Arquivo do mês: setembro 2011

Ialmar Pio Schneider (Soneto para a Alma Gêmea)


O poeta é aquele que vê mais longe:
pode saber de tudo ou quase nada….
Tanto é um pecador quanto é um monge,
vive numa caverna ou segue a estrada

dos sonhos. Às vezes parece um conde
a procurar sua alma gêmea, a maga
que num castelo medieval se esconde,
cuja lembrança a solidão lhe afaga.

Também não deixa de sofrer por isso
e nunca se conforta no prazer
de sempre se afastar do rebuliço;

assim é que pretende compreender
o destino que leva no feitiço
questionável do “ser ou do não ser” !

Canoas (RS), 01 de dezembro de 1999.

Fonte:
Soneto enviado pelo autor

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 350)

Uma Trova Nacional

O perdão é tão sublime
que, por mais que a ofensa doa,
põe uma paz que redime
no coração que perdoa.
-ZENAIDE MARÇAL/CE-

Uma Trova Potiguar

Entre o amor e o sonho vão,
eu sei que foste, querida,
a chave de uma ilusão
na porta da minha vida.
-SEBASTIÃO SOARES/RN-

Uma Trova Premiada

2011 – ATRN-Natal/RN
Tema : VERTENTE – 1º Lugar

Quando ilusões apagaram
as luzes daquele encanto,
meus olhos se transformaram
numa vertente de pranto…
-ANGÉLICA VILLELA SANTOS/SP-

Uma Trova de Ademar

Tendo o verso em parceria
mesmo aqueles mais tristonhos,
fiz um sarau de Poesia
numa varanda de sonhos.
-ADEMAR MACEDO/RN-

…E Suas Trovas Ficaram

Ao lembrar que o teu brinquedo
é decifrar-me, sorrio…
– De nada vale o segredo
de um velho cofre vazio.
-ALONSO ROCHA/PA-

Simplesmente Poesia

No Prelo.
-ABÍLIO PACHECO/BA-

Se a minha palavra é a minha busca
de uma vida inteira em todo mundo
e ela dorme encantada à sombra
de um livro raro, quiçá
encontrá-la-ei num alfarrábio,
num sebo, numa biblioteca pública…
Quem sabe minha resposta ainda
esteja no prelo.

Estrofe do Dia :

“Para Maria Teresa, Filha de Delcy Canalles/Rs”

Bem cedinho eu olhando o calendário
descobri que hoje é dia de alegria,
pois Teresa hoje faz aniversário
e eu compus para ela esta poesia.
Com essa jovem senhora e sonhadora
grande Mãe, grande Avó, grande Pintora,
eu irei festejar, mesmo daqui;
e pelos anos que hoje ela completa
vai aqui os parabéns deste Poeta
e um beijo carinhoso de Delcy.
-ADEMAR MACEDO/RN-

Soneto do Dia

Soneto Para Teresa.
-DELCY CANALLES/RS-
“Para a filha Maria Teresa”

30 de setembro, hoje, eu gostaria
de poder te abraçar, filha querida!
Tu és a causa da minha alegria
e a maior emoção, por mim, sentida!

56 anos de Arte e Estesia,
me fazem esta mãe agradecida,
que pede a Deus, por ti, neste teu dia,
e em cada dia de uma longa vida!

Brilhas na profissão de jornalista
e assombras, na pintura, como artista!
As tuas telas são uma beleza!

Junto ao esposo, aos filhos e aos teus netos,
desejo que tu vivas entre afetos,
querida filha, MARIA TERESA!

Fonte:
Textos enviados pelo autor

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Florbela Espanca (Mensageira das Violetas) IV

RÚSTICA

Ser a moça mais linda do povoado,
Pisar, sempre contente, o mesmo trilho,
Ver descer sobre o ninho aconchegado
A bênção do Senhor em cada filho.

Um vestido de chita bem lavado,
Cheirando a alfazema e a tomilho…
Com o luar matar a sede ao gado,
Dar às pombas o sol num grão de milho…

Ser pura como a água da cisterna,
Ter confiança numa vida eterna
Quando descer à “terra da verdade”…

Meu Deus, dai-me esta calma, esta pobreza!
Dou por elas meu trono de princesa,
E todos os meus reinos de ansiedade.

CONTO DE FADAS

Eu trago-te nas mãos o esquecimento
Das horas más que tens vivido, amor!
E para as tuas chagas o ungüento
Com que sarei a minha própria dor.

Os meus gestos são ondas de Sorrento…
Trago no nome as letras duma flor…
Foi dos meus olhos garços que um pintor
Tirou a luz para pintar o vento…

Dou-te o que tenho: o astro que dormita,
O manto dos crepúsculos da tarde,
O sol que é d´ouro, a onda que palpita.

Dou-te comigo o mundo que Deus fez!
– Eu sou aquela de quem tens saudade,
A princesa de conto: “Era uma vez…”

EU

Até agora eu não me conhecia,
Julgava que era eu e eu não era
Aquela que em meus versos descrevera
Tão clara como a fonte e como o dia.

Mas que eu não era eu não o sabia
E, mesmo que o soubesse, o não dissera…
Olhos fitos em rútila quimera
Andava atrás de mim…

E não me via!
Andava a procurar-me – pobre louca!
– E achei o meu olhar no teu olhar,
E a minha boca sobre a tua boca!

E esta ânsia de viver, que nada acalma,
É a chama da tua alma a esbrasear
As apagadas cinzas da minha alma!

PASSEIO NO CAMPO

Meu amor! Meu amante! Meu amigo!
Colhe a hora que passa, hora divina,
Bebe-a dentro de mim, bebe-a comigo!
Sinto-me alegre e forte! Sou menina!

Eu tenho, amor, a cinta esbelta e fina…
Pele dourada de alabastro antigo…
Frágeis mãos de madona florentina…
– Vamos correr e rir por entre o trigo!

Há rendas de gramíneas pelos montes…
Papoulas rubras nos trigais maduros…
Água azulada a cintilar nas fontes…

E à volta, amor… tornemos, nas alfombras
Dos caminhos selvagens e escuros,
Num astro só as nossas duas sombras…

MENDIGA

Na vida nada tenho e nada sou;
Eu ando a mendigar pelas estradas…
No silêncio das noites estreladas
Caminho, sem saber para onde vou!

Tinha o manto do sol… quem mo roubou?!
Quem pisou minhas rosas desfolhadas?!
Quem foi que sobre as ondas revoltadas
A minha taça de ouro espedaçou?

Agora vou andando e mendigando,
Sem que um olhar dos mundos infinitos
Veja passar o verme, rastejando…

Ah, quem me dera ser como os chacais
Uivando os brados, rouquejando os gritos
Na solidão dos ermos matagais!…

SUPREMO ENLEIO

Quanta mulher no teu passado, quanta!
Tanta sombra em redor! Mas que me importa?
Se delas veio o sonho que conforta,
A sua vinda foi três vezes santa!

Erva do chão que a mão de Deus levanta,
Folhas murchas de rojo à tua porta…
Quando eu for uma pobre coisa morta,
Quanta mulher ainda! Quanta! Quanta!

Mas eu sou a manhã: apago estrelas!
Hás de ver-me, beijar-me em todas elas,
Mesmo na boca da que for mais linda!

E quando a derradeira, enfim, vier,
Nesse corpo vibrante de mulher
Será o meu que hás de encontrar ainda…

TOLEDO

Diluído numa taça de ouro a arder
Toledo é um rubi. E hoje é só nosso!
O sol a rir…Viv´alma…Não esboço
Um gesto que me não sinta esvaecer…

As tuas mãos tateiam-me a tremer…
Meu corpo de âmbar, harmonioso e moço,
É como um jasmineiro em alvoroço
Ébrio de sol, de aroma, de prazer!

Cerro um pouco o olhar, onde subsiste
Um romântico apelo vago e mudo
– Um grande amor é sempre grave e triste.

Flameja ao longe o esmalte azul do Tejo…
Uma torre ergue ao céu um grito agudo…
Tua boca desfolha-me num beijo…

SER POETA

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de infinito!
Por elmo, as manhãs de ouro e de cetim…
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

ALVORECER

A noite empalidece. Alvorecer…
Ouve-se mais o gargalhar da fonte…
Sobre a cidade muda, o horizonte
É uma orquídea estranha a florescer.

Há andorinhas prontas a dizer
A missa d´alva, mal o sol desponte.
Gritos de galos soam monte em monte
Numa intensa alegria de viver.

Passos ao longe…um vulto que se esvai…
Em cada sombra Colombina trai…
Anda o silêncio em volta a q´rer falar…

E o luar que desmaia, macerado,
Lembra, pálido, tonto, esfarrapado,
Um Pierrot, todo branco, a soluçar…

Amar!

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: aqui…além…
Mais este e aquele, o outro e toda a gente….
Amar!Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!…
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar.

E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… pra me encontrar…

Fonte:
ESPANCA, Florbela. A mensageira das violetas: antologia. Seleção e edição de Sergio Faraco. Porto Alegre: L&PM, 1999. (Pocket).

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Hermoclydes S. Franco (Proposições a um Vocabulário em Trovas) Letra "B"

BABÁ: que não cause danos,
Para quaisquer afazeres…
BACALHÁU: Dos lusitanos
Eis o maior dos prazeres!

BACO: Grande Deus do vinho.
BAÇO: Glândula. Sem brilho.
BACORIM: É leitãozinho.
BAFEJO: A vida no trilho.

BAGUNÇA: Pândega; Inteira
E ruidosa reinação…
BAILE: Na côrte ou gafieira
Sempre a mesma animação.

BAITA: Grande; Bem crescido.
BAIXEL: Uma embarcação.
BAIXELA: Brinde querido
Que vira “de estimação”…

BANDA: Marcial ou “furiosa”,
Sons para todos os gostos.
Também rasteira maldosa
Que machuca muitos rostos…

BANDEIRA: A própria nação;
Símbolo para se amar;
Praça que, em pleno verão,
No Rio… parece o mar….

BOCEJO: Em marmanjo é sono
Mas, em nenê, é gracejo…
Enfado em que nem o dono
Da boca, doma-la, vejo.

BORDEL: Velho lupanar,
Ou melhor, casa suspeita.
(Depois do motel chegar,
agora, tudo se ajeita).

BOTE: Embarcação pequena
Que ajuda na pescaria…
De uma cobra que envenena
Deus nos livre! Ave-Maria!

Fonte:
O Autor

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Silvia Araújo Motta (Envelhecer sem Notar)

Poema Nº 1582

Vejo nas folhas que caem
que o inverno vai chegar,
Nas estrelas que se apagam,
meu tempo de descansar.
Relógio? Desnecessário.
Valorizo minha hora,
no segundo extraordinário,
vivo pensando no “agora”.
Meio século de vida
e os sete cumpro a somar…
na música, amor, poesia,
Trago a missão bem cumprida
com metas, planos de um dia…
Nos sonhos e fantasias,
um trabalho útil, honroso
de incontáveis alegrias,
fez-me o mundo prazeroso.
Valores transcendentais
aos minutos cultivados
a buscar cada vez mais
espíritos elevados…
Ficarei “sex”? Pois sim!
Com perfeita lucidez?
SEXagenária? Ah! Sim…
Daqui a pouco é minha vez!
SEXOxigenada nos cabelos…
Mais adolescente, talvez…
A história de cada saudade
dos momentos e pessoas…
Olhos miúdos!!!!!Verdade!
Muito para recordar!
Tantos fatos! Coisas boas!
Na infância e maturidade!
Meus quinze ou vinte anos!
Milagres! Maturidade!
Recebi e dei nos carinhos,
amor, atenção, compreensão!
Trabalhei com inteligência,
pra gostar do que fazia!
Filhos amados!…Meus amores!
Até netos… quem diria!
Lutei pra ter paciência!
Enfrentei tantos problemas!
Alguns consegui vencer
pela Fé que me carrega.
Meu espelho interior
Diz-me até…que já cresci!
Da gravidez… na balança,
faço o parto da alegria…
Agradeço todo dia
a Deus, pelo meu talento,
pelo amor, pela alegria
e pelo conhecimento.
O sol nasce acima das nuvens
e a lua inteira brilha no lago
porque alta vive, a cada dia!
Envelheci e não vi…por isso,
começaria tudo outra vez.

Fonte:
Poesia enviada pela autora

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Raquel Amélia dos Santos (Ler com a Alma)


Ler é muito mais do que simplesmente decifrar o código escrito. A leitura plena e eficaz de qualquer tipo de texto, só acontece quando o que se dispõe a fazê-lo, assume-se participante do objeto da leitura no sentido de utilizar mais do que seus conhecimentos sobre o código.

É uma atividade complexa e carregada de possibilidades de criação, interação e interpretação entre indivíduos e contextos.

O leitor aplica ao ato de ler, conhecimentos linguisticos e gramaticais, que são internalizados durante sua trajetória e vivência com a linguagem escrita.

Além desses conhecimentos, ainda pode e deve contar com a imaginação, o raciocínio, a vontade, e uma flexibilidade suficiênte para deslocar-se para o ponto de vista do escritor.

Esse deslocamento acontece mesmo que seja inconsciente e provisório.

Vale lembrar também, que nem escritor, nem leitor estão neutros diante de uma produção textual, seja ela literária ou não.

Escritor e leitor são portadores de uma história e de uma bagagem cultural que acabam por determinar e porque não dizer, personalizar os modos de leitura, interpretação e aplicação do objeto lido.

Saber-se participante de uma produção textual, pode ser um bom caminho na construção da necessária flexibilidade que deve permear o ato de ler.

Por meio da leitura é possível conhecer novas e antigas idéias, rever, elaborar e reelaborar pensamentos, informações e conhecimentos.

O que é escrito em papel, numa tela de computador ou em qualquer outro portador, não traz consigo uma verdade absoluta e irrevogavel. Um texto escrito, comporta apenas parte de modos de pensar, parte de uma filosofia, parte de crenças e até parte da imaginação e fantasia de alguém.

O texto escrito, tem suas limitações. A linguagem escrita não pode contar com todos os elementos contextuais, com gestos, expressões faciais, movimentos ou expressões corporais. Apesar de seus limites, mobiliza tanto o que escreve como o que lê o que foi escrito.

Leitor e escritor fazem uma espécie de trabalho em equipe. E neste trabalho, há constante movimento.

O leitor lê, pode ler, reler, fazer anotações, pensar, comparar, parar a leitura, continuar e utilizar-se dela de várias maneiras. O escritor também conta a mobilidade de reelaborar, rever, repensar e reeditar suas produções. E em muitos casos, o faz em decorrência do retorno e interação gerados pelo público alvo de seu trabalho.

A mobilidade da qual escritor e leitor utilizam-se, promove aprendizagem mútua e aciona mais que a habilidade de reconhecer o código escrito e decifrá-lo, pois a relação que se estabelece entre esses agentes, é permeada de elementos pessoais, emocionais, sociais, intelectuais, culturais e até afetivos.

Vendo por este ângulo, pode-se afirmar que é possivel escrever e ler com a alma.
Ler com a alma é ler com a plenitude do ser. O ser é o que se é de fato, a essência. O que há de permanente na personalidade ou no caráter de cada pessoa.

É certo que há um estar sendo, uma parte de atitudes e pensamentos de cada pessoa, que é transitória. É o ser é quem decide sobre a parte transitória que há em cada um.

Pode ser que a leitura seja em alguns momentos motivada pelo ser, em outros momentos pelo estar sendo e as vezes pelos dois.

Um tema sobre o qual algum escritor decide escrever pode servir como alimento do ser ou do estar sendo.

Na perspectiva de alimentar a alma ou o intelecto por exemplo, a leitura é sempre motivada pelo desejo ou necessidade de cada pessoa, que são regidos pelo Ser.

No entanto, a necessidade por si só, nem sempre tem força para acionar o desejo. Já o desejo, atua com mais eficácia sobre o ser que o porta. Este atua mesmo não havendo necessidade.

O desejo é mais poderoso que a necessidade em muitos casos. Uma pessoa tem a necessidade de alimentar-se, mas pode não sentir fome ou vontade de comer. Neste caso, a necessidade pura e simples, não é suficiente para provocar a ação. Já o desejo, busca seus interesses, mesmo não havendo uma real necessidade.

A leitura é uma atividade que muitas vezes é tratada como mera necessidade. Como em muitos casos nos processos de ensino/aprendizagem na educação formal, em que a ação de ler é tratada unicamente objetivando a apreensão de conteúdos propostos em uma disciplina que compõe o currículo.

O desejo de ler, nem sempre apoia-se em razões bem claras e definidas. Mas também pode surgir por várias razões. Até por “razões mágicas”, afirma Rubem Alves: “Ler é um ritual antropofágico. (…) A antropofagia não se fazia por razões alimentares. Fazia-se por razões mágicas. Quem come a carne do sacrificado se apropria das virtudes que moravam no seu corpo. (…) Cada leitura é um ritual mágico.”

Desejo e necessidade, nem sempre andam juntos. Mas são elementos impulsionadores da alma humana.

Quando criança deleitava-me com uma professora que lia histórias em voz alta para a turma. A leitura feita por ela, continha aspectos singulares como, entonação de voz, ritmo e uma musicalidade que lhe eram próprias, fez toda diferença para minha formação como leitora.

Uma de minhas irmãs, Rute, lia para mim e para meus irmãos. Lia trechos da bíblia, histórias do livro “As mil e uma noites” e outros. Ela também me ensinou a ler. Quando entrei para a escola, já sabia ler.

Sua voz, postura e visão sobre os textos lidos nunca saíram da minha memória.
Ela despertou em mim disposição e desejos por “rituais mágicos”, que são realizados através da poder proporcionado pela leitura.

Hoje assumo a ação de ler como necessidade movida pelo desejo.

Aprender a ler com a alma, é mais que uma necessidade, é ler com a plenitude do ser, tomando emprestado o desejo da alma de alguém, aliando-o ao próprio desejo. Pode ser forma mais flexível de viver e estar no mundo.

Fonte:
Texto enviado pela autora

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Francisco Pessoa (De Pessoa para Pessoa)


2º lugar no Concurso Nacional (LITTERIS EDITORA – RJ) dentre 942 poesias concorrentes.

Comemoração do nascimento do grande Fernando Pessoa.

O concurso solicitava que se fizese uma poesia em alusão à sua mais comhecida poesia entre nós. ” O poeta é um fingidor, finge tão…….!

Fernando Pessoa

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,

Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas da roda

Gira, a entreter a razão,

Esse comboio de corda

Que se chama coração.

27/11/1930

Fco. José Pessoa De Pessoa para Pessoa

Poesia é um sonho e, se sonhado,
Sobre nuvens volutas, pictóricas,
Rédeas soltas sem bridas, metafóricas,
Faz do poeta um ser místico e alado.
Quem o lê, leia certo ou leia errado,
Sempre os versos encontram seu intento…
Lamentar cada um com seu lamento,
E sorrir cada um com seu sorriso,
Coração de poeta é sem juízo
E a razão de fingir é seu talento!
27/11/2009

Fonte:
Francisco Pessoa

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Ialmar Pio Schneider (Soneto Quixotesco IV)


Nascimento de Miguel de Cervantes Saavedra 29 de setembro de 1547

Naquela tarde volta Dom Quixote
de um dos combates contra os moinhos
de vento e vem andando a largo trote,
em seu Rocinante, nos caminhos…

Sancho Pança o acompanha, o bom velhote,
não pertencia ao grupo dos mesquinhos,
vêm devagar sem que ninguém os note,
ouvindo gorjear os passarinhos…

O Cavaleiro Andante está cansado,
em vão tem combatido, tem lutado,
defendendo com fibra sua ideia…

Em que pensava assim andando a esmo?
Um sonho guarda dentro de si mesmo:
conquistar e viver com Dulcineia !

Fonte:
Soneto enviado pelo autor

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Academia Sul-Brasileira de Letras (Sarau Poético-Musical)

CONVITE

Tenho a alegria de convidá-los para o Sarau Poético-Musical que a Academia Sul-Brasileira de Letras realizará no Auditório da Casa dos Conselhos, à rua 3 de maio, 1060, no próximo dia 04/10, às vinte horas e trinta minutos, tendo como fonte inspiradora São Francisco de Assis.

Encareço aos apreciadores das Letras levarem textos a serem lidos na ocasião, se assim o desejarem, para maior brilho do evento.

Após será servido coquetel.

Pelotas, 29 de setembro de 2010.

Olga Maria Dias Ferreira
Presidente


Fonte:
Ligia Leivas

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Amosse Mucavele (Conversa do Pão e da Escrita)

Ao Marcelo Panguana*

Pão- Oi! Ví aquele homem que certa vez disse que conhecia o local onde foram sepultados os Ossos de Ngungunhane** a andar como um louco.

Escrita- Quando?

Pão- Ontem, ao fim da tarde! Acreditas que ele falava para si mesmo dizendo falta-me algo.

Escrita- O que é que fizeste para o ajudar?

Pão- Nada! Somente fiquei com pena dele,e é por isso que estou partilhando consigo este pesadelo, que não sai da minha cabeça mesmo acordado.

Escrita- Sabes! Deverias ter lhe arranjado um livro para ele (pro)ler.

Pão- Pareces que não conheces esta nossa cidade? Na avenida em que cruzei com ele não tem nem sequer uma bilbioteca,ou livraria, o que tem de mais são barracas,discotecas,e drogarias. Mas, amigo! O porquê do livro? Achas que a leitura poderia ter curado a loucura que o acompanhava naquela tarde?

ESCRITA- Sim! Lembro-me dele ter me segredado que quando encotra-se com os livros e lê, ele sente os seus pés a pisarem o chão das coisas que o rodeiam, e a sua alma a dançar a balada dos deuses, e quando anoitece convida o amigo à volta da fogueira, conversam com os seus antepassados e compartilham as estórias de reconciliação.

Pão- Oh,interessante! É por isso que o chamam a voz que fala verdades!A propósito, quando o encontrares, peça-o para me ensinar a tocar xipalapala.***
==============
Notas:

* MARCELO PANGUANA – escritor e jornalista moçambicano,Charrueiro,atualmente é diretor da Revista Proler Fundo Bibliográfico da Lingua Portuguêsa),onde assina uma coluna denominada Algum Algo. Xipalapala nome da coluna que assinava no Jornal Notícias na decada 90.

Publicou – As vozes que Falam de Verdade, 1987; A Balada dos Deuses, 1991; Os Fazedores da Alma, 1997 (com Jorge de Oliveira – entrevistas, Estórias de Reconciliação – com Ungulani Ba Ka Cossa, Os Ossos de Ngungunhane, 2006; Como um Louco ao Fim da Tarde, 2010,e tem no prêlo o livro O Pão e a Escrita.

** NGUNGUNHANE, Mdungazwe Ngungunyane Nxumalo, N’gungunhana, Gungunhana ou Reinaldo Frederico Gungunhana (Gaza, c. 1850 — Angra do Heroísmo, 23 de Dezembro de 1906) foi o último imperador do Império de Gaza, no território que actualmente é Moçambique, e o último monarca da dinastia Jamine. Cognominado o Leão de Gaza, o seu reinando estendeu-se de 1884 a 28 de Dezembro de 1895, dia em que foi feito prisioneiro por Joaquim Mouzinho de Albuquerque na aldeia fortificada de Chaimite. Já conhecido da imprensa europeia, a administração colonial portuguesa decidiu condená-lo ao exílio em vez de o mandar fuzilar, como o fizera a outros. Foi transportado para Lisboa, acompanhado por um filho de nome Godide e por outros dignitários. Após uma breve permanência naquela cidade, foi desterrado para os Açores, onde viria a falecer onze anos mais tarde

*** XIPALAPALA – Substantivo feminino e singular derivado de “Xi-pala-pala”, termo incerto no idioma Ronga (também reconhecido como XiRonga) que é um dialecto do sudeste africano e da família Tswa-Ronga, especialmente audível nas regiões do sul de Moçambique e nordeste da África do Sul.

O vocábulo é designativo de uma corneta produtora de magnas sonoridades, sintetizada a partir de uma haste de um antílope cuja específica identificação é impala.

É muito comum em Moçambique, onde diversos povos nativos a utilizavam e ainda usam como meio de chamamento, de convocação para variados mas determinados fins; e.g., para juntar os líderes intelectuais e políticos em uma reunião importante onde cruciais assuntos eram e são debatidos ou, até mesmo, somente para unificar o povo em alguma celebração ocasional ou oficializada, alguma ocorrência espontânea ou preestabelecida.

Exemplo: O chefe da tribo fez soar a xipalapala, chamando todos os constituintes do grupo à sua presença.

Ele tem voz de xipalapala. Todo o bairro escuta suas profundas falas quando ele conversa na intimidade de sua casa com sua mulher

Fontes:
O Autor
NGUNGUNHANE e XIPALAPALA = wikipedia

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Silvia Araújo Motta (Acróstico para O Voo da Gralha Azul numero 7)


Acróstico nº 3949 de agradecimento ao Presidente, Acadêmico José Feldman/PhI/ALB/Paraná.
Por Sílvia Araújo Motta/BH/ALB/MG.

O-O VOO da GRALHA AZUL nº SETE…

V-Veio do Paraná-Junho/Agosto de 2011.
O-O Acadêmico J.Feldman, na internete
O-Ostenta a Idealização, Seleção e Edição;

D-Digno de aplausos, em sua Presidência:
A-Academia de Letras do Brasil, do Paraná.

G-Garante o sucesso do excelente Blogspot,
R-Rico de pura e clássica LITERATURA…
A-Agora, em cento e sessenta e nove páginas,
L-Leva o ALMANAQUE que semeia cultura!
H-Hoje, pode colher seus sonhos plantados:
A-A Poesia e Prosa criam asas pela inspiração!

A-A Gralha Azul chegou silenciosamente…
Z-Zelosamente, trouxe de Sílvia Araújo Motta
U-Uma nota autobiográfica, em seis sonetos…
L-Liderando a esperança de mudança na rota.

—Muito Obrigada,Presidente J.Feldman!—

Fonte:
A autora

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Casa do Poeta de Canoas (Sarau Comemorativo 9. Aniversário)


A Casa do Poeta de Canoas convida para as atividades comemorativas ao seu 9º aniversário.

SARAU COMEMORATIVO 9º ANIVERSÁRIO

Sexta-feira – 30/9/2011 – 19h

Clube Cultural Canoense
Rua Dr. Barcelos, 1271 – Centro / Canoas

Contamos com o prestígio da presença de nosso associados, amigos e simpatizantes.

Maria Santos Rigo
Presidente da Casa do Poeta de Canoas

Fone: (51) 3476.4431 / 9669.4615
http://www.casadospoetas.com.br

poetas@casadospoetas.com.br

Fonte:
Casa do Poeta de Canoas

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Calendário Poético de Mesa


A Editora Alcance realiza, pelo décimo ano, seu querido projeto Calendário Poético de Mesa.

Mais do que em livros, livrarias, internet, e-books, destacamos honrosamente suas poesias ilustradas com fotos, pinturas, desenhos.

Pelo Calendário Poético de Mesa os autores estarão presentes com sua arte, ao alcance dos olhos encantados de seus amigos e leitores em geral… o ano inteiro. Por 12 meses seus versos brilharão para todos. Nós cuidamos da criação, apresentação e impressão de sues trabalhos.

Características:
Calendário de mesa com 12 meses, impresso em papel couchê 180 gramas, tamanho 15×18 cm, com suporte e wiro. Um luxo!

Tiragem:
250 calendários ou mais, a combinar.

Data de Entrega:
Lançamento e autógrafos dos Calendários na Feira do Livro de Porto Alegre em novembro deste ano. Um belo presente ou comercialização junto ao seu público.

Prazo de Inscrições:
até o dia 07 de outubro de 2011.

Mais informações:
Fones: (51) 3346-5001/ e-mail: atendimentoalcance@gmail.com

Modelos do calendário acima.

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Marcelo Spalding (Oficina de Escrita Criativa à Distância)


Faça do seu computador, de qualquer lugar do Brasil…

OFICINA DE ESCRITA CRIATIVA À DISTÂNCIA

Curso de extensão Uniritter com 20 horas de duração

Técnicas de criação literária para a utilização em textos ficcionais ou não-ficcionais, narrativos e dissertativos. A oficina será integralmente realizada em ambiente EAD, com conteúdos postados ao longo de 8 semanas e interação entre os participantes.

Alguns dos temas abordados:
subtexto;
tipos de narrador;
verossimilhança;
tempo da narrativa;
concisão;
to show, not to tell.

ATENÇÃO:
não é vídeo-aula, é curso de verdade, com postagens periódicas, interação professor-aluno e interação entre os alunos da turma.

Ministrante: Marcelo Spalding (jornalista, escritor e professor)

Período: 07 de outubro a 25 de novembro/2011

Investimento: R$ 260,00 o curso todo

Inscrições pelo fone 51-3464-2000, com Elizabeth
ou pelo email marcelo@marcelospalding.com

VAGAS LIMITADAS

Fonte:
Marcelo Spalding

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Olavo Bilac (Alma Inquieta: poesias) 3


VANITAS

Cego, em febre a cabeça, a mão nervosa e fria,
Trabalha. A alma lhe sai da pena, alucinada,
E enche-lhe, a palpitar, a estrofe iluminada
De gritos de triunfo e gritos de agonia.
Prende a idéia fugaz; doma a rima bravia,
Trabalha… E a obra, por fim, resplandece acabada:
“Mundo, que as minhas mãos arrancaram do nada!
Filha do meu trabalho! ergue-te à luz do dia!

Cheia da minha febre e da minha alma cheia,
Arranquei-te da vida ao ádito profundo,
Arranquei-te do amor à mina ampla e secreta!

Posso agora morrer, porque vives!” E o Poeta
Pensa que vai cair, exausto, ao pé de um mundo,
E cai – vaidade humana! – ao pé de um grão de areia…


TERCETOS

I

Noite ainda, quando ela me pedia
Entre dois beijos que me fosse embora,
Eu, com os olhos em lágrimas, dizia:

“Espera ao menos que desponte a aurora!
Tua alcova é cheirosa como um ninho…
E olha que escuridão há lá por fora!

Como queres que eu vá, triste e sozinho,
Casando a treva e o frio de meu peito
Ao frio e à treva que há pelo caminho?!

Ouves? é o vento! é um temporal desfeito!
Não arrojes à chuva e à tempestade!
Não me exiles do vale do teu leito!

Morrerei de aflição e de saudade…
Espera! até que o dia resplandeça,
Aquece-me com a tua mocidade!

Sobre o teu colo deixa-me a cabeça
Repousar, como há pouco repousava…
Espera um pouco! deixa que amanheça!”

– E ela abria-me os braços. E eu ficava.

II

E, já manhã, quando ela me pedia
Que de seu claro corpo me afastasse,
Eu, com os olhos em lágrimas , dizia:

“Não pode ser! não vês que o dia nasce?
A aurora, em fogo e sangue, as nuvens corta…
Que diria de ti quem me encontrasse?

Ah! nem me digas que isso pouco importa!…
Que pensariam, vendo-me, apressado,
Tão cedo assim, saindo a tua porta,

Vendo-me exausto, pálido, cansado,
E todo pelo aroma de teu beijo
Escandalosamente perfumado?

O amor, querida, não exclui o pejo…
Espera! até que o sol desapareça,
Beija-me a boca! mata-me o desejo!

Sobre o teu colo deixa-me a cabeça
Repousar, como há pouco repousava!
Espera um pouco! deixa que anoiteça!”

– E ela abria-me os braços. E eu ficava.

IN EXTREMIS

Nunca morrer assim! Nunca morrer num dia
Assim! de um sol assim!
Tu, desgrenhada e fria,
Fria! postos nos meus os teus olhos molhados,
E apertando nos teus os meus dedos gelados…

E um dia assim! de um sol assim! E assim a esfera
Toda azul, no esplendor do fim da primavera!
Asas, tontas de luz, cortando o firmamento!
Ninhos cantando! Em flor a terra toda! O vento
Despencando os rosais, sacudindo o arvoredo…

E, aqui dentro, o silêncio… E este espanto! e este medo!
Nós dois… e, entre nós dois, implacável e forte,
A arredar-me de ti, cada vez mais, a morte…

Eu, com o frio a crescer no coração, – tão cheio
De ti, até no horror do derradeiro anseio!
Tu, vendo retorcer-se amarguradamente,
A boca que beijava a tua boca ardente,
A boca que foi tua!

E eu morrendo! e eu morrendo
Vendo-te, e vendo o sol, e vendo o céu, e vendo
Tão bela palpitar nos teus olhos, querida,
A delícia da vida! a delícia da vida!

A ALVORADA DO AMOR

Um horror grande e mudo, um silêncio profundo
No dia do Pecado amortalhava o mundo.
E Adão, vendo fechar-se a porta do Éden, vendo
Que Eva olhava o deserto e hesitava tremendo,
Disse:

“Chega-te a mim! entre no meu amor,
E à minha carne entrega a tua carne em flor!
Preme contra o meu peito o teu seio agitado,
E aprende a amar o Amor, renovando o pecado!
Abençôo o teu crime, acolho o teu desgosto,
Bebo-te, de uma em uma, as lágrimas do rosto!

Vê! tudo nos repele! a toda a criação
Sacode o mesmo horror e a mesma indignação…
A cólera de Deus torce as árvores, cresta
Como um tufão de fogo o seio da floresta,
Abre a terra em vulcões, encrespa a água dos rios;
As estrelas estão cheias de calefrios;
Ruge soturno o mar; turva-se hediondo o céu…

Vamos! que importa Deus? Desata, como um véu,
Sobre a tua nudez a cabeleira! Vamos!
Arda em chamas o chão; rasguem-te a pele os ramos;
Morda-te o corpo o sol; injuriem-te os ninhos;
Surjam feras a uivar de todos os caminhos;
E, vendo-te a sangrar das urzes através,
Se emaranhem no chão as serpes aos teus pés…
Que importa? o Amor, botão apenas entreaberto,
Ilumina o degredo e perguma o deserto!
Amo-te! sou feliz! porque, do Éden perdido,
Levo tudo, levando o teu corpo querido!

Pode, em redor de ti, tudo se aniquilar:
– Tudo renascerá cantando ao teu olhar,
Tudo, mares e céus, árvores e montanhas,
Porque a Vida perpétua arde em tuas entranhas!
Rosas te brotarão da boca, se cantares!
Rios te correrão dos olhos, se chorares!
E se, em torno ao teu corpo encantador e nu,
Tudo morrer, que importa? A Natureza és tu,
Agora que és mulher, agora que pecaste!

Ah1 bendito o momento em que me revelaste
O amor com o teu pecado, e a vida com o teu crime!
Porque, livre de Deus, redimido e sublime,
Homem fico, na terra, à luz dos olhos teus,
– Terra, melhor que o céu! homem, maior que Deus!”

VITA NUOVA

Se ao mesmo gozo antigo me convidas,
Com esses mesmos olhos abrasados,
Mata a recordação das horas idas,
Das horas que vivemos apartados!
Não me fales das lágrimas perdidas,
Não me fales dos beijos dissipados!
Há numa vida humana cem mil vidas,
Cabem num coração cem mil pecados!

Amo-te! A febre, que supunhas morta,
Revive. Esquece o meu passado, louca!
Que importa a vida que passou? Que importa,

Se ainda te amo, depois de amores tantos,
E inda tenho, nos olhos e na boca,
Novas fontes de beijos e de prantos?!

MANHÃ DE VERÃO

As nuvens, que, em bulcões, sobre o rio rodavam,
Já, com o vir de manhã, do rio se levantam.
Como ontem, sob a chuva, estas águas choravam!
E hoje, saudando o sol, como estas águas cantam!

A estrela, que ficou por último velando,
Noive que espera o noivo e suspira em segredo,
Desmaia de pudor, apaga, palpitando,
A pupila amorosa, e estremece de medo.

Há pelo Paraíba um sussuro de vozes,
Tremor de seios nuns, corpos brancos luzindo…
E, alvas, a cavalgar broncos monstros ferozes,
Passam, como num sonho, as náiades fugindo.

A rosa, que acordou sob as ramas cheirosas,
Diz-me: “Acorda com um beijo as outras flores quietas!
Poeta! Deus criou as mulheres e as rosas
Para os beijos do sol e os beijos dos poetas!”

E a ave diz: “Sabes tu? Conheço-a bem… Parece
Que os Gênios de Oberon bailam pelo ar dispersos,
E que o céu se abre todo, e que a terra floresce,
– Quando ela principia a recitar teus versos!”
E diz a luz: “Conheço a cor daquela boca!
Bem conheço a maciez daquelas mãos pequenas!
Não fosse ela aos jardins roubar, trêfega e louca,
O rubor da papoula e o alvor das açucenas!”

Diz a palmeira: “Invejo-a! ao vir a luz radiante,
Vem o vento agitar-me e desnastrar-me a coma:
E eu pelo vento envio ao seu cabelo ondeante
Todo o meu esplendor e todo o meu aroma!”

E a floresta, que canta, e o sol, que abre a coroa
De ouro fulvo, espancando a matutina bruma,
E o lírio, que estremece, e o pássaro, que voa,
E a água, cheia de sons e de flocos de espuma,

Tudo, – a cor, o clarão, o perfume e o gorjeio,
Tudo, elevando a voz, nesta manhã de estio,
Diz: “Pudesses dormir, poeta! No seu seio,
Curvo como este céu, manso como este rio!”

DENTRO DA NOITE

Ficas a um canto da sala,
Olhas-me e finges que lês…
Ainda uma vez te ouço a fala,
Olho-te ainda uma vez;
Saio… Silêncio por tudo:
Nem uma folha se agita;
E o firmamento, amplo e mudo,
Cheio de estrelas palpita.
E eu vou sozinho, pensando
Em teu amor, a sonhar,
No ouvido e no olhar levando
Tua voz e teu olhar.

Mas não sei que luz me banha
Todo de um vivo clarão;
Não sei que música estranha
Me sobre do coração.
Como que, em cantos suaves,
Pelo caminho que sigo,
Eu levo todas as aves,
Todos os astros comigo.
E é tanta essa luz, é tanta
Essa música sem par,
Que nem sei se é a luz que canta,
Se é o som que vejo brilhar.

Caminho em êxtase, cheio
Da luz de todos os sóis,
Levando dentro do seio
Um ninho de rouxinóis.
E tanto brilho derramo,
E tanta música espalho,
Que acordo os ninhos e inflamo
As gotas frias do orvalho.
E vou sozinho, pensando
Em teu amor, a sonhar,
No ouvido e no olhar levando
Tua voz e teu olhar.

Caminho. A terra deserta
Anima-se. Aqui e ali,
Por toda parte desperta
Um coração que sorri.
Em tudo palpita um beijo,
Longo, ansioso, apaixonado,
E um delirante desejo
De amar e de ser amado.
E tudo, – o céu que se arqueia
Cheio de estrelas, o mar,
Os troncos negros, a areia,
– Pergunta, ao ver-me passar:

“O Amor, que a teu lado levas,
A que lugar te conduz,
Que entras coberto de trevas,
E sais coberto de luz?
De onde vens? Que firmamento
Correste durante o dia,
Que voltas lançando ao vento
Esta inaudita harmonia?
Que país de maravilhas,
Que Eldorado singular
Tu visitaste, que brilhas
Mais do que a estrela polar?”

E eu continua a viagem,
Fantasma deslumbrador,
Seguido por tua imagem,
Seguido por teu amor.
Sigo… Dissipo a tristeza
De tudo, por todo o espaço,
E ardo, e canto, e a Natureza
Arde e canta, quando eu passo,
– Só porque passo pensando
Em teu amor, a sonhar,
No ouvido e no olhar levando
Tua voz e teu olhar…

Fonte:
BILAC, Olavo. Antologia : Poesias. São Paulo : Martin Claret, 2002. Alma Inquieta. (Coleção a obra-prima de cada autor). Digitalizado por Anamaria Grunfeld Villaça Koch – São Paulo/SP

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 349)


Uma Trova Nacional

Por mais louca … mais confusa …
que eu esteja em meus anseios,
quem me dera ser a musa
dos teus doces devaneios!
-MARIA NELSI SALES DIAS/SP-

Uma Trova Potiguar

Buscando a felicidade
por este mundo sem fim…
Descobrir uma verdade:
Ela está dentro de mim!
-FRANCISCO MACEDO/RN-

Uma Trova Premiada

2010 – CTS-Caicó/RN
Tema: OCASO – 8º Lugar

O ocaso… o ajuste da lente…
o clique… a fotografia:
– a imagem do sol poente,
nos braços do fim do dia…
-DARLY O. BARROS/SP-

Uma Trova de Ademar

A Saudade na pessoa
faz ela ficar doente;
por mais que saudade doa,
mas só quem ama é quem sente!
-ADEMAR MACEDO/RN-

…E Suas Trovas Ficaram

A igreja, as flores e o eleito,
ela de branco e eu tristonho;
foi o cenário perfeito
para o enterro de meu sonho.
-ALONSO ROCHA/PA-

Simplesmente Poesia

Descaminhos. (Para Ela)
-SERGIO SEVERO/RN-

Por que teimo em dirigir
minha atenção a Você,
que em “contra marchas”, não vê,
todo o meu Amor fluir?

Que a Estrada do seu Porvir,
seja, quiçá, asfaltada,
e cada curva fechada,
bem lhe faça refletir.

Olhe a conversão na Via!
Não atropele a Poesia,
na contramão dos meus passos…

… e à margem da Compaixão,
deixar o meu Coração,
por inteiro, aos pedaços.

Estrofe do Dia

Se for um parlamentar
pode ter crime a vontade
que o dedo da impunidade
não deixa lhe investigar,
se alguém o denunciar
é sujeito a ser punido,
processado e ser tangido
pra o beco da emboscada;
toda lei ultrapassada
só favorece o bandido.
-GERALDO AMÂNCIO/CE-

Soneto do Dia

Página Virada
-REGINALDO ALBUQUERQUE/MS-

Tarde da noite, em meio à quietude das ruas,
encontro nesta banca há muito abandonada,
no entulho de jornais e traças junto à entrada,
revista masculina, expondo moças nuas.

E tremo ao desfazer a página virada…
No encarte especial, fotografias tuas
em poses sensuais dizem verdades cruas
que sangram cicatriz que imaginei curada.

A propaganda exalta algum lugar distante…
A lua espreguiçada em seu quarto minguante
lança cintilações sobre esta saudade oca…

Por um momento a banca agita a velha porta…
Se o teu vulto é ilusão ou real, o que importa?
Aplaco a minha dor beijando a tua boca…

Fonte:
Textos enviados pelo Autor

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Monteiro Lobato (O Presidente Negro) VII – Futuro e Presente


CAPÍTULO VII

Futuro e Presente

Ao entrar no gabinete iluminei-me todo por dentro. Estava miss Jane adiante do globo de cristal, absorvida com certeza na visualização de um corte anatômico. Um raio de sol coado pela vidraça transfazia em luz o louro de seus cabelos. Miss Jane era toda atenção. Seus olhos azuis verdadeiramente bebiam algum maravilhoso quadro. O professor Benson estacou á porta, fazendo-me gesto de silencio, e assim permaneceu até que a moça desse volta a um comutador e regressasse ao presente.

— Papai, exclamou ela, estou no fim da tragédia, no crepúsculo da raça. Dudlee ganhou uma estatua… Boa tarde, senhor Ayrton. Desculpe-me o estar dizendo a meu pai coisas que nem por sombras o senhor pode desconfiar o que sejam. Compreendo que é indelicado falar em língua estranha na presença de pessoas que a desconhecem…

A bondade de miss Jane encantou-me; e, como a jovem não me olhasse nos olhos, pude replicar:

— Mas tudo nesta casa me é linguagem estranha! O que acabo de ver assombra-me de tal maneira que tão cedo não me reconhecerei a mim mesmo.

— Está fazendo progressos, Jane, disse o professor. O amigo Ayrton compreendeu muito bem a parte teórica da minha exposição.

— Ou compreendi, exclamei, ou pareceu-me compreender. Aqui o professor fala com tal simplicidade e clareza que nem parece um sábio. Conheci um lá na cidade, e grande, a avaliar pela fama, com quem tive de tratar a mandado da firma. Pois confesso que não pesquei coisa nenhuma do que o homem disse. Esse, sim, parecia falar uma linguagem de mim nem sequer suspeitada…

— Não era um verdadeiro sábio, interveio miss Jane. Os verdadeiros são como meu pai, claros e fecundos como a luz do sol. Mas quer saber o senhor Ayrton o que eu fazia ha pouco?

— Não lhe contes ainda, Jane. Explica-lhe primeiro a função do porviroscopio, enquanto vou repousar um bocado. Sou velho e qualquer esforço além do habitual me cansa.

Antes que o professor Benson se retirasse, deu miss Jane um salto na cadeira, leve como a corça, e veio beijá-lo no rosto.

— Este querido paizinho! Murmurou, acompanhando-o com os olhos amorosamente.

Depois voltando-se para mim:

— Não é uma benção das fadas ter um pai destes? Como sabe conciliar a máxima inteligência com a máxima bondade!

— E com a máxima simplicidade! Acrescentei. Não caibo em mim de gosto ao ver o homem que podia ser dono do mundo, se quisesse, tratar-me como se eu fora alguém.

— Não se espante disso. Meu pai é coerente com as suas idéias.

Todos para ele somos meras vibrações do éter.

— Até miss Jane?

— Eu serei vibração de um éter especial, muito afim do que vibra nele, explicou ela a sorrir. Mas, sentemo-nos, senhor Ayrton, que ha muito que conversar.

Já disse que eu era um rapaz acanhado, sobretudo em presença de moças bonitas; mas o ambiente de familiaridade e franqueza daquela casa modificou-me logo. Cheguei até a suportar nos olhos os olhares da linda jovem, sem perder a tramontana como da primeira vez. É que nem remotamente lembrava aquele olhar o olhar malicioso das mulheres que eu conhecera. Fui percebendo aos poucos que de feminino só havia em miss Jane o aspecto. Seu espírito formado na ciência e seu convívio com um homem superior, dela afastavam todas as preocupações de coquetismo, próprias da mulher comum.

Isso me pôs á vontade. Sentia-me, não um moço em frente de uma donzela, mas um espírito diante do outro.

Aproveitei o ensejo para esclarecer-me a respeito do professor Benson. Soube que era descendente de um mineralogista norte-americano que um século antes viera ao Brasil estudar a composição de certa zona aurífera. Gostou da terra e nela se fixou, casando-se com a filha de um fazendeiro de S. Paulo.

— Desse consorcio, explicou miss Jane, só veio ao mundo meu pai, que cedo foi enviado á Europa, onde se dedicou a estudos científicos. Lá se casou tarde e lá residiu por certo tempo. Veio depois tomar posse dos bens deixados pelo meu avô — e aqui nasci eu. Mas não me lembro de minha mãe. Morreu muito moça, anos 9 anos… Desde essa época estabeleceu-se meu pai neste recanto e consagrou-se integralmente á sua invenção. Passou o nosso mundo a
resumir-se neste laboratório. Raras vezes vamos á cidade, pouco interesse, aliás, achando nós dois em seu tumulto.

— Pudera! Quem tem o passado e o futuro nas mãos…

— Realmente é isso. Este aparelho fornece-nos tamanhas maravilhas, que a bem dizer vivemos muito mais no porvir do que no presente. Meu gosto é realizar estudos dos anos mais remotos, e só lamento não ter um cérebro imenso qual o oceano para reter tudo o que vejo. Outra coisa que lamento é não podermos dar a publico a nossa invenção. A bondade de meu pai o impede.

— Não alcanço muito bem o porquê…

— Pretende ele, e com muita lógica, que a humanidade não está apta a suportar a revelação do futuro. Acha que a sua invenção cairia no poder de um grupo o qual abusaria da tremenda soma de superioridade que a descoberta lhe concederia. Fosse meu pai um homem vulgar, de pouca sensibilidade de coração, e ele mesmo assumiria o predomínio que receia ver na posse de outrem. Basta dizer que até hoje apenas se utilizou deste invento para reunir o dinheiro necessário á nossa vida e aos enormes dispêndios dos seus estudos.

— Agora me lembro, miss Jane, que lá fora é o professor Benson conhecido como um jogador de cambio que jamais perde.

— E assim é. Fizemos experiência com o marco e o franco e os fatos corresponderam com exatidão ás indicações deste aparelho. Mas meu pai limitou-se a ganhar o necessário para o trem de vida que leva. Estamos na posse de elementos para alcançar o que quisermos, para reunirmos nas mãos a maior soma de ouro com que se possa sonhar. Isso, porém, nos seria de todo inútil. Para que necessitamos da mesquinha riqueza do mundo se nada não nos dá ela que se aproxime do que temos aqui?

— Por mais espantosa, miss Jane, que seja a descoberta do professor Benson, espanta-me ainda mais o caráter das duas pessoas que estão no seu segredo. Podem ser tudo e não querem ser nada…

— Ser tudo!… Que significa ser tudo? Quando penso nas grandezas do mundo, rio-me delas…

Miss Jane conversou comigo por mais de um hora sobre os mais variados assuntos. E explicou-me depois o funcionamento do aparelho, recorrendo ás suas imagens habituais, tão pitorescas. A corrente perdia no globo de cristal a sua forma concentrada e visualizava-se como numa projeção de cinema, reproduzindo momentos de vida futura cora a exatidão que vai ter um dia.

— Ficamos na posição de um espectador imóvel num ponto. Só vemos e ouvimos o que passa ao alcance dos nossos olhos ou soa ao alcance dos nossos ouvidos. Isso ás vezes dificulta a compreensão de certos momentos da vida futura. Aparecem-nos coisas que não podemos compreender por falta dos elos anteriores da evolução. No ano 3.527, por exemplo, vi na população da França evidentes sinais de mongolismo. Os trajes não lembravam nada do que usam hoje as criaturas em parte nenhuma da terra, nem sequer pude perceber de que seriam feitos. Esqueci-me de dizer que o nosso aparelho não vai além do ano 3.527. Sua potencia pára aí. Focalizado para o ano de 3.528 já dá uma visão de tal modo baça que não distinguimos nada. Ficamos, eu e meu pai, perplexos ante aquele mongolismo da França. Só depois, fazendo cortes menos recuados e combinando uns com os outros, conseguimos decifrar o mistério. Tinham-se derramado pela Europa os mongóis e se substituído á raça branca.

Não pude conter um gesto de espanto, e fiz tal cara que miss Jane sorriu.

— Que horror! Vai então acontecer essa catástrofe? exclamei.

A jovem sabia respondeu com serena impassibilidade:

— Por que, catástrofe? Tudo que é tem razão de ser, tinha forçosamente de ser; e tudo que será terá razão de ser e terá forçosamente de ser. O amarelo vencerá o branco europeu por dois motivos muito simples: come menos e prolifera mais. Só se salvará da absorção o branco da America. E como esta, quantas revelações curiosas! Outra, que muito me impressionou, foi a transformação das ruas que se nota no ano 2.200 em diante. Cessa a era dos veículos. Nada de bondes, automóveis ou aviões no céu.

—Como pode ser isso, miss Jane? É quase um absurdo.

—Pois para lá caminhamos. Em cortes sucessivos que fiz de dez em dez anos observei a diminuição rápida dos veículos atuais. A roda, que foi a maior invenção mecânica do homem e hoje domina soberana, terá seu fim. Voltará o homem a andar a pé. O que se dará é o seguinte: o radio-transporte tornará inútil o corre-corre atual. Em vez de ir todos os dias o empregado para o escritório e voltar pendurado num bonde que desliza sobre barulhentas rodas de aço, fará ele o seu serviço em casa e o radiará para o escritório. Em suma: trabalhar-se-á á distancia. E acho muito lógica esta evolução. Não são hoje os recados transmitidos instantaneamente pelo telefone? Estenda esse principio a tudo e verá que imensas possibilidades para vir trazê-lo. O progresso foi grande, mas repare quando á radiocomunicação se acrescentar o radio-transporte. Outrora, por exemplo, se o senhor Ayrton quisesse fumar um charuto tinha de mandar um criado buscá-lo á charutaria; hoje pede-o pelo telefone, mas o charuteiro ainda é obrigado a mobilizar um carregador para vir trazê-lo. O progresso foi grande, mas repare que atraso ainda! Mobilizar um homem, isto é, uma massa de 60 ou 70 quilos de carne, fazê-lo dar mil ou cinco mil passos, gastando vinte ou trinta minutos da sua vida. só para transportar um simples charuto! Chega a ser grotesco…

— Realmente. Mas no futuro?

— No futuro o senhor Ayrton fumará á distancia. Veja quanta economia de tempo e esforço humano!

Julguei que miss Jane estivesse a caçoar comigo e até hoje permaneço na duvida. Em seu rosto, porém, não vi a menor sombra de motejo.

—Pode ser, mas… duvidei.

—Esse mesmo “pode ser, mas…” diria um romano do tempo de Cesar se alguém lhe predissesse que um romano do tempo do óleo de rícino não precisaria sair de sua casa para conversar com um cidadão de Paris. Sabe o senhor Ayrton, no entanto, que isso é comezinho hoje e nem sequer admira a ninguém.

—Falar é uma coisa e fumar é outra.

—Hoje, que só temos a radio-comunicação. Mas chegará o dia da radio-sensação e do radio-transporte, com radical mudança do nosso sistema de vida. Os veículos ao sistema corrente desaparecerão um por um. Voltará o homem a caminhar a pé, por prazer, e as ruas se tornarão uma delicia. O senhor Ayrton sabe o que quer dizer uma rua hoje…

—Ninguém melhor do que eu, miss Jane, pois desde menino vivo nelas. Que angustia, que permanente inquietação! Temos que andar com cinquenta olhos arregalados, para prevenirmos trancos e atropelamentos.

— Tudo isso desaparecerá, e adquirirão as cidades uma calma deliciosa, como hoje a de certas aldeias. Vi New York nesse período. Que diferença do atropelado e doido formigueiro de agora!

— Deve miss Jane ter observado coisas maravilhosas!…

— Menos maravilhosas do que desnorteantes para as nossas idéias atuais. As invenções vão sobrevivendo no decurso do tempo, umas saídas das outras, e as coisas tomam ás vezes rumo muito diverso do que a lógica, com ponto de partida no estado atual, nos faria prever,

O professor Benson reapareceu nesse momento e a conversa tomou outro rumo. Eu me achava na situação de um homem que ingerisse um estupefaciente desconhecido. Estava com a minha capacidade de assimilação de idéias esgotada e já com uma ponta de dor de cabeça a dar sinal de que o cérebro exigia repouso. Sem que eu o dissesse, o velho sábio, mais sua filha, compreenderam-no perfeitamente e dali até o jantar só me falaram de coisas repousantes.

Á noite custei a conciliar o sono, o que era natural. Mas sinceramente o digo: o que mais me dançava na cabeça não era o desvendamento do futuro nem as suas abracadabrantes maravilhas, e sim a imagem de miss Jane. A estranha criatura loura, de olhos tão azuis, impressionara por igual meu cérebro e meu coração. Comecei a ver nela o verdadeiro tudo; e se me dessem a opinar entre a posse da descoberta do professor Benson e o tê-la ao meu lado para o resto da vida, não vacilaria um instante na escolha.

Dormi por fim e, em vez de sonhar com o mundo futuro entrevisto na palestra da moça, sonhei no encanto do presente, todo resumido em conjugal convivência com o meigo anjo sábio.
—————
continua… VIII – A Luz que se Apaga

Fonte:
Monteiro Lobato. O Presidente Negro. Editora Brasiliense, 1979.

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Wagner Marques Lopes (Trova Ecológica)

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29 de setembro de 2011 · 00:03

Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 348)


Uma Trova Nacional

Exilio, os sonhos da gente
perdidos na multidão,
numa vaga simplesmente
de um quartinho de pensão.
–NILTON MANOEL/SP–

Uma Trova Potiguar

Nos percalços desta vida,
quando a maldade nos corta,
é graça bem recebida
se alguém nos abre uma porta.
–REINALDO AGUIAR/RN–

Uma Trova Premiada

2007 – Belo Horizonte/MG
Tema: GRAÇA – Venc.

Quem cumpre as metas que traça,
sem perder de vista o norte,
tem em suas mãos a graça
dos rumos da própria sorte.
–WANDA HORILDA DE LIMA/MG–

Uma Trova de Ademar

A distância cria uns laços
que enrosca qualquer um bamba.
A saudade não tem braços,
mais aperta pra caramba!
–ADEMAR MACEDO/RN–

…E Suas Trovas Ficaram

Não sabe, quem não aceita
as cruzes que carregamos,
que a nossa vida é colheita
daquilo que nós plantamos.
–ALICE ALVES NUNES/DF–

Simplesmente Poesia

Preservação
R. C. LIMA/PB

Tudo estava preservado,
cada cor no mesmo tom.
O mesmo jarro quebrado,
o mesmo sofá marrom.
Mesmo tapete vermelho,
e aquele adeus no espelho
que ela “escreveu” com batom.

Estrofe do Dia

Eu não creio em quem faz economia
passa fome com pena de gastar,
vê um pobre faminto e não lhe dar
um pedaço do pão de cada dia,
tem dinheiro, tem terra e vacaria
nega um copo de leite a uma criança,
junta tudo que pode e ainda avança
pra tomar um pedaço do alheio;
pode até se salvar mas eu não creio
só se Deus der um toque na balança.
–DIMAS BIBIU/PB–

Soneto do Dia

Os Parceiros
–MARIO QUINTANA/RS–

Sonhar é acordar-se para dentro:
de súbito me vejo em pleno sonho
e no jogo em que todo me concentro
mais uma carta sobre a mesa ponho.

Mais outra! É o jogo atroz do Tudo ou Nada!
E quase que escurece a chama triste…
E, a cada parada uma pancada,
o coração, exausto, ainda insiste.

Insite em quê? Ganhar o quê? De quem?
O meu parceiro… eu vejo que ele tem
um riso silencioso a desenhar-se

numa velha caveira carcomida.
Mas eu bem sei que a morte é seu disfarce…
Como também disfarce é a minha vida!

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Hermoclydes Siqueira Franco (Proposições a um Vocabulário em Trovas) LETRA “A”

NOTA EXPLICATIVA

Em novembro de 1985, por ocasião da festa de encerramento dos JOGOS FLORAIS DE NITERÓI, tive ocasião de conhecer JACY PACHECO.

Realizava, então, o talentoso membro da Academia Niteroiense de Letras, o lançamento do trabalho a que denominou ‘VOCABULÁRIO EM TROVAS” – algo de novo no campo das trovas – composto de mais de 300 trovas e abrangendo mais de 400 vocábulos.

Em sua “nota ao leitor” esclarecia que, compulsando o trabalho, “… o leitor encontrará, em meio ao rigor das rimas e da métrica, ora o significado exato de um termo, ora o disparate, proposital, capaz de provocar o riso e quebrar o tom severo e característico dos dicionários…”

A transcrição acima é necessária para esclarecer que foi sob o contágio da beleza, espirituosidade e precisão da obra de Jacy, e com a preocupação de captar-lhe o espírito e a forma, que elaboramos, como contribuição ao seu trabalho, cerca de 130 trovas, incluindo 222 vocábulos novos, de tal forma que poderiam ser, perfeitamente, inseridos nos espaços permitidos pela ordem alfabética seguida pelo excelente bardo fluminense.

Esta nossa NOTA EXPLICATIVA é importante para que, agora, 25 anos passados da elaboração deste nosso trabalho, que infelizmente não pôde ser adicionado ao Vocabulário de JACY, em face de seu falecimento, possam os leitores compreender alguns pormenores incluídos nos verbetes que criamos e, também, a razão da escassez de palavras que poderiam ampliar o âmbito da nossa PROPOSIÇÃO AO VOCABULÁRIO EM TROVAS.

Hermoclydes S. Franco – Texto de 1986 resumido em 2011

ABRIL: Mês da reverência
A Tancredo e Tiradentes;
Liberdade, Inconfidência
E alegrias pertinentes…

AÇUCAR: É a sacarose;
Doçura, (quase lhaneza).
ACUPUNTURA: É uma dose
De agulhadas, à chinesa.

ADEUS: Triste interjeição,
Diz quem parte, diz quem fica.
Quase sempre é rejeição.
Quase sempre não se explica.

AGÔSTO: Mês singular,
Que marca bem nosso inverno.
Traz as ressacas ao mar
E ao céu um luar eterno…

ALABASTRO: É uma gipsita
Que tem alvura translúcida.
ÁLACRE: Alegria (aflita)
De gente nem sempre lúcida.

ALAMBIQUE: Que destila.
ALAMEDA: Arborizada,
Qual “Boulevard” lá da Vila,
Por Noel eternizada.

ÁLBUM: Família vistosa.
ALBUMINA: A proteína
Que dizem ser perigosa
Quando encontrada na urina.

ALCATRA: Carne de boi;
Boa de panela ou tacho.
ALCATRÃO: Se não é, foi
O conhaque do borracho.

ÁLCOOL: Um líquido forte,
Derruba qualquer valente.
ALCÓOLATRA: Ser, ser sorte,
Que esbarra, sempre, na gente.

ALMAÇO: Papel de prova
Que nos relembra o passado.
ALMEJAR: Vencer com trova
Que não tenha “pé-quebrado”.

ALMIRANTE: É oficial
Mesmo depois do “pijama”.
ALMOÇAR: No “natural”
Sem engordar um só grama.

ALMOFADINHA: Rapaz
Que se traja com apura.
ALMOTOLIA: É o que faz
O óleo entrar, mesmo no escuro.

AMÉRICA: O Novo Mundo
Descoberto por Colombo.
AMESTRAR: Treinar, a fundo,
Sem dar lambadas no lombo.

ARQUITETO: É o engenheiro
Que dizem que até deu certo.
ARQUIVO: Só de dinheiro;
E há tanto ladrão por perto.

Fontes:
Trovas enviadas pelo autor
Imagem – O Trovadorismo

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Olavo Bilac (Alma Inquieta: poesias) 2


NOTURNO

Já toda a terra adormece.
Sai um soluço da flor.
Rompe de tudo um rumor,
Leve como o de uma prece.

A tarde cai. Misterioso,
Geme entre os ramos o vento.
E há por todo o firmamento
Um anseio doloroso.

Áureo turíbulo imenso,
O ocaso em púrpuras arde,
E para a oração da tarde
Desfaz-se em rolos de incenso.

Moribundos e suaves,
O vento na asa conduz
O último raio da luz
E o último canto das aves.

E Deus, na altura infinita,
Abre a mão profunda e calma,
Em cuja profunda palma
Todo o Universo palpita.

Mas um barulho se eleva…
E , no páramo celeste,
A horda dos astros investe
Contra a muralha da treva.

As estrelas, salmodiando
O Peã sacro, a voar,
Enchem de cânticos o ar…
E vão passando… passando…

Agora, maior tristeza,
Silêncio agora mais fundo;
Dorme, num sono profundo,
Sem sonhos, a natureza.

A flor-da-noite abre o cálix…
E, soltos, os pirilampos
Cobrem a face dos campos,
Enchem o seio dos vales:

Trêfegos e alvoroçados,
Saltam, fantásticos Djins,
De entre as moitas de jasmins,
De entre os rosais perfumados.

Um deles pela janela
Entre no teu aposento,
E pára, plácido e atento,
Vendo-te, pálida e bela.

Chega ao teu cabelo fino,
Mete-se nele: e fulgura,
E arde nessa noite escura,
Como um astro pequenino.

E fica. Os outros lá fora
Deliram. Dormes… Feliz,
Não ouves o que ele diz,
Não ouves como ele chora…

Diz ele: “O poeta encerra
Uma noite, em si, mais triste
Que essa que, quando dormiste,
Velava a face da terra…

Os outros saem do meio
Das moitas cheias de flores:
Mas eu saí de entre as dores
Que ele tem dentro do seio.

Os outros a toda parte
Levam o vivo clarão,
E eu vim do seu coração
Só para ver-te e beijar-te.

Mandou-me sua alma louca,
Que a dor da ausência consome,
Saber se em sonho o seu nome
Brilha agora em tua boca!

Mandou-me ficar suspenso
Sobre o teu peito deserto,
Por contemplar de mais perto
Todo esse deserto imenso!”

Isso diz o pirilampo…
Anda lá fora um rumor
De asas rufladas… A flor
Desperta, desperta o campo…

Todos os outros, prevendo
Que vinha o dia, partiram,
Todos os outros fugiram…
Só ele fica gemendo.

Fica, ansioso e sozinho,
Sobre o teu sono pairando…
E apenas, a luz fechando,
Volve de novo ao seu ninho,

Quando vê, inda não farto
De te ver e de te amar,
Que o sol descerras do olhar,
E o dia nasce em teu quarto…

VIRGENS MORTAS

Quando uma virgem morre, uma estrela aparece,
Nova, no velo engaste azul do firmamento:
E a alma da que morreu, de momento em momento,
Na luz da que nasceu palpita e resplandece.

Ó vós, que, no silêncio e no recolhimento
Do campo, conversais a sós, quando anoitece,
Cuidado! – o que dizeis, como um rumor de prece,
Vai sussurrar no céu, levado pelo vento…

Namorados, que andais, com a boca transbordando
De beijos, perturbando o campo sossegado
E o casto coração das flores inflamando,
– Piedade! elas vêem tudo entre as moitas escuras…
Piedade! esse impudor ofende o olhar gelado
Das que viveram sós, das que morreram puras!

O CAVALEIRO POBRE
(Pouchkine)

Ninguém soube quem era o Cavaleiro Pobre,
Que viveu solitário, e morreu sem falar:
Era simples e sóbrio, era valente e nobre,
E pálido como o luar.

Antes de se entregar às fadigas da guerra,
Dizem que um dia viu qualquer cousa do céu:
E achou tudo vazio… e pareceu-lhe a terra
Um vasto e inútil mausoléu.

Desde então, uma atroz devoradora chama
Calcinou-lhe o desejo, e o reduziu a pó.
E nunca mais o Pobre olhou uma só dama,
Nem uma só! nem uma só!

Conservou, desde então, a viseira abaixada:
E, fiel à Visão, e ao seu amor fiel,
Trazia uma inscrição de três letras, gravada
A fogo e sangue no broquel.

Foi aos prélios da Fé. Na Palestina, quando,
No ardor do seu guerreiro e piedoso mister,
Cada filho da Cruz se batia, invocando
Um nome caro de mulher,

Ela rouco, brandindo o pique no ar, clamava:
“Lumen coeli Regina!” e, ao clamor dessa voz,
Nas hostes dos incréus como uma tromba entrava,
Irresistível e feroz.

Mil vezes sem morrer viu a morte de perto,
E negou-lhe o destino outra vida melhor:
Foi viver no deserto… E era imenso o deserto!
Mas o seu Sonho era maior!

E um dia, a se estorcer, aos saltos, desgrenhado,
Louco, velho, feroz, – naquela solidão
Morreu: – mudo, rilhando os dentes, devorado
Pelo seu próprio coração.

IDA

Para a porta do céu, pálida e bela,
Ida as asas levanta e as nuvens corta.
Correm os anjos: e a criança morta
Foge dos anjos namorados dela.

Longe do amor materno o céu que importa?
O pranto os olhos límpidos lhe estrela…
Sob as rosas de neve da capela,
Ida soluça, vendo abrir-se a porta.

Quem lhe dera outra vez o escuro canto
Da escura terra, onde, a sangrar, sozinho,
Um coração de mão desfaz-se em pranto!

Cerra-se a porta: os anjos todos voam…
Como fica distante aquele ninho,
Que as mães adoram… mas amaldiçoam!

NOITE DE INVERNO

Sonho que estás à porta…
Estás – abro-te os braços! – quase morta,
Quase morta de amor e de ansiedade…
De onde ouviste o meu grito, que voava,
E sobre as asas trêmulas levava
As preces da saudade?

Corro à porta… ninguém! Silêncio e treva.
Hirta, na sombra, a Solidão eleva
Os longos braços rígidos, de gelo…
E há pelo corredor ermo e comprido
O suave rumor de teu vestido,
E o perfume subtil de teu cabelo.

Ah! se agora chegasses!
Se eu sentisse bater em minhas faces
A luz celeste que teus olhos banha;
Se este quarto se enchesse de repente
Da melodia, e do clarão ardente
Que os passos te acompanha:

Beijos, presos no cárcere da boca,
Sofreando a custo toda a sede louca,
Toda a sede infinita que os devora,
– Beijos de fogo, palpitando, cheios
De gritos, de gemidos e de anseios,
Transbordariam por teu corpo afora!…

Rio aceso, banhando
Teu corpo, cada beijo, rutilando,
Se apressaria, acachoado e grosso:
E, cascateando, em pérolas desfeito,
Subiria a colina de teu peito,
Lambendo-te o pescoço…

Estrela humana que do céu desceste!
Desterrada do céu, a luz perdeste
Dos fulvos raios, amplos e serenos;
E na pele morena e perfumada
Guardaste apenas essa cor dourada
Que é a mesma cor de Sírius e de Vênus.

Sob a chuva de fogo
De meus beijos, amor! terias logo
Todo o esplendor do brilho primitivo;
E, eternamente presa entre meus braços,
Bela, protegerias os meus passos,
-Astro formoso e vivo!

Mas… talvez te ofendesse o meu desejo…
E, ao teu contacto gélido, meu beijo
Fosse cair por terra, desprezado…
Embora! que eu ao menos te olharia,
E, presa do respeito, ficaria
Silencioso e imóvel a teu lado.

Fitando o olhar ansioso
No teu, lendo esse livro misterioso,
Eu descortinaria a minha sorte…
Até que ouvisse, desse olhar ao fundo,
Soar, num dobre lúgubre e profundo,
A hora da minha morte!

Longe embora de mim teu pensamento,
Ouvirias aqui, louco e violento,
Bater meu coração em cada canto;
E ouvirias, como uma melopéia,
Longe embora de mim a tua idéia,
A música abafada de meu pranto.

Dormirias, querida…
E eu, guardando-te, bela e adormecida,
Orgulhoso e feliz com o meu tesouro,
Tiraria os meus versos do abandono,
E eles embalariam o teu sono,
Como uma rede de ouro.

Mas não bens! não virás! Silêncio e treva…
Hirta, na sombra, a Solidão eleva
Os longos braços rígidos de gelo;
E há, pelo corredor ermo e comprido,
O suave rumor de teu vestido
E o perfume subtil de teu cabelo…

Fonte:
BILAC, Olavo. Antologia : Poesias. São Paulo : Martin Claret, 2002. Alma Inquieta. (Coleção a obra-prima de cada autor). Digitalizado por Anamaria Grunfeld Villaça Koch – São Paulo/SP

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Monteiro Lobato (O Presidente Negro) VI – O Tempo Artificial


CAPITULO VI
O Tempo Artificial

Quando de novo me encontrei com o professor Benson no laboratório prosseguiu ele na exposição interrompida.

— Onde estávamos, senhor Ayrton?

— Na pré-determinação.

— Sim. Foi nesse ponto que Jane nos interrompeu. Pois bem: se tudo inexoravelmente se determina pela influencia recíproca das vibrações, se é isto pura mecânica, embora duma meta-mecânica inacessível ás forças da inteligência do homem, é lógico que a predeterminação é possível em teoria.

— E na prática também! aventei eu iluminado de súbita ideia. Homens há que adivinham ocorrências futuras. Eu mesmo já tive ocasião de observar comigo um curioso caso de pressentimento lá nos negócios da firma. Veio-me não sei de onde a ideia de que um freguês ia falir. Disse-o ao senhor Sá, o qual me chamou de tolo. Um mês mais tarde esse freguês abria bancarrota! Nunca me pude explicar isso pois nada conhecia dos seus negócios, nem coisa nenhuma ouvira falar a respeito.

— Esse caso pode ser visto de outra maneira. A ideia de requerer falência podia estar em ação no cérebro do freguês. Ideia é vibração que repercute em ondas como tudo mais, e certos cérebros possuem bela faculdade emissiva ou receptora. Emitiu esse freguês uma vibração da ideia e o cérebro do senhor Ayrton agiu como polo receptor.

— Mas a leitura das linhas da mão? A quiromante que na Martinica predisse a Josefina, então simples burguesinha crioula, que seria imperatriz da França?

— Aí já o caso é diverso, como no de todas as profecias comprovadas. Havemos que conceber certas organizações possuidoras duma faculdade pré-determinante. E não me custa admitir isso, já que construi o pré-determinador.

— Que significa essa nova palavra, professor?

— Vamos ao pavilhão vizinho; lá me compreenderá melhor. Passamos á sala imediata, recinto envidraçado e em forma de funil, cujo bico era uma das tais torres de ferro enxadrezado.

— Aqui temos o nervo ótico do futuro. Chamo a este conjunto “o grande coletor da onda Z.”

Eu andava de novidade em novidade e por mais alerta que pusesse o cérebro tinha de fazer paradas constantes, pedindo ao professor explicações parciais.

— Onda Z, professor Benson? Ainda não me falou nela.

— Só agora chegou o momento. A multiplicidade infinita das formas, isto é, das vibrações do éter, produz turbilhões ou ondas, que consegui classificar uma por uma e captar por meio deste conjunto receptor que as polariza…

— ?I

— Polarizar é reunir tudo num só ponto, num polo.

— Compreendo.

— Este conjunto receptor polariza os turbilhões e os funde numa espécie de corrente continua, ou, usando de imagem concreta, de um jato. Suponha milhões de gotas de chuva a caírem num imenso funil e a saírem pelo bico sob a forma continua de um jorro cristalino. Todas as gotas estão no jato, mas fundidas e sob outra forma. Assim o meu coletor. Apanha o turbilhão das ondas e as polariza naquele aparelho.

Olhei para o aparelho que o dedo do professor apontava e apenas vi um emaranhado de fios e grandes carretéis de arame, que em calão eu definiria muito bem com a palavra estrumela. Mas guardei o vocábulo, visto que a lição da Groenlândia ainda estava muito fresca em minha memória.

— Consigo assim, prosseguiu o sábio, concentrar em minhas mãos o presente, isto é, o momento atual da vida do universo, como imensa paisagem panorâmica que toda se reflete numa chapa fotográfica e nela se conserva latente até que vá ao banho revelador. Quer isto dizer que na corrente continua, invisível como o fluido elétrico, que gira naquele caos aparente de fios, solenoides e bobinas, está tudo quanto constitui o momento universal!

Apesar da segurança do velho sábio e da solidez de suas deduções eu permanecia numa vaga duvida. Na minha curteza mental eu achava excessivo estar tudo quanto existe reduzido a tão homeopáticas proporções e, ainda mais, impalpável e invisível. O professor Benson adivinhou a minha indecisão e esmagou-a como quem esmaga uma pulga.

— Sabe o que é isto? perguntou mostrando-me uma coisinha de minúsculas dimensões.

— Uma semente, respondi.

— E que é uma semente? Uma pré-determinação. Aqui dentro está predeterminada uma árvore de colossais dimensões que se chama jequitibá. Se o amigo admite que desta semente, que analisada só revela a presença de um bocado de amido, sais, graxa, etc. Surja sempre, e de um modo fatal, um majestoso jequitibá, porque vacila em admitir um fenômeno semelhante, qual a polarização do momento universal numa semente, que no caso é o fluido que circula no meu aparelho?

O símile matou-me de vez todas as veleidades de ceticismo e foi como quem ouve a voz de Deus que dali por diante me entreguei sem reservas ás palavras do sábio.

— Prossiga, doutor, murmurei.

O professor Benson prosseguiu.

— Obtenho, pois, neste aparelho, uma corrente continua, que é o presente. Tudo se acha impresso em tal corrente. Os cardumes de peixes que neste momento agonizem no seio do oceano ao serem apanhados pela agua tépida da Corrente do Golfo; o juiz bolchevista que neste momento assina a condenação de um mujik relapso num tribunal de Arkangel; a palavra que, em Zorn, neste momento, o kronprinz dirige ao ex-imperador da Alemanha; a flor do pêssego que no sopé do Fushiama recebe a visita de uma abelha; o leucócito a envolver um micróbio malévolo que penetrou no sangue dum fakir da India; a gota d’agua que espirra do Niagara e cai num líquen de certa pedra marginal; a matriz de linotipo que em certa tipografia de Calcutá acaba de cair no molde; a formiguinha que no pampa argentino foi esmagada pelo casco do potro que passou a galope; o beijo que num estúdio de Los Angeles Glória Swanson começa a receber de Valentino…

— A fatura que neste momento o senhor Sá está acabando de somar… Compreendo, professor. Toda a vida, todas as manifestações poliformes da vida, tudo está ali, como o jequitibá, com todos os seus galhos e folhas e passarinhos que pousam nele e cigarras que o elegem para palco de suas cantorias, está dentro da sementinha. Não é isso? conclui radiante.

O professor Benson riu-se do meu entusiasmo e pareceu-me na realidade satisfeito com o discípulo.

— Perfeitamente, amigo Ayrton. Tudo está ali. Pela primeira vez desde que o mundo é mundo consegue o homem esse espantoso milagre — mas só eu sei o que isso me custou de experiencias e tentativas falhas!… Fui feliz. O Acaso, que é um Deus, ajudou-me e hoje me sinto na estranha posição de um homem que é mais do que todos os homens…

Sua fisionomia irradiava tanta luz — a luz da inteligência, — que só a poderia suportar um inocente da minha marca. Estou convencido de que se outro sábio o defrontasse naquele instante estarreceria de assombro, considerado como Isaías diante das sarças ardentes quando delas trovejou a voz de Jeová. A minha ingenuidade, a minha inocência mental salvou-me. Hoje estremeço quando penso em tudo isso, como estremeceu Tartarin de Tarascon ao saber que os abismos que com risonha coragem ele arrostara nos Alpes eram de fato abismos e não cenografia como, iludido por Bompard, no momento supôs. Hoje que já nada mais existe do professor Benson a não ser uma lápide no cemitério, e nada existe senão cinzas do seu maravilhoso laboratório, se me ponho a analisar esse período da minha vida tenho sensação de que convivi com um Deus humanizado.

O professor Benson falava das suas invenções com tanta simplicidade e me tratava tão familiarmente que jamais me senti tolhido em sua presença — como me sentia, por exemplo, na do Senhor Pato, o socio comendador lá da firma. Sempre que me cruzava com o comendador eu tremia, tanto se impunha aos subalternos aquela formidável massa de banhas, vestida de fraque, com anel de grande pedra no dedo e uma corrente de relógio toda berloques que nos esmagava a humildade sob a arrogância e o peso do ouro maciço. Diante do comendador Pato eu tremia e balbuciava; mas diante do professor Benson, um deus, sempre me senti como em face de um igual.

Compreendo hoje o fenômeno e sei que a verdadeira superioridade num homem não o extrema dos “inocentes”, como dizia o professor — e por isso chamava Jesus a si os pequeninos. Até na indumentária aqueles dois homens eram antípodas. Na do comendador, o fraque propunha-se a impressionar imaginações, a estabelecer categorias, a amedrontar os paletós sacos com a imponência da sua cauda bipartida; na do professor Benson tinha a rouca por única função vestir um corpo a modo de resguarda-lo das bruscas variações atmosféricas.

Mas voltemos atrás. Ao ouvir dizer ao professor Benson que todo o momento universal estava ali, olhei para a maranha de fios e bobinas com um sentimento misto de orgulho e piedade. Orgulho de ver o Tudo escravizado diante de mim. Piedade, porque havia nisso uma certa humilhação para o Tudo…

A voz pausada do velho sábio tirou-me de tais cogitações.

—Até aqui permanecemos no presente. A onda Z ali captada só diz respeito ao presente, e se eu ficasse nessa etapa de pouco valeria a minha descoberta. Mas fui além. Descobri o meio de envelhecer essa corrente á minha vontade.

—Envelhecer?… murmurei refranzindo a um tempo todos os músculos da cara.

—Sim. Faço-a passar pelo aparelho que tenho no pavilhão imediato e ao qual denominei cronizador. Vamos para lá.

O professor tomou a dianteira e eu o segui, ainda repuxado de músculos faciais. O pavilhão imediato possuia ao centro um novo aparelho tão incompreensível para a minha inteligência como os anteriores.

—Aqui temos o cronizador, disse o meu cicerone apontando para o esquisito conjunto. Este mostrador, que lembra o dos relógios, me permite marcar no futuro a época que desejo estudar.

— ? !

—Perca o hábito de assustar-se, porque senão acabará cardíaco. A corrente penetra por este fio, sofre um turbilhonamento e envelhece na medida que eu determino com o movimento deste ponteiro. É como se eu tomasse a semente e por um golpe de mágica dela fizesse brotar a árvore aos dez anos de idade, ou aos cinquenta, ou aos cem — ao arbítrio do experimentador. Compreende? —

– Compreendo…

— E destarte a evolução, que com o decorrer do tempo necessariamente vai ter a vida atual do universo, eu a apresso e a detenho no momento escolhido. Este meu cronizador, em suma, é um aparelho de produzir o tempo artificial com muito mais rapidez do que pelo sistema antigo, que é esperar que o tempo transcorra. Obtenho um ano num minuto de turbilhonamento; penetro no futuro, no ano 2.000, por exemplo, em 74 minutos. Opera-se durante a cronização uma zoada, que é o som dos anos a se sucederem, som muito semelhante a um eco distante…

— Sei. O que ouvi na hora do almoço.

— Exatamente. Quis Jane visualizar o futuro no ano 2.336, ou seja a 410 anos deste em que estamos. Para isso colocou aqui o ponteiro e abriu o comutador. A corrente envelheceu e automaticamente parou no ponto marcado, isto é, no ano 2.336.

A minha curiosidade crescia. Percebi que chegara ao ponto culminante da descoberta do professor Benson.

— E depois? indaguei ansioso. Para ver, ou como diz o professor, para visualizar esse futuro, como procede?

— Devagar!… Consigo, como ia dizendo, envelhecer a corrente até o ponto desejado. Ao obter isso, a evolução determinista que rigorosamente vai dar-se no universo com o decorrer normal do tempo dá-se artificialmente dentro do aparelho. E, chegada ao termo da cronização que visamos, a corrente turbilhonada torna-se estática, por assim dizer congelada. E fico eu na posse dum momento da vida universal futura — isto é, com o 4 da nossa primitiva imagem do 2 + 2. Resta-nos agora a ultima parte da operação, a qual, por comodidade, executo no meu gabinete. Não notou lá uma espécie de globo cristalino?

— Foi a primeira coisa que me impressionou neste castelo.

— Pois é o porviroscopio, o aparelho que toma o corte anatômico do futuro, como pitorescamente diz Jane, e o desdobra na multiplicidade infinita das formas de vida futura que estão em latência dentro da corrente congelada.

— Por que, corte anatômico? indaguei, para não deixar ponto obscuro atrás de mim.

— Nunca esteve num laboratório de microscopia? Com uma navalha afiadissima o anatomista opera um corte na ponta do seu dedo, por exemplo. Tira uma lâmina de carne, a mais fina que possa, e estuda-a ao microscópio. A essa fatia do seu dedo chamará ele “corte anatômico”. É Jane uma menina muito viva e gosta de falar por imagens, algumas extraordinariamente pitorescas…

A evocação de miss Jane veio perturbar a contenção do espirito com que eu acompanhava as revelações do mestre. Meu espirito cansado repousou nesse gracioso oásis, e foi com infinita inocência que indaguei:

— Que idade tem ela, professor?

Mas o velho sábio talvez nem me ouvisse, porque entrou a dar explicações sobre a segunda função que possuía o cronizador: involuir a corrente, rodar para trás — o que permitia cortes anatômicos no passado.

— Mas isso não interessa, aventei levianamente. O passado é velho conhecido nosso.

— Engano. É tão desconhecido como o futuro e o presente.

Desta vez abri a boca, e lá por dentro me soou como tolice a frase do sábio. Mas vi logo que o tolo era eu.

— Do presente que é que sabe o amigo Ayrton? Sabe apenas que está neste minuto conversando comigo. Mais nada. Não sabe nem sequer se os senhores Sá, Pato & Cia. estão a esta hora de falência aberta.

— Impossível! Aquela gente é solida como as montanhas!… Só vendem á vista…

— Quantas planícies não marcam hoje o lugar outrora ocupado por montanhas!… Do presente o amigo Ayrton só sabe, isto é, só tem consciência do que no momento lhe afeta os sentidos.

— Na verdade! exclamei. Nem o meu Ford, que era tudo para mim, sei onde pára…

— E se ignoramos o presente, que dizer do passado?

— Mas a História?

O professor Benson sorriu meigamente um sorriso de Jesus.

— A História é o mais belo romance anedótico que o homem vem compondo desde que aprendeu a escrever. Mas que tem com o passado a História? Toma dele fatos e personagens e os vai estilizando ao sabor da imaginação artística dos historiadores. Só isso.

— E os documentos da época? insisti.

— Estilização parcial feita pelos interessados, apenas. Do presente, meu caro, e do passado, só podemos ter vagas sensações. Há uma obra de Stendhal, La Chartreuse de Parme, cujo primeiro capitulo é deveras interessante. Trata da batalha de Waterloo, vista por um soldado que nela tomou parte. O pobre homem andou pelos campos aos trambolhões, sem ver o que fazia nem compreender coisa nenhuma, arrastado às cegas pelo instinto de conservação. Só mais tarde veio a saber que tomara parte na batalha que recebeu o nome de Waterloo e que os historiógrafos pintam de maneira tão sugestiva. Os pobres seres que inconscientemente nela funcionaram como atores, confinados a um campo visual muito restrito, nada viram, nem nada podiam prever da tela heróica que os cenógrafos de história iriam compor sobre o tema. Eis o presente… Vamos agora ao gabinete, concluiu o professor. O mais interessante se passa lá.

Acompanhei-o, literalmente apatetado. Aquele homem pensava de modo tão diferente de todo mundo que suas ideias me davam a impressão de algo novo e operavam em meu cérebro como luz que invade aos poucos uma sala de museu. Mil coisas que nunca supus existirem em minha cabeça revelaram-se-me de pronto. Coisas mínimas, germes de ideias, antigas impressões recolhidas nos vaivéns do viver quotidiano ressurgiam animadas de estranha significação. Outras, que eram capitais outrora, diluiam-se. O comendador Pato, até vinte dias antes tido por mim como o mais formidável expoente do gênio humano, decaia a irrisórias proporções. Oh, como desejei vê-lo ali em contato com o professor, para gozar a derrocada das ridículas ideias de fraque que ele tinha na cabeça!
––––––––
continua… VII – Futuro e Presente

Fonte:
Monteiro Lobato. O Presidente Negro. Editora Brasiliense, 1979.

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Edmo Rodrigues Lutterbach (1931 – 2011)

Faleceu ontem no Hospital das Clínicas, de Niterói.
O corpo velado na sede da Academia Fluminense de Letras (prédio da Biblioteca Pública de Niterói, Praça da República s/n.

As 9 e meia, o corpo seguiu para Cantagalo, onde foi também velado.
O sepultamento em Macuco.

Filho de Sebastião Henrique Lutterbach e Liberalina Rodrigues Lutterbach, nasceu na Fazenda Mont Vernon, Município de Cantagalo, no dia 12 de outubro de 1931. Faleceu em Niterói, em 27 de setembro de 2011.

Antes de completar dois anos de idade, foi com os pais residir na Fazenda da Saudade (foto abaixo), conhecidíssimo berço do genial autor de Os Sertões, Euclydes da Cunha, nascido em 20 de janeiro de 1866. Tal fazenda foi também o solo de Aníbal Teixeira de Carvalho, nato em 19 de maio de 1864.

Fez-se advogado, promotor de justiça, juiz municipal, vereador, presidiu a Câmara Legislativa de Cantagalo. Exerceu o cargo de secretário de Finanças e de Interior. Elaborou Relatório apresentado ao Presidente do Estado do Rio (dois volumes). Deputado federal; representou o Estado do Rio de Janeiro em Congresso Jurídico Americano.

Edmo fez o Curso Primário na Escola Pública Mont Vernon; após, estudou em Santa Rita do Rio Negro, fazendo um percurso de dezesseis quilômetros a cavalo, de segunda a sexta-feira.

Admissão e Ginasial no Colégio Euclydes da Cunha, em Cantagalo. Ainda, a Escola Técnica de Comércio da mesma cidade, 1948/1953.

No ano 1954, trabalhando em Banco, requereu transferência para agência de Niterói, prestou vestibular de Direito, ingressou na Faculdade de Direito de Niterói em 1956, bacharelando-se em 1960. Três anos adiante, 1963/1964, fez o curso de Doutorado no referido Templo.

No quinto ano do Curso Jurídico, apresentou a tese: A Família, Divórcio, Desquite, Casamento no estrangeiro. Aprovada, em 10.9.1960 foi sustentá-la na Universidade do Rio Grande do Sul, debatida também na Pontifícia Universidade Católica de Porto Alegre, por ocasião da X Semana Nacional de Estudos Jurídicos.

No 1° ano do Curso de Doutorado, na referida Faculdade de Direito, já então integrada à Universidade Federal Fluminense, as teses exigidas versaram sobre Conceito de Crime Militar, Classificação dos Criminosos e Influência da Lei Mosaica no Direito Penal Moderno.. No 2° ano, O Valor do estudo da Personalidade do Delinqüente, A Noção de Causalidade no Código Penal Italiano, de 1930 e no Código Penal Brasileiro, de 1940; Filosofia e Histórico da Pena.

Tão logo concluíra o Curso de Direito, inscrevera-se na Ordem dos Advogados do Brasil, seção do Estado do Rio de Janeiro, sob o número 2024. Advogou por alguns anos, inclusive para os extintos Banco Agrícola de Cantagalo, S/A. e Banco do Estado do Rio de Janeiro. Exerceu ao mesmo tempo o cargo de Assessor Técnico do Tribunal de Contas do Estado, no Gabinete da Presidência de três Ministros.

No ano 1964 prestou concurso para ingresso no Ministério Público fluminense, concorrendo com 402 candidatos. Aprovado, teve lavrada sua nomeação em 24 de julho de 1965, posse e exercício a 9 imediato. Iniciou a carreira na Comarca de Niterói, como promotor substituto.

Foi promotor regional das Comarcas de Santo Antonio de Pádua, Miracema, São Fidelis, Cambuci, Itaocara, também de Bom Jardim, Campos, São Gonçalo.

Esteve afastado da Promotoria de 14 de abril de 1965 até 16 de julho de 1970, requisitado ao Procurador Geral da Justiça pelo General Atratino Cortes Coutinho, assessorando-o na Subcomissão de Investigações do Ministério da Justiça, (SCGI), no Estado do Rio de Janeiro; Membro da aludida Subcomissão, nomeado pelo Ministro da Justiça, Dr. Alfredo Buzaid e, ante a saída do General, foi eleito pelos pares, Presidente do mencionado Órgão, do qual foi dispensado (depois de vários pedidos), após a fusão dos Estados do Rio e Guanabara.

No período em que exercia a promotoria, fez CURSOS DE EXTENSÃO na ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA: Valorização do Homem Brasileiro; O Problema Demográfico; Modelo Político Brasileiro; O Problema do Menor; Desenvolvimento Agropecuário; Condições Gerais para o Estabelecimento de uma Democracia; O Problema Psicossocial da Opção pela Agricultura, anos 1977/1981

Livros publicados:

A Vida Universitária do Prof. Geraldo Montedônio Bezerra de Menezes. Geraldo Bezerra de Menezes – Homem de Fé e Apóstolo Leigo. Presença de Uma Geração. A Eternidade de Euclides Cunha. Niteroienses Ilustres do Século XIX.

INSTITUIÇÕES CULTURAIS QUE INTEGRAVA: (Academias de Letras):

Acreana de Letras;
Anapolina de Filosofia, Ciências e Letras; Brasileira de Ciências Morais e Políticas;
Brasileira de Ciências Sociais;
Brasileira de Literatura; Brasileira de Trova;
Cachoeirense de Letras;
Cantagalense de Letras;
Carioca de Letras;
de Bellas Letras del Cono Sur – Republica Oriental del Uruguay – Miembro Académico “Ad Honoren”;
de Estudos Literários e Lingüísticos;
de Letras da Fronteira Sudoeste do RGS;
de Letras, Ciências e Artes do Amazonas;
de Letras da Região do ABC;
de Letras Rio – Cidade Maravilhosa;
de Letras de Uruguaiana; Eldoradense de Letras;
Fluminense de Filosofia; Fluminense de Letras;
Friburguense de Letras;
Goianiense de Letras;
Gonçalense de Letras, Artes e Ciências;
Interamericana de Literatura e Jurisprudência; Internacional de Letras “3 Fronteiras”;
Itaboraiense de Letras, Ciências e Artes;
Itaocarense de Letras;
Niteroiense de Letras;
Petropolitana de Poesia Raul de Leoni;
Sobralense de Estudos e Letras;
Cenáculo Fluminense de História e Letras;
membro Honorário da Academia Internacional de Letras.

INSTITUTOS HISTÓRICOS:

Instituto Cultural do Vale Caririense; Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas; Instituto Histórico e Geográfico de Niterói (Membro fundador e seu presidente em três ocasiões); Instituto Histórico de Nova Friburgo (Membro fundador); Instituto Histórico e Artístico de Parati; Instituto Histórico e Geográfico de Uruguaiana; Instituto Histórico e Geográfico do Direito Brasileiro; Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal; Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro.

CONDECORAÇÕES: (Medalhas)

Medalha Luis de Camões (outorgada pela Casa Infante D. Henrique – Porto – Portugal);
Medalha Luis de Camões — conferida pela Comunidade Luso-Brasileira;
Medalha da Ordem do Mérito Araribóia, no Grau de Comendador;
Medalha Martins Afonso de Souza;
Medalha Mérito Della Dante Di Nova Friburgo;
Medalha José Cândido de Carvalho;
Medalha José Clemente Pereira;
Medalha Assis Chateaubriand;
Medalha Tiradentes;
Medalha do Mérito Comendador José Mastrângelo;
Medalha Especial de Honra ao Mérito Acadêmico;
Medalha do Mérito Della Intelectualitá;
Medalha Alda Pereira Pinto; Medalha Peregrino Júnior – Ano Novo;
Colar do Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro;
Medalha 5OO Anos do Descobrimento do Brasil;
Medalha Comemorativa;
Medalha outorgada pela Academia Brasileira de Ciências Morais e Políticas;
Medalha comemorativa do bicentenário de Duque de Caxias.

Prêmio Cultural Cidade de Niterói;
Prêmio Cultural Martin Afonso de Souza;
Prêmio Cultural José Geraldo Bezerra de Menezes;

Fonte:
Prefeitura de Cantagalo

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XXXI Concurso de Trovas da ATRN/NATAL (Programação da Premiação)


PROGRAMAÇÃO DA ATRN PREMIAÇÃO:

Caros confrades e amigos,

Envio-lhes a programação de nossa festividade dos dias 6 e 7 de outubro próximo, para premiação das trovas classificadas nos concursos nacional e estadual realizados neste ano de 2011.

Com a alegria da presença de todos vocês, nos dizemos ao embalo
das melhores expectativas.

Abraço.
Zé Lucas.

ACADEMIA DE TROVAS DO RIO GRANDE DO NORTE.

Festividade de premiação – concursos 2011.

PROGRAMAÇÃO:

Dia 6/10/2011
-Dia livre para receber os visitantes de outros Estados;

20h, no auditório da Academia Norte- Riograndense de Letras:

– Apresentação do Madrigal da Escola de Música da Universidade Federal do Rio Grande do Norte;

-Solenidade de premiação;

-em seguida, coquetel, no salão de eventos da ANRL.

Dia 7/10/2011

-7h30, saída para Natal, dos poetas que se encontrarem em Pirangi;

-8h – Saída para Parnamirim, partindo da Praça Augusto Leite, em Natal;

-9h30 – Missa em Trovas, na Matriz de Nossa Senhora de Fátima;

– após a missa, visita à Prefeitura Municipal, em cujo auditório será realizada
uma rodada de trovas em agradecimento e homenagem à progressista cidade de Parnamirim, Trampolim da Vitória;

-11h30, partida para Caicó, com almoço previsto em Currais Novos;

-16h – previsão de chegada a Caicó, para a programação do Clube dos Trovadores do Seridó, nos dias 8 e 9/10/2011, com retorno programado para após o almoço de despedida (dia 9).

José Lucas de Barros – Presidente

Fonte:
Ademar Macedo

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XXI Concurso Nacional/Estadual de Trovas UBT Seção de Natal/RN. (Prorrogação do Prazo)


Caros Irmãos Trovadores/as

Comunico-lhes que devido à greve dos Correios – nosso Concurso a nível nacional, tema SORTE, e a nível estadual, tema OUTONO, foi prorrogada para o 30/10/11.

Assim sendo, todos terão mais um mês para preparar e enviar suas trovas. Espero que, por favor, divulguem para os seus pares em suas unidades das UBTs de suas cidades.

Um forte e fraternal abraço a todos.

Joamir Medeiros
Presidente UBT Seção de Natal/RN.

01) Âmbito Nacional – Tema: SORTE
Endereço: A/C de Joamir Medeiros
Av. Romualdo Galvão, 968 – Tirol
Cep: 59056-100 – Natal/RN

02) Âmbito Estadual – Tema: OUTONO
End. A/C de Ubiratan Queiroz
Rua Dr. Manoel Dantas, 423, ap. 402 – Petrópolis
Cep: 50012-270 – Natal/RN

Máximo: 2 Trovas lírico/filosóficas, por autor em cada tema.

Fonte:
Ademar Macedo

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 347)


Uma Trova Nacional

Vai-se embora todo o orvalho
com o sol esfuziante
deixando o velho carvalho …
Sem um único diamante.
–MARIA DE LOURDES REIS/SP–

Uma Trova Potiguar

É penosa a caminhada…
Mas, a vida me compraz,
em minha alcova orvalhada
de sonhos… e nada mais…
–SEBASTIÃO SOARES/RN–

Uma Trova Premiada

2010 – ATRN-Natal/RN
Tema: INSPIRAÇÃO – 10º Lugar

Quando a inspiração palpita
nos meus dias mais risonhos,
cada trova é uma pepita
na bateia dos meus sonhos.
–JOSÉ ANTONIO DE FREITAS/MG–

Uma Trova de Ademar

Para você suportar
as mágoas do dia-a-dia,
não precisa se drogar,
use a Trovaterapia!…
–ADEMAR MACEDO/RN–

…E Suas Trovas Ficaram

Neste amor, grande e bendito,
quando em teus braços me ponho,
o nosso espaço é infinito,
e é sem limite o meu sonho…
–ALOÍSIO ALVES DA COSTA/CE–

Simplesmente Poesia

Mensagem de Amor
–ROSA REGIS/RN–

Vendo a imagem de Cristo coroado
Com os espinhos da maldade humana
E vendo dos seus olhos que emana
O imenso Amor que foi, a nós, doado,
Eu lembro com tristeza que o pecado
É algo muito ruim! E eu conclamo
A todos os irmãos, gritando. E chamo:
– Busquemos, ao invés de guerra, Paz!
– Façamos que o amor que ora jaz,
Ressurja! E ao irmão, diga-se: O AMO!!

Estrofe do Dia

Perdi os meus ideais,
minha existência está finda,
apenas recordo ainda
tempos que não voltam mais;
me restam só os sinais
das chagas do desenganos,
machucado pelos danos
chocado, sentindo medo,
olhando para o rochedo
da serrania dos anos.
–JOSUÉ DA CRUZ/PB–

Soneto do Dia

Louvação Poética.
–RACHEL RABELO/PE–
(Ao poeta/companheiro Gilmar Leite)

O teu verso repleto de beleza,
decantando meu corpo com carinho,
tem a luz que fecunda sutileza
da brancura fantástica de um linho.

Nos detalhes, expõe graça e grandeza!
um soneto alegrando meu caminho,
perfumando com ares de certeza
os desejos libertos desse ninho.

O teu beijo faz nascer nova flor
e sepulta no chão seco da dor
o retrato sem cor da solidão.

O meu ser com o teu faz melodia;
um cantar soberano de magia
que nos cobre com plumas da união.

Fonte:
Textos enviados pelo Autor

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Poesias de Aniversário

Hoje, dia de meu aniversário. Todo escritor tem o seu dia especial, hoje é o meu.

Dou uma pausa nas postagens…mas, amanhã retorno com novidades: Hermoclydes S. Franco com o seu abecedário em trovas, as trovas ecológicas do Assis vingaram outras que me enviaram de outros trovadores. Amosse Mucavele com nova cronica, e muito mais.

Mas, para não deixar em branco, abaixo algumas poesias sobre aniversário.

José Feldman

VINICIUS DE MORAES
Soneto de Aniversário

Passem-se dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos.

Faça-se a carne mais envilecida
Diminuam os bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que levar tudo de vencida.

Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura.

E eu te direi: amiga minha, esquece…
Que grande é este amor meu de criatura
Que vê envelhecer e não envelhece.

ELISA DIAS BATISTA
Aniversário

No dia do aniversário
A gente às vezes tem vontade
De se esconder dentro do armário
Mas aí vem um com um beijo
Outro realizando um desejo
E aquele que está sempre atrasado
Chega super animado
Estourando um champanhe
Mesmo que eu estranhe
E não entenda muito bem
Por que tantos parabéns
Fico feliz com os presentes
Agüento melhor os parentes
E não me pergunto na hora
O que há de mentirinha
Nessa anual história
Quem me dera tanto afeto
Duas vezes por semana
Pra derreter a couraça
Pra amenizar minha gana
Congelaria se possível
Muitos pedaços do bolo
Pra durante o ano carente
Come-los como consolo

ANONIMO
A Idade de Ser Feliz

Existe somente uma idade para a gente ser feliz,
somente uma época na vida de cada pessoa
em que é possível sonhar e fazer planos
e ter energia bastante para realizá-las
a despeito de todas as dificuldades e obstáculos.

Uma só idade para a gente se encantar com a vida
e viver apaixonadamente
e desfrutar tudo com toda intensidade
sem medo, nem culpa de sentir prazer.

Fase dourada em que a gente pode criar
e recriar a vida,
a nossa própria imagem e semelhança
e vestir-se com todas as cores
e experimentar todos os sabores
e entregar-se a todos os amores
sem preconceito nem pudor.

Tempo de entusiasmo e coragem
em que todo o desafio é mais um convite à luta
que a gente enfrenta com toda disposição
de tentar algo NOVO, de NOVO e de NOVO,
e quantas vezes for preciso.

Essa idade tão fugaz na vida da gente
chama-se PRESENTE
e tem a duração do instante que passa.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Poema de Aniversário

Procurei no dicionário,
Com paciência e cuidado,
O real significado
Da palavra aniversário.
Aquele livro pesado,
Mestre dos visionários,
“Pai dos burros” batizado,
Pareceu-me sectário,
Ao responder meu chamado.
Deveras decepcionado,
Joguei o meu dicionário
Na estante, empoeirado,
Para pregar, solitário,
O meu significado
Da palavra aniversário.
Diz assim, o verbete lendário,
Ontem, por mim criado:
“Aniversário: Espécie de relicário,
Muitíssimo bem guardado
Nas folhas do meu diário,
Dos versos que eu escrevi,
Com todo amor, e não li,
Durante o ano passado.”

Fontes:
http://pensador.uol.com.br/poemas_sobre_o_aniversario/

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Silvia Araujo Motta (Só Porque o Dia é Teu)


Soneto enviado pela Dra. Silvia Motta, Ph.I. – Presidente da Academia de Letras do Brasil/MG

Soneto decassílabo-sáfico-heróico Nº 1578

Hoje o universo veste luz brilhante;
no coração a terra está florida!
Firme regente pede:-Grupo, cante
a canção bela em rima mui querida.

O sol espalha raios cada instante,
a natureza canta a pauta lida,
compassos marcam festa que é marcante,
farta comida, doces e bebida!

Em cada face o canto não reclama;
já não se lembra a dor que fez partida,
renova tudo e acende nova chama…

À mesa servem vinho, criam laços
e cada mão saúda, brinda a vida:
-Saúde e Paz, Amigo! Mil abraços!

PARABÉNS!

BELO HORIZONTE, 27 DE SETEMBRO DE 2011.

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A. A. de Assis (Trovas Ecológicas) – 23

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27 de setembro de 2011 · 00:05

Olavo Bilac (Alma Inquieta:poesias) 1


A AVENIDA DAS LÁGRIMAS

A um Poeta morto

Quando a primeira vez a harmonia secreta
De uma lira acordou, gemendo, a terra inteira,
– Dentro do coração do primeiro poeta
Desabrochou a flor da lágrima primeira.

E o poeta sentiu os olhos rasos de água;
Subiu-lhe à boca, ansioso, o primeiro queixume:
Tinha nascido a flor da Paixão e da Mágoa,
Que possui, como a rosa, espinhos e perfume.

E na terra, por onde o sonhador passava,
Ia a roxa corola espalhando as sementes:
De modo que, a brilhar, pelo solo ficava
Uma vegetação de lágrimas ardentes.

Foi assim que se fez a Via Dolorosa,
A avenida ensombrada e triste da Saudade,
Onde se arrasta, à noite, a procissão chorosa
Dos órgãos do carinho e da felicidade.

Recalcando no peito os gritos e os soluços,
Tu conheceste bem essa longa avenida,
– Tu que, chorando em vão, te esfalfaste, de bruços,
Para, infeliz, galgar o Calvário da Vida.

Teu pé também deixou um sinal neste solo;
Também por este solo arrastaste o teu manto…
E, ó Musa, a harpa infeliz que sustinhas ao colo,
Passou para outras mãos, molhou-se de outro pranto.

Mas tua alma ficou, livre da desventura,
Docemente sonhando, às delícias da lua:
Entre as flores, agora, uma outra flor fulgura,
Guardando na corola uma lembrança tua…

O aroma dessa flor, que o teu martírio encerra,
Se imortalizará, pelas almas disperso:
– Porque purificou a torpeza da terra
Quem deixou sobre a terra uma lágrima e um verso.

Inania verba

Ah! quem há de exprimir, alma impotente e escrava,
O que a boca não diz, o que a mão não escreve?
– Ardes, sangras, pregada à tua cruz, e, em breve,
Olhas, desfeito em lodo, o que te deslumbrava…

O Pensamento ferve, e é um turbilhão de lava:
A Forma, fria e espessa, é um sepulcro de neve…
E a Palavra pesada abafa a Idéia leve,
Que, perfume e clarão, refulgia e voava.

Quem o molde achará para a expressão de tudo?
Ai! quem há de dizer as ânsias infinitas
Do sonho? e o céu que foge à mão que se levanta?

E a ira muda? e o asco mudo? e o desespero mudo?
E as palavras de fé que nunca foram ditas?
E as confissões de amor que morrem na garganta?!

Midsummer’s night’s dream

Quem o encanto dirá destas noites de estio?
Corre de estrela a estrela um leve calefrio,
Há queixas doces no ar… Eu, recolhido e só,
Ergo o sonho da terra, ergo a fronte do pó,
Para purificar o coração manchado,
Cheio de ódio, de fel, de angústia e de pecado…

Que esquisita saudade! – Uma lembrança estranha
De ter vivido já no alto de uma montanha,
Tão alta, que tocava o céu… Belo país,
Onde, em perpétuo sonho, eu vivia feliz,
Livre da ingratidão, livre da indiferença,
No seio maternal da Ilusão e da Crença!

Que inexorável mão, sem piedade, cativo,
Estrelas, me encerrou no cárcere em que vivo?
Louco, em vão, do profundo horror deste atascal,
Bracejo, e peno em vão, para fugir do mal!
Por que, para uma ignota e longínqua paragem,
Astros, não me levais nessa eterna viagem?

Ah! quem pode saber de que outras vida veio?…
Quantas vezes, fitando a Via-Láctea, creio
Todo o mistério ver aberto ao meu olhar!
Tremo… e cuido sentir dentro de mim pesar
Uma alma alheia, uma alma em minha alma escondida,
– O cadáver de alguém de quem carrego a vida…

Mater

Tu, grande Mãe!… do amor de teus filhos escrava,
Para teus filhos és, no caminho da vida,
Como a faixa de luz que o povo hebreu guiava
À longe Terra Prometida.

Jorra de teu olhar um rio luminoso.
Pois, para batizar essas almas em flor,
Deixas cascatear desse olhar carinhoso
Todo o Jordão do teu amor.

e espalham tanto brilho as as asas infinitas
Que expandes sobre os teus, carinhosas e belas,
Que o seu grande clarão sobe, quando as agitas,
E vai perder-se entre as estrelas.

E eles, pelos degraus da luz ampla e sagrada,
Fogem da humana dor, fogem do humano pó,
E, à procura de Deus, vão subindo essa escada,
Que é como a escada de Jacó.

Incontentado

Paixão sem grita, amor sem agonia,
Que não oprime nem magoa o peito,
Que nada mais do que possui queria,
E com tão pouco vive satisfeito…

Amor, que os exageros repudia,
Misturado de estima e de respeito,
E, tirando das mágoas alegria,
Fica farto, ficando sem proveito…

Viva sempre a paixão que me consome,
Sem uma queixa, sem um só lamento!
Arda sempre este amor que desanimas!

Eu, eu tenha sempre, ao murmurar teu nome,
O coração, malgrado o sofrimento,
Como um rosal desabrochado em rimas.

Sonho

Quantas vezes, em sonho, as asas da saudade
Solto para onde estás, e fico de ti perto!
Como, depois do sonho, é triste a realidade!
Como tudo, sem ti, fica depois deserto!

Sonho… Minha alma voa. O ar gorjeia e soluça.
Noite… A amplidão se estende, iluminada e calma:
De cada estrela de ouro um anjo se debruça,
E abre o olhar espantado, ao ver passar minha alma.

Há por tudo a alegria e o rumor de um noivado.
Em torno a cada ninho anda bailando uma asa.
E, como sobre um leito um alvo cortinado,
Alva, a luz do luar cai sobre a tua casa.

Porém, subitamente, um relâmpago corta
Todo o espaço… O rumor de um salmo se levanta
E, sorrindo, serena, aparecer à porta,
Como numa moldura a imagem de uma Santa…

Primavera

Ah! quem nos dera que isto, como outrora,
Inda nos comovesse! Ah! quem nos dera
Que inda juntos pudéssemos agora
Ver o desabrochar da primavera!

Saíamos com os pássaros e a aurora.
E, no chão, sobre os troncos cheios de hera,
Sentavas-te sorrindo, de hora em hora:
“Beijemo-nos! amemo-nos! espera!”

E esse corpo de rosa recendia,
E aos meus beijos de fogo palpitava,
Alquebrado de amor e de cansaço…

A alma da terra gorjeava e ria…
Nascia a primavera… E eu te levava,
Primavera de carne, pelo braço!

Fonte:
BILAC, Olavo. Antologia : Poesias. São Paulo : Martin Claret, 2002. Alma Inquieta. (Coleção a obra-prima de cada autor).

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França Junior (Organizações Ministeriais)


A política é uma das mais sérias preocupações do Brasil, e especialmente desta mui leal e heróica cidade do Rio de Janeiro, onde a vida pública e privada dos homens de Estado é discutida em altas vozes nos botequins, confeitarias, lojas de charutos, armarinhos, praças e pontos de bondes.

A julgar pela parte afetiva que cada cidadão toma nos negócios oficiais, este país deveria ser uma – república de anjos.

Infelizmente, assim não é.

Os tais anjos brigam por dá cá aquela palha, e os negócios conservam-se sempre no mesmo estado.

Por que brigam? Pelas idéias, pelos princípios.

E quereis saber como, entre nós, se briga pelos princípios?

É assim:

– O Machado Pereira é conservador.

– Está enganado; é liberal.

– Nunca foi liberal; votou sempre com os vermelhos.

– Na última eleição votou conosco.

– Ele é tão conservador, como o Arruda.

– Quem? O Arruda da Guaratiba?

– Sim, senhor.

– Este era liberal, foi demitido por prevaricador…

– É verdade.

– Eu conheço-o como as palmas de minhas mãos. Depois passou-se para os conservadores, quando subiu o gabinete Quintanilha…

– Não foi no gabinete Quintanilha que ele virou casaca, mas sim no ministério do Luís Pereira.

– Ora, meu caro amigo, outro ofício. No ministério do Luís Pereira ele já era republicano, e escrevia na Espada de Dâmocles, um jornal democrata que aqui houve, aquelas célebres cartas contra o chefe do estado assinadas A sentinela.

– Por sinal que o governo, para calar a boca do tal marreco, nomeou-o cônsul para a Suíça.

– E fez mais ainda: deu-lhe o título de conselho.

– Foi uma grande bandalheira!

– Mas era preciso.

– Esses conservadores foram sempre assim.

– E os liberais são ainda piores.

– Sabe o que mais, meu amigo, fique com as suas idéias que eu ficarei com as minhas.

E eis aí o que são as idéias e os princípios, de que falam quase todos.

E pelas idéias e pelos princípios cometem-se injustiças, torce-se a lógica, abocanham-se reputações e quebram-se cabeças às portas das igrejas.

Este exórdio, com tiradas cheirando a artigo de fundo de jornal de oposição, foi-me sugerido pelo papel importante que representa a política em todos os altos da nossa vida.

Quem quiser ver o Rio de Janeiro com febre e perder a cabeça, basta dizer-lhe ao ouvido:

– Caiu o ministério!

A notícia circula de boca em boca, sai do Castelões, entra no Bernardo, pára na Gazeta de Notícias, volta para o Farani, estaca nos pontos dos bondes, embarca nos ditos e percorre um por um todos os arrabaldes.

No dia seguinte não fica ninguém em casa.

A rua do Ouvidor é pequena para conter os curiosos.

Formam-se grupos às portas das lojas, pelas esquinas, e em cada semblante lê-se o seguinte ponto de interrogação:

– Quem foi chamado?

Começam as versões:

– Já sei quem é o organizador.

– Quem é?

– O Soares da Silva.

– Ora, ora!

– Acabo de estar agora mesmo com ele.

– Se não estás caçoando conosco, estás mentindo.

– Quanto apostam?

– Mas como é isto possível, se o Soares partiu ontem com a família para Teresópolis?

– É verdade; porém ontem mesmo recebeu o telegrama e desce hoje.

– Aí vem o Goulart.

– Homem, o Goulart deve estar bem informado.

– Ô Goulart, quem foi o chamado?

– O Silveira de Assunção.

– O que estás dizendo?

– A pura verdade.

– Com os diabos, por esta não esperava eu!

– Estou aqui, estou demitido.

– E dois.

– Mas isto é certo?

– E até aqui já está organizado o ministério.

– Quem ficou na Fazenda?

– O Alberto da Rocha.

– E na Justiça?

– O Brandão. Para a guerra entrou o Felício; para a Agricultura o barão de Pitanga Vermelha…

– O barão de Pitanga Vermelha?!

– Sim. Pois não o conheces?! É o Ladislau de Medeiros.

– Ah! já sei.

– Para Estrangeiros o visconde de Pedregulho; para a pasta do Império o Serzedello e para a da Marinha o Lucas Viriato.

– Quem é o Lucas Viriato?

– Não o conheço.

– Nem eu.

– O que é ele?

– Não sei, mas dizem-me que é rapaz muito inteligente e muito honesto.

– Bom-dia, meus senhores.

– Ora viva, sr. comendador.

– Então, já sabem?

– Acabamos de saber agora mesmo. O presidente do Conselho é o Silveira de Assunção.

– Não há tal; foi chamado, é verdade, mas não aceitou.

– Mas sr. comendador, eu sei de fonte limpa…

– Também eu sei que o homem esteve no Paço cinco horas a conversar com o Rei, e que de lá saiu à meia-noite, sem se haver decidido coisa alguma.

– Ora aí está quem nos vai dar boas notícias frescas.

– Quem é?

– O conselheiro Anastácio, que ali vem.

– Chama-o.

– Senhor conselheiro, satisfaça-nos a curiosidade; quem é o homem que vai nos governar?

– Pois ainda não sabem?

– São tantas as versões…

– Pensei que estivessem mais adiantados. Ora, ouçam lá: presidente do Conselho, visconde da Pedra Funda; ministro do Império, André Gonzaga; da Marinha, Bento Antônio de Campos…

– Muito bem, muito bem! Ora, graças a Deus que já se fez alguma coisa que valha a pena.

– Ministro da Fazenda, barão do Bico do Papagaio.

– Para a Fazenda?

– Sim, senhor.

– Porém este homem nunca deu provas de si…, é pouco conhecido…, as circunstâncias em que se acha o país…

– Não diga isto. E aquele aparte que ele deu ao Ramiro na questão bancária?

– Não me lembro.

– Pudera não! O senhor não acompanha os debates parlamentares, não está enfronhado nos negócios do país!

– Vamos adiante.

– Ministro da Guerra, Antônio Horta…

– Magnífico!

– Da Agricultura, João Cesário; e fica na pasta de Estrangeiros o presidente do Conselho.

– Antes ele ficasse na da Fazenda.

– Assim se tinha combinado a princípio; porém depois reconheceu-se que ele andaria melhor como ministro de Estrangeiros: porque já esteve na Europa e fala muito bem diversas línguas.

Após o conselheiro aparece um barão, sucede a este um jornalista, vêm depois diversos empregados públicos, e cada qual traz o seu ministério em um pedacinho de papel, dizendo: – Este é o verdadeiro.

Os políticos da rua do Ouvidor são tipos dignos de sérios estudos.

Em primeiro lugar figura o político bem informado.

É aquele que sabe de tudo.

Exemplo:

– Este ministério devia infalivelmente cair.

– Está visto; ele não podia ficar governando o país eternamente.

– Há muito tempo que os sujeitos andavam brigados! Eu já fui oficial de gabinete e sei o que são essas coisas. Além disso pessoa fidedigna asseverou-me que o Pereira nunca mais pôde tragar o Almeida, desde o dia em que este não quis nomear-lhe o sobrinho para a alfândega da Bahia. O Ernesto Pessoa também não olhava com bons olhos para o Miguel Faria desde a questão do Matadouro, que, a meu ver, foi o que deu com o ministério em terra. O organizador do novo gabinete não é o Matias de Araújo, ou o Siqueira, como dizem por aí. Deixe-os falar; a coisa já está assentada.

– Quem é então?

– É segredo; não posso dizer por hora

Esses políticos bem informados são, em geral, grandes jogadores de voltarete.

Ora, os leitores não ignoram a influência que o voltarete exerce sobre a nossa política.

Segundo rezam as crônicas, até alguns ministérios têm sido organizados em partidas de voltarete, e muitos indivíduos devem ao codilho as posições que ocupam.

Os políticos bem informados, apenas sob um ministério, indicam logo os nomes dos presidentes de províncias, dos chefes de polícia, dos delegados, subdelegados, de todos aqueles, enfim, que vão erguer-se ufanos sobre os destroços da derrubada.

Tipo oposto é o do político que não sabe de coisa alguma, que nada lê, que no fundo é completamente indiferente aos negócios públicos; mas que afeta acompanhar a marcha dos acontecimentos, franzindo o sobrolho e dizendo sempre:

– Isto é uma grande bandalheira!

Quando se encontra com algum amigo, assume um ar misterioso e pergunta-lhe:

– O que há de novo?

– Não sei; fala-se que o ministério caiu e que já está organizado outro.

Então chama-o para um lado, encosta-lhe a boca ao ouvido, e exclama:

– Isto é uma grande bandalheira!

Na primeira esquina encontra-se com outro amigo, e repete-lhe a mesma frase.

Há ainda o tipo do político esperto, que é aquele que tem em cada partido um compadre – probabilidade de subir ao poder.

Os tipos dessa ordem estão sempre com o governo em casa.

É por ocasião das organizações ministeriais que eles sobem à tona d’água, para a pesca.

E no fim de contas não sabem ainda os leitores quais são os novos ministros.

– Nem eu!

Quem é aquele sujeito que ali vem, suando por todos os poros, esbarrando-se nos grupos, e que procura desvencilhar-se dos indivíduos que o perseguem, dizendo-lhes:

– Não sei o que há, senhores; deixem-me, deixem-me pelo amor de Deus!

É um repórter. Já embarcou em dez tilburis e em outros tantos bondes, não dormiu toda a noite, e daria, certamente, um ano de vida para saber aquilo que nem os leitores nem eu sabemos.

O belo sexo também toma parte ativa nesse movimento.

– Tomara já ver este ministério organizado.

– Eu estou pelos cabelos!

– E eu então?! Há dois anos que meu marido está desempregado, e que nós vivemos no…no…Como se chama aquilo, menina, que teu pai fala todos os dias lá em casa?

– No ostracismo, mamãe.

– É isto mesmo. Quando penso que aquele malvado demitiu o Luís por causa das eleições de Santa Rita…

– Meu marido também foi demitido por causa das tais malditas eleições. Eu, se fosse homem acabava com câmaras, com governo, com liberais, conservadores e republicanos, e reformava este país.

Ai! ai! É o que eu digo, muitas vezes. A minha desgraça é vestir saias.

Os sujeitos que alugam carros, e que são os únicos que não têm política, andam também de um lado para o outro à cata dos sete fregueses que são bons, e pagam à boca do cofre.

Os pretendentes roem as unhas, andam às tontas, e são os que mais perguntam.

Dias depois os jornais publicam a organização do gabinete.

O novo ministério é recebido com hosanas pelos correligionários, e a ferro e fogo pelos adversários.

A cidade volta ao seu estado habitual, e eis aí o que é a política.

Tinha razão um amigo meu, sujeito de vistas largas, quando dizia:

– Eu pertenço ao partido que tem por partido tirar partido de todos os partidos.

(Folhetins, 1878.)

Fonte:
Academia Brasileira de Letras.

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Florbela Espanca (Mensageira das Violetas) III


VELHINHA

Se os que me viram já cheia de graça
Olharem bem de frente para mim,
Talvez, cheios de dor, digam assim: “Já ela é velha!
Como o tempo passa!…”

Não sei rir e cantar por mais que faça!
Ó minhas mãos talhadas em marfim,
Deixem esse fio de ouro que esvoaça!
Deixem correr a vida até ao fim!

Tenho vinte e três anos! Sou velhinha!
Tenho cabelos brancos e sou crente…
Já murmuro orações… falo sozinha…

E o bando cor-de-rosa dos carinhos
Que tu me fazes, olho-os indulgente,
Como se fosse um bando de netinhos…

IMPOSSÍVEL

Disseram-me hoje, assim, ao ver-me triste:
“Parece Sexta-feira da Paixão.
Sempre a cismar, cismar, d´olhos no chão,
Sempre a pensar na dor que não existe…

O que é que tem?! Tão nova e sempre triste!
Faça por ´star contente! Pois então?!…”
Quando se sofre, o que se diz é vão…
Meu coração, tudo, calado ouviste…

Os meus males ninguém mos adivinha…
A minha dor não fala, anda sozinha…
Dissesse ela o que sente! Ai quem me dera!…

Os males d´Anto toda a gente os sabe!
Os meus…ninguém… A minha dor não cabe
Nos cem milhões de versos que eu fizera!…

QUEM?…

Não sei quem és. Já não te vejo bem…
E ouço-me dizer (ai, tanta vez!…)
Sonho que um outro sonho me desfez?
Fantasma de que amor? Sombra de quem?

Névoa? Quimera? Fumo? Donde vem?…
– Não sei se tu, amor, assim me vês!…
Nossos olhos não são nossos, talvez…
Assim, tu não és tu! Não és ninguém!…

És tudo e não és nada… És a desgraça…
És quem nem sequer vejo; és um que passa…
És sorriso de Deus que não mereço…

És aquele que vive e que morreu…
És aquele que é quase um outro eu…
És aquele que nem sequer conheço…

SEM PALAVRAS

Brancas, suaves mãos de irmã
Que são mais doces que as das rainhas,
Hão de pousar em tuas mãos, as minhas
Numa carícia transcendente e vã.

E a tua boca a divinal manhã
Que diz as frases com que me acarinhas,
Há de pousar nas dolorosas linhas
Da minha boca purpurina e sã.

Meus olhos hão de olhar teus olhos tristes;
Só eles te dirão que tu existes
Dentro de mim num riso d’alvorada!

E nunca se amará ninguém melhor;
Tu calando de mim o teu amor,
Sem que eu nunca do meu te diga nada!…

QUE IMPORTA?…

Eu era a desdenhosa, a indiferente.
Nunca sentira em mim o coração
Bater em violências de paixão,
Como bate no peito à outra gente.

Agora, olhas-me tu altivamente,
Sem sombra de desejo ou de emoção,
Enquanto as asas louras da ilusão
Abrem dentro de mim ao sol nascente.

Minh’alma, a pedra, transformou-se em fonte;
Como nascida em carinhoso monte,
Toda ela é riso, e é frescura e graça!

Nela refresca a boca um só instante…
Que importa?… Se o cansado viandante
Bebe em todas as fontes… quando passa?…

O MEU ORGULHO

Lembro-me o que fui dantes. Quem me dera
Não lembrar! Em tardes dolorosas
Lembro-me que fui a primavera
Que em muros velhos faz nascer as rosas!

As minhas mãos outrora carinhosas
Pairavam como pombas… Quem soubera
Por que tudo passou e foi quimera,
E por que os muros velhos não dão rosas!

São sempre os que eu recordo que me esquecem…
Mas digo para mim: “Não me merecem…”
E já não fico tão abandonada!

Sinto que valho mais, mais pobrezinha:
Que também é orgulho ser sozinha
E também é nobreza não ter nada!

INCONSTÂNCIA

Procurei o amor, que me mentiu.
Pedi à vida mais do que ela dava;
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!

Tanto clarão nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!

Passei a vida a amar e a esquecer…
Atrás do sol dum dia outro a aquecer
As brumas dos atalhos por onde ando…

E este amor que assim me vai fugindo
É igual a outro amor que vai surgindo,
Que há-de partir também… nem eu sei quando…

O NOSSO MUNDO

Eu bebo a vida, a vida, a longos tragos
Como um divino vinho de Falerno!
Pousando em ti o meu olhar eterno
Como pousam as folhas sobre os lagos…

Os meus sonhos agora são mais vagos…
O teu olhar em mim, hoje, é mais terno…
E a vida já não é o rubro inferno
Todo fantasmas tristes e pressagos!

A vida, meu amor, quero vivê-la!
Na mesma taça erguida em tuas mãos,
Bocas unidas, hemos de bebê-la!

Que importa o mundo e as ilusões defuntas?…
Que importa o mundo e seus orgulhos vãos?…
O mundo, amor! … As nossas bocas juntas!…

ANOITECER

A luz desmaia num fulgor d’aurora,
Diz-nos adeus religiosamente…
E eu que não creio em nada, sou mais crente
Do que em menina, um dia, o fui… outrora…

Não sei o que em mim ri, o que em mim chora,
Tenho bênçãos de amor pra toda a gente!
E a minha alma, sombria e penitente
Soluça no infinito desta hora!

Horas tristes que vão ao meu rosário…
Ó minha cruz de tão pesado lenho!
Ó meu áspero e intérmino Calvário!

E a esta hora tudo em mim revive:
Saudades de saudades que não tenho…
Sonhos que são os sonhos dos que eu tive…

CREPÚSCULO

Teus olhos, borboletas de ouro, ardentes
Borboletas de sol, de asas magoadas,
Pousam nos meus, suaves e cansadas
Como em dois lírios roxos e dolentes…

E os lírios fecham… Meu amor não sentes?
Minha boca tem rosas desmaiadas,
E a minhas pobres mãos são maceradas
Como vagas saudades de doentes…

O silêncio abre as mãos… entorna rosas…
Andam no ar carícias vaporosas
Como pálidas sedas, arrastando…

E a tua boca rubra ao pé da minha
É na suavidade da tardinha.
Um coração ardente palpitando…

EXALTAÇÃO

Viver!… Beber o vento e o sol!…
Erguer Ao céu os corações a palpitar!
Deus fez os nossos braços pra prender,
E a boca fez-se sangue pra beijar!

A chama, sempre rubra, ao alto a arder!…
Asas sempre perdidas a pairar,
Mais alto para as estrelas desprender!…
A glória!… A fama!… O orgulho de criar!…

Da vida tenho o mel e tenho os travos
No lago dos meus olhos de violetas,
Nos meus beijos estáticos, pagãos!…

Trago na boca o coração dos cravos!
Boêmios, vagabundos, e poetas:
– Como eu sou vossa irmã, ó meus irmãos!…

Fonte:
ESPANCA, Florbela. A mensageira das violetas: antologia. Seleção e edição de Sergio Faraco. Porto Alegre: L&PM, 1999. (Pocket).

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França Júnior (Meia Hora de Cinismo)


Comédia em um Ato

(Representada sempre com extraordinário sucesso em todos os teatros do Rio de Janeiro e Estados do Brasil.)

Nota do Autor:
A Quem Ler

Duas palavras sobre aquelles que, na noite de 17 de Julho de 1861, tanto contribuíram para o bom acolhimento, e feliz successo de minha primeira composição.

Apresentando-me pela primeira vez perante uma platéa intelligente e ilustrada, dependia todo o meu futuro de artistas poderosos e eminentes, que podessem com o seu talento supprir o que a penna me negára.

Era assim que, depositando todas as minhas esperanças no Sr. Furtado Coelho e na Sr.a D. Eugênia Câmara, e nos Sr.s. Leal, Peregrino, Henrique e Joaquim Câmara, não fui iludido; e os applausos que obteve a “Meia Hora de Cynismo” vierão confirmar mais uma vez o talento brilhante dos dous primeiros artistas, e o merecimento dos outros.

Exceptuando o Sr. Furtado Coelho e a Sra. D. Eugênia Câmara, artistas superiores à todos os elogios, sem offender o merecimento dos outros, eu destacarei do grupo o Sr. Leal, que na parte de Frederico fez quanto pode fazer um actor de talento e dedicação pela arte. Oxalá receba sempre o Sr. Leal as lições d’aquelle que tanto tem contribuído para melhorar o theatro de S. Paulo, e o seu nome será em breve uma glória para o nosso palco.

O Sr. Peregrino, posto que lhe tocasse um papel de pequena importância, deixou comtudo entrever a habilidade de que é dotado.

Os Srs. Henrique e Joaquim Câmara identificarão-se perfeitamente com os typos que concebi.

Com taes soldados a victoria é certa.

Personagens Atores

Nogueira, estudante do segundo ano F. Coelho
Frederico, estudante de preparatórios Leal
Neves, estudante do terceiro ano Henrique
Macedo, dito do quarto ano Peregrino
Jacó, negociante J. Camara
Trindade, calouro Eugênia Camara
Um Oficial de Justiça não há registro

A cena passa-se em São Paulo – Atualidade.

Ato Único

O teatro representa o quarto de Trindade; ao fundo uma porta aberta e uma janela; duas portas laterais. Junto à janela um cabide com alguma roupa em desordem, uma estante com livros encostada à parede do fundo. À direita um piano, uma mesa no centro como livros espalhados, e a à esquerda uma cama com os lençóis e um cobertor encarnado em desalinho. Cadeiras, etc, etc.

Cena I
(Ao subir o pano ouve-se dentro uma gritaria infernal, na qual devem sobressair as palavras: ó calouro, ó burro, ó ladrão de galinha, ó desfrutável, etc.)

Trindade, só

Trindade (Entrando furioso pela porta do fundo.) – Berra, canalha!…Miseráveis!…Infames que assentam e desmoralizar um homem, qualquer que seja o lugar em que se ache. (Pausa: mudando de tom.) São gaiatices do Senhor Nogueira. (Voltando-se para a platéia.) Os senhores acham isto bonito? Quase todos os senhores são veteranos, pois bem; coloquem-se na minha posição, e façam idéia com que cara passa um homem pela rua sacudido por uma vaia com esta que acabo de tomar! Todas as janelas se abriram, milhares de caras às gargalhadas gritavam na minha passagem, ó burro, ó desfrutável, ó ladrão de galinhas!…Ora, senhores, chamarem burro a mim que fiz há dias uma sabatina brilhante em Direito Natural, sim, senhores, (Com expressão.) uma sabatina brilhante, brilhantíssima. Ao apelo de meu nome marcharei majestoso para o banco augusto dos eleitos, e então pela primeira vez elevei minha voz eloqüente no sagrado recinto do templo da ciência. Os senhores não foram à feijoada? Pois não sabem o que perderam. Mas ah! Qual não foi a minha desesperação, quando, depois dos parabéns e abraços dos meus colegas, vejo-me cercado nos gerais da Academia por um grupo de segundanistas que, atochando-me um barrete vermelho na cabeça, obrigaram-me a correr pelo Largo à guise de uma vítima do Santo-Ofício! Julguei-me no meio de uma horda de selvagens, de Cafres, de Hotetontes, de Antropófagos, sim, de Antropófagos, porque estava vendo a hora em que me comiam, em que me devoravam! Quis resistir; porém quatro valentes piúvas, e milhares de punhos fechados que surdiram como por encanto do grupo negro que e cercava, embargaram-me a voz na garganta, e então pela primeira vez em minha vida tremi; tremi, não o nego, mas foi de raiva. (Indo à porta do fundo, e falando para fora.) Hão de me pagar, miseráveis; hei de lhes mostrar que não se desmoraliza um homem impunemente.

Berra, canalha, que eu hei de a cacete
Rachar a cabeça de algum valentão,
Pregarem uma vaia, domingo, na rua
Num homem como eu que já tem posição!

Infames! Eu juro que a minha vingança
Cruel e terrível tremenda há de ser,
Quão pode um calouro ferido em seus brios
Eu juro, canalha, que em breve hão de ver.

Berra, canalha, que eu hei de a cacete
Rachar a cabeça de algum valentão,
Pregarem uma vaia, domingo, na rua
Num homem como eu que já tem posição!

Do sangue beber-lhes, de acre vingança.

Mas ah! Agora é que me lembro que ainda não almocei…(Puxando o relógio e vendo as horas.) Bem; ainda falta um quarto para as onze: hoje é domingo, e meus companheiros não almoçam senão lá para o meio-dia; provavelmente ainda estão dormindo, vou acordá-los. (Vai sair pela porta do lado direito na mesma ocasião em que entra Nogueira pela porta do fundo, olha meio atrapalhado para Nogueira, que ri às gargalhadas na ocasião em que ele sai.)

Cena II
Nogueira, só

Nogueira (Fumando um cigarro.) – Que impagável calouro! É pior do que uma barrica de pólvora inglesa. Não se me dá de apostar que se ele pilhasse uma pistola fazia-me alguma gracinha. Mas, coitado! Prescindindo do desfrute e de todas essas suceptibilidades próprias da posição que ocupa, é uma bela alma; fornece-me todos os dias cigarros, e ontem levou a bondade ao ponto de pagar-me um bilhete de platéia. Mas onde está essa gente? (Virando-se para a porta do lado direito.) Ó Macedo! (Voltando-se para o lado esquerdo.) Ó Frederico!

Cena III
O Mesmo, Frederico e Macedo

Macedo (De dentro.) – O que queres?

Nogueira – Vamos à prosa. (Macedo e Frederico entram pela porta do lado direito.)

Frederico (Palitando os dentes.) – Desconheci agora a tua voz: pensei que fosse o Araújo.

Macedo (Deitando-se na cama, também palitando os dentes.) – O que há de novo por aí, Nogueira?

Nogueira – O que há de novo? Pois vocês não sabem?

Macedo – Se soubéssemos não te perguntaríamos.

Nogueira (Sentando-se.) – Pois bem; vou contar-lhes. Há pouco estava eu na janela do meu quarto com o Albuquerque, o Inácio, o Martins, e mais uns quatro ou cinco colegas do Neves, que vão todas as manhãs filar-lhe o café de máquina, quando vejo sair do Largo do pelourinho, e dobrar a Rua da Glória a impagabilíssima figura do Trindade. O homem, apenas avistou-nos, veio cambaleando e tropeçando em quanta pedra encontrava pelo caminho. Descrever então o que se passou é impossível! Insensivelmente seguro em uma lata de folha que tinha debaixo de minha mesa…(Mudando de tom.) Mas entre parêntesis, vocês já almoçaram?

Frederico – Não nos vês de palito?

Nogueira (Rindo às gargalhadas.) – Que pagode: faço idéia como não estará o Trindade furioso.

Frederico e Macedo (Admirados.) – Pelo quê?

Nogueira – Pela tremendíssima hipótese de almoço que vocês lhe pregaram. O homem hoje faz um assassinato.

Frederico – O almoço estava marcado para as dez e meia horas; ele chegou depois da hora, a culpa não é nossa: queixe-se de si.

Macedo – Ora, o que é uma hipótese de almoço? Console-se comigo que já tenho tomado muitas de almoço, jantar e chá.

Frederico (Sentando-se em uma extremidade da cama em que se acha Macedo.) – Se eu contar a vocês o que se passou comigo há quatro anos, talvez não me acreditem. Estava eu nesse tempo no colégio do João Carlos, e estudava alguns preparatórios que me restavam para largar a maldita casca de bicho, casca que até hoje ainda possuo, e julgo possuirei per omnia saecula saeculorum, se Deus me der vida e saúde, quando em um belo sábado, saindo do colégio, deliberei lá não voltar senão daí a uma semana; por outra, resolvi ficar na pândega para entregar-me aos doces prazeres de uma tacada de bilhar no Lefebre, e respirar o ar puro e livre das ruas que eu só via aos domingos e dias santos. Mas desgraçadamente meus cálculos falharam, pois meti-me na noite em que saí do colégio em um malfadado lansquenet, e perdi, ainda me lembro com grande dor, uns magros dez mil réis com que procurava satisfazer todos os meus sonhos e ambições de cascabulho. Saí da tal casa leve como uma pena, sem um real no bolso, disposto já a vagar pelas ruas até que rompesse a aurora, quando encontrei-me com o Martins.

Nogueira – Quem? O Martins que é hoje meu colega?

Frederico – Mas, como ia dizendo, encontrei-me com o Martins, e conto-lhe imediatamente o ocorrido; ele solta uma risada, e diz-me que se achava nas mesmas condições, isto é, sem dinheiro, mas que entretanto morava já há dois dias (note-se que o Martins também estava fugido do colégio.) em uma casa que um estudante do 4º ano tinha deixado alugada nas férias. Introduzimo-nos na tal casa, e aí (Ah! Nem sei como o conte) passamos quatro dias a pêssegos verdes, que e ceroulas colhíamos com as nossas próprias mãos de um rafado pessegueiro que havia no quintal, como outrora a boa mãe Eva no estado primitivo colhia os frutos da árvore proibida. No quarto dia eu estava mais magro que um canivete do Capitão, e o Martins foi transportado para o colégio, por ordem do correspondente, com uma tremenda inflamação de intestinos. (Riem-se todos às gargalhadas.)

Nogueira – A poesia da nossa vida consiste nesses belos episódios. (Para Macedo.) Ó Macedo, dá-me um cigarro.

Macedo (Tirando um cigarro do bolso, e atirando para Nogueira.) – Tome, e sem exemplo. Na Rua de São Gonçalo há muito bons: mande comprar.

Nogueira (Prepara o cigarro, e tirando uma caixa de fósforos de cima da mesa, acende-o) Não duvido: porém eu prefiro os teus. (Mudando de tom.) Silêncio, que se não me engano aí vem o Trindade.

Cena IV
Os Mesmos e Trindade

(À entrada de Trindade todos olham para o teto, palitando os dentes. Trindade fica por algum tempo mudo, e para disfarçar a sua perturbação, segura em um livro que se acha em cima da mesa. Frederico, Nogueira e Macedo procuram abafar o riso.)

Nogueira (Dirigindo-se a Trindade.) – Bom dia, doutor.

Trindade – O senhor é bem ordinário, tão ordinário que não me abaixo a responder-lhe; e se não fosse atender à consideração de achar-se o senhor em meu quarto, já há muito lhe teria quebrado uma cadeira nas costas.

Nogueira – O doutor está realmente queimado! Quer que lhe vá buscar um copo com água? Sans façon, sem cerimônia.

Trindade – Senhor Nogueira, Senhor Nogueira, não me insulte que eu hoje perco-me.

Nogueira – Que mal lhe fiz eu, doutorzinho? Dar-se-á caso que, sem o saber, lhe tenha invadido a esfera jurídica?

Trindade – O senhor ainda se atreve a perguntar-me que mal me tem feito? Quando em plena rua se insulta um homem e o desmoralizam só pelo simples fato de se achar ele ainda no princípio de sua carreira; quando chama-se a um homem de burro e ladrão de galinhas, sem que ele tenha ainda revelado estupidez, nem atacado galinheiro de casa alguma, é preciso ter sangue de barata, Senhor Nogueira, para não calcar um miserável deste a pés, e encher-lhe a cara de bofetadas. (Avançando para Nogueira.)

Nogueira (Pondo uma cadeira de permeio.) – Não quer sentar-se, doutor?

Trindade – Miserável!

Frederico – Deixa-te de queimações estúpidas, Trindade, o Nogueira não tem culpa da hipótese que tomaste.

Trindade – Também você, sô gaiatão, quer divertir-se á minha custa? Vamos lá, não tem mais nada para dizer? Ora, que eu seja nesta casa debicado até por um bicho! Olhem por favor para aquela cara.

Frederico – Não é lá das piores, não é das mais feias.

Trindade – O senhor acha que eu sou o palito cá da casa?

Nogueira (Para os dois.) – Psica, psica: segura Minerva, (Para Trindade.) Pega Turbante. (Para Frederico.) Psica, psica.

Trindade – Psica, sô miserável, diz-se aos cães e cão é você que vem aqui todos os dias filar cigarros e mendigar muitas vezes objeções de Eclesiástico ao Macedo, para fazer, além de tudo, um papel ridículo na sabatina. Eu sou calouro, é verdade, porém a primeira vez que falei em público, não desonrei o meu nome nem salpiquei de lama a ilustre classe a que pertenço. Vá perguntar aos colegas que figura fez o Trindade na sabatina outro dia? E eles todos responderão – É a primeira que tem aparecido até o presente.

Frederico e Nogueira (Tocam o bitu e gritam.) – Viva o Trindade! Viva! Viva!

Macedo (Segurando no braço de Trindade, procura levá-lo para fora do quarto.) – Vai-te embora, Trindade, que tu estás te prestando à vista aqui destes senhores. (Apontando para a platéia.)

Nogueira – Deixa o calouro, Macedo, agora é que ele está começando a ficar impagável.

Trindade – Eu vou, Senhor Macedo, e acredite que se não quebro as ventas deste patife (Apontando para Nogueira.) é em consideração ao senhor. (Indo à direita.) Ó moleque, quando estes senhores saírem fecha a porta do meu quarto. (À parte.) Hei de acabar com o tal pagode.

Frederico (A Nogueira.) – Vamos para o meu quarto, antes que o Trindade quebre-nos as ventas. Além disso eu tenho que te falar.(Frederico e Nogueira saem pela porta da esquerda.)

Trindade (À parte.) – Já tenho minha resolução formada, hoje mesmo ponho-me no olho da rua, e ficarei livre dessas amolações contínuas. (Sai pela porta do fundo.)

Cena V
Macedo, só

Macedo – É hoje o dia em que tem de vencer-se essa maldita letra, e até o presente não sei o que fazer, não tenho um real, e nem sei mesmo onde buscar dinheiro para satisfazer esse compromisso de honra. Concordo que deixei-me arrastar por alguns momentos nesse turbilhão de loucuras que se me apresentou, sem pensar, nem refletir; porém quando a minha honra e o meu crédito podiam prejudicar-se, a razão falou mais alto, e então fugi. Não querendo comprometer a minha dignidade, assinei essa letra e não posso pagá-la. Oh! Malditos sejam todos esses credores! (Sai pela direita.)

Cena VI
Neves, só

Neves (Entrando pela porta do fundo, fumando um cigarro, com as mãos no bolso do chambre, passei por algum tempo distraído pela cena, senta-se em uma cadeira, e diz pausadamente.) – Que cinismo! (Sai lentamente pela porta da direita.)

Cena VII
Nogueira e Frederico (Entrando pela esquerda.)

Frederico – É o que te digo, Nogueira, hoje vence-se uma letra que o Jacó obrigou o Macedo a assinar – está portanto realmente encalacrado. Aquele maldito verdugo é capaz de fazer-lhe alguma, e eu antevejo um resultado bem funesto em tudo isso.

Nogueira – Deixa o negócio por minha conta, e verás como se trata um credor de estudante. Acredita, Frederico; um credor de estudante é o animal mais covarde que pisa o solo de São Paulo: com quatro gritos e meio abranda-se e humilha-se como o mais inocente cordeirinho. E então este que foge de um estudante atrevido, como o diabo da cruz! Além disso o Macedo é filho-família, e em face da nossa legislação não é responsável pelas dívidas que contrai; se quiser pagar é somente para salvar a sua dignidade.

Frederico – E tu sabes qual é a Ordenação que trata disso para lermos ao Jacó, quando ele vier?

Nogueira – Não, porém é o mesmo: improvisa-se qualquer Ordenação, e ele engolirá a pílula com a mesma facilidade com que qualquer de nós engole uma das do Etchecoin. Deixa o negócio por minha conta e verás.

Frederico – Não faças alguma das tuas costumadas pagodeiras, que podes comprometer o Macedo. Eu falo-te com experiência; estou aqui há mais tempo que tu, e em uma ocasião quase fui fazer companhia ao Taborda por uma brincadeira desse gênero.

Nogueira – Por falar em Taborda: lembras-te daquela noite em que o Vilares foi encontrado pela patrulha nos degraus da Igreja da Sé mais bêbado do que um marinheiro inglês em terra, e que daí foi levado em braços para a cadeia?

Frederico – Se me lembro! Nessa noite tomei eu uma carraspana de conhaque que deu-me para quebrar quantos lampiões encontrava pelas ruas. É que a claridade me fazia mal.

Nogueira – O pagode não termina aí: o melhor foi sair o Vilares no dia seguinte pelo Largo da Cadeia de chambre e gorro bordado. Com que cara amarrotada vinha o pobre coitado; isso, porém não o impedia de marchar avante e pretensioso como um sultão. Está hoje formado, casado, e dizem que é um excelente pai de família.

Frederico – Ó tempora! Ó mores! Que belos tempos! (Suspirando.) Tens aí…

Nogueira – Um cigarro? Ia te fazer o mesmo pedido.

Frederico – Pois deixa de ser filante, que é coisa muito ridícula.

Nogueira – Qual, isto é boato espalhado pelos vinagres. Mas, mudando de assunto, já sabes por quem o Trindade está solenemente apaixonado?

Frederico (Sentando-se na cadeira.) – É moléstia de cabeça, não faças caso.

Nogueira – Não, é real: é pela filha do Juca do Braz. Passa por lá todas as tardes, e é raro o dia que não venha para casa meio triste e meio alegre.

Frederico – Explica-te.

Nogueira – Alegre, porque vê a bela, e triste, porque lhe dão vaias. A vaia parte da casa do Martins, e amanhã convido-te para apreciarmos de lá o pagode. É uma paixão de Otelo!

Frederico – Qual, isto é um gracejo teu, porque realmente a Desdemonda é uma lambisgóia.

Nogueira – É uma paixão diabólica que o levou à loucura de empenhar um fraque! Isto deu lugar a que o Martins parodiasse esta poesia do Furtado Coelho – Quero fugir-te, mas não posso, ó virgem.

Frederico – E sabes a paródia?

Nogueira – Lá vai (Sentando-se ao piano.) – Quando pretendem vocês mandar levar este piano lá para a casa? Vocês souberam mandar buscá-lo para o pagode, mas…

Frederico – Recita a poesia, e deixa-te de maçadas.

Nogueira (Acompanhando o recitativo.)

Quero fugir-te, mas não posso, ó fraque,
Ah! Sou levad pela onça ingrata!
Quero fugir-te, mas fatal ataque
Me lança em terra, me desgraça e mata!

Lançado ao prego és meu vedado pomo,
Ninguém no mundo minha dor compreende,
Quero fugir-te, quero, sim, mas como?

Para enganar-me digo muitas vezes,
Que és velho, infame que é loucura amar-te:
Então me lembro que não há dois meses,
Que eu fui à casa do Fresneau buscar-te.

Oh! Quantas vezes eu passava as horas,
Mirando as graças de teu talhe airoso,
Hoje perdido para mim tu choras,
Pendido ao prego, ferrugento, idoso.

Fraque querido…

(Representando.) – Ó diabo, não me lembro do resto.

Frederico – Bravo, bonito, sim senhor.

Cena VIII
Os Mesmos e Neves

Neves (Entrando pela direita.) – Que cinismo! Meus senhores, estou-os cumprimentando. (Tira do bolso um canivete e, deitando-se na cama, começa a aparar as unhas.)

Frederico – Que furioso cínico! É capaz de levar todo o dia ali naquela cama, aparando unhas,e contando as tábuas do teto. Em São Paulo há duas classes de vadios: uns que, parecendo ter o do da ubiqüidade,s e apresentam em toda a parte, em bailes, teatros, festas de igreja, leilões do Joly, novenas, etc, menos na Academia; outros que, inimigos do progresso e da atividade, passam onde deixam à vontade crescer o abdômen. Tu pertences à primeira seita, e cá o senhor, que está deitado, à última.

Nogueira – Fechaste a porta do meu quarto quando saíste, Neves?

Neves (Pausadamente) – Sim, fechei. (Muda de posição na cama.)

Frederico – Tens um companheiro de casa assaz divertido!

Nogueira – Há dias que não diz uma palavra; no entretanto é o homem que mais aprecia uma prosa, deitado em uma boa cama, já se sabe, sem nada dizer, mas pronto para tudo ouvir. E sabes qual é a especialidade de prosa que ele mais aprecia?

Frederico – Sem dúvida caçada de veados ou cruzamento de raças de cavalo?

Nogueira – Nada, coisa mais séria; é a tese das teses – a vida alheia. Respeita-o como uma das primeiras rabecas de São Paulo: toca admiravelmente variações sobre motivos de qualquer tema; tem arcadas de Paganini. Também não respeita ninguém: é um verdadeiro pagão!

Frederico – E qual é o sistema da rabequeação que ele mais aprecia? Sim, porque há diversos sistemas de rabequear.

Neves – Falem mais alto que eu também vim para a prosa.

Nogueira – Falamos dos diversos sistemas de rabequeação, e o Frederico tem a palavra.

Frederico (Em atitude magistral.) – Pois, meus amigos, pela experiência que tenho, atrevo-me a oferecer-lhes uma brilhante preleção sobre este assunto. Querem?

Nogueira – Sim, venha lá isso.

Neves – Topo.

Frederico (Com dignidade cômica.) – Há sujeitos que rabequeiam de uma maneira insinuativa: eu me explico melhor – há sujeitos, por exemplo, que nas suas arcadas dizem: “O Nogueira é um tratante, um canalha, um miserável, um caloteiro, mas no entretanto é bom moço, cumpre as suas obrigações, tem boa alma, toma regularmente a sua carraspana, por divertimento, já se vê, desmoraliza-se em lugares públicos, mas não é mau rapaz, tem bons sentimentos”. Este é o sistema aristocrático, rabeca de salão, e que tem grande número de sectários. O segundo é o sistema dos ronhas. O ronha é o homem que exerce a ronha. A ronha pode-se estender a todos os atos humanos: assim é, por exemplo, ronha o beato ou o hipócrita que, acabando de bater nos peitos na igreja, vem cá fora entregar-se religiosamente às delícias de Cápua. Parece-me que não há estudantes dessa natureza; no entretanto, se é que há, sou de opinião que andem de mantilha para se distinguir dos outros. Mas a ronha, aplicada especialmente à hipótese vertente, é um certo desprezo e mesmo rancor que alguns sujeitos parecem afetar em uma prosa de vida alheia, mas que entretanto extasiam-se às mais pequenas notas de instrumento divino, como o poeta se expande diante do belo. Estes entram somente de ouvido, e são tantos os sectários como os admiradores do Padre Pereira.

Nogueira – A comparação é mesmo de bicho.

Frederico – Não me interrompa. O terceiro sistema é o dos que falam mal de tudo e de todos e não encontram nos homens senão defeitos: é o exclusivismo, e peca como todos os sistemas exclusivistas.

Nogueira – É o sistema do Neves.

Frederico – Justamente.

Neves – Não tanto.

Frederico – O quarto sistema é o dos que rabequeiam por mero passatempo, para suavizar as horas de cinismo. É este o sistema que quase todos nós seguimos, é o menos nocivo, e o que produz menos males, porque não é o ódio nem o rancor que preside a prosa, mas apenas um desejo de pagode. Tais são, senhores, as observações que tenho colhido de minha longa vida de bicho, e que procurarei ir aperfeiçoando com o correr dos tempos.

Nogueira – Bravo! Falas com a experiência de um velho: és um alcorão; entretanto esqueces o sistema dos mitras, que tecem os maiores panegíricos a um sujeito pela frente e por detrás não são rabecas, são rabecões.

Frederico – Cada dia aparecem novos sistemas, e eu ultimamente não estou muito a par do progresso da ciência, porque os credores não me deixam pôr o nariz na rua.

Neves – Vocês estão muito cínicos.

Nogueira (Rindo-se.) – Este desgraçado ainda acaba tocando realejo para se distrair.

Frederico – Ó Neves! Diz alguma coisa para animar a prosa: estás mesmo de neve.

Neves – Vocês estão estupidamente cínicos: eu me retiro. (Levanta-se da cama e sai pela porta do fundo.)

Frederico – Ó Neves! Amanhã aparece mais cedo para prosearmos. (Nogueira e Frederico riem-se às gargalhadas.)

Cena IX
Frederico, Nogueira e Trindade

Trindade (Entrando com dois negros, aponta para as canastras.) – Rapaz , segura ali. (Virando-se para o outro negro.) – Rapaz, ajuda ali teu parceiro. Irra! Hoje acaba-se o pagode, mudo-me, e está tudo decidido.

Nogueira (Para Frederico.) – É preciso abrandarmos o homem. O Macedo, quando souber que fui eu a causa da mudança do calouro, queima-se comigo, e eu não estou para indispor-me com ele. Não quero ser o ponto de discórdia desta casa. Vou fazer as pazes com o calouro. (Para Trindade, batendo-lhe no ombro.) Não sejas criança, Trindade, foi uma brincadeira própria de rapazes.

Trindade – Vá-se embora, senhor, não me aborreça.

Frederico – Você também cavaqueia com qualquer coisa, encordoa por uma bagatela.

Trindade – Pois é qualquer coisa, é bagatela ser um homem constantemente amolado, não poder dizer uma palavra que não lhe respondam com quatro gargalhadas não poder sair à rua sob pena de lhe gritarem: ó burro, ó sandeu, ó calouro? Isto é bonito? É próprio de moços decentes e civilizados que freqüentam os bancos de uma Academia?

Nogueira – Concordo com tudo que quiseres; mas dá-me um abraço e façamos as pazes. (Trindade deixa-se abraçar um pouco friamente.) Manda os pretos embora, e continua a viver com os teus companheiros que te estimam como um bom menino que és. Deixa-te de criançadas, e viva a pândega!

Trindade – Pois bem, se juram doravante tratar-me como um companheiro de casa, e não como um cão, fico.

Nogueira e Frederico – Juramos.

Trindade (Virando-se para os negros.) – Ponham-se fora. (Os negros saem.)

Nogueira (Abraçando a Trindade.) – Viva a conciliação! Se tivéssemos uma boa garrafa de vinho, poderíamos tornar mais solene este tratado de paz.

Trindade – Se prometem cumprir o juramento, isso é o que menos custa. Tenho ali na canastra duas garrafas de vinho que me restaram do pagode que dei no dia de minha sabatina…

Nogueira (À parte.) – Sempre desfrutável.

Frederico (À parte.) – Lá vem a sabatina.

Trindade (Continuando.) – E podemos esvaziá-las.

Frederico e Nogueira – Prometemos.

Nogueira – Eu ainda levo a minha promessa mais longe: prometo que de hoje em diante serei o teu mais fiel e dedicado amigo.(À parte.) Ó mágico poder do vinho.

Trindade – Pois bem, viva a rapaziada e vamos à pândega. (Enquanto Trindade tiras as garrafas da canastra, Frederico e Nogueira fazem-lhe gaifonas pelas costas.) Aqui estão, rapaziada. (Dá uma garrafa a Nogueira e fica com a outra.)

Cena X
Os mesmos e Macedo

Macedo (À parte.) – Aproxima-se o momento fatal: é quase meio-dia, e o verdugo não tarda a aparecer. (Reparando para o grupo.) Pois quê, já fizeram as pazes?

Nogueira – Não há copos nem saca-rolha.

Frederico – Saca-rolha há um aqui em cima da mesa. (Tira o saca-rolha e dá a Nogueira.) Quanto a copos dispensa-se perfeitamente, podemos beber pela garrafa – é mais clássico.

Trindade – Está dito, vai-se ao gargalo. (Recebe o saca-rolha e abre a garrafa.)

Nogueira – Viva o Trindade. (Bebe.)

Frederico (Tirando-lhe a garrafa.) – Alto frente: ainda não bebi. À saúde de sua brilhante sabatina, Senhor Trindade. (Vira a garrafa.)

Trindade – Meus senhores, um brinde: à saúde da emancipação do primeiranista, e à morte de todos esses prejuízos acadêmicos que herdamos da velha Coimbra. À saúde de todas aquelas por quem nossos corações palpitam.

Nogueira (Para Frederico.) – Percebo. A filha do Juca do Braz.

Trindade – Viva a mocidade inteligente e briosa que abandonando, que abandonando, que…

Frederico (À parte.) – Temos cabeleira.

Nogueira – Não se engasgue, dê-me o caroço.

Trindade – …as afeições mais caras, o lar doméstico e a terra que lhe deu o ser, vêm, longe de tudo isso, conquistar os louros que engrinaldaram a fronte de Homero, Tasso, Petrarca, Dante e Camões que, cantando as ações heróicas dos Lusitanos, enxergava um horizonte de glórias no futuro.

Frederico – E assim mesmo não via pouco; olhe que tinha só um olho.

Nogueira – Pelo menos assim o diz a história.

Trindade (Pulando em cima da cadeira com entusiasmo.) – Vou arrematar este brinde, senhores, bebendo à saúde daquelas idéias que mais se harmonizam com o estado de perfectibilidade e civilização dos povos: à saúde das idéias republicanas. (Vira a garrafa toda.)

Viva o Porto,
Viva o Madeira,
Não é tolice
Uma cabeleira.

(Todos, menos Macedo.)

Viva o Porto,
Viva o Madeira,
Não é tolice
Uma cabeleira.

Nogueira (À parte.) – O vinho já começa a fazer efeito antes de tempo. (Para Trindade.) Passa-me a garrafa.

Trindade (Descendo da cadeira.) – Já não há mais nada. (Vira a garrafa de boca para baixo.)

Macedo (Que durante esse tempo passeia pensativo.) – Entretanto esqueceram-se de mim.

Nogueira – Pois também estás hoje tão cínico! Não sei o que tens.

Trindade (Mal podendo suster-se em pé.) – Que diabo, anda-me tudo à roda…o tal vinho é forte. Ó Nogueira, tu estás meio fardado, fala franco. Está-me tudo a andar à roda… Ó Nogueira anda cá, dá-me ali aquela vela para acender um cigarro. (Mete a mão no bolso, e tira da algibeira um lápis que põe na boca, julgando ser um cigarro.) que diabo tem este fumo? (Olhando para o lápis.) Está furado. (Atira o lápis no chão.)

Frederico (Encostando-se à mesa.) – Furada está a tua cabeça.

Nogueira – De que cor é esta linha, Trindade?

Trindade – Que pagode, minha comadre. Vem cá, Mariquinha, não fujas; olha que é teu benzinho quem fala.

Nogueira (Segurando em Macedo, e puxando Frederico.) – Não sejam cínicos, vamos formar aqui uma pândega, e apreciar o Trindade enquanto está impagável. Dance-se o cancan, e viva o pagode.(A orquestra toca a última quadrilha da – Corda Sensível -; Frederico e Nogueira dançam em cancan desesperado, e Trindade sempre cambaleando embrulha-se no cobertor encarnado, trepa em cima da cama, e aí dança um cancan infernal, no meio do qual Jacó aparece no fundo, e o cancan continua.)

Cena XI
Os mesmos e Jacó

Jacó (Entrando.) – Com licença, meus senhores. (Macedo e Frederico escondem-se na porta da esquerda. Nogueira pára espantado, olhando para Jacó, obriga-o a valsar pelo meio da cena, e largando-o de repente, atira-o de costas.) É desta maneira (Levantando-se e sacudindo a roupa.) que os senhores recebem as pessoas? (À parte.) Se não viesse buscar dinheiro…é preciso humilhar-me para ver se o pilho. (Alto.) Não sabem dizer se o Senhor Doutor Macedo está em casa?

Nogueira – Julgo que não. O senhor deseja alguma coisa? É sem dúvida dinheiro que vem buscar?

Jacó (Risonho.) – Como o senhor doutor adivinha; é isso mesmo. Vossa Senhoria é muito pitoresco. Vence-se hoje uma letra que o Senhor Doutor Macedo assinou, e eu vim buscar os 300$000 por que ele se obrigou.

Nogueira – Queira sentar-se. (Na ocasião em que Jacó vai sentar-se, Trindade puxa-lhe a cadeira, e atira-o de costas.)

Jacó (Furioso.) – O senhor não me deixará! (À parte.) Este sujeito está bêbado.

Trindade (Batendo-lhe no ombro.) – Excelso vinagrão, eu te saúdo.

Jacó (Risonho.) – Isso é lisonja, senhor doutor.

Nogueira (Vai buscar o violão, e vem sentar-se em cima da mesa ao pé de Jacó.) – Tenha a bondade de explicar-se pausadamente para que eu o entenda.

Jacó – Eu já disse ao que vim. (Nogueira acompanha-lhe a frase a violão.)

Nogueira – Pode continuar.

Jacó – O Senhor Doutor Macedo deve-me já há dois anos 300$000 (Nogueira acompanha-o a violão.) e para garantia dessa dívida pedi-lhe que me assinasse uma letra…(Acompanhamento de violão.) Senhor Doutor, olhe que falo sério: deixe-se de caçoadas. (Acompanhamento de violão.)

Nogueira – Senhor Jacó, tenha a bondade de falar outra vez e repetir o recitativo, para ver como é sonoro este acompanhamento. (Fere o violão.)

Jacó (Levantando-se.) – Eu não vi, aqui para ouvir música, senhor doutor; quando quero vou às retretas.

Nogueira – Está incomodado, Senhor Jacó? A retrete é no fundo do corredor à esquerda. (Indicando a porta da direita.)

Jacó – S ó o que desejo é falar com o Senhor Doutor Macedo. (Acompanhamento.)

Frederico (Para Macedo.) – O Nogueira com aquele debique é capaz de comprometer-te.

Macedo – Haja o que houver eu não apareço.

Nogueira (Continuando a tocar.) – Ora, Senhor Jacó, esqueça-se disso: o Macedo está sem dinheiro, e ainda mesmo que tivesse é filho-família, e não é responsável pelas obrigações que contrai.

Jacó (Furioso.) – Não é responsável, senhor doutor! Não me diga isso: a letra está assinada por ele, e em nome de sua dignidade deve pagá-la.

Trindade (Dando uma encapelação em Jacó.) – Está queimado! Viva o rei dos Vinagres!

Jacó – Olhe que o senhor está me fazendo chegar a mostarda ao nariz. (Faz menção de avançar para Trindade.)

Nogueira (Empurrando-o) – Ponha-se fora.

Frederico (Entrando em cena.) – Fora! Fora! (Trindade dá uma porção de encapelações em Jacó, Nogueira dá-lhe com o violão nas costas, e Frederico ri-se às gargalhadas.)

Macedo (Entrando.) – O homem queima-se e é capaz de fazer alguma.

Jacó (Sai pela porta do fundo aos empurrões, e voltando, pára na porta.) – Isto é um estorpício, é um vandalismo. Por terem força julgam-se uns Rockchilles. Hei de mostrar o que é um negociante ofendido em sua dignidade! Eu já volto acompanhado. (Sai.)

Cena XII
Frederico, Nogueira, Macedo, Trindade e depois Neves

Trindade (Ainda envolvido no cobertor encarnado, deita-se de barriga para baixo em cima da cama.) – Que pagodeira!

Neves (Entrando com toda a fleuma.) – Que algazarra foi esta que vocês fizeram?

Nogueira – Foi uma pequena correção doméstica em um credor.

Macedo – Vocês com o seu pagode acabam de comprometer-me. O homem saiu desesperado.

Frederico – Ele é incapaz de queimar-se: aquilo foi fogo de cavaco.

Nogueira – Eu responsabilizo-me pelo resultado.

Trindade (Levantando-se da cama.) – Esteve riquíssima a pagodeira. Ó Nogueira! Tu viste a cara com que saiu o Jacó? O homem saiu vraiment indignado! Ó Frederico! Passa a garrafa, e vamos beber à saúde do Jacó. Ora esta, homem, quem me vir é capaz de apostar que estou bêbado.

Frederico – Qual, não tens nada: estás somente com um fardão de grande gala.

Macedo (Passeando.) – Vejamos qual é o desfecho desta tragédia.

Nogueira – Eu já te disse que não te maces; deixa correr o negócio por minha conta.

Neves – Mas que diabo de cinismo: eu não os entendo.

Trindade – Nem eu tão pouco, meu amigo.

Nogueira – Pois eu lhes explico, meus amigos. O Macedo deve 300$000 ao Jacó, ele veio cobrá-los, e nós tocâmo-lo a cachações pela porta fora. É uma coisa muito natural, e que nada tem de extraordinário: seria extraordinário se o Macedo pagasse a dívida e o deixasse sair impunemente.

Trindade – Lá isso é; tem toda a razão. Mas que diabo tenho eu que está tudo a andar-me à roda? E esta? Parece-me que tenho tanta gente na minha frente; dar-se-á o caso que e esteja em aula? Ó Araújo! Dá-me o compêndio, e passa-me uma lição que eu estou in albis.

Frederico (Segurando em Trindade e procurando levá-lo para a cama.) – Vai-te deitar, Trindade, que tu estás meio incomodado.

Trindade – Quem? Eu incomodado? Ó Frederico! Não me insultes; olha, eu vou aqui à república vizinha, e vê só a certeza com que ando. (Vai cambaleando para o fundo da cena, e encontrando-se com Jacó, que entra com um oficial de justiça, atira-o ao chão.)

Cena XIII
Os mesmos, Jacó e um Oficial de Justiça

Jacó- Não há dúvida – este sujeito está tocado.

Trindade – Levante-se, que eu não brigo com homem deitado.

Jacó (Levantando-se.) – Pois, meus senhores agora espero obter um melhor resultado, porque trouxe uma boa carta de recomendação de pessoa influente, a quem os senhores não podem deixar de servir. (Tira do bolso uma citação, e entrega a Macedo.)

Macedo (Lendo.) – É uma citação; eis o desfecho terrível que eu esperava de tudo isso.

Nogueira – Uma citação!

Jacó – Quando vim pela primeira vez já a tinha comigo; pois sabia perfeitamente que o Senhor Macedo havia de esquivar-se ao pagamento da dívida; porém o acolhimento benévolo que aquele senhor (Apontando para Trindade.) prodigalizou-me e obrigou-me a ir pedir o auxílio da justiça para fazer valer o meu direito: é a razão por que volto agora com este senhor.

Macedo – E julga o senhor que vem fazer valer o seu direito quando usa de uma infâmia?

Frederico (Batendo o pé.) – Sim, é uma infâmia.

Trindade (Cambaleando para ele, e dando-lhe um arroto na cara.) É um desaforo; é uma vinagreira.

Jacó – Será tudo o que os senhores quiserem.

Nogueira – Pois bem, se eram os seus desígnios comprometer a reputação sem mancha de um moço, fazendo-o comparecer perante uma autoridade por um motivo que o difama e extorquir depois, abrigado à sombra da lei, o dinheiro que lhe roubou, se eram estes os seus desígnios, Senhor Jacó, fique convencido que nunca os realizaria. Eu já volto. (Sai precipitadamente.)

Cena XIV
Trindade, Jacó, Frederico, Macedo, Neves, depois Nogueira

Jacó (À parte.) – Eles todos falam em dignidade, em vinagreira e dizem tudo o que lhes vem à boca, mas quando têm de bater o cobre, vêm com desculpas, quando não dão para atrevidos.

Macedo – Então com que o senhor esperava que eu havia de esquivar-me ao pagamento da dívida? (Com furor.) O senhor é bem ordinário.

Jacó – Ora, senhor doutor, isto não vai a zangar.

Frederico( À parte.) – O que iria fazer o Nogueira em casa?

Trindade – Estes credores são temíveis!

Macedo – É bem triste a minha posição, porém a sua ainda é mais, é degradante. Diga-me, finalmente, Senhor Jacó, o que pretende fazer?

Nogueira (Entrando apressado.) – Coisa nenhuma. (Para Macedo.) Aqui tens o dinheiro que te devo.

Macedo – Dinheiro que me deves?

Nogueira (Em voz baixa.) – Cala-te e aceita. Senhor Jacó, a sua dívida vai ser satisfeita, mas antes de tudo há de ouvir-me. Há ladrões que, embrenhando-se pelas matas, assaltam os viandantes de pistola e faca; há outros que roubam de luva de pelica nos salões da nossa aristocracia, estes têm por campo de batalha uma mesa de jogo; há outros, finalmente, os mais corruptos, que são aqueles que, arrimados a um balcão, roubam com papel, pena e tinta. O senhor faz honra a esta última espécie: é um ladrão e um ladrão muito mais perigoso do que os outros. Dê-me essa letra, documento autêntico de sua infâmia e tome o seu dinheiro. (Tira o dinheiro da mão de Macedo, e esfrega-lhe na cara.)

Jacó – Ora, senhor doutor, não se zangue; deixe-se de brincadeiras.

Macedo (Abraçando Nogueira.) – Obrigado, meu amigo, obrigado. Acabas de provar que tens uma alma grande e generosa, que, no meio dos risos e folguedos próprios da nossa idade, não olvidas esses sentimentos sagrados, que tanto enobrecem o coração do bom amigo. Obrigado, obrigado.

Jacó (Que durante esse tempo está contando o dinheiro.) – Está exato. Agora vamos fazer outra visita. O dia está feliz.

Nogueira – Ponha-se fora. (Todos tocam Jacó pela porta fora.)

Trindade – Viva a pândega! (Cai na cama.)

Neves (Olhando ao redor da cena.) – Que cinismo!

(Toca a orquestra a última quadrilha da Corda Sensível; dançam todos o cancan.)

(Cai o pano.)

Fonte:
FRANÇA JÚNIOR, Joaquim José da. Teatro de França Júnior. Rio de Janeiro : Funarte, 1980. p. 51-73 : Meia hora de cinismo. (Clássicos do Teatro Brasileiro). Texto-base digitalizado por Claudia de Moura Leite Ribeiro – São Paulo/SP

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França Júnior (1838 – 1890)


França Júnior (Joaquim José da F. J.), jornalista e teatrólogo, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 18 de março de 1838, e faleceu em Poços de Caldas, MG, em 27 de setembro de 1890. É o patrono da Cadeira n. 12 da Academia Brasileira de Letras, por escolha do fundador Urbano Duarte.

Filho de Joaquim José da França e de Mariana Inácia Vitovi Garção da França.

Cursou humanidades no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, e formou-se em direito pela Faculdade de Direito de São Paulo, em 1862.

Como estudante deu os primeiros passos como autor teatral. De volta ao Rio, estreou no jornalismo no periódico de caricaturas Bazar Volante (1863-67) e como colaborador eventual do Correio Mercantil.

Após exercer a advocacia, reside por um período na Bahia, onde é nomeado secretário de governo do presidente daquela província.

Por volta de 1880 retorna ao Rio de Janeiro e aprende a desenhar com o aquarelista Benno Treidler. Entusiasmado com a descoberta da nova arte, frequenta como assistente a Academia Imperial, onde lecionava Georg Grimm. Desligando-se este da academia, acompanha o mestre que acabara de formar o Grupo Grimm para pintar ao ar livre e ao natural. Mas pouco durou esta ligação com o grupo do paisagista alemão. Concentra-se mais na sua vocação jornalística e literária.

Começou a carreira de dramaturgo em 1861 com duas “comédias de costumes acadêmicos”, A república modelo e Meia hora de cinismo, sobre as relações entre um calouro e um grupo de estudantes veteranos. Revelou-se um continuador de Martins Pena. Em 1862, estreou no Ginásio Dramático (RJ) Tipos da atualidade, comédia mais conhecida como O barão de Cutia, graças à extrema popularidade do personagem do mesmo nome, um fazendeiro rico que uma viúva interesseira deseja ardentemente ter por genro. Dando à peça o título “Tipos da atualidade”, o comediógrafo faz da mediocridade e do interesse as molas-mestras das relações interpessoais na sociedade fluminense de então. Utilizando-se de enredos aparentemente anedóticos, França Júnior fez de suas comédias pequenas caricaturas de aspectos variados do cotidiano e da família fluminense. Outro alvo de suas comédias é o “estrangeiro”, sobretudo o “inglês”, e os privilégios que obtém do governo brasileiro, como em O tipo brasileiro e Caiu o ministério, comédias representadas em 1882.

Importante como painel crítico do Rio de Janeiro no fim do século, a obra de França Júnior reforça a tradição cômica do teatro brasileiro e se caracteriza pela agilidade das falas curtas, das peças em um ato, com linguagem coloquial, jogo cênico rápido, ambigüidades e grande noção de ritmo teatral.

Além de comediógrafo, França Júnior foi promotor público e curador da Vara de Órfãos no Rio de Janeiro, secretário do Governo da Província da Bahia e, como jornalista, autor de folhetins bastante populares à época, publicados em O País, O Globo Ilustrado e Correio Mercantil (reunidos em Folhetins, em 1878, com prefácio e coordenação de Alfredo Mariano de Oliveira).

Foi considerado pelos historiadores o principal seguidor de Martins Pena, o que o tornou, cronologicamente, o segundo mais importante autor do teatro brasileiro. Como seu mestre, escreveu para o palco comédias de costumes e sátiras políticas de grande sucesso, algumas hoje infelizmente desaparecidas.

Obras

A República Modelo (1861)
Meia Hora de Cinismo (1862)
Tipos da Atualidade (ou O barão de Cutia) (1862)
Amor com Amor se Paga (1870)
Direito por Linhas Tortas (1870)
O Defeito da Família (1870)
O Tipo Brasileiro (1882)
Como se Fazia um Deputado (1882)
Caiu o Ministério! (1883)
Dois Proveitos em um Saco (1883)
Entrei para o Clube Jácome (1887)
Maldita Parentela (1887)
As Doutoras (1889)
Ingleses na Costa (1889)
Os Candidatos (1889)
A Lotação dos Bondes
Bendito Chapéu
O Carnaval do Rio

As peças de França Júnior foram reunidas em 1980 em O teatro de França Júnior, em dois volumes.

Fontes:
Wikipedia
Academia Brasileira de Letras
Fundação Biblioteca Nacional

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 346)


Uma Trova Nacional

É nos instantes de dor,
ante o teu porte sereno,
que um homem “grande”, senhor,
se torna um homem pequeno!…
–ERCY MARIA MARQUES/SP–

Uma Trova Potiguar

Na fauna de estimação
tem bicho como tu és.
Com plumas feito pavão
mas sem olhar para os pés!
–MARCOS MEDEIROS/RN–

Uma Trova Premiada

2010 – CTS-Caicó/RN
Tema: OCASO – 4º Lugar

Já na idade das fadigas,
pressentindo o ocaso perto,
só as lembranças amigas
vêm povoar meu deserto!
–JOSÉ TAVARES DE LIMA/MG–

Uma Trova de Ademar

Ela é quem me faz chorar
desde a minha mocidade.
Sei que vou me aposentar
sendo escravo da saudade.
–Ademar Macedo/RN–

…E Suas Trovas Ficaram

Foi nos passos e compassos
de um tango dançado a dois,
que eu me encontrei em teus braços
para perder-me depois!
–NÁDIA HUGUENIN/RJ–

Simplesmente Poesia

Um Sonho de Vida
–ESTER FIGUEIREDO/RJ–

Lua que me olha à distância
sabe bem da inconstância
deste enamorado coração:
incauto…ansioso…vivendo de ilusão

Busca e não encontra lenitivo…
para esta dor tem motivo
e que só ELE sabe o segredo.

Vou caminhando pela vida
a passos lentos, sem guarida…
Até quando?-Não sei!

Sei apenas que a sorte
não pode driblar a morte
nem o sonho que eu sonhei!

Estrofe do Dia

Não precisa tijolo nem madeira
o alicerce não tem escavação
Jesus cristo segura com a mão
que o poder do eterno é sem canseira
eu viajo pra lá segunda – feira
deus querendo eu já vou pra terminar
se esse prédio chegar a desabar
o nordeste se tora em três pedaço
vou fazer uma casa no espaço
sem de nada da terra precisar.
–CHICO QUELÉ/RN–

Soneto do Dia

Montes Pequeninos
–GILMAR LEITE/PE–
(À poetisa/companheira Rachel Rabelo)

Como as pérolas das ostras delicadas
que residem nas águas cristalinas,
os teus seios são conchas pequeninas
enfeitando tuas formas encantadas.

As auréolas são luzes rodeadas
clareando expressões puras, divinas,
onde os seios são flores campesinas
com orvalhos de cores enfeitadas.

Resplandece nas curvas dos teus seios
o fulgor dos jardins quando estão cheios
dos sutis beija-flores campesinos.

O teu corpo, de formas divinais,
tem cravado dois plácidos cristais,
que são dúlcidos montes pequeninos.

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Monteiro Lobato (O Presidente Negro) IV – Miss Jane; V – Tudo Eter que Vibra


CAPITULO IV
Miss Jane

Na sala de almoço tive uma nova surpresa. Estava lá, e recebeu-nos com gentil sorriso, a mais encantadora criatura que meus olhos ainda viram.

— Minha filha Jane, apresentou-ma o velho.

Como eu esperava tudo, menos encontrar ali uma figura feminina, atrapalhei-me e gaguejei, visto que sou tímido diante das mulheres formosas. Já com as feias, ou velhas, sinto-me desembaraçadíssimo. Mas cabelos louros como aqueles, olhos azuis como aqueles, esbelteza e elegância de porte como as de miss Jane, eram ingredientes fortes demais para que não produzissem a ruptura do meu equilíbrio nervoso. Gaguejei, já disse, e fui logo tropeçando num pé de cadeira, o que muito me vexou, embora não fizesse rir á moça. Esta contenção de sua parte provou-me que eu estava diante de uma criatura finamente educada e generosa.

Correu sem incidentes o almoço, e nada vi nele de misterioso. Pratos simples, servidos em baixela fina, tudo despido dos excessos que caracterizam a mesa dos ricaços amigos de nas menores coisas exibirem o seu dinheiro.

Miss Jane falou ao pai de três filhotes de pintassilgos que encontrara no pomar, num ninho feito de raízes de capim.

— Gosta de pássaros, senhor Ayrton? perguntou-me num gracioso sorriso.

Confesso que eu até ignorava a existência de pássaros no mundo. A minha vida de cidade, no corre-corre das ruas desde menino, sem nunca umas férias passadas no campo, impedia-me de prestar atenção a essas vidinhas aladas, que constituem um dos enlevos dos contemplativos.

— Gosto, sim, senhora, respondi eu, se bem que em matéria de pássaros só me lembre dum periquito vitima duma menina filha lá da firma.

— Pois aprenderá aqui a adora-los. O sabiá que todas as tardes canta numa das laranjeiras do pomar, com certeza já lhe atraiu a atenção. Temos tambem vários outros amiguinhos que de lá não saem, pintassilgos, sanhaços, rolinhas, saíras…

— O senhor Ayrton, interveio o professor, vai ficar aqui conosco. Tem muito que ouvir e aprender. Vou revelar-lhe os segredos da natureza, e tu, Jane, lhe revelarás a poesia. Estes homens da cidade têm a visão muito restrita; o mundo para eles se resume na rua, nas
casas marginais e no torvelinho humano.

— Realmente, professor. A impressão que tive hoje durante o meu passeio pelo campo abriu-me a alma. Verifiquei que o mundo não é só a cidade, e que o centro do universo não é a firma Sá, Pato & Cia., como toda vida supus.

— O mundo, meu caro, é um imenso livro de maravilhas. A parte que o homem já leu chama-se passado; o presente é a página em que está aberto o livro; o futuro são as páginas ainda por cortar. E a uma criatura que nem conhece a página aberta ante os olhos, como o senhor, vou eu revelar o que a ninguém ainda foi revelado: algumas futuras!

Olhei para o professor Benson com ar palerma, porque sempre me apalermava o que ele dizia. Tinha o sábio uma linguagem nova para mim, da qual eu apreendia apenas o sentimento formal, não o sentido intimo. Animei-me, entretanto, a uma frase:

— Miss Jane com certeza conhece também essas páginas futuras.

— Sim, eu e ela, respondeu o professor. Só nós dois, no mundo inteiro e desde que o mundo é mundo, gozamos deste privilegio maravilhoso. Enviuvei muito cedo e minha família está hoje reduzida a Jane. É a minha companheira de analises dos cortes anatômicos do futuro.

“Cortes anatômicos do futuro”… A expressão soou-me como outrora a do senhor Sá quando pela primeira vez me falou em ‘lançamento por partidas dobradas”, coisa que hoje não ignoro mas que na época me valeu por um “corte anatômico”.

Nesse ponto do almoço fez-se notar certa zoada distante vinda não sabia eu de onde.

— Deixaste o cronizador aberto, Jane?

— Sim, meu pai. Deixei-o em marcha para 410 anos de hoje, focalizado para 80.° de latitude N. e 40 de longitude. Experiência ao acaso, pois nem verifiquei onde fica esse ponto.

—Groenlândia. O corte não revelará coisa nenhuma, suponho. Não creio que em 410 anos as condições do mundo se alterem a ponto de haver lá outra vida alem da dos esquimós, ursos e focas.

—Em todo o caso vejamos, disse a moça. Temos tido tantas surpresas…

—Minha filha, senhor Ayrton, possui mais frieza de sábio do que eu. Não perde tempo em formular hipóteses quando tem ao alcance meios de verificar experimentalmente.

Ri-me. Acho que a melhor maneira de figurar numa roda onde se falam coisas acima da nossa compreensão é sorrir para o interlocutor que nos dirige a palavra. Se o riso não engana a ele, engana-nos a nós e livra-nos de uma replica verbal, que sai asneira infalivelmente. De todo o dialogo da filha com o pai só me evocou uma imagem já classificada em meu cérebro a palavra Groenlândia.

Lembrei-me dos meus tempos de geografia e da impressão que me causara a descrição da Terra Verde, ou Groenlândia, feita pelo meu barbudo professor Maneco Lopes. E por associação me vieram à mente ursos brancos, focas, leões marinhos, pinguins, esquimós. Querendo contribuir com uma nota para a conversa, e fingindo entender o que eles haviam dito, arrisquei:

— Não há duvida, a Groenlândia é um caso sério. Uma piririca!

Foi a vez do professor Benson franzir os sobrolhos no gesto clássico da incompreensão. Vi que aquele homem, que sabia tudo e lia o futuro, ignorava alguma coisa do presente — a gíria da cidade, e firmei-me na resolução de dar com a giria em cima dele para vê-lo refranzir a testa muitas vezes.

— Que? indagou o velho sábio.

— Sim, expliquei eu sem erguer os olhos para miss Jane com medo de desnortear. A Groenlândia é um caso, um numero. Quanto o pinguim cisma p’ra cima do peixe e o urso gréla a foca…

Mas o professor Benson cortou-me as vazas.

— Não refletiu nunca, meu caro senhor Ayrton, na oportunidade do silencio? O silencio é sábio, é uma das mais altas formas da sabedoria. Foi silenciando que Jesus deu ao “Que é a verdade?” de Pilatos a única resposta acertada…

— Papai, interveio a moça evidentemente apiedada da minha situação, está aí uma experiência que ainda não fizemos! Involuir a corrente e operar um corte no ano 33, a ver se apanhamos essa cena histórica…

— Realmente é uma ideia, minha filha, e mais curiosa do que o exame da Groenlândia, onde, como diz cá o amigo, o urso gréla a foca…

CAPITULO V
Tudo Éter que Vibra

Saí daquele almoço com as ideias mais desnorteadas do que nunca. Um elemento novo contribuía para isso; miss Jane, criatura singularmente perturbadora, pois, além de agir sobre meus fragílimos nervos como todas as moças bonitas, ainda me tonteava com a sua mentalidade de sábio. De tudo quanto a jovem disse só me ficou claro no espirito a história dos passarinhos do pomar. Até ali pareceu-me uma criatura tal as outras, mas depois do “corte anatômico” tudo se complicou e passei a ve-la qual um misterioso ídolo de divindade dupla, mixto de Afrodite e Minerva.

Depois do almoço levou-me o professor a ver os laboratórios. Atravessei numerosas salas e pavilhões cuja composição entendi menos que a do gabinete. Quanta maquina esquisita, tubos de cristal, ampolas, pilhas elétricas, bobinas, dínamos — extravagâncias de sábio! Eu conhecia varias oficinas mecânicas, mas nelas nunca me tonteava. Tornos, maquinas de cortar e furar, bigornas, martelos automáticos, laminadores, fresas, tudo isso eu via e compreendia, pois apesar de complicados na aparência evidenciavam logo uma função esclarecedora. Mas ali, santo Deus! Que caos! Não consegui entender coisa nenhuma e mesmo depois que o velho sábio mas explicou manda a verdade confessar que fiquei na mesma.

Isto aqui, disse ele na primeira sala, são aparelhos eletro-radioquimicos, na maioria criados ou adaptados por mim e que constituíram o ponto de partida da minha descoberta. Se o amigo Ayrton fosse técnico, eu os explicaria um por um, mas será difícil fazer-me entender por quem não possui uma solida base de ideias científicas. Resumirei dizendo que neste velho laboratório consumi os trinta anos da minha mocidade em pesquisas pacientíssimas, culminantes na construção daquela antena que o amigo lá vê no alto da torre.

Olhei e vi uns fios entrecruzados formando um desenho geométrico.

— Parece uma teia de aranha! murmurei.

— E é de fato uma teia de aranha. A aranha sou eu. Com essa teia apanho a vibração atômica do momento.

— “Vibração atômica do momento”… repeti, fazendo um furioso esforço mental para compreender a novidade.

— Sim. A vida na terra é um movimento de vibração do éter, do átomo, do que quer que seja uno e primário, entende?

— Estou quasi entendendo. Já li um artigo no jornal onde um sábio provava que só há força e matéria, mas que a matéria é força, de modo que os dois elementos são um, como os três da Santíssima Trindade tambem são um, não é isso?

— Mais ou menos. Nomes não vêm ao caso. Força, éter, átomo: denominações arbitrarias de uma coisa una que é o principio, o meio e o fim de tudo. Por comodidade chamarei éter a esse elemento primário. Esse éter vibra e, conforme o grau ou intensidade da vibração, apresenta-se-nos sob formas. A vida, a pedra, a luz, o ar, as árvores, os peixes, a sua pessoa, a firma Sá, Pato & Cia.: modalidades da vibração do éter. Tudo isso foi, é e será apenas éter.

Não pude deixar de sorrir lembrando-me da cara que fariam os senhores Sá, Pato & Cia. se ouvissem as palavras do sábio. Éter, eles…

— Mas não há somente éter no mundo, continuou o mestre. Se só houvesse éter e fosse de sua essência vibrar, a vibração seria uniforme e tornaria impossível a manifestação de formas de vida. Seria o estatismo eterno.

— Sei, um zum-zum, uma zoada de não acabar mais.

— Muito bem, está compreendendo. A vibração do éter, pois, sofreu a interferência… Sabe o que é interferência?

— Uma coisa que se insinua pelo meio; intrometer a colher torta na conversa dos mais velhos deve ser, cientificamente, uma interferência.

— Perfeitamente. Sofreu a interferência do que cá no vocabulário que criei com minha filha chamo — o Interferente. Isto de palavras não tem importancia, como já disse. Só vale a ideia. O Interferente poderá para outros ter o nome de Deus, por exemplo, ou de Vontade. Os filósofos que filosofam com palavras passam a vida a debater qual a melhor palavra a aplicar ao meu Interferente, como se palavras jamais esclarecessem alguma coisa.

— Vai indo muito bem, professor. Há o éter que vibra e há o Interferente que se mete no meio…

— Isso. Interfere e provoca a variação vibratória. Essa variação cria correntes que se chocam umas com as outras, modificam-e se dão origem a todas as formas de vida existentes. A vida, pois, não passa da vibração do éter modificada pela ação do…

— Interferente! concluí, glorioso.

Parece que o professor Benson mudou a ideia que formava de mim. Viu que o discípulo aprendia depressa e, voltando atrás, como se valesse a pena instruí-lo mais a fundo, passou a explicar-me dezenas de coisas do seu laboratório, na intenção de confirmar-me nos princípios que o levaram á dedução da formula: Éter + Interferência = Vida.

Depois que me viu já bem seguro das suas teorias, continuou:

— Preste atenção agora, que este ponto é capital. O interferente não interfere sempre. O Interferente interferiu uma só vez!

Parei um pouco atordoado.

— Espere, doutor. Dê-me tempo de assentar as ideias. O Interferente veio, interferiu e parou de interferir. É isso?

— Perfeitamente. Quebrou a uniformidade da vibração, perturbou o unissonismo…

— O zum-zum!

— …e desde então o fenômeno vida, que tambem podemos denominar universo, desenvolve-se por si, automaticamente, por determinismo. As coisas vão-se determinando…

— Uma puxa a outra.

— Isso. Uma determina a outra. Daí vem falarem os velhos filósofos em lei da causalidade, “todo efeito tem uma causa”, “toda causa produz efeitos”, etc.

—Aristóteles. . . ia eu arriscando.

—Deixe Aristóteles em paz. Estamos na determinação universal, e a vida, ou o universo, é para nós o momento consciente desta determinação.

—”Momento consciente”… repeti forçando o cérebro.

—O senhor Ayrton, por exemplo, é um momento consciente da determinação universal ás 13 horas e 14 minutos do dia 3 de janeiro do ano de 1926, aos 22.° e 35′ de latitude S. e 35.° e 3′ de longitude ocidental do meridiano do Rio de Janeiro.

—Admirável! exclamei com entusiasmo e cheio de orgulho, compreendendo afinal a minha verdadeira significação na vida. Mas o futuro, doutor? Muito mais que a definição científica do que sou, interessam-me as suas visões do futuro.

—Para lá chegar temos que ir por este caminho. Começamos do éter inicial, admitimos a Interferência e estamos na Determinação, que é o que os filósofos chamam presente… O futuro é a Predeterminação.

Franzi os sobrolhos. A palavra era nova para mim e a ideia muito mais. O professor Benson expô-la com luminosa clareza e mostrou-me o maravilhoso do determinismo. Em certo ponto da sua exposição lembrei-me do amigo corretor e da sua comparação do 2 + 2 = 4. Fingi que era minha a imagem e arrisquei:

— Dois mais dois igual a quatro.

O professor Benson entreparou, com a fisionomia radiante. Em seguida estendeu-me a mão.

— Meus parabéns! Vejo que o senhor Ayrton é muito mais inteligente do que a principio supus. Nessa imagem está toda a minha filosofia; 2 + 2 significa o presente; 4 significa o futuro. Mas, assim que escrevemos o presente 2 + 2, o futuro 4 já está predeterminado antes que a mão o transforme em presente lançando-o no papel. Aqui, porém, são tão simples os elementos que o cérebro humano, por si mesmo, ao escrever o 2 + 2, vê imediatamente o futuro 4. Já tudo muda num caso mais complexo, onde em vez de 2 + 2 tenhamos, por exemplo, a Bastilha, Luis 16, Danton, Robespierre, Marat, o clima de França, o ódio da Inglaterra além Mancha, a herança gaulesa combinada com a herança romana, o bilhão de fatores, em suma, que faziam a França de 89. Embora tudo isso predeterminasse o “quatro” Napoleão, esse futuro não poderia ser previsto por nenhum cérebro em virtude da fraqueza do cérebro humano. Pois bem: eu descobri o meio de predeterminar esse futuro — e ve-lo!

— Mas é assombroso, professor! É a mais espantosa descoberta de todos os tempos! exclamei de olhos arregalados. Entretanto, permita-me uma duvida. Se esse futuro ainda não existe, como o pode ver?

— O 4 antes de ser escrito tambem não existe; no entanto o amigo o vê tão claro no presente 2 + 2 que o escreve incontinente.

O argumento calou fundo. Pisquei sete vezes, com a testa fortemente refranzida.

— O futuro não existe, continuou o sábio, mas eu possuo o meio de produzir o momento futuro que desejo.

Tonteando pelo tom categórico daquela afirmativa não ousei duvidar, e estava ainda apalermado com a maravilhosa revelação quando miss Jane apareceu, esplêndida de formosura. Esqueci toda aquela altíssima ciência que já me dava dor de cabeça e regalei os olhos na sua imagem perturbadora. Saudou-me com um gesto amável e disse, dirigindo-se ao
professor:

— Tinha razão, meu pai. Já fiz o corte e lá só vi as eternas brancuras da neve.

E voltando-se para mim:

—Tem aprendido muita coisa, senhor Ayrton?

—Mais que em toda a minha vida, miss Jane, e começo a bendizer o acaso que me fez vitima de um desastre.

—E está tão no começo ainda! Quando entrar no segredo de tudo e puder ver diretamente uns cortes, o seu assombro vai ser ilimitado.

—Já prevejo isso, senhorita, e…

E engasguei-me. Miss Jane olhara-me nos olhos e eu não era criatura que suportasse de frente um olhar assim. Cheguei a corar, creio, o que inda mais aumentou a minha perturbação. Felizmente a boa criatura, vendo que eu me calava, voltou-se para o professor Benson e disse:

— Mas agora, meu pai, tréguas ás revelações. O café está na mesa e com uns bolinhos tentadores que eu mesma fiz. Senhor Ayrton, vamos…
––––––––
continua… VI – O Tempo Artificial

Fonte:
Monteiro Lobato. O Presidente Negro. Editora Brasiliense, 1979.

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Paraná Trovadoresco


Almirante Tamandaré
Meu amor sempre me espera
à tarde com um lanchinho,
mas eu fico na quimera
de tomarmos nosso vinho.
HARLEY STOCCHERO

Apucarana
Cada um tem seu destino!
A pedra faz o castelo,
o bronze, a máquina e o sino,
o ferro faz o martelo.
FAHED DAHER

Arapongas
Cidade dos passarinhos,
Arapongas, Paraná.
Aqui se constroem ninhos,
que a todos acolhem cá!
MARIA GRANZOTO

Campo Largo
Eu curto todo momento
e não perco um só segundo.
Num minuto em pensamento
posso estar em outro mundo!
ÁUREO BAIKA

Campo Largo tem história ! …
Em caminhos de tropeiros,
caminhos que abriram glória
e foram os verdadeiros !!
MIGUEL ANGEL ALMADA

Campo Mourão
Professor pro atrasadinho,
já com fama de mal-vindo:
– Por favor, fique quietinho!
– Mas, já tem gente dormindo?
SINCLAIR POZZA CASEMIRO

Castro
Saibamos as leis de cor,
Façamos do lar um templo,
mas nada educa melhor
do que o nosso bom exemplo.
HILDA KOLLER

Contenda
Ao professor muito devo,
devo ao médico também.
Mas o livro é meu enlevo,
tudo que sei dele vem.
HILDEMAR CARDOSO MOREIRA

Curitiba
Sempre que ponho em meus versos
as coisas do coração,
os pensamentos, dispersos,
tomam forma de oração!
ALDO SILVA JÚNIOR

Deus nos deu inteligência,
arbítrio e também saber.
Não inverta esta sentença:
Viva… e deixe-me viver!
ANGELO BATISTA

Pinheiros ou araucárias,
com formas de belas taças
dão pinhas extraordinárias
e ao pinhão rendemos graças!
ARIANE FRANÇA DE SOUZA

A mulher, eu sei, confesso,
é luxo da natureza…
Fruir seu corpo é acesso
às loucuras da beleza!
APOLLO TABORDA FRANÇA

E na escalada da vida
tenho uma grande ambição:
de ser a amiga escolhida
pra te levar pela mão.
ARACELI FRIEDRICH

Diz um sábio singular
este aforismo, a valer:
Deus criou o bem e o mal
compete à gente escolher.
ARGENTINA DE MELLO E SILVA

A passarada desperta
canta louvores ao dia
e a flor se dá por oferta
enquanto o fruto anuncia.
ANTÔNIO SALOMÃO

Para observador atento,
sempre há o que ouvir e ver.
Mesmo nas vozes do vento,
encontrará o que aprender.
CAMILO BORGES NETO

No comércio, o cidadão,
nunca vive sossegado.
Quando escapa do ladrão,
cai no golpe do fiado.
CASSIANO SOUZA ENNES

Sol e chuva, distinção,
desta Cidade Sorriso
sob qualquer condição,
me sinto no paraíso!!!
CECÍLIA SOUZA ENNES

Não seja bobo, sorria
das coisas que vê na vida.
Faça uma trova por dia,
que é saúde garantida.
CECILIANO JOSÉ ENNES NETO

Ao meu Deus peço um favor,
bom presente para o mundo:
Um saco cheio de amor,
daqueles que não tem fundo!
CRISTIANE BORGES BROTTO

Salve Ano Novo! Risonho,
feliz, tranquilo a chegar!
Vem, como meu grande sonho:
de a tudo e a todos amar!
CYROBA BRAGA RITZMANN

Quando deito do teu lado
e acordo nos braços teus,
viajo no céu estrelado
e chego perto de Deus!
GILBERTO FERREIRA

Explode no firmamento
um sol de raro esplendor,
espargindo pelo vento,
eflúvios de eterno amor!
GLYCÍNIA DE FRANÇA BORGES

Minha mãe que eu adorava,
para mim tão boa e linda
com tanto amor me falava
que lhe escuto a voz ainda!
HEITOR BORGES DE MACEDO

Faça a criança feliz!
Ensine a mesma a pensar.
Dê-lhe na ponta do giz
razão pra não fracassar!
JOSIAS DE ALCÂNTARA

É na tarde que desmaia,
é numa canção dolente
que a saudade se atocaia
para apunhalar a gente.
LOURDES STROZZI-CURITIBA

Se caem do céu as águas
com tanta beleza e encanto,
por que desencanto e mágoas
há nas águas do meu pranto?
Mª DA CONCEIÇÃO FAGUNDES

Minha sogra, por pirraça,
como fosse um megafone,
no coreto lá da praça
bota a boca no trombone.
NEI GARCEZ

É na ausência que a saudade
nos invade e fere a gente,
porque a ausência, na verdade,
na saudade está presente.
ORLANDO WOCZIKOSKY

Na vida vivo tentando
tornar meu mundo risonho,
pois a tristeza vem quando
existe ausência de um sonho.
VANDA ALVES DA SILVA

Se ausência é cena vazia,
guarda, invisível, latente,
a marca de algo que, um dia,
ali já esteve presente
VANDA FAGUNDES QUEIROZ

Descontraia sua testa,
sorrir é grande investida!
Quem transforma a vida em festa
vence tensão reprimida!
VÂNIA MARIA DE SOUZA ENNES

A tua ausência é o refrão
de uma tristeza sem fim,
onde o tempo ao dizer não,
permite à dor dizer sim.
WALNEIDE FAGUNDES DE S. GUEDES

As nuvens choraram tanto,
que o sol compensa o escarcéu,
tecendo com doce encanto
mais sete cores no céu!
WANDIRA FAGUNDES QUEIROZ

Ibiporã
Semblante santificado
cabeleira cinza escuro,
mamãe viveu seu passado
planejando meu futuro.
MAURICIO FERNANDES LEONARDO

Irati
Toda semente que eu planto
nos sulcos da minha dor,
germina regada em pranto,
mas, desabrocha em amor!
MAFALDA DE SOTTI LOPES

Ivatuba
Volta, amor! – é o teu retorno
felicidade e prazer.
Teu corpo é um caminho morno
que eu adoro percorrer!
ELIDIR D’ OLIVEIRA

Joaquim Távora
Pôr-do-sol, campos desertos,
e o pinheiro então parece
estar de braços abertos
a sussurrar uma prece.
ADILSON DE PAULA

Lapa
Nas águas mansas do lago,
nas verdes ondas do mar,
nas delícias de um afago,
vejo a mão de Deus pairar.
JOSÉ WESTPHALEN CORRÊA

Londrina
“Não há bem que sempre dure,
nem mal que nunca se acabe…”
– Por mais que um ser nos perfure,
que nossa alma não desabe!
CIDINHA FRIGERI

Maringá
Carinho neste rincão
de incomparável beleza!
É a Cidade Canção
Bendita por natureza!
ALBERTO PACO

Neste planeta sofrido,
com tanto lixo fedendo,
há muito louco varrido,
pouca vassoura varrendo.
ANTONIO AUGUSTO DE ASSIS

Flores e folhas caindo,
que lindo é este processo…
O outono chega sorrindo,
pois renascer é sucesso!
ARLENE LIMA

Senhor, neste amanhecer,
louvo a tua criação:
da aurora ao entardecer,
eu te encontro em meu irmão!
CÔNEGO BENEDITO VIEIRA TELLES

Ausência é uma coisa séria,
sobretudo a dos ateus,
que só vivem da matéria,
ausentando – se de Deus.
JOSÉ BIDÓIA

É dinheiro abençoado,
merecedor de elogio,
todo aquele que é usado
ao despoluir um rio!
MARIA ELIANA PALMA

Diante do encanto desfeito
por promessas não cumpridas,
eu sempre encontro outro jeito
de entrelaçar nossas vidas.
OLGA AGULHON

Quem tem sonhos hoje em dia,
nunca perca a esperança.
Diz velha sabedoria:
“Quem espera sempre alcança!”
JOSÉ FELDMAN

Morretes
A primavera cantemos
anos juvenis, risonhos…
Além nós todos sabemos,
restarão só nossos sonhos!
LÚCIO DA COSTA BORGES

Palmeira
Confesso é no teu perfume
e no sabor do teu beijo,
que para mim se resume
a volúpia do desejo.
HEITOR STOCKLER DE FRANÇA

Paranaguá
Se o beijo guarda o perfume
de estranha, esquisita flor
é porque o beijo resume
a vida e a glória do amor.
LEÔNCIO CORREIA

Paranavaí
A trova quando é sentida
viaja em nossa emoção
Nos faz fiéis toda a vida,
une os povos, faz irmãos
DINAIR LEITE

A Terra no seu início,
foi palácio verde em flor!
Agora é um precipício
de enchentes e dissabor.
OTAVIO LEITE GOETTEN

Eu comprei uma ampulheta
pra entender o tempo assim.
Vi que era uma silhueta
de um vai e volta sem fim.
RENATO LEITE GOETTEN

Pinhais
Meu girassol pobrezinho
saudoso, não resistiu.
Morreu olhando o caminho
por onde meu bem partiu…
LIGIA CHRISTINA DE MENEZES

Pinhalão
Todo filho vem dos pais,
vem o mel da flor silvestre;
não há dor sem dor nos ais
nem discípulo sem mestre.
LAIRTON TROVÃO DE ANDRADE

Piraí do Sul
Contra mágoas, dissabores,
um santo remédio há.
Receita: Rua das Flores –
Curitiba – Paraná.
VERA VARGAS

Piraquara
A saudade rasga o véu
do tempo e traz do passado
minha mãe, que lá do céu
sempre tem me abençoado.
HORÁCIO F. PORTELLA

Ponta Grossa
A esperança em nossa vida,
pelo valor que ela ostenta,
pode até ser resumida,
como o pão que nos sustenta.
AMÁLIA MAX

Registrando alguma ausência,
contabilidade ingrata,
nosso amor pediu falência,
desistiu da concordata!
FERNANDO VASCONCELOS

Um erro, mesmo pequeno,
ganha maior dimensão
pela força do veneno
que há na ausência do perdão…
MARIA HELENA OLIVEIRA COSTA

Entre todos os recantos
é aqui que me sinto bem:
– o meu lar tem tais encantos
que outros lugares não têm!
SONIA MARIA DITZEL MARTELO

Quatro Barras
Nas noites da minha vida,
vida errada, vida certa,
cada estrela me convida
a uma nova descoberta.
AIRO ZAMONER

Rio Branco do Sul
A vida é um mar de rosas
legando beleza e olor,
às criaturas bondosas,
que sabem semear o amor.
SARA FURQUIM

São Jerônimo da Serra
Belo e vetusto pinheiro!
Tão alto… é grande a distância…
foi meu leal companheiro
nos doces anos da infância…
DÉSPITA PERUSSO

São Jorge do Ivaí
Tão suave é o teu carinho:
Há nele a calma de um lago…
– Tem a ternura de um ninho
e a paz de um materno afago!
HULDA RAMOS GABRIEL

São José dos Pinhais
Esta estação é tão linda…
Cobrindo os campos de flores.
Que seja sempre benvinda!
Com alegria e muitas cores.
PATRÍCIA CRISTIANE DE SIQUEIRA

São Mateus
A frase dura que escapa
da boca de muitos pais
é tão cruel como um tapa
e, às vezes, machuca mais!
GERSON CESAR SOUZA

Tomazina
Curitiba tem seus bares
com requinte de Paris,
Aos boêmios, seus altares,
e aos poetas, lar feliz.
CECIM CALIXTO

União da Vitória
Quero rever os meus pagos,
ouvir toda a velha história.
Quero sentir os afagos…
da minha União da Vitória!
HELY MARÉS DE SOUZA

Fonte:
Almanaque Paraná 1 e 2.

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Pedro Ornellas (Trovas: Saudade é…) Parte 6 e final


101
Saudade – coisa engraçada:
é tal qual água corrente
que quisesse, já passada,
voltar de novo à nascente.
Antônio Zoppi – Americana SP

102
Saudade é imenso navio
no mar de minha existência,
a navegar no vazio
deixado por sua ausência…
João Paulo Ouverney – Pindamonhangaba SP

103
É tão viva tal sentença
Que tenho na consciência:
A saudade é a presença
Constante da tua ausência!
Ivan Herzog de Oliveira – Petrópolis RJ

104
A saudade é uma semente
de lágrimas orvalhada;
brota na noite do ausente
e floresce na alvorada.
Maria Thereza Cavalheiro – São Paulo

105
Saudade é gota caída,
é pranto que ninguém vê:
-É uma lágrima sentida
que leva sempre a você.
Waldir Neves – Rio de Janeiro RJ

106
A distância é um horizonte
separando as existências.
Saudade é uma longa ponte
ligando duas ausências.
Antônio Zoppi – Americana SP

107
Saudade – ventura ausente,
Um bem que longe se vê,
Uma dor que o peito sente,
Sem saber como e porquê.
Bastos Tigre – Recife PE

108
– Que é saudade? – Reticências…
Vozes de ontem num cicio…
Um cheiro forte de essências
que guarda o frasco vazio…
Maria Thereza Cavalheiro – São Paulo

109
É a saudade um recado
que parece até incoerente
pois lembra um bem do passado
que causa dor no presente.
Carmen Felicetti – Petrópolis RJ

110
Saudade – mãos de veludo
que nos levam ao passado,
onde reencontramos tudo
em escombros transformado.
Colombina – São Paulo SP

111
“Saudade” – tema da prova
que me vence, me intimida…
– Quem pode pôr numa trova
o que enche toda uma vida?
José Maria M. de Araújo – Rio de Janeiro RJ

112
Saudade – coisa que a gente
não explica nem traduz;
faz do passado, presente,
e traz sombras, sendo luz…
Colombina – São Paulo SP

113
É sempre assim a saudade:
luz nas sombras da incerteza,
mal a ferir sem maldade,
pranto a sorrir na tristeza.
Francisco Nogueira – SP

114
Saudade é grito gaudério,
que num segundo se expande
e forma seu grande império
nas coxilhas do Rio Grande.
Ayda – Santiago RS

115
O amor quando acaba, cobra
tributo que nos assalta.
Saudade é aquilo que sobra
daquilo que já nos falta.
Antônio Zoppi – Americana SP

116
Saudade é o fundo de um poço
onde minha alma vegeta,
mantendo vivo, no fosso,
o coração do poeta!
Francisco Macedo – Natal RN

117
Saudade, meiga Saudade
filha do amor e da ausência,
és a nossa mocidade
durante toda a existência.
Bastos Tigre – Recife PE

118
Definir o que é saudade
é difícil como quê…
É espécie de enfermidade
de estar longe de você.
Vera Milward de Carvalho – Caxambu MG

119
De alguém que amamos, a imagem
que está longe vemos perto…
– Saudade é como miragem
que engana o olhar no deserto.
Stélio Autran – Rio de Janeiro RJ

120
A alma gela-se de tédio,
enchem-se os olhos de ardor.
Saudade – dor que é remédio,
remédio que aumenta a dor!
Bastos Tigre – Recife PE

121
Resto da chama incontida
do amor, outrora envolvente,
saudade – é fumaça ardida
queimando os olhos da gente!
Pedro Ornellas – São Paulo/SP

122
Pondo-me agora em contato
com meus sonhos de criança,
saudade é porta-retrato
na carteira da lembrança!
Pedro Ornellas – São Paulo/SP

123
Num constante escarafuncho
que eu condeno mas aceito
esta saudade é um caruncho
causando estrago em meu peito!
Pedro Ornellas – São Paulo/SP

124
Sodade, pra sê bem franco,
é uma perebinha à toa,
mas que a casca eu sempre arranco
pro módi a cocera boa!
Pedro Ornellas – São Paulo/SP

125
Saudade é um retrato antigo,
na carteira, desbotando,
que eu sempre levo comigo
para olhar de vez em quando!
Pedro Ornellas – São Paulo/SP

126
Saudade é uma voz sem fala
é mal que a cura dispensa…
é uma ausência que se instala
disfarçada de presença!
Pedro Ornellas – São Paulo/SP

127
Saudade, uma dor infinda,
um barco longe do cais…
Desejo de ter-se ainda
o que já não se tem mais!
Pedro Ornellas – São Paulo/SP

128
Pelos trilhos da lembrança,
a saudade, trem expresso,
traz, no vagão da esperança
meu passado de regresso!
Pedro Ornellas – São Paulo/SP

129
De tudo o que já foi dito
resta dizer que a saudade
é um velho poema escrito
com tinta de mocidade!
Pedro Ornellas – São Paulo/SP

130
Que gosto dela eu assumo,
pelo bem que faz agora…
Porque a saudade é o resumo
dos bons momentos de outrora!
Pedro Ornellas – São Paulo/SP

131
Saudade, doce tristeza,
resto de um sonho frustrado…
Brasa teimosa, ainda acesa
entre as cinzas do passado!
Pedro Ornellas – São Paulo/SP

132
Felicidade – inebriante
coquetel servido a dois…
Saudade – a conta gigante
que a vida manda depois!
Pedro Ornellas – São Paulo/SP

133
Saudade, um sonho guardado…
magia que se eterniza…
num filme bom do passado
que o pensamento reprisa!
Pedro Ornellas – São Paulo/SP

134
Por uma prenda, o rabicho
que por teimoso eu sustento,
faz da saudade bolicho
que toda noite eu freqüento!
Pedro Ornellas – São Paulo/SP

135
Não me dá chance de fuga
esta saudade que amarga…
Parece até sanguessuga
que quando gruda, não larga!
Pedro Ornellas – São Paulo/SP

136
Faz companhia ao sozinho,
permite ao velho ser jovem
– Saudade – estranho moinho
que as águas passadas movem!
Pedro Ornellas – São Paulo/SP

137
É soberana e dispensa
todo escrutínio que eu faça…
Saudade, eterna presença
de um passado que não passa!
Pedro Ornellas – São Paulo/SP

138
Saudade é dor que maltrata…
É a mente correndo atrás
de coisas que a vida ingrata
leva e de volta não traz!
Pedro Ornellas – São Paulo/SP

139
Amarelado e restrito
aos aposentos do peito,
Saudade é um poema escrito
no pretérito perfeito!
Pedro Ornellas – São Paulo/SP

140
Saudade dói, mas conforta,
e ao confortar, no abandono,
faz papel de folha morta
que enfeita os quadros de outono!
Pedro Ornellas – São Paulo/SP

141
Vi meu drama retratado
numa canção boiadeira;
se a saudade é o boi malvado,
sou “menino da porteira”!
Pedro Ornellas – São Paulo/SP

142
Saudade, de forma clara,
define assim quem amou:
é uma lembrança que pára
de um tempo que não parou!
Pedro Ornellas – São Paulo/SP

143
Saudade é fada menina
cujo lar de habitação
é uma casa pequenina
nos fundos do coração!
Pedro Ornellas – São Paulo/SP

144
Saudade é chama que brilha
de um lampião encantado
lançando luz sobre a trilha
que nos conduz ao passado!
Pedro Ornellas – São Paulo/SP

145
Saudade lembrança boa
de quanto a vida era bela
por conta de uma pessoa
que um dia fez parte dela!
Pedro Ornellas – São Paulo/SP

146
Saudade é a teima esquisita
em se apegar a um passado
que a gente não acredita
que tenha mesmo passado!
Pedro Ornellas – São Paulo/SP

147
Saudade, um perfil risonho
que ao ser por mim recomposto,
toda vez que recomponho
ganha os traços do teu rosto!
Pedro Ornellas – São Paulo/SP

148
Saudade é um bem que da gente
há muito já se apartou
mas continua presente
nas lembranças que deixou!
Pedro Ornellas – São Paulo/SP

149
Saudade, espelho da vida,
dentro do peito guardado
que sempre traz refletida
a imagem do meu passado!
Pedro Ornellas – São Paulo/SP

150
Saudade é joçá de roça
que vem dos canaviais;
sem que se coce já coça…
E se coçar, coça mais!
Pedro Ornellas – São Paulo/SP

Fonte:
Trovas enviadas pelo autor

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Florbela Espanca (Mensageira das Violetas) II

JUNQUILHOS…

Nessa tarde mimosa de saudade
Em que eu te vi partir, ó meu amor,
Levaste-me a minh’alma apaixonada
Nas folhas perfumadas duma flor.

E como a alma, dessa florzita,
Que é minha, por ti palpita amante!
Oh alma doce, pequenina e branca,
Conserva o teu perfume estonteante!

Quando fores velha, emurchecida e triste,
Recorda ao meu amor, com teu perfume
A paixão que deixou e qu’inda existe…

Ai, dize-lhe que se lembre dessa tarde,
Que venha aquecer-se ao brando lume
Dos meus olhos que morrem de saudade!

MENTIRAS

Ai quem me dera uma feliz mentira

que fosse uma verdade para mim!

J. Dantas

Tu julgas que eu não sei que tu me mentes
Quando o teu doce olhar pousa no meu?
Pois julgas que eu não sei o que tu sentes?
Qual a imagem que alberga o peito meu?

Ai, se o sei, meu amor! Em bem distingo
O bom sonho da feroz realidade…
Não palpita d´amor, um coração
Que anda vogando em ondas de saudade!

Embora mintas bem, não te acredito;
Perpassa nos teus olhos desleais
O gelo do teu peito de granito…

Mas finjo-me enganada, meu encanto,
Que um engano feliz vale bem mais
Que um desengano que nos custa tanto!

AOS OLHOS DELE

Não acredito em nada.
As minhas crenças
Voaram como voa a pomba mansa,
Pelo azul do ar.

E assim fugiram o
As minhas doces crenças de criança.
Fiquei então sem fé; e a toda gente
Eu digo sempre, embora magoada:

Não acredito em Deus e a Virgem Santa
É uma ilusão apenas e mais nada!
Mas avisto os teus olhos, meu amor,

Duma luz suavíssima de dor… E grito então ao ver esses dois céus:
Eu creio, sim, eu creio na Virgem Santa
Que criou esse brilho que m’encanta!
Eu creio, sim, creio, eu creio em Deus!

DOCE CERTEZA

Por essa vida fora hás-de adorar
Lindas mulheres, talvez; em ânsia louca,
Em infinito anseio hás de beijar
Estrelas d´ouro fulgindo em muita boca!

Hás de guardar em cofre perfumado
Cabelos d´ouro e risos de mulher,
Muito beijo d´amor apaixonado;
E não te lembrarás de mim sequer…

Hás de tecer uns sonhos delicados…
Hão de por muitos olhos magoados,
Os teus olhos de luz andar imersos!…

Mas nunca encontrarás p´la vida fora,
Amor assim como este amor que chora
Neste beijo d´amor que são meus versos!…

VERSOS

Versos! Versos! Sei lá o que são versos…
Pedaços de sorriso, branca espuma,
Gargalhadas de luz, cantos dispersos,
Ou pétalas que caem uma a uma…

Versos!… Sei lá! Um verso é o teu olhar,
Um verso é o teu sorriso e os de Dante
Eram o teu amor a soluçar
Aos pés da sua estremecida amante!

Meus versos!… Sei eu lá também que são…
Sei lá! Sei lá!… Meu pobre coração
Partido em mil pedaços são talvez…

Versos! Versos! Sei lá o que são versos…
Meus soluços de dor que andam dispersos
Por este grande amor em que não crês…

À TUA PORTA HÁ UM PINHEIRO MANSO

À tua porta há um pinheiro manso
De cabeça pendida, a meditar,
Amor! Sou eu, talvez, a contemplar
Os doces sete palmos do descanso.

Sou eu que para ti atiro e lanço,
Como um grito, meus ramos pelo ar,
Sou eu que estendo os braços a chamar
Meu sonho que se esvai e não alcanço.

Eu que do sol filtro os ruivos brilhos
Sobre as louras cabeças dos teus filhos
Quando o meio-dia tomba sobre a serra…

E, à noite, a sua voz dolente e vaga
É o soluço da minha alma em chaga:
Raiz morta de sede sob a terra!

A TUA VOZ DE PRIMAVERA

Manto de seda azul, o céu reflete
Quanta alegria na minha alma vai!
Tenho os meus lábios úmidos: tomai
A flor e o mel que a vida nos promete!

Sinfonia de luz meu corpo não repete
O ritmo e a cor dum mesmo desejo… olhai!
Iguala o sol que sempre às ondas cai,
Sem que a visão dos poentes se complete!

Meus pequeninos seios cor-de-rosa,
Se os roça ou prende a tua mão nervosa,
Têm a firmeza elástica dos gamos…

Para os teus beijos, sensual, flori!
E amendoeira em flor, só ofereço os ramos,
Só me exalto e sou linda para ti!

TRAZES-ME EM TUAS MÃOS DE VITORIOSO

Trazes-me em tuas mãos de vitorioso
Todos os bens que a vida me negou,
E todo um roseiral, a abrir, glorioso
Que a solitária estrada perfumou.

Neste meio-dia límpido, radioso,
Sinto o teu coração que Deus talhou
Num pedaço de bronze luminoso,
Como um berço onde a vida me pousou.

O silêncio, ao redor, é uma asa quieta…
E a tua boca que sorri e anseia,
Lembra um cálix de tulipa entreaberta…

Cheira a ervas amargas, cheira a sândalo…
E o meu corpo ondulante de sereia
Dorme em teus braços másculos de vândalo…

EU…

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada … a dolorida …

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!…

Sou aquela que passa e ninguém vê…
Sou a que chamam triste sem o ser…
Sou a que chora sem saber por quê…

Sou talvez a visão que alguém sonhou.
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!

TORTURA

Tirar dentro do peito a emoção,
A lúcida verdade, o sentimento! –
E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento!…

Sonhar um verso d´alto pensamento,
E puro como um ritmo d´oração!
– E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento!…

São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!

Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!

A MINHA DOR

A você

A minha dor é um convento ideal
Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.

Os sinos têm dobres d´agonias
Ao gemer, comovidos, o seu mal…
E todos têm sons de funeral
Ao bater horas, no correr dos dias…

A minha dor é um convento. Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca os viu alguém!

Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro!
E ninguém ouve… ninguém vê… ninguém…

A FLOR DO SONHO

A flor do sonho, alvíssima, divina
Miraculosamente abriu em mim,
Como se uma magnólia de cetim
Fosse florir num muro todo em ruína.

Pende em meu seio a haste branda e fina.
E não posso entender como é que, enfim,
Essa tão rara flor abriu assim!…
Milagre… fantasia… ou talvez, sina….

Ó flor, que em mim nasceste sem abrolhos,
Que tem que sejam tristes os meus olhos
Se eles são tristes pelo amor de ti?!…

Desde que em mim nasceste em noite calma,
Voou ao longe a asa da minh´alma
E nunca, nunca mais eu me entendi…

NOITE DE SAUDADE

A noite vem pousando devagar
Sobre a terra que inunda de amargura…
E nem sequer a bênção do luar
A quis tornar divinamente pura…

Ninguém vem atrás dela a acompanhar
A sua dor que é cheia de tortura…
E eu ouço a noite a soluçar!
E eu ouço soluçar a noite escura!

Por que é assim tão ´scura, assim tão triste?!
É que, talvez, ó noite, em ti existe
Uma saudade igual à que eu contenho!

Saudade que eu nem sei donde me vem…
Talvez de ti, ó noite!… Ou de ninguém!…
Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!

AMIGA

Deixa-me ser a tua amiga, amor;
A tua amiga só, já que não queres
Que pelo teu amor seja a melhor
A mais triste de todas as mulheres.

Que só, de ti, me venha mágoa e dor
O que me importa, a mim?! O que quiseres
É sempre um sonho bom!
Seja o que for Bendito sejas tu por mo dizeres!

Beija-me as mãos, amor, devagarinho…
Como se os dois nascêssemos irmãos,
Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho…

Beija-mas bem!… Que fantasia louca
Guardar assim, fechados, nestas mãos,
Os beijos que sonhei pra minha boca!…

PARA QUÊ?!

Tudo é vaidade neste mundo vão…
Tudo é tristeza; tudo é pó, é nada!
E mal desponta em nós a madrugada,
Vem logo a noite encher o coração!

Até o amor nos mente, essa canção
Que nosso peito ri `a gargalhada,
Flor que é nascida e logo desfolhada,
Pétalas que se pisam pelo chão!…

Beijos d´amor? Pra quê?!… Tristes vaidades!
Sonhos que logo são realidades,
Que nos deixam a alma como morta!

Só acredita neles quem é louca!
Beijos d´amor que vão de boca em boca,
Como pobres que vão de porta em porta!…

Fonte:
ESPANCA, Florbela. A mensageira das violetas: antologia. Seleção e edição de Sergio Faraco. Porto Alegre: L&PM, 1999. (Pocket).

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Monteiro Lobato (O Presidente Negro) II – A Minha Aurora; III – Capitão Nemo


CAPITULO II
A Minha Aurora

Pela primeira vez depois de recolhido àquela mansão punha eu o nariz fora do meu quarto de doente.

Senti-me surpreso. A casa do professor Benson não era ao tipo da casa vulgar. Dava antes ideia de uma espécie de castelo, não pelo estilo, que não lembrava nenhum dos castelos clássicos que eu vira reproduzidos em cartões postais, mas pela massa e o estranho da construção. Olhei para aquilo com marcado espanto. Além do corpo fronteiro, evidentemente moradia familiar, erguiam-se pavilhões, galerias envidraçadas e vários minaretes altíssimos, ou, melhor, torres de ferro enxadrezado, entretecidas de fios de arame.

— Que diabo de casa é esta? perguntei ao criado, voltando-me para ele.

O criado, um tipo de misterioso aspecto e mais com ar de autômato do que de gente, permaneceu imovel atrás de mim, sem mostras de ter ouvido.

Repeti-lhe a pergunta, e nada. Lembrei-me então da minha conversa com o corretor, quando me deu informes sobre o sábio Benson e contou que vivia misteriosamente, servido por criados mudos. Sem duvida era aquele um dos tais. Isto me fez estremecer. O pouco que eu vira já me provara não ser o morador do castelo um homem comum — e o viver servido por mudos ainda mais me aguçava a ponta do enigma.

Prossegui, entretanto, no meu passeio, conformado em fazê-lo cm silencio, uma vez que o mutismo era a senha da casa. Em redor do castelo estendiam-se campos e florestas. Região montanhosa mas de relevo suave, cochilas mansas que ao longe ganhavam corpo até se erguerem na morraria de um dos contrafortes da serra do Mar. Nos vales, belos capões de mata virgem; e nas lombas, um tapete de gramíneas crioulas, naquela época revestidas de florzinhas róseas.

Notei logo que a natureza não era ali trabalhada. Tudo vivia em estado selvagem, sem sombra de intervenção humana além da impressa nos caminhos. Nem gado nas pastagens, nem sombras de cultura — porteiras ou cercas. Um pedaço de natureza virgem onde o homem só abriria passagens que lhe dessem o gozo das perspectivas naturais.

Compreendi que não estava numa fazenda. Homem de posses, o professor Benson teria aquilo apenas para recreio dos sentidos, sem o menor recurso ás possibilidades do solo. Unicamente em redor da casa havia algo beneficiado: belo jardim todo garrido de rosas; aos
fundos, o pomar.

Caminhei por espaço de meia hora e, no alto de uma colina, sentei-me no topo de um cupim para admirar a vista soberba dali descortinada. Impressionava estranhamente aquele castelo de inexplicável arquitetura, em meio duma natureza rude e calma, onde só uma ou outra ave silvestre rompia o silencio com o seu piar.

Afeito ao meu viver de cidade, no tumulto das ruas, aquele silencio e aquela solidão punham-me novidades n’alma. Senti no cérebro um referver de ideias novas, a saírem da casca que nem pintos.

A impressão geral que tive diante da natureza liberta da presença e ação do homem, coisa que via pela primeira vez, foi da minha absoluta nihilidade — da nihilidade absoluta dos meus patrões, naquele momento a se esbofarem no escritório e a maldizerem do empregado desaparecido sem licença. — Para eles era eu o empregado — e tambem vinte dias antes eu me considerava apenas um empregado, isto é, humilde peça da maquina de ganhar dinheiro que os senhores Sá, Pato & Cia. houveram por bem montar dentro de uma certa aglomeração humana. Mas ali não me via empregado de ninguém; era um ser igual ás ervas que esverdeciam as colinas, ás árvores que frondejavam nas grotas e ás aves que piavam nas moitas. Sentia-me deliciosamente integrado na natureza.

Minha loquela desaparecera. A necessidade de falar a todo o transe, tamanha que me fazia ás vezes falar sozinho, se substituira pela necessidade do silencio. Cheguei a agradecer a finura do velho sábio em dar-me um companheiro mudo, compreendendo que, se em vez dele ali estivesse o meu barbeiro, terrível alto falante de futebol e jogo de bicho, bem certo que eu chegaria ao extremo de amordaça-lo.

Talvez até nem fosse mudo de nascença o criado, mas apenas emudecido por influição local. Comigo vi que tambem emudeceria, se permanecesse algum tempo naquele deserto. O ar livre abriu-me o apetite e o apetite aberto fez-me lembrar do almoço e da ordem de aparecer antes dele no gabinete do professor Benson. Tratei de voltar — e ao pôr pé no castelo já me sentia bem outro homem, varrido das preocupações de outrora e absolutamente exonerado, por incompatibilidade psicológica, das funções de factotum crônico dos senhores Sá, Pato & Cia.

CAPITULO III
O Capitão Nemo

Quando o criado me fez entrar no gabinete do doutor Benson o velho não se achava ali. Aproveitei o ensejo para correr os olhos pelas paredes e admirar, ou antes, embasbacar-me com as estranhas coisas que via. Devo dizer que não compreendi nada de nada.

Conhecia o gabinete de trabalho dos meus patrões e o de muitos outros negociantes. Tambem conhecia consultórios médicos, salas de advogado, salões de hotel, e facilmente tomava pé num deles. Os moveis, os quadros das paredes, os objetos de cima de mesa, os bibelôs, as estatuetas, essas coisas todas me valiam por marcas digitais das que revelam a profissão do dono. No gabinete do professor Benson, porém, tudo me era desnorteante e, fora as poltronas, nas quais o corpo afundava, como nas do Derby Club, onde estive uma vez á procura dum figurão, tudo mais me valia por citações em caracteres chineses numa página em lingua materna. Pelas paredes, quadros — não quadros comuns com pinturas ou retratos, mas quadros de mármore, como os das usinas elétricas, inçados de botõezinhos de ebonite. E reentrâncias, afunilamentos que se metiam pelos muros como cornetas de gramofone, lâmpadas elétricas dos mais estranhos aspectos, grupos de fios que vinham aos quatro, aos cinco, aos vinte e de repente se sumiam pelo muro a dentro.

Todavia, o que mais me prendeu a atenção foi, ao lado da secretária do professor, um enorme globo de cristal, e sobre ela, apontado para o globo, um curioso instrumento de olhar, ou que me pareceu tal por uma vaga semelhança com o microscópio.

Eu lera em criança um romance de Julio Verne, Vinte Mil Léguas Submarinas, e aquele gabinete misterioso logo me evocou varias gravuras representando os aposentos reservados do capitão Nemo. Lembrei-me tambem do professor Aronnax e senti-me na sua posição ao ver-se prisioneiro no “Nautilus”.

Nesse momento uma porta se abriu e o professor Benson entrou.

— Bom dia, meu caro senhor… Seu nome? Ainda não sei o seu nome.

— Ayrton Lobo, ex-empregado da firma Sá, Pato & Cia., respondi, fazendo uma reverencia de cabeça e carregando no ex com infinito prazer.

— Muito bem, disse o professor. Queira sentar-se e ouvir-me.

O hábito de sempre falar de pé aos ex-patrões impediu-me de cumprir a primeira ordem dada pelo meu novo chefe, e vacilei uns instantes, permanecendo perfilado. O professor Benson compreendeu a minha atitude; pos-me a mão no ombro e, paternalmente, murmurou na sua voz cansada:

— Sente-se. Não creia que o vou reter aqui como a um subalterno. Disse que iria ser o meu confidente e os confidentes não se equiparam aos homens de serviço. Sente-se e conversemos.

Sentei-me sem mais embaraço, porque o tom do misterioso velho era na realidade cordial.

— O senhor Ayrton, pelo que vejo e adivinho, é um inocente, começou ele. Chamo inocente ao homem comum, de educação mediana e pouco penetrado nos segredos da natureza. Empregado no comercio: quer dizer que não teve estudos.

— Estudos ligeiros, ginasiais apenas, expliquei com modéstia.

— Isso e nada é o mesmo. Eu preferia ter para confidente um sábio ou, melhor, uma organização de sábio, inteligência de escol, das que compreendem. Em regra, o homem é um bipede incompreensivo. Alimenta-se de ideias feitas e desnorteia diante do novo. Mas costumo
respeitar as injunções do Acaso. Ele o trouxe ao meu encontro, seja pois o meu confidente. E saiba, senhor Ayrton, que é a primeira criatura humana aqui entrada desde que conclui a construção deste laboratório.

—O castelo, quer dizer?

—Sim, o castelo, como romanticamente lhe apraz chamar esta oficina de estudos onde realizei a mais extraordinária descoberta de todos os tempos.

Sem querer dei um recuo na poltrona, pensando logo na pedra filosofal e no elixir da longa vida.

— Não se assuste, nem arregale, dessa maneira, os olhos. Nem tente adivinhar o que é. Saiba apenas que se acha diante de um homem condenado a levar consigo ao túmulo o seu invento, porque esse invento excede á capacidade humana de adaptação ás descobertas. Se eu o divulgasse, pobre humanidade! Seria impossível prever a soma de consequências que isso determinaria. Se houvesse, ou antes, se predominasse no homem o bom senso, a inteligência superior, as qualidades nobres em suma, sem medo eu atiraria á divulgação a minha maravilhosa descoberta. Mas sendo o homem como é, vicioso e mau, com um pendor irredutível para o despotismo, não posso deixar entre eles tão perigosa arma.

— Quer dizer, atrevi-me a murmurar, que se o doutor quisesse…

— Se eu quisesse, interrompeu-me o velho sábio, tornar-me-ia o senhor do mundo, pois me vejo armado de uma potência que até hoje os místicos julgaram atributo exclusivo da divindade.

Dei novo recuo na cadeira, desta vez meio na duvida se falava com um somem sadio dos miolos ou com um maluco. O ar sempre sereno do professor Benson acomodou-me, porém.

— Mas não quero. A dominação sobre o mundo não me daria prazeres maiores que os que gozo. Não me faria ver mais azul e límpida aquela serra, nem respirar com mais prazer este ar puro, nem ouvir melhor música que a do sabiá que todas as tardes canta numa das laranjeiras do pomar. Além disso, estou velho, tenho os dias contados e nada do que é do mundo consegue interessar-me. Vivi demais, satisfiz demais a minha outrora insaciável, mas hoje saciada, curiosidade de sábio. Só aspiro a morrer sem dor e desfazer-me na vida do universo transfeito em átomos. Quem sabe se cada um desses átomos não levará consigo a capacidade de gozo que há em mim, e se com esse desdobramento não elevo ao extremo as minhas possibilidades?…

Não compreendi muito bem, lento que sou de espirito, a alta filosofia do professor; mas calei-me, cheio de admiração pelo homem que podendo ser imperador, presidente de republica, rei do aço, sultão ou o que lhe desse na telha, visto que podia tudo, contentava-se com ser um misterioso velhinho ignorado do mundo e á espera da morte naquele sereno recanto da natureza.

Nisto um criado surgiu á porta e fez sinal.

— Vamos ao almoço, senhor, Ayrton. Depois continuarei nas minhas confidências, disse-me o professor erguendo-se com dificuldade da poltrona.
––––––––
continua… IV – Miss Jane; V – Tudo Eter que Vibra

Fonte:
Monteiro Lobato. O Presidente Negro. Editora Brasiliense, 1979.

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 345)

Uma Trova Nacional

Uma Trova Potiguar

Nas flores de meu terraço,
cultivo o amor à beleza,
e assim preservo um pedaço
do primor da natureza.
–JOSÉ LUCAS DE BARROS/RN–

Uma Trova Premiada

2000 – Amparo/SP
Tema: NATUREZA – Venc.

Grassa o inverno… E a natureza
se agasalha, enquanto espera
para eclodir, em beleza,
nas flores da primavera!
–ALMIRA GUARACY REBELO/MG–

Uma Trova de Ademar

Minha mente é qual jazida
onde o verso prolifera…
De poesia eu pinto a vida
com cores da primavera!
–ADEMAR MACEDO/RN–

…E Suas Trovas Ficaram

A primavera opulenta,
rica de cantos e cores,
palpita, anseia, rebenta,
em cataclismo de flores.
–GUERRA JUNQUEIRO/PT–

Simplesmente Poesia

Acróstico
–SERGIO SEVERO/RN–

P assa o Inverno e éis chegada,
R adiante, a Primavera,
I ndicada pelas Flores,
M uitos Tons e mil Olores,
A pós um ano de espera.
V enha, Linda Primavera,
E colora minha Vida,
R epondo a Graça perdida,
A nda! Que o Verão não espera.

Estrofe do Dia

A primavera, é portanto,
diva e berçário das cores,
quando a natureza viva
eclode em seus esplendores,
mostrando a crentes e incréus
todas as cores dos céus
no colorido das flores!
–PROF. GARCIA/RN–

Soneto do Dia

Reciclagem
–DARLY O. BARROS/SP–

O outono chega e o seu poder externa,
provando ser do clima o novo dono
mas, prevenida, a natureza hiberna
– colo de mãe e só o quer, no outono…

E como é próprio da missão materna,
zelosa, a terra vela por seu sono:
entre deveres e atenções se alterna
sonhando-a, gloriosa, no seu trono…

Com esse fito, age – o tempo é breve –,
se a brisa sopra, ainda só de leve,
há que pensar no inverno e em seus rigores!

Meses mais tarde, coroando a espera,
a terra-mãe exibe a primavera,
engalanada de verdor e flores…

Fonte:
Textos enviados pelo Autor

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Ialmar Pio Schneider (Participação e Poesia)

aquarela de Angela Ponsi
Vivemos numa época conturbada, mas nem por isto é necessário mergulharmos na solidão e ignorar o que existe ao nosso redor. Sempre encontraremos alguém que possa nos compreender, com nossos defeitos e virtudes e nos aceitar. Segundo meu entender, não fomos criados para o ostracismo, nem jamais seremos auto-suficientes, pois “uma mão lava a outra, e as duas lavam o rosto”. Assim aprendi desde cedo.

Em certa fase da vida, quem sabe atravessando momentos existenciais difíceis, compus o seguinte soneto, que consta na pág. 133 do meu livro Poesias Esparsas Reunidas, abaixo referido, como segue:

SONETO DA LIBERTAÇÃO –

Quero o caminho da libertação
para seguir na vida mais confiante,
se alimentava mórbida ilusão
procurarei bani-la, doravante.

Preciso estar alerta a todo instante
e suportar a humana condição,
minha vigília deve ser constante
neste universo envolto em turbilhão…

Levo comigo a chama da esperança
e apesar dos percalços da existência
tenho fé, tenho amor, tenho confiança…

Não mais serei o náufrago perdido
pelos mares da angústia e da impaciência,
porque vencendo-me, terei vencido !

– Canoas – 29.01.85.

Lá se vão mais de quinze anos e quando o leio, ainda me parece tão atual, pois muito me ajudou a transpor certa fase que me deprimia, sensivelmente. Não posso ignorar que todos tenhamos a cruz para carregar e o calvário de cada um é a passagem terrena. Por isso que procuro dentro da filosofia, motivos que me levem à participação por intermédio da própria poesia, utilizando meu gênero preferido que é o soneto. Muitos deles (foram tantos), estão impregnados até de pessimismo, mas a mensagem que pretendi imprimir-lhes é de aceitação, sem o que não vejo paz de espírito. Também é certo que existam para todos nós, bons e maus momentos. A vida não passa de uma tragicomédia, plena de altos e baixos, que nos fazem rir e chorar, às vezes até conjuntamente.

Ao finalizar estas poucas e singelas linhas, quero agradecer do fundo do coração aos amigos e colegas que compareceram em minhas sessões de autógrafos na banca da Fundação Cultural de Canoas, na 16ª Feira do Livro de Canoas, nos dias 29 de junho (apesar da chuva ininterrupta) e 7 de julho, quando lancei meu livro de poemas Poesias Esparsas Reunidas, que abrange minha produção poética publicada na imprensa, bem como aos que adquiriram a obra ou me honrem com a leitura dos meus versos. Sem medo de cair em lugar-comum, não tenho palavras que demonstrem cabalmente minha gratidão. Devo dizer simplesmente: Muito obrigado, amigos ! Sejam todos felizes… É o desejo ardente do poeta que existe dentro de mim desde sempre.

Fonte:
http://ialmarpioschneider.blogspot.com/2009_12_01_archive.html

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A. A. de Assis (Trovas Ecológicas) – 22

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24 de setembro de 2011 · 23:21

Antonio Brás Constante (Assalto (In) Cômodo)


É um assalto!

Como?

Eu disse que é um assalto!

Mas, nem revolver você tem…

É que sou contra a violência. O desemprego me obrigou a partir para o mundo do crime, mas procuro fazer isso de forma pacífica.

Olha. Não me leva a mal, mas o que faz você pensar que eu vou aceitar ser assaltado por alguém que não usa armas e não gosta de violência?

Justamente para evitar mais violência desnecessária. Se você não colaborar comigo e chamar a polícia, vou acabar preso. A prisão vai servir de escola para me transformar em uma pessoa pior. Quando sair de lá provavelmente vou passar a ser violento e agressivo em meus assaltos. Você não quer isso quer?

Sei…

Sem falar que se eu fosse praticante da violência, ao invés de estarmos dialogando calmamente como agora, você estaria com uma arma apontada para sua cabeça, sendo agredido, humilhado, quem sabe até mesmo morto. Se tivesse problemas cardíacos poderia ter um ataque ou algo parecido…

E você acha que alguém em juízo perfeito vai dar dinheiro para um ladrão somente baseado nesses argumentos?

Claro. Pense bem. Se todos os assaltantes agissem assim, não haveria tantas mortes, violência, famílias que perdem seus maridos, filhos, irmãos entre outros em assaltos. As verbas contra a violência poderiam ser destinadas para outros fins como a geração de empregos, diminuindo assim o índice de assaltos até finalmente acabar com eles de vez.

Ok. Toma este dinheiro aqui…

Uau! Tudo isto? Como você é generoso…

Generoso nada. Pega este dinheiro e vai comprar uma arma. Sou um homem da lei. Se essa moda que você está pregando der certo vou acabar sem emprego. Por isso escuta bem, se eu te pegar tentando dar uma de assaltante bonzinho novamente, te prendo e cubro de porrada. Agora some daqui.

Fontes:
Texto enviado pelo autor
Spaceblog

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Florbela Espanca (A Mensageira das Violetas) I


CRISÂNTEMOS

Sombrios mensageiros das violetas,
De longas e revoltas cabeleiras;
Brancos, sois o casto olhar das virgens
Pálidas que ao luar, sonham nas eiras.
Vermelhos, gargalhadas triunfantes,
Lábios quentes de sonhos e desejos,
Carícias sensuais d´amor e gozo;
Crisântemos de sangue, vós sois beijos!
Os amarelos riem amarguras,
Os roxos dizem prantos e torturas,
Há-os também cor de fogo, sensuais…
Eu amo os crisântemos misteriosos
Por serem lindos, tristes e mimosos,
Por ser a flor de que tu gostas mais!

NO HOSPITAL

À Théa

Na vasta enfermaria ela repousa
Tão branca como a orla do lençol
Gorjeia a sua voz ternos perfumes
Como no bosque à noite o rouxinol.
É delicada e triste. O seu corpito
Tem o perfume casto da verbena.
Não são mais brancas as magnólias brancas
Que a sua boca tão branca e pequena.
Ouço dizer: – Seu rosto faz sonhar!
Serão pétalas de rosa ou de luar?
Talvez a neve que chorou o inverno…
Mas vendo-a assim tão branca, penso eu:
É um astro cansado, que do céu
Veio repousar nas trevas dum inferno!

VULCÕES

Tudo é frio e gelado. O gume dum punhal
Não tem a lividez sinistra da montanha
Quando a noite a inunda dum manto sem igual
De neve branca e fria onde o luar se banha.
No entanto que fogo, que lavas, a montanha
Oculta no seu seio de lividez fatal!
Tudo é quente lá dentro…e que paixão tamanha
A fria neve envolve em seu vestido ideal!
No gelo da indiferença ocultam-se as paixões
Como no gelo frio do cume da montanha
Se oculta a lava quente do seio dos vulcões…
Assim quando eu te falo alegre, friamente,
Sem um tremor de voz, mal sabes tu que estranha
Paixão palpita e ruge em mim doida e fremente!

O MEU ALENTEJO

Meio-dia. O sol a prumo cai ardente,
Dourando tudo…ondeiam nos trigais
D´ouro fulvo, de leve…docemente…
As papoulas sangrentas, sensuais…
Andam asas no ar; e raparigas,
Flores desabrochadas em canteiros,
Mostram por entre o ouro das espigas
Os perfis delicados e trigueiros…
Tudo é tranqüilo, e casto, e sonhador…
Olhando esta paisagem que é uma tela
De Deus, eu penso então: onde há pintor,
Onde há artista de saber profundo,
Que possa imaginar coisa mais bela,
Mais delicada e linda neste mundo?!

PAISAGEM

Uns bezerritos bebem lentamente
Na tranqüila levada do moinho.
Perpassa nos seus olhos, vagamente,
A sombra duma alma cor do linho!
Junto deles um par. Naturalmente
Namorados ou noivos. De mansinho
Soltam frases d´amor…e docemente
Uma criança canta no caminho!
Um trecho de paisagem campesina,
Uma tela suave, pequenina,
Um pedaço de terra sem igual!
Oh, abre-me em teu seio a sepultura,
Minha terra d´amor e de ventura,
Ó meu amado e lindo Portugal!

VOZES DO MAR

Quando o sol vai caindo sob as águas
Num nervoso delíquio d´ouro intenso,
Donde vem essa voz cheia de mágoas
Com que falas à terra, ó mar imenso?
Tu falas de festins, e cavalgadas
De cavaleiros errantes ao luar?
Falas de caravelas encantadas
Que dormem em teu seio a soluçar?
Tens cantos d´epopéias? Tens anseios
D´amarguras? Tu tens também receios,
Ó mar cheio de esperança e majestade?!
Donde vem essa voz, ó mar amigo?…
…Talvez a voz do Portugal antigo,
Chamando por Camões numa saudade!

CRAVOS VERMELHOS

Bocas rubras de chama a palpitar,
Onde fostes buscar a cor, o tom,
Esse perfume doido a esvoaçar,
Esse perfume capitoso e bom?!
Sois volúpias em flor! Ó gargalhadas
Doidas de luz, ó almas feitas risos!
Donde vem essa cor, ó desvairadas,
Lindas flores d´esculturais sorrisos?!
…Bem sei vosso segredo…Um rouxinol
Que vos viu nascer, ó flores do mal
Disse-me agora: “Uma manhã, o sol,
O sol vermelho e quente como estriga
De fogo, o sol do céu de Portugal
Beijou a boca a uma rapariga…”

ANSEIOS

À minha Júlia

Meu doido coração aonde vais,
No teu imenso anseio de liberdade?
Toma cautela com a realidade;
Meu pobre coração olha cais!
Deixa-te estar quietinho! Não amais
A doce quietação da soledade?
Tuas lindas quimeras irreais
Não valem o prazer duma saudade!
Tu chamas ao meu seio, negra prisão!…
Ai, vê lá bem, ó doido coração,
Não te deslumbre o brilho do luar!
Não ´stendas tuas asas para o longe…
Deixa-te estar quietinho, triste monge,
Na paz da tua cela, a soluçar!…

A ANTO!

Poeta da saudade, ó meu poeta qu´rido
Que a morte arrebatou em seu sorrir fatal,
Ao escrever o Só pensaste enternecido
Que era o mais triste livro deste Portugal,
Pensaste nos que liam esse teu missal,
Tua bíblia de dor, teu chorar sentido
Temeste que esse altar pudesse fazer mal
Aos que comungam nele a soluçar contigo!
Ó Anto! Eu adoro os teus estranhos versos,
Soluços que eu uni e que senti dispersos
Por todo o livro triste! Achei teu coração…
Amo-te como não te quis nunca ninguém,
Como se eu fosse, ó Anto, a tua própria mãe
Beijando-te já frio no fundo do caixão!

NOITE TRÁGICA

O pavor e a angústia andam dançando…
Um sino grita endechas de poentes…
Na meia-noite d´hoje, soluçando,
Que presságios sinistros e dolentes!…
Tenho medo da noite!… Padre nosso
Que estais no céu… O que minh´alma teme!
Tenho medo da noite!… Que alvoroço
Anda nesta alma enquanto o sino geme!
Jesus! Jesus, que noite imensa e triste!
A quanta dor a nossa dor resiste
Em noite assim que a própria dor parece…
Ó noite imensa, ó noite do Calvário,
Leva contigo envolto no sudário
Da tua dor a dor que me não ´squece!

ERRANTE

Meu coração da cor dos rubros vinhos
Rasga a mortalha do meu peito brando
E vai fugindo, e tonto vai andando
A perder-se nas brumas dos caminhos.
Meu coração o místico profeta,
O paladino audaz da desventura,
Que sonha ser um santo e um poeta,
Vai procurar o Paço da Ventura…
Meu coração não chega lá decerto…
Não conhece o caminho nem o trilho,
Nem há memória desse sítio incerto…
Eu tecerei uns sonhos irreais…
Como essa mãe que viu partir o filho,
Como esse filho que não voltou mais!

CEGUEIRA BENDITA

Ando perdida nestes sonhos verdes
De ter nascido e não saber quem sou,
Ando ceguinha a tatear paredes
E nem ao menos sei quem me cegou!
Não vejo nada, tudo é morto e vago…
E a minha alma cega, ao abandono
Faz-me lembrar o nenúfar dum lago
´Stendendo as asas brancas cor do sonho…
Ter dentro d´alma na luz de todo o mundo
E não ver nada nesse mar sem fundo,
Poetas meus irmãos, que triste sorte!…
E chamam-nos a nós Iluminados!
Pobres cegos sem culpas, sem pecados,
A sofrer pelos outros té à morte!

Fonte:
ESPANCA, Florbela. A mensageira das violetas: antologia. Seleção e edição de Sergio Faraco. Porto Alegre: L&PM, 1999. (Pocket).

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Monteiro Lobato (O Presidente Negro) I – O Desastre


(ROMANCE AMERICANO DO ANO 2228) (1)
1) Na 1.ª edição o titulo era o seguinte: “O CHOQUE DAS RAÇAS ou O PRESIDENTE NEGRO.”

Nota dos Editores

Este romance de Monteiro Lobato, escrito em três semanas para o rodapé d’A MANHÃ, de Mario Rodrigues, no ano de 1926, antes da partida do autor para os Estados Unidos, constitui uma verdadeira curiosidade literária. Embora aparentemente uma “brincadeira de talento”, encerra um quadro do que realmente seria o mundo de amanhã, se fosse Lobato o reformador — e em muitos pontos havemos de concordar que sob aparências brincalhonas brilha um pensamento de grande penetração psicológica e social. O conserto do mundo pela eugenia, o ajuste do casamento por meio das “férias conjugais”, a criação da cidade de Eropolis, o teatro onírico… Como H. G. Wells, Monteiro Lobato talvez não tenha imaginado coisas, e sim apenas antecipado coisas. (1)

(1) A 1 ª edição de O PRESIDENTE NEGRO trazia a seguinte dedicatória: “A Arthur Neiva e Coelho Netto, dois grandes mestres no trabalho, na ciência e nas letras.”

CAPITULO I

O Desastre

Achava-me um dia diante dos guichês do London Bank á espera de que o pagador gritasse a minha chapa, quando vi a cochilar num banco ao fundo certo corretor de negócios meu conhecido. Fui-me a ele, alegre da oportunidade de iludir o fastio da espera com uns dedos de prosa amiga.

— Esperando sua horinha, hein? disse-lhe com um tapa amigável no ombro, enquanto me sentava ao seu lado.

— É verdade. Espero pacientemente que me cantem o numero, e enquanto espero filosofo sobre os males que traz á vida a desonestidade dos homens.

— ?

— Sim, porque se não fosse a desonestidade dos homens tudo se simplificaria grandemente. Esta demora no pagamento do mais simples cheque, donde provém? Da necessidade de controle em vista dos artifícios da desonestidade. Fossem todos os homens sérios, não houvesse hipótese de falsificações ou abusos, e o recebimento de um dinheiro far-se-ia instantâneo. Ponho-me ás vezes a imaginar como seriam as coisas cá na terra se um sábio eugenismo desse combate á desonestidade por meio da completa eliminação dos desonestos.
Que paraíso!

— Tem razão, concordei eu, com os olhos parados de quem pela primeira vez reflete uma ideia. A vida é complicada, existem leis, polícia, embaraços de toda espécie, burocracia e mil peia?, tudo porque a desonestidade nas relações humanas constitui, como dizes, um elemento constante. Mas é mal sem remédio…

E por aí fomos, no filosofar vadio de quem não possui coisa melhor a fazer e apenas procura matar o tempo. Passamos depois a analisar vários tipos ali presentes, ou que entravam e saíam, na azafama peculiar aos negócios bancários. O meu amigo, frequentador que era dos bancos, conhecia muitos deles e foi-me enumerando particularidades curiosas relativas a cada qual. Nisto entrou um velho de aparencia distinta, já um tanto dobrado pelos anos.

— E aquele velho que ali vem? perguntei.

— Oh! Aquele é um caso sério. O professor Benson, nunca ouviu falar?

— Benson… Esse nome me é desconhecido.

— Pois o professor Benson é um homem misterioso que passa a vida no fundo dos laboratórios, talvez á procura da pedra filosofal. Sábio em ciências naturais e sábio ainda em finanças, coisa ao meu ver muito mais importante. E tão sábio que jamais perde. Dou-me com esses rapazes todos que trabalham nas seções de cambio e por eles sei deste homem coisas impressionantes. Benson joga no cambio, mas com tal segurança que não perde.

— Sorte!

— Não é bem sorte. A sorte caracteriza-se por um afluxo de paradas felizes, por uma media mais alta de lucro do que de perda. Mas Benson não perde nunca.

—Será possível?

— É mais que possível, é fato. Deve possuir hoje enorme fortuna. Mora em um complicado castelo lá dos lados de Friburgo, mas não cultiva relações sociais. Não tem amigos, ninguém ainda viu o interior do casarão onde vive em companhia de uma filha, servido por criados mudos, ao que dizem. Você sabe que depois da guerra o mundo inteiro jogou no marco alemão.

—Sei, sim, e fui uma das vitimas…

—Pois o mundo inteiro perdeu, menos ele.

—Absurdo! Só se fabricava marcos para vender.

—Ao contrario, comprava e revendia marcos já feitos. O marco, talvez você se lembre, teve em certo periodo uma oscilação de alta. Renasceram as esperanças dos jogadores e o movimento de compras foi enorme. Benson vendeu nessa ocasião. Logo em seguida começou o marco desandar até zero e para nunca mais se erguer.

—Vendeu no momento exato, como quem sabe qual o momento exato de vender…

—Isso mesmo. Com o franco fez coisa idêntica. Comprou exatamente nos dias de maior baixa e vendeu exatamente nos dias de maior alta. Tem ganho o que quer ganhar, o raio do homenzinho…

—E para que necessita de tanto dinheiro?

—Ignoro. Não leva a vida comum dos nossos ricaços, não dá festas, não consta que seja explorado por mulheres. É positivamente misterioso o professor Benson — um verdadeiro magico que vê através do futuro.

Ri-me da expressão do meu amigo e qual filosofo barato murmurei com superioridade:

— Como pode ver através do que não existe? O futuro não existe…

O corretor respondeu-me com uma frase que naquele momento não compreendi:

— Não existe, sim, mas vai existir necessariamente.

— Dois mais dois — é o presente. A soma quatro é o futuro. Um futuro previsível…

— “Vinte e dois!” gritou uma voz da pagadoria.

Era o meu numero.

— Dois mais dois tambem podem ser vinte e dois, gracejei eu, despedindo-me do filosofo. Adeus, meu caro. Na próxima oportunidade você continuará com a demonstração.

Recebi o dinheiro e saí para o torvelinho das ruas, onde breve se me apagou do cerebro a impressão do professor Benson e das palavras do meu amigo. Mas dá a vida misteriosas voltas e um belo dia, ao despertar de um sono letárgico, quem vi eu diante dos meus olhos, qual um espectro?

O professor Benson!…

Não antecipemos, porém; e antes de mais nada permitam-me que fale um bocado da minha pessoa. Era eu um pobre diabo para toda gente, exceto para mim mesmo. Para mim tinha-me na conta de centro do universo. Penso e sou, dizia comigo, repetindo certo filosofo francês. Tudo gira em redor do meu ser. No dia em que eu deixar de pensar, o mundo acaba-se. Mas isto parece que não tinha grande originalidade, pois todos os meus conhecidos se julgavam da mesma forma.

Eu vivia do meu trabalho, recebendo dele, não o produto, mas uma pequena quota, o necessário para pagar o quarto onde morava, a pensão onde comia e a roupa que vestia. Quem propriamente se gozava do meu trabalho era a dupla Sá, Pato & Cia., gordos e sólidos negociantes que me enterneciam a alma nas épocas de balanço ao concederem-me a pequena gratificação constituidora do meu lucro. Com eles trabalhei vários anos, conseguindo reunir o modesto pecúlio que transformei em marcos e, com grande dor d’alma, vi se reduzirem a zero absoluto, apesar da teoria de que tudo é relativo.

Continuei no trabalho por mais quatro anos, daí por diante já curado de jogatinas e megalomanias. Mas todos nós possuímos um ideal na vida. Meu amigo corretor sonha dirigir a carteira cambial de um banco. Aquele pobre que ali passa, tocando o realejo que herdou do pai e ao qual faltam três notas, sonha com um realejo novo em que não falte nota nenhuma.

Eu sonhava… com um automóvel. Meu Deus! As noites que passei pensando nisso, vendo-me no volante, de olhar firme para a frente, fazendo, a berros de klaxon, disparar do meu caminho os pobres e assustadiços pedestres! Como tal sonho me enchia a imaginação!

Meu serviço na casa era todo de rua, recebimentos, pagamentos, comissões de toda espécie. De modo que posso dizer que morava na rua, e o mundo para mim não passava de uma rua a dar uma porção de voltas em torno da terra. Ora, na rua eu via a humanidade dividida em duas castas, pedestres e rodantes, como os batizei aos homens comuns e aos que circulavam sobre quatro pneus. O pedestre, casta em que nasci e em que vivi até aos 26 anos, era um ser inquieto, de pouco rendimento, forçado a gastar a sola das botinas, a suar em bicas nos dias quentes, a molhar-se nos dias de chuva e a operar prodígios para não ser amarrotado pelo orgulhoso e impassível rodante, o homem superior que não anda, mas desliza veloz. Quantas vezes não parei nas calçadas para gozar o espetáculo do formigamento dos meus irmãos pedestres, a abrirem alas inquietas á Cadillac arrogante que por eles se metia, a reluzir esmaltes e metais! O ronco de porco do klaxon parecia-me dizer — “Arreda canalha!”

Sonhei, portanto, mudar de casta e por minha vez levar os pedestres a abrirem-me alas, sob pena de esmagamento. E o novo pecúlio, com tanto esforço acumulado depois do desastre germânico, não visava outra coisa. Foi, pois, com o maior enlevo d’alma que entrei certa manhã numa agência e comprei a maquina que me mudaria a situação social. Um Ford.

Os efeitos dessa compra foram decisivos na minha vida. Ao verem-me chegar ao escritório fonfonando, os patrões abriram as maiores bocas que ainda lhes vi e vacilaram entre porem-me no olho da rua ou dobrarem–me o ordenado. Por fim dobraram-me o ordenado, quando demonstrei o quanto lhes aumentaria o renome da firma o terem um auxiliar possuidor de automóvel próprio. E tudo correria pelo melhor, no melhor dos mundos possíveis, se eu me não excedesse na fúria de fordizar a todo o transe com o fito de embasbacar pedestres. A paixão da carreira grelara em mim e, depois de um mês, já não contente com a velocidade desenvolvida por aquele carro, pus-me a sonhar a aquisição de outro, que chispasse cem quilometros por hora. O aumento de ordenado permitiu-me varias excursões de maluco, nas quais me embriagava aos domingos da delicia de devorar quilometros.

Paguei diversas multas, matei meia dúzia de cães e cheguei a atropelar um pobre surdo que não atendera ao meu insolente “Arreda!” Tornou-se-me o pedestre uma criatura odiosa, embaraçadora do meu direito á rapidez e á linha reta. Pensei até em representar ao governo, sugerindo uma lei que proibisse a semelhantes trambolhos semoventes o transito pelas vias asfaltadas. Adquiri, em suma, a mentalidade dos rodantes, passando a desprezar o pedestre como coisa vil e de somenos importancia na vida.

Por essa época um dos meus patrões encarregou-me de liquidar pessoalmente certo negocio com um freguês morador perto de Friburgo. Muito fácil me seria lá ir de trem, mas um rodante da minha marca sorria dos trens. Fui no meu auto, apesar das ruins informações que me deram do caminho. Meti boa reserva de gasolina e atirei-me qual um doido por estradas de tropa em que, suponho, nenhum automóvel ainda se arriscara a passar. Numerosos contratempos sofri nessa minha “viagem a Damasco”, mas mesmo assim tudo acabaria sem novidade se a estrada infame não desembocasse de improviso numa ótima, recém-feita e tão bem conservada como a melhor das pistas de corrida. Mal me vi naquele sétimo céu de macadame, dei toda a força á maquina e desforrei-me da lentidão de até ali com uma chispada a 60 por hora, o maximo que o meu fordinho permitia.

A região que eu atravessava era de maravilhosa beleza. Serras azuis ao longe, quais muralhas de safira a sopesarem um céu de cobalto. Dia de limpidez absoluta. Paisagem das que vibram de nitidez. Desafeito aos formosos quadros da natureza, distrai-me com a novidade do espetáculo e… cataprus!
……………………………………………………………………………………………………..
Dormi um longo sono. Quando acordei achava-me num quarto desconhecido, tendo na minha frente… o velho jogador de cambio que eu vira no banco — o professor Benson! Grande foi a minha surpresa, e ainda maior seria se uma forte dor no meu braço direito me permitisse pensar em alguma coisa além da lesão sofrida nesse apêndice do eixo central do universo.

— Onde estou? murmurei, olhando muito espantado para o professor Benson.

— Em minha casa, respondeu ele. Um dos meus homens o encontrou sem sentidos no fundo de um despenhadeiro, ao lado de um Ford em pandarecos.

— O meu Ford em pandarecos! Desgraçado que sou… gemi.

A dor do braço ofendido era grande, mas a minha dor moral muito maior. Creio até que entre perder o carro e perder um braço eu não vacilaria na escolha. Custara-me tanto consegui-lo… E, além do mais, dada a psicologia dos meus patrões, o certo era reduzirem-me o ordenado, já que eu voltaria a servi-los a pé como outrora…

Tão negra noticia me sombreou de crepes a alma. Não podia conformar-me com o desastre. Delirei. Soube mais tarde, pelo professor, que nesse delírio uma obsessão única transparecia: o desespero ante o meu retorno á miserável casta dos pedestres…

Mas tudo passa. A dor do braço foi atenuando e a dor moral acompanhou-a nesse amortecimento, de modo que pude erguer-me da cama ao cabo de quinze ou vinte dias.

Vi então desenhar-se na minha frente um problema terrível. Davam-me alta em breve e, não havendo mais razão para permanecer naquela casa estranha, forçoso me seria regressar á cidade. E teria de me apresentar diante dos senhores Sá, Pato & Cia. a pé, murcho, resignado ás suas pilhérias e á lógica redução de salário. Revoltado, deliberei mudar de vida. Quando na manhã seguinte o professor Benson me apareceu no quarto, abri-me com ele.

— Professor, não sei como agradecer o bem que me fez!…

— Fiz o meu dever apenas, declarou com simplicidade o velho.

— Salvou-me a vida, professor. Não fosse a sua preciosa assistencia e o provável era estar eu agora esvoaçando pelo outro mundo, como floco de plaina psíquica. Minha gratidão é imensa. Mas seria infinita se o professor me ajudasse a resolver o problema muito sério que vejo armar-se diante de mim.

— Diga qual é. Já resolvi diversos, tidos como insolúveis, e ser-me-ia grato resolver mais um…

Animado pela bonomia do velho, abri meu coração. Contei-lhe a mediocridade da minha vida, os meus esforços para juntar o pecúlio empatado no automóvel, a transformação que as quatro rodas me operaram na mentalidade e o horror com que via agora o forçado regresso ao pedestrianismo.

— O professor é opulento e pelo que vejo possui uma grande e linda propriedade. Precisará, portanto, de homens que trabalhem nela. Eu não queria sair daqui. Arranje-me uma ocupação qualquer, seja lá qual for. Tenho algumas aptidões e, como a boa vontade é grande, para isto ou aquilo sempre hei de servir. O que não desejo é voltar á cidade e ter de apresentar-me, assim decaído, ante os meus truculentos patrões…

O professor Benson pareceu meditar. Tirou do nariz os óculos de ouro, limpou-lhes os vidros num lenço de linho e depois disse:

—Não necessito aqui de ninguém. Possuo o numero de criados estritamente precisos para conservação desta propriedade e nela não vejo função que o amigo possa desempenhar. E não o admitiria em hipótese alguma, se de dias a esta parte não sentisse cá no coração prenúncios de que minha vida está no fim. Isto me faz sair da política que tenho levado até hoje e aceita-lo em minha companhia como… confidente.

—Confidente?… repeti, sem compreender o alcance da expressão.

—Sim, confidente. Aproveito-me do acaso te-lo trazido ao meu encontro para confiar-lhe a história da minha vida. Mas desde já dou um conselho: guarde segredo de tudo, depois que eu morrer. Não que seja caso de segredo, mas vai o amigo ouvir e ver coisas tão extraordinárias que, se o for contar lá fora, o agarram e o metem no hospício como doido varrido. Digo que guarde segredo para seu bem apenas. Agora saia. Dê pelos campos o seu primeiro passeio de convalescente e antes do almoço procure-me no gabinete.

Findo o discurso o professor premiu o botão duma campainha. Sem demora vi surgir um criado.

— Acompanhe este moço num passeio pelos arredores e Se volta conduza-mo ao gabinete.
––––––-
continua… Capitulo II – À minha Aurora

Fonte:
Monteiro Lobato. O Presidente Negro. Editora Brasiliense, 1979.

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Consiglieri Pedroso (A Menina e o Bicho)


Era uma vez um homem que tinha três filhas.

Eram todas muito amigas dele, mas havia uma que ele estimava mais.

Foi um dia à feira e perguntou às filhas o que é que elas queriam de lá. Uma delas disse:

– Um chapéu e umas botas!

A outra disse também:

– Um vestido e um xaile!

Mas a que ele estimava mais não lhe disse nada.

O homem, muito admirado, perguntou:

– Ó minha filha, tu não queres nada?

– Não quero nada, disse ela. Quero que meu pai tenha saúde!

– Tu hás-de também pedir uma coisa, seja o que for, que eu trago-ta! respondeu o pai.

Ela, para que o pai a deixasse, disse então:

– Quero que meu pai me traga um corte de goraz em campo verde.

O homem foi para a feira, comprou todas as coisas que as filhas lhe tinham pedido, e não fazia senão procurar o corte de goraz em campo verde. Mas não o encontrou. Era coisa que não havia. Por isso vinha muito triste para casa, porque era a filha que ele mais estimava.

Quando vinha andando, aconteceu-lhe ver luzir uma luz no caminho, porque já era noite.

Foi andando, andando, até chegar àquela luz.

Era um pastor, que estava ali numa cabana. O homem chegou-se a ele e perguntou:

– Sabe-me dizer que palácio é aquele, e se me podiam dar agasalho!

O pastor respondeu muito admirado:

– Oh!, senhor, mas… naquele palácio não habita ninguém; aparece lá uma coisa, e todos têm medo de lá estar!

– Deixá-lo, disse o homem, não me hão-de comer, e como não tem ninguém, vou lá dormir esta noite!

Foi. Encontrou tudo iluminado e muito rico e, entrando mais para dentro, viu uma mesa posta. Quando se ia a chegar à mesa, ouviu uma voz dizer:

– Come e vai-te deitar naquela cama que ali está, e pela manhã levanta-te e leva o que está em cima daquela mesa, que é o que a tua filha te pediu, mas, ao fim de três dias, hás-de ma trazer aqui.

O homem ficou muito contente por levar à filha o que ela tinha pedido, mas ao mesmo tempo ficou triste pelo que a voz lhe tinha dito.

Deitou-se e ao outro dia levantou-se, foi direito à mesa e viu o corte de goraz em campo verde; agarrou nele e foi para casa.

Apenas chegou, começaram as filhas de roda dele:

– Meu pai, que é que nos trouxe? Deixe ver.

O pai deu-lhes tudo quanto trazia.

A outra filha, a que ele estimava mais, perguntou-lhe só se ele tinha saúde. O pai respondeu-lhe:

– Minha filha, venho contente e ao mesmo tempo triste! Aqui tens o teu pedido.

A filha respondeu-lhe:

– Oh! meu pai, eu tinha-lhe pedido isto, porque era coisa que não havia; mas porque é que vem tão triste?

– Porque tenho de levar-te ao fim de três dias aonde me deram isto!

E contou tudo o que lhe tinha acontecido no palácio e o que a voz lhe tinha dito. A filha, quando ouviu tudo, respondeu:

– Não esteja triste, meu pai, que eu vou, e há-de ser o que Deus quiser!

Assim foi. Ao fim de três dias o pai levou-a ao palácio encantado.

Estava tudo iluminado, a mesa posta e duas camas feitas.

Quando entraram, ouviram uma voz dizer:

– Come e deixa-te estar três dias com a tua filha, para ela não ter medo.

O homem esteve os três dias no palácio. No fim, foi-se embora, ficando a filha só.

A voz falava com ela todos os dias, mas não se via ninguém.
Ao fim de uns poucos dias, a menina ouviu cantar um passarinho no jardim. A voz disse-lhe:

– Tu ouves o passarinho a cantar?

– Oiço, sim, disse a menina; é alguma novidade?

– É tua irmã mais velha que está para casar. E tu queres ir? perguntou a voz.

A menina, muito contente, disse:

– Eu quero, sim; e tu deixas-me Ir?

– Eu deixo, tornou a voz, mas tu não voltas!

– Volto, sim! – disse a menina.

A voz deu-lhe então um anel, para ela se não esquecer, e disse-lhe:

– Olha que ao fim de três dias vai um cavalo branco buscar-te; há-de bater três pancadas: a primeira é para te vestires, a segunda é para te despedires e a terceira é para te montares. Se às três não estiveres em cima do cavalo, ele vem-se embora e deixa-te lá!

A menina foi. Houve uma grande festa, e a irmã casou-se. Ao fim de três dias, foi o cavalo branco bater três pancadas. À primeira a menina começou a vestir-se, à segunda despediu-se e à terceira montou a cavalo.

A voz tinha dado à menina um caixote de dinheiro para levar ao pai e às irmãs, e por isso elas não queriam que ela tornasse para o palácio encantado, porque já estava multo rica.

Mas a menina lembrou-se do que tinha prometido, e apenas se viu em cima do cavalo foi-se embora.

No fim de certo tempo tornou o passarinho a cantar muito contente no jardim. A voz disse-lhe:

– Tu ouves o passarinho a cantar?

– Oiço, sim, disse a menina, é alguma novidade?

– É a outra tua irmã que está para casar. E tu queres ir? perguntou a voz.

A menina, muito contente, disse:

– Eu quero, sim; e tu deixas-me ir?

– Eu deixo, tornou a voz, mas tu não voltas!

– Volto, sim, disse a menina.

A voz disse, então:

– Olha que se ao fim de três dias não vieres, ficas lá, e serás a rapariga mais desgraçada que há no mundo!

A menina foi. Houve uma grande festa, e a irmã casou-se. Ao fim de três dias veio o cavalo branco. Deu a primeira pancada, e a menina vestiu-se; deu a segunda, e a menina despediu-se; deu a terceira, e montou a cavalo e foi para o palácio.

Passados tempos tornou o passarinho a cantar no jardim, mas muito triste, muito triste.

A voz disse-lhe:

– Tu ouves o passarinho?

– Oiço, sim, disse a menina, é alguma novidade? É, sim, é o teu pai que está para morrer, e não morre sem se despedir de ti!

– E tu deixa-me ir? perguntou a menina, muito triste.

– Deixo, sim, mas desta vez é que tu não voltas!

– Volto, sim, disse a menina.

A voz disse-lhe:

– Não voltas, não, que as tuas irmãs não te deixam vir! E tu e mais elas, serão as raparigas mais desgraçadas deste mundo, se não voltares ao fim de três dias!

A menina foi, o pai estava muito mal e não podia morrer, mas apenas se despediu dela, morreu.

As irmãs, como ela tinha perdido a noite, deram-lhe dormideiras e deixaram-na dormir.

A menina pediu muito que a acordassem antes de vir o cavalo branco.

As irmãs que fizeram? Não a acordaram e tiraram-lhe o anel do dedo.

Ao fim de três dias veio o cavalo. Bateu a primeira pancada, bateu a segunda, bateu a terceira e foi-se embora, e a menina ficou.

Ela andava muito satisfeita com as irmãs, porque não tinha o anel e já não se lembrava de coisa nenhuma.

Daí a uns poucos dias, começou a fortuna a andar para trás, a ela e às irmãs.

Até que uma vez as duas disseram-lhe:

– Mana, tu não te lembras do cavalo branco?

A menina lembrou-se, então, de tudo e disse a chorar:

– Ai. que desgraça a minha! Ai, que me desgraçaram! Que é do meu anel?

As irmãs deram-lhe o anel, e a menina, com muita pena, foi-se logo embora. Chegou ao palácio encantado, mas viu tudo muito triste, muito escuro e muito fechado.

Foi direita ao jardim e encontrou um bicho muito grande, estendido no chão. O bicho, apenas a viu, disse-lhe:

– Retira-te, tirana, que me dobraste o meu encanto! Agora serás a rapariga mais desgraçada do mundo, tu e as tuas irmãs!

O bicho estava a acabar e, assim que disse isto, morreu. A menina voltou para as irmãs, muito triste e a chorar multo, meteu-se em casa sem comer nem beber, e dali a dias morreu também.

As irmãs, essas ficaram cada vez mais pobres, por terem sido a causa disto tudo.

Fontes:
Projeto Vercial
Radar da Net

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 344)

Uma Trova Nacional

Fez a macumba… no entanto,
desesperou-se e sofreu…
– Em vez de “baixar” o santo,
a caxumba é que desceu…
–PEDRO MELLO/SP–

Uma Trova Potiguar

Desisti das minhas lutas,
nos sufrágios, com cautelas,
vou votar nas prostitutas,
me cansei dos filhos delas…
–FABIANO WANDERLEY/RN–

Uma Trova Premiada

2008 – Bandeirantes/PR
Tema: TRABALHO – Venc.

Aos domingos nada faço:
falou de trabalho, eu xingo.
– E os outros dias eu passo
planejando o meu domingo!
–JOSÉ OUVERNEY/SP–

Uma Trova de Ademar

Dançando com Maristela
lá no forró do tampinha,
roçando nas “partes” dela
saiu faísca da “minha”…
–ADEMAR MACEDO/RN–

…E Suas Trovas Ficaram

Com aquele rebolado
que é tão fora do comum,
a mulher do delegado
também prende qualquer um…
–COLBERT RANGEL COELHO/MG–

Simplesmente Poesia

MOTE.
“Veado” talvez não seja,
mas trejeitos ele tem.

GLOSA:
Em qualquer canto que esteja
quer sentado, quer de pé,
parece mais que é mulher,
“veado”, talvez não seja.
Toda mão que aperta beija,
chama todos de meu bem,
casar, não quer com ninguém
e só fala afeminado;
pode até não ser veado,
mas trejeitos ele tem.
-LUIZ XAVIER/RN-

Estrofe do Dia

No shopping, as gatas passando,
boas, lindas, e ele espia,
“botava” os olhos e cuspia,
grande aversão demonstrando…
Eu perguntei, desde quando,
mudaste de lado assim?
Não mudei… E digo enfim:
Tô é pensando na “véia”,
Gordona e cheia de “péia”
que em casa está me esperando!…
–FRANCISCO MACEDO/RN–

Soneto do Dia

À Minha Secretária
–PEDRO TORQUATO MACIEL/SP–

Eu sou um tabelião de vida austera
e gosto de ver sempre à minha frente
a linda secretária permanente
bem limpa, arrumadinha, à minha espera.

Minha mulher um dia me dissera,
lá dentro do cartório, intransigente:
“Eu desejo limpar esse ambiente
Onde o mau gosto estranhamente impera!”

Em seguida, faltando-me ao respeito,
pegou a secretária de mau jeito
e, nervosa, quebrou-lhe uma perna.

Então, ao ver-me um tanto contrariado,
risonha declarou já ter comprado
outra nova, bonita e mais moderna.

Fonte:
Textos enviados pelo Autor

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A. A. de Assis (Trovas Ecológicas) – 21

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24 de setembro de 2011 · 01:31

Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 343)


Uma Trova Nacional

Se houver um conflito cala,
porque em plena discussão,
quanto mais a gente fala,
tanto mais perde a razão.
–MARIA NASCIMENTO/RJ–

Uma Trova Potiguar

O beijo – doce expressão,
obra de um grande inventor,
é a chave do coração
abrindo a porta do amor.
–SEBASTIÃO SOARES/RN–

Uma Trova Premiada

2010 – TrovaUneVersos/RN
Tema: SILHUETA – M/E.

Trago no peito guardada,
entre as lembranças da vida
a Silhueta gravada
da tua imagem querida!
–ZENAIDE MARÇAL/CE–

Uma Trova de Ademar

Sabe o que houve entre nós dois
que a vida desmoronou?
Descobri anos depois:
“foi um rio que passou…”
–ADEMAR MACEDO/RN–

…E Suas Trovas Ficaram

De uma forma desmedida,
muita gente, a toda hora,
dizendo gozar da vida
vai jogando a vida fora!!!
–ALFREDO DE CASTRO/MG–

Simplesmente Poesia

Insano
–SERGIO SEVERO/RN–

Se tem razão a loucura,
encontrei a explicação,
para tanta molhação
nesta Terra de Secura:

O Céu, fendeu o seu chão
e Deus chorou, compungido,
pelo Povo desvalido,
pela seca no Sertão.

Dessa água irei beber,
cada gota que chover,
e num total desvario…

… adoçarei as salinas,
e plantarei turmalinas,
na margem central do rio.

Estrofe do Dia

A sanfona do povo, o nome dela
Gonzagão conduzia no seu peito,
era tão cobiçada de tal jeito
todo mundo queria tocar nela;
uma banda cinzenta outra amarela
eram cores da nossa região,
o seu corpo morreu entrou no chão
mas a fama do homem não morreu;
está guardada num quarto de museu
a sanfona que mais tocou baião.
–DAUDETH BANDEIRA/PB–

Soneto do Dia

Árvore
–RAYMUNDO DE SALLES BRASIL/BA–

Abrigas, sem vaidade, a tantos quantos,
vindos de lutas, buscam refrigério;
não cobras um real por serem tantos,
não usas esse sórdido critério.

Ao que sorri feliz, ao triste, ao sério,
dás, a todos, os mesmos acalantos…
és um delubro puro e sem mistério,
templo das alegrias e dos prantos.

E ainda dás o fruto ao que tem fome,
sem sequer perguntar nem mesmo o nome
ao cansado e faminto repousante.

Oh! Árvore! tu és, não só um templo,
és, também, um belíssimo exemplo
de bondade – frondosa e verdejante!

Fonte:
Textos enviados pelo Autor

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