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V Concurso Literário “Cidade de Maringá” (Poemas Livres Vencedores) Troféu Cássia Arruda

ANTÔNIO ROSALVO R. ACCIOLY
(Nova Friburgo/RJ)

Ofertório

A aurora manchava de sol
o corpo verde das planícies.
No eitão do terreiro,
a vó conversava com os ventos.
Um branco giz de nuvens escorregava
no claro azul do céu.
“Deus está presente em nós.”
Dizia minha mãe.

Era domingo.
Um domingo vazio de ruídos.
Tão intenso que escutávamos o ruminar
do capim nos dentes dos bois.
Pai vestia uma calça cáqui.
Amarela…
Mais berrante que o amarelo do milho.
Nosso celeiro também era amarelo.

À noite, à luz de velas,
mãos erguidas aos mistérios da fé,
a vó rezava.
Pedia fartura.
Uma fartura que muitas vezes não vinha.
Só a fé,
na invisibilidade dos mistérios,
permanecia no Celeiro vazio.

CARLOS BRUNNO SILVA BARBOSA
(Valença/RJ)

Celeiro Dulcinéia

Evita meu celeiro, triste homem das vontades básicas,
Meus trigos não alimentam tua fome,
São grãos colhidos no solo do lirismo;
Vêm do mundo das idéias, da mente de um sonhador
Que protesta por alimentos reais,
Mas só protesta, só, protesta, em vão, pois não te alimenta.
Evita este meu arroz invisível, colhido na safra da solidão,
Pois minhas composições não enchem teu estômago vazio.
Meu depósito de alimentos não perecíveis é eterno
Mas impróprio para o consumo de teus olhos famintos.
Lamento, escravo senhor! Os latifúndios continuam florindo cancerígenos
No solo da ambição desmedida dos homens que pisam em tua campina sem vida,
Enquanto meu armazém só contém produções aquém dos teus anseios.
Para teus desejos cereais, trago um galpão seco de comida,
Poemas, gigantes fingidos, nada mais que meros moinhos de vento…
Procura outro reino, Sancho Pança da realidade rocinante,
Pois este meu celeiro é de um fidalgo errante castigado de ilusão…

Larí Franceschetto
(Veranópolis/RS)

DE SILOS & DE SONHOS

Tempo de perdoar-se.
O tempo de ontem nunca mais
mas ao invés de obeso ócio
o grito
ao invés de caco de vidro no olho
o riso.
Colher amoras com a boca,
reacender o verde da terra
alimentar a fome dos moinhos
a fértil(idade) das maçãs do berço,
o sabor de renovar os vinhos
acarpetem de janeiros meu celeiro
onde deságuam meus rios.
Sim! Plantar com o coração
girassóis no parapeito das janelas,
abrir os braços,
deixar as chuvas de verão
e o pôr-do-sol dos calendários
amanhecerem os meninos.

A colheita o trigo da vida
(re)abasteça de sonhos os silos.

ROBERTO RESENDE VILELA
(Pouso Alegre/MG)

Testemunho do Silêncio

O silêncio desse rancho…
… agora entregue aos marimbondos e cupins,
aos morcegos e aranhas;
agora entregue aos caprichos do tempo…
confessa, envolto em nostalgia:
– A alegria que saiu daqui
continua quebrando escuros;
e o suor é a chuva que mata a sede
de um mundo que transcende as distâncias.

Os buracos são ouvidos abertos
às pérolas do imaginário campestre;
aos causos contados à sombra das árvores;
às palavras ajustadas ao meio ambiente.

Tudo o que aconteceu ganhou tantos sabores
quantas foram as amizades…

Esse rancho…
não foi somente a ribalta azul
em que o sonho e a esperança,
com alma e elegância,
dançavam de rosto colado.

Esse rancho…
permitiu que a missão de heróis anônimos
fosse cumprida com dignidade.

À tardinha, cinzenta e lânguida,
cantando, dolentemente,
ainda chega o carro de bois,
trazendo as dádivas do chão
a esse memorável celeiro;
levadas, logo depois,
nos ombros incansáveis do roceiro.

ROSANA DALLE LEME CELIDONIO
(Pindamonhangaba/SP)

Eterno Celeiro

Sou menina…

Leio o livro;
sei-o lido… – arquivo.
Pulo a sela, divirto-me, brinco.
Selo o morto, descarto, bato o jogo.

Sou mulher…

Selo o cavalo, cavalgo, apeio.
Selo a carta, envio,
Antes disso… – releio.

Sou mãe:

No meu ventre – a vida.
No meu seio – o leite,
Mato fome e sede.
Se não sabes…- sei-o.

Aos rebentos:

Fiz um silo, só de sentimentos.
Muitos deles…
Todos eles farturentos.

Se sentirem o vazio,
Procurem o abrigo:
A certeza do alimento.

Amor de mãe – Eterno celeiro:

Provento!

Fonte:
AGULHON, Olga e PALMA, Eliana. V Concurso Literário “Cidade de Maringá”. 1.ed. Maringá: Academia de Letras de Maringá, 2011.

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Paulo Bomfim (Antologia Poética)


BASTA DE SER O OUTRO

Basta de ser o outro… O herdeiro da terra,
O neto de seus avós!
Basta de ser
O que leu
E o que ouviu…
À terra devolvo
O cálcio, o ferro, o fósforo;
À nuvem devolvo a água rubra,
Aos mortos,
As angústias herdadas,
Aos vivos
Os gestos e as palavras recebidas…
Basta de ser o outro,
Colcha de retalhos alheios,
Cobrindo um frio verdadeiro.

SONETO L

No ramo a flor será sempre segredo
Moldando realidades no vazio,
Caminho de perfume, rosa e estio,
Crescendo além dos roseirais do medo.

História das raízes sem enredo…
Rolam frases de terra pelo rio,
As consoantes de luz tremem de frio
E as vogais orvalhadas morrem cedo.

No ramo a flor será sempre futuro,
Haste e corola nos confins do sonho,
Marcando de infinito a cor do muro…

Sempre a cor sobre a senda debruçada,
E o perfume crescendo onde reponho
O sentido da flor despetalada.

SONETO II

O livro que hoje escrevo foi escrito
Em outro plano estático e diverso,
Sei que morro no fim de cada verso
E renasço no início de outro mito.

Em cada letra tinta de infinito
Há um diálogo mudo que converso
Com nebulosas de meu universo
Onde nasceu a página que dito.

Sei que sou neste instante o que já fui,
E aquilo que recebo agora flui
De um campo superior onde me deito.

Durmo além, nessa plaga que recordo:
Só escrevo neste plano onde hoje acordo,
Aquilo que ainda sonho no outro leito.

SONETO IV

Não construo estes barcos, pois se fazem.
Cedro crescido em minha serrania,
Velas sugadas pela maresia,
E as âncoras, vocábulos que jazem

Em múltiplas jornadas que perfazem
Circuitos de hipocampos e euforia.
Sim, o leme nasceu em minha manhã fria
Da solidão das mãos que embora casem

No instante de criar, depois são fugas
Em corpos, em trajetos, em contactos,
Ou tripulantes percorrendo rugas.

Passam por mim as forças que se enfeixam
No cerne de estaleiros e do atos:
— Não construo estas naus, elas me deixam!

SONETO V

Alquimia do verbo. Em minha mente
Recriam-se palavras na hora vária,
A poesia se torna necessária
E as flores rememoram a semente.

É preciso que exista novamente
A aventura distante e temerária
De em ouro transformar a dor precária
E em nós deixar correr a lava ardente.

Que uma emoção profunda e mineral
Corra nos veios desta carne astral
E encontre em mim aquilo que procura.

Na paisagem que for, já sou nascido:
Nas formas criarei o elo perdido,
e, em lucidez, serei minha loucura.

A VIDA

Sonhei existir
Quando o universo circulava ainda
No sangue dos deuses.
Em mim criei a forma
E fui árvore,
Idealizei o mar
E fui peixe,
Aspirei a nuvem
E fui pássaro.
Na boca dos oráculos
Sou a palavra sagrada
Que brota da terra,
No corpo dos amantes
A semente que nasce do beijo.
Expirada pelos deuses
Trouxe o formato de seus corpos múltiplos;
Agora sou o ar divino
Formando realidade,
Impulso gerando impulso.
Retorno aos pulmões da noite
Com rostos, árvores e oceanos gravados em mim:
– Nos caminhos do sangue, toco-me de eternidade.

DESCOBERTA

Deixa que as coisas te interpretem,
Que o vento sinta tua pele,
Que as pedras meditem teus passos,
E as águas criem tua realidade.
Vive o mistério da terra,
O segredo da semente,
O caminho da seiva,
O milagre do fruto.
Deixa que as coisas meditem sobre ti,
Que ventos, pedras e águas recriem tua imagem;
Entende a mão que te colhe,
A lâmina que te despe
E sangra teu silêncio,
Reflete o mundo branco que te mastiga,
Transforma-te em carne, e em galeras de sangue
Regressa.
A vida terá partido, com bicos noturnos,
A casca da palavra.

OS DIAS MORTOS

Os dias mortos, sim, onde enterrá-los?
Que solo se abrirá para acolhê-los
Com seus pés indecisos, seus cabelos,
Seu galope de sôfregos cavalos!

Os dias mortos, sim, onde guardá-los?
Em que ossário reter seus pesadelos,
Seu tecido rompido de novelos,
Seus fios graves, relva além dos valos.

Tempo desintegrado, tempo solto,
Fátuo fogo de febre e de fuligem,
Canteiro de sereia em mar revolto.

Em nossa carne, sim, em nossos portos,
Quando o fim regressar à própria origem,
Repousarão também os dias mortos!

CIMENTO ARMADO

Batem estacas no terreno morto,
No terreno morto surge vida nova,
As goiabeiras do velho parque
E os roseirais abandonados,
Serão cortados
E derrubados

Um prédio novo de dez andares,
Frio e cinzento,
Terá seu corpo de cimento-armado
Enraizado no velho parque
de goiabeiras
De roseirais

Batem estacas no terreno morto.
Século vinte…
Vida de aço…
Cimento-armado!

Batem as estacas
Um prédio novo, de dez andares,
Terraços tristes,
Pássaros presos,
Rosas suspensas,
Flores da vida,
Rosas de dor.

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Paulo Bomfim (1926)


Paulo Lébeis Bomfim nasceu no dia 30 de setembro de 1926 em São Paulo (SP). Abandonou o curso de Direito, que havia iniciado por volta de seus 20 anos, preferindo continuar trabalhando como colaborador dos jornais “Diário de São Paulo”, “Correio Paulistano” e “Diário de Notícias”. Seu primeiro livro, “Antônio Triste”, lançado em 1946, com prefácio de Guilherme de Almeida e ilustrações de Tarsila do Amaral, recebeu o Prêmio Olavo Bilac, concedido pela Academia Brasileira de Letras, em 1947.

Atuou como relações públicas da “Fundação Cásper Líbero” e fundador, com Clóvis Graciano, da Galeria Atrium. Produziu “Universidade na TV” juntamente com Heraldo Barbuy e Oswald de Andrade Filho; “Crônica da Cidade” e “Mappin Movietone”. Apresentou na Rádio Gazeta, “Hora do Livro” e “Gazeta é Notícia”. Entre 1971 e 1973 foi curador da Fundação Padre Anchieta, diretor técnico do Conselho Estadual de Cultura de São Paulo e representante do Brasil nas comemorações do cinqüentenário da Semana de Arte Moderna, em Portugal.

Publicou, em 1951, “Transfiguração”. Em 1952, “Relógio de Sol”. Lança as primeiras cantigas, musicadas por Dinorah de Carvalho, Camargo Guarnieri, Theodoro Nogueira, Sérgio Vasconcelos, Oswaldo Lacerda e outros.

Publica, em 1954, “Cantiga de Desencontro”, “Poema do Silêncio”, “Sinfonia Branca” e depois, em 1956, “Armorial”, ilustrado por Clóvis Graciano. Em 1958, lança “Quinze Anos de Poesia” e “Poema da Descoberta”. Publica a seguir “Sonetos”(1959), “O Colecionador de Minutos”, “Ramo de Rumos” (1961), “Antologia Poética” (1962), “Sonetos da Vida e da Morte” (1963). “Tempo Reverso” (1964), “Canções” (1966), “Calendário” (1968), “Poemas Escolhidos” (1974), “Praia de Sonetos” (1981), com ilustrações de Celina Lima Verde, “Sonetos do Caminho” (1983), “Súdito da Noite” (1992), “50 Anos de Poesia” e “Sonetos” pela Universitária Editora de Lisboa. Em 2000 e 2001 publicou os livros de contos e crônicas “Aquele Menino” e “O Caminheiro”. Publicou, em 2004, “Tecido de lembranças” e, em 2006, quando o poeta completou 80 anos de idade, “Janeiros de meu São Paulo” e “O Colecionador de Contos”.

Suas obras foram traduzidas para o alemão, o francês, o inglês, o italiano e o castelhano. No dia 23 de maio de 1963, passou a ocupar a cadeira 35 da Academia Paulista de Letras tendo sido saudado por Ibrahim Nobre. Presidente do Conselho Estadual de Cultura e do Conselho Estadual de Honrarias e Mérito, na década de 70. O poeta é, ao completar 80 anos, o decano daquela Academia.

Em 1982, recebeu o título Personalidade do Ano, concedido pela União Brasileira de Escritores

Recebeu, em 1982, o Troféu Juca Pato de Intelectual do Ano, concedido pela União Brasileira de Escritores.

Em 1993, foi agraciado com o Prêmio pelo Cinquentenário de Poesia, concedido pela União Brasileira de Escritores.

Fonte:
Jornal de Poesia

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J. B. Xavier (O Pedágio)

À minha frente, a luz baça dos faróis se ia esmaecendo, vencida pela claridade do dia que surgia.

Confuso com a súbita claridade, percebi vagamente o incêndio avermelhado que o sol fazia ao levantar-se das colinas distantes.

As faixas brancas do asfalto, no entanto, tomavam toda a minha atenção, enquanto eu maldizia ter que percorrer esse trecho todos os dias.

A paisagem passava ao meu redor como uma névoa verde que se contorcia deformada pela velocidade. Absorto, eu já estava a uma hora no futuro, pensando em tudo o que me esperava no escritório.

Como eu começaria? Pior! por onde eu começaria?

Um ar gélido penetrava por alguma fresta do veículo, e me fez perceber o quanto a temperatura havia caído. Irritado, fui obrigado a parar e vestir um casaco, logicamente inadequado para aquela queda de temperatura.

A parada me irritou ainda mais, de maneira que quando cheguei ao pedágio, eu já me sentia sufocado pelo colarinho apertado que insistia em marcar minha pulsação, estrangulando-me a jugular.

-Bom dia – disse a moça num sorriso como há muito eu não via.

-Oi? – respondi – retirando o fone de ouvido, enquanto me irritava procurando trocados, por não ter comprado passes.

-É bonita a música que está ouvindo?

Pela primeira vez, a olhei nos olhos. ” O que ela tem com isso?” – pensei irritado, mas aqueles olhos me fitaram diretamente, e o sorriso que o acompanhou desarmou meu espírito e ficará para sempre gravado em minha memória. Quis responder, mas não consegui lembrar de música alguma. Olhei para o walk-man no banco ao lado e ele estava chiando, porque há muito a seleção de músicas já havia acabado.

– É, sim, é bonitinha – respondi meio sem graça.

– É ótimo iniciar o dia ouvindo músicas – respondeu ela. O senhor passa sempre por aqui?

– Todos os dias – respondi prestando um pouco mais de atenção à moça – Você é nova aqui – perguntei?

– Sim. Comecei há alguns dias! Estou muito contente, porque esse posto fica num dos trechos mais bonitos da rodovia. Se o senhor passar quinze minutos mais cedo, verá um grande milagre da natureza nas curvas adiante – disse ela – enquanto me oferecia o troco, antes mesmo que eu lhe desse o dinheiro. – Em dias claros o sol parece sair de dentro da terra, e em dias chuvosos formam-se cascatas na encosta dos morros. É muito bonito.

– Eu conheço cada centímetro dessa rodovia – disse-lhe, num risinho irônico. – Há anos passo por aqui…

– Mas o senhor “curte” o trecho? – perguntou ela inocentemente enquanto pegava o dinheiro que eu lhe oferecia.

Eu ia responder qualquer coisa, mas um businaço atrás de mim, me assustou e me fez arrancar quase instantaneamente: Outro apressado, como eu.

Em poucos segundos eu estava novamente em velocidade. Mas a frase da moça mudou a minha vida.

No silêncio do carro, enquanto o vento zunia no espelho retrovisor, eu fiquei pensando na falta de sentido que minha vida estava tomando. Repentinamente fui colocado diante de mim mesmo por uma frase fortuita, casual.

Girei o retrovisor interno e olhei-me nos olhos. Vi um homem ansioso, correndo para atingir uma meta mal definida, que se esfumaçava sempre que eu pensava tê-la atingido. Vi um olhar vago, inquieto, onde havia resquícios de medo. Um medo insidioso, muito bem disfarçado, mas latente e presente, gerando inseguranças.

Mas acima de tudo, vi um homem solitário, envolvido demais na corrida desenfreada em busca do sucesso para ter tempo de cultivar amizades fortes. Apressado demais, ocupado demais, para ter tempo de confraternizar.

Minha desatenção à estrada me levou para a outra pista de rodagem e por pouco não causo um acidente. E se o acidente tivesse acontecido? De que teria valido toda essa correria?

Então, a consciência do efêmero da vida atingiu-me em cheio!

Como eu pude ter tanta certeza de que teria o tempo à frente disponível para todos os planos que tracei? Quem foi que me garantiu isso, a não ser minha própria mania de pensar que o Universo está sempre à minha disposição para me servir?

Meu pensamento foi então para minha esposa e filhos. Teria eu o direito de fazê-los esperar mais pela atenção que nunca vinha? Eu já não tinha conquistado o suficiente para estar alegre, ao invés de estar sempre tenso pelo que ainda me propunha conquistar?

A voz da menina do pedágio voltou aos meus ouvidos: “O senhor curte o trecho?”
No silêncio do carro eu finalmente a respondi: Não, eu não curtia o trecho!

Nos dias que se seguiram eu acatei o seu conselho e saí um pouco mais cedo. Sem a pressa habitual, pude observar o maravilhoso espetáculo que a natureza nos oferece todas as manhãs. Um espetáculo diferente a cada dia.

Como pude praguejar contra a chuva, quando era ela que limpava e tornava brilhantes as flores das copas da floresta; se, graças a ela, desfilavam diante de mim imensos mosaicos coloridos, de formas insondáveis? Como pude me irritar com o sol batendo em meu rosto, se era ele que arrancava cintilâncias de diamante do regato que corria ao longo da rodovia e me lembrava a toda hora que eu era parte de tudo aquilo?

Em que momento eu parei de me extasiar diante da vida? Quando aconteceu de eu não prestar mais atenção ao momento presente? Quando foi que eu deixei de “curtir os trechos” das minhas várias jornadas pela vida? Como pude permitir que isso acontecesse?

E o meu trabalho no escritório? Ora! Calma! Ele ainda está a mais de uma hora no futuro!

Fontes:
JB Xavier
Imagem = Caldeira Motors

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 258)

Trovador Izo Goldman (desenho a lápis e carvão por JB Xavier)
Uma Trova Nacional

Amanhece… De repente,
tomando o corpo da terra,
o sol beija, ardentemente,
o rosto bruto da serra…
–DIVENEI BOSELI/SP–

Uma Trova Potiguar

Há na mente da criança
um ideal tão fecundo,
que toda desesperança
torna-se lenda no mundo.
–PAULO ROBERTO/RN–

Uma Trova Premiada

2010 – Curitiba/PR
Tema: MADRUGADA – Venc.

Madrugada. A lua sonda
minha rede e, sem vacilo,
entregue à exaustão da ronda,
se deita, para um cochilo…
–DARLY OLIVEIRA BARROS/SP–

Uma Trova de Ademar

Amar – verbo transitivo
que ao coração de nós dois
será sempre um lenitivo
hoje, amanhã e depois…
–ADEMAR MACEDO/RN–

…E Suas Trovas Ficaram

Seria a vida enfadonha
sem as dúvidas que tive.
Quem tem certeza não sonha,
e que não sonha, não vive…
–ORLANDO BRITO/MA–

Simplesmente Poesia

–DALINHA CATUNDA/CE–
Décima Final

Um dia eu fui cativa
De beijos que eram só meus.
Depois dissestes adeus
Fiquei mais morta que viva.
O gosto de tua saliva
Deixava-me alucinada
Virou saudade e mais nada
Vagando dentro de mim
Se já chegamos ao fim
Fique de boca calada!

Estrofe do Dia

Quem preserva a cultura do sertão,
a quadrilha, o forró, o violeiro,
tá zelando o folclore brasileiro
que não vai ao programa do Faustão;
que a mídia não quer dar proteção
ao poeta que vive do repente,
tá tirando do solo essa semente
que precisa nascer nos arraiais;
quem preserva as raízes culturais
eterniza o valor da sua gente.
–MARIVALDO GONÇALVES/PE–

Soneto do Dia

–PROF. GARCIA/RN–
Obstinação

Quando eu vejo no espelho a crueldade,
que o tempo indiferente me causou,
começo a perceber, que na verdade,
minha infância tão linda já passou!

Até hoje carrego com saudade
tudo aquilo que o tempo me levou,
dos feitiços banais da mocidade
a lembrança foi tudo que restou!

E por lembrar da infância tão querida,
nunca esqueço do amor de minha vida
que descobri na infância, certa vez;

pois este amor, tão lindo e tão sonhado,
inda vive comigo do meu lado,
a encher meu lar de paz e sensatez!

Fonte:
Textos enviados pelo Autor

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Ialmar Pio Schneider (Inverno e Saudades)


Sempre quando chega o inverno eu me transporto aos tempos de criança, andando de pés descalços sobre a geada que cobria os campos da minha terra. Hoje, distante, a saudade me visita e eu leio o soneto que fiz há alguns anos, lembrando aquele pedaço de chão onde ensaiei os primeiros passos e de que me afastei, por contingências da vida, mas do qual conservo as mais gratas recordações da infância. Diz assim:

“SONETO A SERTÃO-(Minha terra natal)

– Oh! terra onde nasci, berço de minha infância,
que sempre levarei dentro do coração,
batendo com ardor, em serena constância,
lembrando os tempos bons que já bem longe vão !…

Teu nome a recordar saudades e distância,
flores silvestres e quem sabe solidão,
há de permanecer tal suave fragrância
cá dentro de minh’alma, oh! saudosa Sertão !

Se assim Deus o quiser, em teu solo bendito
reviverei um dia o passado aos pedaços,
como o filho que volta ao lar: cansado, aflito…

Porém que, em retornando ao seu torrão natal,
lugar onde ensaiou os seus primeiros passos,
consegue um elixir pra curar o seu mal…”

No entanto, meus familiares já não residem mais lá. Estão espalhados pelo Paraná e Santa Catarina, também pelas citadas contingências da vida que os levaram à procura de melhores condições para enfrentar o dia-a-dia. Isto faz-me lembrar o romance Éramos Seis, de Maria José Dupré, que depois virou uma novela do SBT de grande audiência, protagonizada pela inigualável atriz Irene Ravache, entre outros não menos importantes atores. Só que nós éramos oito, os saudosos pai e a mãe (hoje falecidos), e seis irmãos (duas mulheres e quatro homens, um dos quais também falecido há pouco, meu saudoso mano Remi, para o qual escrevi umas palavras doridas aqui, quando do seu passamento, por assim dizer, prematuro, em consequência de cirurgia de vesícula mal-sucedida e hérnia, ao que me consta, tendo tido hemorragia e sua pressão baixado a zero. Tenho como um baque em minha vida esta perda, pois tratava-se de um irmão que também trilhava o caminho da poesia e se identificava comigo. Dir-se-ia fatalidade para justificar. Quem o sabe ?

Entrementes, os invernos foram se sucedendo, e agora fico recitando os versos do romântico Guilherme de Almeida:

“SAUDADE

– Só.
Para além da janela,
nem uma nuvem, nem uma folha amarela
manchando o dia de ouro em pó…
Mas, aqui dentro, quanta bruma,
quanta folha caindo, uma por uma,
dentro da vida de quem vive só !
Só – palavra fingida,
palavra inútil, pois quem sente
saudade, nunca está sozinho: e a gente
tem saudade de tudo nesta vida…
De tudo ! De uma espera
por uma tarde azul de primavera;
de um silêncio; da música de um pé
cantando pela escada;
de um véu erguido; de uma boca abandonada;
de um divã; de um adeus; de uma lágrima até !

No entanto, no momento,
tudo isso passa
na asa do vento,
como um simples novelo de fumaça…
E é só depois de velho, uma tarde esquecida,
que a gente se surpreende a resmungar:
“Foi tudo o que vivi de toda a minha vida !”
E começa a chorar…

Guilherme de Almeida”

Por outro lado, sabe-se que os invernos já não são os mesmos daqueles tempos, não obstante na serra gaúcha todos aguardem – residentes e turistas – a queda da neve que quase todos os anos acontece nesta época. Enquanto isto, os visitantes vão se deliciando com a gastronomia e os hotéis e pousadas ficam lotados, ainda mais que está para ocorrer o 31º Festival de Gramado – Cinema Latino e Brasileiro, a ser realizado de 18 a 23 de agosto.

Assim vou finalizando esta crônica em que mesclei inverno e saudade, ainda que me louvando no inigualável poeta romântico Guilherme de Almeida, para dizer do estado de minha alma no momento. Que tenhamos todos um salutar inverno do qual sintamos saudades amanhã !
Publicado em 12 de julho de 2003 – no Diário de Canoas.

Fontes:
Texto enviado pelo Autor
Imagem = geada em Canoas disponível em Metsul Meteorologia

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Monteiro Lobato (Caçadas de Pedrino) XI – Inaugura-se a linha


A linha telefônica foi construída com todo o luxo, como é de costume nas obras do governo. Os postes foram até pintados! Era a mais curta linha do mundo: com cem metros de comprimento e dois postos apenas, um no terreiro da casa e outro no acampamento dos caçadores. Um poste foi pintado de verde, outro de amarelo. No dia da inauguração, porém, aconteceu um fato imprevisto: o rinoceronte não veio deitar-se à porteira na hora do costume. Nem apareceu no dia seguinte, nem durante toda a semana. Os caçadores tiveram de armar barracas e ficar ali esperando, pacientemente, que ele se resolvesse a voltar.

Por que isso? Porque ficava sem jeito inaugurarem a linha sem o rinoceronte atravessado na porteira. Sem rinoceronte poderiam entrar duma vez no terreiro e falar diretamente com a dona da casa. Mas precisavam justificar a construção da linha, e por isso resolveram esperar que o monstro voltasse.

Vendo as coisas assim encrencadas, Emília resolveu intervir. Foi à Figueira-Brava pedir ao rinoceronte que não desapontasse a gente do governo e continuasse a ir dormir na porteira. Não se sabe de que argumentos a boneca usou; o que se sabe é que no dia seguinte, exatamente às três da tarde, o rinoceronte veio de novo, pachorrentamente, deitar-se de atravessado na porteira.

Houve vivas de entusiasmo no acampamento dos caçadores. Podiam, enfim, inaugurar a linha.

Trlin, trlin… soou na varanda a campainha do aparelho.

— Vá atender — disse Dona Benta ao Visconde, que estava cochilando por ali.

— Eu atendo — gritou Cléu, que tinha muita prática em falar ao telefone. E numa vozinha muito clara e espevitada atendeu: — Alô! Quem fala?

— Fala aqui o detetive X B2, chefe do Departamento Nacional de Caça ao Rinoceronte — respondeu uma voz grossa. — E quem está falando aí?

— Aqui fala Cléu, por ordem da proprietária da casa, Dona Benta Encerrabodes de Oliveira, avó de Narizinho, Pedrinho e Rabicó. Que deseja Vossa Rinocerôncia?

— Desejo participar à dona da casa que a linha telefônica está concluída e que agora podemos discutir as operações necessárias à caçada do rinoceronte, tendo o gosto de fazer com que as nossas palavras passem bem por cima dele sem que o bruto perceba, ah! ah! ah!…

— Mas por que não discutiu isso durante a semana em que o rinoceronte andou sumido e a passagem pela porteira estava completamente franca? Acho que Vossa Rinocerôncia perdeu um tempo precioso.

— Menina — respondeu, meio ofendido, o detetive X B2 —, não se meta no que não é da sua conta. O governo sabe o que faz. Quero falar com a dona da casa.

Cléu tapou com a mão o bocal do telefone e voltou-se para Dona Benta.

— Ele quer falar com a senhora mesma.

Mas a velha não estava pelos autos. Considerava aquela gente uma súcia de idiotas, um verdadeiro bando de exploradores.

— Diga-lhe que não me aborreça. Estou muito velha para andar servindo de instrumento a piratas.

Cléu deu o recado, com outras palavras para não ofender o governo, e então o detetive X B2 explicou que necessitava da autorização de Dona Benta para construir outra linha…

— Segunda linha telefônica? — indagou Cléu, admirada.

— Não, menina abelhuda. Agora será uma linha de transporte aéreo, que nos permita levar para aí as nossas armas e bagagens. Só assim poderemos assestar o canhão-revólver e a metralhadora na escadinha da varanda, de modo a abrir fogo de barragem contra o inimigo, sem dano para os vidros das vidraças de Dona Benta.

— E foi só para pedir tal licença que os senhores levaram tanto tempo construindo esta linha telefônica? — perguntou Cléu, admiradíssima.

— Não discuta os nossos processos, menina impertinente — disse com cara feia o detetive X B2. — O governo sabe o que faz, torno a dizer.

Cléu tapou de novo a boca do aparelho, enquanto consultava Dona Benta.

— Ele pede licença para construir uma nova linha — uma linha de cabos aéreos, como aquela do Pão de Açúcar…

Dona Benta respondeu que fizessem como entendessem e não a incomodassem mais.

Pedrinho estava assombrado da esperteza daqueles homens. Iam construir uma linha de cabos só para levar ao terreiro um canhãozinho e uma metralhadora!… Muitos rinocerontes já haviam sido caçados desde que o mundo é mundo, mas nenhum seria caçado tão caro e com tanta ciência como aquele. Apesar de nunca saídos daqui, tais homens bem que podiam mudar-se para a África, a fim de ensinar aos negros do Uganda como é que se caçam feras…

Tanto tempo levou a construção da linha de cabos aéreos que o rinoceronte se foi familiarizando não só com as pessoas do sítio, como ainda com o pelotão de caçadores. Várias vezes chegou até o acampamento onde farejava com curiosidade o canhão-revólver e a metralhadora, sem saber para que serviam. Numa dessas vezes ajudou os construtores da linha a arrancarem um poste que fora fincado torto, trabalhando tal qual um elefante manso da índia.

Emília tornara-se amiga íntima do animalão. Ia sempre à Figueira-Brava vê-lo pastar arbustos, e com ele entretinha-se horas a ouvir casos da vida africana. Era um rinoceronte de boa paz, já velho, com a ferocidade nativa quebrada por longos anos de cativeiro no circo. Só queria uma coisa: sossego. Por isso fugira do circo e viera esconder-se ali, no silêncio do capoeirão dos Taquaruçus.

— Eles querem matar você — disse-lhe Emília certa manhã. — Trouxeram para esse fim um canhão-revólver e uma metralhadora.

O rinoceronte arrepiou-se todo. Jamais supusera que a atividade daqueles homens e toda a trapalhada das linhas, que andavam assentando, tivessem por fim dar cabo da sua vida.

— Mas por quê? — indagou, em tom magoado. — Que mal fiz eu a essa gente?

— Nenhum, mas você é o que os homens chamam “caça” — e o que é caça deve ser caçado. Quando os homens encontram no seu caminho uma lebre, uma preazinha, um inambu, um pato selvagem ou o que seja, ficam logo assanhadíssimos para matá-lo — só por isso, porque é caça. Mas você não tenha medo que não será caçado. Hei de dar um jeito.

— Que jeito?

— Não sei ainda. Vou ver. Mas não se incomode. Sou jeitosíssima! Dou um jeito de afugentar os homens e você ficará morando toda a vida neste sítio. Já temos em nosso bandinho um quadrúpede, o Marquês de Rabicó, que é leitão, conhece?

— Não tenho a honra.

— Pois é um senhor muito importante, apesar da sua covardia e gulodice (Emília não teve a coragem de contar que Rabicó era seu marido). Tem quatro pés, como você, mas nem um pingo de chifre. Com mais um companheiro, e este de formidável chifre na testa, havemos de pintar o sete pelo mundo…

Emília estava radiante com a idéia de ver o rinoceronte incorporado à família de Dona Benta. Tia Nastácia é que iria ficar tonta de susto…

— E que tenho de fazer nesse bando? — perguntou o rinoceronte, comovido com o oferecimento.

— Nada, por enquanto. Mais tarde, veremos. O pelotão dos caçadores já está com a linha aérea pronta. Breve farão o transporte do canhão-revólver, da metralhadora e do resto. Vão assestar essas armas na escadinha da varanda.

— Devo então continuar a deitar-me na porteira, não é?

— Está claro. Para que eles possam utilizar-se da linha de cabos aéreos é indispensável que você esteja atravessado na porteira.

O rinoceronte não entendia aquilo.

— Mas por que já não transportaram esse tal canhão no tempo que passei sem ir deitar-me à porteira?

— Não sei — respondeu Emília, que de fato não sabia. — Dona Benta também não sabe, nem Cléu, que foi quem conversou com o detetive X B2 pelo telefone, nem Narizinho, nem Pedrinho, nem o Visconde, nem Rabicó — ninguém sabe. Diz Cléu que são “coisas do governo”, um puro mistério.

O rinoceronte ficou pensativo. Devia ser uma bem estranha criatura esse tal governo, que fazia coisas acima do entendimento até da Emília!

Às três da tarde apareceu o animalão no terreiro, indo deitar-se no seu lugarzinho do costume. Grande alegria entre os caçadores. Podiam, afinal, fazer o transporte das armas e bagagens, e também de si próprios, utilizando-se da linha de cabos aéreos, e em seguida dar começo ao ataque à fera. Um entusiasmadíssimo telegrama foi passado para o Rio, nestes termos: “Trabalhos linha aérea brilhantemente concluídos ponto iniciaremos hoje transporte armas e bagagens ponto vitória segura ponto saúde e fraternidade”.

Os jornais publicaram a notícia com grandes elogios aos heróicos caçadores do rinoceronte, que tão bravamente arrostavam os maiores perigos a fim de limpar o solo da pátria daquele perigosíssimo animal. O detetive X B2 foi chamado “impertérrito”, e outros lindos adjetivos que a imprensa só usa para homens de pulso e tremendos heróis do mais alto calibre. Choveram telegramas de parabéns pela beleza dos trabalhos realizados.

Às três da tarde, logo que o rinoceronte se atravessou na porteira, a linha de cabos foi posta a funcionar. Primeiro passou, pendurado em carretilhas, o canhão-revólver. Depois a metralhadora. Depois passaram as munições, a bagagem, as violas e, por fim, os caçadores.

Dona Benta viu, com má cara, toda aquela gente encher o terreiro. Já andava enjoada deles, e quando Tia Nastácia falou em lhes oferecer um café com bolinhos, não consentiu.

— Nada de comedorias — disse ela. — Do contrário esses heróis nunca mais me abandonam o sítio.

— É isso mesmo, sinhá — tornou a preta. — O meu cafezinho parece que tem visgo.

Enquanto os homens descansavam, um tanto desapontados de não aparecer o café com bolinhos, Emília foi secretamente à caixa das munições e trocou a pólvora que lá havia por farinha de mandioca. Em seguida, mandou pelo Visconde um recado muito comprido ao rinoceronte, o qual terminava assim: “… e quando eu soltar um assobio, você levanta-se e dá uma investida de rinoceronte selvagem contra esses homens”.

— E se o rinoceronte errar e investir também contra algum de nós? — objetou com muita sabedoria o Visconde. — Porque aqui da casa ele só conhece você.

Emília refletiu um bocado. Depois:

— Diga-lhe para só chifrar os que não tiverem uma rodela de casca de laranja no peito.

Enquanto o Visconde dava o recado, Emília foi ao pomar com uma faca e trouxe meia dúzia de rodelas de casca de laranja, que colocou no peito de cada morador da casa sem perder tempo em explicar para que era. Só Tia Nastácia insistiu em saber as razões.

— Ah, não quer? — disse Emília. — Sua alma sua palma. Depois não se queixe — e deixou-a sem rodela no peito.

Nisto soou a voz do detetive X B2, dirigida aos seus homens.

— Tudo pronto? — indagava ele.

— Tudo pronto! — responderam os perguntados.

— Então, fogo!

— Parem! Parem! Não ainda! — berrou Tia Nastácia lá de dentro. — Estou procurando algodão para botar nos meus ouvidos e nos de Dona Benta. Onde já se viu dar tiro de peça na escadinha da varanda sem a gente estar com um bom chumaço de algodão nos ouvidos? Credo!

Os artilheiros esperaram que os ouvidos das duas velhas ficassem perfeitamente enchumaçados. Depois, ouvindo de novo a ordem de “Fogo!”, fecharam os olhos e bateram na espoleta.

A decepção foi completa. Em vez dum terrível Bum! que atroasse os ares, o que saiu do canhãozinho foi pirão de farinha de mandioca. O grande tiro falhara da maneira mais vergonhosa. Nesse momento Emília, imitando Pedrinho, meteu dois dedos na boca e tirou um assobio agudíssimo.

O rinoceronte ouviu lá longe. Levantou-se de cara feia e veio, que nem uma avalancha de carne, contra os seus perseguidores.

Soou um berro de pânico misturado com a ordem do detetive X B2 de “salve-se quem puder”. Todos puderam, porque todos se salvaram, como veados, pelos fundos do quintal, imperterritamente. Naquela velocidade, em menos de uma hora estariam no Rio de Janeiro.

Ao alcançar a escadinha, o rinoceronte não encontrou um só inimigo, isto é, uma só pessoa sem rodela de casca de laranja no peito. Minto. Encontrou uma: Tia Nastácia, e ao vê-la sem rodela pensou que fosse cozinheira da gente do governo. Abaixou a cabeça e investiu. A pobre preta mal teve tempo de trancar-se na despensa, onde fez, no escuro, mais pelo-sinais do que em todo o resto de sua vida.

— Toma! — gritou a diabinha da Emília. — Quis ser muito sabida, não é? Pois toma…
––––––––––––-
continua … XII – Rinoceronte familiar
———————
Fonte:
LOBATO, Monteiro. Caçadas de Pedrinho/Hans Staden. Col. O Sítio do Picapau Amarelo vol. III. Digitalização e Revisão: Arlindo_Sa

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José Tavares de Lima (Vozes do Coração) Parte VI – final

A mulher cresce e domina
seu desejo, seu temor;
porém volta a ser menina
quando vive um grande amor!

Aos fariseus não parece,
mas quem crê sabe e sustenta:
– quanto mais humilde a prece,
mais alta a Deus se apresenta!

Aquela canção que outrora
encheu nosso amor de encanto,
depois que te foste embora
serve de fundo ao meu pranto! …

Busco-a com toda ansiedade
porém o destino estreito
não deixa a felicidade
ter espaço no meu peito! …

Cada vez mais terno e amigo,
na verdade o nosso amor
tem muito do vinho antigo
que o tempo apura o sabor!

Chegaste… E a tua chegada
me trouxe o deslumbramento
de uma estrela inesperada
surgindo em céu nevoento!…

Cheia de graça e feitiço
ela diz: “Vê se me esquece”;
sem saber que para isso
em vão já fiz muita prece!…

Desconfia precavido,
até de quem te aconselha,
que há muito lobo escondido
sob o disfarce de ovelha!

Desfez-se o sonho… Partiste …
Fiquei num desgosto infindo …
Mas o que me fez mais triste
foi que partiste… sorrindo…

De volta à minha cidade,
na emoção que me domina,
posso ver uma saudade
me acenando em cada esquina !…

Enquanto entre alguns se expande
a descrença a fé me alcança;
porque esta Pátria tão grande
cabe na minha esperança!

Eu tento, sem pranto ou queixa
tua ausência suportar..
Mas a saudade não deixa
que eu te lembre sem chorar!

Mesmo que a vida aos meus passos,
seja um caminho sem glória,
eu não percebo os fracassos
porque só penso em vitória!

Meu coração se afigura
um triste barco no mar,
carregado de ternura…
mas sem porto onde ancorar!

Não choro a mágoa, a desdita,
que trazem tristeza a tantos,
porque a vida ainda é bonita
mesmo com seus desencantos!

Não volto, orgulhoso, digo,
quando que eu volte ela insiste…
Mas, saudade, ao teu castigo
orgulho nenhum resiste! …

Na vida sou barco ousado
cheio de sonhos e planos,
que sempre acaba encalhado
na praia dos desenganos!

No verde imenso, a cascata
de brancura cristalina,
lembra um caminho de prata
unindo o vale à colina !

Num mundo injusto é mister
que esta justiça se faça:
sem a graça da mulher
nada mais teria graça.

O mundo é enganoso e vão,
porém não deixo de crer
na esperança – esta ilusão
que ajuda a gente a viver!

Para o tormento em que vivo
desde o teu adeus confesso
que só tem um lenitivo:
o teu mais breve regresso!

Partiste… E o pranto que invade
o meu peito dolorido
tem suspiros de saudade,
tem tristezas de gemido! …

Quem diz, na sua cegueira,
que reza em vão, desconhece
que Deus tem sua maneira
de atender à nossa prece…

Quem já venceu nos ensina
que a vitória é mais de quem,
mesmo por entre a neblina,
descobre um sol mais além! …

Quem sofre mas, constrangido
retém a lágrima, ignora
que o tormento é mais dorido
no peito de quem não chora.

Quem sonha as mágoas olvida,
não perde a fé, nem fraqueja,
porque o sonho adoça a vida
por mais amarga que seja….

Riu-me um dia… Desde então,
com seu jeitinho suave,
entrou no meu coração
e deu sumiço na chave!…

Se a luta é penosa, inglória,
não percas a confiança,
que o segredo da vitória
está na perseverança!

Seja um minuto somente,
a ser feliz não me furto;
pois, dos caminhos da gente,
o da ventura é o mais curto!

Se o pranto fosse alegria,
se fosse festa a desdita,
a minha vida seria
uma risada infinita!…

Ser teu príncipe, não digo…
Tais honras nunca sonhei;
mas, nos momentos contigo,
tenho venturas de rei!

Se te aflige um desencanto
recorre à ilusão e sonha,
que a quem sonha não dói tanto
uma verdade tristonha !

Tão forte amor nos enlaça,
e de forma tão perfeita,
que a cada dia que passa
nossa união mais se estreita!

Tendo a graça como tema
e o encanto que o amor requer,
Deus escreveu um poema
que nós chamamos: – Mulher.

Tua ausência me faz ver
a vida tão sem motivo,
que eu vou teimando em viver
mas sem saber porque vivo!…

Vazia de explicação
foi a tua despedida,
mas encheu de solidão
as horas de minha vida!

Volta logo, antes que a espera
transforme, longa demais
meus sonhos de primavera
em suspiros outonais! …

Vou sair de teu caminho…
Percebi que não compensa
dar tanto amor e carinho
em troca de indiferença

Fonte:
Colaboração de Darlene A. A. Silva
LIMA, José Tavares de. Vozes do Coração.

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Ialmar Pio Schneider (Soneto a Canoas)

Município criado em 27 de junho de 1939

Altaneira cidade do progresso
rumo ao destino imenso te projetas;
das indústrias, fenomenal complexo,
exemplo de trabalho em tuas metas !

E irás rompendo curvas pelas retas
do amanhã promissor e do sucesso,
a fim de proclamarem os poetas
que em teu avanço não terás regresso…

Jovem ainda, contas com o vigor
de teus filhos natos e adotivos,
cada qual dedicado ao seu labor

para te verem mais engrandecida
em teus empreendimentos e atrativos;
e onde transcorra normalmente a vida.

Fontes:
Soneto enviado pelo autor
Imagem obtida em http://cathy.spaceblog.com.br

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Arquivado em homenagem, Soneto.

Canoas (Rio Grande do Sul)

Etimologia

Durante a construção da estrada de ferro que ligava Porto Alegre a São Leopoldo, inaugurada em 1874, uma timbaúva (Enterolobium contortisiliquum) foi aproveitada na antiga fazenda de Gravataí para construir embarcações. O lugar passou a ser chamado de Capão das Canoas, e deu origem ao nome do povoado. Ela também é a árvore símbolo do município

História de Canoas

A área onde hoje se localiza o município de Canoas era habitada pelos índios Tapes, quando em 1725 chegaram à região os tropeiros lagunistas e com eles o povoador e conquistador Francisco Pinto Bandeira. Em 1733 ele ocupou as terras e criou a Fazenda Gravataí, que foi herdada por Rafael Pinto Bandeira e mais tarde por Josefa Eufália de Azevedo (A Brigadeira). Posteriormente essas terras foram repartidas e vendidas.

Em 1871 a construção da estrada de ferro que ligaria São Leopoldo a Porto Alegre tem início. O primeiro trecho da ferrovia foi inaugurado em 1874 e na atual área de Canoas foi construída uma estação. O povoamento da região tem início em torno desta estação férrea, que ficava no centro da Fazenda Gravataí.

Os homens da guarda da estação utilizaram uma grande árvore na construção de uma canoa para o serviço da sede, situada às margens do rio dos Sinos. Outras canoas foram feitas com árvores do mato que havia no local que, por esse motivo, ficou conhecido como Capão das Canoas, o que originou o nome da estação, do povoado e, posteriormente, do município.
Estação férrea de Canoas em 1874.

O major Vicente Ferrer da Silva Freire, proprietário da Fazenda Gravataí na ocasião, aproveitou a viação férrea para transformar suas terras em um lote de chácaras de veraneio, que ele pôs à venda. Ponto de referência obrigatório, o local passou a ser designado como Capão das Canoas. Logo, as grandes fazendas foram perdendo espaço para as pequenas propriedades, chácaras e granjas.

Em 1908, Canoas foi elevada a Capela Curada. No mesmo ano vieram os irmãos Lassalistas e criaram uma escola agrícola, de ensino primário e de ensino secundário no centro da cidade. Em 1937, foi criada o 3º Regimento de Aviação Militar (RAV), hoje o 5º Comando Aéreo Regional (V Comar), isto foi decisivo para que ocorresse a emancipação do município. Victor Hugo Ludwig levou ao general Flores da Cunha, interventor federal no estado, as razões da emancipação.

A emancipação de Canoas ocorreria somente em 27 de junho de 1939. No dia 20 de março de 1992, a cidade perdeu seu 2º Distrito que, emancipado, se tornou o município de Nova Santa Rita.

A partir dos anos 1970, a economia e a população cresceram muito rapidamente. Pouco tempo depois a cidade já era grande, e hoje é a segunda maior economia do estado.

GEOGRAFIA

A geografia de Canoas é bem diversificada. A paisagem dominante é a da zona urbana, mas em alguns pontos isolados do município podem-se encontrar florestas, grandes bosques e um cenário parecido com os semidesertos.

O solo é pobre devido ao alto desgastamento e ao alto nível de poluição, por isso apenas plantas nativas sobrevivem, sendo que as demais plantas precisam de um tipo especial de terra. Canoas é banhada por dois rios, o rio dos Sinos e o rio Gravataí, além de estar na zona do Delta do Jacuí. O município também é banhado por diversos arroios e lagos, alguns poluídos e outros intactos. Na agricultura é dado o incentivo à produção de hortifrutigranjeiros, mas também são produzidos leite, lã, ovos e mel no município.

CULTURA

A cultura vem se desenvolvendo a pouco tempo na cidade. As atividades culturais ocorrem principalmente no sábado e no domingo. Cada bairro, com exceção da Ilha das Garças, tem seu próprio monumento ou uma praça simbólica, às vezes feitas até por moradores locais. O movimento cultural mais popular do município é a festa de Nossa Senhora do Caravaggio quando se reúnem milhares de fiéis nas ruas para comemorar o dia da santa.

Outros acontecimentos do município também atraem muitos visitantes, como o Carnaval, o Encontro dos corais, a Feira do Livro, o Festival de Ginástica e Dança

A Fundação Cultural de Canoas foi criada para preservar e promover a cultura no município e resgatar a cultura do povo canoense. Com a criação da Trensurb, a perda da identidade histórica do município era iminente por isso no dia foi 20 de novembro de 1984 ela foi criada. O prédio foi cedido em conseqüência de um contrato entre a Prefeitura Municipal e o Trensurb. A partir desta data começaram as atividades nas áreas de Literatura, Artes Plásticas, Teatro e Cinema, Folclore, Música e Dança. Na nova Lei Orgânica, a prefeitura cedeu verbas para que um capítulo importante do município não fosse perdido. Mas em 15 de abril de 2009 foi extinta dando lugar a Associação Cultural de Canoas-ASCCAN que tem por finalidade preservar e promover a fruição cultural através do apoio de associados, comunidade e parcerias com o público e privado. Hoje a ASCCAN realiza cursos de pintura e desenho, aulas de violão, guitarra, cavaquinho, danças entre outras atividades. O município promove Concurso de Literatura, que têm como objetivo premiar autores do município de outras regiões do Brasil e dos países que falam a língua portuguesa. O concurso abrange temas como conto, crônicas e poesias. Também ocorre a Feira do Livro.

Canoas também dispõe de algumas bibliotecas para pesquisas, sendo três as mais importantes: Biblioteca Pública Municipal João Palma da Silva (localizada em novo endereço desde maio de 2009, Rua Ipiranga, 105), Biblioteca Martinho Lutero (Ulbra) e a Biblioteca da Unilasalle. Existem no município nove CTGs, que incentivam a prática das tradições do Rio Grande do Sul no município. Os principais centros de tradições são o CTG Brasão do Rio Grande, a GPF Aldebarã, o CTG Mata Nativa, a DTG Morada de Guapos, a DTG Periquitos Amadores do Chasque, a GAG Piazitos do Sul, o CCT Rancho Crioulo, o CTG Raízes da Tradição e o CTG Sentinela do Rio Grande.

O teatro ainda vem se desenvolvendo lentamente, apesar de Canoas abrigar a AGTB (Associação Gaúcha de Teatro de Bonecos). A Fundação Cultural promove a Amostra de Cine-Vídeo de Canoas, com o objetivo de estimular o talento e a criatividade de profissionais e amadores que produzem cinema e vídeo no município. Dos filmes da última edição da amostra podem-se citar a Casa do Poeta de Canoas, de Maria Riggo; Os Donos da Ladeira, de Cláudio Piedras; Summertime, de Cláudio Piedras; Não Tem Preço, de Marcos Vinícius Cardoso Ribeiro; Siglas do Golpe, de Antônio Jesus Pfeil e Perturbação, de Cláudia Ávila.

O município oferece vários museus, que abrangem diversas áreas e assuntos, para pesquisa e visualização. Na semana nacional do museu o evento atrai um grande número de pessoas ao Museu Municipal do município e a atração mais procurada é a História do município. O público também se interessa pelo município desde sua urbanização até os dias atuais. Eis alguns museus presentes no município: Museu do Automóvel da ULBRA, Museu da Tecnologia da ULBRA, Museu de Ciências Naturais (Unilasalle), Museu e Arquivo Histórico La Salle, Museu Dr. Sezefredo Azambuja Vieira (Museu Histórico de Canoas)

O projeto Canta Brasil, no Mathias Velho, promove a dança e a música para jovens do bairro e sem nenhum custo. O projeto cultural já está sendo reconhecido na região.

O Carnaval de Canoas é um evento bastante conhecido na região e a partir de 2008 será um evento oficial e com o apoio da prefeitura.[22] O carnaval sempre atrai um grande número de pessoas do município. Canoas município possui ainda um sambódromo, localizado no Parque Esportivo Eduardo Gomes, onde as escolas do município se reúnem para o desfile. São onze as escolas de samba que participam do desfile no município: Acadêmicos da Grande Rio Branco, Acadêmicos de Niterói, Estado Maior da Rio Branco, Guardiões do Bom Sucesso, Imperatriz da Grande Niterói, Império da Mathias, Nenê da Harmonia, Nossas Raízes, Os Tártaros, Rosa Dourada e a Unidos do Guajuviras.

Canoas possui um número razoável de áreas de lazer para oferecer a seus habitantes. O município possui grandes parques e muitas praças (cerca de 113), mas nos bairros mais pobres ainda existe uma necessidade muito grande de locais que proporcionem lazer a sua população. O feriado municipal de Canoas é em Janeiro e é comemorada a Nossa Senhora dos Navegantes.

Entre os principais centros de lazer do município, estão os seguintes: Parque Municipal Getúlio Vargas (Capão do Corvo), Parque Esportivo Eduardo Gomes (Parcão), Canoas Country Club (somente para associados), Centro Olímpico Municipal e outros diversos. No interior do Parque Getúlio Vargas se localiza o Jardim Zoológico Municipal de Canoas (Minizôo).

Hino de Canoas

Em 24 de junho de 1965, a Lei Municipal 986 oficializou o hino composto por Wilson Dantur e Pedro Reinaldo Klein como o Hino do Município de Canoas.

Brava gente, canoense
Sob o sol tu surgirás
Pela grandeza do teu esforço
Só vitórias nos darás.

Teu escudo é a ordem
Tua força a união
O teu lema é o progresso
Pela grandeza da nação.

(Estribilho)
Canoas minha terra
Município de valor
Coração que dentro encerra
Tanta bravura tanto amor.

O teu povo, altaneiro
Vem cumprindo a sua missão
No caminho de luta e glória
Vem honrando a tradição.

São Luís, padroeiro
Deste povo varonil
Abençoai e protegei
Este pedaço do Brasil.

Fontes:
Wikipedia
Prefeitura de Canoas

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III Encontro Catarinense de Escritores em setembro


A pequena e pacata cidade de Alfredo Wagner na região serrana de Santa Catarina receberá, no mês de Setembro, escritores de diversos países, estados e cidades. Será o III Encontro Catarinense de Escritores e o I Encontro Internacional de Escritores de Alfredo Wagner e Região nos dias 2 e 3 de Setembro de 2011 na Sociedade Recreativa União Club na Praça da Bandeira, S/N.

O Encontro receberá muitos escritores que já estão se cadastrando. Destacamos especialmente a presença do Dr. Mário Carabajal Lopes, Presidente da Academia de Letras do Brasil; da Prof. Dra. Lorena B. Ellis da Queensborough Community College, da Universidade de Nova York; do Dr. Prof. Ramesh Chandra, Fundador e Diretor da Ambedkar Center for Biomedical Research, da Universidade de Delhi, ìndia; do Eng. Altair Wagner, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, Fundador da Fundação Alfredo Henrique Wagner que mantem o Museu Arqueológico da Lomba Alta e membro fundador e vicepresidente da Academia de Letras do Brasil/SC municipal Alfredo Wagner; da Poetisa Neida Rocha, Coordenadora do Núcleo UBE – Canoas/RS e presidente da Academia de Letras do Brasil/RS, municipal Canoas;
Entre os palestrantes os alunos da Universidade do Planalto Catarinense, que estão se formando no curso de Letras, terão um espaço para apresentar seus trabalhos.

Cabe destacar que a Dra. Lorena Balensifer Ellis virá ao III Encontro para conhecer escritores, entrevista-los e inclui-los na Revista Virtual de Cultura Hispanoamericana e divulgar suas obras. Tornando-se uma ocasião importante para que escritores brasileiros tenham suas obras divulgadas a nível internacional.

A Academia de Letras do Brasil/SC municipal Alfredo Wagner, em Sessão Solene durante o Encontro, entregará diplomação para iniciativas e ações que visem o desenvolvimento humano e sóciocultural no município e no Estado.

Participe você também do III Encontro Catarinense de Escritores e o I Encontro Internacional de Escritores de Alfredo Wagner e Região. Acesse http://www.encontrodeescritores.com.br e faça sua inscrição.

Fonte:
Poetas del Mundo

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José Faria Nunes (A Pessoinha)


Borgelândia, cidade histórica dos tempos do império. A rodoviária mais parece cena de filme de terror. Tudo velho e sujo: dependências de administração, guichês e uma lanchonete em cima, com acesso por mal conservadas escadarias. Embaixo, os boxes dos ônibus e estacionamento. Chega ônibus, sai ônibus, menos o que vem da capital. Impaciente, Danilo caminha de um lado para outro. Vai ao bar do outro lado da rua, volta, vai ao banheiro, aos boxes de embarque e desembarque. O ônibus já tem mais de hora de atraso. A passageira que Danilo espera é gente importante, cunhada do senador amigo do prefeito. Danilo tem que fazer das tripas, coração, e esperar. Levá-la para Carneirópolis, pequena cidade a umas duas horas dali. Sendo quem é a passageira, o prefeito jamais permitiria que ela fizesse aquele trajeto de ônibus, chão batido em boa parte da estrada.

Emprego difícil, Danilo reconhece que em suas condições tem que agüentar todo tipo de imposição. Até sujeitar-se, mesmo fora do horário de trabalho, a ficar ali parado, a esperar por alguém de quem apenas sabe o nome.

– Dona Rosenilda – disse o prefeito.

Danilo sabe que foi ele o escolhido para buscar a preciosa encomenda por ser, na equipe de motoristas, o de mais fino trato. Concluiu o ensino médio pelo projeto EJA. Se parece privilégio, para ele é mais castigo. Preferiria estar em casa com a família ou no Bar do Guim jogando uma canastrinha.

Na Prefeitura todos têm horário de chegar e de sair do trabalho. Os motoristas, assim como Danilo, não. Pior! Não recebem horas extras. Reclamar à Justiça do Trabalho? Nem pensar. Vai pra rua e ainda fica queimado. Ninguém mais lhe daria emprego.

– Ufa! Até que enfim! – Exclama Danilo, aliviado com a chegada do ônibus.

O carro, um Santana herdado da administração anterior, desliza suave e rápido pelo asfalto recapeado na véspera das eleições do primeiro domingo de outubro. Ao lado do motorista, a passageira permanece calada, desde a rodoviária. Poucas palavras trocaram.

– O prefeito disse que a senhora se chama Rosenilda.

– Roseni. Pode me chamar Roseni. Acho melhor. E não precisa me chamar “senhora”. Gosto de respeito, mas pode me chamar apenas Roseni.

Fala em tom terminativo e de autoridade. Danilo percebe a conveniência de permanecer calado. Como lhe ensinou o pai, deve-se falar com estranhos apenas quando tiver algo para dizer melhor que o silêncio. Vale a receita do velho.

Mudos, olham para o asfalto à frente descortinando-se pelo farol alto do carro que corta a escuridão. Ao longe, fagulhas de luz acendem fdaíscas de luz no céu. Daqui a pouco serão labaredas, prenúncio de tempestade.

Embora plantações e pastagens estejam necessitando de chuva, Danilo torce para que ela espere que eles cheguem primeiro. No asfalto, a chuva não seria problema. Na estrada de chão, a situação é outra. Há uns trechos críticos. Poderão encravar.

Os raios riscam o céu com mais intensidade e agora mais perto. Os trovões ressoam, como se o seu controlador estivesse nervoso. O motorista imagina o pior, a chuva deve chegar logo. E depois só Deus sabe do que poderá acontecer.

Enquanto a passageira dorme – ou finge dormir – Danilo percebe, pelo retrovisor, a luz alta dos faróis de outro veículo. Ele avança rápido e, em segundos, como um raio ou uma nave espacial, ultrapassa-os e some de vista à frente.

A placa de sinalização anuncia a proximidade da entrada para Carneirópolis. Danilo desacelera o veículo que perde velocidade. Seta para a esquerda, o carro quase parando, adentra-se pela estrada de chão que, na campanha eleitoral, ganhou promessa de asfaltamento pelo governador que se reelegeu.

Agora acordada a passageira ilustre reclama das bacadas:

– O senhor não pode ter mais cuidado?

– Tô fazendo o possível, dona. É que os buracos são grandes e muitos.

Ela fica a resmungar. Danilo finge nada ouvir, até porque nada tem a dizer e nem a ver com aquela situação. Ele mesmo tem suas críticas aos políticos, mas não as exterioriza fora da intimidade dos amigos. Questão mais de prudência e um pouco de respeito e reconhecimento pelo emprego. O mísero emprego que lha garante o aluguel do barraco, água, luz e o alimento para a mulher e três filhos. Lazer? Dinheiro não sobra.

Pela estrada de chão, agora já a alguns quilômetros da rodovia asfaltada, sem mais e sem menos o carro perde força do motor. Danilo reluta mas o motor apaga. E o carro pára.

Em volta o cerrado ermo que ele conhece bem. Estão pertos do cemitério dos heróis da guerra do Paraguai. O cemitério não o incomoda. Se tiver que ter medo, tem dos vivos, não dos mortos. Mortos não voltam para fazer mal a ninguém. Nem mal nem bem. Eles estão na deles, bem ou mal, onde quer que estejam. Danilo até duvida se há outra vida após a morte. Ainda que haja, nada tem a temer. Não faz mal a ninguém, vive em paz com todos. Alguns probleminhas com os credores, mas nada sério. Verdade que matou um homem, porém em legítima defesa. Até o promotor pediu sua absolvição. Ganhou só bolas brancas. Até a família da vítima reconheceu que ele, Danilo, era o menor culpado. Por que, então, se preocupar?

Chave de ignição e pés no acelerador. Nada consegue. Tem que dar um jeito. Ali parado no meio do cerrado é que não podem ficar. Ainda mais com aquela mulher importante, cunhada do senador. O que o prefeito iria dizer? Talvez até pudesse custar-lhe o emprego. Não, o emprego não. Ele não tinha culpa. Fez revisão no carro antes de sair de viagem, tudo nos conformes. E o prefeito iria acreditar nele? O que aquela mulher poderia dizer? Ali parados no cerrado, sem água, sem comida. Não comeram na rodoviária, preferiram ganhar tempo, chegar logo em casa. Sede não vão passar, o córrego está perto. O que não pode é ficar ali no mato sem cachorro.

Pega a lanterna no porta luvas, desce, vai ver o motor. Abre o capô, tudo lhe parece normal. Ainda inclinado sobre o motor, sente um toque em suas costas. Deve ser a passageira querendo lhe dizer algo, talvez pedir um tempinho para fazer xixi. Vira para dar-lhe atenção. Com a luz da lanterna vê em sua frente uma criança com jeito e trejeitos estranhos. A cara, uma mistura de chinês, coreano, japonês e de extra-terrestre. Talvez nada disso. Lembra-se da personagem que ele viu no filme da TV.

Perde a voz e as forças. Sem ação fita aquela pessoinha. Ato contínuo a pessoinha começa a mudar de cor, ganha uma áurea de luz e ele se sente como se adormecesse. Ao retornar-se à consciência, libertando-se da hipnose, percebe estar em um ambiente estranho com máquinas estranhas, pessoas estranhas, fazendo-lhe lembrar um laboratório. As pessoas, algumas como a Pessoinha, outras pareciam pessoas normais e falantes lusófonos. Ele próprio, Danilo, se sente estranho. Roupas diferentes das suas. O corpo, a princípio bambo, aos poucos ganha energia, uma energia que antes desconhecia. Ação do laser vindo de um ponto no teto direto a um botão de seu estranho casaco, mais parecido uma camisola de hospital.

Sente-se bem quando surge novamente a Pessoinha à porta e, com gesto, indica-lhe que o acompanhe. Ele segue a Pessoinha e, sem nada entender. Mal sente os passos. Como em um sonho. Mas convicto de que é real, segue como se em uma onda rumo à praia. Desliza suave, tranqüilo, apenas a mente percebe a transição. Como se levitasse.

Vê-se novamente junto ao carro. Â Pessoinha desapareceu como uma sombra ao chegar a luz. Entra, liga-o. A passageira ilustre nada percebe. Imagina ter sido uma simples parada para o motorista tirar água do joelho. E prosseguem para Carneirópolis.

Uma aeronave a esbanjar luz corta o espaço sobre eles. Velocidade escomunal. Seria um Miraje da base de Anápolis?

No veículo a caminho de Marte a tripulação comenta o êxito da pesquisa em curso na Terra. Em Carneirópolis o prefeito espera a convidada com uma festa. Danilo vai para casa jantar na companhia da esposa e dos filhos.

A pessoinha continua em sua memória como em um sonho.

Fontes:
Texto enviado pelo autor

Imagem obtida na Universidade Federal de Juiz de Fora

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Monteiro Lobato (Caçadas de Pedrino) X – O Rio de Janeiro é avisado


Dona Benta enviou um telegrama para o Rio de Janeiro que dizia assim: “Meus netos acabam de informar-me que o famoso rinoceronte, que andam procurando pelo país inteiro, acha-se escondido nas matas deste meu sítio. Encarecidamente peço providências imediatas. Benta de Oliveira”.

Cléu, a quem ela ditara o telegrama, observou que era bom mudar a assinatura para Dona Benta de Oliveira, avó de Narizinho e Pedrinho e dona do Sítio do Pica-Pau Amarelo, pois do contrário lá no Rio todos ficavam na mesma. Bentas de Oliveira há muitas e “meus sítios” também há muitos.

Dona Benta concordou.

— Façam como quiserem, mas que o telegrama siga quanto antes. Chamem um camarada do compadre Teodorico para o levar à cidade, no galope.

O telegrama foi passado naquele mesmo dia. Na manhã seguinte veio a resposta: “Seguem forças armadas sob comando detetive X B2”

Fazia dois meses que o governo se preocupava seriamente com o caso do rinoceronte fugido, havendo organizado o belo Departamento Nacional de Caça ao Rinoceronte, com um importante chefe geral do serviço, que ganhava três contos por mês e mais doze auxiliares com um conto e seiscentos cada um, afora grande número de datilógrafas e “encostados”. Essa gente perderia o emprego se o animal fosse encontrado, de modo que o telegrama de Dona Benta os aborreceu bastante. Em todo caso, como outros telegramas recebidos de outros pontos do país haviam dado pistas falsas, tinham esperança de que o mesmo acontecesse com o telegrama de Dona Benta. Por isso vieram. Se tivessem a certeza de que o rinoceronte estava mesmo lá, não viriam!

Certa manhã, quando Tia Nastácia se levantou de madrugada e foi abrir a porta da rua, deu com o animalão a vinte passos de distância, olhando para a casa com os seus olhos miúdos. A negra teve um faniquito dos de cair desmaiada no chão. Ouvindo o baque de seu corpo, todos pularam da cama — e foi uma dificuldade fazê-la voltar a si. Desmaio de negra velha é dos mais rijos. Por fim, acordou e, de olhos esbugalhados, disse num fiozinho de voz:

— O canhoto já foi embora?

Ninguém sabia do que se tratava, porque ninguém ainda havia olhado para o terreiro.

— Que canhoto é esse? — indagou Dona Benta.

— O tal de um chifre só na testa — respondeu a negra.

— Estava aí fora quando abri a porta…

Só então os meninos espiaram pela janela e viram que o rinoceronte estava, de fato, no terreiro. Mas quieto, de cara pacífica, sem mostra nenhuma de ânimo agressivo. Olhava para a casa com toda a atenção, como se entendesse de arquitetura rural — isto é, de arquitetura de casas da roça. Depois, mansamente, dirigiu-se à porteira e lá se deitou de atravessado.

— Pronto! — exclamou Narizinho. — Atravessou-se na porteira e quero ver agora quem entra ou sai. Estamos bloqueados…

A aflição de Dona Benta aumentou. Viu que, de fato, estavam com a saída do sítio bloqueada por aquele monstruoso animal que parecia não ter a mínima intenção de afastar-se dali.

Nesse momento viram um grupo de homens que se aproximavam.

— São eles! — gritou Cléu. — São os homens da polícia secreta que receberam o nosso telegrama. Secretas a gente conhece de longe!…

E eram. Era o famoso grupo dos Caçadores do Rinoceronte, que se formara logo em seguida à fuga do misterioso paquiderme e que vinha percorrendo o país inteiro em sua procura. Comandava-os o espertíssimo detetive X B2, que tinha lido todos os fascículos das Aventuras de Sherlock Holmes existentes nas livrarias. Esses homens traziam consigo numerosas armas e armadilhas próprias para caçar rinocerontes — mundéus desmontáveis, ratoeiras de gigantescas proporções, correntes de aço, um canhão-revólver e uma metralhadora. A única coisa que não traziam era intenção real de apanhar o monstro.

Assim que chegaram ao pasto do sítio e deram com o enorme paquiderme atravessado na porteira, começaram a discutir se atiravam ou não. Um queria que se empregasse o “mundéu desmontável”. Outro queria que se armasse a “ratoeira gigante”. Por fim, o detetive X B2 decidiu empregar o canhão-revólver.

— Atirem — disse ele —, mas com pontaria que não venha a prejudicar os nossos empregados.

Disse e piscou. O que todos queriam era passar toda a vida caçando aquele mamífero.

Mas a Emília, que tinha terríveis olhos de retrós, viu de longe a piscadela cavorteira e percebeu a manobra.

— Vão atirar e errar! — gritou ela muito contente, porque já estava criando amor ao “seu rinoceronte” e não queria que lhe estragassem o couro com um furo de bala; apenas admitia que o caçassem vivo.

Ao ouvir aquilo Dona Benta protestou.

— Então não quero! — disse ela. — Se esses homens não têm boa pontaria, as balas podem passar por cima do alvo e virem quebrar algum vidro das nossas vidraças. Não quero!… E voltando-se para a Cléu, que tinha muito boa letra e sabia escrever com todos os ‘Fs’ e ‘Rs’:

— Escreva uma carta ao chefe daqueles caçadores dizendo que não admito que atirem de lá para cá. O Visconde que leve a carta.

Cléu escreveu a carta sem um erro, e pediu ao Visconde que a levasse. Como fosse pequenininho, o Visconde podia passar por trás do rinoceronte sem ser percebido — e ainda que fosse percebido e devorado não fazia mal, pois que era de sabugo e havendo muitos sabugos no sítio, Tia Nastácia num momento fazia outro Visconde.

O nobre mensageiro nem se deu ao trabalho de passar por trás do monstro. Subiu por cima dele como quem sobe um morro, e desceu do outro lado sem ser percebido. Depois foi correndo entregar a carta. Chegou no instantinho em que o artilheiro ia disparar o canhão.

— Alto! — gritou o detetive X B2. — Deixe-me primeiro ler esta carta.

Leu a carta, elogiou a boa letra e depois disse aos seus homens:

— A dona da propriedade não quer saber de tiros daqui para lá. Diz que as balas poderão quebrar os vidros das suas vidraças. Acho que ela tem toda a razão.

— Nesse caso, que fazer? — perguntou o artilheiro.

— Temos de passar para o lado de lá. Podemos colocar o canhão e a metralhadora na escadinha da varanda. Desse modo, se houver balas perdidas, poderão apenas alcançar algum macaco na floresta, lá longe.

Muito bem. Mas como atravessar para o outro lado, com o canhão e a metralhadora, se a única passagem era pela porteira, e o inimigo estava deitado ali, de través? O problema tornava-se dos mais sérios. Requeria estudos. O detetive X B2 reconcentrou-se cheio de rugas na testa, a refletir. Refletiu e, depois de muito refletir, disse:

— Antes de mais nada, temos de construir uma pequena linha telefônica que nos ponha em comunicação com a gente do sítio, a fim de que eu possa debater o caso com a Senhora Dona Benta e agir de acordo com ela e os demais moradores. Assim, por meio de cartas, a coisa levará toda a vida. Não há como o telefone para as comunicações rápidas. Vou telegrafar para o Rio de Janeiro, pedindo a remessa do material necessário para a construção duma linha telefônica.

Resolvido isso, retiraram-se todos para a vila próxima, onde ficaram tocando violão e contando casos pândegos até que o material encomendado chegasse. Isso levou um mês. Mas afinal chegou, e o detetive deu ordem para que no dia seguinte os trabalhos fossem iniciados.

Na manhã do dia seguinte os moradores do sítio viram reaparecer no pasto os caçadores do governo, seguidos duma turma de operários com rolos de arame, postes e mais coisas telefônicas. Nesse dia, porém, o rinoceronte falhou de vir deitar-se de atravessado na porteira, como era seu costume. O trânsito estava completamente livre.

— Ué! — exclamou o detetive X B2, muito admirado. — Para onde terá ido o malandro do rinoceronte?

Dirigiu-se à casa para falar com Dona Benta.

— Como foi isso, Dona Benta? — disse ele, subindo à varanda. — Deixei o rinoceronte deitado na porteira e agora não encontro o menor sinal do bicho.

Dona Benta explicou tudo quanto sucedera durante as semanas em que eles estiveram tocando violão na vila. O rinoceronte adquirira o hábito de passar o dia na Figueira-Brava, só vindo deitar-se à porteira lá pelas três horas da tarde.

— Chega sempre a essa hora, deita-se e fica a cochilar até à noite — explicou a boa senhora. — É um animal bastante sistemático.

— Bem — disse o detetive —, nesse caso teremos toda a manhã livre para trabalharmos na construção da linha telefônica.

Dona Benta arregalou os olhos.

— Que linha telefônica é essa? — perguntou.

— A linha que resolvemos construir para ligar esta casa ao nosso acampamento. Como naquele dia o rinoceronte estivesse atravessado na porteira, impedindo a passagem, eu não pude discutir com a senhora vários assuntos importantes. Tive então a excelente idéia de construir essa linha, com os fios passando por cima do “obstáculo”.

Dona Benta admirou-se da complicação.

— Sim — disse ela —, mas já que o senhor pôde chegar até aqui, creio que a linha telefônica já não é mais necessária.

O detetive sorriu da ingenuidade da velha e explicou que o material já havia chegado e que, portanto, a linha ia ser construída. Terminou piscando o olho vermelho e dizendo: — O Departamento Nacional de Caça ao Rinoceronte sabe o que faz, minha senhora.

— Pois façam lá como entenderem — concluiu Dona Benta. — Não entendo de tais serviços, nem quero entender. Aqui estamos nós para prestar aos senhores toda a ajuda possível. O que quero é que o quanto antes me livrem desse animalão. Mas, meu caro senhor, esse negócio não está me parecendo sério…

O detetive sorriu indulgentemente e respondeu:

— É que a senhora não conhece as condições. Para nós é um negócio da maior importância, visto como dele tiramos o pão de cada dia…
––––––––––––-
continua … XI – Inaugura-se a linha
———————
Fonte:
LOBATO, Monteiro. Caçadas de Pedrinho/Hans Staden. Col. O Sítio do Picapau Amarelo vol. III. Digitalização e Revisão: Arlindo_Sa

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 257)

Eduardo Bajzek Barbosa
(pintura em aquarela -Ronda/Espanha)
Uma Trova Nacional

Na vida a gente imagina
tudo poder suplantar.
Olho os seus olhos, menina,
já começo a fraquejar.
–GILSON FAUSTINO MAIA/RJ–

Uma Trova Potiguar

Não sou chegado a festança,
mas se algo me satisfaz,
é quando eu entro na dança
pra dela não sair mais.
–ZÉ DE SOUZA/RN–

Uma Trova Premiada

2008 – Bandeirantes/PR
Tema: AUDÁCIA – M/E.

Um dia, mesmo te amando,
meu coração se calou
e eu passo a vida chorando
a audácia que me faltou!
–ARLINDO TADEU HAGEN/MG–

Uma Trova de Ademar

Tenha sempre isso na mente
pois serve pra vida inteira:
a verdade é permanente
e a mentira é passageira.
–ADEMAR MACEDO/RN–

…E Suas Trovas Ficaram

Vi, na página primeira,
de um velho livro que eu lia,
que a saudade é companheira
de quem não tem companhia…
–VASQUES FILHO/PI–

Simplesmente Poesia

–DELCY CANALLES/RS–
Ser Triste…

Todos querem saber
por que sou triste
e esta mania de andar
sozinha?
Alguém sabe, em verdade,
por que existe,
ou cala, ou fala,
ou para, ou caminha?
Existe um sentimento
assaz profundo,
que me causa ansiedade,
angústia e dor,
que me joga com força
neste mundo
de indiferença,
fome, desamor!

Estrofe do Dia

Quantos homens pregaram liberdade
ensinando a viver com união,
o amor, a justiça e o perdão
mas esquece na hora da verdade;
não entende o que é a caridade
e nem sabe o que é ser coerente,
porque toda pessoa prepotente
contradiz tudo aquilo que falou;
quem não vive a verdade que pregou
é um Judas traindo outro inocente.
–LÚCIA LAURENTINO/PB–

Soneto do Dia

–RACHEL RABELO/PE–* e GILMAR LEITE/PE–**
Recomeço

Repousei cada medo na verdade
Para lhe mostrar meu interior.
Vou buscando no Ser superior
Os caminhos pra minha liberdade.*

É preciso buscar profundidade
Onde a vida demonstre seu valor;
Renovar o viver com mais vigor
Avançar, sem temer qualquer maldade.**

O perdão, um pilar pro recomeço!
Os carinhos, afagos, não esqueço.
São as fontes sutis do coração. *

Renascer no perdão a consciência,
E plantar a mudança na existência
Irrigando os atos com atenção.**

Fonte:
Textos enviados pelo Autor

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 256)


Uma Trova Nacional

O Sol e a Lua se amaram
às escondidas, ao léu!
Tempo depois, despontaram
milhões de estrelas no céu!
–DORALICE GOMES DA ROSA/RS–

Uma Trova Potiguar

Quando os versos vão rimando
na mais perfeita harmonia,
a trova vai se tornando
a mais linda sinfonia.
–IVANISO GALHARDO/RN–

Uma Trova Premiada

2006 – Amparo/SP
Tema: RESPEITO – M/H.

Em vez de grito e pancada,
quando um filho se excedia,
meu pai só dava uma olhada
– e a gente logo entendia!
–PEDRO ORNELLAS/SP–

Uma Trova de Ademar

A grande dor da saudade,
disse alguém experiente:
dói o dobro da metade
dentro do peito da gente.
–ADEMAR MACEDO/RN–

…E Suas Trovas Ficaram

Nasceu na Terra a Bondade,
por ordem do Criador.
Tem por mãe a Caridade
e tem como pai o Amor.
–MARIINHA MOTA/SP–

Simplesmente Poesia

–CELINA FIGUEIREDO/MG–
Apelo

Força que anima
meu viver sem vida,
doce miragem
a embalar meus sonhos,
deixa ao menos
eu seguir teus passos
e, na poeira que teus pés levantam,
sufocar o pranto de esperança,
matar para sempre esta paixão.

Estrofe do Dia

Contemplar as sextilhas do nordeste
é um prazer nessas tardes catarinas,
o valor e a riqueza de seu povo
a cadência de seus versos bem ensina,
vai assim, seduzindo quem as lê
alcançando com louvor a sua sina.
–ELIANA RUIZ JIMENEZ/SC–

Soneto do Dia

–MARIA JOSÉ FRAQUEZA/Portugal–
Meu Portugal Eterno

Tanta foi a tormenta e a vontade
Dos nobres e valentes marinheiros
Vencendo as ondas com heroicidade…
Só tendo Céu e Mar… Por companheiros

Somente a Fé em Deus, na unidade
Nas rotas de mais luz, dos mensageiros
Guiados p’las estrelas, seus luzeiros…
E o coração batendo de Saudade!

Em Terra, seu Infante lá ficara…
E na réstea do Sonho que deixara
A mensagem mais bela renascida.

É que lá longe… firme, o pedestal
Ergue-se nosso herói sempre imortal
De Portugal maior, além da Vida!

Fonte:
Textos e imagem enviadas pelo autor

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V Concurso Literário "Cidade de Maringá" (Sonetos Vencedores = Troféu Antonio Mestriner)


ALBA HELENA CORRÊA (Niterói/RJ)
Um Celeiro Diferente

No meu “celeiro”, vou acumulando
os grãos do meu viver, tão variados…
Eu colho o que plantei, amontoando
sementes de atos certos e de errados.

Eu sou um lavrador, tenho o comando,
poderes que, por Deus, me foram dados,
mas surgem pelo chão, de vez em quando,
joios, que em meu trigal são infiltrados.

Que eu não descuide, pois, da sementeira,
esteja vigilante a vida inteira,
arranque ervas daninhas com vigor.

Transborde o meu “celeiro” de carinho
e, ao partir, restem messes no caminho
– frutos do que plantei com muito amor!

EDMAR JAPIASSÚ MAIA (Rio de Janeiro/RJ)
Gota a Gota

Um pingo apenas, percorreu-me a face;
um pingo estranhamente caudaloso,
que, umedecendo o meu perfil nervoso,
mostrou-me um veio que no peito nasce…

A lembrança do tempo desditoso
permitiu à tristeza que afogasse
numa só gota, as rugas que encontrasse
em meu semblante austero, ainda ansioso…

Aquele pingo foi a gota d’água
que fez extravasar a intensa mágoa
há muito represada a contragosto…

E as lágrimas, vazadas do celeiro
de minha alma angustiada de guerreiro,
fluíram nas ruínas de meu rosto!

GILSON FAUSTINO MAIA (Petrópolis/RJ)
À Minha Primeira Professora

Como eu faria a minha poesia,
escreveria neste meu caderno,
não fosse de Maria, o gesto terno,
pegar na minha mão com simpatia?

Do Carmo, paciente r com mestria,
com as bençãos do nosso Pai Eterno,
transformou minha vida, pôs no interno
do meu pobre existir, sabedoria.

A escola era na roça, na fazenda,
e Maria do Carmo, com ternura,
dividia o seu tempo, sua agenda.

Quatro turmas, coitada, a criatura,
do saber transformou-se em oferenda,
num celeiro de amor e de cultura.

JOSÉ MESSIAS BRAZ (Juiz de Fora/MG)
Céu da Madrugada

A abóbada celeste toda acesa…
um celeiro de luzes na amplidão!
– Embevecido, saio da incerteza
e no infinito encontro inspiração…

A madrugada esmera-se em beleza…
e o encanto do luar na imensidão
faz minha alma voar na profundeza
do espaço majestoso da ilusão…

No brilho das estrelas busco a rima…
e nos confins contemplo, lá de cima,
a Terra, indefinida, iluminada!

Sou nada ante a grandeza ou, muito pouco,
apenas sonhador – poeta e louco –
um grão de pó na vastidão do nada!…

LUCILIA ALZIRA TRINDADE DECARLI (Bandeirantes/PR)
Celeiros da Modernidade

Antigamente a sobra de tostões
ia direto a cofres bem pequenos.
As cédulas, guardadas nos colchões,
visavam novos dias… e serenos.

De cereais, lotados os galpões,
sem a penhora, livres os terrenos.
Nem cheques pré-datados, nem cartões…
Vaidade havia, só que muito menos.

Tempos modernos… Nestes, quase loucos,
endividados somos – salvo poucos -,
mil promoções, ofertas endeusadas…

De bugigangas cheios os armários;
grande aparato exposto nos “sacrários”
onde “coisas”, por nós, são adoradas!…

Fontes :
AGULHON, Olga e PALMA, Eliana. V Concurso Literário “Cidade de Maringá”. 1. ed. Maringá: Academia de Letras de Maringá, 2011.
Criação da Imagem por José Feldman, com foto e troféu obtidas na Internet. O troféu foi adaptado para esta postagem.

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José Tavares de Lima (Vozes do Coração) Parte V


A mendiga não tem nada;
leva um viver vagabundo;
mas, ao filhinho abraçada
se sente a dona do mundo!

A morte não me intimida;
mas, por ser tão inclemente,
eu tenho medo da vida
que mata os sonhos da gente!….

As dunas que o vento forte
faz e desfaz de inopino,
têm, na incerteza da sorte,
um pouco do meu destino…

Cansado de levar tombo
pela vida o negro insiste
na procura de um quilombo
que ele nem sabe se existe!

Das esperas e cansaços
recompensa igual não tem,
como o dilúvio de abraços
que ela me traz quando vem!…

De outros grilhões me desfiz…
do teu amor, todavia,
sou um escravo feliz
que não reclama alforria!…

Derrota não intimida
aquele que, persistente,
esquece a luta perdida
e vai lutar novamente!

Dói mais meu sonho frustrado
ao ver, com tristeza imensa,
o meu afeto humilhado
pela tua indiferença !

Esta renúncia forçada
ao teu amor me dói tanto,
que a minha alma inconformada
nem se consola no pranto!…

Eu planto boa semente,
mesmo assim por mais que eu plante,
minha colheita, desmente
o que o provérbio garante! …

Eu, por ser um pecador,
em ter o céu não me empenho;
na terra, com teu amor,
o céu que eu quero já tenho!

Faço uma fonte de sonho
desta vida; e, sem chorar,
quando um sonho morre eu ponho
outro sonho em seu lugar!

Lembra, na ajuda prestada
que outro interesse resume,
que as flores não pedem nada
em troca de seu perfume!

Luta, e com mão destemida
traça teu rumo e conduta,
antes que sejas na vida
um derrotado sem luta! …

Mesmo depois de desfeito,
um grande amor de verdade
fica escondido no peito
sob a forma de saudade!

Na cartilha do incapaz
consta um lema: prometer..
É fácil dizer que faz,
difícil mesmo é fazer! …

Não sou feliz, todavia
escondo o desgosto meu
simulando uma alegria
que a vida nunca me deu !

Não temo envelhecer.
Tudo na terra é finito…
Repara que o entardecer
é sempre um quadro bonito!

Nas ruas, pobre menino,
vagueias sem pão, sem teto;
mas sei que no teu destino
dói mais a fome de afeto!

Nem todos, tenho certeza,
abrem mão de seu prazer…
Porque renúncia é grandeza
que só os bons podem ter!

Num quilombo bem distante,
palco de uma luta inglória
um sonho foi importante
muito mais do que a vitória!…

Ouço o mar nas madrugadas;
e sinto, em seu murmurar,
os gemidos das jangadas
que não puderam voltar!…

Para Deus, capaz de ver
a fé no peito contrito,
um murmúrio pode ser
mais eloqüente que um grito!

Podes ir… mas, se um lamento
ouvires de vez em quando,
não é murmúrio de vento…
É minha voz te chamando!…

Quem nos erros se aferrenha,
não sabe que a chave torta,
por mais força que se tenha
não abre nenhuma porta!

Quem visa em seu desvario
tudo ter, de imediato,
se esquece que o grande rio
é no princípio um regato.

Saudade… Um sorriso brando
para uma dor esconder…
Alguém partindo, tentando
me dar adeus sem querer!…

Se a vida é penosa e bruta
não fraquejo, sigo em frente,
como um náufrago que luta
contra a força da corrente…

Se quer colher mais adiante
desde já plante a semente,
que o futuro se garante
trabalhando no presente!

Ser bom consiste em sentir
que no mundo da amizade,
entre servir-se e servir,
servir tem prioridade!

Sozinho, sem ter na vida
quem preencha os dias meus,
sou como o altar de uma ermida
num povoado de ateus!…

Tua luta amarga aceita
sem perder a confiança,
que a passagem mais estreita
se alarga à perseverança!

Um grão só nunca é de menos,
muito importa na colheita…
Pois é com elos pequenos
que a grande corrente é feita!

Voltaste. Esquecido, agora,
de mágoas e de abandono,
sinto um fascínio de aurora
na minha tarde de outono! …

Fonte:
Colaboração de Darlene A. A. Silva
LIMA, José Tavares de. Vozes do Coração.

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Monteiro Lobato (Caçadas de Pedrinho) IX – Emília vende o rinoceronte


Emília tratou de procurar outro freguês. Foi à cozinha e propôs o negócio à Tia Nastácia. A negra, que estava depenando uma galinha, nem a ouviu no começo; depois, como Emília amolasse, disse apenas, em tom de brincadeira:

Era só o que faltava, esse bicho de nome esquisito aqui para meter medo na gente! Se fosse uma chocolateira eu fazia negócio, porque a minha está vazando.

Para Dona Benta era inútil oferecer. A pobre senhora tinha horror a bichos, sobretudo depois que teve de meter-se em pernas de pau no dia do assalto das onças.

O Visconde seria capaz de aceitar, porque os fidalgos adoram as grandes caças — mas o pobre Visconde pertencia à classe dos fidalgos arruinados que só possuem o seu título de nobreza. Nunca teve de seu nem sequer um tostão furado.

Narizinho… Rabicó…

Estava Emília na maior indecisão quando a Cléu apareceu.

Cléu — disse a boneca —, tenho um negócio excelente que ando a propor a todos e ninguém aceita. Pedrinho não acredita, Tia Nastácia não quer, o Visconde não tem dinheiro, com Rabicó e Narizinho ainda não falei.

Que espécie de negócio é? — perguntou a menina. — Venda ou troca?

Venda ou troca de um animal preciosíssimo que descobri na mata.

Vai ver que é um rinoceronte! — sugeriu Cléu.

Emília ficou admiradíssima.

Como sabe? Como adivinhou?

Esperteza — respondeu Cléu. — Estou lendo nos seus olhos, Emília, que você é dona dum enorme rinoceronte de verdade.

Sério?

Seriíssimo!

Emília foi examinar-se ao espelho e achou que realmente estava com cara de dona de rinoceronte. Os sábios chamam a esse fenômeno “sugestão”.

Bem — disse Emília, de volta do espelho. — Você adivinhou, Cléu. Tenho mesmo um rinoceronte para vender. Quer comprar?

Não. Mas posso associar-me a você no negócio. Arranjarei jeito de vendê-lo a Pedrinho e metade do dinheiro é meu. Serve?

Não quero vendê-lo por dinheiro e sim trocá-lo pelo carrinho de cabrito.

Nesse caso eu terei metade do carrinho, as rodas, por exemplo — lembrou Cléu, mais para amolar a boneca do que por desejar realmente possuir as tais rodas.

Emília refletiu uns instantes. Depois disse:

E você mais tarde me dá de presente as rodas?

Cléu teve dó da afliçãozinha dela.

Dou, sim, dou desde já. Estou brincando. Não preciso, nem quero roda nenhuma. Ajudarei você a vender o rinoceronte sem cobrar comissão nenhuma.

Emília deu dois pinotes — e as duas foram ter com Pedrinho, que ainda estava lendo o jornal.

— Escute, Pedrinho — disse a boneca, tirando-lhe o jornal das mãos. — Vou ser franca. O tal rinoceronte que fugiu do circo existe, sim, e por um acaso descobri o lugar onde ele está. Juro! Ora, se você nos promete dar o carrinho de cabrito em troca, o negócio está feito.

Pedrinho estranhou aquele ‘nos’.

— Nos? — repetiu ele, admirado. — Nos, quem?

— Eu e Cléu. Ela é sócia, tem metade do rinoceronte. O tom com que Emília falava começou a convencer o menino.

— Sério, Emília? Está falando sério?

— Nunca na minha vida falei tão a sério, Pedrinho. Sei onde está o rinoceronte fugido, mas só direi se você me der…

— Nos der… — corrigiu Cléu.

— Sim, se você nos der o carrinho.

Um rinoceronte de verdade por um carrinho de cabrito era o melhor negócio do mundo. Pedrinho não vacilou um instante.

Pois está fechado! — gritou ele. — Onde anda o bicho?

— Na mata dos Taquaruçus.

— Como o descobriu, Emília?

— Os meus besouros espiões são uns amores. Tudo o que se passa no mato eles correm a me contar. Inda há pouco vieram, muito assustados, dizer do aparecimento dum animalão enorme, assim, de chifre único na testa — e percebi que se tratava do rinoceronte fugido.

Era espantoso aquilo. Pedrinho sentiu o seu coração palpitar com violência. Um rinoceronte! Um rinoceronte de verdade, morando no sítio de Dona Benta! Não podia haver nada mais fantástico…

— Resta agora decidir o que faremos dele — murmurou o menino, atrapalhado. — Matá-lo, caçá-lo, prendê-lo, devolvê-lo ao circo, amansá-lo, conservá-lo?… Que fazer?

— Acho que vocês devem amansá-lo e fazê-lo entrar para o bandinho — sugeriu Cléu. — Sempre achei que fazia muita falta aqui um bicho assim, dos grandes.

— Impossível, Cléu — disse Pedrinho. — Esses animais, além de ferocíssimos e traiçoeiros, são incomodamente grandes. Não cabem em parte nenhuma. E depois há ainda vovó e Tia Nastácia — as duas maiores medrosas do mundo. Se conservarmos o rinoceronte aqui no sítio, elas se trancarão em casa pelo resto da vida. São bobíssimas. Mas é coisa que veremos depois. Agora temos de ir espiar o bicho.

Guiados pela Emília, foram os três ao encontro dos besouros, que justamente naquele instante estavam voltando a si do longo desmaio.

— Onde está o rinoceronte? — perguntou-lhes Pedrinho, ao chegar.

Mal acordados ainda, e ignorantes do que significava a palavra “rinoceronte”, os pobres besouros olharam apatetada-mente para o menino.

Emília interveio, explicando que só ela sabia falar com aqueles bichinhos.

— Escutem — disse ela -—, queremos saber onde ele está.

Os besouros entenderam e deram indicações do ponto exato onde ele se achava escondido.

Pedrinho, que conhecia a moita de taquaruçus, encaminhou-se para lá.

Meia hora depois chegaram todos a um ponto onde a moita se abria em clareira, tendo dum lado a Figueira-Brava, debaixo da qual os bichos costumavam reunir-se em assembléia, e do outro, a tal moita de taquaruçus. Chegaram, espiaram e nada.

— Vejo lá adiante uma pedra preta — disse Cléu, apontando para um rochedo de dorso redondo que os capins altos meio escondiam. — De cima talvez possamos avistar o monstro.

Correram todos para a tal pedra, treparam-lhe em cima e do alto espiaram por entre as árvores em todas as direções. Nada! Nem sombra de rinoceronte.

— Emília — disse Pedrinho, desapontado —, não há rinoceronte nenhum por aqui. Os senhores besouros nos tapearam da maneira mais indigna. Como castigo, merecem ser depernados de todas as perninhas. Se eu fosse você…

Pedrinho não pôde concluir. A pedra mexeu-se! Não era pedra — era o próprio rinoceronte que se tinha deitado naquele ponto para dormir…

O pulo que eles deram merecia ir para um quadro na parede, com moldura de ouro, pois foi o mais rápido e belo pulo que ainda se deu no mundo. Mas como o rinoceronte era pesadão, enquanto se punha em pé os quatro caçadores alcançavam o mais alto galho da Figueira-Brava, donde podiam vê-lo sem perigo nenhum.

— Realmente! — exclamou Pedrinho, lá no seu poleiro. — É rinoceronte dos legítimos. Vejam que formidável chifre tem na testa e que terrível couraça no corpo…

— A onça nós matamos — disse Narizinho —, mas este bicho cascudo não há meio. Bala não entra, faca não entra. Como iremos nos arranjar?

— O jeito é passarmos um telegrama para o Rio de Janeiro, contando às autoridades que o rinoceronte que elas procuram está aqui. O pessoal lá tem canhões e metralhadoras. Que acha, Emília?

Emília estava de ruguinha na testa, sinal de “idéia-mãe” em formação.

— Acho — respondeu — que não devemos mandar telegrama nenhum nem falar nisto a ninguém. Do contrário o sítio se entope de gente grande e adeus! Gente grande estraga tudo. Eu não aturo gente grande.

Os outros também, mas o caso era muito especial, muito sério mesmo, de modo que não havia remédio senão pedirem socorro à gente grande. Pelo menos Dona Benta tinha de ser avisada. O sítio, afinal de contas, era dela; o rinoceronte invadira a sua propriedade — natural pois que, como dona, ela resolvesse o caso. E foi decidido darem parte a Dona Benta do extraordinário acontecimento.

Mas como descer da árvore com aquele perigo chifrudo embaixo? O rinoceronte se havia posto de pé, embora sem mostrar intenção nenhuma de afastar-se dali. Tosava as copas dos arbustos vizinhos e mascava as folhas com um sossego de boi de carro.

Quem salvou a situação foi a boneca.

— Tenho cá no meu bolsinho do avental uma isca do pó de pirlimpimpim. Se não perdeu a força, poderá levar-nos até ao terreiro.

Pedrinho arregalou o olho. Pó de pirlimpimpim no bolso da Emília? Como isso? Será que a boneca virará gatuna?

— Não furtei coisa nenhuma — protestou Emília, percebendo na cara de Pedrinho a desconfiança. — Não sou nenhuma ladrona, fique sabendo.

— Como então obteve esse pó?

— Muito simples. Quando fomos ao País das Fábulas e você me deu a pitada que eu devia tomar, tomei só meia pitada. O resto guardei no meu bolsinho para o que desse e viesse. Chegou agora a ocasião.

Foi uma grande alegria. Graças à providência da boneca iam todos salvar-se daqueles apuros. Mas no bolso da Emília só se encontrava meia pitada. Dividida entre quatro, caberia um oitavo de pitada a cada um.

— Bastará, Pedrinho? — perguntou Cléu.

— Basta. Com um oitavo iremos parar justamente no terreiro da casa.

Assim sucedeu. Tomaram a pitadinha do pó maravilhoso e imediatamente se acharam no terreiro do sítio. Dona Benta estava na varanda, conversando com Tia Nastácia sobre assunto agrícola — um pé de couve que Rabicó havia tosado na horta.

— Esse Marquês duma figa está precisando mas é de ir para o forno — dizia a preta, que nunca tomara muito a sério a fidalguia do leitão. — Nesse andar, protegido desse jeito pelos meninos, acaba virando aí um cachaço inútil, que ainda nos há de dar muito trabalho. Mas vá a gente falar nisso a Narizinho! A casa cai…

Nesse momento surgiram no terreiro os meninos. Detiveram-se um instante, cochichando entre si, e depois se encaminharam para a varanda.

— Temos novidade — resmungou Tia Nastácia. — Pedrinho está de mão no bolso e Emília, de ruguinha na testa. Esses sinais não falham. Credo!

Pedrinho subiu à varanda e, sem nenhum preparo do terreno, foi contando a Dona Benta a história do rinoceronte encontrado.

— Quê? Um rino… — repetiu a velha sem poder concluir a palavra.

— … ceronte, vovó, um rinoceronte real de chifre único na testa e aquela couraça duríssima no corpo. Está lá perto da Figueira-Brava.

Dona Benta olhou para Tia Nastácia com ar de quem pede misericórdia.

— Um rinoceronte! — gemeu a boa senhora, com voz moribunda. — Era só o que faltava, santo Deus! Que irá ser de nós?…

A negra, que nada sabia a respeito de rinocerontes, ofereceu-se para ir espantar o bicho com o cabo da vassoura. Mas quando Narizinho lhe mostrou, na História natural, o retrato dum desses paquidermes e lhe explicou que tamanho tinham e que terrível era o chifre que possuem no meio da testa, a pobre criatura pôs-se a tremer da cabeça aos pés.

— E agora, sinhá? E agora, sinhá? — murmurava, no meio dos credos e figarabudos e pelo-sinais que não cessava de murmurar e desenhar na cara e no peito.

— Agora? — respondeu Dona Benta, depois de refletir uns instantes. — Agora temos que avisar a polícia do Rio para que tome providências, e enquanto isso ninguém tem ordem de sair desta casa. Dizem os naturalistas que o rinoceronte é talvez a fera mais traiçoeira e perigosa da África. Se apanha um de nós!…

Emília quis meter a sua colherzinha torta e começou:

— Dona Benta, eu acho que… Mas foi interrompida.

— Pelo amor de Deus, Emília, não ache mais coisa nenhuma. É por causa de tantos achados que vivo aqui de susto em susto, com a alma na boca, atacada por onças e agora até com feras africanas perto de casa…

Emília, desapontada, botou-lhe a língua, logo que a velha voltou as costas.
––––––––––––-
continua … X – O Rio de Janeiro é avisado
———————
Fonte:
LOBATO, Monteiro. Caçadas de Pedrinho/Hans Staden. Col. O Sítio do Picapau Amarelo vol. III. Digitalização e Revisão: Arlindo_Sa

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Olivaldo Junior (Migalhas)


Lá vou eu…
Mais uma vez, mais uma noite…
Lá vou eu…
Mais um freguês da mesma noite…
Lá vou eu…
Mais um rapaz, aquele homem…
Lá vou eu…
Mais um a mais, o mesmo nome.
Lá vou eu…

Cansado de ter que espalhar migalhas
pra saber por onde eu volto, migalhas…
Migalhas pra lembrar se tenho alguém,
alguém pra lembrar que sou só alguém
que se esqueceu de ser o que sonhava…

Pensei que teria amigos, alguém aqui.
Pensei que teria amores, um bem-te-vi…
Pensei que teria a música no quartinho…
Meu quarto está cheio de livros: ninho.
Mas o ninho da amizade está sem “ti”.

Só me resta fechar meu rosto, o resto,
a réstia de mim.

Pensei que estaria cantando, cantando…
Mas estou assim.

Fonte:
Poema enviado pelo autor

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 255)

Uma Trova Nacional

Rasgando o ventre da serra
num parto de luz e cor,
o sol vem brindar a terra
numa oferenda de amor!
DOMITILLA BORGES BELTRAME–

Uma Trova Potiguar

No horizonte do poente
o sol deita a fronte langue,
queimando-se em febre ardente,
tingindo as nuvens de sangue.
–IVORY/RN–

Uma Trova Premiada

2008 – São Paulo/SP
Tema: PORTÃO – Venc.

O sol, cumprida a rotina,
cerra o painel em que atua,
some por trás da colina
e abre o portão para a lua.
–DOROTHY JANSSON MORETTI/SP–

Uma Trova de Ademar

Minha alma se concretiza
nos versos que são só meus.
E minha fé se eterniza
nas graças que vem de Deus!
–ADEMAR MACEDO/RN–

…E Suas Trovas Ficaram

Chego ao fim, com pés sangrando,
abandonado e sozinho;
meus sonhos foram ficando
um a um pelo caminho…
–JOUBERT DE ARAUJO/ES–

Simplesmente Poesia

MOTE:
Eu vim ao mundo chorando,
Mas meu destino é cantar.

GLOSA:
Mamãe me disse que quando
A parteira entrou no quarto,
Sem prejudicar seu parto
Eu vim ao mundo chorando;
A vida foi-me ensinando
Sorrir mais do que chorar,
Pela sorte ou pelo azar,
Que não vale viver triste;
Por isso, a tristeza existe,
Mas meu destino é cantar.
–JOSÉ LUCAS DE BARROS/RN–

Estrofe do Dia

João de barro bem alto faz seu ninho
preparado com argila e argamassa,
com as asas e os pés o barro amassa
e a colher de pedreiro é seu biquinho;
quem teria ensinado ao passarinho
construir sua casa com firmeza,
que lhe serve de abrigo e de defesa
contra o sol, contra a chuva, contra tudo
pequenino arquiteto sem estudo
que nos mostra o poder da natureza.
–DIMAS BATISTA/PE–

Soneto do Dia

–FRANCISCO MACEDO/RN–
Meu Ecossistema

Tenho um ecossistema preservado,
no recôncavo do meu coração,
habitat principal de uma paixão,
santuário que abriga o ser amado.

Sou um sexagenário apaixonado
com medo da pior devastação,
que seria ficar na solidão,
tendo este ecossistema devastado!

Tuas flores, sementes e raízes,
tem feito de nós dois, seres felizes,
sem qualquer motosserra corte e dor.

Eu te peço Senhor, Deus da beleza,
assim como preserva a natureza,
preservai para sempre o nosso amor!

Fonte:
Textos enviados pelo Autor

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V Concurso Literário "Cidade de Maringá" (Noite de Premiação)


No dia 25 de junho (sábado), realizou-se a entrega dos prêmios a todos vencedores de todas as modalidades do V Concurso Literário “Cidade de Maringá”, na cobertura do Hotel Metrópole Bristol.

Na ocasião, além dos premiados, familiares e amigos, estiveram presentes representantes de diversas Academias de Letras não só do Paraná mas de outros estados brasileiros, como
Renato Benvindo Frata da Academia de Letras e Artes de Paranavaí,
Héron Patrício (da Academia Pousoalegrense de Letras),
Arlindo Tadeu Hagen (Academia Juizforense de Letras e Vice Presidente da União Brasileira dos Trovadores a nível nacional),
Roza de Oliveira (Academia Paranaense de Poesia),
este que vos escreve este artigo (Presidente Estadual da seccional Paraná da Academia de Letras do Brasil), e outros que me fogem os nomes no momento.

A mesa foi composta pela
presidente da Academia de Letras de Maringá Olga Agulhon,
o prefeito de Maringá, Silvio Magalhães Barros,
a secretária de cultura Flor de Maria Silva Duarte,
o grande literato (cronista, contista, haicaista, trovador, poeta) A. A. de Assis,
e outras autoridades presentes.

Após algumas homenagens foram entregues os diplomas e troféus (produzidos por artista plástico maringaense) aos vencedores, com a leitura das trovas, poema livre e soneto pelos seus autores, salvo raras exceções de vencedores que não puderam comparecer ao evento.

José Feldman

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V Concurso Literário “Cidade de Maringá” (Troféu Emilio Germani: Trovas Vencedoras)

Abaixo transcrevo as 10 trovas vencedoras, entre as 597 que foram enviadas ao Concurso.

A partir de amanhã as crônicas, sonetos e poemas livres.

MODALIDADE TROVA: TROFÉU EMILIO GERMANI

TEMA: CELEIRO

Nos campos do mundo inteiro
há um contraste que angustia
porque a mão que enche o celeiro
quase sempre é mão vazia!
ARLINDO TADEU HAGEN (Belo Horizonte/MG)

Num lar…que falte o sabor
do quitute predileto…
mas, o celeiro do amor
que esteja rempre repleto!
CAROLINA RAMOS (Santos/SP)

Os voos alegres, tristonhos….
Diversidade completa!
Pulsa um celeiro de sonhos,
no coração do poeta!
ÉDERSON CARDOSO DE LIMA (Niterói/RJ)

Coração, velho celeiro,
tanto amou na mocidade
que está cheio, por inteiro,
de sementes de saudade…
HÉRON PATRÍCIO (São Paulo/SP)


O meu celeiro está cheio
de feno, alfafa e capim;
e eu; vazio, aqui no meio,
quem sabe farto de mim?
JOSAFÁ SOBREIRA DA SILVA (Rio de Janeiro/RJ)

Da safra não faça alarde,
nem deixe o celeiro aberto,
porque a inveja dorme tarde,
vive atenta… e mora perto!
JOSÉ OUVERNEY (Pindamonhangaba/SP)

Decerto é o ventre materno,
com a semente contida,
um abrigo meigo e terno,
celeiro da própria vida.
MÁRCIA JABER DE BARROS MOREIRA (Juiz de Fora/MG)

Por tantos celeiros cheios
e tantos pratos vazios,
a vida nos mostra veios,
de desumanos desvios!
MARIA HELENA OLIVEIRA COSTA (Ponta Grossa/PR)

Lavrador, são tuas mãos
que, em celeiros colossais,
deixam nas pilhas de grãos
as impressões…digitais!
MARIA LÚCIA DALOCE (Bandeirantes/PR)

Sem meus filhos ao meu lado,
contemplo, sem alegria,
o celeiro abarrotado
e a casa-grande…vazia!!!
NEIDE ROCHA PORTUGAL (Bandeirantes/PR)

Fontes :
AGULHON, Olga e PALMA, Eliana. V Concurso Literário “Cidade de Maringá”. 1. ed. Maringá: Academia de Letras de Maringá, 2011.
Montagem da Imagem por José Feldman, com imagens obtidas na Internet.

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Concurso Internacional Poetizar El Mundo (Inscrições até 15 de Setembro de 2011)


Tradução do Espanhol para o Português, por José Feldman.

Modalidade: Prosa Poética.

A escritora Isabel Furini e a Revista ZK 2.0 te convidam a participar do Concurso de Prosa Poética:

1) O Concurso de Prosa poética tem como objetivo estimular a produção literária e está destinado a todas as pessoas maiores de 18 anos, de qualquer nacionalidade, que vivam em qualquer lugar do mundo e que apresentem seu trabalho de prosa poética escrito em espanhol.

2) O tema é livre e a inscrição é gratuita. Poderá ser entregue até 15 de setembro de 2011.

3) Cada participante poderá apresentar somente um trabalho de prosa poética que tenha até 300 palavras, que seja inédito, ou seja, que nunca haja sido impresso em papel, nem publicado na Internet, nem premiado em outro concurso.

4) Se considerarão inscritas as obras enviadas ao e-mail: isabelfurini@hotmail.com Primer Concurso Internacional.

No corpo do e-mail, sem anexos, escrito em lingua castelhana, digitado com espaço duplo, com fonte Arial, tamanho 12 (doze).

6) Deverá constar ao final: o título do poema, nome completo do autor, seu endereço (incluindo cidade e país), e-mail, telefone e em 4 ou 5 línhas, seu currículo.

7) A comissão será composta pela poetisa Zeltia G., editora da revista virtual ZK 2.0 e pelo escritor Don Eduardo Jaime Carbajal Olate, colaborador de dita publicação.

8) Prêmios:
O primeito lugar receberá uma medalha simbólica com seu nome gravado e diploma.
O segundo e o terceiro lugares receberão diplomas.
Poderão ser escolhidas duas Menções Honrosas, que também receberão diplomas.

9) O resultado do concurso será divulgado em Sites literários da Internet, no blog: http://www.isabelfurini.blogspot.com/ e na revista ZK2.0: http://zk.zonakeidell.com/, editada pela poetisa Zeltia G.

10) O resultado será divulgado em 25 de outubro de 2011. Nessa ocasião também será homenageada con uma placa comemorativa, a escritora Magda R. Martín, autora dos livros: Doña María y Nuestra casa (La casa de la mimosa).

11º) A participação das obras se formalizará segundo o previsto neste regulamento, o que implica a aceitação das disposições nele designadas.
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En Español

CONCURSO INTERNACIONAL POETIZAR EL MUNDO – Modalidad: Prosa Poética.

La escritora Isabel Furini y la Revista ZK 2.0 te invitan a participar del Concurso de Prosa Poética:

1) El Concurso de Prosa poética tiene como objetivo estimular la producción literaria y está destinado a todas las personas mayores de 18 años, de cualquier nacionalidad, que vivan en cualquier lugar del mundo y que presenten su trabajo de prosa poética escrito en español.

2) El tema es libre y la inscripción es gratuita. Podrá ser hecha hasta el 15 de septiembre de 2011.

3) Cada participante podrá presentar solo un trabajo de prosa poética que tengan hasta 300 palabras, que sea inédito, o sea, que nunca haya sido impreso en papel, ni publicado en Internet, ni premiado en otro concurso.

4) Se considerarán inscriptas las obras enviadas al e-mail: isabelfurini@hotmail.com Primer Concurso Internacional.

En el cuerpo del e-mail, sin anexos, escrito en lengua castellana, mecanografiado a doble espacio, con fuente Arial, tamaño 12 (doce).

6) Deberá constar al final: el título del poema, nombre completo del autor, su dirección (incluyendo ciudad y país), e-mail, teléfono y en 4 o 5 líneas, su currículum.

7) La comisión será compuesta por la poetisa Zeltia G., editora de la revista virtual ZK 2.0 y por el escritor Don Eduardo Jaime Carbajal Olate, colaborador de dicha publicación.

8) Premios:
el primer lugar recibirá una medalla simbólica con su nombre grabado y diploma.
El segundo y el tercer lugares recibirán diplomas.
Podrán ser escogidas dos Menciones de Honra, que también recibirán diplomas.

9) El resultado del concurso será divulgado en Sites literarios de Internet, en el blog: http://www.isabelfurini.blogspot.com/ y en la revista ZK2.0: http://zk.zonakeidell.com/, editada por la poetisa Zeltia G.

10) El resultado será divulgado el 25 de octubre de 2011. En esa ocasión también será homenajeada con una placa conmemorativa, la escritora Magda R. Martín, autora de los libros: Doña María y Nuestra casa (La casa de la mimosa).

11º) La participación de las obras se formalizará según lo previsto en este reglamento, lo que implica la aceptación de las disposiciones en él designadas.

Fonte:
Isabel Furini.

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1º Concurso Nacional, Novos Poetas, Prêmio Augusto dos Anjos (Inscrições até 12 de Julho)


EDITAL

REGULAMENTO

Do tema

Art. 1º – A VIDEIRA EDITORA por meio deste edital abre inscrições para o 1º Concurso Nacional, Novos Poetas, Prêmio Augusto dos Anjos, em homenagem ao Poeta Augusto dos Anjos.

Parágrafo único – O tema é livre.

Das inscrições

Art. 2º – Podem participar do Concurso todos os brasileiros, público em geral, de qualquer região do país.

§ 1º – Vetada a participação de membros da diretoria da VIDEIRA EDITORA.

§ 2º – Vetada a participação de membros da COMISSÃO JULGADORA.

§ 3º – Poderão participar brasileiros natos ou naturalizados brasileiros, maior de 16 anos, com texto em língua portuguesa.

Art. 3º – As inscrições poderão ser realizadas pelo site http://www.concursonovospoetas.com.br de 12 de junho a 12 de julho de 2011.

Art. 4º – Cada participante pode se inscrever com até 02 (dois) poemas. Os poemas devem ser inéditos, ou seja, poesias que ainda não foram publicadas em livros, jornais ou outros meios.

§ 1º – Os poemas devem ser enviados via Internet, e devidamente identificados com nome, endereço residencial completo, identidade, CPF, telefone, email e título(s) do(s) poema(s), obedecendo aos seguintes critérios:

a) Os poemas devem ser digitados em editor de texto eletrônico (Word, Open Office, Star Office etc.);

b) Fonte Arial ou Times New Roman, tamanho 12;

c) Cada poema não deve exceder o limite de 02 (duas) laudas no tamanho A4;

§ 2º – As inscrições são gratuitas.

§ 3º – Ao se inscreverem, todos os candidatos aceitarão automaticamente todas as cláusulas e condições estabelecidas no presente regulamento.

Da premiação

Art. 5º Entrega das medalhas e publicação em livro dos poemas classificados.

§ 1º – Os participantes não poderão acumular as premiações, ou seja, só poderá ser premiado apenas um poema de cada participante.

§ 2º – Serão 250 (duzentos e cinqüenta) poemas classificados.

§ 3º – Publicação de livro com as poesias classificadas, com edição de 5.000 (cinco mil) livros.

§ 4º – Medalha Prêmio Augusto dos Anjos para os 3 primeiros classificados.

§ 5º – Medalha de Ouro, (em ouro 18k), Gravada, Prêmio Augusto dos Anjos para o 1º colocado.

§ 6º – Medalha de Prata, Gravada, Prêmio Augusto dos Anjos para o 2º colocado.

§ 7º – Medalha de Bronze, Gravada, Prêmio Augusto dos Anjos para o 3º colocado.

§ 8º – Inserção de destaque no livro para os 3 primeiros classificados.
Da comissão julgadora

Art. 6º – A Comissão Julgadora será escolhida pela Comissão de Organização do Concurso e será composta por 03 (três) membros com amplo conhecimento e experiência em Literatura.
Parágrafo único – A Comissão Julgadora terá autonomia no julgamento, que será regido pelos princípios da originalidade e linguagem poética.

Do resultado

Art. 7º – O resultado do Concurso será divulgado no dia 22 de julho no site http://www.concursonovospoetas.com.br.

Do Pagamento das parcelas e Remessa dos livros

Art. 8º – Cada autor classificado arcará com a compra de 10 exemplares do livro “1º Concurso Nacional, Novos Poetas, Prêmio Augusto dos Anjos”, pelo custo de duas parcelas, de R$ 165,00 (cento e sessenta e cinco reais).

Art. 9º – As duas parcelas deverão ser pagas via boleto bancário nos dias 30 de julho e 30 de agosto de 2011.

Art. 10º – Em caso de inadimplência, a poesia classificada poderá não ser publicada.

Art. 11º – Os livros e medalhas serão entregues no endereço informado na inscrição, até o dia 20 de setembro de 2011.

Das disposições finais

Art. 12º – Os casos omissos serão decididos, em comum acordo, pela Comissão Julgadora e pela Comissão de Organização do Concurso.

Art. 13º – A Editora VIDEIRA detém todos os direitos de Publicação e Distribuição da obra.

Art. 14º – Do julgamento apresentado pela Comissão Julgadora quanto à qualidade dos poemas selecionados não caberá qualquer recurso, ficando esta medida adstrita às condições extrínsecas do concurso, dispostas nas cláusulas deste Regulamento, que será julgado pela Comissão de Organização do Concurso.

Fonte:
Isaac Almeida. Videira Editora

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Ialmar Pio Schneider (Ao Leitor)

Quando escrevo me assalta um pensamento
indeciso de não saber a quem
possa atingir meu louco sentimento
e duvidar assim não me faz bem…

Espero apenas que o meu sofrimento
não vá prejudicar… ferir ninguém…
Ponho aqui realidade e fingimento
para a escolha daqueles que me lêem.

Segue junto comigo se te apraz
conhecer solidão e fantasia,
às vezes desespero, às vezes paz:

meus “Sonetos e Cânticos Dispersos”
dizendo que no mundo da poesia
cada qual é o poeta dos seus versos…

(Do livro “SONETOS E CÂNTICOS DISPERSOS”, em preparo).

CANOAS, 20.4.84 – O TIMONEIRO – PÁG. 17

Fontes:
Texto enviado pelo autor.
Imagem = http://alcochete12.blogspot.com

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Olivaldo Junior (Não)


Sim, o não é tudo o que se tem.
“Ter ou não ter, eis a questão”…
Faz tempo que nada mais se tem…
Não há mais certeza, coração,
e tudo deve ser às pressas, hein!
Não é tudo o que tenho à mão.
A mão, que desenha outro trem,
que desdenha o bem, a razão,
o sonho, de canção, amor e bem,
o sonho, que, bem, é a paixão…
Paixão é o não que espera além,
além do coração que diz não.
Não que eu saiba, mas estou bem…
E aí, irmão: estou bem ou não?
Não, não sei, é que não sei bem…
Bem, o sim é o não da razão.
Sim, o não é tudo o que ninguém
poderia, pois sim, ter no pão.
No pão da paixão, Amendocrem,
meu amor, “neném”, é o não.

Fontes:
Poema enviado pelo autor
Imagem = http://tolifehelpin.blogspot.com

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UBT Curitiba (Trovas de Concursos Internos)


Tema: FORTALEZA

Vencedor

Desde criança a Poesia
é a minha grande riqueza:
minha fonte de alegria,
minha eterna Fortaleza!
Roza de Oliveira

Menção Honrosa

Teu charme, encanto e beleza,
dão aos poetas um tema,
ó encantada Fortaleza,
linda Terra de Iracema!
Maurício N. Friedrich

Menção Especial

Crer,amar,doar,sofrer,
verbos de sabedoria.
Só com esses vamos ter
fortaleza todo dia.
Paulo Roberto Walbach

Embora não seja forte
e nem possua destreza
em Deus é que busco o norte
e também a fortaleza.
Paulo Roberto M. Gomes

Tema: Surpresa

Vencedores:

1 –
Escrava do teu olhar,
quis fugir mas – que surpresa!
Na ânsia de me libertar,
cada vez fico mais presa…
Janske Schelenker

2-
Cada filho, com certeza,
ao nascer em nosso lar,
é uma caixa de surpresa
que só Deus nos pode dar.
Nei Garcez

Menção Honrosa:

A trova, quando é bem feita,
tem encanto, traz surpresa;
poesia curta, perfeita,
a nos brindar com beleza!
Maurício Friedrich

Menção Especial:

1-
Criançada mais acesa,
num redemoinho só,
do “louro” vem a surpresa:
com os netos, grita: “VÓ”…
Roza de Oliveira

2-
Quanta surpresa causaste!
Não esperava tão cedo,
ser feliz por ver o engaste
de tua aliança em meu dedo.
Sara Furquim

Fontes:
Andréa Motta http://simultaneidades.blogspot.com
UBT Curitiba ubt-curitiba.blogspot.com

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José Scalon (Curitiba – Protótipo de Uma Nova Era)

Fui acordado na madrugada
pela balbúrdia da passarada
e logo entrei em meditação:
Me vi naquela antiga fazenda,
trabalhando na mesma moenda,
atendendo meu senhor patrão.

Aqui não é aquele sertão,
mas temos o que lá há de bom:
há musica em todo alvorecer!
Toda rua bem arborizada,
facilita a nossa passarada
para reproduzir e viver.

Aqui se acorda de madrugada
com canto alegre da passarada;
o grande barulhento é o sabiá.
Como num verdadeiro catira,
sem ser uma casa de caipira,
ah!…como é bonito este lugar!

Não falo daquela minha roça,
do meu sítio da velha palhoça:
falo da mais linda capital!
Aqui nós vivemos sem intriga,
nesta cidade de Curitiba,
que não é minha terra natal.

Onde chamam de Boca Maldita,
concentram-se mulheres bonitas,
nossos pintores e grandes poetas.
Promovem-se ali grandes eventos,
que geram os entretenimentos,
que nos mantém em perene festa.

Curitiba – tu és linda cidade!
Teu povo de incomum igualdade
pelo civismo e alta educação.
És protótipo de uma Nova Era
de paz e amor que tanto se espera;
em ti, sepulto O MEU CORAÇÃO!

Fontes:
Andréa Motta (http://simultaneidades.blogspot.com)
Imagem = Boca Maldita, desenho obtido no Jornal ” Gazeta do Povo”, homenagem aos 312 anos de Curitiba, 2005.

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 254)


Uma Trova Nacional

Joga no mar, que já morreu!
– Não!… Tô vivo… por favor…
– Cala essa boca, Tadeu,
quer saber mais que o doutor?…
–JOÃO ELIAS DOS SANTOS/SP–

Uma Trova Potiguar

Está pensando em casar?
É melhor sair de cena
do contrário vai passar
a vida cumprindo pena.
–HELIODORO MORAIS/RN–

Uma Trova Premiada

2010 – Curitiba/PR
Tema: PIJAMA – Venc.

Diz a zebrinha ao zebrão,
sacolejando na grama:
– E que tal, meu bonitão,
tirarmos logo o pijama?…
–A. A. DE ASSIS/PR–

Uma Trova de Ademar

Já dizia Dom Casmurro
para o seu fiel vassalo:
–quem nasce para ser burro,
não chega nunca a cavalo!
–ADEMAR MACEDO/RN–

…E Suas Trovas Ficaram

A solteirona infeliz
viu sua casa assaltada,
ladrão levou o que quis:
menos a pobre coitada.
–GRAZIELA LYDIA MONTEIRO/MG –

Simplesmente Poesia

MOTE:
Não posso vencer a morte,
mas irei de má vontade.

GLOSA:
Mesmo que eu pareça forte
como um touro premiado,
serei um dia enterrado,
não posso vencer a morte;
do Rio Grande do Norte
levarei muita saudade…
Promessas de eternidade
me fazem crer noutra luz.
Eu sei que é pra ver Jesus,
mas irei de má vontade.
–JOSÉ LUCAS DE BARROS/RN–

Estrofe do Dia

Não tem música, é só “zoada”
nas letras, pornografia,
e a tal coreografia
parece “pornochanchada”.
A galera alienada,
cada vez mais se afunda
numa festa de segunda
onde o “fumacê” comanda…
O sucesso dessa banda,
depende apenas da bunda.
–FRANCISCO MACEDO/RN–

Soneto do Dia

–BASTOS TIGRE/PE–
Sintaxe Feminina

Leio: “Meu bem não passa-se um só dia
Que de você não lembre-me”… Ora dá-se!
Mas que terrível idiossincrasia!
Este anjo tem as regras de sintaxe!

Continuo: “Em ti penso noite e dia…
Se como eu amo a ti, você me amasse!
“Não! É demais! Com bruta grosseria
A gramática insulta em plena face!

Respondo: “Sofres? Sofrerei contigo…
Por que razão te ralas e consomes?
Não vês em mim teu dedicado amigo?

Jamais, assim, por teu algoz me tomes!
Tu me colocas mal! Fazes comigo
O mesmo que fizeste com os pronomes!”…

Fonte:
Textos enviados pelo Autor

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 253)


Uma Trova Nacional

A escuridão, por mais densa,
também nos traz coisas belas:
sem luz se ama, se pensa,
dá-se mais valor às velas.
–ELIANA PALMA/PR–

Uma Trova Potiguar

Quando visito um abrigo
de velhos abandonados,
fico dizendo comigo:
que filhos mais desalmados!
–LUIZ XAVIER/RN–

Uma Trova Premiada

2006 – Amparo/SP
Tema: RESPEITO – Venc.

Havia tanto respeito
naquele beijo na testa,
que a paixão ficou sem jeito
e retirou-se da festa!…
–JOSÉ OUVERNEY/SP–

Uma Trova de Ademar

Construí dentro de mim,
com minh’alma enternecida,
um teatro onde, por fim,
pude encenar minha vida!…
–ADEMAR MACEDO/RN–

…E Suas Trovas Ficaram

Vi, na página primeira,
de um velho livro que eu lia,
que a saudade é companheira
de quem não tem companhia…
–VASQUES FILHO/PI–

Simplesmente Poesia

–ARTHUNIO MAUX/RN–
Divisão

Uma banda de mim é fantasia
na outra metade é ilusão.
No meu quarto rogo todo dia
que seja inteiro o meu coração.

Estrofe do Dia

Estava um dia a sonhar,
uma alma apareceu,
uma botija me deu
e me ensinou o lugar,
quando eu comecei cavar
já fui sentindo um espanto,
não sei se foi diabo ou santo
que gritou de lá : não cave,
a riqueza é uma ave
que não pousa em todo canto.
–ZÉ DIONÍZIO/PB–

Soneto do Dia

–LISIEUX/MG–
Oração

Liberta-me, ó Senhor, da minha vida,
também da morte, enfim, vem libertar-me;
porque não posso, por mim só, livrar-me
da culpa que em meu peito achou guarida…

Não deixes, meu Senhor, despedaçar-me
o coração, que a cada vã batida,
faz-me sofrer a alma arrependida. ..
Preciso, ó Deus, a ti aconchegar-me.

Quero, meu Pai, ouvir-te novamente,
quero outra vez sentir-te, plenamente,
toma-me, pois, em Teus paternos braços…

Coloca-me nos lábios, Teu louvor,
arde o meu peito com Teu doce amor
e guia em Teus caminhos os meus passos.

Fontes:
Textos enviados pelo Autor
Imagem = Sonho e Poesias

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Lucas Nascimento da Silva (Despedida do TREMA)


Estou indo embora. Não há mais lugar para mim. Eu sou o trema. Você pode nunca ter reparado em mim, mas eu estava sempre ali, na Anhangüera, nos aqüiféros, nas lingüiças e seus trocadilhos por mais de quatrocentos e cinqüentas anos.

Mas os tempos mudaram. Inventaram uma tal de reforma ortográfica e eu simplesmente tô fora. Fui expulso pra sempre do dicionário. Seus ingratos! Isso é uma delinqüência de lingüistas grandiloqüentes! … O resto dos pontos e o alfabeto não me deram o menor apoio…

A letra U se disse aliviada porque vou finalmente sair de cima dela.

O dois pontos disseram que sou um preguiçoso que trabalha deitado enquanto eles ficam em pé.

Até o cedilha foi a favor da minha expulsão, aquele C cagão que fica se passando por S e nunca tem coragem de iniciar uma palavra.

E também tem aquele obeso do O e o anoréxico do I.

Desesperado, tentei chamar o ponto final pra trabalharmos juntos, fazendo um bico de reticências, mas ele negou, sempre encerrando logo todas as discussões.

Será que se deixar um topete moicano posso me passar por aspas? …

A verdade é que estou fora de moda. Quem está na moda são os estrangeiros, é o K, o W “Kkk” pra cá, “www” pra lá.

Até o jogo da velha, que ninguém nunca ligou, virou celebridade nesse tal de Twitter, que aliás, deveria se chamar TÜITER.

Chega de argüição, mas estejam certos, seus moderninhos: haverá conseqüências!

Chega de piadinhas dizendo que estou “tremendo” de medo.

Tudo bem, vou-me embora da língua portuguesa. Foi bom enquanto durou.

Vou para o alemão, lá eles adoram os tremas.

E um dia vocês sentirão saudades. E não vão agüentar!…

Nos vemos nos livros antigos.

Saio da língua para entrar na história!

Adeus,
Ass: Trema.

Fontes:
Revista Universitária OffLine – edição 19. São Paulo: http://www.mercadojovem.com.br
Imagem = Secreta Litteratum

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Amosse Mucavele (O Bebedor dos Tormentos)


Aticei o fogo do cigarro no meu coração.

Ficou em chamas e senti a necessidade de apagar, cortei o desejo, continuei no meu puxa-puxa, alguém trouxe-me a água. não aceitei, lembrei-me que no meu reino apagasse as chamas do cigarro com uma garrafa de gin.

Entornei-a dentro de mim, e dentro de mim já tinha um barco a espera; viajei com os olhos fechados, a minha visão era o copo e o cigarro ambos discutindo a primazia nas minhas duas mãos. e de repente abri a vista; deparei-me com o NEWTON trocamos um dedo de conversa falamos de muita coisa desde as prostitutas ate a ciência. em seguida ele falou-me da sua 3ª lei: ação e reação.

Fiquei de ouvidos boquiabertos e dos olhos carregados de uma ternura milenar, daí aprendi como se fabrica uma dor na consciência, levantei, tentei andar, não consegui, comecei a sentir o peso do meu corpo, e de tudo que engendrei a desaguar nos meus pés amputados pela força do álcool. Afinal quem são os meus pés para suportarem toda esta carga?

Tentei falar: a minha voz era um viaduto transportando silêncios, procurei as palavras não as encontrei em lugar algum, creio que o vento da boêmia as levou.

Desço do barco, percorro na embriaguez do meu dilema: será este o destino do meu dinheiro? sei que o melhor remédio é distanciar-me deste amigo da ocasião que só me visita quando as vacas estão gordas e quando são atacadas pela peste da pobreza ou dos bolsos rotos anda longe de mim.

O que vale estar bêbado e não ter chão para dormir?

E se eu tivesse comprado livros com dinheiro gasto naquela fatídica noite teria educado o meu raciocínio e neste exato momento estaria a vender saberes para o mundo, eu de álcool prostitutas cigarros não falem mais, preciso de distância com estes três aliados.
Caros amigos ensine-me a ser poeta. por favor…

Fonte:
Texto enviado pelo autor

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Efigênia Coutinho (Êxtase)

Qual uma aquarela o êxtase se colore,
Para enfeitar o umbral da emoção.
Que em beijos, minha boca te devore,
E do ato de amar, sentimos a explosão.

Comungando da volúpia festejamos,
A nossa entrega num beijo sensual.
E o êxtase percorre o que fadamos
Para o desejo cobiçado torne-se real.

Por um latejar que enrubesceste,
Nossos corpos explodem de paixão.
O sangue umedece calorosamente
A nossa carne sedenta em fusão.

É o desejo que brota envolvendo,
Selando em beijos este momento.
Do amor, a magia transcendendo
Nossas almas em puro encantamento.

Fonte:
Texto e imagem enviados pela autora

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Monteiro Lobato (Caçadas de Pedrinho) VIII – Os negócios da Emília


Desde essa aventura ficou Pedrinho com mania de caçadas — mas caçadas de feras africanas. Queria leões, tigres, rinocerontes, elefantes, panteras, e queixava-se a Dona Benta (como se a boa senhora tivesse culpa) da pobreza do Brasil a respeito de feras. Chegou a propor-lhe que vendesse o sítio para comprar outro bem no centro de Uganda, que é a região da África mais rica em leões.

— Aqui nem dá gosto morar, vovó — dizia ele, torcendo o nariz. — Fora o jaguar, que outra fera possuímos? Só paca e veado e anta — uns pobres herbívoros que têm medo de gente. Eu queria mas era enfrentar peito a peito um rinoceronte!…

Dona Benta arrepiava-se com aquilo. Lera muita coisa sobre as grandes feras africanas e sabia que nenhuma existe mais traiçoeira e feroz do que o rinoceronte, com aquele seu terrível chifre no meio da testa. A pobre senhora esfriava da cabeça aos pés só ao lembrar-se do horror que seria uma chifrada de tal espeto.

— Veja, Nastácia, para que deu Pedrinho agora! — dizia ela. — Quer caçar rinocerontes… Não sei por quem puxou essa terrível inclinação.

Tia Nastácia benzia-se. Ignorava o que fosse um rinoceronte, não tendo visto nenhum, nem no cinema, nem em sonho; mas a simples palavra lhe metia medo. “Rinoceronte, credo!”

— E o pior — continuou Dona Benta — é que quando estas crianças encasquetam fazer uma coisa, fazem mesmo. Elas viram e mexem e acabam caçando algum rinoceronte. Você vai ver.

E assim aconteceu. Parece fábula, parece mentira do Barão de Munchausen e, no entanto, é a verdade pura: os netos de Dona Benta caçaram um rinoceronte de verdade!…

— Como?

— Esperem lá. Algum tempo depois do assalto das onças havia chegado ao Rio de Janeiro um circo de cavalinhos que era uma verdadeira arca de Noé. Trazia enorme bicharada — seis leões, três girafas, quatro tigres, zebras, hienas, focas, panteras, cangurus, jibóias e um formidável rinoceronte. Quando Pedrinho leu nos jornais a notícia do grande acontecimento, ficou assanhadíssimo. Quis ir ao Rio ver as feras, chegando a escrever a Dona Tonica, sua mãe, pedindo licença e meios. Antes, porém, de receber qualquer resposta, um fato sensacional se deu no Rio: o rinoceronte arrebentou as grades da jaula durante certa noite de temporal e fugiu. Fugiu para as matas da Tijuca, tomando depois rumo desconhecido.

Esse fato causou o maior rebuliço no Brasil inteiro. Os jornais não tratavam de outra coisa. Até uma revolução, que estava marcada para aquela semana, foi adiada, porque os conspiradores acharam mais interessante acompanhar o caso do rinoceronte do que dar tiros nos adversários.

“Um rinoceronte interna-se nas matas brasileiras”, era o título da notícia que vinha em letras graúdas em todos os jornais. Durante um mês ninguém cuidou de mais nada. Grande número de bombeiros e soldados da polícia foram mobilizados. Os melhores detetives do Rio aplicavam toda a sua esperteza em formar planos para a captura do misterioso animal. As forças do norte que andavam caçando o Lampião deixaram em paz esse bandido para também se dedicarem à caça do monstro. Dizem até que o próprio Lampião e seus companheiros pararam de assaltar as cidades para se entregarem ao novo esporte — a caça ao rinoceronte.

Onde estaria ele? Nas florestas do Amazonas? Nas matas virgens do Espírito Santo? Ninguém sabia. Telegramas chegavam de toda a parte sugerindo pistas. Um de Manaus dizia: “Numa floresta, a dez léguas desta cidade, foi visto, dentro dum cerrado de taquaruçus, o vulto negro dum monstro que parece ser o tal rinoceronte. Pedimos providências”.

Cinco detetives e numerosos bombeiros foram mandados de avião para aquele ponto, a fim de investigar. Descobriram tratar-se duma vaca preta que ficara entalada na moita de taquaruçus…

Outro telegrama do mesmo gênero veio da cidade de Cachoeiro, no Espírito Santo. “Nas matas vizinhas ouvem-se urros que não são de onça, nem de nenhum animal conhecido por aqui. Pedimos enérgicas providências.”

O avião dos detetives voou para lá. Era um papagaio que fugira dum jardim zoológico, no qual aprendera a imitar o urro de todos os animais.

Onde estará o rinoceronte? — eis a pergunta que, da manhã à noite, se repetia pelo país inteiro. Onde poderia ter-se escondido a tremebunda fera?

Ninguém possuía elementos para responder. Ninguém sabia. Ninguém — exceto… Emília!

Parecerá um absurdo. Parecerá invenção de gente sem serviço e, no entanto, é a verdade pura. Só a pequenina boneca do sítio de Dona Benta sabia realmente onde estava escondido o monstro!…

O caso foi assim. Logo que, naquela noite de temporal, o rinoceronte escapou da jaula e se internou nas matas da Tijuca, deu de andar sem rumo, e foi varando, sempre para diante, num trote respeitável até que, pela madrugada, surgiu na mata virgem do sítio de Dona Benta. Gostou do lugar e resolveu ficar por ali, pastando a viçosa folhagem das ervas que encontrou.

A presença do rinoceronte causou grande rebuliço entre os habitantes daquela mata. A capivara, que vive tanto em terra como em água, atirou-se ao rio e não teve mais coragem de sair. As onças fugiram. Os macacos empoleiraram-se na mais alta de todas as árvores. Nenhum animal podia compreender um bicho tão estranho e monstruoso. Observando aquilo, os besouros da Emília resolveram correr e avisá-la. Foram ter com a boneca.

— Apareceu lá na mata um bicho, que não se parece com bicho nenhum nosso conhecido — informaram eles gemeamente.

— Grande? — perguntou a boneca.

— Terá o tamanho duma casinha de caipira.

Emília calculou logo que fosse algum boi tresmalhado mas, pela descrição que os besouros fizeram, viu logo que não podia ser boi. De repente, teve uma idéia.

— Escutem: o tal monstro não é preto?

— Sim.

— Não tem o couro enrugado?

— Enrugadíssimo.

— Não tem um chifre só no meio da testa?

— Isso mesmo. Um chifre pontudo.

— Come gente?

— Não, só come capim e folhas de árvore.

Emília pôs-se a refletir, com a mãozinha no queixo. Ou era unicórnio, animal fabuloso que não existe, pensou consigo, ou era rinoceronte, e como Emília andasse com a cabeça cheia de rinocerontes, de tanto ouvir Pedrinho ler as notícias do rinoceronte que fugira do circo, imediatamente percebeu que se tratava do mesmo.

— É ele! — exclamou, em voz alta. — Que sorte tem Pedrinho! Quis um rinoceronte e um rinoceronte apareceu!…

— Ele quem? — indagaram os besouros, com as testinhas franzidas.

— Ele! — repetiu a boneca, fazendo uma tal cara de pavor que os besouros se puseram a tremer. — Ele é ele, não sabem?

Emília teve preguiça de ensinar àqueles burrinhos o que era um rinoceronte. E para ainda mais os assustar, fez outra cara horrendíssima e repetiu em tom cavernoso:

— Ele!…

Os dois besouros desmaiaram.

Emília deixou-os lá e voltou para casa sem pressa nenhuma, pensando, pensando. Ciganinha como era, costumava tirar partido de tudo. Por isso estava se tornando a boneca mais rica do mundo. O acaso a fizera descobrir um rinoceronte. Pois bem: Emília iria vender esse rinoceronte a Pedrinho…

Quando entrou na varanda já trazia o seu plano formado.

— Pedrinho — disse ela —, tenho um bom negócio a propor.

O menino estava espichado na cadeira preguiçosa, lendo os últimos jornais recebidos. Sem tirar os olhos da notícia que lia, respondeu:

— Já vem ela com os tais negócios! Negócios de boneca — bobagens…

— Trata-se dum negócio muito sério, Pedrinho. Quando você souber o que é, vai arregalar um olho deste tamanho!

— Pois então desembuche logo e não amole — disse ele, sem tirar os olhos do jornal. — Estou lendo uma notícia muito interessante sobre o rinoceronte fugido.

Emília fingiu-se interessada.

— Sim? E que diz a notícia?

— Diz que tudo isto, toda esta história de rinoceronte fugido não passa duma formidável peta. Não existe rinoceronte nenhum. O diretor do circo inventou o caso apenas para reclame.

— Que pena! — exclamou a boneca, fingindo tom compungido. — Seria tão bom se fosse verdade…

— Eu logo vi que era peta — disse Pedrinho, querendo bancar o esperto. — Percebi desde o começo que se tratava duma formidável peta. Rinoceronte no Brasil! Impossível. Esses animais não suportam o nosso clima.

Emília sorriu de tal jeito que o menino desconfiou.

— De que está rindo assim, boba?

— Da sua esperteza, Pedrinho. Bem diz Tia Nastácia que você é um alho…

— Muito obrigado pelo elogio; mas, alho ou cebola, deixe-me em paz. Olhe, Emília, vá ver se eu estou no pomar, ouviu?

— Então não quer fazer o negócio que venho propor?

Pedrinho queria e não queria. Por fim, a curiosidade o venceu.

— Que negócio é? Vamos, diga logo.

Emília preparou-se para apresentar o negócio. Antes, porém, fez um rodeio.

— Escute cá, Pedrinho. Quanto acha você que vale um rinoceronte no Brasil? Responda!

O menino tonteou com o disparate. Não podia haver pergunta mais absurda e boba do que aquela. Ficou danado.

— Foi para isso que me veio interromper a leitura do jornal? Ora, vá lamber sabão, ouviu?

Novo sorriso finório da boneca, que disse:

— Paz, paz! Não se queime. Responda à minha pergunta. Dê um preço qualquer.

— Não amole, Emília. Se continua a insistir, leva um peteleco.

— Não sabe — disse ela. — É natural. Um menino que jamais saiu do Brasil, que não esteve nem no Rio de Janeiro, é natural que não saiba o preço dum rinoceronte. Está desculpado…

— Bobagem! — exclamou Pedrinho, queimado. — Então é preciso ter saído do Brasil, ter viajado pelo mundo, para saber uma coisa à-toa como essa? Basta um pouco de raciocínio.

— Pois raciocine e responda à minha pergunta.

Pedrinho pensou um bocado e disse:

— Vale contos de réis. O valor das coisas depende da raridade delas, diz vovó. Numa terra onde haja centenas de rinocerontes, um deles vale… vale quanto? Vale o mesmo que um boi aqui ou uma vaca. Mas em terra onde não há nenhum, vale o que for pedido pelo seu dono. Eu, por exemplo, se fosse rico, era capaz de dar até trinta contos por um rinoceronte.

— Bom. Se fosse rico, dava trinta contos. E quanto dá sendo pobre? Tinha coragem de dar por um deles o carrinho de cabrito?

Esse carrinho de cabrito constituía o orgulho do menino. Fora presente do Manuel Carapina, um carpinteiro que passara lá uns dias, reformando o assoalho da casa. Pedrinho dava mais valor ao carrinho do que a todos os coches dourados de todos os reis da Terra — pela simples razão de que o carrinho lhe pertencia e os coches pertenciam aos reis. Mas um rinoceronte era um rinoceronte, de modo que a resposta do menino foi a que podia ser.

— Um rinoceronte vale todos os carrinhos de cabrito do mundo inteiro — disse ele.

— Pois eu tenho um belo rinoceronte à venda e se você quiser trocá-lo pelo carrinho, o negócio está feito.

— Basta! — gritou o menino. — Se continua a amolar-me com essa história, vou lá no seu cantinho e quebro todos os seus brinquedos. — Disse e absorveu-se de novo na leitura dos jornais.

Emília não contara com aquela saída. Percebeu que nem Pedrinho, nem ninguém no mundo jamais acreditaria que ela realmente tivesse um rinoceronte para vender — e desse modo estava arriscada a perder um grande negócio, talvez o melhor negócio de sua vida…
––––––––––––-
continua … IX – Emília vende o rinoceronte
———————
Fonte:
LOBATO, Monteiro. Caçadas de Pedrinho/Hans Staden. Col. O Sítio do Picapau Amarelo vol. III. Digitalização e Revisão: Arlindo_San

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Arquivado em O Escritor com a Palavra

Ialmar Pio Schneider (Verso Xucro II)


E no próprio mate amigo
és consolo na saudade,
lembrança doce que invade
este peito de índio macho,
os recuerdos de muchacho
que não voltam nunca mais,
o convívio com meus pais,
com minhas manas e manos
e os meus tristes desenganos
que já ficaram pra trás.

Da boiada o berro xucro,
dos passarinhos o canto,
da china o suave encanto,
do pago inteiro a beleza,
o esplendor da natureza
de tudo que nos pertence,
velha trova riograndense
és um motivo de glória
já remarcado na história
de um povo que luta e vence !

Nasces livre na Campanha,
lá na Serra ou nas Missões,
nem conservas os grilhões
de trovador erudito,
hás de ser sempre bendito
no estilo de quem te faz,
um peão ou capataz
pouco importa quem te faça,
espelho limpo da raça,
legado dos ancestrais !

Quem te escuta nas tertúlias
e nos saraus de galpão,
percebe com emoção
que trazes em tua essência
tal devoção à querência,
sentimento imenso e forte
capaz de vencer a morte
porque no pago do Além
sempre teremos Alguém
pra dirigir nossa sorte !

Fontes:
Texto enviado pelo autor, de
PÁG. 16 – O TIMONEIRO – CANOAS, 23.9.83 – TRADICIONALISMO
Imagem = Pura Barbaridade

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Ordem do Mérito Cultural 2011 pelo Ministério da Cultura


O Ministério da Cultura abriu dia 21 de junho o prazo para a inscrição das propostas de indicação à Ordem do Mérito Cultural para o ano de 2011. O tema central da celebração desta edição será Pagu- Sonho-Luta-Paixão em homenagem a Patrícia Rehder Galvão, conhecida pelo pseudônimo de Pagu, escritora e jornalista brasileira que teve grande destaque no movimento modernista iniciado em 1922.

Criada em 1995, pelo Ministério da Cultura, a Ordem do Mérito Cultural é o reconhecimento do Governo Federal a personalidades, grupos artísticos, iniciativas e instituições que se destacaram por suas contribuições à Cultura brasileira.

As condecorações são entregues, anualmente, por ocasião do Dia Nacional da Cultura (5 de novembro). Neste ano, a cerimônia de condecoração será realizada no dia 9 de novembro, no Theatro Santa Izabel na cidade de Recife (PE). Desde sua criação até hoje, já foram entregues mais de 430 condecorações a personalidades nacionais e estrangeiras.

As indicações podem ser enviadas para o site do Ministério da Cultura até o dia 22 de julho, mediante o preenchimento do formulário específico disponível no endereço eletrônico do MinC (http://www.cultura.gov.br/site/indicacoes-para-a-ordem-do-merito-cultural-2011/), ou pelos Correios, após download do documento (http://www.cultura.gov.br/site/wp-content/uploads/2011/06/ordem-do-merito-cultural-2011-formulario.doc ) a ser preenchido e encaminhado para o seguinte endereço:

Ordem do Mérito Cultural 2011
Ministério da Cultura
Assessoria de Comunicação Social
Esplanada dos Ministérios, Bloco B, 4º andar
CEP 70068-900 Brasília – Distrito Federal

Dúvidas e informações:
E-mail: omc2011@cultura.gov.br
Tels.: (61) 2024- 2406, com Eliane Rodrigues, ou 2024-2411, com Cleusmar Fernandes.

Indicações

As indicações podem ser feitas por quaisquer pessoas, e os indicados – personalidades, grupos, iniciativas e instituições que tenham contribuído para a Cultura brasileira – serão avaliados pela Comissão Técnica, constituída por gestores das Secretarias do Ministério da Cultura, que emitirá parecer conclusivo antes de encaminhá-lo à consideração do Conselho da Ordem do Mérito Cultural.

Integram o Conselho da OMC, a Ministra de Estado da Cultura, que o preside na qualidade de Chanceler, e os Ministros de Estado das Relações Exteriores, da Educação e da Ciência e Tecnologia.

A Homenageada

Musa da 3ª geração do Modernismo Brasileiro, Patrícia Galvão (1910-1962) foi romancista, poetisa, militante política e incentivadora da cultura. Formada na Escola Normal da Capital, em São Paulo, Pagu participou do movimento antropofágico sob influência de Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade com quem se casou em 1930. Em 1931 ingressou no Partido Comunista e passou a editar, junto com Oswald de Andrade, o jornal O Homem do Povo, onde assinava a coluna “A Mulher do Povo”.

Como militante do Partido Comunista, a escritora foi presa três vezes. Em 1931, no Brasil, ao participar de um comício do partido realizado em Santos com os estivadores. Em 1935, em Paris, onde foi presa como comunista estrangeira e repatriada ao Brasil por portar uma identidade com o nome de Leonnie. E depois de retornar ao Brasil, quando passou a trabalhar para o jornal A Plateia e se separou de Oswald de Andrade, foi presa e torturada, ficando na cadeia por cinco anos.

Ao sair da prisão, em 1940, rompeu com o Partido Comunista e casou-se com o jornalista Garaldo Ferraz. Em 1942 passou a atuar ativamente na imprensa, sobretudo como crítica de Artes. Em 1950, concorreu à Assembleia Legislativa de São Paulo pelo Partido Socialista Brasileiro; lançou o manifesto Verdade e Liberdade e passou a exercer importante papel no panorama cultural da cidade de Santos. Pagu frequentou o curso da Escola de Arte Dramática de São Paulo e passou a se dedicar cada vez mais ao teatro. De 1955 a 1962, trabalhou no jornal A Tribuna de Santos como crítica literária e de teatro e televisão.

Em setembro de 1962, Pagu viajou a Paris para ser operada de câncer. A cirurgia fracassa, ela volta ao Brasil e morre no dia 12 de dezembro. Entre os livros publicados pela escritora estão: Parque Industrial (1933), A Famosa Revista (1945), Verdade e Liberdade (1950), Safra Macabra (1998), Croquis de Pagu (2004), e Paixão Pagu – Uma autobiografia precoce de Patrícia Galvão (2005).

Pagu deixou dois filhos: Rudá de Andrade, fruto do casamento com Oswald de Andrade e Geraldo Galvão Ferral, filho de Geraldo Ferraz.

Fonte:
Texto de Heli Espíndola, Ascom/MinC, enviado pelo Ministério da Cultura.)
Foto: Site oficial/Viva Pagu
http://www.cultura.gov.br/site/2011/06/21/ordem-do-merito-cultural-2011/

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 252)


Uma Trova Nacional

Ancoradas no meu peito,
as lembranças da paixão.
Donas de fato e direito
dominam meu coração …
–LUIZ CARLOS JÚNIOR/SP–

Uma Trova Potiguar

Não vou falar por maldade
o que acabei de saber:
“A Mentira é uma Verdade
que esqueceu de acontecer!”
–SERGIO SEVERO/RN–

Uma Trova Premiada

2000 – Barra do Piraí/RJ
Tema: SERESTA – M/E

Passas fazendo seresta,
mal a noite se insinua…
E vais transformando em festa
toda a tristeza da rua…
–MARIA NASCIMENTO S. CARVALHO/RJ–

Uma Trova de Ademar

Ouvi desde a meninice
e guardo com fé tamanha
palavras que Cristo disse
lá no sermão da montanha…
–ADEMAR MACEDO/RN–

…E Suas Trovas Ficaram

Vento, o construtor perfeito,
ao ver meus dias tristonhos,
fez uma duna em meu peito,
com restos de antigos sonhos!
–EUGÊNIA MARIA RODRIGUES/MG–

Simplesmente Poesia

– ANDRÉ BONATTO JR/RS–
Tu II

Até aonde eu podia ir
em teu destino?
Onde meu limite?
Meus olhos queriam
mais do que
lhes cabia dentro.
Tolo. tolo,
quando deixei
tuas palavras
molharem
os meus ouvidos,
e teus verdes olhos
esverdearem os meus.
Hoje voas
e eu poemo!

Estrofe do Dia

Emoções que na vida eu já vivi
não previa o mais sábio dos profetas;
pois eu que era na vida um sonhador
vejo agora, alcançando minhas metas,
que em mim nasce a mais pura da certeza
de que tudo que tem de mais beleza
Deus coloca na mente dos poetas.
ADEMAR MACEDO/RN–

Soneto do Dia

–CRUZ E SOUZA/SC–
Piedade

O coração de todo o ser humano
Foi concebido para ter piedade,
Para olhar e sentir com caridade
Ficar mais doce o eterno desengano.

Para da vida em cada rude oceano
Arrojar, através da imensidade,
Tábuas de salvação, de suavidade,
De consolo e de afeto soberano.

Sim! Que não ter um coração profundo
É os olhos fechar à dor do mundo,
ficar inútil nos amargos trilhos.

É como se o meu ser campadecido
Não tivesse um soluço comovido
Para sentir e para amar meus filhos.

Fontes:
Textos enviados pelo Autor
Imagem = Scraplandia

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V Concurso Literário “Cidade de Maringá” (1a. Noite de Festividades)

artigo por José Feldman

Nas datas de 24, 25 e 26 de junho estão sendo realizadas as festividades do Concurso Literário “Cidade de Maringá”, quando serão entregues os prêmios aos vencedores nos quesitos Trovas; Sonetos; Poemas Livres; Cronicas.

Nesta sexta-feira à noite, no Auditório Hélio Moreira – Paço Municipal, com o auditório quase que inteiramente lotado, num evento primoroso sob a batuta de Olga Agulhon e Eliana Palma, pivôs desta organização, houve a apresentação das cronicas premiadas, com a leitura das mesmas pelos seus respectivos autores:

André Telucazu Kondo (Jundiaí – SP), com “Celeiro da infância”.
Élbea Priscila de Sousa e Silva (Caçapava – SP), com “Pequena e doce crônica”.
Fábio Augusto Antea Rotilli (Maringá – PR), com “O celeiro”.
Renato Benvindo Frata (Paranavaí – PR), com “As botinas de couro cru”.
Sebas Sundfeld (Tambaú – SP), com “A Ajuda”.

Após as apresentações, foram anunciados os lançamentos dos livros Coletânea 2011 da ALM e o Lançamento do livro com os textos premiados.

Também o lançamento de dois autores que falaram de seus livros, sendo lido textos dos mesmos.

“Diários de Solidão”, de Carlos Brunno S. Barbosa (Valença – RJ).
O autor fala dos momentos de solidão de cada um de nós, inclusive com a leitura da cronica sobre o Namoro com a Lua, quando se é criança.

“Contos do Sol Nascente”, de André Kondo (Jundiaí – SP).
André Kondo falou um pouco de sua experiência, dedicando este livro a seu pai. Traz ao Brasil um pouco da luz da aurora de um povo. Quinze contos, mais da metade recebeu algum prêmio literário, tendo recebido menção honrosa no Prêmio Esfera das Letras, de Portugal. Também em reconhecimento ao seu valor literário, a obra recebeu o apoio do Programa de Ação Cultural, da Secretaria de Estado da Cultura do Governo de São Paulo, em 2010.

Após os lançamentos, o escritor e jornalista maringaense Laurentino Gomes, que lançou os best-sellers “1808” e “1822”, realizou uma palestra falando sobre o panorama do livro no Brasil, desde os feitos em papel até a era digital.

Após, apresentação do espetáculo “Da Semente à Flor”, com o Coral Adulto da Fundação Luzamor.

Para este sábado:

Manhã Cultural no Auditório Joubert Carvalho – Biblioteca Municipal Bento Munhoz da Rocha Netto – Centro (entrada franca)

09h30.

· Revoada de Trovas.

. Apresentação do músico Júlio Enrique Gómez e da poetisa Roza de Oliveira, de Curitiba – PR.

· Apresentação do Coral Cocamar.

· Meu Amigo Guimarães – Revivendo Guimarães Rosa, com o acadêmico Nivaldo Donizete Mossato.

Solenidade de Entrega dos Prêmios
Hotel Bristol-Metrópole
19h30

Solenidade de Entrega dos Prêmios do Concurso de Maringá, com a presença de autoridades e Academias de Letras do Paraná e outros estados.

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Calêndula Literária 397 (Lançado pela UBT Porto Alegre)


Lançado mais um número da Calêndula Literária, a edição 397, Boletim Informativo da União Brasileira de Trovadores (UBT) Seção de Porto Alegre – RS

Festividades, concursos, sistema de envelopes para concursos, hora da trova, sobre o dia do trovador em 18 de julho, fotos de eventos, galeria de trovas,

Baixe este boletim de 5 paginas para seu computador AQUI

Algumas Trovas da Galeria de Trovas

“Que levas tu na mochila?”,
diz ao corcunda um peralta.
E o corcunda: – “A alma tranquila
e a educação que te falta.”
LILINHA FERNANDES+

Sendo um mistério profundo,
que a gente nunca pressente,
Destino é força do mundo
regendo a vida da gente…
MILTON NUNES LOUREIRO +

Trova é bom para a saúde,
faz amigos, dá prazer.
Talvez até nos ajude
a esquecer de envelhecer…
ANTONIO A. DE ASSIS – PR

Fonte:
Enviado por A. A. de Assis

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 251)


Uma Trova Nacional

Desde o berço à sepultura
caminharei sem temor,
conduzindo esta ventura:
ter nascido trovador.
–GILSON FAUSTINO MAIA/RJ–

Uma Trova Potiguar

Um beijo em ti, tão criança,
que agora tão longe vai…
Tudo me sai da lembrança,
mas o teu beijo não sai!
–PROF. GARCIA/RN–

Uma Trova Premiada

2009 – Niterói/RJ
Tema: CRENÇA – M/E

Se a tua crença é a vaidade,
olha o mar e vê quem és:
ele sai da majestade,
te alcança e te lava os pés…
–ALBA CHRISTINA CAMPOS/SP–

Uma Trova de Ademar

Tendo Deus como suporte,
o destino mais mesquinho
não vai mudar sua sorte
nem alterar seu caminho.
–ADEMAR MACEDO/RN–

…E Suas Trovas Ficaram

O céu aceso no pasto,
a unir milhões de vidrilhos,
campeia meu sonho gasto,
com seu chicote de brilhos…
–PAULO CESAR OUVERNEY/RJ–

Simplesmente Poesia

–INOEMA N. JAHNKE/RS–
Esperança

Eu sou o sorriso sincero,
Sou o medo na solidão,
Sou a dúvida sussurrada,
E a resposta encontrada,
Sou a saída, e a chegada,
Na mesma estrada,
Sou a luz na escuridão,
A ternura no coração,
Sou o sorriso da criança,
Eu sou…A própria esperança.

Estrofe do Dia

A bruma leve passava
Marejando o véu da noite,
O vento manso soprava
Nas telhas fazendo açoite.
Um trovão “malassombrado”
Rugia desesperado
Rasgando o bucho do céu;
As nuvens formavam mantos
Que derramavam seus prantos
No chão fazendo escarcéu.
–HÉLIO CRISANTO/RN–

Soneto do Dia

–AMILTON MACIEL MONTEIRO/SP–
Comum de Dois

O que separa o antes do depois
é uma linha tão tênue e tão delgada,
que em verdade ela não separa nada,
tal qual o que ocorre ao menos com nós dois!

Homem e mulher nós somos, minha amada,
mas tão unidos, tão colados, pois
que já nos chamam até “comum-de-dois”,
galhofa para a qual damos risada!

Não sei por que é que Deus nos faz assim:
eu grudado em você, e você em mim,
como o hoje se gruda ao amanhã!

O Pai do Céu, talvez, agrade a gente
pra que tenhamos vida mais cristã
e o nosso amor perdure eternamente!

Fonte:
Textos enviados pelo Autor
Imagem = http://fotosdahora.com.br

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Aparecido Raimundo de Souza (Caminho Sem Volta)

A jornada através das sombras que agora vamos acompanhar poderia ser a nossa jornada” Rod Serling.
ANA ANGÉLICA SENTE SUA ALMA RÉS AO CHÃO. A mente rodopia por fronteiras indistintas numa bagunça incontrolável. A cabeça parece cindida em mil pedaços. As vistas estão enfermas embaixo dos óculos de grau vencido. No peito, o coração teima acelerar descompassado, como se alguma coisa anormal o estivesse agitando. As pernas bambeiam, os dedos dos pés doem apertados dentro dos sapatos de coriáceo vagabundo. Até as roupas que lhe cobrem a nudez pesam sobre o corpo magro. Atrelado a isso, estranho mal súbito, insistindo dominar o ambiente, como se o universo fosse acabar no próximo minuto.

Nessa agonia sem par, se põe a perguntar: por que a modorra apática, e a desagradável sensação de fadiga lhe transformando a carcaça em estrupício? Se fosse uma pessoa madura, vivida, experiente, ainda vá lá. Contava somente dezenove anos de idade, e, diante disso, não tinha uma explicação plausível para tanto e tamanho sofrimento.

O dia transcorreu pesado e frio, com a mesma miscelânea circense de sempre. As horas lhe enterraram num sepulcro hostil e inviolável, tal como se a vida lhe tivesse tamponado num buraco fundo e sem retorno. E aquele maldito quarto de pensão, desgraçadamente mal iluminado, completava o quadro dantesco da sua triste e malfadada sina. Tentara, por diversas vezes, dominar o astral, escapar da turbulência repulsiva; fugir da alienação inconcebível e poderosa. Não conseguira. O espírito, perturbado demais, a colocava em posição inferior, num patamar que lhe deixava totalmente sem forças, carente e muito só. Outras ninfetas, indiferentes a dor sentida, zombavam da sua cara, escarneavam pontos frágeis, motejavam, na verdade, da sua posição ridícula. No fundo, dava a impressão que aguardavam, pacientemente, sua entrada nos labirintos obscuros da neurastenia.

Com os pensamentos embaralhados e, em tumulto desordenado, perguntava a si mesma, aflita, como caíra tão rapidamente naquela incúria, deixando-se levar pelo injustificado das incertezas e das horas tediosas da solidão? Onde ficara a vontade de vencer os obstáculos, o desejo de transpor barreiras e saltar infortúnios inesperados?

Sem obter respostas à altura dessas indagações, Ana Angélica, praticamente encurralada sobre os infortúnios da sua própria desgraça, lamentava ter deixado pequenos contratempos dominarem sua existência, a ponto de vegetar ao deus-dará. Afinal de contas, qual o motivo, ou melhor, o que ensejou toda essa transformação em sua tão curta jornada?

Pôs-se, de repente, a lembrar o passado. Fazia pouco mais de cinco meses, seu pai lhe colocara no olho da rua. Motivo? Uma indesejável gravidez. Até então, Ana Angélica era a melhor filha do mundo. Com a revelação do exame laboratorial feito às pressas, perdeu a posição de “princesa” para aquele cidadão que gozava de alta reputação na cidade. Na verdade, a autoridade máxima do judiciário local: o juiz!

Como representante da lei, o cabeça da família precisava dar exemplo. Assim, o velho genitor virou-lhe as costas, mostrando, com esse gesto, a porta da rua e escancarando a crueldade que começava do portão que se abria, como um leque, para as intempéries da sorte. A decadência da moça tornou-se maior, praticamente se fez mais pesada, a partir do instante em que, ao procurar abrigo na casa do namoradinho que lhe jurara amor eterno, este lhe virara as costas. Leandro, descendente de tradicional família e de renome no campo médico, ao saber da novidade, jogou para o alto os anos de medicina em boa faculdade, o consultório ricamente montado, a clínica cardiológica e o comodismo de viver às expensas paternas. Na calada da noite o doutorzinho deixou o lugarejo a horizontes ignorados.

Em povoados de extensão limitada, não é preciso muito esforço para cair na boca do povo. Envergonhada, sem comida e teto, e, ainda, com a agravante da fuga do pai da criança, a solução plausível para Ana foi embarcar no primeiro trem. Aportou em São Paulo, ou mais precisamente na Estação da Luz. Sem condições de sobrevivência, não demorou encontrar os degraus mal cheirosos do submundo da prostituição. E nesse ambiente árido e infértil, Ana mergulhou de cabeça.

Bonita, formosa e gentil, não lhe faltavam noitadas regadas a cervejas e bebidas baratas. Os fregueses variavam: ora saia com um marginal, outra carregava para a cama um gringo desses bem nojentos. Às vezes dormia com almofadinhas elegantes, casquilhos vestidos a rigor ou efeminados. A maioria deles drogados e viciados em crak, maconha e cola de sapateiro. A tempo igual, o espaço que mediava entre a concepção e o nascimento não interrompia a hora derradeira, ao contrário, diminuía, diminuía, diminuía…

Nessa pressa de vida fácil o tempo sempre corre com rapidez impossível. Voava, para Ana Angélica como um Pégaso desgovernado, trotando atabalhoadamente na direção do precipício fatal. Atiçada pela elevada valorização do corpinho esbelto e garboso, a matrona, dona do bordel não perdia clientes, longe disso, multiplicava o conjunto de paroquianos como fiéis num culto religioso.

Os que frequentavam a casa só queriam desfrutar daquela elegante bem proporcionada e sensual, caída dos céus, como um anjo em forma de gente. Por essa razão a cafetina conhecida como ”Maria Padilha”, em menos de três semanas, adquiriu dois bons apartamentos quitinetes no edifício “Balança Mais Não Cai,” na Rua Major Sertório, perto da antiga rodoviária e comprou um carro novo para desfilar.

Com a mente ainda em desalinho, e sem um policiamento ostensivo para conter a avalanche de desgraças que a atormentava, Ana Angélica continuava a se questionar dessas mudanças bruscas, quando, entrementes, lembrou da arma que a colega de quarto guardava na prateleira. Resoluta, caminhou até lá. Precisava agir rapidamente. Logo a parceira chegaria do programa que saíra para fazer. Abriu a gaveta. Um trinta e oito cano curto, cabo em madre pérola, municiado, descansava entre as calcinhas e sutiãs. Apanhou, o revólver, decida, firme, resoluta, feições contraídas, o coração quase a saltar peito a fora. Lentamente se acomodou na banqueta diante do espelho com um pedaço de vidro faltando numa das extremidades:

-“Adeus, mundo. Adeus, vida.
Pai, mãe, me desculpem!…”

Num último ímpeto materno, alisou a barriga carinhosamente. Cinco meses. Cinco longos meses…

Seria um menino ou uma menina?

Sem assistência médica e condições de visitar um ginecologista, o feto sobrevivia desidratado e a trancos e barrancos. Que nome lhe daria? Como seria o rostinho? Com quem pareceria? Talvez, quem sabe, com ela, ou…

Nesse instante amargo, somatizado a tantos outros percalços, dos seus olhos de menina mulher caíram algumas lágrimas ligeiras. Lembrou-se do pai, e da ultima conversa que tiveram antes de acontecer toda essa bagunça em sua vida: -“Filha, disse ele a certa altura – aequam memento rebus in arrudas servare mentem, aconteça o que acontecer. Jamais entregue os pontos. Seja forte, lute pela vida, brigue, esperneie, mesmo que todo seu eu interior transpire solidão e agonia”(*).

Todavia, agora, era tarde demais. Das palavras sábias do velho pai, só recordações distantes agonizando no peito despedaçado.

– “Perdoe a mamãe, meu neném querido, seja você quem for. Não está certo o que vou fazer. Não tenho o direito de tirar sua vida. Você não vai entender esse gesto, mas… Mas… Será melhor… Será melhor que você não conheça esse lado mau e negro. Mamãe ama você… Mamãe ama você… Mamãe aaa…”.

O tiro ecoou forte, viajou certeiro em busca do alvo fácil, e, num instante dolorido, virou uma espécie de loopem tremendamente perverso dentro do aposento mal iluminado. Pessoas danaram a gritar. “Maria Padilha” esmurrou a porta com vigor. Um homem berrou para que alguém acionasse a polícia.

Enquanto isso, dobrada sobre si mesma, deixando escapar desejos mal resolvidos e envolta numa enorme possa de sangue, Ana Angélica, a querida e desejada dama da noite, agora metida numa via de mão única e sem retorno, soltava o derradeiro e lancinante grito de estertor.

(*) “Lembra-te de manter o ânimo justo nos momentos difíceis”.

Fontes:
Texto enviado pelo autor

Imagem = http://familiaalianca.blogspot.com

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Jogos Literários de Montargil – 2012 (Classificação Final)

Quadra Popular
Tema :HONESTIDADE

1º)
No seu trabalho sagrado
o alentejano, em verdade
mesmo mal remunerado
nunca vende a honestidade!
MARIA AMÉLIA BRANDÃO DE AZEVEDO
ESTORIL

2º)
Viver com Honestidade
É na vida um grande bem
É fazer muita amizade
Fazendo feliz alguém
CELESTE MARIA DA SILVA AVÓ CHARNECA
S.Miguel de Machede ÉVORA

3º)
Quando um aperto de mão
Tinha a força dum contrato,
Podia-se crer então
Até num simples gaiato…
FERNANDO MÁXIMO
AVIS

4º)
Quando um homem é honesto
detém sempre dignidade
quer seja rico ou modesto
é um homem de verdade
MARIA RUTH BRITO NETO
LISBOA

5º)
Nesta vil sociedade
O que mais me custa ver,
É falta de honestidade
Em quem mais devia ter
FERNANDO MÁXIMO
AVIS

6º)
Se do percurso da vida
faz parte a honestidade
ela está enriquecida,
sem ser rica na verdade.
FELIZARDA ROSA DA SILVA N.MAIA
LISBOA

7º)
Se a verdade não te inspira
devido ao custo elevado…
Experimenta a mentira
e aguarda o resultado!
RITA VILELA
Paço de Arcos

8º)
Fosse a vida honestidade,
sementeira de amor dito
só colhia a humanidade
seara de alto gabarito.
MARÍLIA JOSÉ DORDIO MARTINS
Portalegre

9º)
Honestidade? Valor!
Todos deviam ter.
É verdade sim senhor,
Mas parece não haver!
JOSÉ MARQUES AFONSO
BEJA

10º)
Honestidade, meu bem,
que palavra tão comprida,
como tal quase ninguém
lhe presta a atenção devida.
VICTOR BATISTA
BARREIRO

1º do Alentejo
CELESTE AVÓ CHARNECA

1º de Montargil e da EBI

Não devemos esquecer
os valores que aprendemos,
honestos devemos ser
em tudo o que fazemos.

CONTOS

1º)
Esperança Em Melhores Dias
MARIA RITA DOS SANTOS ROMÃO
Paço de Arcos

2º)
Dádivas Da Vida
MARIA FILOMENA SANTOS COSTA FIGUEIREDO
Leiria

3º)
A Sede De Ontem
DONZÍLIA RIBEIRO MARTINS
Paredes


Quando O Deslumbramento Bate A Má Porta
JÚLIO SILVA MÁXIMO VIEGAS
Queijas

5º)
Natureza
MARIA FILOMENA SANTOS COSTA FIGUEIREDO
Leiria

6º)
Honestidade
FERNANDO MÁXIMO
Avis

7º)
Senhora Honestidade
MARIA ALBERTINA DORDIO MARTINS
Portalegre

8º)
Ela Não Gostava De Mentir
MARIA RITA DOS SANTOS ROMÃO
Paço de Arcos

9º)
Dificil
FERNANDINO LOPES
Avis

10º)
Honestidade
JOÃO BAPTISTA COELHO
S. Domingos de Rana

1º do Alentejo
FERNANDO MÁXIMO
Avis

Fonte:
Lino Mendes

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 250)

Praia Brava (São Sebastião) – autoria de JB Xavier,
desenho a lápis e carvão

Uma Trova Nacional

Voltei a ter confiança
neste mundo tão ruim,
ao descobrir a criança
que ainda habitava em mim!
–RENATO ALVES/RJ–

Uma Trova Potiguar

Olhos fundos; enfadonhos,
tez crestada, mão ferida…
Só você, pai, por meus sonhos,
foi capaz de dar a vida…!
–MANOEL CAVALCANTE/RN–

Uma Trova Premiada

2009 – Niterói/RJ
Tema: CRENÇA – M/E.

Se a tua crença é a vaidade,
olha o mar e vê quem és:
ele sai da majestade,
te alcança e te lava os pés…
-ALBA CHRISTINA C. NETTO/SP-

Uma Trova de Ademar

Ouvi desde a meninice,
e guardo com fé tamanha,
palavras que Cristo disse
lá no sermão da montanha…
–ADEMAR MACEDO/RN–

…E Suas Trovas Ficaram

Quando um povo escravo acorda,
pondo fim ao jugo insano,
a mão de Deus põe a corda
no pescoço do tirano …
–JOUBERT DE ARAUJO/ES–

Simplesmente Poesia

–GILBERTO CARDOSO/RN–
Baú de Trovas.

O Baú de Sílvio Santos
contém riquezas sem par
mas não possui os encantos
deste baú de Ademar;
ele não vai perguntar
a vocês: “Quem quer dinheiro?”
Mas se algum interesseiro
quiser, de fato, um tesouro,
ele nos dará o ouro
de um poema verdadeiro.

Estrofe do Dia

Nos lindos carnaubais,
nas manhãzinhas brumosas,
no desabrochar das rosas,
nos bonitos parreirais,
nas frondes dos coqueirais
que tremulam noite e dia,
por dentro da serrania,
por toda gruta e recanto;
se vê o suave encanto
das telas da poesia.
-ZÉ DE CAZUZA/PB-

Soneto do Dia

–FRANCISCO NEVES MACEDO–
Tributo ao Dicionário.

O dicionário, qual mulher incrível,
e sempre para nós, indispensável,
numa entrega total, imensurável,
doando para nós, todo o possível.

Se o verso parecer quase impossível
por sua doação, fica viável
e neste conviver terno e saudável
torna a vida mais doce e mais sensível…

É você, meu amigo dicionário,
nosso caso de amor extraordinário
jamais terá divórcio, ele é moderno.

Vamos esparramar nossa poesia
em romântica e doce parceria…
Nosso caso de amor será eterno!

Fontes:
Textos enviados pelo Autor
Imagem = http://www.jbxavier.com.br

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Monteiro Lobato (Caçadas de Pedrinho) VII – O assalto das onças

Depois de tomado o café com farinha de milho, Pedrinho pendurou o Visconde no galho mais alto duma árvore próxima, armado do binóculo de Dona Benta, para dar aviso da chegada das onças. O nobre fidalgo, porém, sempre tivera o costume de acordar tarde, ali pelas dez horas, mais ou menos. Em vista disso resolveu dormir no seu galhinho, certo de que só lá pelas dez horas as onças viriam. Dormiu e, portanto, não pôde dar aviso da chegada das onças, que já estavam bem perto. Quem percebeu a aproximação delas foi a Emília, que tinha um faro maravilhoso.

— Estou sentindo no ar um cheirinho de onça! — exclamou, em certo momento.

Por força da sugestão ou porque de fato andasse pelo ar algum cheiro de onça, todos ergueram o nariz e sentiram um forte cheiro de onça. Como é então que o Visconde não dava nenhum aviso? Pedrinho correu ao terreiro e gritou:

— Avise duma vez, palerma! Não vê que as onças já estão chegando?

O pobre fidalgo acordou com o berro e ainda cheio de sono espiou pelo binóculo, mas em sentido contrário, de modo que viu as onças muitíssimo longe.

— Vêm, sim — disse ele —, mas tão longe, tão longe e tão pequenininhas, que até que cresçam e cheguem dá tempo de…

Não pôde concluir. Escorregou do galho e veio de ponta-cabeça ao chão.

Mas não havia tempo de acudir o pobre Visconde, caído de mau jeito bem em cima duma lama onde ficou de cabeça enterrada. O tempo era o exatamente necessário para se colocarem sobre as pernas de pau. Corre-corre geral. Cada um tratou de apanhar o par de pernas que lhe pertencia e de ajeitar-se em cima. Em três minutos o terreiro ficou povoado daqueles estranhos bípedes pernaltas. A primeira coisa que lá do alto viram foram as granadas de cera da Emília, arranjadinhas sobre o telhado. Pedrinho quis examiná-las. Não pôde. A boneca espantou-o com um grito.

— Não se aproxime! Não bula, não me estrague o capítulo!…

E Tia Nastácia? Essa ficou embaixo, rezando e riscando a cara e o peito de trêmulos pelo-sinais. Apesar de descrente da vinda das onças, que lhe parecia coisa impossível, começou a sentir um horrível medo. E se viessem mesmo? pensava ela. E se o tal cheirinho que a boneca sentira no ar fosse mesmo cheiro de onça?

Súbito — Miau! Um horrível miado ressoou no pasto. Devia ser o sinal de ataque do onço viúvo. Logo em seguida surgiram de dentro de todas as moitas uma infinidade de caras de onças e jaguatiricas e irarás e cachorros-do-mato, com olhos ameaçadores e dentuças arreganhadas.

Só então a pobre negra se convenceu de que tinha errado. Correu qual uma desvairada às pernas de pau que Pedrinho lhe tinha feito. Nada achou. A Cléu se havia utilizado delas. Olhou aflita para a escada. Bobagens, escada! As onças também trepariam pelos degraus. Seus olhos esbugalhados procuravam inutilmente a salvação.

— Trepe no mastro! — gritou-lhe a Cléu.

Sim, era o único jeito — e Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou que nem uma macaca de carvão pelo mastro de São Pedro acima, com tal agilidade que parecia nunca ter feito outra coisa na vida senão trepar em mastros.

Foi a continha. A onçada toda já estava no terreiro.

A princípio, os assaltantes não perceberam o truque inventado por Pedrinho para lográ-los. Os animais de quatro pés raro olham para o alto e, como os pernaltas guardassem o mais absoluto silêncio, as onças não os viram lá em cima de seus espeques. Entraram pela casa adentro em procura deles e, não os encontrando, mostraram-se desapontadíssimas.

— Fugiram, os covardes! — uivou, com os olhos chispantes de cólera, o onço viúvo. — Alguém os avisou e eles fugiram…

Nisto, uma cuspidinha da Emília caiu-lhe bem no focinho. O onço olhou para cima e sorriu, lambendo os beiços.

— O nosso “almoço” não fugiu, não! — exclamou, contentíssimo. — Lá estão todos os “pratos”, cada qual em cima de dois “espetos”.

Toda a bicharia olhou para cima, com água na boca. Não tinham comido na véspera, o apetite era forte e viram que iam ter uma bela variedade de petiscos — um menino, duas meninas, um leitão, uma boneca, uma velha branca e uma velha preta. Ótimo!

— Isso é que é almoço! — observou uma irará. — Vai ser um banquete dos bons…

Mas como devorar aqueles pernaltas? O onço, que era o mais forte do bando, experimentou o pulo. Deu quatro ou cinco pulos formidáveis, os maiores de sua vida — mas inutilmente. Os espetos tinham quatro metros de altura e os seus pulos não iam acima de três metros e noventa e cinco centímetros.

— Com pulo não vai — disse ele. — Precisamos inventar outra coisa. Que há de ser?

— Tenho uma idéia — latiu um cachorro-do-mato de talento. — Eles não podem ficar lá em cima toda a vida. Hão de descer logo que a fome aperte. Minha idéia é ficarmos aqui de plantão até que desçam.

— Sim — disse o onço, que era burríssimo — mas se a fome aperta para eles, também aperta para nós — e como é?

— Revezamo-nos — resolveu o cachorro. — Metade do bando vai caçar e almoçar no mato, enquanto a outra metade fica de guarda. Desse modo poderemos permanecer aqui a vida inteira, se for preciso.

— Eu não disse? — cochichou Dona Benta. — As malvadas vão revezar-se e estamos perdidos…

A situação era gravíssima. Cléu, que não tinha prática de aventuras maravilhosas, fez bico de choro. As onças estavam decididas a tudo; e, se os pernaltas podiam resistir por muitas horas, o mesmo não acontecia à pobre Tia Nastácia, que já mal se agüentava no mastro. — Vou cair! — berrou ela, de repente. — Não agüento mais. Minhas mãos já começam a escorregar…

— Estão vendo? — disse o onço, passando a língua pela beiçaria. — O nosso banquete vai começar pela sobremesa. O furrundu está dizendo que não agüenta mais e vai descer…

— Emília! — gritou Pedrinho. — Estamos esperando por você! Que venha a surpresa das granadas.

A boneca tratou de tirar partido da situação.

— Muito bem — disse ela — mas só lançarei as minhas granadas sob três condições.

— Diga depressa!

— Primeiro: que todos reconheçam que sou a mais esperta e inteligente do bando. Segundo: que Dona Benta me dê um regadorzinho de jardim, dos verdes — de outra cor não quero. Terceiro que…

— Socorro! — berrou, num tom de cortar a alma, a pobre Tia Nastácia, que não podendo mais agüentar-se no mastro vinha escorregando lentamente.

Emília não esperou pela resposta às suas condições. Aproximou-se do telhado, tomou as granadas e — zás! — arremessou-as contra o bando de feras. As granadas romperam-se ao bater nos alvos e deixaram sair de dentro enxames de caçunungas, que são as mais terríveis vespas que existem.

Foi uma tragédia! As vespas ferraram nos focinhos e olhos das onças e irarás e cachorros-do-mato, fazendo-os fugirem dali numa desabalada louca. Em meio minuto o sítio ficou inteiramente limpo de bicho feroz.

Não foi sem tempo. Tia Nastácia já estava no chão, escarrapachada ao pé do mastro, mais morta do que viva, suando

O suor frio da morte. Se as granadas da Emília não tivessem produzido aquele maravilhoso resultado, a boa negra realmente não escaparia de virar furrundu de onça…

— Viva! Viva a Emília! — gritou Cléu, entusiasmada com a proeza da boneca.

— Viva! Viva a rainha das bonecas! — gritaram os outros.

Prática como era, Emília tratou de aproveitar aquele entusiasmo para ganhar coisas. Obteve de Dona Benta a promessa dum lindo regadorzinho verde; de Pedrinho apanhou, ali na hora, cinco tostões novos; e de Narizinho conseguiu uma mobília de boneca.

— E você, Cléu, que me dá?

— Um beijo, Emília.

A boneca fez um muxoxo de pouco-caso. Depois, voltando-se para Tia Nastácia:

— E você, pretura?

Tia Nastácia não pôde responder. O susto por que passara fora tanto que havia perdido a voz. Foi preciso darem-lhe a beber uma caneca d’água. Só então pôde abrir a boca e dizer:

— Você me salvou a vida, Emília, e não há o que pague semelhante coisa. Dou tudo quanto me pedir.

— Quero aquele pito de barro em que você pita — respondeu a boneca.

Foi assim que Emília ganhou o célebre pito de barro que mais tarde deu de presente ao Pequeno Polegar.
––––––––––––––-
Nota sobre o uso das expressões raça negra e macaca de carvão
Na época que Monteiro Lobato escreveu esta história, a expressão negro referia-se à raça das pessoas, assim como o branco, o amarelo, etc.
A frase “Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou que nem uma macaca de carvão pelo mastro de São Pedro acima”, é uma expressão para se entender a situação na história, sem de uso de malícia ou de forma insultosa.

José Feldman
––––––––––––-
continua … VIII – Os Negócios da Emília
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Fonte:
LOBATO, Monteiro. Caçadas de Pedrinho/Hans Staden. Col. O Sítio do Picapau Amarelo vol. III. Digitalização e Revisão: Arlindo_San

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 249)

Alinhar ao centro
Uma Trova Nacional

Se pensas em me deixar
quero que seja feliz!
A tristeza vai passar,
apagando a cicatriz!
–LUIZ CARLOS JÚNIOR/SP–

Uma Trova Potiguar

A chuva, intensa, aflorou,
o fel da dor e, no entanto,
ante um sonho, que findou,
desfez-se o amor, fez-se o pranto.
–FABIANO WANDERLEY/RN–

Uma Trova Premiada

2009 – Niterói/RJ
Tema: CRENÇA – M/H.

Teu adeus me machucou
mas eu creio, sem revolta,
que a rua que te levou
trará teus passos de volta!
–MARINA BRUNA/SP–

Uma Trova de Ademar

Quero imediatamente,
de maneira natural,
fazer um resgate urgente
da minha própria moral!
–ADEMAR MACEDO/RN–

…E Suas Trovas Ficaram

As praias, que são tão belas
quando o sol as incendeia,
transformam-se em passarelas
feitas de espumas e areia.
–ORLANDO BRITO/MA–

Simplesmente Poesia

MOTE :
Vou beber pra ver se mato.
a dor que está me matando.

GLOSA :
Tem algo mesmo de fato
que vive me consumindo,
mas isto que estou sentindo
vou beber pra ver se mato.
Bem sutil vou como um gato,
devagar se aproximando,
a virada está chegando
e não vai ao fim do mês;
vou liquidar de uma vez
a dor que está me matando.
–LUIZ XAVIER/RN–

Estrofe do Dia

Estava um dia a sonhar,
uma alma apareceu,
uma botija me deu
e me ensinou o lugar,
quando eu comecei cavar
já fui sentindo um espanto,
não sei se foi diabo ou santo
que gritou de lá : não cave,
a riqueza é uma ave
que não pousa em todo canto.
–ZÉ DIONÍZIO/PB–

Soneto do Dia

–MÁRIO QUINTANA/RS–
A Rua dos Cataventos

Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arrancar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!

Fontes:
Textos enviados pelo Autor
Imagem = Mundo dos Gifs

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JB Xavier (A Última Dança)


The Jet Blacks ao fundo tocavam “Tema para Jovens Enamorados”, e deslizávamos pela pista improvisada como dançarinos de um balé irresistível. Finalmente, depois de décadas, terminávamos nossa dança há tanto iniciada, nos verdes anos de nossa juventude. Foi preciso que nossos caminhos se desencontrassem, foi preciso que seguíssemos cada qual nossos rumos. Mas meu coração nunca a esqueceu, e ela nunca esqueceu o meu…

Depois, um dia, quando o destino cansou de brincar conosco, quando ela já não era mais que uma linda pintura na parede do meu passado, assim, repentinamente, de novo a encontrei…E vinha pela vida com muitos sorrisos e algumas feridas e eu, com muitas feridas e alguns sorrisos…Então, ela me disse.

“Alô! Está a passeio?”.

Voltei-me e a vi ao meu lado. Foi como se um raio tivesse caído sobre mim, e seu clarão me cegado completamente. Quase desfaleci de felicidade ao vê-la, ainda bela, e ao ouvir a voz maviosa que por tantos anos ecoou em meu coração.

Sem conseguir organizar o turbilhão em que se transformaram minhas idéias, respondi como um autômato:

“Eu… moro aqui!”.

Seguiu-se um momento mágico de reencontro alucinante, onde, parados ali, no hall do hotel, sem ousar nos tocarmos, desfilavam por nossos olhos, num ritmo frenético, a angústia de toda uma vida de espera. O mundo desapareceu ao nosso redor, e o grande turbilhão misturou todos os sons, transformado-os num incompreensível torvelinho de vozes e ondas do mar.

Sua voz ficou a latejar em meus ouvidos na eternidade que duraram aqueles segundos preciosos. Uma fraqueza espalhou-se sorrateiramente pelo meu corpo e tive que me apoiar no balcão enquanto minhas têmporas ameaçavam explodir. Então, a suave música de sua voz deu-me a certeza de que eu delirava em plena luz do dia.

“Estamos a passeio. Partimos amanhã cedo. Este lugar é maravilhoso”.

Deus! Por quantos anos esperei por esse encontro, até vir morar nesse lugar isolado, onde minha saudade pode livremente passear pelos campos da imaginação. Foi preciso que nossas vidas voltassem a ficar vazias, para que nossos caminhos de novo se encontrassem.

“Conheces esse senhor?” Perguntou o homem que se aproximou e passou o braço por sobre seus ombros,

“Não, eu só estava pedindo algumas informações”.

Pude sentir em minha própria alma o esforço que ela fez para dizer isso, e vi a tristeza imensa que havia em seu olhar, a despeito do maravilhoso sorriso que tentava encobri-lo. Compreendi que ela era prisioneira de seu destino.

De volta ao meu apartamento, à beira do oceano, às margens da fímbria da floresta, numa solidão que jamais supunha existir, escolhi a música com a qual pela última vez dançáramos, e, quando os primeiros acordes encheram o ar de saudade, fui até a sacada onde meu coração finalmente se rendeu, explodindo meu peito em soluços incontroláveis. Minhas lágrimas puderam livremente juntar-se às águas do mar…

E assim a noite foi descendo sobre o mundo. Não sei por quanto tempo fiquei olhando sem foco as faíscas que o sol esculpia nas ondas…Efêmeras e vazias como minha própria vida.

Então seu perfume novamente inebriou-me a alma, e mãos angelicais pousaram suavemente sobre meus ombros. Quando me voltei, ela me olhava com seus olhos maravilhosamente ingênuos, que o tempo não conseguira corromper.

Ela estava ali, diante de mim, como em meus sonhos mais alucinados, sonhos que me perseguiram através de toda a minha vida.Nem a percebi entrar…Estava descalça como eu, e, sem dizer palavra, roçou seus lábios nos meus num dulcíssimo beijo do mais puro devaneio.

Os acordes da música maravilhosa nos envolveram e ela, tomando-me em seus braços levou-me numa dança calma e ondulante onde parecíamos flutuar…

“Nossa primeira… e última dança” murmurou ela docemente num sussurro quase inaudível, na voz que eu tanto me esforçara para que o tempo não apagasse.

“Deus atendeu às minhas súplicas e permitiu que eu te visse uma última vez”.

Seu perfume banhava-me a alma e brisas de saudade invadiam-me em ondas de ansiedade, na tentativa de parar o tempo e resgatar toda a felicidade não vivida, todas as lágrimas derramadas, todas a noites de silenciosa agonia, enquanto meus pés descalços deslizavam pelo carvalho liso do assoalho.

Ao longe, através dos grandes janelões envidraçados, o oceano debruçava-se numa tarde preguiçosa e avermelhada, como a render homenagem ao nosso desesperado reencontro. Ausente da dor voraz que consumia nossos corações, uma gaivota pousou curiosa no parapeito tosco da sacada, de onde observava, enlevada, nosso último bailado.

Para os lados do nascente, mares de densas e verdes florestas ondulavam sob a brisa da tarde, despedindo-se do dia, rendendo sua homenagem aos últimos raios do sol. Sombras mágicas avançavam sobre a mata, e os cumes das montanhas próximas apontavam algumas estrelas que já cintilavam num céu violeta, borrado aqui e ali pelo vermelho do poente.

Eu a segurava pela cintura como se segura uma fina porcelana rara, quase sem a tocar, e podia sentir seus leves movimentos sob minhas mãos angustiadas. Então, como eu sempre desejara, o tempo cessou de fluir. Havia somente nós dois, nesta dança há tanto sonhada.

Aproximamos nossos corações…Tínhamos tanto a nos dizer, e nos dissemos tudo, através do silêncio que transbordava de nossas almas…

Minutos, foi tudo o que precisamos para viver nossa eternidade, e nela permanecemos abraçados, olhos nos olhos, conscientes de que escrevíamos o último capítulo de um livro inacabado.

Assim, por instantes, enganamos o próprio tempo. Depois lentamente, a música chegou ao fim…E na intensidade de um olhar esfuziante, no desespero de mãos que se distanciam para sempre, nas vibrações de almas desesperadamente carentes, ela se foi, deslizando, ainda a girar, e quando a porta se fechou sobre minha vida, The Jet Blacks recomeçaram…Blue Star…e ainda na emoção de te-la em meus braços, recomecei a dançar…

Fontes:
JB Xavier
Imagem = Mundo dos Gifs

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José Tavares de Lima (Vozes do Coração) Parte IV


A brisa quando se lança
pelos campos a correr,
até parece criança
brincando de se esconder

A torre da ermida ao longe,
entre sombra e solidão,
lembra a figura de um monge
numa infinita oração!

Buscando um jeito suave
de superar nossas crises,
o meu deslize mais grave
foi perdoar teus deslizes!

Chora a mulher desolada,
ao ver que o mar traiçoeiro
trouxe de volta a jangada,
mas não trouxe o jangadeiro!

Eu não sei de solidão
que se compare à de quem
não guardou no coração
uma saudade de alguém.

Louvo a mão que, resoluta,
com arte digna de espanto,
transforma a madeira bruta
na doce imagem de um santo!

Mesmo chorando ou sorrindo,
em cada olhar de criança
descubro um sol claro e lindo
com o brilho da esperança !…

Não creio mais no que dizes,
e perdoar-te não vou…
Foram tantos teus deslizes
que o meu perdão se cansou !

Não me empolga a fantasia
de amores fúteis, devassos…
O amor que eu tanto queria
já encontrei nos teus braços!

Não regressas… Triste aceito
cumprir a pena severa
desta espera que em meu peito
é mais angústia que espera! …

Não sou perfeito, mas creio
que entre as pessoas da terra,
censura o deslize alheio
justamente quem mais erra

Não te julgues tão segura
depois que foste e voltaste…
Pois teu regresso não cura
a mágoa que me deixaste!

No constante perde-e-ganha
deste viver peregrino,
há sempre uma força estranha
movendo o nosso destino

No purgatório do mundo
penei… mas pude encontrar
um céu sereno e profundo
quando vi o teu olhar!

Nos aparências não creias…
Existem rios no mundo
de águas escuras e feias
que têm tesouros no fundo! …

O amor que é paixão, que é febre,
põe, com a sua magia,
na pobreza de um casebre
a riqueza do alegria!

Os povos irão se unir
sem que a guerra os amedronte,
quando o mundo construir
menos muralha e…. mais ponte!

Para enfeitar minha vida
não quis um amor-perfeito…
Agora a flor preterida
virou saudade em meu peito!

Partiste… De tal maneira
chorei ante o desencanto,
que o orvalho da noite inteira
foi bem menor que o meu pranto! …

Perdido nos descaminhos,
sem ter onde desaguar,
sou um rio de carinhos
à procura do seu mar!

Pobre barraco de morro!…
Quando a chuva a terra invade,
és um grito de socorro
perdido na tempestade!

Pobre do meu coração! …
Por mais que o enganes e pises,
na cegueira da paixão
não enxerga os teus deslizes!

Pode ser que desagrade
a muitos meu parecer;
mas é melhor ter saudade
do que saudade não ter!

Procura na inglória trilha
manter firme o teu comando,
que a derrota nunca humilha
quando se perde lutando

Procura vento, nas noites
invernosas e sem lua,
diminuir teus açoites
contra os que dormem na rua !

Quando a tristeza me invade
e a tua falta lamento,
escuto a voz da saudade
na sinfonia do vento!

Quando nem tudo são rosas
num mundo escasso de fé,
eu louvo as mãos caridosas
que os caídos põem de pé!

Rio, nas águas serenas
que vais levando em teu leito
leva também essas penas
que tanto afligem meu peito!

Se a solidão tem um preço,
eu pago o dobro por certo,
porque até quando adormeço
sonho que estou num deserto…

Se em meu rumo há sombra adiante
a lamentar não me ponho…
Prossigo perseverante
na conquista do meu sonho!

Sei que nem tudo é bonança
entre nós… Mas, por favor,
não plantes desconfiança
na terra do nosso amor…

Sob um luar feito em prata,
sem ela, triste, sem sono,
faço a minha serenata
pelas ruas do abandono!

Vinha bela e sorridente,
e a brisa por cortesia,
ia varrendo na frente
a estrada que ela seguia!

Fonte:
Colaboração de Darlene A. A. Silva
LIMA, José Tavares de. Vozes do Coração.

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Monteiro Lobato (Caçadas de Pedrinho) VI – Aparece uma nova menina


De noite houve discussão das hipóteses que poderiam dar-se no dia seguinte. Dona Benta disse:

— Concordo que, se estivermos sobre pernas de pau, as onças não poderão apanhar-nos. Mas depois? E se elas resolverem ficar por aqui até que nos cansemos e sejamos forçados a descer?

Era uma hipótese bastante provável, que não havia ocorrido a Pedrinho. Sim; se as onças ficassem por lá, como era?

— Hão de cansar-se e ir-se embora — sugeriu Narizinho. — Quando a fome apertar, não fica nenhuma aqui.

— E se se revezarem? — lembrou Dona Benta. — E se, enquanto a metade das onças for caçar, a outra metade ficar montando guarda?

Pedrinho não soube responder, nem Narizinho, nem o Visconde. Ficaram todos de nariz caído, pensando nessa terrível hipótese. Quem respondeu foi a Emília, que andava toda misteriosa, piscando cavorteiramente, como quem tem no bolso a solução dum grande problema.

— Não tenham medo de coisa nenhuma — disse ela, por fim. — Arranjei umas granadas de mão, ótimas para espantar onças.

— Granadas de mão? — repetiu Pedrinho franzindo a testa. — Que história é essa, Emília?

— Uma surpresa. Preparei as granadas com a ajuda dos meus besouros. Fiz cinco, número suficiente para espantar até cem onças.

— E onde estão?

— No telhado.

— Por que no telhado?

— Botei-as lá para estarem ao meu alcance na hora em que as onças aparecerem e nós estivermos sobre as pernas de pau. Também botei lá pão com manteiga, um guarda-chuva e mais coisas. Pode nos apertar a fome, pode chover…

Narizinho estava intrigadíssima com o negócio das granadas.

— Explique isso melhor, Emília. Que granadas são essas?

— Nada posso dizer. É segredo. Só adiantarei que são de cera e do tamanho de laranjas-baianas.

Granadas de cera, do tamanho de laranjas-baianas! Ou a boneca estava de miolo mole… ou… Em todo o caso, como a Emília era uma danadinha capaz de tudo, os meninos e as velhas sossegaram um pouco mais.

A razão de Tia Nastácia haver desistido das pernas de pau era que não acreditava muito no tal assalto das onças. “Isso há de ser imaginação dessas crianças”, refletia de si para si. “Os diabretes vivem com a cabeça quente e inventam coisas para atormentar os mais velhos. Não acredito.”

Dona Benta igualmente não acreditou — no princípio. Depois, lembrando-se de outras coisas inda mais espantosas que já tinham acontecido, achou melhor acreditar.

— Qual nada, sinhá! — insistiu a negra. — Onde já se viu onça andar em bando a atacar casa de gente? Estou com setenta anos e nunca ouvi falar de semelhante coisa.

— Nem eu. Mas lembre-se, Nastácia, que também nunca vimos contar de nenhuma boneca que falasse, nem de nenhum visconde de sabugo que agisse tal qual uma gentinha — e aí estão a Emília e o Visconde de Sabugosa.

— Lá isso é — resmungou a preta, pendurando o beiço.

— Se isso é, como vai você arranjar-se amanhã, se as onças vierem mesmo e nos atacarem aqui?

— Como vou me arranjar? — repetiu Tia Nastácia, cocando a cabeça. — Não sei. Francamente não sei. Na hora veremos…

Ela continuava com a esperança de que o tal ataque das cinqüenta onças não passasse duma “pulha” de Pedrinho para meter medo aos “mais velhos”.

Foram dormir. Cada qual sonhou pelo menos com uma onça. Emília, porém, teve sonhos cor-de-rosa, a avaliar-se pelos sorrisos que animaram seu rostinho durante a noite inteira. É que estava sonhando com as suas famosas granadas de cera…

Pela madrugada alguém bateu na porta da rua — toque, toque, toque… Pedrinho pulou da cama, assustado. “Seriam já as onças?” Os outros também se ergueram, inclusive Dona Benta e Tia Nastácia. Reuniram-se todos na sala de jantar, à escuta.

Nova batida — toque, toque, toque…

— Parece batida de nó de dedo — sussurrou Narizinho.

— Onça não bate assim.

Pé ante pé, a menina aproximou-se da porta e espiou pelo buraco da fechadura. Não viu onça nenhuma. Em vez disso viu… outra menina!

— Uma menina! — exclamou Narizinho, batendo palmas.

— Assim do meu tamanho, lindinha! Quem sabe se não é Capinha Vermelha?… Abro ou não a porta, vovó?

— Pois se é uma menina, abra. Veja primeiro se não vem algum lobo atrás, como aquele que acompanhou Capinha.

Narizinho espiou de novo e não viu lobo nenhum. Em vista disso, abriu. Uma menina muito desembaraçada, da mesma idade que ela, entrou.

— Boa madrugada para vocês todos! Boa madrugada, Dona Benta! Boa madrugada, Tia Nastácia!

A menina conhecia a todos da casa e, no entanto, não era conhecida de nenhum dali. Quem seria?

— Quem é você, menina? — perguntou Dona Benta, meio desconfiada.

— Não me conhecem? — tornou a desconhecidazinha com todo o espevitamento. — Pois sou a Cléu…

Foi uma alegria geral. Não havia ali quem não conhecesse de nome a famosa Cléu, que falava pelo rádio e de vez em quando escrevia cartas a Narizinho, dando idéias de novas aventuras.

— Viva, viva a Cléu! — exclamaram todos, numa grande alegria.

— Pois é — disse a menina sentando-se sobre a mesa — cá estou para conhecê-los pessoalmente. Desde que li as primeiras aventuras de Narizinho, fiquei doida por entrar para o bando. Moro em São Paulo, uma cidade muito desenxabida, com um viaduto muito feio e gente apressada, passeando pelas ruas. Enjoei do tal São Paulo e vim morar aqui. Fiquem certos duma coisa: o único lugar interessante que há no Brasil é este sítio de Dona Benta.

Todos mostraram-se contentíssimos. Dona Benta, entretanto, disse:

— Mas veio em má ocasião, Cléu. Imagine que justamente hoje o sítio vai ser atacado por um exército de onças e irarás e cachorros-do-mato.

— Ótimo! — respondeu a menina. — Um dos meus sonhos sempre foi ser atacada por um exército de onças e irarás e cachorros-do-mato, de modo que adivinhei vindo em momento tão propício…

— Ché… — exclamou lá consigo Tia Nastácia. — Agora é que o sítio pega fogo mesmo. Menina de “propícios”… Credo!

O dia estava clareando e, como as onças podiam chegar dum momento para outro, Pedrinho tratou de ensinar a Cléu o uso das pernas de pau, explicando-lhe que fora esse o meio que descobrira para se defenderem do ataque.

Tia Nastácia foi para a cozinha acender o fogo para o café. Estava de olho parado, pensando, pensando…

— A Cléu aqui! — murmurava ela, olhando para o fogo. — Ché…
––––––––––––-
continua … VII – O assalto das onças
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Fonte:
LOBATO, Monteiro. Caçadas de Pedrinho/Hans Staden. Col. O Sítio do Picapau Amarelo vol. III. Digitalização e Revisão: Arlindo_San

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Ialmar Pio Schneider (Aconteceu na 1a. Bienal)


Quando da realização do evento da 1ª BIENAL que ocorreu em Porto Alegre – RS, de 2 de outubro a 30 de novembro de 1997, compareceram pessoas de muitas cidades do estado, do país e do exterior, a fim de apreciar as obras de artes plásticas expostas em vários locais da capital gaúcha. Foram muitos os dias de intensa atividade artística, em que até um ônibus especial ficava à disposição dos interessados, em frente ao Mercado Público, de onde partia transportando-os aos diversos lugares da exposição. Nessa ocasião alguns flertes floresceram e houve romances que frutificaram. É o caso da história abaixo e de outras tantas que não foram registradas, como de fato geralmente só ia acontecer nesses momentos em que se misturam a realidade com a fantasia.

Despertara-lhe a curiosidade de saber quem era aquela mulher que avistara em certa tarde na Exposição da Bienal. Aparentava beirar os trinta anos e era morena clara. Tinha um corpo bem feito, torneado, e caminhava com certa esbeltez, olhando os quadros, admirando-os. Parecia andar solta dentro de um vestido de seda que a abrigava, deixando-a, assim, muito atraente. Olhava-a, de vez em quando, disfarçadamente, e ela parecia, mais ou menos, corresponder-lhe com discrição. E o flerte prosseguia inconseqüente, até que Menandro, criando coragem, aproximou-se dela, vencendo a timidez , e disse-lhe:

– Interessantes estes quadros… Estás apreciando?

– É… realmente, são muito sugestivos – respondeu-lhe Lívia.

– És daqui mesmo de Porto Alegre?

– Não, sou de Caxias do Sul. E tu?

– Eu sou de Passo Fundo e estou passeando por aqui. Vim ontem. Mas, vamos tomar alguma coisa no barzinho?

– Pois não; podemos ir.

Saíram e foram caminhando, a conversar, pela rua Sete de Setembro e entraram na lancheria em frente à Praça Montevidéu, no largo da Prefeitura Municipal. Pediram refrigerantes e foram bebendo-os, enquanto escutavam a música ambiental.

– O que vais fazer hoje à noite?

– Não sei ainda… mas talvez volte a Caxias.

– Se eu te convidar, aceitas?

– Depende para o que seja.

– Vamos assistir ao filme “Navalha na Carne”, com a Vera Fischer. Está passando ali no cinema Vitória.

Ela concordou e após lancharem dirigiram-se ao cinema. Tinham muito que conversar ainda, pois ambos não se conheciam e vieram de cidades diferentes. Menandro pensava que tudo se encaminhava bem e Lívia da mesma forma. É bem provável que nascera aí um amor à primeira vista para preencher o vazio da existência de duas pessoas solitárias que se encontraram casualmente.

Fontes:
Texto enviado pelo autor
Imagem = http://bonecosanimados.blogs.sapo.pt/

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Carlos Ventura (Lançamento de “O Verdadeiro Paraíso”)


“…Um texto começa a partir das energias que captamos do cosmo.
Energia esta que esta contida na força da Mulher.
Nos seus movimentos,
Em seus momentos.
Um poema é isso movimento, momentos, nuances.
Lances que só vê e sente quem esta atento ao jogo,
Ao vento.
Que percorre maliciosamente o vestido da bela dona.
Que despretensiosa caminha sem dar bola para nada e enche de poesia a calçada.
O poema é ela, eu apenas o interpreto como vedor dos seus deliciosos movimentos e gestos.
E esta interação que liga o poeta ao poema transforma a despretensiosa moça em musa,
Em tema…”
(“Ela o Poema”, por Carlos Ventura)

Leia o novo livro de Carlos Ventura, ( O Verdadeiro Paraiso )
( Contos, Poemas, Pensamentos, Frases e muito mais…)

Escrito para tocar a Mulher e provocar os os Homens a observa-la com mais poesia e paixao.

Sucesso de vendas em sua segunda ediçao.

Pedidos: producaocarlosventtura@gmail.com

Fonte:
Poetas del Mundo

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