima querida,
que se rima na amizade.

A minha alma não se cansa,
– embora desiludida,
de acalentar a esperança,
que é o acalanto da vida.

Olhos risonhos, infindos,
que choram de quando em quando:
sorrindo – lindos, tão lindos;
feios, tão feios – chorando…

Esperança!… quem diria,
quem diria – que a esperança
fosse os olhos de Maria,
vagando em minha lembrança.

Não estaria amarrado,
pela igreja e pretoria,
se não tivesse encontrado,
este encanto de Maria!

Achei uma forma nova
de tornar-me trovador:
nossos lábios – uma trova
na doce rima do amor.

Mesmo velhinho e cansado,
não sei que estranha magia,
fico um saci, assanhado,
quando te vejo, Maria.

Deixa a vida do menino
viver a vida, meu bem,
ninguém muda o destino,
nem a vida de ninguém!…

Que medida desmedida
medir as misses, assim.
Com medida ou sem medida
são na medida prá mim.

Nós nos queremos, querida,
com tanta simplicidade,
que o maior bem desta vida,
não vale a nossa amizade!

De sete meses gerado,
vim ao mundo temporão.
Já fui tesouro guardado,
em caixa de papelão.

Só senti a luz da vida,
com mais calor e mais brilho,
quando tu deste, querida,
a luz da vida a meu filho.

O Amor – que tudo redime,
não tem a sublimidade,
do querer bem – que se exprime,
no bem querer da Amizade!

Por um beijo concedido,
ficou desfeito o noivado;
pois o futuro marido,
sentiu-se logo enganado.

Surpreendeu-me o garoto,
em colóquio com meu bem.
E diz, num sorriso maroto:
– Eu quero beijar, também!

Do meu quarto de solteiro
– já cansei de te pedir,
vem buscar teu travesseiro,
que não me deixa dormir!…

Não sei porque a lembrança,
de uma florzinha que cai,
faz-me pensar na criança,
abandonada, sem pai,

Do meu berço pequenino,
fizeram tosca jangada,
que voga ao léu do destino,
para o destino do nada.

Terá, mulher, se quiseres,
o mundo todo a teus pés.!
Porque é todo das mulheres,
que forem como tu és!

Maria – meu sol, meu guia!
Maria – Mãe do Senhor
Minha santa mãe: Maria!
Maria – meu santo amor!

A vida é mesmo engraçada:
correr, correr, para enfim,
tombar, ao fim, para o Nada –
no eterno nada – sem fim…

Simples jardim sobre a cova,
trevos repousando em calma
Em cada trevo uma trova,
em cada trova a minha alma…

Há uma lâmpada encantada,
acesa no coração,
que tem a chama sagrada,
que se chama inspiração.

É, francamente, bobagem,
possuir televisão
se eu posso ver tua imagem,
no vídeo do coração.

Aqui jaz, na quadra imerso,
um vate, vivo e mordaz.
Fez sepulturas, do verso,
e sepultou-se; aqui jaz.

As trovas, quando eu as faço,
faço-as de mim para mim.
Vou dizê-las… que embaraço…
Estremeço… fico assim..

Envelhecer! – que tristeza,
sentir a vida fugir
e ter a triste certeza,
que a morte certa há de vir.

Depois de sua partida,
mais a possuo, porque:
toda a saudade da vida,
ficou em mim – de você!

Não sejas má nem injusta,
nem faças mal a ninguém.
– O querer bem nada custa,
é tão bom fazer o bem.

Eu amo a vida, querida,
com todo o mal que ela tem!
Só pelo bem – que há na vida
de se poder querer bem.

Morre o dia, tristemente,
na tarde crepuscular…
Dá uma saudade, na gente,
ao ver a noite chegar..

Esses teus olhos tão lindos,
misteriosos, profundos,
são dois abismos infindos
dois precipícios – dois mundos!..

Olhas pra mim, na verdade,
mas não me vês – este olhar
perdido está, na saudade,
que ficou noutro lugar…

Eu só, tu só, nós dois sozinhos…
O amor chegou certa vez,
misturou nossos trapinhos,
somos um mundo: – nós três!

Tudo passa – na verdade,
passa tudo – sem parar.
Só não passa esta saudade,
que ficou no teu lugar.

A vida é noite fechada,
num coração sem amor.
Amor é Luz – madrugada!
Raio de Sol – Esplendor!

Essa Maria – que existe,
chorando nos versos meus,
foi a saudade mais triste,
que alguém deixou num adeus!

Saudade – dor repartida
entre o que fica e o que vai.
Uma esperança perdida
num sonho azul que se esvai.

Menina – pobre, perdida,
que a vida jogou ao chão,
descendo a rampa da vida
rolando de mão em mão…

Também nas flores existe
uma saudade de amor…
Orvalho – saudade triste,
lacrimejando na flor…

Nas trilhas de Deus, teremos,
o caminho justo e certo,
para esse Deus, que não vemos,
mas que nos vê tão de perto.

Só a saudade é que explica
por que foi que ele chorou:
esse vazio – que fica,
no vazio – que ficou…

Cansado estou da esperança,
cansado do meu ser,
da própria vida – que cansa,
vivendo, assim, sem viver…

A minha alma – agradecida,
elevo a Deus com fervor,
pelo amor – maior da vida!
Que nasceu do nosso amor.

Perdoa, mãe a heresia!
Mas não posso mais rezar:
fui dizer – Ave Maria!
e comecei a chorar…

Tal qual ingênua criança
nas noites de São João,
vou soltando as esperanças,
como quem solta balão!…

As trovas feitas a esmo,
são difíceis de fazer:
conversa contigo mesmo,
que a trova sai sem querer.

Um vagido de criança
sacode todo meu ser:
era o pranto da esperança
que gritava pra viver.

Vejo-te, mãe, todo dia
que a tarde cai pra morrer
e que a voz da Ave Maria
vem minhalma enternecer…

Guarda, meu bem, na lembrança,
esta lembrança do bem:
quem não tiver esperança,
seja a esperança de alguém!…

Sempre que faço uma prece,
não sei que estranha visão,
a minha mãe aparece,
sorrindo em minha oração.

O trovador – simplesmente,
é uma pessoa feliz;
se às vezes diz o que sente,
nem sempre sente o que diz.

Pobre amor – triste saudade!…
Saudade – triste lembrança!..
De um grande amor – na verdade,
que não passou de esperança!…

Ao verme o verme me diz,
depois de me haver provado; e
bonito!… bebi anis…
Vou ficar embriagado…

Dá tantas voltas a vida,
a gente, atrás, a correr…
Que gente doida, varrida!
Correr tanto, pra morrer!

O destino predestina,
destinos da nossa vida…
A minha invertida sina,
deu-me uma sina invertida…

Tens no coração fecundo,
um patrimônio seguro;
essa riqueza do mundo:
ser bom, ser justo, ser puro.

Que será dessas crianças,
sem luz, sem teto, sem pão…
Uns farrapos de esperanças,
de uma triste geração!

Esses balões e as fogueiras,
trazem à minha lembrança,
as esperanças fagueiras,
dos meus tempos de criança!…

Tenho pena das crianças,
andrajosas, semi-nuas,
malbaratando esperanças,
pelas sarjetas das ruas!…

Eu seria bem feliz,
das mágoas que já sofri,
se pudesse, sendo anis,
ser somente para ti…

Meu coração desconhece,
a raiva, o ódio, o rancor,
Quanto mais vive e padece,
mais vida tem para o amor.

“É bebida apetecida,
– de gostosura sem fim…
Se bebo desta bebida,
eu fico cheio de mim…

Eu nada tenho de meu,
por isso vivo a cantar –
a graça que Deus me deu:
mulher, um filho – meu lar!

Alô!… Quem fala?… Esperança?….
– Um momento!… Vou chamar!…
Esperei… – pobre criança
que envelheceu a esperar!…

Hei de esperar, querida,
nessa esperança, sem fim,
de esperar-te toda a vida,
se a vida esperar por mim!

Pode ir! Tem liberdade,
de levar o que quiser!
Só não me leve a saudade,
que é seu retrato, mulher!

Que pobre vida – vivida
de muitos amigos meus;
desencantadas da vida
sem crença, sem fé, sem Deus.

Maria, só por maldade,
deixou-me a casa vazia…
Dentro da casa: saudade!
E na saudade: Maria!

Não desespere, querida,
que a vida foi sempre assim:
uma esperança perdida
que só se encontra no fim…

Fonte:
Luiz Otávio e J. G. De Araújo Jorge (organizadores). 100 Trovas de Anis Murad. Coleção “Trovadores Brasileiros”. RJ: Editora Vecchi – 1959

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Anis Murad (1904 – 1962)

Nasceu em 8 de julho de 1904 e faleceu em 23 de outubro de 1962.

Anis Murad, ele próprio o confessa, deve aos Jogos Florais de Friburgo a oportunidade de ter descoberto que trazia em si, sem saber, a “graça” da trova.
E concorrendo aos dois primeiros Jogos Florais, surgiu logo vitorioso, colhendo prêmios a mancheias.

O tema dos I Jogos Florais de Friburgo, foi o Amor. Cerca de 2.500 trovas foram enviadas, trovas mandadas dos mais distantes Estados brasileiros, e até de Portugal e Províncias Ultramarinas. Anis Murad conquistou o segundo lugar.

Sua trova, é uma pequenina jóia de lirismo, espontaneidade e graça:

Eu amo a vida, querida,
com todo o mal que ela tem,
só pelo bem que há na vida
de se poder querer bem.

Aquele balanceio das palavras, uma espécie de gingar feminino quando caminha, característica das boas trovas, – não fosse a trova mulher; aí está, no trocadilho, alternando nos dois versos finais as expressões “só pelo bem” e “querer bem”, além do efeito, tirado antes, pelo contraste entre “o mal”, e “só pelo bem.”

Todo mundo sabe que não há propriamente regras para a confecção de uma quadrinha. Mas a verdade, é sendo como é, um tipo por excelência de poesia popular, nascida quase para ser ouvida, a trova possui elementos de composição que se firmaram através de seu uso generalizado, por cantores populares, e por poetas de formação literária. E um destes elementos, é sem dúvida, esse balanceio das palavras a que me referi citando a trova de Anis Murad, e que dá à trova aquele ritmo dos quadris de uma mulher, quando a vemos, depois que passa por nós…
Eu diria, na “nossa língua”:

Ah! trova com que me enleio…
Tens um gingado qualquer
que lembra esse bamboleio
do corpo de uma mulher…


Sendo um dos vencedores, Anis Murad foi a Friburgo. Eu lhe avisara sobre os encantos da cidade. Ei-la!

“Jardim Suspenso” na serra
dentro da Serra do Mar,
é o céu mais perto da terra
que Você pode encontrar…”

Emocionou-se com as festas. Entusiasmou-se com a vitória alcançada, e preparou-se logo para concorrer aos II Jogos Florais. Mandando suas trovas sobre, SAUDADE, que era o novo tema do Concurso, Anis Murad conseguiu classificar entre as vinte primeiras trovas, nada menos que cinco! Conquistou o 1.º, 5.°, 11.°, 17.° e 20.° lugares. Chegamos a “ameaçá-lo” de mandar incluir um item especial no Regulamento dos futuros Jogos Florais, excluindo-o como concorrente… Era demais… O poeta açambarcara os Jogos Florais…

E haviam sido mandadas para os II Jogos Florais mais de 10 mil trovas, classificando-se, inclusive, em 7.° lugar, uma poetisa portuguesa, Ana Rolão Preto Martins Abano, de Benguela, Angola, África Ocidental Portuguesa.

Na solenidade de encerramento dos II Jogos Florais no Centro de Arte, de Friburgo, quando são entregues os diplomas, troféus e prêmios aos trovadores vitoriosos Anis Murad falou em nome de seus companheiros. Seu discurso foi… em trovas. E como é além de um trovador lírico, um trovador espirituoso e alegre fez referências especiais às autoridades presentes, inclusive ao então Ministro da Educação, Brígido Tinoco.

As trovas de Anis Murad para os II Jogos Florais, apresentavam uma característica: falavam quase todas em Maria. Eram trovas sobre a saudade, mas a saudade era da… Maria.

Por uma estranha coincidência, na mesma ocasião dos Jogos Florais, a cidade de Campos promovia pela, segunda vez o seu Salão Campista de Trovas, com exposição e concurso de trovas, sendo o tema, – Maria.

Anís Murad, entretanto, preferiu mandar as suas quadrinhas para o Concurso de Friburgo, e venceu galhardamente, de braços dados com a saudade… de sua Maria…
Eis as suas trovas vitoriosas:

em 1.º lugar:
Maria, só por maldade,
deixou-me a casa vazia…
Dentro da casa: saudade,
e na saudade: Maria!

em 5.º lugar
Debaixo de nossa cama,
que tu deixaste vazia,
o meu chinelo reclama
o teu chinelo – Maria.

em 11.º lugar
Saudade – rede vazia
a balançar tristemente…
minando a melancolia
que dorme dentro da gente.

em 16.º lugar
Essa Maria – que existe
chorando, nos versos meus,
foi a saudade mais triste
que alguém deixou num adeus.

em 20.º lugar
No meu ermo, “Soledade”,
alguém bateu, certo dia.
-“Quem é? – “sou eu! a Saudade!”
-“Meu Deus! a voz de Maria!…”
* * *

Tão excelente trovador, Anis Murad devia ser português… ou filho de portugueses Entretanto é filho de libaneses, e seu nome completo é Anis Murad Lasmar.

Trabalha no comércio, é contador. Entretanto, o que é mesmo na vida, é cantador.

Os Jogos Florais de Friburgo vieram retirar-lhe a tempo, escondido no peito, um coração cheio de cantigas.

Primogênito de oito irmãos, nasceu, segundo nos contou, de sete meses, e teve por incubadeira uma caixa de sapatos. Vamos dar-lhe a “viola”:

De sete meses gerado
vim ao mundo temporão…
Já fui tesouro guardado
em caixa de papelão…

Vim de longe, despachado
numa velha embarcação…
Sou nacional fabricado
com peças de importação…

Como já acentuei, a trova de Anis Murad não é apenas lírica. Anis é um grande emotivo, um grande sentimental Está na raça, no sangue. Mas é também, por temperamento, um espírito alegre, às vezes até, satírico. É de família. Seu irmão, Jorge Murad, (que teve uma trova classificada nos Jogos Florais de Pouso Alegre), é um excelente contador de histórias, um humorista que tem explorado nos programas de rádio e em audições teatrais, com muita graça, o tipo tradicional do “turco”, imitando-lhe a fala e os cacoetes.

A infância de Anis ele a passou no bairro de Noel Rosa, – em Vila Isabel, – e sua juventude, no Andaraí. Interessou-se pelo teatro, foi ator, e diretor de ensaios. Colaborou com Plácido Ferreira, integrando o elenco do seu “Teatro pelos Ares”; participou do “Teatro Sherlock” e de outras programações em várias emissoras cariocas. Por isso, o assunto lhe deu esta quadrinha:

O teatro é a vida da gente.
A Vida, é teatro também.
Mas só no teatro se sente
a vida que o teatro tem.

Anis acabou sendo Diretor da Casa dos Artistas.

Antes de se descobrir trovador, já fazia versos. E um dos maiores sucessos de nossa música popular e carnavalesca, o samba de parceria com Luiz Pimentel e Manoel Rabaça,

“Bebida, mulher e orgia”, tem letra sua.
Quem não cantou aqueles versos?

“É a lei do vagabundo
Quem bebe sente alegria
Sem mulher, sem orgia
Não há prazer nesse mundo

Na bebida afogo a dor
Na mulher vejo o prazer
Na orgia encontro até
A razão do meu viver

Mas se a bebida faltar
E a mulher fugir de mim
Na orgia hei de encontrar
O princípio do meu fim.”

E por falar em bebida: Anis “glosou” o seu próprio nome, nesta trovinha:

Eu seria bem feliz
das mágoas que já sofri,
se pudesse, sendo anis,
ser somente …“para ti”…

Eis, em poucas linhas, um rápido perfil deste trovador “libanês”, que encontrou na trova portuguesa a língua de seu coração brasileiro.

Anis Murad nesta “Coleção Trovadores Brasileiros” é um justo motivo de satisfação para mim e para Luis Otávio, os seus organizadores.

Sua presença é a comprovação de que, iniciativas como os “Jogos florais de Friburgo”, não são apenas movimentos culturais de incremento às letras e à poesia, mas a oportunidade para que verdadeiras vocações encontrem as condições necessárias para se revelarem e se afirmarem como valores.

Fonte:
Texto do prefácio do livro da Coleção “Trovadores Brasileiros”. Organização de Luiz Otávio e J.G. de Araujo Jorge. Editora Vecchi – 1959

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