Arquivo do mês: agosto 2011

A. A. de Assis (Trovas Ecológicas) – 7



Fonte da Imagem = http://alucard.weebly.com/

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Rafael Castellar (Carta Ao Meu Eu-Passado)



Caro Eu-Passado,

Não é por falta de interesse e nem por descaso que não pergunto como lhe vão as coisas, mas por muito bem já as saber. Sei também que, por se encontrar em profunda perdição de si, incrédulo de tudo e todos que passam a lhe rondar, inclusive de si mesmo, muito lhe custa a esta carta ler, mas é por ela que lhe trago boas-novas!

Digo-lhe que por aqui as coisas muito têm melhorado, que muitas das nossas dúvidas e dificuldades têm, desde então, se resolvido e novos rumos tomado, diferentes dos que aí está a pensar. Por incrível que possa lhe parecer, e sei que muito lhe parecerá, nossa vida tornou-se novamente iluminada e, de uma forma nova e curiosa, saborosa. Os amanheceres não são mais torturantes e temidos, mas confortáveis e amenos, alguns até muito prazerosos. Os dias têm passado com fluidez e tranquilidade – desprezemos, contudo, aqueles inevitáveis aborrecimentos da vivência coletiva. As noites continuam a serem impacientemente aguardadas, mas não mais pelo refúgio concedido e sim pelo divertimento ou pelo simples relaxamento do lar, nelas sempre contidos. E são as madrugadas que mais me prazem, pois agora, ou nelas chegamos ou por elas passamos descuidados num profundo desmaio regenerador, que sei que há muito não tem.

Confesso que os fantasmas ainda assombram, mas não com a tempestuosidade e vivacidade que você tão bem conhece, mas cá estão e isso não posso e nem devo lhe negar. Mas também confesso que não é de todo mal que, vez ou outra, ainda apareçam. É preciso que algo nos lembre do que fomos e pelo que passamos – e isso eles fazem muito bem, bem até demais, lhe confidencio –, pois o esquecimento é fácil e a ansiedade e a espontaneidade de reviver cegam e ensurdecem. Devemos nos lembrar, eu e você, ao menos assim podemos nos postar matreiros diante do que está por vir, mas sem perder a doçura de viver. E estas são as lembranças que me fizeram perceber que eu, justamente eu, também havia me esquecido de você.

Enfim, lhe escrevo para contar que por aqui os dias estão mais claros, as cores mais vivas e paira a vontade de viver; por isso, aguente firme, ele dependerá de nós. E lembre-se: você não está sozinho, quando as coisas apertarem, olhe para dentro de si e me verá!

São Paulo, 13 de setembro de 2010.



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Texto enviado pelo autor.

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Ialmar Pio Schneider (Poema de Amor em Forma de Soneto)



Quero inventar palavras que nunca disse a outra mulher, para falar do amor que despontou, enfim, em nossa vida num momento qualquer e veio transformar nossos destinos assim…

Quero inventar palavras que te agradem e sintas por mim tudo o que teu desejo de sensação romântica puder, enquanto eternamente tua paixão me quiser…

E que nosso bem-querer continue até o fim…

Quero inventar palavras de esperança e ternura que nos permitam uma convivência tranquila embora sabendo que nem tudo são apenas flores.

Mas, se mais tarde nos visitar um pouco de amargura saibamos com discernimento e paciência distingui-la e saber que também faz parte de todos os amores…

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Texto enviado pelo autor

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Olivaldo Junior (Marias do Brasil)


Sempre é dia de lavar roupa. Sempre há roupa pra lavar. Sempre é hora de um poema desaguar. Junto dele, vai-lhe uma canção de Vanessa da Mata, A força que nunca seca. O poema abaixo é uma homenagem às meninas da Cia. de Teatro Parafernália. Assisti a uma apresentação delas sábado passado. Às lavadeiras da arte, meus poéticos abraços.

Olivaldo Júnior

Moji Guaçu, São Paulo

MARIAS DO BRASIL

Às atrizes da Cia. de Teatro Parafernália Cultural, Andréia, Silvana e

Viviane, pela apresentação da peça
de Almir Pugina, Maria Lavadeira

São “Marias lavadeiras”,

que na beira desse rio

iluminam as ribeiras

que contornam todo rio…

São mulheres brasileiras

que no leito desse rio

imaginam as maneiras

que confortam o Brasil…

São Brasis de benzedeiras,

que na cheia desse rio

dão Antonio às lavadeiras,

às Marias do Brasil!

São Marias brasileiras

que, sem beira pra encostar,

dão razão às corredeiras

que só correm para o mar…

São correntes traiçoeiras

que, sem leito pra sonhar,

iluminam as roseiras

que, amarelas, vão corar…

São coristas lavadeiras

que, sem cheia, vão minguar

uma a uma as companheiras,

lua a lua o seu penar.

São peninhas voadeiras,

corações de amor, ardil,

que “Marias lavadeiras”

lavam mágoas nesse rio.

29/08/2011

Fonte:

Texto e imagem enviados pelo autor

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Bernardo Guimarães (O Nariz Perante os Poetas)



Cantem outros os olhos, os cabelos

E mil cousas gentis

Das belas suas: eu de minha amada

Cantar quero o nariz.

Não sei que fado mísero e mesquinho

É este do nariz,

Que poeta nenhum em prosa ou verso

Cantá-lo jamais quis.

Os dentes são pérolas,

Os lábios rubis,

As tranças lustrosas

São laços sutis

Que prendem, que enleiam

Amante feliz;

É colo de garça

A nívea cerviz;

Porém ninguém diz

O que é o nariz.

(As faces são tintas

De rosa e de liz,

Ou já têm de jambo

Mimoso matiz;

São cor de safira

Os olhos gentis

E a cor do nariz

Ninguém vo-la diz.)ii

Beija-se os cabelos,

E os olhos belos,

E a boca mimosa,

E a face de rosa

De fresco matiz;

E nem um só beijo

Fica de sobejo

P’ro pobre nariz;

Ai! pobre nariz,

És bem infeliz!

Entretanto, — notai a sem-razão

Do mundo, injusto e vão: —

Entretanto o nariz é do semblante

O ponto culminante;

No meio das demais feições do rosto

Erguido é o seu posto,

Bem como um trono, e acima dessa gente

Eleva-se eminente.

Trabalham sempre os olhos; mais ainda

A boca, o queixo, os dentes;

E — míseros plebeus — vão exercendo

Ofícios diferentes.

Mas o nariz, fidalgo de bom gosto,

Desliza brandamente

Vida voluptuosa entre as delícias

De um doce far-niente.

Sultão feliz, em seu divã sentado

A respirar perfumes,

De bem-aventurado ócio gozando,

Não tem inveja aos numes.

Para ele produz o rico Oriente

O cedro, a mirra, o incenso;

Para ele meiga Flora de seus cofres

Verte o tesouro imenso.

Amante fiel sua, a mansa aragem

As asas meneando

Anda p’ra ele nos vergéis vizinhos

Aromas apanhando.

E tu, pobre nariz, sofres o injusto

Silêncio dos poetas?

Sofres calado? não tocaste ainda

Da paciência as metas?

Nariz, nariz, já é tempo

De ecoar o teu queixume;

Pois, se não há poesia

Que não tenha o seu perfume,

Em que o poeta às mãos cheias

Os aromas não arrume,

Por que razão os poetas,

Por que do nariz não falam,

Do nariz, p’ra quem somente

Esses perfumes se exalam?

Onde, pois, ingratos vates,

Acharíeis as fragrâncias,

Os balsâmicos odores,

De que encheis vossas estâncias,

Os eflúvios, os aromas

Que nos versos espargis;

Onde acharíeis perfume,

Se não houvesse nariz?

Ó vós, que ao nariz negais

Os foros de fidalguia,

Sabei, que se por um erro

Não há nariz na poesia,

É por seu fado infeliz,

Mas não é porque não haja

Poesia no nariz.

Atenção pois aos sons de minha lira,

Vós todos, que me ouvis,

De minha bem-amada em versos d’ouro

Cantar quero o nariz.

O nariz de meu bem é como… oh! céus!…

É como o quê? por mais que lide e sue,

Nem uma só asneira!…

Que esta musa está hoje uma toupeira.

Nem uma idéia

Me sai do casco!…

Ó miserando,

Triste fiasco!!

Se bem me lembra, a Bíblia em qualquer parte

Certo nariz ao Líbano compara;iii

Se tal era o nariz,

De que tamanho não seria a cara?!…

E ai de mim! desgraçado,

Se o meu doce bem-amado

Vê seu nariz comparado

A uma erguida montanha:

Com razão e sem tardança,

Com rigores e esquivança,

Tomará cruel vingança

Por essa injúria tamanha.

Pois bem!… Vou arrojar-me pelo vago

Dessas comparações que a trouxe-mouxe

Do romantismo o gênio cá nos trouxe,

Que p’ra todas as cousas vão servindo;

E à fantasia as rédeas sacudindo,

Irei, bem como um cego,

Nas ondas me atirar do vasto pego,

Que as românticas musas desenvoltas

Costumam navegar a velas soltas.

E assim como o coração,

Sem ter corda, nem cravelha,

Na linguagem dos poetas

A uma harpa se assemelha;

Como as mãos de alva donzela

Parecem cestos de rosas,

E as roupas as mais espessas

São em verso vaporosas;

E o corpo de esbelta virgem

Tem feitio de coqueiro,

E só com um beijo se quebra

De tão franzino e ligeiro;

E como os olhos são flechas,

Que os corações vão varando;

E outras vezes são flautas

Que de noite vão cantando;

P’ra rematar tanta peta

O nariz será trombeta…

Trombeta o meu nariz?!! (ouço-a bradando)

Pois meu nariz é trombeta?…

Oh! não mais, Sr. poeta,

Com meu nariz s’intrometa.

Perdão por esta vez, perdão, senhora!

Eis nova inspiração me assalta agora,

E em honra ao teu nariz

Dos lábios me arrebenta em chafariz:

O teu nariz, doce amada,

É um castelo de amor,

Pelas mãos das próprias graças

Fabricado com primor.

As suas ventas estreitas

São como duas seteiras,

Donde ele oculto dispara

Agudas flechas certeiras.

Em que sítios te pus, amor, coitado!

Meu Deus, em que perigo?

Se a ninfa espirra, pelos ares saltas,

E em terra dás contigo.

Estou já cansado, desisto da empresa,

Em versos mimosos cantar-te bem quis;

Mas não o consente destino perverso,

Que fez-te infeliz;

Está decidido, — não cabes em verso,

Rebelde nariz.

E hoje tu deves

Te dar por feliz

Se estes versinhos

Brincando te fiz.

Fonte:

Bernardo Guimarães. Humorísticos e irônicos. 1884. disponível em http://www.dominiopublico.gov.br

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Bernardo Guimarães (1825 – 1884)



Bernardo Joaquim da Silva Guimarães, nasceu em Ouro Preto, Minas Gerais, em 15 de agosto de 1825. Filho de João Joaquim da Silva Guimarães e Constança Beatriz de Oliveira, foi magistrado, jornalista, professor, romancista e poeta. É o patrono da Cadeira nº 5 da “Academia Brasileira de Letras”, por escolha de Raimundo Correia.

Dos seus quatro anos, até um momento da adolescência não fixado pelos biógrafos, viveu em Uberaba e Campo Belo, impregnando-se das paisagens que descreveria com predileção nos seus romances. Antes dos 17 anos, estava de volta a Ouro Preto, onde terminou os preparatórios, matriculando-se tardiamente, em 1847, na Faculdade de Direito de São Paulo, onde se tornou amigo íntimo e inseparável de Álvares de Azevedo e Aureliano Lessa, com os quais chegou a projetar a publicação de uma obra que se chamaria Três Liras. Fundaram os três, com outros estudantes, a “Sociedade Epicuréia”, a que se atribuíram “coisas fantás-ticas”, que ganharam fama no meio paulistano. Sempre mau estudante, se bacharelou em 2ª época no começo de 1852, depois de um qüinqüênio ruidoso de troças, patuscadas, orgias e irreverência. Já então o distinguiam pela sua indisciplina, pelas alternativas de bom humor e melancolia, pelo coração bondoso e completa generosidade. Juiz municipal de Catalão, Província de Goiás, em 1852-1854 e 1861-1863, foi, de permeio, jornalista no Rio, de 1858 a 1860 ou 61.

Magistrado descuidado e humano, promoveu no segundo período de judicatura um júri sumário para libertar os presos, pessimamente instalados, e, intervindo motivos de conflito com o presidente da província, sofreu processo, do qual saiu triunfante. Depois de nova estadia no Rio, fixou-se a partir de 1866 na cidade natal, onde casou no ano seguinte e foi nomeado professor de retórica e poética no Liceu Mineiro. Casou-se no ano seguinte com Teresa Maria Gomes, tendo posteriormente, oito filhos. Uma das duas filhas foi Constança, falecida aos 17 anos, quando noiva de seu primo, o poeta Alphonsus de Guimaraens, que a imortalizou na literatura como a que “se morreu fulgente e fria”.

Extinta a cadeira, foi nomeado em 1873, professor de latim e francês em Queluz, atual Lafayette, onde morou uns poucos anos. Também esta cadeira foi extinta, e Basílio de Magalhães sugere que o motivo deve ter sido, em ambos os casos, ineficácia e pouca assiduidade do poeta. Em 1875 publicou o romance que melhor o situaria na campanha abolicionista e viria a ser a mais popular das suas obras: A Escrava Isaura. Dedicando-se inteiramente à literatura, escreveu ainda quatro romances e mais duas coletâneas de versos. A visita de Dom Pedro II à Minas Gerais, em 1881, deu motivo a que o Imperador prestasse expressiva homenagem a Bernardo Guimarães, a quem admirava. Voltando a Ouro Preto, ali viveu até a morte, em 10 de março de 1884.

Embora tenha começado a escrever ficção nos fins do decênio de 50, e tenha feito poesias até os últimos anos, como qualidade a sua melhor produção poética vai até o decênio de 1860; a partir daí, realiza-se de preferência na ficção. Estreando com os Cantos da Solidão em 1852, reúne-os com outros em 1865 nas Poesias. De 1866 é a publicação parcelada d’O Ermitão do Muquém (posto em livro em 69, mas redigido em 58), seguido por Lendas e Romances, 1871; O Garimpeiro, 1872; Lendas e tradições da Província de Minas Gerais (incluindo A Filha do Fazendeiro) e O Seminarista, 1872; O Indio Afonso, 1873; Maurício, 1877; A Ilha Maldita e O Pão de Ouro, 1879; Rosaura, a Enjeitada, 1883. Publicara mais duas coletâneas de versos: Novas Poesias, 1876, e Folhas de Outono, 1883. Postumamente surgiram o romance O Bandido do Rio das Mortes, 1904, e o drama A Voz do Pajé, 1914. Deve-se registrar além disso, uma saborosa produção de poesia obscena, cuja maioria se teria perdido, sendo algumas recolhidas em folheto.

Obras Publicadas

1852 Cantos da Solidão

1864 O Ermitão de Munquém

1865 Poesias

1867 Inspirações da Tarde

1871 Lendas e Romances

1872 O Seminarista

1872 História e Tradições da Província de Minas Gerais

1872 O Garimpeiro

1873 O Índio Afonso

1875 A Escrava Isaura

1876 Novas Poesias

1877 Maurício ou Os Paulistas em São João d’El Rei

1879 A Ilha Maldita e O Pão de Ouro

1883 Folhas de Outono

1883 Rosaura, a Enjeitada

Fontes:

http://www.sitedoescritor.com.br

http://www.spectrumgothic.com.br

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Ialmar Pio Schneider (O Poeta e o Pelicano)



Estava eu a matutar no que iria escrever nestas horas monótonas de minha vida, quando me deparei com uma poesia da época romântica francesa que traduzimos na adolescência, ao cursarmos o Científico. Lembro-me que o professor de francês no Colégio Nossa Senhora da Conceição de Passo Fundo – RS, era o irmão marista Érico, cujo apelido carinhoso era “Foquinha”, e que ao ler as poesias em voz alta ele se empolgava transmitindo uma emoção ímpar e que todos ouvíamos em silêncio, no original desta língua tão melódica quanto sonora, no meu mero entendimento. O livro em que estudávamos era o Cours de Français, de Augusto R. Rainha e José A. Gonçalves, e nas páginas 35, 36 e 37, constava a minibiografia do autor e a poesia a que me refiro, como segue:

“Época Romântica – A Poesia – MUSSET (1810-1957) –

1 – Alfred de Musset nasceu em Paris, onde após excelentes estudos, partiu do Cenáculo e se engajou no romantismo. Entretanto, não tardou a retomar uma independência da qual era cioso (ciumento). Levou, durante algum tempo, uma vida licenciosa que lhe não deixa senão remorso e desencantamento. Tornou-se então um poeta apaixonado. É o período de sua grande poesia.

Este poeta tão grande e tão maravilhoso, é Enfant du siècle (Filho do século), como ele gostava de se chamar a si mesmo, e morreu na idade de quarenta e sete anos.

2 – Suas Obras Líricas estão reunidas em dois volumes: Primeiras Poesias (Contos da Espanha e da Itália); Novas Poesias (as Noites), a melhor parte da obra do poeta.

3 – Musset é antes de tudo o “poeta do amor”. É seu princípio que “toda a obra literária consiste em abrir seu coração e a penetrar no coração do leitor”. “Ah ! bate de encontro ao teu coração: é lá que está o gênio” – escreveu. É um poeta todo pessoal (original), não gostava de imitar: “Mon verre n’est pas grand, mais je bois dans mon verre.” (Meu copo não é grande, mas eu bebo no meu copo).”

Após este prólogo tão interessante quanto necessário, a meu ver, em tradução minha adaptada, vamos à poesia:

“O PELICANO

Qualquer preocupação que sofras em tua vida,

Oh! deixa dilatar-se, esta santa ferida

Que os negros serafins têm cavado em teu peito

Nada nos faz tão grandes como um sofrer perfeito.

Mas, por estar atento, não creias, ó poeta,

Que no Mundo a tua voz deva ficar quieta !

Os mais pungentes são os cânticos mais belos,

E eu conheço imortais que são tristes anelos.

Quando o pelicano, em longa viagem solta,

Nas brumas da tardinha aos seus caniços volta,

Famintos filhos seus caminham sobre a praia,

Vendo-o esbater-se ao longe em cima às plúmbeas águas

Já crendo em apanhar e repartir a presa

Eles correm ao pai com gritos de alegrias

Erguendo os bicos sobre as gargantas frias.

Ele, galgando a passos lentos uma rocha elevada,

Em sua asa pendente abrigando a ninhada,

Pescador melancólico, ele olha os céus.

O sangue corre em golfadas em seu peito aberto;

Em vão dos mares escavou a profundeza:

O Oceano estava vazio e a praia deserta;

Por todo alimento ele traz seu coração.

Sombrio e silencioso, estendido sobre a pedra,

Repartindo aos seus filhos suas entranhas de pai,

No seu amor sublime embala a sua dor,

E, olhando escorrer seu peito a sangrar,

Sobre seu festim de morte ele se prostra e cambaleia,

Ébrio de volúpia, de ternura e de horror.

Mas às vezes, no meio do divino sacrifício,

Fatigado de morrer em tão longo suplício,

Ele acredita que os filhos o deixem vivendo;

Então soergue-se, abre sua asa ao vento,

E, ferindo-se o coração com um grito selvagem,

Solta dentro da noite um tão fúnebre adeus,

Que os pássaros dos mares desertam a beira-mar,

E que o viajor demorado na praia,

Sentindo passar a morte, se recomenda a Deus.”

(La Nuit de Mai (1835).

Ao findar o mês de maio em pleno outono, quis prestar uma homenagem in memoriam a este inigualável poeta romântico francês que com seu poema( inserido em Noites de Maio), demonstrou até onde vai o amor paterno e materno, sacrificando sua própria vida para que seus filhotes continuem a viver. É uma lição divina da natureza.

Fontes:

Texto enviado pelo autor

Imagem = http://www.iguinho.ig.com.br

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