Epopéias da Índia Antiga (O Mahabharata) VI – A Restauração e a Abdicação

A vitória de Kurukshetra assegurou a Yudhisthira a volta ao trono de seu pai.

Bhisma, o sábio e venerando guerreiro que caiu gravemente ferido no décimo dia da batalha, deu em seu leito de morte instruções a Yudhisthira a respeito dos deveres do rei, das quatro castas, das quatro etapas da vida humana, das leis do matrimônio, da concessão de favores etc., baseado nos ensinamentos dos antigos sábios. Explicou-lhe também as filosofias sankhya e yoga, relatando-lhe numerosas tradições referentes aos deuses, aos santos e aos reis.

Esses ensinamentos ocupam cerca da quarta parte da epopéia e são um verdadeiro arsenal de leis, costumes e códigos de moral da Índia antiga.

Pouco tempo depois, efetuou-se a coroação de Yudhisthira, em cujo coração pesava o sentimento do sangue derramado e a morte de tantos amigos, mestres e parentes. Por causa disso, aconselhado por Nyasa, celebrou o sacrifício de Ashvameda.

Após a batalha, Dhritarâshtra viveu no palácio real, durante quinze anos, honrado e obedecido por seus sobrinhos, os cinco Pândavas; ao cabo daquele tempo, sentindo-se velho e adoentado, retirou-se para o deserto com sua abnegada esposa e Kunti, a mãe dos Pândavas, para terminar seus dias no ascetismo.

Transcorrido trinta e seis anos, depois da restauração de Yudhisthira no. trono, chegou aos seus ouvidos a notícia de que Krishna, o sábio, seu amigo, profeta e conselheiro, havia morrido.

Arjuna apressou-se em ir a Devârahâ e voltou com a confirmação da notícia de que, realmente, Krishna e os Yadavas haviam morrido.

O rei e seus irmãos ficaram muito consternados e declararam que também a hora de sua partida havia chegado. Por essa razão Yudhisthira abdicou a coroa a favor de Parikshit, primogênito de Arjuna e, aconselhado pelos sábios, empreendeu a viagem chamada Mahâprasthana, uma modalidade de ascetismo ou sannyasa.

Em obediência à lei existente naquele tempo, quando um homem chegava à decrepitude, costumava renunciar a todas as coisas do mundo e empreender uma viagem a pé até os Himalaias, completamente em jejum e pensando sempre em Deus, de sorte que morria de inanição.

Essa era a viagem ao céu, porque segundo a antiga mitologia indiana, para ir ao céu era necessário atravessar os altos píncaros dos Himalaias, além dos quais se ergue o monte Meru, em cujo cume está o céu, morada dos deuses.

Os reis seguiam o mesmo costume que os outros homens e por isso Yudhisthira recebeu naturalidade o aviso para se dirigir ao céu.

Em virtude desse fato, os cinco irmãos e sua mulher Draupadi vestiram roupas simples e empreenderam a marcha sem a menor provisão de alimentos, pois deles não necessitavam naquela. viagem para a morte.

A caminho, notaram que um cão os acompanhava. Continuaram a marcha para os Himalaias, palmilharam a neve de seus cumes e avistara em sua frente o monte Meru, quando a rainha Draupadi caiu desfalecida para nunca mais levantar-se.

Yudhisthira, que ia abrindo caminho, não notou o acidente. Seu irmão Bhima, que havia assistido o fato, avisou-o dizendo:

– Ó rei a rainha nossa esposa morreu Yudhisthira chorou, sem volver o olhar e disse: – Vamos ao encontro de Krishna e não temos tempo de olhar para traz. Sigamos para frente.

Ao fim de algum tempo, Bhima exclamou:

– Acaba de morrer nosso irmão Sahadeva.

O rei, sem se deter, chorou e disse:

– Sigamos avante.

Assim, foram caindo mortos pela neve os quatro irmãos; entretanto, embora sozinho, o rei prosseguiu impávido a sua marcha. O cão o acompanhava fielmente. Ambos caminhavam pela neve e pelo gelo, subindo encostas, através de vales, de cume em cume, até chegarem às fraldas do monte, Meru, onde o rei ouviu celestes harmonias e foi agraciado por copiosa chuva de flores que os deuses derramaram sobre ele.

Então desceu do céu a carruagem dos deuses e Indra disse a Yudhisthira:

– Sobe nesta carruagem, õ tu que és o mais excelso mortal. Somente a ti é concedido entrar de corpo e alma no céu.

Yudhisthira respondeu:

– Não quero entrar no céu sem meus irmãos e nossa esposa.
– Já se encontram no céu teus irmãos e vossa esposa.

Yudhisthira, então, fez sinal ao cão para que subisse também na carruagem; Indra, porém, assombrado, exclamou:

– Como? Um cão? Afasta-o daqui! Os cães não podem ir ao céu. Que vais fazer, ó grande rei? Acaso enlouqueceste; tu que és o mais virtuoso da raça humana e a quem foi concedido o excepcional privilegio de entrar no céu de corpo e alma?

Em resposta, disse Yudhisthira:

– Este cão foi meu fiel companheiro, através do gelo e da neve. Ele não me abandonou, quando a rainha e meus irmãos morreram. Como poderei abandoná-lo agora?

Indra replicou:

– No céu não há lugar para homens acompanhados de cães. Deves abandoná-lo, sem receio de fazer-lhe injustiça.

Yudhisthira respondeu:

– Sem o cão não irei para o céu. Nunca abandonarei aquele que a mim se aliou e comigo estará enquanto eu viver. Jamais me afastarei da retidão, nem pelas delicias do céu, nem pelas insinuações de um Deus!

Disse Indra:

– Então, somente com uma condição o cão entrará no céu. Tu tens sido o mais virtuoso dos mortais e o cão tem sido um devorador da carne dos outros animais. Ele está cheio de pecados por haver destruído outras vidas. Renuncia tu ao céu e entre ele em teu lugar.

Yudhisthira disse:

– Aceito! Que o cão vá para o céu em meu lugar!

A cena transfigurou-se imediatamente. Ao ouvir as nobres palavras de Yudhisthira, o cão transformou-se no Deus Yama, o senhor do Dharma, da Justiça e da Morte. Este, que se havia disfarçado sob aquela aparência,
disse a Yudhisthira:

– Ó rei, jamais houve homem tão abnegado como tu, que quiseste renunciar ao céu e anular tuas virtudes embenefício de um cão, condenando-te ao inferno ao carregares seus pecados. És nobilíssimo, ó rei dos reis! Tens compaixão de toda criatura, ó digno representante dos Bhâratas! Desde já são tuas as regiões da felicidade permanente. Tu as conquistaste e o céu é teu!

Yudhisthira, Indra, Yama e outros deuses que haviam se aproximado para presenciar a cena, dirigiram-se para o céu na divina carruagem.

Lá, Yudhisthira passa pelas provas iniciáticas, banha-se no Ganges do Esvarga e adquire um corpo celestial. Encontra Draupadi e seus irmãos e gozam eterna felicidade.

Assim termina o Mahâbhârata.

Fontes: Vivekananda, Swami. Epopéias da Índia Antiga. Imagem = http://meumestreinterior.blogspot.com

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