Arquivo do mês: julho 2011

Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 277)


Uma Trova Nacional

Na estação do meu anseio,
nos perdemos de nós dois…
-Não foi o trem que não veio:
fui eu que cheguei depois…!
–PEDRO MELO/SP–

Uma Trova Potiguar

A bíblia é minha passagem,
meu porto, minha estação
e o norte em minha viagem
em busca da salvação.
–TARCÍSIO FERNANDES/RN–

Uma Trova Premiada

2008 – Nova Friburgo/RJ
Tema – ESCOLHA – M/H

Estou só… Mas sou feliz;
vou vivendo mesmo assim:
por escolhas que não fiz,
mas a vida fez por mim!
–SELMA PATTI SPINELLI/SP–

Uma Trova de Ademar

Aos Meus Irmãos Trovadores
e a Selma Patti, Saúdo…
Nestes versos, meus louvores:
Muito Obrigado por Tudo!
–ADEMAR MACEDO/RN–

…E Suas Trovas Ficaram

Veja, amada companheira,
este quadro, que beleza.
Temos a família inteira
ao redor de nossa mesa.
–ALYDIO C. SILVA/MG–

Simplesmente Poesia

ÓRION.
–Edla Feitosa/PE–

Não está escuro !
Existe um jogo de luz e sombra
E um certo silêncio.
Órion muda de lugar
E me confunde ….
Um cão ladra ao longe
Um gato ágil escala telhados
A taça enche e esvazia
Como a maré que sussurra ao longe.
As nuvens cobrem as estrelas ….
E dói a solidão.

Estrofe do Dia

Roberto é rei da canção
do barro, foi Vitalino,
do cangaço, é Virgulino
o famoso lampião,
Gonzaga, rei do baião
Brasil foi rei do café,
do futebol foi Pelé,
pinto foi rei do repente,
existe um rei entre a gente:
PATATIVA DO ASSARÉ.
–Oliveira de Panelas/PE–

Soneto do Dia

AUSÊNCIA.
–Thalma Tavares/SP–

O teu jardim ainda está florido,
mas não refletem vida as suas flores.
Há um pálido lírio emurchecido
e a velha fonte já não tem rumores…

Há pela casa um pranto mal contido
gritando a tua falta em seus labores.
No quarto o teu retrato colorido
por tua culpa vai perdendo as cores.

No leito que era nosso, em desalinho,
reclamam, como eu, por teu carinho
as fronhas e os lençóis que perfumaste.

E este poema que a compor me atrevo,
no vazio da noite em que te escrevo,
é filho da saudade que deixaste.

Fontes:
Textos enviados pelo Autor
Imagem = http://reikiana.blogs.sapo.pt/arquivo/362362.html

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Concursos da UBT São Paulo 2011 (Resultados Finais) 1a. Parte






Concurso Nacional/Internacional da UBT São Paulo Tema: Sal

Vencedores

A vida é drama brutal
para a criança sem nome,
em que a lágrima de sal
tempera o prato da fome!
ADILSON MAIA (Niterói/RJ)

Numa lágrima salgada
eis a vida resumida,
nas emoções da chegada
e nas dores da partida!
ADILSON MAIA (Niterói/RJ)

O rancor é um sal barato
que ao longo do tempo oxida
todas as faces do prato
no qual provamos a vida!
ANTONIO DE OLIVEIRA (Rio Claro/SP)

Por um contraste cruel,
de razões mal explicadas,
dos teus olhos cor de mel
descem lágrimas salgadas!
ARLINDO TADEU HAGEN (Belo Horizonte/MG)

Seria oposto e fatal
porém tão bom se assim fosse:
teu amor… um mar de sal
e o meu… um riacho doce!
CLENIR NEVES RIBEIRO (Nova Friburgo/RJ)

Por maior que seja o mal,
sê persistente na sina.
Uma montanha de sal
não resiste à chuva fina.
DULCIDIO DE BARROS MOREIRA SOBRINHO (Juiz de Fora/MG)

Na festa plena de encanto
um brinde, um beijo, um anel…
E em vez de sal, no meu pranto
impera o gosto do mel!
ELEN DE NOVAIS FELIX (Niterói/RJ)

Numa paixão imortal,
minhas tristezas eu venço,
beijando o sabor de sal
que deixaste no meu lenço!
HERMOCLYDES SIQUEIRA FRANCO (Rio de Janeiro/RJ)

Por minha culpa partiste;
e o sal do pranto, sem dó,
agora, torna mais triste
o triste viver de um só…
JOSÉ TAVARES DE LIMA (Juiz de Fora/MG)

Deixei-te… Agora eu lamento
a decisão da partida,
pois vi que o arrependimento
põe gosto de sal na vida!
THEREZA COSTA VAL (Belo Horizonte/MG)

Depois de tua partida
por desavença banal,
o que foi “a doce vida”
hoje é uma vida sem sal!
WANDA DE PAULA MOURTHÉ (Belo Horizonte/MG)

Mar agitado e bravio
foi teu amor sem ternura,
só me deixando um vazio
e as salinas da amargura.
WANDA DE PAULA MOURTHÉ (Belo Horizonte/MG)

VENCEDORES DO ÂMBITO INTERNACIONAL Tema: Sal

No auge duma tormenta
com teu corpo divinal,
no teu olhar há pimenta
e os beijos sabem a sal.
ANTÓNIO JOSÉ BARRADAS BARROSO (Parede/Portugal)

O teu riso é o sal da vida
que tempera as emoções.
Traz de volta a fé perdida
e do pranto faz canções.
DOMINGOS FREIRE CARDOSO (Ilhavo/Portugal)

Se o ciúme é o sal do amor
como muita gente diz…
Só provoca dissabor
e não faz ninguém feliz.
EMÍLIA PEÑALBA DE ALMEIDA ESTEVES (Porto/Portugal)

Lábios doces e dourados
que a sul o sol faz tostar,
regalam beijos salgados
com vento vindo do mar.
VICTOR MANUEL CAPELA BATISTA (Barreiro/Portugal)

————-

Nota por J. B. Xavier:
O verbo saber, em Portugal tem uso e significado mais abrangente que no Brasil.
É uma diferença sutil e muito dificil de explicar cognitivamente.

No caso da trova cujo verso é “e os beijos sabem a sal”, o significado do verso se aproxima de: “os beijos tem gosto de sal” ou, “sabe o gosto de sal? os beijos tem esse gosto”.

Viu como é dificil dar um sentido exato? Mas em Portugal, o verso está perfeito. E, se é um concurso internacional, há que se respeitar os estrangeirismos.

CONCURSO ASSINANTES DO INFORMATIVO Âmbito Nacional: Vencedores Tema: Duna

As minhas mãos, em desvelos,
vão surfando, sem receios,
nas ondas dos teus cabelos
rumo às dunas dos teus seios.
ARLINDO TADEU HAGEN (Belo Horizonte/MG)

Paciência e lentidão
constroem coisas perfeitas.
Reparem: de grão em grão
aquelas dunas são feitas!
CÉLIA GUIMARÃES SANTANA (Sete Lagoas/MG)

Durante o sono do Sol,
enquanto a Lua desperta,
tomo a duna por lençol
e as estrelas por coberta…
ÉLBEA PRISCILLA DE SOUSA E SILVA (Caçapava/SP)

Ondulantes areias,
ao sabor do vento incerto,
as dunas são sensuais
odaliscas do deserto…
ÉLBEA PRISCILLA DE SOUSA E SILVA (Caçapava/SP)

Brincando, o vento travesso
pelas areias se espraia,
enquanto muda o endereço
das brancas dunas da praia!
ELEN DE NOVAIS FELIX (Niterói/RJ)

O mar num longo suspiro
inveja a serenidade
da brisa que faz seu giro
pelas dunas da saudade.
ELEN DE NOVAIS FELIX (Niterói/RJ)

As dunas que, à beira-mar,
tanto encantam nossa vista,
por certo, querem provar
que o vento é também artista…
JOSÉ TAVARES DE LIMA (Juiz de Fora/MG)

No deserto desta vida,
sozinho e de amor sedento,
sou triste duna esquecida,
que espera o afago de um vento!…
JOSÉ TAVARES DE LIMA (Juiz de Fora/MG)

Já na planície, alquebrada,
transcendo tempo e distância:
procuro a duna encantada
dos sonhos da minha infância!
JOSÉ VALDEZ DE CASTRO MOURA (Pindamonhangaba/SP)

Paixões – eu digo e sustento –
pela inconstância da forma
são dunas de sentimento
que o tempo varre e transforma!…
MARIA HELENA DE C. COSTA (Ponta Grossa/PR)

Sob a luz da lua cheia,
as dunas fazem lembrar
lençóis corando na areia
que o vento enruga ao passar!
MARIA MADALENA FERREIRA (Magé/RJ)

Às vezes, grandes fortunas
têm uma vida fugaz:
são semelhantes a dunas
que o vento faz… e desfaz!…
MARIA MADALENA FERREIRA (Magé/RJ)

No deserto, eu penso, absorto
ante as dunas em cadeia:
são as ondas de um mar morto,
que o vento esculpe na areia!!!
MARIA MADALENA FERREIRA (Magé/RJ)

Nas miragens de um deserto
em que vivo, hoje, os meus dias,
sei que os sonhos que acoberto
são dunas de fantasias…
THEREZA COSTA VAL (Belo Horizonte/MG)

Aquela duna imponente,
que na paisagem se alteia,
tem na origem, certamente,
minúsculos grãos de areia.
VANDA FAGUNDES QUEIROZ (Curitiba/PR)

Teu amor, em nossa história,
inconstante, me atormenta,
feito duna migratória
que o vento não sedimenta…
WANDA DE PAULA MOURTHÉ (Belo Horizonte/MG)

ASSINANTE INTERNACIONAL Tema: Duna

Minha vida é um grão de areia
em duna perto do mar
enfrentando a maré cheia
que consigo a quer levar…
DOMINGOS FREIRE CARDOSO (Ilhavo/Portugal)

CONCURSO INTERSEDES DA UNIÃO BRASILEIRA DE TROVADORES

Seção Vencedora em 2010 – São Paulo/ SP
Trovadora: Marina Bruna
Tema: Jura

VENCEDORA 2011

De mim… tu juras que gostas…
– Mas, tal cinismo realças,
que eu juro – até de mãos postas! –
que as tuas juras são falsas!!!
MARIA MADALENA FERREIRA (Rio de Janeiro/RJ)

MENÇÕES HONROSAS

Erra feio quem calcula
na equação da vida a dois,
que uma mentira se anula
quando há uma jura depois!
ANTONIO DE OLIVEIRA (Rio Claro/SP)

Puseste-me na clausura!
E hoje, em sonhos sem sentido,
eu me alimento da jura
que murmuras noutro ouvido.
MANOEL CAVALCANTE DE SOUZA CASTRO – Natal/RN

Na igreja, em rito divino,
nossa jura faz supor
que as badaladas do sino
são de aplauso ao nosso amor!
WANDA DE PAULA MOURTHÉ (Belo Horizonte/MG)

Continua… Concurso Associados da Seção São Paulo/SP Concurso Humorístico Associados da Seção São Paulo/SP Homenagem ao Nordeste Homenagem a Ademar Macedo

Fonte:
Revista “Concursos UBT São Paulo – 2011”
Fotos: J B Xavier e José Feldman

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 276)


Uma Trova Nacional

Brigamos, mas a tormenta
em instantes se desfaz;
um grande amor sempre inventa
um arco-íris de paz!…
–DOMITILLA BORGES BELTRAME/SP–

Uma Trova Potiguar

A seca nos causa pena,
mas nosso povo se veste
desta saúde morena,
tingida ao sol do nordeste
–JOSÉ LUCAS DE BARROS/RN–

Uma Trova Premiada

2005 – Nova Friburgo/RJ
Tema: MOTIVO – M/E

Quando a inspiração vagueia
à procura de um motivo,
o meu passado passeia
em cada verso que eu vivo!
–SELMA PATTY SPNILELLI/SP–

Uma Trova de Ademar

Sedento dos teus abraços
num desejo que é só nosso,
quero correr pra os teus braços
mas de muletas… Não posso!…
–ADEMAR MACEDO/RN–(PARA MINHA ESTRELA DALVA!)

…E Suas Trovas Ficaram

A chuva que cai serena
quando a seca surge agreste,
faz a ponte de safena
no coração do nordeste.
–HILDEMAR DE ARAÚJO/BA–

Simplesmente Poesia

–SERGIO AUGUSTO SEVERO/RN–
Xaxado

De “Apragatas de Rabicho”,
chapéu de Couro e Gibão,
os “Cabras de Lampião”,
vão xaxando, “no capricho”!

“Matanto o Bicho”, a Cachaça
“Papo-Amarelo” na mão,
e cortando a escuridão,
os lampeões, lá da Praça.

Pé à frente, deslizando,
num vai e vem levantando
a poeira, sem ter medo…

numa Dança, sem Parceira,
vai xaxando a Tropa inteira,
no Nordestino Folguedo !

Estrofe do Dia

Fica triste o cantar dos sabiás,
se a graúna, cantar, canta de dor;
fica mudo o concriz e o beija-flor
de tristeza e de dor não voa mais;
se esta morte abalou os animais
imaginem a dor do seu irmão
ao ensaiar na viola uma canção
que ele fez para o mano Vitorino;
quando morre um poeta nordestino
nasce um pé de saudade no sertão.
(ADEMAR MACEDO/RN)
(homenagem Póstuma ao Poeta Diniz Vitorino)

Soneto do Dia

–PEDRO ORNELLAS/SP–
Refúgio

Todo poeta tem, por ser poeta,
um mundo à parte, pleno de magia!
Só ele sabe a porta, que é secreta,
fronteira entre o real e a fantasia.

Ali depõe a mágoa que o alfineta,
se o mundo o fere, ali se refugia…
É ali que encontra a paz e se completa
quando conversa, a sós, com a poesia.

Nesse lugar que a mente humana cria
o Amor é a lei, o bem a ordem-do-dia,
o idioma é a Paz e quem governa é a Arte!

Não é um lugar nas dimensões terrenas,
mas um estágio ao qual se eleva apenas
quem da Poesia faz seu mundo à parte!

Fontes:
Textos enviados pelo Autor
Imagem = http://gifsj.blogspot.com/2011/01/gifs-arco-iris.html

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 275)

Uma Trova Nacional

Ao vê-la, sente que a odeia,
fica tenso e encolhe a pança…
todo dia a briga é feia
entre um gordo… e uma balança!
–TEREZINHA BRISOLLA/SP–

Uma Trova Potiguar

Eu choro igual Madalena,
pra não perder uma farra.
Mas, pra missa ou pra novena,
eu só vou, se for na marra!
–FRANCISCO MACEDO/RN–

Uma Trova Premiada

2003 – Belém/PA
Tema: CORETO – M/E

No coreto, atrapalhado,
o maestro me dá dó:
prometeu tocar dobrado
mas tocou uma vez só…
–MARINA BRUNA/SP–

Uma Trova de Ademar

Pelas “coisas” que fazia,
vive o malandro enjaulado;
usando de noite a dia
o seu “pijama listrado”.
–ADEMAR MACEDO/RN–

…E Suas Trovas Ficaram

A solteirona infeliz
viu sua casa assaltada,
ladrão levou o que quis:
menos a pobre coitada.
–GRAZIELA LYDIA MONTEIRO/MG–

Simplesmente Poesia

MOTE:
“Veado” talvez não seja,
mas trejeitos ele tem.

GLOSA:
Em qualquer canto que esteja
quer sentado, quer de pé,
parece mais que é mulher,
“veado”, talvez não seja.
Toda mão que aperta beija,
chama todos de meu bem,
casar, não quer com ninguém
e só fala afeminado;
pode até não ser veado,
mas trejeitos ele tem.
–LUIZ XAVIER/RN–

Estrofe do Dia


Lá em casa a crise é tanta
que eu nem sei como resisto,
a roupa que estou usando
é minha e do Evaristo,
quando em não visto, ele veste;
quando ele não veste, eu visto.
AFONSO PEQUENO/PE–

Soneto do Dia

–LUIZ LEITÃO/PE–
Na Loja

Seguida da vovó, meiga e bonita,
ela entrou numa loja, no armarinho…
– Tem fita de cetim azul-marinho?
Qual o preço? –perguntou ela, catita.

Um beijo cada metro, senhorita!
Respondeu-lhe o caixeiro com carinho.
– É muito caro, mas, enfim, mocinho,
corte-me doze metros desta fita!

Já se sabe: o caixeiro como um raio,
cortava a fita quase num desmaio
sem ter sequer da tesourinha dó.

– Pronto, formosa! O pagamento agora…
E a moça lhe responde sem demora:
– Adeus! Quem paga as compras é a vovó…

Fonte:
Textos enviados pelo autor

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Cesário Verde (Caravelas da Poesia)


EU E ELA

Cobertos de folhagem, na verdura,
O teu braço ao redor do meu pescoço,
O teu fato sem ter um só destroço,
O meu braço apertando-te a cintura;

Num mimoso jardim, ó pomba mansa,
Sobre um banco de mármore assentados.
Na sombra dos arbustos, que abraçados,
Beijarão meigamente a tua trança.

Nós havemos de estar ambos unidos,
Sem gozos sensuais, sem más ideias,
Esquecendo para sempre as nossas ceias,
E a loucura dos vinhos atrevidos.

Nós teremos então sobre os joelhos
Um livro que nos diga muitas cousas
Dos mistérios que estão para além das lousas,
Onde havemos de entrar antes de velhos.

Outras vezes buscando distracção,
Leremos bons romances galhofeiros,
Gozaremos assim dias inteiros,
Formando unicamente um coração.

Beatos ou pagãos, vida à paxá,
Nós leremos, aceita este meu voto,
O Flos-Sanctorum místico e devoto
E o laxo Cavalheiro de Flaublas…

ARROJOS

Se a minha amada um longo olhar me desse
Dos seus olhos que ferem como espadas,
Eu domaria o mar que se enfurece
E escalaria as nuvens rendilhadas.

Se ela deixasse, extático e suspenso
Tomar-lhe as mãos “mignonnes” e aquecê-las,
Eu com um sopro enorme, um sopro imenso
Apagaria o lume das estrelas.

Se aquela que amo mais que a luz do dia,
Me aniquilasse os males taciturnos,
O brilho dos meus olhos venceria
O clarão dos relâmpagos nocturnos.

Se ela quisesse amar, no azul do espaço,
Casando as suas penas com as minhas,
Eu desfaria o Sol como desfaço
As bolas de sabão das criancinhas.

Se a Laura dos meus loucos desvarios
Fosse menos soberba e menos fria,
Eu pararia o curso aos grandes rios
E a terra sob os pés abalaria.

Se aquela por quem já não tenho risos
Me concedesse apenas dois abraços,
Eu subiria aos róseos paraísos
E a Lua afogaria nos meus braços.

Se ela ouvisse os meus cantos moribundos
E os lamentos das cítaras estranhas,
Eu ergueria os vales mais profundos
E abateria as sólidas montanhas.

E se aquela visão da fantasia
Me estreitasse ao peito alvo como arminho,
Eu nunca, nunca mais me sentaria
Às mesas espelhentas do Martinho.

Cesário Verde
Lisboa, Diário de Notícias, 22 de Março de 1874

O SENTIMENTO DUM OCIDENTAL

I

Avé-Maria

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinir de louças e talheres
Flamejam, ao jantar alguns hotéis da moda.

Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!

II

Noite Fechada

Toca-se às grades, nas cadeias. Som
Que mortifica e deixa umas loucuras mansas!
O Aljube, em que hoje estão velhinhas e crianças,
Bem raramente encerra uma mulher de <>!

E eu desconfio, até, de um aneurisma
Tão mórbido me sinto, ao acender das luzes;
À vista das prisões, da velha Sé, das Cruzes,
Chora-me o coração que se enche e que se abisma.

A espaços, iluminam-se os andares,
E as tascas, os cafés, as tendas, os estancos
Alastram em lençol os seus reflexos brancos;
E a Lua lembra o circo e os jogos malabares.

Duas igrejas, num saudoso largo,
Lançam a nódoa negra e fúnebre do clero:
Nelas esfumo um ermo inquisidor severo,
Assim que pela História eu me aventuro e alargo.

Na parte que abateu no terremoto,
Muram-me as construções rectas, iguais, crescidas;
Afrontam-me, no resto, as íngremes subidas,
E os sinos dum tanger monástico e devoto.

Mas, num recinto público e vulgar,
Com bancos de namoro e exíguas pimenteiras,
Brônzeo, monumental, de proporções guerreiras,
Um épico doutrora ascende, num pilar!

E eu sonho o Cólera, imagino a Febre,
Nesta acumulação de corpos enfezados;
Sombrios e espectrais recolhem os soldados;
Inflama-se um palácio em face de um casebre.

Partem patrulhas de cavalaria
Dos arcos dos quartéis que foram já conventos:
Idade Média! A pé, outras, a passos lentos,
Derramam-se por toda a capital, que esfria.

Triste cidade! Eu temo que me avives
Uma paixão defunta! Aos lampiões distantes,
Enlutam-me, alvejando, as tuas elegantes,
Curvadas a sorrir às montras dos ourives.

E mais: as costureiras, as floristas
Descem dos magasins, causam-me sobressaltos;
Custa-lhes a elevar os seus pescoços altos
E muitas delas são comparsas ou coristas.

E eu, de luneta de uma lente só,
Eu acho sempre assunto a quadros revoltados:
Entro na brasserie; às mesas de emigrados,
Ao riso e à crua luz joga-se o dominó.

III

Ao gás

E saio. A noite pesa, esmaga. Nos
Passeios de lajedo arrastam-se as impuras.
Ó moles hospitais! Sai das embocaduras
Um sopro que arripia os ombros quase nus.

Cercam-me as lojas, tépidas. Eu penso
Ver círios laterais, ver filas de capelas,
Com santos e fiéis, andores, ramos, velas,
Em uma catedral de um comprimento imenso.

As burguesinhas do Catolicismo
Resvalam pelo chão minado pelos canos;
E lembram-me, ao chorar doente dos pianos,
As freiras que os jejuns matavam de histerismo.

Num cutileiro, de avental, ao torno,
Um forjador maneja um malho, rubramente;
E de uma padaria exala-se, inda quente,
Um cheiro salutar e honesto a pão no forno.

E eu que medito um livro que exacerbe,
Quisera que o real e a análise mo dessem;
Casas de confecções e modas resplandecem;
Pelas vitrines olha um ratoneiro imberbe.

Longas descidas! Não poder pintar
Com versos magistrais, salubres e sinceros,
A esguia difusão dos vossos reverberos,
E a vossa palidez romântica e lunar!

Que grande cobra, a lúbrica pessoa,
Que espartilhada escolhe uns xales com debuxo!
Sua excelência atrai, magnética, entre luxo,
Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.

E aquela velha, de bandós! Por vezes,
A sua trai^ne imita um leque antigo, aberto,
Nas barras verticais, a duas tintas. Perto,
Escarvam, à vitória, os seus mecklemburgueses.

Desdobram-se tecidos estrangeiros;
Plantas ornamentais secam nos mostradores;
Flocos de pós-de-arroz pairam sufocadores,
E em nuvens de cetins requebram-se os caixeiros.

Mas tudo cansa! Apagam-se nas frentes
Os candelabros, como estrelas, pouco a pouco;
Da solidão regouga um cauteleiro rouco;
Tornam-se mausoléus as armações fulgentes.

E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso,
Pede-me esmola um homenzinho idoso,
Meu velho professor nas aulas de Latim!

IV

Horas mortas

O tecto fundo de oxigénio, de ar,
Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
Vêm lágrimas de luz dos astros com olheiras,
Enleva-me a quimera azul de transmigrar.

Por baixo, que portões! Que arruamentos!
Um parafuso cai nas lajes, às escuras:
Colocam-se taipais, rangem as fechaduras,
E os olhos dum caleche espantam-me, sangrentos.

E eu sigo, como as linhas de uma pauta
A dupla correnteza augusta das fachadas;
Pois sobem, no silêncio, infaustas e trinadas,
As notas pastoris de uma longínqua flauta.

Se eu não morresse, nunca! E eternamente
Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!
Esqueço-me a prever castíssimas esposas,
Que aninhem em mansões de vidro transparente!

Ó nossos filhoes! Que de sonhos ágeis,
Pousando, vos trarão a nitidez às vidas!
Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas,
Numas habitações translúcidas e frágeis.

Ah! Como a raça ruiva do porvir,
E as frotas dos avós, e os nómadas ardentes,
Nós vamos explorar todos os continentes
E pelas vastidões aquáticas seguir!

Mas se vivemos, os emparedados,
Sem árvores, no vale escuro das muralhas!…
Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas
E os gritos de socorro ouvir, estrangulados.

E nestes nebulosos corredores
Nauseiam-me, surgindo, os ventres das tabernas;
Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas,
Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores.

Eu não receio, todavia, os roubos;
Afastam-se, a distância, os dúbios caminhantes;
E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes,
Amareladamente, os cães parecem lobos.

E os guardas, que revistam as escadas,
Caminham de lanterna e servem de chaveiros;
Por cima, as imorais, nos seus roupões ligeiros,
Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas.

E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés, de fel, como um sinistro mar!

Manias!

O mundo é velha cena ensanguentada,
Coberta de remendos, picaresca;
A vida é chula farsa assobiada,
Ou selvagem tragédia romanesca.

Eu sei um bom rapaz, — hoje uma ossada, —
Que amava certa dama pedantesca,
Perversíssima, esquálida e chagada,
Mas cheia de jactância quixotesca.

Aos domingos a deia já rugosa,
Concedia-lhe o braço, com preguiça,
E o dengue, em atitude receosa,

Na sujeição canina mais submissa,
Levava na tremente mão nervosa,
O livro com que a amante ia ouvir missa!

LÚBRICA

Mandaste-me dizer,
No teu bilhete ardente,
Que hás-de por mim morrer,
Morrer muito contente.

Lançaste no papel
As mais lascivas frases;
A carta era um painel
De cenas de rapazes!

Ó cálida mulher,
Teus dedos delicados
Traçaram do prazer
Os quadros depravados!

Contudo, um teu olhar
É muito mais fogoso,
Que a febre epistolar
Do teu bilhete ansioso:

Do teu rostinho oval
Os olhos tão nefandos
Traduzem menos mal
Os vícios execrandos.

Teus olhos sensuais
Libidinosa Marta,
Teus olhos dizem mais
Que a tua própria carta.

As grandes comoções
Tu, neles, sempre espelhas;
São lúbricas paixões
As vívidas centelhas…

Teus olhos imorais,
Mulher, que me dissecas,
Teus olhos dizem mais,
Que muitas bibliotecas!

EU, QUE SOU FEIO…

Eu, que sou feio, sólido, leal,
A ti, que és bela, frágil, assustada,
Quero estimar-te, sempre, recatada
Numa existência honesta, de cristal.

Sentado à mesa dum café devasso.
Ao avistar-te, há pouco, fraca e loura.
Nesta Babel tão velha e corruptora,
Tive tenções de oferecer-te o braço.

E, quando socorreste um miserável,
Eu que bebia cálices de absinto,
Mandei ir a garrafa, porque sinto
Que me tornas prestante, bom, saudável.

«Ela aí vem!» disse eu para os demais;
E pus-me a olhar, vexado e suspirando,
O teu corpo que pulsa, alegre e brando,
Na frescura dos linhos matinais.

Via-te pela porta envidraçada;
E invejava, – talvez não o suspeites!-
Esse vestido simples, sem enfeites,
Nessa cintura tenra, imaculada.

Ia passando, a quatro, o patriarca.
Triste eu saí. Doía-me a cabeça.
Uma turba ruidosa, negra, espessa,
Voltava das exéquias dum monarca.

Adorável! Tu muito natural,
Seguias a pensar no teu bordado;
Avultava, num largo arborizado,
Uma estátua de rei num pedestal.

CONTRARIEDADES

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve conta à botica!
Mal ganha para sopas…

O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,
Um folhetim de versos.

Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais uma redacção, das que elogiam tudo,
Me tem fechado a porta.

A crítica segundo o método de Taine
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A Imprensa
Vale um desdém solene.

Com raras excepções, merece-me o epigrama.
Deu meia-noite; e a paz pela calçada abaixo,
Um sol-e-dó. Chovisca. O populacho
Diverte-se na lama.

Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
Me negam as colunas.

Receiam que o assinante ingénuo os abandone,
Se forem publicar tais coisas, tais autores.
Arte? Não lhes convém, visto que os seus leitores
Deliram por Zaccone.

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua “coterie”;
Ea mim, não há questão que mais me contrarie
Do que escrever em prosa.

A adulaçãao repugna aos sentimento finos;
Eu raramente falo aos nossos literatos,
E apuro-me em lançar originais e exactos,
Os meus alexandrinos…

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso!
Ignora que a asfixia a combustão das brasas,
Não foge do estendal que lhe humedece as casas,
E fina-se ao desprezo!

Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova.
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente,
Oiço-a cantarolar uma canção plangente
Duma opereta nova!

Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas,
Conseguirei reler essas antigas rimas,
Impressas em volume?

Nas letras eu conheço um campo de manobras;
Emprega-se a “réclame”, a intriga, o anúncio, a “blague”,
E esta poesia pede um editor que pague
Todas as minhas obras…

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?
Vejo-lhe a luz no quarto. Inda trabalha. É feia…
Que mundo! Coitadinha!

Fonte:
Carlos Leite Ribeiro. Portal CEN

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Cesário Verde (1855 – 1886)

José Joaquim Cesário Verde (Lisboa, 25 de Fevereiro de 1855 — Lumiar, 19 de Julho de 1886) foi um poeta português, sendo considerado um dos precursores da poesia que seria feita em Portugal no século XX.

Filho do lavrador e comerciante José Anastácio Verde e de Maria da Piedade dos Santos Verde, Cesário matriculou-se no Curso Superior de Letras em 1873, mas apenas o frequentou alguns meses. Ali conheceu Silva Pinto, que ficou seu amigo para o resto da vida. Dividia-se entre a produção de poesias (publicadas em jornais) e as actividades de comerciante herdadas do pai.

Em 1877 começou a ter sintomas de tuberculose, doença que já lhe tirara o irmão e a irmã. Estas mortes inspiraram contudo um de seus principais poemas, Nós (1884).

Tenta curar-se da tuberculose, mas sem sucesso, vem a falecer no dia 19 de Julho de 1886. No ano seguinte Silva Pinto organiza O Livro de Cesário Verde, compilação da sua poesia publicada em 1901.

No seu estilo delicado, Cesário empregou técnicas impressionistas, com extrema sensibilidade ao retratar a Cidade e o Campo, que são os seus cenários predilectos. Evitou o lirismo tradicional, expressando-se de uma forma mais natural.

A DICOTOMIA CIDADE/CAMPO

A supremacia exercida pela cidade sobre o campo leva o poeta a tratar estes dois espaços em termos dicotómicos. O contacto com o campo na sua infância determina a visão que dele nos dá e a sua preferência. Ao contrário de outros poetas anteriores, o campo não tem um aspecto idílico, paradisíaco, bucólico, susceptível de devaneio poético, mas sim um espaço real, concreto, autêntico, que lhe confere liberdade. O campo é um espaço de vitalidade, alegria, beleza, vida saudável… Na cidade, o ambiente físico, cheio de contrastes, apresenta ruas macadamizadas/esburacadas, casas apalaçadas (habitadas pelos burgueses e pelos ociosos)/quintalórios velhos, edifícios cinzentos e sujos… O ambiente humano é caracterizado pelos calceteiros, cuja coluna nunca se endireita, pelos padeiros cobertos de farinha, pelas vendedeiras enfezadas, pelas engomadeiras tísicas, pelas burguesinhas… É neste sentido que podemos reconhecer a capacidade de Cesário Verde em trazer para a poesia o real quotidiano do homem citadino.

Ao ler-se o poema “De Tarde”, pertencente a “Em Petiz”, é visível o tom irónico em relação aos citadinos, mas onde o tom eufórico também sobressai, ao percorrer os lugares campestres ao lado da sua “companheira”. A preferência do poeta pelo campo está expressa nos poemas “De Verão” e “Nós” (o mais longo), onde desaparecem a aspereza e a doença ligadas à vida citadina e surge o elogio ao ambiente campesino. A arte de Cesário Verde é, pois, reveladora de uma preocupação social e intervém criticamente. O campo oferece ao poeta uma lição de vida multifacetada (por exemplo, os camponeses são retratados no seu trabalho diário) que ele transmite com objectividade e realismo. Trata-se, pois, de uma visão concreta do campo e não da abstracção da Natureza.

A força inspiradora de Cesário é a terra-mãe, sendo nela que Cesário encontra os seus temas. É por isto que, habitualmente, se associa o poeta ao mito de Anteu.

A mulher em Cesário Verde

Deambulando pelos dois espaços, depara com dois tipos de mulher, que estão articulados com os locais. A cidade maldita surge associada à mulher fatal, frívola, calculista, madura, destrutiva, dominadora, sem sentimentos. Em contraste com esta mulher predadora, surge um tipo feminino, por exemplo em “A Débil”, que é o oposto complementar das esplêndidas aristocráticas, presentes em poemas como “Deslumbramentos” e “Vaidosa”. Essa mulher é frágil, terna, ingénua e despretensiosa.

Outra perspectiva nos é mostrada da mulher (desfavorecida) no campo . A vendedora em “Num Bairro Moderno”, ou a engomadeira em “Contrariedades” mostram as características da mulher do povo no campo. Sempre feias, pobres e por vezes doentes, ou em esforço físico, as mulheres trabalhadoras são objecto da admiração de Cesário.

“Depois de referir o cenário geral da acção em “Num Bairro Moderno”, os olhos do sujeito poético retêm, como uma objectiva, um elemento novo – a vendedeira. A sua caracterização é de uma duplicidade contrastante: ela é pobre, anémica, feia, veste mal e tem de trabalhar para sobreviver, mas aparece envolvida numa força quase épica, de “peito erguido” e “pulsos nas ilhargas”, encarnando, pela sua castidade, a força genuína do povo trabalhador, que Cesário tão bem defende.”

A poética de Cesário e as escolas literárias

Podemos afirmar a sua aproximação a várias estéticas, embora seja visível a proximidade com Baudelaire, por retratar realidades cotidianas, o que o aproxima dos poetas portugueses do século XX e o fez incompreendido em seu tempo.

Embora Cesário Verde não pudesse ser enquadrado em nenhuma das escolas poéticas dos países de língua portuguesa da época podemos dizer que ele não poderia não estar relacionado às estéticas do seu tempo de alguma forma. Se se tiver em conta o interesse pela captação do real, por exemplo, ao considerarmos o tipo de cena a serem retratadas pelas quais o poeta optou, seus quadros e figuras citadinos, concretos, plásticos e coloridos, é fácil detectar aqui a afinidade ao Realismo. A ligação aos ideais do Naturalismo verifica-se na medida em que o meio surge determinante dos comportamentos. Se considerarmos o fato do poeta figurar plasticamente uma cena, poderia aproximá-lo, inclusive, do Parnasianismo. Porém, sua obra ainda tem um certo sentimentalismo que remete ao Romantismo e as imagens retratadas, muitas vezes de personagens doentes ou pobres, jamais poderiam ser retratadas por um parnasiano.

Aproxima-se dos impressionistas que captam a realidade mas que a retratam já filtrada pelas percepções, o que, definitivamente, o inscreve no quadro dos poetas fundadores da modernidade. Ecos de sua obra podem ser vistos nos poemas de Fernando Pessoa, parecendo Cesário Verde o predecessor do heterônimo Álvaro de Campos de Opiário e sendo citado várias vezes por Alberto Caeiro.

Importância da representação do cotidiano na poesia de Cesário Verde

A observação das situações do quotidiano é o ponto de partida preferencial para os poemas de Cesário Verde. É o mundo real, rotineiro, que é retratado e analisado, servindo de suporte às ideias e sentimentos do poeta.

Os sujeitos poéticos criados por Cesário Verde são atentos ao que se passa. Aquilo que para outro transeunte seria uma banalidade é, na perspectiva do poeta, parte de um quadro do real. Veja-se que antes de se focar numa situação particular, que prenda a atenção, o poeta dá-nos uma visão geral do ambiente: “Dez horas da manhã, os transparentes/Matizam uma casa apalaçada(…)E fere a vista, com brancuras quentes, a larga rua macadamizada” (em “Num bairro moderno”). Mas, apesar de existirem situações particulares, estas poderiam ser integradas no movimento quotidiano de uma rua de uma cidade onde “(…) rota, pequenina azafamada,/Notei de costas uma rapariga” (em “Num bairro moderno”), mas que para o sujeito poético tomam uma nova dimensão. Um processo análogo pode verificar-se em “Cristalizações”, onde as primeiras estrofes constituem uma visão panorâmica, para se focar mais à frente nos “calceteiros” ou na “actrizita”.

É essencialmente destacado o quotidiano urbano, onde o sujeito poético deambula, sendo o poema “O sentimento de um ocidental” aquele em que é mais clara a descrição do dia-a-dia como ponto de partida para a revolta contra a vivência desumana da cidade. Aliás, Cesário Verde está longe de se deixar na passividade da observação casual, e repara naquilo, que tendo-se tornado parte de cada dia, é um factor de animalização e doença. Outras vezes, partindo da realidade, transfigura-a, num impulso salutar, em que tudo parece tomar formas orgânicas e vivas em oposição ao emparedamento das ruas da cidade: “Se eu transformasse os simples vegetais, num ser humano que se mova e exista/Cheio de belas proporções carnais?!”.
Linguagem e estilo

Eis algumas das características estilísticas e linguísticas: vocabulário objectivo; imagens extremamente visuais de modo a dar uma dimensão realista do mundo (daí poeta-pintor-calceteiro-condutor de metro); pormenor descritivo; mistura o físico e o moral; combina sensações; usa sinestesias, metáforas, comparações, hipálage; emprega dois ou mais adjectivos a qualificar o mesmo substantivo; quadras, em versos decassilábicos ou versos alexandrinos.

Fonte:
Wikipedia

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 274)

Uma Trova Nacional

Somente a força divina
promove graças tamanhas:
– o sol remove a neblina…
– a fé remove montanhas…
–ERCY MARIA MARQUES/SP–

Uma Trova Potiguar

Mar adentro, mundo afora,
a distância aumenta mais…
e enquanto a saudade chora,
“um lenço acena no cais”.
–MARA MELINNI/RN–

Uma Trova Premiada

2008 – Ribeirão Preto/SP
Tema : INCLUSÃO – 5º Lugar

Meu Deus, que eu não seja omissa
na luta pela inclusão,
pois quem clama por justiça
é Teu filho…e é meu irmão.
–THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA/SP–

Uma Trova de Ademar

Após causar desencantos
e nos fazer peregrinos,
a seca faz chover prantos
nos olhos dos nordestinos…
–ADEMAR MACEDO/RN–

…E Suas Trovas Ficaram

A igreja, as flores e o eleito,
ela de branco e eu tristonho;
foi o cenário perfeito
para o enterro de meu sonho.
–ALONSO ROCHA/PA–

Simplesmente Poesia

–JOMACI DANTAS/PB–
Meu Filho

Vem meu filho, meu amigo
para se banhar na fonte,
depois viajar comigo
nas linhas do horizonte;
vem meu filho ouvir meu verso
que fiz no lindo universo
com inspiração, porque…
Em cada estrofe que faço
sinto por dentro um pedaço
da grandeza de você!…

Vem meu filho, eu quero dar-te
e dizer com fé imensa,
Deus está em toda parte
eu sinto a sua presença,
o sol que revela o brilho
é com certeza, meu filho
o santo olho de Deus;
que em sua plenitude
vem clarear de virtude
os ensinamentos seus.

Estrofe do Dia

Não é para cantador
que se diz bom repentista,
fica para cordelista
que também tem seu valor;
o bom improvisador
não bota papel na mão,
pois da sua inspiração
nasce um verso sem defeito
o verso quando é bem feito
passa pelo coração.
–GERALDO AMÂNCIO/CE–

Soneto do Dia

–DIVENEI BOSELI/SP–
Caminho Amargo

Há tons de dor no por do sol tristonho
(se é que a dor tem, por acaso, cor);
é hora de eu voltar pelo enfadonho
caminho sempre amargo, aonde eu for…

Todos os dias trilho-o com a dor,
e, ao regressar, à dor já não me oponho,
pois trago o pão de cada dia e o amor
por quem, no amanhecer, levo em meu sonho…

Réstias de sol me banham quando venho
ao romper da alva o pão buscar, garrida,
por bem dos “anjos” que em casa deixei.

Ao regressar, o olhar sempre detenho
no ocaso (que reflete a minha vida)
e… ái, que saudade atroz de quando amei…

Fontes:
Textos enviados pelo autor

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3º Concurso de Poesia "Poetizar o Mundo” (Inscrições Abertas)

Modalidade: Minimalista.

Curadora: escritora e poeta Isabel F. Furini, autora de “O Livro do Escritor”.

1) O Concurso de Poemas tem como objetivo estimular a produção literária e é destinado a todas as pessoas maiores de 18 anos que apresentem um poema minimalista inédito e escrito em português.

2) O tema é livre, a inscrição é GRATUITA e poderá ser feita até 30 de setembro /2011.

3) Cada concorrente poderá participar com apenas um poema minimalista (até 5 versos ou linhas) inédito (ou seja, ainda não impresso em papel, nem publicado na internet), que não tenha sido premiado em outro concurso.

4) Consideram-se inscritas as obras enviadas pelo e-mail: isabelfurini@hotmail.com
Em “assunto”: 3º Concurso de Poesia: “Poetizar o Mundo”.

5) Poema no corpo do e-mail, sem anexo, escrito em língua portuguesa, digitado em espaço 2 (dois), com fonte Arial, tamanho 12 (doze).

6) Deverá constar no final: o título do poema, nome completo do autor, seu endereço, e-mail, telefone, RG, e 4 ou 5 linhas de currículo.

7) A comissão julgadora será composta pelo professor, poeta e escritor Alvaro Posselt e pela poeta Maria Edna Holer de Oliveira, autora do livro “Alvorecer da Poesia”, pela editora Protexto de Curitiba.

8) Premiação: o primeiro lugar receberá troféu e diploma. O segundo e terceiro lugares receberão diplomas. Poderão ser escolhidas até três Menções Honrosas, que também receberão diplomas.

9) O resultado do concurso será divulgado em sites literários da Internet e no blog: http://www.isabelfurini.blogspot.com/ – Falando de Literatura, do Bonde News.

10) O resultado será divulgado até 10 de novembro/11. Na ocasião, também serão homenageadas com placa comemorativa duas personalidades do mundo das letras: o bibliotecário José Domingos Brito, organizador das Antologias’ “Como Escrever” e “Por que Escrever”, e o poeta e escritor Cyl Gallindo da Academia Pernambucana de Letras.

11) O encaminhamento dos trabalhos na forma prevista neste regulamento implica concordância com as disposições nele consignadas.

Os troféus e placas foram doados pela poeta Maria Edna Hole de Oliveira.

Fonte:
Isabel Furini

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18 de Julho (Dia Nacional do Trovador)


O dia 18 de julho é o dia consagrado aos trovadores do Brasil. A data foi fixada por leis estaduais e municipais, onde que haja um cultor da Trova, em homenagem ao Trovador LUIZ OTÁVIO, o responsável pelo insuperável movimento literário brasileiro, que é o movimento trovadoresco nacional.

No dia do Trovador, todas as Seções da União Brasileira de Trovadores – UBT e Delegacias espalhadas por centenas de municípios brasileiros comemoram a data com almoços festivos, reuniões, com as chamadas chuvas de trovas, (centenas de trovas impressas) jogadas das janelas dos trovadores, para que os transeuntes se deliciem com as trovas que vão caindo ao sabor do vento. São realizadas palestras, enfim, cada seção ou delegacia comemora da melhor forma que pode a passagem do dia legalmente dedicado ao trovador.

A data foi escolhida em homenagem a LUIZ OTÁVIO, o Dr. Gilson de Castro, um dos mais conceituados Cirurgiões – Dentistas da época, formado pela Faculdade Nacional de Odontologia da Universidade do Brasil, em 1936. Sua clientela não ficava restrita apenas ao município Rio de Janeiro, se espalhava por São Paulo, Santos, Belo Horizonte e outras cidades mais próximas da sede do seu consultório, que, recordo como se fosse hoje, ficava na Rua do México, 119, no 9º Andar.

LUIZ OTÁVIO nasceu no Rio de Janeiro, no dia 18 de julho de 1916. Filho de OCTÁVIO DE CASTRO e Dona ANTONIETA CERQUEIRA DA M. CASTRO.

LUIZ OTÁVIO foi o precursor do movimento trovadoresco brasileiro, tendo publicado em 1956, a primeira Coletânea de Trovas, intitulada “ Meus irmãos, os Trovadores”, contendo mais de duas mil Trovas, mais de seiscentos autores brasileiros, notas elucidativas e bibliográficas.

O “Castanheira – de – Pêra”, Jornal Português de 11 de agosto de 1958 publicou sobre Meus Irmãos, os Trovadores:

“Esta coletânea, a primeira do gênero, veio preencher uma lacuna que se fazia sentir. Apresenta mais de seiscentos autores brasileiros, duas mil trovas, inúmeras notas bibliográficas e elucidativas e minuciosa introdução com um estudo sobre a trova. É um valioso trabalho que se impõe. A Luiz Otávio, em quem há muito reconhecemos idoneidade literária e bom sentido poético, apresentamos os nossos parabéns e os desejos de que o seu trabalho tenha a divulgação que a todos os títulos merece”.

Referindo-se ao mesmo trabalho de LUIZ OTÁVIO, A ILHA, JORNAL DA África- São Miguel dos Açores, de 16 de fevereiro de 1957, registrou:

“ Esta grande coletânea de trovas honra LUIZ OTÁVIO pelo seu trabalho, seriedade, competência e cultura, contribuindo para uma melhor compreensão deste tão ‘ simples e difícil‘ gênero poético. “.

O Correio da Manhã do Rio de Janeiro, na edição de 27 de janeiro de 1957, em coluna assinada por Sílvia Patrícia, assinalou:

“Meus Irmãos, os Trovadores, o volume novo que LUIZ OTÁVIO – Papai Noel da Poesia- ofereceu-nos no Natal que passou, é quase um romance no qual cada pena desta nossa irmandade de sonho narra, em quatro linhas, uma alegria ou uma tristeza, cardos e flores encontrados pelo caminho.”

O Jornal O Positivo, de Santos Dumont, MG., em coluna assinada por Antônio J. Couri, no dia 1º de outubro de 1957, escreveu sobre Meus Irmãos, os Trovadores:

“Raríssimas são as vezes em que o Brasil tem a oportunidade de conhecer coletâneas de poesias, ou , simplesmente quadras. Agora temos uma apresentada por LUIZ OTÁVIO, porém de trovas. De uma organização primorosa , o autor de “Cantigas para Esquecer” soube escolher a matéria que compõe o livro, constituindo assim um verdadeiro monumento de arte da poesia nacional.”

Evidentemente, não seria necessário selecionarmos as opiniões acima para este modesto trabalho a respeito do Dia do Trovador e de LUIZ OTÁVIO, o responsável pelo reconhecido movimento trovadoresco da atualidade, que começo a se firmar a partir da publicação de “ Meus Irmãos, os Trovadores“,obra que reuniu trabalho de trovadores de todos os recantos do território nacional, numa época em que os meios de comunicação ainda eram bastante precários, o que, por certo, valorizou ainda mais o livro, pelo trabalho incessante do Autor, inveterado apaixonado pela trova, como escreveu.

“A trova tomou-me inteiro!
tão amada e repetida,
agora traça o roteiro
das horas de minha vida.”

“Trovador, grande que seja,
tem esta mágoa a esconder:
a trova que mais deseja
jamais consegue escrever … “

Por estar na solidão,
tu de mim não tenhas dó.
Co trovas no coração,
eu nunca me sinto só.”

No ano de 1960, em Congresso de Trovadores realizados em São Paulo, foi eleita a Família Real da Trova, ficando assim constituída : Rainha da Trova : LILINHA FERNANDES (Maria das Dores Fernandes Ribeiro da Silva); Rei da Trova : ADELMAR TAVARES e Príncipe dos Trovadores, LUIZ OTÁVIO (Gilson de Castro). Mesmo já sendo falecidos, continuam com o título, pois outros trovadores só poderão adquirir o título se houver uma Eleição Nacional ou um Congresso realizado com esta finalidade, em que participe um número muito grande de trovadores, com a participação de representantes de todo o país, uma vez que não pode ser reconhecido qualquer título literário supostamente alcançado com a votação de sócios de uma academia, associação, centro literário etc, com exceção de sua Diretoria.

Ainda no ano de 1960, LUIZ OTÁVIO, juntamente com J. G. de Araújo Jorge, criaram os Jogos Florais de Nova Friburgo, com o apoio do Prefeito Municipal da Cidade, Dr. Amâncio de Azevedo e do Trovador Rodolpho Abbud, até hoje o mais respeitado trovador da Cidade, Jogos Florais que se realizam, ininterruptamente, desde 1960 e seus festejos fazem parte do calendário oficial da Cidade e são realizados como parte dos festejos do aniversário de Nova Friburgo.

No dia 21 de agosto de 1966, LUIZ OTÁVIO fundou a União Brasileira de trovadores – UBT – no Rio de Janeiro e a UBT Nacional,com sede também no Rio de Janeiro, tendo a mesma se expandido em pouco tempo, contando hoje com uma infinidade de Seções e Delegacias em quase todo o território nacional, onde se realizam cerca de 80 concursos de Trovas por ano, na maioria com mais de um tema o que, no cômputo geral, chega a mais de 120 certames por ano.

LUIZ OTÁVIO foi o primeiro Presidente da UBT, tendo se tornado pouco tempo depois Presidente Nacional e posteriormente, Presidente Perpétuo, o mais alto título concedido pela agremiação.

Recebeu o título máximo da trova, Magnífico Trovador, nos Décimos Quintos Jogos Florais, por ser vencedor três anos consecutivos com as trovas:

XIII Jogos Florais – Tema Silêncio – 1º lugar :
“ Nessas angústias que oprimem,
que trazem o medo e o pranto,
há gritos que nada exprimem,
silêncios que dizem tanto !.. “

XIV Jogos Florais – tema Reticências – 2º lugar:
“Eu …você …as confidências…
o amor que intenso cresceu
e o resto são reticências
que a própria vida escreveu…”

XV Jogos Florais – tema Fibra – 10º lugar:
“ Ele cai … não retrocede ! …
continua até sozinho …
que a fibra também se mede
pelas quedas no caminho … “

LUIZ OTÁVIO publicou os livros:

Saudade… muita saudade! / Poesia / 1946
Um Coração em ternura / Poesia / 1947
Trovas / Trovas (três edições) / 1954 – 1960 – 1961
Meus Irmãos. / Os Trovadores Coletânea de Trovas / 1956
Meu Sonho Encantador / Poesias / 1959
Cantigas para Esquecer / Trovas / 1959 e 1961
Cantigas de Muito Longe / Trovas / 1961
Cantigas dos Sonhos Perdidos / Trovas / 1964
Trovas… Ao Chegar do Outono / Trovas / 1965

Registramos outras trovas de LUIZ OTÁVIO, que demonstram porque, após quinze anos de criar os Jogos Florais de Nova, como outros grandes trovadores, ele sagrou-se Magnífico Trovador.

“ Se a saudade fosse fonte
de lágrimas de cristal,
há muito havia uma ponte
do Brasil a Portugal.”

“Ao partir para a outra vida,
aquilo que mais receio,
é deixar nessa partida,
tanta coisa pelo meio … “

“Pelo tamanho não deves
medir valor de ninguém.
Sendo quatro versos breves
como a trova nos faz bem. “

“Busquei definir a vida,
não encontrei solução,
pois cada vida vivida
tem uma definição… “

“ Não paras quase ao meu lado … !
e em cada tua partida,
eu sinto que sou roubado
num pouco da minha vida …”

“Portugal – jardim de encanto
que mil saudades semeias
nunca te vi … e, no entanto,
tu corres nas minhas veias …”

“Meus sentimentos diversos
prendo em poemas tão pequenos.
Quem na vida deixa versos,
parece que morre menos …”

“ Contradição singular
que angustia o meu viver :
a ventura de te achar
e o medo de te perder … “

“ estrela do céu que eu fito,
se ela agora te fitar,
fala do amor infinito
que eu lhe mando neste olhar … “

“ Ó mãe querida – perdoa ! ´
o que sonhaste, não sou …
– Tua semente era boa !
a terra é que não prestou ! “

Além de grande Trovador, campeão de centenas de Concursos de Trovas e Jogos Florais, realizados em várias cidades do país, LUIZ OTÁVIO era um exímio compositor, sendo dele a autoria do Hino dos Trovadores, Hino dos Jogos Florais, das Musas dos Jogos Florais e de várias outras obras musicais.

Hino dos Trovadores:

“ Nós, os trovadores,
somos senhores
de sonhos mil !
Somos donos do Universo
através de nosso verso.
E as nossas trovas
são bem a prova
desse poder :
elas têm o dom fecundo
de agradar a todo mundo ! “

Hino dos Jogos Florais

“ Salve os Jogos Florais Brasileiros !
a Cidade se enfeita de flores !
Corações batem forte, fagueiros,
a saudar meus irmãos trovadores !
Unidos por laços fraternais,
nós somos irmãos nos ideais;
– não há vencidos, nem vencedores ;
pois todos nós cantamos , somos trovadores;

e as nossas trovas sentimentais
são sempre mensageiras de amor e paz !.

A Oração do Trovador é o Poema de são Francisco de Assis, Padroeiro dos Trovadores, cujo aniversário, dia 4 de outubro é muito festejados pelos cultores da Trova.

E para encerrar esta homenagem ao Dia do Trovador, focalizando a figura mais importante do mundo trovadoresco, LUIZ OTÁVIO, registramos dois sonetos, dos inúmeros que escreveu, contido em um dos seus livros de poesias, “Meu Sonho Encantador “.

O IDEAL

Esculpe com primor, em pedra rara,
o teu sonho ideal de puro artista !
Escolhe, com cuidado, de carrara
um mármore que aos séculos resista !

Trabalha com fervor, de forma avara !
Que sejas no teu sonho um grande egoísta !
Sofre e luta com fé, pois ela ampara
a tua alma, o teu corpo em tal conquista !

Mas, quando vires, tonto e deslumbrado,
que teu labor esplêndido e risonho
ficará dentro em breve terminado,

pede a deus que destrua esse teu sonho,
pois nada é tão vazio e tão medonho
como um velho ideal já conquistado ! …

ORGULHO

Venho de longe… venho amargurado
pelas noites sem fim, nesse cansaço
de receber tão só, triste e calado,
a incompreensão do mundo passo a passo…

Eu trago a alma sem fé do revoltado
e o gesto do vencido em cada braço…
E tu me surges – Anjo imaculado –
a oferecer repouso em teu regaço…

Porém tua alma feita de inocência
serenidade e Luz, não avalia
a penumbra invulgar dessa existência…

Deixa-me, pois, seguir o meu caminho,
renunciar, viver nessa agonia,
mas tenho o orgulho de sofre sozinho !…

Assim, mostramos um pouco da poética de LUIZ OTÁVIO, Príncipe dos Trovadores Brasileiros, Magnífico Trovador e Presidente Perpétuo da União Brasileira de Trovadores e responsável pelo sucesso alcançado pela Trova e pelos Trovadores.

Fonte:
http://www.movimentodasartes.com.br

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Luiz Otávio, Príncipe dos Trovadores

artigo enviado por Carolina Ramos

O POETA

Gilson de Castro nasceu a 18 de julho de 1916, no Rio de Janeiro. Luiz Otávio foi o pseudônimo que ele adotou para assinar suas trovas, poesias e outras manifestações de seu talento literário. Era cirurgião-dentista, profissão que exerceu no Rio de Janeiro, onde se formou e mais tarde se transferindo para Santos no final de sua vida.

Começou a enviar seus versos para os jornais e revistas lá por 1938, ainda timidamente, oculto sob pseudônimo. Não pretendia misturar a vida literária com a profissional. As principais revistas e jornais da época começaram a divulgar poesias e principalmente trovas de Luiz Otávio, que podiam ser encontradas no “Correio da Manhã”, “Vida Doméstica”, “Fon-Fon”, “O Malho”, “Jornal das Moças”, revistas que, como “O Cruzeiro”, eram as mais lidas dos anos 1939, 40 e 41, etc. A revista “Alterosa” de Belo Horizonte, também o divulgou. Pouco a pouco, a Trova tomou conta do coração do poeta, assumindo Literalmente papel de Liderança na sua vida. E ele confessa:

A Trova tomou-me inteiro,
tão amada e repetida,
que agora traça o roteiro
das horas da minha vida!…

Para a ascensão da Trova na vida de Luiz Otávio, muito contribuiu sua amizade com Adelmar Tavares. Quem os aproximou foi o consagrado poeta A. J Pereira da Silva. Recuperava-se Luiz Otávio na Fazenda Manga Larga em Pati de Alferes, quando teve oportunidade de conhecer esse renomado poeta, da Academia Brasileira de Letras, com quem iniciou amizade edificante, solidificada pela Poesia; amizade que se estendeu até os derradeiros dias de A. J. Pereira da Silva que, naquele tempo, já passava dos sessenta, enquanto Luiz Otávio não galgara ainda o vigésimo segundo degrau de sua sofrida existência. Isto não perturbou as horas deliciosas de conversa amena e espiritualizada, em que a fina sensibilidade de ambos fazia desaparecer a diferença de idade, provando que um coração capaz de vibrar “de amor” e pulsar em ritmo de poesia, simplesmente não tem idade.

A viúva do acadêmico Antônio Joaquim Pereira da Silva, doaria posteriormente, a preciosa Biblioteca do poeta ao seu particular amigo, Luiz Otávio, que, por sua vez, ao transferir residência para Santos, em 1973, doou parte desse valioso acervo, juntamente com livros de sua própria estante – num total de mil exemplares devidamente catalogados – à Academia Santista de Letras, que só então teve formada sua Biblioteca. Na época, a A.S.L. era presidida pelo Dr. Raul Ribeiro Florido que se responsabilizou pelo transporte Rio-Santos. Com esta doação, Luiz Otávio não pretendia nada para si, como deixou bem claro em carta, (era de conhecimento geral sua quase aversão às Academias, em virtude do próprio temperamento). Mas pediu, por uma questão de justiça, que numa das estantes fosse colocada uma placa que levasse o nome de A. J Pereira da Silva. Luiz Otávio recebeu um carinhoso oficio de agradecimento do então Presidente da Academia. O atual Presidente, Dr. Nilo Entholzer. Ferreira, trovador de méritos, comprometeu-se a cumprir essa cláusula.

Como já dito, A. J. Pereira da Silva foi quem levou Luiz Otávio até Adelmar Tavares, também da Academia Brasileira de Letras, em visita à sua casa, em Copacabana. Corria o ano de 1939. Adelmar Tavares sentia a idade pesar-lhe nos ombros, e, mais uma vez, um jovem poeta e um velho e consagrado mestre da Poesia uniam-se por laços afetivos dos mais duradouros. A principal responsável por essa união foi a Trova, que Adelmar Tavares cultivava e da qual Dr. Gilson de Castro já era profundo apaixonado, trazendo-a para o público sob o Pseudônimo, agora definitivamente adotado.

Luiz Otávio. Luiz, por ser bonito, melodioso, e combinar com Octávio, o nome do Pai, a quem, homenageava. Para atualizar o nome, o c foi cortado em acordo às regras ortográficas vigentes. A Poesia de Luiz Otávio ganhava espaço. Jornais de outros estados o acolhiam em suas páginas, tinha ao seu dispor colunas literárias de crítica poética, onde comentava livros, publicava trovas, poesias e arrebanhava fãs e admiradores de todas as idades. Daí ai constituir-se Líder de um Movimento Trovadoresco, era questão de um passo, muito embora isto viesse acontecer sem procura. Idealista, lírico, por excelência, com um profundo senso de organização, Luiz Otávio acumulava ainda outras qualidades indispensáveis ao “verdadeiro Líder”, seja lá do que for. Era simples, honesto, e sabia convencer sem forçar. Embora convicto e determinado, sabia humildemente ceder, se preciso fosse. Se persuadido da necessidade de uma renúncia, cedia, sim, porém, não facilmente, mesmo porque antes de propor algo, o fazia convicto de que aquilo era o certo, respondendo de antemão a todos os possíveis apartes – o que de certo modo desarmava, a priori, o opositor. Era bom, afável e acima de tudo, profundamente carismático. Um verdadeiro Príncipe!

O TROVADOR

Era, portanto, o campo fecundo onde a semente da Trova encontrou chão propício para deitar raízes, expandindo sua opulência por todo território nacional. O ritmo da Trova que embalava seus ouvidos desde os tempos de escoteiro, cresceu com ele, ganhando melodia ao som do violão de Glauco Vianna, mais tarde pertencente ao “Bando dos Tangarás”, seu colega de faculdade e de noitadas de seresta.

Final

Luiz Otávio sempre gostou de cantar e compor embora não conhecesse música. Aloysio de Oliveira, outro companheiro, também possuidor de um bom timbre vocálico, iria pertencer, no futuro, ao Bando da Lua, que tanto sucesso fez na terra de Tio Sam ao lado de Carmen Miranda. A influência destes dois amigos foi grande na iniciação poética de Luiz Otávio. Glauco tocava, Aloysio cantava e Luiz Otávio não apenas cantava como também compunha letras e músicas de canções, sambas, fox-trotes, valsas, etc. e continuou cantando e compondo até o final dos seus dias. Nascia o “Trovador” – assim carinhosamente chamado, já naquele tempo, antes mesmo do seu ingresso definitivo no Mundo da Trova.

Cada quadrinha que faço
em hora calma ou incalma,
é pequenino pedaço
que eu mesmo furto a minha alma.

Ó trovas – simples quadrinhas
que tem sempre um que de novo…
– Como podem quatro linhas
trazer toda a alma de um povo?!

Uma trova pequenina,
tão modesta, tão sem glória,
bem pouca gente imagina,
que também tem sua história.

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Arquivado em Biografia, homenagem, Trovas

Luiz Otávio (Trovas)

A trova tomou-me inteiro,
Tão amada e repetida
Que agora traça o roteiro
Das horas da minha vida!…

Ó trovas — simples quadrinhas
que têm sempre um quê de novo…
— Como podem quatro linhas
trazer toda alma de um povo?!

Trovador, grande que seja,
tem esta mágoa a esconder:
a trova que mais deseja
jamais consegue escrever …

Cada quadrinha que faço
em hora calma ou incalma,
é pequenino pedaço
que eu mesmo furto a minha alma.

Uma trova pequenina,
tão modesta, tão sem glória,
bem pouca gente imagina,
que também tem sua história.

Pelo tamanho não deves
medir valor de ninguém.
Sendo quatro versos breves
como a trova nos faz bem.

Toda noite ao me deitar
(por certo você reprova),
eu me esqueço de rezar
e fico fazendo trova.

Tudo nos une: o amor,
o gênio igual, a constância,
até mesmo a própria dor…
— Só nos separa a Distância…

Se é de amor tua ferida,
não busques remédio, — cala!
— O Tempo, aliado à Vida,
lentamente há de curá-la…

Duas vidas todos temos,
— muitas vezes, sem saber…
— A vida que nós vivemos
e a que sonhamos viver…

Do Passado faço culto!
Nas tenho cá o meu rito:
— Se triste, eu o sepulto!
Se feliz, o ressuscito…

É desigual esta vida
pois, nos engana… nos furta…
— Dá velhice tão comprida!
E mocidade tão curta!…

Que sina, que padecer
foi a Sorte aos cegos dar:
— Não ter olhos para ver
e tê-los para chorar…

“Meu Deus como o Tempo passa!…”
— Nós, às vezes, exclamamos…
Mas por sorte ou por desgraça,
fica o tempo… e nós passamos..

Muitas vezes ao partir,
(oh! tortura singular!)
— os que ficam, querem ir…
os que vão, querem ficar…

Às vezes o mar bravio,
nos dá lição engenhosa:
Afunda um grande navio,
deixa boiar uma rosa

Meus sentimentos diversos
prendo em poemas tão pequenos.
Quem na vida deixa versos,
parece que morre menos….

Duas vidas todos temos,
muitas vezes sem saber:
— a vida que nós vivemos,
e a que sonhamos viver…

Nessas angústias que oprimem,
que trazem o medo e o pranto,
há gritos que nada exprimem,
silêncios que dizem tanto !…

Eu …você …as confidências…
o amor que intenso cresceu
e o resto são reticências
que a própria vida escreveu…

Ele cai … não retrocede ! …
continua até sozinho …
que a fibra também se mede
pelas quedas no caminho ..

Se a saudade fosse fonte
de lágrimas de cristal,
há muito havia uma ponte
do Brasil a Portugal.

Ao partir para a outra vida,
aquilo que mais receio,
é deixar nessa partida,
tanta coisa pelo meio …

Busquei definir a vida,
não encontrei solução,
pois cada vida vivida
tem uma definição…

Não paras quase ao meu lado …
e em cada tua partida,
eu sinto que sou roubado
num pouco da minha vida …

Meus sentimentos diversos
prendo em poemas tão pequenos.
Quem na vida deixa versos,
parece que morre menos …

Contradição singular
que angustia o meu viver :
a ventura de te achar
e o medo de te perder …

Estrela do céu que eu fito,
se ela agora te fitar,
fala do amor infinito
que eu lhe mando neste olhar …

Ó mãe querida – perdoa !
o que sonhaste, não sou …
– Tua semente era boa !
a terra é que não prestou !
———

Fontes:
OTÁVIO, Luiz. Trovas. Belo Horizonte: Editora Acaiaca,
VERDAN, Iraí. Vida e obra do Príncipe da Trova – Luiz Otávio.
Portal Movimento das Artes.

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Ialmar Pio Schneider (Soneto a Luiz Otávio)

– In Memoriam – Dia do Trovador –
Nascimento do trovador em 18 de julho de 1916 –

Luiz Otávio foi dos trovadores,
o Príncipe que divulgou a trova
e a revestiu de uma roupagem nova,
para que fosse a das mais belas flores…

Pois em cada ano sempre se renova
e vai angariando admiradores
que curtem os seus mágicos amores,
das ardentes paixões, vívida prova !

Em dezoito de julho é celebrado,
Dia do Trovador, sempre lembrado,
pois nasceu Luiz Otávio, nesse dia.

E todos aos que a trova têm paixão,
podem prestar-lhe em forma de oração,
a homenagem de sua nostalgia…

Fonte:
Soneto enviado pelo autor

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Arquivado em Dia do Trovador, homenagem, O poeta no papel

Olivaldo Júnior (Poema ao Dia do trovador)

Dezoito de julho é dia de poesia…
Andam moças pela praça inteira,
inteiradas da moda, em fantasia,
que tudo é poesia: a vida é feira.
A feira do poeta é a sua alegoria.

Hoje é dia de quem vive na lua,
mas volta pra cá se tem samba,
puro acalanto em qualquer rua,
que a rua é a casa de quem anda
sobre as brasas de sol e chuva,
de chuva e sol, de quem ciranda.

Não tem mais cavalo, mas vai…
Não tem mais donzela, mas sai…
Não tem mais porquê, mas (ai!)
faz da vida um sábado e recai,
descansa em si mesmo, bye, bye.

Luiz Otávio, príncipe trovador,
troveja um pouco sobre mim,
me ensina a ser doutor em flor!
Plantando trovas num jardim,
me ensina a ser, também, amor…

Fonte:
O Autor

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Arquivado em Dia do Trovador, homenagem, O poeta no papel

Eliana Ruiz Jimenez (Dia do Trovador)

O poeta é detentor de uma sensibilidade aguçada e tem a necessidade de compartilhar a sua visão emocional e os seus sentimentos com as outras pessoas, transformando essas impressões em versos, que podem ser livres, ou em formatos predeterminados, como na trova, por exemplo.

Os versos livres costumam surgir de repente e arrebatam o poeta onde ele estiver. É preciso segurar a ideia, transpô-la imediatamente para o papel antes que o sopro inspirador se dilua e as palavras se percam.

Já a trova é a expressão poética trabalhada. De formato rígido, requer métrica e rimas, além da expressão de um pensamento completo em quatro versos, sendo que o último arremata a reflexão com um grande final.

Habilidoso, o trovador precisa adequar o querer dizer na precisão das sete sílabas tônicas e ainda provocar no leitor a empatia com a saudade sentida, com o coração partido e – por que não dizer? – com as reminiscências que cada um traz consigo.

Audacioso, o trovador elabora a trova com sofisticação, procurando justapor as palavras num encaixe cuidadoso, observando tanto a forma como a sonoridade, procurando a rima inédita, notável. Vale pensar, refazer, pois o que importa é o resultado perfeito.

A trova é, portanto, a ideia sintetizada, a comunicação imediata, que pode trazer tanto um pensamento filosófico como a sabedoria da experiência, o humor ou o lirismo.
Quando finalmente pronta, a trova é como o filho criado, independente, que percorre o mundo levando a mensagem de seu criador.

Nesse oceano de trovas brilhantes, os trovadores são amigos fraternos que, embalados pela mesma inspiração poética, vão compartilhando a vida nos versos, falem eles das dores sentidas ou das alegrias da jornada.

No dia 18 de julho, data de nascimento de Luiz Otávio, responsável pela consolidação do movimento trovadoresco no Brasil, é comemorado o dia do trovador, data em que todos os poetas e admiradores dessa bela e requintada expressão poética relembram o saudoso e querido amigo, principalmente com a leitura de suas belas trovas, tão contemporâneas, que nos deixam a certeza de um homem que viveu à frente de seu tempo e que assim escrevia:

Meus sentimentos diversos
prendo em poemas pequenos.
Quem na vida deixa versos,
parece que morre menos.

Pelo tamanho não deves
medir valor de ninguém;
sendo quatro versos breves,
como a trova nos faz bem!

Fonte:
A Autora

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Ademar Macedo (Lançamento de O Trovadoresco n. 73 – Julho 2011)

Aquela duna imponente,
que na paisagem se alteia,
tem na origem, certamente,
minúsculos grãos de areia.
–Vanda Fagundes Queiroz/PR–

Quando a paixão é marcada
por possessão, se resume
numa rosa incinerada
na fornalha do ciúme…
–Renata Paccola/SP–

Se for teste, meu Senhor,
o viver nesta fornalha,
tu verás que a fé e o amor
de um nordestino não falha!
–J.B. Xavier/SP–

Na fornalha, em que me abraso,
– você finge que não vê –
seu desprezo não faz caso
do meu amor… por você!
–Therezinha Brisolla/SP–

A vida é um “fogo de palha”
e o tempo se mostra algoz,
mais parece uma fornalha
onde a palha… “somos nós”!…
–Roberto Tchepelentyky/SP–

Por minha culpa partiste;
e o sal do pranto, sem dó,
agora, torna mais triste
o triste viver de um só…
–José Tavares de Lima/MG–

E muito mais.

Baixe a Revista na íntegra para seu computador AQUI.

Fonte:
Ademar Macedo

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J B Xavier (Luiz Otávio, O Construtor de Sonhos)


Perdoem as toscas palavras deste viajante, que, tendo aportado há tão pouco na Trova, volta a esta página para lhes relatar sua visão sobre quem construiu a fonte da qual hoje bebo. Perdoem-me por começar onde terminei: a homenagem à Dama da Trova, Carolina Ramos, porque, da miríade de pontos onde sua biografia e a de Luiz Otávio se tocam, há um, que, certamente, lhes faz interseção: A decisão de não serem apenas meros observadores da História, mas um de seus protagonistas.

O silêncio seria a melhor forma de homenagear um sonhador, porque nele está o recolhimento necessário à serenidade que a vitória preconiza. Portanto, perdoem este pobre viandante, por não iniciar esta homenagem a Luiz Otávio a partir de suas realizações como trovador e criador da UBT, porque seria um erro indesculpável, pensar que a criatura é maior que seu criador. Ao nascer, Gilson de Castro já era Luiz Otávio. A forja da vida apenas lhe deu têmpera e, como num quebra-cabeça mágico, a poesia – mais precisamente, a Trova – se encaixou precisamente em seus vazios . Junte num só coração a têmpera, o amor à poesia e o sonho de construir catedrais, e teremos a argamassa com a qual Deus constrói os vitoriosos.

Se as coisas não parecessem impossíveis, não haveria graça em fazê-las. Luiz Otávio bem o demonstrou. O possível é para pessoas comuns; o difícil é para pessoas determinadas, mas o impossível é para pessoas obstinadas. Portanto, o possível, é para quem assenta tijolos, o difícil, é para quem ergue paredes, mas o impossível, é para quem constrói catedrais! As pessoas comuns sonham. As pessoas determinadas planejam, mas as pessoas obstinadas fazem! Elas colocam o planejar e o fazer a serviço do sonhar, e munidos desse tripé, dão forma ao sonho, constroem castelos de cristais onde havia desolação, espelham a lua e penduram esperanças nas estrelas, para, com elas, enfeitarem a noite dos que buscam luz!

Mostrem-me um vitorioso, e eu lhes mostrarei alguém que se recusou a chamar insucesso de fracasso! Mostrem-me alguém que realizou seu sonho, e eu lhes mostrarei alguém que chama os insucesso de “tentativas”. Mostrem-me um vencedor e eu lhes mostrarei Gilson de Castro, o cirurgião dentista que aceitou chorar só, na calada da noite, diante da incompreensão dos medíocres, para poder no dia seguinte, ressurgir como Luiz Otávio, e encarar os desafios que seu sonho exigia, com o olhar brilhante, lustrado pelas lágrimas, depurado pelo sofrimento e revigorado pela obstinação! Foi essa obstinação que ergueu a catedral UBT, o Templo Maior da Trova!

O vitorioso sorri quando outros choram, avança quando outros param, persiste quando outros retornam, cria onde outros copiam, transpira quando outros descansam. E se chora, será de alegria, se arrefece a caminhada será para admirar a paisagem que transformou, se retorna, será para auxiliar os que não lhe acompanham o passo, se copia, será para ratificar, com o devido crédito, o que de bom se fez antes dele; e, se descansa, será para preparar a retomada do caminho em direção ao sonho ainda não realizado. Mas, pobres são as palavras deste escriba para definir Luiz Otávio. Por essa razão recorro às palavras dele próprio, para que não haja dúvidas quanto ao estofo de que são feitos os vencedores:

O IDEAL

Esculpe com primor, em pedra rara,
o teu sonho ideal de puro artista!
Escolhe, com cuidado, de carrara
um mármore que aos séculos resista!

Trabalha com fervor, de forma avara!
Que sejas no teu sonho um grande egoísta!
Sofre e luta com fé, pois ela ampara
a tua alma, o teu corpo em tal conquista!

Mas, quando vires, tonto e deslumbrado,
que teu labor esplêndido e risonho
ficará dentro em breve terminado,

pede a deus que destrua esse teu sonho,
pois nada é tão vazio e tão medonho
como um velho ideal já conquistado!

* * *

As trovas que tornaram Luiz Otávio Magnífico Trovador

XIII Jogos Florais – Tema Silêncio – 1º lugar
Nessas angústias que oprimem,
que trazem o medo e o pranto,
há gritos que nada exprimem,
silêncios que dizem tanto !.. “

XIV Jogos Florais – tema Reticências – 2º lugar:
“Eu …você …as confidências…
o amor que intenso cresceu
e o resto são reticências
que a própria vida escreveu…”

XV Jogos Florais – tema Fibra – 10º lugar:
“ Ele cai … não retrocede ! …
continua até sozinho …
que a fibra também se mede
pelas quedas no caminho … “

______________________________________

TROVAS DE LUIZ OTÁVIO

Quem vive pela saudade,
por longos anos ou meses,
possui a felicidade
de reviver várias vezes.

Se a saudade fosse fonte
de lágrimas de cristal,
há muito havia uma ponte
do Brasil a Portugal.

Ao partir para a outra vida,
aquilo que mais receio,
é deixar nessa partida,
tanta coisa pelo meio …

Pelo tamanho não deves
medir valor de ninguém.
Sendo quatro versos breves
como a trova nos faz bem.

Busquei definir a vida,
não encontrei solução,
pois cada vida vivida
tem uma definição… “

Não paras quase ao meu lado … !
e em cada tua partida,
eu sinto que sou roubado
num pouco da minha vida …

Portugal – jardim de encanto
que mil saudades semeias
nunca te vi … e, no entanto,
tu corres nas minhas veias …

Meus sentimentos diversos
prendo em poemas tão pequenos.
Quem na vida deixa versos,
parece que morre menos …

Contradição singular
que angustia o meu viver :
a ventura de te achar
e o medo de te perder …

Estrela do céu que eu fito,
se ela agora te fitar,
fala do amor infinito
que eu lhe mando neste olhar …

Ó mãe querida – perdoa ! ´
o que sonhaste, não sou …
– Tua semente era boa !
a terra é que não prestou !

Ó trovas — simples quadrinhas
que têm sempre um quê de novo…
— Como podem quatro linhas
trazer toda alma de um povo?!

Tudo nos une: o amor,
o gênio igual, a constância,
até mesmo a própria dor…
— Só nos separa a Distância…

Se é de amor tua ferida,
não busques remédio, — cala!
— O Tempo, aliado à Vida,
lentamente há de curá-la…

Duas vidas todos temos,
— muitas vezes, sem saber…
— A vida que nós vivemos
e a que sonhamos viver…

Do Passado faço culto!
Mas tenho cá o meu rito:
— Se triste, eu o sepulto!
Se feliz, o ressuscito…

É desigual esta vida
pois, nos engana… nos furta…
— Dá velhice tão comprida!
E mocidade tão curta!…

Que sina, que padecer
foi a Sorte aos cegos dar:
— Não ter olhos para ver
e tê-los para chorar…

“Meu Deus como o Tempo passa!…”
— Nós, às vezes, exclamamos…
Mas por sorte ou por desgraça,
fica o tempo… e nós passamos..

Muitas vezes ao partir,
(oh! tortura singular!)
— os que ficam, querem ir…
os que vão, querem ficar…
_________________________________________

JB Xavier é Trovador e Editor do Informativo da seção São Paulo

Fonte:
UBTrova

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 273)


Uma Trova Nacional

Falta grave que dói fundo
e é por tantos repetida:
Trazer uma vida ao mundo
e não cuidar dessa vida!
–PEDRO ORNELLAS/SP–

Uma Trova Potiguar

São como barcos partindo
nosso tempo de rapaz,
aos poucos vão se sumindo…
sumindo e não voltam mais.
–JAYME PAULO FILGUEIRA/RN–

Uma Trova Premiada

2007 – Bandeirantes/PR
Tema: ENCANTO – M/E.

Tais encantos tem a vida,
tais e tantas graças tem,
que me dói pensar na ida
para o céu antes dos cem!…
–A. A. DE ASSIS/PR–

Uma Trova de Ademar

Na mão humana que doa
jamais nasce uma ferida…
E Deus do céu abençoa
todos seus bens nesta vida.
–ADEMAR MACEDO/RN–

…E Suas Trovas Ficaram

Quando um povo escravo acorda,
pondo fim ao jugo insano,
a mão de Deus põe a corda
no pescoço do tirano…
–JOUBERT DE ARAUJO/ES–

Simplesmente Poesia

–DELCY CANALLES/RS–
Mágoa

A mágoa que eu carrego
ela é tão minha,
que desborda
o meu mundo interior…
E eu sinto que
qualquer um adivinha,
este estado de angústia
e desamor.
E u quisera esquecer
meu sofrimento
e fingir para os outros
alegria,
eu quisera afastar este
tormento,
e viver plenamente
o dia a dia!

Estrofe do Dia

A inspiração com certeza
Mora em minha companhia,
Não vou à sua procura
É ela quem me assedia
Sem nenhum constrangimento,
Porque não tem meu talento
Pra conceber poesia.
–HELIODORO MORAIS/RN–

Soneto do Dia

–MARIA NASCIMENTO/RJ–
Rugas

Há nas rugas precoces do meu rosto
sensível nitidez do sofrimento
de não poder falar do meu desgosto,
e de ter que esconder meu sentimento.

Estas rugas são marcas de um sol posto
relegado a tristeza, a esquecimento…
São vincos de um passado em mim exposto
para externar as marcas de um tormento.

Sempre há uma história triste em cada ruga :
um desencontro… as mágoas de uma fuga
ou mesmo a dor de um – Não – que alguém nos disse…

Mas, seja por qualquer razão que for,
as rugas feitas pelo desamor
ferem mais do que as rugas da velhice…

Fonte:
Textos enviados pelo autor
Imagem = Photorkut

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Trova 196 – Roberto Pinheiro Acruche (São Francisco de Itabapoana/RJ)

Fonte:
Imagem e trova = http://robertoacruche.blogspot.com

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II Jogos Florais de São Francisco de Itabapoana-RJ (Resultado do Concurso de Trovas – Âmbito Nacional)


TEMA CRIANÇA

VENCEDORES

Da criança sem afeto
ao homem de sonhos vãos,
meu brinquedo predileto
sempre esteve em outras mãos!
ARLINDO TADEU HAGEN – MG

Crianças de rua, à espera
de que o porvir lhes sorria,
semeiam grãos de quimera
nos campos da fantasia…
DARLY O. BARROS-SP

No olhar puro da criança,
onde repousa a inocência,
o amor dorme em segurança
e os anjos têm residência!
HERON PATRÍCIO – SP

Cuidado, esposa e marido,
nessas brigas conjugais,
porque o casal sai ferido
e as crianças… muito mais!
JOSÉ OUVERNEY-SP

A criança pobre insiste…
olha a estátua e não sossega…
e ao ver seus olhos, diz, triste:
-Que pena…a justiça é cega!
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA-SP

MENÇÃO HONROSA

No instante em que é concebida,
entra na história a criança.
Negar-lhe o direito à vida
é um crime contra a esperança!
A. A. DE ASSIS –PR

Refúgio manso de outrora
onde eu sonhava, em criança,
o teu colo, mãe, agora,
é somente uma lembrança!
ALMIRA GUARACY REBELO-MG

Sem dúvida, em toda parte,
Naturalmente, não cansa:
Brinca, grita, ri, faz arte…
-criança é sempre criança!
ROBERTO RESENDE VILELA-MG

Todas elas descuidadas,
crianças a cirandar,
são destinos de mãos dadas
que a vida vai separar.
SEBAS SUNDFELD-SP

Na inocência de criança,
muitos sonhos eu tecia,
com os fios da esperança
e as cores da fantasia.
WANDA DE PAULA MOURTHÉ-MG

MENÇÃO ESPECIAL

O meu EU sofreu mudança,
uma mudança sem fim.
Só não mudou a criança
que eu fui e que vive em mim!
ADMAR MACEDO-RN

Afirmo com segurança:
as lições que marcam mais
a vida de uma criança,
são os exemplos dos pais!…
JOSÉ TAVARES DE LIMA-MG

Nos meus tempos de criança,
construí reinos sem fim…
Hoje é um reino de lembrança
que reina dentro de mim!
MARIA DE FÁTIMA SOARES DE OLIVEIRA-MG

Meu relicário encontrei…
e havia tanta lembrança
que, entre relíquias, achei
os meus sonhos de criança!!!
EDUARDO A. O. TOLEDO

Criança, pingo de gente,
que nos encanta e seduz;
É sempre uma chama ardente
enchendo a casa de luz…
AMAELA TAVARES DA SILVA-MG

Nas palavras de Roberto Pinheiro Acruche,
“Aproveito o ensejo para informar que diante das inúmeras festividades juninas, rancheiradas e festivais que estarão ocorrendo até o final de julho, resolvemos, para maior brilho da solenidade de premiação dos Jogos Florais, adiar esta para os dias 20 e 21 de agosto de 2011.

Pedimos aos classificados que confirmem com antecedência a presença na solenidade, para que possamos fazer as reservas de hospedagem.

Breve, estaremos divulgando a programação.

Abraços… Roberto Pinheiro Acruche.

Fonte:
R. P. Acruche

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Sebas Sundfeld (A Ajuda)


Quinta das cinco cronicas vencedoras do V Concurso Literário “Cidade de Maringá”. Sebas Sundfeld é de Tambaú/SP.

Zéca, moço simples da roça, trabalhador e religioso, herdara umas terrinhas do avô. Para lá se tocou com a mulher, a tomar posse da propriedade e botar mãos à obra. Com seu trabalho já rendendo alguma coisa e bom cristão que era, convidou o vigário da Vila para benzer o fruto do seu esforço honesto e suado.

Após o almoço suculento servido na cozinha da casa de chão de terra-batida e teto de telha-vâ, saíram ao sol, o vigário de barrete e o Zéca com seu chapéu de banda. Com justo orgulho, o roceiro ia mostrando, rindo e gesticulando, o produto resultante do seu esforço rude.

– Seu padre, aqui era só mato. Carpi tudu no cabu da inxada, edubei e prantei. Óia agora o mio imbonecando… os cacho do arrois…e ali, óia, o feijão nos carreadô.

O vigário benzeu e ponderou: – É, meu filho, mas tudo foi com a ajuda de Deus.

Passaram por perto do pasto, onde um matungo tordilho descansava do arado, à sombra de um jatobazeiro nativo. Uma vaquinha leiteira e um bezerro completavam a cena bucólica.

– Aqui, seu padre – o Zéca continuava mostrando – fofei a terra e óia só que beleza de hortinha!

E o vigário contrito, alegou novamente: – Muito bom, meu filho, mas, veja bem, com a ajuda de Deus.

Assim foi, o Zeca mostrando o fruto do seu trabalho e o vigário lembrando a ajuda de Deus. Por último, o roceiro já meio encabulado mostrou o pequeno celeiro. Comentou: – Tá barrotado.

Outra vez o vigário repetiu: – Bonito, meu filho, mas com a ajuda de Deus, não esqueça.

Desenxabido, coçando o cocoruto, o Zéca desabafou:

– Tá certo, seu vigário, tá certo. Mai, porém, o sinhor percisava era vê cumu tava istu tudo aqui, quando Deus trabaiava sozinho…

Fonte:
AGULHON, Olga e PALMA, Eliana. V Concurso Literário “Cidade de Maringá”. Maringá: Academia de Letras de Maringá, 2011.

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Ingrid A. Ditzel Felchak (Livro de Poemas)


FRIO

O frio é
Um balaio vazio
Feito de bambu
Lá na beira do caxim.

O frio é
Um monte de pedra
Polida ou não
Para a eterna solidão.

O frio é
Um punhado de areia
Da grossa, da fina.
Com cal ou cimento
Na grande construção.

O frio?
Pode ser a rua vazia
A lua vadia, o pirilampo
Tonto em agonia.

O frio é:
Roupa amontoada
Banho mal tomado
E cheiro de mofo.

É o frio…
Minina serena
Da rua pequena
Lá, lá trás
Do portão.

E o frio?
Não é o vento que sopra
Nem o termômetro que cai
Sou eu, é você, são todos os demais…

Poema publicado no livro”FASE” –Editora Litteres- lançado na XII Bienal Internacional do livro-Rio de Janeiro – maio de 2005. Páginas 12 e 13

VENTO, TEMPO

Ando só pelos campos
o vento sopra
desalinha meus cabelos
qual plumas encantadas
presas sem razão.

O corpo nu
na relva se estende
e o vento geme
qual doente na hora final.

Os primeiros raios de sol
dão colorido À pele.
E a grama
se torna bela.

Vento que descobre meus pensamentos.
Vento que desbrava meu corpo.

Flores se confundem
no azul profundo dos meus olhos
que tocados pelo vento se fecham
qual vítima do próprio tempo.

Vento quem és tu
que arrasta o meu ser
e me desgoverna ?

Vento que me traz loucos pensamentos
e quando o sol surge no seu total fulgor
traz sensação de loucas paixões.

Rolo em desalinho.
Prendo-me na grama úmida
e nas ervas daninhas.

Mais louco que tu,sou eu
que concordo com teus lamentos.
E,sem querer, me lanço nos teus desbravamentos.

Poema publicado no livro FASE páginas 30 e 31 -Editora Litteris – 2005 – XII Bienal Internacional do Livro – Rio de Janeiro -15

FOLHAS DE OUTONO

Secas,balançam ao vento e caem ao chão.
Rolam,rolam e voltam ao marrom.

Brotaram um dia, cresceram verdes e belas
mas voltaram ao chão.
Fortificaram o solo ? Talvez,mas não
caíram em vão.

Balançaram com o vento suave da noite
e resistiram á tempestade,mas não
quiseram o verão.

Caíram soltas, juntas estão.
Secas pairaram e agora adormecem
purificando o mundo da podridão.

Livro FASE ED. Litteris Rio de Janeiro 2005 página 14, Livro lançado na XII Bienal Internacional do Livro Rio de Janeiro.


VERÃO

Apita o trem na estação.
Suspiro e balas de amora.
Avôs na escada.

Férias, flerte na calçada.
A bola rola e pula.
Cuidado a rua!

Passa anel.
Gira ciranda.
Fim do dia!

Amanhã?
A brincadeira continua.
Esconde-esconde o sonho…
Férias de verão!

Publicado no livro: Poesia e prosa de verão- Antologia – 2009- Editora Taba Cultural – Rio de Janeiro -Rj – Página 15

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Monteiro Lobato (Viagem ao Céu) X – Mais vistas da Terra


Horas depois a vista daquela enorme Terra pendurada no céu já estava completamente mudada, e Pedrinho retomou as suas lições de geografia a São Jorge.

— Lá está o continente europeu! — disse ele. — Aquelas ilhas naquele ponto (e apontava) são as ilhas Britânicas, ou Grã-Bretanha — a tal Bretanha sem nenhuma importância no tempo do seu amigo Diocleciano. Mais adiante temos a Noruega com os seus fiordes…

— E suas sardinhas também — acrescentou Emília. — As sardinhas da Noruega viajam pelo mundo inteiro nuns barquinhos, chamados “latas”.

São Jorge não entendeu, porque no seu tempo não havia latas. Pedrinho continuou:

— A tal Rússia, que o senhor queria saber onde ficava, lá está — aquele país grandão. É a terra dos russos barbudos, dos cossacos, do caviar, das danças lindas e dos sovietes. Foi onde Napoleão levou a breca.

— Quem é esse leão? — perguntou o santo.

— Um grande matador de gente — explicou Pedrinho. — Depois de matar milhões de criaturas na Europa, resolveu matar russos, e invadiu a Rússia com um exército de 600.000 homens. Chegou até Moscou, que era a capital. Mas sabe o que os russos fizeram? Assim que Napoleão foi se aproximando, tocaram fogo nas casas e retiraram-se — e o pobre Napoleão, em vez de conquistar uma cidade, conquistou uma fogueira.

— Bem feito! — exclamou Emília.

— Em vista disso -— continuou Pedrinho — o conquistador não teve outro remédio senão voltar para a França com o seu exército. Essa França era a Aquitânia do tempo de Diocleciano. Mas o inverno russo estava bravo; e os dois, o inverno russo e o exército russo, caíram em cima dos franceses, fazendo uma horrorosa matança. Só vinte e tantos mil homens, dos 600.000, conseguiram atravessar a fronteira, imagine! Vovó conta a história de Napoleão na Rússia dum modo que até arrepia os cabelos da gente.

São Jorge sacudia a cabeça, pensativo. Tudo lhe eram novidades.

— E lá aquela bota, Pedrinho? — perguntou Emília, apontando.

— Pois é a Itália dos italianos. Lá é que ficava a tal Roma do tal Diocleciano, amigo cá do nosso São Jorge. Repare que a bota italiana está dando um pontapé numa ilha — a Sicília.

— Bem feito! — exclamou a boneca.

— E aquelas duas ilhas perto do cano da bota? — perguntou Narizinho.

— A maior é a ilha da Sardenha ou Sardinha, e a menor é a ilha da Córsega, onde nasceu o tal Napoleão.

— Que desaforo, a ilha da Sardinha ser maior que a de Napoleão! — exclamou Emília. — Para que quer uma sardinha uma ilha tão grande assim? Eu, se fosse fazer o mundo…

— Já sei — interrompeu a menina — dava a ilha maior a Napoleão e a menor à sardinha, não é isso?

— Não! — gritou a boneca. — Dava as duas para Napoleão e à sardinha dava uma lata. As sardinhas precisam muito mais de latas do que de ilhas.

Todos riram-se, menos São Jorge, que não entendeu aquele negócio de latas.

— E aquela terra grandalhona embaixo da Europa? — perguntou Narizinho, apontando.

— Pois lá é a África, não vê? Dentro fica o deserto do Saara, com os seus oásis tão lindos, as caravanas de camelos, as palmeiras que dão tâmaras gostosas.

— E a terra dos bôeres que fizeram guerra aos ingleses? Onde fica?

— Essa é bem no fim da África, naquela pontinha. Lá existe a Cidade do Cabo, que é a capital.

Emília deu uma risada gostosa.

— Um cabo que tem cidade, ora vejam! — exclamou. — E depois dizem que a asneirenta sou eu… Onde se viu um cabo com cidade na ponta?

— É um modo de dizer — explicou Pedrinho. — Chama-se Cidade do Cabo porque fica perto do famoso cabo da Boa Esperança, que o navegador português Vasco da Gama dobrou pela primeira vez.

Emília abriu a torneirinha.

— Que danado! — exclamou arregalando os olhos. — Dobrar sem mais nem menos um cabo assim deve ser coisa difícil. Esse Vasco, ou tinha a força de dois elefantes ou o tal cabo era como o daquela caçarola de alumínio de Dona Benta, tão mole que até eu dobro quando quero.

Narizinho cochichou ao ouvido de São Jorge que Emília estava com a torneirinha aberta. “Que torneirinha?”, perguntou o santo. “A torneirinha de asneiras que ela tem no cérebro. Quando Emília abre essa torneirinha, ninguém pode com a sua vida.”

Depois que Emília parou de asneirar São Jorge pôs-se a dizer onde ficavam as terras conquistadas pelos romanos do seu tempo. Mostrou tudo, até o lugarzinho onde era a sua Capadócia e o ponto onde existiu Cartago, a república africana rival de Roma e por esta destruída depois de várias guerras. E contou tantas histórias do tempo de Diocleciano que as crianças, já cansadas, adormeceram.
–––––––––––-
Continua … XI – Continua a viagem
–––––––––––-
Fonte:
LOBATO, Monteiro. Viagem ao Céu & O Saci. Col. O Sítio do Picapau Amarelo vol. II. Digitalização e Revisão: Arlindo_Sa

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Pedro Ornellas (Setilhas “Na Roça tem…”) Parte 5, final

Banquinho feito de tora,
café moido na hora,
passado no coador,
pra aumentar seu sabor
água fresca na moringa
garrafa de boa pinga
prá espantar dissabor…
(MARILU MOREIRA)

Mulher grávida é ‘buchuda’
no quintal tem pé de arruda
filho novo é ‘bacorinho’
boca cheia de sapinho
varal de arame farpado
violeiro apaixonado
tangendo as cordas do pinho!
(PEDRO ORNELLAS)

Na roça tem uma venda,
tem de tudo que encomenda,
vende tudo “pendurado”
e não tem preço dobrado,
o vendeiro é gente boa
vende banha de leitoa
e toucinho defumado.
(DÁGUIMA VERÔNICA)

Noite escura, madrugada,
feiz baruio a cachorrada.
Deu medo de sombração
e eu qui num fui lá vê, não.
De manhã no galinheiro
nóis vimo que o perdigueiro
distroçô um gambazão.
(PAULO TARCIZIO)

O clima é de nostalgia
sempre reina a cantoria
lamparina com pavio
sanfona da cor de anil
o casal dentro da rede
eletrola na parede
velhos discos de vinil.
(DÁGUIMA VERÔNICA)

Picada de marimbondo
que deixa o rosto redondo
cipó e urtiga no mato
no pasto tem carrapato
tem muriçoca, tem peba,
tiriça, berne e pereba
bichano que pega rato!
(PEDRO ORNELLAS)

Tem pulga e bicho de pé
e só tira quem “quisé”
vai ficando dolorido
o povo dá dor de ouvido
de escutar reclamação
por andar com pé no chão
e ficar tudo encardido.
(DÁGUIMA VERÔNICA)

Tem fala móle e cantada
tem queijim com goiabada;
tem milho verde brotando
e uma leitoa engordando.
um berrante pendurado…
chapéu de palha furado,
fogão a lenha queimando!!!
(ANDREIA ETTIOPI)

Na roça tem mutirão,
um boi chamado Moirão,
tem canga no seu pescoço
numa “junta” com Caroço,
essa dupla é cabeceira
carreia a semana inteira
sem descanso para almoço.
(DÁGUIMA VERÔNICA)

Tem vizinhança sadia
caboclo que dá “bom dia”
mesmo pra quem não conhece
tem quando o dia amanhece
orquestra de passarinhos,
na alegre festa dos ninhos
que o meu retorno apetece!
(PEDRO ORNELLAS)

Tem velho que é muito xucro
(até perdi todo o lucro)
Por namorar mariquita.
Não achem coisa esquisita:
Ele veio com trabuco
todo doido, bem maluco
dizendo: – Se perulita!…
(CAIRO PEREIRA)

Tem toco de bater sola
do polvilho faz a cola,
alguns chinelos de embiras
trançados com belas tiras…
linda colcha de retalho
lá na mesa do baralho
para alegrar os caipiras.
(DÁGUIMA VERÔNICA)

Tio Dito era o sanfoneiro,
o Waltinho no pandeiro
e eu tocava violão…
e o tal “limpa-banco” então?…
Meia-noite, uma rancheira,
ninguém fica na cadeira
– pega fogo no salão!
(PEDRO ORNELLAS)

Eu nunca vou me esquecer,
em minha mente vou ver
aquele suco de milho…
Lá no bar do Seu Castilho
e eu muito longe da roça:
(a lembrança dessa joça)
só me traz dor neste trilho.
(CAIRO PEREIRA)

Lembro bem de uma bacia
que ficava lá na pia
era feita de metal
toda em cobre, especial
a nossa bela banheira
de amparar, também, goteira
em dias de temporal.
(DÁGUIMA VERÔNICA)

O calor que forte bate
faz lembrar: touro no abate,
faz lembrar do frio do Andes
mesmo que pra sombra ande
eu sempre fico a pensar
e comigo a perguntar
como é que é cidade grande?
(CAIRO PEREIRA)

Lá tem caboca triguera
tem caba bom di penera
na coieita de café…
Lá tem Maria, tem Zé,
tem batata na foguera
tem moleque na carrera
fugindo de buscapé!
(PEDRO ORNELLAS)

Tem passarada que canta
assim que o Sol se levanta
para saudar mais um dia,
e, com a água na bacia,
lavo o meu rosto amassado,
tomo o meu café coado,
com bolo de Nhá Maria.
(SELINA KYLE)

Lá na roda da fogueira
a rapaziada inteira
pega o cachimbo e o bom fumo;
da semana faz resumo
falando das fofoqueiras
das meninas matriqueiras
que vive andando sem rumo.
(CAIRO PEREIRA)

Tem moenda, tem pilão,
se anda de pé no chão
tem cinto feito de embira
tem caruru, cambuquira…
tem caniço e samburá,
tem gamela e tem jacá
que um modão sempre me inspira!
(PEDRO ORNELLAS)

Tem uma égua no cio,
uma canoa no rio,
um cachorro no terreiro,
galo acantar do poleiro,
moça a sonhar na janela
e eu com saudade dela
vagando sem paradeiro…
(ANTÔNIO JURACI)

Eu acordava bem cedo,
já corria pro arvoredo…
depois voltava cantando
com a barriga roncando,
então pegava a caneca,
com açucar e café…
levava lá pra “boneca”
a vaquinha do tiu “Zé”!!!
(ANDREIA ETTIOPI)

Tinha o Leite bem branquinho
deixava até um bigodinho…
de tanta espunha que vinha,
numa caneca inteirinha,
ia brincar no terreiro,
me sujava no barreiro
da chuva que de noitinha
molhou a terra inteirinha.
(ANDREIA ETTIOPI)

Dia de feira de gado
tinha um boi muito enfezado
lá no alpendre ele embrenhava
o povo todo gritava
e com vara de ferrão
fiz cair sangue no chão
provando que sou mais brava!
(DÁGUIMA VERÔNICA)

Na roça a vida é assim
tem plantação, tem capim,
tem rasta-pé todo dia
lá na casa da Maria,
tem galinha no terreiro
tem porco lá no chiqueiro,
é lá onde a “PORCA” chia…
(JOSÉ MOREIRA MONTEIRO)

Na roça tem pinga boa
que quando pega atordoa…
tem foice, enxada e facão…
tem gente de pé no chão,
tem cedo gente de pé
tem torrador de café
depois que sai do pilão!
(PEDRO ORNELLAS)

Vacas de laranja-lima
pedra pra brincar de ímã
e carrinho de lobeira
pra rodar lá na ladeira.
O que era chique, de fato,
era Monteiro Lobato
narrado ao pé da porteira.
(DÁGUIMA VERÔNICA)

Tem uma égua no cio,
uma canoa no rio,
um cachorro no terreiro,
galo acantar do poleiro,
moça a sonhar na janela
e eu com saudade dela
vagando sem paradeiro…
(ANTÔNIO JURACI)

Fonte:
132 setilhas enviadas por Pedro Ornellas
Imagem = Flickr

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Anibal Beça (Antologia Poética)


O GATO (Ária para tenorino e flautim)
Para Carô Murgel

O gato aparece à noite
com seu esquivo silêncio
de passos bem calculados
num jogo de paciência
as garras bem recolhidas
na concha de suas patas
O gato passeia a noite
com seu manto de togado
como se fosse um juiz
de presas resignadas
a sua sentença de sombras
seu apetite de gula

O gato varre essa noite
facho de suas vassouras
vermelhas de olhos ariscos
e alcança nessa limpeza
o movimento mais presto
o guincho mais desouvido

Mais que perfeito no bote
(tal qual Mistoffelees de Eliot)
do pulo que nunca ensina
tombam baratas besouros
peixes de aquário catitas
ao paladar sibarita

Nada à noite falta ao gato
nem a presteza no salto
nem a elegância completa
do seu traje de veludo
para o baile dos telhados
roçando as fêmeas no cio

O gato é ato em seu salto
e a noite luz do seu palco:
ribalta luciferina
lunária ária da lua
na réstia de seus dois gozos
é felix feliz felino

Guardei a sétima estrofe
para o canto do mistério
das sete vidas do gato
e seu tapete aziago
nas noites de sexta-feira
há provas do seu estrago.

Sonata para ir à Lua

Desnudo já me dou de mim doendo
na doação das folhas da floresta
que vão caindo sem saber-se sendo
pedaços de nós na noite deserta

A lua imponderável vai ardendo
cúmplice em nossa luz de fogo e festa
Meus braços são dois galhos te dizendo
que o forte às vezes treme em sua aresta

Esta outra face frágil de aparência
que só aos puros é dado conhecer
no abraço da paixão e sua ardência

Mesmo cego de mim eu pude ver
e sentir no teu beijo a clara essência
que faz do nosso amor raro prazer

MANEJO ANAGRAMÁTICO
Para Carlos Nejar

Fausto fizeste o pacto na palavra
e vens cumprindo pálpebra do chão
teu sono pedra sonho que resvala
pestanejando a canga dessa mão.
Essa pedra tinhosa que tu lavras
sai do teu manejar de mansidão.
Desse trote tropeiro que se alastra
fogoso de garupa em danação.

E por que tudo em ti poreja vida
as éguas da memória te celebram
nessas chuvas de fogo da invenção.

Teus sons voltam e vão sem despedida
nos cravos dos meus cascos que penetram
furtivos teus fonemas da paixão.

II

Fausto fizeste o pacto que te ferve
na palavra de pálpebra que invade
teu sono pedra sonho em semibreves
pestanejando o canto sem alarde.

Essa pedra tinhosa que vai leve
sai do teu manejar de claridade
galope de cavalo das estepes
que vem cobrir a vida pelas tardes.

E por que tudo em ti parteja vida
aquelas águas grávidas celebram
essas chuvas de fogo da invenção.

Teus sons voltam e vão sem despedida
lambendo os mesmos versos que penetram
meu canto que se banha na canção.

POEMA CÍCLICO

A trave dos meus olhos
é pólen de crisântemos:
farpas cronológicas
Metro a metro a seta ideográfica
abre aspas ao vento:
mandala vertical

Quem me confere
estas asas nubladas
de arcanjo do limbo?

Ah tempo adiposo
a marca do teu risco
esferográfico
abre mais mais uma estrada
(sem acostamentos)
paralela às estrias do sono.

Eis que a pálpebra de palha
se apresenta:
dos meus olhos saltam
pássaros ariscos

prontos a deflorar begônias
em setembro
e 38 ponteiros
(rubis ciclotímicos do silêncio)
acupunturam poros fóbicos:

Calendas
a fala do espelho
(espectador anônimo)
mostra-me por inteiro:
Vital conselho
entre o sudário que me hospeda
e a angústia que me habita.

A miração flutua narcisicamente
o rasto da sílaba
o grão onomástico sussurra:
Anibal.

Quão particular este silêncio
(viés oculto)
que me sabe desnudo
despudoramente nu
encalhado num atol:
leito circunscrito

às algas do meu avesso.

Sem embargo
trago sempre no alforje
um fardo de estrelas:
sei-me estivador
desse caisa agônico
atarefado Sísifo

A PALAVRA NOTURNA

Canto 1. Parto da Palavra

Tudo é manto negro
neste meu começo.
Tudo ainda é noite
nesta luz diáfana:
calor dessa ausência
no seu firmamento.
A saliva muda
na insolvência vaga
desarticulada.

Os músculos flácidos
como mamulengos
procuram cordões
para a dança clara
da cifra da fala.

O que nomear
se desse silêncio
apenas os olhos
alcançam o giro
em dois movimentos?

Abrir e fechar
o lapso da luz
vão desse vazio
no dizer do nada.

Vastidão de coisas
que avançam rondando
prontas para o salto.

A vespa da véspera
de facho fogoso
no baile da língua
soprando veneno
em fundos ouvidos
para o precipício
do não dito mudo
medo do maldito .

Quer dizer das coisas
cantá-las uma a uma
raiz de crepúsculo
impulso bendito
o primeiro beijo
a sair da boca:

faça-se a palavra
da doce colmeia
do mel dessas vespas
molhadas de orvalho.

O primeiro grito
– parto da palavra –
se faz em sussurro
macio de gozo
veludo de ventos.

Chuvas da ventura
regai esse chão
de pegadas leves
vôo de viagem
vento inaugurando
sílaba de nuvens
desnuda no abismo
de águas invertidas.

Vertical/idade

o encanto da música
no ritmo de asas
solo de condor
Fênix rediviva.

Alteie, se alteie
no teto bem alto
asas da distância
ruflando afastadas
nesse ritmo longe
para melhor ver
e dizer dos sonhos
das tramas pequenas
e suas nervuras.

O sol da goela
na luz da garganta
vibrando seus raios
de setas vocálicas
trazendo essa música
lá do fundo da alma
no desvão escuro.

Ó raiz tão clara
meu fogo das cinzas
nomeia teu sopro
na lavra de brasas
e acorda esses sons
que são desse mundo
silêncio das coisas.

Falante palavra
fala para as mãos
decifrarem códigos
acordarem músculos
na gesta dos gestos.

A escrita se evola
na nódoa do tempo
e o turno noturno
vaza a claridade
alteando as estrelas

Eis o meu início:
a luz do meu verso
a escrita vivida
lâmina cravada
nos dedos ariscos
tangida na voz
de mãos caminhantes
na colheita branca
de folhas sedentas.

Eis o desafio :
história remota
fincando no fim
seu próprio começo:
a História da vida.

Canto 2. A Palavra Compartilhada

E assim se fez verbo
o dom da palavra
para repartir-se
porque ele era só.
Da vértebra curva
veio para ouvir
aquela que se houve
para ser ouvida
na aventura a dois:
chamada Mulher
a chamado do Homem.

E dessa partilha
verbo de parelha
se multiplicando
na conjugação
da fala e de corpos
os iguais chegaram.

E tudo era claro
não havia a noite
mas havia a fala
e o falo dos outros.

E entre outros havia
os que não falavam
eram os do vôo
de alada alegria
os de quatro patas
os de escamas vivas
os de sangue quente
e os de sangue frio
os lisos de pele
e os que rastejavam
de língua fendida.

Vicejavam campos
na brota dos lírios
na festa dos olhos
alçada de cores
subindo colinas
tocadas de azul
do céu do telhado.

A vista vazava
os vales os bosques
regatos dormindo
na calma tranqüila
do leito das águas
lambendo as raízes
de doces begônias
no beijo sereno.

E para alargar
o chão da morada
para contentar
impulsos dos pés
vontade liberta
de ter aonde ir
nos sonhos mais soltos
espanando o igual
nas favas do tédio
havia o impossível
do mar dos mistérios
mar das descobertas

Thálassa, ó Thálassa

mar da poesia
o mar do possível
mar de outras terras.

Esse o paraíso
assim nominado
pelas maravilhas.

A calma morada
dos dois que se canta.

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Anibal Beça (1946 – 2009)


Aníbal Beça era amazonense de Manaus, onde nasceu a 13 de setembro de 1946 e faleceu hoje, 25 de agosto de 2009. Era poeta, compositor e jornalista. Desde muito cedo colabora em suplementos literários e em publicações similares nacionais e internacionais.

Dividiu seus primeiros estudos entre colégios de Manaus (Aparecida, Dom Bosco e Brasileiro) e em Novo Hamburgo, Rio Grande do Sul (Colégio São Jacó). Durante sua permanência no Rio Grande do Sul, mais precisamente em Porto Alegre, travou conhecimento com o poeta Mario Quintana, quem lhe deu os primeiros ensinamentos e o estímulo para caminhar pelas veredas da poesia.

Especialista em tecnologia educacional na área de Comunicação Social (UFRJ), Teve passagens, como repórter, redator, colunista, copy-desk e editor, em todas as redações dos jornais de Manaus, do ínicio da década de 60 até final da década de 80; foi diretor de produção da Televisão Educativa do Amazonas – TVE. Atualmente é consultor da Secretaria de Cultura e Turismo do Amazonas. Idealizador e Editor-geral do suplemento literário “O Muhra”, de circulação bi-mestral, editado pela referida secretaria.

Envolvido com teatro, artes plásticas, é na música popular que a sua contribuição se faz mais efetiva como compositor, letrista e produtor de espetáculos e de discos. Desde 1968, quando venceu o I Festival da Canção do Amazonas, Aníbal foi colecionando prêmios com mais de 18 primeiros lugares em festivais em sua terra, no Brasil e no exterior. Representou o Brasil no VIII Festival de Joropo de Villa Vicencio, Colômbia (1969);

Foi o único artista amazonense a se classificar e se apresentar no Festival Internacional da Canção FIC, em 1970, com a música “Lundu do Terreiro de Fogo”, defendida pela cantora Ângela Maria.

Tem músicas gravadas por vários artistas brasileiros como: As Gatas, Coral JOAB, Felicidade Suzy, Nilson Chaves, Eudes Fraga, Lucinha Cabral, Dominguinhos do Estácio; Bira Hawaí, Aroldo Melodia, Jander, Raízes Caboclas, Mureru, Roberto Dibo, Célio Cruz, Torrinho, Arlindo Junior, Paulo Onça, Paulo André Barata, Almino Henrique, Pedrinho Cavalero, Pedro Callado, Delço Taynara, Grupo Tynbre e outros.

Aníbal Beça, além da sua condição artística é produtor e animador cultural nato. É profissional que, nos tempos atuais, se encaixa no rótulo de multimídia, tal a sua abrangência na área artística.

Sua participação política tem-se plasmado no âmbito de entidades de classe, como diretor do Sindicato dos Escritores, presidente da ACLIA Associação de Compositores, Letristas e Intérpretes do Amazonas, Presidente do Coletivo Gens da Selva (ONG), Vice-Presidente da UBE-AM União Brasileira de Escritores, seção Amazonas

Seu trânsito amplo, por diversos setores artísticos, que se estende até à manifestação da arte mais popular brasileira, o carnaval, fez com que fosse lembrado, e merecidamente homenageado, este ano de 99, como tema de enredo “Aníbal Bom à Beça” da Escola de Samba “Sem Compromisso”.

Faz parte da Ala dos Compositores das Escolas de Samba Reino Unido da Liberdade e Sem Compromisso, dando a esta última, seu único título pela autoria do enredo e do samba de enredo “Joana Galante – Axé dos Orixás”, e classificou a referida escola entre as três primeiras colocações com os samba de enredo: “Hotel Cassina – Apoteose Boêmia”, “Hoje tem Guarany”, “Vento e sol, passa cerol – A Arte de empinar papagaios” ; “Sol de Feira – O pregão da Alegria”.

Seu primeiro livro Convite Frugal, data de 1966 (este ano, comemora 33 anos de atividade literária e 35 de produção musical).

A propósito de sua poesia, o poeta Carlos Drummond de Andrade, teceu, em 31 de julho de 1987 – pouco antes de morrer – o comentário: “Li Filhos da Várzea, os poemas-pôster e os haicais afetuosamente a mim dedicados. Obrigado por tudo, meu caro poeta. É de coração aberto que lhe desejo a maior receptividade pública e compreensão para a bela poesia que está elaborando e que, espero, marcará seu nome como um dos que engrandeceram o cultivo artístico do verso.” Em 1994, com o livro Suíte para os Habitantes da Noite, sagrou-se vencedor, dentre 7.038 livros de todo o país, do 6º Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira – categoria poesia. O livro, lançado sob o selo da editora Paz e Terra, saiu em 1995.

Outros livros: Filhos da Várzea, ed. Madrugada, 1984, abrigando o livro Hora Nua; Marupiara – Antologia de Novos Poetas do Amazonas, (organizador) Ed. Governo do Estado do Amazonas, 1985; Quem foi ao vento, perdeu o assento (Teatro) Ed. SEMEC, 1986; Itinerário poético da Noite Desmedida à Mínima Fratura, Ed. Madrugada, 1987; Banda de Asa – poesia reunida – Ed. Sette Letras, 1998; contendo o livro inédito Ter/na colheita.

É Membro da UBE , União Brasileira de Escritores, do Coletivo Gens da Selva (ONG) e do Clube da Madrugada, entidade instauradora dos movimentos renovadores no campo literário e artístico do Amazonas.

Recentemente, em junho de 99, Representou o Brasil no VIII Festival Internacional de Poesia de Medellín, e em agosto/99 no Encontro Internacional de Escritores da Associação Americana para o desenvolvimento cultural, em Bogotá.

Tem participação em diversas antologias: A Nova Poesia Brasileira de Olga Savary; A Poesia do sec. XX – Amazonas de Assis Brasil; Poesia Sempre da Fund. Biblioteca Nacional.; Antologia FUI EU de Eunice Arruda; Saciedade de Poetas Vivos: erótica e de haicais, de Leila Miccollis e Urhacy Faustino.

Bibliografia

Convite Frugal, Ed. Gov. do Estado do Amazonas, Manaus, 1966
Filhos da Várzea e outros poemas(abrigando o livro Hora Nua),
Casa Madrugada Editora, Manaus,1984.

Itinerário da Noite Desmedida à Mínima Fratura, Casa Editora Madrugada, Manaus, 1987.

Quem foi ao vento, perdeu o assento, (Teatro) Edições SEMEC, Manaus, 1987.

Marupiara – Antologia de Novos Poetas do Amazonas, (organizador) Ed. Gov. do Estado do Amazonas, Manaus, 1989.

Suíte para os Habitantes da Noite, Editora Paz e Terra, São Paulo (Vencedor do VI Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira), 1995.

Banda da Asa – poemas reunidos – Editora Sette Letras, Rio de Janeiro, 1998.

PARTICIPAÇÃO EM ANTOLOGIAS

Antologia da Cultura Amazônica, Carlos Rocque, Belém, 1968

Antologia UBE – Alcides Werk, Manaus, 1987

Saciedade dos Poetas Vivos – Haicais – Editora Blocos, Rio de Janeiro, 1993

Saciedade dos Poetas Vivos – Erótica – Editora Blocos, Rio de Janeiro, 1993

Antologia da Nova Poesia Brasileira, Olga Savary, Rio, 1990

Fontes:
Jornal de Poesia
Foto = Portal Amazonia

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Rodolpho Abbud (Livro de Trovas)

À noite, ao passar das horas,
esqueço os dias tristonhos,
pois tuas longas demoras
dão-me folga para os sonhos!

Ao hospício conduziu
a mulher para internar…
Feito o exame, ela saiu,
e ele teve que ficar!…

Ao se banhar num riacho,
distraída, minha prima
lembrou da peça de baixo
quando tirava a de cima ….

Cama nova, ele sem pressa
ante a noivinha assustada,
quer examinar a peça
julgando já ser usada!…

Chegaste a sorrir, brejeira,
depois da tarde sem fim…
E, nunca uma noite inteira
foi tão curta para mim!…

Contemplo o céu para vê-las
com um respeito profundo,
pois na raiz das estrelas
eu vejo o dono do mundo.

É força que vem comigo
e no tempo não se esvai:
– Sempre que eu falo de amigo
eu me lembro de meu pai!

Em problemas envolvida,
por um beco se meteu,
que não tinha nem saída,
e, mesmo assim, se perdeu! …

Em seus comícios, nas praças,
o casal cria alvoroços:
– Vai ele inflamando as massas!
– Vai ela inflamando os moços…

Em tudo o que ja vivi
Nesta passagem terrena,
Se um pecado eu cometi,
Com ela, valeu a pena !…

Enquanto um velho comenta
sobre a vida: -“Ah! Se eu soubesse…”
um outro vem e acrescenta
já descrente: -“Ah! Se eu pudesse…”

Eu finjo que estou contente…
Ela finge que está triste…
— No canto do amor, a gente
desafina… mas resiste!…

Foram tais os meus pesares
quando, em silêncio partiste,
que, afinal, se tu voltares,
talvez me tornes mais triste…

Hei de vencer esta sina
que num capricho qualquer,
me fez amar-te menina
depois negou-me a mulher!…

Minha mágoa e desencanto
foi ver, no adeus, indeciso,
eu, disfarçando meu pranto…
tu, disfarçando um sorriso!…

Na ansiedade das demoras,
quando chegas e me encantas,
mesmo sendo às tantas horas,
as horas já não são tantas…

Não sei como não soubeste
mas o amor veio, infeliz…
Eu te quis, tu me quiseste,
mas o Destino não quis…

Não sendo um homem moderno,
meu pecado e insensatez
foi jurar amor eterno
e amar somente uma vez!…

Naquele hotel de terceira,
que a policia já fechou,
a Maria arrumadeira
muitas vezes se arrumou!

Nas lojas sempre envolvido,
não tem crédito jamais…
– ou por ser desconhecido,
ou conhecido demais !…

Na vida, em toscos degraus,
entre tropeços e sustos,
mais que a revolta dos maus,
temo a revolta dos justos!…

Na vida, lutar, correr,
não me cansa tanto assim…
O que me cansa é saber
que estás cansada de mim!

Nessa paixão que me assalta,
misto de encanto e de dor,
quanto mais você me falta
mais aumenta o meu amor!…

Nosso encontro …O beijo a medo…
A caricia fugidia…
Nosso amor era segredo,
mas todo mundo sabia…

Provando em definitivo
que o Brasil é de outros mundos,
há muito “fantasma” vivo
passando cheques sem fundos…

Seja doce a minha sina
e, num porvir de esplendor,
nunca transforme em rotina
os nossos beijos de amor…

Soube o marido da Aurora,
ela não sabe por quem,
que o vizinho dorme fora,
quando ele dorme também…

Toda noite sai “na marra”,
Dizendo à mulher: -“Não Torra!”
Se na rua vai a farra,
em casa ela vai à forra!…

Um Deputado ao rogar
ao Senhor, em suas preces,
pede que o verbo “caçar”
não se escreva com dois esses!…

Um longo teste ela fez
de cantora, com requinte…
Cantou somente uma vez,
mas foi cantada umas vinte!…

Vem amor, vem por quem és!
Pois já tens, em sonhos vãos,
minhas noites a teus pés,
meus dias em tuas mãos!…

Vendo a viuva a chorar,
muito linda, em seu cantinho,
todos queriam levar
a “coroa” do vizinho…

Vejo em minhas fantasias,
em Friburgo, pelas ruas,
mil sois enfeitando os dias
e, à noite, a luz de mil luas.

Fontes:
http://www.ubtjf.hpg.ig.com.br
Boletim Nacional da UBT

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Rodolpho Abbud (1926)

Rodolpho Abbud (foto por José Feldman,
nos Jogos Florais de Santos 2011)

Nasceu em Nova Friburgo/RJ, em 21 de outubro de 1926; filho de Dona Ana Jankowsky Abbud e de Ralim Abbud. Radialista, Locutor Esportivo, Poeta e Trovador, foi sempre muito bom em tudo aquilo que fez ou faz. Contam até que, certa vez, transmitindo um jogo do Friburguense, teve a sua visão do campo totalmente coberta pelos torcedores. Sem perder a calma, e com sua habitual presença de espirito, continuou a transmissão assim: – “Se o Friburguense mantém a sua formação habitual, a bola deve estar com o zagueiro central, no bico esquerdo da área grande…”

Tem um livro de Trovas intitulado: “Cantigas que vêm da Montanha”, e, recebeu, com inteira justiça e por voto unânime de todos os Trovadores que ostentam essa honra, o titulo de “Magnífico Trovador”.

São poucos os pioneiros da trova em plena atividade. Entre eles, com especial destaque figura Rodolpho Abbud, o grande e querido apóstolo da trova de Nova Friburgo. Ele entrou na alegre tribo dos trovadores em 1960, com aquele vozeirão inconfundível, como repórter de rádio, entrevistando os participantes dos I Jogos Florais na Rádio Sociedade de Friburgo. Gostou tanto, que virou trovador também.

Quase meio século depois, super-jovem em seus 82 anos, o mestre Rodolpho Abbud continua brilhando não só como criador de primorosos versos, mas também como um dos mais importantes líderes nacionais da União Brasileira de Trovadores (UBT). A importância de Rodolpho Abbud vai muito além das fronteiras da cidade.

Premiado em centenas de concursos, Rodolpho é autor de milhares de trovas memoráveis. Entre outros títulos, ostenta o de Magnífico Trovador Honoris Causa, que lhe foi atribuído por ocasião dos 40ºs Jogos Florais de Nova Friburgo. Ele faz parte da geração de trovadores surgidos com o lançamento dos I Jogos Florais. Trata-se do trovador mais antigo da cidade e a prova está em sua carteira de trovador, que ostenta o número 1.

Rodolpho explica aos que não são versados nesta arte que trovas são pequenos poemas de quatro versos, de sete sílabas poéticas, isto é, com o som de sete sílabas – o primeiro rimando com o terceiro e o segundo com o quarto. Ele aprendeu rapidamente os segredos do estilo poético característico da trova recriado por J. G. de Araújo Jorge e Luiz Otávio.

Quando teve início o movimento trovadoresco em Nova Friburgo, Rodolpho trabalhava como comentarista de futebol na Rádio Sociedade de Friburgo e ainda não tinha descoberto que sabia fazer trovas. Mas desde pequeno gostava de fazer quadrinhas. Na infância as crianças aprendiam na cartilha algumas rimas básicas, que davam origem a quadras como uma que Rodolpho jamais esqueceu: “Joãozinho é cabeçudo / mas tem belo coração / é dedicado ao estudo / e sabe sempre a lição”.

Por alguma razão Rodolpho sempre se identificou com o estilo e, mesmo sem saber, já fazia trovas, que costumava chamar de quadrinha, assim no diminutivo mesmo. Naquela época, porém, bastava rimar o primeiro verso com o terceiro e o segundo com o quarto. Rodolpho acha até graça, porque já naquela época faturou cem mil réis num concurso da Rádio Nacional, com uma de suas primeiras trovas, em 1950. “Foi numa festa junina/ que eu vi a Rita sapeca/ A cabocla era bonita/ Parecia uma boneca”.

Levou um bom tempo para os trovadores, inclusive o próprio Rodolpho Abbud, incorporar a expressão trova – que vem do francês trouver, isto é, procurar, achar. Chamavam aqueles pequenos poemas de quatro sílabas de quadra, quadrinha ou trovinha, menos de trova. Um dia Luiz Otávio até chamou a atenção do J. G. de Araújo Jorge, quando este lhe contou que tinha feito uma trovinha: “Que trovinha o quê, José Guilherme, isso aí se chama trova, não é trovinha nem trovão, é trova”.
“Acho que eu sei fazer este negócio aí”

Rodolpho Abbud já criou mais de cinco mil trovas. Infelizmente, boa parte delas se perdeu e seu acervo conta apenas com as trovas premiadas nos concursos de que participa em todo o Brasil. A sorte é que o mais respeitado trovador da cidade e um dos maiores do país é um colecionador de prêmios, já perdeu a conta do número de troféus e diplomas que já conquistou.
Sua facilidade para criar trovas impressiona até seus colegas trovadores. Todas, diga-se de passagem, dignas de figurar em qualquer antologia. “Com qualquer assunto se faz uma trova”, explica, modesto, tentando explicar os segredos desta arte. Ele acredita em inspiração, tanto que carrega sempre papel e caneta no bolso para anotar as ideias que vão surgindo em sua cabeça.

Hoje em dia uma das atividades que mais gratificam o velho trovador é ensinar a fazer trovas. Ele e seus colegas trovadores já visitaram muitas escolas, transmitindo às crianças e jovens os conceitos básicos que permitem criar trovas capazes de fazer bonito em qualquer concurso. Já estiveram no Ienf, na Escola Canadá, no Ciep Glauber Rocha, na Universidade Candido Mendes. Até na Clínica Santa Lúcia eles já estiveram.

Junto com seus companheiros da UBT, Rodolpho mantém há 50 anos um programa radiofônico pela Rádio Friburgo AM focalizando o movimento trovadoresco de Nova Friburgo e de todo o Brasil. O programa, transmitido todo sábado, às 20h, é o mais antigo do Brasil e seu slogan diz assim: “É poesia sempre nova / cultivada com amor / Se você gosta de trova / Pode ser um trovador”.

Solidão? Rodolpho diz que não sabe o que é. Junto com seus amigos trovadores, viaja o Brasil inteiro, sendo sempre recebido com festa e toda a hospitalidade pelos companheiros das outras cidades. As viagens são uma verdadeira festa, com todo mundo brincando e fazendo trovas dentro do ônibus.

Depois de trabalhar 42 anos na Fábrica de Filó, todo mundo pensava que ele fosse ficar deprimido quando se aposentasse. Que nada! Voltou a narrar partidas de futebol, depois mergulhou na trova.

Rodolpho é pai de Luiz Carlos, Suely e Rosane, de seu primeiro casamento. Casado pela segunda vez há 50 anos com a doce Cyrléa Neves, eles são pais do conhecido percussionista Rocyr e da não menos conhecida Rivana, do Bar América.

Friburguense da gema, passou a infância na Rua Oliveira Botelho, até o 5º ano primário estudou com dona Helena Coutinho, que tinha uma escola na Rua São João. Fez o ginasial no Colégio Modelo e depois foi aluno do professor Luiz Gonzaga Malheiros.

Do que sente mais saudades da Nova Friburgo de antigamente? Rodolpho Abbud não pensa um segundo antes de responder. “Da Fonte do Suspiro”, responde de imediato e, subitamente, se emociona, chegando a ficar com lágrimas nos olhos. Mas, como os homens de sua geração não choram, trata logo de mudar de assunto. “Ah, sinto muita saudade também do footing da praça, com os rapazes parados como se estivessem num corredor e as moças passeando de um lado para o outro”, conta.

Maluco por futebol, Rodolpho pertence ao quadro de beneméritos do Friburgo Futebol Clube e, no Rio, é tricolor de coração. Fez até uma trova para seu time: “É paixão que longe vai / na força do coração: / – Tricolor era meu pai / filhos, netos também são”.

Fonte:
artigo por Dalva Ventura, do Jornal A Voz da Serra. Disponível em UBT/SP, site UBTrova, http://www.ubtrova.com.br

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Sesc/PR (Autores e Idéias de Agosto)

Autores & Ideias de Agosto, para participar enviar e-mail para este endereço eletrônico
http://www.sescpr.com.br

Fonte:
Laíde Cecilia de Sousa
Assistente de Atividades

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 272)

Uma Trova Nacional

Quando parte quem amamos
fica um vazio entre nós:
– é quando então reparamos
como é triste estarmos sós!
–DIAMANTINO FERREIRA/RJ–

Uma Trova Potiguar

Voltar ao tempo passado,
no tempo bem que eu queria,
e ver-te sempre ao meu lado
na cama agora vazia.
–ISRAEL SEGUNDO/RN–

Uma Trova Premiada

2010 – Curitiba/PR
Tema: MADRUGADA – Venc.

Nos braços da Madrugada,
eu deito anseios tristonhos…
e ela preenche, calada,
minha insônia… com mil sonhos!
–GILVAN CARNEIRO DA SILVA/RJ–

Uma Trova de Ademar

Só Deus tem uma resposta
mas ninguém sabe qual é.
A nossa vida é uma aposta
que se joga com a Fé.
–ADEMAR MACEDO/RN–

…E Suas Trovas Ficaram

A missão será cumprida
quer tu acertes ou falhes
Deus traça as linhas da vida
e o destino, os seus detalhes…
–ADALBERTO DUTRA RESENDE/PR–

Simplesmente Poesia

MOTE:
Para mim o tudo é nada,
para Deus, o nada é tudo.

GLOSA:
Quando a vida foi criada,
tudo se fez no universo
e eu digo aqui, neste verso,
Para mim o tudo é nada,
de uma palavra sagrada,
que no Gênesis, estudo,
Deus fez todo o conteúdo,
essa teoria é perfeita…
Do caos a vida foi feita,
para Deus, o nada é tudo.
–FRANCISCO MACEDO/RN–

Estrofe do Dia

Não tem quem possa contar
cabelos que tem um gato,
os bichos que tem no mato
e os peixes que tem no mar,
as nuvens que tem no ar,
os gemidos de um pagão,
as folhas que tem no chão
e os fios que tem no véu,
estrelas que tem no céu
e os bois que tem no sertão!
–MANOEL XUDU/PB–

Soneto do Dia

–DIMAS BATISTA/PE–
Viola

“Velha viola de pinho, companheira
De minh’alma, constante e enternecida,
Foste tu a intérprete primeira
Da primeira ilusão de minha vida.

Eu, contigo, cantando a noite inteira,
Tu, comigo, tocando divertida,
Sorrias, se eu louvava a brincadeira,
Choravas, se eu cantava a despedida.

Nas festas de São João, nas farinhadas,
Casamentos, novenas, vaquejadas,
Divertimos das serras aos baixios.

Perlustrando contigo pelo Norte,
Foste firme, fiel, feroz e forte,
No rojão dos ferrenhos desafios.

Fonte:
Textos enviados pelo autor
Imagem = http://sonhoepoesias.blogspot.com

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Antonio Manoel Abreu Sardenberg (Poetas de Ontem e de Hoje III)


Luxo e Lixo
Antonio Manoel Abreu Sardenberg
São Fidélis “Cidade Poema”

O pobre catando lixo
E o poder só no luxo;
A cambada nem se lixa
Só tem a ideia fixa
No seu salário que é farto
No seu abono que é fixo.
Usa um discurso que é falso
Fingindo ser boa gente
Enganando o pobre incauto,
Vira as costas pro indigente
Faz mau uso do erário
Fica rico de repente…

Só vive de mordomia
Cheio de facilidade;
Sua vida é só folia
Carnaval o ano inteiro,
Pois não lhe falta dinheiro
E mesmo com o rei deposto,
Vive de pura mamata
Enquanto o povo se mata
De tanto pagar imposto…

Mas um dia a casa cai
Isso não vai demorar
O povo não vai querer
Nem o pobre agüentar
Ficar segurando a vaca
Pra vagabundo mamar!

A um pintassilgo
Belmiro Braga

Por que vens tu cantar, ó passarinho,
por entre as folhas úmidas de orvalho,
no flóreo jasmineiro meu vizinho
E mesmo em frente à mesa onde trabalho?

Por que não vais vigiar teu fofo ninho
(Não te zangues comigo, eu não te ralho)
a baloiçar à margem do caminho,
qual rosa escura num recurvo galho?

Tu tens em que cuidar; por isso, voa
e deixa-me sozinho… Esse teu canto,
embora sendo alegre, me magoa…

Não te demoras, vai! Deixa-me agora,
que o teu gorjeio me faz mal, porquanto
nunca se canta ao lado de quem chora…

Pedido
Sônia Maria Grillo/ES

Venha quando quiser,
mas venha,
venha se puder ou se der,
mas não deixe de vir…
Grite, solte-se, escreva, ligue,
o som da sua voz, quero ouvir,
dê notícias suas,
não suma, não se desligue de mim
e das minhas esperanças nuas…
Fale-me de você
sobre seus caminhos,
suas andanças pelas ruas,
pelas luas, pelas estrelas, pelo ninhos…
Não se esqueça,
sobra espaço na minha vida sim?
Sobra espaço também no meu coração
então, por favor não desapareça,
não se perca de mim!

14.05.2009
Vitória-ES

Renúncia
Manuel Bandeira
1886 / 1968

Chora de manso e no íntimo… procura
Tentar curtir sem queixa o mal que te crucia :
O mundo é sem piedade e até riria
Da tua inconsolável amargura.
Só a dor enobrece e é grande e é pura.
Aprende a amá-la que a amarás um dia .
Então ela será tua alegria,
E será ela só tua ventura…

A vida é vã como a sombra que passa
Sofre sereno e de alma sombranceira
Sem um grito sequer tua desgraça.

Encerra em ti tua tristeza inteira
E pede humildemente a Deus que a faça
Tua doce e constante companheira.

Rugas
Maria Nascimento Santos Carvalho/RJ

Há nas rugas precoces do meu rosto
sensível nitidez do sofrimento
de não poder falar do meu desgosto,
e de ter que esconder meu sentimento.
Estas rugas são marcas de um sol posto
relegado a tristeza, a esquecimento…
São vincos de um passado em mim exposto
para externar as marcas de um tormento.

Sempre há uma história triste em cada ruga :
um desencontro… as mágoas de uma fuga
ou mesmo a dor de um – Não – que alguém nos disse…

Mas, seja por qualquer razão que for,
as rugas feitas pelo desamor
ferem mais do que as rugas da velhice…

Na tasca
Raimundo Correa
1859 / 1911

Dentro, na esconsa mesa onde fervia
Fulvo enxame de moscas sussurrantes
Num raio escasso e tremulo do dia
Espanejando as azas faiscantes.
Vi-o; bêbado estava e, inebriantes
E capitosos vinhos mais bebia,
Em tédio, como os fartos ruminantes
A boca larga e estúpida movia.

Eu pensativo, eu pálido, eu descrente,
Aproximei-me do ébrio, com tristeza,
Sem ele quase o pressentir sequer,

E vi seu dedo, aos poucos, lentamente
No vinho esparso que ensopava a mesa
Ir escrevendo um nome de mulher.

No colo da poesia
Zena Maciel – Recife/PE

Brinco no colo da poesia
Excito-me com as letras em euforia
rodopio com as fantasias
faço uma seresta no coração

Engravido as palavras de sonhos
Bebo rimas risonhas
Vôo nas asas de um poema
de um pássaro sedutor

Acordo nos braços do paraíso
com a boca cheia de sorrisos
sedenta de lirismo
de um soneto encantador

Bato palmas para as loucuras
Visto-me com as diabruras
do irresistível verbo amar
Ponho-me a sonhar!

Sonho que sou a primavera
Imantada de carnívoras flores
com o néctar de doces quimeras
e uma alma bordada de paixão!

O Beijo
Bastos Tigre
1882 / 1957

A namorada do Mário,
Lia – um anjo de inocência,
Para um caso de consciência
Vai consultar o vigário.

E, a face rubra de pejo,
Lhe pergunta se é pecado
Dar um beijo ao namorado,
Ou dele levar um beijo.

Diz o padre: – Um beijo apenas
É pecado, dos veniais,
Mas sendo dois, três ou mais
Merecem do inferno as penas.

Lia está de causar dó!
Pavor do inferno, bem vejo,
Ela bem sabe que o beijo
Não se dá nem leva um só…

Fonte:
Textos enviados pelo autor

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Afonso Félix de Sousa (Rondó de Porto Alegre)


No te pongas melancólico,
amigo. Voemos sorrindo.
Quem nos deu a melhor arte
não deu o mal de quem parte
como prêmio por ter vindo.
Ao ar! Ao ar! – Evaporam-se
as lembranças, formas de éter,
e entre as nuvens onde estamos
nossas almas, em suéter,
se nutrem do que deixamos.

No te pongas melancólico,
Se por seis dias dormiste
no que fora alegre porto,
não seja agora um sol morto
que acorde em ti quem foi triste.
Se em águas sem sal nem lágrimas
aportaste em noites frias,
não sentes já que não mais
hão de secar, se as bebias
em meio a ventos carnais?

No te pongas melancólico,
meu velho. Se já não clamam
anos mais anos de sede
prostrados junto à parede
da fonte aberta aos que amam,
seja o amor tapete mágico
a levar-te entre dois braços,
já que preso te libertas,
e é mais alto que os espaços
o teu mundo em descobertas.

Fonte:
SOUSA, Afonso Felix de. Chamados e Escolhidos. RJ: Record, 2001.
Imagem = Johnson Tour http://www.johnsontour.com/portoalegre.html

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Carolina Ramos (Triângulo)


Carnaval. Noite de sábado – aquele apêndice agregado ao calendário, ampliador dos três dias programados para a folia.

Zulma, Carlão e Zico – trio escolhido para representar a tríade mais famosa das folias de Momo – Colombina, Pierrô e Arlequim. Noite quente, sem chuva. Ar parado. Noite de fevereiro, autêntica, prenunciadora das águas de março, próximas.

A moça acordara cedo. Banhada e perfumada, desenrolava os bóbes, soltando as mechas de cabelos negros. A fantasia de Colombina, estendida na cama, descansava, por antecipação, da refrega que teria de enfrentar, logo adiante.

– Tira a mão daí, menina. Vai vestir a tua borboleta azul.

E a caçula voou, sem asas, em busca das asas embrionárias, dobradas, ainda, na gaveta-crisálida.

Carlão e Zico. Um dilema a ser resolvido. Por ironia, os dois pretendentes ao coração da moça assumiam figuras polêmicas que mais confundiam seus sentimentos, a impedir que chegasse a uma decisão, na vida real.

Zico ou Carlão – Arlequim ou Pierrô?

Carlão – romântico, tímido, sem muita iniciativa, música de fundo, suave e transparente como bola de cristal. Pierrô autêntico, carente de carinho, despertando ternura e amor.

Zico, o oposto. Auto-suficiente, algo arrogante, narciso, dominador, Autêntico Arlequim, volúvel e imediatista, arrastando à paixão.

Perfeitos! Carlão nunca poderia ser um Arlequim, Zico, jamais um Pierrô!

Zulma sorriu para o espelho, enquanto pingava no canto direito da face, uma pinta negra, que lhe emprestava a coqueteria indispensável à figura que encarnava.

Quando a Escola adentrou a av. Tiradentes, e o ritmo das baterias sacudiu as almas, Colombina estremeceu no alto da plataforma, apoiando-se nas duas bengalas prateadas, fincadas como arrimo às suas evoluções. Delas dependiam, pelo menos, noventa por cento da sua segurança. Grande responsabilidade! Acarinhou-as com respeito.

Lá em baixo, um Pierrô de cara branca e triste, vestido de cetim azul celeste, com sua gola entiotada, abraçando o alaúde estilizado, propositadamente alongado e enfeitado de fitas. Uma lágrima de prata, brilhando na cara branca.

Do outro lado, exuberante Arlequim, exibindo o colante de losangos coloridos, máscara negra, sensual e misteriosa, e um sorriso amplo, absolutamente confiante de que sua presença agradava, sem exceções.

O eterno triângulo, vezes se conta, repetido dentro e fora do Carnaval!

Às tantas, não se sabe como, nem se sabe por quê, a frágil Colombina despencou do alto da plataforma, candidata a múltiplas fraturas e mesmo, quem sabe, a sucumbir face a qualquer delas!

A surpresa amarrou a todos. Estupefação! Nem mesmo a decantada auto-suficiência do Zico conseguiu vencer o estupor geral.

Surpresa maior foi, no entanto, a providencial e prestativa atitude de um Pierrô apaixonado, conseguindo aparar nos braços, com força imprevista, o corpo da bela Colombina, aparentemente desacordada.

Ao abrir os olhos, Zulma encontrou outros dois olhos, ansiosos, iluminando uma cara branca. A lágrima de prata brilhava mais ainda, autenticada por outras que abriam sulcos na face alvaiade.

Carlão virou herói! E o coração de Zulma deixou de balançar, indeciso. Pendeu, definitivamente, para o lado certo!

Pela primeira vez, quem sabe, na turbulenta história do Carnaval, um Arlequim, fascinante e extrovertido, perdeu, fragorosamente, para um tímido e sonhador Pierrô!

Fontes:
RAMOS, Carolina. Interlúdio: contos. Edição: Cláudio de Cápua, abril de 1993.
Imagem = http://coisinhas-interessantes.blogspot.com

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Benedita Azevedo (Livro de Haicais)


Gratinada ao forno
a couve-flor chega à mesa…
E ganha os olhares

Chega a frente-fria –
O cheiro de naftalina
Não saiu das camas.

Fotos sobre a cama –
No dia dos namorados
sozinha no quarto

Na manhã chuvosa
O canto do sabiá –
Saudade de quem?

Na estrada florida
os gritos do ganso branco –
Revoada de azulões.

Ao som da sanfona
Quadrilhas disputam prêmios –
Roupas sem remendos.

Frio da manhã –
Depois do despertador
continuo na cama.

Férias na fazenda –
Na colheita de morangos
Três netos se esbaldam.

Suave perfume
Na aragem vinda do mar –
Flores nos quintais.

À beira da trilha
Enroscado na palmeira –
Cipó-de-São-João

Ao romper da aurora
o sabiá dobra seu canto –
Só isso me basta.

Bois magros vagueiam
À procura de alimento
Relva seca no campo.

Calçada da escola –
As flores do ipê-roxo
na mão das crianças.

Céu azul profundo –
Nossa, minha mãe morreu
num dia assim.

Chega o Ano Novo –
Acenam do portão
os filhos e os netos.

Dia do Folclore –
Na dança de capoeira
Os velhos e os moços.

Domingo de páscoa –
Três netos adolescentes
querem chocolate.

Domingo outonal –
Rápido o céu fica cinza
e a chuva despenca.

Frescor da manhã
Com o xale sobre os ombros
Vovó faz café.

Início de julho –
somente o marulhar das ondas
na praia deserta.

Murmúrio das ondas,
no embate contra a murada …
Sobe a lua cheia.

O cheiro gostoso
se espalha pela casa –
Bolo de fubá.

Parque iluminado –
Cobre toda a enseada
luz da lua cheia.

Vala pluvial
De trás do muro aparece
Ninhada de marrecos

Fontes
Revista Haikai – com amor n. 4 – outubro 2006
Revista Haikai – com amor n. 11 – maio 2009
Antologia do Grêmio Haicai Sabiá – 2011
AZEVEDO, Benedita.Rumor das ondas.
AZEVEDO, Benedita.Silêncio da tarde.
AZEVEDO, Benedita.Canto de Sabiá.
AZEVEDO, Benedita.Praia do Anil.

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Benedita Azevedo


Brasileira do Maranhão, da cidade de Itapecuru-Mirim. Filha de Euzébio Alberto da Silva e de Rosenda Matos da Silva.

Radicada no Rio de Janeiro desde janeiro 1987. Mudou-se para a Praia do Anil, Magé-RJ em janeiro de 1990. Educadora, poeta, escritora e animadora cultural. Formada em Letras, especialista em Educação e pós-graduada em Lingüística.

Pertence a várias instituições literárias. É haicaísta premiada em vários concursos nacionais. Publicou 13 livros individuais. Organizou 11 antologias com a participação de vários poetas e escritores. Tem participação em revistas, jornais e sites. Participou de 42 antologias e tem vários trabalhos escritos aguardando oportunidade para publicação.

Sua trajetória no mundo do haicai inclui 6 publicações:
Nas trilhas do haicai, Ed. Da autora, 2004;
Canto de Sabiá:haikai,
Praia do Anil:haikai, Curitiba, Araucária Cultural, 2006;
Gota de Orvalho:haikai,2007,
Silêncio da Tarde:haicai e
Rumor das Ondas:haicai,2010, também da Araucária Cultural.

Recebeu vários prêmios a nível nacional:
1º lugar no 17º Encontro Brasileiro de haicai, realizado em São Paulo em novembro de 2005;
4º e 9º lugares no I Concurso Nacional de Haicai Caminho das águas, Santos – SP em 2006;
4º lugar no 28º Festival Das Estrelas -“Tanabata Matsuri” – São Paulo em 2006;
4º lugar no II Concurso Nacional de Haicai Caminho das águas, Santos – SP / 2007;
5º lugar no Concurso Nacional de Haicai Nempuku Sato, Curitiba-PR- Brasil, 2008.

Fundadora do Grêmio Haicai Sabiá, em Magé, RJ /2006 e do Grêmio Haicai Águas de Março, na cidade do Rio de Janeiro /2008.

Tem haikais publicados na Revista Brasil Nikkei Bungaku, Nº 23 – agosto de 2006 / Nº 24 – novembro de 2006 / Nº 27 – dezembro de 2007 /Nº 29 – julho de 2008 / Nº 30 de dezembro de 2008 /Nº32, julho de 2009/ Nº34março de 2010/Nº36,novembro de 2010.

Seus haicais têm sido selecionados, na seção de haicais do Jornal Nippo-Brasil, desde 2004, onde tem quase duas centenas de poemas publicados.
Site: http://www.beneditaazevedo.com

Fonte:
Haicai, Verso e Prosa

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Aníbal Lopes (Amar)

Beijo Mágico (de Manuela Alvarez)
Só quem gosta e ama
Sabe como queima a chama
De um forte sentimento.
Sentir o coração saltar
Temendo que possa parar
A todo e qualquer momento.

Uma vontade incessante
Que aumenta a cada instante
E nos rouba a razão.
Dizem que arde sem se ver
Vá lá a gente perceber
As coisas do coração.

É um perder de juízo
Achar que não é preciso
Ter qualquer contenção.
É nunca ver defeitos
Estar contra os preconceitos
E viver apenas a paixão.

É fazer versos de amor
Procurar com ardor
Até encontrara rima certa
Como para uma cantiga
E sentir essa coisa tão antiga
Que o amor nos desperta.

O amor é sentimento ancestral
Receita que cura todo o mal,
Poção mágica, sem preço
Ao alcance de toda a gente
E como não sou diferente
Tal remédio, também mereço.

Julho/2011

Fontes:
Enviado por Lino Mendes, de Praça da Poesia
Pintura = Artgeist.com

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Ana Carolina Rocha (A Gravata e o Peixe)


Decidiu enforcar-se com uma gravata.

Chegara em casa cansado e tinha largado o trabalho. Trabalho tão infindo e injusto na indecência do escritório, que não havia outro jeito:

Sairia daquela vida sem nexo, sem poesia, sem sentido. Nada prestava.

Sairia pela gravata que botava todo dia no pescoço para viver. Agora era ela que faria justiça. Sabia da hierarquia da sociedade, logo chegaria o mal da idade, sabia que era um alerta de início da tempestade. A velhice já lhe doía, sem ao menos senti-la de fato. Seria melhor acabar com tudo de uma vez.

Examinou sua gravata, como um agente examinando sua arma. Suas listras eram hipócritas e estúpidas. Era tão tosca que se fosse arma, seria arma de brinquedo.

Enforcado morreria. Mas parecia que seus sonhos já estavam enforcados em conjuntos de elevadores, seqüência de humores artificiais, risadinhas, piadas prontas, misturados à contas e baixa renda.

Seu lar: um apartamento mal mobiliado artificialmente e sem vida. A única vida presente, não era nem a sua, mas a e de um peixinho dourado que ganhara em uma festa infantil do filho de um colega de trabalho. Estava lá, onipresente, largado no canto da sala como móvel que não se usa.

Naquele fatídico dia, largou as chaves em um canto e atirou-se no sofá, afrouxando aquele acessório que no tão próximo instante, seria sua arma. Com o corpo inclinado no canto, observou aquele pingo de vida, deixado no canto. Um aquário de vidro redondo. Por quanto tempo aquele peixe vivia ali com ele? Ele que sentia-se tão sozinho. Como tinha deixado passar tanto tempo sem ao menos tê-lo notado. Ficara ainda mais triste: a água estava turva, mal podia ver que tinha algum ser vivo ali:

— Ei !

Uma voz o chamou. Estava mais louco que imaginava, olhou para o lado, suspeitando ser impressões:

— É…você mesmo!

Agora, verdadeiramente assustado, levantou-se num sobressalto. Esfregando os olhos e ficando sentando, em postura alerta, suava:

— Olá! Tem alguém aí ?

Era fato: estava louco. Lembrou-se de um cara na firma que de tanto fazer cópias quis copiar a própria cara, as outras partes e as partes do chefe. Até a ambulância tinha sido chamado para o pobre coitado.

— Sim —- respondeu hesitante e já quase a sair correndo.

— Poxa até que enfim… Será que você tem um minutinho?

— Mas quem está falando?- perguntou indignado, já levantado com a gravata na mão, em punho. Poderia usá-la como arma para salvar a vida.

— Sou eu…seu peixinho!

Agora sim. O mal estava feito, ia para cova ou direto para manicômio. Não mais a gravata, mas a camisa de força o esperava. Calou-se por um momento, rogando para que só tivesse sido um relance de tontura, alguma voz de seu interior, alguém dizendo para não se enforcar…Já ouvira falar de tanta gente que ouvia vozes, a maioria já trabalhando em terreiros mediúnicos ou largadas em hospícios, falando com árvores.

— Olha…eu não fiz nada! Sou uma pessoa normal, pago contas, tenho carro, tenho apartamento. Só estou numa fase ruim . Diga-me que não estou louco!

O peixinho, que até agora tinha uma fina voz, riu o que parecia seu borbulhar:

— Não precisa ter medo. Não sou a voz da consciência. Sou seu peixinho. Ando meio solitário também. Queria que alguém trocasse minha água.

— Trocar minha água…mas o que? — respirou fundo — Olha…Eu sei que estou louco. Estou conversando com meu peixe…mas…

— Você não está louco! Eu existo! Sou um peixe! Preciso falar com você…Agora! Queria que trocasse minha água…não consigo enxergar…Está tudo verde…você é verde ?

O rapaz, com cara mais assustada, estava verde sim, mas de doença. Suava tanto que chegava até a molhar o chão:

— Devo estar sonhando…— dando as costas.

— Veja esta gravata listrada…Ela é azul..porque devia ser azul.

— Ok. Isso é alguma tentativa divina e barata de salvação? Olha, eu não leio livro de auto-ajudas exatamente por isso. Você quer me convencer que tudo tem que ser assim por um poder divino? Esqueça, estou vacinado contra baboseiras…. Aliás…peixinho…nem falarei com você – de um jeito insosso e incrédulo deu as costas para o peixe.

— Mas eu preciso de você!

Adotando uma postura enérgica, gritou:

— PARE! PARE! Não vê que eu quero acabar com minha vida? E você desperdiçando o meu tempo precioso, com papo de cores. Você não precisa de mim! ACABOU! E ainda falo com um peixe no aquário? É mais que sinal de loucura: é evidência.

— Eu só preciso que troque minha água…depois disso..faça o que quiser…Eu até ofereço meu aquário se você desejar se afogar nele…Você não gostaria de se afogar em condições melhores?

O homem, exausto e com olheiras, sucumbiu ao nervosismo e olhou para o aquário.

Dava apenas para ver os olhinhos esbugalhados de clemência do peixinho. A água estava tão turva. Pelo menos, se fosse morrer, que não deixasse o peixinho em condição desmazelada.

— Então…Você vai trocar? – perguntou o peie.

Olhou a gravata, olhou o aquário e decidiu ajudar o animalzinho. Pelo menos, se fosse dar um fim em sua vida, que mostrasse que deixou tudo ajeitado. Já imaginava a vizinha comentando:

– Ele nem se dignou a trocar a água do aquário, imagina se ele ia pagar o aluguel.

– Trocarei. Mas você terá que ficar CALADO, combinado? Não quero escutar animaizinhos me dando conselhos. Eu não estou na Disney.

— Sim. Combinado.

Enquanto o peixinho, morria de vontade de conversar e tentava sobreviver na pia, arfando de lado. O rapaz foi limpando o aquário e aquela trabalheira de tirar a água, limpar o vidro, tirar o lodo, e colocá-la em posição foi se dissipando aquela intenção de suicídio. Como se fosse jogado no ralo. Tirou o excesso de sujeira que acumulado pelo tempo e puro esquecimento. Como ia se matar? O peixinho, olhando com olhos arregalados, suspirava, tentando obter o máximo de vida daquele ambiente…

Do jeito que alcoólicos e viciados tem momentos de clareza, compreendeu. Tirou uma lição de ambiente, de ajuda e obviamente da própria loucura.

. O peixe voltou pro aquário. Agradeceu a gentileza:

— Obrigado!

— Peixes não agradecem.

— Gravatas não são armas! Peixes não são terapeutas. – replicou.

Depois de ter dito isso, o peixinho se calou e voltou, o rapaz deixou a gravata em cima da mesa, dando um nó no aquário. E pela vida, acho que o rapaz decidiu ser pescador.

Fontes:
http://www.releituras.com/ne_acrocha_gravata.asp
Imagem = Montagem com imagens obtidas em http://lugardoleitor.blogspot.com e http://www.toymagazine.com.br (peixe)

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Pedro Ornellas (Setilhas “Na Roça tem…”) Parte 4

Pintura a óleo de Angela Kelly Topan
(Foto: José Feldman)
Tem muro de cemitério
que esconde um certo mistério,
pé-de-moleque, cocada,
que agradam à garotada;
tem brincadeira de roda
(que essa nunca sai de moda)…
A roça é boa… a danada!
(SELINA KYLE)

Tem máquina de costura
com tudo que se procura:
dedal, botões, linha, agulha…
Tem pomba-rola que arrulha
porco gordo no chiqueiro
cavalo manso e ligeiro
e arroz guardado na tulha!
(PEDRO ORNELLAS)

Lá tem duença deferente!
Si u muleque fica duente
pode sê que teja aguado
o das bicha discunfiado.
Quem num tem berne na bunda
véve cum dor na cacunda,
morre de bucho virado…
(PAULO TARCIZIO)

Tudo é divinação,
fica aberto o coração
lá na roça, no meu lar.
No fogão a crepitar
junto à lenha e o fogaréu
vejo naquele escarcéu
meu amor esbrasear.
(PALAS ATHENA)

Lá tem paiol, tem picada,
tem gado bom na invernada,
tem galinha no terrero
e eu que tomém fui rocero
tarde aprendi na cidade
que a tar da felicidade
não se compra cum dinhero!
(PEDRO ORNELLAS)

Lá na roça é diferente,
eu me sinto tão ardente.
Dos meus sonhos na ciranda,
numa rede na varanda
onde eu possa divagar
com os beijos sem cessar
deste amor que em mim comanda.
(PALAS ATHENA)

Lá no galho da paineira
bem pertinho da cocheira,
dorme o galo cantador
com garganta de tenor
pra Maria ele acordar,
a rabinha vai esquentar,
é café pro seu senhor.
(DÁGUIMA VERÔNICA)

Tem espinhela caída,
muita noite mal-dormida
tem até ventre-virado
deixando o pobre coitado
a procurar “benzedeira”
pra se livrar da canseira
deixa-lo, inteiro, curado.
(MARILU MOREIRA)

Pro sertanejo é chacina
dia de tomar vacina,
não tem medo de serpente,
mas, na agulha ele sente,
aquela dor tão profunda
quando tem que mostrar bunda
pra macho bem diferente.
(DÁGUIMA VERÔNICA)

Lá que tem Seu Zé quejero
que trabáia sem vaquero,
só ele e a Dona Carminha.
Levanta madrugadinha,
tira o leite da vacada
depois vem, ca costa arcada,
tomá café na cozinha.
(PAULO TARCIZIO)

Lá tem capim amargoso,
que é ruim de carpi, tinhoso,
chega faz calo na mão…
lá num tem moleza não…
pra cabocro bom de enxada
lá tem roça praguejada
de carrapicho e picão!
(PEDRO ORNELLAS)

Tem a cabrinha de um dia
que nasce e já faz folia
cabeceando a galinhada
que sai tudo em debandada
– menos a galinha choca,
que os seus pintinhos convoca,
se arrepia e dá bicada.
(PAULO TARCIZIO)

Tem um menino bobinho
que se envergonha todinho
quando encontra ca Rosinha.
Esta sim, é espertinha,
vê que o menino tá ganho
mas dá riso de arreganho
pra quem passa na estradinha.
(PAULO TARCIZIO)

Feijoada de mocotó
é tão boa que dá dó
ver escorrer no pescoço
aquele “cardo” tão grosso,
a mãe, de testa franzida,
vê, a moça na “lambida”,
“zoiando” “praquele” moço
(DÁGUIMA VERÔNICA)

Tem a colcha de retalho
tem ranger do assoalho
tem toalha de crochê
Cozinha com fumacê
tem cebola e muito alho,
na roça tem espantalho
para o milho não “cumê”
(MARILU MOREIRA)

Na roça, em minha cabana,
tem facão de cortar cana,
tem lenha no fogo e até
tem sempre bolo e café;
tem lamparina de azeite,
tem muita flor como enfeite…
Vem aqui pra ver como é!
(SELINA KYLE)

Lá tem jacá de taquara,
é feito de fina vara
tirada do bambuzal
bem perto do milharal,
lugar de preparar ceva
pra onde o perigo leva
a caça, bicho animal
(DÁGUIMA VERÔNICA)

Tive lá Pedro, e gostei!
Que belezura essas moda…
É que nem quando na roça
lá no galpão se acomoda
todo o povo do retiro
que chega a solta suspiro
pros violeiro em meio à roda…
(SÔNIA TARASSIUK)

Água se guarda no pote
pra roça vai no corote,
na moringa ou na cabaça…
lá na mina tem de graça
pagamento não precisa
pra quem encharca a camisa
enfrentando uma quiçaça!
(PEDRO ORNELLAS)

Muita festança e rojão,
canelinha e quentão…
Tem uma “baita” quadrilha,
“camaradage” e partilha
não só de pão mas, de par
que as vezes chega no altar
formando bela família!
(VÂNYA DULCE)

Lá tem, de manhã bem cedo,
requeijão de leite azedo
deixado pelo leiteiro
que, preso num atoleiro,
amanheceu lá no brejo
por causar o maior frejo:
chamou de sogro o vaqueiro.
(DÁGUIMA VERÔNICA)

Morta a bezerra de um dia
afogada na água fria
na cachoeira do poção.
Prende o leite, de paixão,
a boa vaca leiteira.
Mergulha a Rosa vaqueira:
volta com o bicho na mão.
(PAULO TARCIZIO)

Tem cipó pra gangorrar
e ribeirão pra nadar,
tem muito capim-gordura
e canavial com fartura
pra fazer muita cachaça,
o melado sai de graça
e só vende a rapadura.
(DÁGUIMA VERÔNICA)

Tem mato pra se esconder
brincadeira de correr,
roubar fruta do vizinho,
depois fugir de mansinho…
Tem doce feito no tacho,
bicho na goiaba… eu acho.
Como é bom esse cantinho!
(SELINA KYLE)

Lá tem moda sertaneja,
bule quente na bandeja,
disco em cesto de por milho
embrulhado em coxinilho,
pra sentar tem um pelego,
num banco perto do rego…
na vitrola um Estribilho .
(DÁGUIMA VERÔNICA)

Noite de lua encantada
tem viola enluarada
tem canção de seresteiro
tem cavalo de vaqueiro
leva a moça garupa
e fazendo upa, upa,
vai bancando o cavaleiro.
(ILNEA MIRANDA)

Amendoim saboroso
-isso é viagra pra idoso,
também plantação de trigo
e pra fazer doce, o figo,
limão, laranja e banana…
Sutiã de barbatana
pra evitar qualquer perigo.
(DÁGUIMA VERÔNICA)

Fonte:
Setilhas enviadas por Pedro Ornellas

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Monteiro Lobato (Viagem ao Céu) IX – Tia Nastácia


Enquanto conversavam, Tia Nastácia, sempre à distância, rezava, e volta e meia fazia um pelo-sinal.

— Como deram com ela aqui? — perguntou São Jorge, pondo os olhos na pobre negra.

Foi Emília quem respondeu.

— Ah, santo, Tia Nastácia é a rainha das bobas. Veio conosco enganada. Cheirou o pirlimpimpim pensando que era rapé…

São Jorge quis saber o que era rapé e pirlimpimpim, e muito se admirou das prodigiosas virtudes do pó mágico. Depois fez sinal à Tia Nastácia para que se aproximasse.

— Venha, boba! — animou Emília. -— Ele não espeta você com lança. É um santo.

Tia Nastácia fez três pelo-sinais todos errados, e foi se aproximando, trêmula e ressabiada. Estava ainda completamente tonta de tantas coisas maravilhosas que vinham acontecendo. O dragão, o sumiço que levaram o Visconde e o burro, aquele prodigioso santo vestido de armadura de ferro, com capacete na cabeça, escudo no braço e “espeto” em punho — e lá no céu aquela enorme “lua” quatro vezes do tamanho do Sol — tudo isso era mais que bastante para transtornar a sua cabeça pelo resto da vida.

Mesmo assim veio toda a tremer, com os beiços pálidos como de defunto.

— Não tenha medo — disse-lhe Narizinho. — São Jorge não come gente. É um grande amigo nosso e muito boa pessoa.

Tia Nastácia afinal chegou-se — mas embaraçadíssima. Tinha as mãos cruzadas no peito e os olhos baixos, sem coragem de erguê-los para o santo. Estar diante dum santo daqueles, tão majestoso na sua armadura de ferro, era coisa que a punha fora de si.

— Não tenha medo de mim — disse São Jorge sorrindo. — Diga-me: está gostando deste passeio à Lua?

O tom bondoso da pergunta fez que a pobre negra se animasse a falar.

— São Jorge me perdoe — disse ela com a voz atrapalhada. — Sou uma pobre negra que nunca fez outra coisa na vida senão trabalhar na cozinha para Dona Benta e estes seus netos, que são as crianças mais reinadeiras do mundo. Eles me enganaram com uma história de rapé do Coronel Teodorico, o compadre lá de Sinhá Benta, e me fizeram cheirar um pó que mais parece arte do canhoto. Agora a pobre de mim está aqui nesta Lua tão perigosa, sem saber o que fazer nem o que pensar. Minha cabeça está que nem roda de moinho, virando, virando. Por isso rogo a São Jorge que me perdoe se minhas humildes respostas não forem da competência e da fisolustria dum santo da corte celeste de tanta prepotência…

Todos riram-se. A pobre preta achava que diante dos poderosos era de bom-tom “falar difícil”, e sempre que queria falar difícil vinha com aquelas três palavras, “competência”, “prepotência” e “fisolustria”. Ela ignorava o significado dessas coisas, mas considerava-as uns enfeites obrigatórios na “linguagem difícil”, como a cartola e as luvas de pelica que os homens importantes usam em certas solenidades.

— Fale simples, como se você estivesse na cozinha lá de casa — disse Narizinho. — Do contrário encrenca, e São Jorge até pode pensar que você lhe está dizendo desaforos…

— Credo, sinhazinha! — exclamou Tia Nastácia benzendo-se com a mão esquerda. — Quem é a pobre de mim para dizer algum desaforo a um ente da corte celeste? Até de pensar nisso meu coração já esfria…

São Jorge teve dó dela. Viu que se tratava duma criatura excelente, mas muito ignorante — e deu-lhe umas palmadinhas no ombro.

— Sossegue, minha boa velha. Não se constranja comigo. Vejo que sua profissão na vida tem sido uma só — cuidar do estômago de sua patroa e dos netos dela. Quer ficar aqui na Lua cozinhando para mim?

Aquela inesperada proposta atrapalhou completamente a pobre negra. Ficar na Lua ela não queria por coisa nenhuma do mundo, não só de medo do dragão como de dó de Dona Benta, que não sabia comer comidas feitas por outra cozinheira. Mas recusar um convite feito por um santo ela não podia, porque onde se viu uma simples negra velha recusar um convite feito por um ente da corte celeste? E Tia Nastácia gaguejou na resposta.

Vendo aquela atrapalhação, Narizinho respondeu em seu nome.

— Tia Nastácia fica, São Jorge — mas só por uns tempos. Nosso plano não é passear apenas na Lua. A viagem vai ser também pelas outras terras do céu. Queremos conhecer alguns planetas, como Marte, Vênus, Netuno, Saturno, Júpiter, e também dar um pulo à Via-láctea. Em vista disso, acho que podemos fazer uma combinação. Tia Nastácia fica cozinhando para o senhor enquanto durar a nossa viagem. Quando tivermos de voltar para a Terra, portaremos de novo aqui e a levaremos. Não fica bem assim?

— Ótimo! — exclamou o santo. — Está tudo assentado. Durante o passeio que vocês pretendem fazer, Tia Nastácia ficará sob minha guarda, cozinhando para mim. Quanto ao dragão, ela que descanse. O meu dragão está muito velho e inofensivo. Lá na Terra comia até filhas de reis — mas aqui vive só de brisas. Não haverá perigo de nada.

Depois de tudo bem assentado, São Jorge foi mostrar à pobre preta onde era a cozinha, deixando-a lá com as panelas. E foi desse modo que à medrosa Tia Nastácia aconteceu a aventura mais prodigiosa do mundo: ficar como cozinheira dum grande santo, lá no fundo duma cratera da Lua…
–––––––––––-
Continua … X – Mais Vistas da Terra
–––––––––––-
Fonte:
LOBATO, Monteiro. Viagem ao Céu & O Saci. Col. O Sítio do Picapau Amarelo vol. II. Digitalização e Revisão: Arlindo_Sa

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Novos Imortais Tomam Posse na ALB-MG, em 23 de Agosto


Dra. Silvia Araújo Motta, Ph.I., Presidenta Pró-Tempore da Academia de Letras do Brasil/ Minas Gerais convida para a Solenidade de Posse de

Escritores Imortais aprovados para diplomação da ALB-MG:

01- Marco Aurélio Baggio
02-Gilberto Madeira Peixoto
03-Jorge Lasmar
04- Cícero Moteran Ramos
05- Wagner Colombarolli
06- Paulo Geraldo Corrêa
07- Josemar Otaviano De Alvarenga
08- Ronaldo Vieira De Aguiar
09- Eurípedes Santos Zumpano
10- Deusdedit Pinto Ribeiro De Campos
11- Edir Carvalho Tenório
12- Eugênio Ferraz
13- Zeni De Barros Lana
14- João Quintino Da Silva
15- Raymundo Nonato Fernandes
16- Herbert Sardinha Pinto
17- Fernando Antônio Xavier Brandão
18- Álvaro Antônio Nicolau
19- João Bosco De Castro
20- José Moreira Alves-Kid Moreira
21- Léa Lúcia Viana-Léalu
22- Luiz Gonzaga Ferreira-Limagolf
23- Deiwson Ferreira De Magalhães
24- Desembargador Luiz Audebert Delage Filho
25- Juiz Renato César Jardim
26- João Wilton Alves
27- Mauro José De Morais
28- Franklin Lopes De Freitas
29- Maria Da Conceição Piló
30-Jehu Pinto De Aguilar Filho
31-Emerson Luiz De Castro
32-Antonio Carlos Albuquerque
33-Roberto Carvalho
34-Carlos Felipe De Melo Marques Horta_
35-Eduardo A. O. Toledo (Indicação de José Feldman, Presidente Pró Tempore da ALB/PR)
36-João Wilton Alves (Diploma Especial)
37-Sebastião Abrão Salim
38-Antonio Francisco Patente
39-Luiza Miranda-

Escritores Imortais aprovados para diplomação como Membro Correspondente Da ALB-MG
Acadêmico Clério José Borges Santa´Anna
residente em Vitória – Espirito Santo.

Acadêmica: Káttia Bobbio
residente em Vitória – Espirito Santo.

Escritores Imortais aprovados para diplomação Academia Militar Brasileira de Letras Estratégicas – ALB-MG
1)Álvaro Antônio Nicolau

2)João Bosco De Castro

3)Giovanni Franco

Municípios mineiros representados:

1-Belo Horizonte
2-Sabará
3-Doresópolis
4-Divinópolis
5-Bom Conselho
6-Pitangui
7-Formiga
8-Santana Do Riacho
9-Uberlândia
10-Itaverava
11-Uberaba
12-Bom Despacho
13-Pará De Minas
14-Barbacena
15-Timóteo
16-Santa Maria De Suaçui
17-Contagem
18-Januária
19-Ribeirão Das Neves
20-Belo Vale
21-Ubá
22-Jequitinhonha
23-Carandaí
24-Pouso-Alegre
25-Divinolândia De Minas
26-Fortaleza De Minas
27- Simonésia

Notas:
1-A Posse é coletiva, os acadêmicos apresentarão o panegírico dos respectivos patronos nas reuniões ordinárias ALB-MG.

PATRONOS DA ALB-MG:

Afonso Arinos De Melo Franco
Alberto Barroca
Hilton Ribeiro Da Rocha
Carlos Chagas
Pedro Aleixo
Sebastião Eloi Dos Santos
João Pinheiro
Joaquim José Da Silva Xavier-Tiradentes
Alberto Libânio Rodrigues
Paulo Pinheiro Chagas
Milton Campos
Sebastião De Affonseca E Silva
Bernardo Guimarães
Cyro Versianni Dos Anjos
Cláudio Manuel Da Costa
Oswaldo De Carvalho Monteiro
Henriqueta Lisboa
Afonso Carlos Pimenta
Fernando Tavares Sabino
Lucas Sávio De Vasconcellos Gomes
Abgar Renault
Helena Antipoff
Carlos Drummond De Andrade
Francisco Candido Xavier
Alaide Lisboa De Oliveira
Newton Paiva Ferreira
Murilo Badaró
Barão De Paraopeba
Ary Barroso
Hermes De Paula
Senador Eduardo Carlos Vilhena Do Amaral
Juscelino Kubtschek De Oliveira
João Pinheiro
João Guimarães Rosa
Zoroastro Vianna Passos
Athos Vieira De Andrade
Saul Alves Martins
Djalma Andrade
Rui Barbosa

ACADEMIA DE LETRAS DO BRASIL-SECCIONAL ESTADUAL MINAS GERAIS

23 De Agosto De 2011

Local: Rua dos Guajajaras-1268-Santo Agostinho-Cep:30180-101

Confirme Sua Presença:

clubedalinguaport@gmail.Com

Acesse:
Http://academiadeletrasdobrasil.blogspot.com

Fonte:
Dra. Silvia Araújo Motta, Ph. I. – Presidenta Pró-Tempore Estadual da Academia de Letras do Brasil/ Minas Gerais

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 271)

Uma Trova Nacional

Enquanto o teu ventre sofre,
menino de muitas fomes,
teu patrão guarda no cofre
o lucro do que não comes.
–THALMA TAVARES/SP–

Uma Trova Potiguar

Todo homem que anda “perdendo”,
e mulher que “acha” demais,
é moral se corrompendo,
é honra que se desfaz.
–JOSÉ AMARAL/RN–

Uma Trova Premiada

2004 – Nova Friburgo/RJ
Tema: REFÚGIO – M/E

Se este mundo tão bisonho
te nega paz e guarida,
usa o refúgio do sonho,
onde o amor sustenta a vida!
–JOSÉ LUCAS DE BARROS/RN–

Uma Trova de Ademar

Tem homens aqui na terra
com um “ser” tão negativo…
Por nada, promovem guerra
sem razões e sem motivo!
–ADEMAR MACEDO/RN–

…E Suas Trovas Ficaram

Diz ser amarga a fatia
do pão que come, e nem vê
que do seu pão, cada dia,
quem faz a massa é você.
–ALICE ALVES NUNES/DF–

Simplesmente Poesia

–AYDA BOCHI BRUM/RS–
Glosando Ademar Macedo.

MOTE:
Ao me tornar Trovador
eu pus dentro do meu ser,
lenitivos para a dor
e mais razões pra viver!

GLOSA:
Ao me tornar Trovador
encontrei a minha essência:
a alegria extingue a dor
num gesto de complacência.

Eu pus dentro de meu ser,
Um fim pra toda amargura.
Doce luz no anoitecer
e amor, pra minha candura.

Lenitivo para a dor,
encontrei fazendo trovas
e um amor abrasador,
prenúncio de boas novas.

E mais razões pra viver,
encontrei na trova, assim,
entre o trovar e o querer
tenho paz dentro de mim.

Estrofe do Dia

Nos lindos carnaubais,
nas manhãzinhas brumosas,
no desabrochar das rosas,
nos bonitos parreirais,
nas frondes dos coqueirais
que tremulam noite e dia,
por dentro da serrania,
por toda gruta e recanto;
se vê o suave encanto
das telas da poesia.
–ZÉ DE CAZUZA/PB–

Soneto do Dia

–AMILTON MACIEL MONTEIRO/SP–
Mistério

A nossa vida em si já é um bom mistério…
Mas até onde meu juízo alcança,
Eu vejo que o sofrer, se é muito sério,
Aumenta sempre em nós a esperança!

Foi Deus que quis assim; não sem critério,
Mas só visando a nossa segurança…
Porque o Criador, mais que cautério,
Aspira a nossa bem-aventurança!

A dor tem sempre a sua utilidade,
Quer para alertar de um mal maior,
Ou tendo em vista a nossa santidade.

Por certo o sofrimento foi criado
Só pra que a gente possa ser melhor
E chegue, assim, ao céu, tão almejado!

Fontes:
Textos enviados pelo autor
Oficina do Gif

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Afonso Félix de Sousa (Abecê dos Boiadeiros)


Acolhe a serra entre os lábios
o que o céu colore e abrasa.
Um tropel rola dos longes,
aproxima-se da casa,
e o chão despede em poeira
muitas ânsias de ter asa.

Berrante – quanta amargura!
(Que perdeu? O que reclama?)
Como a chorar já sem lágrimas
nas quebradas se derrama …
A serra engole, de um trago,
natas de cinzas e flamas.

Chega a noite. Os brejos cantam.
O escuro faz tudo em nada.
Os golpes de mil galopes
cessam – e gritam da estrada:
– Ô de casa! abra a porteira,
que já ê-vem a boiada.

Disparar de bois que avançam
contra o curral já aberto,
na fúria das trovoadas
que pisam o céu deserto.
Mas logo calam-se os cascos.
Tudo é silêncio por perto.

Eis o fogo … eis que a fogueira
acende o escuro e a quietude.
Em volta seis sombras falam.
Choram seis mágoas no açude.
E eis que crepitam lembranças
e sobem na fala rude.

Foi minha culpa, foi culpa
de ter deixado o meu povo.
Já me cansava da vida
em casa, e um dia resolvo
bater pernas, correr mundo,
atrás do que fosse novo.

Gastando tudo o que tinha
dois anos vivi à-toa,
sem pensar em coisa alguma
que não fosse coisa boa …
Mas, não sei como, uma noite
no escuro um grito ressoa.

Hora amarga! Nem sei como
à casa fui tão ligeiro.
Toda ao chão … Meus pais e irmãos
enterrei-os no terreiro.
Sem ninguém, sem ter mais nada,
me ajustei de boiadeiro.

Inda agora me alembrava
de quando era um rapagote
Instrução nunca me deram.
De amores eu tinha um lote.
Mais que de tudo gostava
de lidar com um bom garrote.

Já nem sei se me arrependo,
se me dá tristeza e dor
lembrar o dia em que disse
a meu patrão: – meu senhor,
quando for tirar boiada
quero ser seu laçador.

Levar a vida que levo.
Nunca ter onde parar.
Sempre a ir, uma só mágoa
me espera em cada lugar:
daí eu vou pra adiante,
daí não posso voltar.

Me alembro: as terras lá longe …
lá perto de Mato Grosso.
Era o bamba nos pagodes.
Montado, eu era um colosso.
Me alembro: as moças gostavam.
Ah, meu tempo de mais moço!

Não fosse bolir, não fosse,
com uma dona até que feia.
Por cismar com seus galeios,
minha vida – esperdicei-a.
Sangrei o cujo, mas outro
era eu depois da cadeia.

O meu caso? De tão triste,
eu nem não vou contar não
Ah! talvez se alguém me ouvisse
menor seria a aflição.
Mas quem não ri quando escuta
histórias de ingratidão?

Parece até que é pecado
gostar de quem não nos queira.
Seria ela ou a fazenda?
Ao fim de muita canseira
da fazenda eu fiz um brinco
… e me quis a fazendeira?

Quando fico a cismar coisas
é porque não tem mais jeito.
Também cresci feito os moços
que têm o mundo no peito.
Agora a vida lembrada
lembra um mel que não foi feito.

Razão forçosa, isso tenho
de clamar por todo canto.
Onde vou, está a moça
que, vai ver, botou quebranto
em mim, me deixando mole
como casca de pau-santo.

Sei lá porque fui deixá-la,
se era dela que eu gostava?
Voltei … Voltando meu peito
ia que nem vaca brava.
Mas no mesmo dia a moça
com um pau-rodado casava.

Também se penso na vida
logo me sinto logrado.
Não tinha nem vinte anos,
fui no exército alistado.
Por dois anos roí osso.
Dura sorte, a do soldado.

Um dia volto homem feito.
Já não encontro meus pais.
Sem eles, sem uma ajuda,
eu vim por esses gerais.
Agora toco boiada.
Já nem sei se volto mais.

Vai-se fazendo a fogueira
em cinzas e despedidas.
De um aboio sobe aos ventos
a mágoa de seis feridas,
até que o sono despeje
o esquecimento em seis vidas.

Xô-xô galinhas! o milho …
Vacas põem mudos os galos.
Mais alta, a voz do berrante
do sono vai arrancá-los,
aos boiadeiros, que mudos
arreiam os seus cavalos.

Zona tão triste, a que a serra
empresta o sono de idades …
A boiada come aos poucos
longes de azul e alvaiade.
Sobe poeira e o berrante
sopra ao ar mais seis saudades.

Fontes:
SOUSA, Afonso Felix de. Chamados e escolhidos. RJ: Record, 2001
Imagem – http://boiadeirorei.wordpress.com

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Cantando ao Som das Setilhas (Debate pela Internet) Parte 4


43 – ZÉ LUCAS
Quem mata um pezinho de erva
que prometia uma flor,
suja o rio ou cala a voz
de um canário cantador,
pratica um ato covarde
e algum dia, cedo ou tarde,
paga, seja como for!

44 – GISLAINE CANALES
Com muito amor, muito amor,
devemos tudo cuidar:
árvores, rios e matas,
e com paixão escutar
a música que inebria
e que encanta o nosso dia
com cascatas a cantar!

45 – PROF. GARCIA
Quem nunca ouviu o trinar
de uma orquestra matutina,
de manhã cedo, bem, cedo,
ao raiar da luz divina;
nunca estudou serenata,
nem os arpejos da mata
enfeitiçando a campina!

46 – DELCY CANALLES
Esta orquestração divina,
que ouvimos na madrugada,
quando acordamos cedinho
pra contemplar a alvorada,
mostra a sensibilidade,
que explode em qualquer idade
na pessoa enamorada!

47 – A. A. DE ASSIS
Por obra de Deus, moçada,
a natureza é teimosa:
vem trazendo a primavera
novamente e esplendorosa.
Com gripe ou seja o que for,
no fim vencerá o amor
e o trono será da rosa.

48 – ARLINDO TADEU HAGEN
Estação maravilhosa
que a gente espera, contente,
Primavera vem chegando.
Mas, de fato, realmente,
o que importa, mais que a esperança
é sentir a Primavera
dentro do peito da gente!

49 – THALMA TAVARES
Feliz é o poeta que sente
as forças da Natureza,
que tira do peito os versos
para cantar a grandeza
do amor que nela se encerra,
que vem do ventre da Terra;
fonte de vida e beleza.

50 – ZÉ LUCAS
Existe uma estrela acesa,
sempre linda e radiante,
inspirando nossos versos
que descem do céu distante,
para que o mundo tristonho,
órfão de poesia e sonho,
um dia se alegre e cante.

51 – GISLAINE CANALES
Escrever é apaixonante,
vibra em nós grande emoção,
sentimos bater mais forte
este nosso coração,
que em cada nova viagem
aumenta a sua bagagem
cumprindo a sua missão!

52 – PROF. GARCIA
Hoje eu tive a sensação,
que tem um grande adivinho:
que a musa dormiu distante
e eu dormi triste e sozinho;
mas ao despertar tristonho
fiz o verso do meu sonho
na solidão do meu ninho!

53 – DELCY CANALLES
Eu sou um ente sozinho,
que, num grande apartamento,
passa as noites, passa os dias,
com este entretenimento:
a TV que jamais cala;
ela, às vezes, me ouve e fala
e entende o meu sentimento!

54 – A. A. DE ASSIS
Celebrei, por um momento,
a volta do arzinho quente;
porém, sem nem mais nem menos,
vira o tempo de repente,
e eis que outra onda de frio
vem tal qual um desafio
retrancar em casa a gente.

55 – ARLINDO TADEU HAGEN
Um programa diferente
porém de sabor profundo
é ficar quietinho em casa:
no meu quarto, lá no fundo,
no jardim ou no quintal.
Casa da gente, afinal,
é o melhor lugar do mundo!

56 – THALMA TAVARES
Quando o frio ataca fundo,
penetrando a alma da gente,
a melhor coisa na hora
é um vinho competente,
juntinho à cara-metade,
tomado em meio à saudade
do nosso Nordeste quente.

————
continua…
–––––––––-
Fonte:
José Lucas e parceiros. Cantando ao som das setilhas. Natal/RN: 2011.

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Sandoval Ferreira (O Matuto e o Fusca Véio)


Hoje recebi do correio o livro do pernambucano de Iati, Sandoval Ferreira, “Meu Sertão em 12 Versos”, composto de vários “causos” em cordel, além de um DVD com o próprio autor declamando suas poesias. Já conhecia o trabalho deste escritor desde 2009, quando postei “Poesia da Água” com uma breve biografia, em http://singrandohorizontes.blogspot.com/2009/01/sandoval-ferreira-poesia-da-gua.html

Atualmente Sandoval (27/02/1983) mora em Guaranhuns, PE, é técnico agrícola e cursa a Faculdade de Marketing.

Transcrevo abaixo um “causo” que consta em seu livro, o primeiro que botei os olhos quando abri o seu livro.

Comprei um fusca fiado
Em catorze prestação
A primeira eu já paguei
O resto no pago não
É que o peste do fusca
Só na base do empurrão

Foi essa a reclamação
Do matuto que comprou
Um fusca véio usado
Que um malandro lhe passou
E ele voltou arretado
Pra matar o vendedor

Ele disse ao doutor
Dentro da delegacia
Nunca mais eu vou pagar
Por aquela porcaria
E Se eu não matá-lo hoje
Mato ele no outro dia

Grande foi a gritaria
E tamanha confusão
O matuto já nervoso
O vendedor com queixão
E o delegado no meio
Pra resolver a questão

O matuto disse então
O fusca não tem amortecedor
Arranhão na lateral
Falta um retrovisor
O banco já tá rasgado
E o pneu já estourou

O vendedor reclamou
Dessa vez bem irritado
Não vendi o fusca novo
Te vendi um fusca usado
Agora quer devolver ?
Tu não pegou emprestado

Pra o azar do delegado
O matuto retrucou
Só comprei aquela peste
Porque você me empurrou
Fui subir a ladeira
Ele bateu o motor

Ta vendo o senhor doutor
Ele quer subir ladeira
Comprou um fusca 69
Não uma égua andadeira
Mande esse cabra ir embora
Mode deixar de besteira

Acabou a brincadeira
Podem parar a zoada
Isso aqui não é um circo
Pra ficar com palhaçada
Ficam os dois no xadrez
E a coisa ta encerrada

Isso não meu camarada
Retrucou o vendedor
Devolvo o dinheiro dele
Dou um trocado ao senhor
Faço o que você quiser
Mas pra cadeia eu não vou

Ta muito bem seu doutor
Do jeitinho que eu queria
Eu sou um home direito
Não gosto de ingrizia
Ele pega o meu fusca
E se acaba a agonia

Livres da delegacia
Dessa vez mais conformado
O vendedor foi buscar
O fusca véio quebrado
E pra se livrar da bomba
Deu de graça ao delegado.

Fontes:
FERREIRA, Sandoval. Meu sertão em 12 versos: causos nordestinos.
Imagem = Megasena

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Bruno Camargo Manenti (Resenha do livro de Miguel Sanches Neto, “Então Você Quer Ser Escritor?”)


Miguel Sanches Neto é considerado um dos autores nacionais de maior destaque dos últimos anos, com a publicação de mais de dez livros, dois deles traduzidos para o espanhol. Em “Então você quer ser escritor?”, (Record, 2011, 222 páginas), o novo livro de Sanches Neto, é possível entender o porquê . São 16 contos, alguns inéditos, outros já publicados com títulos diferentes em coletâneas, revistas ou jornais.

As histórias são, de um modo geral, uma busca por algo que falta ou que se perdeu: um amor, um mentor, uma inocência. O filho que perde o pai e tenta entender por que ele não voltará; a esposa que procura um motivo para continuar cozinhando lasanha de frango no almoço como sempre fez durante anos de casamento; o pretenso escritor que quer conhecer seu ídolo; o professor que busca nos alunos o nascimento de um grande autor, sem sucesso.

Grande parte das narrativas do livro se passa em cidades interioranas ou tem uma passagem em local parecido, com acontecimentos que serão marcantes para o que acontece na cidade grande. A representação do interior do estado, do interior de cada um, que espera encontrar na capital um motivo a mais para viver, sem perceber que é no interior que moram todos os motivos.

“Então você quer ser escritor?” traz personagens belamente criados para serem fracos, sentirem ao longo da narrativa a necessidade de mudança e buscarem seus ápices (durante o texto ou ainda que continuem a jornada depois do ponto final). Lembram de tempos melhores ou de acontecimentos que foram marcantes e decisivos, com reflexos em suas vidas até o momento presente da narrativa.

As falas não são indicadas em nenhum momento com travessões ou aspas, deixando no ar um suspense: será que o personagem disse isso realmente? Ou é apenas fluxo de pensamento extravasado? São as atitudes que demonstram quão reais são os diálogos, alguns que talvez devessem se manter em silêncio, caso do professor do conto que dá nome ao livro. Fala sozinho em uma livraria, citando Ernest Hemingway: “A maioria dos escritores vivos não existe”, fazendo uma jovem ao seu lado rir com desprezo. A riqueza dos personagens pouco reconhecida pelos seus companheiros é destacada por Sanches Neto, para o prazer do leitor.

Pequenos detalhes fazem a diferença nas histórias. Às vezes, um conto começa por um fato e termina com outro bem diferente, não-linear como de costume. O que importa aqui são as miudezas, um olhar, um sapato, um pé de manga. Em “Vestindo meu avô”, por exemplo, há uma frase que se repete, e ela é o elo de todo o texto e peça-chave para o entendimento da narrativa, o que a deixa muito emocionante, bela.

A forma de narrar de Miguel Sanches Neto é bem particular, mostrando os detalhes mais importantes logo no início do texto, muitas vezes, mas de forma tão sutil que só percebemos a sua importância quando chegamos ao fim. Embarcamos na busca de um conhecimento que sempre tivemos, mas precisávamos da busca para compreender a totalidade de cada elo dos contos. O caminho dos personagens através de suas histórias se confunde com o do leitor pelas palavras. Um toque leve e preciso que Sanches Neto desenvolve com maestria.

Fonte:
Croni-Médias, de Isabel Furini.

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IV Concurso “Sport Club Internacional” de Contos, Crônicas, Poesias e Histórias do Inter. (Inscrições Abertas até 24 de Agosto)


Encontram-se abertas as inscrições para o Concurso “Sport Club Internacional” de Contos, Crônicas, Poesias e Histórias do Inter.

I. – TEMAS: ESPORTE E LIVRE.

2. Da Participação: Poderão participar poetas, escritores, cronistas de âmbito nacional e latino-americano em Língua Portuguesa. O conto, crônica, poesia ou histórias do inter é de expressão livre.

2.1 – O trabalho deverá ser digitado em linha 12 Times New Roman, em papel ofício, num só lado, em quatro vias e identificado por pseudônimo. Enviar junto CD com o texto. E deverá ser acompanhado de um envelope lacrado contendo na parte interna, nome dos(s) conto(s), crônica(s), poesia(s) ou história (s) do inter, pseudônimo, nome real, fone e endereço completo. Na parte externa constará apenas o nome dos trabalhos e pseudônimo do concorrente.

2.2 – Cada participante poderá concorrer com até três trabalhos e deverão ser entregues no prazo estipulado.

3. Taxa de Inscrição: uma obra: R$15,00. Trabalhos excedentes, R$ 5,00. O pagamento deverá ser efetuado juntamente com a inscrição, ou recibo do depósito. A ser efetuado mediante depósito no BANRISUL, Agência 0100 conta. 0627907607. FECI – Fundação de Educação e Cultura do Sport Club Internacional

4. Das Inscrições: Os textos deverão ser enviados até dia 24/08/2011.
Local: FECI – Fundação de Educação e Cultura Sport Club Internacional. Avenida Padre Cacique, 891 – Bairro Menino Deus – 2º andar do Gigantinho – CEP. 90.810-240. Porto Alegre – RS.

4.1 – Dos Prêmios: 1º Lugar: Troféus; 2º e 3º Lugar: Medalhas; 4º Lugar: Menção Honrosa: Certificado de participação a todos os participantes do concurso. Os prêmios serão entregues no dia da abertura do evento. Após, um Sarau Poético e um Coquetel de encerramento.

4.1 – Data da premiação: 29/09/2011.

5. Comissão Julgadora: A mesma será formada por (4) membros qualificados, com conhecimento de Contos, Crônicas, Poesias e Histórias do Inter.

6. Da Aceitação: A Inscrição implica na aceitação do presente Regulamento, conforme comunicado da Coordenação. Todos os casos omissos serão resolvidos pela coordenação através de resolução ou decisões aprovadas em ata.

Ficha de Inscrição:
Autor:__________________E-mail:__________________
Pseudônimo. ____________Telefone: /Celular ______________
Endereço:______________________________________________

Realização: CAPOLAT – Casa do Poeta Latino-Americano e departamento Cultural da FECI/INTER.
Porto Alegre, 16 de Junho de 2011

Fonte:
Fundação de Educação e Cultura do S. C. Internacional

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Lú Oliveira (Entre Cadernos e Vitrines)


Na última sexta-feira, logo pela manhã, após participar da missa na Catedral, fui até o Mc Donald’s para usar o banheiro e uma cena me chamou a atenção: um grupo formado por 6 adolescentes ocupava algumas mesas na estabelecimento.

Até aí, nada anormal, concordam? Como a lanchonete também oferece o serviço de café, é perfeitamente possível que alguém a escolha para o seu desjejum.

Mas era um dia letivo e todos vestiam uniformes do Instituto de Educação, um colégio público localizado a poucas quadras dali; já passava das 8 e todos sabemos que as aulas começam às 7h30.

Eles conversavam animadamente; riam e se mostravam descontraídos, sem pressa, como se fosse um sábado à tarde.

Pois bem.

Pouco tempo depois, por volta das 9, enquanto eu caminhava pelo centro da cidade, coincidentemente vi mais um grupo de adolescentes, só que formado apenas por meninas. Elas também estavam uniformizadas, mas desta vez o emblema das camisetas era do Colégio Brasílio Itiberê, também uma instituição pública.

E então senti que, naquele momento, nascia mais uma crônica. Sabem por quê? Porque fiquei pensando nas famílias daqueles estudantes.

Sei que, nessa idade, certas “artes” são típicas e cabular aula é uma delas (embora eu nunca tenha feito isso…).

Entretanto, além de todos os prejuízos por conta de faltarem ao colégio naquele dia, fiquei pensando se seus pais – ou qualquer outro responsável que zele por eles – um dia imaginariam que seus filhos “fazem de conta” que vão à escola, mas na verdade estão saboreando um belo café no Mc Donald’s – enquanto os colegas já está estudando – ou então apreciando as vitrines em busca de novidades.

Em um primeiro momento, confesso que julguei apenas a atitude dos adolescentes; julguei aquela “escolha” irresponsável, considerei a ação um desrespeito aos familiares que se preocupam com eles.

Por outro lado, também refleti sobre outro aspecto: será que esses jovens têm adultos que se preocupam – de verdade – com eles? Será que têm em suas casas pessoas que conversam sobre os “convites” que o mundo faz?

Eu sempre respeitei meus pais enquanto vivi com eles, mas não por medo ou “obrigação”; respeitava porque os amava, admirava-os e reconhecia o esforço que faziam por mim e por minhas irmãs.

Será que aqueles jovens ainda foram para a escola naquela manhã? Será que inventaram alguma desculpa para entrarem atrasados? Ou será que passaram a manhã “curtindo” e depois foram para suas casas?

Nunca vou saber…

Só sei que, naquele dia, alunos cabulando aula foram os responsáveis pelo nascimento desta crônica.

Fontes:
Portal de Cianorte
Imagem = Professor Carrasco, mau e ruim

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Lú Oliveira (Lançamento do Livro "Primeira Impressão", em Maringá )


Qualquer semelhança com a sua vida não terá sido mera coincidência.

Autora: Lu Oliveira – Editora Clichetec – 136 páginas

À venda na Livraria Espaço Maringá Park – Shopping Maringá Park – Maringá – PR –

Crônicas que retratam o cotidiano sob um olhar simples, sensível, crítico, bem-humorado e saudosista.

As palavras servem para a autora mostrar a vida como ela é ( e como a vida poderia ser…).

O livro apresenta três partes: “Memórias” / “Educação e Família” / “Política e Sociedade”.

O prefácio é do jornalista e escritor José Antonio Pedriali (autor de “Fuga dos Andes”, publicado pela Editora Record).

As orelhas foram escritas por Cláudia Donná Hila, doutora em Estudos da Linguagem pela Universidade Estadual de Londrina – UEL e pelo pai da autora, um homem sem instrução acadêmica, mas apaixonado pela leitura.

Lu Oliveira começou a escrever no primeiro ano do curso de Letras da UEM. Ela diz que foi incentivada a escrever pelos professores da faculdade, que elogiavam seus textos. Em casa, a família, principalmente o pai, sempre a incentivou a ler e a estudar.

Em 1997, ela publicou seus primeiros textos no Diário. Quando se formou, começou a trabalhar como professora e se casou. Nesse momento, publicar um livro era apenas um sonho.

Quando criou o blog, passou a escrever crônicas diárias e publicá-las no odiario.com, Lu Oliveira colocou o desejo de publicar um livro como uma meta.

Publicar um livro físico é algo que vem da paixão pela literatura. Eu não consigo ver o livro como uma coisa que vai desaparecer com a internet”.

No blog, além das crônicas, Lu também publica um capítulo semanal de seu romance “Setembrina”, que ela pretende que seja seu segundo livro publicado.

O blog é Escrever é preciso… http://www.odiario.com/blogs/luoliveira/

Fontes:
Texto e imagem enviados pela autora
ADUEM

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Jogos Florais de Cambuci /RJ 2011 (Resultado Final)

ÂMBITOS INTERNACIONAL/ NACIONAL E ESTADUAL. TEMA LIVRE VENCEDORES:

AILSON CARDOSO DE OLIVEIRA
Magé – RJ

DIAMANTINO FERREIRA
Campos Dos Goytacazes-RJ

MESSIAS DA ROCHA FILHO
Juiz De Fora – MG

CAMPOS SALES
São Paulo – SP

CLENIR NEVES RIBEIRO
Nova Friburgo – RJ

ÉLBEA PRISCILA DE SOUZA SILVA
Caçapava – SP

ELEN DE NOVAIS FELIX
Niterói – RJ

FABIANO DE CRISTO M. WANDERLEY
Natal – RN

GILVAN CARNEIRO DA SILVA
São Gonçalo – RJ

IZO GOLDMAN
São Paulo – SP

JOSÉ MOREIRA MONTEIRO
Bom Jardim – RJ

JOSÉ LUCAS DE BARROS
Natal – RN

JORGE ROBERTO DE CARVALHO
Niterói – RJ

LAÉRSON QUARESMA DE MORAES
Campinas – SP

NEIVA FERNANDES
Campos Dos Goytacazes -RJ

OLYMPIO DA CRUZ SIMÕES COUTINHO
Belo Horizonte – MG

POMPÍLIO O. VIEIRA
São Vicente – SP

RELVA DO EGYPTO REZENDE SILVEIRA
Belo Horizonte – MG

VANDA FAGUNDES QUEIROZ
Curitiba – PR

VERA MARIA PUGET BLANCO
Rio De Janeiro – RJ
==============

ÂMBITO REGIONAL Tema Sonho VENCEDORES :

ALMIR PINTO DE AZEVEDO
Cambuci – RJ

ANA HELENA MONTEIRO VIEIRA
Cambuci – RJ

CELMA LEAL DE AZEVEDO
Cambuci

CELSO LUIZ FERNANDES CHAVES
Cambuci – RJ

DEJALMA MATOLLA DE MIRANDA
Cambuci – RJ

DINAH TERRA PEIXOTO
Cambuci – RJ

ÉSTIA BAPTISTA LIMA
Cambuci – RJ

IRACI PIETRANI
São Sebastião Do Alto – RJ

JOSÉ MOREIRA SOBRINHO
São Fidélis – RJ

JOSÉ CARLOS QUEIROZ CONCEIÇÃO
São Sebastião Do Alto – RJ

MARIA JOSÉ GOMES DE CARVALHO
Cambuci – RJ

MARIA LUIZA PERES CAMPOS
Cambuci – RJ

MARIA DA PENHA MAIA BRANDÃO
Cambuci – RJ

MARIA STELLA GOMES MOREIRA
Cambuci – RJ

ODETE ALVES MACIEIRA
Cambuci – RJ

SÔNIA MARIA POSSIDENTE BASTOS
Santo Antônio De Pádua – RJ

WALDEMAR BASTOS PINHEIRO
Cambuci – RJ

Fonte:
Pedro Ornellas

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Eliana Ruiz Jimenez (Livro de Trovas e Poemas )


TROVAS

Voa passarinho, voa
que gaiola é só maldade
livre, lá nos céus entoa
o cantar da liberdade.

Menção especial – I Jogos Florais – BC/2004
O mar de um azul profundo
e as montanhas esverdeadas,
são belezas desse mundo,
precisam ser preservadas.

Menção especial – II Jogos Florais – BC/2006
Rede que volta vazia
traz tristeza ao pescador
que apesar da nostalgia
leva adiante o seu labor.

Pescador mais esportivo
deixa seu peixe escapar,
melhor solto que cativo,
para assim o preservar.

Menção honrosa – III Jogos Florais – BC/2008
Sorriso que é cativante
é sincero e iluminado,
precioso como brilhante
por todos ambicionado.

O sorriso está escasso
nessa tal modernidade,
é preciso dar um passo
e mudar essa verdade.

Menção especial – III Jogos Florais – BC/2008
Sorria pra natureza
respeite e sempre preserve,
só assim teremos certeza
que o mundo assim se conserve.

Vencedora – IV Jogos Florais – BC/2010
Um segredo bem guardado
para assim permanecer
não deve ser partilhado
para nunca se perder.

Menção honrosa – IV Jogos Florais – BC/2010
O futuro do planeta
não é segredo a ninguém
preserve e se comprometa
que a vida assim se mantém.

Menção especial – IV Jogos Florais – BC/2010
Esse mundo feminino
de segredos permeado
é um gracejo do destino
pelos homens odiado.

———–
Obs: BC é Balneário de Camboriú
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POEMAS

MENINO POBRE

Menino pobre
Da noite quente
Abandonado
Menor carente.

Menino pobre
Da noite nua
Necessitado
No olho da rua.

Menino pobre
Do pé descalço
Chutando lata
Pela calçada.

Menino pobre
Menino sujo
Vagando triste
Um moribundo.

Menino inquieto
Girando o mundo
Sem casa e roupa
Sem mãe nem pai.

Menino triste
Pra onde vai
O que vai ser
Quando crescer?

MAR

Ventos
Valsando
Voltam
Vagando
Trazendo
O barulho
Do mar.

Brisas
Soprando
Ondas
Tragando
Fazendo
A beleza
Sem par.

Canários
Cantando
Aves
Voando
Planando
A leveza
Do ar.

Praias repletas
Luzes, atletas
Completam
Essa vida
No mar.

FOSSA

Sai dessa fossa, menina
Que isso não tem remédio
O que está feito é passado
E o passado só leva ao tédio.

Se as coisas dão errado
Se a sorte te despreza
Não fuja, não vá de lado
Vá em frente que não pesa.

Sai dessa fossa, menina
Que chorar não adianta não
A vida tem dessas mesmo
Mas chorar não é solução.

Deixe de caminhar a esmo
Pare de se sentir errada
As coisas acontecem para o bem
Não há mal que resulte em nada.

Existe um horizonte além
Dos conflitos do dia-a-dia
Sai dessa fossa, menina
Olhe em frente e sorria!

ESCRITÓRIO

Escritório
Sina de todo dia
Multidão comprimida
Na total monotonia.

A porta fecha
Deixando a vida lá fora
O relógio é moroso
E a saída demora.

Presos na caverna de luxo
Onde o sol não entra
Onde a chuva não molha
E até o ar é condicionado.

Escritório
Robôs de crachás
Sem pensamentos, sem vontade
Sem individualidade.

As melhores horas
De muitos dias
Em troca da breve alegria
Do dia dez.

TALVEZ

Talvez seja esse
O amor que procurei por toda a vida
Que pedi às estrelas
Que pedi aos santos
Que procurei nos cantos.

Talvez seja esse
O amor que sonhei da despedida
Quando descobri o engano de um amor trocado
E senti o sofrimento sem pecado.

Talvez seja esse
O amor que me fará forte
E de tão forte me fará fraca
Por ter meu coração entregue à sorte.

Talvez seja esse
O amor que me fará feliz
E será firma e será tão sólido
Que poderemos formas nós dois
Um só tronco, uma só raiz.

Talvez seja esse, finalmente
O meu caminho, o meu destino
A chave que libertará do meu peito
Todo o amor que eu tenho para dar
A recompensa por querer tão somente
Partilhar de um sentimento sincero
A realização do simples, porém complexo
Desejo de amar.

Talvez seja esse, talvez…

Fonte:
Poesias Urbanas e Outras Paixões, , indicação de A. A. de Assis

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Monteiro Lobato (Viagem ao Céu) VIII – A Terra vista da Lua


— Mas o mais bonito da Lua — disse depois São Jorge — é a Terra, a nossa Terra que daqui vemos perpetuamente no céu, girando sobre si mesma. Olhe como está linda!

Parece incrível, mas só naquele momento os meninos ergueram os olhos para o céu e lá viram a Terra. Tão entretidos desde a chegada estiveram com as coisas do chão, que só naquele instante deram com o espetáculo mais belo da Lua — a Terra vista de lá.

— Que beleza! — exclamou Narizinho. — Só para ver este espetáculo vale a pena vir à Lua…

A Terra é a lua da Lua. Mora permanentemente no céu da Lua, sempre girando sobre si mesma e a mostrar os seus continentes e mares. Um verdadeiro relógio. Quem quer saber das horas é só olhar para a Terra em seu giro sem fim e ver que continentes vão aparecendo.

Naquele momento a face que a Terra exibia estava completamente escura, porque era dia de eclipse do Sol. Mas depois de findo o eclipse, quando o Sol voltou a iluminar a Terra, os meninos se regalaram. Lá estava bem visível, como num mapa, o continente americano, composto de dois grandes “VV”, um em cima do outro. No alto do V de cima aparecia uma brancura vivíssima — as terras de gelo do pólo norte; e igual brancura aparecia embaixo do segundo V — as terras de gelo do pólo sul. E apareciam umas imensidades escuras — os oceanos. E também grandes zonas de verdura.

— Aquela verdura enorme — disse Pedrinho — é o Brasil e os países que ficam perto dele — Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile, Peru, Bolívia, etc. Está vendo aquelas minhocas que varam o continente de ponta a ponta, com brancura em certos trechos do dorso? Pois são os Andes, a grande cordilheira cheia de picos de neves eternas, e a cordilheira do México e as montanhas Rochosas. E lá em cima estão o Canadá, os Estados Unidos, o México e a América Central… Aqueles pontinhos de outra cor na imensidão do mar são as ilhas — Cuba e tantas outras…

São Jorge não estava entendendo coisa nenhuma, porque todos aqueles nomes lhe eram novidade.

— Meu Deus! — exclamou em certo momento. — Será possível que haja no mundo tantos países novos que eu não conheça?

— Se há! — exclamou Pedrinho. — Isso de países é como broto de árvore. Uns secam, apodrecem e caem — e surgem brotos novos. Quais eram os países do seu tempo?

São Jorge suspirou.

— Ah, no meu tempo o mundo era bem menor. Havia Roma, a grande Roma, cabeça do Império Romano — e o Império Romano era tudo. Quase todos os povos da Europa estavam dominados pelos romanos — como a Espanha, a Aquitânia, a Bretanha, a Macedônia, a Grécia, a Trácia, a Panônia, a Arábia Petréia, a Galácia, a Cilícia, a Mauritânia lá na costa da África…

— E a tal Capadócia onde o senhor nasceu? — perguntou a menina.

— A minha Capadócia ficava entre um país de nome Ponto e outro de nome Cilícia — junto da Mesopotâmia.

Pedrinho contou que estava tudo muito mudado. O tal Império Romano já não existia; em vez dele surgira o Império Britânico, cuja cabeça era a Grã-Bretanha.

Ao ouvir falar em Grã-Bretanha São Jorge arregalou os olhos. Percebeu que era a mesma Bretanha do seu tempo, um país que na era dos romanos não valia nada. E também muito se admirou quando Pedrinho se referiu à Rússia como o maior país do mundo, e à China, e à índia e ao Japão.

— Onde fica a tal Rússia? — perguntou ele.

Pedrinho explicou como pôde, e por fim São Jorge descobriu que a famosa Rússia devia ser numas terras muito desconhecidas dos romanos e às quais vagamente eles chamavam Sarmácia. Da China e do Japão o santo não tinha a mais leve idéia.

— Como tudo está mudado! — exclamou ele. — Se eu voltar à Terra, não reconhecerei coisa nenhuma.

— Também acho — concordou Pedrinho. — Há continentes inteiros que no seu tempo eram totalmente ignorados, como as Américas e o continente australiano. As Américas foram descobertas mais ou menos ali em redor do ano 1.500, e a Austrália em redor do ano 1.800.

— Onde fica essa Austrália?

— Nos confins do Judas! — berrou Emília. — Nem queira saber. Existem lá uns tais cangurus que carregam os filhotes numa bolsa da barriga. E há o boomerang, que a gente joga e ele volta para cima da gente.

A ignorância de São Jorge era natural, visto como vivera no tempo de Diocleciano, cujo reinado fora entre os anos 284 e 313. De modo que fez muitas perguntas a Pedrinho, grandemente se assombrando com as respostas.

Emília estava com cara de quem quer dizer uma coisa, mas não se atreve. Por fim afastou-se de Narizinho (para evitar o beliscão) e de repente disse:

— Santo, desculpe o meu intrometimento — mas lá no sítio, quando alguém quer dizer que um gajo não presta, e é vadio ou malandro, sabe como diz? Diz que é um capadócio!…

Narizinho fuzilou-a com os olhos, mas São Jorge não se zangou, até sorriu, e foi suspirando que explicou:

— Meus patrícios lá da Capadócia sempre tiveram má fama — e fama exatamente disso, de mandriões, de fanfarrões, de mentirosos. Mas o que admira é que apesar de tantos séculos, a palavra “capadócio” ainda esteja em uso até num país que nem existia no meu tempo…

— Pois existe — continuou Emília sempre com o olho em Narizinho — e acho que o senhor não deve andar dizendo que é um capadócio, porque não há o que desmoralize mais…

— Emília!… — gritou a menina ameaçando-a com um tapa. Mas São Jorge acalmou-a e, chamando Emília para o seu colo, alisou-lhe a cabeça.

— Vou seguir o seu conselho, bonequinha. Não contarei nem ao dragão que sou um capadócio…
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Continua … IX – Tia Nastácia
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Fonte:
LOBATO, Monteiro. Viagem ao Céu & O Saci. Col. O Sítio do Picapau Amarelo vol. II. Digitalização e Revisão: Arlindo_Sa

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