Edmar Japiassú Maia (Caderno de Trovas)


Desvio o olhar quando passa,
num receio, que alimento,
de que a volúpia devassa
devasse o meu pensamento.

Arranchei duas esteiras
na varanda, à luz de velas,
mas receio que não queiras
tomar posse de uma delas…

Pelo amor que a mim ressoa,
migro ao topo das venturas…
e um pássaro, quando voa,
já não receia as alturas!

Atento às mentiras rotas
e ao “farto” amor que proclamas,
receio falsas as gotas
das lágrimas que derramas…

Não receio a tempestade,
se é por você que me arrisco:
para alguém que tem saudade,
a tempestade é um chuvisco!

Nem morto!”… grita o coveiro
reconhecendo o finado.
“Só enterro esse caloteiro
se me pagar adiantado!”

Caloteiro conhecido
fez a promessa… E, no entanto,
depois de ser atendido
deu um calote… no santo!

Ao agiota em apuros,
o caloteiro afirmava
que fez o empréstimo a juros…
mas não jurou que pagava!

CORAÇÃO – no árduo destino
de penas de amor que oferto,
és o falcão peregrino
na solidão de um deserto!

O ciúme nos desvenda
um deserto imenso e atroz…
Mas no deserto há uma tenda
que o amor ergueu para nós!

Nosso quarto, onde acoberto
momentos de amor frustrados,
para mim hoje é um deserto
de poucos metros quadrados…

Por um amor clandestino,
preso a mágoas indefesas,
asilei o meu destino
num deserto de incertezas!

Aos sentimentos alheia,
recusas tudo o que oferto:
teu amor é um grão de areia…
mas faz falta em meu deserto!

Na aldeia, as índias se arriscam
pescando no igarapé…
Se os peixes pouco beliscam,
quem mais belisca é o pajé!

O ex-pescador tem idéias
de guiar carretas cheias,
para ganhar nas boléias
o que perdeu nas baleias!

Porque neles pode expor
sua emoção mais secreta,
são sempre em versos de amor
as súplicas de um poeta…

Ergui à estrela mais bela
minha súplica veemente…
Foi em vão… pois justo aquela
era uma estrela cadente!

Ante uma dor mais acesa,
quando o amor não se dispersa,
suplico trégua à tristeza
que insiste em puxar conversa…

Um réu na luta constante
por carinhos que cobiça,
sou aquele suplicante
que espera amor… por justiça!

AMOR – que loucura estranha!
– Chicoteia com rigor,
e a gente suplica… apanha…
mas não desiste da dor.

Faminta e, pelo seu porte,
mal cabendo no maiô,
pediu: “me indique um esporte…”
E o terapeuta: – SUMÔ!

Obeso e não tendo escolhas,
vive no SPA um calvário:
faminto, ele come folhas
e o SPA… seu saldo bancário!

Faminto o velho é de fato;
porém, no amor, a mulher
pra ele é sopa no prato:
– Como faz falta a colher!

Comeu cuscuz, pão dormido,
torresmo, farofa e angu…
Só não comeu o cozido
porque ainda estava cru!

Faminto, gritou na festa:
– Eu quero comer bobó!
E o surdo vovô protesta:
– rapaz… respeite a vovó!

Meus avós são um casal
que, à noite, o amor sempre uniu…
Quando um só geme, é sinal
de que o outro… já dormiu!

Porque é demais concorrido
e a gemeção é geral,
o forró tem o apelido
de “Emergência de Hospital”!

Vive a “coroa” adoentada,
com o esposo desnutrido:
de dia… tome gemada;
de noite… tome gemido!

Em casa ela não tem paz,
se as filhas vêm namorar.
E a um gemido dos sofás,
ela “só faz” reclamar!

Porque a um gemido que dê
a babá corre e vai lá,
à noite é o pai do bebê
quem geme pela babá!

Entre os múltiplos pecados
que a noite me vem propor,
os sonhos mais desvairados
são sempre os sonhos de amor!

O ciúme incontrolado
que me toma, pouco a pouco,
vai tornando desvairado
nosso amor… já meio louco!

Ao perceber que ela finge
meus desejos reprimir,
o desvario me atinge…
e eu não consigo fingir!

Meu amor que é mais intenso
quando assume os desafios,
abre mão do teu bom senso,
em favor dos desvarios…

Nas asas do desvario,
tentando um sonho alcançar,
eu despenquei no vazio,
mas… aprendi a voar!

Pergunta a mestra ao menino,
aluno meio confuso:
– a porca… tem masculino?
– tem, fessora… o parafuso!

– Comadre!… a velha gemia,
confusa e passando mal.
Veio a outra!… Ela queria
a “comadre”do hospital !

Na baiana refeição
da festa do padroeiro,
o excesso de confusão
foi por falta de banheiro!

Ao ver o exame agendado,
fez confusão no hospital…
Seu “pré-natal” foi marcado
para depois do Natal !

Desnorteado e confuso,
diz o luso, na excursão:
– O meu horário é sem fuso;
com fuso… é mais confusão !

Da paixão em nós presente
fulge um desejo tão farto,
que a lua, em quarto crescente
parece cheia em meu quarto…

Noite fria… e, em minha rua,
tantos sonhos idealizo,
que vou pisando na lua
em cada poça que piso!

O bom senso preceitua
não se entregar… mas, cativo,
vivo no mundo da lua,
e por amor é que eu vivo!

Brigas de amor são um risco
que não se pode evitar.
São como um breve chuvisco
numa réstia de luar!

Talvez porque a noite esconda
sombras de amor… é que a lua
põe mais luz em sua ronda,
quando ronda a minha rua!

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Rio de Janeiro, Trovas

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s