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A. A. de Assis (Trovia n. 138 – junho de 2011)

Inesquecíveis

Não furto beijos, que em suma
só furta quem é ladrão.
Mas não sou pobre soberbo…
e aceito quantos me dão!
Albano Lopes de Almeida

Senhor, em minha oração
eu peço em termos exatos:
– Fazei que os maus sejam bons
e os bons sejam menos chatos…
(Autor não identificado)

Mulher feia dá sossego,
mulher bonita aflição;
descobri que andar aflito
me faz bem ao coração…
Alcides Carneiro

Quando acaso sinto, crede,
vontade de trabalhar,
deito-me logo na rede
até a vontade passar…
Augusto Linhares

Teu coração me ofereces,
mas não o posso aceitar.
– Há lá dentro tanta gente,
que eu não encontro lugar…
Dieno Castanho

Com noventa anos de idade
a velha se confessou.
Pecado?… Não. Só vaidade
de dizer que já pecou…
Djalma de Andrade

Amigos tenho à vontade
quando a eles não recorro;
mas, se vem a adversidade,
fico até sem meu cachorro…
José Leite

“Que levas tu na mochila?”,
diz ao corcunda um peralta.
E o corcunda: – “A alma tranquila
e a educação que te falta.”
Lilinha Fernandes

Se os beijos todos ficassem
como furinhos, amor,
teu rosto seria como
um ralo de regador…
Luiz Edmundo

Muito esquisitos eu acho
teus vestidos, minha prima:
são altos demais embaixo,
e baixos demais em cima…
Nero de Almeida Senna

Radiografei o teu busto
para ver teu coração…
E quase morri de susto:
tinha a forma de um cifrão.
Paulo Edson Macedo

Se ela, afinal, com efeito,
deu-te os lábios a beijar,
com um pouco de audácia e jeito
tudo o mais hás de alcançar…
Petrarca Maranhão

Diz o homem, por vaidade,
que é parte fraca a mulher.
Mas, nessa fragilidade,
ela faz dele o que quer…
Rita Lara

Eu tive um mau pensamento,
e envergonhada coraste.
– Se de maldoso eu o tive,
de maldosa o adivinhaste.
Soares da Cunha

Trova é bom para a saúde, / faz amigos, dá prazer.
Talvez até nos ajude / a esquecer de envelhecer… (aaa)

Brincantes

No rosto só tem pintura:
rouge, pó, batom vermelho.
Mesmo com tanta feiúra
quer botar culpa no espelho!…
Ademar Macedo – RN

Se deu bem mal minha amiga,
e agora não tem mais jeito:
Escorregou pra barriga
o silicone do peito.
Darly O. Barros – SP

Uma fotinha mandai-me,
para enfeitar o meu book…
pruquê já faiz longue taime
que nós, amor, não se look…
Flor de Pádua – PR

No táxi, ao fazer um “bico”,
furei o pneu no buraco,
e só não “paguei um mico”
porque levei o “macaco”.
Edmar Japiassú Maia – RJ

Não toque no porco-espinho
com a mão desprotegida;
ele só quer um carinho
da porca de sua vida.
José Marins – PR

Não por acaso, sou fã
deste casal fascinante:
– o meu galinho é um “galã”;
minha galinha, “chocante”…
Osvaldo Reis – PR

Confuso, o dono do empório
não anda bom da veneta:
na orelha um supositório,
mas nem sinal da caneta!
Sérgio Ferreira – SP

Líricas e filosóficas

Na biblioteca há mil sábios
a nosso inteiro dispor.
– Sem sequer mover os lábios,
cada livro é um professor.
A. A. de Assis – PR

Não irá jamais embora
quem deixou tanta amizade;
a despedida de agora
é presença na saudade.
Almir Pinto de Azevedo – RJ

Depois de um chuvoso dia,
vendo o sol resplandecer,
eu sinto a mesma alegria
de quando te volto a ver.
Amaryllis Schloenbach – SP

Falar, se é dever calar-se;
calar, se é dever dizer,
são dois sinais sem disfarce
de um fraco de proceder.
Amilton Monteiro – SP

O café que aquece as almas
e adoça nossas lembranças
merece todas as palmas,
companheiro de esperanças.
Carmen Pio – RS

Vivo em busca de carinho,
em castelos de ilusão…
Tanto tempo estou sozinho,
quem me aquece é a solidão.
José Feldman – PR

Zarpei ao romper do dia
no meu barco a velejar
para “pescar” a poesia
que a Lua escondeu no mar.
José Lucas de Barros – RN

Que um dia o velho canhão,
neste mundo tão falaz,
feito a cruz para o cristão,
seja o símbolo da paz!
José Messias Braz – MG

Discórdias, sonhos frustrados,
e as mágoas não resolvidas,
são os nós não desatados
das cordas das nossas vidas…
José Valdez – SP

Teu beijo, bombom cremoso
de conhaque com anis,
é o manjar mais saboroso
que minha boca já quis!
Lisete Johnson – RS

Quem não sabe, quem não sente
que às vezes nos custa caro
essa audácia de ser gente,
quando ser gente é tão raro?!
Carolina Ramos – SP

Enganar que sou feliz
é coisa inútil, porque
meu sorriso triste diz
quanto sofro sem você.
Conceição de Assis – MG

Em contraposta à mentira,
somente a sinceridade;
mesmo quando também fira,
nada melhor que a verdade.
Diamantino Ferreira – RJ

Quem sai da terra querida,
em meio à dor e à saudade,
semeia o chão na partida
com sementes de saudade.
Djalma da Mota – RN

Eu ergo a taça a brindar
a noite que o quarto invade
e, no cristal do luar,
bebo o vinho da saudade!
Domitilla B. Beltrame – SP

Quem diz que o sonho acabou
se engana… a ilusão não finda.
Quanta gente já acordou,
e teima em sonhar, ainda!
Dorothy Jansson Moretti – SP

A realidade da vida
marca no rosto da gente
a distância percorrida
entre o passado e o presente!
Eduardo A. O. Toledo – MG

Com pás eram carregadas,
no frio de uma clareira,
as palavras congeladas
pra derreter na fogueira!
Eliana Palma – PR

Esse mundo feminino
de segredos permeado
é um gracejo do destino
pelos homens odiado.
Eliana Ruiz Jimenez – SC

O nosso beijo envolvente,
na rotina que amanhece,
é o apelo mais urgente
para que a noite se apresse!
Elizabeth Souza Cruz – RJ

O discípulo leal
três vezes negou Jesus.
Eis o motivo real:
medo dos cravos na cruz.
Evandro Sarmento – RJ

A bela flor de papel
que tu me deste outro dia
foi tão perfeita e fiel
que o cheiro dela eu sentia!…
Eva Yanni Garcia – RN

Amizade é aquele peito
com compasso diferente
que procura a qualquer jeito
bater igual ao da gente!
Francisco Pessoa – CE

No tronco de uma mangueira
escrevi: Felicidade…
Mas alguém, por brincadeira,
riscou e escreveu: Saudade!
Gasparini Filho – SP

Nesta vida tão inquieta,
o meu consolo é pescar.
Sou pescadora-poeta,
que pesca versos no mar!
Gislaine Canales – SC

Deus menino, por sinal,
fez de mim um puritano
orando ao mais divinal
hierosolimitano.
Haroldo Lyra – CE

A noite fria se eleva,
aberta de par em par…
Do infinito a lua neva
o lírio do seu luar.
Humberto Del Maestro – ES

Não choro o tempo perdido
num caminho mal traçado;
o que já foi percorrido,
bem ou mal foi caminhado…
Istela Marina – PR

A graça de Deus é tanta,
nos protege e faz tão bem…
Cada filho Ele acalanta,
sem se esquecer de ninguém.
Jeanette De Cnop – PR

Terias hoje a certeza
de que te amei de verdade,
se te alcançasse a tristeza
que me traz tua saudade!
José Fabiano – MG

Na pouca pressa que tens
de aliviar minha saudade,
enquanto espero e não vens,
transcorre uma eternidade!
Lucília Decarli – PR

En el polen de tu beso
nace la flor del amor;
mi corazón está preso
en tu fuego abrasador.
Mª Cristina Fervier – Argentina

O presente mais bonito
fui eu mesma que me dei:
num momento de conflito,
dei-me a paz… e perdoei!
Maria Ignez Pereira – SP

Imortal não sou agora,
mas eu tenho uma alegria:
– Sou poeta e ao “ir-me embora”…
deixo um rastro de poesia!
Mª Lúcia Daloce – PR

Para encantar a velhice,
ser tranquilo, sonhador,
há que desde a meninice
plantar sementes de amor.
Marina Valente – SP

Plácido, corres no leito,
às margens, onde nasci;
ó Iguaçu, trago em meu peito
a água que é parte de ti!
Mauricio Friedrich – PR

En alas de una paloma
viajará me beso amigo,
y el encanto de tu aroma
le dará su amor y abrigo!
Miguel Almada – Argentina

Sangra a terra, quando arada:
fica frágil, tão exposta…
Mesmo sofrendo calada,
com seus frutos dá a resposta.
Olga Agulhon – PR

Quando você se encontrar,
talvez não me encontre mais;
os tempos do verbo amar
são só agora ou jamais.
Olympio Coutinho – MG

No rodeio do existir,
peço a Deus, a todo instante,
que eu não caia e, se cair,
com mais força me levante.
Newton Vieira – MG

Assisto com emoção,
sob a luz dos candeeiros,
nas noites do meu sertão
ao cantar dos violeiros.
Roberto Acruche – RJ

O belo na juventude
traz orgulho, por costume.
Mas beleza sem virtude
é qual rosa sem perfume…
Ruth Farah – RJ

Uma lágrima dorida,
nos olhos turvos, tristonhos.
No encontro da despedia,
a renúncia dos meus sonhos.
Sônia Sobreira – RJ

Das bofetadas que a vida
me deu sem muita piedade,
tu foste a mais dolorida
e a que mais deixou saudade.
Thalma Tavares – SP

Agora peço somente,
ao tempo de que disponho,
que um tempo me dê, paciente,
para que eu viva o meu sonho…
Thereza Costa Val – MG

Tendo o amor por inquilino,
com coragem e artimanha,
meu coração é um menino
que ora bate… que ora apanha!
Therezinha Brisolla – SP

Em vez de gritar ao vento
que tens um grande saber,
mostra o teu real talento:
Age… sem nada dizer!
Vanda Fagundes Queiroz – PR

Redor do fogo no chão,
contos, histórias e lendas.
Assar na brasa o pinhão,
lindas noites nas fazendas.
Vidal Idony Stockler – PR

Luto por meus ideais,
com audácia entre os abalos,
que não abalam jamais
a esperança de alcançá-los!
Wanda Mourthé – MG

Nosso amor, nossos carinhos,
vão conosco na viagem,
pondo flores nos caminhos
e embelezando a paisagem!
Yedda Patrício – SP

Fonte:
A. A. de Assis

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Mario Quintana (Livro de Poesias)


DOS MILAGRES

O milagre não é dar vida ao corpo extinto,
Ou luz ao cego, ou eloquência ao mudo…
Nem mudar água pura em vinho tinto…
Milagre é acreditarem nisso tudo!

DA INQUIETA ESPERANÇA

Bem sabes Tu, Senhor, que o bem melhor é aquele
Que não passa, talvez, de um desejo ilusório.
Nunca me dê o Céu… quero é sonhar com ele
Na inquietação feliz do Purgatório.

SE EU FOSSE UM PADRE

Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,

não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições…
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,

Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!

Porque a poesia purifica a alma
… a um belo poema ainda que de Deus se aparte
um belo poema sempre leva a Deus!

BILHETE

Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda…

OBSESSÃO DO MAR OCEANO

Vou andando feliz pelas ruas sem nome…
Que vento bom sopra do Mar Oceano!
Meu amor eu nem sei como se chama,
Nem sei se é muito longe o Mar Oceano…
Mas há vasos cobertos de conchinhas
Sobre as mesas… e moças nas janelas
Com brincos e pulseiras de coral…
Búzios calçando portas… caravelas
Sonhando imóveis sobre velhos pianos…
Nisto,
Na vitrina do bric o teu sorriso, Antínous,
E eu me lembrei do pobre imperador Adriano,
De su’alma perdida e vaga na neblina…
Mas como sopra o vento sobre o Mar Oceano!
Se eu morresse amanhã, só deixaria, só,
Uma caixa de música
Uma bússola
Um mapa figurado
Uns poemas cheios de beleza única
De estarem inconclusos…
Mas como sopra o vento nestas ruas de outono!
E eu nem sei, eu nem sei como te chamas…
Mas nos encontramos sobre o Mar Oceano,
Quando eu também já não tiver mais nome.

O MAPA

Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo…

(E nem que fosse o meu corpo!)

Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei…

Ha tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Ha tanta moca bonita
Nas ruas que não andei
(E ha uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei…)

Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)

E talvez de meu repouso…

ESPELHO

Por acaso, surpreendo-me no espelho:
Quem é esse que me olha e é tão mais velho que eu? (…)
Parece meu velho pai – que já morreu! (…)
Nosso olhar duro interroga:
“O que fizeste de mim?” Eu pai? Tu é que me invadiste.
Lentamente, ruga a ruga… Que importa!
Eu sou ainda aquele mesmo menino teimoso de sempre
E os teus planos enfim lá se foram por terra,
Mas sei que vi, um dia – a longa, a inútil guerra!
Vi sorrir nesses cansados olhos um orgulho triste…”

A RUA DOS CATAVENTOS

Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arracar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!

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Marcelo Spalding (Escrever não é Trabalho, é Ofício)


Poucos são os escritores consagrados em seu tempo, premiados pela crítica e queridos pelos leitores, e raros os que, depois de obter tal reconhecimento, ainda dispõem-se a compartilhar sua arte e ensinar jovens escritores sobre os ofícios e os mistérios da produção literária. Para sorte dos que moram em Porto Alegre, há nestes pagos uma destas raridades, e se trata nada mais, nada menos do que o maior romancista do Estado, Luiz Antonio de Assis Brasil.

Assis Brasil há mais de vinte anos ministra uma oficina de criação literária concorridíssima – oficina que lançou para a literatura nomes como Cíntia Moscovich, Amílcar Bettega, Michel Laub, Letícia Wierzchowski e Daniel Galera – em que ensina técnicas e discute possibilidades da criação em prosa nos moldes dos cursos de creative writting norte-americanos, de onde Assis não nega vir a inspiração. O aprendiz ouve dicas como “evite uma grande quantidade do pronome que”, “leia seu texto em voz alta”, “deixe seu texto dormir antes de reler”, “evite levar a personagem para a janela, os escritores quando não sabem o que fazer sempre colocam a personagem na janela”, e assim por diante. Mas há uma grande lição que fica de toda a oficina, de todo o pensamento do mestre: literatura é trabalho. Ou melhor, ofício.

Pois em Música perdida (L&PM, 2006, 220 págs.), mais recente romance de Luiz Antonio de Assis Brasil, o protagonista é um músico com a mesma angústia de todo escritor, de todo artista, qual seja produzir uma grande obra de arte, o que permite ao narrador travestir-se daquele mestre das oficinas e dar-nos pequenas lições:

“O compositor musical convive com a natureza e os homens. Num determinado momento, sempre novo e inexplicável, uma pequena e desconhecida melodia aflora a seus lábios, e logo ele a está cantarolando. A isso pode se chamar de inspiração. O resto é trabalho de pendurar as notas no pentagrama, escolher a tonalidade, estudar os acordes, obedecer – ou não – às regras da harmonia e do contraponto. Isso, aliás, não é trabalho: é ofício, como o exercido por qualquer escritor”.

O protagonista da obra é Joaquim José de Mendanha, conhecido no Rio Grande do Sul por compor nosso hino, mas representado na obra desde a infância. Filho de maestro da pequena cidade de Itabira, Mendanha é abençoado com um ouvido absoluto (reconhece as notas musicais em cada som do cotidiano), o que motiva o pai a mandá-lo para Vila Rica a fim de estudar música. Na cidade, conhece um rico minerador, o ambíguo Bento Arruda Bulcão, que ajuda o jovem a prosseguir seus estudos no Rio de Janeiro com o célebre compositor Padre-Mestre José Maurício Nunes Garcia. E é a partir do contato com o mestre que Mendanha resolve compor, e de fato compõe uma belíssima cantata que o Padre-Mestre de pronto rejeita, mas a verdade é que ela o perturba por estar muito acima da capacidade dos ouvidos brasileiros. Por isso Mendanha, quando tiver oportunidade, deixará sua partitura com um francês que promete entregá-la a Rossini, ato este que marca sua existência, pois sua música acaba perdida. Por mais que se esforce, o músico não sabe repetir a composição que ele julga perfeita, e angustiado pela perda da música e dos entes queridos, alista-se no Exército, atravessa o Brasil e desafia a guerra de 1835 no Sul.

Como maestro do Exército, Mendanha é preso pelos rebeldes (leia-se Farroupilhas) e obrigado a compor o hino da República Rio-Grandense (melodia que se mantém no hino atual do Estado). Mas depois é recapturado pelos imperiais, pede baixa do exército e vai viver com sua esposa na longe e fria Porto Alegre do século XIX, onde trabalha como maestro, compõe diversos hinos mas convive com uma angústia que é o cerne da narrativa: não considera-se um artista. Não considera ter feito sua obra-prima. Ou melhor, acredita ter perdido para sempre a obra que lhe abriria as portas do céu devido a sua excelência.

Não é preciso forçar muito para vermos na ambição, na angústia e na meticulosidade do músico um pouco do mestre das oficinas. Logo num primeiro olhar se percebe que Música perdida é por si só fruto de muito trabalho, não este trabalho do mercado que nos exige tantas horas de produção em massa, mas um trabalho artesanal que mescla disciplina e rigor com inspiração e talento. As frases e os capítulos são curtos e densos, cada palavra foi pensada, medida, e o texto vai se desenhando como uma partitura musical repleta de ritmos e significados.

“O tio ensinou-lhe como as notas deveriam ser desenhadas, porque de desenhos se tratavam. Começou pela semibreve, um círculo branco, achatado. A semibreve soava por mais tempo. Durava quatro batidas do dedo sobre a mesa: 1, 2, 3, 4. Em seguida, a mínima, que era a semibreve com uma haste que subia, duas batidas: 1, 2. A semínima era uma notinha negra, com uma haste para cima. As colcheias eram como semínimas, mas a haste para cima. As colcheias eram como semínimas, mas a haste possuía uma bandeirola. As hastes poderiam ser para cima ou para baixo. E assim por diante. Pilar perguntou como os músicos, só olhando aquelas notas, sabiam o que tocar.”Deus” – o tio respondeu – “lhes dá esse dom””.

Quem não acompanha a carreira de Assis Brasil com cuidado e leu um ou outro dos seus romances iniciais (Videiras de Cristal, Bacia das almas, Cães da província), de certo ficará surpreso com a concisão e o minimalismo da linguagem de Música perdida. Mas há uma explicação, e esta é uma história interessante: na viragem do milênio, o autor escrevia seu décimo quinto romance quando, a certa altura, achou que estava se repetindo e apagou tudo o que tinha escrito. Conta o mestre que então abriu em sua biblioteca um livro de El Cid e deu-se conta de que dizer mais em menos espaço era a solução técnica que procurava. “Na Idade Média se fazia assim, a Bíblia é escrita assim”, ele diz. E desta forma escreveu Pintor de Retratos, lançado em 2001 e A margem imóvel do rio, de 2003, este premiado com o Jabuti e o Portugal Telecom.

Música perdida, neste contexto, é o terceiro livro depois da mudança estética, o fecho de uma trilogia que o autor chama de “Visitantes ao Sul”, e também um marco do trigésimo ano de sua estréia com Um quarto de légua em quadro, em 1976. De lá para cá, de obra em obra, sempre enraizado no Sul e com os olhos voltados para o passado de formação da nossa identidade, Assis Brasil tem se revelado um mestre em seu ofício, um mestre que não se contentaria em armar e medir com engenho palavras, frases e capítulos, mas também compor as obras e publicá-las cada uma a seu tempo, construindo assim uma sólida carreira e um conjunto ficcional perene e respeitável.

Fonte:
Artistas Gaúchos

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Carlos Correia Santos (Romance de Escritor Amazônico é Lançado em Portugal)


Com prefácio assinado por José Louzeiro e nota de orelha escrita por Olga Savary, obra traz como pano de fundo polêmico projeto da Cia. Ford Motors.

Escritor também terá livro lançado na África

Registros e detalhes sobre uma marcante odisséia vivida pela Amazônia vão aportar em solo europeu graças à literatura. Emoldurado por referências sobre um dos mais polêmicos projetos industriais já realizados na História recente, o romance “Velas na Tapera”, do escritor Carlos Correia Santos, será lançado em Lisboa no próximo dia 06 de junho em um recital litero-musical promovido pela FNAC Chiado. O evento promete ser uma fusão cultural que contará com uma mostra de música brasileira e amazônica a cargo dos artistas Fercy Nery (na voz e violão) e Attila Argay (na bateria). A programação incluirá um bate-papo com o autor, além da sessão de autógrafos.

Resultado de seis anos de pesquisa, “Velas na Tapera” tem como pano de fundo a colossal história de Fordlândia, núcleo urbano erguido pela Cia Ford nos anos 20, em plena selva amazônica, para produção de látex destinado à fabricação de pneus que seriam utilizados pela poderosa empresa automobilística. O projeto acabou abandonado depois que a plantação de seringueiras foi atacada por uma praga. É pelo cenário da abandonada cidade americana, em meio ao ermo da mata, que transitam os personagens da narrativa. Em especial, Rita Flor.

Rita perde sua filha de seis anos. Após um misterioso incêndio em sua tapera, ela acredita que sua menina virou uma milagreira e decide construir uma capela em sua homenagem. A jovem não tem dinheiro para cumprir seu intento. O único caminho que lhe resta é prostituir-se. O sagrado e o profano deitam-se na mesma cama. Em meio ao vazio e ao desencanto que transformam Forlândia numa vila fantasmagórica, Rita vende seu corpo para santificar a filha.

PRÊMIO E AVAL

“Velas na Tapera” venceu em 2008 o Prêmio Dalcídio Jurandir, promovido pela Fundação Tancredo Neves (FCPTN), uma das mais importantes entidades culturais da região amazônica. A obra tem prefácio assinado pelo romancista José Louzeiro (autor de clássicos da literatura brasileira, como Pixote e Lúcio Flávio – O Passageiro da Agonia) e orelha assinada por Olga Savary (uma das mais importantes poetas brasileiras, considerada a introdutora do hai-kai nas letras nacionais.

“Sinto que é uma honra em todos os sentidos poder lançar esse trabalho em Portugal. Primeiro porque consigo provar que, mesmo sem a cobertura de mercado de uma grande editora, é possível fazer circular a produção literária. O romance chegou aos leitores graças a um prêmio. Foi editado por uma fundação amazônica e, ainda assim, está trilhando um caminho sólido“, ressalta Correia. E ele complementa: “Essa possibilidade de intercâmbio também é sempre fascinante. Para quem cria narrativas em língua portuguesa é uma experiência emocionante poder levar seus ditos ao país berço do idioma com o qual labuta“.

Em breve, o trabalho de Correia também chegará à África. Em 2009, o romancista e dramaturgo venceu o concurso Literatura para Todos, promovido pelo Ministério da Educação do Brasil, com a peça infantil “Não Conte com o Número Um no Reino de Numesmópolis”. O trabalho está sendo editado numa coleção com tiragem de 300 mil exemplares que serão distribuídos em escolas brasileiras e africanas.

TRECHOS DO PREFÁCIO DE VELAS NA TAPERA

PERSONAGEM EMBLEMÁTICA
José Louzeiro*

“(…) Em boa hora, o nome do injustiçado Dalcídio vira prêmio literário em Belém, Pará, e o vencedor é o talentoso Carlos Correia Santos – “Velas na Tapera” – que prima pela criatividade, e eu até diria, pela singularidade na maneira de expressar-se.

Isso faz com que este “Velas na Tapera” seja uma obra cativante e originalíssima. O autor brinca com as frases sincopadas e a elas dá espírito novo, através de sugestivas e oportunas expressões metafóricas. A par desses recursos, de certa maneira cultivados por Guimarães Rosa, há que se destacar a preocupação do autor com a questão social, coisa essa imanente em todas as obras de Dalcídio.

A personagem trabalhada, dramaticamente por Carlos Correia é Rita Flor que, com suas vestes pretas, transforma-se numa espécie de estandarte vivo do sofrimento e da desesperança; da mulher diante de seus problemas pessoais, mas funcionando como figura emblemática neste livro que é a narrativa, também, do desastre de uma grande aventura industrial – a Fordlândia (Companhia Henry Ford Motores e Cia.) – que se instala em plena selva amazônica, mas pouco depois sobrevém a desilusão: o projeto naufraga no mar de folhas de todos os verdes, os prédios tornam-se taperas, as máquinas são esquecidas no matagal, como a pedir socorro pelo abandono a que foram entregues.

Mas ao autor, experiente teatrólogo, não basta contar a história do naufrágio do ambicioso projeto industrial numa região da mais absoluta carência; ele se esmera na técnica do dizer, do inventar, literariamente, coisa essa que o coloca no plano mais alto que um escritor poderia aspirar. Claro está que neste “Velas na Tapera” há muitos e bem traçados personagens, mas a figura que transcende é a de Rita Flor, forte e decidida como certas personagens da obra de Bertolt Brecht.

O enterro que Rita faz da filha equivale, nas entrelinhas, ao verdadeiro e definitivo funeral (ou pá de cal?…) do projeto norte-americano que se tornou esperança de vida para uma comunidade inteira, na floresta que guarda tanto viço e riquezas a serem descobertas.

Neste “Velas na Tapera”, Rita me faz lembrar, de certa forma, “A Alma Boa de Setsuan” (Brecht), pois ela é, na verdade, uma “parábola teatral,” ao mesmo tempo em que pode ser o espírito da mata, da dor materializada no pólen das flores, da decadência, das malárias e pesadelos, dos que sonharam e acordaram perdedores, tremendo no frio da desesperança.

Com este primeiro romance, se Carlos Correia já era considerado versátil teatrólogo, agora estréia na condição de ficcionista que prima pelas inovações e capacidade narrativa. Depois de sepultar a filha Saninha, Rita “se deitaria para sempre sobre a solidão”, pois ela passa a ser a personificação do que, popularmente, chamamos de “alma penada”, sujeita a chuvas e trovoadas.

O autor traça de tal forma o desenho desta personagem que sua projeção estende-se sobre a narrativa, torna-se absoluta e por que não dizer, chocante, surpreendente, pois é clara a intenção do autor em revolucionar as velhas formas “do dizer e do sentir” no contar de uma história.

“Velas na Tapera” é o que se pode chamar de realismo mágico a envolver a pequena comunidade marcada pela ausência de caminhos. Apenas Rita trilha as picadas da ausência, na louca tentativa de resgatar Saninha, materialização da saudade, do que se foi, não é mais. Menos para Rita. Curioso: essa metáfora, criada com maestria pelo ficcionista, envolve todos os habitantes das taperas, inconscientes da realidade que é uma espécie de rio sem começo e sem fim.

Somente Rita Flor, com as pegadas que deixa pelos caminhos fundos, pulsa como sendo a dor e a oculta paixão de certos homens, que sabem não serem correspondidos, pois o coração de Rita foi sepultado com o corpo de Saninha.

No desvario dela própria e no dos outros é que Rita encontra forças para manter-se viva no seu “mudo prantear”. Mas na visão estreita dos vizinhos ela é apenas a desmemoriada, que tudo perdeu – o marido, a casa incendiada – e, agora, vive das luzes que recebe da filha sepultada, mas que, para ela, mantém-se “vela acesa” ou sonho que não se deixa mesclar pelas cores soturnas do seu desafiador existir.

No mundo especial em que Rita transita, além das folhas verdes da floresta, há velas acesas a iluminar sua passagem. Pena que ela já tivesse “um ver que não via nada”, nem seus ouvidos registravam os “sussurros do mato” e muito menos os “cochichos de reentrâncias”.

As dores transformaram Rita Flor em assombração no inconsciente dos humilhados e ofendidos. Com este livro, Carlos Correia demonstra ser um grande conhecedor do poder das metáforas e de como utilizá-las com sutileza e sabedoria.

* Um dos mais importantes nomes das letras nacionais, José Louzeiro é autor de 40 livros e criador, no Brasil, do gênero intitulado romance-reportagem. Atuou em célebres veículos de comunicação, como “Última Hora”, “Correio da Manhã” e Revista Manchete. No cinema já assinou, como roteirista, dez longas-metragens, dos quais pelo menos três se tornaram populares: “Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia”, “Pixote” e “O Homem da Capa Preta”. Lançou pela Editora Francisco Alves o estudo biográfico intitulado O Anjo da Fidelidade, sobre Gregório Fortunato, o “anjo negro” de Getúlio Vargas. Em 2001, pela Editora do Brasil: “Isto não deu no jornal” (memórias de sua passagem por cinco jornais cariocas). E em 2002, “Ana Nery, a brasileira que venceu a guerra” (Editora Mondrian): biografia da heroína baiana, patrona dos en fermeiros brasileiros. O trabalho foi adaptado para a televisão, tendo Marília Pêra como protagonista. Ainda na TV, foi o autor de novelas como “Corpo Santo”.

ORELHA DE VELAS NA TAPERA

A VELA ACESA POR SAVARY
Olga Savary*

Da complexidade do ser, da própria solidão e solidariedade humana, da sua simplicidade e estranheza, são realizados os textos de Carlos Correia Santos, seja na poesia, nos contos, no teatro ou no romance. Sua dedicação à cultura e à Arte faz deste autor paraense, deste grande brasileiro, um candidato constante às premiações importantes nas áreas citadas: poesia, ficção, peças teatrais.

Assisti com orgulho a uma premiação obtida por ele no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio de Janeiro, em 2006. Carlos Correia Santos destacou-se entre dezenas e dezenas de concorrentes. Seu talento impulsionou-o a sobrepujar os demais candidatos. Uma platéia seleta e atenta assistia a apresentação do trabalho de Correia e tinha o direito de votar no melhor participante.

A literatura e a arte foram os meios de expressão eleitos por Carlos Correia Santos, que bem poderia pertencer à Academia Paraense de Letras. Seria uma honra para a APL tê-lo junto aos Acadêmicos, que só teriam a ganhar.

Além de seus méritos pessoais, no trabalho em seus livros, em tudo o que faz, Carlos Correia Santos é um guerreiro, um lutador pela cultura geral e pela cultura paraense em particular, sem falar na sua esplêndida atitude como pessoa, em sua admirável postura diante da vida e dos outros.

Pela extrema elegância e gentileza, pela classe e nobreza com que se conduz em tudo, Carlos Correia Santos é um príncipe. Orgulho-me de ter o privilégio de ser sua fraterna amiga.

* Poeta, contista, tradutora e organizadora de antologias. Artista nacionalmente aclamada, é uma das introdutoras do hai-kai no Brasil.

CARLOS CORREIA SANTOS (CONTATOS)

Poeta, dramaturgo, romancista
E-MAIL: carloscorreia.santos@gmail.com
MSN: cacopoeta@hotmail.com
TWITTER: @cacopoeta
BLOG 01: http://nadasantostudoalma.blogspot.com
BLOG 02: http://mesmoquenaoqueiraseutecontos.blogspot.com
BLOG 03: http://graosparahistoria.blogspot.com

Fonte:
Carlos Correa Santos

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Carlos Correia Santos

  1. Carlos Correia Santos é paraense, natural de Belém. Bacharel em Direito. Poeta, contista, cronista, dramaturgo, roteirista e romancista, Carlos Correia Santos tem feito da diversidade uma grande marca de sua carreira. É escritor vencedor do Prêmio Dalcídio Jurandir 2008, na categoria romance, com a obra “Velas na Tapera”, concurso de vulto nacional criado para celebrar o centenário do romancista Dalcídio Jurandir. É autor do premiado livro de poemas “O Baile dos Versos”, obra que ganhou especial saudação da Academia Brasileira de Letras, em 1999. Também são de sua autoria as obras “Poeticário” (poemas), “No Último Desejo a Carne é Fria” (coletânea de contos), “Nu Nery” (teatro), Ópera Profano (teatro / Prêmio Cidade de Manaus) e “Batista” (teatro).

Como escritor na área de artes cênicas, coleciona importantes láureas nacionais, como o Prêmio Funarte de Dramaturgia por três anos consecutivos (2003, 2004 e 2005), o Prêmio Funarte Petrobras de Fomento ao Teatro (2005), o Prêmio Funarte Petrobras de Circulação Nacional (2006) e o Edital Seleção Brasil em Cena do Centro Cultural Banco do Brasil.

Incluídos no Catálogo da Dramaturgia Brasileira da renomada autora Maria Helena Kühner (iniciativa detentora do Prêmio Shell), seus textos teatrais já ganharam diversas montagens e já foram apresentados nas cidades brasileiras de Belém, São Luís, Natal, Recife, Camaçari, Piracicaba, Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília.

Suas peças já foram traduzidas para o francês e espanhol. Importantes artistas brasileiros, como Stella Miranda (que interpretou a síndica do humorístico “Toma La, Dá Cá”, de Miguel Falabella, exibido na TV Globo), já assinaram direção de suas obras.

Em 2009, foi o autor vencedor da categoria dramaturgia do III Concurso Literatura para Todos, promovido pelo Ministério da Educação. O texto premiado chama-se “Não Conte com o Numero Um No Reino de Numesmópolis”. No cinema, foi agraciado com o Prêmio do Edital Curta Criança do Ministério da Cultura. Assinou a seção Contando Um Conto, no jornal O Liberal (um dos maiores da região Norte) e Portal ORM. É colaborador, com seus contos, do jornal O Estado do Acre e dos sites BV News (Roraima), Amapá Digital (Amapá), Manaus On Line (Manaus), Madeira On Line (Rondônia) e Timor On Line (Timor Leste).

Fonte:
Texto enviado pelo Autor

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Monteiro Lobato (Histórias de Tia Nastácia) XL – A História dos Macacos

Antigamente, lá no começo do mundo, os macacos moravam com os homens nas cidades. Falavam como eles, mas não trabalhavam.

Certa vez houve uma grande festa. Durante um dia e uma noite o tanta não parou de soar. Todos dançavam e bebiam um vinho feito de caldo de palmeira, porque ainda não era conhecida a uva. O velho chefe da tribo saiu dali cambaleando e foi parar no bairro dos macacos.

Antes não fosse! Os macacos judiaram dele. Uns puxavam-lhe a tanga, outros punham-lhe a língua, outros beliscavam-lhe a pele. Tamanha foi a falta de respeito que o velho chefe enfureceu-se a ponto de queixar-se a Nzame, a divindade da tribo.

Nzame mandou chamar o chefe dos macacos. Passou-lhe uma grande descompostura e disse:

— De hoje em diante, como castigo, os macacos têm que trabalhar para os homens.

Mas os macacos revoltaram-se contra a ordem do deus. Juraram não trabalhar.

Quando iam para a roça, penduravam-se nas árvores do caminho, davam pulos pra aqui, pra ali, fugiam. Não houve meio de conseguir deles nenhum trabalho. O chefe da tribo danou.

— Preciso dar uma lição nesta macacada.

Depois de refletir algum tempo deu ordens, para uma grande festança, onde houvesse muito vinho. Mas dividiu as cabaças de vinho em dois lotes — um de vinho puro e outro de vinho misturado com uma erva dormideira. “Este é para os macacos” disse ele.

Quando os macacos souberam da grande festa e da grande vinhaça, aproximaram-se todos muito xeretas. Dançaram, pularam e beberam até não poder mais. Meia hora depois dormiam sono profundo.

O chefe, então, mandou que os seus homens metessem o chicote nos macacos até deixá-los peladinhos — e no dia seguinte botou-os no serviço.

Mas quem pode com macaco? — O berreiro que fizeram foi tamanho que o chefe, completamente zonzo, deu ordem para que lhes cortassem a língua.

“É o único meio de acabar com esta gritaria.” Ficaram os macacos sem línguas — mas dois dias depois sumiram-se da aldeia, afundando no mato. Nunca mais quiseram saber dos homens — e também nunca mais falaram. Quem tem língua cortada não fala.
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— Esta história se parece, com as nossas daqui — disse Narizinho. — Bem bobinha.

— Sim, mas que havemos de esperar dos pobres negros do Congo? Sabem onde é o Congo?

— Sei — disse Pedrinho. — É quase no centro da África, do lado daquela costa que o senhor Pedro Álvares Cabral evitou de medo das calmarias. Há o Congo Belga e o Congo Francês. E sei também que cá para o Brasil vieram muitos escravos desses Congos.

— É verdade. O pobre Congo foi uma das zonas que forneceram mais escravos para a América, de modo que muitas histórias dos nossos negros hão de ter as raízes lá.

— Quem sabe se tia Nastácia é do Congo? — lembrou Narizinho.

— Não — disse dona Benta. — Nastácia é neta dum casal de negros vindos de Moçambique.

— Hum, hum! — exclamou Emília. — Moçambique! Que luxo…

— Conte outra, vovó — pediu Pedrinho. — Conte uma história dos esquimós.
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Continua… XLI – O Rato Orgulhoso
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Fonte:
LOBATO, Monteiro. Histórias de Tia Nastácia. SP: Brasiliense, 1995.
Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source

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Sidnei Schneider (Cuidados Com Quem Faz da Palavra Arte)

Ao ficcionista ou poeta, explorar o vórtice das contradições do ser humano, da sociedade e do mundo não é algo ocasional, mas parte inafastável do seu cotidiano. O que outros varreriam para baixo do assoalho, a fim de se ocuparem das responsabilidades, o escritor coloca sobre a mesa e usa como matéria-prima para dar conta das suas.
Daí que talvez não seja exatamente mais sensível, como se acredita serem os artistas, mas simplesmente mais aberto a manusear o que, de uma forma ou outra, a todos atinge. Contudo, ao transformar tais questões em palavras, se obtém alguma gratificação, paga um custo. Entrar na caverna do Minotauro pode ser heróico, mas também doloroso. Seja para Ariadne, seja para Teseu.

Alie-se a isso as dificuldades criadas pelo fato de exercer uma atividade que exige longa formação; trabalho solitário e exaustivo, normalmente contabilizado em anos a cada obra; certo desapego para encarar uma remuneração inadequada ou inexistente. Mesmo distante de uma escrita autobiográfica, expõe-se até os ossos, oferecendo a face à crítica e ao público. O conjunto faz do escritor alguém potencialmente frágil.

As histórias de superação ou sucumbência a situações de miserabilidade, internamentos e suicídio são bem conhecidas na literatura. Recordo sempre do que disse o poeta russo Nicolai Assiéiev após a morte de Vladimir Maiakóvski, ao avaliar que a essa fábrica de felicidade, de aspecto invulnerável, os amigos e cidadãos deveriam ter dedicado maiores cuidados.

A um artista da palavra (ou a qualquer outro), esse cuidado recompensa de forma peculiar e distinta. Pequenos gestos sinceros o tocam seguramente mais do que a estrondosa pompa de um prêmio. Gestos desse tipo me fazem relembrar certa madrugada. Um ônibus com a ventarola quebrada circundava os picos de neve, entre Cuzco e Arequipa, a trinta graus abaixo de zero. Nos vidros, cristalizavam-se as infinitas formas das rosáceas de gelo. Três pares de meia nos coturnos, duas calças e camisas, blusão de lhama e sobretudo não me aqueciam o suficiente. A mulher do condutor enrolava e queimava revistas para descongelar o parabrisa e manter o velho ônibus a caminho. Um homem de aspecto incaico levantou e sem dizer nada me estendeu um cobertor. O gesto entalhou-se para sempre na xilogravura da memória. Não exatamente em função de me salvar do frio, mas porque ali estava um ser humano ajudando a outro sem outro interesse a não ser o de lhe fazer bem. Não tenho medo de errar: de tais coisas, mais do que de benesses ou facilidades, alimentam-se poetas e prosadores. De alguma forma, buscam reparti-las com o leitor. E no campo oposto, as execráveis são apontadas e dissecadas.

Há pouco tempo, tive de cumprir algo que não fazia parte das minhas tarefas habituais. Criticar comparativamente e por escrito, enquanto jurado de um concurso, obras de autores meus amigos. Fazê-lo e ser ao mesmo tempo cuidadoso não é simples de alcançar fora de uma conversa informal com o colega. Não sei se obtive o bom termo, o fato me ocupa até hoje. Pois quem escreve não está imune à necessidade de prestar atenção e cuidados a seus pares. E, evidentemente, a todos que o cercam, leitores ou não. Assim, ser cuidadoso em relação aos outros é também cuidar-se, no sentido de habilitar cada vez mais a sua humanidade para o convívio.

Sugestionado por uma amiga, escrevi este pequeno texto para meninos e meninas que faziam quimioterapia e seus familiares. Talvez com ele se possa ampliar a discussão.

CONFIANÇA

Vi um pai e uma mãe ao redor de uma pedra redonda de granito, três as filhas. Elas subiam na pedra, deixavam-se cair de costas, e o pai as salvava. A menor, numa das vezes, olhou para trás, insegura. Então o pai falou, olha pra frente, fecha os olhos. Ela fez, e se deixou cair, livre de ter de confiar apenas em si.

Penso que esse liame, a possibilidade de poder contar um com o outro, por mínimo que seja, mina a lei da selva que nos quer indiferentes ou inimigos. Move cordilheiras e outras galáxias.

Tema sugerido pela revista O Cuidador. Texto originalmente publicado na edição Ano III, N° 14, 2011/ 1.

Fonte:
Artistas Gaúchos

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Tânia Tomé (Livro de Poesias)


MOÇAMBIQUE

Quando me sento descalça
sobre o sapato do menino pobre
que me enche o pé
muito mais que outro qualquer
me lembro que existir
não é sozinha
é com toda gente.
E me lembro
que tenho de embebedar-me de ti
Moçambique
Porque tenho saudades de mim

SONS EM UNÍSSONO

A mão que me lê
ganha no espelho
a pupila
de uma luz imensa
no fundo da concha.

É o que se me vê(m) além
da cotilédone da pele:
sons ruidosos
em uníssono.

SERMENTE

E se Paul Celan
me entrasse
aqui, no futuro verso
eu seria a flor
tu serias a morte
e não te escreveria
neste desejo
incerto
de morrer-te
como murcha a flor
para ser semente

SE O MEU PESCADOR PESCASSE

Se o meu pescador me pescasse
pelo arpão me agarrasse os versos
um a um, sem pressa
a melhor palavra do mar…

Mas em que lugar da asa
a palavra poderia ser mais bela?
Com que cheiro? Com que sabor?
Onde seria o lugar do sol
Com que cor? Com que brilho?

E sei que hei de escolher
depressa mas devagar
a palavra mais carnuda para comer
E vou comer intensamente
Com toda forca dos meus (d)entes
na ponta dos dedos
as palavras que não me calo
E um peixe com asas
Há de nascer
E há de pescar-me no alto
o pescador
Espero

ENCANTOEMA

Pois ha urna verdade,
é a verdade do poema.
Urna verdade que não existe
e que não importa.
O que importa és tu
e és tu que existes
no peixe que sonhas.

ENCANTAMENTE

Uma confusão de dedos
procurando as mãos
da menina
— Onde estão, mãe,
as minhas asinhas da loucura?

A PALAVRA

A palavra quer deitar-se
sozinha, reflexa
contemplar devagar
o sol morre ao silêncio
Não há pressa, não há medo
A palavra quer morrer
quantas vezes for preciso

SONHO

Inspirada num poema que de igual forma me caracteriza de poeta amigo CAVALAIRE (Adilson Pinto).
Não tenho medo de assumir quem sou, uma eterna sonhadora que luta por aquilo em que acredita. (Tânia Tomé)

Eu tenho um sonho,
e dentro dele milhares
de sonhos possiveis…
em que acredito,
quase sempre
na plenitude
como na forma
em que respiro.

AMOR

Meu poema infinito
Tu escreves-me tão bem
esse amor todo nos teus dedos
escrevives-me exactamente
como me sonhei

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Tânia Tomé (1981)


Cantora, poeta e compositora moçambicana.

Tânia Teresa Tomé, nasceu a 11 de novembro de 1981, na cidade de Maputo, Moçambique. Ingressa na vida artística aos 7 anos, ao vencer o prêmio de melhor voz no Concurso de Música organizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em Moçambique..

Aos 13 anos, participa do seu primeiro sarau, onde canta, declama e toca ao piano poemas de José Craveirinha, em espetáculo que inclui a presença do homenageado.

Com 17 anos, entra para a Universidade Católica Portuguesa, no curso de Economia..È Licenciada em Economia e Pos-graduada em Auditoria e Controlo de Gestão pela Universidade Católica Portuguesa (Portugal,Porto).

Em 2002, adere ao Movimento Humanista, e faz algumas atuações em Portugal para angariar fundos para as crianças desfavorecidas de Moçambique.

Um ano mais tarde, ganha o Prêmio de Mérito da Fundação Mario Soares de Portugal pelo bom desempenho acadêmico e por conciliar estudos e atividades artístico-sociais.

Em 2004, é co-autora da antologia Um abraço quente da Lusofonia, com outros jovens poetas representantes de cada país da CPLP. Nesse mesmo ano, faz parte do CD intitulado Encontro (Iniciativa dos Leigos da Boa Nova), cuja totalidade dos lucros se destina a apoiar os projetos em favor das crianças e jovens de Angola e Moçambique. Regressa a Moçambique, e contribui para diversos movimentos artísticos e culturais, a destacar Movimento 100 crítica, Clave de Soul e Amigos do Livro. Faz-se então Membro da Associação dos Escritores Moçambicanos, da Associação dos Músicos Moçambicanos e dos Poetas del Mundo.

Em 2006, produz e apresenla, ao lado do músico Julio Silva, um programa cultural na Televisão de Moçambique (TVM).

Em 2008, realiza e produz o espetáculo “Poesia em Moçambique”, em tributo a José Craveirinha, onde todas as artes interagem para tornar vivo o poema. Introduz o conceito de Showesia (neologismo criado por ela) em Moçambique, com o qual se faz espetáculo de poesia com urna banda de músicos, ao lado da qual Tânia canta e recita poemas, havendo teatro da poesia, dança da poesia, entre outros.

Participou em alguns projectos de poesia e declamação, de referenciar “Dentro de mim outra ilha de Júlio Carrilho” com Jaime Santos (Declamador Moçambicano), e participação na Feira da Voz no Franco-Moçambicano como Júri de Declamação e actuação com Eduardo White (Poeta Moçambicano), ganhou alguns prémios de poesia, e têm “mão” alguns projectos para o futuro presente. Já foi igualmente Júri Residente de Musica em Programas de Descoberta de Novos Talentos na Televisão Nacional de Mocambique.

E em 2009 nasce o seu primeiro bebe germinado no processo de mais de 15 anos intensos de vida artística bebendo a arte e a cultura e fazendo o casamento profundo entre a música e a poesia, o seu DVD SHOWESIA (primeiro e único DVD de Poesia em Moçambique) que é o espectáculo de poesia produzido e realizado pela mesma em 2008 em homenagem ao poeta José Craveirinha.

Showesia é um conceito e movimento criado e divulgado pela Tania que designa Show/ espectáculo de Poesia, um evento cultural que incorpora poesia, declamação de poesia e todas as outras formas de expressão artística, tais como dança tradicional e moderna, e musica nas suas mais diversas variantes desde tradicional com instrumentos tradicionais (tais como as timbilas, tambores, mbiras entre outros), e outros instrumentos como Baixo, Guitarra, Piano, voz, e Skach teatral com cenários diversos para dar vida a poesia.

O objetivo num mundo de constante desenvolvimentos tecnológico e globalizado é resgatar e valorizar o patrimônio cultural mundial, criando uma plataforma e nekwork cultural mundial.
A ideia subjacente é a de que é possível fazer algo pela educação e pela cultura que seja aliciante e interessante, através de um formato entretido chamado Edutainement (Educação e cultura com entretenimento). Contribuir para mudança deste conceito linear de que a poesia, a literatura, a educação e cultura não são atractivas e são apenas elitistas e para um grupo de pessoas.

Existe uma consciência plena da dificuldade, mas nada é impossível, e a mudança mesmo que lenta acontecerá, e mesmo que não aconteça enquanto vivos estaremos a contribuir para as gerações vindouras.

Em seguida, lança oficialmente a página web http://www.showesia.com, e faz parte do Poetry África em Maputo, representando Moçambique, repetindo atuação e representação no Festival Internacional Poetry África na África do Sul.

Faz parte da antologia Worid Poetry Almanac 2009 (Com 190 poetas oriundos de 100 países).

Participa do primeiro ano de comemoração de Celebração da língua e Cultura Portuguesa da CPLP em Moçambique, ao lado de Mia Couto e Calane da Silva.

Lançou em Maio de 2010 em Moçambique seu livro de poesia “Agarra-me o Sol por traz” que é uma das referências bibliográficas da Pós-graduação em Letras Vernáculas da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Finais de 2010 a editora brasileira escrituras lançou o livro “Agarra-me o Sol por traz, outros escritos e melodias” com prefácio do Brasileiro Floriano Martins e pintura de Eduardo Eloy.

Participa do livro The bilingual anthology on african poetry (China).

Atualmente preside a associação Showesia com objetivo de resgatar o patrimônio cultural através de uma plataforma de interação entre o tradicional e o tecnológico/ocidental e de uma network cultural mundial.

Conta já com vários prêmios internacionais entre os quais se destacam premio academico da Fundação Mário Soares (presidente de Portugal), Premio Festival da Canção, Porto, Portugal, Premio soundcity music award (África), Premio de música da Organização Mundial de Saude, Premio de Poesia Millenium Bim.

” Escrevo, para que numa dimensão sem espaço e sem tempo, eu possa interagir comigo e com os outros. Promovendo cultura para todos, conscientizando pessoas, alimentando espíritos e fazendo emergir por momentos constantes e incessantes “PRAXIS” E “GNOSES”. Para que possa eu, ver de mim a crescer e aprender com tudo e todos os que me possam guiar. E com isso contribuir com o que tenho na alma e na mente para fazer crescer outrem, fazer crescer meu MOÇAMBIQUE, fazer crescer MUNDO “
Tânia Tomé

http://www.taniatome.com
http://www.showesia.com

Fontes:
http://www.antoniomiranda.com.br
http://www.recantodasletras.com.br/autor.php?id=4351

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Suely Braga (A Mulher Na Literatura Brasileira)


A mulher historicamente teve um papel secundário. Relegada ao espaço doméstico, as mulheres viviam enclausuradas. As meninas, desde cedo, aprendiam as prendas domésticas, preparando-se para o casamento. Saiam do jugo do pai, para entrar debaixo do jugo do marido, seu chefe. Sem direito a aprender a ler, escrever e votar.

Houve desde o século VI alguns nomes femininos com relevante atuação em suas comunidades: heroínas, guerreiras, beneméritas,administradoras como Ana Pimental, que geriu a capitania hereditária em lugar do seu marido.

A imprensa inexistia no Brasil. colônia, só facultada por D. João em 1808. Assim desde a década de1820 a mulher começou a expressar em letra de forma seus sentimentos, anseios e ideais. Interessante que foram as mulheres as primeiras a produzir literatura, porque ao homem cabia atividades expansionistas e econômicas.

De abrangência nacional,as primeiras intelectuai foram: a sul rio-grandense Maria Clemência da Silveira Sanpaio com suas Poesias de exaltação ao imperador, em 1823, Nísia Floresta, do Rio Grande do Norte, com sua Tradução Feminista, em1832, a cega Delfina Benigna da Cunha de São José do Norte, RS com suas poesias sentimentais e sofridas, em1834. Ana Eurídice de Barandas de Porto Alegre, em 1845, trouxe poesias e crônicas de denúncia à Guerra dos Farrapos, Ana Luiza de Azevedo Castro, de Florianópolis e Maria Firmina dos Reis,do Maranhão, foram as primeira romancista, em 1859. Nísia Floresta Brasileira Augusta publicou seu primeiro Livro: ”Direitos das mulheres e injustiça dos homens “, em 1932 e o primeiro a tratar dos direitos das mulheres à instrução e ao trabalho.

Em 1910, Raquel de Queiroz, de Fortaleza, ensaísta, cronista, dramaturga, tradutora, em 1940, integrou a União das Classes Femininas do Brasil. Recebeu o prêmio Machado de Assis, em 1977, da Academia Brasileira de Letras, na qual foi a primeira mulher a ingressar, em 1977. Também romancista.

Escreveu o Quinze (1932), Caminho de pedras, (1937). Muitas de suas obras são traduzidas no estrangeiro.

No regime militar, algumas escritoras se posicionaram contra o governo ditatorial, revelando suas posições politicas como Nélida Pinõn.Eleita para a Academia Brasileira de Letras(1989), foi a primeira mulher a presidir a entidade, em 1996. Nossa gaúcha Lila Ripoll, professora, poetisa.

Foi militante comunista, desde o assassinato de seu irmão.
Ganhou o prêmio Pablo Neruda com Poemas e canções, em 1957.

O rol das grandes escritora do século XX é vasto:
Cecília Meirelles, Lígia Fagundes Telles, Clarice Lispector, Hilda Hist , Marina Colassanti, Lya Luft, Maria Dinorath do Prado, Patrícia Bins,Marta Medeiros, Letícia Wierzchowski e tantas outras.

As mulheres vêm conquistando seu espaço na literatura.

Atualmente está surgindo uma plêiade de escritoras e poetisas jovens, outras nem tão jovens, que se espalham pelas editoras com suas obras literárias. A Historiadora Hilda Flores buscou as escritoras para seu livro “ Dicionário de mulheres”, que já está no prelo e vai ser lançado em Porto Alegre, em 17 de maio próximo.

Ela escreveu o “Dicionário de Mulheres” , em Porto Alegre, em 1999.. Surgiram também muitas Academias Literárias femininas. Com a internet é infindável o número de escritoras com seus sites, seus blogs e seus twitters.

As mulheres de hoje deixaram de ser Amélias, para navegarem em todos os setores da sociedade e no mundo das letras.
Link
Bibliografia: Flores,Hilda –Dicionário de Mulheres – 1999.

Fonte:
Artistas Gaúchos

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Biblioteca Comunitária de Itu (VERBALIZE – Sarau Literário e Musical) sábado, 4 de junho


ITU-SP | Neste sábado, 4 de junho, o Ponto de Leitura de Itu – Biblioteca Comunitária prof. Waldir de Souza Lima – realizará o VERBALIZE!, um Sarau Literário e Musical. O evento terá início às 19 horas e é gratuito e livre para todas as idades.

Haverá apresentações musicais e recitais livres de poesia, inclusive com a participação do público. A ideia é mostrar que um Sarau não é necessariamente um evento feito pela e para a elite, e sim um local de troca de conhecimentos e experiências de pessoas das mais diversas idades e classes sociais. Através da variedade de poemas e canções apresentadas, pode-se ter uma visão da diversidade da cultura brasileira.

Quem desejar apresentar algum poema ou música é só se dirigir ao local do evento. Não há necessidade de inscrição. O participante pode levar um ou mais textos pré-selecionados ou escolher no acervo literário da biblioteca, que contempla autores clássicos e modernos.

A Biblioteca Comunitária fica na rua Floriano Peixoto, 238, Centro, Itu. Mais informações pelo telefone (11) 8110.3598.


PONTO DE LEITURA
BIBLIOTECA COMUNITÁRIA PROF. WALDIR DE SOUZA LIMA
Rua Floriano Peixoto, 238, Centro, Itu.SP
CEP 13300-005
Contatos: (11) 8110.3598
http://www.bibliotecacomunitaria.wordpress.com

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Feira Literária de Londrina Seleciona Atividades, até 24 de junho


O Festival Literário de Londrina 2011 (Londrix), está recebendo para inscrições de propostas na área de literatura. Os proponentes, poderão realizar debates, lançamentos e exposições de livros, apresentações artísticas, shows e outras atividades ligadas ao mundo literário.

Londrix acontece na cidade norte-paranaense no mês de setembro. As inscrições para o festival permanecerão abertas até o dia 24 de junho.

Em sua sétima edição, o encontro , realizado todos os anos, reúne em Londrina os grandes nomes da literatura nacional para refletir a produção e as experiências desenvolvidas no país. O objetivo final do evento é estimular a formação de leitores e divulgar escritores e obras.

O festival promove debates, palestras, shows, lançamentos de livros, sessões de autógrafos, oficinas e leituras. Em 2010, Londrix contou com lançamento de livros de autoras como Tríade Beatriz Bajo, Célia Musilli e Edra Moraes, debates com Fausto Fawcet e Alex Lima, entre outros eventos.

As inscrições de atividades literárias no Londrix devem ser feitas pela internet e são gratuitas.

EDITAL DE SELEÇÃO DE TRABALHOS PARA O FESTIVAL LITERÁRIO DE LONDRINA LONDRIX2011

O presente edital institui normas para seleção de trabalhos para o Festival Literário de Londrina – Londrix2011, que acontecerá de 20 a 24 de setembro de 2011.

1. ORGANIZAÇÃO

1.1. A seleção será organizada pela AARPA – Atrito Arte Artistas e Produtores Associados e pela Equipe Organizadora do Festival sob Coordenação do Curador Marcos Losnak.

2. DAS CATEGORIAS

2.1. Cada candidato deverá inscrever apenas uma proposta em cada uma das categorias:

2.1.1 DEBATES/PALESTRAS / NACIONAL: os candidatos devem possuir currículo representativo no cenário literário nacional. Serão selecionados dois trabalhos nesta categoria.

2.1.2 DEBATES/PALESTRAS DE ARTISTAS / LOCAL: os candidatos devem possuir vínculo com a cidade de Londrina, ter nascido em Londrina, e/ou desenvolvido sua carreira em Londrina e/ou residir em Londrina comprovadamente há mais de um ano. Serão selecionados 6 trabalhos nesta categoria.

2.1.3 PERFORMANCES, APRESENTAÇÕES TEATRAIS, SHOWS / NACIONAL: os candidatos devem possuir currículo representativo no cenário literário nacional. Será selecionado um trabalho nesta categoria.

2.1.4 PERFORMANCES, APRESENTAÇÕES TEATRAIS, SHOWS / LOCAL: os candidatos devem ter este trabalho desenvolvido na cidade de Londrina. Serão selecionados 3 trabalhos nesta categoria.

2.1.5 LANÇAMENTO DE LIVROS: os candidatos deverão possuir trabalho publicado em 2011 na área literária. Serão aceitos 10 trabalhos nesta categoria.

3 DAS INSCRIÇÕES

3.1 Período de 30 de abril a 24 de junho de 2011

3.1.1 INSCRIÇÃO PELO CORREIO: cada candidato deverá enviar 01 (uma) cópia da sua proposta, o currículo e a ficha de inscrição preenchida (anexo 1). A postagem deverá ser efetuada até 24 de junho, comprovadas pelo carimbo do Correios até esta data.Endereço: Festival Literário de Londrina – Londrix2011 Rua João Pessoa, 103 A Londrina Pr CEP 86020-220).

3.1.2 INSCRIÇÃO PELA INTERNET: a inscrição será efetuada no site do Festival: http://www.festivalliterariodelondrina.com.br, devendo enviar 01 (uma) cópia da proposta, o currículo e preencher a ficha de inscrição, que estará disponível no site.

4. PARTICIPAÇÃO

4.1 As inscrições são gratuitas.

4.2 É vetada a participação de funcionários públicos municipais de Londrina. Por funcionário público municipal entende-se, além dos funcionários contratados e estatutários da Administração Direta, também os funcionários de autarquias e fundações municipais e os funcionários terceirizados.

4.3 O ato da inscrição implica, automaticamente, na cessão dos direitos de imagem para uso específico na divulgação do Festival Literário de Londrina – Londrix2011.

5. SELEÇÃO

5.1 A equipe organizadora do Festival Literário de Londrina – Londrix2011, sob coordenação do Curador Marcos Losnak é responsável pela seleção dos trabalhos e se baseará nos seguintes critérios: análise de currículo, representatividade na área literária, tema da proposta e perfil do Festival.

5.2 A decisão da Comissão é soberana não cabendo recursos.

6. DIVULGAÇÃO DO RESULTADO

6.1 O resultado será divulgado em 24 julho de 2011 através do site do Festival. A partir desta data a Organização do Festival entra em contato com os autores dos trabalhos selecionados.

7. DOS VALORES

7.1 Os valores a serem pagos são diferenciados para cada categoria:

7.1.1 DEBATES/PALESTRAS / NACIONAL: Serão selecionados dois trabalhos nesta categoria com valor de R$ 1.000,00 (hum mil reais) cada. Para pagamentos de pessoas físicas serão descontados 16% (dezesseis por cento) correspondentes aos tributos legais (INSS e ISS).

7.1.2 DEBATES/PALESTRAS / LOCAL: Serão selecionados 6 trabalhos nesta categoria com valor de R$500,00 (quinhentos reais) cada. Para pagamentos de pessoas físicas serão descontados 16% (dezesseis por cento) correspondentes aos tributos legais (INSS e ISS).

7.1.3 PERFORMANCES, APRESENTAÇÕES TEATRAIS, SHOWS / NACIONAL: Será selecionado um trabalho nesta categoria com valor de R$2.000,00 (dois mil reais). Para pagamentos de pessoas físicas serão descontados 16% (dezesseis por cento) correspondentes aos tributos legais (INSS e ISS).

7.1.4 PERFORMANCES, APRESENTAÇÕES TEATRAIS, SHOWS/ LOCAL: Serão selecionados 3 trabalhos nesta categoria com valor de R$ 1.000,00 (hum mil reais) cada. Para pagamentos de pessoas físicas serão descontados 16% (dezesseis por cento) correspondentes aos tributos legais (INSS e ISS).

7.1.5 LANÇAMENTO DE LIVROS: Serão aceitos 10 trabalhos. Não há pagamento de cachê nesta categoria.

8. OUTRAS DISPOSIÇÕES

8.1. Não serão aceitos trabalhos que não estiverem estritamente de acordo com este REGULAMENTO e não tiverem a ficha de inscrição preenchida corretamente.

8.2. Os trabalhos enviados que não estiverem de acordo com o REGULAMENTO terão automaticamente suas inscrições invalidadas.

8.3. A inscrição dos trabalhos implica conhecimento integral dos termos do presente.

8.4. Pedidos de informações sobre este Edital poderão ser feitos pelo e-mail festivalliterariodelondrina@bol.com.br.

CHRISTINE DO CARMO VIANNA
Diretora do Festival Literário de Londrina – Londrix2011

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José Feldman (Poesia para um Amigo Querido)

Ao meu cãozinho Fluffy, falecido há um ano, que estaria fazendo 11 anos.

O sol nasceu cedinho
E seus raios de calor
Caíram sobre a terra adormecida.
A manhã despontou
E você despertou
E seus olhos brilhavam
E havia um calor intenso
Em cada gesto seu.

O dia começava e
Você estava feliz,
Mais feliz ainda
Ao me ver junto a si.

Seu rabo negro e branco
Agitava de felicidade,
E voce pulou,
E voce me lambeu,
E voce me abraçou.

Corremos pelo quintal,
E senti o seu calor,
O seu amor…incondicional.

Briguei contigo,
Mas sua amizade
Era muito forte.
E sempre fui
Dominado pelo seu amor.

As borboletas voavam pelas flores,
Os passarinhos cantavam alegremente,
O próprio dia era mais radiante.

Mas,
O céu foi ficando escuro,
Os raios estremeceram a terra,
O sol sumiu nas trevas,
Seus olhos perderam o brilho
Seu rabo parou de agitar,
Suas pernas já não se moviam.

O sol se foi para sempre,
E só restou a noite,
Só restou as lágrimas,
Encharcando minhas lembranças.

Nem houve um tempo para um adeus!
Um ano sem voce, meu amigo!
Ainda parece que foi ontem
Que estavamos juntos.

Um dia estaremos juntos,
Novamente,
E o sol voltará a brilhar!
Até mais, meu amigo!

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Adolfo Casais Monteiro (Poesias Avulsas)


FADO

Música triste
desenganado
canto nocturno
a pouco e pouco
vai penetrando
meu coração
Nocturna prece
ou pesadelo
não sei que sombra
aquele canto
em mim deixou.
Febre ou cansaço?
Não sei! Nem quero.
lúgubre pranto
de roucas vozes
não tem beleza
– só emoção.
É como um eco
de noites mortas
de vidas gastas
ao deus dará.
Mas eu o recebo
dentro de mim.
Entendo. Choro.
Eu o recebo
Como um irmão.

EU FALO DAS CASAS E DOS HOMENS

Eu falo das casas e dos homens,
dos vivos e dos mortos:
do que passa e não volta nunca mais.. .
Não me venham dizer que estava materialmente
previsto,
ah, não me venham com teorias!
Eu vejo a desolação e a fome,
as angústias sem nome,
os pavores marcados para sempre nas faces trágicas
das vítimas.
E sei que vejo, sei que imagino apenas uma ínfima,
uma insignificante parcela da tragédia.
Eu, se visse, não acreditava.
Se visse, dava em louco ou em profeta,
dava em chefe de bandidos, em salteador de estrada,
– mas não acreditava!
Olho os homens, as casas e os bichos.
Olho num pasmo sem limites,
e fico sem palavras,
na dor de serem homens que fizeram tudo isto:
esta pasta ensanguentada a que reduziram a terra inteira,
esta lama de sangue e alma,
de coisa a ser,
e pergunto numa angústia se ainda haverá alguma esperança,
se o ódio sequer servirá para alguma coisa…
Deixai-me chorar – e chorai!
As lágrimas lavarão ao menos a vergonha de estarmos vivos,
de termos sancionado com o nosso silêncio o crime feito instituição,
e enquanto chorarmos talvez julguemos nosso o drama,
por momentos será nosso um pouco do sofrimento alheio,
por um segundo seremos os mortos e os torturados,
os aleijados para toda a vida, os loucos e os encarcerados,
seremos a terra podre de tanto cadáver,
seremos o sangue das árvores,
o ventre doloroso das casas saqueadas,
sim, por um momento seremos a dor de tudo isto. . .
Eu não sei porque me caem as lágrimas,
porque tremo e que arrepio corre dentro de mim,
eu que não tenho parentes nem amigos na guerra,
eu que sou estrangeiro diante de tudo isto,
eu que estou na minha casa sossegada,
eu que não tenho guerra à porta,
– eu porque tremo e soluço?
Quem chora em mim, dizei – quem chora em nós?
Tudo aqui vai como um rio farto de conhecer os seus meandros:
as ruas são ruas com gente e automóveis,
não há sereias a gritar pavores irreprimíveis,
e a miséria é a mesma miséria que já havia…
E se tudo é igual aos dias antigos,
apesar da Europa à nossa volta, exangüe e mártir,
eu pergunto se não estaremos a sonhar que somos gente,
sem irmãos nem consciência, aqui enterrados vivos,
sem nada senão lágrimas que vêm tarde, e uma noite à volta,
uma noite em que nunca chega o alvor da madrugada…

VEM, VENTO, VARRE
A José Rodrigues Miguéis

Vem, vento, varre
sonhos e mortos.
Vem, vento, varre
medos e culpas.
Quer seja dia,
quer faça treva,
varre sem pena,
leva adiante
paz e sossego,
leva contigo
nocturnas preces,
presságios fúnebres,
pávidos rostos
só cobardia.

Que fique apenas
erecto e duro
o tronco estreme
de raiz funda.

Leva a doçura,
se for preciso:
ao canto fundo
basta o que basta.

Vem, vento, varre!

ODE AO TEJO E À MEMÓRIA DE ÁLVARO DE CAMPOS

E aqui estou eu,
ausente diante desta mesa –
e ali fora o Tejo.
Entrei sem lhe dar um só olhar.
Passei, e não me lembrei de voltar a cabeça,
e saudá-lo deste canto da praça:
“Olá, Tejo! Aqui estou eu outra vez!”
Não, não olhei.
Só depois que a sombra de Álvaro de Campos se sentou a meu lado
me lembrei que estavas aí, Tejo.
Passei e não te vi.
Passei e vim fechar-me dentro das quatro paredes, Tejo!
Não veio nenhum criado dizer-me se era esta a mesa em que Fernando
Pessoa se sentava,
contigo e os outros invisíveis à sua volta,
inventando vidas que não queria ter.
Eles ignoram-no como eu te ignorei agora, Tejo.
Tudo são desconhecidos, tudo é ausência no mundo,
tudo indiferença e falta de resposta.
Arrastas a tua massa enorme como um cortejo de glória,
e mesmo eu que sou poeta passo a teu lado de olhos fechados,
Tejo que não és da minha infância,
mas que estás dentro de mim como uma presença indispensável,
majestade sem par nos monumentos dos homens,
imagem muito minha do eterno,
porque és real e tens forma, vida, ímpeto,
porque tens vida, sobretudo,
meu Tejo sem corvetas nem memórias do passado…
Eu que me esqueci de te olhar!

O FIM DA NOITE

A nossa história é simples: somos
neste momento todo o amor na terra
e nada mais importa, senão
o que sou, verdade em ti,
o que és, verdade em mim.
Por isso este poema talvez não seja
mais que um silêncio pela noite,
nem verso, nem prosa, só
uma oração ao deus desconhecido.

Não é talvez senão o teu olhar,
e tua esquiva mágoa,
o teu riso e tuas lágrimas.
E o apelo dentro de mim
ao milagre de nos querermos,
com a mágoa e com o riso,
– e teu olhar que vê em mim.

Não sei pedir, sei só esperar.
Mas já houve o milagre. Estava
agora comigo ao longo das ruas, que antes
eram só casas de pálpebras cerradas.
Estava no silêncio, que antes
era mortal.

E tu, sem eu saber, estavas comigo.
E sem eu saber de súbito na treva
buliram asas
e sem eu saber era já dia.

PERMANÊNCIA

Não peçam aos poetas um caminho. O poeta
não sabe nada de geografia celestial.
Anda aos encontrões da realidade
sem acertar o tempo com o espaço.
Os relógios e as fronteiras não tem
tradução na sua língua. Falta-lhe
o amor da convenção em que nas outras
as palavras fingem de certezas.

O poeta lê apenas os sinais
da terra. Seus passos cobrem
apenas distâncias de amor e
de presença. Sabe
apenas inúteis palavras de consolo
e mágoa pelo inútil. Conhece
apenas do tempo o já perdido; do amor
a câmara escura sem revelações; do espaço
o silêncio de um vôo pairando
em toda a parte.

Cego entre as veredas obscuras é ninguém e nada sabe
– morto redivivo.
Tudo é simples para quem
adia sempre o momento
de olhar de frente a ameaça
de quanto não tem resposta.

Tudo é nada para quem
descre de si e do mundo
e de olhos cegos vai dizendo:
Não há o que não entendo.

AURORA

A poesia não é voz – é uma inflexão.
Dizer, diz tudo a prosa. No verso
nada se acrescenta a nada, somente
um jeito impalpável dá figura
ao sonho de cada um, expectativa
das formas por achar. No verso nasce
à palavra uma verdade que não acha
entre os escombros da prosa o seu caminho.
E aos homens um sentido que não há
nos gestos nem nas coisas:

vôo sem pássaro dentro.

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Adolfo Casais Monteiro (1908 – 1972)


Adolfo Victor Casais Monteiro nasceu no Porto em 1908 e morreu em São Paulo em 1972.

A sua juventude foi típica de um filho da burguesia portuense ilustrada e liberal, cedo revelando propensão artística. É ainda durante a sua licenciatura, na Faculdade de Letras do Porto, em Ciências Históricas e Filosóficas, num meio influenciado por Leonardo Coimbra, que se estreia nas Letras com os poemas de Confusão em 1929. Embora nunca ostente a sua formação em Filosofia, ela será indelével em dois aspectos: o interesse pela conceptualização e pela Linguagem, e o norte orientador da liberdade.

Depois de ter obtido qualificação pedagógica em Coimbra, começa a ensinar no Porto em 1934 no Liceu Rodrigues de Freitas. Casa-se com Alice Pereira Gomes, irmã de Soeiro Pereira Gomes, de quem só se separa um ano após partir para o Brasil, duas décadas mais tarde. No final dos anos 30 e na década seguinte foi demitido do ensino pela ditadura e preso sete vezes, vivendo uma vida profissional atribulada por motivos políticos, mantendo a sua atividade de poeta e crítico através de trabalhos de tradução e edição. Sob anonimato, coordena o semanário Mundo Literário. Não menos relevante é a sua ligação com Fernando Pessoa, que data dos dias em que dirigirá a Presença. Logo em 1942 organizara e prefaciara uma antologia poética de Pessoa, que conhecerá sucessivas re-edições e influenciará sucessivas gerações de leitores. Essa atividade iniciada na crítica e correspondência com o próprio Pessoa na década de 1930 e prosseguida editorialmente na década seguinte, terá no início de 1950 expressão em Francês, traduzindo «Tabacaria» com Pierre Hourcade.

Grande parte do trabalho destas duas décadas encontra-se na reunião de ensaios O Romance e os Seus Problemas de 50; edição modificada no Brasil, mais tarde, como O Romance: Teoria e Crítica. É também sua a fixação do texto primitivo e versão em português moderno da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto (2 vols., Lisboa e Rio de Janeiro, 1952/3).

Em 1954, ano em que parte para o Brasil para participar num congresso mas já com a intenção de aí ficar e enviar uma «carta de chamada» para a mulher e o filho, João Paulo Monteiro, que se lhe juntará em 1963, publica Voo sem Pássaro Dentro (poesia) e vê uma antologia de poema seus surgir em castelhano.

No Brasil mantém atividade poética. Surgirá em 1969, como original nas Poesias Completas, O Estrangeiro Definitivo, além de continuar a organizar antologias, com destaque para A Poesia da Presença em 1959, no Brasil e 1972 em Portugal, re-editada aqui em 2003. Contudo, é sobretudo à crítica e à teoria literária que se dedica. Colaborador habitual de órgãos de comunicação social influentes como O Globo e O Estado de São Paulo, publica regularmente crítica literária que incide equitativamente sobre autores brasileiros, portugueses e escritores de outras línguas.

Tendo ensinado em várias universidades brasileiras, fixa-se em 1962 na Universidade de São Paulo, lecionando Teoria da Literatura, o que lhe permite elaborar aspectos conceptuais da crítica a que dava atenção desde a sua estreia ensaística em 1933.

Manteve sempre em vista a atividade artística e literária em Portugal onde nunca voltou, como as dedicatórias dos poemas dos últimos livros deixam perceber. Depois de décadas sem que a Censura permitisse, sequer, a publicação do seu nome, em 1969 a Portugália Editora lança o volume Poesias Completas, marcando a recepção da sua Obra pela geração que fará o 25 de Abril. Morreu em S. Paulo em 1972 a 24 de Julho.

Será entre essa recepção imediata (à falta de melhor termo) que outras obras surgiram, por iniciativa de seu filho e nora, Maria Beatriz Nizza da Silva, no imediato pós-revolução, como O país do absurdo (textos políticos, edição República em 1974 e A Poesia Portuguesa Contemporânea editada pela Sá da Costa em 1977. Progressivamente, as Obras Completas de Adolfo Casais Monteiro começam a ser (re)publicadas na Imprensa Nacional.

Fonte:
Estudo Raposa

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Olivaldo Junior (Pois é, está frio…)

Ainda estamos no outono.
Eu sei: ninguém é meu dono.
Mas eu também sei: sonho.
Sonho com o sol mais risonho,
nestes dias que abandono.

Pois é, está frio…
Faz tempo que não nos escrevo.
Mas inda sorrio.
É difícil, mas inda lhe prescrevo,Alinhar ao centrofeito um médico,
pílulas de alegoria, “o” remédio.
Pois é, é o tédio…

Durante a falta de versos,
ninguém que me importasse
mandara um dos servos
da alegria (notícias), nem fax,
nem carta, nem uns versos…

Pois é, está frio…
Durante a falta de assunto,
fui negado ao pedir perdão,
fiquei sozinho no mundo,
esqueceram-me com violão,
poesia e pão, num segundo.
Pois é, está frio…

Sonhei que estaria cantando.
Cantei que estaria ensinando.
Ensinei que acordaria sonhando.
Sonhei com amigos tocando.
Toquei, sozinho, o acalanto.
Acalento o frio. Mas até quando?

Fonte:
Texto enviado pelo autor

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Monteiro Lobato (Histórias de Tia Nastácia) XXXIX – O Camponês Ingênuo


Era um camponês muito ingênuo, que um dia partiu para a cidade de Bagdá a fim de vender uma cabra; foi montado num jumento, a puxar a cabra, que ia, tlin, tlin, tlin, com um cincerro ao pescoço. Três ladrões resolveram roubá-lo.
— Eu me encarrego de furtar a cabra — disse um deles.

— E eu, de furtar o jumento — disse o segundo.

— E eu, de furtar-lhe as roupas — disse o terceiro.

Assim combinados; os três malandros seguiram o pobre camponês. O primeiro deu jeito de passar a campainha do pescoço da cabra para o rabo do burro sem que o pobre homem percebesse. Sempre a ouvir o toque da campainha, só muito lá adiante é que olhou para trás e não viu cabra nenhuma.

Desesperado com aquilo, porque aquele animalzinho representava muito para ele, pulou do jumento abaixo e pediu a um homem que viu por ali que o segurasse enquanto ele ia em procura da cabra. Com a maior boa vontade o homem prontificou-se a segurar o jumento — e, assim que o camponês se afastou, fugiu. Esse homem era o segundo ladrão.

Quando o camponês voltou e não encontrou nem sinal do jumento, abriu a boca, desesperado. Nisto deu com outro homem que olhava para dentro dum poço, com grande aflição.

— Que houve? — perguntou o camponês. — Perdeu também algum jumento?

— Perdi muito mais — disse o homem com voz de desespero. — Imagine que fui encarregado de entregar um escrínio de ouro ao califa, e sentando-me à beira deste poço, para descansar, não sei que jeito dei que o escrínio caiu lá dentro.

— Por que não desce para pegá-lo?

— Já pensei nisso, mas tenho medo de resfriar-me. Sou muito sujeito a resfriados. Estou esperando que apareça alguém que queira prestar-me este serviço.

— Quanto paga? — perguntou o camponês.

— Oh, pago dez moedas de ouro, porque se trata dum escrínio riquíssimo.

O camponês não disse mais nada. Sacou fora a roupa e desceu ao poço. E o tal portador do escrínio, que não era portador de escrínio nenhum e sim o terceiro ladrão, fugiu com a roupa dele…
=============
— Coitado! — exclamou Narizinho. — A vida é bem cruel. Os ingênuos e os bons são sempre iludidos pelos maus.

— Verdade, sim — concordou dona Benta.

— Os homens de boa fé saem sempre perdendo. Por isso o meu bisavô, que foi o homem mais matreiro da sua zona, costumava dizer: “Quando alguém me procura para propor um negócio, eu fico ouvindo e pensando cá comigo: “Onde estará o gato?” e descubro, porque em todo negócio que alguém propõe há sempre um gato escondido.” Nesse pau tem “mé”! — dizem os caboclos.

Mas Narizinho não tirava da idéia o pobre camponês.

— Coitado! Perder a cabrinha já foi um desastre. Perdeu depois o jumento, que valia muito mais que a cabrinha. E por fim acabou nu em pêlo. E por quê? Só porque teve boa fé, só porque acreditou nos três homens…

— Por isso é que eu não gosto de gente — gritou Emília. — São os piores bichos da terra. Entre as formigas ou abelhas, por exemplo — quem é que já viu uma furtando outra, ou mentindo para outra, ou amarrando outra em rabo de burro bravo? Vivem em sociedade, aos milhares de milhares, na mais perfeita harmonia. Ah, quem quiser saber o que é honestidade de vida, vá a um formigueiro ou a uma colméia. Aqui entre os homens é que não fica sabendo disso, não. Quanto mais conheço os homens, mais aprecio as abelhas e as formigas.

— E agora vovó? Que história vai contar? — perguntou Pedrinho.

— Vou contar uma do Congo, na qual os negros explicam como é que apareceram os macacos.
–––––––––––––
Continua… XL – A História dos Macacos
–––––––––––––-
Fonte:
LOBATO, Monteiro. Histórias de Tia Nastácia. SP: Brasiliense, 1995.
Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source

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Ialmar Pio Schneider (Homenagens em Soneto IV)


SONETO A VOLTAIRE
Falecimento do escritor em 30.5.1778 – In Memoriam

Disse Voltaire em Cândido ou o Otimismo:
“Devemos cultivar nosso jardim!”
E porque defendia o Liberalismo,
foi perseguido sempre até o fim…

Lutou por suas ideias, outrossim,
sem jamais aderir ao conformismo,
e pelo seu caráter foi, enfim,
nobre filósofo do Iluminismo.

“Não concordo com nenhuma palavra
que dizes, mas defenderei até
a morte teu direito de dizê-lo”.

Esta frase genial de sua lavra,
vem confirmar um símbolo de fé
que deveremos ter como modelo…

SONETO A CELSO PEDRO LUFT
Data do seu aniversário de nascimento em 28.5.1921 – há 90 anos. – – In Memoriam

Estudava no Colégio Conceição,
há mais, com certeza, de cinquenta anos,
quando li um livro: Arcos de Solidão,
de Celso Pedro Lima, com seus arcanos…

Linguagem moderna de versos soberanos,
trazendo à baila, vasta meditação,
para que se enfrentem os desenganos,
fugindo do convívio da ilusão.

Assim tomei conhecimento de um poeta
moderno que, com sua verve e talento,
me aparecia como se um profeta…

Hoje, passado tanto tempo, ainda
pairam os versos no meu pensamento,
quais se fossem de uma luz infinda…

SONETO a FRANCISCO OTAVIANO DE ALMEIDA ROSA
Falecimento em 28.5.1889 – In Memoriam

Um soneto: “Morrer… Dormir…” Um verso:
as “Ilusões da Vida”; eis a bagagem
que tenho em mãos, mas vale um universo,
pois tudo dizem de sua passagem

por este mundo que julgou perverso…
Foi Francisco Otaviano, de coragem,
neste resumo simples e disperso,
merecedor de glórias e homenagem…

Mas, foi também “enviado extraordinário”
e “Ministro Plenipotenciário”,
p´ra negociar a Tríplice Aliança…

Além do mais, poeta e diplomata,
conseguiu para o Brasil, no Prata,
Tratado de recíproca confiança…

SONETO a PADRE PIO
Nascimento do santo em 25.5.1887- In Memoriam

Pio de Pietrelcina, Padre Pio,
talvez meu nome venha desse Santo;
mas não tenho certeza, no entretanto,
sei que ele a Deus aqui muito serviu…

Uma prece: Rogai por nós, levanto…
no dia em que nasceu e as luzes viu
da Mãe Nossa Senhora que seguiu;
e a Jesus Cristo, seu Divino Encanto !

Hoje, na data do seu nascimento,
que cure nossas almas do tormento
de assistir neste mundo a tantas dores

dos que padecem duras injustiças…
Que ele esteja presente em todas missas
celebradas com glórias e louvores !…

Fonte:
Textos enviados pelo autor

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Carlos Leite Ribeiro (O Escritor e a Jornalista)


Mais uma noveleta do magnífico escritor português Carlos Leite Ribeiro, organizador do Portal CEN (Cá Estamos Nós) http://www.caestamosnos.org/
––––––––––––––––––
Maria Linda, uma mulher brasileira de 40 anos, jornalista do Recife (Brasil), e um português de nome Mário Guedes, escritor.

Maria Linda, apaixonou-se por ele, cujo último livro “Ninguém se Esconde atrás do Sol” arrebatou seu coração.

Depois de assinalável êxito em Portugal, Mário Guedes, foi ao Recife apresentar a sua obra. Foi aí que conheceu a Maria Linda a bela Linda…

Tinha chegado há pouco ao Hotel e, depois das formalidades, foi até ao bar tomar uma bebida, quando nas suas costas ouviu uma voz meiga que o interpelava:

Linda – Desculpe incomodá-lo, Sr. Mário Guedes, mas sou jornalista e pretendia fazer-lhe uma entrevista.

Nem ali no bar de um hotel, pouco depois da sua chegada ao Brasil, o deixavam em paz. Virou-se lentamente, respondendo à sua interlocutora:

Mário: Minha senhora, deve estar enganada, pois sou um pobre homem que nem sabe ler nem escrever…

Ela sorriu quando ele a encarou pela primeira vez e pensou logo:
Mário – “Que sorriso mais lindo numa cara tão linda!”

Apesar dos desgostos sofridos na sua vida, ainda apreciava o que era belo.

Mário, virou-se totalmente para a jornalista, pondo-se então à sua disposição. A entrevista foi longa e muito bem conduzida. Sentia-se feliz junto daquela bela desconhecida. No final, disse-lhe que tinha que levar sua bagagem para o quarto e não tinha habilidade nenhuma para a arrumar. Perguntou-lhe se ela seria tão gentil que o pudesse ajudar a arrumar suas coisas. Ela sorriu, hesitou, mas por fim acedeu. Subiram os dois no elevador e, já no quarto, ela ajudou-o a arrumar suas coisas. Notou que ele estava excitado e restringiu-se. No final, ele com a argumentação de lhe mostrar como lhe estava agradecido, pediu para a beijar. Linda tentou resistir àquele pedido, mas foi em vão. Ele, embora carinhosamente, apertou-a com firmeza contra seu corpo, beijando-a nas faces, nos olhos, na boca e já estava no pescoço, quando ela conseguiu desembaraçar-se daqueles braços que mais pareciam tentáculos de polvo. Correndo para a porta, ainda lhe disse:

Linda – Senhor Mário Guedes, desculpe-me mas não é, de maneira nenhuma, o meu modo de estar na vida! Vim só para o ajudar, nada mais…

Quando chegou à rua, bem perto do hotel telefonou ao seu chefe a dizer-lhe que tinha conseguido a entrevista, mas sentia-se mal disposta e, que não ia diretamente para a redação do jornal. O chefe ainda tentou demovê-la, mas foi em vão.

Na manhã seguinte, Maria Linda chegou ao jornal muito cedo e se mostrava bem-disposta. Durante a noite procurou reorganizar suas ideias e colocar o juízo em seu devido lugar. Foi até a redação e começou a transcrever sua reportagem Quando terminou, leu e releu, sentiu-se satisfeita. Muito embora esta entrevista não considerasse ter sido uma das melhores, mas também não seria uma das piores. Foi até ao gabinete de seu chefe para que ele examinasse o texto. Ele leu atentamente sem fazer comentários, após terminar a leitura perguntou: –

Chefe – Minha filha o que aconteceu com você ontem depois da entrevista?

Linda sorriu e respondeu:

– Nadinha, querido chefe, foi apenas um mal estar, nada que uma boa noite de sono e um pouco de repouso não curasse.

Chefe – Olhe que você não me engana, e algo se passa com você. Talvez esteja realmente precisando de umas boas férias. Vou providenciar isso para a próxima semana impreterivelmente… Mas não me engana, garota!

Ela, limitou-se a responde-lhe:

Linda – Obrigada, Sr. Osvaldo.

Já há vários meses que Mário Guedes levava uma vida muito irregular, na sua santa terrinha. Bebia muito e perdia muitas noites a fazer nem sabia o quê, descurando e dispersando a sua fértil imaginação e criatividade de escritor. O pensamento naquela mulher que amava e de seu filho, que tinham morrido num acidente de viação, não o largava.

Para terminar este seu livro, o seu grande amigo José Feliciano (um verdadeiro irmão) teve que tomar conta dele, como um menino se tratasse. O desgosto que tinha levado Mário a este desespero, era conhecido no seio de seus familiares e de amigos amigos mais íntimos.

Quando Maria Linda saiu a correr de seu quarto, ele ficou longos minutos sentado na sua cama. Ficara impressionado pela beleza e inteligência daquela bela jovem. Tanto assim que, Mário Guedes, esqueceu seus desgostos e direcionou seus preciosos pensamentos para outra direção.

Pensou então:
– “É mais uma noite que o sono não vem, sendo que dessa vez os motivos são outros bem diferentes, pois conheci uma mulher que arrebatou meu coração. Não vou conseguir dormir!”

Talvez fosse mesmo seu desejo ficar acordado, pensando e repensando, naquela linda mulher que horas antes tinha conhecido. Pensava como era linda, a sua voz suave, seus olhos pretos, seus cabelos negros eram longos e brilhantes e uma tez ligeiramente moreninha. Não conseguia pensar em mais nada, que, impulsivamente, a havia apertado contra seu peito, fazendo com que a moça se retirasse repentinamente sem enviar-lhe ao menos um olhar, um último olhar. Quem sabe se algum dia ainda a encontraria, para lhe pedir desculpa?

Essa hipótese atormentava-o, tirando-lhe a tranquilidade e o sono.
Querida – Será que alguma vez a iria encontrar de novo?
Seria muita sorte se isso acontecesse…

Mário levantou-se assim que o sol apareceu, sentindo uma forte dor de cabeça e muita sonolência, mas mesmo assim, estava disposto e preparado para a noite da apresentação de seu livro e, quem sabe, rever aquela a mulher que roubou seu coração.

O dia custou a passar, pois parecia mais longo do que os outros. Grande era a sua expectativa. Apesar da ansiedade, Mário Guedes, manteve-se lúcido, longe de bebidas e do fumo. Queria estar sóbrio para admirar aquela beldade, caso ela aparecesse. Uma dúvida assaltou-lhe sua mente:
– “E se ela não estivesse presente no lançamento? Como poderei fazer para encontra-la? Não, não irei embora enquanto não descobrir uma forma de me comunicar com ela, para lhe pedir desculpa e dizer-lhe quanto a amo.”

O tempo passou e já se aproximava da hora de sua apresentação. Vestiu-se a rigor, e desta vez escolheu um terno de cor azul claro realçando com o castanho de seus
olhos.

Linda, dormiu maravilhosamente bem. Antes de se deitar fez uma prece e pediu proteção e a espiritualidade maior, pois no dia seguinte teria de enfrentar mais um desafio que seria suportar aquele olhar, aquele sorriso maravilhoso. Pensou:
Linda – “Deverei ser forte para não me deixar ser conduzida novamente por pensamentos desequilibrados”.

O chefe tinha-lhe agendado outra entrevista com o escritor, depois da apresentação do seu livro. Pensou com seus botões:
“Desta vez ficarei atenta para não cair em certas tentações. Ele é muito bonito e atraente, cheio de charme, mas tomarei todas as precauções necessárias para evitar o pior. A final não o conheço bem e muito menos ele a mim, além do mais, não faz meu tipo, com certeza deverá ter idade para ser meu pai”.
Pensou que seria um verdadeiro absurdo pensar que ele poderia ser o homem da minha vida.
Linda – “Ainda bem que mora em outro país muito distante do meu, e veio aqui somente com a finalidade de apresentar seu livro. Talvez hoje mesmo, se vá embora e não irei vê-lo nunca mais”.

Esse último pensamento causou-lhe um certo incomodo, dor e tristeza:
– “Será mesmo que depois, não o votarei a ver? Meu Deus, esta história não está me fazendo bem. Tenho que buscar o reequilibro, o autocontrole emocional, direcionando meus preciosos pensamentos para a tarefa que devo desenvolver. Preciso de recuperar o fôlego; é imprescindível, para então, preparar algumas perguntas que demonstrem sabedoria e inteligência que ele deve ter. Não quero correr o risco de cometer os mesmos erros da primeira entrevista. Devo mostrar para aquele senhor atrevido que sou inteligente o suficiente para não lhe fazer a vontade de arrumar suas coisas em seu quarto de hotel! Com certeza deve ter rido de minha tolice, e boa vontade de só o quer ajudá-lo! Mas quem é que sua Ex.ª o Sr. Mário Guedes pensa que eu sou? Desta vez, vou estar preparadíssima para que ele não seja novamente insolente. Desta vez ser bem diferente, ai isso é que vai ser!”

Ao despertar Maria Linda, começou a sorrir dos seus pensamentos da noite e pensou naquele adágio popular:
– “A Noite é boa conselheira”.

Pensava ela, mas seu coração não estava de acordo consigo. Se não fosse à apresentação do livro do português, talvez ele nem apercebesse da sua ausência.
– “ Tão Importante como julga ser, nem pensa numa simples repórter como eu. O cara, deve passar a vida, cercado de mulheres lindas e maravilhosas”.

Queria afastar esses pensamentos de sua mente. Por estranho que parecesse, naquele momento Maria Linda foi como que transportada mentalmente para uma daquelas festas frequentadas por artistas famosos e dessa vez ela não estava no serviço profissional, e era convidada do anfitrião. Imediatamente, se projetou na sua tela mental uma imagem já conhecida, era ele, o insolente do português que desfilava ao lado de uma linda mulher. Que raiva! Linda tomou um susto, ao perceber que de seus belos olhos surgiram duas lágrimas que começaram a rolar pelo seu rosto macio e bem cuidado. Sentiu raiva, pois percebeu que poderia estar com ciúmes daquele português insuportável.

Maria Linda, não compreendia o que lhe estava acontecendo, não aceitava o fato de que ele pudesse estar lhe tirando o sossego o equilíbrio mental.
Pensava: “ – Deve ser um bruxo para me enfeitiçar dessa forma, será melhor falar com meu chefe e pedir que indique outro repórter para fazer esse trabalho. Acho que não estou bem de saúde, devo estar ficando louca, é isso mesmo, estou ficando louca, portanto não devo ir a esse evento. Tenho que convencer o Sr. Osvaldo. Dizer-lhe que estou enferma e não posso comparecer hoje à noite na apresentação do livro desse português. Mas que por cargas d’água ele apareceu na sua vida? Se tudo tem um motivo de ser, porque eu ter sido escala para o entrevistar?”

Estava decidida a ir ao jornal tentar convencer o chefe a mandar outro repórter para fazer esse trabalho. Mas estaria mesmo decidida? É que de repente seus pensamentos vieram novamente atormentar – lhe o cérebro:
– “Se não fosse à apresentação do livro, nunca mais o ia vê-lo, e, iria arrepender-se pelo resto de sua vida. Perderia a oportunidade de sentir mais uma vez emoções jamais experimentadas”.

Pensou mais uma vez para com os seus botões:
– “ Será que eu vou perder essa oportunidade? Será que ele também pensa em mim? Ai meu Deus, não posso deixar de ir, tenho que encontra-lo novamente, nem que seja de longe. Mário Guedes, porque você veio da sua santa terrinha para me atormentar ? Eu, estava tão sossegada da vida…”

Nessa manhã, Linda não foi ao jornal. Passou o dia inteiro nos preparativos. Foi de tarde a um shopping e comprou um vestido digno de uma princesa. Mandou arrumar as unhas, cabelos, e uma belíssima maquiagem, que suavizasse ainda mais sua pele delicada, realçando seu lindos olhos, e a boca. No final mirou-se a um espelho, e pensou:
– “Estou linda!”

E até poderia até mesmo ser confundida com uma estrela de cinema internacional. Admirou seu corpo, suas formas bem delineadas e em seus lindos cabelos pretos, com alguns cachos que lhe caiam sobre o rosto. Aquele tratamento havia lhe transformado numa nova mulher. O vestido era justo e modelava seu belo corpo, salientando e seguindo cada curva, cada forma. Pensou alto:
– “Ai português, tu me vais admirar, mas desta vez não me vais tocar, nem sequer com um dedo!”

Mas as dúvidas também a assaltavam: –
– “Será que ele vai me reconhecer? Afinal nos vimos apenas uma vez e não foi por muito tempo! Agora, sinto-me tão diferente! Talvez nem repare em mim, com certeza deve ter milhares de mulheres lindas nesse evento. Ele é um homem famoso e muito atraente e este será um forte motivo para que toda a sociedade esteja presente. Mas não tem importância, estou vestida para sentir-me bem e não para agrada-lo. Mas eu gostava que ele repara-se em mim…”.

Falando em voz alta, entrou em seu automóvel de cor vermelha que coincidentemente da mesma cor de seu vestido. No fundo, estava preparada para o ataque!

Maria Linda chegou ao local do evento, um pouco depois das 19:00 horas. Sua presença causou certo impacto nos homens e despertou inveja em algumas mulheres. Até seus próprios colegas de profissão, não tiravam os olhos dela, e até pararam de correr atrás do escritor português para a cortejar. Claro que observaram sua transformação, sendo que isso somente lhe causava aborrecimento, pois não tinha interesse nesses homens que só pensam em levá-la para cama, Infelizmente existem homens que não conseguem reter em suas mentes por muito tempo, pensamentos que não sejam desse teor, portanto não interessa ser cortejada por esses tarados sexuais é isso que eles são e por outro lado só lhe interessava localizar seu alvo, que era o Mário Guedes, aquele português… Procurou ser indiferente para todos para não ser importunada. Ansiosamente, procurava aquele homem diferente, especial e ao mesmo tempo estranho. E o pior de tudo é que gostava de sua forma de ser e de se comportar.

Maria Linda estava surpresa com a quantidade de pessoas ali presentes. Reconheceu que pela fama do escritor realmente deveria ser um grande evento, mas porém, não contava com tanta gente. Ali estavam pessoas de todos os níveis sociais, além dos fãs e curiosos, estavam presentes rádios, jornais e televisões, e era quase que impossível permanecer no local por muito tempo, contudo não poderia sair sem cumprir com sua obrigação e também queria e precisava ser vista pelo português. Quando por obra do acaso, algo lhe chamou a atenção: Era ele, o português, o Mário Guedes, que estava ali sentado e cercado por fãs e curiosos. Era o momento dos autógrafos, e ele gentilmente, perguntava o nome e escrevia na primeira folha do livro. Apenas um jornalista conseguiu se aproximar e as perguntas que ele fazia eram exatamente as que ela gostaria de fazer, assim, aproveitou o trabalho do colega para concluir seu trabalho dando-se por satisfeita.

Maria Linda, ia se retirando do local por está cansada; o salto de sua sandália era tipo Luís XV, não aguentava mais ficar de pé. Sentiu-se envolvida por uma grande e profunda tristeza, pois queria vê-lo de perto, observar melhor seu comportamento para com os fãs. Decepcionada, começou a andar sem olhar para trás, quando de súbito alguém lhe pega pelo braço e diz:

Feliciano – “Maria Linda, para onde pensa que vai tão cedo? Não pode se retirar dessa maneira, pois o escritor Mário Guedes, precisa muito falar com você. Olhe que por diversas vezes ele tentou fugir da multidão para vir ter contigo, mas não conseguiu, foi então que me pediu para não lhe deixar escapar. Precisa muito lhe falar”.

Maria Linda, caminhava distraída sem rumo ou destino, e sua mente atormentando-lhe com o escritor.

A abordagem deste moço lhe trouxe de volta a realidade, causando-lhe um terrível susto. Foi então que movida por um impulso de raiva, disse-lhe:

Linda – “Quem ele pensa que é? Irei embora sim. Quem vai me impedir? Diga-lhe que não falo com estranhos muito menos se for insolente, e por gentileza largue meu braço”.

Feliciano – “Desculpe mas não queria ofendê-la de modo algum! Eu sou o Feliciano, o amigo e editor do escritor Mário Guedes, e responsável por esta apresentação no Brasil”.

Delicadamente, pedia desculpa e procurava justificativas plausíveis.

Tentava explicar que não era intenção de Mário Guedes magoa-la ou agredi-la, apenas não soube se expressar o que lhe ia na alma, e assim pede-lhe que lhe perdoasse.

Mas Linda, ainda pesarosa de não ter estado com o escritor, não aceitou suas argumentações e saiu imediatamente do local do evento, deixando o Feliciano desesperado com a sua reação. Correu atrás dela e pediu (ou implorou-lhe):

Feliciano – “Por favor Maria Linda, dê-me ao menos o número de seu telefone ou o seu endereço”.

Sem olhar para trás, ela abriu a sua pequena bolsa e retirando de dentro um cartãozinho, que jogou em direção ao seu interceptor que estava atento aos seus movimentos, e ao pegá-lo observou que estava escrito apenas o endereço eletrônico: linda@neocultura.com.br. Depois, saiu quase a correr, sentido duas lágrimas a correr-lhe pelo rosto.

– “Que dia mais decepcionante – pensou então…”

José Feliciano ficou muito surpreendido e admirado com a reação da jornalista, pois não sabia como dar a notícia a seu amigo. Como dizer-lhe que tinha feito tudo errado e mais uma vez deixou escapar a felicidade dele, pensou em voz alta:
– “Eu sou um perfeito idiota e o Mário vai matar-me! E o pior é que ele vai morrer também de raiva e desgosto. Que vida esta!”

Maria Linda, chegou a sua casa por volta das 2.00 horas da manhã, pois antes fora caminhar um pouco pela praia em busca de paz e tranquilidade, daí então pensou:
– “Ainda bem que algumas coisas estão a meu favor como por exemplo: é Domingo e não irei trabalhar, o meu filho Mateus está com o pai, senão quando acordasse, teria que lhe dizer o que aconteceu, pois esse menino tem uma percepção de adulto. Não consigo esconder por muito tempo minhas angústias e dores, e quando não invento uma boa história não me larga. E com esta aparência horrível, ele não se daria por conformado com qualquer desculpa, é um menino inteligente e amável e ocupa quase todos as lacunas na minha vida – pensou em voz alta”.

Foi até ao seu quarto e abriu o zíper do seu do lindo vestido deixando que deslizasse lentamente pelo seu corpo, até cair aos seus pés. Deixou-o sobre o chão e começou a tirar as outras peças até ficar totalmente despida, depois foi ao espelho e ficou admirando seu belo e bem cuidado corpo, pensando:
– “Agora, está tudo em forma, mas daqui a 30 anos estarei com 70 anos de idade, e aí, como estarão minhas formas?”.

Com um sorriso triste nos lábios foi até o banheiro ligou a ducha na posição de Inverno e ficou um longo tempo em baixo do chuveiro, como se quisesse que a água retirasse de sua mente tudo que havia passado naquela noite inesquecível de dor e decepção, e, em seguida, foi deitar-se. Encontrava-se mais calma, e quem sabe conseguiria adormecer e ao despertar confirmaria que tudo não passara de um sonho ou melhor um pesadelo. Mas aquele português…
––––––––––––-
Segunda – feira, mais uma semana que se inicia, Maria Linda levantou-se um pouco mais tarde do que o costume, toma um banho rápido por não querer se atrasar para o trabalho, escolhe para vestir uma calça jeans e uma blusa estilo masculino e sai rapidamente, pretende dar tudo de si ao seu trabalho, para assim, não permitir que sua mente lhe atormente com pensamentos indesejáveis. Já estava com a porta aberta para sair quando o telefone tocou. Era o seu chefe:

Osvaldo – “Recebi o teu trabalho por e-mail do evento do lançamento do livro do português. Conforme o combinado, estás dispensada uma semana. Garota, goza bem este período de férias.”

Linda – “Este período de férias calha mesmo bem. Só não sei o que vou fazer… Já sei, vou à região de Caruaru comprar umas roupas para mim e para meu filho.”

Foi nesta bela região do Nordeste brasileiro que a jornalista encontrou um casal amigo de longa data que viviam no Recife e agora moravam na Praia do Francês, já no Estado de Alagoas. Conversa puxa conversa e em determinada altura, o casal Medeiros convidou-a a ir passar uns dias no seu apartamento da praia. Aceitou o amável convite e depois de combinar com o pai de seu filho, para ficar com ele uma semana. Por fim todos rumaram ao apartamento do José Medeiros e da Maria Inês, na tal Praia do Francês.

Dias depois, o casal Medeiros resolveu ir à pesca numa jangada. Maria Linda recusou alegando que enjoava muito dentro de um barco. Assim, a jornalista ficou em terra e, em companhia de uma nova amiga que morava no mesmo bloco do apartamento dos Medeiros, foram tomar banho à praia. Já estavam a algum tempo dentro de água, quando começou a chover e, como não eram grandes nadadores, a água da chuva era mais fria do que a água do oceano. Saíram da água e procuraram um abrigo que as abrigasse da chuva fria, e o melhor (e único) sítio que encontraram, foi um pequeno barco que estava na areia voltado ao contrário. Meteram-se debaixo deste improvisado abrigo, enquanto a chuva caia implacavelmente. Duas horas depois a chuva deixou de cair com intensidade e as amigas regressaram aos respectivos apartamentos.

As horas foram passando e Maria Linda começou a ter fome (insuportável, considerava ela). Tinham combinado que o almoço seria o produto da pesca o que a impedia de poder fazer o almoço. Lembrou-se então que tinha visto umas caixas de biscoitos na dispensa do apartamento. Se pensou, melhor fez e foi comer biscoitos enquanto os anfitriões não chegassem. Por fim chegaram muito cansados e molhados.

Linda – Então a pesca foi boa?

José Medeiros tirou um peixinho que teria sequer um palmo de comprimento:

José – A pesca foi “maravilhosa”! Olha este peixinho…
Linda – Então é esse o nosso almoço?!
Inês – Não minha querida, vamos comprar mantimentos ao supermercado!

No regresso ao Recife, a jornalista recordou este curioso dia. Sorriu e embora perto do seu apartamento, sentiu saudades do seu “cantinho”. Recordou mais uma vez aquele português que ela conhecera e que se tinha portado com ela de uma maneira estranha…

Levantou-se na segunda-feira com aquela sensação de quem termina um período de férias e tem de regressar ao trabalho. E aquele português não lhe saía da cabeça…

Mal chegou ao jornal, foi abordada por uma colega que lhe segredou:

Colega – Maria Linda, você sabia que aquele escritor português, que tu foste fazer a cobertura da apresentação do livro, tem sérios problemas com mulheres e bebidas que é um viciado. Parece que nem tudo são rosas em sua vida, como muitos pensam. Só não sei como é possível um escritor famoso com o Mário Guedes, possa ter problemas tão graves ao ponto de fazer com que ele enveredasse por caminhos escuros como o da orgia e dos vícios?! Sinceramente, não consigo acreditar que isso seja verdade, apesar de que os comentários que surgiram, é o seu empresário toma conta dele, como quem cuida de uma criancinha, mas isso somente quando bebe exageradamente. Comentam também que seu ciclo de amizade está ficando bastante restrito, tendo em vista alguns problemas que ele está atravessando, nos últimos meses. A imprensa está divulgado que Mário Guedes não tem recebido quase nenhuns convites para eventos culturais, e assim, os amigos começam a desaparecer, pois só quando se tem fama, é temos muitos “amigos”. Os motivos que levaram o afastamento de seus supostos amigos, foi alguns problemas que andou metido com a sociedade e a imprensa de Lisboa.

Com esta notícia, a jornalista ficou muito triste e preocupada. Não, um homem como aquele, para ter descido tão baixo, foi por que alguma coisa de grave lhe aconteceu em sua vida, pensava ela:
– “É impossível o Mário ser assim! Quando me abraçou, notei o seu carinho de pessoa muito carente, Não, não me convenço do que ouvi”.

Foi para o seu gabinete, pegou no telefone e pediu à telefonista:

Linda – Por favor, ligue-me rapidamente ao jornal português de maior circulação.

Minutos depois estava em contato com Lisboa. Depois de uma longa conversa com o diretor do jornal português, soube que o grande problema do Mário Guedes foi a perda da mulher num brutal acidente de carro. Perdeu a mulher e um filho de 18 anos. Ficou aliviada com aquela notícia, pensando alto:
– “O “meu” português não é tão mau como o querem fazer. Ai, com os meus miminhos e carinhos, voltaria a ser ele mesmo! Mas a esta hora, o que ele estará a fazer? Vou tentar-lhe telefonar mais tarde, pois o colega de Lisboa até me deu seu número de telefone”.

Pensou melhor e, como boa nordestina e mulher arretada, resolveu ligar à agência para comprar uma viagem aérea para Portugal.

Horas depois estava dentro de um avião a caminho da bela capital de Portugal…

Logo que acabou de atender o telefonema da Maria Linda, o diretor do jornal telefonou em seguida a Feliciano, para lhe contar a conversa que tinha tido com a jornalista. Este, logo transmitiu a Mário Guedes esta conversa.

Mário – E tu já marcaste o meu voo para o Recife?

Feliciano – Claro que não! Ainda estiveste lá há pouco tempo…

Mário – Pois, não percas tempo e vai já á agência de Viagens.

Horas depois, o escritor estava a voar para a capital do Estado do Pernambuco…

Feliciano abriu a porta do apartamento e com grande surpresa encontrou Maria Linda. Ficou sem palavras e foi ela que perguntou-lhe:

Linda – O Mário Guedes está em casa?

Feliciano – Não! O Mário foi hoje para o Recife à sua procura…

Linda – Ho, que doido!

Feliciano – Direi mais: Que doidos vocês são!

No Recife, Mário foi ao jornal onde trabalhava Maria Linda, à sua procura. Todos os que estavam presente se riram e, quando apareceu o chefe Osvaldo disse que a jornalista tinha embarcado para Lisboa, por motivos pessoais.

Osvaldo – Parece que a garota está com problemas de coração…

Saiu do jornal completamente desorientado e sem saber o que fazer. Telefonou para o seu apartamento em Lisboa, mas ninguém atendeu.

Mário – Desta vez mato você, seu Feliciano!

Tentou o telefonema mais de duas horas. Por fim, conseguiu a ligação:

Mário – Por onde tens andado, meu figurão?

O amigo, deu uma grande gargalhada antes de responder-lhe:

Feliciano – Tenho andado a mostrar Lisboa a uma linda mulher e não sei se fiquei apaixonado por ela!

Mário – Deixa-te de graças, pois, não estou com paciência para te aturar. Vamos ao que me mais interessa: a jornalista do Recife esteve aí em casa?

Feliciano – Deixa-me cá ver… jornalista? Quererás tu dizer a Maria Linda?

Mário – Sim, essa mesmo!

Feliciano – Esteve e foi com ela que fui passear. Depois deixei-a num hotel.

Mário – Porque não ficou aí em casa? Esquece. Em que hotel está ela hospedada?

Feliciano – Não me recordo muito bem o nome do hotel…

Mário – Deixa-te de brincadeiras e dá-me o número telefônico e o número do quarto onde está hospedada. Já, já…

Feliciano – E quem te mandou ser maluco e ires para aí? Não fui eu, pois não? Liga-me daqui a meia hora que te darei todos esses dados. Claro, se não morreres antes!

Quando Feliciano lhe deu o nome do hotel e o número telefônico, Mário Guedes tentou logo ligar para Maria Linda. Mas escritora tinha ido numa excursão para visitar os pontos turísticos de Lisboa que incluía uma noite de fados.

Nem jantou nem saiu do quarto nessa noite, e foram as inúmeras vezes que ligou para o hotel. Precisava de falar com aquela bela moreninha que lhe tinha tomado conta de seu coração e dar-lhe volta à cabeça. Pensou alto:
– “Os fados nunca mais acabam e ele nunca mais regressa ao hotel. E eu aqui enervado e sem disposição nem para ler nem sequer ver a televisão. Que vida a minha!”.

Só cerca das 2.30 horas é que conseguiu falar com a sua “amada”, como ele já considerava:

Mário – Até que enfim que a menina regressou ao hotel. Até pensei que passasse a noite a cantar o fado, ou melhor, que se tivesse tornado fadista!

Linda – Que exagero! Que lhe deu na cabeça para me ir procurar aí no Recife?

Mário – O mesmo que te levou a ires à minha procura em Lisboa!

Ambos riram com as alegações um do outro. Já mais calmos, começaram a conversar normalmente sem aquele “arretamento” inicial.

Mário – Bem, tu ficas aí em Lisboa, pois amanhã apanharei o voo da manhã para aí…

Linda – Isso é que não poder ser pois, já marquei o voo de regresso para amanhã de manhã e não há volta a dar pois a agência a esta hora não atende. Olha, espera por mim aí no Recife – de acordo?

Mário – Tenho que estar mesmo de acordo devido às circunstâncias… Estou a pensar ficar cá uns três meses para trabalhar o esboço do meu novo livro…

Linda – Eu vou estudar um convite que me fizeram à pouco tempo de uma agência de notícias, para ser a “enviada especial”, não só em Portugal mas também em Espanha…

Mário – Essa ideia é maravilhosa!

Linda – Então até manhã.

Mário – Dorme bem e se possível, sonha comigo, meu amor!

Fonte:
Texto enviado pelo autor Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande – Portugal
Imagem por Iara Melo (Portal CEN)

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 228)


Uma Trova Nacional

Entrou na pancadaria
ao pedir: “Loira suada”!
Sua mulher não sabia
que era… Cerveja gelada!…
IZO GOLDMAN/SP–

Uma Trova Potiguar

Por eu gostar de beber
e de andar desaprumado,
muita gente chega a crer
que eu só vivo embriagado.
–ZÉ DE SOUZA/RN–

Uma Trova Premiada

1997 – São Paulo/SP
Tema: LEITE – Venc.

“O leite é fortificante!”
diz o velho, com carinho;
e o neto: “Que interessante…
Mas você só toma vinho!!!”
–GIVA DA ROCHA/SP–

Uma Trova de Ademar

Ouvia mamãe dizendo:
meu filho, não beba…Pare!
E agora eu só tô bebendo
Cerveja, vinho e “campari”!!!
–ADEMAR MACEDO/SP–

…E Suas Trovas Ficaram

Certo palhaço no palco,
engraçado como quê,
bebeu cachaça com talco,
porque talco é de bebê…
–ALOÍSIO ALVES DA COSTA/CE–

Simplesmente Poesia

Estou vivendo nervoso
toda noite tomo um porre,
rezo pra ver se ela morre
mas o que é bom é custoso;
ah! Se um bicho venenoso
mordesse a sua canela,
eu dava mortalha e vela
cova, caixão, água benta;
eita mulher ciumenta
essa que eu casei com ela!
–VALDIR TELES/PB–

Estrofe do Dia

Um dia de manhãzinha
eu cheguei numa bodega,
tinha um cego e uma cega
só tomando da branquinha,
a cega era Chiquinha
e o cego era Diogo;
eu também entrei no jogo
e o que eu vi ali não nego:
a cega puxando o cego
e o cego puxando fogo.
–ALCIDES GERMANO/PB–

Soneto do Dia

–GONGA MONTEIRO/PE–
Os Quatro Bêbados.

Quatro bêbados bebiam numa mesa,
e falavam da vida e tudo enfim.
o primeiro dizia: “Eu bebo assim,
pra poder afogar minha tristeza”…

O segundo, engolindo uma de gim,
diz: a cana é quem faz minha defesa…
Se não fosse a bebida, essa beleza,
minha vida seria muito ruim!

O terceiro, morrendo de ressaca,
diz: eu sinto a matéria muito fraca,
vou parar de beber essa semana!

Grita o outro: não faça essa desgraça,
mande abrir mais um litro de cachaça
que é pra gente morrer bebendo cana!

Fonte:
Textos enviados pelo Autor

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Ialmar Pio Schneider (Sobre a Poesia Marginal)

Estava assistindo a um programa de TV no Canal TV Câmara, em que se falava em poesia. A pessoa que estava declamando alguns versos soltos, percebi que se chamava Chacal e conversou alguns momentos com uma mulher de nome Heloísa Buarque de Hollanda. Então, lembrei-me de um livro que havia adquirido faz muitos anos cujo título é O que é poesia marginal, de Glauco Mattoso, Editora Brasiliense, 2ª edição, 1982, que encontrei sem mais delongas em uma prateleira de minha biblioteca, onde os livros estão enumerados por ordem de autor e de que também tenho uma relação por títulos. Facilmente encontrei-o.

Daí fiquei sabendo que se tratava de um movimento que surgiu nos idos de 1970 e que agrupava indivíduos que apregoavam uma nova forma de poesia, ou seja, mais livre e coloquial – “o poema não é bom nem ruim/ o poema é uma idéia (Marcelo Dolabela, no livrinho Coração malasarte)”. E como não tinham respaldo de editoras para publicarem seus livros, faziam-no artesanalmente em mimeógrafos , incluindo livrinhos impressos em offset, ilustrados, bem acabados. Assim “em 71, Chacal e Charles lançavam seus primeiros trabalhos mimeografados em tiragem de 100 exemplares, e em Brasília circulava o jornal Tribo, que foi até o terceiro número”.

Ilustrando o que significava aquela incursão na nova escola de poesia, chamada marginal, assim a qualificavam os pesquisadores Heloísa Buarque de Hollanda e Carlos Alberto Pereira, “a poesia marginal, literariamente falando, consiste no estilo coloquial encontrado na maioria dos autores da geração-mimeógrafo, caracterizado pelo emprego de um vocabulário baseado na gíria e no chulo, e de uma sintaxe isenta das regras de gramática, tal como no linguajar falado: qualé o lance? (Ronaldo Santos) – a cana tá brava a vida tá dura (Bernardo Vilhena) – a mão rápida do pivete agarrou a bolsa da velha/ a velha teve um troço & caiu babando na rua (Adauto de Souza Santos) – um orfeu fudido sem ficha nem ninguém pra ligar (Chacal) – a fumaceira fudida veste a cidade grande (Charles) – tem tanto tempo não faz um som (idem) – ano que vem eu compro um fusca (Nicolas Behr) – me manda embora antes das oito/ mas só me traia depois das dez (idem) – o hippie/ foi no shopping/ e feliz, deu um chiliqui (Marcelo Dolabela).

“Tal gênero de poesia seria marginal justamente por representar uma recusa de todos os modelos estéticos rigorosos, sejam eles tradicionais ou de vanguarda, isto é, por ser uma atitude antiintelectual e portanto antiliterária.

“Heloísa, que qualificou esse estilo como uma “retomada” do modernismo de 22, acrescenta que a diferença está na postura, que em 22 teria sido intencional, premeditada, e na poesia marginal seria espontânea e inconsciente.

“Quando saiu a antologia 26 poetas hoje, alguns dos autores tidos como marginais se reuniram com críticos, professores e alunos de literatura para debater teoricamente o “fenômeno poético” do momento. Nessas ocasiões empregavam-se terminologias eruditas ( do tipo espontaneismo, irracionalista, anticabralino) e levantavam-se questões como a de que os novos poetas estavam querendo “matar” Cabral. Puro desperdício de energia, pois, na verdade, o único Cabral morto na história seria o Pedro Álvares, e junto com ele o estilo arcaico da carta de Caminha. Quanto a João Cabral, nada sabia ele dessa “morte”, assim como poucos dos marginais sabiam de sua vida.”(…) (pgs. 32, 33 e 34 do livro O que é Poesia Marginal, de Glauco Mattoso).

De tempos em tempos, sabe-se, surgem manifestações inovadoras na arte poética, quando já a velha forma esteja desgastada. O ser humano tem o dom inerente da criação e a espontaneidade desse movimento, acredito, continuará como abrindo um caminho interminável de renovação para futuros poetas…

Fonte:
Texto enviado pelo autor

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Monteiro Lobato (Histórias de Tia Nastácia) XXXVIII – A Raposa Faminta


Era uma vez uma raposa que estava quase morrendo de fome. Desesperada saiu pelo mundo para comer a primeira coisa que topasse. Encontrou um leitão. Agarrou-o.

— Que vais fazer comigo? — perguntou o leitão.

— Devorar-te, está claro.

— Oh — exclamou o leitão — crua minha carne não vale nada — não tem gosto. Veja uma caçarola e um bom forno para assar-me.

A raposa foi procurar a caçarola e o forno: quando voltou não viu nem sombra do leitão. Furiosa da vida, continuou a viagem. Deu com uma cabra. Agarrou-a.

— Que quer fazer de mim? — perguntou a cabra.

— Devorar-te, está claro.

— Assim com pêlo e tudo? Não caia nessa. Vá ver uma tesoura e tose-me primeiro.

Enquanto a raposa procurava a tesoura, a cabra sumiu. Logo depois apareceu um lobo.

— Onde vai, raposa?

— Ando a procurar comida porque estou morrendo de fome.

— Nesse caso acompanhe-me.

Seguiram juntos até encontrar um cavalo. O lobo plantou-se diante dele, com o pêlo arrepiado, e perguntou à raposa: “Está meu pêlo arrepiado? Estão meus olhos soltando fogo?”

— Sim — respondeu a raposa. — E o lobo lançou-se ao cavalo e matou-o. Depois dividiram a carne, comendo até não poderem mais. Estômago, porém, é saco sem fundo. Não há o que o contente. Passados uns dias a fome da raposa voltou. Saiu novamente à caça. Uma lebre vinha vindo.

— Para onde vai, lebre?

— Ando a procurar o que comer — respondeu o animalzinho.

— Neste caso acompanhe-me — disse a raposa com uma idéia na cabeça: imitar o lobo.

Seguiram. Logo adiante encontraram um cavalo. A raposa plantou-se diante dele, com o pêlo arrepiado, e perguntou à lebre:

— Estão meus olhos lançando fogo? A lebre olhou e não viu fogo nenhum.

— Não — respondeu.

— Estúpida! — gritou a raposa. — Responde que sim, senão te mato.

A lebre, com medo, respondeu:

— Sim, estão lançando fogo.

A raposa, então, atirou-se ao pescoço do cavalo.

— Que queres comigo, raposa? — perguntou o animal.

— Devorar-te.

— Não vale a pena — disse o cavalo. — Uso ferradura de ouro no pé direito. Vai lá e tira-a. Poderás com esse ouro comprar quantas coisas de comer quiseres.

A raposa foi pegar a ferradura de ouro, mas pegou o maior coice de sua vida. Muito maltratada, manquitolando, recolheu-se a uma cova, onde começou a filosofar. “Achei um leitão, mas em vez de comê-lo depressa, fui procurar caçarola e forno. Resultado: sumiu-se o leitão. Achei uma cabra mas em vez de comê-la depressa, fui procurar uma tesoura — e lá se sumiu a cabra. Achei um cavalo, mas em vez de comê-lo depressa, fui atrás duma ferradura de ouro — e quase morri dum coice. Sou bem infeliz…”

A cova onde a raposa se escondera ficava ao pé dum morro, no qual apareceu um pastor que a enxergou. O pastor pegou uma grande pedra e zás! — atirou-lhe em cima.

— Ai, ai! — gemeu a raposa. — Levo pedrada até aqui, onde não há ninguém!

E dando um suspiro morreu.
=======================
— É do Cáucaso mesmo, vovó? — perguntou Narizinho.

— Sim, minha filha. Esta história é do folclore da gente do Cáucaso, e como lá é terra de neve, surgem a raposa e o lobo famintos, bichos que muito sofrem durante o inverno.

— E também um pastor — disse Pedrinho. — Nós aqui não temos pastores, a não ser nos versos. Temos vaqueiros, porqueiros — pastor nenhum. Eu, pelo menos, nunca vi nenhum.

— Nos velhos países — explicou dona Benta — há o uso de guardarem-se os rebanhos. A carneirada pasta e um homem — o pastor — toma conta dela. Entre nós o sistema é outro. Os rebanhos vivem largados pelas pastarias.

— Por quê?

— Talvez porque estamos ainda no regime das grandes propriedades. Nos países velhos a terra é muito dividida e toda ocupada. Quando nossas terras ficarem subdivididas como as da Europa, é possível que também apareçam por aqui os pastores.

— Eu gostaria bastante — disse Emília. — Acho lindo isso de pastor, pastora e pastorinha — sobretudo pastorinhas. Como é poético! Todos acharam graça na poesia emiliana.

— Conte agora uma do… do… da Pérsia, por exemplo — pediu a menina.

E dona Benta contou uma história da Pérsia.
–––––––––––––
Continua… XXXIX – O Camponês Ingênuo
–––––––––––––-
Fonte:
LOBATO, Monteiro. Histórias de Tia Nastácia. SP: Brasiliense, 1995.
Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source

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Antonio Manoel Abreu Sardenberg (Poesia e Cafezinho)

Coisas da Roça ANTONIO MANOEL ABREU SARDENBERG São Fidélis/RJ “Cidade Poema”

Afiei o fio da faca,
Amolei minha catana,
Serrei a ponta do toco
Cortei a soca da cana.

Afinei minha viola,
Esquentei o meu pandeiro,
Acendi o candeeiro
E varei a noite adentro
Com o som do sanfoneiro.

Contemplei o céu coalhado
Com estrelas cintilantes,
Flertei a linda morena
De cabelo cacheado
Que estava ali tão sozinha
Pois brigou com o namorado.

Botei pra fora a lembrança
Que guardava no meu peito,
Abandonei os preceitos,
Virei de novo criança,
Deixei de lado a razão
E namorei a morena
No luar do meu sertão…

Obstinação
PROFESSOR GARCIA/RN

Quando eu vejo no espelho a crueldade,
que o tempo indiferente me causou,
começo a perceber, que na verdade,
minha infância tão linda já passou!

Até hoje carrego com saudade
tudo aquilo que o tempo me levou,
dos feitiços banais da mocidade
a lembrança foi tudo que restou!

E por lembrar da infância tão querida,
nunca esqueço do amor de minha vida
que descobri na infância, certa vez;

pois este amor, tão lindo e tão sonhado,
inda vive comigo do meu lado,
a encher meu lar de paz e sensateza!

O outro lado da verdade!
CIDUCHA/SP

Estou aqui pensando,
em verdades desconfortáveis e inevitáveis
que entram pela porta dos fundos,
subindo os degraus da escada do entretenimento.
E essa realidade aterradora
vai permeando-me como se fosse veneno…

Tinha seduzido…
Tinha exercido todo o meu encanto,
construindo paredes de mentira.
Engraçado como descrições emocionais são tão adequadas!
Nas poucas ocasiões em que se vivencia,
essas emoções de verdade,
em um resumo perfeito
da minha própria vida no momento.

Perdi a noção do que era certo ou errado…

Apenas com a certeza
que minha história tinha algo a ver
com minhas próprias emoções e pensamentos

E fui imprópria, inadequada e inoportuna.

Mas confesso:
Aqui, agora… apesar de tudo,
trago no rosto o sorriso solto
de quem sabe o gosto do amor…

Pelo menos do amor!

Me perdoa…
GILDA PINHEIRO DE CAMPOS/RJ

Meu Amor Adorado
Me perdoa se te amo tanto
Se já não vivo sem sentir teus beijos,
teus carinhos e teu sorriso…

Se sinto tanta falta,
de conversar, te escutar…

Tua alma perfumada que me guia
na escuridão desta passagem
tão atribulada por esta
encarnação…

Chegaste como uma luz no
final do tunel
Que tudo ilumina e colore…

Pintas de azul meu mundo
e com leveza e amor
me mostras como se é feliz…

Tão simples…mas que
estava fora do meu alcance
por toda minha vida
até agora…

Loucura…delírio…paixão…amor…
Não sei explicar, só sentir…
Te vejo como um anjo
cuja luz forte e clara
tudo ilumina e alegra…

Que assim seja,
eternamente feliz
esse encontro de almas
que cumprem sua missão
e deixam um rastro de amor

De boas sementes,
para germinarem
e se multiplicarem

Fazendo desta passagem
uma semeadura do bem
da alegria, do amor…
Assim seja amado meu!!!

Que Presente Apreciado!
MARIA DA FONSECA

Lisboa – Portugal

Ameixoeira bendita
Mas que belos frutos dás!
Macios, doces, saborosos,
Do que meu Deus é capaz!

Agora ‘stão no cestinho
Já maduros, tentadores,
Como resistir-lhes posso,
Sendo assim prometedores.

São jóias da Natureza
Que a minha Amiga ofertou.
Outras pendentes do ramo,
Que o meu olhar alegrou!

Ameixas ‘scuras, vermelhas,
Redondinhas, sumarentas.
Da mão à boca num ai.
Pois se é assim que me tentas!

Com o cestinho vazio
Eu tas venho agradecer.
Se mais tiveres pra dar
Não as deixo apodrecer.

Magia do Anoitecer
MARGOT DE FREITAS SANTOS/MG

Sobre os braços da preguiceira
Contemplo o entardecer,
O sol que já é longínquo
Traz-me o anoitecer.

Sob o céu de anil brilhante
Meu pensamento vagueia,
Num roldão de lembranças perdidas,
De fadas, duendes e deusas,
Fantasias de pueril menina
Que hoje não as tenho mais.

Hoje mulher madura
Sedenta de grande paixão,
Mergulho no desconhecido
Envolta só na emoção.

E nesse romper da aurora
Entrego-me a devaneios,
E me transmuto de Vênus
Com todo feitiço e esplendor,
Entrego–me de corpo e alma
Nas bruxarias do amor.

Contradição
MARIA NASCIMENTO S. CARVALHO/RJ

Hoje, mais uma vez, desesperada
por ser injustamente preterida,
vejo que já nasci predestinada
a amar sem nunca ser correspondida…

Mas o que me dói mais, na despedida,
é saber que fui sempre desprezada
porque foste o anjo bom da minha vida
e eu, da tua, jamais pude ser nada.

Se me pudesse ver da eternidade,
chorando de tristeza e de saudade
pelo amor que no tempo se perdeu,

Carlos Drummond de Andrade me diria:
“E agora”, como vais viver Maria
sem o José que achavas que era teu?!

Para Um Poeta
MARLENE RANGEL SARDENBERG/RJ

Deus o fez poeta. Pobre peregrino
neste mundo de sonhos e ilusões!
Forjou-lhe a alma eterna de menino
pra resguardá-lo das decepções

das horas de espera sem chegada
que ele sente e não consegue entendê-las:
como viver na solidão gelada
quando se está tão perto das estrelas!?

Depois de tropeçar no paraíso,
cair de amores, ainda é preciso
da caminhada encontrar a meta?

Pra conviver com as angústias que o consomem,
sofre, então, como homem que é poeta
por viver como poeta, que é homem.

Quero – Quero
PEDRO EMÍLIO DE ALMEIDA E SILVA/RJ

À tarde nos campos
Dizem os quero-queros aos bandos
Quero-quero!…
Quero-quero!…
Quero-quero!…

Que “querem-querem”
Os quero-queros?
Pobres pedintes das beiras dos brejos!
Se eu soubesse
O quê o quê
Juro-juro
Dava-dava

Pobre-pobre dos quero-queros
Sou estribilho
Um eco…
Eu também quero…
Também quero…
Também quero…

Ponto final…
TECA MIRANDA/MG

Bruma sombria,
dores decantadas
sem rima ou poesia.

Letra amarga
inunda a mente,
aumenta a carga.

Partitura sem escala,
música sem melodia,
voz forte que se cala.

No tablado da vida
cerra-se a cortina,
do palco é banida.

Hoje eu sou um poema
ZENA MACIEL/PE

Hoje acordei com vontade de voar…
voar…voar….voar….
Voar nas asas lépidas de um
épico poema

Ser a musa de um poeta
Deixar o ser flamejar ao vento
Valsar ao relento
Nos braços dos sonhos

Esquecer a minha triste sina
Imundar a alma com
prócleses e rimas
Rasgar a placenta da solidão

Gargalhar ao som de palavras poéticas
Pintar a dor com metáforas azuis
Aplaudir de pé as trovas
Vestir-me de prosa

Perder o controle do tempo
Viajar nos lascivos pensamentos
Beijar a boca do amor
Engravidar o coração

Ser livre!
Viver as loucuras de um poeta
neste mundo de quimeras
Fazer da vida um eterno poema!

Eu Gosto
SÔNIA SOBREIRA

Gosto da chuva, do seu marulhar,
os pingos caíndo com precisão,
do vento alegre que teima em soprar
folhas molhadas, caídas no chão.

Gosto da chuva, do seu gotejar,
águas rolando, enxurrada em roldão,
deixando nas pedras brilho sem par,
como o trabalho de fino artezão.

Gosto da chuva a cair sobre mim,
névoa de prata a envolver meu jardim,
que todo encharcado em brilhos reluz.

Eu gosto de ouvir o som que ela faz,
qual retinir dos mais finos cristais,
jorrando do céu, pedaços de luz

Acendedor de Lampiões
SUELY LOPES

Sentadinhas
na calçada
as menininhas
pedem caixinhas

-Homem, me dá uma caixinha?
Hoje, filhinha
não tem !

Voltando a assobiar
acendendo o lampião
vai alegre
o acendedor
levar LUZ
à Consolação !

Obra Divina
ROBERTO PINHEIRO ACRUCHE

Veja Amor, como é linda esta paisagem!
A luz dourada do sol sobre a mata,
a água cristalina da cascata…
Indescritível, tal uma miragem.

Olhe aquelas árvores, que beleza!…
Esta vastidão plena, tão florida,
exuberantemente colorida,
climatizada pela natureza.

Cenário encantador, impressionante!
Harmoniosamente perfumante,
modulado com a magia do amor…

Minudenciosamente preciso,
somente quem criou o paraíso
adviria… ser seu escultor!

Um Coral
REGINA COELI

Todos os dias quando eu me levanto
Dou um bom dia a quatro canarinhos
Que me respondem em tons afinadinhos
Num hino de beleza e de acalanto.

Sinto o divino abrir seu lindo manto
Sobre esses seres, suaves passarinhos,
Que vivem na gaiola tão sozinhos,
Jamais deixando de entoar seu canto.

Canto com eles, louvo as notas belas
Que vêm pintar meu quadro solitário
Com um pincel de pios de canário…

Rasgo meu peito em voos de emoção
E elevo aos céus troféu do coração
Na solidão cantada em aquarelas!

Lua
MÔNICA SERRA SILVEIRA

Quem pode mais do que tu,
Rainha da Noite?
A desafiar o meu olhar
A tirar a minha calma!
A iluminar a escuridão
De minha alma!

Quem pode mais do que tu,
minha Lua brilhante?
Tão perto a clarear
Meus sentimentos
E ao mesmo tempo
De mim tão distante!

Quase posso tocá-la
Mas tua luz me encandeia
És tão bela e tão clara
Quanto de amor estou cheia!

Teu silêncio
NANCY COBO

Não durmo há vários dias…
Sinto tua falta.
O que posso fazer para você me amar?
O que posso fazer para você sentir esse Amor?
Estou apaixonada por você!
Queria poder deitar-me com você
e à luz de velas, te amar,
te amar até cansar…
Depois, fugir com você
para um lugar onde só existíssemos nós dois.

Queria poder trazer para a realidade
todos os meus sonhos.
Não sei como faço.
Precisava, apenas, que você me amasse.
Então, vem você de novo
dizer que quer sua liberdade…

Se é isso que queres, a terás,
Mas prepare-se:
Porque teu silêncio será a tua escuridão.
Ouvir o som de tua solidão vai ser difícil,
porque terás, na tua lembrança,
tudo o que vivemos e o que perdeu.
Mulheres vem e vão,
e você ficará só.

Então, verás o quanto me machucou.
E cada batida do teu coração,
fará você recordar tudo o que vivemos
e num som cadenciado e solitário,
irás sentir tudo o que eu senti,
chorar tudo o que eu chorei.
Amarás o quanto eu te amei,
mas nunca mais receberás
de ninguém, o Amor que te dei.

O sabor da noite
LÍGIA ANTUNES LEIVAS

A noite saboreia-se a si mesma. Não para…
Ansiosa, procura um sonho…
último desejo de saciar-se em seus devaneios.
– Ficar só?… nunca!
Sai pelas ruas.
Entra onde parece achar guarida.
Senta. Um lugar comum

…a mesa, o balcão, o banco, um bar qualquer.
Ao fundo, Sinatra e “My way”,
Elis numa canção cujo título se perdeu.
Tipos variados transitam no espaço exíguo.
Cada qual traz na face a palavra não-dita,
reflexo mudo do que lhe vai na alma, no coração.

A noite voltará amanhã
…tantos outros (des)encantos.
A solidão refaz-se sem mudanças.

Locomotiva da vida
JOSÉ FELDMAN

A locomotiva corre
Corre que corre
Corre que corre.

Corre levando a gente
Corre trazendo a gente
E a gente corre e corre
Neste leva-e-traz.

A locomotiva corre e apita
Corre e apita
Corre e apita.

Apita o início do jogo,
Apita a voz de comando
Apita a batalha da vida
Apita a vida passando.

A locomotiva corre e pára
Corre e pára
Corre e pára.

Pára na estação
Pára na carga e descarga
De meus momentos de indecisão.

Vai que vai
Vou que vou
Fico que fico.

E a locomotiva apita
E ela corre que corre
E lá vai ela
E lá vou eu!

Corre que corre,
Corre que corre,
Corre que corre…

Assim
MÔNICA CARNEIRO COSTA

A nossa imagem é a semelhança do Criador.
A criatura não existe,
Ela emana, surge…
Transgride no tempo certo.

O tempo, oh! O tempo!…
Nos é dado e contas ao tempo serão prestadas…
Juntar pedaços, catar cacos, colar trapos é assim:
Somar fatos, calcular ações, multiplicar doações

Assim…

Surgimos de um ventre,
Saímos das entranhas,
Passamos a ser vida fora de um corpo.
Que Mistério é esse que se chama maternidade?…

Fonte:
Textos enviados pelo Autor

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Sandra Santos (Livro de Haicais)

1
haicai é vício
no ábaco dos dedos
versos paridos

2
treme um haicai
na ponta da espada
de um Samurai

3
chão de outono
amarelo pêssego
deu pé de vento

4
vovó sentada
geada na cabeça
Já é inverno

5
se há o gosto
há o gozo, e afinal
já é agosto

6
barco de papel
perdeu-se das palavras
águas caladas

7
olhar vadio
sem a pressa das horas
pousa na rosa

8
foge um gato
pelo buraco negro
céu de Alice

9
plátanos mortos
sustentando videiras
vivem ainda

10
no chão voando
lá vai o leitor tão só
Leminskiando

11
como girassol
o sol se estende à leste
solenemente

12
bocal de poço
rendado de avencas
cortinas da rã

13
na primavera
gato furta cor passa
e se espreguiça

14
vaso de rosas
no orvalho do olhar
tristes memórias

Fonte:
A Autora

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SESC (Programação de Literatura)

SESC CAMPO MOURÃO

Ciclo de Leitura – 2ª Etapa

Lemos grandes livros para aprender a ler o mundo e, também, para afinar a leitura que fazemos de nossas próprias vidas. A leitura é uma experiência vital, que nos afeta, emociona e nos transforma. Ela nos oferece instrumentos tão preciosos para interpretar o mundo e a vida quanto a ciência, a filosofia e a religião.
A proposta do Ciclo de Leitura é estimular novos leitores tornando a obra literária mais próxima da realidade do jovem e ainda criar espaço de discussões e troca de experiência para os amantes da leitura. O evento se desenvolverá de forma dinâmica com mesas temáticas, aberto a todos os interessados.
Nesta segunda etapa a curadoria é da Professora Mônica Fernandes, doutora em Literatura e coordenadora do curso de Letras da UEPR.

Turma 1
28/07/11 às 14h30 na biblioteca do SESC Campo Mourão.
Cora Coralina: A vida contada em versos

Comerciário: gratuito
Não comerciário: gratuito

Turma 2
28/07/11 as 19h30 na biblioteca do SESC Campo Mourão.
Cora Coralina: A invenção de um nome.

Comerciário: gratuito
Não comerciário: gratuito

Turma 3
25/08/11 as 14h30 na biblioteca do SESC Campo Mourão.
Entre o sagrado e o profano: a poética de Adélia Prado.

Comerciário: gratuito
Não comerciário: gratuito

Turma 4
25/08/11 as 19h30 na biblioteca do SESC Campo Mourão.
Entre o sagrado e o profano: a poética de Adélia Prado

Comerciário: gratuito
Não comerciário: gratuito

Turma 5
29/09/11 as 14h30 na biblioteca do SESC Campo Mourão.
Uma proposta de leitura: do texto ao contexto do conto A terceira margem do rio.

Comerciário: gratuito
Não comerciário: gratuito

Turma 6
29/09/11 as 19h30 na biblioteca do SESC Campo Mourão.
Uma proposta de leitura: do texto ao contexto do conto A terceira margem do rio.

Comerciário: gratuito
Não comerciário: gratuito

SESC CAMPO MOURÃO

ALMOÇO COM PALAVRAS

Esta atividade faz parte das Campanhas de leitura da Biblioteca do SESC Campo Mourão, ela objetiva incentivar o hábito pela leitura entre os clientes do restaurante e lanchonete, para tal, dispomos nas mesas pequenos textos como: poemas, crônicas, charges, tiras e histórias em quadrinhos. Possibilitando ao cliente o acesso a Literatura e a Leitura, estimulando-o a freqüentar a biblioteca.

Turma 1
3ªs e 5ªs das 11h30 às 13h30 no restaurante do SESC.

Comerciário: gratuito
Não comerciário: gratuito

CURITIBA
Sesc Paço da Liberdade

Pacote de Poesia

O Pacote de Poesia é uma homenagem que o Sesc Paço da Liberdade faz a grandes poetas da literatura brasileira. Proporciona acesso a obras poéticas de vários autores, mesclando clássicos com contemporâneos, fomentando a prática da leitura e despertando, de forma lúdica, o prazer pela poesia. É um pacote de armazém com poemas impressos em folhas soltas de papel kraft.

O projeto tem o objetivo de transmitir os sentimentos profundos daqueles que têm nas palavras a riqueza da expressividade da língua portuguesa. Poetas que carregam no espírito a arte e a cultura como meio de sensibilizar a todos no momento de leitura, e que inspiram aqueles que se aventuram na arte poética.

Retire seu Pacote de Poesia no Sesc Paço da Liberdade e também no Sesc da Esquina e Sesc Centro.

DATAS:
30/06: Alphonsus de Guimarães
26/08: Glauco Mattoso

HORÁRIO: 18h30
LOCAL: Café do Paço
Entrada franca

Paço da Liberdade
Praça Generoso Marques, 189 – Centro
Informações: (41) 3234 4200
http://www.sescpr.com.br
http://www.twitter.com/pacodaliberdade

Aberto ao público

CURITIBA
Sesc Centro

Contação de Histórias

Contação de histórias para crianças e adultos, realizada no 3º sábado de cada mês, das 15h30 às 16h30. Participação gratuita.

16 de julho.
Contadora Tina de Souza.

20 de agosto.
Contadora Olga Romero.

CURITIBA
Sesc Portão

Contos e Cantos

O projeto “Contos e Cantos”, será realizado através de contação de histórias associada a uma breve vivência e estudo sobre o autor da literatura a ser trabalhada, que pretende abordar desde os clássicos até os mais contemporâneos autores, desta forma as crianças poderão perceber as influências étnicas e culturais na nossa literatura, contribuindo assim na formação do pequeno leitor.

Para 2011 o público contará com a diversidade na linguagem e na estética no trabalho da contação de histórias, considerando para isso os seguimentos como: Clown, Comédia Del’Arte, Formas animadas e Teatro de rua

Histórias Folclóricas – Teatro de Rua
25 de agosto às 9h30 ou 14h30
Participação gratuita.
Vagas limitadas

Lendas indígenas contadas a partir de Formas Animadas
30 de junho às 9h30 ou 14h30
Participação gratuita.
Vagas limitadas

SESC CURITIBA
Sesc Portão

Literatura em Expresão – Cardápio Literário

Serão apresentações teatrais baseadas nos livros exigidos como leitura obrigatória para os candidatos que farão o Vestibular da UFPR 2011, também á aberto a comunidade e tem como premissa socializar a literatura e o teatro. Ao final da apresentação será feito um debate com o público, que abordará os aspectos econômicos, políticos, históricos e culturais que permearam o texto escrito. O grupo apresentará um Pocket Show, com cenas curtas de todas as peças da lista do vestibular 2011, o público escolherá qual peça deseja assistir na próxima apresentação.

Novas Diretrizes em Tempos de Paz
8 de junho às 19h
Vagas Limitadas
Participação gratuita

*A próxima apresentação será escolhida pelo público participante do dia 10 de agosto entre as seguintes obras:

– Felicidade Clandestina, Clarice Lispector
– Inocência, Visconde de Taunay, Alfredo d’Escragnolle Taunay
– Luciola, José de Alencar
– O Bom Crioulo, Adolfo Caminha
– Poemas Escolhidos, Gregório de Matos (organização de José Miguel Wisnik)
– Romanceiro da Inconfidência, Cecília Meireles
– São Bernardo, Graciliano Ramos
– Urupês, Monteiro Lobato

SESC PARANAVAÍ

Projeto Autores e Ideias

No mês de junho, Luiz Rufatto e Ana Teresa Jardim são os convidados, quando serão discutidas as relações entre as letras e a vida nas grandes cidades, no encontro “Literatura e urbanidade”.

Com curadoria da jornalista Mariana Sanchez e realização do Sesc PR, o Autores & Ideias trará diferentes vozes da literatura brasileira atual para mais perto dos leitores em 2011.

Tema: Literatura e Urbanidade
Escritores convidados: Ana Teresa Jardim e Luiz Ruffato
Inscrições no Sesc
Local: Casa da Cultura

8 de junho às 20h

Ana Teresa Jardim
Ana Teresa Jardim é escritora, tradutora e professora universitária (ensina Figurino na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UniRio). Fez doutorado em Cultura e Comunicação na Universidade de Sussex, no Reino Unido, onde também ensinou no departamento de Cinema. Ana Teresa publicou seu primeiro livro, “A Cidade em Fuga”, de contos, pela Editora Rocco, em 1997. Ele foi seguido de “No Fio da Noite”, publicado pela Editora Nova Fronteira em 2001, e “A Mesa Branca” e “Perceptions: uma memória”, ambos publicados pela Editora 7 Letras em 2002. Seu conto “Vício de Roteiro” fez parte da coletânea “Mais 30 Mulheres Que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira”, organizado por Luiz Ruffato e publicado pela Editora Record em 2005. Seu texto infanto-juvenil “O Diário de Sacopenapan”, ilustrado por Maureen Miranda, será publicado em junho de 2010.

Luiz Ruffato
Nascido em 1961, publicou vários livros, entre eles, Eles eram muitos cavalos , em 2001, também lançado na Itália, França, Portugal e Argentina; De mim já nem se lembra , em 2007; e Estive em Lisboa e lembrei de você , em 2009, lançado em Portugal e Itália e no prelo na Argentina. A partir de 2005, iniciou uma série intitulada Inferno provisório , composta por cinco volumes, dos quais já saíram Mamma, son tanto felice , O mundo inimigo (ambos também lançados na França e o primeiro no prelo no México), Vista parcial da noite e O livro das impossibilidades . Tem histórias publicadas em antologias nos Estados Unidos, França, Argentina, Itália, Portugal, Angola, Suécia e Polônia. Recebeu os prêmios APCA e Machado de Assis (por Eles eram muitos cavalos ), APCA (por Mamma, son tanto felice e O mundo inimigo ), Jabuti (por Vista parcial da noite ), e foi finalista dos prêmios Portugal Telecom (com O mundo inimigo ), Zaffari-Bourbon (com O livro das impossiblidades ) e São Paulo de Literatura (com Estive em Lisboa e lembrei de você ). Tem também uma menção especial no Prêmio Casa de las Américas, por (os sobreviventes) .

Fonte:
– Laíde Cecilia de Sousa
Assistente de Atividades SESC- Maringá
http://www.sescpr.com.br

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 227)


Uma Trova Nacional

Embora comprometido,
o fulgor da mocidade
procura encontrar sentido
nos braços da liberdade.
–ANA NASCIMENTO/CE–

Uma Trova Potiguar

A mulher de amor fecundo,
é feliz e se completa;
por ser musa e inspirar fundo
o interior do poeta…
–PAULO ROBERTO/RN–

Uma Trova Premiada

1988 – Nova Friburgo/RJ
Tema: PROCURA – 1º Lugar

Jurei não te procurar…
Jurei, mas quebrei a jura…
Quem ama pode jurar
não procurar, mas… Procura.
–LUNA FERNANDES/RJ–

Uma Trova de Ademar

O meu verso ninguém toma
nem apaga, nem copia.
Ganhei de Deus um diploma…
Eu sou formado em poesia!
–ADEMAR MACEDO/RN–

…E Suas Trovas Ficaram

O murmúrio das gaivotas
em noites de lua cheia,
são canções gravando as notas
nas pautas brancas da areia…
–MIGUEL RUSSOWSKY/SC–

Simplesmente Poesia

–EDLA FEITOSA/PE–
Meu Querer

Eu quero:
A paz do campo, o azul do céu,
O verde do mato, o perfume das flores,
O brilho do sol, o canto do rouxinol,
Uma brisa suave sempre a soprar
E toda paz que eu puder encontrar.
Eu quero:
A gota cristalina de orvalho, A solidão do lago,
Uma casa com varanda, Uma rede a balançar,
O prado, o gado, o gorjeio das aves,
O clarão do luar, a friagem da noite
E muitos sonhos para sonhar.

Estrofe do Dia

Um certo dia de outono,
vendo as plantas se despindo,
pude sonhar que enxergava,
e jurar que estava ouvindo
um florir espreguiçado
de uma flor que vinha abrindo.
–MARCOS MEDEIROS/RN–

Soneto do Dia

–GILSON FAUSTINO MAIA/RJ–
Sacrifício

Inda lembro os botões daquela blusa,
à noite, a provocar meu pensamento…
Desviava o olhar, mas, no momento,
a voz da tentação dizia: – Abusa!

Imaginava o tom de uma recusa,
um afastar-se por acanhamento.
Deveria frear o atrevimento,
não queria perder a minha musa.

Que sacrifício nos impõe a vida!
(Já não retornam mais tantas venturas).
Investir e travar essa investida,

colocar o chapéu em boa altura,
aguardar ser a mão bem recebida
pra não causar transtornos, desventuras.

Fonte:
Textos enviados pelo Autor

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Rodrigo Ratier (O Desafio de Ensinar a Língua para Todos)


A polêmica sobre o “falar popular” revela a necessidade de dialogar com os alunos não familiarizados com a norma-padrão

– Qué apanhá sordado?
– O quê?
– Qué apanhá?
Pernas e cabeças na calçada.

É óbvio: o célebre poema O Capoeira, de Oswald de Andrade (1890-1954), está quase integralmente em desacordo com a norma-padrão da Língua Portuguesa. Isso não impede, entretanto, que Pau Brasil, o livro de 1925 em que o texto está incluído, seja estudado nas escolas e frequente as listas de leitura obrigatória das mais concorridas universidades do país.

Do regionalismo de Jorge Amado à prosa contemporânea da literatura marginal, passando pelo modernismo de Mário de Andrade e Guimarães Rosa, refletir sobre as variedades populares da língua, típicas da fala, tem sido uma maneira eficaz de levar os alunos a compreender as formas de expressão de diferentes grupos sociais, a diversidade linguística de nosso país e a constatação de que a língua é dinâmica e se reinventa dia a dia.

A discussão, porém, tomou um caminho diferente no caso do livro Por Uma Vida Melhor, volume de Língua Portuguesa destinado às séries finais na Educação de Jovens e Adultos (EJA). Um excerto do capítulo “Escrever É Diferente de Falar” foi entendido como uma defesa do “falar errado”. Muitas pessoas expressaram o temor de que isso representasse uma tentativa de desqualificar o ensino das regras gramaticais e ortográficas que regem a Língua Portuguesa. De fato, não se pode discutir que o papel da escola é (e deve continuar sendo) ensinar a norma culta da língua.

Conhecer e dominar a comunicação segundo o padrão formal representa, sem dúvida, um caminho poderoso para a ascensão econômica e social de indivíduos e grupos. Acima de tudo, é uma das maneiras mais eficazes por meio das quais a escola realiza a inclusão social: permitir o acesso a jornais, revistas e livros é abrir as portas para todo o conhecimento científico e filosófico que a humanidade acumulou desde que a escrita foi inventada.

Mas, afinal, do ponto de vista da prática pedagógica, está correto contemplar nas aulas a reflexão sobre as variantes populares da língua? A resposta é sim. A questão ganhou relevância com a universalização do ensino nas três últimas décadas. Com a democratização do acesso à Educação, a escola passou a receber populações não familiarizadas com a norma-padrão. Nesse percurso, surgiu a tese de que falar “errado” representava um impedimento para aprender a escrever “certo”. Pesquisas na área de didática mostraram exatamente o contrário: o contato com a norma culta da escrita impacta a oralidade. Ao escrever do jeito previsto pelas gramáticas, o aluno tende a incorporar à fala as estruturas e expressões que aprendeu.

Contemplar as variantes da língua exige preparo docente

Não custa enfatizar, entretanto, que o respeito às variedades linguísticas por meio das quais os estudantes se expressam ao chegar à escola não significa que o professor deva abrir mão do ensino da norma culta. Ao contrário. O que se pretende é que a reflexão sobre as relações entre oralidade e escrita leve os estudantes a compreender a linguagem como uma atividade discursiva. Ou seja, um processo de interação verbal por meio do qual as pessoas se comunicam.

Pensar a fala e a escrita como discurso não é pouca coisa: exige competência para planejar a expressão de acordo com o lugar em que ela vai circular (uma conferência acadêmica? Uma conversa no jantar?), levando em conta seus interlocutores (uma autoridade? Um grupo de amigos?) e a finalidade da comunicação (expor um argumento? Relembrar uma lista de compras?). Dessa perspectiva, os gêneros escritos continuam com espaço cativo. A diferença (para melhor) é que você, professor, deve ocupar-se também das situações formais de uso da linguagem oral (seminários, entrevistas, apresentações etc.), igualmente fundamentais para o exercício da cidadania.

Cabe lembrar, ainda, que valorizar os modos de expressão coloquiais é uma opção especialmente válida na EJA. As experiências indicam com clareza que iniciar o trabalho mostrando a utilidade daquilo que os estudantes conhecem é um dos pontos de partida mais eficazes para mobilizar o público dessa etapa de ensino – adolescentes e adultos com trajetórias escolares marcadas pela falta de oportunidades, o abandono e a multirrepetência, vários empurrados para fora das salas por um ensino excessivamente apegado à repetição de nomenclaturas e à memorização de regras estruturais.

Por trás da crítica ao diálogo da escola com os saberes populares está a defesa, muitas vezes inadvertida, de um sistema educacional campeão em evasão, reprovação e analfabetismo funcional. Como o que construímos até hoje.

Fonte:
Revista Nova Escola

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas no. 226)


Uma Trova Nacional

De cada canto da terra
se espalhe um canto de paz
e pra quem semeia a guerra
não haja perdão, jamais!
–RENATO ALVES/RJ–

Uma Trova Potiguar

Quando uma aurora inaugura
a luz que o sol irradia,
planta um gesto de ternura
nas cores de um novo dia.
–HERBETE FELIPE SOUZA/RN–

Uma Trova Premiada

2008 – Conc.Int-Fortaleza/CE
Tema: REDOMA – 3º Lugar

Por sofrer tantos açoites
nos meus momentos tristonhos,
pus redoma em minhas noites
para prender-te em meus sonhos.
–FRANCISCO JOSÉ PESSOA/CE–

Uma Trova de Ademar

O tempo é bom conselheiro,
do tempo eu não me desgrudo.
Quem faz do Tempo um parceiro,
encontra um tempo pra tudo!…
ADEMAR MACEDO/RN–

…E Suas Trovas Ficaram

Fui arquiteto lesado
que projetou, com capricho,
um lindo sonho encantado
que a vida jogou no lixo.
CARMEM OTTAIANO/SP–

Simplesmente Poesia

–CECÍLIA MEIRELES/RJ–
Colar de Carolina

Com seu colar de coral,
Carolina
corre por entre as colunas
da colina.

O colar de Carolina
colore o colo de cal,
torna corada a menina.

E o sol, vendo aquela cor
do colar de Carolina,
põe coroas de coral
nas colunas da colina.

Estrofe do Dia

No trabalho das colméias
me inspiro em meu dia-a-dia,
eu e a abelha laboramos
numa intensa parceria:
ela tira o mel das flores
e eu ponho em minha poesia.
JOSÉ LUCAS DE BARROS/RN–

Soneto do Dia

–THEREZA COSTA VAL/MG–
Conselhos para a Colheita.

Busca plantar sorrisos no caminho,
tenta esconder as queixas, amargores…
Os bons momentos sorve, como um vinho
ou, talvez, o mais doce dos licores.

Com alegria e amor, constrói teu ninho
e segue pela vida, sem temores.
Evita pôr teu passo em descaminho,
as más palavras cerca, com rigores.

Busca plantar a paz, cada momento,
e o sonho replantar, em novo alento,
se tudo parecer desmoronar…

Mantém tua esperança sempre à espreita:
na vida, existe o tempo da colheita
do bem que se viveu sempre a plantar.

Fontes:
Textos enviados pelo Autor
Imagem = http://www.mtsmidisvoice.net/siteamigos.htm

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Isabel Furini inicia Oficina para Aprender a Escrever Livros Infantis

Iniciará em 06 de junho (segunda-feira, a partir das 14:30 horas) no Solar do Rosário, uma oficina especial para pessoas que desejem escrever livros infantis.

Na oficina analisaremos as técnicas para escrever contos infantis.

Como despertar o interesse de meninos e meninas? Os contos direcionados ao público infantil têm algumas características próprias: a oralidade, a fantasia, a curiosidade, o descobrimento do mundo, o olhar mágico.

Na primeira aula serão analisados alguns contos do ponto de vista dos símbolos. Uma maneira de descobrir a subjetividade e o estágio das crianças que escutarão ou lerão as histórias.

Serão analisadas: a teoria da escada, os elementos da composição literária, a plasticidade da narrativa, os recursos da composição literária.

A oficina, aberta para o público em geral, procura motivar e dar as ferramentas para escrever histórias infantis.

Já orientei essa oficina em vários espaços, entre eles, no Centro Filosófico Delfos, e na Fundação Cultural de Curitiba (2004). O objetivo da oficina é orientar novos escritores, ajudá-los a compreender os mecanismos que tornam agradável uma história para crianças.

Também tive a oportunidade de publicar livros para o público infantil, entre eles Joana a Coruja Filósofa, pela editora Sophos, e a coleção Corujinha e os filósofos, pela editora Bolsa Nacional do Livro, de Curitiba.

A oficina iniciará 06 de junho, e terá duração de dois meses. Será ministrada no Solar do Rosário, no Largo da Ordem. Essa casa senhorial é um cartão postal da cidade, é uma casa assobradada de arquitetura eclética porque, como em todas as casas senhoriais do fim do século XIX , havia uma mistura de estilos: colonial português, francês, alemão, acrescido de características neoclássicas como o frontão com suas volutas curvas, janelas e sacadas.

O Solar do Rosário de propriedade de Regina Casillo foi inaugurado em maio de 1992, e hoje é um complexo cultural que possui Galeria de Arte, Livraria e Editora, Cursos, Oficinas, Antiquário, Molduraria, Restaurante, Casa de Chá e Jardim de Esculturas, além de ceder seus espaços para lançamento de livros e eventos de arte, música, teatro, performances e arte educação.

Os interessados na oficina Como Escrever livros para Crianças podem solicitar mais informações pelo fone (41) 3225-6232, ou pessoalmente na rua Duque de Caxias, 06, Largo da Ordem, Curitiba.

Fonte:
Isabel Furini. Croni-médias

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Ialmar Pio Schneider (Soneto a Nemézio Miranda de Meirelles) In Memoriam

Canoas perde um dos seus baluartes da Cultura cujo soneto abaixo compus pelo seu passamento, na idade avançada de 97 anos e meio, pois iria completar 98 em 19 de dezembro. Faleceu na madrugada de 16 de maio de 2011. Era meu amigo e companheiro de Literatura. Chegou a fundar uma Academia Canoense de Letras.

Velho amigo e confrade de poesia,
que após uma longeva e produtiva
existência, na madrugada fria,
desencarnou a sua imagem viva !…

“Sonetos e Sonatas” têm magia,
que demonstram uma alma sensitiva,
de nobre realidade e fantasia,
que hão de ficar, lembrança rediviva !

Foi Nemézio Miranda de Meirelles,
exemplo de Cultura e honestidade,
para a Literatura que o seduz…

Seus versos derradeiros são aqueles
que transmitem vivências, na saudade
de sua obra final “Raios da Luz”!

Fonte:
Texto enviado pelo autor

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Arquivado em homenagem, Soneto.

Nemézio Miranda de Meirelles (Livro de Sonetos)


INTROSPECÇÃO

A vida se me vai para o acaso
Mas prezo este ideal que a mim inflama:
O ideal que não tem espaço ou prazo
E queima em mim como agradável chama.

Não tenho este ideal por mero acaso,
Pois meu ser o cultiva e o proclama
E busca reduzir todo o atraso
De um tempo que se foi em vaga trama.

Não maldigo o castigo que redime,
Pois o bem que nos traz é tão sublime
Que a vida nos dá gosto de viver.

Sorrio por ter feito os bens que fiz
Lamento não ter feito os bens que quis
E ter custado tanto a me entender…

INGRATIDÃO

Raiava o dia e logo começava
A pobre mãe o seu penoso afã.
Na busca, para o filho a quem amava,
De um louro para os dias do amanhã.

E ele crescia enquanto ela minguava
Feliz, por nele ver o seu Tupã.
Pobre mãe! O destino reservava
Um triste pago à sua alma tão sã.

Ele hoje possui nome e fidalguia.
E ela pelo seu sonho e sacrifícios,
Doente, esmola o pão de cada dia.

Dos prazeres desfiando a alegre malha,
Ele esquece a mãe em meio aos vícios
E a justiça divina que não falha.

RUSGAS DE AMOR

Depois de tanto afago aprimorado,
Tantas promessas, beijos mil, abraços…
E de sonhos um mundo inacabado,
Azuis, bailando no éter dos espaços,

Não podia passar, apaixonado,
Sem o abraço divino dos teus braços.
Tu, por fugaz momento não pensado,
Não deixarias de seguir meus passos.

Tais rusgas, visão minha de altar mor,
Não fazem nosso amor muito maior:
Impossível se amar com mais ardor…

Ninguém querido como tu me queres.
Sinto-te a mais amada das mulheres.
Não há maior amor que o nosso amor.

ESPERANÇA

Adolescente ainda, eu te deixei um dia,
Tal forte condoreiro, o peito rico em sonhos…
Buscaria ventura – eu levava alegria
E um saco de ideais. Como eu ia risonho!…

E o tempo ia passando e a luta recrescia.
E hoje se às vezes só, o tudo recomponho
Vejo quanto lutei… Como a vida é sombria…
Se não fora tão forte eu cairia tristonho.

O saco de ideais quase completo ainda,
Mais difícil a vida, o corpo mais cansado,
E essa enorme esperança amiga que não finda.

Se por descuido digo às vezes deseolado:
Acho melhor parar… Ouço o peito bramir:
Zomba do teu passado! É lindo teu porvir.

DIAS VAZIOS

É um grande castigo imerecido,
Oito dias sem ter-te nos meus braços.
Sem a tua doce voz, de espaço a espaços.
Planja baixinho o termo de querido.

Meu pobre coração, triste e ferido,
Tem achado esses oito dias baços.
São saudades dos teus quentes abraços,
Do teu suave carinho estremecido.

Na distância através que nos separa,
sinto-me nos teus braços, em teu ninho,
Dando-me essa carícia que sonhara…

Contigo a sós e cheio de desejo,
Eu teço em teus ouvidos um carinho
E esmago teu sorriso com meu beijo.

ESTA MULHER

Esta mulher, meus senhores,
A rainha do meu lar,
É deusa dos meus amores,
É musa do meu sonhar.

É grande nos dissabores,
É grande no seu cantar,
Merece hinos e flores,
Merece sol e luar.

Pra sermos sempre felizes
Ela perdoa os deslizes
Com tal graça que encanta.

E pensativo eu contemplo,
O nosso lar como um templo,
E dentro dele uma santa.

CONSELHOS (Ao meu filho)

Filho adorado ! Surges para a luta,
Para essa luta que se chama vida.
Antes porém de começar escuta
A voz da experiência, adquirida

Por teu amigo e pai, que já labuta
Há cinco lustros, de alma enobrecida,
Bem alheio ao pesar que a alma enluta,
Sem blasfemar no mundo em grande lida.

Ama e respeita a Deus, eternamente,
Teus pais e mestres teus, respeita e ama,
Ama tua pátria e toda Humanidade.

Aos que errarem ensina a ser clemente,
Respeita a virgindade e a sã velhice,
Ama o saber, o bem, ama a verdade.

QUE MUNDO É ESTE?

Que mundo é este, de miséria e lama,
De tanta corrupção e tanto crime,
Que o homem ao mesmo homem oprime
Por instinto infernal, inglória fama?!

Que mundo é este que põe num mesmo time
E retrata por igual, na mesma gama,
A meretriz vulgar, a casta dama,
Lupanar que cai, templo que redime?!

Justas leis não têm soluções mágicas.
E por isso teremos horas trágicas
Quando chegar o dia do juízo.

Somento a volta a Deus, ao seu rebanho,
Transmutará toda derrota em ganho,
Males do inferno em bens do paraíso.

VERSO E REVERSO

A vida eu levava assim aos trambolhões,
Entre sonhos de amor, entre noites de orgia.
Acostumei a dar para minhas paixões,
Todo o grande esplendor de minha fantasia…

O perfume, a mulher, a música, os serões
E o retinir de taça eram minha alegria.
Por um prazer qualquer eu semeava ilusões,
Desenganos em troca era quanto colhia.

Por fim cansou-me um dia essa existência inglória,
E o passado esqueci, sem remorso e sem ais.
Soava ao longe um toque, um toque de vitória.

E dei tudo por ti, entre albores serenos…
Foste na minha vida uma ilusão a mais,
Que me viria dar quão desenganos menos.

RESSURREIÇÃO

Ressuscitar para a luz é o caminho
E voltar para o bem, seja quem fores.
Não programes solver o bem sozinho
Nem aos outros querer doar tuas dores.

Por mais que tenhas semeado espinho,
Tenhas haurido fétidos odores,
Ainda há tempo de trocar carinho,
De respirar o ar puro dos condores.

Vamos, dá-me tuas mãos, olvida o ontem.
Torna-te outro, não queiras que te contem
Onde chegaste após errar a trilha.

E se voltares um dia ao abismo,
Que seja por amor e altruísmo
Para levar alguém à luz que brilha.

BIFURCAÇÃO

E chegou-se a um profeta, de joelhos,
Um homem que se sentia amargurado.
E desatou pecado por pecado.
E o refletir atroz de seus espelhos.

– Que me dizes? Mudar quero meu fado.
Reclarear os meus olhos vermelhos.
Diz-lhe o profeta: – Vai. Estás mudado !
– Mas te relembro, à guisa de conselhos:

Se viveres no mal, foge ao acúmulo.
Na natureza há sempre vago um túmulo,
Pra todo aquele que descumpre a Lei.

Não condena o bem ao abandono.
Na natureza há sempre vago um trono,
Pra todo aquele que se faz um rei.

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Nemézio Miranda de Meirelles (1913 – 2011)


Natural de Salvador, Bahia, Nemézio Miranda de Meirelles nasceu em 19 de dezembro de 1913. Faleceu em 16 de Maio de 2011.

Aos 16 anos, foi revisor do Diário da Bahia, em Salvador. Aos 18, em 1932, foi para o Rio de Janeiro e, no ano seguinte, fazia parte de um grupo de jovens idealistas que fundou a edição “O Ideal”, no bairro Marechal Hermes.

Meirelles chegou em Canoas em 1935, transferido da Escola de Aviação Militar, sediada em Campo dos Afonsos, no Rio de janeiro.

Em 1953, formou-se em Odontologia pela UFRGS – Universidade do Rio Grande do Sul. Exerceu a profissão até 1965, em Porto Alegre e Canoas.

Casou-se com Filomene Nienow, com quem teve dois filhos: Flávio (1938 – 2000), e Ângela (1949).

Fundou “O Cruzeiro”, o primeiro jornal de Canoas.

Em 8 de agosto de 1985, recebeu da Câmara de Vereadores, por iniciativa do então vereador Ivo Lech, uma homenagem pelo cinqüentenário da imprensa canoense, sendo agraciado como Patrono da Imprensa.

Em 2001, foi patrono da 17ª Feira do Livro de Canoas. Meirelles foi agraciado com a Medalha Duque de Caxias pelo Exército Brasileiro e recebeu do Ministério da Aeronáutica Brasileira três condecorações: Medalha Santos Dumont, Cavaleiro da Ordem do Mérito e Membro Honorário.

O escritor presidia a Academia Canoense de Letras, a qual criou e é co-fundador da Associação Canoense de Comunicação Social.

Fundou e presidiu a liga Atlética Canoense, que dirigia o voleibol, o basquete e o atletismo.

Foi diretor do Interior da Federação Rio-Grandense de Futebol e diretor na Federação Atlética Rio-Grandense (Farg), cargo no qual desempenhou a missão de receber e acompanhar as delegações estrangeiras participantes do Campeonato Sul-Americano de Voleibol.

Como atleta, foi campeão de voleibol pelo Exército, no Nordeste (6º R.M.), campeão universitário gaúcho e campeão regional.

No basquete, foi campeão canoense muitas vezes e campeão regional.

No futebol foi campeão canoense vários anos.

Praticou capoeira, box, luta-livre e jiu-jitsu. Disputou provas de corrida de fundo, como a São Silvestre de 1932, pelo Botafogo carioca, como preparativo para as Olimpíadas de 1932, nos Estados Unidos.

A revolução paulista desfez o sonho e a aspiração de competir com os melhores do mundo. Além de dirigente e atleta, foi árbitro de futebol , voleibol e boxe, no Rio de Janeiro e em várias cidades do Rio Grande do Sul.

A Liga Canoense de Futebol concedeu-lhe o título de Presidente Benemérito, por unanimidade de votos, em reconhecimento ao seu trabalho em prol do esporte canoense.

Cidadão Canoense Honorário, Meirelles é o único remanescente dos que lutaram pela emancipação política de Canoas. Militar no ar e em terra, disciplinado e disciplinador, foi também suplente de deputado federal.

Escritor, pensador, palestrante e jornalista, contactou pessoalmente com importantes vultos e personalidades, como Ruy Barbosa, Santos Dumont, vários presidentes da República, Sacadura Cabral e Gago Coutinho (os primeiros aviadores a atravessar o Atlântico), além de testemunhar grandes fatos e acontecimentos da História do Brasil.

Publicou os livros “Sonetos e Sonatas” e “Raios da LuLinkz”, além de ser autor de inúmeros artigos em jornais e revistas do RGS e do Brasil.

Lançou o seu novo livro “Estrelas cadentes” durante a 24ª Feira do Livro de Canoas / 2008.

Fonte:
Casa do Poeta de Canoas.

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Cecília Meirelles (Antologia Poética II)


RUA DOS ROSTOS PERDIDOS

Este vento não leva apenas os chapéus,
estas plumas, estas sedas:
este vento leva todos os rostos,
muito mais depressa.

Nossas vozes já estao longe,
e como se pode conversar,
como podem conversar estes passantes
decapitados pelo vento?

Não, não podemos segurar o nosso rosto:
as mãos encontram o ar,
a sucessão das datas,
a sombra das fugas, impalpável.

Quando voltares por aqui,
saberás que teus olhos
não se fundiram em lagrimas, não,
mas em tempo.

De muito longe avisto a nossa passagem
nesta rua, nesta tarde, neste outono,
nesta cidade, neste mundo, neste dia.
(Não leias o nome da rua, – não leias!)

Conta as tuas historias de amor
como quem estivesse gravando,
vagaroso, um fiel diamante.
E tudo fosse eterno e imóvel.

CANÇÃO A CAMINHO DO CÉU

Foram montanhas? foram mares?
foram os números…? – não sei.
Por muitas coisas singulares,
não te encontrei

E te esperava, e te chamava,
e entre os caminhos me perdi.
Foi nuvem negra? maré brava?
E era por ti!

As mãos que trago, as mãos são estas.
Elas sozinhas te dirão
se vem de mortes ou de festas
meu coração.

Tal como sou, não te convido
a ires para onde eu for.

Tudo que tenho é haver sofrido
pelo meu sonho, alto e perdido,
– e o encantamento arrependido
do meu amor.

OS GATOS DA TINTURARIA

Os gatos brancos, descoloridos,
passeiam pela tinturaria,
miram policromos vestidos.

Com soberana melancolia,
brota nos seus olhos erguidos
o arco-íris, resumo do dia,

ressuscitando dos seus olvidos,
onde apagado cada um jazia,
abstratos lumes sucumbidos.

No vasto chão da tinturaria,
xadrez sem fim, por onde os ruídos
atropelam a geometria,

os grandes gatos abrem compridos
bocejos, na dispersão vazia
da voz feita para gemidos.

E assim proclamam a monarquia
da renúncia, e, tranqüilos vencidos,
dormem seu tempo de agonia.

Olham ainda para os vestidos,
mas baixam a pálpebra fria

O CANTEIRO ESTÁ MOLHADO

O canteiro está molhado.
Trarei flores do canteiro,
Para cobrir o teu sono.
Dorme, dorme, a chuva desce,
Molha as flores do canteiro.
Noite molhada de chuva,
Sem vento, nem ventania,
Noite de mar e lembranças…”

DEPOIS DO SOL

Fez-se noite com tal mistério,
Tão sem rumor, tão devagar,
Que o crepúsculo é como um luar
Iluminando um cemitério . . .

Tudo imóvel . . . Serenidades . . .
Que tristeza, nos sonhos meus!
E quanto choro e quanto adeus
Neste mar de infelicidades!

Oh! Paisagens minhas de antanho . . .
Velhas, velhas . . . Nem vivem mais . . .
— As nuvens passam desiguais,
Com sonolência de rebanho . . .

Seres e coisas vão-se embora . . .
E, na auréola triste do luar,
Anda a lua, tão devagar,
Que parece Nossa Senhora

Pelos silêncios a sonhar . . .

O MENINO AZUL

O menino quer um burrinho
para passear.
Um burrinho manso,
que não corra nem pule,
mas que saiba conversar.

O menino quer um burrinho
que saiba dizer
o nome dos rios,
das montanhas, das flores,
— de tudo o que aparecer.

O menino quer um burrinho
que saiba inventar histórias bonitas
com pessoas e bichos
e com barquinhos no mar.

E os dois sairão pelo mundo
que é como um jardim
apenas mais largo
e talvez mais comprido
e que não tenha fim.

(Quem souber de um burrinho desses,
pode escrever
para a Ruas das Casas,
Número das Portas,
ao Menino Azul que não sabe ler.)

SONHOS DA MENINA

A flor com que a menina sonha
está no sonho?
ou na fronha?

Sonho
risonho:

O vento sozinho
no seu carrinho.

De que tamanho
seria o rebanho?

A vizinha
apanha
a sombrinha
de teia de aranha . . .

Na lua há um ninho
de passarinho.

A lua com que a menina sonha
é o linho do sonho
ou a lua da fronha?

O CAVALINHO BRANCO

À tarde, o cavalinho branco
está muito cansado:

mas há um pedacinho do campo
onde é sempre feriado.

O cavalo sacode a crina
loura e comprida

e nas verdes ervas atira
sua branca vida.

Seu relincho estremece as raízes
e ele ensina aos ventos

a alegria de sentir livres
seus movimentos.

Trabalhou todo o dia, tanto!
desde a madrugada!

Descansa entre as flores, cavalinho branco,
de crina dourada!

LAMENTO DO OFICIAL POR SEU CAVALO MORTO

Nós merecemos a morte,
porque somos humanos
e a guerra é feita pelas nossas mãos,
pelo nossa cabeça embrulhada em séculos de sombra,
por nosso sangue estranho e instável, pelas ordens
que trazemos por dentro, e ficam sem explicação.

Criamos o fogo, a velocidade, a nova alquimia,
os cálculos do gesto,
embora sabendo que somos irmãos.
Temos até os átomos por cúmplices, e que pecados
de ciência, pelo mar, pelas nuvens, nos astros!
Que delírio sem Deus, nossa imaginação!

E aqui morreste! Oh, tua morte é a minha, que, enganada,
recebes. Não te queixas. Não pensas. Não sabes. Indigno,
ver parar, pelo meu, teu inofensivo coração.
Animal encantado – melhor que nós todos!
– que tinhas tu com este mundo
dos homens?

Aprendias a vida, plácida e pura, e entrelaçada
em carne e sonho, que os teus olhos decifravam…

Rei das planícies verdes, com rios trêmulos de relinchos…

Como vieste morrer por um que mata seus irmãos!

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Concurso Literário – Prêmio “Professor Mário Clímaco” – ALEPON


ACADEMIA DE LETRAS, CIÊNCIAS E ARTES DE PONTE NOVA- ALEPON

1º)- A Academia de Letras, Ciências e Artes de Ponte Nova- ALEPON, fará realizar o VI CONCURSO LITERÁRIO- Prêmio “ Prof. Mário Clímaco”, que constará de duas categorias- Poesia e Crônica, de âmbito estadual.

2°)- Podem concorrer pessoas de ambos os sexos, com a idade mínima de 15 anos completos até a data do encerramento das inscrições.(É vedada a participação dos membros da ALEPON).

3º)- As inscrições, gratuitas, estarão abertas a partir de 01/06/2011 e se encerrarão em 19/08/2011, valendo o carimbo do correio.

4°)- Nas duas categorias os trabalhos, com TEMA LIVRE, deverão ser de até 2(duas) páginas, em papel A4, fonte 12, Times New Roman ou Arial.

5°)- Para inscrever-se, basta que o concorrente envie até três trabalhos inéditos, de sua autoria, em cinco vias, datilografadas ou impressas em computador (não serão aceitos manuscritos),para a Academia de Letras, Ciências e Artes de Ponte Nova, na SEMCELT- Av. Caetano Marinho,91,-35430-001 ou Av. Dr. José Mariano, 118/201- Palmeiras-35430-228 ou ainda para Rua Presidente Antônio Carlos,136/03- Centro-35430-003, Ponte Nova (MG).

6°)- Será usado o sistema de envelopes: o maior, com o endereço da ALEPON e do remetente, conterá os trabalhos, com o pseudônimo do autor (o mesmo para cada trabalho) e o envelope menor, devidamente lacrado; o menor guardará a identidade do concorrente: nome, RG, CPF, endereço completo, telefone e data de nascimento (ou a declaração:Tenho mais de quinze anos de idade), além de data e assinatura.

7°)- Os vencedores receberão medalhas e diplomas. A critério da comissão julgadora poderão ser concedidas até 3 (três) menções honrosas. São irrecorríveis as decisões dos julgadores.

8°)- Os 10 (dez) primeiros classificados poderão ter seus trabalhos publicados no Informativo ALEPON ou na revista Guarapiranga News, publicação autorizada, automaticamente, com o ato da inscrição, sem direitos autorais, assim como os demais participantes.

9°)- Os membros da Comissão Julgadora serão designados pelo Presidente da ALEPON, anunciados somente na data da divulgação do concurso, uma vez que seus nomes ficarão em sigilo.

10°)-O resultado do Concurso será divulgado na Sessão Solene comemorativa do aniversário de Ponte Nova, no dia 28 de outubro de 2011(sexta-feira).

OBS.- Outras informações poderão ser obtidas pelos telefones: 3881-2754,3881-2663,3881-3455.

Fonte:
Wilma Quintiliano

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A. A. De Assis (O Dente Penhorado)


O distinto entrou numa fase de vento contra, perdeu tudo, ficou devendo a meio mundo, inclusive ao verdureiro. Uma nota comprida em tomate, alface, cenoura, a salada completa. Acontece que o verdureiro, homem pacato mas inimigo dessa coisa de levar cano, bateu pé firme. Encostou na parede o infeliz, a peixeira na mão, a voz enfezada: “Se o senhor não tem dinheiro, me pague com algum objeto… de mão vazia não volto”.

Nada havia a oferecer: a casa, o carro, os eletrodomésticos, os passarinhos com gaiola e tudo, os ternos, a bicicleta do filho, os outros credores já haviam levado. Mas o homem insistia: “Alguma coisa havera de ter sobrado… já sei… esse dente aí, esse dentão de ouro que o senhor tem na boca, levo ele, deve estar valendo pacas. Ou levo ou o senhor penhora ele e me paga o que deve”.

“Penhorar não dá – explicou o devedor – eu acho que ninguém aceita dente no prego. Que ideia mais estapafúrdia…”. O credor não quis saber de desculpa: “Se ninguém aceitar, eu aceito. Quando o senhor puder, me paga com juro, e aí então devolvo a joia”.

Era um dente de estimação, belo canino colocado nos bons tempos, adorno que lhe garantiu muitos sorrisos irresistíveis, um tesouro mesmo. Tudo, menos penhorar tal peça.

A peixeira brilhou, a voz do verdureiro cada vez mais medonha, era ceder ou ter a barriga furada. Mas como extrair o dente, se ele não tinha como pagar ao dentista? “Não tem mistério – emendou o credor – pago eu a conta ao doutor e debito em sua dívida. O ouro tá subindo de preço, deve cobrir tudo isso”.

Recibo passado, o homem levou a joia e um documento em que o devedor lhe dava autorização para vender o objeto empenhado, caso a dívida não fosse paga após seis meses.

Nesse meio tempo o devedor se encalacrou mais ainda, sumiu, dizem que se mandou para a Amazônia, sabe-se lá. Terminado o prazo, o verdureiro esperou mais algumas semanas, até que de repente começou a desfilar sorrindo mais que nunca. Achou melhor não vender o dente, seria um desperdício. Instalou a preciosidade na boca e se realizou.

Se algum dia você encontrar por aí um verdureiro ostentando vislumbroso dentão, pode ser que não seja o mesmo, mas também pode ser que seja. Por via das dúvidas, melhor pagar pontualmente as alfaces que dele comprar…

Fonte:
ASSIS, A. A. de. Vida, verso e prosa. Maringá: EDUEM, 2010.

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William Shakespeare (Depois de algum tempo)

“Depois de algum tempo você aprende a diferença, a sutil diferença, entre dar a mão e acorrentar uma alma. E você aprende que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança. E começa a aprender que beijos não são contratos e presentes não são promessas. E começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança.

E aprende a construir todas as suas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão.

Depois de um tempo você aprende que o sol queima se ficar exposto por muito tempo. E aprende que não importa o quanto você se importe, algumas pessoas simplesmente não se importam… E aceita que não importa quão boa seja uma pessoa, ela vai feri-lo de vez em quando e você precisa perdoa-la por isso. Aprende que falar pode aliviar dores emocionais.

Descobre que leva-se anos para construir confiança e apenas segundos para destruí-la, e que você pode fazer coisas em um instante, das quais se arrependerá pelo resto da vida.

Aprende que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distancias. E o que importa não é o que você tem na vida, mas quem você tem da vida. E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher.

Aprende que não temos que mudar de amigos se compreendermos que os amigos mudam, perceber que seu melhor amigo e você podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos. Descobre que as pessoas que você mais se importa na vida são tomadas de você muito depressa – por isso, sempre devemos deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas, pois pode ser a última vez que as vejamos.

Aprende que as circunstâncias e os ambientes tem influência sobre nós, mas nos somos responsáveis por nós mesmos. Começa a aprender que não se deve comparar com os outros, mas com o melhor que pode ser. Descobre que se leva muito tempo para se tornar a pessoa que quer ser, e que o tempo é curto.

Aprende que não importa aonde já chegou, mas onde está indo, mas se você não sabe para onde está indo, qualquer lugar serve.

Aprende que, ou você controla seus atos ou eles o controlarão, e que ser flexível não significa ser fraco ou não ter personalidade, pois não importa quão delicada e frágil seja uma situação, sempre existem dois lados.

Aprende que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as conseqüências.

Aprende que paciência requer muita prática. Descobre que algumas vezes, a pessoa que você espera que o chute quando você cai, é uma das poucas que o ajudam a levantar-se.

Aprende que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que se teve e o que você aprendeu com elas, do que com quantos aniversários você celebrou.

Aprende que há mais dos seus pais em você do que você supunha.

Aprende que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são bobagens, poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso.

Aprende que quando está com raiva tem o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel. Descobre que só porque alguém não o ama do jeito que você quer que ame, não significa que esse alguém não o ama com tudo o que pode, pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso.

Aprende que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes você tem que aprender a perdoar-se a si mesmo.

Aprende que com a mesma severidade com que julga, você será em algum momento condenado.

Aprende que não importa em quantos pedaços seu coração foi partido, o mundo não pára para que você o conserte.

Aprende que o tempo não é algo que possa voltar para trás. Portanto, plante seu jardim e decore sua alma, ao invés de esperar que alguém lhe traga flores.

E você aprende que realmente pode suportar… que realmente é forte, e que pode ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais. E que realmente a vida tem valor e que você tem valor diante da vida”!

“Nossas dádivas são traidoras e nos fazem perder o bem que poderíamos conquistar, se não fosse o medo de tentar”.

Fonte da Imagem:
http://anormal-anm.com/?p=3750

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas no. 225)


Uma Trova Nacional

A distância não me impede
de te querer e esperar…
porque o coração não mede
nada além do verbo amar!…
–MARISAVIEIRA OLIVAES/RS–

Uma Trova Potiguar

A musa chega e me inspira,
num delírio encantador…
Afina as cordas da lira
e enche o meu mundo de amor!
–PROF. GARCIA/RN–

Uma Trova Premiada

2000 – J.F. de Fortaleza/CE
Tema: FEITIÇO – 1º Lugar

Quem se vale da mentira
deve lembrar-se, primeiro,
que um dia o feitiço vira
contra o próprio feiticeiro!
–ANTONIO JURACI SIQUEIRA/PA–

Uma Trova de Ademar

Quando o destino é cruel
na vida de um pecador…
Seu pão tem gosto de fel,
feito com massas de dor!
–ADEMAR MACEDO/RN–

…E Suas Trovas Ficaram

O teu agrado me acorda,
o teu carinho me esquenta.
Sou um boneco de corda
que tua mão movimenta.
–ORLANDO BRITO/MA–

Simplesmente Poesia

Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.
-CECÍLIA MEIRELES/RJ-

Estrofe do Dia

Poesia é sentimento,
tudo que contem beleza,
os feitos da natureza
os pássaros, o firmamento
a chuva, a neblina, o vento
a maré, a maresia,
uma aragem branda e fria
sussurrando seus rumores;
são todos esses primores
os focos da poesia.
–ZÉ DE CAZUZA/PB–

Soneto do Dia

–RACHEL RABELO E GILMAR LEITE/PE–
Quimera

No meu sonho, deleite de prazer,
abraçada no teu verso moreno,
sinto o gosto vibrante do querer,
derramando os orvalhos no sereno.

Envolvido nas flores do viver
descobri no teu corpo acuçeno,
um perfume suave me aquecer
que deixou meu desejo bem ameno.

Quando acordo, voltando pra verdade,
vejo o sol mostrar a realidade:
nossos corpos distantes, separados.

Mas resta o navio do sentimento
onde os sonhos viajam como o vento
pra tornar os desejos atracados.

Fonte:
Textos enviados pelo Autor

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José Faria Nunes (A Confissão)


Mente em conflito, Jurandir caminha. Cabisbaixo, remoendo a dúvida, aproxima-se da igreja, ou melhor, do templo. Confessa ou não confessa?

Católico por tradição, busca sua igreja para harmonizar-se com seu interior.

Já na praça olha o templo que se abre acolhedor à sua frente com sua arquitetura barroca. Nem imagina que dois séculos passados, durante o governo do príncipe regente (a rainha perdera as condições de governar), fosse ali o local de evidência da elite de então, da nobreza de sangue azul e de títulos. Mais de títulos. Combinação perfeita de novos ricos em ascensão e uma nobreza esfacelada, maior parte permanecida em além mar, na velha Lisboa.
Sangue azul ou não, era a elite o centro das decisões políticas, econômicas e sociais. Dos tempos áureos restaram apenas os detalhes físicos do prédio e do mobiliário, dando ares de sobriedade, lembrança dos tempos em que as jovens com seus véus e vestes brancas entoavam cânticos ao som do órgão e as senhoras com véus pretos rezavam o terço, pois da missa em latim nada entendiam. Apenas a homilia ou o sermão eram na língua pátria.
Hoje os freqüentadores do templo são de classe média, de pobres e alguns até abaixo da linha de pobreza.

A nave da igreja vazia revela os novos tempos de uma comunidade onde os valores ganham novas significações. Por certo nos bares as mesas e cadeiras já invadem as calçadas e em alguns deles até as pistas de rolamento dos veículos.

Jurandir, homem que daqui a menos de dois anos entra na conta dos sexagenários, ajoelha-se no confessionário entalhado, ornado em ouro, assim como o altar e o teto do templo. Do outro lado da treliça do confessionário o confessor mal ouve o seu ato de contrição. Lê o Missal para, logo mais, mais uma missa celebrar.

– Quanto tempo faz que não confessa? – Pergunta o padre, ao interromper a leitura.

– Nem sei, padre. Faz muito tempo. – Responde Jurandir, modos desajeitados, peixe fora do aquário, muito tempo fora da igreja.

– Tudo bem. Conta seus pecados. – Diz o padre voltando a atenção para o missal.

– Pois é, padre. Eu, que cheguei a esbravejar a igreja quando jovem e até a negar a proficiência da fé, estou arrependido. Muito erro fiz. Erro, inclusive, de interpretação de textos da bíblia, a exemplo dos referentes ao matrimônio. Explico melhor. Nos Evangelhos, onde se diz que o homem é a cabeça da mulher, eu entendia que a ele caberia administrar a sociedade conjugal. Onde diz que a mulher deve ser submissa ao marido, eu entendia submissão como no dicionário: “ato ou efeito de submeter-se”; ou então “disposição para aceitar a dependência”. Isso conforme o Aurélio, que acrescenta no termo submisso: “que se submete ou se sujeita”; “obediência, humildade, respeito”. Enquanto isso, ao homem caberia amar a mulher, sacrificar-se nos trabalhos mais duros, se necessário, mas com a prerrogativa dos dizeres bíblicos. Hoje sei de meu equívoco ao interpretar referidos textos e venho confessar meu erro. Admito que tenha entendido tudo às avessas. Não quanto nas responsabilidades dos homens, ou até mesmo nestas. Além de provedor deve também o homem ombrear-se nas tarefas domésticas, ajudar a mulher nas atribuições que antes pensava eu que não fossem responsabilidade do homem. Errei mais uma vez. Errei quando não aceitei que aquela que me foi declarada esposa, nos termos do texto bíblico fizesse o contrário. A mim caberia também o dever de obediência a ela, de submissão, de aceitar suas ordens e imposições, seu direito de falar e o meu dever de apenas ouvi-la. Ouvi-la e atender a sua vontade, ampla, geral e irrestrita. Errei, padre, pois resisti e não a obedecia em tudo. Errei quando pensei que eu, de acordo com o texto bíblico com a interpretação dos dicionários, poderia ter autonomia de locomoção, de livre arbítrio, de decisão em meus negócios, de agir como sujeito. Mas a realidade é outra, não é, padre? Ainda bem que o senhor não se casou. Já pensou o senhor ter que perder sua autonomia até de pensar ou de falar? Nem de escrever ou ler? Já nem digo de fazer, de agir. A mulher é quem pode, ao homem cabe obedecer. Sabe qual o verbo que ela mais aprecia? O impositivo verbo ter: você tem que… isso, tem que… aquilo, etc. e tal. E eu só percebi que estava errado quando entendi melhor a pregação religiosa. Os padres, os diáconos, os pastores, têm apresentado interpretações diferentes para aqueles dizeres bíblicos. Os dicionários bíblicos, por certo, têm conceituações diferentes das dos dicionários de sinônimos, não é, padre? Para a bíblia submissão tem outro sentido, não é? Ser cabeça do casal, conforme a bíblia, quer dizer diferentemente do que eu entendia, não é? Pelo menos de uns tempos para cá, não é? Por tudo isso é que estou arrependido, padre, e estou aqui para confessar meus pecados.

Pecados de entender errado a bíblia e agir de acordo com o que eu entendia antigamente. Mas agora é diferente, padre. Eu sei que estava errado e quero me redimir. Venho pedir perdão por todos os meus pecados. E para terminar, padre, considerando que eu sou fraco e não vou dar conta de seguir a bíblia de acordo com as novas regras que agora sei que são as corretas, preciso de uma nova postura de vida. Não quero mais desobedecer as ordens, as diretrizes, o comando daquela com quem me casei. E como não dou conta de cumprir esses mandamentos bíblicos de submissão e obediência, agora conforme os dicionários, decidi: para não mais errar ou para errar menos, só tenho um caminho, padre: o divórcio.
Agora pode ditar a penitência que devo fazer, padre. Por tudo isso, peço perdão.

Jurandir percebe que o padre caiu em sono profundo, certamente pela desimportância de sua confissão.

Levanta-se com cautela, olha a igreja agora quase cheia, caminha contrito para ajoelhar-se diante do altar. Começa a rezar o terço, penitência que julga compatível com os tantos pecados confessos. O padre determinaria penitência menor?

Na parede de acesso ao confessionário, uma fila de fiéis que aguardam para se confessar.

Fonte:
Texto enviado pelo autor

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Antonio Manoel Abreu Sardenberg (Poetas de Ontem e de Hoje I)


Apresentamos neste projeto os seguintes Poetas de Ontem e de Hoje:

Poetas de ontem

Vicente de Carvalho
Hermes Fontes
Humberto de Campos
Olegário Mariano
Paulo Setúbal

Poetas de Hoje

Antonio Manoel Abreu Sardenberg
Maria Nascimento Santos Carvalho
Theca Angel
Maria Luiza Bonini
Amilton Monteiro Maciel
Professor Garcia
Diamantino Ferreira

Felicidade
VICENTE DE CARVALHO
1866 – 1924

Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada:
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa, que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim : mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.

Biografia
Vicente de Carvalho (V. Augusto de C.), advogado, jornalista, político, magistrado, poeta e contista, nasceu em Santos, SP, em 5 de abril de 1866, e faleceu em São Paulo, SP, em 22 de abril de 1924. Eleito em 1o de maio de 1909 para a Cadeira n. 29, na sucessão de Artur Azevedo, foi recebido na sessão de 7 de maio de 1910, por carta.

Era filho do major Higino José Botelho de Carvalho e de Augusta Bueno Botelho de Carvalho. Fez o primário na cidade natal e, aos 12 anos, seguiu para São Paulo, matriculando-se no Colégio Mamede e, depois, no Seminário Episcopal e no Colégio Norton, onde fez os preparatórios. Aos 16 anos matriculou-se na Faculdade de Direito. Em 1886, com 20 anos, era bacharel em Direito. Republicano combativo, cursava ainda o 4o ano quando foi eleito membro do Diretório Republicano de Santos. Em 1887, era delegado a Congresso Republicano, reunido em São Paulo. Em 1891, era deputado ao Congresso Constituinte do Estado. Em 1892, na organização do primeiro governo constitucional do Estado, foi escolhido para a Secretaria do Interior. Por ocasião do golpe de estado de Deodoro, abandonou o cargo que vinha exercendo. Mudou-se, então, para Franca, município do interior paulista, e tornou-se fazendeiro. Em 1901, regressou a Santos, dedicando-se à advocacia. Em 1907, mudou-se para São Paulo, onde foi nomeado juiz de direito. Em 1914, passou a ministro do Tribunal da Justiça do Estado.

Vicente de Carvalho foi, durante toda a sua vida, um jornalista combativo. Até 1915, sua atuação na imprensa foi quase ininterrupta. Em 1889, era redator do Diário de Santos, fundando, no mesmo ano, o Diário da Manhã, de Santos. Ali manteve ainda colaboração em A Tribuna e fundou, em 1905, O Jornal. Até 1913 colaborou no Estado de S. Paulo. No fim da vida, cansou-se do jornalismo, mas continuou em contato com seus leitores através dos versos que publicava nas páginas de A Cigarra.

Poeta lírico, ligou-se desde o início ao grupo de jovens poetas de tendência parnasiana. Foi grande artista do verso, da fase criadora do Parnasianismo. Da sua produção poética ele próprio destacou poemas que são de extrema beleza, como: “Palavras ao mar”, “Cantigas praianas”, “A ternura do mar”, “Fugindo ao cativeiro”, “Rosa, rosa de amor”, “Velho tema”, “O pequenino morto”.

Obras: Ardentias (1885); Relicário (1888); Rosa, rosa de amor (1902); Poemas e canções (1908); Versos da mocidade (1909); Verso e prosa, incluindo o conto “Selvagem” (1909); Páginas soltas (1911); A voz dos sinos (1916); Luizinha, contos (1924); discursos e obras políticas e jurídicas.


Solenemente
HERMES FONTES
1888 – 1948

Juro por tudo quanto é jura…Juro,
Por mim, por ti, por nós…por Jesus Cristo,
Que hei de esquecer-te! Vê-me …Estou seguro
Contra teu sólio cuja dor assisto.

E visto que dúvidas tanto…visto
Que ris do que é solene, te asseguro,
Juro mais: pelo ser em que consisto!
Por meu passado! Pelo teu futuro!

Juro pela Mãe Virgem Concebida!
Pelas venturas de que vou ao encalço!
Por minha vida…Pela tua vida!

Juro por tudo que mais amo e exalço:
E depois de uma jura tão comprida
Juro…Juro qu’estou jurando falso!…

Biografia
Hermes Fontes, compositor e poeta, nasceu em Buquim SE, em 28/8/1888 e faleceu no Rio de Janeiro RJ, em 25/12/1930. Filho de lavradores, formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais no Rio de Janeiro, para onde se mudou com a ajuda do governador da Província de Sergipe. Foi oficial de gabinete do Ministério da Viação durante o governo de Washington Luiz. Suicidou-se no Rio de Janeiro.

Em 1908, publicou Apoteoses, sua primeira obra poética. Em 1913 publicou Gênese, seu segundo livro de poesias. No mesmo ano, teve gravada pelo cantor Roberto Roldan, na Odeon, a modinha Constelações, parceria com Cupertino de Menezes. Colaborou com o jornal “O Fluminense”, de Niterói (RJ), e mais tarde fundou o jornal “A Estréia”, trabalhando ao mesmo tempo nos Correios e Telégrafos.

Em 1922, o cantor Baiano lançou na Odeon, o fado-tango Luar de Paquetá, composta dois anos antes, em parceria com Freire Júnior e que alcançou enorme sucesso, tornando-se no ano seguinte, título de uma revista que logrou mais de uma centena de apresentações. Regravada várias vezes, entre outros por Francisco Alves, logrou repetir o sucesso em 1944, quando foi regravada em dueto por Dircinha Batista e Déo, com acompanhamento de orquestra e coro.

Publicou ainda os livros de poesias Ciclo da perfeição, Mundo em chamas, Miragem do deserto, Epopéia da vida, Microcosmo, Despertar, A lâmpada velada e A fonte da mata.

Tu…
HUMBERTO DE CAMPOS
1886 – 1934

Quando alguém me pergunta, por ventura,
Quem me faz de outros tempos diferente,
Pensas tu que teu nome se murmura,
Que o exponho à ânsia voraz de toda gente?

Não; digo apenas o seguinte: é pura,
Casta, simples e meiga: é uma dolente
Cauta rola de tímida candura,
Flor que menos se vê do que se sente.

Mimo de graça e de singeleza;
Clara estrela arrancada a um céu profundo:
Doce apoteose da Delicadeza…

Nesse ponto, de súbito, me calo;
E, sem dizer teu nome, todo mundo
Fica logo sabendo de quem falo!

Biografia
Nasceu Humberto de Campos em Miritiba, Maranhão, em 25.10.1886, filho de Joaquim Veras e Anna de Campos. Em 1910, publica seu primeiro livro de poesias, “Poeira”, ao qual se seguiram mais dois, que, em 1933, são agrupados num só volume sob o nome de “Poesias Completas”.

Em 1918, publica seu primeiro livro de prosa “Seara de Booz”, constituído de pequenos artigos escritos entre 1915 e 1916, sob o pseudônimo de Micromegas.

A este se seguiram, entre outros, Mealheiro de Agripa, Crítica ( em 4 volumes), Carvalho e Roseiras, Sombras que sofrem, Os Párias, Destinos, Memórias, Memórias Inacabadas, O Monstro e outros contos, Sepultando os meus mortos, Lagartas e Libélulas, À sombra das tamareiras e Notas de um diarista..

Humberto de Campos, sob o pseudônimo de “Conselheiro X.X.”, exerceu a chamada literatura fescenina.

Em 1919, entra para a Academia Brasileira de Letras. Trabalhou em vários jornais, tais como “O correio da manhã”, “O Diário Carioca”, “A Noite” e “O Jornal” Em 1926 foi eleito deputado federal pelo Estado do Maranhão, sendo reeleito em 1926. Com a revolução de 1930, perde o mandato. Ë nomeado pelo Governo Provisório, instalado no país, Inspetor de ensino federal e é feito Diretor interino da Casa de Rui Barbosa.

Sempre teve uma saúde frágil e em 1928, é diagnosticado o seu mal, Hipertrofia da hipófise, doença progressiva que o acompanhará até seu falecimento.

“Dele, seu biógrafo Macário de Lemos Picanço diz o seguinte: “Poeta, anedotista, contista, ensaísta, cronista, autobiografista, a obra literária de Humberto de Campos apresenta altos e baixos, mas o que é alto tem a claridade da luz e a simplicidade das almas sãs. Possuidor de estilo fácil, corrente, sem as frases empoladas, qualquer pessoa podia compreendê-lo.

Não tinha artifícios, não tinha preocupação de retumbância. Ao contrário, escrevia com a maior naturalidade e as fantasias, as imagens, as expressões poéticas lhe vinham sem esforço. Faleceu em 5.12.1934, aos 48 anos de idade.

Você nunca está só
OLEGÁRIO MARIANO
1889 – 1958

Você nunca está só. Sempre a seu lado
Há um pouquinho de mim pairando no ar.
Você bem sabe: o pensamento é alado…
Voa como uma abelha sem parar.

Veja: caiu a tarde transparente.
A luz do dia se esvaiu… Morreu.
Uma sombra alongou-se a seus pés mansamente…
Esta sombra sou eu.

O vento ao pôr do sol, num balanço de rede,
Agita o ramo e o ramo um traço descreu.
Este gesto do ramo na parede
Não é do ramo: é meu.

Se uma fonte a correr, chora de mágoa
No silêncio da mata, esquecida de nós,
Preste bem atenção nesta cantiga da água:
A voz da fonte é a minha voz.

Se no momento em que a saudade se insinua
Você nos olhos uma gota pressentiu,
Esta lágrima, juro, não é sua…
Foi dos meus olhos que caiu…

Biografia
Olegário Mariano (O. M. Carneiro da Cunha), poeta, político e diplomata, nasceu em Recife, PE, em 24 de março de 1889, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 28 de novembro de 1958.

Era filho de José Mariano Carneiro da Cunha, herói pernambucano da Abolição e da República, e de Olegária Carneiro da Cunha. Fez o primário e o secundário no Colégio Pestalozzi, na cidade natal, e cedo se transferiu para o Rio de Janeiro. Freqüentou a roda literária de Olavo Bilac, Guimarães Passos, Emílio de Meneses, Coelho Neto, Martins Fontes e outros. Estreou na vida literária aos 22 anos com o volume Angelus, em 1911. Sua poesia falava de neblinas, de cismas e de sofrimentos, perfeitamente identificada com os preceitos do Simbolismo, já em declínio.

Foi inspetor do ensino secundário e censor de teatro. Representou o Brasil, em 1918, como secretário de embaixada à Bolívia, na Missão Melo Franco. Foi deputado à Assembléia Constituinte que elaborou a Carta de 1934. Em 1937, ocupou uma cadeira na Câmara dos Deputados. Foi ministro plenipotenciário nos Centenários de Portugal, em 1940; delegado da Academia Brasileira na Conferência Interacadêmica de Lisboa para o Acordo Ortográfico de 1945; embaixador do Brasil em Portugal em 1953-54. Exerceu o cargo de oficial do 4o Ofício de Registro de Imóveis, no Rio de Janeiro, tendo sido antes tabelião de Notas.

Em concurso promovido pela revista Fon-Fon, em 1938, Olegário Mariano foi eleito, pelos intelectuais de todo o Brasil, Príncipe dos Poetas Brasileiros, em substituição a Alberto de Oliveira, detentor do título depois da morte de Olavo Bilac o primeiro a obtê-lo.

Além da obra poética iniciada em livro em 1911, e enfeixada nos dois volumes de Toda uma vida de poesia (1957), publicados pela José Olympio, Olegário Mariano publicou durante anos, nas revistas Careta e Para Todos, sob o pseudônimo de João da Avenida, uma seção de crônicas mundanas em versos humorísticos, mais tarde reunidas em dois livros: Bataclan e Vida Caixa de brinquedos.

Sua poesia lírica é simples, correntia, de fundo romântico, pertinente à fase do sincretismo parnasiano-simbolista de transição para o Modernismo. Ficou conhecido como o “poeta das cigarras”, por causa de um de seus temas prediletos.

Só tu
PAULO SETÚBAL
1893 – 1937

Dos lábios que me beijaram,
Dos braços que me abraçaram
Já não me lembro, nem sei…
São tantas as que me amaram!
São tantas as que eu amei!

Mas tu – que rude contraste!
Tu, que jamais me beijaste,
Tu que jamais abracei,
Só tu, nest’alma, ficaste,
De todas as que eu amei.

Biografia
Paulo Setúbal (P. S. de Oliveira), advogado, jornalista, ensaísta, poeta e romancista, nasceu em Tatuí, SP, em 10 de janeiro de 1893, e faleceu em São Paulo, SP, e, 4 de maio de 1937. Eleito em 6 de dezembro de 1934, sucedendo a João Ribeiro, foi recebido em 27 de julho de 1935, pelo acadêmico Alcântara Machado. Órfão de pai aos quatro anos, sua mãe cuidou sozinha de nove filhos pequenos. Ela colocou o pequeno Paulo como interno no colégio do seu Chico Pereira e começou a trabalhar para viver e sustentar os filhos. Transferindo-se com a família para São Paulo, o adolescente Paulo entrou para o Ginásio Nossa Senhora do Carmo, dos irmãos maristas, onde estudou durante seis anos. Aí começou o interesse pela literatura e pela filosofia. Leu Kant, Spinoza, Rousseau, Schopenhauer, Voltaire e Nietzsche. Na literatura, influenciou-o sobretudo a leitura de Guerra Junqueiro e Antero de Quental. Muitas passagens do seu primeiro livro de poesias, Alma cabocla, lembram a Musa em férias de Guerra Junqueiro.

Esse período de sua vida é de franco e desenfreado ateísmo. Fez o curso de Direito em São Paulo. Ainda freqüentava o 2o ano quando decidiu fazer-se jornalista. Era a época da campanha civilista quando foi procurar emprego no diário A Tarde. Lá ingressou como revisor; logo a seguir, a publicação de uma de suas poesias naquele jornal deu-lhe notoriedade imediata, e ele ganhou sua primeira coluna como redator. Já nessa época começava a sentir os sinais da tuberculose que iria obrigá-lo a freqüentes interrupções no trabalho, para repouso.

Concluído o curso de Direito em 1915, iniciou carreira na advocacia em São Paulo. Em 1918, devido à gripe espanhola, Paulo Setúbal partiu para Lages, em Santa Catarina, onde morava o irmão mais velho, e lá tornou-se um advogado bem-sucedido. Levava, porém, uma vida dissoluta, às voltas com mulheres e com o jogo. Cansado de tudo, voltou para São Paulo, e também lá se estabeleceu como advogado.

Iniciou-se, então, a principal fase de sua produção literária, que o levaria a ser o escritor mais lido do país. Destaca-se, especialmente, pelo gênero do romance histórico, com A marquesa de Santos (1925) e O príncipe de Nassau (1926). Sabia como romancear os fatos do passado, tornando-os vivos e agradáveis à leitura. Os sucessivos livros que escreveu sobre o ciclo das bandeiras, a começar com O ouro de Cuiabá (1933) até O sonho das esmeraldas (1935), tinham o sentido social de levantar o orgulho do povo bandeirante na fase pós-Revolução constitucionalista (1932) em São Paulo, trazendo o passado em socorro do presente.

Em 1935, Paulo Setúbal chegou ao apogeu, sendo consagrado pela Academia Brasileira de Letras. Mas, nesse mesmo 1935 ele ingressa em nova fase da crise espiritual que vinha de longe e que terá repercussão em sua literatura. O temperamento sociável, expansivo e alegre; o freqüentador de festas e reuniões dava lugar ao homem introspectivo, vivendo apenas cercado da família e dos amigos mais próximos. Aos problemas crônicos de saúde acrescentava-se a minagem psicológica ocasionada pela desilusão com os rumos da política e consigo mesmo. Entrou a freqüentar fervorosamente a igreja da Imaculada Conceição, perto de sua residência em São Paulo, e a ler a Bíblia e livros como a Psicologia da fé e A imitação de Cristo. É quando escreve o Confíteor, livro de memórias, a narrativa de sua conversão, que ficou inacabado.

Obras: Alma cabocla, poesia (1920); A marquesa de Santos, romance-histórico (1925); O príncipe de Nassau, romance histórico (1926); As maluquices do Imperador, contos-históricos (1927); Nos bastidores da história, contos (1928); O ouro de Cuiabá, história (1933); Os irmãos Leme, romance (1933); El-dorado, história (1934); O romance da prata, história (1935); A fé na formação da nacionalidade, ensaio (1936); Confíteor, memórias (1937).

Alucinação
ANTONIO MANOEL ABREU SARDENBERG
São Fidélis “Cidade Poema”

Tentei em vão suavizar a vida,
Tornar mais leve o fardo tão pesado,
Fazer da volta o ponto de partida,
Buscar na ida o amor tão cobiçado!

Eu quis fazer da pauta a partitura
De um canto leve, doce e tão suave,
Cantar a vida com toda a ternura,
Voar em sonhos como uma ave!

Eu quis da luz o raio de esperança
Mas, por castigo, só me veio a treva.
Não me atrevo e guardo na lembrança
O que a serpente aprontou pra Eva…

E desse jeito fico aqui quietinho,
No meu cantinho, bem acompanhado,
Pois não será por falta de carinho
Que comerei a fruta do pecado!

Nunca mais
MARIA NASCIMENTO SANTOS CARVALHO
Rio de Janeiro

Não sei de onde é que vem tanta ansiedade
e essa angústia que me comprime o peito,
torturando, porque, na realidade,
nem de pensar em ti, tenho o direito.

E, como todo o ser mais que imperfeito,
que não doma os caprichos da vontade,
eu luto, mas sequer encontro um jeito
de me livrar das garras da saudade…

Bem sei que não entrei na tua vida,
e, mesmo tendo sido preterida,
meu amor floresceu, criou raiz…

Mas fui punida com severidade,
porque deixaste em mim tanta saudade
que nunca mais eu pude ser feliz!

Noite…quem dera…
THECA ANGEL

Quem dera meu amor
A noite chegando, trouxesse
Um pouco que fosse de teu perfume
Uma centelha de teu olhar
O som inebriante de teus sussurros
A ilusão de teu toque em minha pele…
Quem dera ela tudo isso substituísse…
E trouxesse você no embalo de sua luz…
Te fizesse presente em mim
Com a volúpia de teu ardor…
Quem dera fosse realidade
E não uma projeção desta saudade

Finjas tristeza, poeta!
MARIA LUIZA BONINI

Ao fingires a dor que, deveras, sentes
Estás revigorando a força do poeta
Se saudares a alegria, por de certo, mentes
No intento de dissimular a dor secreta

Ao fingires a dor que, deveras, sentes
À inspiração que está em ti, despertas
Alimentando o amar que há em ti, latente
Para que a tristeza e a dor fiquem alertas

Ao fingires a dor que, deveras, sentes
Abortas de dentro de ti toda a tristeza
Passas a alimentar da alegria toda beleza

Ao fingires a dor que, deveras, sentes
Asperges ao mundo um cantar tocante e uno
Eleva-nos a devaneios por misteriosos rumos

O sabiá
AMILTON MACIEL MONTEIRO
São José dos Campos/SP

Em minha casa tem um sabiá
Que canta sempre, desde manhãzinha,
Escondido em um lindo jatobá
Que fica logo atrás de minha cozinha.

Nem os gritos do forte carcará,
À cata de indefesa andorinha,
Na luta para ver quem vencerá,
Sobrepujam essa minha avezinha!

O seu cantar anima a minha vida,
Que vai chegando ao fim de sua corrida,
Pois apesar de triste, é uma doçura…

E consegue alegrar os dias meus!
Creio até que seu canto de ternura
Não mereço, mas ganho de meu Deus!

Sentimento
PROF. GARCIA
Caicó/RN

Quando o dia se apressa e vai embora,
num silêncio que fere e que angustia,
a tristeza me invade e me devora,
nas horas sepulcrais, do fim do dia.

Como quem diz adeus e triste chora,
vai-se o sol delirando de agonia,
e a cortina da noite, Deus decora,
com luz tênue, de vã melancolia.

Distante, bem distante, muito além,
a tristeza me acena, como quem
se despede de alguém, que já morreu,

foi apenas a luz de um dia lindo,
que cansada, acenou quase dormindo
e nos braços da noite adormeceu!

Luz
DIAMANTINO FERREIRA
Rio de J
aneiro

Como caminha um cego e de bengala
apalpa seu trajeto, não cair,
arrasto-me na vida e nem se fala
de quantos tombos mais estão por vir;

apesar do infortúnio, é prosseguir
e na estrada da vida, qual na sala,
palmilhar como sempre; e no porvir
eu não perca a esperança de encontrá-la!

Nasci feliz, aluz dentro dos olhos;
mas cresci, tropeçando nos escolhos,
chegados tão somente por te amar!

Perdida a vista, mas…Pior castigo:
nem a esperança de trazer comigo
o sonho de voltar a te enxergar!

Fonte:
Textos enviados pelo Autor

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Monteiro Lobato (Histórias de Tia Nastácia) XXXVII – O Jabuti e os Sapinhos


Andando a filha da onça muito namorada pelo lagarto e pelo homem, que desejavam desposá-la, o jabuti jurou que havia de vencer aos dois. Pensou um plano. “Achei, achei!” — disse de repente.

Foi a uma aguada e pegou um punhado de sapinhos, que soltou no bebedouro, com ordem, quando qualquer bicho viesse beber, de cantar uma coisa assim:

Turi, turi…
Quebrar-lhe as pernas…
Furar-lhe os olhos…
Justificar
E recomendou:

— Mas se eu aparecer com a minha gaita vocês ficam logo caladinhos, ouviram?

Logo depois apareceu o macaco, que vinha beber. Ao ouvir a cantiga da água, deu um pulo de medo e sumiu-se.

Outros bichos vieram, acontecendo a mesma coisa.

Veio o lagarto — e fugiu no galope.

Veio o homem — e fugiu fazendo o pelo-sinal.

Faltava só o jabuti. Foram buscá-lo.

— Pois vou, porque não tenho medo nenhum, mas quero que todos os animais me acompanhem de perto.

A bicharia toda o seguiu. Quando chegou em certo ponto, disse o jabuti:

— Bem, agora vocês parem. Eu vou só. Aproximou-se do bebedouro e deu um toque de gaita. Os sapinhos emudeceram como peixes.

O jabuti bebeu sossegadamente e foi ter com os animais, que estavam assombrados de tanta valentia. A onça, muito alegre, deu-lhe a filha em casamento.
=================
— O que achei mais graça — disse Narizinho — foi aparecer um homem disputando com o jabuti a mão da filha da onça.

— E mesmo assim, mesmo em luta com o rei dos animais — observou Pedrinho — foi o cágado quem venceu. Isso mostra que os índios punham o jabuti até acima do homem, em matéria de esperteza.

— Que pena não termos um cágado aqui! — suspirou a menina. — Gosto cada vez mais desse bichinho.

— E é gostoso mesmo — disse tia Nastácia. — Ensopado, com bastante tempero e um bom pirão de farinha de mandioca, é gostoso da gente comer e lamber as unhas.

Emília fulminou-a com os olhos.

— E agora? — perguntou Narizinho. — Ainda sabe mais alguma coisa do jabuti?

— Arre, menina. Que tanto quer? — respondeu a preta. — Não sei mais nada, não. Chega. Tenho de ir cuidar do jantar. Até logo.

— Então vovó que conte mais algumas. Dona Benta respondeu:

— Eu sei centenas de histórias. O difícil está na escolha. Sei histórias do folclore de todos os países.

— Então conte uma do folclore da Índia! — pediu o menino. — Da índia, não. Da China — pediu Narizinho.

— Da China, não. Do Cáucaso — pediu a boneca, que andava com mania de coisas russas.

E dona Benta contou uma história do folclore do Cáucaso.
–––––––––––––
Continua… XXXVIII – A Raposa Faminta
–––––––––––––-
Fonte:
LOBATO, Monteiro. Histórias de Tia Nastácia. SP: Brasiliense, 1995.
Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n.224)


Uma Trova Nacional

As almas bem verdadeiras,
como rosas nos caminhos,
devem ser como as roseiras:
não escondem seus espinhos.
–CIDINHA FRIGERI/PR–

Uma Trova Potiguar

Quero ter você comigo
no sonho que nos encanta
um amor que seja amigo
numa canção que acalanta.
–ARTHUNIO MAUX/RN–

Uma Trova Premiada

2007 – Bandeirantes/PR
Tema: ENCANTO – M/E

Quando é longa e dura a estrada,
nós sempre aprendemos tanto,
que as conquistas, na chegada,
têm sempre o dobro do encanto.
–OLGA AGULHON/PR–

Uma Trova de Ademar

A saudade na pessoa,
faz ela ficar doente;
quando germina, magoa
e fere o peito da gente!
–ADEMAR MACEDO/RN–

…E Suas Trovas Ficaram

Quatro versos num estojo,
mas além desta embalagem,
a trova, deve em seu bojo,
comportar uma mensagem.
–MIGUEL RUSSOWSKY/SC–

Simplesmente Poesia

–GISLAINE CANALES/SC–
Madrugada

A madrugada
é minha amiga.
Está sempre comigo,
na alegria
e na dor.
Está comigo,
se estou feliz
com meu amor.
Está comigo,
quando a solidão
toma conta
do meu coração.

Estrofe do Dia

Poesia é a minha paz,
meu mundo, meu universo;
um mar de sabedoria
onde eu vivo submerso;
é minha alimentação,
é meu sustento, é meu pão
feito de rima e de verso…
–ADEMAR MACEDO/RN–

Soneto do Dia

–CARMO VASCONCELOS/PT–
Paz ao Mundo

Jamais se alcança a paz entre o tumulto
Do egoísmo em desmedida proporção,
Qual ópio que embebeda o coração
E doa à mente errada falso indulto.

A paz é agasalho dado ao imo,
Oferta da tranquila consciência,
Quando usa a plena ação, sem contundência,
E do amor faz bordão de fiel arrimo.

Ausente a paz, soçobram as nações,
Esmorecem as almas em martírio,
E sucumbem os corpos em delírio!

Livremo-nos de fúteis ambições;
Supremacias vãs – solo infecundo…
E pintemos de Paz o Mapa-Mundo!

Fonte:
Textos enviados pelo Autor

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Concursos de Trovas Com Inscrições A Se Encerrarem Em Breve


Jogos Florais da Academia de Letras e Artes de Cambuci – 2011

Tema Livre – Uma Única Trova.

Prazo: Até 31 De Maio De 2011.

Premiação: 24 De Setembro De 2011.

Troféu, Diploma, Hospedagem E Passeio Turístico.

Enviar Para:
Almir Pinto De Azevedo
Praça Da Bandeira, 79
Cep: 28.430–000- Cambuci /RJ.

Sistema de Envelopes

Outras Informações:
TEL.: (0XX) 22. 2767.2010 – e – mail: informativoalac@ig.com.br.
=================
XLI JOGOS FLORAIS DE NITERÓI – 2011

TEMAS (valendo palavras derivadas):

MEMÓRIA = para trovadores de todo o Brasil (exceto RJ) e demais países de língua portuguesa.

RANCHO = para residentes no Estado do Rio de Janeiro.

OBSERVAÇÕES:
1ª) Não valem rimas imperfeitas.
2ª) Máximo de 03 (três) trovas líricas ou filosóficas por concorrente, datilogradas/digitadas ou em letras de imprensa, na face de pequenos envelopes brancos, devidamente fechados, tendo dentro a identificação.
3ª) colocar acima da trova o tema a que concorre.
4ª) Não enviar a trova apenas em letras maiúsculas ou apenas em minúsculas.

Prazo para Remessa: entre 01 de fevereiro e 31 de maio de 2011.

Endereço para remessa:
XLI JOGOS FLORAIS DE NITERÓI
A/C Marco Antonio Loureiro
Caixa Postal 100.518,
CEP 24.020-971 – Niterói/RJ

Previsão da Festa de Encerramento = 26/27 de novembro de 2011.
==============================
II JOGOS FLORAIS DE SÃO FRANCISCO DE ITABAPOANA

Concurso Nacional:

Tema: CRIANÇA- Trovas líricas e/ou filosóficas

Concurso Estadual:

Tema: VENTO – Trovas líricas e/ou filosóficas
PULGA – Trovas humorísticas

ENDEREÇO PARA REMESSA:

II JOGOS FLORAIS DE SÃO FRANCISCO DE ITABAPOANA
A/C de Roberto Pinheiro Acruche
Caixa Postal 123.192
São Francisco de Itabapoana- RJ
CEP – 28.230-000

Sistema de Envelopes

A trova deverá ser escrita num envelope pequeno em cujo interior estarão nome e endereço completo do remetente, telefone e e-mail (se tiver). Esse envelope deverá ser lacrado e colocado num envelope maior com o endereço para remessa. Como remetente, repetir no verso o endereço com o nome de Luiz Otávio.

Data limite de entrega – 31 de maio de 2011. Valendo a data da postagem.

Limite de 3 (três) trovas por tema.

É obrigado constar a palavra-tema na trova
=========================
VII CONCURSO DE TROVAS DA UBT MARANGUAPE/CE

TEMAS:

Âmbito Nacional/Internacional:
“Ecologia” (lírico/filosóficas) e “Queimada/s” (humor)

Âmbito Estadual:
“Floresta/s” (lírico/filosóficas) e “Macaquice/s” (humor)

Âmbito Municipal:
“Sol” (lírico/filosóficas) e “Locutor/es ou Locutor/as” (humor)

Prazo para Remessa: até 31.05.2011

Apenas 01 (Uma) trova

FORMAS DE ENVIO:

a) CORREIO : sistema de envelopes:

VII Concurso de Trovas da UBT Maranguape
A/C Moreira Lopes
Rua Major Agostinho, 558 – Centro
CEP 61.940-090
Maranguape – CE

Remetente: “Luiz Otávio”, repetindo o endereço do concurso

b) VIA INTERNET:
Encaminhar para o email ubt.mpe@gmail.com
Indicar nome do autor, endereço completo, incluindo Cep, e telefone
NOTA = não é preciso utilizar pseudônimo

OBS: A UBT Maranguape se reserva o direito de publicar e divulgar de todas as formas as trovas concorrentes, mesmo as não incluídas entre as premiadas. A simples participação siginificará estar de acordo.
=================
VI JOGOS FLORAIS DE CANTAGALO

A/C de Ruth Farah Nacif Lutterback
Rua Dr. Nagib Jorge Farah, 204
Cantagalo –RJ
CEP: 28.500-000

TEMAS: (trovas líricas/filosóficas)
01) Âmbito Nacional: FÉ
02) Âmbito Estadual (RJ): ESPERANÇA

Máximo: 02 Trovas por autor.
PRAZO: até 31.05.2011.
Sistema de Envelopes
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VII CONCURSO DE TROVAS DA ACADEMIA MAGEENSE DE LETRAS

Caixa Postal 93.717
CEP. 25900–000
Magé – RJ

Temas:

“Chorinho” – (Lírica/Filosófica)

“Futuro” – (Humorística)

Sistema de envelopes

Uma trova inédita por participante.
Prazo-limite: 01.06.2011 – vale a data de postagem.

Fontes:
Nuhtara Dahab, Roberto Pinheiro Acruche, Ruth Farah, Ademar Macedo

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 223)

Cantigas de Roda. por Juan Cruz
Uma Trova Nacional

Na soleira da saudade,
toda insônia se acomoda;
lembrando da mocidade,
nossa alma brinca de roda!
–MIFORI/SP–

Uma Trova Potiguar

Os teus olhos sacrossantos,
Musa do idílio e do amor;
enchem meus versos de encantos
e os meus olhos de esplendor.
DJALMA MOTA/RN–

Uma Trova Premiada

1988 – São Paulo/RJ
Tema: LIVRO – M/H

Cada página que é escrita
para o livro de nós dois
diz que é ainda mais bonita
a história que vem depois.
–VANDA FAGUNDES QUEIRÓZ/PR–

Uma Trova de Ademar

Saudade dói e magoa,
e é por demais persistente;
basta pensar na pessoa
para voltar novamente.
–ADEMAR MACEDO/RN–

…E Suas Trovas Ficaram

É uma ilusão a desculpa
de querer culpar alguém,
quando a gente tem a culpa
das culpas que a gente tem.
–ELTON CARVALHO/RJ–

Simplesmente Poesia

–ANTONIO M. A. SARDENBERG/RJ–
Seu Beijo

Seu beijo é favo de mel,
a seiva que me alimenta,
é pedacinho do céu,
desejo que me atormenta!

É o fogo mais ardente,
que se pode experimentar,
é sinônimo de querer,
volúpia louca de amar!

Seu beijo é tudo, enfim!
É o querer.
O gostar,
vontade imensa de ter
mas que não posso alcançar!
seu beijo é gotinha dágua,
nas profundezas do mar!

Estrofe do Dia

Te dou tudo que queres nesta vida
gasto minha saliva esquento o crânio,
o esforço que faço é momentâneo
o que vejo e o que sinto é sem medida;
tua fuga é um beco sem saída
confundindo o amor com a razão,
misturando cabeça e coração
transformando o real no fictício,
eu te trato com tanto sacrifício
e tu me pagas com tanta ingratidão.
–ANTÔNIO LISBOA/RN–

Soneto do Dia

–DIAMANTINO FERREIRA/RJ–
Conselho.

Afasta de mim os teus olhos… Procuras
curvar-me ao seu brilho? Por que não desistes?
Nas lutas de amor não triunfam loucuras:
mais pode um sorriso que os olhos mais tristes…

Se almejas da vida somente as venturas
por que – se é frustrado – no intento persistes?
Não poupes sorrisos, palavras, ternuras…
E foge de tudo, daquilo em que insistes.

Repara nos outros que vivem ditosos:
felizes, tranqüilos, semblantes formosos…
Sem manchas no dia do Eterno Juízo!

A vida é tão bela! Desterra a tristeza!
Insere em teus olhos a eterna beleza!
Reabre teus lábios num doce sorriso!…

Fonte:
Textos enviados pelo Autor

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A. A. De Assis (A Cólica de Sua Alteza)


Quem me contou foi um cearense brincalhão, mas garantindo que tudo se dera como aqui será narrado. A cidadezinha recebera a visita de um príncipe que por aquelas áreas excursionava. Faixas saudando Sua Alteza, bandinha de música, a criançada abrindo alas, o povo todo em traje de festa para a nobre acolhida.

Chegado, saudado, discursado, o mais amedalhado visitante que o lugar já conhecera foi almoçar na chácara do principal chefe político do município. Vasta macarronada, carnes várias, o homem comeu além da conta, resultando inoportuno incômodo abdominal. A discreta pergunta a um dos empregados: “Onde é o banheiro?” A resposta simplória: “A gente aqui toma banho no rio ou na bacia; qual é que a alteza prefere?” O problema, porém, não era banho, eram outras necessidades: “Onde vocês fazem cocô?”, indagou o ilustre sem rodeios. “Ah, sim… nós costuma ir atrás da moita, lá fora… mas alteza também faz isso?”

A alteza em apuros, o pessoal estudando a solução honrosa: “Se segura um pouco, que vamos cuidar dos preparativos”. Minutos depois voltou a dona da casa: “A alteza pode adentrar ali naquele aposento”.

Já quase coisando nas calças, o príncipe fechou a porta, assustou-se com o cenário: jarros de flores em volta, um tapete vermelho, sobre o tapete um penico. Se é que príncipe também faz “dessas coisas”, então que as faça com a indispensável dignidade. Mas a hora não era apropriada para muitos raciocínios. O distinto sentou-se, aliviou-se. Um tanto desajeitado com a gorda retaguarda em tão acanhado recipiente, todavia…

Resolvida a emergência, entrou em pauta outra circunstância: o papel. Nem sequer um pedaço de jornal. Usar o lenço? Nesses momentos vale tudo. Ia começar a operação quando ouviu a banda vindo na direção da casa…

Que seria agora? Os músicos pararam em frente, o príncipe não conteve a curiosidade, levantou-se em condições não muito elegantes, foi espiar pela greta da janela. Era a homenagem mais estranha que já recebera em toda a sua biografia.

A bandinha caprichando no dobrado, a criançada formando duas filas, no meio vinha entrando um par de moças trazendo vistosa bandeja de prata com o sucedâneo local do papel higiênico: meia dúzia de sabugos, mimosamente escolhidos. “Para a alteza havera de ser tudo muito especial”.

Fonte:
ASSIS, A. A. de. Vida, verso e prosa. Maringá: EDUEM, 2010.

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Instituto Memória Convida para Lançamento Nacional em 7 de Junho, em Curitiba

CONVITE!

07/06/2011 – 19H00 – PALACETE DOS LEÕES

O Instituto Memória Editora & Projetos Culturais e o BRDE – Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul – convidam para o Lançamento Nacional das obras abaixo.

Lembramos que a sociedade somos NÓS e contamos com a presença de todos para abrilhantar esta noite de valorização da cultura nacional.

Tudo o que é necessário para o triunfo do mal, é que os homens de bem nada façam.
(Edmund Burke)
—-
Anthony Leahy – Editor Presidente
Conselheiro da Academia Brasileira de Arte, Cultura e História – SP
Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná e da Academia de Cultura de Curitiba
——–
http://www.institutomemoria.com.br

IRENE COELHO
Uma Brasileira de Coração Português
Thais Matarazzo Cantero

UM FILME JAMAIS ESQUECIDO
e outras crônicas
Ilário Iéteka
O TOQUE: ESSÊNCIA DA EDUCAÇÃO INFANTIL
Vislumbre de uma Nova Humanidade
Renata Jurach Bueno

ÊXTASE ALÉM DA MAGIA
Pedro Henrique Osório

SÓ SEI QUE FOI ASSIM!
Crônicas Escolhidas
Alcione Prá
Jocelino Freitas
Neyd Montingelli

COMO FALAR EM PÚBLICO MELHOR
Manual de Oratória – 2a.Edição
Enos de Castro Deus Filho

SERVIÇO:

Data: 07 de Junho de 2011

Horário: das 19h às 22h

Local: Palacete dos Leões – Av. João Gualberto, 530, Alto da Glória.
# Estacionamento interno gratuito #

Fonte:
Texto enviado por Anthony Leahy

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Ialmar Pio Schneider (Pinhão)


Fruto do pago crioulo
Que a peonada saboreia,
Junto ao fogo que clareia
O hospitaleiro galpão,
Enquanto que o chimarrão
Complementa a xucra ceia !

Eu te bendigo, alimento
Que a Divina Providência
Nos legou por excelência,
Pois não existe na estância
Alguém que negue a sustância
Que nasce da tua essência.

Nas noites frias de inverno,
Quando procuro o aconchego
E sentado num pelego,
Vou curtindo a solidão,
No meu peito redomão
Só sinto paz e sossego.

Fruto selvagem do pago
Que se debulha da pinha,
Em toda ignorância minha
Desconheço outro igual,
Que a gente come com sal
Com as prendas, na cozinha.

E mesmo assado na chapa
De um fogão ou sobre a brasa,
És um grito que extravasa
Aquilo que o guasca sente,
Ao se encontrar de repente
Solito e longe de casa.

Peço ao Patrão lá de riba,
No verso que vai ao léu,
Sem fazer muito escarcéu,
Que embora tenha comida,
Quando for pra outra vida
Não falte pinhão no Céu.

Fonte:
Texto enviado pelo autor

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Monteiro Lobato (Histórias de Tia Nastácia) XXXVI – O Jabuti e o Jacaré


Louco de inveja da gaitinha do jabuti, o jacaré resolveu furtá-la. Para isso ficou à espera dele no bebedouro.

— Olá, amigo jacaré — disse o jabuti aparecendo. — Que faz- aí?

— Tomando sol.

O jabuti bebeu e pôs-se a tocar a gaitinha.

O jacaré então disse:

— Empreste-me um pouco isso; quero ver se sei tocar.

O jabuti deu-lhe a gaita. Ele, pluf, atirou-se ao rio e lá se foi com ela.

O jabuti danou. Passados dias, engoliu uma porção de abelhas duma colméia e foi para o bebedouro esperar o jacaré. Escondeu-se num monte de folhas secas, apenas com a boca de fora, bem lambuzada de mel. De vez em quando soltava uma abelha: zum!

O jacaré apareceu, e pensando que fosse uma colméia enfiou o dedo na boca do jabuti. O jabuti, nhoc! ferrou o dedo dele.

— Ai, ai ai! — gritava o jacaré. — Largue meu dedo!

E,o jabuti

— Só largarei se me entregar a gaitinha — e apertava o dedo do jacaré. Não agüentando mais, este gritou para o seu filho, lá longe:

Ó Gonçalo,
meu filho mais velho,
a gaita do cágado!
A gaita do cágado!
Tango-lê-rê…
A gaita do cágado!
Tango-lê-rê…

O rapaz, que era meio surdo, respondia:

— O quê? Sua camisa, meu pai? Seu chapéu?

E o jacaré, aflito:

Não, Gonçalo,
meu filho mais velho,
a gaita do cágado!
Tango-lê-rê…
A gaita do cágado!
Tango-lê-rê…

E o Gonçalo:

— O que; meu pai? Suas calças?

O jacaré tornava a repetir a cantilena — e assim uma porção de tempo até que o filho entendeu e veio com a gaitinha. Só então o jabuti largou o dedo do jacaré, que saiu ventando.
=========================
— Que graça! — exclamou Emília. — Jacaré com dedo e filho gente! Mas serve, a historinha. Gostei.

— Então vai gostar ainda mais da do jabuti e os sapinhos — disse tia Nastácia. E contou.
–––––––––––––
Continua… XXXVII – O Jabuti e os Sapinhos
–––––––––––––-
Fonte:
LOBATO, Monteiro. Histórias de Tia Nastácia. SP: Brasiliense, 1995.
Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source

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Marcelo Spalding (O Certo e o Errado no Ensino da Língua Portuguesa)


Chegou aos noticiários nacionais o dilema de cada professor de língua portuguesa: diante das novas teorias linguísticas e, em especial, da sociolinguistica, como lidar com variações como “nós pega” ou “os carro” em sala de aula? Simplesmente apontar o erro seria reforçar o que tem se chamado de preconceito linguístico, mas deixar de fazê-lo poderia colocar a disciplina num limbo perigoso onde o vale-tudo acaba com a especificidade da disciplina.

O tema ganhou relevância graças à polêmica provocada pelo livro Por uma Vida Melhor, da Coleção Viver, Aprender – adotado pelo Ministério da Educação (MEC) e distribuído pelo Programa Nacional do Livro Didático para a Educação de Jovens e Adultos (PNLD-EJA) a 484.195 alunos de 4.236 escolas. Confira um trecho do livro, publicado pela Editora Global:

“Você pode estar se perguntando: ‘Mas eu posso falar ‘os livro’?’ Claro que pode. Mas fique atento, porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico (…) Muita gente diz o que se deve e o que não se deve falar e escrever, tomando as regras estabelecidas para a norma culta como padrão de correção de todas as formas linguísticas.”

Professores respeitados, como Claudio Moreno, foram enfáticos na defesa do ensino do português chamado padrão, reafirmando que o papel da escola é ensinar o futuro cidadão a se utilizar da língua escrita culta, “cujas potencialidades espantosas aparecem na obra de nossos grandes autores”. Para Moreno, “os linguistas sabem que nosso idioma é muito mais amplo do que a língua escrita culta que é ensinada na escola — mas a escola sabe, mais que os linguistas, que essa é a língua que ela deve ensinar”.

Por outro lado, linguistas de consistente formação acadêmica, como Pedro Garcez, reiteraram que não é uma questão de certo e errado, mas de adequação: “de certa forma, todos nós brasileiros produzimos frases com falta de concordância. Isso do nosso ponto de vista não é erro, é a linguagem natural. Esse é o português brasileiro.”, afirma o professor da UFRGS.

Claro que a questão é mais profunda do que esses exemplos um tanto grosseiros pegos pela mídia, pois outras tantas construções corriqueiras são erradas do ponto de vista gramatical, mas continuam sendo repetidas por pessoas das mais variadas classes sociais e pela própria mídia. Exemplos? “Tu vai”, “duzentas gramas”, “Houveram momentos”, “Me empresta”, “Ele trouxe para mim ver”, “Assisti o show”, etc.

No fundo o que está em jogo é a entrada de novos atores sociais no dia a dia da língua portuguesa, com suas influências e estilos. O paulistano usa “então” no começo de cada frase, um vício de linguagem horrível, mas nem por isso se discrimina o paulistano ou, por outro lado, se usa isso em filmes, novelas e livros didáticos. Mesma coisa o “r” carregado dos cariocas ou o “tu vai” dos gaúchos. Essas são as variações geográficas, por isso não causam tanto furor como as variações sociais, marcas linguísticas de classes ou grupos sociais específicos. Essa variação pode ser de interpretação, léxico, sintaxe e até ortografia (como os sempre criticados “vc” ou “tb” da Era Digital).

E o professor, em sala de aula, faz o quê? Uma das formas de lidar com o problema sem encara-lo de frente tem sido concentrar o trabalho com a Língua Portuguesa em textos, evitando a normatização da gramática e da ortografia. Mas será que, afora os exageros, não é importante que os jovens tenham um conhecimento técnico de sua língua, e não apenas intuitivo, para melhor interpretação, correção, clareza e variação na leitura e na produção textual? Não será importante, especialmente aos futuros profissionais da língua, como comunicadores, advogados, professores de todas as áreas, cientistas sociais, etc, saber onde se utiliza ou não o “a” craseado, a vírgula, a preposição antes do “que”? E não é importante que, para isso, eles saibam pelo menos o que é um sujeito, um verbo, um objeto, um adjunto adverbial? Um adjetivo, um advérbio, um substantivo, um pronome, uma preposição?

Pode parecer espantoso, mas nem sempre eles sabem. Não com facilidade. Vejamos um exemplo bem prático do meu dia a dia em sala de aula, a frase “A expansão desenfreada da cidade é uma grande ameaça para seu desenvolvimento”. Para muitos, o verbo é “expansão”, o que pode causar grande confusão na hora de concordar o verbo com o sujeito e faria com que muitos escrevessem essa frase com “Há” ou “À” no lugar do “A”. Adiante, poucos percebem que “seu” é um pronome que retoma “a cidade”, ainda que um esteja no masculino e o outro no feminino.

Claro que o mais importante não é a gramatiquice, é que nosso cidadão saiba expressar-se com coerência, coesão e, mais ainda, tenha postura crítica e ideias originais. Também é importante, entretanto, que não sejam sonegadas desse cidadão as regras sociais, incluindo aí o português padrão, pois ali adiante esse desconhecimento pode acabar excluindo, ou, pelo menos, subvalorizando pessoas de alta capacidade e que lutaram muito para reescrever seus destinos.

O papel da escola, enfim, é apresentar e ensinar ao aluno a variante “culta” da língua: aprender ou não, interessar-se ou não por ela, é um direito do aluno, mas se ele precisar dessa variante e não conhecê-la por omissão da escola teremos praticado, sem exagero, um crime. Dos grave.

Fonte:
Texto enviado pelo autor
Imagem = Junior Paiva

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 222)


Uma Trova Nacional

No embalo da serenata,
quisera ser como a lua
vestindo com tons de prata
os homens tristes da rua!
–SELMA PATTI SPINELLI/SP–

Uma Trova Potiguar

A saudade, a dor, o trauma,
que pranteia, os olhos meus,
tortura e faz de minha alma,
refúgio, de um triste adeus…
–FABIANO WANDERLEY/RN–

Uma Trova Premiada

2007 – Bandeirantes/PR
Tema: DESVELO – M/H.

Com desvelo produzindo,
nas pinceladas finais,
Deus devia estar sorrindo
quando fez os pinheirais!
–PEDRO ORNELLAS/SP–

Uma Trova de Ademar

A mais triste Solidão
que os seres humanos têm
é abrir o seu coração…
Olhar e não ver ninguém!
–ADEMAR MACEDO/RN–

…E Suas Trovas Ficaram

Teus passos eu sigo a esmo
numa atração que me assombra,
deixando de ser eu mesmo
para ser a tua sombra…
–VENTURELLI SOBRINHO/MG–

Simplesmente Poesia

–MENOTTI DEL PICCHIA/SP–
Noite

As casas fecham as pálpebras das janelas e dormem.
Todos os rumores são postos em surdina,
todas as luzes se apagam.

Há um grande aparato de câmara funerária
na paisagem do mundo.

Os homens ficam rígidos,
tomam a posição horizontal
e ensaiam o próprio cadáver.

Cada leito é a maquete de um túmulo.
Cada sono em ensaio de morte.

No cemitério da treva
tudo morre provisoriamente.

Estrofe do Dia

É tranquilo viver a juventude
no remanso febril dos verdes anos,
sem sentir o amargor dos desenganos
nem as dores da falta de saúde;
mas não é permanente essa virtude,
porque o tempo interfere no viver,
muitas vezes trazendo desprazer,
com o peso enfadonho da canseira.
Quem quiser ser feliz a vida inteira,
é preciso saber envelhecer.
–JOSÉ LUCAS DE BARROS/RN–

Soneto do Dia

–EDMAR JAPIASSÚ MAIA/RJ–
Auto Retrato

Nem sei há quanto tempo que um sorriso
não enfeita o meu rosto macerado
pelas dores que têm me dominado,
pelos árduos caminhos que hoje piso…

Bem sei o quanto tenho me esforçado
para encontrar o amor de que preciso,
e transportar-me em luz ao paraíso
de sonhos que a ilusão me tem negado…

Quando tristonho ao pranto me condeno,
percebo ser no pranto um Ser pequeno,
que na apatia busca o seu abrigo.

E a sorte, nos seus rasgos de avareza,
não deixa que eu me dispa da tristeza,
e possa parecer menos comigo!

Fonte:
Textos enviados pelo Autor

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas no. 221)

Uma Trova Nacional

Cabelo é um negócio louco…
há divergências fatais:
– Na cabeça, um fio é pouco;
mas… na sopa… ele é demais!
–ELISABETH SOUZA CRUZ/RJ–

Uma Trova Potiguar

Nosso mundo anda e desanda
não é como a gente quer;
na guerra, o homem é quem manda,
em casa, manda a mulher.
–HILTON DA CRUZ GOUVEIA/RN–

Uma Trova Premiada

2009 – Campos dos Goytacazes
Tema: Conhaque – Venc.

Foi tão grande o benefício
daquele conhaque a dois,
que eu fui lembrar-me do início
só nove meses depois!.
– RODOLPHO ABBUD/RJ –

Uma Trova de Ademar

Vejam a triste desdita
da minha prima Filó:
namorou um eremita
e morreu no caritó!
–ADEMAR MACEDO/RN–

…E Suas Trovas Ficaram

O forró foi bom de fato,
no sítio do Manelão.
Tinha mais casal no mato
do que dentro do salão.
ALYDIO C. SILVA /MG–

Simplesmente Poesia

–NASSER QUEIROGA/PE–
Extra…. Extra‼‼‼!

Encontrei um poeta sem talento
Que escreve o que já existe
Que diz ser alegre quando e’ triste
Pois escreve só o que os outros sentem
E diz ser profundo sendo raso
Tem ate torcida organizada

Este cara e’ um arraso
Pões na verdade e’ um arrasado
E ainda fica zangado
Se o pai o da cria o descobre

Também o pobre tem um trabalhão danado
De copiar e colar
Pra outro vim reclamar

Extra….. Extra‼‼‼‼‼‼‼‼!

Estrofe do Dia

Era metida à grã-fina,
pertencia à alta roda,
copiava toda a moda
de uma atriz bailarina.
Só queria ser menina,
parda querendo ser branca,
vivia botando banca,
mas tomei conhecimento…
No sutiã só enchimento,
e a roupa era da “sulanca”
–FRANCISCO MACEDO/RN–

Soneto do Dia

–JERSON BRITO/RO–
A Entrega

Entregadores carregavam grande estante
Subindo escada, seu destino: a cobertura
O prédio tinha dez andares… Que tortura!
Diz um do trio: “alguém vá ver quanto é faltante”

Um deles sobe e no retorno comunica:
“Duas notícias vou lhes dar, nenhuma anima”
“Apenas uma diga agora e lá em cima
Você nos fala e, descansado, a outra explica”

De imediato, ele concorda com seus pares:
“Pois, sendo assim, informarei vocês primeiro
Que são restantes pro final mais sete andares”

Chegando ao topo, o cara foi logo indagado:
“Qual a segunda má notícia, companheiro?”
“Nós acessamos, por engano, o bloco errado…”

Fonte:
Textos enviados pelo Autor

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