Arquivo do mês: fevereiro 2011

Alonso Rocha, IV Príncipe dos Poetas do Pará falece em 22 de Fevereiro de 2011

Se tivessemos o poder de prolongar a vida do corpo físico de quem quisessemos, Alonso Rocha certamente estaria entre os nomes que desejamos. Mas, somos mortais, e assim mesmo, quando nos encantamos com versos tão soberbos como os de Alonso, mesmo que não presente em corpo físico, seu espírito estará sempre imortal dentro de nós. Este poeta-trovador se indagava em sua trova:

Sem resposta que conforte,
dúvida imensa me corta:
Qual o segredo da morte?
Fim? Partida? Porto? Porta?

Fim? Não existe fim para alguém que escreve versos tão sublimes. Serás sempre imortal.
Partida? Apenas deste plano físico, pois onde vais é apenas o repouso merecido pelo que fez.
Porto? Voce, caro poeta, era o porto de nossas almas, de nossas emoções.
Porta? Para ti, uma porta em direção a um andar superior onde observarás a nós que o reverenciamos, e que perpetuaremos seus versos e sua pessoa.

Eu te saudo pelo legado que nos deixou. Salve, Alonso Rocha!
(José Feldman)

Deixe um comentário

Arquivado em Nota de Falecimento, Pará, Poesia

Alonso Rocha (Livro de Poesias)

SONETO À LUA CHEIA

Lua de celofane – lua amarga,
a mensagem de amor que hoje me trazes
rasga no coração como tenazes,
essa dor que se alarga, que se alarga.

Lua de gesso estéril, em tua carga,
por não me decifrar, tu te comprazes,
em ver que eu sou, em tons tristes, lilases,
jogral de um circo azul, na noite larga.

De sofrer já cansei, mas dizes: – “Ama!”
e tua luz – espelho onde me encanto –
na ante-manhã deserta, se derrama.

Porém não creio mais no teu milagre;
– quem teve tanto amor, odeia tanto;
eu que fui vinho agora sou vinagre.

SONETO À MESMA FLOR

Quando moço roubei na madrugada
do seio de uma flor recém-aberta
uma gota de orvalho e como oferta
a deixei em teus lábios, abrigada.

Hoje, quando recordo (Oh! Doce Amada!)
esse tempo de arroubo e descoberta
uma saudade, trêmula, desperta
e vem sangrar-me com a sua espada.

Iguais a flor, também envelhecemos
mas ao despetalar ainda trazemos
almas unidas, mãos entrelaçadas,

porque do amor a essência mais preciosa
( assim como o perfume de uma rosa)
permanece nas pétalas secadas.

SONETO À JOVEM ESPOSA

Hoje eu te trago, em minhas mãos, guardada,
a gota d’água – a pérola serena –
que eu roubei de uma pálida açucena
recém-aberta pela madrugada.

Louco poeta que sou! (Oh! Doce Amada!)
Em trazer-te essa dádiva pequena.
Culpa as estrelas, culpa a cantilena
do vento. E em nossa alcova penumbrada

dormes. E nem percebes no teu sono
que em teus lábios, fechados, abandono
a lágrima de luz – um mundo pleno.

Não despertes, ririas certamente
se me visses beijando, ingenuamente,
tua boca molhada de sereno.

POEMA DO ULTIMO INSTANTE

( ao poeta José Guilherme, onde estiver)

.
Havia o sonhador
a mesa e os seus convivas.
O pão infermentado
fragmentado
e o vinho das angústias.
– Senhor! Afasta o cálice ( câncer sobre a carne)
e a cruz dos sem-perdão.
Deixa-me (ainda) repartir os peixes
e os lírios de teus campos
– dízimo deste encanto
lobo que me devora.
Atira sobre o poema o círculo perfeito
e os dados da palavra.
Derrama a chuva
tua lança e os teus cravos
na terra que semeio.
Assim falava o Poeta
enquanto o sol e outros deuses (os mortos esquecidos)
com essência de mirra em seus turíbulos
já perfumavam a pedra
– altar para o seu corpo.

MINHA PRECE
POR MEU FILHO NO DIA DA SUA MORTE
(… para Ronaldo Alonso)

Ele era um pássaro, Senhor,
cujas asas feriste antes do vôo.
Ele era fonte
e sufocaste o canto em sua garganta
e pouca além da lágrima e do riso
– como apelo ou mensagem –
lhe deixaste.
Ele era frágil, Senhor,
e lhe enevoaste o entendimento
e com agudos espinhos o pregaste
tantos anos no seu leito.
Até seus olhos, Senhor,
– inquietos peixinhos coloridos –
aprisionaste
no reduzido aquário do seu quarto.
Mas eu te louvo, Senhor,
por Tua bondade
quando lhe ensinaste a gritar a palavra “mãe”
– única de sua boca –
como sinal de angústia e como hino de amor.
Hoje, Dá-me a beber, Senhor,
o Vinho de Tua Paz
na mesma taça de fel e sofrimento
com que o premiaste,
para que eu possa de joelhos
celebrar contigo
um retorno de um anjo ao Teu reinado!

BREVE TEMPO

Se me queres amar ama-me nesta hora
enquanto fruto dando-te a semente.
Se te apraz me louvar louva-me agora
quando do teu louvor vivo carente.

Aprende a te doar antes que a aurora
mude nas cores cinza do poente.
Se precisas chorar debruça e chora
hoje que o meu regaço é doce e quente.

A vida é breve dança sobre arame.
Sorve teu cálice antes que derrame
ninho vazio que o vento derrubou.

Porque quando eu cair num dia incerto
parado o coração o olhar deserto
nem mesmo eu saberei que já não sou.

NO ESPELHO

Da armadura do medo me desnudo
o estandarte na mão, a flor no peito
e enfrento, temerário, o cristal vivo
de tua face – espelho onde me busco.

Sou dócil ao teu poder e mel e seiva
da boca se derramam em doce riso,
como a rasgar a carne me entretenho
para me alimentar de encantamento.

Entrego-te meu rosto e o desfiguras
e a máscara real pesada tomba
– envelhecido pó – na tua lâmina.

E na visão da imagem refletida
em desespero e espanto me descubro
na placenta da morte prisioneiro.

Fontes:
Portal dos Sonhos e das Poesias
http://www.sarahmrodrigues.com/luau/prece_alonso.htm
http://covadospoetas.blogspot.com/2011/02/alonso-rocha-o-principe-dos-poetas.html

Deixe um comentário

Arquivado em Livro de Poesias, Pará

Alonso Rocha (1926 – 2011)

Nascido a 15 de dezembro de 1926, foi casado com Rita Ferreira Rocha e pai de cinco filhos: Sérgio Alonso (médico), Nelson Alonso (médico), Ângela Rosa (arquiteta), Geraldo Alonso engenheiro-elétrico e eletrônico) e Ronaldo Alonso (falecido em 1977). Filho do poeta Rocha Júnior e Adalgiza Guimarães Pinheiro Rocha. Faleceu em 22 de fevereiro de 2011.

É IV Príncipe dos Poetas do Pará, escolhido após consulta a um colégio eleitoral constituído de 200 personalidades integrantes dos círculos culturais, científicos e sociais do Estado, pessoas essas ligadas às artes e selecionadas por uma comissão especial formada pelos escritores Georgenor de Sousa Franco Filho, Pedro Tupinambá, Victor Tamer e Albelardo Santos. O resultado de votação através de voto assinado, foi apurado em sessão pública do dia 8 de outubro de 1987, tendo recebido sufrágios de 14 poetas residentes no Pará. Por maioria absoluta de votos (56,77%) do total, Alonso Rocha foi eleito, tendo recebido na sessão solene de 21 de julho de 1989 (sesquicentenário de Machado de Assis) a comenda de 35 gramas de ouro, oferecida pelo governo do Estado do Pará.

Na adolescência, em 1942, fundou a Academia dos Novos em companhia de Jurandyr Bezerra, Max Martins e Antônio Comaru Leal. Ao grupo vieram juntar-se jovens intelectuais da época, como Benedito Nunes, Haroldo Maranhão, Leonan Cruz, Raimundo Melo, Fernando Tasso de Campos Ribeiro, Arnaldo Duarte Cavalcante, Gelmirez Melo, Edmar Souza, Benedito Pádua, Otávio Blatter Pinho, Antero Soeiro, Eduálvaro Hass Gonçalves, Alberto Bordalo e Lúcia Clairefort Seguin Dias.

Seu livro de poesias Pelas Mãos do Vento, obteve os prêmios Vespasiano Ramos (1954) da Academia Paraense de Letras E Santa Helena magno (1955) do governo do Estado do Pará.

Raimundo Alonso Pinheiro Rocha ocupou a cadeira n° 32 da Academia Paraense de Letras, eleito em 22.11.96, em sucessão a Olavo Nunes e Bruno de Menezes, tendo como patrono o poeta Natividade Lima.

Participou da diretoria da Academia desde o ano de 1964, ininterruptamente, com mandato até 2.006.

Possui vários troféus, medalhas e diplomas, resultantes de certames poético como:
1º. Lugar no concurso promovido pelo jornal “A Província do Pará” e Prefeitura Municipal de Belém (1961),
2° Concurso do Norte e Nordeste de Poesia, patrocinado pelo jornal “Folha do Norte”, Palma de Ouro e Palma de Bronze,
no concurso Poetas do Mundo Lusíada da Academia de Poemas de Massachusetts (Estados Unidos da América -1987),
Medalha de Bronze, no concurso Evolução da Cultura Brasileira, na segunda metade do século XX,
do Cenáculo Brasileiro de Letras e Artes (Rio de Janeiro, 1933),
1º. Lugar, por unanimidade, do 1º. Concurso Nacional de Poesia do Clube dos Magistrados do Rio de Janeiro (1997) e
honrosas classificações em concurso de sonetos em Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de janeiro.

Foi presidente (4º. Mandato) da União Brasileira de Trovadores – seção Belém, tendo promovido em 1997 o I Jogos Florais de Belém, bem como o XIII Concurso nacional de Trovas no ano de 2.002/Belém-Pará.

A trova, forma poética que cultivou somente há pouco tempo, proporcionou a Alonso Rocha inúmeras vitórias em Jogos Florais e concursos pelo Brasil, notadamente no Pará, no Ceará, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Rio Grande do Norte e Rio Grande do Sul.

Como sonetista, foi apontado como um dos melhores dos últimos tempos e um dos maiores dos últimos 50 anos do Pará.

Malba Than, no livro A Lua (editora Luz, Rio, 1955) publica o seu soneto à Lua Cheia e o classifica como “autêntico príncipe da poesia contemporânea).

Alonso Rocha que, com muito encanto, declamou os seus trabalhos em festas literárias pelo Brasil, foi sócio-correspondente das:
Academia Norte Rio-Grande de Letras,
Academia Municipalista de Letras do Brasil,
Academia Sete-Lagoana de Letras,
Academia Eldoradense de Letras,
Cenáculo Brasileiro de Letras e Artes,
sócio honorário da Academia Piauiense de Letras e
cidadão honorário do Município de Marapanim-PA.

Livros Publicados:
“Pelas Mãos do Vento” (poesia) – Editora Falangola – Belém – 1955;
“Bruno de Menezes” ou a sutiliza da transição – (Ensaio ao lado de Célia Coleho Bassalo, J.Arthur Bogéa, João Carlos Pereira e Joaquim Inojosa) – Universidade Federal do Pará – 1994;
Nota: o mesmo trabalho (ensaio) foi publicado pela Universidade Amazônia, na Revista do Curso de Letras (Asas da Palavra) – Outubro de 1996.
“O Tempo e o Canto” (poesia) – Universidade da Amazônia – Agosto de 2009.

Medalha e diploma possuídos:

Medalha condecorativa José Veríssimo, medalhas culturais Olavo Bilac, Paulino de Brito, Dr. Acylino de Leão, D. Pedro I, Centenário do Teatro da Paz, Bicentenário da Igreja São João Batista, Centenário da Fundação da Biblioteca e Arquivos Públicos do Pará,conferidos pelo governo do Estado do Pará, Conselho de Cultura do Pará e Academia paraense de Letras. Medalha Olavo Bilac, do Cenáculo Brasileiro de Letras e Artes, medalha condecorativa da Academia Municipalista de Letras do Brasil e diploma de honra ao mérito do Instituto de Educação do Pará.

Como bancário atuou no sindicalismo de 1954 a 1976, tendo sido membro fundador da Federação dos Bancários do Norte-Nordeste (Recife 1958) e da Confederação Nacional dos Trabalhadores nas Empresas de Crédito- CONTEC (Belo Horizonte, 1958) de onde foi diretor. Também diretor do Sindicato dos Bancários de Belém. Atuou como delegado em 17 congressos de trabalhadores em vários Estados. No Pará, foi coordenador-geral dos I e II Encontro de Trabalhadores do Pará (1962 e 1968), membro da executiva e secretário-geral do I Congresso de Trabalhadores da Amazônia (1963).

No último conclave a que compareceu (RJ-1976), foi unanimemente escolhido como representante dos bancários e securitários do Norte-Nordeste, tendo presidido uma das cinco sessões plenárias e pronunciado o discurso oficial em nome das duas regiões. Deixou as atividades sindicais por recomendação médica, tendo recebido a medalha do Cinqüentenário do Sindicato dos Bancários do Pará e Amapá.

Poeta eclético, não aprisionado a escolas e sem preconceito com qualquer forma de manifestação poética, Alonso Rocha foi dinâmico colaborador da gestão e representatividade da Academia Paraense de Letras.

Fontes:
Portal dos Sonhos e das Poesias

Deixe um comentário

Arquivado em Biografia, Pará

Academia de Letras do Brasil (Lucia Constantino, nova Imortal do Paraná)

No quadro acima dos Imortais da Academia de Letras do Brasil, pelo Estado do Paraná, houve a inclusão de Lúcia Constantino, de Curitiba (Biografia em http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/12/lucia-constantino.htm . Poesias em http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/12/lucia-constantino-antologia-poetica.html. Texto Ao Mestre de Assis, em http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/12/lucia-constantino-ao-mestre-de-assis.html.}

Estou aguardando a confirmação do aceite do poeta e artista plástico Celito Medeiros, de Curitiba (Biografia em http://singrandohorizontes.blogspot.com/2009/12/celito-medeiros-1951.html. Poesias em http://singrandohorizontes.blogspot.com/2009/12/celito-medeiros-album-de-poesias-de.html e http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/01/celito-medeiros-poesias-avulsas.html)

Deixe um comentário

Arquivado em Academia de Letras do Brasil

Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n.133 e 134)

Por alguma falha do correio eletronico não havia recebido as Mensagens Poéticas de domingo (20 de fevereiro), por isso insiro em conjunto com as de hoje. Em cada tópico, primeiro as de hoje, e em seguida as de domingo

Duas Trovas Nacionais

Transformei meus descaminhos
em fortunas grandiosas:
quem não navega entre espinhos,
não encontra o Mar de Rosas!
(SÉRGIO FERREIRA DA SILVA/SP)

Quando a inspiração vagueia
à procura de um motivo,
o meu passado passeia
em cada verso que eu vivo!
(SELMA PATTI SPINELLI/SP)

Duas Trovas Potiguares

Quantas lições primorosas,
num pequeno beija-flor,
que beija todas as rosas
enchendo o mundo de amor!
(PROF. GARCIA/RN)

Toda espera é dolorida,
nos faz sofrer ou chorar.
Mas, é pior nesta vida,
não ter por quem esperar!
(FRANCISCO MACEDO/RN)

Duas Trovas Premiadas

2007 > Itabapoana/RJ
Tema > VIRTUDE > Menção Honrosa

O belo da juventude
traz orgulho, por costume.
Mas beleza sem virtude,
é qual rosa sem perfume.
(RUTH FARAH/RJ)

2010 > ABT-Rio de Janeiro/RJ
Tema > DISFARCE > Menção Honrosa

Mulher de rara beleza
não deve, jamais, pintar-se,
pois obra da natureza
não necessita disfarce.
(RUTH FARAH/RJ)

Simplesmente Poesia

– Zé de Cazuza/PB –
A CIÊNCIA É MENTIROSA.

Vê-se as flores naturais
perfumando o ambiente
e é muito diferente
das flores artificiais,
umas cheirando demais
e a outra sem ser cheirosa,
quando o homem faz a rosa
fica faltando a essência;
diante da providência
a ciência é mentirosa.
–––––––––––––––––-
MOTE:
Mastigo um pão todo dia
amanteigado de verso.
(ADEMAR MACEDO/RN)

GLOSA:
Eu busco a paz e a alegria
desde que o dia amanhece.
Após fazer uma prece,
mastigo um pão todo dia.
Rimo amor com harmonia
e evito o mundo perverso.
Só quero a luz do universo
e ofereço aos meus leitores
um prato cheio de amores
amanteigado de verso.
(GILSON FAUSTINO MAIA/RJ)

Duas Trovas de Ademar

Tu me mandaste uma rosa,
perfumada e muito bela;
mas você é mais cheirosa
do que esta rosa amarela.
(ADEMAR MACEDO/RN)

Num triste e cruel enredo
escrito por poderosos,
a Terra treme com medo
das mãos dos gananciosos…
(ADEMAR MACEDO/RN)

…E Suas Trovas Ficaram

Não te comparo a uma rosa,
porque, se a rosa souber,
vai ficar muito orgulhosa
e intitular-se mulher!
(BALTAZAR DE GODOY MOREIRA/SP)

Diz-me a razão: “renuncia;
essa paixão é um fracasso !”
e o que até louco eu faria,
louco de amor eu não faço…
(WALDIR NEVES/RJ)

Estrofe do Dia 22 de Fevereiro

Se faltar no final uma canção
nenhum brilho virá dos horizontes,
nossos olhos verão além das fontes
umas marcas de chagas pelo chão,
todas rosas do campo morrerão
e secarão as roseiras do pomar,
nem sequer uma ave irá cantar
para o dia nascer com mais beleza;
nada mais restará da natureza
quando o ultimo poeta se calar.
(SEBASTIÃO DIAS/RN)

Estrofe do Dia 20 de Fevereiro

Este é um capítulo da história
pelo tempo contada e definida,
um resgate da dívida compulsória
que há tempos atrás foi contraída;
conta estúpida, perversa e esquisita
que com juros o mundo deposita
nos extratos da vida da pessoa;
é um débito guardado em seus arquivos,
no caderno dos saldos negativos
que o gerente do tempo não perdoa.
(DINIZ VITORINO/PB)

Soneto do Dia 22 de Fevereiro

ROSA TATUADA.
– Divenei Boseli/SP –

Meu coração foi uma flor viçosa,
foi uma rosa rubra e perfumada,
embora fosse rosa tatuada
por quem sabia tatuar a rosa;

quem, no meu peito, a fez misteriosa,
juntou meu corpo ao seu na madrugada
e me fez crer, sem que dissesse nada,
no gozo da alma quando o corpo goza…

Agora, só escuto só a voz do vento
que avisa: – “quem partiu não vai voltar…”
e eu choro e sangro um negro mar de mágoas.

Que algum corsário escute o meu tormento:
rasgue o meu peito, enterre-me no mar,
deixe que a rosa bóie à flor das águas!

Soneto do Dia 20 de Fevereiro

– J. G. de Araújo Jorge/AC –
ALVORADA ETERNA.

Quando formos os dois já bem velhinhos,
já bem cansados, trôpegos, vencidos,
um ao outro apoiados, nos caminhos,
depois de tantos sonhos percorridos…

Quando formos os dois já bem velhinhos
a lembrar tempos idos e vividos,
sem mais nada colher, nem mesmo espinhos
nos gestos desfolhados e pendidos…

Quando formos só os dois, já bem velhinhos,
lá onde findam todos os caminhos
e onde a saudade, o chão, de folhas junca…

Olha amor, os meus olhos, bem no fundo,
e hás de ver que este amor em que me inundo
é uma alvorada que não morre nunca!

Fonte:
Ademar Macedo

Deixe um comentário

Arquivado em Mensagens Poéticas

Anis Murad (Caderno de Trovas)

Debaixo da nossa cama,
que tu deixaste vazia,
o meu chinelo reclama
o teu chinelo – Maria.

Não, saudade, não açoite
o carro de bois, dolente,
gemendo dentro da noite…
chorando dentro da gente…

Estes teus olhos brejeiros!
– ah! se eu pudesse, meu Deus!
por noites, dias inteiros,
ver meus olhos nos teus!

Saudade – rede vazia
a balançar tristemente…
ninando a melancolia
que dorme dentro da gente.

Manhã de sol, que alegria!
De pés descalço, meu ser,
é um garoto que assovia,
na alegria de viver.

Quando eu partir – não sei quando,
não ponhas, minha querida,
teus olhos, lindos, chorando,
sobre os meus olhos, sem vida.

Saudade – tristeza imensa,
por meu amor que não vem.
Saudade – tristeza imensa,
de alguém ausente… de alguém!

Disseste não, fiquei triste,
mas disseste sim, depois.
Maldito “sim”, que persisti,
no eterno “não”, de nós dois.

Na noite triste, vazia,
ouvi a voz de meu bem.
Corri louco de alegria,
abri a porta – ninguém!

Mandei a saudade, um dia,
à procura de meu bem,
desse meu bem – que é Maria,
mas que é saudade – também…

Vendo-a passar, ficou triste,
quando alguém lhe perguntou:
– E aquele amor… inda existe?
– Não! – respondeu… Já passou!…

Com a luz, pai, que me deste,
do teu meigo olhar profundo,
eu vejo – no mundo agreste,
toda a beleza do mundo.

Saudade – doce maldade,
que a gente sente e não vê,
mas eu vejo esta saudade,
esta saudade é você!…

Saudade – sonho, desejo,
lembrança, recordação……
Um beijo – que já foi beijo,
um amor – que foi paixão…

Olho o boi, de olhar parado,
que me fica amargamente
Parece que o desgraçado
tem piedade da gente.

Bebida da mesma adega,
serás igual a teu pai…
Tu, Anis novo – que chega,
– “Quem é?” – Eu, Anis velho – que vai…

No meu ermo – “Soledade”,
alguém bateu, certo dia.
“Sou eu, a Saudade!”
– “Meu Deus! A voz de Maria!”

Amo no amor a ternura,
a meiguice, a suavidade;
o amor – que é todo doçura,
o amor – que é todo amizade.

Guardo esta crença comigo,
com carinho e devoção:
todo mundo é meu amigo,
todo amigo: – meu irmão!

Se todo mundo quisesse,
melhor o mundo seria,.
se todo mundo soubesse,,
do nosso mundo, Maria.

Vem o trem cortando a serra,
no seu grito lancinante
Talvez saudade da terra
que foi ficando distante.

Mente, descaradamente,
o coração da mulher.
Diz que não gosta da gente,
só pra dizer que nos quer..

Não sei se foi por maldade,
não sei se foi por vingança:
mataram minha saudade…
roubaram minha esperança..

Tens o sentido profundo
da fé – que é paz, é perdão!
Braços abertos ao mundo,
portal do céu – redenção!

No teu grande simbolismo,
é um cruzeiro de luz,
de um abismo ao outro abismo,
dos homens até Jesus!…

Mãe que traz uma criança,
nas entranhas de seu ser,
carrega a própria esperança,
no filho que vai nascer.

Esperei-a toda a vida…
Nessa espera envelheci…
Ela – de verde, vestida
passou por mim e não vi…

Na triste quadra da vida,
rima-se a felicidade,
com esta rima querida,
que se rima na amizade.

A minha alma não se cansa,
– embora desiludida,
de acalentar a esperança,
que é o acalanto da vida.

Olhos risonhos, infindos,
que choram de quando em quando:
sorrindo – lindos, tão lindos;
feios, tão feios – chorando…

Esperança!… quem diria,
quem diria – que a esperança
fosse os olhos de Maria,
vagando em minha lembrança.

Não estaria amarrado,
pela igreja e pretoria,
se não tivesse encontrado,
este encanto de Maria!

Achei uma forma nova
de tornar-me trovador:
nossos lábios – uma trova
na doce rima do amor.

Mesmo velhinho e cansado,
não sei que estranha magia,
fico um saci, assanhado,
quando te vejo, Maria.

Deixa a vida do menino
viver a vida, meu bem,
ninguém muda o destino,
nem a vida de ninguém!…

Que medida desmedida
medir as misses, assim.
Com medida ou sem medida
são na medida prá mim.

Nós nos queremos, querida,
com tanta simplicidade,
que o maior bem desta vida,
não vale a nossa amizade!

De sete meses gerado,
vim ao mundo temporão.
Já fui tesouro guardado,
em caixa de papelão.

Só senti a luz da vida,
com mais calor e mais brilho,
quando tu deste, querida,
a luz da vida a meu filho.

O Amor – que tudo redime,
não tem a sublimidade,
do querer bem – que se exprime,
no bem querer da Amizade!

Por um beijo concedido,
ficou desfeito o noivado;
pois o futuro marido,
sentiu-se logo enganado.

Surpreendeu-me o garoto,
em colóquio com meu bem.
E diz, num sorriso maroto:
– Eu quero beijar, também!

Do meu quarto de solteiro
– já cansei de te pedir,
vem buscar teu travesseiro,
que não me deixa dormir!…

Não sei porque a lembrança,
de uma florzinha que cai,
faz-me pensar na criança,
abandonada, sem pai,

Do meu berço pequenino,
fizeram tosca jangada,
que voga ao léu do destino,
para o destino do nada.

Terá, mulher, se quiseres,
o mundo todo a teus pés.!
Porque é todo das mulheres,
que forem como tu és!

Maria – meu sol, meu guia!
Maria – Mãe do Senhor
Minha santa mãe: Maria!
Maria – meu santo amor!

A vida é mesmo engraçada:
correr, correr, para enfim,
tombar, ao fim, para o Nada –
no eterno nada – sem fim…

Simples jardim sobre a cova,
trevos repousando em calma
Em cada trevo uma trova,
em cada trova a minha alma…

Há uma lâmpada encantada,
acesa no coração,
que tem a chama sagrada,
que se chama inspiração.

É, francamente, bobagem,
possuir televisão
se eu posso ver tua imagem,
no vídeo do coração.

Aqui jaz, na quadra imerso,
um vate, vivo e mordaz.
Fez sepulturas, do verso,
e sepultou-se; aqui jaz.

As trovas, quando eu as faço,
faço-as de mim para mim.
Vou dizê-las… que embaraço…
Estremeço… fico assim..

Envelhecer! – que tristeza,
sentir a vida fugir
e ter a triste certeza,
que a morte certa há de vir.

Depois de sua partida,
mais a possuo, porque:
toda a saudade da vida,
ficou em mim – de você!

Não sejas má nem injusta,
nem faças mal a ninguém.
– O querer bem nada custa,
é tão bom fazer o bem.

Eu amo a vida, querida,
com todo o mal que ela tem!
Só pelo bem – que há na vida
de se poder querer bem.

Morre o dia, tristemente,
na tarde crepuscular…
Dá uma saudade, na gente,
ao ver a noite chegar..

Esses teus olhos tão lindos,
misteriosos, profundos,
são dois abismos infindos
dois precipícios – dois mundos!..

Olhas pra mim, na verdade,
mas não me vês – este olhar
perdido está, na saudade,
que ficou noutro lugar…

Eu só, tu só, nós dois sozinhos…
O amor chegou certa vez,
misturou nossos trapinhos,
somos um mundo: – nós três!

Tudo passa – na verdade,
passa tudo – sem parar.
Só não passa esta saudade,
que ficou no teu lugar.

A vida é noite fechada,
num coração sem amor.
Amor é Luz – madrugada!
Raio de Sol – Esplendor!

Essa Maria – que existe,
chorando nos versos meus,
foi a saudade mais triste,
que alguém deixou num adeus!

Saudade – dor repartida
entre o que fica e o que vai.
Uma esperança perdida
num sonho azul que se esvai.

Menina – pobre, perdida,
que a vida jogou ao chão,
descendo a rampa da vida
rolando de mão em mão…

Também nas flores existe
uma saudade de amor…
Orvalho – saudade triste,
lacrimejando na flor…

Nas trilhas de Deus, teremos,
o caminho justo e certo,
para esse Deus, que não vemos,
mas que nos vê tão de perto.

Só a saudade é que explica
por que foi que ele chorou:
esse vazio – que fica,
no vazio – que ficou…

Cansado estou da esperança,
cansado do meu ser,
da própria vida – que cansa,
vivendo, assim, sem viver…

A minha alma – agradecida,
elevo a Deus com fervor,
pelo amor – maior da vida!
Que nasceu do nosso amor.

Perdoa, mãe a heresia!
Mas não posso mais rezar:
fui dizer – Ave Maria!
e comecei a chorar…

Tal qual ingênua criança
nas noites de São João,
vou soltando as esperanças,
como quem solta balão!…

As trovas feitas a esmo,
são difíceis de fazer:
conversa contigo mesmo,
que a trova sai sem querer.

Um vagido de criança
sacode todo meu ser:
era o pranto da esperança
que gritava pra viver.

Vejo-te, mãe, todo dia
que a tarde cai pra morrer
e que a voz da Ave Maria
vem minhalma enternecer…

Guarda, meu bem, na lembrança,
esta lembrança do bem:
quem não tiver esperança,
seja a esperança de alguém!…

Sempre que faço uma prece,
não sei que estranha visão,
a minha mãe aparece,
sorrindo em minha oração.

O trovador – simplesmente,
é uma pessoa feliz;
se às vezes diz o que sente,
nem sempre sente o que diz.

Pobre amor – triste saudade!…
Saudade – triste lembrança!..
De um grande amor – na verdade,
que não passou de esperança!…

Ao verme o verme me diz,
depois de me haver provado; e
bonito!… bebi anis…
Vou ficar embriagado…

Dá tantas voltas a vida,
a gente, atrás, a correr…
Que gente doida, varrida!
Correr tanto, pra morrer!

O destino predestina,
destinos da nossa vida…
A minha invertida sina,
deu-me uma sina invertida…

Tens no coração fecundo,
um patrimônio seguro;
essa riqueza do mundo:
ser bom, ser justo, ser puro.

Que será dessas crianças,
sem luz, sem teto, sem pão…
Uns farrapos de esperanças,
de uma triste geração!

Esses balões e as fogueiras,
trazem à minha lembrança,
as esperanças fagueiras,
dos meus tempos de criança!…

Tenho pena das crianças,
andrajosas, semi-nuas,
malbaratando esperanças,
pelas sarjetas das ruas!…

Eu seria bem feliz,
das mágoas que já sofri,
se pudesse, sendo anis,
ser somente para ti…

Meu coração desconhece,
a raiva, o ódio, o rancor,
Quanto mais vive e padece,
mais vida tem para o amor.

“É bebida apetecida,
– de gostosura sem fim…
Se bebo desta bebida,
eu fico cheio de mim…

Eu nada tenho de meu,
por isso vivo a cantar –
a graça que Deus me deu:
mulher, um filho – meu lar!

Alô!… Quem fala?… Esperança?….
– Um momento!… Vou chamar!…
Esperei… – pobre criança
que envelheceu a esperar!…

Hei de esperar, querida,
nessa esperança, sem fim,
de esperar-te toda a vida,
se a vida esperar por mim!

Pode ir! Tem liberdade,
de levar o que quiser!
Só não me leve a saudade,
que é seu retrato, mulher!

Que pobre vida – vivida
de muitos amigos meus;
desencantadas da vida
sem crença, sem fé, sem Deus.

Maria, só por maldade,
deixou-me a casa vazia…
Dentro da casa: saudade!
E na saudade: Maria!

Não desespere, querida,
que a vida foi sempre assim:
uma esperança perdida
que só se encontra no fim…

Fonte:
Luiz Otávio e J. G. De Araújo Jorge (organizadores). 100 Trovas de Anis Murad. Coleção “Trovadores Brasileiros”. RJ: Editora Vecchi – 1959

Deixe um comentário

Arquivado em Rio de Janeiro em Trovas, Trovas

Anis Murad (1904 – 1962)

Nasceu em 8 de julho de 1904 e faleceu em 23 de outubro de 1962.

Anis Murad, ele próprio o confessa, deve aos Jogos Florais de Friburgo a oportunidade de ter descoberto que trazia em si, sem saber, a “graça” da trova.
E concorrendo aos dois primeiros Jogos Florais, surgiu logo vitorioso, colhendo prêmios a mancheias.

O tema dos I Jogos Florais de Friburgo, foi o Amor. Cerca de 2.500 trovas foram enviadas, trovas mandadas dos mais distantes Estados brasileiros, e até de Portugal e Províncias Ultramarinas. Anis Murad conquistou o segundo lugar.

Sua trova, é uma pequenina jóia de lirismo, espontaneidade e graça:

Eu amo a vida, querida,
com todo o mal que ela tem,
só pelo bem que há na vida
de se poder querer bem.

Aquele balanceio das palavras, uma espécie de gingar feminino quando caminha, característica das boas trovas, – não fosse a trova mulher; aí está, no trocadilho, alternando nos dois versos finais as expressões “só pelo bem” e “querer bem”, além do efeito, tirado antes, pelo contraste entre “o mal”, e “só pelo bem.”

Todo mundo sabe que não há propriamente regras para a confecção de uma quadrinha. Mas a verdade, é sendo como é, um tipo por excelência de poesia popular, nascida quase para ser ouvida, a trova possui elementos de composição que se firmaram através de seu uso generalizado, por cantores populares, e por poetas de formação literária. E um destes elementos, é sem dúvida, esse balanceio das palavras a que me referi citando a trova de Anis Murad, e que dá à trova aquele ritmo dos quadris de uma mulher, quando a vemos, depois que passa por nós…
Eu diria, na “nossa língua”:

Ah! trova com que me enleio…
Tens um gingado qualquer
que lembra esse bamboleio
do corpo de uma mulher…


Sendo um dos vencedores, Anis Murad foi a Friburgo. Eu lhe avisara sobre os encantos da cidade. Ei-la!

“Jardim Suspenso” na serra
dentro da Serra do Mar,
é o céu mais perto da terra
que Você pode encontrar…”

Emocionou-se com as festas. Entusiasmou-se com a vitória alcançada, e preparou-se logo para concorrer aos II Jogos Florais. Mandando suas trovas sobre, SAUDADE, que era o novo tema do Concurso, Anis Murad conseguiu classificar entre as vinte primeiras trovas, nada menos que cinco! Conquistou o 1.º, 5.°, 11.°, 17.° e 20.° lugares. Chegamos a “ameaçá-lo” de mandar incluir um item especial no Regulamento dos futuros Jogos Florais, excluindo-o como concorrente… Era demais… O poeta açambarcara os Jogos Florais…

E haviam sido mandadas para os II Jogos Florais mais de 10 mil trovas, classificando-se, inclusive, em 7.° lugar, uma poetisa portuguesa, Ana Rolão Preto Martins Abano, de Benguela, Angola, África Ocidental Portuguesa.

Na solenidade de encerramento dos II Jogos Florais no Centro de Arte, de Friburgo, quando são entregues os diplomas, troféus e prêmios aos trovadores vitoriosos Anis Murad falou em nome de seus companheiros. Seu discurso foi… em trovas. E como é além de um trovador lírico, um trovador espirituoso e alegre fez referências especiais às autoridades presentes, inclusive ao então Ministro da Educação, Brígido Tinoco.

As trovas de Anis Murad para os II Jogos Florais, apresentavam uma característica: falavam quase todas em Maria. Eram trovas sobre a saudade, mas a saudade era da… Maria.

Por uma estranha coincidência, na mesma ocasião dos Jogos Florais, a cidade de Campos promovia pela, segunda vez o seu Salão Campista de Trovas, com exposição e concurso de trovas, sendo o tema, – Maria.

Anís Murad, entretanto, preferiu mandar as suas quadrinhas para o Concurso de Friburgo, e venceu galhardamente, de braços dados com a saudade… de sua Maria…
Eis as suas trovas vitoriosas:

em 1.º lugar:
Maria, só por maldade,
deixou-me a casa vazia…
Dentro da casa: saudade,
e na saudade: Maria!

em 5.º lugar
Debaixo de nossa cama,
que tu deixaste vazia,
o meu chinelo reclama
o teu chinelo – Maria.

em 11.º lugar
Saudade – rede vazia
a balançar tristemente…
minando a melancolia
que dorme dentro da gente.

em 16.º lugar
Essa Maria – que existe
chorando, nos versos meus,
foi a saudade mais triste
que alguém deixou num adeus.

em 20.º lugar
No meu ermo, “Soledade”,
alguém bateu, certo dia.
-“Quem é? – “sou eu! a Saudade!”
-“Meu Deus! a voz de Maria!…”
* * *

Tão excelente trovador, Anis Murad devia ser português… ou filho de portugueses Entretanto é filho de libaneses, e seu nome completo é Anis Murad Lasmar.

Trabalha no comércio, é contador. Entretanto, o que é mesmo na vida, é cantador.

Os Jogos Florais de Friburgo vieram retirar-lhe a tempo, escondido no peito, um coração cheio de cantigas.

Primogênito de oito irmãos, nasceu, segundo nos contou, de sete meses, e teve por incubadeira uma caixa de sapatos. Vamos dar-lhe a “viola”:

De sete meses gerado
vim ao mundo temporão…
Já fui tesouro guardado
em caixa de papelão…

Vim de longe, despachado
numa velha embarcação…
Sou nacional fabricado
com peças de importação…

Como já acentuei, a trova de Anis Murad não é apenas lírica. Anis é um grande emotivo, um grande sentimental Está na raça, no sangue. Mas é também, por temperamento, um espírito alegre, às vezes até, satírico. É de família. Seu irmão, Jorge Murad, (que teve uma trova classificada nos Jogos Florais de Pouso Alegre), é um excelente contador de histórias, um humorista que tem explorado nos programas de rádio e em audições teatrais, com muita graça, o tipo tradicional do “turco”, imitando-lhe a fala e os cacoetes.

A infância de Anis ele a passou no bairro de Noel Rosa, – em Vila Isabel, – e sua juventude, no Andaraí. Interessou-se pelo teatro, foi ator, e diretor de ensaios. Colaborou com Plácido Ferreira, integrando o elenco do seu “Teatro pelos Ares”; participou do “Teatro Sherlock” e de outras programações em várias emissoras cariocas. Por isso, o assunto lhe deu esta quadrinha:

O teatro é a vida da gente.
A Vida, é teatro também.
Mas só no teatro se sente
a vida que o teatro tem.

Anis acabou sendo Diretor da Casa dos Artistas.

Antes de se descobrir trovador, já fazia versos. E um dos maiores sucessos de nossa música popular e carnavalesca, o samba de parceria com Luiz Pimentel e Manoel Rabaça,

“Bebida, mulher e orgia”, tem letra sua.
Quem não cantou aqueles versos?

“É a lei do vagabundo
Quem bebe sente alegria
Sem mulher, sem orgia
Não há prazer nesse mundo

Na bebida afogo a dor
Na mulher vejo o prazer
Na orgia encontro até
A razão do meu viver

Mas se a bebida faltar
E a mulher fugir de mim
Na orgia hei de encontrar
O princípio do meu fim.”

E por falar em bebida: Anis “glosou” o seu próprio nome, nesta trovinha:

Eu seria bem feliz
das mágoas que já sofri,
se pudesse, sendo anis,
ser somente …“para ti”…

Eis, em poucas linhas, um rápido perfil deste trovador “libanês”, que encontrou na trova portuguesa a língua de seu coração brasileiro.

Anis Murad nesta “Coleção Trovadores Brasileiros” é um justo motivo de satisfação para mim e para Luis Otávio, os seus organizadores.

Sua presença é a comprovação de que, iniciativas como os “Jogos florais de Friburgo”, não são apenas movimentos culturais de incremento às letras e à poesia, mas a oportunidade para que verdadeiras vocações encontrem as condições necessárias para se revelarem e se afirmarem como valores.

Fonte:
Texto do prefácio do livro da Coleção “Trovadores Brasileiros”. Organização de Luiz Otávio e J.G. de Araujo Jorge. Editora Vecchi – 1959

Deixe um comentário

Arquivado em Biografia, Rio de Janeiro

Folclore Paranaense: Lenda de Vila Velha

A Taça (Vila Velha/PR)
Itacueretaba, antigo nome do que conhecemos hoje por Vila Velha, significa “a cidade extinta de pedras”.

Esse recanto foi escolhido pelos primitivos habitantes para ser o Abaretama, “terra dos homens”, onde esconderiam o precioso tesouro “itainhareru”.

Tendo a proteção de Tupã, era cuidadosamente vigiado pelos apiabas, varões escolhidos entre os melhores homens de todas as tribos. Os apiabas desfrutavam de todas as regalias, porém era-lhes vedado o contato com as mulheres, mesmo de suas próprias tribos. A tradição dizia que as mulheres, estando de posse do segredo do Abaretama, revelariam aos quatro ventos e chegada a notícia aos ouvidos do inimigo, esses tomariam o tesouro para si.

Dhui fora escolhido para chefe supremo dos apiabas. Entretanto, não desejava seguir aquele destino. Seu sangue se achava perturbado pelo fascínio feminino. As tribos rivais, ao terem conhecimento do fato, escolheram Aracê Poranga para tentar o jovem guerreiro e tomar-lhe o coração para conseguir o segredo do tesouro.

Não foi difícil Aracê se apaixonar completamente por Dhui. Numa tarde primaveril, Aracê veio ao encontro de Dhui trazendo uma taça de “uirucuri”, o licor de butias, para embebedar Dhui. No entanto, o amor já se assenhorava de sua razão e ela também tomou o licor, ficando ambos sob a sombra de um Ipê, languidamente entrelaçados.

Tupã vingou-se, desencadeando um terremoto que abalou toda a planície. A antiga planície foi transformada em um conjunto de suaves colinas. Abaretama transformou-se em pedra. O solo rasgou-se em alguns pontos, originando as Furnas. O precioso tesouro fora derretido, formando a Lagoa Dourada. Os dois amantes ficaram petrificados e, entre os dois, a taça ficou como o símbolo da traição. Diz a lenda que as pessoas mais sensíveis à natureza e ao amor, quando passam pelo local, ouvem a última frase de Aracê: xê pocê o quê (dormirei contigo).

E foi assim que Abaretama se tornou Itacueretaba.
======
Vila Velha

A 18 km de Ponta Grossa o cinzel das chuvas e dos ventos esculpiu figuras gigantescas no arenito. A formação arenítica é o resultado do depósito de um grande volume de areia, que aconteceu há aproximadamente 340 milhões de anos, no período carbonífero. Na época, a região estava coberta por um lençol de gelo. Com o degelo, o material foi abandonado no local. Após o retorno da erosão normal e a partir do engrossamento das águas dos riachos da frente glaciária, esses depósitos foram retrabalhados, originando os arenitos de Vila Velha. A transformação do conjunto rochoso não terminou. Vila Velha está exposta à ação da atmosfera, submetida à severa erosão das águas das chuvas e ao trabalho dos ventos. As formações sugerem as mais variadas figuras. Camelo, índio, noiva, garrafa, bota, esfinge e taça são algumas delas.

Fonte:
http://www.pontagrossa.pr.gov.br/vvelha

Deixe um comentário

Arquivado em Folclore Brasileiro, Paraná

J. G. De Araujo Jorge (Livro de Poemas I)

A Casa Abandonada

Abro a janela da minha alma e espio:
– tudo é negro é completa a escuridão…
Nesse estranho lugar, triste e vazio,
hoje habita somente a solidão

Há teias de saudade em cada canto,
e a poeira de um amor cobre o seu chão…
São sombrias as salas, – velho encanto
há nesse feio e escuro casarão

Uma ruína em meu peito, abandonada,
com muros desbotados… cheios de hera…
-como um túmulo à beira de uma estrada ,
que nada mais desta existência espera…

O tempo, pouco a pouco, já a consome,
– outrora, por exemplo – havia um nome
de mulher, no portal, mas se apagou…

Quantos homens como eu, na alma fechada,
vão levando uma casa abandonada
de onde alguém que partiu não mais voltou!..

A Cruz de Ninguém

Era uma cruz… pequena… de madeira…
em meio às outras cruzes, desprezada,
sobre um monte de terra, abandonada,
sem uma flor sequer por companheira…

Pendendo sobre o chão, tosca, bem feia,
cobria o corpo de um, que foi fadado
a ser talvez, na vida, um desgraçado,
hoje feliz sob um montão de areia…

Vendo-a tão só, nublou-se o meu olhar,
e orei por esse irmão que ali dormia,
pois morto eu fosse, e a minha cruz seria
tal como aquela, ao tempo, a se inclinar…
……………………………………………………………..

Ao partir… junto à cruz triste e sozinha
escrevi sobre a terra uma inscrição
que é bem possível que ainda seja a minha:

“Aqui se encontra alguém desconhecido,
um que nasceu talvez por irrisão
e que morreu, sem nunca ter nascido…”

A Ilusão de Ser Feliz

Silêncio… A Noite pesa sobre tudo,
e eu, quedo, triste, retraído e mudo
vou traduzindo a dor que me consola…

Deixo falar meu coração tristonho,
e assim, vou despertando um pobre sonho
que alguém me deu por derradeira esmola…

Relembro o doce amor que tanto adoro
e sinto que ao lembrá-lo, quase choro
talvez porque não sei me compreender…

Partiste…e nem sequer adeus te disse
só por temer que desse adeus surgisse
a triste confissão de meu sofrer.

Prefiro esse meu sonho por ventura
uma vaga esperança por tortura
e um porvir de quiméricas visões…

Feliz, eu me contento com a incerteza,
sentindo a vida, embora com tristeza,
uma linda cadeia de ilusões…

E é tudo que me resta. O coração
ainda tenho a pulsar, nesta visão
que, por que tive medo, não desfiz…

A Última Estrela

Voltaste as folhas, uma a uma, e agora
vais fechar este livro: a noite é finda…
O “meu céu interior…” já se descora
à luz de um dia que não vive ainda…

Não sei se achaste a minha noite linda,
se sentiste, como eu, o vir da aurora…
Vai a luz aumentando…A noite é finda
O “meu céu interior…” já se descora!…

Cada folha voltada, foi assim
como um raio de luz, a mais, brilhando…
– como uma estrela que encontrou seu fim…

Esta folha – é da noite, o último véu…
E este verso que lês, e vai findando,
a última estrela a se apagar no céu!…

A Vida Que Eu Sonhei…

Eu sonhei para mim, uma vida discreta
num lugar bem distante, a sós, tendo-te ao lado
– num castelo que fiz lá num reino encantado,
nesse reino que eu chamo o coração de um poeta…

Sonhei… Vi-me feliz na solidão de asceta,
bem longe deste mundo, a rir, despreocupado…
– acordando a escutar no arvoredo o trinado
das aves, e a dormir fitando a lua inquieta…

Vivia na ilusão daquele que ainda crê,
na vida, e o meu amor, eu o tinha idealizado
no romance de um lar coberto de sapê…

– Mentiras que eu sonhei!… No entanto hoje me ponho
muita vez a pensar no tal reino encantado
e sinto uma saudade imensa do meu sonho!…

Adormecer…

Muita vez, no silêncio, enquanto a noite desce
e pousa sobre a terra o seu manto dourado
de estrelas, no meu quarto, a sós, abandonado,
não tenho pelo mundo o mínimo interesse…

Mas, não sei bem dizer… dentro em meu peito cresce
um sonho, e, de repente, eu sinto, consolado
que alguém vem para mim, que alguém vem ao meu lado,
e me diz bem baixinho alguma estranha prece…

Então, tomo da pena, e espero calmamente…
Uma noite, porém, me lembro, adormeci
sentindo esse esplendor de um céu que está contente,

e não pus no papel mais que um nome sequer…
E só quando acordei, na folha branca, eu vi
que apenas tinha escrito um nome de mulher…

As Estações do Amor…

Eu tinha para mim que eras pura e sincera,
e por isso, talvez acreditei em ti…
Nesse tempo, em meu ser, fazia a primavera
e as flores do meu sonho em minha alma colhi…
Depois… Foi de repente… Ao passar da estação,
tornou-se o meu amor maior… e mais ardente…
Havia no meu peito o calor do verão,
– e julguei que eras minha, minha inteiramente…
E o tempo foi passando… E tudo, pouco a pouco
mudou – e me senti num completo abandono…
Caíram para sempre as ilusões – e eu, louco,
as vi secar no chão como folhas de outono…
E um dia… Veio o inverno insípido e tristonho,
– fazia muito frio… e em minha alma nevou…
E a neve foi caindo, e sepultou meu sonho
………………………………………………………………..

As estações do tempo… As estações do amor…
Parecem muito iguais… e diferem no entanto,
– naquelas há o voltar da alegria e da côr
ao de novo surgir, da primavera , o encanto…
Mas nas outras, depois do inverno, nada existe…
Tudo é branco… tristonho… frio e desolado,
– recorda-se a chorar – e vê-se o como é triste
lembrar a primavera antiga do passado !…

Canteiro de Opalas

Céu azul… céu lilás… Noite azul, tropical
que através da janela eu fito deslumbrado,
como o sapo infeliz, de olhar quieto e parado
que mora sem ninguém no fundo do quintal…

Abóbada que encima a imensa catedral
do Universo, onde o poeta, um Deus por Deus deixado
na terra, vai abrir seus olhos, consolado
na extática visão de uma obra magistral…

Quando o vejo a pulsar numa noite bonita,
Parece, nem sei bem – um “canteiro” de opalas
cujo pólen é a luz que nos astros palpita…

Opalas que eu adoro! Em vão tento colhê-las!
– Quisera na minha alma azul também plantá-las
para ter no meu peito um punhado de estrelas!…

Fonte:
JORGE, J. G. De Araújo. Meu Céu Interior. 1ª edição, setembro,1934

Imagem = montagem por José Feldman (poema de Jorge; retrato; bandeiras do Acre (nascimento) e do Rio de Janeiro (radicou-se))

Deixe um comentário

Arquivado em Livro de Poemas, O poeta no papel

Machado de Assis (A Herança)

Venância tinha dois sobrinhos, Emílio e Marcos; o primeiro de vinte e oito, o segundo de trinta e quatro anos. Marcos era o seu mordomo, esposo, pai, filho, médico e capelão. Ele cuidava-lhe da casa e das contas, aturava os seus reumatismos e arrufos, ralhava-lhe às vezes, brandamente, obedecia-lhe sem murmúrio, cuidava-lhe da saúde e dava-lhe bons conselhos. Era um rapaz tranqüilo, medido, geralmente silencioso, pacato, avesso a mulheres, indiferente a teatros, a saraus. Não se irritava nunca, não teimava, parecia não ter opiniões nem simpatias. O único sentimento manifesto era a dedicação a D. Venância. Emílio era em muitos pontos o contraste de Marcos, seu irmão. Primeiramente, era um dândi, turbulento, frívolo, sedento de diversões, vivendo na rua e na casa dos outros, dans le monde. Tinha cóleras, que duravam o tempo das opiniões; minutos apenas. Era alegre, falador, expansivo, como um namorado de primeira mão. Gastava às mãos largas. Vivia duas horas por dia em casa do alfaiate, uma hora em casa do cabeleireiro, o resto do tempo na Rua do Ouvidor; salvo o tempo em que dormia em casa, que não era a mesma casa de D. Venância, e o pouco em que ia visitar a tia. Exteriormente era um elegante; interiormente era um bom rapaz, mas um verdadeiro bom rapaz.

Não tinham pai nem mãe; Marcos era advogado; Emílio formara -se em medicina. Por um alto sentimento de humanidade, Emílio não exercia a profissão; o obituário conservava o termo médio usual. Mas, tendo um e outro herdado alguma coisa dos pais, Emílio mordia razoavelmente a parte da herança, que aliás o irmão administrava com muito zelo.

Moravam juntos, mas tinham a casa dividida de maneira que não podiam tolher a liberdade um do outro. Às vezes passavam-se três ou quatro dias sem se verem; e é justo dizer que as saudades primeiro feriam Emílio do que ao irmão. Ao menos era ele quem, depois de larga ausência, se assim podemos chamar-lhe, entrava mais cedo para casa a esperar que Marcos viesse da casa de D. Venância.

— Por que não foste à casa de titia? perguntava Marcos, logo que ele dizia estar a esperá-lo durante muito tempo.

Emílio erguia os ombros, como rejeitando a idéia desse sacrifício voluntário. Depois, conversavam, riam um pouco; Emílio referia anedotas, fumava dois charutos, e só se levantava quando o outro confessava estar a cair de sono. Emílio, que não dormia antes das três ou quatro, nunca tinha sono; lançava mão de um romance francês e ia devorá-lo na cama até a hora habitual. Mas esse frívolo tinha ocasiões de seriedade; numa doença do irmão, velou-lhe longos dias à cabeceira, com uma dedicação verdadeiramente materna. Marcos sabia que ele o amava.

Não amava, entretanto, a tia; se fosse mau, podia detestá-la; mas se não a detestava, confessava intimamente que ela o aborrecia. Marcos, quando o irmão repetia isso, tratava de o reduzir a melhor sentimento; e com tão boas razões que Emílio, não se atrevendo a contestá-lo e não querendo sair de sua opinião, recolhia-se a um eloqüente silêncio.

Ora, D. Venância encontrava essa repulsa, talvez pelo excesso mesmo de seu afeto. Emílio era o predileto de seus sobrinhos; ela adorava-o. A melhor hora do dia era a que ele lhe destinava a ela. Na ausência falava de Emílio a propósito de qualquer coisa. Geralmente o rapaz ia à casa da tia, entre as duas e três horas; raras vezes à noite. Que alegria quando ele entrava! que afagos! que intermináveis carinhos!

— Vem cá, ingrato, senta-te aqui ao pé da velha. Como passaste de ontem?

— Bem, respondia Emílio sorrindo contrafeito.

— Bem, arremedava a tia; diz aquilo como se não fosse verdade. E quem sabe mesmo?

Tiveste alguma coisa?

— Nada, não tive nada.

— Pensei.

D. Venância tranqüilizava-se; depois vinha um rosário de perguntas e outro de anedotas. No meio de umas e outras, se via algum gesto de incômodo no sobrinho, interrompia-se para perguntar se estava incomodado, se queria tomar alguma coisa. Mandava fechar as janelas de onde supunha que vinha ar; fazia-o trocar de cadeira, se lhe parecia que a que ele ocupava era menos cômoda. Esse excesso de cautelas e cuidados fatigavam o moço. Ele obedecia passivamente, falava pouco, ou o menos que lhe era possível. Quando resolvia sair, tornava-se perfidamente mais alegre e carinhoso, açucarava um cumprimento, punha-lhe mesmo alguma coisa do coração, e despedia-se. D. Venância, que ficava com essa impressão última, confirmava-se nos seus sentimentos a respeito de Emílio, a quem proclamava o primeiro sobrinho deste mundo. Pela sua parte, Emílio descia as escadas mais aliviado; e no coração, lá no mais fundo do coração, uma voz secreta sussurrava estas palavras cruéis:

— Quer-me muito bem, mas é muito amoladora.

A presença de Marcos era uma troca de papéis. A acariciada era ela. D. Venância tinha seus momentos de enfado e de zanga, gostava de ralhar, de bater no próximo. Sua alma era uma fonte de duas bicas, vertia mel por uma e vinagre pela outra. Sabia que o melhor meio de aturar menos, era não imitá-la. Calava-se, sorria, aprovava tudo, com uma docilidade exemplar. Outra vezes, conforme o assunto e a ocasião, reforçava os sentimentos pessimistas da tia, e ralhava, não com igual veemência, porque ele estava incapaz de a fingir, mas na conformidade das idéias dela. Presente a tudo, não esquecia, no meio de um discurso de D. Venância, de lhe acomodar melhor o banquinho dos pés. Sabia-lhe os hábitos, e ordenava as coisas de maneira que lhe não faltasse nada. Ele era a Providência de D. Venância e o seu pára-raios. De mês em mês prestava-lhe contas; e nessas ocasiões só uma alma forte podia resistir ao suplício. Cada aluguel trazia um discurso; cada obra nova ou conserto produzia objurgatória. Ao cabo, D. Venância não ficava com a menor idéia das contas, tão ocupada estava em desabafar o seu reumatismo; e Marcos, se quisesse afrouxar um pouco a consciência, podia dar às contas certa elasticidade. Não o fazia; era incapaz de o fazer.

Quem dissesse que na dedicação de Marcos entrava um pouco de interesse, podia dormir com a consciência tranqüila, pois não caluniava ninguém. Havia afeto, mas não havia só isso. D. Venância possuía bons prédios, e tinha só três parentes.

O terceiro parente era uma sobrinha, que morava com ela, moça de vinte anos, graciosa, doida por música e confeitos. D. Venância também a estimava muito, quase tanto como a Emílio. Meditava até casá-la antes de morrer; e só tinha dificuldade em achar um noivo digno da noiva.

Um dia, no meio de uma conversa com Emílio, aconteceu-lhe dizer:

— Quando te casares, adeus tia Venância! Esta palavra foi um raio de luz.

— Casar! pensou ela, mas por que não com a Eugênia?

Nessa noite não cuidou mentalmente de outras coisas. Marcos nunca a vira tão taciturna; chegou a supor que ela estivesse zangada com ele. D. Venância não disse, durante essa noite, mais de quarenta palavras. Olhava para Eugênia, lembrava-se de Emílio, e dizia consigo:

— Mas como é que não lembrei disso há mais tempo? Nasceram um para o outro. São bonitos, bons, jovens. — Só se ela tiver algum namoro; mas quem seria?

No dia seguinte sondou a moça; Eugênia, que não pensava em ninguém, disse francamente que trazia o coração como lho haviam dado. D. Venância exultou; riu-se muito; jantou mais do que de costume. Restava sondar Emílio no dia seguinte. Emílio respondeu a mesma coisa.

— Deveras! exclamou a tia.

— Pois então!

— Não gostas de nenhuma moça? não tens nada em vista?

— Nada.

— Tanto melhor! tanto melhor!

Emílio saiu aturdido e um pouco vexado. A pergunta, a insistência, a alegria, tudo aquilo tinha um ar pouco tranqüilizador para ele.

— Quererá casar comigo?

Não perdeu muito tempo em conjecturas. D. Venância, que, com os seus sessenta anos, receava qualquer surpresa da morte, apressara-se a falar diretamente à sobrinha. Era difícil; mas D. Venância passava por ter um gênio original, que é a coisa mais vantajosa que pode acontecer à gente, quando quer passar por cima de certas consideraeões. Perguntou diretamente a Eugênia se estimaria casar com Emílio; Eugênia, que nunca pensara em tal, respondeu que lhe era indiferente.

— Indiferente só? perguntou D. Venância.

— Posso casar.

— Sem vontade, sem gosto, só por obedecer?…

— Oh! não!

— Velhaca! Confessa que gostas dele.

Eugênia não se lembrara disso; mas respondeu com um sorriso e baixou os olhos, gesto que podia dizer muita coisa e nada. D. Venância interpretou-o como uma afirmativa, talvez porque ela preferia a afirmativa. Quanto a Eugênia, ficou abalada com a proposta da tia, mas não lhe durou muito o abalo; foi tocar música. De tarde pensou outra vez na conversa que tivera, começou a lembrar-se de Emílio, foi ver o retrato dele que havia no álbum. Realmente, entrou a parecer-lhe que gostava do moço. A tia, que o dizia, é porque o percebera. Que admira? Um rapaz bonito, elegante, distinto. Era isso; devia amá-lo; devia casar com ele.

Emílio foi menos fácil de contentar-se. Quando a tia lhe deu a entender que havia uma pessoa que o amava, teve um sobressalto; quando lhe disse que era uma moça, teve outro. Céus! um romance! A imaginação de Emílio construiu logo vinte capítulos, cada qual mais cheio de luas e miosótis. Enfim, soube que se tratava de Eugênia. A noiva não era de desprezar; mas tinha o defeito de ser um santo de casa.

— E escusas de fazer essa cara, disse D. Venância; eu já percebi que gostas dela.

— Eu?

— Não; hei de ser eu.

— Mas, titia…

— Deixa-te de partes! Já percebi. Não me zango; pelo contrário, aprovo e até desejo. Emílio quis recusar de uma só vez; mas era difícil; tomou a resolução de contemporizar. D. Venância, a muito custo, concedeu-lhe oito dias.

— Oito dias! exclamou o sobrinho.

— Em menos tempo fez Deus o mundo, redargüiu D. Venância sentenciosamente. Emílio sentiu que a coisa era um pouco dura de roer assim feita às pressas. Comunicou suas impressões ao irmão. Marcos aprovou a tia.

— Também tu?

— Também. A Eugênia é bonita, gosta de ti; titia faz gosto. Que mais queres?

— Mas é que nunca pensei em semelhante coisa.

— Pois pensa agora. Em oito dias pensarás nela e talvez acabes por gostar… Acabas com certeza.

— Que maçada!

— Não acho.

— É porque não é contigo.

— Se fosse era a mesma coisa.

— Casavas?

— No fim de oito dias.

— Admiro-te. Custa-me a crer que um homem se case, assim como faz uma viagem a Vassouras.

— O casamento é uma viagem a Vassouras; não custa mais nem menos.

Marcos disse ainda outras coisas mais, no sentido de animar o irmão. Ele aprovava o casamento, não só porque Eugênia merecia, como porque era muito melhor que tudo ficasse em casa.

Não interrompeu Emílio as suas visitas cotidianas; mas os dias passavam-se e ele não se sentia mais disposto ao casamento. No sétimo dia, despediu-se da tia e da prima, com uma cara lúgubre.

— Qual! dizia Eugênia; ele não casa comigo.

No oitavo dia, D. Venância recebeu uma carta de Emílio, pedindo-lhe muitos perdões, fazendo-lhe carícias sem fim, mas acabando por uma negativa franca.

D. Venância ficou desconsolada; tinha feito nascer esperanças no coração da sobrinha, e não as podia realizar de nenhuma maneira. Chegou a ter um movimento de cólera contra o rapaz, mas arrependeu-se dele até morrer. Um sobrinho tão amável! que recusava com tão bons modos! Era pena que não aceitasse, mas se ele não amava, podia ela obrigá-lo ao casamento?

Suas reflexões foram essas, tanto à sobrinha, que aliás não chorou, posto ficasse um pouco triste, como ao sobrinho Marcos, que só tarde soubera da recusa do irmão.

— Aquilo é uma cabeça de vento! disse ele.

D. Venância defendeu-o, como confessou que se acostumara à idéia de deixar Eugênia casada e bem casada. Enfim não se pode forçar os corações. Isso mesmo repetiu ela quando Emílio a foi ver daí a dias, um tanto envergonhado da recusa. Emílio, que esperava achá-la no mais agudo de seus reumatismos, achou-a risonha como de costume.

Mas a recusa de Emílio não foi aceita tão filosoficamente pelo irmão. Marcos não achara a recusa, nem bonita nem prudente. Era um erro e uma tolice. Eugênia era uma noiva digna até de um sacrifício. Sim; tinha qualidades notáveis. Marcos atentou nelas. Viu que efetivamente a moça não valia o modo por que o irmão a tratara. A resignação com que aceitava a recusa era na verdade digna de respeito. Marcos simpatizou com esse proceder. Não menos lhe doeu a dor da tia, que não alcançava realizar o desejo de deixar Eugênia entregue a um bom marido.

— Que bom marido não podia ser ele?

Marcos seguiu esta idéia com alma, com afinco, com desejo de acertar. Sua solicitude dividiu-se entre Eugênia e D. Venância — o que era servir a D. Venância. Um dia entestou com o assunto…

— Titia, disse ele, oferecendo-lhe torradinhas, eu desejava pedir-lhe um conselho.

— Tu? Pois tu pedes conselhos, Marcos?…

— Às vezes, redargüiu ele sorrindo.

— Que é?

— Se a prima Eugênia me aceitasse por marido, a senhora aprovava o casamento?

D. Venância olhou para Eugênia espantada, Eugênia, não menos espantada do que ela, olhou para o primo. Este olhava para ambas.

— Aprovava? repetiu ele.

— Que dizes? disse a tia voltando-se para a moça.

— Farei o que titia quiser, respondeu Eugênia olhando para o chão.

— O que eu quiser, não, tornou D. Venância; mas confesso que aprovo, se for do teu gosto.

— É? perguntou Marcos.

— Não sei, murmurou a moça.

A tia cortou a dificuldade dizendo que ela podia responder daí a quatro, seis ou oito dias.

— Quinze ou trinta, acudiu Marcos; um ou mais meses. Meu desejo é que fosse logo, mas não desejo surpreender seu coração; prefiro que escolha com tranqüilidade. É assim que nossa boa tia deseja também…

D. Venância aprovou as palavras de Marcos, e deu à sobrinha dois meses. Eugênia não disse sim nem não; mas no fim daquela semana declarou à tia que estava pronta a

receber o primo por esposo.

— Já! exclamou a tia, referindo-se à curteza do prazo da resposta.

— Já! respondeu Eugênia, referindo-se à data do casamento.

E D. Venância, que o percebeu pelo tom, riu-se muito e deu a notícia ao sobrinho. O casamento efetuou-se dai a um mês. As testemunhas foram D. Venância, Emílio e um amigo da casa. O irmão do noivo parecia satisfeito com o resultado.

— Ao menos, dizia ele consigo, ficamos todos satisfeitos.

Marcos ficou morando em casa, de modo que nem retirava a companhia de Eugênia nem a sua. D. Venância tinha assim uma vantagem mais.

— Agora o que é preciso é casar o Emílio, dizia ela.

— Por quê? perguntava Emílio.

— Porque é preciso. Meteu-se-me isso na cabeça.

Emílio não ficou mais amigo da casa depois do casamento. Continuava a lá ir o menos que podia. Com os anos, D. Venância ia ficando de uma ternura mais difícil de suportar, pensava ele. Para compensar a ausência de Emílio, tinha ela o zelo e a companhia de Eugênia e Marcos. Este era ainda o seu mestre e guia.

Um dia adoeceu deveras a sra. D. Venância; esteve um mês de cama, durante o qual os dois sobrinhos casados não lhe saíram da cabeceira. Emílio ia vê-la, mas só fez quarto a última noite, quando ela ficara delirante. Antes disso ia vê-la, e saía de lá muito contra a vontade dela.

— Onde está o Emílio? perguntava de quando em quando.

— Já vem, diziam-lhe os outros.

O remédio que Emílio lhe dava era bebido sem hesitação. Sorria até.

— Pobre Emílio! vais perder tua tia.

— Não diga isso. Ainda vamos dançar uma valsa.

— No outro mundo, pode ser.

A moléstia agravou-se; os médicos desenganaram a família. Mas antes do delírio, sua última palavra foi ainda uma lembrança a Emílio; e quem a ouviu foi Marcos que cabeceava de sono. Se quase não dormia!

Emílio não estava presente quando ela expirou. Morreu, enfim, sem nada dizer de suas disposições testamentárias. Não era preciso; todos sabiam que ela tinha o testamento em poder de um velho amigo de seu marido.

D. Venância nomeou Emílio seu herdeiro universal. Aos outros sobrinhos deixou um razoável legado. Marcos contava com uma divisão, em partes iguais, pelos três. Enganara-se, e filosofou muito sobre o caso. Que havia feito o irmão para merecer tamanha distinção? Nada; deixara-se amar apenas. D. Venância era a imagem da fortuna.

Fonte:
Publicado originalmente em Jornal das Famílias 1878

Deixe um comentário

Arquivado em O Escritor com a Palavra

Adolfo Caminha (Análise da Obra “Bom-Crioulo”)

O romance Bom-Crioulo, de Adolfo Caminha, faz parte do Realismo e do Naturalismo. A história de paixão e tragédia não é produto de fantasia romântica, mas baseada num fato real que escandalizou o Rio de Janeiro no século XIX.

Caminha constrói a partir de um fato verídico, uma ficção forte, ousada, muito atual até os dias de hoje. Fez isso para chocar e se vingar da sociedade hipócrita que o rodeava.

Bom-Crioulo, publicado em 1895, é dividido em 12 capítulos, onde a ação se passa na segunda metade do século XIX, no Rio de Janeiro. Destacam-se o espaço aberto, normalmente dias claros e quentes, o mar aberto, e o espaço fechado do quartinho de Amaro.

Boa parte da força e da eficácia de Bom-Crioulo está no manejo lúcido que o autor faz desses conflitos, escolhendo o quê, quando e como contar deste verdadeiro enredo de notícia de jornal sensacionalista. A narrativa é simples e direta, mas tem as suas manhas: não entrega o jogo facilmente, cria suspenses, vai e volta no tempo, de modo a dar a cada momento, a cada situação, a sua atualidade e a sua história, o seu desenvolvimento próprio. Assim, o enredo central se desdobra em alusões a muitas outras histórias; e o dia-a-dia do século XIX brasileiro se insinua a cada passo, fazendo ecoar as falas e as ações das personagens centrais.

A intenção do romance resume-se em acompanhar as personagens em seu movimento, como se fosse o expectador que registra a evolução do drama alheio sem interferir. Nele tudo caminha numa ordem inalterável até o epílogo, com uma supervalorização do instinto sobre os sentimentos, do animal sobre o racional.

FOCO NARRATIVO

Narrado em 3ª pessoa, por narrador onisciente, percebe-se que as inúmeras descrições que aparecem no romance, condizentes com a estética naturalista que privilegia a observação meticulosa dos fatos, buscam não se confundir com a história, nem com as personagens.

Preso aos ideais do escritor naturalista — exatidão na descrição, apelo à minúcia e culto ao fato — o narrador conta a história de modo linear, gradativo, utilizando-se de uma linguagem clara, direta, objetiva, com poucos objetivos. O que será importante são os fatos narrados e não a opinião que se pode ter sobre eles. Não há, portanto, da parte desse narrador, qualquer julgamento moral das personagens.

A história quase se narra por si, pela exposição direta dos fatos, que vão montando a estrutura narrativa, ou seja, a história das três personagens envolvidas num caso de amor: Amaro, Carolina e Aleixo.

TEMÁTICA

O tema principal é a dificuldade do amor homossexual, centrado na relação entre o negro Amaro e o jovem e bonito Aleixo. Faz presente também o tema da mulher madura que deseja um amante jovem. A originalidade de Bom-Crioulo se manifesta no triângulo amoroso sobre o qual se sustenta. Tradicionalmente, um triângulo amoroso é composto por dois homens em luta por uma mulher, ou duas mulheres que disputam o mesmo homem. Em Bom-Crioulo, Amaro e Aleixo são marinheiros e, acima de tudo, como tal se comportam, favorecendo a anulação das diferenças étnicas, que se dá não pela ascensão do negro fugido, mas pelo rebaixamento de ambos à condição de prisioneiros do mesmo sistema e do “vício”. Por fim, o terceiro do triângulo é uma mulher que atua como homem, pois conquista Aleixo em vez de ser conquistada. Adolfo Caminha colhe ao vivo, de sua experiência como oficial da marinha, o material do romance.

Este tema do romance, o homossexualismo, manifesto na construção do triângulo amoroso, é tratado com crueza e sem nenhum indício de preconceito pelo escritor naturalista, que vê no vício um objeto de estudo que deve ser esclarecido e compreendido.

O homossexualismo, encarado no romance como vício ou perversão, é tratado, portanto, através de um olhar naturalista e, conseqüentemente, limitado: não há o enfoque mais subjetivo dos sentimentos despertados; não há autonomia do caráter: as personagens estão acorrentadas às leis deterministas (não há drama de consciência ou mesmo drama moral). Há uma resposta mecânica, instintiva aos fatos e, nesse sentido, o livro perde um lado da questão, o que não esmaece sua força e valor literário.

Outro tema é a problemática da vida dos marinheiros, que ficam a maior parte do tempo longe da terra e de mulheres, o sofrimento dos castigos corporais impiedosos e rigorosos. Este é a temática que se entrelaça com o tema central.

TEMPO E ESPAÇO

O romance se passa em dois espaços: no mar, a bordo de uma corveta, e na Rua da Misericórdia, localizada nos subúrbios do Rio de Janeiro, nos fins do século XIX. Os dois lugares são descritos em seus aspectos mais degradantes e negativos, ressaltando a miséria daqueles que aí vivem.

A abertura do romance se faz com uma detalhada descrição da corveta, local inicial da ação.

Por meio de uma descrição minuciosa e da riqueza de detalhes que ajudam a compor o ambiente externo, percebe-se como o autor naturalista se debruça sobre o meio que terá um papel decisivo no comportamento das personagens.

O ambiente de bordo é marcado pelo trabalho duro e por uma vida sem privacidade, o que possibilita a eclosão das mais diversas perversões. O ajuntamento de homens favorecia a promiscuidade entre seres que vivenciam a solidão da reclusão da vida no mar e que, sobretudo, sentiam a falta de liberdade, vítimas de um sistema duro e cruel – a vida na Marinha:

Mas, havia ordem para não desembarcar, e Bom-Crioulo, como toda a guarnição, passou a tarde numa sensaboria, cabeceando de fadiga e sono, ocupado em pequenos trabalhos de asseio e manobras rudimentares. – Diabo de vida sem descanso! O tempo era pouco para um desgraçado cumprir todas as ordens. E não as cumprisse! Golilha com ele, quando não era logo metido em ferros… Ah! Vida, vida!… Escravo na fazenda, escravo a bordo, escravo em toda parte… E chamava-se a isso servir á Pátria!

Por esse trecho, pode-se notar uma crítica implícita a Abolição dos Escravos que parece não passar de uma ilusão, já que os homens provenientes das camadas mais baixas da população continuam a ser explorados.

Num segundo momento, a história se desloca para a terra, mais precisamente para um quarto na Rua da Misericórdia, onde Amaro e Aleixo, após terem se conhecido no navio, vivem o ápice e o declínio de seu relacionamento.

Ao retratar o espaço urbano, Adolfo Caminha fala a respeito de um tipo de moradia muito comum no Rio de Janeiro, durante o final do século XIX: as habitações coletivas. Os habitantes dessas moradias eram brancos, mulatos e mestiços, sempre pessoas exploradas. Ao redor dessas habitações, há a presença de negociantes portugueses em ascensão, como o açougueiro que sustenta D. Carolina, e que se aproveitam, de algum modo, da miséria dessas pessoas.

Desse modo, o comportamento das personagens está condicionado pela pobreza do ambiente que as circunda e que, por sua vez, é decorrente do momento histórico por que passava o Brasil, durante o Segundo Reinado.

PERSONAGENS

Em Bom-Crioulo, Caminha constrói com segurança e coerência o personagem Amaro, mulato dominado pela paixão homossexual, que o leva para caminhos sadomasoquistas à perversão e finalmente ao crime. O autor soube manejar as cenas e personagens com naturalidade.

As personagens de um romance naturalista raramente são dotadas de alguma profundidade psicológica. Muito próximas dos tipos, também chamados de personagens planas, não evoluem no decorrer da narrativa, de forma que suas ações apenas confirmam as poucas características que as definem.

Amaro: protagonista, ex-escravo convocado para a marinha.Trata-se de um homem muito forte, com trinta anos de idade e que não conseguiu realizar-se sexualmente com as mulheres. Duas tentativas deram-lhe grande decepção e o deixaram frustrado. Só conseguiu consumar o ato com o jovem Aleixo. Apresenta certa profundidade psicológica, mas que é totalmente envolvido por sentimentos e instintos que o dominam, impedindo-o de perceber com clareza a situação conflituosa que vive. Algumas vezes, surgem percepções esparsas, mas nada suficientemente forte para modificar o destino do negro, movido pela paixão. Por um lado, Amaro é extremamente forte fisicamente. Sua força provém do trabalho escravo e depois do trabalho na Armada, em que se engajara após ter fugido da fazenda. Os castigos físicos que lhe foram impingidos, tanto pelo feitor quanto a bordo, tornaram-lhe resistente e lhe deram a energia de um animal brioso. A força do negro é realçada pelo narrador, numa das cenas iniciais do romance, por meio da descrição de uma cena em que Amaro está sendo punido com a chibata: — Uma! cantou a mesma voz. — Duas!.., três!…

Aleixo: grumete, belo rapaz de olhos azuis, que embarca no sul. Tem quinze anos e mexe sexualmente com Amaro. Cede às investidas e caprichos do crioulo, mas quando aparece ocasião troca-o por uma mulher. Isso o leva ser assassinado por Amaro, por causa do ciúme. Aleixo surge desde o princípio como o oposto de Amaro: branco, fisicamente fraco e pueril, subjugado pelas circunstâncias e por quem lhe é mais forte — será assim com Amaro e com Carolina. O ar de submissão de Aleixo vai transfigurando-se, ao longo da narrativa, numa espécie de esperteza camaleônica. Nada sabemos sobre seu passado, a não ser que era filho de uma pobre família de pescadores que o tinham feito entrar para a Marinha em Santa Catarina. A ligação com Amaro oferece-lhe um novo mundo, bastante diferente daquele de sua origem, e que lhe propicia, acima de tudo, favores e proteção.

D. Carolina: amiga e rival de Amaro. É amiga de Amaro por tê-lo salvo em um assalto e inimiga por depois conquistar o namorado do crioulo. D. Carolina era uma portuguesa que alugava quartos na Rua da Misericórdia somente a pessoas de “certa ordem”, gente que não se fizesse de muito honrada e de muito boa, isso mesmo rapazes de confiança, bons inquilinos, patrícios, amigos velhos… Não fazia questão de cor e tampouco se importava com a classe ou profissão do sujeito, Marinheiro, soldado, embarcadiço, caixeiro de venda, tudo era a mesmíssima cousa: o tratamento que lhe fosse possível dar a um inquilino, dava-o do mesmo modo aos outros. D. Carolina revela-se, desde o inicio, uma mulher de negócios, cuja mercadoria era seu próprio corpo. Teve seus revezes e conseguiu se reerguer, observando como poderia lucrar com os outros, já que também lucravam com ela. No entanto, vive só.

Herculano: marinheiro dotado de certa melancolia. Relaxado, tinha as unhas sujas. Evitava a companhia dos outros. Foi preso e castigado por ter sido apanhado se masturbando.

Agostinho: o guardião. Homem de grande estatura, reforçado, especialista em dar chibatadas. Ama sua profissão, por isso permanecia a maior parte do tempo a bordo.

Santana: marinheiro que sofreu castigo por ter brigado com Herculano. Era gago, chorava com facilidade e era manhoso.

ENREDO

A obra Bom-Crioulo não padece das inverosimilhanças de A Normalista, do mesmo autor. Mais denso e enxuto, apresenta um ótimo retrata da vida de marinheiros durante a 2ª metade do século XIX, no Rio de Janeiro. A personagem principal, o mulato Amaro, é bastante coerente em sua passionalidade. Vários episódios do romance também refletem a própria vivência do autor a bordo de navios, registrando a aspereza da vida no mar, da brutalidade dos castigos corporais, já denunciados por Caminha em seu tempo de estudante.

O romance realça pela originalidade da situação dramática: dois marinheiros – Amaro, apelidado o Bom-Crioulo, um “latagão de negro, muito alto e corpulento, figura colossal de cafre… com um formidável Sistema de músculos” e Aleixo “um belo marinheiro de olhos azuis” – brutalizados e solitários pela vida a bordo de um navio, afeiçoam-se e entretêm relações homossexuais. Ao desembarcarem na cidade do Rio de Janeiro, vão viver em um cômodo alugado por uma portuguesa, ex-prostituta, D. Carolina. Mas o idílio amoroso entre Amaro e Aleixo é interrompido pelo dever de voltar ao mar:

Decorreu quase um ano sem que o fio tenaz dessa amizade misteriosa, cultivada no alto da Rua da Misericórdia, sofresse o mais leve abalo. Os dois marinheiros viviam um para o Outro: completavam-se /…/ Mas Bom-Crioulo um dia foi surpreendido com a notícia de que estava nomeado para servir noutro navio.
====================
Biografia de Adolfo Caminha em http://singrandohorizontes.blogspot.com/2009/11/adolfo-caminha-1867-1897.html
===================
Fonte:
Análise realizada pelo Prof. Bartolomeu Amâncio da Silva. Bacharel em Letras, pela USP, professor de literatura da rede Objetivo (colégios e cursos pré-vestibular). Disponível em http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/analises_completas

Deixe um comentário

Arquivado em Análise da Obra, Estante de Livros

Lih Editorial (Publicação de Livros)

A Lih editorial fechou parceria com três gráficas diferentes para publicar livros impressos com a melhor qualidade e avançada tecnologia, oferecendo ao autor um serviço rápido e as melhores condições de pagamento.

Prazo de 40 dias!

Revisar, editar, diagramar, consolidar, registrar e imprimir: tudo isso em 40 dias, com 4 envios de prova ao autor antes da aprovação final e impressão. Nossa equipe ainda cria uma página na WorK, onde o autor pode acompanhar todo o processo de edição, publicação, impressão e entrega, num relatório diário.

Tiragem Mínima de 300 exemplares!

Não adianta publicar e imprimir naquele monte de papel para deixar tudo no canto da casa ou no estoque da livraria, não é mesmo? Foi pensando nisso que oferecemos a impressão mínima de 300 exemplares por edição.

Vendemos também!

Não só publicamos o livro da melhor forma, mas também ajudamos na distribuição e na venda. Não temos clientes, mas parceiro: propomos negociação com livrarias e distribuidoras e também vendemos os livros na ediShop e também em nosso site. Assim, em vez de ficar com aquele monte de caixa de livros em casa, os livros vão da gráfica direto para a venda!

Edição Eletrônica!

Todos os livros publicados pela Lih editorial também são editados em formato eletrônico (ebook), e registrado no International Standard Ebook Number, que garante os Direitos Autorais e protege contra plágios. Os ebooks são vendidos em nosso site e na ediShop, e o autor recebe 92% sobre o preço de venda.
E mais:
Os Direitos Autorais são exclusivos do autor
O livro tem ISBN e é protegido mundialmente contra plagio

Entrega Grátis!

O autor recebe os livros onde for preciso e não paga nada mais por isso.

Confira algumas simulações de orçamento:

Livro Padrão

180 PAGINAS

Capa: até 4 cores, impressa em CARTAO SUPREMO 250gr com orelhas
Miolo: Texto em preto, impresso em PAPEL SULFITE 75gr 14,00×21,00cm
Acabamento: Capa vincada e laminada. Lomba colada.
Quantidade(s) Preço Unitário Valor Total
300 exemplares 8,63 2.590,00
500 exemplares 6,94 3.470,00
1.000 exemplares 4,68 4.680,00

Livro Padrão

120 PAGINAS

Capa: até 4 cores, impressa em CARTAO SUPREMO 250gr com orelhas
Miolo: Texto em preto, impresso em PAPEL SULFITE 75gr 14,00×21,00cm
Acabamento: Capa vincada e laminada. Lomba colada.
Quantidade(s) Preço Unitário Valor Total
300 exemplares 7,83 2.350,00
500 exemplares 4,92 2.960,00
1.000 exemplares 3,89 3.890,00

Formas de Pagamento
À vista: 5% de desconto2 Parcelas: 1ª na contratação e 2ª na entrega do serviço.

10 Parcelas: No Cartão de Crédito, Juros de 2% por parcela

15 Parcelas: No Cartão de Crédito, Entrada de no mínimo 30% do valor total, Juros de 4,3% por parcela

Entrada de até 20%+Parcelamento em Cheque – Mediante Consulta de Crédito

Somos uma Editora

A Lih editorial é um dos setores da multi-editoria Hímpeto Budget Networks, empresa séria do ramo editorial que há 2 anos presta serviços a escritores, jornalistas, editoras e jornais e já atendeu mais de 2000 clientes em mais de 17 países.

Solicite um orçamento!

Lih editorial – Hímpeto Budget Networks
Avenida Paulista, 2300 – Andar Pilotis
São Paulo – SP – CEP 01310-300
11 28474941 – 3449 4366

Deixe um comentário

Arquivado em Notícias Em Tempo, Publicação

Anfrísio Lima (1887 – 1973)

Anfrísio Lima é um nome, uma legenda histórica, símbolo cultural do Município de Manga/MG.

Político, foi antes de tudo um cultor das letras. É patrono da Cadeira nº 09, da Academia de Letras, Ciências e Artes do São Francisco, ocupada pelo acadêmico Ronaldo José de Almeida.

Ele nasceu no tempo do Império, na cidade de Cabrobó – Estado de Pernambuco, sendo seu pai o farmacêutico Domiciano Pastor Ferreira Lima, e sua mãe dona Almerinda Omenídia Gonzaga Lima, de famílias cearenses e pernambucanas.

Fez o curso primário e o secundário na cidade de Petrolina – Estado de Pernambuco. Transferiu-se para Simplício Mendes, no Piauí, e de lá para São João do Piauí, no mesmo Estado, onde exerceu o magistério público, trabalhou na Justiça Criminal e militou na imprensa local, colaborando com o semanário “A Voz do Sertão”, onde publicou suas primeiras produções poéticas.

Em 1914, transferiu-se com seus pais para a localidade de Manga no Estado de Minas Gerais, na época, um pequeno burgo.

Já como pessoa influente, Anfrísio trabalhou pela emancipação político-administrativa do distrito, então pertencente ao município de Januária, marcando sua presença na história do novo Município.

Foi eleito, por unanimidade de votos, o primeiro Presidente da Câmara e Agente Executivo Municipal (cargo que equivale ao de Prefeito atualmente). Exerceu na ditadura “Getúlio Vargas”, o cargo de Prefeito Municipal de Manga por diversas vezes. Foi Diretor-Gerente da Cia. Manga Industrial e Exportadora S/A e trabalhou, até o seu último dia de vida, no escritório de advocacia do Dr. Luís Carneiro Vianna.

Suas produções literárias constam de várias antologias e coletâneas, como “A Sombra do Arco-Iris” de Malba Tahan e “Trovadores do Brasil” de Aparício Fernandes.

Foi delegado da União Brasileira de Trovadores, em Manga.

O mestre, poeta e imortal Anfrísio Lima deixou o convívio dos mortais no dia 02 de agosto de 1973, aos 86 anos, em Manga, cidade que ele adotou, de coração, como a sua verdadeira terra.

O curso de sua proveitosa existência publicou:
“Sombras” (poesias),
“Flagrantes da Vida” (poesias).
“Últimas sombras” (poesias e poemas),
“Espinhos de Mandacaru” (romance regional),
“Vozes d’alma” (trovas),
“Trovando a Vida” (trovas),
“Pauta com o Diabo e outros contos” (contos regionais) e
“O Rio São Francisco” (poemas).

Por ocasião de seu falecimento, entre tantas homenagens merecidas, o ilustre advogado Adalberto Pereira da Silva fez importante pronunciamento:

Manga e sua gente não poderiam jamais se ausentar nesta hora de extrema dor. E coube-me, por todos, o triste e doloroso dever de prestar as últimas homenagens àquele que tanto fez por merecê-las. Não posso, entretanto, encarregar-me de contar agora a história de sua vida, isto porque seria o mesmo que contar a história da vida manguense, tanto foi sua influência nos destinos desta “Terra querida de fértil chão”.

O seu nome ilustre, a sua figura inconfundível encontra-se tomando lugar proeminente nas fases mais brilhantes da nossa história, porquanto aqui ocupou os mais variados cargos e funções políticas. E, em todos eles (os cargos) e em todas elas (as funções), soube se conduzir com energia, sabedoria e inteligência incomuns. Todos os que aqui se encontram – tanto os seus correligionários, como os seus adversários políticos, sentem esta partida inesperada, esta perda inexorável, porque acima das paixões e lides políticas está o homem amigo, o cidadão íntegro, o bate-papo agradável e confortante do Mestre e Poeta Anfrísio Lima.

Também eu, talvez mais do que qualquer um de vocês, sinto profundamente a morte deste homem, porque era meu sonho maior, de há muito acalentado, fazer meu DEBU no campo das Ciências Jurídicas, introduzido pelas mãos e orientado pela inteligência deste homem a quem me orgulho de chamar de Mestre. Na verdade, Mestre quer no campo jurídico, quer no campo literário, porque disso nos deu provas soberbas e porque disso somos testemunhas – tantas foram as obras de sua lavra. O Mestre e Poeta Anfrísio Lima foi homem que conheceu a riqueza e dividiu-a com todos. Foi também homem que conheceu infortúnios e humilhações e guardou-as consigo, e, no entanto, soube perdoar a todos, indistintamente”.

Fonte:
O Norte de Minas
Caleidoscópio, por Petrônio Braz. 29 abr 2009.

Deixe um comentário

Arquivado em Biografia, Minas Gerais, Trovas

J. G. De Araujo Jorge (Livro de Sonetos I)

A DOR MAIOR

Não quis julgar-te fútil nem banal
e chamei-te de criança tão-somente,
– reconheço, no entanto, infelizmente,
que, porque te quis bem, julguei-te mal.

Pensei até, ( e o fiz ingenuamente…)
ter encontrado a companheira ideal…
Quis julgar-te das outras diferente,
e és como as outras todas afinal…

Hoje, uma dor estranha me consome
e um sentimento a que não sei dar nome
faz-me sofrer, se lembro o amor perdido…

A dor maior… A maior dor, no entanto,
vem de pensar de Ter-te amado tanto
sem que ao menos tivesses merecido!…

A ESPERA

Ela tarda… E eu me sinto inquieto, quando
julgo vê-la surgir, num vulto, adiante,
– os lábios frios, trêmula e ofegante,
os seus olhos nos meus, linda, fitando…

O céu desfaz-se em luar… Um vento brando
nas folhagens cicia, acariciante,
enquanto com o olhar terno de amante
fico à sombra da noite perscrutando…

E ela não vem…Aumenta-me a ansiedade:
– o segundo que passa e me tortura,
é o segundo sem fim da eternidade…

Mas eis que ela aparece de repente!…
– E eu feliz, chego a crer que igual ventura
bem valia esperar-se eternamente!…

A LUZ

Ela veio…( E a minha alma tinha a porta
aberta, e ela entrou…Casa vazia
e estranha, esta que em plena luz do dia
lembrava a tumba de uma noite morta…)

Que ela havia chegado, eu nem sabia…
Mas, pouco a pouco, e a data não importa,
minha alma, por encanto, se conforta,
e há risos pela casa…E há alegria…

Quem abrira as janelas? Quem levara
o fantasma da dor sempre ao meu lado?
Os antigos retratos, quem rasgara?

E acabei por fazer a descoberta:
– ela espantara as sombras do passado
e a luz entrara pela porta aberta!

A VIDA

I
“…Mudarás, todos mudam, e os espinhos
com surpresa verás por todo lado,
– são assim nesta vida os seus caminhos
desde que o homem no mundo tem andado…

Não hás de ser o eterno namorado
com as mãos e os lábios cheios de carinho,
– hoje, juntos os dois… tudo encantado!
– amanhã, tudo triste… os dois sozinhos!…

E sentindo o teu braço então vazio,
abatido verás que não resistes
à inclemência do tempo úmido e frio!

Rolarás por escarpas e barrancos:
sobre o epitáfio dos teus olhos tristes
trazendo a campa dos cabelos brancos!”

I I

” . . Tem sido assim e assim será… Mais tarde
o que hoje pensas chamarás: – quimera!
E esse esplendor que nos teus olhos arde,
será a visão de extinta primavera…

Escondido à .traição, como uma fera,
bem em silêncio, e sem fazer alarde,
o Destino que é mau e que é covarde,
naquela sombra adiante já te espera!

E num requinte de perversidade
faz de cada ilusão, de cada sonho,
a ruína de uma dor… e uma saudade…

E se voltares, notarás então
desesperado, ao teu olhar tristonho
que em vão sonhaste… e que viveste em vão!…”

I I I
“… A vida é assim, segue e verás, – a vida
é um dia de esperança, um longo poente
de incertezas cruéis, e finalmente
a grande noite estranha e dolorida…

Hoje o sol, hoje a luz, hoje contente
a estrada a percorrer suave e florida…
– amanhã, pela sombra, inutilmente
outra sombra a vagar, triste e perdida…

A vida é assim, é um dia de esperança
uma réstia de luz entre dois ramos
que a noite envolve cedo, sem tardança…

E enquanto as sombras chegam, nós, ao vê-las,
ainda somos felizes e encontramos
a saudade infinita das estrelas!…”

IV
“…A vida é assim, uma ânsia… feito a vaga
que se ergue e rola a espumejar na areia,
– apor esse bem que a tua mão semeia
espera o mal que ainda terás por paga!

A essa hora boa que te agrada e enleia
sucede uma outra torturante e aziaga,
– a vida é assim… um canto de sereia
que à morte nos convida, e nos afaga…

O teu sonho melhor bem pouco dura,
e há sempre “um amanhã” cheio de dor
para “um hoje” nem sempre de ventura…

Toma entre as mãos o búzio da alegria
e surpreso verás que no interior
canta profunda e imensa nostalgia!…”

V
Isso tudo nos dizem, – entretanto
nós dois seguimos braços dados,
creio que se tu sabes que te adore tanto
do que ouviste talvez não tens receio…

A vida, – é o nosso amor, o nosso encanto!
Nem a podemos mais parar no meio…
Chorar? – bem sei que choras, mas teu pranto
é a alegria que canta no teu seio…

O mundo é bom e nós o cremos, basta!
E se um amor tão grande nos enleva
e pela vida unidos nos arrasta,

– que eu te abrace e te apoies sempre em mim,
e desafiando o mundo envolto em treva
sigamos juntos para um mesmo fim !

ALVORADA ETERNA

Quando formos os dois já bem velhinhos,
já bem cansados, trôpegos, vencidos,
um ao outro apoiados, nos caminhos,
depois de tantos sonhos percorridos…

Quando formos os dois já bem velhinhos
a lembrar tempos idos e vividos,
sem mais nada colher, nem mesmo espinhos
nos gestos desfolhados e pendidos…

Quando formos só os dois, já bem velhinhos,
lá onde findam todos os caminhos
e onde a saudade, o chão, de folhas junca…

Olha amor, os meus olhos, bem no fundo,
e hás de ver que este amor em que me inundo
é uma alvorada que não morre nunca!

AMARGURA

Só podes me ofertar o silêncio e a amargura,
– meu pobre amor de ti só espera a indiferença…
Perdoa o meu amor… perdoa-me a loucura
que quem tem, como eu tenho, um coração, não pensa…

Há muito pela vida eu seguia à procura
de alguém que viesse encher de luz minha descrença…
Foi então que te vi… e julguei que a ventura
pudesse ainda encontrar nesta jornada imensa…

E foi assim que um dia eu fui sentimental…
Acreditei no amor… E, talvez por castigo
fizeste-me sofrer – mas não te quero mal…

Quem amou, fui eu só… Eu nunca fui amado!…
Mereço a minha dor, e este sofrer bendigo
na amargura cruel de me julgar culpado!

Fonte:
JORGE, J. G. De Araújo. “Meus Sonetos de Amor. RJ. 1a edição, 1961.

Imagem = montagem por José Feldman com imagens obtidas na internet

Deixe um comentário

Arquivado em livro de sonetos

Ana Miranda (Análise da obra “Boca do Inferno”)

Análise realizada pelo Prof. Bartolomeu Amâncio da Silva. Bacharel em Letras, pela USP, professor de literatura da rede Objetivo (colégios e cursos pré-vestibular).
===========
Romance histórico, Boca do Inferno é o primeiro romance de Ana Miranda e foi publicado em 1989. Foi traduzido nos Estados Unidos, Inglaterra, França, Alemanha, Itália, Espanha, Suécia e Holanda, entre outros países.

Na Bahia, em plena efervescência mercantilista do século XVII, Ana Miranda restaura os cacos de um país popularmente tido como pacífico, substituindo essa mentira calcificada por uma de caráter ficcional, mais em sintonia com a verdade histórica. O assassinato do alcaide-mor é mero pretexto fabular para dividir em dua a sociedade baiana de então: perseguidores e perseguidos.

FOCO NARRATIVO

Romance escrito em 3ª pessoa.

ESTRUTURA

O romance é dividido em 6 capítulos: A Cidade, O Crime, A Vingança, A Devassa, A Queda e O Destino.

TEMPO E ESPAÇO

Boca do Inferno se passa no século XVII (1863), na Bahia colonial, durante o governo tirânico do militar Antônio de Souza de Menezes, apelidado de Braço de Prata, por usar uma peça deste metal no lugar do braço (perdido numa batalha naval contra os invasores holandeses).

A ação se passa em Salvador. Nessa cidade de desmandos e devassidão, desenrola-se a trama de Boca do Inferno, recriação de uma época turbulenta centrada na feroz luta pelo poder entre o governador Antônio de Souza de Menezes, o temível Braço de Prata, e a facção liderada por Bernardo Vieira Ravasco, da qual faziam parte o padre Antônio Vieira e o poeta Gregório de Matos.

LINGUAGEM

Linguagem histórica, com expressões chulas (vulgares), uma referência à sátira mordaz do poeta Gregório de Matos Guerra.

PERSONAGENS

Gregório de Matos Guerra: poeta do Barroco. O boca do inferno – genial canalha – fazia críticas mordazes aos políticos da Bahia do século XVI.

Padre Antônio Vieira: em seus sermões e cartas, atacava o clero brasileiro e políticos, revelando a seus fiéis as contradições sociais.

Antônio de Sousa Menezes: governador da Bahia – O Braço de Prata.

Gonçalo Ravasco: inimigo de Antonio de Sousa Menezes.

Bernardo Ravasco: irmão de Gonçalo Ravasco.

Bernardina Ravasco: filha de Bernardo Ravasco.

Maria Berco: empregada dos Ravasco e amante de Gregório de Matos.

Tele de Menezes: secretário do governador.

Donato Serotino: mestre de esgrima.

Antonio de Brito: assassino de Francisco Teles de Menezes.

Anica de Mel: cafetina.

ENREDO

A narrativa assim se inicia: “Numa suave região cortada por rios límpidos, de céu sempre azul, terras férteis, florestas de árvores frondosas, a cidade parecia ser a imagem do Paraíso. Era, no entanto, onde os demônios aliciavam almas para povoarem o Inferno” (Miranda, 1998: 12).

O assassinato do alcaide-mor emerge como desencadeador de uma perseguição que será empreendida pelos ocupantes do poder estabelecido aos supostos culpados, tendo como contraponto os atos, os ditos e os escritos do padre Antônio Vieira e de Gregório de Matos, o Boca do Inferno. Pouco a pouco, o pulsar da vida nessa cidade colonial brasileira nos será revelado. Como nos confidencia no início da narrativa Gregório de Matos, nessa cidade, “antigamente, havia muito respeito. Hoje, até dentro da praça, nas barbas da infantaria, nas bochechas dos granachas, na frente da forca, fazem assaltos à vista” (Miranda, 1998: 13).

Lentamente, a vida social, política e econômica irá surgir de forma viva e densa, revelando, junto à tensa disputa, novas vozes presentes em um cotidiano de trabalho, prazeres, sofrimento, felicidade, religiosidade, sensualidade, prostituição, conchavos e falcatruas.

A Cidade – Descrição da Bahia do século XVII – imagem de um paraíso natural, mas onde os demônios aliciavam almas para proverem o inferno – há também a apresentação do poeta sátiro Gregório, o Boca do Inferno, de estilo barroco.

O Crime – Francisco Teles de Menezes é emborrado por 8 homens encapuzados, tem sua mão arrancada do braço e é morto por Antônio de Brito. O motivo se deu por perseguição política – estarão envolvidos no crime: Ravasco, irmão do Padre Vieira e Moura Rolim, primo de Gregório. Os homens fogem para o Colégio dos Jesuítas, mas o governador da Bahia – Antônio de Sousa Menezes, O Braço de Prata, será avisado e começará uma terrível perseguição contra todos envolvidos.

A Vingança – Antônio de Brito será torturado e delatará os envolvidos – Viera será perseguido – mas por representar a igreja e o poder papal, o governador releva, mas quer o irmão Bernardo Ravasco preso e destituído do cargo de Secretário do Estado. Ao tentar proteger a filha Bernardina Ravasco, Gregório conhece Maria Berco, que será presa ao saber que ela possuía a mão e o anel do Alcaide (o anel será penhorado). São confiscados de Bernardo documentos escritos e os poemas de Gregório. Bernardina é presa para pressionar Ravasco a se entregar.

A Devassa – Rocha Pita é nomeado desembargador para investigar a morte do Alcaide. Palma, também desembargador, nega a vingança planejada pelo governador e por falta de provas, exige a soltura dos envolvidos mas, para soltar Maria Berco, Gregório teria que pagar uma fiança de 600 mil réis.

A Queda – Bernardino é libertado e expatriado. O governador é destituído do cardo e o Marquês de Minas é nomeado para substituí-lo, restituir o cargo de secretário a Bernardo Ravasco e se apresentar imediatamente ao Rei de Portugal. Mesmo assim sai do Brasil com muitas riquezas. O próximo governador, Antônio Luís da Câmara Coutinho, também será satirizado pelo poeta Gregório que terá sua morte encomendada, mas só o próximo governador, João de Lancastre, é que conseguirá prendê-lo e expatriá-lo para a Angola, volta mais tarde para Pernambuco, mas será proibido de escrever suas sátiras. Volta a advogar e morre em 1695, aos 59 anos.

O Destino – Padre Vieira lutará por justiça social através de seus sermões, morre cego e surdo em 1697. Bernardo Ravasco recebe sentença favorável ao crime contra o Alcaide e é substituído pelo filho, Gonçalo Ravasco. Maria Berco ficará rica mas deformada, rejeita pedidos de casamento à espera do poeta Gregório, que se casa com uma negra viúva, Maria de Povos, mas não se afasta da vida de devassidão pelos bordéis da cidade. “…se eu tiver que morrer, seja por aqui mesmo. E valha-me Deus, que não seja pela boca de uma garrucha, mas pela cona de uma mulher.” A cidade da Bahia cresceu, modificou-se o cenário de prazer e pecado da cidade onde viveu o poeta Boca do Inferno.

Fonte:
http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/analises_completas/b/boca_do_inferno

Deixe um comentário

Arquivado em Análise da Obra, Estante de Livros

Ana Miranda (1951)

Nasceu em 19/08/1951, em Fortaleza (CE) .

Mudou-se para o Rio de Janeiro aos quatro anos de idade. Em 1959 foi para Brasília, ao encontro de seu pai, engenheiro, que trabalhava na construção da cidade. Em 1969 voltou para o Rio de Janeiro, a fim de prosseguir com seus estudos de artes.

Romancista, poeta, ex-atriz (do filme Como era gostoso o meu francês), desenhista, cronista e roteirista.

Ana Miranda colaboradora da revista Caros Amigos, mas começou na literatura por meio de poemas e poesias, surgindo seus dois primeiros livros: Anjos e Demônios (Editora José Olympio/INL, Rio de Janeiro, 1979) e Celebrações do Outro (Editora Antares, Rio, 1983). 0 sucesso literário foi obtido com Boca do inferno (1989), uma biografia romanceada do poeta Gregório de Matos, que se tornou clássico, foi traduzido para mais de 20 idiomas e lhe rendeu o Prêmio Jabuti de Revelação em 1990.

O retrato do rei (1991) é outro mergulho na história do Brasil colonial. São obras que resultam de copiosas pesquisas históricas e que alimentam sua criação literária.

O livro seguinte é uma trama contemporânea: Sem pecado (1995). Mas logo retoma a história e faz um mergulho na vida e obra do poeta Augusto dos Anjos com A última quimera (1995), outro sucesso de crítica e público.

Seu interesse é mais pela pesquisa da linguagem do que pela história propriamente dita. “Sempre tive muito encanto pela palavra, com a formação e o poder das palavras… quando eu faço um livro sobre o Gregório de Matos, na verdade o que me interessa é a linguagem dele”. No entanto, seu apreço pela história é declarado: “Eu gosto do passado. Quando escrevo é como se estivesse lá. Estudo, faço os levantamentos de época, mas no texto nada disso deve aparecer, porque eu me impregno daquilo tudo, tenho que ser aquilo. Trabalho com a s lacunas da história“.

Em 1996, Ana Miranda publicou mais um romance de ficção histórica, Desmundo, que conta com a história de mulheres de órfãs portuguesas que vieram para o Brasil a fim de se casarem com os colonos, inspirado em episódio histórico mencionado numa carta do padre Manoel da Nóbrega, em 1554. Desmundo é uma estonteante recriação do Brasil no século XVI, visto sob inédito olhar de uma mulher, pois é narrado na primeira pessoa. Neste romance Ana Miranda explode em sua maior vocação, que é o tratamento da palavra a partir da intertextualidade e da poesia. Em Desmundo ela explora um trabalho experimental com a língua portuguesa arcaica, tornando-se uma autora ainda mais original e imprevista. Ainda em 1996, Ana Miranda publicou a novela Clarice, que reconta, criativa e ousadamente, a vida de Clarice Lispector, a grande escritora ucraniana-brasileira, que revolucionou, no Brasil, o modo psicológico de abordagem dos personagens.

O romance Amrik, 1997, cujo tempo histórico é o fim do século XIX, fala sobre os imigrantes libaneses em São Paulo. É a bela história ficcional de um senhor cego, no Líbano em lutas contra os drusos, que se vê na iminência de uma fuga por questões políticas, e pede ao irmão que lhe dê um dos seis filhos para lhe servir de guia. O pai dá a única filha mulher, a inesquecível personagem Amina, que é a narradora do livro. O tio cego, Naim, ensina a menina a ler, para que ela leia em voz alta para ele os livros de sua biblioteca. Os dois libaneses acabam no Brasil, na América, ou Amrik, e Amina é envolvida num episódio que também se refere ao erro transformador. Aí Ana Miranda encontra uma chave experimentalista para junção de música, pois a narradora é dançarina libanesa, poesia, com a fala solta de um fluxo de consciência de alguém que mal sabe falar o português. Um resultado imprevisível, e uma leitura eletrizante, para quem aprecia as ousadias literárias. Criado em cima de textos clássicos da literatura árabe.

Em 2000 partiu para outra experiência literária e publicou Cadernos de sonhos, um livro “de arte”, primorosamente editado pela Dantes Editora. Trata do registo de seus sonhos ocorridos em 1973.
A minha literatura sempre foi muito onírica. Eu crio os meus livros quando estou sonhando. Acordo no meio da noite com cenas, palavras, frases que vou anotando“.

Em 2002, Ana Miranda publicou o romance Dias & Dias, como todos os seus outros romances, pela Companhia das Letras. Com uma narrativa que mais parece um diário, pela aparente informalidade da linguagem e pelas informações sobre o Brasil do século XIX, Ana Miranda recria a vida de um dos nossos maiores poetas românticos: Gonçalves Dias. Há um esgarçamento da linguagem, que adquire uma singeleza romântica, pois o livro recria sentimentos e significados do Romantismo Brasileiro. Esse livro recebeu o Jabuti na categoria Romance, em 2003, assim como o prêmio da Academia Brasileira de Letras, no mesmo ano e categoria.

Deus-dará (2003) é uma reunião de crônicas escritas por Ana Miranda para a revista ”Caros Amigos”. Em 2004, foi publicado o primeiro livro infanto-juvenil da autora, Flor do cerrado, que também inaugura a literatura autobiográfica em sua obra. Nesse mesmo ano, Ana Miranda publicou Prece a uma aldeia perdida, poesia longa que corporifica todo o sentimento de exílio e perda de origens e raízes da autora, em cima da última frase de Iracema, do José de Alencar, “Tudo passa, e nada passará, sobre a terra“. A autora publicou mais cinco livros infantis: Lig e o gato de rabo complicado, e Lig e a casa que ri, pela Companhia das Letrinhas; Mig o descobridor, e Mig, o sentimental, pela editora Record; e Carta do tesouro, pela editora Armazém da Cultura, num texto inspirado pela Declaração dos Direitos da Criança.

Em 2009, veio a público mais um romance dessa autora, intitulado Yuxin, alma, ambientado nas florestas do Acre, em 1919, baseado em pesquisa linguística realizada pelo historiador Capistrano de Abreu. Segundo o poeta Marco Lucchesi, autor do texto de apresentação do inovador romance, Yuxin é “uma câmara de ecos por onde ressoam harmonias e dissonâncias na interlíngua da índia Yuxin“. O livro, que tem uma excelente capa com desenho da escritora, vem acompanhado de um cd de Marlui Miranda, com o mesmo título. Marlui Miranda é cantora e compositora de música indígena brasileira, e irmã da escritora, que lhe dedica o romance.

Carta do tesouro, infantil e adulto, Armazém da Cultura, Fortaleza, 2010;
Mig, o sentimental, infantil, Editora Record, Rio, 2010;

Apesar de Ana Miranda escrever sobre temas relativos a nossa história literária, e demonstrar preocupação na conservação e preservação do tesouro literário brasileiro, sua obra mergulha em um tema que se refere a sua experiência, enquanto mulher, e autora, e de tantas pessoas, nos dias atuais, que é o sentimento de exílio, belamente expresso em seu romance, Dias & Dias, sobre o poeta do exílio, Gonçalves Dias, autor da “Canção do exílio”, a mais famosa de todas as poesias brasileiras: “Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá…” Os romances de Ana Miranda são fartamente estudados, e adotados para estudos literários, como criação de um contexto das escolas literárias do Barroco e do Romantismo brasileiros. A autora trabalha também sobre um tema bastante contemporâneo: a alteridade; ela jamais parece aceitar ser algo próximo de si, busca recriar-se em personagens diferentes de sua experiência e sua memória.

Além da produção literária, Ana Miranda escreve artigos, resenhas e ensaios para jornais e revistas, roteiros de cinema e trabalha na edição de originais, organizando obras de nomes como Vinícius de Morais e Otto Lara Resende.

Foi escritora visitante na Universidade de Stanford em 1996, e faz palestras e leituras em universidades e instituições culturais de diversos países. Desde 1999 Ana Miranda faz parte do grupo de escritores que concede anualmente, em Roma, o Prêmio União Latina de Romance.

Fontes:
http://www.tirodeletra.com.br/biografia/AnaMiranda.htm
http://www.resenhando.com/rg/rg0104.htm
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ana_Miranda

Deixe um comentário

Arquivado em Biografia, Ceará., Rio de Janeiro

Machado de Assis (A Senhora do Galvão)

Começaram a rosnar dos amores deste advogado com a viúva do brigadeiro, quando eles não tinham ainda passado dos primeiros obséquios. Assim vai o mundo. Assim se fazem algumas reputações más, e, o que parece absurdo, algumas boas. Com efeito, há vidas que só têm prólogo; mas toda a gente fala do grande livro que se lhe segue, e o autor morre com as folhas em branco. No presente caso, as folhas escreveram-se, formando todas um grosso volume de trezentas páginas compactas, sem contar as notas. Estas foram postas no fim, não para esclarecer, mas para recordar os capítulos passados; tal é o método nesses livros de colaboração. Mas a verdade é que eles apenas combinavam no plano, quando a mulher do advogado recebeu este bilhete anônimo:

“Não é possível que a senhora se deixe embair mais tempo, tão escandalosamente, por uma de suas amigas, que se consola da viuvez, seduzindo os maridos alheios, quando bastava conservar os cachos…”

Que cachos? Maria Olímpia não perguntou que cachos eram; eram da viúva do brigadeiro, que os trazia por gosto, e não por moda. Creio que isto se passou em 1853. Maria Olímpia leu e releu o bilhete; examinou a letra, que lhe pareceu de mulher e disfarçada, e percorreu mentalmente a primeira linha das suas amigas, a ver se descobria a autora. Não descobriu nada, dobrou o papel e fitou o tapete do chão, caindo-lhe os olhos justamente no ponto do desenho em que dois pombinhos ensinavam um ao outro a maneira de fazer de dois bicos um bico. Há dessas ironias do acaso, que dão vontade de destruir o universo. Afinal meteu o bilhete no bolso do vestido, e encarou a mucama, que esperava por ela, e que lhe perguntou:

— Nhanhã não quer mais ver o xale?

Maria Olímpia pegou no xale que a mucama lhe dava e foi pô-lo aos ombros, defronte do espelho. Achou que lhe ficava bem, muito melhor que à viúva. Cotejou as suas graças com as da outra. Nem os olhos nem a boca eram comparáveis; a viúva tinha os ombros estreitinhos, a cabeça grande, e o andar feio. Era alta; mas que tinha ser alta? E os trinta e cinco anos de idade, mais nove que ela? Enquanto fazia essas reflexões, ia compondo, pregando e despregando o xale.

— Este parece melhor que o outro, aventurou a mucama.

— Não sei… disse a senhora, chegando-se mais para a janela, com os dois nas mãos.

— Bota o outro, nhanhã.

A nhanhã obedeceu. Experimentou cinco xales dos dez que ali estavam, em caixas, vindos de uma loja da rua da Ajuda. Concluiu que os dois primeiros eram os melhores; mas aqui surgiu uma complicação — mínima, realmente — mas tão sutil e profunda na solução, que não vacilo em recomendá-la aos nossos pensadores de 1906. A questão era saber qual dos dois xales escolheria, uma vez que o marido, recente advogado, pedia-lhe que fosse econômica. Contemplava-os alternadamente, e ora preferia um, ora outro. De repente, lembrou -lhe a aleivosia do marido, a necessidade de mortificá-lo, castigá-lo, mostrar-lhe que não era peteca de ninguém, nem maltrapilha; e, de raiva, comprou ambos os xales.

Ao bater das quatros horas (era a hora do marido) nada de marido. Nem às quatro, nem às quatro e meia. Maria Olímpia imaginava uma porção de coisas aborrecidas, ia à janela, tornava a entrar, temia um desastre ou doença repentina; pensou também que fosse uma sessão do júri. Cinco horas, e nada. Os cachos da viúva também negrejavam diante dela, entre a doença e o júri, com uns tons de azul-ferrete, que era provavelmente a cor do diabo. Realmente era para exaurir a paciência de uma moça de vinte e seis anos. Vinte e seis anos; não tinha mais. Era filha de um deputado do tempo da Regência, que a deixou menina; e foi uma tia que a educou com muita distinção. A tia não a levou muito cedo a bailes e espetáculos. Era religiosa, conduziu-a primeiro à igreja. Maria Olímpia tinha a vocação da vida exterior, e, nas procissões e missas cantadas, gostava principalmente do rumor, da pompa; a devoção era sincera, tíbia e distraída. A primeira coisa que ela via na tribuna das igrejas, era a si mesma. Tinha um gosto particular em olhar de cima para baixo, fitar a multidão das mulheres ajoelhadas ou sentadas, e os rapazes, que, por baixo do coro ou nas portas laterais, temperavam com atitudes namoradas as cerimônias latinas. Não entendia os sermões; o resto, porém, orquestra, canto, flores, luzes, sanefas, ouros, gentes, tudo exercia nela um singular feitiço. Magra devoção, que escasseou ainda mais com o primeiro espetáculo e o primeiro baile. Não alcançou a Candiani, mas ouviu a Ida Edelvira, dançou à larga, e ganhou fama de elegante.

Eram cinco horas e meia, quando o Galvão chegou. Maria Olímpia, que então passeava na sala, tão depressa lhe ouviu os pés, fez o que faria qualquer outra senhora na mesma situação: pegou de um jornal de modas, e sentou-se, lendo, com um grande ar de pouco caso. Galvão entrou ofegante, risonho, cheio de carinhos, perguntando-lhe se estava zangada, e jurando que tinha um motivo para a demora, um motivo que ela havia de agradecer, se soubesse…

— Não é preciso, interrompeu ela friamente.

Levantou-se; foram jantar. Falaram pouco; ela menos que ele, mas em todo o caso, sem parecer magoada. Pode ser que entrasse a duvidar da carta anônima; pode ser também que os dois xales lhe pesassem na consciência. No fim do jantar, Galvão explicou a demora; tinha ido, a pé, ao teatro Provisório, comprar um camarote para essa noite: davam os Lombardos. De lá, na volta, foi encomendar um carro…

— Os Lombardos? interrompeu Maria Olímpia.

— Sim; canta o Laboceta, canta a Jacobson; há bailado. Você nunca ouviu os Lombardos?

— Nunca.

— E aí está por que me demorei. Que é que você merecia agora? Merecia que eu lhe cortasse a ponta desse narizinho arrebitado…

Como ele acompanhasse o dito com um gesto, ela recuou a cabeça; depois acabou de tomar o café. Tenhamos pena da alma desta moça. Os primeiros acordes dos Lombardos ecoavam nela, enquanto a carta anônima lhe trazia uma nota lúgubre, espécie de Requiem. E por que é que a carta não seria uma calúnia? Naturalmente não era outra coisa: alguma invenção de inimigas, ou para afligi-la, ou para fazê-los brigar. Era isto mesmo. Entretanto, uma vez que estava avisada, não os perderia de vista. Aqui acudiu-lhe uma idéia: consultou o marido se mandaria convidar a viúva.

— Não, respondeu ele; o carro só tem dois lugares, e eu não hei de ir na boléia.

Maria Olímpia sorriu de contente, e levantou-se. Há muito tempo que tinha vontade de ouvir os Lombardos. Vamos aos Lombardos! Trá, lá, lá, lá… Meia hora depois foi vestir-se. Galvão, quando a viu pronta daí a pouco, ficou encantado. Minha mulher é linda, pensou ele; e fez um gesto para estreitá-la ao peito; mas a mulher recuou, pedindo-lhe que não a amarrotasse. E, como ele, por umas veleidades de camareiro, pretendeu concertar-lhe a pluma do cabelo, ela disse-lhe enfastiada:

— Deixa, Eduardo! Já veio o carro?

Entraram no carro e seguiram para o teatro. Quem é que estava no camarote contíguo ao deles? Justamente a viúva e a mãe. Esta coincidência, filha do acaso, podia fazer crer algum ajuste prévio. Maria Olímpia chegou a suspeitá-lo; mas a sensação da entrada não lhe deu tempo de examinar a suspeita. Toda a sala voltara-se para vê-la, e ela bebeu, a tragos demorados, o leite da admiração pública. Demais, o marido teve a inspiração, maquiavélica, de lhe dizer ao ouvido: “Antes a mandasses convidar; ficava-nos devendo o favor.” Qualquer suspeita cairia diante desta palavra. Contudo, ela cuidou de os não perder de vista — e renovou a resolução de cinco em cinco minutos, durante meia hora, até que, não podendo fixar a atenção, deixou- a andar. Lá vai ela, inquieta, vai direito ao clarão das luzes, ao esplendor dos vestuários, um pouco à ópera, como pedindo a todas as coisas alguma sensação deleitosa em que se espreguice uma alma fria e pessoal. E volta depois à própria dona, ao seu leque, às suas luvas, aos adornos do vestido, realmente magníficos. Nos intervalos, conversando com a viúva, Maria Olímpia tinha a voz e os gestos do costume, sem cálculo, sem esforço, sem ressentimento, esquecida da carta. Justamente nos intervalos é que o marido, com uma discrição rara entre os filhos dos homens, ia para os corredores ou para o saguão pedir notícias do ministério.

Juntas saíram do camarote, no fim, e atravessaram os corredores. A modéstia com que a viúva trajava podia realçar a magnificência da amiga. As feições, porém, não eram o que esta afirmou, quando ensaiava os xales de manhã. Não, senhor; eram engraçadas, e tinham um certo pico original. Os ombros proporcionais e bonitos. Não contava trinta e cinco anos, mas trinta e um; nasceu em 1822, na véspera da independência, tanto que o pai, por brincadeira, entrou a chamá-la Ipiranga, e ficou-lhe esta alcunha entre as amigas. Demais, lá estava em Santa Rita o assentamento de batismo.

Uma semana depois, recebeu Maria Olímpia outra carta anônima. Era mais longa e explícita. Vieram outras, uma por semana, durante três meses. Maria Olímpia leu as primeiras com algum aborrecimento; as seguintes foram calejando a sensibilidade. Não havia dúvida que o marido demorava-se fora, muitas vezes, ao contrário do que fazia dantes, ou saía à noite e regressava tarde; mas, segundo dizia, gastava o tempo no Wallerstein ou no Bernardo, em palestras políticas. E isto era verdade, uma verdade de cinco a dez minutos, o tempo necessário para recolher alguma anedota ou novidade, que pudesse repetir em casa, à laia de documento. Dali seguia para o largo de São Francisco, e metia-se no ônibus.

Tudo era verdade. E, contudo, ela continuava a não crer nas cartas. Ultimamente, não se dava mais ao trabalho de as refutar consigo; lia-as uma só vez, e rasgava-as. Com o tempo foram surgindo alguns indícios menos vagos, pouco a pouco, ao modo do aparecimento da terra aos navegantes; mas este Colombo teimava em não crer na América. Negava o que via; não podendo negá-lo, interpretava-o; depois recordava algum caso de alucinação, uma anedota de aparências ilusórias, e nesse travesseiro cômodo e mole punha a cabeça e dormia. Já então, prosperando-lhe o escritório, dava o Galvão partidas e jantares, iam a bailes, teatros, corridas de cavalos. Maria Olímpia vivia alegre, radiante; começava a ser um dos nomes da moda. E andava muita vez com a viúva, a despeito das cartas, a tal ponto que uma destas lhe dizia: “Parece que é melhor não escrever mais, uma vez que a senhora se regala numa comborçaria de mau gosto.” Que era comborçaria? Maria Olímpia quis perguntá-lo ao marido, mas esqueceu o termo, e não pensou mais nisso.

Entretanto, constou ao marido que a mulher recebia cartas pelo correio. Cartas de quem? Esta notícia foi um golpe duro e inesperado. Galvão examinou de memória as pessoas que lhe freqüentavam a casa, as que podiam encontrá-la em teatros ou bailes, e achou muitas figuras verossímeis. Em verdade, não lhe faltavam adoradores.

— Cartas de quem? repetia ele mordendo o beiço e franzindo a testa.

Durante sete dias passou uma vida inquieta e aborrecida, espiando a mulher e gastando em casa grande parte do tempo. No oitavo dia, veio uma carta.

— Para mim? disse ele vivamente.

— Não; é para mim, respondeu Maria Olímpia, lendo o sobrescrito; parece letra de Mariana ou de Lulu Fontoura…

Não queria lê-la; mas o marido disse que a lesse; podia ser alguma notícia grave. Maria Olímpia leu a carta e dobrou-a, sorrindo; ia guardá-la, quando o marido desejou ver o que era.

— Você sorriu, disse ele gracejando; há de ser algum epigrama comigo.

— Qual! é um negócio de moldes.

— Mas deixa ver.

— Para quê, Eduardo?

— Que tem? Você, que não quer mostrar, por algum motivo há de ser. Dê cá.

Já não sorria; tinha a voz trêmula. Ela ainda recusou a carta, uma, duas, três vezes. Teve mesmo idéia de rasgá-la, mas era pior, e não conseguiria fazê-lo até o fim. Realmente, era uma situação original. Quando ela viu que não tinha remédio, determinou ceder. Que melhor ocasião para ler no rosto dele a expressão da verdade? A carta era das mais explícitas; falava da viúva em termos crus. Maria Olímpia entregou-lha.

— Não queria mostrar esta, disse-lhe ela primeiro, como não mostrei outras que tenho recebido e botado fora; são tolices, intrigas, que andam fazendo para… Leia, leia a carta.

Galvão abriu a carta e deitou-lhe os olhos ávidos. Ela enterrou a cabeça na cintura, para ver de perto a franja do vestido. Não o viu empalidecer. Quando ele, depois de alguns minutos, proferiu duas ou três palavras, tinha já a fisionomia composta e um esboço de sorriso. Mas a mulher, que o não adivinhava, respondeu ainda de cabeça baixa; só a levantou daí a três ou quatro minutos, e não para fitá-lo de uma vez, mas aos pedaços, como se temesse descobrir-lhe nos olhos a confirmação do anônimo. Vendo-lhe, ao contrário, um sorriso, achou que era o da inocência, e falou de outra coisa.

Redobraram as cautelas do marido; parece também que ele não pôde esquivar-se a um tal ou qual sentimento de admiração para com a mulher. Pela sua parte, a viúva, tendo notícia das cartas, sentiu-se envergonhada; mas reagiu depressa, e requintou de maneiras afetuosas com a amiga.

Na segunda ou terceira semana de agosto, Galvão fez-se sócio do Cassino Fluminense. Era um dos sonhos da mulher. A seis de setembro fazia anos a viúva, como sabemos. Na véspera, foi Maria Olímpia (com a tia que chegara de fora) comprar-lhe um mimo: era uso entre elas. Comprou-lhe um anel. Viu na mesma casa uma jóia engraçada, uma meia lua de diamantes para o cabelo, emblema de Diana, que lhe iria muito bem sobre a testa. De Maomé que fosse; todo o emblema de diamantes é cristão. Maria Olímpia pensou naturalmente na primeira noite do Cassino; e a tia, vendo-lhe o desejo, quis comprar a jóia, mas era tarde, estava vendida.

Veio a noite do baile. Maria Olímpia subiu comovida as escadas do Cassino. Pessoas que a conheceram naquele tempo, dizem que o que ela achava na vida exterior, era a sensação de uma grande carícia pública, a distância; era a sua maneira de ser amada. Entrando no Cassino, ia recolher nova cópia de admirações, e não se enganou, porque elas vieram, e de fina casta.

Foi pelas dez horas e meia que a viúva ali apareceu. Estava realmente bela, trajada a primor, tendo na cabeça a meia lua de diamantes. Ficava-lhe bem o diabo da jóia, com as duas pontas para cima, emergindo do cabelo negro. Toda a gente admirou sempre a viúva naquele salão. Tinha muitas amigas, mais ou menos íntimas, não poucos adoradores, e possuía um gênero de espírito que espertava com as grandes luzes. Certo secretário de legação não cessava de a recomendar aos diplomatas novos: “Causez avec Mme. Tavares; c’est adorable!” Assim era nas outras noites; assim foi nesta.

— Hoje quase não tenho tido tempo de estar com você, disse ela a Maria Olímpia, perto de meia-noite.

— Naturalmente, disse a outra abrindo e fechando o leque; e, depois de umedecer os lábios, como para chamar a eles todo o veneno que tinha no coração: — Ipiranga, você está hoje uma viúva deliciosa… Vem seduzir mais algum marido?

A viúva empalideceu, e não pôde dizer nada. Maria Olímpia acrescentou, com os olhos, alguma coisa que a humilhasse bem, que lhe respingasse lama no triunfo. Já no resto da noite falaram pouco; três dias depois romperam para nunca mais.

Fonte:
ASSIS, Machado de. Volume de contos. Rio de Janeiro : Garnier, 1884.
Disponível na Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro. A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo

Deixe um comentário

Arquivado em O Escritor com a Palavra

Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n.132)

Uma Trova Nacional

Colhi rosas no caminho
de belezas multicores,
pra perfumar nosso ninho,
sutil recanto de amores.
(ANTÔNIO PAIVA RODRIGUES/CE)

Uma Trova Potiguar

Queres ter assegurada
a vida que vais viver?
Busca na Bíblia sagrada
qual o prêmio a recolher.
(EVAN MONTEIRO/RN)

Uma Trova Premiada

2006 > Pitangui/MG
Tema > TERÇO > Menção Honrosa

Eu, você e um filho amado
somos, por nossa união,
cada qual terço inspirado
no rosário da afeição!
(MARINA BRUNA/SP)

Uma Trova de Ademar

O céu fazendo um aceno,
de alegria nos reveste;
transforma um simples sereno
em chuva para o nordeste…
(ADEMAR MACEDO/RN)

…E Suas Trovas Ficaram

Vivo a espera na lembrança,
mas não sei, amor, porque,
já perdi toda esperança
de me esquecer de você.
(MILTON NUNES LOUREIRO/RJ)

Simplesmente Poesia

– Roberto Pinheiro Acruche/RJ –
POEMA PARA O MEU AMOR.

Em você encontro a paz
a ternura que me satisfaz.
Em você encontro o perfume
das flores, o calor da paixão
e o ardor do ciúme.
Os seus lábios rosados,
as vezes pintados de carmim,
tão sedosos e formosos
são como as flores do alecrim.
Você é o meu aconchego,
minha inspiração,
a razão dos meus sonhos,
minha vitória, meu troféu,
a estrela do meu céu.
Você é minha alegria,
meus versos, minha poesia,
a melodia da minha cantiga,
o amor da minha vida.

Estrofe do Dia

A favela prepara os arsenais
num rancor e num ódio tão profundo,
uma arma acionada assusta o mundo
um conflito infernal destrói a paz,
num prostíbulo de cenas imorais
a valente mulher prostituída
se abastece de droga e de bebida,
vende amor ao amante, mas não ama,
o mistério noturno enfeita o drama
no teatro da noite mal dormida.
(CHICO SOBRINHO/PB-RN)

Soneto do Dia

– João Costa/RJ –
SONETO A NOVA FRIBURGO.

Choro contigo, Friburgo querida,
neste momento de tanto amargor;
com o coração ferido e a alma ferida
padeço com teu povo sofredor.

Tantas vidas perdidas no furor
da natureza e quantas sem guarida.
Quanta destruição e quanta dor
a marcar para sempre a tua vida.

Mas sei que tudo isso superarás
e em breve, muito em breve, voltarás
a ser a bela Suíça Brasileira.

Voltarás a sorrir, linda cidade.
Reencontrarás logo a felicidade.
Renascerás altiva, forte, inteira!

Fontes:
Ademar Macedo

Imagem = Montagem de José Feldman
(Catedral de Santana do Matos, foto de Alex Gurgel; Asa Branca, o carro do Ademar; Brasão de Santana do Matos; fundo com imagem obtida na internet sem autoria; trova de Ademar; foto do Ademar)

Deixe um comentário

Arquivado em Mensagens Poéticas

Waldir Neves(Caderno de Trovas)

A espontânea palavrada,
que acompanha um tropeção,
faz bem crer que uma topada
seja a mãe do palavrão.

Ao sair d’água, a banhista
gritou de vergonha: – “Xiii…”
no maiô, na frente e à vista,
veio agarrado… um siri !

Depois que os céus lhe mandaram
As gotas do seu DESEJO,
duas outras marejaram
os olhos do sertanejo…

Doente, a velha cegonha
recusa trabalhos duros,
e pra não passar vergonha
só carrega … prematuros.

Enquanto eu durmo, querida,
minh’alma, por compulsão,
se aninha e dorme, encolhida,
aí… no teu coração.

Espalhou pedras à estrada
do velho barraco… “Ô xente!
Não dizem que é só topada
que põe o pobre pra frente ?…

Flagrado, na contramão,
no quarto da serviçal,
o vivaldino patrão
fingiu “confusão mental”

Folha em branco… A esmo, um nome
rabisco, na tarde calma.
E a angústia… que me consome…
vai rabiscando minh’alma…

Importuno e impertinente,
o DESEJO insatisfeito
sempre foi, literalmente,
meu “inimigo do peito”…

Maduro ao sol outonal,
pela brisa acariciado,
freme, ondulante, o trigal,
num desvario dourado !…

Motel chique… Olha o marido!!!
E a confusão foi tão feia,
que blusa virou vestido,
e sutiã virou meia.

Na casa do casal velho,
a confusão é total:
-lê-se o jornal no Evangelho;
e o evangelho, no jornal.

Não te esqueças, otimista,
de lembrar, no teu anseio,
que, entre o DESEJO e a conquista,
há sempre pedras no meio…

No abandono, desvairado,
levo noites a fitar
o vestido desbotado
que ela esqueceu de levar…

No apogeu do seu ardor,
tão ternamente se exprime,
que chamamos nosso amor
o “desvario sublime”.

Nosso amor é, neste ensejo,
brasa oculta em cinza quente.
-Basta um sopro de DESEJO,
e arde em fogo, novamente…

O desvario arrebata…
E eu fui por falso caminho.
Minha sombra, mais sensata,
deixou-me seguir sozinho…

O ladrão, envergonhado,
diz : – “Doutor, vim me entregar:
o roubo era tão pesado
que eu não pude carregar…”

O mendigo da calçada,
a quem a mágoa não poupa,
talvez tenha esfarrapada
bem mais a alma que a roupa.

Por topadas em excesso
– um tormento em seu caminho –
o dedão abriu processo
contra os olhos do ceguinho.

Pra fugir do casamento,
o noivo, meio “frufru”,
alegou, como argumento,
“vergonha de ficar nu”

Provocador e brigão,
o General de Brigada,
sempre que arma confusão,
ela é… generalizada.

Quando a jovem aluada
deu, no amor, um “tropeção”,
foi um caso de “topada
com os pés fora do chão”.

Severo no condenar,
o Céu abranda o rigor
quando o pecado a julgar
é um desvario de amor…

Tal fascínio lhe desperta
o mistério das estrelas,
que, às vezes, de mim liberta,
minh’alma vai percorrê-las.

Uma das mágoas, apenas,
que à minh’alma são pesadas…
faria leves as penas
até das almas penadas…

“Um prodígio o seu arranco,
a dois metros da chegada!”
E o vencedor, meio manco:
“prodígio foi a topada…”

Velho par, na academia,
é ímpar na confusão:
-foi de sunga à confraria
e à praia foi de fardão!

Vergonha, mesmo, passou
dr. Cornélio, homem sério.
Imaginem… Processou
a mulher por adultério.

Deixe um comentário

Arquivado em Rio de Janeiro em Trovas, Trovas

Machado de Assis (A Mulher Pálida)

CAPÍTULO PRIMEIRO

Rangeu enfim o último degrau da escada ao peso do vasto corpo do Major Bento. O major deteve-se um minuto, respirou à larga, como se acabasse de subir, não a escada do sobrinho, mas a de Jacó, e enfiou pelo corredor adiante.

A casa era na Rua da Misericórdia, uma casa de sobrado cujo locatário sublocara três aposentos a estudantes. O aposento de Máximo era ao fundo, à esquerda, perto de uma janela que dava para a cozinha de uma casa da Rua D. Manuel. Triste lugar, triste aposento, e tristíssimo habitante, a julgá-lo pelo rosto com que apareceu às pancadinhas do major. Este bateu, com efeito, e bateu duas vezes, sem impaciência nem sofreguidão. Logo que bateu a segunda vez, ouviu estalar dentro uma cama, e logo um ruído de chinelas ao chão, depois um silêncio curto, enfim, moveu-se a chave e abriu-se a porta.

— Quem é? — ia dizendo a pessoa que abrira. E logo: — é o tio Bento.

A pessoa era um rapaz de vinte anos, magro, um pouco amarelo, não alto, nem elegante. Tinha os cabelos despenteados, vestia um chambre velho de ramagens, que foram vistosas no seu tempo, calçava umas chinelas de tapete; tudo asseado e tudo pobre. O aposento condizia com o habitante: era o alinho na miséria. Uma cama, uma pequena mesa, três cadeiras, um lavatório, alguns livros, dois baús, e pouco mais.

— Viva o senhor estudante, disse o major sentando-se na cadeira que o rapaz lhe oferecera.

— Vosmecê por aqui, é novidade, disse Máximo. Vem a passeio ou negócio?

— Nem negócio nem passeio. Venho…

Hesitou; Máximo reparou que ele trazia uma polegada de fumo no chapéu de palha, um grande chapéu da roça de onde era o Major Bento. O major, como o sobrinho, era de Iguaçu. Reparou nisso, e perguntou assustado se morrera alguma pessoa da família.

— Descanse, disse o major, não morreu nenhum parente de sangue. Morreu teu padrinho.

O golpe foi leve. O padrinho de Máximo era um fazendeiro rico e avaro, que nunca jamais dera ao sobrinho um só presente, salvo um cacho de bananas, e ainda assim, porque ele se achava presente na ocasião de chegarem os carros.

Tristemente avaro. Sobre avaro, misantropo; vivia consigo, sem parentes — nem amigos, nem eleições, nem festas, nem coisa nenhuma. Máximo não sentiu muita comoção à notícia do óbito. Chegou a proferir uma palavra de desdém.

— Vá feito, disse ele, no fim de algum tempo de silêncio, a terra lhe seja leve, como a bolsa que me deixou.

— Ingrato! bradou o major. Fez-te seu herdeiro universal.

O major proferiu estas palavras estendendo os braços para amparar o sobrinho, na queda que lhe daria a comoção; mas, a seu pesar, viu o sobrinho alegre, ou pouco menos triste do que antes, mas sem nenhum delírio. Teve um sobressalto, é certo, e não disfarçou a satisfação da notícia. Pudera! Uma herança de seiscentos contos, pelo menos. Mas daí à vertigem, ao estontear que o major previa, a distância era enorme. Máximo puxou de uma cadeira e sentou-se defronte do tio.

— Não me diga isso! Deveras herdeiro?

— Vim de propósito dar-te a notícia. Causou espanto a muita gente; o Morais Bicudo, que fez tudo para empalmar-lhe a herança, ficou com uma cara de palmo e meio. Dizia-se muita coisa; uns que a fortuna ficava para o Morais, outros que para o vigário, etc. Até se disse que uma das escravas seria a herdeira da maior parte. Histórias! Morreu o homem, abre-se o testamento, e lê-se a declaração de que você é o herdeiro universal.

Máximo ouviu contente. No mais recôndito da consciência dele insinuava-se esta reflexão — que a morte do coronel era uma coisa deliciosa, e que nenhuma outra notícia lhe podia ir mais direta e profunda ao coração.

— Vim dizer isto a você, continuou o major, e trazer um recado de tua mãe.

— Que é?

— Simplesmente saber se você quer continuar a estudar ou se prefere tomar conta da fazenda.

— Que lhe parece?

— A mim nada; você é que decide.

Máximo refletiu um instante.

— Em todo o caso, não é sangria desatada, disse ele; tenho tempo de escolher.

— Não, porque se você quiser estudar dá-me procuração, e não precisa sair daqui. Agora, se…

— Vosmecê volta hoje mesmo?

— Não, volto sábado.

— Pois amanhã resolveremos isto.

Levantou-se, atirou a cadeira ao lado, bradando que enfim ia tirar o pé do lodo; confessou que o padrinho era um bom homem, apesar de seco e misantropo, e a prova…

— Vivam os defuntos! concluiu o estudante.

Foi a um pequeno espelho, mirou-se, consertou os cabelos com as mãos; depois deteve-se algum tempo a olhar o soalho. O tom sombrio do rosto dominou logo a alegria da ocasião; e se o major fosse homem sagaz, poderia perceber-lhe nos lábios uma leve expressão de amargura. Mas o major nem era sagaz, nem olhava para ele; olhava para o fumo do chapéu, e consertava-o; depois despediu-se do estudante.

— Não, disse este; vamos jantar juntos.

O major aceitou. Máximo vestiu-se depressa, e, enquanto se vestia, falava das coisas de Iguaçu e da família. Pela conversa sabemos que a família é pobre, sem influência nem esperança. A mãe do estudante, irmã do major, tinha um pequeno sítio, que mal lhe dava para comer. O major exercia um emprego subalterno, e nem sequer tinha o gosto de ser verdadeiramente major. Chamavam-lhe assim, porque dois anos antes, em 1854, disse- se que ele ia ser nomeado Major da Guarda Nacional. Pura invenção, que muita gente acreditou realidade; e visto que lhe deram desde logo o título, repararam com ele o esquecimento do governo.

— Agora, juro-lhe que vosmecê há de ser major de verdade, dizia-lhe Máximo pondo na cabeça o chapéu de pêlo de lebre, depois de o escovar com muita minuciosidade.

— Homem, você quer que lhe diga? Isto de política já me não importa. Afinal, é tudo o mesmo…

— Mas há de ser major.

— Não digo que não, mas…

— Mas?

— Enfim, não digo que não.

Máximo abriu a porta e saíram. Ressoaram os passos de ambos no corredor mal alumiado. De um quarto ouviu-se uma cantarola, de outro um monólogo, de outro um tossir longo e cansado.

— É um asmático, disse o estudante ao tio, que punha o pé no primeiro degrau da escada para descer.

— Diabo de casa tão escura, disse ele.

— Arranjarei outra com luz e jardins, redargüiu o estudante.

E dando-lhe o braço, desceram à rua.

CAPÍTULO II

Naturalmente a leitora notou a impressão de tristeza do estudante, no meio da alegria que lhe trouxe o tio Bento. Não é provável que um herdeiro, na ocasião em que se lhe anuncia a herança, tenha outros sentimentos que não sejam de regozijo; daí uma conclusão da leitora — uma suspeita ao menos — suspeita ou conclusão que a leitora terá formulado nestes termos:

— O Máximo padece do fígado.

Engano! O Máximo não padece do fígado; goza até uma saúde de ferro. A causa secreta da tristeza súbita do Máximo, por mais inverossímil que pareça, é esta: —

O rapaz amava uma galante moça de dezoito anos, moradora na Rua dos Arcos, e amava sem ventura.

Desde dois meses fora apresentado em casa do Senhor Alcântara, à Rua dos Arcos. Era o pai de Eulália, que é a moça em questão. O Senhor Alcântara não era rico, exercia um emprego mediano no Tesouro, e vivia com certa economia e discrição; era ainda casado e tinha só duas filhas, a Eulália, e outra, que não passava de sete anos. Era um bom homem, muito inteligente, que se afeiçoou desde logo ao Máximo, e que, se o consultassem, não diria outra coisa senão que o aceitava para genro.

Tal não era a opinião de Eulália. Gostava de conversar com ele — não muito —, ouvia-lhe as graças, porque ele era gracioso, tinha repentes felizes; mas só isso. No dia em que o nosso Máximo se atreveu a interrogar os olhos de Eulália, esta não lhe respondeu coisa nenhuma, antes supôs que fora engano seu. Da segunda vez não havia dúvida; era positivo que o rapaz gostava dela e a interrogava. Eulália não pode ter-se que não comentasse o gesto do rapaz, no dia seguinte, com umas primas.

— Ora vejam!

— Mas que tem? aventurou uma das primas.

— Que tem? Não gosto dele; parece que é razão bastante. Realmente, há pessoas a quem não se pode dar um pouco de confiança. Só porque conversou um pouco comigo já pensa que é motivo para cair de namoro. Ora não vê!

Quando no dia seguinte, Máximo chegou à casa do Senhor Alcântara, foi recebido com frieza; entendeu que não era correspondido, mas nem por isso desanimou. Sua opinião é que as mulheres não eram mais duras do que as pedras, e entretanto a persistência da água vencia as pedras. Além deste ponto de doutrina, havia uma razão mais forte: ele amava deveras. Cada dia vinha fortalecer a paixão do moço, a ponto de lhe parecer inadmissível outra coisa que não fosse o casamento, e próximo; não sabia como seria próximo o casamento de um estudante sem dinheiro com uma dama, que o desdenhava; mas o desejo ocupa-se tão pouco das coisas impossíveis!

Eulália, honra lhe seja, tratou de desenganar as esperanças do estudante, por todos os modos, com o gesto e com a palavra; falava-lhe pouco, e às vezes mal. Não olhava para ele, ou olhava de relance, sem demora nem expressão. Não aplaudia, como outrora, os versos que ele ia ler em casa do pai, menos ainda lhe pedia que recitasse outros, como as primas; estas sempre se lembravam de um

Devaneio, um Suspiro ao luar, Teus olhos, Ela, Minha vida por um olhar, e outros pecados de igual peso, que o leitor pode comprar hoje por seiscentos réis, em brochura, na rua de S. José nº…, ou por trezentos réis, sem o frontispício. Eulália ouvia todas as belas estrofes compostas especialmente para ela, como se fossem uma página de S. Tomás de Aquino.

— Vou arriscar uma carta, disse um dia o rapaz, ao fechar a porta do quarto, da Rua da Misericórdia.

Efetivamente entregou-lhe uma carta alguns dias depois, à saída, quando ela já não podia recusá-la. Saiu precipitadamente; Eulália ficou com o papel na mão, mas devolveu-lho no dia seguinte.

Apesar desta recusa e de todas as outras, Máximo conservava a esperança de triunfar enfim da resistência de Eulália, e não a conservava senão porque a paixão era verdadeira e forte, nutrida de si mesma, e irritada por um sentimento de amor próprio ofendido. O orgulho do rapaz sentia-se humilhado, e, para perdoar, exigia a completa obediência. Imagine-se, portanto, o que seriam as noites dele, no quartinho da Rua da Misericórdia, após os desdéns de cada dia.

Na véspera do dia em que o major Bento veio de Iguaçu comunicar ao sobrinho a morte e a herança do padrinho, Máximo reuniu todas as forças e deu batalha campal. Vestiu nesse dia um paletó à moda, umas calças talhadas por mão de mestre, deu-se ao luxo de um cabeleireiro, retesou o princípio de um bigode mal espesso, coligiu nos olhos toda a soma da eletricidade que tinha no organismo, e foi para a Rua dos Arcos. Um colega de ano, confidente dos primeiros dias do namoro, costumava a fazer do nome da rua uma triste aproximação histórica e militar. — Quando sais tu da ponte d’Arcole? — Esta chufa sem graça nem misericórdia doía ao pobre sobrinho do major Bento, como se fosse uma punhalada, mas não o dizia, para não confessar tudo; apesar das primeiras confidências, Máximo era um solitário.

Foi; declarou-se formalmente, Eulália recusou formalmente, mas sem desdém, apenas fria. Máximo voltou para casa abatido e passou uma noite de todos os diabos. Há fortes razões para crer que não almoçou nesse dia, além de três ou quatro xícaras de café. Café e cigarros. Máximo fumou uma quantidade incrível de cigarros. Os vendedores de tabaco certamente contam com as paixões infelizes, as esperas de entrevistas, e outras hipóteses em que o cigarro é confidente obrigado.

Tal era, em resumo, a vida anterior de Máximo, e tal foi a causa da tristeza com que pôde resistir às alegrias de uma herança inesperada — e duas vezes inesperada, pois não contava com a morte, e menos ainda com o testamento do padrinho.

— Vivam os defuntos! Esta exclamação, com que recebera a notícia do major Bento, não trazia o alvoroço próprio de um herdeiro; a nota era forçada demais.

O major Bento não soube nada daquela paixão secreta. Ao jantar, via-o de quando em quando ficar calado e sombrio, com os olhos fitos na mesa, a fazer bolas de miolo de pão.

— Tu tens alguma coisa, Máximo? perguntava-lhe. Máximo estremecia, e procurava sorrir um pouco.
— Não tenho nada.

— Estás assim… um pouco… pensativo…

— Ah! é a lição de amanhã.

— Homem, isto de estudos não deve ir ao ponto de fazer adoecer a gente. Livro faz a cara amarela. Você precisa de distrair-se, não ficar metido naquele buraco da Rua da Misericórdia, sem ar nem luz, agarrado aos livros…

Máximo aproveitava estes sermões do tio, e voava outra vez à Rua dos Arcos, isto é, às bolas de miolo de pão e aos olhos fitos na mesa. Num desses esquecimentos, e enquanto o tio despia uma costeleta de porco, Máximo disse em voz alta:

— Justo.

— O que é? perguntou o major.

— Nada.

— Você está falando só, rapaz? Hum? aqui há coisa. Hão de ver as italianas do teatro.

Máximo sorriu, e não explicou ao tio por que motivo lhe saíra aquela palavra da boca, uma palavra seca, nua, vaga, susceptível de mil aplicações. Era um juízo? uma resolução?

CAPÍTULO III

Máximo teve uma idéia singular: experimentar se Eulália, rebelde ao estudante pobre, não o seria ao herdeiro rico. Nessa mesma noite foi à Rua dos Arcos. Ao entrar, disse-lhe o Senhor Alcântara:

— Chega a propósito; temos aqui umas moças que ainda não ouviram o Suspiro ao luar.

Máximo não se fez de rogado; era poeta; supunha-se grande poeta; em todo caso recitava bem, com certas inflexões langorosas, umas quedas da voz e uns olhos cheios de morte e de vida. Abotoou o paletó com uma intenção chateaubriânica, mas o paletó recusou-se a intenções estrangeiras e literárias. Era um prosaico paletó nacional, da Rua do Hospício nº… A mão ao peito corrigiu um pouco a rebeldia do vestuário; e esta circunstância persuadiu a uma das moças de fora que o jovem estudante não era tão desprezível como lhe havia dito Eulália. E foi assim que os versos começaram a brotar-lhe da boca — a adejar-lhe, que é melhor verbo para o nosso caso.

— Bravo! bravo! diziam os ouvintes, a cada estrofe.

Depois do Suspiro ao luar , veio o Devaneio, obra nebulosa e deliciosa ao mesmo tempo, e ainda o Colo de neve, até que o Máximo anunciou uns versos inéditos, compostos de fresco, poucos minutos antes de sair de casa. Imaginem! Todos os ouvidos afiaram-se para tão gulosa especiaria literária. E quando ele anunciou que a nova poesia denominava-se Uma cabana e teu amor — houve um geral murmúrio de admiração. Máximo preparou-se; tornou a inserir a mão entre o colete e o paletó, e fitou os olhos em Eulália.

— Forte tolo! disse a moça consigo.

Geralmente, quando uma mulher tem de um homem a idéia que Eulália acabava de formular — está prestes a mandá -lo embora de uma vez ou a adorá-lo em todo o resto da vida. Um moralista dizia que as mulheres são extremas: ou melhores ou piores do que os homens. Extremas são, e daí o meu conceito. A nossa Eulália estava no último fio da tolerância; um pouco mais, e o Máximo ia receber as derradeiras despedidas. Naquela noite mais do que nunca, pareceu- lhe insuportável o estudante. A insistência do olhar — ele, que era tímido, — o ar de soberania, certa consciência de si mesmo, que até então não mostrara, tudo o condenou de uma vez.

— Vamos, vamos, disseram os curiosos ao poeta.

— Uma cabana e teu amor, repetiu Máximo.

E começou a recitar os versos. Essa composição intencional dizia que ele, poeta, era pobre, muito pobre, mais pobre do que as aves do céu; mas que à sombra de uma cabana, ao pé dela, seria o mais feliz e mais opulento homem do mundo. As últimas estrofes — juro que não as cito senão por ser fiel à narração — as estrofes derradeiras eram assim:

Que me importa não tragas brilhantes,

Refulgindo no teu colo nu?
Tens nos olhos as jóias vibrantes,
E a mais nítida pérola és tu.
Pobre sou, pobre quero ajoelhado,
Como um cão amoroso, a teus pés,
Viver só de sentir-me adorado,
E adorar-te, meu anjo, que o és!

O efeito destes versos foi estrondoso. O Senhor Alcântara, que suava no Tesouro todos os dias para evitar a cabana e o almoço, um tanto parco, celebrado nos versos do estudante, aplaudiu entusiasticamente os desejos deste, notou a melodia do ritmo, a doçura da frase, etc…

— Oh! muito bonito! muito bonito! exclamava ele, e repetia entusiasmado:

Pobre sou, pobre quero ajoelhado,
Como um cão amoroso a teus pés,
Amoroso a teus pés… Que mais?
Amoroso a teus pés, e… Ah! sim:
Viver só de sentir-me adorado,
E adorar-te, meu anjo, que o és!

Note-se — e este rasgo mostrará a força de caráter de Eulália —, note-se que Eulália achou os versos bonitos, e achá-los-ia deliciosos, se os pudesse ouvir com orelhas simpáticas. Achou-os bonitos, mas não os aplaudiu.

“Armou-se uma brincadeira” para usar a expressão do Senhor Alcântara, querendo dizer que se dançou um pouco. — Armemos uma brincadeira, bradara ele. Uma das moças foi para o piano, as outras e os rapazes dançaram. Máximo alcançou uma quadrilha de Eulália; no fim da terceira figura disse-lhe baixinho:

— Pobre sou, pobre quero ajoelhado…

— Quem é pobre não tem vícios, respondeu a moça rindo, com um pouco de ferocidade nos olhos e no coração.

Máximo enfiou. Não me amará nunca, pensou ele. Ao chá, restabelecido do golpe, e fortemente mordido do despeito, lembrou-se de dar a ação definitiva, que era noticiar a herança. Tudo isso era tão infantil, tão adoidado, que a língua entorpeceu-se -lhe no melhor momento, e a notícia não lhe saiu da boca. Foi só então que ele pensou na singularidade duma notícia daquelas, em plena ceia de estranhos, depois de uma quadrilha e alguns versos. Esse plano, afagado durante a tarde e a noite, que lhe parecia um prodígio de habilidade, e talvez o fosse deveras, esse plano apareceu-lhe agora pela face obscura, e achou-o ridículo. Minto: achou-o ousado apenas. As visitas começaram a despedir-se, e ele foi obrigado a despedir-se também. Na rua, arrependeu-se, chamou-se covarde, tolo, maricas, todos os nomes feios que um caráter fraco dá a si mesmo, quando perde uma ação. No dia seguinte meteu-se a caminho para Iguaçu.

Seis ou sete semanas depois, tornado de Iguaçu, a notícia da herança era pública. A primeira pessoa que o visitou foi o Senhor Alcântara, e força é dizer que a pena com que lhe apareceu era sincera. Ele o aceitara ainda pobre; é que deveras o estimava.

— Agora continua os seus estudos, não é? perguntou ele.

— Não sei, disse o rapaz; pode ser que não.

— Como assim?

— Estou com idéias de ir estudar na Europa, na Alemanha, por exemplo; em todo o caso, não irei este ano. Estou moço, não preciso ganhar a vida, posso esperar.

O Senhor Alcântara deu a notícia à família. Um irmão de Eulália não se teve que não lançasse em rosto à irmã os seus desdéns, e sobretudo a crueldade com que os manifestara.

— Mas se não gosto dele, e agora? dizia a moça.

E dizia isso arrebitando o nariz, e com um jeito de ombros, seco, frio, enfarado, amofinado.

— Ao menos confesse que é um moço de talento, insistiu o irmão.

— Não digo que não.

— De muito talento.

— Creio que sim.

— Se é! Que bonitos versos que ele faz! E depois não é feio. Você dirá que o Máximo é um rapaz feio?

— Não, não digo.

Uma prima, casada, teve para Eulália os mesmos reparos. A essa confessou Eulália que o Máximo nunca se declarara deveras, embora lhe mandasse algumas cartas.

— Podia ser caçoada de estudante, disse ela.

— Não creio.

— Podia.

Eulália — e aqui começa a explicar-se o título deste conto — Eulália era de um moreno pálido. Ou doença, ou melancolia, ou pó-de-arroz, começou a ficar mais pálida depois da herança do Iguaçu. De maneira que, quando o estudante lá voltou um mês depois, admirou-se de a ver, e de certa maneira sentiu-se mais ferido. A palidez de Eulália tinha-lhe dado uns trinta versos; porque ele, romântico acabado, do grupo clorótico, amava as mulheres pela falta de sangue e de carnes. Eulália realizara um sonho; ao voltar de Iguaçu o sonho era simplesmente divino.

Isto acabaria aqui mesmo, se Máximo não fosse, além de romântico, dotado de uma delicadeza e de um amor-próprio extraordinários. Essa era a outra feição principal dele, a que me dá esta novelita; porque se tal não fora… Mas eu não quero usurpar a ação do capítulo seguinte.

CAPÍTULO IV

— Quem é pobre não tem vícios. Esta frase ainda ressoava aos ouvidos de Máximo, quando já a pálida Eulália mostrava-se outra para com ele — outra cara, outras maneiras, e até outro coração. Agora, porém, era ele que desdenhava. Em vão a filha do Senhor Alcântara, para resgatar o tempo perdido e as justas mágoas, requebrava os olhos até onde eles podiam ir sem desdouro nem incômodo, sorria, fazia o diabo; mas, como não fazia a única ação necessária, que era apagar literalmente o passado, não adiantava uma linha; a situação era a mesma.

Máximo deixou de freqüentar a casa algumas semanas depois da volta de Iguaçu, e Eulália voltou as esperanças para outro ponto menos nebuloso. Não nego que as noivas começaram a chover sobre o recente herdeiro, porque negaria a verdade conhecida por tal; não foi chuva, foi tempestade, foi um tufão de noivas, qual mais bela, qual mais prendada, qual mais disposta a fazê-lo o mais feliz dos homens. Um antigo companheiro da Escola de Medicina apresentou-o a uma irmã, realmente galante, D. Felismina. O nome é que era feio; mas que é um nome? What is a name? como diz a flor dos Capuletos.

— D. Felismina tem um defeito, disse Máximo a uma prima dela, um defeito capital; D. Felismina não é pálida, muito pálida.

Esta palavra foi um convite às pálidas. Quem se sentia bastante pálida afiava os olhos contra o peito do ex-estudante, que em certo momento achou-se uma espécie de hospital de convalescentes. A que se seguiu logo foi uma D. Rosinha, criatura linda como os amores.

— Não podes negar que D. Rosinha é pálida, dizia-lhe um amigo.

— É verdade, mas não é ainda bem pálida, quero outra mais pálida.

D. Amélia, com quem se encontrou um dia no Passeio Público, devia realizar o sonho ou o capricho de Máximo; era difícil ser mais pálida. Era filha de um médico, e uma das belezas do tempo. Máximo foi apresentado por um parente, e dentro de poucos dias freqüentava a casa. Amélia apaixonou-se logo por ele, não era difícil — já não digo por ser abastado, — mas por ser realmente belo. Quanto ao rapaz, ninguém podia saber se ele deveras gostava da moça, ninguém lhe ouvia coisa nenhuma. Falava com ela, louvava-lhe os olhos, as mãos, a boca, as maneiras, e chegou a dizer que a achava muito pálida, e nada mais.

— Ande lá, disse-lhe enfim um amigo, desta vez creio que encontraste a palidez mestra.

— Ainda não, tornou Máximo; D. Amélia é pálida, mas eu procuro outra mulher mais pálida.

— Impossível.

— Não é impossível. Quem pode dizer que é impossível uma coisa ou outra? Não é impossível; ando atrás da mulher mais pálida do universo; estou moço, posso esperá-la.

Um médico, das relações do ex-estudante, começou a desconfiar que ele tivesse algum transtorno, perturbação, qualquer coisa que não fosse a integridade mental; mas, comunicando essa suspeita a alguém, achou a maior resistência em crer-lha.

— Qual doido! respondeu a pessoa. Essa história de mulheres pálidas é ainda o despeito que lhe ficou da primeira, e um pouco de fantasia de poeta. Deixe passar mais uns meses, e vê-lo-emos coradinho como uma pitanga.

Passaram-se quatro meses; apareceu uma Justina, viúva, que tratou de apoderar-se logo do coração do rapaz, o que lhe custaria tanto menos, quanto que era talvez a criatura mais pálida do universo. Não só pálida de si mesma, como pálida também pelo contraste das roupas de luto. Máximo não encobriu a forte impressão que a dama lhe deixou. Era uma senhora de vinte e um a vinte e dois anos, alta, fina, de um talhe elegante e esbelto, e umas feições de gravura. Pálida, mas, sobretudo, pálida.

Ao fim de quinze dias o Máximo freqüentava a casa com uma pontualidade de alma ferida, os parentes de Justina trataram de escolher as prendas nupciais, os amigos de Máximo anunciaram o casamento próximo, as outras candidatas retiraram-se. No melhor da festa, quando se imaginava que ele ia pedi-la, Máximo afastou-se da casa. Um amigo lançou-lhe em rosto tão singular procedimento.

— Qual? disse ele.

— Dar esperanças a uma senhora tão distinta…

— Não dei esperanças a ninguém.

— Mas enfim não podes negar que é bonita?

— Não.

— Que te ama?

— Não digo que não, mas…

— Creio que também gostas dela…

— Pode ser que sim.

— Pois então?

— Não é bem pálida; eu quero a mulher mais pálida do universo.

Como estes fatos se reproduzissem, a idéia de que Máximo estava doido foi passando de um em um, e dentro em pouco era opinião. O tempo parecia confirmar a suspeita. A condição da palidez que ele exigia da noiva, tomou-se pública. Sobre a causa da monomania disse-se que era Eulália, uma moça da Rua dos Arcos, mas acrescentou-se que ele ficara assim porque o pai da moça recusara o seu consentimento, quando ele era pobre; e dizia-se mais que Eulália também estava doida. Lendas, lendas. A verdade é que nem por isso deixava de aparecer uma ou outra pretendente ao coração de Máximo; mas ele recusava-as todas, asseverando que a mais pálida ainda não havia aparecido.

Máximo padecia do coração. A moléstia agravou-se rapidamente; e foi então que duas ou três candidatas mais intrépidas resolveram-se a queimar todos os cartuchos para conquistar esse mesmo coração, embora doente, ou parce que…

Mas, em vão! Máximo achou-as muito pálidas, mas ainda menos pálidas do que seria a mulher mais pálida do universo.

Vieram os parentes de Iguaçu; o tio major propôs uma viagem à Europa; ele, porém, recusou. — Para mim, disse ele, é claro que acharei a mulher mais pálida do mundo, mesmo sem sair do Rio de Janeiro.

Nas últimas semanas, uma vizinha dele, em Andaraí, moça tísica, e pálida como as tísicas, propôs-lhe rindo, de um riso triste, que se casassem, porque ele não acharia mulher mais pálida.

— Acho, acho; mas se não achar, caso com a senhora.

A vizinha morreu daí a duas semanas; Máximo levou-a ao cemitério.

Mês e meio depois, uma tarde, antes de jantar, estando o pobre rapaz a escrever uma carta para o interior, foi acometido de uma congestão pulmonar, e caiu. Antes de cair teve tempo de murmurar.

— Pálida… pálida…

Uns pensavam que ele se referia à morte, como a noiva mais pálida, que ia enfim desposar, outros, acreditaram que eram saudades da dama tísica, outros que de Eulália, etc… Alguns crêem simplesmente que ele estava doido; e esta opinião, posto que menos romântica, é talvez a mais verdadeira. Em todo caso, foi assim que ele morreu, pedindo uma pálida, e abraçando-se à pálida morte. Pallida mors, etc.

Fontes:
Publicado originalmente em A Estação, de 15/08/1881 a 30/09/1881.

Deixe um comentário

Arquivado em O Escritor com a Palavra

VII Prêmio Literário Valdeck Almeida De Jesus – Crônicas

Edição Em Homenagem A Escritores Baianos

1 – O Prêmio Literário Valdeck Almeida de Jesus visa estimular novas produções literárias e é dirigido a candidatos de qualquer nacionalidade, residentes no Brasil ou no exterior, desde que seus trabalhos sejam escritos em língua portuguesa.

2 – As inscrições acontecem de 01 de janeiro a até 30 de novembro, através do e-mail valdeck2007@gmail.com (CRÔNICAS de até 20 linhas, minibiografia de até cinco, endereço completo, com CEP e fone de contato, com DDD). Os textos devem vir DENTRO do corpo do e-mail. Inscrições incompletas serão desclassificadas. Vale a data de postagem no e-mail. Não serão aceitas inscrições pelos correios.

3 – A crônica deve ser inédita, versando sobre qualquer tema (exceto apologia ao uso de drogas, conteúdo racista, preconceituoso, propaganda política ou intolerância religiosa ou de culto). Terão preferências os textos sobre escritores baianos da contemporaneidade. Entende-se como escritores contemporâneos aqueles cuja obra ainda não foi lançada por grandes editoras e que não são conhecidos do grande público. Cada autor responderá perante a lei por plágio, cópia indevida ou outro crime relacionado ao direito autoral. A inscrição implica concordância com o regulamento e cessão dos direitos autorais apenas para a primeira edição do livro.

4 – Uma equipe de escritores faz a seleção de apenas um texto por autor. A premiação é a publicação do texto selecionado em livro, em até seis meses do encerramento das inscrições. Os escritores selecionados devem criar um blog gratuito, após a divulgação do resultado do concurso, para dar visibilidade ao trabalho de todos os participantes. Os casos omissos serão decididos soberanamente pela equipe promotora. Os textos podem receber correções, conforme o Novo Acordo Ortográfico. Os autores que não responderem aos e-mails da comissão solicitando aprovação/desaprovação das correções para publicação, serão eliminados do concurso.

5 – O autor que desejar adquirir exemplares do livro deverá fazê-lo diretamente com a editora ou com o organizador do prêmio. Os primeiros dez classificados receberão um exemplar gratuitamente. Os demais podem receber, a critério da organização do evento e da disponibilidade de recursos financeiros.

Modelo de ficha de inscrição:
Paulo Pereira dos Santos
Rua Santo André, 40 – Edf. Pedra – Apt. 201
35985-999 – Portão
Belo Horizonte-MG
(31) 3366-9988, 8877-8999

Modelo de minibiografia:
Paulo Pereira dos Santos é natural de Santana-PB. Escritor, poeta e jornalista, tem dois livros publicados: “Antes de tudo” e “Até amanhã”. Paticipa de cinco antologias de poesias. Graduado em comunicação social. Menção honrosa em diversos concursos de poesia, tem dois livros no prelo e pretende lançá-los em 2012.

Projeto publicado no site do PNLL do Ministério da Cultura

Lançamentos:
1ª Antologia: Bienal do Livro da Bahia, em abril/2005 e 2007.
2ª Antologia: III Corredor Literário da Paulista, em outubro/2007.
3ª Antologia: Na 20ª Bienal do Livro de São Paulo e na 3ª Feira do Livro de Sergipe, em 2008 e na 9ª Bienal do Livro da Bahia;
4ª Antologia: Bienal do Livro do Rio de Janeiro, em setembro de 2009 e no Espaço Castro Alves, num grande shopping da Bahia.
5ª Antologia: Bienal do Livro de São Paulo, em 21.08.2010.

MAIS INFORMAÇÕES:
Valdeck Almeida de Jesus
Tel: (71) 8805-4708
E-mail: valdeck2007@gmail.com
Site do Organizador: http://www.galinhapulando.com/

Deixe um comentário

Arquivado em Concurso de Poesias, Concursos em Andamento

Sérgio Ferreira da Silva (Caderno de Trovas)

A brisa traz, de antemão,
seu perfume pela rua…
e eu chego a ter a impressão,
de que é você que flutua!

A inocência, em teu semblante
num contraste, se desfaz,
por ser a prova flagrante
de que me roubaste… a paz!

A mesma brisa que à noite,
sugere encanto e poesia
pode ser, também, o açoite
dos que não têm moradia.

Amigo é aquele artesão
que, sem receios, lapida -–
com o cinzel do perdão
as pedras brutas… da vida!

A sogra entrega o genrinho
ao faminto canibal:
“Cuida dele com carinho…
mas… vê se tá bom de sal!”

À solidão condenada,
na Praça da Eternidade,
minha súplica é chamada
de Monumento… à Saudade!

Choveu… e agora, a enxurrada
leva as coisas, feito alguém
que, ao partir, numa alvorada,
levou minha alma… também!

Confusão na madrugada,
que o bebum transforma em drama:
atira… na namorada
e leva a sogra pra cama !

Desejo é o jovem arrais
que, em vez das embarcações,
suplica encontrar um cais
para ancorar ilusões!

Em sua breve existência,
não pode a brisa supor
que, trazendo a tua essência
me traz a essência do Amor…

É pescador de primeira…
mas, antes que alguém se queixe,
leva no bolso a carteira
e o fone do disque-peixe!

Essa lágrima que corta
teu semblante, sem favor,
é uma gota, mas comporta
um Oceano… de dor!

Essa ternura que exalas,
e os meus receios acalma,
faz um vôo sem escalas
da tua pele… à minh’alma!

Este teu querer incerto,
imprevisível demais,
fez de minh’alma um deserto,
com chuvas… ocasionais.

É tanta fome que eu sinto
(parece coisa de louco!),
que eu só vou ficar faminto
depois de comer um pouco!

Eu suplico, a todo instante,
por tua volta… é verdade.
Mas, a súplica constante
não é súplica… é Saudade!

Faminto, não vi, querida,
talvez, por eu ser tão moço,
que eras fruta proibida
e a tua mãe… o caroço!

Meu destino não se escreve
à força de um vento forte:
teu olhar é a brisa leve
que determina meu norte!

Não vem me chamar de omisso,
porque a culpa não foi minha:
levei o anzol… o caniço
e só me esqueci… da linha!

No compasso das batidas,
o meu coração suplica,
pelo bem de nossas vidas:
Fica…ca! Fi…ca! Fi…ca! Fi…ca!

No curso de nossas vidas,
por diferentes estradas,
nossas almas, distraídas,
continuam de mãos dadas!

Nos sonhos, minha alma alcança
o infinito… e, se estou só,
volto aos tempos de criança
e aos braços… de minha avó!

No velório, a confusão
quando o genro, num rompante,
chegou com pinga, limão,
cerveja e refrigerante.

Numa foto digital,
teu semblante, em luz e cor,
é saudade virtual,
no microcomputador…

O chão batido,… a porteira…
o teu semblante… e o destino…
são os marcos da fronteira
entre a saudade… e um menino!

Para pescar tubarão,
qual foi a isca que usaste?”
“Um pouco de diversão:
minha sogra… num guindaste!”

Quando o pranto fez morada
no teu semblante grisalho,
trouxe a imagem da geada,
cobrindo as gotas de orvalho.

Receio o destino incerto
de perder-me em teus encantos
e tornar-me um livro aberto,
esquecido.. pelos cantos.

Receio que a solidão,
esta falsa liberdade,
faça do meu coração
um escravo… da saudade.

São de brisa os teus carinhos…
teus beijos são vendavais…
e eu me perco em teus caminhos,
aguardando… os temporais!

Teu receio, que dispensa
meu querer e meu carinho,
é trilha fechada e densa…
mas eu encontro o caminho!

Tô faminto… e não tem bóia!
Eu num guento esse jejum!!!
Fome Zero??? Uma pinóia:
minha fome… é MENOS UM!

Tua alma desperta em mim
tanta calma e tanto ardor,
que, se o amor não for assim,
eu mudo o nome do amor!

Um pescador esquisito,
num gesto desesperado,
se revela, ao dar um grito:
“HOJE EU PESCO… UM NAMORADO!!!”

1 comentário

Arquivado em São Paulo em Trovas, Trovas

Lima Barreto (O Único Assassinato de Cazuza)

HILDEGARDO BRANDÂO, conhecido familiarmente por Cazuza, tinha chegado aos seus cinqüenta anos e poucos, desesperançado; mas não desesperado. Depois de violentas crises de desespero, rancor e despeito, diante das injustiças, que tinha sofrido em todas as coisas nobres que tentara na vida, viera-lhe uma beatitude de santo e uma calma grave de quem se prepara para a morte.

Tudo tentara e em tudo mais ou menos falhara. Tentara formar-se, foi reprovado; tentara o funcionalismo, foi sempre preterido por colegas inferiores em tudo a ele, mesmo no burocracismo; fizera literatura e se, de todo, não falhou, foi devido à audácia de que se revestiu, audácia de quem “queimou os seus navios”. Assim mesmo, todas as picuinhas lhe eram feitas. Às vezes, julgavam-no inferior a certo outro, porque não tinha pasta de marroquim; outras vezes tinham-no por inferior e determinado “antologista”, porque semelhante autor havia, quando “encostado” ao consulado do Brasil, em Paris, recebido como presente do rei do Sião, uma bengala de legítimo junco da índia. Por essas e outras, ele se aborreceu e resolveu retirar-se da liça. Com alguma renda, tendo uma pequena casa, num subúrbio afastado, afundou-se nela, aos quarenta e cinco anos, para nunca mais ver o mundo, como o herói de Jules Verne, no seu “Náutilus”.

Comprou os seus últimos livros e nunca mais apareceu na Rua do Ouvidor. Não se arrependeu nunca de sua independência e da sua honestidade intelectual. Ao cinqüenta e três anos, não tinha mais um parente próximo junto de si. Vivia, por assim dizer, só, tendo somente a seu lado um casal de pretos velhos, aos quais ele sustentava e dava, ainda por cima, algum dinheiro mensalmente.

A sua vida, nos dias de semana, decorria assim: pela manhã, tomava café e ia até a venda, que supria a sua casa, ler os jornais, sem deixar de servir-se, com moderação, de alguns cálices de parati, de que infelizmente abusara na mocidade. Voltava para a casa, almoçava e lia os seus livros, porque acumulara uma pequena biblioteca de mais de mil volumes. Quando se cansava, dormia. Jantava e, se fazia bom tempo, passeava a esmo pelos arredores, tão alheio e soturno que não perturbava nem um namoro que viesse a topar.

Aos domingos, porém, esse seu viver se quebrava. Ele fazia uma visita, uma única e sempre a mesma. Era também a um desalentado amigo seu. Médico, de real capacidade, nunca o quiseram reconhecer porque ele escrevia “propositalmente” e não – “propositadamente”, “de súbito” e não – “às súbitas”, etc., etc. Tinham sido colegas de preparatórios e, muito íntimos, dispensavam-se de usar confidências mútuas. Um entendia o outro, somente pelo olhar.

Pelos domingos, como já foi dito, era costume de Hildegardo ir, logo pela manhã, após o café, à casa do amigo, que ficava próximo, ler lá os jornais e tomar parte no “ajantarado”, da família. Naquele domingo, o Cazuza, para os íntimos, foi fazer a visita habitual a seu amigo doutor Ponciano. Este comprava certos jornais; e Hildegardo, outros. O médico sentava-se a uma cadeira de balanço; e o seu amigo numa dessas a que chamam de bordo ou de lona. De permeio, ficava-lhes a secretária. A sala era vasta e clara e toda ela adornada de quadros anatômicos. Liam e depois conversavam. Assim fizeram, naquele domingo. Hildegardo disse, ao fim da leitura dos quotidianos:

– Não sei como se pode viver no interior do Brasil!

– Porque?

– Mata-se à toa por dá cá aquela palha. As paixões, mesquinhas paixões políticas, exaltam os ânimos de tal modo, que uma facção não teme eliminar o adversário e por meio do assassinato, às vezes o revestindo da forma mais cruel. O predomínio, a chefia da política local é o único fim visado nesses homicídios, quando não são a questões de família, de herança, de terras e, às vezes, causas menores. Não leio os jornais que não me apavore com tais notícias. Não é aqui, nem ali; é em todo o Brasil, mesmo às portas do Rio de Janeiro. É um horror! Além desses assassinatos, praticados por capangas – que nome horrível! – há os praticados pelos policiais e semelhantes nas pessoas dos adversários dos governos locais, adversários ou tidos como adversários. Basta um boquejo, para chegar uma escolta, varejar fazendas, talar plantações, arrebanhar gado, encarcerar ou surrar gente que, pelo seu trabalho, devia merecer mais respeito. Penso, de mim para mim, ao ler tais notícias, que a fortuna dessa gente que está na câmara, no senado, nos ministérios, até na presidência da república se alicerça no crime, no assassinato. Que acha você?

– Aqui, a diferença não é tão grande para o interior nesse ponto. Já houve quem dissesse que, quem não mandou um mortal deste para o outro mundo, não faz carreira na política do Rio de Janeiro.

– É verdade; mas, aqui, ao menos, as naturezas delicadas se podem abster de política; mas, no interior, não. Vêm as relações, os pedidos e você se alista. A estreiteza do meio impõe isso, esse obséquio a um camarada, favor que parece insignificante. As coisas vão bem; mas, num belo dia, esse camarada, por isso ou por aquilo, rompe com o seu antigo chefe. Você, por lealdade, o segue; e eis você arriscado a levar uma estocada em uma das virilhas ou a ser assassinado a pauladas como um cão danado. E eu quis ir viver no interior! De que me livrei, santo Deus!

– Eu já tinha dito a você que esse negócio de paz na vida da roça é história. Quando cliniquei, no interior, já havia observado esse prurido, essa ostentação de valentia de que os caipiras gostam de fazer e que, as mais das vezes, é causa de assassinatos estúpidos. Poderia contar a você muitos casos dessa ostentação de assassinato, que parte da gente da roça, mas não vale a pena. É coisa sem valia e só pode interessar a especialistas em estudos de criminologia.

– Penso – observou Hildegardo – que esse êxodo da população dos campos para as cidades, pode ser em parte atribuído à falta de segurança que existe na roça. Um qualquer cabo de destacamento é um César naquelas paragens – que fará então um delegado ou subdelegado? É um horror!

Os dois calaram-se e, silenciosos, se puseram a fumar. Ambos pensavam numa mesma coisa: em encontrar remédio para um tão deplorável estado de coisas. Mal acabavam de fumar, Ponciano disse desalentado:

– E não há remédio.

Hildegardo secundou-o.
– Não acho nenhum.

Continuaram calados alguns instantes, Hildegardo leu ainda um jornal e, dirigindo-se ao amigo, disse:
– Deus não me castigue, mas eu temo mais matar do que morrer. Não posso compreender como esses políticos, que andam por ai, vivam satisfeitos, quando a estrada de sua ascensão é marcada por cruzes. Se por ventura matasse creia que eu, a que não tem deixado passar pela cabeça sonhos de Raskólnikoff, sentiria como ele: as minhas relações com a humanidade seriam de todo outras, daí em diante. Não haveria castigo que me tirasse semelhante remorso da consciência, fosse de que modo fosse, perpetrado o assassinato. Que acha você?

– Eu também; mas você sabe o que dizem esses políticos que sobem às alturas com dezenas de assassinatos nas costas?

– Não.

– Que todos nos matamos.

Hildegardo sorriu e fez para o amigo com toda a serenidade:
– Estou de acordo. Já matei também.

O médico espantou-se e exclamou:
– Você, Cazuza!

– Sim, eu! – confirmou Cazuza.

– Como? Se você ainda agora mesmo…

– Eu conto a coisa a você. Tinha eu sete anos e minha mãe ainda vivia. Você sabe que, a bem dizer, não conheci minha mãe!

– Sei.

– Só me lembro dela no caixão quando meu pai, chorando, me carregou para aspergir água benta sobre o seu cadáver. Durante toda a minha vida, fez muita falta. Talvez fosse menos rebelde, menos sombrio e desconfiado, mais contente com a vida, se ela vivesse. Deixando-me ainda na primeira infância, bem cedo firmou-se o meu caráter; mas, em contrapeso, bem cedo, me vieram o desgosto de viver, o retraimento, por desconfiar de todos, a capacidade de ruminar mágoas sem comunicá-las a ninguém – o que é um alívio sempre; enfim, muito antes do que era natural, chegaram-me o tédio, o cansaço da vida e uma certa misantropia.

Notando o amigo que Cazuza dizia essas palavras com emoção muito forte e os olhos úmidos, cortou-lhe a confissão dolorosa com um apelo alegre:
– Vamos, Carleto; conta o assassinato que você perpetrou.

Hildegardo ou Cazuza conteve-se e começou a narrar:
– Eu tinha sete anos e minha mãe ainda vivia. Morávamos em Paula Matos… Nunca mais subi a esse morro, depois da morte de minha mãe…

– Conte a história, homem! – fez impaciente o doutor Ponciano.

– A casa, na frente, não se erguia, em nada, da rua; mas, para o fundo, devido à diferença de nível, elevava-se um pouco, de modo que, para se ir ao quintal, a gente tinha que descer uma escada de madeira de quase duas dezenas de degraus. Um dia, descendo a escada, distraído, no momento em que punha o pé no chão do quintal, o meu pé descalço apanhou um pinto e eu o esmaguei. Subi espavorido a escada, chorando, soluçando e gritando: “Mamãe, mamãe! Matei, matei.. .“ Os soluços me tomavam a fala e eu não podia acabar a frase. Minha mãe acudiu, perguntando: “O que é, meu filho! Quem é que você matou?” Afinal, pude dizer: “Matei um pinto, com o pé”. E contei como o caso se havia passado. Minha mãe riu-se, deu-me um pouco de água de flor e mandou-me sentar a um canto: “Cazuza, senta-te ali, à espera da polícia.” E eu fiquei muito sossegado a um canto, estremecendo ao menor ruído que vinha da rua,
pois esperava de fato a polícia. Foi esse o único assassinato que cometi. Penso que não é da natureza daqueles que nos erguem às altas posições políticas, porque, até hoje, eu…

Dª Margarida, mulher do doutor Ponciano, veio interromper-lhes a conversa, avisando-os que o “ajantarado” estava na mesa.

Fonte:
Revista Sousa Cruz, Rio, fevereiro, 1922.

Deixe um comentário

Arquivado em O Escritor com a Palavra

Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n.131)

Uma Trova Nacional

Ganha tão pouco o Ademar
na profissão de engraxate,
que a mulher, para ajudar,
anda fazendo biscate…
(ANA MARIA MOTA/RJ)
(Nota: A Trova acima deixou o Ademar “encafifado” )
.
Uma Trova Potiguar

Dia do jegue é lazer
por decreto criado a esmo:
quem não tem o que fazer
homenageia a si mesmo.
(CELSO DA SILVEIRA/RN)

Uma Trova Premiada

2008 > Bandeirantes/PR
Tema > TRABALHO > Menção Especial

O trabalho é punição,
uma herança do passado…
Deus quis castigar Adão,
e sobrou pro nosso lado!…
(RENATO ALVES/RJ)

Simplesmente Poesia

Ialmar Pio Schneider (RS)
VENTO DO MAR

Vento que sopras furibundo
e vens meus sonhos despertar,
as tristezas de todo o mundo
parece que trazes do mar…

Ouvindo o lamento profundo
sempre constante a marulhar,
quedo-me triste, me confundo
co’a voz misteriosa do mar…

Altas horas, cada segundo
teimas o meu corpo abraçar,
quando em reflexões me aprofundo
para obter segredos do mar…

Uma Trova de Ademar

Matuto “fraga a muié”
na cama com o Ricardão,
e, pra manter a honra em pé
toca fogo no colchão.
(ADEMAR MACEDO/RN)

…E Suas Trovas Ficaram

Todo livro, quando aberto,
é pólen, é flor, é fruto…
fechado: é sombra, é deserto,
é silêncio, é campa, é luto.
(CYRO ARMANDO CATTA PRETA/SP

1922-2010)

Estrofe do Dia

Nem sei os anos que tem
o meu velho avô de aço,
talvez já passe de cem
janeiros no espinhaço;
quando chega de um passeio,
fica naquele aperreio
se passa uma noite só;
tira um quadro da parede
faz amor dentro da rede
no retrato de vovó!
(OTACÍLIO BATISTA/PE)

Soneto do Dia

– Luiz Leitão/PE –
NA LOJA.

Seguida da vovó, meiga e bonita,
ela entrou numa loja, no armarinho…
– Tem fita de cetim azul-marinho?
Qual o preço? – perguntou ela, catita.

Um beijo cada metro, senhorita!
Respondeu-lhe o caixeiro com carinho.
– É muito caro, mas, enfim, mocinho,
corte-me doze metros desta fita!

Já se sabe: o caixeiro como um raio,
cortava a fita quase num desmaio
sem ter sequer da tesourinha dó.

– Pronto, formosa! O pagamento agora…
E a moça lhe responde sem demora:
– Adeus! Quem paga as compras é a vovó…

Fonte:
Ademar Macedo

Deixe um comentário

Arquivado em Mensagens Poéticas

1º Concurso de Trova (tema: FÉ) – 3a. Etapa

Vamos difundir valores e princípios humanitários, por meio de trovas, convidando nossos alunos e amigos para participarem deste projeto.

1º Concurso de trova(tema: FÉ) da 3ª ETAPA DO PROJETO DE TROVAS PARA UMA VIDA MELHOR

Os Temas são “VIRTUDES”-

Bons hábitos práticos que devem ser vividas em todas as circunstâncias, favoráveis ou adversas: participe, divulgue… obrigada M.I.

Apenas uma trova inédita por trovador(a), via Internet

1º Concurso – tema:- FÉ – de 15/01 a 28/02/11

– resultado até 20/03/2011

O tema deverá constar da trova:

4 versos setessílabos, rimando o 1º com o 3º e o 2º verso com o 4º,
tendo sentido completo.

ATENÇÃO

Trovas em língua portuguesa – Enviar para: mifori14@yahoo.com.br

Trovas em Língua espanhola – enviar para Cristina – colibriRoseBeLLe@aol.com;

Grupos: 1 Nacional – trovador que tem trovas classificadas sem ser Menção Honrosa e/ou menção Especial.

Grupo 2 – Nacional – trovadores ainda não premiados e/ou iniciantes.

Grupo 3 Alunos – estudantes do 1 e 2 graus ou ed. básica e Ensino colegial(ens. médio)

Grupo Internacional – Em Portugues

Grupo Internacional – en Espanõl

A trova: FÉ
————–
————–
————–
————–
Seguida do…
Nome:
Cidade: Estado: País:
E-mail:
………………………………………………………
complementos: Rua,Av, nº, bairro, cep, tel, etc

Maria Inez
mifori14@yahoo.com.br
Delegada da UBT em Paraibuna – SP

Deixe um comentário

Arquivado em Concursos de Trovas, Concursos em Andamento

Mariinha Mota (Caderno de Trovas)

Mesmo que a mágoa te açoite,
não te entregues ao sofrer,
pois o fim de cada noite
traz sempre um amanhecer.

Vede: o rio de ondas de ouro,
vindo de plagas amenas,
foi no próprio nascedouro
um fiozinho de água apenas…

Nunca tente amaldiçoar
todo o vozerio alheio.
De gente má a gritar
o nosso mundo está cheio.

Se guardaste com esperança
muitas riquezas humanas,
reparte tua abastança
aos que gelam nas choupanas.

Aproxima-te do bem,
procura-o com decisão,
e verás fulgir, além,
a suprema perfeição

Reparte, com amizade,
a prece, a comida, as vestes.
São juros da eternidade.
São dividendos celestes.

Os laços indestrutíveis,
que reúnem corações,
são, geralmente, invisíveis:
nascem só das emoções!

A bondade é flor que encerra,
no mundo, o maior troféu,
daqueles que, aqui na Terra,
vivem voltados pro Céu.

Nasceu na Terra a Bondade,
por ordem do Criador.
Tem por mãe a Caridade
e tem como pai o Amor.

Eu procuro, com freqüência,
desparzir o bem, a luz.
Sei que o fruto dá notícia
da árvore que o produz.

Quando vejo um passarinho
voltando para o seu ninho,
sinto uma dor muito aguda:
saudade do meu filhinho.

Vi, agora, um beija-flor
beijando uma linda rosa!
Lembrei-me, com grande dor,
do meu filhinho, tão prosa!

A diferença do olhar,
do homem que ama de verdade,
é como a brisa do mar
logo após a tempestade…

Recebe de alma serena
todo o golpe que te doa.
Opõe à voz que condena
tua paz serena e boa.

Como é bom sentir o vento,
ver árvores generosas,
ver astros no firmamento,
ouvir canções, ver as rosas.

Sempre, em tudo, o morticínio,
vê o homem bruto, em ânsia;
tendência para o extermínio
é suprema ignorância.

Há tanta gente vibrando
para que a vida me vença
que às vezes, fico pensando:
Ah! Se não fosse esta crença…

Se neste mundo mesquinho
nos tratarem com motejo,
tornar-nos-emos arminho
aproveitando este ensejo.

Toda esperança é qual lume
cheio de luz e calor,
é o mais dulcido perfume
que minora a nossa dor

Guarda no teu coração
a fé viva e a esperança
é da resignação
que nasce toda confiança.

Sempre que o véu da tristeza
ensombrar teu coração,
repara, quanta beleza
está ao alcance da mão!

Os laços indestrutíveis
que reúnem corações,
são, geralmente, invisíveis
nascem só das emoções!

És, Brasil, meu ar, meu pão,
o meu templo, a minha escola,
és Pátria do coração
que Deus me deu por esmola.

Ó minha alma insatisfeira,
na escuridão que te alcança,
ante a noite contrafeita,
ergue a tocha da esperança!

Fontes:
Jose Ouverney http://www.falandodetrova.com.br
http://mariinhamotapoeta.blogspot.com/

Deixe um comentário

Arquivado em Jose Ouverney, São Paulo em Trovas, Trovas

Mariinha Mota (Livro de Poesias)

ESTE NOSSO AMOR

Então, fiz desse amor que me inspiraste um dia,
a escada que Jacó, em sonhos, viu surgir;
e que não tinha fim, ligando a Terra fria,
aos céus de luz e paz, de sonhos a luzir.

Sinto que desse afeto imenso e tão sublime,
só compreendemos nós a única razão…
É um verdadeiro amor, ternura que redime.
Estejas longe ou perto és minha adoração.

Pensando só em ti componho os meus poemas,
que traduzem pureza e confiança supremas,
e partem de minha alma como um longo grito.

Sou feliz por te amar. Todo o meu pensamento
quer fruir desse amor, que é paz e que é tormento,
e buscar para nós as luzes do infinito.

ESSE TEU OLHAR

Esse teu olhar tão terno que eu reclamo,
desejando que seja todo meu,
é uma jóia tão rara! Eu o proclamo
ser presente do Céu que Deus me deu.

Ao império desse olhar, enlanguecida,
encontro mil belezas de mil mundos,
pois ele transformou a minha vida
com um amor dos mais nobres e profundos.

Esses olhos bondosos que eu venero,
que admiro com alma e tanto quero,
só me ensejam momentos de venturas.

Teu pulcro olhar, que tanta luz encerra,
são dois faróis guiando-me na Terra,
envolvendo-me em ondas de ternuras!

SOMENTE EU

Esta ansiedade enorme, este fascínio louco
que eu desperto em teu ser – e disto estou consciente –
não nasceu nesta vida. Um milênio é bem pouco
para consolidar esta atração fremente.

Não é só, pois, biológico, este ardor supremo
quando nós pressentimos um do outro a presença.
Nosso amor transcendeu o encantamento extremo
e ele é para nós a luz de toda a crença.

Neste mundo, ninguém, por mais força que faça
desunirá nossa alma no tempo que passa
já que este nosso amor é feito de arrebol.

Só eu posso estancar a tua sede de afeto.
Só eu posso acalmar teu coração inquieto.
Sei que sou, somente eu, o teu dia de sol.

VATE GLORIOSO

Viveu na Terra um sonho eterno de beleza
que palpitava, sempre, em todo o seu espírito,
nas sínteses de amor da humana natureza,
anelava buscar as luzes do infinito.

Um saltério divino, cérebro fecundo,
ornou a “Flor do Lácio” com acordes supremos,
deixando-nos, também, um conceito profundo:
“Amar ainda mais a terra em que nascemos.”

Príncipe dos Poetas, nobre brasileiro,
há cem anos fulgiu na Pátria do Cruzeiro,
alcançando, entre nós, merecido destaque.

Esse que tanto amou a língua portuguesa,
cantando-a em seus versos de nímia beleza,
é Olavo Braz Martins dos Guimarães Bilac!

ASCESE

Vim, através do todo de elementos,
dos eternos princípios embrionários,
saltando das matérias cósmicas…
Produto telúrico do mundo,
gérmen fui em expedições grandevas,
até ganhar na solidão da Terra
o princípio de impulsos e instintos
com a face de gorila.
Pensei, senti, chorei. Mas, ai!
A dor terrível lavrando esta minha alma,
laboriosa operária iluminando a evolução dos evos,
no emaranhado das lutas cognitivas.
Doridas algemas torturam a mente,
penumbra terrena nas grades do horror.
Surgiu o remorso!
Simbiose do mal, de dor e tristeza.
Hoje, sinto o Além dentro do meu ser.
Sou um vulcão de emoções!
Quanta melodia na mente!
Quero ser perfume.
Quero ser essência rara no Espaço infinito.

PIQUETE

Piquete, tua natureza
é poema de singeleza,
ornamentada de flores,
embalsamada de olores,
que tais encantos resume,
cheios de luz e perfume!

Piquete, sempre eu quisera,
em perene primavera,
unir-te toda à poesia
e à linda polifonia.
És do Brasil um florão
que merece saudação

Fonte:
http://mariinhamotapoeta.blogspot.com/

Deixe um comentário

Arquivado em Livro de Poesias, São Paulo

Mariinha Mota (1930 – 2011)

Maria Augusta Beraldo Leite Mota nasceu em Piquete no dia 18 de fevereiro de 1930, filha de Horácio Pereira Leite e Maria de Lourdes Beraldo Leite. Faleceu em 26 de janeiro de 2011.

Professora, poetisa, trovadora, cronista, romancista, historiadora, jornalista, biógrafa.

Nasceu Maria – Maria Augusta Beraldo Leite. Maria Augusta tornou-se Mariinha e assim ficou sendo por toda a sua vida: Mariinha do Horácio; depois, Mariinha do Geraldo; mais adiante, professora e poetisa Mariinha Mota.

Saída das faldas da Mantiqueira, Mariinha Mota cresceu através de seus versos e de sua arte, impulsionada apenas pela força de sua inteligência e sensibilidade. Voou Brasil afora nas asas de suas rimas.

Filha de Horácio Pereira Leite, fazendeiro e chefe político do Vale do Paraíba, em São Paulo, membro de tradicional família de cafeicultores da região e de sua segunda esposa, Maria de Lourdes Alves Beraldo, Mariinha nasceu de um amor temporão e como tal foi adorada e mimada pelo pai.

Horácio Pereira Leite nasceu em Bananal, SP, casando-se em primeiras núpcias, com Corina Jardim, também de tradicional família do norte fluminense. O casal teve seis filhos, todos Pereira Leite: Maria, José, Paulo, Irtes, Haroldo e Moema.

O declínio da cafeicultura no Vale do Paraíba fez com que Horácio diversificasse seus negócios e se dedicasse à pecuária.

Além de fazendeiro, Horácio possuiu fábrica de refrescos, açougue, restaurante, olaria e foi proprietário do primeiro jornal da cidade de Piquete: o quinzenário “Sentinella”, que iniciou sua circulação em 18/09/1927, tendo como redator o Prof. José Ribeiro da Silva. Juiz de Paz, delegado, dono de terras e gado, Horácio foi o doador dos terrenos do cemitério de Piquete e ajudou a construir ruas e casas da cidade que então se formava.

Dois de seus descendentes herdaram-lhe a veia política, tornando-se prefeitos de Piquete: seu neto José Armando de Castro Ferreira e seu filho Luiz Carlos Beraldo Leite. Enviuvando, Horácio casou-se com a jovem Maria de Lourdes Alves Beraldo; tão jovem era a noiva, que possuía a mesma idade de Maria, sua filha mais velha. Com ela, Horácio viveu um grande amor, tornando-a a pessoa mais importante de sua vida. O mundo era pequeno para que ele o pusesse aos pés de sua adorada e de seus filhos, dos quais Mariinha era a primogênita.

Maria de Lourdes descendia, através de seu pai José Alves Beraldo, do clã Beraldo, do Sul de Minas. Sua mãe, Maria Augusta Alves Beraldo, era natural de Guaratinguetá, SP e falecera quando Lourdes contava apenas nove anos de idade, deixando oito filhos: Ovídio, Ormindo, Carlos, José, Lourdes, Álvaro, Messias e Josepha, todos Alves Beraldo. Maria de Lourdes educou-se no Colégio do Carmo, em Guaratinguetá, onde sua mãe também estudara e pertencera às primeiras turmas deste estabelecimento de ensino. Saindo do Colégio do Carmo, Lourdes, cujo pai casara-se em segundas núpcias, morou até o seu casamento com o irmão mais velho Ovídio Alves Beraldo e sua esposa Alcina Ribeiro Beraldo. Ovídio dedicara-se à carreira militar, à princípio no Exército e depois na Aeronáutica, tendo servido no teatro de operações da Segunda Guerra Mundial, como oficial da FEB. Passou à reserva em 1962, como Major Brigadeiro, após uma carreira brilhante.

Do segundo casamento de José Alves Beraldo nasceu um nono filho: Osvaldo Alves Beraldo, advogado, professor universitário e um dos fundadores da Universidade de Taubaté, SP. O casal Maria de Lourdes e Horácio teve seis filhos: Maria Augusta, João Roberto, Antônio Carlos, Suzana Maria, Luiz Carlos e José Sílvio, todos Beraldo Leite.

Mariinha estudou em Piquete nos seus primeiros anos de vida. Inteligente e vivaz, despertou a atenção de suas professoras e do padre da cidade, que alertaram o velho fazendeiro sobre o grande potencial de sua filha. Maria Augusta encaminhou-se, então, para Guaratinguetá, o maior centro cultural do Vale do Paraíba, na época.

Sob os cuidados de seu jovem tio Osvaldo, freqüentou o Colégio Nogueira da Gama, por dois anos. Quando Osvaldo seguiu para cursar Direito na Faculdade do Largo de São Francisco, em São Paulo, Mariinha foi matriculada no Colégio do Carmo, comandado por freiras salesianas, fechando o ciclo das três gerações consecutivas, que ali se educaram.

Desde tenra idade, Mariinha desenvolveu o gosto pela poesia, literatura e história. Quando menina, sonhava declamar poemas maravilhosos de sua autoria, dos quais não se recordava ao acordar.

Sensível, apaixonou-se pela vida tranqüila das freiras do Carmo e quis tornar-se uma delas. “Cheguei a usar a capinha de noviça”, conta com orgulho. Não conseguiu a aprovação de seu pai que exigiu sua permanência fora do colégio por um ano, antes de seguir sua vocação.

De volta a Piquete, convidada para dar aulas de Educação Física na Escola Industrial da Fábrica Presidente Vargas, Mariinha deparou-se com os olhos azuis de um “expedicionário”. Geraldo Silvia Mota, filho de um imigrante italiano com uma mineira de Baependi, pistonista de primeira linha, recém chegado da Segunda Guerra Mundial, povoou seus sonhos de adolescente e a fez esquecer o claustro.

Casaram-se em 30 de setembro de 1947, quando Mariinha contava apenas 17 anos. Sua filha mais velha recebeu o nome da padroeira das freiras do Carmo: Maria Auxiliadora, como uma compensação devida pelo abandono da vocação.

Mariinha abriu uma loja de tecidos finos e rendas, mas a necessidade de desabrochar a sua inteligência era intensa.

Quando foi criada, em Piquete, a Escola Normal Duque de Caxias, Mariinha, então com duas filhas, vendeu sua loja e retornou aos estudos.

Com Mariinha, na Escola Normal, diplomou-se uma plêiade de jovens senhores e senhoras, que brilhariam, posteriormente, no magistério e na vida cultural do Vale do Paraíba.

Concursada e aprovada como professora do Estado de São Paulo, Mariinha trabalhou, por algum tempo, em uma escola rural de Cunha, SP, para onde levou seus filhos pequenos, acrescidos do caçulinha, ainda bebê, Salvador Augusto e de Nancy Maria, filha escolhida pelo seu coração, por ela salva das vicissitudes da vida.

Mais tarde, Mariinha escolheria outra pequena menina – Maria Benedita Inácio, a Lili – para completar o seu lar. Durante alguns anos, posteriormente, Tony, também cresceria ao lado de seus filhos.

Retornando à Piquete, como professora do Grupo Escolar Antônio João, Mariinha dedicou-se aos seus alunos, não limitando-se às aulas cotidianas: montou grupos de teatro e declamação, fanfarras; organizou desfiles grandiosos, com carros alegóricos criativos e movimentados. Participou de campanhas filantrópicas várias, como a Campanha do Agasalho, Natal dos Pobres e Campanha do Quilo Mensal, não descurando a formação moral e intelectual de seus filhos.

Embora com saúde precária, tendo sido submetida a várias e seguidas intervenções cirúrgicas, inclusive uma nefrectomia, continuava em suas lides. Declamadora de escol, não só arrebatou inúmeros prêmios em concursos de declamação, como preparou suas filhas e alunos, que também se destacaram nestas apresentações.

A caravana de declamadores de Piquete, encabeçada pela professora Mariinha Mota, era respeitada pelo Vale do Paraíba e Sul de Minas. Mariinha começou a compor seus poemas, tendo os sonetos como primeira forma de expressão, seguidos por trovas, peças de teatro e poemas infantis, que espalhavam-se pelas páginas literárias dos jornais e revistas da região.

Em 1968, inesperadamente, seu filho caçula, Salvador Augusto, com dez anos de idade, faleceu acometido por um osteossarcoma. Mariinha não esmoreceu. Havia uma família a ser educada que apenas se esboçava; tudo dependia de sua força e equilíbrio.

Em 1973 retornou aos bancos escolares, formando-se em pedagogia e letras: língua portuguesa e inglês. Passou a lecionar para adolescentes, mas preferiu sempre as crianças.

Em memória de seu filhinho tornou-se uma das fundadoras, em Piquete, de um movimento ligado à Rede Feminina de Combate ao Câncer.

Aposentada, dedicou-se totalmente à literatura e, da pequena cidade de Piquete, espalhava-se através de seus versos, por todo o Brasil, chegando a assumir uma cadeira na Academia de Letras do Vale do Paraíba.

Uma doença neurológica incapacitante impediu a continuação de seu brilho, mas não apagou a beleza de sua trajetória, cultuada por seus descendentes, que procuram transmitir aos filhos a história da inteligência e sensibilidade desta menina fazendeira e brincalhona que nasceu Maria.

Detentora de grande número de prêmios em poesia e prosa, nacionais e internacionais, foi eleita pela revista belga “Poemas” para o seu “Tableau D’Honneur – 1982”, como uma das seis intelectuais brasileiras de maior renome internacional.

Publicou diversas obras, muitos trabalhos traduzidos para o francês, inglês, espanhol e grego.

São composições de sua lavra:
Ascese (sonetos),
Ascetério (poemas),
Acendalhas (poesias infantis),
Vida Afora (trovas),
Per Viam Vitae (trovas),
Três Artistas Baipendianos (biografias),
Res Non Verba (crônicas),
Filipe II e sua História (romance) e
Bárbara Heliodora e a Inconfidência (estudo histórico).

Seu nome figura em diversas antologias, como Trovadores do Vale, Crônicas de Barra Mansa, Poetas Valeparaibanos, Roteiro Biobibliográfico da Poesia Feminina no Brasil, Anuário de Coletânea de Trovas Brasileiras – 1978 e 1979, Poetas do Brasil – 1977, 1978 e 1979, A Trova no Brasil, Escritores do Brasil – 1978 e 1979, Coletânea de Contos e Poesia e Dicionário Conciso de Autores Brasileiros.

Pertenceu a diversas associações culturais:
Academia de Letras do Vale do Paraíba, cadeira número 27, patronímica de José de Anchieta;
Academia de Letras de Uruguaiana,
Academia Internacional de Letras “Três Fronteiras” (Brasil, Argentina e Uruguai),
Academia de Letras da Fronteira Sudoeste do Rio Grande do Sul,
Academia de Trovadores da Fronteira Sudoeste do Rio Grande do Sul,
Associação Uruguaianense de Escritores e Editores,
Academia Internacional de Heráldica e Genealogia,
Academia Internacional de Ciências Humanísticas e
Instituto Histórico e Geográfico de Uruguaiana.

Obteve onze medalhas de ouro e prata e inúmeros diplomas conquistados em concursos de declamação no Vale do Paraíba e Sul de Minas,
diploma de Honra ao Mérito do Instituto Histórico e Geográfico de Uruguaiana,
diploma e medalha “Mérito Cultural – 1978” da Federação de Academias do Sul do País,
diploma e medalha “Mérito Cultural – 1979”, da Academia de Trovadores da Fronteira Sudoeste do Rio Grande do Sul e
Troféu Evangelina Cavalcanti – Recife, Pernambuco.

Fontes:
http://depressaoepoesia.ning.com/profiles/blogs/minha-mamae-mariinha-mota-e
http://mariinhamotapoeta.blogspot.com/

Deixe um comentário

Arquivado em Biografia, São Paulo

Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n.130)

Uma Trova Nacional

A mais dorida verdade,
e a que me cala mais fundo,
é a notória brevidade
das ilusões deste mundo.
(PEREIRA DE ALBUQUERQUE/CE)

Uma Trova Potiguar

Ontem quando a lua veio,
tão cheia, por trás do monte,
parecia um lindo seio
no decote do horizonte.
(JOSUÉ TABIRA/RN)

Uma Trova Premiada

2008 > Bandeirantes/PR
Tema > AUDÁCIA > Menção Especial

Luto por meus ideais,
com audácia entre os abalos,
que não abalam jamais
a esperança de alcançá-los!
(WANDA DE PAULA MOURTHÉ/MG)

Simplesmente Poesia

– Dalinha Catunda/CE –
EU E ELE.

Vem que o dia é nosso,
aquece meu corpo que gosto.
Faz-me inteirinha suar.

Deixa-me de rosto corado,
brinquemos de namorados,
antes que chegue o luar.

Vem me fazer mais morena,
garanto que vale a pena,
em minha pele tocar.

A nossa química é perfeita.
Desce seus raios, aproveita!
Sou epiderme a lhe provocar.

Uma Trova de Ademar

Na transposição mais nobre,
podemos, sem qualquer risco,
matar a sede do pobre
com as águas do São Francisco!…
(ADEMAR MACEDO/RN)

…E Suas Trovas Ficaram

Se na estrada em que transponho,
só tem pesares daninhos,
eu peço carona ao sonho
e nem piso nos espinhos.
(LILA RICCIARDI FONTES/SP)

Estrofe do Dia

– Carlos Drummond de Andrade (RJ) –
A CASA DO TEMPO PERDIDO

Bati no portão do tempo perdido, ninguém atendeu.
Bati segunda vez e mais outra e mais outra.
Resposta nenhuma.
A casa do tempo perdido está coberta de hera
pela metade; a outra metade são cinzas.
Casa onde não mora ninguém, e eu batendo e chamando
pela dor de chamar e não ser escutado.
Simplesmente bater. O eco devolve
minha ânsia de entreabrir esses paços gelados.
A noite e o dia se confundem no esperar,
no bater e bater.
O tempo perdido certamente não existe.
É o casarão vazio e condenado.

Soneto do Dia

Raymundo de Salles Brasil/BA –
AO RELER MEU SONETO

Um verso eu quis fazer melhor elaborado,
um clássico soneto igual aos de Bilac,
soneto à moda antiga, bem metrificado,
como o fizera Arthur, que foi do verso um craque.

Fiquei ante o papel, horas a fio, parado,
buscando um verso puro, um verso sem sotaque,
corri atrás da rima até ficar cansado,
coloquei a cesura em lugar de destaque.

Achei que o meu soneto já estivesse pronto,
mas quando o fui reler, verso por verso, vi
que em cada um faltava ainda um contraponto

que lhes pudesse dar riqueza à melodia;
e as cordas dedilhei de novo, e descobri:
faltava-lhe a unção – e dá-la eu não sabia.

Fonte:
Ademar Macedo

Deixe um comentário

Arquivado em Mensagens Poéticas

Lygia Fagundes Telles (A Consulta)

Doutor Ramazian debruçou-se na janela e ficou olhando o jardim banhado por um débil sol de inverno. Alguns pacientes estavam sentados nos bancos, outros passeavam, pálidos e perplexos. Um velho deitou-se no gramado, despiu o pulôver, atirou-o longe e quando já ia arrancar a camiseta de lã, o enfermeiro de jeans tomou-o pelos cotovelos e trouxe-o para dentro. Um jovem de alpargatas escondeu depressa a cara nas mãos.

– Max! Maximiliano! – o médico chamou. – Pode vir aqui um instante?

O homem que espiava a rua através do portão de ferro voltou-se. Veio vindo sorridente, as mãos metidas nos bolsos do blazer azul-marinho com botões prateados. Inclinou-se para tirar uma folha seca da calça de flanela.

– Boa tarde, doutor.

O médico bateu na janela o cachimbo já esvaziado, soprou um pouco de cinza e encarou o homem.

– Você me parece muito bem-disposto, Max.

– Eu estou bem-disposto. E tive pesadelos, doutor, vi um pombo esmagado no meio da rua, com um raminho verde no bico. Tão verde o raminho no meio do sangue. Não é curiosa essa coincidência?

– Que coincidência?

– Um gatinho foi atropelado bem aí na frente do portão. Ficou que nem o pombo.

– Sem o raminho verde.

– Sem o raminho verde – repetiu Maximiliano fixando 0 olhar no cachimbo que o médico deixou na mesa. – O senhor vai sair?

– Tenho um compromisso e Dona Dóris ainda não apareceu, eu queria que você ficasse aqui para atender o telefone, me faz esse favor? Antes das quatro devo estar de volta.

– Com prazer – disse Maximiliano apoiando-se na janela baixa. Pulou ágil para dentro do consultório. – Fico feliz quando o senhor confia em mim mesmo para tarefas menores como atender o telefone ou limpar seus sapatos.

O médico fechou o zíper da maleta.

– Você nunca limpou meus sapatos, Max. – Mas limparia. Os seus e os de Jesus.

– Jesus usava sandálias – disse Doutor Ramazian guardando a caneta no bolso. Apontou para um bloco ao lado do telefone: – Qualquer recado, tome nota aqui, sim? Se quiser café, já sabe onde encontrar. Não demoro.

Quando o médico saiu, Maximiliano sentou-se na cadeira giratória e apoiou os cotovelos na mesa. Apanhou o cachimbo, examinou-o atentamente. Ficou aspirando o cheiro de fumo. Deixou o cachimbo, apanhou a espátula metálica. As batidas na porta eram tímidas, constrangidas.

– Doutor Ramazian? – perguntou o recém-chegado abrindo a porta e espiando pela fresta. Ainda segurava o trinco: – Me desculpe ter vindo assim adiantado, minha hora era às quatro, mas se o senhor pudesse me atender agora… Pode me atender agora?

– Sim, claro, entre. É a primeira vez, não? – A primeira. Falei com Dona Dóris, mas… – Ela não veio hoje. Sente-se, faz favor.

– É que não agüentei esperar – disse o homem afrouxando o colarinho. Passou ansiosamente a mão no queixo. -Nem fiz a barba, está vendo? Cheguei cedo demais e fiquei andando lá na calçada, mas foi me dando uma aflição, acho que estou em ponto de enlouquecer!

– Exagero. Os que estão em ponto de enlouquecer, não dizem. Nem sabem. Quer fumar? – perguntou Maximiliano abrindo a caixa de cigarros, ao lado do porta-cachimbos.

– Obrigado, prefiro minha marca – disse o homem tirando o maço do bolso. Sua mão tremia. – Estou fumando três, quatro maços por dia, acendo um no outro, sem parar – acrescentou, vagando em torno o olhar inquieto. Fixou-o na janela. – São todos loucos? Esses aí fora.

Maximiliano abriu a bolsa de fumo. Encheu o cachimbo. – Nem todos, têm médicos e enfermeiros misturados com eles. Aqui o regime é de liberdade total, suprimimos aventais, uniformes, os doentes precisam se sentir iguais a nós. Eu mesmo ás vezes, não distingo. – Meu pai conhecia os loucos pelos olhos.

Maximiliano apertou os seus. Sorriu.

– E um elemento – disse inclinando-se. Segurava ainda o cachimbo apagado. – Mas então?

– Nem sei como começar, doutor, é demais absurdo, ridículo! Essa obsessão… Não faz sentido tanto medo, tanto medo! – Medo do quê, filho?

– Da morte.

O telefone branco em cima da mesa tocou baixinho, com o som reprimido de uma cigarra fechada na gaveta. Maximiliano atendeu, disse um não está, fez um movimento para pegar o lápis e depois de um conformado como queira, desligou. Apanhou o cachimbo mas recusou o isqueiro que o recém-chegado lhe ofereceu, agradecia mas não ia fumar, contentava-se em ficar segurando o cachimbo assim cheio como fazia nesse instante. O homem teve uma expressão desolada.

– Quisera eu poder resistir, doutor. Mais de três maços por dia – queixou-se, pousando o cigarro no cinzeiro. Entrelaçou com veemência as mãos magras. – Já não durmo, não como direito, não cumpro minhas obrigações, não faço mais nada a não ser pensar nisso. Não posso nem dizer a palavra, nem ouvir que já me sinto mal. Ainda agora, não viu?, eu falei e já comecei a transpirar, me veio uma ânsia! O tempo todo pensando, pensando, perdi o apetite da vida. No trabalho, em casa com minha mulher, na cama com minha amante, tenho uma amante, uma menina tão boazinha, nem sei como ainda me agüenta, venho me esquivando dos encontros, a última vez foi um vexame, no meio, doutor, parei no meio feito um velho, broxei feito um idiota ali em cima dela ou debaixo, nem me lembro, parece que foi há séculos! Séculos – repetiu, sacudindo a cabeça. Tragou profundamente, cerrando os olhos congestionados. – Hoje minha mulher precisou me mandar trocar de roupa, esqueço de fazer a barba, estou exausto, exausto! Quase um ano nessa agonia, doutor. Começou aos poucos, com um certo mal-estar, quando me avisavam que alguém tinha mor… tinha empacotado. Eu evitava o assunto, me desviava dos campos-santos, das casas de saúde, onde sentia de longe o cheiro dela, da coisa, desinfetada, enluvada mas presente, atuante, está me compreendendo? Até que o mal-estar foi aumentando, virou náusea, pânico, me levanto já pensando que ela pode acontecer não só para mim mas para as pessoas que eu amo. Olho meus filhos, tenho dois meninos que já estão rindo de mim, desse meu medo de contágio, de acidentes, acho que tudo nos conduz a ela e num galope. Já senti todas as doenças do mundo! Fiz dezenas de exames, radiografias, meu médico nem quer mais me receber, Você não tem nada!, já me repetiu não sei quantas vezes. E tenho tudo. O medo quando me deito, medo que aconteça durante o sono, medo que ela me pegue em flagrante, às vezes a imagino com uma cara de puta safada, cafona, me gozando com seu olho antiqüíssimo. Outras vezes, quando ouço música – meu único consolo ainda é a música, doutor -, nessas horas ela me aparece etérea, suave como uma dessas virgens das baladas, coroada com uma grinalda de jasmins, me acenando com seus frios dedos de éter… Ainda não sei qual das duas me assusta mais, se essa ou a outra, que é suja, podre. Ah, doutor um homem de trinta e cinco anos e tremendo inteiro como uma criancinha perdida no escuro, choramingando beleza, escondida lá no fundo, a semente da coisa. Na plenitude hoje, mas e amanhã?

Platão lembraria a metáfora da maçã. Mas continue, senhor Gutierrez, continue.

– Uma manhã dessas acordei sem nenhum medo, diluído, eu, que estava tão denso, cheguei a pensar que tinha me libertado quando aos poucos comecei a sentir medo de não ter medo, está me compreendendo? Parece que ficou pior ainda o vazio, esse espaço que o medo ocupava. Então quis me provar, saber se realmente estava livre: entrei a passos largos num ce… num desses campos-santos. Não passava perto deles nem que me arrastassem pelos cabelos. Fui indo até que na curva da alameda pressenti um… uma cerimônia, o doutor sabe onde quero chegar, antes mesmo já senti o cheiro da coisa; fiquei com o olfato apuradíssimo, sinto de longe, doutor. Foi o suficiente para começar a vomitar ali mesmo atrás de um cipreste. Saí ventando, só dei acordo de mim em casa, encharcado de suor. Amarelo de medo. Ou verde? – perguntou, esboçando um riso frouxo. Olhou as próprias mãos. – A cor do medo. Tire uma licença, meu chefe aconselhou, sou funcionário público. Se o senhor está doente, faça um exame médico e vá viajar, espairecer. Quis me ajudar, todos querem me ajudar. Mas dizer o que aos médicos lá do Instituto? Se o meu mal é o medo, com que cara vou confessar que estou doente de medo? Tudo em ordem. E esta desordem, esta angústia. Seria melhor enlouquecer. Ainda outra noite pensei muito nisso, seria uma solução. Mas não vou enlouquecer, vou…

– Morrer.

– Não fala, doutor, não fala! Só de ouvir, está vendo? murmurou ele enxugando no lenço o queixo, a testa. Acendeu um cigarro. Suspirou. – Eu avisei que era uma história ridícula, absurda, não avisei? Quando vinha hoje para cá, meu táxi foi cortado por um cortejo, o senhor sabe. Só de ver aqueles carros todos atrás do carro principal foi me dando tamanha aflição que saltei, mudei de rua, mas pensa que adiantou? Logo mais dei com a manchete de um jornal, o menino me abriu a manchete na cara, mal tive tempo de desviar e a voz adiante de outro jornaleiro anunciando a tragédia, um ônibus que despencou num precipício, dezenas de feridos fatais… Entrei num café e lá dentro a conversa sobre um condenado americano que quer, que exige que o… que o executem. Mas só se fala na coisa?! Ou já falavam antes, apenas era eu que estava distraído? Não sei. Sei que ando com vontade de me isolar, sumir num lugar onde essa presença não tenha tanta importância, mas existe esse lugar? Os conventos são solitários. Defendidos. Lá, nem a vida nem a ante vida importam, era de se esperar que não se preocupassem com a nossa… finitude. Mas se importam, querem a santidade através da auto-flagelação, e nessa flagelação está a memória da coisa exaltada em orações, cantorias, imagens, repetida até nos cumprimentos, lembra-te da… O senhor sabe, tem uma comunidade que se cumprimenta assim, desde que eles acordam, um vê o outro, sorri e diz – lembra-te da… – Ah! Ah, não sei por que tirar a despreocupação da vida enquanto vida.

Maximiliano ficou olhando o cachimbo fechado na gruta da mão.

– Vou lhe contar um caso, Senhor Gutierrez, serei rápido. – Fernandez, doutor. Samuel Fernandez.

– Perdão. Mas todo esse horror que o senhor tem por essa, digamos, fatalidade, um meu paciente tinha pelo automóvel. Pela máquina. Começou também assim, como o senhor, manifestando a princípio uma certa má vontade de guiar, vendeu o carro. Queixava-se do trânsito, dos motoristas. A má vontade se agravou, ficou agressivo, assustadiço, o medo de entrar num carro crescendo de tal jeito que só andava a pé, desconfiado, fugindo das ruas movimentadas, as orelhas atufadas de algodão para atenuar o som das buzinas, entrando em pânico se um carro se aproximasse mais. Ora, nossa cidade tem carro à beça, o que significa que ele vivia em estado de pânico permanente. Quando chegavam as férias, ele era bancário, fugia alucinado para o campo, para as praias, mas praia e campo, está tudo invadido, o carro está em toda parte, como Deus. Fugir para onde? Tentou se adaptar, dominar o horror. Não conseguiu. Quando resolveu me procurar, parecia um cadáver. Perdão, estava abatidíssimo. Fez a confissão quase em prantos: a fobia estava ficando insuportável. Essa repugnância que o senhor tem pelo avesso da vida, o cheiro especial que o senhor sente quando esse avesso se aproxima, ele sentia também, mas no cheiro da gasolina, do óleo, daquele bafo negro do motor, sentia tudo mesmo fechado num armário, mesmo escondido debaixo da cama. Então ordenei-lhe que se empregasse imediatamente numa fábrica de automóveis. – De automóveis?

Maximiliano deu uma risadinha.

– Vejo seu espanto, Senhor Gutierrez, mas não é novidade que a única forma de se curar de um veneno é recorrer ao próprio veneno. Como é que se cura picada de cobra? Hum? E o que vem a ser a homeopatia? Empregue-se numa fábrica de automóveis, receitei. E o moço, que não podia se aproximar sequer de uma garagem, de carros, entrou no coração deles, obrigado a lidar com as peças, montando, desmontando, parafusando, pintando, a cara enfiada na máquina, os ouvidos saturados do barulho da máquina. De manhãzinha já ia se esfregar nos motores, as unhas impregnadas de graxa, vi suas unhas, nem escova com sabão podia limpar aquelas unhas da presença detestável. Ensinei-lhe que é preciso destruir os fantasmas indo de encontro a eles, desvendá-los, meu caro, sabe o que é desvendar? É levantar o véu e olhar a coisa nos olhos. Nos olhos!

O telefone tocou e dessa vez Maximiliano tomou algumas notas, depois de informar que a pessoa em questão se ausentara da clínica por algumas horas. Voltou-se para o homem que esperava, ansioso, o cigarro pendendo do canto da boca, as mãos tortuosas abertas nos joelhos. Examinou-o num silêncio cordial. Tranqüilo.

– Ele sarou, doutor? – Quem?

– O moço…

– Ah, definitivamente. Passada aquela fase de sofrimento maior, começou a se interessar pelo trabalho. Vinha me ver três vezes por semana, nunca pensei que o processo de adaptação marchasse assim rápido: um mês depois já tinha comprado um carro. E lia revistas de automóveis, ajudou a montar o Salão da Máquina, colaborava na revista Oito Rodas, contava anedotas sobre o trânsito, virou um técnico. Durante esse período, só teve uma recaída, quando foi todo satisfeito ver uma fita sobre corrida de carros e de repente, no meio, se levantou aos gritos e saiu espavorido, todo o antigo horror explodindo tão forte que pensei, pronto, voltou ao marco zero. Mas não, no dia seguinte já estava normal, tudo bem. De admirador da máquina passou a ser seu amante, ih, a paixão que eu tenho por isto, me disse certa vez, alisando um pára-lama como se alisa a coxa da namorada. Mas sua paixão pelo automóvel não era de ficar por aí, não demorou muito e integrou-se no próprio.

– Não estou entendendo, doutor.

– Tão simples, Gutierrez: ele assumiu o automóvel. Virou um automóvel, e com tamanho fervor que certa manhã bebeu gasolina azul e saiu buzinando pela rua afora, uon! uon! uon! brrrrrrrrrr!… brrrrrrrrrr!… Perdeu para uma jamanta que vinha em sentido contrário.

– Morreu?

– Isso aí. E agora o senhor soltou a palavra tão natural, está vendo? Pronto, já é o caminho da cura assumir os fantasmas. Melhor ainda, virar um deles.

– Então ele não se curou, doutor.

Cariciosamente, Maximiliano passou e repassou no lábio risonho o cachimbo apagado.

– Mas o que o senhor chama de cura? Por acaso queria que ele continuasse um automóvel para o resto da vida? O senhor, por exemplo, quer continuar assim em pânico até o fim? É isso que quer? Me responda! Quer sofrer esse medo até morrer de medo?

– Não, doutor, não é isso que eu quero, não queria ter medo nunca mais, nunca mais!

– Eu poderia lhe recomendar um estágio de enfermeiro num hospital daquele estilo em que o doente entra sem o raminho verde no bico, sem esperança – disse e riu. Ficou sério. Olhou o relógio de pulso. – Seria retomar o tratamento daquele caso, os hospitais são fábricas de defuntos, os que não morrem da doença com que entram pegam outra lá dentro, o senhor teria um material de primeira ordem. Mas quero que pule essa fase, não vamos fazer cera, mesmo porque não vai ter outra consulta, esta é a última.

– A última?

– Seria pura perda de tempo, filho. Por que uma volta tão grande para se chegar ao mesmo fim? No hospital, o senhor iria se acostumando com – posso falar a palavra? – com a morte, e de tal jeito que acabaria se afeiçoando à idéia. De simples admirador passaria a ser seu amante, que nem o moço da máquina, montado nela o dia inteiro, aquele tesão. Mas não parava nisso, a identificação seria tão profunda que de repente ia querer se matar. Melhor então que se mate já.

– Doutor?!

– Imediatamente. Saia e se mate, é uma ordem.

O homem levantou-se, cambaleando. Deixou cair no cinzeiro o cigarro e ali ficou de pé, a boca entreaberta, a face porejando, branca.

– O senhor está falando sério, doutor?

– Nunca falei tão seriamente em minha vida. Só com a morte se cura o medo da morte. Mate-se. Não quer se libertar? Pois lhe ordeno a libertação, está salvo, mate-se – disse Maximiliano fixando no homem o olhar reto. – Saia e se mate em seguida. Uma boa morte para o senhor.

– Mas doutor, espera!…

Suave mas firmemente, Maximiliano foi impelindo o homem até a porta.

– Obedeça. Agora, adeus.

Assim que se viu sozinho foi até a janela e através do vidro ficou vendo o homem atravessar o jardim num passo vacilante, as mãos abertas, pendidas. Virou-se ainda uma vez, a face aterrada se contraindo inteira numa interrogação de quem se esqueceu ao dizer – ou fazer – alguma coisa, o quê?

Quando o Doutor Ramazian voltou, Maximiliano estava de pé ao lado da mesa, com o bloco de notas na mão. O cachimbo esvaziado. O cinzeiro limpo.

– Pronto, Max. Agora pode ir tomar seu lanche. Algum recado?

– Uma senhora telefonou, mas não quis dizer o nome. E um cliente, o Professor Nóbrega, também ligou, disse que só pode vir na sexta-feira, vai combinar a hora com Dona Dóris.

Doutor Ramazian encheu o cachimbo. Falou depois de uma baforada.

– Ótimo. Nada mais? Alguém me procurou?

– Um momento, deixa eu ver – disse Maximiliano franzindo a testa. Encarou o médico: – Não, ninguém. Ninguém. Posso ir? – Sim, sem dúvida – disse o médico passando o olhar distraído na folha de bloco com as anotações. – Ótimo, Max. Você vai indo muito bem, o progresso que fez. Estou muito satisfeito.

– Eu também.

– Falta apenas o último passo, você sabe, assumir sem possibilidades de retrocesso. Então estará curado. Maximiliano sorriu. A voz saiu mansa, num quase sussurro, “curado e fodido”.

– O que foi? Você disse alguma coisa?

– Não, doutor, nada. O senhor tem razão. Vamos ao lanche?

Fonte:
TELLES, Lygia Fagundes. Seminário dos Ratos.

Deixe um comentário

Arquivado em A Escritora com a Palavra

Carlos Drummond de Andrade (Poesias Avulsas III)

A BRUXA

A Emil Farhat

Nesta cidade do Rio,
de dois milhões de habitantes,
estou sozinho no quarto,
estou sozinho na América.
Estarei mesmo sozinho?
Ainda há pouco um ruído
anunciou vida a meu lado.
Certo não é vida humana,
mas é vida. E sinto a bruxa
presa na zona de luz.
De dois milhões de habitantes!
E nem precisava tanto…
Precisava de um amigo,
desses calados, distantes,
que lêem verso de Horácio
mas secretamente influem
na vida, no amor, na carne.
Estou só, não tenho amigo,
e a essa hora tardia
como procurar amigo?
E nem precisava tanto.
Precisava de mulher
que entrasse nesse minuto,
recebesse este carinho,
salvasse do aniquilamento
um minuto e um carinho loucos
que tenho para oferecer.
Em dois milhões de habitantes,
quantas mulheres prováveis
interrogam-se no espelho
medindo o tempo perdido
até que venha a manhã
trazer leite, jornal e calma.
Porém a essa hora vazia
como descobrir mulher?
Esta cidade do Rio!
Tenho tanta palavra meiga,
conheço vozes de bichos,
sei os beijos mais violentos,
viajei, briguei, aprendi.
Estou cercado de olhos,
de mãos, afetos, procuras.
Mas se tento comunicar-me,
o que há é apenas a noite
e uma espantosa solidão.
Companheiros, escutai-me!
Essa presença agitada
querendo romper a noite
não é simplesmente a bruxa.
É antes a confidência
exalando-se de um homem.

A CÂMARA VIAJANTE

Que pode a câmara fotográfica?
Não pode nada.
Conta só o que viu.
Não pode mudar o que viu.
Não tem responsabilidade no que viu.
A câmara, entretanto,
Ajuda a ver e rever, a multi-ver
O real nu, cru, triste, sujo.
Desvenda, espalha, universaliza.
A imagem que ela captou e distribui.
Obriga a sentir,
A, driticamente, julgar,
A querer bem ou a protestar,
A desejar mudança.
A câmara hoje passeia contigo pela Mata Atlântica.
No que resta – ainda esplendor – da mata Atlântica
Apesar do declínio histórico, do massacre
De formas latejantes de viço e beleza.
Mostra o que ficou e amanhã – quem sabe? acabará
Na infinita desolação da terra assassinada.
E pergunta: “Podemos deixar
Que uma faixa imensa do Brasil se esterilize,
Vire deserto, ossuário, tumba da natureza?”
Este livro-câmara é anseio de salvar
O que ainda pode ser salvo,
O que precisa ser salvo
Sem esperar pelo ano 2 mil.

ACORDAR, VIVER

Como acordar sem sofrimento?
Recomeçar sem horror?
O sono transportou-me
àquele reino onde não existe vida
e eu quedo inerte sem paixão.

Como repetir, dia seguinte após dia seguinte,
a fábula inconclusa,
suportar a semelhança das coisas ásperas
de amanhã com as coisas ásperas de hoje?

Como proteger-me das feridas
que rasga em mim o acontecimento,
qualquer acontecimento
que lembra a Terra e sua púrpura
demente?
E mais aquela ferida que me inflijo
a cada hora, algoz
do inocente que não sou?

Ninguém responde, a vida é pétrea.

A CORRENTE

Sente raiva do passado
que o mantém acorrentado.
Sente raiva da corrente
a puxá-lo para a frente
e a fazer do seu futuro
o retorno ao chão escuro
onde jaz envilecida
certa promessa de vida
de onde brotam cogumelos
venenosos, amarelos,
e encaracoladas lesmas
deglutindo-se a si mesmas.

(in A Paixão Medida)

A EXCITANTE FILA DO FEIJÃO

Larga, poeta, a mesa de escritório,
esquece a poesia burocrática
e vai cedinho à fila do feijão.

Cedinho, eu disse? Vai, mas é de véspera,
seja noite de estrela ou chuva grossa,
e sem certeza de trazer dois quilos.

Certeza não terás, mas esperança
(que substitui, em qualquer caso, tudo),
uma espera-esperança de dez horas.

Dez, doze ou mais: o tempo não importa
quando aperta o desejo brasileiro
de ter no prato a preta, amiga vagem.

Camburões, patrulhinhas te protegem
e gás lacrimogêneo facilita
o ato de comprar a tua cota.

Se levas cassetete na cabeça
ou no braço, nas costas, na virilha,
não o leves a mal: é por teu bem.

O feijão é de todos, em princípio,
tal como a liberdade, o amor, o ar.
Mas há que conquistá-lo a teus irmãos.

Bocas oitenta mil vão disputando
cada manhã o que somente chega
para de vinte mil matar a gula.

Insiste, não desistas: amanhã
outros vinte mil quilos em pacotes
serão distribuídos dessa forma.

A conta-gotas vai-se escoando o estoque
armazenado nos porões do Estado.
Assim não falta nunca feijão-preto

(embora falte sempre nas panelas).
Método esconde-pinga: não percebes
que ele torna excitante a tua busca?

Supermercados erguem barricadas
contra esse teu projeto de comer.
Há gritos, há desmaios, há prisões.

Suspense à la Hitchcock ante as cerradas
portas de bronze, guardas do escondido
papilionáceo grão que ambicionas.

É a grande aventura oferecida
ao morno cotidiano em que vegetas.
Instante de vibrar, curtir a vida

na dimensão dramática da luta
por um ideal pedestre mas autêntico:
Feijão! Feijão, ao menos um tiquinho!

Caldinho de feijão para as crianças…
Feijoada, essa não: é sonho puro,
mas um feijão modesto e camarada

que lembre os tempos tão desmoronados
em que ele florescia atrás da casa
sem o olho normativo da Cobal.

Se nada conseguires… tudo bem.
Esperar é que vale – o povo sabe
enquanto leva as suas bordoadas.

Larga, poeta, o verso comedido,
a paz do teu jardim vocabular,
e vai sofrer na fila do feijão.

(in Amar Se Aprende Amando)

A FALTA DE ÉRICO

Falta alguma coisa no Brasil
depois da noite de Sexta-feira
Falta aquele homem no escritório
a tirar da máquina elétrica
o destino dos seres,
a explicação antiga da terra.
Falta uma tristeza de menino bom
caminhando entre adultos
na esperança da justiça
que tarda – como tarda!
a clarear o mundo.
Falta um boné, aquele jeito manso,
aquela ternura contida, óleo
a derramar-se lentamente,
falta o casal passeando no trigal.
Falta um solo de clarineta.

A FALTA QUE AMA

Entre areia, sol e grama
o que se esquiva se dá,
enquanto a falta que ama
procura alguém que não há.

Está coberto de terra,
forrado de esquecimento.
Onde a vista mais se aferra,
a dália é toda cimento.

A transparência da hora
corrói ângulos obscuros:
cantiga que não implora
nem ri, patinando muros.

Já nem se escuta a poeira
que o gesto espalha no chão.
A vida conta-se, inteira,
em letras de conclusão.

Por que é que revoa à toa
o pensamento, na luz?
E por que nunca se escoa
o tempo, chaga sem pus?

O inseto petrificado
na concha ardente do dia
une o tédio do passado
a uma futura energia.

No solo vira semente?
Vai tudo recomeçar?
É a falta ou ele que sente
o sonho do verbo amar?

Deixe um comentário

Arquivado em O poeta no papel

Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n.129)

Uma Trova Nacional

Por mais que eu garimpe e tente,
nos meus pedregulhos tantos,
nem com lupa ou forte lente
eu não acho os meus encantos.
(TIA PRISCA/SP)

Uma Trova Potiguar

Amo bastante, não minto;
sem envolver-me em lambanças,
sentir saudades, não sinto;
sinto, agradáveis lembranças.
(PEDRO GRILO/RN)

Uma Trova Premiada

2010 > Curitiba/PR
Tema > IMAGEM > Menção Honrosa

A grande riqueza humana
consiste em se perceber
quando a luz do “ter” profana
e ofusca a Imagem do “ser”.
(WANDIRA FAGUNDES QUEIROZ/PR)

Simplesmente Poesia

– Sérgio Severo/RN –
TRIBUTO A NOVA FRIBURGO.

Nova Friburgo se ergue
das brumas de um pesadelo
e não há ninguém que negue:
nunca o fez por merecê-lo.

Essa Cidade tão Bela,
“Capital dos Trovadores”,
tornará a ser aquela,
“Eterna Terra das Flores”.

Ó Terra dos meus Avós,
permita falar por Vós,
e ao Brasil, todo, eu conclamo:

“Venham à Terra revivida,
de novo, cheia de Vida,
Nova Friburgo, TE AMO!!”

Uma Trova de Ademar

Estão nos desígnios meus
lições de uma eternidade:
só na colheita de Deus
se colhe Fé de verdade!…
(ADEMAR MACEDO/RN)

…E Suas Trovas Ficaram

Para não sentir remorsos
de roubar os beijos teus,
cada dia mais me esforço
de pagá-los com os meus.
(MIGUEL RUSSOWSKY/SC)

Estrofe do Dia

Relembrar um grande amor,
uma ausência lamentar,
ficar triste, suspirar,
ver a beleza da flor,
andar com ar sonhador,
parecendo estar ausente,
isso é banzo recorrente
uma coisa que maltrata,
pois saudade ninguém mata,
é ela que mata a gente.
(JOSÉ ALBERTO COSTA/AL)

Soneto do Dia

– Humberto Rodrigues Neto/SP –
PLÁGIOS.

Há poetas que vivem no ostracismo,
mas julgam-se a si próprios magistrais,
e em tábidas manobras imorais
fazem do plágio seu falaz lirismo.

Surdos à lei e às convenções morais,
entregam-se da inveja ao fatalismo,
essa filha bastarda do egoísmo
que tantos danos à poesia traz!

Por falha herdada de um viver pretérito,
pouco lhes toca que um poema ultrajem
pra disfarçar seu crônico demérito!

Mal sabem os medíocres que assim agem,
que a inveja é até uma forma de homenagem
que prestam, sem saber, aos que têm mérito!

Fonte:
Ademar Macedo

1 comentário

Arquivado em Mensagens Poéticas

João Freire Filho (Caderno de Trovas)

A lua, que nos clareia,
é diferente de quem,
recebendo luz alheia,
não ilumina ninguém!

Ante a dor… não esmoreço,
sabendo, em meu caminhar,
que a Vida não cobra preço
que não se possa pagar

A Terra vive conflitos,
sangrando, de guerra em guerra,
e é com voz branda… e, não, gritos…
que se há de ter Paz… na Terra!

A saudade é dependência…
É meu vício, em tal medida,
que você se fez a ausência
mais presente em minha vida!

As revoltas não têm fim
e explodem cada vez mais,
que a fome acende o estopim
das convulsões sociais!

A tormenta, que atordoa,
não distingue, em mar bravio,
a humildade da canoa…
da soberba do navio!…

A Verdade anda tão rara,
que a Mentira, sorridente,
já nem sequer se mascara
para enganar tanta gente!

A vida me presenteia
com tamanhas alegrias,
que a tristeza é um grão de areia
na ampulheta dos meus dias!

Bendita a fonte escondida…
que escorre e, por onde passa,
trazendo a graça da vida,
dá tanta vida de graça!

Cai na rua… Perde o tino,
no alcoolismo em que se esvai…
E, aos passantes… um menino
diz, inocente: – “É meu pai”…

Cantando terno estribilho
e esquecendo que era escrava,
Mãe Preta aleitava o filho
de quem os seus açoitava!…

Com sabor de penitência…
de brinde contra a vontade,
vou bebendo a tua ausência…
em meus porres de saudade!

Da ternura ao desvario..
do desvario à ternura,
nosso amor vive no fio
da mais sublime loucura…

Distante, a lua prateada,
entre nuvens de inconstância,
me lembra a mulher amada…
mais amada… se à distância!

Distante do olhar das ruas,
num sonho que me enternece,
em nosso céu brilham luas
que só nosso amor conhece!…

Dos meus tempos mais risonhos
descubro, agora, os segredos:
– cabia um mundo de sonhos
no meu mundo de brinquedos!

É o desvario do mando
de alguns Senhores da Terra…
que implanta, de quando em quando,
os desvarios da guerra!

Eu compreendo os desvios
a que leva uma paixão…
As vezes, são desvarios
que dão à vida… razão!…

Fim do amor… Desiludidos,
sabemos juntos, mas sós,
que há silêncios inibidos…
tentando falar por nós!

Hoje, em meu leito, sem ela,
enquanto resisto ao sono,
a Saudade é sentinela…
dando plantão… no abandono!

Imperfeito, eu rogo, aflito,
por nosso amor, que é perfeito:
– Não faças de mim um mito…
que mitos não têm defeito!

Liberdade — sentinela
da Paz, em qualquer lugar!
E quem não lutar por ela…
não tem mais por que lutar!

Lutando por ideais,
mesmo à beira da utopia,
tenho enfrentado os “jamais”
com meus “sempres” de ousadia

Meu coração se acautela
e, imerso em desilusões,
faz da razão sentinela…
contra novas invasões!

Meus ideais mais risonhos
correm livres, sempre em frente,
numa corrente de sonhos,
que rompe qualquer corrente!

Na vida, que te conduz
às mais diversas pelejas,
se não puderes ser luz,
que, ao menos, sombra não sejas!

Nosso amor, desde o começo,
tem tal alcance e medida,
que, quanto mais envelheço,
mais o sinto… além da vida!

O meu amor te ocultei!
Seguimos rumos diversos…
Passou-se o tempo, e, hoje, eu sei:
– permaneceste em meus versos!

Poeta é aquele que abraça
a noite, sentindo-a sua,
e bebe estrelas na taça
inspiradora… da lua!

Quem ama… libera o ardor
dos impulsos naturais,
que, em desvarios de amor,
loucura alguma é demais !

Quem tem a luz do saber,
muito mais que outro qualquer,
tem de cumprir o dever
de ser luz… onde estiver!

Saudoso, namoro a Lua
e sinto, por seu feitiço,
que o nosso amor continua,
embora nem saibas disso!

Sonhador, poeta… e amante
de quanto a vida me dá,
que importa a lua distante…
se os meus sonhos chegam lá ?!…

Tenho um segredo profundo
– e, é de amor… – e, tarde ou cedo,
eu gostaria que o mundo
soubesse desse segredo!

Teu ciúme, cortando os laços
do nosso amor, me magoa…
mas meu amor abre os braços
e, por amor, te perdoa!

Toda noite ela regressa
em meus sonhos erradios…
Não há distância que impeça
de eu tê-la… em meus desvarios !

Vem do sol a luz de prata
que parte da lua encerra…
E a lua, modesta e grata,
deita pratas sobre a terra!

Deixe um comentário

Arquivado em Rio de Janeiro em Trovas, Trovas

João Freire Filho (1941)

Nasceu no Rio de Janeiro, em 29 de maio de 1941.

Cursos de Bacharel pela Faculdade de Letras e Licenciatura pela Faculdade de Educação, ambas da UFRJ. Também em ambas foi professor, tendo se aposentado após mais de 35 anos de serviço.

Foi também diretor do Colégio de Aplicação daquela universidade.

Iniciou-se na Trova em 1979. Sua primeira premiação foi em São Bernardo do Campo, no mesmo ano.

Magnífico Trovador (gênero “líricas e filosóficas”) por Nova Friburgo.

Ex-presidente da UBT – União Brasileira de Trovadores.

Lançou, em 2007, o livro de trovas “Entre achados e perdidos”.

1 comentário

Arquivado em Biografia, Rio de Janeiro

Lygia Fagundes Telles (Dia de Dizer Não)

Esse dia vai ser hoje, resolvi quando acordei: dia de dizer Não! E pensei de repente em Santo Agostinho, o vera artificiosa apis Dei – abelha de Deus. Admirada e amada abelha de caráter tão forte que conhecendo o sim e o não na sua natureza mais profunda cedeu para em seguida resistir, ah! Como ele resistiu até se instalar na cidade sonhada. Não! ele disse ao invasor daquele tempo e que devia ser parecido com o invasor atual, esse invasor-cobrador a ocupar um espaço que não lhe pertence.

Falei na Cidade de Deus. E estamos nesta cidade aqui embaixo onde tem invasor de todo tipo, desde os extraterrestres (em geral, mais discretos) até aqueles mais ambíguos: o invasor da vontade. Esse vem mascarado. Aproveitando-se, é claro, do mais comum dos sentimentos, o da culpa. No imenso quadro do mea culpa, a postura fácil é a da humildade que quer dizer fragilidade. Isso comove o invasor? Não comove não, ao contrário, ele se sente estimulado a insistir até dobrar a vontade enferma que acaba por ceder fortalecida na crença de que mais adiante pode se libertar. Libertou-se? Não porque o sim vai se multiplicando como os elos de uma corrente na qual ele se enrola, passivo. E acreditando lutar porque não perde a esperança. Mas a esperança é cega e na desatinada cegueira acaba por se transformar na esperança da desesperança.

O próximo que Jesus pediu para amar, eu sei. Mas Ele está vendo como ficou o próximo neste século. E não estou pensando no próximo real (o povo) mas nesse próximo oficial, o político-invasor que nem está se importando realmente quando ouve a recusa: faz uma cara aborrecida mas logo vai tomar chope ou cocaína e esquece. Contudo, mostra-se exigente. E costuma fazer perguntas no tom de quem não aprecia respostas pessimistas, o cobrador é o oposto do negativista. Tudo bem?, ele pergunta e o invadido deve responder, Tudo bem! com aquele ar atlético de quem já deu a volta por cima quando na realidade está caído de borco no chão. É o sim do comodismo. Da servidão.

A cega esperança. Com os cegos encarneirados no servilismo que gera a insegurança. O medo. Medo até de sentir medo e daí a fragilizada vontade sonhando com a evasão. Com a fuga. Mas fugir para onde se a Miséria e a Violência (as irmãs gêmeas) estão em toda parte num só galope, montadas nos pálidos cavalos do Apocalypse. Neste Ano do Dragão (Horóscopo Chinês) o homem ficou mais cruel ou ele foi sempre desse jeito mesmo? Dia de dizer Não. Peço a Deus que aumente a minha fé, peço tão ardentemente, é a depressão? E esta dor não localizável, outra gripe? Por pudor não me jogo no chão nem arranco os cabelos que já estão ralos na cabeça dolorida, mas onde está aquele bom invasor (o extraterrestre) que vai ensinar a desatarraxar a cabeça latejante para dependurá-la com delicadeza no cabide? Dissolvo aspirinas. Uma parte de mim mesma se deita no escuro enquanto a outra parte (estou dividida) me aponta a rua. Porque já tem um cobrador no éter (o telefone) cobrando e interpelando, Por que essa voz? Engulo depressa a saliva e respondo que estou bem. Estou ótima! posso até declarar aos quatro ventos, quais são os quatro ventos? Esqueci. Sei de um único vento que apenas varia de intensidade assim como a Pizza dos Quatro Queijos, atração do restaurante: a gente encomenda e ela vem soltando fumaça, quatro queijos! Na realidade, há um único queijo que vai variando ao capricho dos molhos. A solução é fingir (mentir) que a gente acredita e de mentira em mentira ir regredindo até culminar no triunfo do otimismo só alcançado por aquele filme, lembra? O galã levou uma rajada de metralhadora no peito, a camisa ensopada de sangue (suco de tomate ou calda de chocolate?) e ainda assim consegue chegar rastejante até o policial que faz a clássica pergunta: Tudo bem? E o galã responde, Tudo bem! quando devia gritar, Que merda, eu estou morrendo! Mas nesse pedaço entram os violinos (cinema comercial norte-americano) e o galã fica sentimental porque pensa na amada. Mais violinos. Horas non numero nisi serenas! – ele pode citar com a ênfase do relógio no jardim parisiense, Conto somente as horas felizes!
Contagem em dólar! sopra o materialista eufórico. Pois é, a ênfase.

“As coisas. Que tristes são as coisas consideradas sem ênfase”, escreveu o poeta Carlos Drummond de Andrade. Ficam tristes as coisas e a espécie humana, eu acrescento. Com a licença dos ateus eu queria dizer ainda que na ênfase está a alma.

Tive a minha juventude tão impregnada pelo som colonizador que considero um milagre me ver insubmissa nesta altura, tentando desde sempre – ai de mim! – forjar uma vontade com a resistência do ferro.

Manhã de céu claro. Limpo. O motorista do táxi liga o rádio e pergunta se quero escutar esse político falando. Não, respondo. Digo que não gosto de discurso e ele sugere então uma música sertaneja, já estacionou no canal das violas. Desafinadas, descubro e me calo: se essa sua cordialidade não tiver resposta, ele vai se irritar e na irritação pode trombar com o carro da frente, um ônibus que já está invadindo o nosso espaço. Cuidado!, eu sussurro e me encolho inteira para não ser arremessada para fora. Num impacto do qual saio, no mínimo, com uma perna quebrada. Tento relaxar enquanto vou brincando (brincando?) com as idéias: imagino uma senhora de perna quebrada e entrando num pronto-socorro público em dia útil. Ou inútil, não importa, sempre há gente demais. Demais! – exclama o médico ao qual me dirijo com delicadeza, na insegurança a voz fica delicadíssima. A senhora teve apenas uma fratura, ele diz. E olha só como está isso!, explode e corre em seguida para receber um capacete de motoqueiro com miolos dentro. O policial com o capacete está gaguejando, pois o jovem teve a cabeça prensada contra o poste e na colisão ficaram esses miolos, ele esclarece estendendo o capacete. Recolhi o que pude, esclareceu e apontou para o corredor: O corpo é aquele que está ali… Que estava, porque a padiola já vai sendo rapidamente removida. O policial e o médico, ambos precisam correr atrás dessa padiola. Em vão, porque foram interceptados por outro médico que chega esbaforido e perguntando pelo corpo de outra vítima, outra?! Esse segundo médico aponta para a padiola onde está apenas um braço amputado e meio enrolado numa folha de jornal com respingos de sangue. Pasmo total dos dois médicos e do policial gaguejante. Mas logo aparece um senhor bem barbeado, metido numa elegante malha esportiva. Apresenta-se como testemunha: Este não foi um acidente mas um assalto, ele diz fechando o zíper do blusão azul. Eu vinha fazendo o meu cooper quando vi num buraco do asfalto um dedo apontando no meio da lama, tinha chovido, doutor. E o bueiro entupiu, o senhor sabe, estão sempre entupidos. E o braço decepado pelo elemento foi cair justo nesse buraco, o susto que levei! O segundo médico (o primeiro já tinha desaparecido com o policial) inclinou-se para ver melhor o braço com placas de lama e sangue. E ainda com uns restos do tecido da camiseta cavadona, o calor. A testemunha abre o zíper do blusão e prossegue: A vítima vinha guiando o seu Gol último tipo quando fechou o sinal e lá veio o elemento com o revólver que falhou. A vítima então abriu o vidro da janela e abriu os braços, a recomendação é essa, a vítima não deve jamais reagir, ao contrário, deve demonstrar afeto. Infelizmente o elemento não entendeu e puxou a peixeira, tinha falhado o revólver, já dei esse detalhe. E todo mundo que ia passando por perto e fazendo que não estava nem aí, todo mundo vendo e disfarçando enquanto o elemento continuou completando o seu serviço! arrematou a testemunha apontando para a padiola. Puxou o maço de cigarro do bolso do blusão e interrompeu o gesto quando leu o aviso, É proibido fumar. O médico inclinou-se atento até à padiola, Mas o corpo? Onde está esse corpo? A testemunha empertigou-se: Também não sei, doutor! Suponho que o corpo veio na frente, está por aí, disse e apontou vagamente para o corredor atulhado de padiolas e camas improvisadas. Só encontrei esse braço que esqueceram no local, conforme já disse. O resto mesmo eu não sei onde foi parar, isso daí eu não sei. O médico tirou uma pinça do bolso do avental e futucou o corte sob a crosta de sangue: Um trabalho perfeito, disse.

Recolho as pernas para bem junto do banco e olho aflita para o motorista que está atendendo a um chamado no seu celular, dirige apenas com a mão esquerda. Enfim, o ônibus ameaçador já desapareceu no tumulto. Consigo moderar a respiração. A charanga das violas segue livre no rádio e agora o motorista guia com ambas as mãos, depositou o celular ao lado. Abro uma nesga no vidro da janela e onde o vendedor já introduziu uma caixinha, Morangos, dona? Digo Não e vou repetindo o Não ao vendedor que oferece panos de limpeza e ao outro que oferece chicletes, vassouras… A miséria trabalhando, penso e digo um Não mais brando ao moço que oferece uma cestinha de violetas. Aproxima-se um pequeno cacho de mendigos. Fecho depressa o vidro e no espelhinho vejo a cara congestionada do motorista que me lança um olhar agressivo, Está quente, não?

Na avenida ensolarada, a miséria (aquela galopante) me pareceu mais calma. Ainda assim, presente. Abri o vidro da janela esquerda quando o sinal fechou lá no cruzamento. Abre logo! fiquei desejando. Mas esse era um farol distraído, tão distraído que deu tempo para o menino vendedor de bilhetes de loteria vir vindo capengando: equilibrava-se nas muletas debaixo dos braços ossudos e ainda assim avançava rapidamente, esgueirando-se ágil por entre as filas de carros. Mesmo lá longe devia ter visto a janela aberta e agora chegava triunfante. Pronto, conseguiu, pensei recuando enquanto a mão magra entrava pela abertura, não vendia bilhetes mas papel de cartas.

– Cartas perfumadas! anunciou com voz estridente ao abrir o leque colorido de envelopes. Mande uma carta perfumada, olha só, esta tem perfume de rosa! Esta daqui é de jasmim, coisa linda!

Escorreguei para o canto oposto do carro e ele insistindo a sacudir o arco-íris de papel. Senti o perfume adocicado e voltei o olhar ansioso para o farol vermelho, tão vermelho! mas não vai abrir?! E o menino magrela e dentuço falando sem parar, Carta azul é para amigo mesmo, mas esta daqui cor-de-rosa, está vendo? esta é carta de amor! Esta daqui branca é de amor que acabou mas esta roxa é a carta da saudade, a saudade é roxa, leva tudo e faço um preço especial!

Fixei o olhar nas suas duas muletas, uma de cada lado a sustentar o tronco ossudo e saltado sob a camiseta de propaganda política. Então me lembrei de minha mãe lá no seu jardim, as mãos sujas de terra tentando segurar com duas estacas a planta murcha, vergada para o chão.

– Não tenho a quem escrever.
O menino riu a sacudir o maçarote.
– Mas nenhum namorado, uai!

O motorista achou graça e sacudiu os ombros num risinho de cumplicidade, O perfume é bom! aprovou em voz baixa. Voltei-me para o sinal, mas não vai abrir nunca mais? E aquela intimidade que de repente se armou ali dentro, a música sertaneja no auge das violas e o menino também no auge do entusiasmo, a sacudir as cartas:

– Escuta só isso, ele pode estar longe mas vai voltar correndo se receber esta carta verde que é do perdão. Puro cravo!
– Abriu! O sinal abriu, anunciei ao motorista distraído, todo voltado como um girassol para o vendedor.

Ele retomou a direção, eu disse o Não definitivo e as filas dos carros recomeçaram a avançar furiosamente. A mão alada fugiu feito um pássaro pela fresta do vidro. Vi ainda a silhueta magrela esgueirar-se capengando entre as muletas e desaparecer atrás de um jipe.

– Fica para outra vez, eu disse fechando a janela.
– O perfume era bom, resmungou o motorista.

Ele estaria me censurando ou a censura estava apenas em mim? Fui cumprindo as tarefas da rotina: uma passagem pelo banco que achei diferente, mas onde está aquele antigo clima de amenidades, de confiança? Tantos homens
armados. As caras severas – mas este banco virou um quartel? Ouço sem emoção as ofertas de valiosos planos que o gerente oferece e aos quais vou educadamente recusando, Não, não… Parto em seguida para o corredor tumultuado dos Correios e Telégrafos. A fila é bastante longa e então tenho tempo para ouvir os apelos, esta mulher com uma criança quer dinheiro para comprar os remédios, o homem desdentado pede uma passagem para voltar ao Nordeste, o moço com chapéu de vaqueiro quer que eu participe de um sorteio fantástico, posso ganhar um carro importado! Não, Não… vou repetindo e no cansaço faço agora apenas um gesto meio vago para o mendigo que me aborda na calçada e que fixa em mim um olhar interpelativo, Mas o que a senhora tem aí no peito? Uma pedra?

– Podemos ir, eu disse ao motorista que me aguardava no táxi. Ele tinha desligado o rádio e examinava um folheto. A cara fechada.
– Onde agora?

Fiquei muda ao sentir que meu semblante tinha descaído como os semblantes bíblicos nas horas das danações. Baixei a cabeça e pensei ainda em Santo Agostinho, “a abelha de Deus fabricando o mel que destila a misericórdia e a verdade”. Afinal, o dia de dizer Não estava mesmo cortado pelo meio porque na outra face da medalha estava o Sim. A vontade podia servir tanto de um lado como do outro, o importante era escolher o lado verdadeiro e para isso seguir a inspiração da razão. Ou do coração? Ora, liberdade nessa inspiração, toda a liberdade para não me sentir como estava me sentindo agora, uma esponja de fel. A ênfase da inspiração! decidi e levantei a cabeça no susto da revelação: o menino das muletas! Era nele que pensava (e não pensava) o tempo todo.

– Por favor, vamos voltar para o mesmo caminho, pedi ao motorista. Quero comprar as cartas daquele menino, vou comprar todas! anunciei e ouvi minha voz com alegria.

Ele voltou a ligar o rádio. Deu a partida:

– O perfume era bom.

Lá estava o cruzamento da avenida e com o mesmo farol vermelho acendendo glorioso. Abri rapidamente o vidro da janela, Que sorte! E procurei ansiosamente, Mas não era por aqui que ele estava? O motorista saiu do carro para ajudar na busca, olhou para um lado, para o outro, gesticulou. Fez perguntas, E aquele moleque das muletas?…

Abri a porta e perguntei ao jornaleiro, Onde está o vendedor das cartas, você conhece? Então, aquele… ah! onde a mão ossuda sacudindo o jardim do arco-íris, onde?! Vi o vendedor de figos e vi a menina dos caramelos. Fui olhar da outra janela e dei com o jovem dos potes de flores.

– Um menino de muletas vendendo cartas! perguntei e as pessoas tentando vagamente ajudar, Cartas?…

O motorista voltou para a direção, lá adiante o farol já estava verde.

– Mas onde esse moleque foi parar?

Vi ainda o jornaleiro e o camelô dos relógios, vi a mocinha distribuindo anúncios de imóveis, e o menino das cartas perfumadas, esse eu não vi mais.

Fonte:
TELLES, Lygia Fagundes. Invenção e Memória. Editora Rocco, 2000.

Deixe um comentário

Arquivado em A Escritora com a Palavra

Lígia Leivas (Um Gaúcho de Coração Calado)

Pelas bandas das coxilhas, na vasta estância a perderem-se de vista seus limites, vivia ele de viver os dias como ordenasse o destino ou quisesse o senhor lá de cima… sabe-se lá… Apenas o olhar fazia arabescos a mostrar que o velho gaúcho sentia coisas mais além do que o seu jeito sossegado aparentava. Sem mulher, sem filhos, sem família, servia o patrão estancieiro com lealdade e respeito. Viera parar ali ainda guri, à procura de trabalho. Todos os que o conheciam, tratavam-no com consideração e certa distância. Havia noites em que se ouvia ao longe o som de sua gaitinha de boca, tocada admiravelmente. De pouquíssimas palavras, era mesmo um homem estranho. Mas estimado. E ninguém o queria perder de vista, nem imaginavam que ele um dia pudesse ir embora dali.

E assim ia o tempo. Quando sobravam algumas horas, o gaúcho atendia as redondezas nas estâncias e fazendas e assim ganhava uns trocados que nem tinha em que gastar.

Um dia chegou da cidade grande um casal parente dos patrões. Ele, homem vistoso, de bom gosto, roupas elegantes e ainda um sorriso pronto, franco. Ela, jovem senhora, moça fina, pele morena, muito, muito bonita. Tudo mudou na estância.

O serviço aumentou. Mais almoços, mais arrumações e limpezas. Mais passeios, na tentativa de conhecerem toda a propriedade. Era preciso manter tudo sem qualquer sinal de desleixo.

O gaúcho sempre quieto e fazendo suas lides. Apenas observava o ambiente enquanto completava as tarefas. Tinha prazer em mostrar suas habilidades para assim também agradar os visitantes.

À noite, na roda do chimarrão, enquanto todos conversavam e ele organizava as atividades para o outro dia, ficava a olhar, encantado com a moça e sua beleza, sua simpatia. Até pensara em comprar para ela um colar de continhas que vira lá no armazém da vila. Enfim, sentia que o mundo por ali havia mudado. Um novo colorido e até uma vontade de andar mais garboso, com botas em vez de alpargatas; com bombachas mais alinhadas; com os apetrechos de gaúcho mais cuidados. Até o lenço vermelho voltara a usar no pescoço.

Passados mais de dois meses, cedinho ainda, manhã já com ares de primavera, o gaúcho surpreendeu-se ao ver a moça montar o baio e sair campo afora… Ficou matutando, pensando, enquanto enrolava seu cigarrinho de palha. Não demorou muito, meia hora depois, o marido, troteando um alazão, embretou-se campo adentro, levantando a poeira dos caminhos. Que teria acontecido?…

Passou o meio-dia, a tarde, a noite. Não voltaram naquele dia. Nem no outro, nem no seguinte. Começaram as buscas. Naquelas lonjuras, tudo muito difícil. Sabia-se que por aquelas terras havia lugares que nenhum homem ainda havia pisado.
Todos – ou os poucos – daquelas paragens diziam alguma coisa, davam opinião. Mas ninguém sabia nada mesmo e nem poderiam imaginar.

Quando chegou a próxima lua cheia, uns dez, doze dias depois, o casal finalmente foi encontrado lá pelas barrancas do rio Uruguai… o colar de continhas ainda enfeitava o esguio pescoço da mulher bonita. Nem o moço vistoso perdera seu jeito bonito.

Naquela noite, o gaúcho tocou por muito mais tempo sua gaitinha de boca. E a quietude parecia mais profunda…

No domingo seguinte, já com certo calor nas pradarias, o gaúcho não levantou na hora de costume. O cão, seu leal companheiro, também dormia sossegado no portal do rancho.

Era preciso fazer a ordenha. Por que o gaúcho ainda não se mexeu hoje, perguntou o patrão a um outro peão.

Encaminharam-se para o rancho.

No catre forrado de pelego de ovelha, no canto do quarto, o gaúcho, enrijecido, tinha apertada entre as mãos a fotografia do moço bonito que viera da cidade grande para distribuir sorrisos – coisa pouco comum naquelas plagas distantes.

Fontes:
Revista “Recanto da Prosa e do Verso” ano III Setembro de 2010 . Portal CEN.

Imagem = Pagina Aberta

Deixe um comentário

Arquivado em A Escritora com a Palavra

Folclore Latino-americano (Acoitrapa e Chuquilhanto)

Na cordilheira que fica em cima do vale de Yyucay, em Cusco, pode-se ouvir todos os sons. O vento sopra com sua bocarra; a manhã, obrigada a se levantar sempre antes dos outros, boceja morta de sono; os pássaros, seus eternos namorados, acordam cantando ao ouvi-la se espreguiçar.

De repente, silêncio. Acaba de chegar Acoitrapa, o pastor de lhamas. Ele é jovem e belo. Toca a quena tão docemente, que até as flores mais tímidas se abrem e despontam entre os galhos das árvores para escutá-lo.

Certa vez, as duas filhas do sol passaram perto de seu rebanho. Encantadas com a música, se aproximaram para ver quem tocava tão bem assim aquele instrumento. O pastor ficou deslumbrado ao vê-las. Os três conversaram e riram, sem se preocupar com o correr das horas.

Quando o sol se escondeu, as jovens, com muita pena, precisaram se despedir. O pai permitia que passeassem pelo vale, porém ai delas se não chegassem em casa antes do anoitecer!

Chuquilhanto, a mais velha, se sentiu mais triste que sua irmã. Sem saber como, se apaixonara por Acoitrapa.

Chegando ao palácio, Chuquilhanto não quis comer. Correu para o quarto, a fim de ficar sozinha. Deitou-se, fechou os olhos, ficou se lembrando de seu doce pastor, e então adormeceu. Em sonhos, viu um belo rouxinol que cantava suave e harmoniosamente. Falou-lhe, então, de seu amor e de seu medo: temia que seu pai considerasse um guardador de lhamas muito pouco para uma filha do sol.

O rouxinol, comovido pela aflição da jovem, lembrou-lhe que no palácio havia quatro fontes de água cristalina: se ela se sentasse no meio delas cantando o que o seu coração sentia, e as fontes lhe respondessem com a mesma melodia, significava que poderia fazer sua vontade e que seus desejos seriam atendidos.

Chuquilhanto acordou. Lembrava-se perfeitamente do sonho. Vestiu-se depressa e foi aos jardins do palácio. Ali estavam as fontes, dando de beber à manhã. Seguindo as instruções do passarinho, Chuquilhanto sentou e começou a cantar uma triste melodia. As fontes entenderam a sua angústia e manifestaram isso cantando em uníssono, consentindo, portanto, em ajudá-la. Chamaram a chuva e ordenaram-lhe que transmitisse ao pastor o carinho que Chuquilhanto sentia por ele.

A chuva saiu a cântaros do palácio, em direção à choupana de Acoitrapa. Ao encontrá-lo, banhou-lhe o coração com a imagem da jovem.

O pastor, com o peito traspassado pela saudade da princesa, se pôs a tocar sua quena, com tanta tristeza, que até as frias pedras se comoveram. Desolado, compreendeu que o sol jamais permitiria que a filha se casasse com um pobre guardador de lhamas. Mas, que cansada estava sua alma de tanto sonhar com Chuquilhanto! Assim, adormeceu com a quena apertada entre os dedos.

Ao anoitecer, chegou sua mãe. Vendo os olhos do filho cobertos de lágrimas, pressentiu o que estava acontecendo. Como boa velhinha, sabia que um homem só chora dormindo quando está longe de sua amada. A velhinha não suportava ver o filho sofrer. Pensando num modo de aliviá-lo, lembrou-se de um velho bastão mágico que herdara de seus antepassados e que serviria perfeitamente a esse propósito. Então, arquitetou um plano; ordenou ao filho que fosse para a montanha, que se ocupasse do rebanho.

Enquanto isso, Chuquilhanto despertara com os primeiros raios de sol. Agora sentia o coração otimista, os pés leves e um só desejo: encontrar seu amado. Apostando corrida com o vento, chegou à choupana de Acoitrapa. Ao ver que ele não estava, seus olhos se encheram de lágrimas. Tratou de disfarçar sua tristeza e se dirigiu à velhinha, que a olhava com atenção:

— Boa velhinha, tudo na senhora é belo! Jamais vi um bastão semelhante a esse que está em suas mãos. Suas pedras preciosas nada têm a invejar dos campos de flores e brilham como a lua cheia.

— Minha filha — respondeu-lhe a velha —, os seus olhos sabem apreciar o que é belo. De agora em diante, este bastão é seu, sei que o deixo em boas mãos.

Chuquilhanto agradeceu e, acariciando as alvas tranças da senhora, recebeu o bastão.

— Obrigada, boa senhora!
— Adeus, Chuquilhanto — despediu-se a velhinha. — Que o amor a acompanhe!

Chuquilhanto fez o caminho de volta ao palácio. Quando cruzou a porta, os guardas, notando a tristeza em seus olhos, se perguntaram em voz baixa:

— O que estará acontecendo com a princesa que, mesmo possuindo tantas riquezas, tem tanta melancolia?

Quando, por fim, ficou sozinha em seu quarto, pôs o bastão de lado, se atirou na cama e caiu num pranto desconsolado, pensando em seu pastor.

De súbito, que susto! Que surpresa! Alguém a chamava pelo nome! Acendeu a lamparina, com cuidado para não fazer o menor ruído, e viu que o bastão mudava de cor: do rosa ao prateado, do verde ao vermelho, laranja, azul e mil tons diferentes. A voz que a chamava provinha do bastão, não havia dúvida.

— Não se assuste — disse-lhe. — Sou o bastão mágico do amor. Minha missão é unir e proteger os que se amam e sofrem por estar separados.

Chuquilhanto já não sentia medo. Ao contrário, estava maravilhada. Então, o bastão mágico se abriu como uma flor, no centro da qual apareceu Acoitrapa. Ela se aproximou, abraçaram-se, beijaram-se e, cobrindo-se com finas mantas, dormiram juntos.

Ao alvorecer, temendo o castigo do sol, os jovens amantes fugiram do palácio. Mas um guarda os viu sair e imediatamente avisou o pai de Chuquilhanto. Furioso, o sol se pôs à testa de um grande exército e partiu atrás dos fugitivos. Estes, de longe, escutavam sua voz irada apressando os soldados.

Depois de se distanciarem do sol e de suas tropas, esgotados pela longa corrida, os jovens pararam para descansar. Sentados sob a folhagem de um altíssimo eucalipto, se olharam: havia amor em seus olhos. Sabendo-se perdidos, porque cedo ou tarde o sol os alcançaria, fizeram um último pedido ao bastão mágico:

— Transforme-nos em pedra. Assim, nada nem ninguém poderá nos separar.

O bastão, cuja única missão era unir os que se amam, realizou o último desejo do casal. E ainda hoje, perto do povoado de Calca, existem duas estátuas de pedra, que os habitantes da região chamam Pitu Sirai. São Chuquilhanto e Acoitrapa, amando-se para sempre.

Fontes:
Ana Rosa Abreu et al. Alfabetização : livro do aluno / Brasília : FUNDESCOLA/SEFMEC, 2000.
Imagem = http://elmundodegladiola.blogspot.com/

Deixe um comentário

Arquivado em folclore latino americano

Amélia Pinto Pais (Da Criação Poética)

Je travaille tant que je peux et le mieux que je peux, toute la journée. Je donne toute ma mesure, tous mes moyens. Et après, si ce que j’ai fait n’est pas bon, je n’en suis plus responsable; c’est que je ne peux vraiment pas faire mieux”. Henri Matisse
(Eu trabalho como posso e da melhor forma possível, todos os dias. Eu dou todo o meu potencial, todos os meus meios. E então, se o que eu fiz não é bom, eu sou mais responsável, porque eu realmente não posso fazer melhor)
—————-
A Flor
Pede-se a uma criança. Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.

Passado algum tempo o papel está cheio de linhas, umas numa direcção, outras noutra; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase não resistiu.

Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais.

Depois a criança vem mostrar essa linhas às pessoas: uma flor!

As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor!

Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!
José de Almada Negreiros
———–
Vou partir deste belíssimo texto poético de Almada Negreiros para abordar um pouco a questão do que é a criação poética e do fazer poético na óptica do criador e na óptica do destinatário, o leitor de poesia.

Assim: — segundo Almada, criar é fazer o percurso que a criança faz, ao desenhar, a pedido, uma flor. Segundo ele, a palavra “flor” entrou na cabeça da criança, foi da cabeça para o coração e deste outra vez para a cabeça, em busca das linhas com que se desenha uma flor. Terminado o processo (que é, afinal, de criação), a criança apresenta o seu produto — em que eventualmente o adulto não reconhece a flor — mas em que Deus se reconhece, pois são essas as linhas com que ele mesmo a fez.

Ora bem: — parece-me a mim que outra coisa não é que aquilo que os poetas sempre fizeram e Fernando Pessoa teorizou na sua célebre “Autopsicografia”1, ao afirmar, como base da criação poética, a noção de “fingimento” — segundo ele, o poeta “finge” a dor “que deveras sente”. Que pretende ele dizer? Que o poeta mente? Não creio, nem ele diz tal. O que ele afirma aqui é o primado da dor eventualmente sentida (com o coração ou com a imaginação). Mas sentir é sentir, imaginar uma dor é imaginar a dor que poderia eventualmente existir. Criar um poema é algo de diferente.

Num outro poema que deve ler-se como complemento a “Autopsicografia”, o poema “Isto”2, ele afirma mesmo: “Dizem que finjo ou minto / Tudo o que escrevo. Não./ Eu simplesmente sinto / Com a imaginação. /Não uso o coração”.

Um poema é um objecto, ao lado de outros objectos (como o desenho da flor é um objecto, neste caso gráfico, e não a flor em si mesma…). Resulta, diz o poeta “fingidor”, (alguém preferiu chamar-lhe finge –dor) de um processo mental que designa de “fingimento” — isto é, neste caso do poema, a dor real ou imaginada vai do coração para a cabeça, torna-se objecto verbal — transfiguração do sentir em palavras (e não esqueçamos, as palavras, a linguagem, são produto, construção mental e objecto de aprendizagem — e não algo de inato,) em busca da sua expressão, igualmente verbal, em texto poético ou poema.

Ora, o leitor de poesia, como o adulto que olha os traços feitos pela criança e que ela diz ser uma flor, tem acesso apenas ao produto final — o poema ou o desenho da flor — que é a “dor” verbalizada através do tal processo mental de busca das linhas, neste caso, das palavras (que constituirão imagens, metáforas e outros processos como os que conseguem a música de que também é feito o poema). E a dor sentida então pelo leitor pode ou não ser idêntica à dor expressa verbalmente pelo poeta — como o adulto reconhece e se reconhece ou não nos traços / linhas do desenho da flor feito pela criança .

Ou seja: adulto ou leitor fazem exactamente o percurso inverso ao do criador: — têm acesso ao produto criado (desenho ou poema) e cumpre-lhes a caminhada até ao sentir originário (“na dor lida sentem bem/ não as duas que ele teve/ mas só a que eles não têm”).

Criança e poeta buscam então, no processo de criação, a tal palavra ou linhas originais com que Deus fez a flor… No caso do poeta, e como afirma Pessoa em “Isto” a palavra seria então a plataforma, o terraço, para “outra coisa ainda”. E “essa coisa (o poema, que mais não é que emoção transfigurada pela linguagem) é que é linda”.

Levando às últimas consequências esta sua visão do processo de criação poética, Pessoa desdobrou-se em heterónimos — em que dissocia o Eu que escreve (ele, autor de todos) do Eu que “sente” ou “finge”, transfigurando em palavras dores diversa ou semelhantemente sentidas e que não o são (sentidas) por ele, autor, mas por Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Bernardo Soares e tantos outros.

E preveniu-nos: — atenção, isso que têm aí, senhores leitores, não são dores, mas palavras que fingem dores eventualmente sentidas (ou imaginadas — “Dizem que finjo ou minto / Tudo o que escrevo. Não / Eu simplesmente sinto / Com a imaginação./ Não uso o coração”. — poema “Isto”). Se querem sentir, sintam — mas sintam os vossos próprios sentires — “Sentir, sinta quem lê”.

Mas, a verdade é que só sentimos com os poemas que estavam já como que em botão dentro de nós e que “partilhamos” com o poeta que os “fingiu” nessa luta incessante em busca da palavra justa…

Por isso, dizia-me uma amiga poetisa, a Soledade Santos (que integra o volume Quatro Poetas da Net): “Será por isso que às vezes, reconhecendo a grande qualidade de um poema (ou de um poeta), somos incapazes de nos comover? Há um reconhecimento da sua qualidade estética, mas o gozo estético não tem lugar”.

Talvez seja por isso mesmo que, dizia eu em tempos, — Viver, ler e sentir a poesia é também sentir, tocar com a nossa alma e coração o coração e a alma que habitam o poema — ou que o poema sugere. Vem-me daí esse sentimento de uma certa espécie de “plágio” que eu sinto em relação a tantos poemas e poetas — os que dizem o indizível que só a palavra transfigurada permite. Como se eu fosse, também, uma espécie de coautora.

Sentir, sinta quem lê — é certo. Será, então, o leitor de poesia que se reconhece no sentir encontrado no poema uma espécie de coautor? Em todo o caso, será o leitor uma espécie de co-sentidor ???

Difícil sermos definitivos, na resposta. Como em quase tudo na vida, afinal…

É que, diz ainda Pessoa:

“E assim nas calhas de roda / gira a entreter a razão /Esse comboio de corda /Que se chama coração”.

Coração — palavra chave de Almada Negreiros e também de Pessoa e palavra-chave do entendimento (“só se vê bem com o coração”, dizia a raposa ao Principezinho) e que, sabemo-lo, “tem razões a razão desconhece”.

Notas

1 AUTOPSICOGRAFIA (1930)

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda,
Gira, a entreter a razão,
Essse combóio de corda
Que se chama coração.

2 ISTO (1930)

Dizem que finjo ou minto
Tudo o que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé.
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!

Fonte:
Revista Gemina. dezembro, 2010

1 comentário

Arquivado em Sopa de Letras

Amélia Pinto Pais (1943)

Amélia Pinto Pais. Nascida em 1943, vive em Leiria, Portugal.

Licenciou-se em Filologia Românica, pela Universidade de Coimbra

É atualmente professora aposentada de Português no Ensino Secundário.

Escreveu obras de caráter ensaístico e de incidência didática, sobre Camões, Fernando Pessoa, Gil Vicente, Padre Antônio Vieira e, também, uma História da Literatura em Portugal (3 volumes).

Foi autora dos manuais escolares Ler por Gosto (Antologias para os 10.º, 11.º e 12.º anos e respectivo livro auxiliar), Ser em Português (0.º, 11.º e 12.º anos) e Saber Português.

No Brasil foram publicados os seus livros Fernando Pessoa — o menino da sua mãe e Padre Antônio Vieira — o imperador da língua portuguesa, estando em curso, ainda, a publicação de Para compreender Fernando Pessoa(todos pela Companhia das Letras).

Participou ativamente – muitas vezes com comunicações – em diversos encontros e congressos sobre literatura e seu ensino, nomeadamente camoniano e pessoanos, organizados pelas universidades e outras associações ou escolas.

Escreve os blogues Ao Longe os Barcos de Flores (http://barcosflores.blogspot.com/); e Cristalina. Integra listas de poesia no Yahoo.

Fontes:
Revista Gemina
http://www.orelhas.pt

Deixe um comentário

Arquivado em Biografia, Portugal

Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n.128)

Uma Trova Nacional

Uma lágrima dorida,
nos olhos turvos, tristonhos.
No encontro da despedia,
a renúncia dos meus sonhos.
(SÔNIA SOBREIRA/RJ)

Uma Trova Potiguar

Ai que saudades que tenho
das brincadeiras de rua,
hoje só vejo, em desenho,
o que o brinquedo insinua.
(MARCOS MEDEIROS/RN)

Uma Trova Premiada

2008 > Bandeirantes/PR
Tema > AUDÁCIA > Menção Especial

Tanta falsidade existe
por gosto ou necessidade,
que a audácia maior consiste
em dizer sempre a verdade!
RENATA PACCOLA/SP

Simplesmente Poesia

UM DIÁLOGO POÉTICO.

Meu amigo Jucá Santos ,
bom irmão que Deus me deu,
tudo que escrevi na vida
não vale um verso seu.
Você sim é um poeta
de rima sempre correta,
muito melhor do que eu.
(ZÉ REINALDO/AL)

Meu amigo Zé Reinaldo,
eu não sei se é modéstia
ou se apenas uma réstia
de luz que em você se vê …
Porque se existe um poeta
de rima rica e correta,
esse poeta é você…
(JUCÁ SANTOS/AL)

Uma Trova de Ademar

Seu carinho me enternece,
contém meiguice e calor.
Seu desvelo mais parece
uma flechada de amor!
(ADEMAR MACEDO/RN)

…E Suas Trovas Ficaram

Somos dois gritos calados
dois momentos desiguais,
dois seres desencontrados
mas que se buscam demais.
(MARISOL/RJ)

Estrofe do Dia

Só há no peito dos vates
espaço para a ternura,
fraternidade nos atos,
riso fácil e alma pura;
cada poro derramando
pingos de literatura.
(WELLINGTON VICENTE/RO)

Soneto do Dia

– Fahed Daher/PR –
SONETO – CIDINHA.
(Para Mª Aparecida Frigeri)

Ah! Ser bonita é dom da natureza.
Ser primorosa é dom da inteligência.
Ser esmerada faz a sutileza
que dá o fulgor e cria a excelência.

É nobre cultivar esta vivência
de se doar ao bem e a esta beleza
de promover a idéia, pra existência
da comunhão social em sua grandeza.

Bem sabe conduzir e executar
na modéstia que exalta o seu valor
e na bondade de quem sabe amar.

Não só na Academia ela se aninha,
mas toda a sociedade quer o seu fulgor,
pois muito vale o gênio da Cidinha.

Fonte:
Ademar Macedo

Deixe um comentário

Arquivado em Mensagens Poéticas

Cascavel irá Realizar a Primeira Virada Cultural

Artistas e produtores culturais da cidade de Cascavel e da região já podem se inscrever para participar da 1ª Virada Cultural, que será realizada neste município do Oeste do Paraná, entre os dias 19 e 20 de março.

Os interessados em mostrar os seus trabalhos deverão formalizar a inscrição até o dia 25 de fevereiro, na sede da Secretaria de Cultura da cidade ou por email.

A virada cascavelense será realizada no Centro Centro Cultural Gilberto Mayer, sendo que o espaço será utilizado interna e externamente. A mostra também contará com atividades no Círculo Militar.

A produção da mostra artística está sendo coordenada pela Comissão Organizadora da 1ª Virada Cultural, que reúne artistas e representantes do Poder Público. Baseada na experiência pioneira da cidade de São Paulo, a Virada Cultural de Cascavel irá durar 24 horas. A meta é abrir espaço para todas as manifestações artísticas e culturais tanto da cidade como da região.

As inscrições para a 1ª Virada Cultural podem ser efetuadas por meio do e-mail cultura_cvel@hotmail.com , ou pessoalmente na Secretaria de Cultura, localizada na Rua Paraná, 2.786.

Fonte:
Boletim Guata – fevereiro de 2011

Deixe um comentário

Arquivado em Notícias Em Tempo

José Tavares de Lima (Caderno de Trovas)

Confesso que, fascinado
por tua graça invulgar,
se te amar foi um pecado,
não sei viver sem pecar!

Porque te dei muito amor
fiquei só… Pois não sabia
que vai perdendo o valor,
o que é dado em demasia!…

Se o amor que te dou te espanta
de tão grande, eis o motivo:
és a seiva; sou a planta;
se me faltares… não vivo!

Amar-te em segredo aceito,
mas tens que entender meu ais,
porque te amar deste jeito
é doloroso demais!…

Foi o amor que nos unia
tido como insensatez…
Mesmo assim, como eu queria
ser insensato outra vez!

Por culpa de alguns receios
e de tolos preconceitos,
somos, hoje, dois anseios
que não foram satisfeitos…

Vence o receio e confia
nos teus sonhos; pois, em suma,
sem um pouco de ousadia
não se alcança coisa alguma!

Esquecer-te? De que jeito?!…
Teu receio é sem motivo,
porque, dentro do meu peito,
tens lugar definitivo!

O receio evidencia,
às vezes, sábia conduta;
mas disfarça a covardia
de alguns que fogem da luta!

Muito te amo. Podes crer.
Mas tenho um receio louco
de que, para te prender,
todo este amor seja pouco!

O sujeito caloteiro
diz ao cobrador que insiste:
– hoje eu não tenho dinheiro,
mas volte… Milagre existe!…

Nunca dizia: “não pago”.
Mas em calote doutor,
simulava que era gago
até cansar o credor!

Lamenta-se o caloteiro:
– O meu ganho anda precário…
– Está faltando dinheiro?
– Não! Está faltando otário!

Mas o que faz esse “artista”?
– Pensa em calo o dia inteiro.
– Quer dizer que ele é calista?
– Negativo… é caloteiro!

Que eu devo partir, urgente,
ela entende, e não replica…
mas, em súplica silente,
seus olhos me dizem: fica!

Fazer prece a todo instante
tão importante não é;
para Deus, mais importante
é o suplicante ter fé…

Partes, alheia aos meus ais,
mas te suplico, sincero:
mesmo que não venhas mais,
fala que vens… que eu te espero!

A quem, lutando, persegue
um sonho que não alcança,
suplico a Deus que não negue
o consolo da esperança!

Que não me queres, sei bem…
Suplico a Deus, mesmo assim,
que transforme o teu desdém
num pouco de amor por mim…

Diz, louquinha pra casar,
a viúva, num gemido:
só eu sei como é ficar
dez anos sem ter marido!…

No sufoco que o atormenta
geme o velhinho, intranqüilo:
a mulher com mais de oitenta
voltou a pensar naquilo!…

Gemendo, diz: meu marido
só me chama de canhão!…
E ao vê-la, alguém, distraído:
seu marido tem razão!

Passa linda… do alto, a lua
surpresa ao ver tanta graça,
ilumina mais a rua
no momento em que ela passa !

Dói-me tanto a ausência tua
que, imerso na angústia imensa,
se a noite é linda ou sem lua,
nem percebo a diferença!…

Numa imagem que revela
contrastes da vida ingrata,
a lua cobre a favela
com lindo lençol de prata!

No momento em que partiste,
a lua, no céu, sozinha,
me pareceu muito triste…
mas a tristeza era minha!

Se em meu rumo há névoa e abrolhos,
nem assim me intranqüilizo:
tenho as luas dos teus olhos;
tenho o sol do teu sorriso!

Topa um “programa” vovô?
E o velhinho, triste, fala:
– agora, borocoxô,
só topo o pé na bengala!

Uma topada incomum
a minha vizinha deu.
Não feriu dedo nenhum
mas a barriga… cresceu!

A “feia” caça um marido.
Porém ao vê-Ia, há quem diga
que só um doido varrido
pode topar essa briga!…

Veja o golpe do Clemente:
– diz que foi uma topada
que o fez cair, justamente,
lá na cama da empregada!

Não tem marido, contudo,
vai, de topada em topada,
a Maria topa-tudo,
aumentando a filharada!

O nosso amor sem recatos
é uma loucura, porém,
nós somos dois insensatos
felizes como ninguém!…

Para voltar, não me peças…
seria uma insensatez
eu crer nas tuas promessas,
e arrepender-me outra vez.

Não sei bem por que partiste;
mas para o gesto insensato
eu sei que o remédio existe:
teu regresso imediato!…

Mente quem diz que não fez
durante a vida, algum dia,
a gostosa insensatez
de amar a quem não devia…

Por amor eu sou capaz
de fazer insensatez,
daquelas que a gente faz
sem lamentar por que fez…
=================
A biografia de José Tavres de Lima se encontra em http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/02/jose-tavares-de-lima.html

Deixe um comentário

Arquivado em Juiz de Fora, Minas Gerais em Trovas, Trovas

Simões Lopes Neto (O Papagaio)

Uma anedota – a história do papagaio que falava latim, por exemplo – circula entre as pessoas e às vezes chega aos ouvidos de um escritor que a transforma em conto.

Foi assim com Le Perroquet Missionaire, de Alphonse Allais, em Ne nous frappons pas. Humberto de Campos recontou-a numa coluna de jornal. E o gaúcho João Simões Lopes Neto, o grande nome do nosso regionalismo, retomou-a e deu-lhe a dimensão de uma história. Publicou-a no jornal Correio Mercantil de Pelotas, no começo do século. O Papagaio só tomou forma de livro (Contos de Romualdo), postumamente, em 1952.
–––––––––

O reverendo Padre Bento de S. Bento – que o senhor talvez conhecesse, não? – era um Santo homem paciente – paciente! paciente! – como naquela época outro não houve.

Nos circos de burlantins muita cousa curiosa tenho apreciado: cachorros sábios, cabras que fazem provas, cavalos dançarinos e burros que a dente pegam o palhaço pelo… atrás das pantalonas; mas a paciência para esse ensino não pode comparar-se, não se pode, com a do reverendíssimo.

O Padre Bento, farto de aturar sacristãos e não querendo estragar a sua paciência, que estava-lhe na massa do corpo, resolveu dizer as suas missas… sozinho.

Preparava as galhetas, o missal etc.; depois pachorrentamente paramentava-se e pachorrentamente esperava a hora de oficiar; chegada, encaminhava-se para o altar, e começava e concluía, parte por parte, tudo muito em ordem.

Mas o filé, o bem-bom, era quando entrava a ladainha: ele cantava o nome do soneto e uma vozinha esquisita, porém muito clara, respondia logo:

– O-o-a por nob-s!

E os fiéis, em seguida, pela pequena nave afora, acudiam ao estribilho:

– Ora pro nobis!

Dessas ladainhas assisti eu a muitas, na capelinha de S. Romualdo, que era próxima a nossa casa, na Vila de…

Agora sabem quem cantava as ladainhas do Padre Bento?

Era o Lorota, um papagaio amarelo, criado na gaiola e muito bem falante… com ele diverti-me muitas vezes:

– Lorota, da cá o pé!

E ele, ensinado pelo padre, respondia, amável!
Coitado!… O padre morreu e o Lorota, não tendo mais a quem dar contas, fugiu. Passaram-se os anos.

Uma vez, estava eu na Serra, numa espera de onça, quando senti – confesso, não medo, mas um arrepio de… frio – quando ouvi, nas profundezas do mato virgem, uma ladainha religiosa!…

E pausada, afinada, bem puxada em suma!

Seria um sonho?… Estaria eu errado na tocada das onças, e, em vez de estar na floresta cheia de bichos ferozes, estava na vizinhança de algum convento, de alguma capela, de alguma romaria?…

E a ladainha, compassada e cheia, vinha se aproximando:

– Bento S. Bento!
– Ora pro nobis!
– Santo Atanásio!
– Ora pro nobis!
– S. Romualdo!
– Ora pro nobis!

Eu mergulhava os olhos por entre os troncos, os cipós e as japecangas a ver se bispava uma cor de opa, uma luz de tocha, uma figura de gente; nada!

Nisto, a ladainha pousou nas arvores, por cima de mim. Pousou, sim, e o termo próprio, porque quem cantava era um bando de papagaios e quem puxava a ladainha era o papagaio do Padre Bento, era o Lorota!

A paciência do bicho!… Ensinar, direitinho, aos outros, a cantoria toda!… Pasmo daquele espetáculo, e duvidando, quis tirar uma prova real, e perguntei para
cima:

– Lorota? Dá cá o pé!…

Pois o papagaio conheceu a minha voz, conheceu, porque logo retrucou-me com a antiga resposta que ele sempre dava:

– Romualdo é bonito! Bonito!…

E como para obsequiar-me fez um – crr! – como aviso de comando e recomeçou a ladainha:

– Bento S. Bento!
– Ora pro nobis!
– Santo…

Nisto tremeu o mato com um berro pavoroso… o Lorota e seu bando bateu asas… e eu olhei em frente: a sete passos de distância estava agachada, de boca aberta, pronta para o salto, uma onça dourada, uma onça ruiva; uma onça de braça e meia de comprido!…

E na aragem do mato ainda soou um vozerio distante.

– Or… a pro no… bis!
– S… Ro… mual… do!
– Ora… pro… nobis!…

Fonte:
Os 100 melhores contos de humor da literatura universal / Flávio Moreira do Costa (org.). Rio de Janeiro: Ediouro, 2001
.

Deixe um comentário

Arquivado em O Escritor com a Palavra

Florbela Espanca (Livro de Poemas)

FOLHAS DE ROSA

Todas as prendas que me deste, um dia,
Guardei-as, meu encanto, quase a medo,
E quando a noite espreita o pôr-do-sol,
Eu vou falar com elas em segredo…

E falo-lhes d’amores e de ilusões,
Choro e rio com elas, mansamente…
Pouco a pouco o perfume do outrora
Flutua em volta delas, docemente…

Pelo copinho de cristal e prata
Bebo uma saudade estranha e vaga,
Uma saudade imensa e infinita
Que, triste, me deslumbra e m’embriaga

O espelho de prata cinzelada,
A doce oferta que eu amava tanto,
Que reflectia outrora tantos risos,
E agora reflecte apenas pranto,

E o colar de pedras preciosas,
De lágrimas e estrelas constelado,
Resumem em seus brilhos o que tenho
De vago e de feliz no meu passado…

Mas de todas as prendas, a mais rara,
Aquela que mais fala à fantasia,
São as folhas daquela rosa branca
Que a meus pés desfolhaste, aquele dia…

NAVIOS-FANTASMAS

O arabesco fantástico do fumo
Do meu cigarro traça o que disseste,
A azul, no ar, e o que me escreveste,
E tudo o que sonhastes e eu presumo.

Para a minha alma estática e sem rumo,
A lembrança de tudo o que me deste
Passa como o navio que perdestes,
No arabesco fantástico do fumo…

Lá vão! Lá vão! Sem velas e sem mastros,
Têm o brilho rutilante de astros,
Navios-fantasmas, perdem-se a distância!

Vão-me buscar, sem mastros e sem velas,
Noiva-menina, a doidas caravelas,
Ao ignoto País da minha infância…

SUAVIDADE

Pousa a tua cabeça dolorida
Tão cheia de quimeras, de ideal,
Sobre o regaço brando e maternal
Da tua doce Irmã compadecida.

Hás-de contar-me nessa voz tão qu’rida
A tua dor que julgas sem igual,
E eu, pra te consolar, direi o mal
Que à minha alma profunda fez a Vida.

E hás-de adormecer nos meus joelhos…
E os meus dedos enrugados, velhos,
Hão-de fazer-se leves e suaves…

Hão-de pousar-se num fervor de crente,
Rosas brancas tombando docemente,
Sobre o teu rosto, como penas de aves…

TOLEDO

Diluído numa taça de oiro a arder
Toledo é um rubi. E hoje é nosso!
O sol a rir… Vivalma… Não esboço
Um gesto que me não sinta esvaecer…

As tuas mãos tacteiam-me a tremer…
Meu corpo de âmbar, harmonioso e moço,
É como um jasmineiro em alvoroço
Ébrio de sol, de aroma, de prazer!

Cerro um pouco o olhar, onde subsiste
Um romântico apelo vago e mudo
– Um grande amor é sempre grave e triste.

Flameja ao longe o esmalte azul do Tejo…
Uma torre ergue ao céu um grito agudo…
Tua boca desfolha-me num beijo…

NIHIL NOVUM

Na penumbra do pórtico encantado
De Bruges, noutras eras, já vivi;
Vi os templos do Egipto com Loti;
Lancei flores, na Índia, ao rio sagrado.

No horizonte de bruma opalizado,
Frente ao Bósforo errei, pensando em ti!
O silêncio dos claustros conheci
Pelos poentes de nácar e brocado…

Mordi as rosas brancas de Ispaã
E o gosto a cinza em todas era igual!
Sempre a charneca bárbara e deserta,

Triste, a florir, numa ansiedade vã!
Sempre da vida ? o mesmo estranho mal,
E o coração ? a mesma chaga aberta!

SE TU VIESSES VER-ME…

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços…

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca… o eco dos teus passos…
O teu riso de fonte… os teus abraços…
Os teus beijos… a tua mão na minha…

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca…
Quando os olhos se me cerram de desejo…
E os meus braços se estendem para ti…

SER POETA

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim…
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

LOUCURA

Tudo cai! Tudo tomba! Derrocada
Pavorosa! Não sei onde era dantes.
Meu solar, meus palácios, meus mirantes!
Não sei de nada, Deus, não sei de nada! …

Passa em tropel febril a cavalgada
Das paixões e loucuras triunfantes!
Rasgam-se as sedas, quebram-se os diamantes!
Não tenho nada, Deus, não tenho nada! …

Pesadelos de insónia, ébrios de anseio!
Loucura a esboçar-se, a enegrecer
Cada vez mais as trevas do meu seio!

Ó pavoroso mal de ser sozinha!
Ó pavoroso e atroz mal de trazer
Tantas almas a rir dentro da minha!

À MORTE

Morte, minha Senhora Dona Morte,
Tão bom que deve ser o teu abraço!
Lânguido e doce como um doce laço
E como uma raiz, sereno e forte.

Não há mal que não sare ou não conforte
Tua mão que nos guia passo a passo,
Em ti, dentro de ti, no teu regaço
Não há triste destino nem má sorte.

Dona Morte dos dedos de veludo,
Fecha-me os olhos que já viram tudo!
Prende-me as asas que voaram tanto!

Vim da Moirama, sou filha de rei,
Má fada me encantou e aqui fiquei
À tua espera… quebra-me o encanto

FUMO

Longe de ti são ermos os caminhos.
Longe de ti não há luar nem rosas,
Longe de ti há noites silenciosas,
Há dias sem calor, beirais sem ninhos!

Meus olhos são dois velhos pobrezinhos
Perdidos pelas noites invernosas…
Abertos, sonham mãos cariciosas,
Tuas mãos doces, plenas de carinhos!

Os dias são outonos: choram… choram…
Há crisantemos roxos que descoram…
Há murmúrios dolentes de segredos…

Invoco o nosso sonho! Estendo os braços!
E ele é, ó meu Amor, pelos espaços,
Fumo leve que foge entre os meus dedos! …

A TUA VOZ NA PRIMAVERA

Manto de seda azul, o céu reflecte
Quanta alegria na minha alma vai!
Tenho os meus lábios húmidos: tomai
A flor e o mel que a vida nos promete!

Sinfonia de luz meu corpo não repete
O ritmo e a cor dum mesmo beijo… olhai!
Iguala o sol que sempre às ondas cai,
Sem que a visão dos poentes se complete!

Meus pequeninos seios cor-de-rosa,
Se os roça ou prende a tua mão nervosa,
Têm a firmeza elástica dos gamos…

Para os teus beijos, sensual, flori!
E amendoeira em flor, só ofereço os ramos,
Só me exalto e sou linda para ti!

Fonte:
ESPANCA, Florbela. Poemas Selecionados. Disponível no Portal Domínio Público.

Deixe um comentário

Arquivado em A Poetisa no Papel, Poemas, Poesias

Machado de Assis (Análise dos Contos de “Várias Histórias”: 16. O Cônego ou Metafísica do Estilo)

Análise realizada pelo Prof. Bartolomeu Amâncio da Silva. Bacharel em Letras, pela USP, professor de literatura da rede Objetivo (colégios e cursos pré-vestibular).
===============
Conto metalingüístico que em alguns aspectos antecipa as sondagens introspectivas e intimistas da prosa modernista.

É a história de um cônego que se dedicava à escritura de um sermão. Tem sua tarefa interrompida porque não conseguia achar um adjetivo que se ligasse adequadamente ao substantivo que havia colocado em seu texto. Esforçava-se, mas a palavra não vem.

Enquanto o protagonista espairece, para descansar a mente e buscar inspiração, o narrador mergulha no cérebro da personagem, defendendo a idéia de que as palavras têm sexo. Assim, o substantivo, masculino, que é nomeado como Sílvio, está procurando um adjetivo, feminino, designado Sílvia. É interessante nesse ponto como todo o universo de elementos que povoam nossa mente – sonhos, impressões, sensações, lembranças – é bem metaforizado ao ser apresentado como os obstáculos que o casal tem de suplantar até que finalmente consiga efetuar o seu encontro. Concretizada a união, o estalo mental surge para o cônego. Finalmente conseguia dar prosseguimento a redação de seu sermão, terminando-o.
=============
Fonte:
http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/analises_completas/v/varias_historias

Deixe um comentário

Arquivado em Análise da Obra, Sopa de Letras

Machado de Assis (O Cônego ou Metafísica do Estilo)

Brasão de cônego

— “VEM DO LÍBANO, esposa minha, vem do Líbano, vem… As mandrágoras, deram o seu cheiro. Temos às nossas portas toda casta de pombos…”

— “Eu vos conjuro, filhas de Jerusalém, que se encontrardes o meu amado, lhe façais saber que estou enferma de amor…”

Era assim, com essa melodia do velho drama de Judá, que procuravam um ao outro na cabeça do Cônego Matias um substantivo e um adjetivo… Não me interrompas, leitor precipitado; sei que não acreditas em nada do que vou dizer. Di-lo-ei, contudo, a despeito da tua pouca fé, porque o dia da conversão pública há de chegar.

Nesse dia, — cuido que por volta de 2222, — o paradoxo despirá as asas para vestir a japona de uma verdade comum. Então esta página merecerá, mais que favor, apoteose. Hão de traduzi-la em todas as línguas. As academias e institutos farão dela um pequeno livro, para uso dos séculos, papel de bronze, corte-dourado, letras de opala embutidas, e capa de prata fosca. Os governos decretarão que ela seja ensinada nos ginásios e liceus. As filosofias queimarão todas as doutrinas anteriores, ainda as mais definitivas, e abraçarão esta psicologia nova, única verdadeira, e tudo estará acabado. Até lá passarei por tonto, como se vai ver.

Matias, cônego honorário e pregador efetivo, estava compondo um sermão quando começou o idílio psíquico. Tem quarenta anos de idade, e vive entre livros e livros para os lados da Gamboa. Vieram encomendar-lhe o sermão para certa festa próxima; ele que se regalava então com uma grande obra espiritual, chegada no último paquete, recusou o encargo; mas instaram tanto, que aceitou.

— Vossa Reverendíssima faz isto brincando, disse o principal dos festeiros.

Matias sorriu manso e discreto, como devem sorrir os eclesiásticos e os diplomatas. Os festeiros despediram-se com grandes gestos de veneração, e foram anunciar a festa nos jornais, com a declaração de que pregava ao Evangelho o Cônego Matias, “um dos ornamentos do clero brasileiro”. Este “ornamento do clero” tirou ao cônego a vontade de almoçar, quando ele o leu agora de manhã; e só por estar ajustado, é que se meteu a escrever o sermão.

Começou de má vontade, mas no fim de alguns minutos já trabalhava com amor. A inspiração, com os olhos no céu, e a meditação, com os olhos no chão, ficam a um e outro lado do espaldar da cadeira, dizendo ao ouvido do cônego mil cousas místicas e graves. Matias vai escrevendo, ora devagar, ora depressa. As tiras saem-lhe das mãos, animadas e polidas. Algumas trazem poucas emendas ou nenhumas. De repente, indo escrever um adjetivo, suspende-se; escreve outro e risca-o; mais outro, que não tem melhor fortuna. Aqui é o centro do idílio. Subamos à cabeça do cônego.

Upa! Cá estamos. Custou-te, não, leitor amigo? É para que não acredites nas pessoas que vão ao Corcovado, e dizem que ali a impressão da altura é tal, que o homem fica sendo cousa nenhuma. Opinião pânica e falsa, falsa como Judas e outros diamantes. Não creias tu nisso, leitor amado. Nem Corcovados, nem Himalaias valem muita cousa ao pé da tua cabeça, que os mede. Cá estamos. Olha bem que é a cabeça do cônego. Temos à escolha um ou outro dos hemisférios cerebrais; mas vamos por este, que é onde nascem os substantivos. Os adjetivos nascem no da esquerda. Descoberta minha, que ainda assim não é a principal, mas a base dela, como se vai ver. Sim, meu senhor, os adjetivos nascem de um lado, e os substantivos de outro, e toda a sorte de vocábulos está assim dividida por motivo da diferença sexual…

— Sexual?

Sim, minha senhora, sexual. As palavras têm sexo. Estou acabando a minha grande memória psico-léxico-lógica, em que exponho e demonstro esta descoberta. Palavra tem sexo.

— Mas, então, amam-se umas às outras?

Amam-se umas às outras. E casam-se. O casamento delas é o que chamamos estilo. Senhora minha, confesse que não entendeu nada.

— Confesso que não.

Pois entre aqui também na cabeça do cônego. Estão justamente a suspirar deste lado. Sabe quem é que suspira? É o substantivo de há pouco, o tal que o cônego escreveu no papel, quando suspendeu a pena. Chama por certo adjetivo, que lhe não aparece: “Vem do Líbano, vem…” E fala assim, pois está em cabeça de padre; se fosse de qualquer pessoa do século, a linguagem seria a de Romeu: “Julieta é o sol… ergue-te, lindo sol.” Mas em cérebro eclesiástico, a linguagem é a das Escrituras. Ao cabo, que importam fórmulas? Namorados de Verona ou de Judá falam todos o mesmo idioma, como acontece com o thaler ou o dólar, o florim ou a libra que é tudo o mesmo dinheiro.

Portanto, vamos lá por essas circunvoluções do cérebro eclesiástico, atrás do substantivo que procura o adjetivo. Sílvio chama por Sílvia. Escutai; ao longe parece que suspira também alguma pessoa; é Sílvia que chama por Sílvio.

Ouvem-se agora e procuram-se. Caminho difícil e intrincado que é este de um cérebro tão cheio de cousas velhas e novas! Há aqui um burburinho de idéias, que mal deixa ouvir os chamados de ambos; não percamos de vista o ardente Sílvio, que lá vai, que desce e sobe, escorrega e salta; aqui, para não cair, agarra-se a umas raízes latinas, ali abordoa-se a um salmo, acolá monta num pentâmetro, e vai sempre andando, levado de uma força íntima, a que não pode resistir.

De quando em quando, aparece-lhe alguma dama — adjetivo também — e oferece-lhe as suas graças antigas ou novas; mas, por Deus, não é a mesma, não é a única, a destinada ao eterno para este consórcio. E Sílvio vai andando, à procura da única. Passai, olhos de toda cor, forma de toda casta, cabelos cortados à cabeça do Sol ou da Noite; morrei sem eco, meigas cantilenas suspiradas no eterno violino; Sílvio não pede um amor qualquer, adventício ou anônimo; pede um certo amor nomeado e predestinado.

Agora não te assustes, leitor, não é nada; é o cônego que se levanta, vai à janela, e encosta-se a espairecer do esforço. Lá olha, lá esquece o sermão e o resto. O papagaio em cima do poleiro, ao pé da janela, repete-lhe as palavras do costume e, no terreiro, o pavão enfuna-se todo ao sol da manhã; o próprio sol, reconhecendo o cônego, manda-lhe um dos seus fiéis raios, a cumprimentá-lo. E o raio vem, e pára diante da janela: “Cônego ilustre, aqui venho trazer os recados do sol, meu senhor e pai.” Toda a natureza parece assim bater palmas ao regresso daquele galé do espírito. Ele próprio alegra-se, entorna os olhos por esse ar puro, deixa-os ir fartarem-se de verdura e fresquidão, ao som de um passarinho e de um piano; depois fala ao papagaio, chama o jardineiro, assoa-se, esfrega as mãos, encosta-se. Não lhe lembra mais nem Sílvio nem Sílvia.

Mas Sílvio e Sílvia é que se lembram de si. Enquanto o cônego cuida em cousas estranhas, eles prosseguem em busca um do outro, sem que ele saiba nem suspeite nada. Agora, porém, o caminho é escuro. Passamos da consciência para a inconsciência onde se faz a elaboração confusa das idéias, onde as reminiscências dormem ou cochilam. Aqui pulula a vida sem formas, os germens e os detritos, os rudimentos e os sedimentos; é o desvão imenso do espírito. Aqui caíram eles, à procura um do outro, chamando e suspirando. Dê-me a leitora a mão, agarre-se o leitor a mim, e escorreguemos também.

Vasto mundo incógnito. Sílvio e Sílvia rompem por entre embriões e ruínas. Grupos de idéias, deduzindo-se à maneira de silogismos, perdem-se no tumulto de reminiscências da infância e do seminário. Outras idéias, grávidas de idéias, arrastam-se pesadamente, amparadas por outras idéias virgens. Cousas e homens amalgamam-se; Platão traz os óculos de um escrivão da câmara eclesiástica; mandarins de todas as classes distribuem moedas etruscas e chilenas, livros ingleses e rosas pálidas; tão pálidas, que não parecem as mesmas que a mãe do cônego plantou quando ele era criança. Memórias pias e familiares cruzam-se e confundem-se. Cá estão as vozes remotas da primeira missa; cá estão as cantigas da roça que ele ouvia cantar às pretas, em casa; farrapos de sensações esvaídas, aqui um medo, ali um gosto, acolá um fastio de cousas que vieram cada uma por sua vez, e que ora jazem na grande unidade impalpável e obscura.

— Vem do Líbano, esposa minha…
— Eu vos conjuro, filhas de Jerusalém…

Ouvem-se cada vez mais perto. Eis aí chegam eles às profundas camadas de teologia, de filosofia, de liturgia, de geografia e de história, lições antigas, noções modernas, tudo à mistura, dogma e sintaxe. Aqui passou a mão panteísta de Spinoza, às escondidas; ali ficou a unhada do Doutor Angélico; mas nada disso é Sílvio nem Sílvia. E eles vão rasgando, levados de uma força íntima, afinidade secreta, através de todos os obstáculos e por cima de todos os abismos. Também os desgostos hão de vir. Pesares sombrios, que não ficaram no coração do cônego, cá estão, à laia de manchas morais, e ao pé deles o reflexo amarelo ou roxo, ou o que quer que seja da dor alheia e universal. Tudo isso vão eles cortando, com a rapidez do amor e do desejo.

Cambaleias, leitor? Não é o mundo que desaba; é o cônego que se sentou agora mesmo. Espaireceu à vontade, tornou à mesa do trabalho, e relê o que escreveu, para continuar; pega da pena, molha-a, desce-a ao papel, a ver que adjetivo há de anexar ao substantivo.

Justamente agora é que os dous cobiçosos estão mais perto um do outro. As vozes crescem, o entusiasmo cresce, todo o Cântico passa pelos lábios deles, tocados de febre. Frases alegres, anedotas de sacristia, caricaturas, facécias, disparates, aspectos estúrdios, nada os retém, menos ainda os faz sorrir. Vão, vão, o espaço estreita-se. Ficai aí, perfis meio apagados de paspalhões que fizeram rir ao cônego, e que ele inteiramente esqueceu; ficai, rugas extintas, velhas charadas, regras de voltarete, e vós também, células de idéias novas, debuxos de concepções, pó que tens de ser pirâmide, ficai, abalroai, esperai, desesperai, que eles não têm nada convosco. Amam-se e procuram-se.

Procuram-se e acham-se. Enfim, Sílvio achou Sílvia. Viram-se, caíram nos braços um do outro, ofegantes de canseira, mas remidos com a paga. Unem-se, entrelaçam os braços, e regressam palpitando da inconsciência para a consciência. “Quem é esta que sobe do deserto, firmada sobre o seu amado?”, pergunta Sílvio, como no Cântico; e ela, com a mesma lábia erudita, responde-lhe que “é o selo do seu coração”, e que “o amor é tão valente como a própria morte”.

Nisto, o cônego estremece. O rosto ilumina-se-lhe. A pena cheia de comoção e respeito completa o substantivo com o adjetivo. Sílvia caminhará agora ao pé de Sílvio, no sermão que o cônego vai pregar um dia destes, e irão juntinhos ao prelo, se ele coligir os seus escritos, o que não se sabe.

Fontes:
ASSIS, Machado de. Várias Histórias. Ed. Martin Claret
Imagem = Dominus Vobiscum

Deixe um comentário

Arquivado em O Escritor com a Palavra

Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n.127)

Uma Trova Nacional

Revivendo o meu passado,
me torturo de tal jeito,
que chego a crer que é pecado
guardar saudades no peito !
(MARIA NASCIMENTO/RJ)

Uma Trova Potiguar

Só para mim mesmo minto,
disfarçando uma verdade.
Toda saudade que sinto,
eu finjo não ser saudade…
(FRANCISCO MACEDO/RN)

Uma Trova Premiada

2009 > N.Friburgo/RJ
Tema > SAUDADE > 4ºLugar.

Saudade é um velho barquinho
que vence o tempo e a distância
e recolhe, no caminho,
os pedacinhos da infância…
(ERCY MARIA M. DE FARIA/SP)

Simplesmente Poesia

MOTE.
Mandei a saudade embora;
ela se foi mas voltou.

GLOSA:
Tenho que agir agora,
vou resolver a questão,
pra poupar meu coração
mandei a saudade embora;
agi logo sem demora
pois ela a paz me roubou,
quase até que me matou
e criou ódio de mim,
querendo ver o meu fim,
ela se foi mas voltou.
(MAJÓ/RN)

…E Suas Trovas Ficaram

Para matar as saudades,
fui ver-te em ânsias, correndo…
– E eu, que fui matar saudades,
vim de saudades morrendo!
(ADELMAR TAVARES/PE)

Uma Trova de Ademar

Pela insensatez da idade
e pelo que o amor requer,
choro, às vezes, de saudade
fingindo uma dor qualquer!
(ADEMAR MACEDO/RN)

Estrofe do Dia

Eu no tempo que podia
farreava todo ano,
por vaidade ou engano
fiz tudo quanto queria,
fazer hoje o que eu fazia
não faço nem a metade,
de fazer tenho vontade
porém não posso fazer;
me faço forte sem ser
pra suportar a saudade.
(LUIZ AMORIM/CE)

Soneto do Dia

– Diniz Vitorino/PB –
SAUDADE MORTA.

Um sepulcro em minh’alma ficou feito!
Quando ela lacônica se ausentou.
Exclamei: ninguém tem amor perfeito!
Vou matar a saudade que restou.

Matei sim. Sepultei-a no meu peito,
ela, inerte, jamais ressuscitou.
Hoje a quero de novo, não tem jeito,
implorei que voltasse, não voltou.

O mais triste é que em alta madrugada,
vejo em sonho o perfil da minha amada,
me acusar pelo mal que pratiquei.

Eu desperto num mar de ansiedades,
delirando, morrendo de saudades,
da primeira saudade que matei.

Fonte:
Ademar Macedo

Deixe um comentário

Arquivado em Mensagens Poéticas

Folclore Brasileiro (O Bicho Manjaléu)

(Versão de Sergipe, coletada por Sílvio Romero)

Uma vez existia um velho casado, que tinha três filhas muito bonitas; o velho era muito pobre e vivia de fazer gamelas para vender. Quando foi um dia, chegou à sua porta um moço muito formoso, montado num belo cavalo e lhe falou para comprar uma de suas filhas.

O velho ficou muito magoado e disse que, por ser pobre, não havia de vender sua filha. O moço disse-lhe que, se não lha vendesse, o mataria; o velho intimidado vendeu-lhe a moça e recebeu muito dinheiro. Retirando-se o cavaleiro, o pai da família não quis mais
trabalhar nas gamelas, por julgar que não o precisava mais de então em diante; mas a mulher instou com ele para que não largasse o seu trabalho de costume, e ele obedeceu.

Quando foi na tarde seguinte, apresentou-se um outro moço, ainda mais bonito, montado num cavalo ainda mais bem aparelhado, e disse ao velho que queria comprar uma de suas filhas. O pai ficou incomodado; contou-lhe o que tinha sucedido no dia antecedente, e recusou-se ao negócio. O moço o ameaçou também de morte, e o velho cedeu.Se o primeiro deu muito dinheiro, este ainda deu mais e foi-se embora.

O velho de novo não quis continuar a fazer as gamelas e a mulher o aconselhou, até ele continuar. Pela tarde seguinte, apareceu outro cavaleiro ainda mais bonito, e melhor montado, e, pela mesma forma, carregou-lhe a filha mais moça, deixando ainda mais dinheiro.

A família cá ficou muito rica; depois apareceu a velha pejada e deu à luz a um filho, que foi criado com muito luxo e mimo. Quando chegou o tempo de o menino ir para a escola,
um dia brigou com um companheiro, e este lhe disse:

— Ah! Tu cuidas que teu pai foi sempre rico!… Ele hoje está assim, porque vendeu tuas irmãs!…

O rapazinho ficou muito pensativo e não disse nada em casa; mas quando foi moço, lá num dia se armou de um alfanje e foi ao pai e à mãe e lhes disse que lhe contassem a história de suas três irmãs, senão os matava. O pai lhe teve mão, e contou o que se tinha passado antes de ele nascer. O moço então pediu que queria sair pelo mundo para encontrar suas irmãs, e partiu. Chegando em um caminho, viu numa casa três irmãos brigando por causa de uma bota, uma carapuça e uma chave. Ele chegou e perguntou o que era aquilo, e para que prestavam aquelas coisas.

Os três irmãos responderam que àquela bota se dizia “Bota, me bota em tal parte!” e a bota botava; à carapuça se dizia: “Esconde-me, carapuça!” e ela escondia a pessoa que
ninguém a via; e a chave abria qualquer porta. O moço ofereceu bastante dinheiro pelos objetos, os irmãos aceitaram, e ele partiu. Quando se encobriu da casa, disse: “Bota, me bota na casa de minha irmã primeira”.

Quando abriu os olhos, estava lá. A casa era um palácio ornado e rico, e o moço mandou pedir licença para entrar e falar com a irmã que estava feita rainha. Ela não queria aparecer, porque dizia que nunca tinha tido irmão. Afinal, depois de muita instância, deixou o estrangeiro entrar; ele contou toda a sua história, a irmã acreditou e o tratou muito bem.

Perguntou-lhe como poderia ter chegado ali àquelas brenhas, e o irmão disse-lhe ter o poder da bota. Pela tarde, a rainha se pôs a chorar e o irmão lhe indagou a razão, ao que ela respondeu que seu marido era o rei dos peixes e, quando vinha jantar, era muito zangado, em termos de acabar com tudo, e não queria que ninguém fosse ter ao seu palácio…

O moço disse-lhe que por isso não se incomodasse, que tinha com que se esconder e não ser visto, e era com a carapuça. Pela tarde veio o rei dos peixes, acompanhado de uma porção de outros, que o deixaram na porta do palácio e se retiraram. Chegou o rei muito aborrecido, dando pulos e pancadas, dizendo: “Aqui me fede a sangue real!” do que a rainha o dissuadia; até que ele tomou banho e se desencantou num belo moço.

Seguiu-se o jantar, no qual a rainha perguntou-lhe:
— Se aqui viesse um irmão meu, cunhado seu, você o que fazia?
— Tratava e venerava como a você mesma; e se está aí, apareça.

Foi a resposta do rei. O moço apareceu e foi muito considerado. Depois de muita conversação, em que contou sua viagem, foi instado para ficar ali, morando com a irmã, ao que disse que não, porque ainda lhe restavam duas irmãs a visitar.

O rei lhe indagou que préstimo tinha aquela bota, e quando soube do que valia, disse:
— Se eu a apanhasse, ia ver a rainha de Castela.

O moço, não querendo ficar, despediu-se e, no ato da saída, o cunhado lhe deu uma escama, e disse-lhe:
— Quando você estiver em algum perigo, pegue nesta escama, e diga: “Valha-me o rei dos peixes’”.

O moço saiu e quando se encobriu do palácio, disse: “Bota, me bota em casa de minha irmã segunda”; e, quando abriu os olhos, lá estava. Era um palácio ainda mais bonito e rico do que o outro. Com alguma dificuldade da parte da irmã, entrou e foi recebido muito bem. Depois de muita conversa, a sua irmã do meio pôs-se a chorar, dizendo que era “por ele estar aí, e, sendo seu marido o rei dos carneiros, quando vinha jantar, era dando muitas marradas, em termos de matar tudo”. O irmão apaziguou-a, dizendo que tinha onde se esconder. Com poucas, chegou uma porção de carneiros com um carneirão muito alvo e belo na frente; este entrou e os outros voltaram.

Chegou o rei muito aborrecido, dando pulos e pancadas, dizendo: “Aqui me fede a sangue real!” do que a rainha o dissuadia; até que ele tomou banho e se desencantou num belo moço.

Seguiu-se o jantar, no qual a rainha perguntou-lhe:
— Se aqui viesse um irmão meu, cunhado seu, você o que fazia?
— Tratava e venerava como a você mesma; e se está aí, apareça.

Foi a resposta do rei. O moço apareceu e foi muito considerado. Depois de muita conversação, em que contou sua viagem, foi instado para ficar ali, morando com a irmã, ao que disse que não, porque ainda lhe restava uma irmã a visitar. Na despedida, o rei dos carneiros deu ao cunhado uma lãzinha, dizendo:
— Quando estiver em perigo, diga: “Valha-me o rei dos carneiros”.

Também disse, depois de saber a virtude da bota:
— Se eu pegasse esta bota, ia ver a rainha de Castela.

O moço foi reparando nisto e formou-se logo consigo o plano de ir vê-la. Saiu, e pela mesma forma foi à casa de sua irmã mais moça. Era um palácio ainda mais bonito e rico do que os outros dois. O que lá sucedeu foi o mesmo do que nos palácios das suas irmãs mais velhas. Era o palácio do rei dos pombos, e este, na despedida, deu ao cunhado uma pena, com as palavras:
— Quando se vir nalgum perigo, diga: “Valha-me o rei dos pombos”.

Na despedida, sabendo o rei do préstimo da bota, mostrou também desejos de ir visitar a rainha de Castela. Logo que o moço se viu longe do palácio, disse: “Bota, bota-me agora na terra da rainha de Castela”. Assim foi.

Chegado lá, ele indagou e soube que “era uma princesa que o pai queria casar, e que era tão bonita que ninguém passava pela frente do palácio que não olhasse logo para cima para vê-la na janela; mas a princesa tinha dito ao rei que só casava com o homem que passasse sem levantar a vista.”

O estrangeiro foi passar, atravessou toda a distância sem olhar, e a princesa casou com ele.

Depois de casados, ela indagou pela significação daqueles objetos que seu marido sempre trazia consigo; ele tudo lhe contou, e a princesa prestou muita atenção ao prestígio da chave.

O rei, seu pai, tinha em palácio um quarto que nunca se abria, e neste quarto, onde era proibido a todos entrar, estava, desde muito tempo, trancado um bicho Manjaléu, muito feroz, que sempre o rei mandava matar e sempre revivia. A moça tinha muita curiosidade de o ver e, aproveitando a saída do pai e do marido para uma caçada, pegou a chave encantada e abriu o quarto. O bicho pulou de dentro, dizendo: “A ti mesmo é que eu queria!…” e fugiu com ela para as brenhas.

Quando voltaram, os caçadores deram por falta da princesa, e ficaram muito aflitos. O rei foi ao quarto do Manjaléu, e achou-o aberto e vazio, e o novo príncipe conheceu a sua chave… Ao depois valeu-se de sua bota e foi ter aonde estava sua mulher. Esta, quando o viu, estando ausente o Manjaléu, ficou muito alegre, e quis ir-se embora com ele. Mas o marido não o consentiu, dizendo que ela ficasse para indagar ao monstro onde estava a sua vida, para assim dar cabo dele.

O príncipe foi-se embora. Quando o Manjaléu voltou, conheceu que ali tinha estado bicho homem; a moça o dissuadiu, e quando ele se acalmou, ela lhe perguntou onde estava a sua vida. O monstro zangou-se muito, e disse:
— Ah! Tu queres saber de minha vida mais o teu marido, para darem cabo de mim!… Não te digo, não…

Passaram-se dias, sempre a moça instando. Afinal, ele foi amolar um alfanje, dizendo:
— Eu te digo onde está minha vida; mas se eu sentir qualquer incômodo, conheço que ela vai em perigo e, antes que me matem, mato a ti primeiro, queres?!

A princesa respondeu que sim. O Manjaléu amolou o alfanje, e disse-lhe:
— Minha vida está no mar; dentro dele há um caixão, dentro do caixão uma pedra, dentro da pedra uma pomba, dentro da pomba um ovo, dentro do ovo uma vela; assim que a vela se apagar, eu morro.

O bicho saiu e foi procurar frutas; chegou o príncipe, soube de tudo e foi-se embora. O Manjaléu veio e deitou-se no colo da moça com o alfanje ali perto. O príncipe chegou com sua bota à praia do mar num instante; lá pegou na escama que tinha, e disse: “Valha-me o rei dos peixes!” de repente uma multidão de peixes apareceu, indagando o que ele queria.

O príncipe perguntou por um caixão que havia no fundo do mar; os peixes disseram que nunca o tinham visto, e só se o peixe do rabo cotó soubesse. Foram chamar o peixe do rabo cotó, e este respondeu:
— Neste instante dei uma encontroada nele.

Todos os peixes foram e botaram o caixão para fora. O príncipe o abriu e deu com a pedra; aí pegou na lãzinha e disse: “Valha-me o rei dos carneiros!” De repente apareceram muitos carneiros e entraram a dar marradas na pedra.

O Manjaléu lá começou a sentir-se doente, e dizia:
— Minha vida, princesa, corre perigo!

E pegou no alfanje; a moça o foi dissuadindo e engambelando. Os carneiros quebraram a pedra e voou uma pomba. O príncipe pegou na pena e disse: “Valha-me o rei dos pombos!” Chegaram muitos pombos e correram atrás da pomba, até que a pegaram. O príncipe abriu-a e achou o ovo.

Quando estava nisto, lá o Manjaléu estava muito desfalecido, pegou no alfanje e ia dando um golpe na princesa. Foi quando cá o príncipe quebrou o ovo, e apagou a vela; aí
o bicho caiu sem ferir a moça. O príncipe foi ter com ela, e levou-a para o palácio, onde houve muitas festas.

Fontes:
Ana Rosa Abreu et al. Alfabetização : livro do aluno / Brasília : FUNDESCOLA/SEFMEC, 2000.
Imagem = Blog de Márcia Brito

Deixe um comentário

Arquivado em Folclore Brasileiro, Sergipe

André Carneiro em Xeque

entrevista realizada por Arthur Dantas

Quase todo mundo já ouviu falar do Ensaio Sobre a Cegueira de José Saramago ou pelo menos da adaptação light de Fernando Meirelles. Dá pra falar a mesma coisa do livro I Am a Legend, de Richard Matheson, adaptado em três ocasiões diferentes por Hollywood, sendo que a última, Eu Sou a Lenda, foi um desses blockbusters de verão estrelado por Will Smith e pela gostosa da Alice Braga. Agora, duvido que a maioria dessas pessoas conheça e/ou estabeleça a relação entre as obras acima e a do escritor André Carneiro, 87 anos, o maior escritor brasileiro de ficção científica e poeta renomado.

O pioneirismo e espírito curioso e vivaz de Carneiro se manifestaram publicamente na criação do jornal literário Tentativa — que ganhou recente edição fac-símile. Feito em sua cidade natal, Atibaia, no interior de São Paulo a partir de 1949, reuniu autores como José Lins do Rego, Murilo Mendes, Otto Maria Carpeaux, Vinícius de Moraes e Hilda Hilst (publicada lá pela primeira vez), para citarmos apenas alguns medalhões.

Apresentou ainda grandes artistas como Goeldi e Aldemir Martins. Seu amigo pessoal, o dândi libertário do modernismo Oswald de Andrade, assinou o editorial do primeiro número e ressaltou o espírito plural da empreitada. Em tudo, Tentativa era inovador e destoava do emaranhado de publicações literárias do período, que se agarravam a posições mais ou menos cristalizadas: luxo de jovens curiosos e empreendedores que podiam manter certa distância das estéreis pelejas intelectuais tão típicas dos meios ilustrados desde sempre.

Incentivado como poeta da terceira geração modernista por figuras notáveis como Murilo Mendes, Carlos Drummond de Andrade e Ferreira Gullar, Carneiro também é ensaísta, fotógrafo, pintor, cineasta e escultor—tudo isso antes do termo multimídia virar muleta pra nego abastado e sem talento.

Ângulo e Face, sua estreia como poeta, foi editado por Cassiano Ricardo em 1949 e o colocou no rol dos grandes poetas do momento (o crítico francês Bertrand Lorraine afirmou que “Carneiro é um dos maiores poetas vivos do Brasil”).

Fez roteiros para filmes de Roberto Santos e Walter Hugo Cury. Seu conto O Mudo foi transformado no filme Alguém, de Júlio Xavier da Silveira. Sua fotografia Trilhos, de 1951, é considerada um dos marcos do modernismo fotográfico no Brasil e está presente no recém-lançado Fotografias Achadas, Perdidas e Construídas.

Suas obras de ficção científica foram publicadas nos Estados Unidos, Alemanha, França, Itália, Espanha, Argentina, Chile, Suécia, Bulgária, na antiga União Soviética e no Japão. Participou, ao lado de outro grande nome esquecido da sci-fi nacional, Jerônymo Monteiro, em histórico simpósio do gênero, organizado pelo tradutor José Sanz no Rio de Janeiro em 1969, com convidados como Robert Heinlein, J.G. Ballard, Arthur C. Clarke e Phillip José Farmer, entre outros. E, desse contato com mestres estrangeiros, passou a angariar elogios de Arthur C. Clark e do notável A. E. Van Vogt, que afirmou que Carneiro merecia a mesma audiência de um Franz Kafka ou Albert Camus. Apesar de todo peso de seu histórico literário e reconhecimento internacional.

Carneiro nunca pleiteou vaga na Academia Brasileira de Letras, como explicou em um site na net: “Tem-se de visitar todos os acadêmicos e pedir um voto a eles. Eu não seria capaz, acho provinciano.” Mais um motivo para quem não suporta o beija-mão usual para admirá-lo. É simples explicar seu ostracismo como ficcionista. Primeiro que sci-fi sofreu lapsos de continuidade no Brasil e acabou ficando restrita a círculos nerds conhecidos como fandom, e convenhamos, jogadores de RPGs, de jogos on-line e trekkies não despertam muito respeito por aí, e sua imaginação cheia de lirismo fértil e transgressora é muita treta pra Vinícius de Morais, por assim dizer.

Se é possível notar influências de Aldous Huxley e Ray Bradbury em sua obra, é em certo parentesco com Henry Miller, quando decide colocar as relações sociais mediadas sobretudo pelo sexo em evidência, que sua obra ganha vulto e complexidade. “Intimidade não se revela na pele, mora no labirinto”, verso de seu recém-lançado livro de poesia Quânticos da Incerteza, dá a medida exata de como encara o sexo—mantendo a chama de estudiosos pós-freudianos, como Erich Fromm e Willhelm Reich, acesa.

Sua obra Piscina Livre é seu primeiro experimento mais consistente nesse sentido, que ganhou ar de temática definitiva em seu maior romance, Amorquia, de 1991. Neste livro, em futuro distante, o amor exclusivo é visto como doença, a maternidade é um detalhe irrelevante, o sexo é ensinado e praticado nas escolas. Além disso, a noção de tempo foi abolida, já que a morte não existe mais. O molho da trama azeda quando começam a morrer pessoas repentinamente. Paradigmas são postos à prova, um novo sentido de comunidade é necessário e o medo reaparece no vocabulário corrente. Em certo sentido, o enredo complementa e arromba a já terrível visão de Lars Von Trier sobre a guerra de sexos exposta em O Anticristo.

Sua obra inspirada e furiosamente selvagem guarda para si a vanguarda e o verdadeiro sentido de uma literatura de ideias vigorosas e perigosas.

Acabei de ler o fac-símile do Tentativa, e fiquei muito curioso. Vocês estavam na “periferia dos acontecimentos da rota do mundo”, como diria Oswald de Andrade. O texto de abertura é do Oswald, e vocês conseguiram vários colaboradores conhecidos.

O meu jornal foi considerado o melhor do Brasil naquela época.

Sim. Eu sei que vocês movimentaram muito, fizeram a primeira exposição de arte moderna em Atibaia. O que vocês estavam acompa-nhando naquele momento que motivou o grupo que era você, sua irmã, o César…

Olha, na verdade era eu porque o outro rapaz e minha irmã tinham dez anos menos que eu—eu tinha 26. O mais velho, responsável lá, era eu mesmo.

Queria saber da sua história. Sua família é tradicional de Atibaia?

Ah, sim, claro! Meu pai tinha uma loja lá de material de construção que eu herdei e toquei pra frente durante algum tempo. Depois eu vendi e me mudei para São Paulo.

Você teve uma educação clássica, literata?

Eu não tive influência nenhuma. Me apaixonei pela literatura e pela cultura de modo geral sem influência de ninguém. Eu admirava as pessoas que saíam no jornal, as pessoas e artistas, tanto que eu fiz várias formas de artes. Fiz pintura, fotografia… É interessante que fiz fotografia durante 50 anos sem muita difusão. Agora me consideraram um pioneiro do modernismo brasileiro. Acabei de fazer uma exposição de pintura na Galeria Dan em São Paulo.

E qual era a sua relação com a primeira geração dos modernistas?

Eu frequentava mais o Sérgio Milliet, o Aurélio Buarque de Holanda—que vinha às vezes do Rio—e o Oswald de Andrade que era meu amigo. Ele me visitava em Atibaia. Era um grupo pequeno de intelectuais. Aliás, sempre foi pequeno. Mas eram pessoas de alto nível cultural. O Sérgio era um continuador do Mário de Andrade excelente, ele dirigiu a Biblioteca Municipal com grandes eventos culturais que nem existem mais. Eu fiz conferências na Biblioteca Municipal com 300 pessoas, hoje em dia não existe mais isso.

Você estava envolvido nesse caldeirão. O que te levou a escrever ficção científica?

Eu lia literatura contemporânea. Sei lá, Huxley. Talvez seja o próprio desenvolvimento da tecnologia que nos leve a esse ponto, porque, se a gente for pensar no que usamos de tecnologia hoje em dia, estamos mergulhados na ficção científica. Há poucos dias um amigo meu, que também é escritor e faz parte de uma oficina que eu tenho aqui em Curitiba, tira um telefone do bolso e faz uma entrevista comigo. E você vê, o telefone hoje em dia é uma câmera. Ele faz a entrevista com ele e depois transmite as imagens perfeitas e nítidas pro jornalista no Rio, que tinha pedido a entrevista. E olha, isso é uma coisa que até a ficção científica esqueceu de inventar.

Como foi a recepção dos seus contemporâneos como, por exemplo, o Oswald ou o próprio Otto Maria Carpeaux, quando você decidiu fazer ficção científica?

Quando comecei a fazer ficção científica, esse pessoal mais acadêmico nem percebeu. Não sabiam o que era aquilo. Depois, quando eles tomaram conhecimento do preconceito etc., me sabotaram. Isso eu não tenho a menor dúvida. Falavam que eu tinha me prostituído. Faziam isso de maneira muito sutil, porque, quando eu faço poesia, minha poesia não tem nada de ficção científica. Quer dizer, não é que não tem nada, mas tem pouca coisa. Então a minha poesia é absorvida por todos de maneira pacífica. Mas contos e etc., aqueles que são de ficção científica, não são nem lidos pelos acadêmicos.

Você acha que sua obra é melhor compreendida fora do que aqui?

Ah, disso eu não tenho a menor dúvida. Eu sou o escritor brasileiro de ficção científica mais conhecido no exterior. Mas, vamos falar a verdade, não chego aos pés do Paulo Coelho.

Isso te incomoda de alguma maneira?

Não, não me incomoda. Fico muito satisfeito. Não quero deixar de ser erudito, não. Quero ser mais erudito ainda. Não sou mais porque não consigo, mas quero ser cada vez mais profundo. Para mim, cada conto é um trabalho de tremenda paixão literária. Não faço concessão nenhuma. Essa é a grande vantagem. Como a gente não ganha dinheiro nenhum no Brasil com literatura, então pelo menos quero ganhar qualidade, pelo menos ficar marcado.

A que você acha que se deve essa dificuldade, tanto de público quanto dos intelectuais e dos formadores de opinião no Brasil em relação à ficção científica?

Acho que é um tipo de burrice brasileira, um tipo de recurso assim, barato e eficiente, de afastar concorrentes dentro da literatura. Porque se eles percebem que dentro da ficção científica estão aparecendo pessoas boas, dizem: “Não, ficção científica. Nem leia, nem leia”. E então só sobra o espaço pra eles. E como os editores brasileiros, de modo geral, são bastante atrasados, eles não percebem nada disso. Aceitam que não é pra publicar ficção científica, porque é uma coisa maldita.

Você acha que aquela ideia do Nelson Rodrigues de “complexo de vira-lata” do Brasil…

É uma das observações mais inteligentes que já se fez do Brasil.

Você acha que essa história de que o Brasil está se inserindo no mundo, virando uma grande potência, também reflete nessa abertura maior que está acontecendo, inclusive, para a ficção científica? Você acha que vamos abandonar o “complexo de vira-lata” e virar gente grande?

Eu considero um grande aperfeiçoamento. O fato de enxergarem o cachorro vira-lata já é uma grande coisa. Se vai funcionar ou não, eu não sei, mas antes ninguém enxergava nada. Agora estão até defendendo pontos de vista diferentes, de que tem gente fazendo uma literatura mais profunda, mais interessada numa evolução de temática e de qualidade na ficção científica do que no mainstream, do que na literatura geral.

Sim, eu acompanhava algumas listas de discussão de ficção científica no Brasil—que em geral são muito conservadoras, de um jeito muito, eu diria, antiquado e anglo-saxão de pensar a questão da ficção científica—e lembro que causou polêmica. Era meio que um assunto tabu, eu imagino. Mas o que eu acho importante é, seguindo esse raciocínio, que a ficção científica seria hoje o gênero por excelência de divulgação de ideias da literatura.

Eu acho que sim, porque é impossível a gente manobrar uma ideia hoje em dia sem que a gente não coloque um futuro explodindo aí na frente, porque o futuro antigamente era uma coisa bastante distante, mas hoje em dia a gente dança com o futuro todos os dias. A gente tá casado com o futuro.

Eu estava comentando com um amigo meu que o conto A Espingarda tem o mesmo enredo que um filme protagonizado recentemente pelo Will Smith. Tem passagens inteiras que são exatamente iguais. Só que no filme americano, o desfecho, ao contrário do seu que é niilista, tem um final feliz.

O Saramago fez a minha A Escuridão. Muita gente acredita que ele se inspirou no meu conto. Meu conto foi publicado em 12 línguas. Eu escrevi dez anos antes dele [na verdade o livro de Saramago é de 1995 e o conto de Carneiro, incluído no livro Diário da Nave Perdida, é de 1963]. O meu conto saiu na Espanha, saiu em inglês, em francês, saiu em todas as línguas. Ele deve ter lido.

E você teve a oportunidade de ler o livro do Saramago ou de ver o filme?

Eu não assisti, sabe? Pra não ficar com raiva. Parece que a interpretação que ele fez do comportamento dos cegos é negativa. Os cegos ficaram mal. No meu conto não. Os cegos é que salvam aqueles outros. É uma atitude muito mais humana, muito mais razoável.

Como foi sua experiência com cinema?

Eu fiz cinema com o Abílio Pereira de Almeida, que era importante na Vera Cruz, e depois se suicidou não se sabe bem por quê. Ele fez algumas peças de teatro muito boas. Os filmes que ele fez são mais ou menos ruins. Ele fez alguns filmes com o Mazzaropi. Na verdade não trabalhei com ninguém que valesse a pena, que me ajudasse a ir pra frente, sabe? O cinema brasileiro é muito duro, o sujeito primeiro tem que arrumar dinheiro e depois fazer o filme. Eu primeiro faço o filme. Primeiro imagino a história. Não penso em dinheiro, não tenho capacidade de arranjar dinheiro. Sou um pobre, assim, bem situado.

E como você entrou para a fotografia?

Ah, o cinema e a fotografia para mim estavam misturados. Eu fazia filme com aquelas maquininhas pequenas, com 8, 9.5, 16 mm. Era uma loucura.

Você se define como poeta, escritor, fotógrafo, artista plástico…

Olha, sempre me perguntam isso. Sou aquilo que faço no momento. Faço escultura e também faço pintura. E quando estou fazendo qualquer arte eu sou aquilo que estou fazendo no momento. Depois, quando estou fazendo a outra, eu mudo. É uma questão de paixão total, ampliada em todos os sentidos. Escrevo todo dia. É que eu estou com uma namorada nos EUA que me escreve todos os dias, então todo dia eu respondo pra ela.

Você disse numa entrevista que usa a internet desde sempre.

Ah, sim, uso a internet desde o [computador] 256.

E você faz pesquisa em internet para poder escrever?

Olha, muito pouca. Às vezes vou lá no Google pra esclarecer qualquer coisa, mas pesquisa assim de ficar dançando lá dentro não, porque o salão é muito grande e a gente perde muito tempo. Prefiro eu mesmo criar alguma coisa que os outros pesquisem.

Como você foi se interessar por hipnose?

Ah, isso é uma história muito comprida. Me interessei por hipnose e fiz experiências com duas ou três pessoas. Hipnotizei e aí virei até uma espécie de médico. Cheguei a ter consultório. Fiz psicologia e tratamento de neurose com hipnose. Até cheguei a inventar um método, mas não podia fazer tanta coisa ao mesmo tempo. Fiz uma experiência científica de hipnose junto com um grande médico brasileiro, porque precisava ter um médico no meio. Sou um grande entendido de hipnose, mas fica só nisso.

Mas ainda pratica hoje em dia?

De vez em quando sim, em casos excepcionais. Mas não estou mais atendendo clientes.

Você mora em Curitiba há quanto tempo?

Faz pouco. Tive um problema de visão, então enxergo pouco. Enxergo 10%. Vou lá no computador, aumento as letras etc. Moro aqui porque tenho dois filhos. Um deles é professor da USP e o outro é músico, toca clarineta e é professor também aqui da Orquestra Sinfônica. Então vim pra cá pela companhia agradável. E é uma cidade interessante, apesar de o povo não ser interessante; o povo é muito frio.

E quais são seus próximos projetos?

Olha, tenho dez contos inéditos que eu tenho vontade de publicar. São contos muito bons. À medida que vou escrevendo, escrevo cada vez melhor. É muita prática, e é uma prática de um sujeito que está interessado em qualidade. E a qualidade puxa todo o resto.

Fonte:
Excerto da entrevista de
http://www.viceland.com/br/v2n1/htdocs/andre-carneiro-257.php?page=2

Deixe um comentário

Arquivado em Entrevista, O Escritor em Xeque

Edmar Japiassú Maia (Caderno de Trovas)


Desvio o olhar quando passa,
num receio, que alimento,
de que a volúpia devassa
devasse o meu pensamento.

Arranchei duas esteiras
na varanda, à luz de velas,
mas receio que não queiras
tomar posse de uma delas…

Pelo amor que a mim ressoa,
migro ao topo das venturas…
e um pássaro, quando voa,
já não receia as alturas!

Atento às mentiras rotas
e ao “farto” amor que proclamas,
receio falsas as gotas
das lágrimas que derramas…

Não receio a tempestade,
se é por você que me arrisco:
para alguém que tem saudade,
a tempestade é um chuvisco!

Nem morto!”… grita o coveiro
reconhecendo o finado.
“Só enterro esse caloteiro
se me pagar adiantado!”

Caloteiro conhecido
fez a promessa… E, no entanto,
depois de ser atendido
deu um calote… no santo!

Ao agiota em apuros,
o caloteiro afirmava
que fez o empréstimo a juros…
mas não jurou que pagava!

CORAÇÃO – no árduo destino
de penas de amor que oferto,
és o falcão peregrino
na solidão de um deserto!

O ciúme nos desvenda
um deserto imenso e atroz…
Mas no deserto há uma tenda
que o amor ergueu para nós!

Nosso quarto, onde acoberto
momentos de amor frustrados,
para mim hoje é um deserto
de poucos metros quadrados…

Por um amor clandestino,
preso a mágoas indefesas,
asilei o meu destino
num deserto de incertezas!

Aos sentimentos alheia,
recusas tudo o que oferto:
teu amor é um grão de areia…
mas faz falta em meu deserto!

Na aldeia, as índias se arriscam
pescando no igarapé…
Se os peixes pouco beliscam,
quem mais belisca é o pajé!

O ex-pescador tem idéias
de guiar carretas cheias,
para ganhar nas boléias
o que perdeu nas baleias!

Porque neles pode expor
sua emoção mais secreta,
são sempre em versos de amor
as súplicas de um poeta…

Ergui à estrela mais bela
minha súplica veemente…
Foi em vão… pois justo aquela
era uma estrela cadente!

Ante uma dor mais acesa,
quando o amor não se dispersa,
suplico trégua à tristeza
que insiste em puxar conversa…

Um réu na luta constante
por carinhos que cobiça,
sou aquele suplicante
que espera amor… por justiça!

AMOR – que loucura estranha!
– Chicoteia com rigor,
e a gente suplica… apanha…
mas não desiste da dor.

Faminta e, pelo seu porte,
mal cabendo no maiô,
pediu: “me indique um esporte…”
E o terapeuta: – SUMÔ!

Obeso e não tendo escolhas,
vive no SPA um calvário:
faminto, ele come folhas
e o SPA… seu saldo bancário!

Faminto o velho é de fato;
porém, no amor, a mulher
pra ele é sopa no prato:
– Como faz falta a colher!

Comeu cuscuz, pão dormido,
torresmo, farofa e angu…
Só não comeu o cozido
porque ainda estava cru!

Faminto, gritou na festa:
– Eu quero comer bobó!
E o surdo vovô protesta:
– rapaz… respeite a vovó!

Meus avós são um casal
que, à noite, o amor sempre uniu…
Quando um só geme, é sinal
de que o outro… já dormiu!

Porque é demais concorrido
e a gemeção é geral,
o forró tem o apelido
de “Emergência de Hospital”!

Vive a “coroa” adoentada,
com o esposo desnutrido:
de dia… tome gemada;
de noite… tome gemido!

Em casa ela não tem paz,
se as filhas vêm namorar.
E a um gemido dos sofás,
ela “só faz” reclamar!

Porque a um gemido que dê
a babá corre e vai lá,
à noite é o pai do bebê
quem geme pela babá!

Entre os múltiplos pecados
que a noite me vem propor,
os sonhos mais desvairados
são sempre os sonhos de amor!

O ciúme incontrolado
que me toma, pouco a pouco,
vai tornando desvairado
nosso amor… já meio louco!

Ao perceber que ela finge
meus desejos reprimir,
o desvario me atinge…
e eu não consigo fingir!

Meu amor que é mais intenso
quando assume os desafios,
abre mão do teu bom senso,
em favor dos desvarios…

Nas asas do desvario,
tentando um sonho alcançar,
eu despenquei no vazio,
mas… aprendi a voar!

Pergunta a mestra ao menino,
aluno meio confuso:
– a porca… tem masculino?
– tem, fessora… o parafuso!

– Comadre!… a velha gemia,
confusa e passando mal.
Veio a outra!… Ela queria
a “comadre”do hospital !

Na baiana refeição
da festa do padroeiro,
o excesso de confusão
foi por falta de banheiro!

Ao ver o exame agendado,
fez confusão no hospital…
Seu “pré-natal” foi marcado
para depois do Natal !

Desnorteado e confuso,
diz o luso, na excursão:
– O meu horário é sem fuso;
com fuso… é mais confusão !

Da paixão em nós presente
fulge um desejo tão farto,
que a lua, em quarto crescente
parece cheia em meu quarto…

Noite fria… e, em minha rua,
tantos sonhos idealizo,
que vou pisando na lua
em cada poça que piso!

O bom senso preceitua
não se entregar… mas, cativo,
vivo no mundo da lua,
e por amor é que eu vivo!

Brigas de amor são um risco
que não se pode evitar.
São como um breve chuvisco
numa réstia de luar!

Talvez porque a noite esconda
sombras de amor… é que a lua
põe mais luz em sua ronda,
quando ronda a minha rua!

Deixe um comentário

Arquivado em Rio de Janeiro, Trovas