Carlos Lúcio Gontijo (Antologia Poética 2)


PRIVACIDADE

Aonde vou levo minha casa

Minha intimidade está no outro

Perco privacidade se me escondo

Ela existe enquanto me revelo

Por autoestima velo o próximo

Como se cuidasse de mim mesmo

A amizade é joia de anjo

Arranjo divino para nossa sobrevivência

ORAÇÃO DOS CASAIS

Meu bem, sei que Deus protege os casais

Semeia trigais de ternura na pele

Para que o amor sele as marcas da procura

Então, na hora em que a gente for dormir

Façamos jus aos cuidados do Senhor

Por favor, acenda-me quando apagar a luz!

PSICANÁLISE

Na bandeja fria, a mente de Sartre

O olho do Freud que me espia

Eu salgo no vinagre

Degustando o milagre de me descobrir

Perdido numa rua escura de Paris

Bastilha nua que me liberta

Em ilha virtual demarcada a giz!

SOL ETERNO

Há mais alegria na procura que no encontro

A poesia da vida está na surpresa das esquinas

Em liberdade as diferenças se fazem divinas

Não se toma água limpa em fonte suja

Quem não garimpa dentro de si mesmo

Enferruja com seu toque tudo que amanhece

Não se conhece nem se doa ao próximo

É como canoa que temesse a festa da correnteza

A Natureza acontece na candura da simbiose

Ao horizonte do amor basta a luz da ternura

O sabor da fruta não depende da semente

Vem do calor da mão calejada do plantador

Pôr-do-sol que não se põe no peito da gente!

EVAPORAÇÃO

Arreio o cavalo baio da saudade

E saio por aí feito raio

Carregando balaio de lembranças

Tropeço em desejos

Em beijos caio

Apesar da procura de outros afagos

Tateio e trago a fumaça de sua presença

Que evapora do corpo em que vagueio…

TEMPO DE ARAGEM

Enquanto dorme a Gerais guardada em sinos

E os portugais desejam além de quintos

Sobre os dias de paisagem destruída

O sol não ilumina, nem vida irradia

Apenas combina jogo de luzes

E levemente consola

Não viola a escuridão

É fogueira em solidão sem claridade

(Daí vem-me a vontade vadia)

De introduzir monarquia em meu país

Pois sentir-me-ia mais feliz

Na pátria que não é minha

Se ao menos identificasse reis e rainhas

Ou tivesse a certeza de príncipes e princesas

Estampados no vazio das mesas

De uma gente que ordeira caminha

Levada por pés de rios de vento

E mil dedos de esperança brejeira

Transformando medos em terços de inteira coragem

Feito Natureza que agredida em seu berço

Faz da montanha o seu templo de aragem

E com sua fé arranha os céus!

PELAS RUAS DE MARIANA

Assim como os molhos de estrelas

Distante de nossos olhos a verdade dos fatos

O país no mapa do querer das visões

Da pedra-sabão nascem os brilhos

Filhos de anjos quebrando grilhões

Registrando na arte o sentimento humano

Pano de fundo em que se lavra a história

Heróis nas asas da memória das paredes

As nações são como as casas

É preciso juntar cada coisa em seu lugar

Dia do raiar da luta, guerrilhas, altares

Nesses mares a história é festa cigana

Manifesta-se nas ruas de Mariana-Mãe de Minas

Através de todas as sinas e cores

Odores da história, nossa eternidade material



COPO DE CAMPARI

Sinto Falta dos amigos distantes

Que na luta da vida se perderam

Ou antes se acharam em alguma morte

Feito mãe prepara leito de filho

Com o brilho da esperança nos olhos

Arrumo a casa, preparo a sala

Receberia com gala qualquer pessoa

Mas não soa a campainha

O silêncio me ensurdece

Derrete o gelo no copo de “campari”

Em mim o apelo de prece

Tanto zelo pra terminar assim

Sem alguém que me ampare

Ciente de que a carne é mero revestimento

Breve encantamento do espírito em solidão.

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Fontes:

– Poesias enviadas pelo autor

– Algumas poesias escolhidas do livro de Gontijo, O Ser Poetizado. 1.ed. Belo Horizonte, 2002.

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Arquivado em Antologia Poética, Minas Gerais

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