Arquivo do mês: outubro 2011

Wagner Marques Lopes (Trova Ecológica 39)

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31 de outubro de 2011 · 23:21

Ialmar Pio Schneider (Soneto a Carlos Drummond de Andrade)

Nascimento do poeta Carlos Drummond de Andrade em 31.10.1902
– In Memoriam –

Carlos Drummond de Andrade e a ´´pedra do caminho´´…
por isso compreendi que tudo dá poesia,
quando se tem amor, quando se tem carinho,
e as ideias triviais surjam da fantasia…

Porém, ´´e agora José´´, seguindo sozinho
no escuro, amedrontado e sem a luz do dia,
procurando encontrar um mero cantinho
para viver feliz e ´´não veio a utopia´´…

Eu também encontrei muitas pedras na estrada
e me achei qual José, caminhando no escuro,
mas não tinha ninguém, pois a mulher amada

não havia surgido em minha triste vida…
No entanto, acreditei nos sonhos do futuro
e nos versos que fiz buscava uma saída…

Fonte:
Soneto enviado pelo autor

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Arquivado em homenagem, Soneto.

Carlos Drummond de Andrade (O Poeta Singrando Horizontes)


A CÂMARA VIAJANTE

Que pode a câmara fotográfica?
Não pode nada.
Conta só o que viu.
Não pode mudar o que viu.
Não tem responsabilidade no que viu.
A câmara, entretanto,
Ajuda a ver e rever, a multi-ver
O real nu, cru, triste, sujo.
Desvenda, espalha, universaliza.
A imagem que ela captou e distribui.
Obriga a sentir,
A, driticamente, julgar,
A querer bem ou a protestar,
A desejar mudança.
A câmara hoje passeia contigo pela Mata Atlântica.
No que resta – ainda esplendor – da mata Atlântica
Apesar do declínio histórico, do massacre
De formas latejantes de viço e beleza.
Mostra o que ficou e amanhã – quem sabe? acabará
Na infinita desolação da terra assassinada.
E pergunta: “Podemos deixar
Que uma faixa imensa do Brasil se esterilize,
Vire deserto, ossuário, tumba da natureza?”
Este livro-câmara é anseio de salvar
O que ainda pode ser salvo,
O que precisa ser salvo
Sem esperar pelo ano 2 mil.

SESTA
A Martins de Almeida

A família mineira
está quentando sol
sentada no chão
calada e feliz.
O filho mais moço
olha para o céu,
para o sol não,
para o cacho de bananas.
Corta ele, pai.
O pai corta o cacho
e distribui pra todos.
A família mineira
está comendo banana.
A filha mais velha
coça uma pereba
bem acima do joelho.
A saia não esconde
a coxa morena
sólida construída.
mas ninguém repara.

Os olhos se perdem
na linha ondulada
do horizonte próximo
(a cerca da horta).
A família mineira
olha para dentro.
O filho mais velho
canta uma cantiga
nem triste nem alegre,
uma cantiga apenas
mole que adormece.
Só um mosquito rápido
mostra inquietação.
O filho mais moço
ergue o braço rude
enxota o importuno.
A família mineira
está dormindo ao sol.

REJEIÇÃO

Não sei o que tem meu primo
que não me olha de frente.
Se passo por sua porta,
é como se não me visse:
parece que está na Espanha
e eu, velhamente, em Minas.
Até me virando a cara,
a cara é de zombaria.
Se ele pensa que é mais forte
e que pode me bater,
diga logo, vamos ver
o que a tapa se resolve.
A gente briga no beco,
longe dos pais e dos tios,
mas briga de decidir
essa implicância calada.
Qual dos dois, mais importante:
o ramo dele, o meu ramo?
O pai mais rico, quem tem?
Qual o mais inteligente,
eu ou ele, lá na escola?
Namorada mais jeitosa,
é a minha ou é a dele?
Tudo isso liquidaremos
a pescoção, calçapé,
um dia desses, na certa.
Sem motivo, sem aviso,
meu primo declara guerra,
essa guerrinha escondida,
de mim, mais ninguém, sabida.
Pode pois uma família
ser assim tão complicada
que nós dois nos detestamos
por sermos do mesmo sangue?
Nossas paredes internas
são forradas de aversão?
Será que o que eu penso dele
ele é que pensa de mim
e me olha atravessado
porque vê na minha cara
o vinco de zombaria
e um sentimento de força,
vontade de bater nele?
Meu Deus, serei o meu primo,
e a mesma coisa sentimos
como se a sentisse o outro?

A EXCITANTE FILA DO FEIJÃO

Larga, poeta, a mesa de escritório,
esquece a poesia burocrática
e vai cedinho à fila do feijão.

Cedinho, eu disse? Vai, mas é de véspera,
seja noite de estrela ou chuva grossa,
e sem certeza de trazer dois quilos.

Certeza não terás, mas esperança
(que substitui, em qualquer caso, tudo),
uma espera-esperança de dez horas.

Dez, doze ou mais: o tempo não importa
quando aperta o desejo brasileiro
de ter no prato a preta, amiga vagem.

Camburões, patrulhinhas te protegem
e gás lacrimogêneo facilita
o ato de comprar a tua cota.

Se levas cassetete na cabeça
ou no braço, nas costas, na virilha,
não o leves a mal: é por teu bem.

O feijão é de todos, em princípio,
tal como a liberdade, o amor, o ar.
Mas há que conquistá-lo a teus irmãos.

Bocas oitenta mil vão disputando
cada manhã o que somente chega
para de vinte mil matar a gula.

Insiste, não desistas: amanhã
outros vinte mil quilos em pacotes
serão distribuídos dessa forma.

A conta-gotas vai-se escoando o estoque
armazenado nos porões do Estado.
Assim não falta nunca feijão-preto

(embora falte sempre nas panelas).
Método esconde-pinga: não percebes
que ele torna excitante a tua busca?

Supermercados erguem barricadas
contra esse teu projeto de comer.
Há gritos, há desmaios, há prisões.

Suspense à la Hitchcock ante as cerradas
portas de bronze, guardas do escondido
papilionáceo grão que ambicionas.

É a grande aventura oferecida
ao morno cotidiano em que vegetas.
Instante de vibrar, curtir a vida

na dimensão dramática da luta
por um ideal pedestre mas autêntico:
Feijão! Feijão, ao menos um tiquinho!

Caldinho de feijão para as crianças…
Feijoada, essa não: é sonho puro,
mas um feijão modesto e camarada

que lembre os tempos tão desmoronados
em que ele florescia atrás da casa
sem o olho normativo da Cobal.

Se nada conseguires… tudo bem.
Esperar é que vale – o povo sabe
enquanto leva as suas bordoadas.

Larga, poeta, o verso comedido,
a paz do teu jardim vocabular,
e vai sofrer na fila do feijão.

A ILUSÃO DO MIGRANTE

Quando vim da minha terra,
se é que vim da minha terra
(não estou morto por lá?),
a correnteza do rio
me sussurrou vagamente
que eu havia de quedar
lá donde me despedia.
Os morros, empalidecidos
no entrecerrar-se da tarde,
pareciam me dizer
que não se pode voltar,
porque tudo é conseqüência
de um certo nascer ali.
Quando vim, se é que vim
de algum para outro lugar,
o mundo girava, alheio
à minha baça pessoa,
e no seu giro entrevi
que não se vai nem se volta

ACORDAR, VIVER

Como acordar sem sofrimento?
Recomeçar sem horror?
O sono transportou-me
àquele reino onde não existe vida
e eu quedo inerte sem paixão.

Como repetir, dia seguinte após dia seguinte,
a fábula inconclusa,
suportar a semelhança das coisas ásperas
de amanhã com as coisas ásperas de hoje?

Como proteger-me das feridas
que rasga em mim o acontecimento,
qualquer acontecimento
que lembra a Terra e sua púrpura
demente?
E mais aquela ferida que me inflijo
a cada hora, algoz
do inocente que não sou?

Ninguém responde, a vida é pétrea.

IMORTALIDADE

Morre-se de mil motivos
e sem motivo se morre
de saudade,
morreu o poeta
sem morrer à eternidade
ele que fez de uma pedra
louvor para sua cidade
gauche, grande destro
sem querer celebridade
pelos mil que era
num só se fez único
ficando no seu primeiro
carácter de bom mineiro
jamais morrerá
e sempre será.

Fonte:
ANDRADE, Carlos Drummond. Nova Reunião: 23 livros de poesia. Rio de Janeiro: Bestbolso, 2009.

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Júlia Lopes de Almeida (Flores)


Escrevo estas linhas pensando em minhas filhas. Elas me compreenderão quando forem mulheres e plantarem rosas para dar mel às abelhas e perfume a sua casa.

Em maio de 1901 resolvi organizar para setembro desse mesmo ano uma exposição de flores no Rio de Janeiro, a primeira que se faria nesta cidade. Se faltava originalidade à lembrança, visto que exposições de flores fazem-se todos os anos em terras civilizadas, sobrava-lhe o interesse; a curiosidade amiga que sempre tive pelas flores e o desejo de as ver muito amadas na minha terra. Referir-me a essa exposição é para mim um sacrifício; mas não quero omitir tal capítulo neste livro de mulheres, presidido pelo olhar das minhas filhinhas, a quem pretendo insinuar o amor das plantas, como um dos mais suaves e melhores da vida.

Dizem que as palavras voam e que as obras ficam; mas há obras que o vento leva e que só na palavra fugitiva deixam a sua lembrança… Não falarei da exposição malograda, por ela nem por mim, mas pelos seus intuitos, que eram múltiplos e que continuo a achar excelentes. O que foi acabou. Deite-se-lhe em cima a terra do esquecimento; agora o que ela seria poderá ainda ser, e é nessa hipótese que tem cabimento esta insistência. O que eu esperava dessa exposição era isto só:

Que fosse o início de outras mais belas, que iriam aperfeiçoando as espécies estimadas dos nossos jardins e descobrindo os tesouros dos nossos campos e das nossas florestas. Quantas flores vicejam por esses sertões, dignas de figurarem nos salões mais exigentes! Eu mesma, que nada posso, guiada por uma rápida visão da meninice, não mandara vir do interior de S. Paulo uma flor que, se tivesse a desgraça de pensar, não imaginaria nunca ver o seu nome em um catálogo? Com o prestígio da exposição, quantas pessoas trariam a concurso lindas flores ignoradas, e ignoradas porque são brasileiras?

Não sou dos que pensam que não devemos aceitar nem pedir árvores estrangeiras, desde que temos flores e árvores com tamanha abundância em nosso país.

As coisas boas e belas nunca são de mais, e há ainda a acrescentar a essas duas qualidades a utilidade especial de cada planta.

Todavia, devemos indagar bem do que temos em casa, antes de pedir o que só julgamos haver na alheia.

Uma das principais preocupações da exposição seriam as orquídeas, de tão melindroso cultivo e demorada floração. O catálogo mencionaria com o maior cuidado todas as variedades apresentadas no certame, raras ou não. Ah, no artigo das orquídeas havia parágrafos que valiam capítulos pelas suas intenções.

Imagine que se aventava a idéia de fundarmos no Rio um pavilhão para exposições permanentes, em que a orquídea seria protegida e defendida como um tesouro.

Faz rir a idéia, não é verdade? Nesse pavilhão, organizado por competentes, todas as orquídeas vindas dos Estados próximos, para exportação, seriam sujeitas a um exame para o competente passaporte… Esta prática, que a maioria parecerá absurda, seria considerada naturalíssima, se o respeito pelas orquídeas, que são as jóias das nossas florestas, já tivesse sido implantado no povo. Há orquídeas e parasitas que tendem a desaparecer, pela devastação arrebatadora com que naturais inconscientes e estrangeiros especuladores as arrancam das árvores para as meterem nos caixotes em que as mandam para os portos europeus. Pode dizer-se que e nas estufas da Inglaterra, da França, da Holanda e da Alemanha e até da República Argentina, que se vêem as mais belas flores do Brasil! Não seria justo que, exportando as variedades mais raras das nossas orquídeas, guardássemos delas, na capital, exemplares que garantissem a sua reprodução no país e abrilhantassem a exposição permanente, visitada ao menos por todos os estrangeiros em trânsito?

Mas a nossa atenção não estava voltada só para as orquídeas.

Cada dia da exposição de flores seria dedicado a uma das espécies mais estimadas entre nós.

Teríamos um dia só para rosas. Em roseiras ou cortadas, nessas flores se concentraria a atenção do júri, constituído pelos nossos mestres de botânica e pelos donos dos principais estabelecimentos de floricultura do Rio de Janeiro. Nesse dia apurar-se-ia, aproximadamente, a quantidade de variedades que temos dessa flor, para estabelecer depois a comparação com as que se apresentassem em exposições consecutivas. Tudo isso ficaria consignado em um livro, documentado por nomes conhecidos e insuspeitos.

Assim como as rosas, os cravos não teriam razão de queixa.

Tem reparado como a cultura de cravos se tem desenvolvido e embelezado no Rio de Janeiro? Acreditava-se antigamente que essa flor, uma das mais originais, senão a mais original, só desabrochava bem em Petrópolis, em São Paulo e não sei em que outras terras. Pois estávamos enganados. Nem mesmo do alto da Tijuca são esses formosos cravos que aí estão de tantas cores variadas e tão opulentos de forma; são do vale do Andaraí; são do Engenho Velho; são dos subúrbios; são de Santa Teresa, etc. Quem tiver um canto de jardim, um peitoril largo para vasos de barro, um pouco de terra, pode com segurança semear os seus craveiros; as flores virão.

Como incentivo, a exposição distribuiria mudas de crisântemos a um certo numero de moças, emprazando-as a apresentarem na estação dessa flor a planta florida para uma exposição, em que seriam distribuídos os prêmios do primeiro certame.

Inoculando o gosto pela jardinagem, ela desenvolveria a cultura de uma flor brilhante e a que o nosso clima é favorável.

Nessa primeira exposição, teríamos, além de conferencias estimulando o amor das plantas, mostrando-as em todos os seus múltiplos aspectos sedutores, lições de jardinagem prática.

Essas lições, dadas com a maior simplicidade, sem termos enfáticos, por um homem ilustrado e amigo das flores, nos ensinariam como deve ser preparada a terra para o jardim, como se devem fazer as sementeiras e as podas e os enxertos e matar os pulgões, e criar rosas novas e transformar as variedades mais conhecidas, e pulverizar de água fresca os altos troncos das orquídeas, etc.

Com essas coisas pensava eu prestar simultaneamente dois serviços, à cidade, demonstrando a possibilidade de se fundar aqui uma escola para jardineiros, e às moças a quem o tempo sobre para essas brilhantes fantasias. A jardinagem fornece ensejo para distrações e estudos próprios para mulheres.

E, depois, que encanto o de ver-se o nome de uma senhora ligado ao de uma rosa!

Em todas as capitais do mundo civilizado há o culto da flor. Elas simbolizam as nossas grandes alegrias, como as nossas grandes tristezas, imagens materializadas das maiores comoções da vida. Nas alegres visitas de boas festas e de aniversários, ou nas romarias para os cemitérios, as flores exprimem o júbilo ou a saudade, tão bem como a lágrima ou como o sorriso.

Na Alemanha, disse-me uma amiga que por lá andou viajando, há nas portas dos hospitais, em dias de visita, floristas com ramos para todos os preços; abundam os baratinhos, de flores agrestes ou mais vulgares. Naturalmente, quem vai ver um doente de quarto particular, escolhe as camélias mais puras ou os narcisos mais raros; para os pobres e os indigentes das enfermarias publicas vão bouquets modestos e pequeninos, conquanto vistosos e alegres

Que é aquilo? Um pouco de poesia e de primavera, que vão errar com o seu aroma e as suas cores vistosas e alegres naquele ambiente triste e aborrecido. O olhar desconsolado do doente encontra naquilo um pouco de distração e de consolo.

E assim que nós precisamos gostar de flores. Gostar tanto, que elas sejam para nós uma necessidade; tanto, que até o povo das enfermarias gratuitas não ache mal empregado o tostãozinho com que as adquira! E aqui é tão fácil cultivá-las, Senhor!

A arte do ramilhete, tão adorada no Japão, segundo afirmam as cronistas de lá, e que é com certeza uma das mais delicadas que uma mulher pode exercer, era chamada a concurso em um dos dias da exposição. A moça que fizesse o ramo com mais harmônica combinação no colorido e de forma mais elegante, seria premiada.

Uma das mais curiosas veleidades dessa exposição era o interessar-se pelo tipo das floristas da rua, procurando induzir a transformação das do Rio de Janeiro, que não é positivamente encantador. Para isso obteria também um concurso, em que os nossos pintores e desenhistas apresentassem figurinos de acordo com o nosso clima para floristas ambulantes. Isso naturalmente constituiria uma galeria de problemático aproveitamento; em todo caso, muito interessante. Lembrava mesmo o alvitre de oferecer a exposição os primeiros trajes aos que se sujeitassem à experiência. A exposição seria gratuita para as crianças, tendo mesmo um dia destinado às escolas.

Nunca imaginei que fosse preciso ensinar a amar as flores, que as crianças saúdam desde o berço, articulando, ao vê-las, sílabas incompreensíveis, e agitando para elas com entusiasmo as mãozinhas! No entanto parece-me que o culto da planta deve entrar na educação do povo. As exposições de belas-artes ensinam a amar os quadros e as estátuas; é bem possível que o amor dos europeus pelas flores tenha sido despertado e aperfeiçoado pelas exposições de flores, que se fazem na Europa duas vezes no ano, uma no outono, outra na primavera.

Deixei de reproduzir muitos pontos do programa da primeira exposição, tais como a batalha de flores, com que ela se encerraria, a indicação das flores mais aproveitáveis para a destilaria, etc. Bastam estes que aí ficam para demonstrar que a beleza e a utilidade andam às vezes de mãos dadas!

Se eu fui infeliz, outras serão felizes na mesma batalha e pelo mesmo ideal. Das minhas esperanças decepadas brotem novas esperanças em almas mais novas e capazes de empreendimentos de mais forte envergadura. E para atiçar essa chama que escrevo estas linhas trêmulas, porque agindo adquiri a certeza de que nesta terra bastam para executar grandes obras só duas coisas: energia e vontade.

Fonte:
Júlia Lopes de Almeida. Livro das Donas e Donzelas. Belém/PA: Núcleo de Educação a Distancia da Universidade da Amazonia (UNAMA).

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 381)

Uma Trova Nacional

Quem fez assim tão perfeito,
tão caprichado, esse ninho?
– Foi Deus, pegando de jeito
no bico do passarinho.
–RAYMUNDO SALLES/BA–

Uma Trova Potiguar

Pra garantir matrimônio
a confiante Teresa,
mantém sempre, o Santo Antônio,
com a velinha “bem acesa”…
–UBIRATAN QUEIROZ/RN–

Uma Trova Premiada

2008 – ATRN- Natal/RN
Tema: IDADE – 3º Lugar

Na velhice, idade mestra
já sem forças para o embate,
vem a morte e nos sequestra
sem sequer pedir resgate.
–FRANCISCO JOSÉ PESSOA/CE–

Uma Trova de Ademar

O vício sempre nos joga
numa dor que nos revolta:
– ver um filho usando droga,
numa viagem sem volta!
–ADEMAR MACEDO/RN–

…E Suas Trovas Ficaram

Minha querência, meus pagos,
na minha imaginação,
o céu nasceu nos teus lagos,
e a paz floriu no teu chão…
–MANITA/RJ–

Simplesmente Poesia

O Poeta é Porreta
–CELITO MEDEIROS/PR–

Poesia com liberdade
O pensamento traduz
Muito desta realidade
Que a escrita conduz.

Todo poema é uma luz
De um lado um escritor
Na apreciação superior
Pela beleza que seduz.

Versos para provocar
Acima de tudo o amor
Sempre é bom poetar.

Poeta é um sonhador
Consegue até agradar
Ao mais refinado leitor.

Estrofe do Dia

Nos lindos carnaubais,
nas manhãzinhas brumosas,
no desabrochar das rosas,
nos bonitos parreirais,
nas frondes dos coqueirais
que tremulam noite e dia,
por dentro da serrania,
por toda gruta e recanto;
se vê o suave encanto
das telas da poesia.
–ZÉ DE CAZUZA/PB–

Soneto do Dia

Carnê de Baile
–ALMIRA GUARACY REBÊLO/MG–

Ao abrir a gaveta, na cômoda antiga,
vem a mim, acendrado, um perfume de flor…
A surpresa fascina e de pronto me instiga
a buscar, curiosa, o motivo do olor.

Em procura apressada, um achado me intriga:
bem no fundo, amassado, desfeito o primor,
oloroso carnê de algum baile, que abriga
velha rosa estiolada – Uma prenda de amor?

Fantasio essa rosa em decote atrevido
a cair, em veloz e arrojado volteio…
Ardilosa armação de atrevido cupido!

Pouco a pouco a visão se desprende e esfumaça
como nuvem ligeira… Um mero devaneio…
E entre meus dedos, presa, a flor se despedaça!

Fonte:
Textos enviados pelo Autor

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Monteiro Lobato (Reinações de Narizinho) Cap. VI

VI
A festa e o Major

Chegou a hora da festa. Dando a mão a Narizinho, o príncipe dirigiu-se à sala de baile.

— Como é linda! — exclamaram os fidalgos lá reunidos ao verem-na entrar. — Com certeza é a filha única da fada dos Sete Mares…

O salão parecia um céu bem aberto. Em vez de lâmpadas, viam-se pendurados do teto buquês de raios de sol colhidos pela manhã.

Flores em quantidade, trazidas e arrumadas por beija-flores. Tantas pérolas soltas no chão que até se tornava difícil o andar. Não houve ostra que não trouxesse a sua pérola, para pendurá-la num galhinho de coral ou jogá-la por ali como se fosse cisco. E o que não era pérola era flor, e o que não era flor era nácar, e o que não era nácar era rubi e esmeralda e ouro e diamante. Uma verdadeira tontura de beleza!

O príncipe havia convidado só os seres pequeninos, visto ser também pequenino e muito delicado de corpo. Se um hipopótamo ou baleia aparecesse por lá seria o maior dos desastres.

Narizinho correu os olhos pela assistência. Não podia haver nada mais curioso. Besourinhos de fraque e flores na lapela conversavam com baratinhas de mantilha e miosótis nos cabelos.

Abelhas douradas, verdes e azuis, falavam mal das vespas de cintura fina — achando que era exagero usarem coletes tão apertados. Sardinhas aos centos criticavam os cuidados excessivos que as borboletas de toucados de gaze tinham com o pó das suas asas. Mamangavas de ferrões amarrados para não morderem. E canários cantando, e beija-flores beijando flores, e camarões camaronando, e caranguejos caranguejando, tudo que é pequenino e não morde, pequeninando e não mordendo.

Narizinho e o príncipe dançaram a primeira contradança sob os olhares de admiração da assistência. Pelas regras da corte, quando o príncipe dançava todos tinham de manter-se de boca aberta e olhos bem arregalados. Depois começou a grande quadrilha.

Foi a parte de que Narizinho gostou mais. Quantas cenas engraçadas! Quantas tragédias! Um velho caranguejo que tirara uma gorda taturana para valsar, apertou-a tanto nos braços que a furou com o ferrão. A pobre dama deu um berro ao ver espirrar aquele líquido verde que as taturanas têm dentro de si. Ao mesmo tempo que isso se dava, outro desastre acontecia com um besouro do Instituto Histórico, que tropeçou numa pérola, caiu e desconjuntou-se todo.

O doutor Caramujo foi chamado às pressas para consertar a taturana e o besouro.

— Que bom cirurgião! — exclamou Narizinho, vendo a perícia com que ele arrolhou a taturana e consertou o besouro. E trabalha cientificamente, refletiu a menina, notando que antes de tratar do doente o doutor nunca deixava de fazer o “diagnóstico”. – Amanhã sem falta vou levar Emília ao consultório dele — disse ela ao príncipe.

— E, por falar, onde anda a senhora Emília? — indagou este. — Desde a briga com a dona Carochinha que não a vi mais.

— Nem eu. Acho bom que o senhor príncipe mande procurá-la.

O peixinho gritou para o mordomo que achasse a boneca sem demora.

Enquanto isso o baile prosseguia. Vieram as libélulas, que gozam a fama de ser as mais leves dançarinas do mundo. De fato! Dançam sem tocar os pezinhos no chão — voando o tempo inteiro. A linda valsa das libélulas estava na metade quando o mordomo reapareceu, muito afobado.

— Dona Emília foi assaltada por algum bandido! — gritou ele.

Está lá na gruta dos tesouros, estendida no chão, como morta.

Imediatamente Narizinho pulou do trono e correu em salvação da sua querida bruxa. Encontrou-a caída por terra, com o rosto arranhado, sem dar o menor acordo de si. O doutor Caramujo, chamado com urgência, despertou-a logo com um bom beliscão, depois de fazer o indispensável “diagnóstico”.

— Quem será o monstro que fez isto para a coitada? – exclamou a menina, examinando-lhe a cara e vendo-a com um dos olhos de retrós arrancado. — Não bastava ser um da, vai ficar cega também. Coitadinha da minha Emília!…

— Impossível descobrir o criminoso — declarou o príncipe.

— Não há indícios. Só depois que o doutor Caramujo curá-la da mudez é que poderemos descobrir alguma coisa.

— Havemos de tratar disso amanhã bem cedo – concluiu Narizinho. — Agora é muito tarde. Estou pendendo de sono…

E dando boas noites ao príncipe, retirou-se com Emília para os seus aposentos.

Mas Narizinho não pôde dormir. Mal se deitou, ouviu gemidos no jardim que havia ao lado. Levantou-se. Espiou da janela. Era o sapo que fora vestido de velha coroca.

— Boa noite, Major Agarra! Que gemidos tão tristes são esses? Não está contente com a sua sainha nova?

— Não caçoe, menina, que o caso não é para caçoada — respondeu o pobre sapo com voz chorosa. — O príncipe condenou-me a engolir cem pedrinhas redondas. Já engoli noventa e nove. Não posso mais! Tenha dó de mim, gentil menina, e peça ao príncipe que me perdoe.

Tanta pena do sapo sentiu Narizinho que mesmo em camisola como estava foi correndo ao quarto do príncipe, em cuja porta bateu precipitadamente — toc, toc, toc!…

— Quem é? — indagou de dentro o peixinho, que estava a despir-se de suas escamas para dormir.

— É Narizinho. Quero que perdoe ao pobre do Major Agarra.

— Perdoar de quê? — exclamou o príncipe, que tinha a memória muito fraca.

— Pois não o condenou a engolir cem pedrinhas redondas? Já engoliu noventa e nove e está engasgado com a última. Não entra. Não cabe! Está lá no jardim, de barriga estufada, gemendo e chorando que não me deixa dormir.

O príncipe danou.

— É muito estúpido o Major! Eu falei aquilo de brincadeira. Diga-lhe que desengula as pedrinhas e não me incomode.

Narizinho foi, pulando de contente, dar a boa notícia ao sapo.

— Está perdoado, Major! O príncipe manda ordem para desengolir as pedrinhas e voltar ao serviço.

Por mais esforço que fizesse, o sapo não conseguiu aliviar-se das pedras. Estava empachado.

— Impossível! — gemeu ele. — O único jeito é o doutor Caramujo abrir-me a barriga com a sua faquinha e tirar as pedras uma por uma com o ferrão de caranguejo que lhe serve de pinça.

— Nesse caso, muito boa noite, senhor sapo. Só amanhã poderemos tratar disso. Tenha paciência e cuide de não morrer até lá.

O sapo agradeceu a boa ação da menina, prometendo que se pudesse fugir das garras do príncipe iria morar no sítio de dona Benta para manter a horta limpa de lesmas e lagartas.

Narizinho recolheu-se de novo, e já ia pulando para a cama quando se lembrou do Pequeno Polegar, que deixara escondido na concha.

— Ah, meu Deus! Que cabeça a minha! O coitadinho deve estar cansado de esperar por mim…

E foi correndo à gruta dos tesouros. Mas perdeu a viagem. Polegar havia desaparecido com a concha e tudo…
–––––––
continua…

Fonte:
LOBATO, Monteiro. Reinações de Narizinho. Col. O Sítio do Picapau Amarelo vol. I. Digitalização e Revisão: Arlindo_Sa

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Cruz e Souza (O Livro Derradeiro) Parte VIII


FRUTAS E FLORES

Laranjas e morangos — quanto às frutas,
Quanto às flores, porém, ah! quanto às flores,
Trago-te dálias rubras, d’essas cores
Das brilhantes auroras impolutas.

Venho de ouvir as misteriosas lutas
Do mar chorando lágrimas de amores;
Isto é, venho de estar entre os verdores
De um sítio cheio de asperezas brutas,

Mas onde as almas — pássaros que voam —
Vivem sorrindo às músicas que ecoam
Dos campos livres na rural pobreza.

Trago-te frutas, flores, só apenas,
Porque não pude, irmã das açucenas,
Trazer-te o mar e toda a natureza!

VISÃO MEDIEVA

Quando em outras remotas primaveras,
Na idade-média, sob fuscos tetos,
Dois amantes passavam, mil aspectos
Tinham aquelas medievais quimeras.

RECORDAÇÃO

Foi por aqui, sob estes árvoredos,
Sob este doce e plácido horizonte,
Perto da clara e pequenina fonte
Que murmura lá baixo os seus segredos…

Recordo bem todos os cantos ledos
Da passarada — e lembro-me da ponte
Por sobre a qual via-se além, de fronte,
O mar azul batendo nos penedos.

Sinto a impressão ainda da paisagem,
Do trêmolo (…)* da folhagem,
Das culturas rurais, do sítio agreste.

A luz do dia vinha então morrendo…
Foi por aqui que eu pude ficar crendo
O quanto pode o teu olhar celeste.

* Rasurado

ROMA PAGÃ

Na antiga Roma, quando a saturnal fremente
Exerceu sobre tudo o báquico domínio,
Não era raro ver nos gozos do triclínio
A nudez feminina imperiosa e quente.

O corpo de alabastro, olímpico e fulgente,
Lascivamente nu, correto e retilínio,
Num doce tom de cor, esplêndido e sangüíneo,
Tinha o assombro da came e a forma da serpente.

A luz atravessava em frocos d’oiro e rosa
Pela fresca epiderme, ebúrnea e setinosa,
Macia, da maciez dulcíssima de arminhos.

Menos raro, porém, do que a nudez romana
Era ver borbulhar, em férvida espadana
A púrpura do sangue e a púrpura dos vinhos.

ESPIRITUALISMO

Ontem, à tarde, alguns trabalhadores,
Habitantes de além, de sobre a serra,
Cavavam, revolviam toda a terra,
Do sol entre os metálicos fulgores.

Cada um deles ali tinha os ardores
De febre de lutar, a luz que encerra
Toda a nobreza do trabalho e — que erra
Só na cabeça dos conspiradores,

Desses obscuros revolucionários
Do bem fecundo e cultural das leivas
Que são da Vida os maternais sacrários.

E pareceu-me que do chão estuante
Vi porejar um bálsamo de seivas
Geradoras de um mundo mais pensante.

PLANGÊNCIA DA TARDE

Quando do campo as prófugas ovelhas
Voltam a tarde, lépidas, balando
Com elas o pastor volta cantando
E fulge o ocaso em convulsões vermelhas.

Nos beirados das casas, sobre as telhas
Das andorinhas esvoaça o bando…
E o mar, tranqüilo, fica cintilando
Do sol que morre as últimas centelhas.

O azul dos montes vago na distância…
No bosque, no ar, a cândida fragrância
Dos aromas vitais que a tarde exala.

Às vezes, longe, solta, na esplanada,
A ovelha errante, tonta e desgarrada,
Perdida e triste pelos ermos bala …

ALMA ANTIGA

Põe a tua alma francamente aberta
Ao sol que pelos páramos faísca,
Que o sol para a tua alma velha e prisca
Deve de ser como um clarim de alerta.

Desperta, pois, por entre o sol, desperta
Como de um ninho a pomba quente e arisca
À luz da aurora que dos altos risca
De listrões d’ouro a vastidão deserta.

Vai por abril em flores gorgeando
Como pássaro exul as canções leves
Que os ventos vão nas árvores deixando.

E tira da tua alma, ó doce amiga,
Almas serenas, puras como a neve,
Almas mais novas que a tua alma antiga!

VANDA

Vanda! Vanda do amor, formosa Vanda,
Makuâma gentil, de aspecto triste,
Deixe que o coração que tu poluíste
Um dia, se abra e revivesça e expanda.

Nesse teu lábio sem calor onde anda
A sombra vã de amores que sentiste
Outrora, acende risos que não viste
Nunca e as tristezas para longe manda.

Esquece a dor, a lúbrica serpente
Que, embora esmaguem-lhe a cabeça ardente,
Agita sempre a cauda venenosa.

Deixa pousar na seara dos teus dias
A caravana irial das alegrias
Como as abelhas pousam numa rosa.

ÊXTASE

Quando vens para mim, abrindo os braços
Numa carícia lânguida e quebrada,
Sinto o esplendor de cantos de alvorada
Na amorosa fremência dos teus passos.

Partindo os duros e terrestres laços,
A alma tonta, em delírio, alvoroçada,
Sobe dos astros a radiosa escada
Atravessando a curva dos espaços.

Vens, enquanto que eu, perplexo d’espanto,
Mal te posso abraçar, gozar-te o encanto
Dos seios, dentre esses rendados folhos.

Nem um beijo te dou! abstrato e mudo
Diante de ti, sinto-te, absorto em tudo,
Uns rumores de pássaros nos olhos.

LUAR

Ao longo das louríssimas searas
Caiu a noite taciturna e fria…
Cessou no espaço a límpida harmonia
Das infinitas perspectivas claras.

As estrelas no céu, puras e raras,
Como um cristal que nítido radia,
Abrem da noite na mudez sombria
O cofre ideal de pedrarias caras.

Mas uma luz aos poucos vai subindo
Como do largo mar ao firmamento — abrindo
Largo clarão em flocos d’escomilha.

Vai subindo, subindo o firmamento!
E branca e doce e nívea, lento e lento,
A lua cheia pelos campos brilha…

CELESTE

Vi-te crescer! tu eras a criança
Mais linda, mais gentil, mais delicada:
Tinhas no rosto as cores da alvorada
E o sol disperso pela loira trança.

Asas tinhas também, as da esperança…
E de tal sorte eras sutil e alada
Que parecias ave arrebatada
Na luz do Espaço onde a razão descansa!

Depois, então, fizeste-te menina,
Visão de amor, puríssima, divina,
Perante a qual ainda hoje me ajoelho.

Cresceste mais! És bela e moça agora…
Mas eu, que acompanhei toda essa aurora,
Sinto bem quanto estou ficando velho.

A PARTIDA

Partimos muito cedo — A madrugada
Clara, serena, vaporosa e fresca,
Tinha as nuances de mulher tudesca
De fina carne esplêndida e rosada.

Seguimos sempre afora pela estrada
Franca, poeirenta, alegre e pitoresca,
Dentre o frescor e a luz madrigalesca
Da natureza aos poucos acordada.

Depois, no fim, lá de algum tempo — quando
Chegamos nós ao termo da viagem,
Ambos joviais, a rir, cantarolando,

Da mesma parte do levante, de onde
Saímos, pois, faiscava na paisagem
O sol, radioso e altivo como um conde.

CANÇÃO DE ABRIL

Vejo-te, enfim, alegre e satisfeita.
Ora bem, ora bem! — Vamos embora
Por estes campos e rosais afora
De onde a tribo das aves nos espreita.

Deixa que eu faça a matinal colheita
Dos teus sonhos azuis em cada aurora,
Agora que este abril nos canta, agora,
A florida canção que nos deleita.

Solta essa fulva cabeleira de ouro
E vem, subjuga com teu busto louro
O sol que os mundos vai radiando e abrindo.

E verás, ao raiar dessa beleza,
Nesse esplendor da virgem natureza,
Astros e flores palpitando e rindo.

O MAR

Que nostalgia vem das tuas vagas,
Ó velho mar, ó lutador Oceano!
Tu de saudades íntimas alagas
O mais profundo coração humano.

Sim! Do teu choro enorme e soberano,
Do teu gemer nas desoladas plagas
Sai o quer que é, rude sultão ufano,
Que abre nos peitos verdadeiras chagas.

Ó mar! ó mar! embora esse eletrismo,
Tu tens em ti o gérmen do lirismo,
És um poeta lírico demais.

E eu para rir com humor das tuas
Nevroses colossais, bastam-me as luas
Quando fazem luzir os seus metais…

Fonte:
Cruz e Sousa, Poesia Completa, org. de Zahidé Muzart, Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura / Fundação Banco do Brasil, 1993.

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47a. Feira do Livro de Porto Alegre (Programação de 01 de Novembro, Terça-Feira)


Mostra do Projeto Cadop Lê, de Cachoeirinha
01/11/2011 – 09:00

Encontro com autor
01/11/2011 – 10:30

O Autor no Palco
01/11/2011 – 10:30
Encontro de escritores e ilustradores com alunos do ensino fundamental

Encontro com Autor
01/11/2011 – 14:00

O Autor no Palco
01/11/2011 – 14:00
Encontro de escritores e ilustradores com alunos do ensino fundamental

A Arte Levada a Sério
01/11/2011 – 14:00
Apresentação da Invernada Artística do Colégio Agrícola Daniel de Oliveira Paiva (CADOP)

Tenda.doc: Na estrada com Zé Limeira
01/11/2011 – 14:30
Uma equipe de filmagem percorre os Estados da Paraíba e Pernambuco em busca das memórias do poeta e repentista paraibano Zé Limeira [1886-1954]. Direção de Douglas Machado

Educação fiscal: cidadania, controle social e justiça fiscal
01/11/2011 – 15:00
Discussões sobre a estrutura fiscal brasileira e as formas de participação social

Uma volta ao mundo em 14 livros
01/11/2011 – 15:30
Bate-papo sobre viagens

Dom Quixote e Dulcinéia contando Histórias
01/11/2011 – 15:30
A Viagem de um Barquinho, de Sylvia Orthof

Cine SESC
01/11/2011 – 15:30
Exibição do filme Azur e Asmar

O Autor no Palco
01/11/2011 – 15:30
Encontro de escritores e ilustradores com alunos do ensino fundamental

Oficina: Referências Bibliográficas
01/11/2011 – 16:00
Referências bibliográficas: tire suas dúvidas. Módulo 2/2

Odisseia, de Homero
01/11/2011 – 16:00
Contação de histórias sobre um dos principais poemas épicos da Grécia antiga

Quando Floresce a Poesia
01/11/2011 – 16:00

II Seminário Nacional de Crítica e Literatura – Narrativas de viagem: navegar é preciso
01/11/2011 – 16:30
A viagem como um relato pessoal, histórico, cultural, político e social e as fronteiras entre observação e imaginação

Oficina: Fumproarte
01/11/2011 – 16:30
Normas legais, critérios de habilitação e seleção. Módulo 2/3

França, Brasil, Rússia: Um itinerário literário
01/11/2011 – 17:00
A literatura, o ato de criação, as leituras e as trocas no mundo dos livros nos além-mares da cultura

Oficina: Higienização de acervo bibliográfico
01/11/2011 – 17:00
Higienização básica de acervo bibliográfico, dicas de conservação e cuidados básicos com os livros e acervos em papel

Autobiografia de Titi e Rapa Nui: o umbigo do mundo
01/11/2011 – 17:00

Vinte fotógrafos em um livro
01/11/2011 – 17:30
Fotógrafos conversam com o público sobre a história de suas fotos

Contos da Galerinha
01/11/2011 – 17:30

O olho da fechadura
01/11/2011 – 17:30

Temas Críticos em Direito
01/11/2011 – 17:30

“A divina comédia” de Dante Alighieri e Salvador Dalí
01/11/2011 – 18:00
Paralelo entre a obra escrita e a obra de arte e a intersecção entre os dois artistas

Oficina aberta: Roteiro de viagem
01/11/2011 – 18:00
Como programar o seu roteiro?

Oficina: Contos – a literatura e as sensações
01/11/2011 – 18:30
Oficina de escrita criativa com ênfase no conto e em técnicas narrativas variadas. Visa ao desbloqueio criativo e ao incremento de memória sensorial. Módulo 2/3

Escrita e ensino: ecos do discurso pedagógico
01/11/2011 – 18:30

Laço de Couro Cru
01/11/2011 – 18:30

Um Buquê de Versos
01/11/2011 – 18:30

Páginas de História
01/11/2011 – 18:30

O Correio e Eu
01/11/2011 – 18:30

Lisboa em Pessoa
01/11/2011 – 18:30

Três cidades perto do céu: os encantos do oriente e da medicina ayurvédica
01/11/2011 – 19:00
Autora traz o relato de uma viagem para três lugares sagrados e maravilhosos – Srinagar, na Caxemira, Rishikesh, na Índia e Katmandu, no Nepal com sessão comentada

Me leva mundão!
01/11/2011 – 19:00
As viagens mais incríveis pelo mundo afora

2º Seminário Reinações – O fantástico e a literatura infantojuvenil
01/11/2011 – 19:00
Saga Crepúsculo: o fantástico para jovens

No Inferno é sempre assim e outras histórias longe do céu
01/11/2011 – 19:30

Daimon Junto à Porta
01/11/2011 – 19:30

O homem despedaçado
01/11/2011 – 19:30

Leia-me toda
01/11/2011 – 19:30

Machado de Assis e Arredores
01/11/2011 – 19:30

Uma dádiva de Deus (o amor em versos)
01/11/2011 – 19:30

Jerusalem
01/11/2011 – 19:30

Histórias contadas com Jari da Rocha
01/11/2011 – 20:00

Cordão da Saideira: Lisboa em Pessoa – Manuel da Costa Pinto entrevista João Correia Filho
01/11/2011 – 20:00
Amigos de longa data em bate-papo sobre literatura, jornalismo, viagens e autores que inspiraram o livro Lisboa em Pessoa, guia turístico literário da capital portuguesa

Livro ilustrado sulsports
01/11/2011 – 20:00

Florência – Drama e conquista
01/11/2011 – 20:30

Heusô – Demônios e Cotidianos
01/11/2011 – 20:30

Pétalas jogadas ao sabor dos ventos
01/11/2011 – 20:30

Três Cidades Perto do Céu
01/11/2011 – 20:30

Me Leva Mundão
01/11/2011 – 20:30

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Trova 205 – Nei Garcez (Curitiba/PR)

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30 de outubro de 2011 · 22:37

Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 380)


Uma Trova Nacional

Ah, poeta, como é lindo
teu trabalho, e quão fecundo…
– Noite e dia produzindo
sonhos novos para o mundo!
–A. A. DE ASSIS/PR–

Uma Trova Potiguar

Tristeza no peito eu sinto,
em ver que a mãe terra come,
o próprio filho faminto,
que a mesma matou de fome.
LUIZ DUTRA BORGES/RN–

Uma Trova Premiada

2004 – Nova Friburgo/RJ
Tema: REFÚGIO – M/H

No refúgio desmanchamos,
quando ficamos a sós,
esses nós que carregamos
no fundo de todos nós!
–SELMA PATTI SPINELLI/SP–

Uma Trova de Ademar

Quem na mata acende a chama,
suja o rio e a correnteza;
joga um punhado de lama
no rosto da natureza!…
–ADEMAR MACEDO/RN–

…E Suas Trovas Ficaram

A tristeza me persegue
todo instante, todo dia,
mas, coitada, não consegue
dizimar minha alegria.
–ALYDIO C. SILVA /MG–

Simplesmente Poesia

Esperança
–MARIO QUINTANA/RS–

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
– Ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume
na calçada,
Outra vez criança…
E em torno dela indagará o povo:
– Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que
não esqueçam:
– O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…

Estrofe do Dia

Meditar e viver em harmonia,
estar sempre em defesa do irmão,
emprestar seu apoio em oração
aos que penam sem ver a luz do dia,
amoldar-se aos conselhos de Maria,
ler na Bíblia a palavra abençoada,
ao sentir uma mão pobre estirada
ofertar-lhe remédio, roupa e pão
– Ser fraterno é trazer no coração
a bondade por Deus recomendada.
–PEDRO ERNESTO FILHO/CE–

Soneto do Dia

Via-Láctea
–OLAVO BILAC/RJ–

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas”.

Fonte:
Textos enviados pelo Autor
Imagem = http://dylanangel.blogspot.com

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Júlia Lopes de Almeida (As Árvores)


Quando, na margem lodosa do Tibre, os primeiros romanos plantaram a figueira, árvore da flor saborosa e em cujas veias o leite escorre compacto e doce, prestavam culto à lenda da sua origem, fazendo da planta como que o símbolo da pátria. Naquela terra da febre, sem águas puras, a árvore sorveu do solo a ardência doentia que transmitiu depois, já purificada, à polpa sangüínea da sua flor.

As abelhas que procuram de preferência o mel do figo ao de outro qualquer fruto ou flor, enxamearam depressa por entre as largas folhas escuras da árvore, em que legiões de insetos invisíveis punham um tom luminoso de vida e deram aos romanos, trabalhadores e simples, favos deliciosos.

A cheirosa figueira teve, com justiça, o seu lugar sagrado no Palatino.

Naqueles tempos rudes, e em outros ainda de mais velha antiguidade, o respeito intuitivo pelas árvores era tamanho, que os homens as criam representantes de divindades. O carvalho, o loureiro, a palmeira e o mirto, eram invólucros de deuses. Olhando para a coroa tufosa das tílias, sorvendo-lhe o aroma das pálidas sombrinhas esverdeadas, o grego ouvia suaves promessas de Vênus, alma dessa planta, tapetando-lhe de veludo as estradas da vida.

Este preito à árvore, que a poesia nativa e a crença pagã investiam de solenidade, é para mim um dos encantos mais singulares da tradição.

Por fortuna de outros tempos, ele não ficou completamente extinto; não teve a França a sua árvore da Liberdade, fincada na terra da pátria pelos soldados da revolução, que a cobriam de flores e fitas tricolores?

Se hoje não há árvores simbólicas, há, entretanto, outras que o espírito do homem culto celebriza. Não é raro ver-se na Europa, mesmo em países de menor intelectualidade, uma árvore solitária, secular, rugosa, em cujas raízes ninguém pisa, e que vive cercada por um gradil, para que não lhe toquem mãos irreverentes. Essa é uma árvore célebre, é uma árvore amada, porque abrigou um dia um dos heróis da pátria. A municipalidade tem para ela cuidadíssimos desvelos, o povo sabe-lhe a história, e respeita-a só por ela ter dado frescura a alguém, que à sua sombra descansou de uma batalha cruenta ou escreveu versos imortais.

Creio ter já lido que D. João VI, a quem nossa história parece-me não ter feito ainda inteira justiça, tem a sua mais bela memória na primeira palmeira do Jardim Botânico, de cujas sementes nasceram os únicos adornos da Capital.

Dia formoso, aquele em que o rei desceu do seu trono para, no rude mister de jardineiro, tocar com a mão macia a terra áspera e fértil da pátria preferida. Suspeitaria ele que a alma da planta estrelada lhe perpetuaria a lembrança, melhor que as crônicas, tantas vezes confusas, tantas vezes mal interpretadas?

Talvez… Dizem que ouvindo ramalhar os mais velhos cedros do Líbano, que afirma a lenda serem contemporâneos de Salomão, alguns viandantes contemplativos crêem sentir nesse sussurro toda a doçura do Cântico dos Cânticos.

Conta um escritor português, descrevendo um campo estrangeiro, que nele havia a doce e pálida oliveira de ramagem miúda, que dá à paisagem um tom grego.

Uma simples árvore acorda a idéia de um país e desenrola aos olhos de um poeta a vastidão de um sonho.

O pinheiro resistente à neve e querido dos povos escandinavos, traz à idéia planícies brancas em que a sua silhueta negra se destaca apontando para o céu pálido. E dos seus braços híspidos que se fazem as árvores de Natal, consagradas à infância em nome de Jesus. Assim, o cipreste faz lembrar o cemitério, e o bambual o lago da fazenda, em que os marrecos deslizam e o gado bebe.

Dir-se-ia que só por si a árvore delineia e fixa a fisionomia dos lugares. Nenhum viajante esquece os castanheiros de Londres, que são vigorosos traços da sua austeridade e grandeza, nem as árvores tosquiadas de Paris, onde pardais chilreiam e a Primavera põe delicados rebentões cor de alface; nem as mimosas de Canes e de Nice, esgalhando-se em ramos delicados de folhas pequeninas e botões cor de palha, tão acordes com essas cidades elegantes e frívolas; nem tão pouco as luxuosas magnólias de Petrópolis, em que as flores se abrem como pequeninas urnas de ouro; capitosas.

Vendo os algodoeiros desgraciosos, inclinados e tortos como corpos doentes, e que por aí ficaram com desigualdade em algumas ruas, tenho muitas vezes pensado na árvore que deveríamos escolher de preferência para a nossa cidade. Deveria ser uma árvore pura, perfeita, indicada por eleição de artistas e conselho de sabedores.

O algodoeiro, com o seu aspecto desalinhado, sente-se contrafeito entre as duras pedras das calçadas e atira-se todo, numa atitude contorcida, para os lados ou para a frente, na ânsia histérica do sol.

A palmeira, de que todos levamos a imagem no coração quando saímos da pátria, e inimiga da habitação do homem; quer a seus pés colchões de areia, ou extensos gramados sobre que derrube sem fragor o casco das suas palmas secas.

Disse-me um dia um dos nossos melhores pintores, que, se tivesse poder para tanto, guarneceria toda a cidade de paineiras, a árvore das estações, que antes de desnudar-se se purpurisa em flores.

Eu gostaria de ver nas florestas que atapetam os morros e cingem a cidade, mais desses maravilhosos flamboyants de ramalhões escarlates, que são a gloria dos nossos verões ardentes. Que árvore há mais pomposa, quando se reveste de folhas e de pétalas?

Mais que aos coqueiros, de palmas flabeladas, mais que todos os espécimes da floresta e que todas as árvores de pomar, de flor cheirosa, eu adoro a mangueira, a mangueira selvagem, grande, tranqüila, onde a erva parasita se enleia e pende, onde o ninho se oculta e que parece guardar em si esse mistério doce que fez com que os homens da antiguidade julgassem algumas árvores invólucros de deuses. Cada cidade deveria ter o seu conselho de sábios e de artistas que lhe estudassem o clima e, de acordo com a sua fisionomia, lhe escolhessem a arborização severa ou delicada.

Um viajante, num traço rápido e firme, pinta-nos o valor do povo do baixo Canadá. Como? Revelando-nos o seu amor por uma árvore, que ele planta como um emblema da sua beleza e da sua fortuna — o érable.

Planta-o, e não deixa arrancá-lo, nenhum machado cruel lhe amputa os braços vigorosos, nem lhe lanha o tronco, porque as iras do povo, que são como as iras de Deus, cairiam em coro sobre a mão que o brandisse.

Árvores bondosas da minha terra, sob a cúpula iluminada do céu, no supremo júbilo do sol, sacudi as vestes de esmeralda e deixai cair no chão da floresta a chuva benéfica da vossa sementeira. Nem sempre o homem será cego: dia virá em que a vossa beleza imperiosa e doce faça cair o braço que tente erguer contra vós o afiado gume de um ferro.

Entretanto, perdoai-nos o mal que vos fazemos e sabei que entre tantas vozes perversas ou indiferentes, sempre há algumas que, como a do poeta Alfredo de Musset, peçam a vossa sombra para sua sepultura.

Fonte:
Júlia Lopes de Almeida. Livro das Donas e Donzelas. Belém/PA: Núcleo de Educação a Distancia da Universidade da Amazonia (UNAMA).

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Cruz e Souza (O Livro Derradeiro) Parte VII


RISADAS

Às criaturas alegres

Fantasia, ó fantasia, tropo ardente
Da aurora alegre undiflavando as bandas
Do adamascado e rúbido oriente,
Ó fantasia, águia das asas pandas.

Tu que os clarins do sonho mais fulgente
Das Julietas, feres, nas varandas,
Ó fantasia dos Romeus, ó crente,
Por que países meridionais tu andas?!

Vem das esferas, entre os sons que vibras.
Vem, que desejo emocionar as fibras,
Quero sentir como este sangue impulsas.

Noiva do sol que os sóis preclaros gozas
Para rimar umas canções de rosas,
Como risadas de cristal, avulsas…

AVE! MARIA…

Ave! Maria das Estrelas, Ave!
Cheia de graça do luar, Maria!
Harmonia de cântico suave,
Das harpas celestiais branda harmonia…

Nuvem d’incensos através da nave
Quando o templo de pompas irradia
E em prantos o órgão vai plangendo grave
A profunda e gemente litania…

Seja bendito o fruto do teu ventre,
Jesus, mais belo dentre os astros e entre
As mulheres judaicas mais amado…

Ó Luz! Eucaristia da beleza,
Chama sagrada no Evangelho acesa,
Maravilha do Amor e do Pecado!

IMPASSÍVEL

Teu coração de mármore não ama
Nem um dia sequer, nem um só dia.
Essa inclemente natureza fria
Jamais na luz dos astros se derrama.

Mares e céus, a imensidade clama
Por esse olhar d’estrelas e harmonia,
Sem uma névoa de melancolia,
Do amor nas pompas e na vida chama.

A Imensidade nunca mais quer vê-lo,
Indiferente às comoções, de gelo
Ao mar, ao sol, aos roseirais de aromas.

Ama com o teu olhar, que a tudo encantas,
Ou se antes de pedra, como as santas,
Mudas e tristes dentro das redomas.

VERÔNICA

Não a face do Cristo, a macilenta
Face do Cristo, a dolorosa face…
O martírio da Cruz passou fugace
E este Martírio, esta Paixão é lenta.

Um vivo sangue a face te ensangüenta,
Mais vivo que se o Deus o derramasse;
Porque esta vã paixão, para que passe,
É mister dos Titãs a luta incruenta.

Se tu, Visão da Luz, Visão sagrada
Queres ser a Verônica sonhada,
Consoladora dessa dor sombria

Impressa ficara no teu sudário
Não a face do Cristo do Calvário
Mas a face convulsa da Agonia!

SÍMILES
(Desterro)

Pedro traiu a fé do Apostolado.
Madalena chorou de arrependida;
E nessa mágoa triste e indefinida
Havia ainda uns laivos de pecado.

Tudo que a Bíblia tinha decretado,
Tudo o que a lenda humilde e dolorida
De Jesus Cristo apregoou na vida,
Cumpriu-se à risca, foi executado.

O filho-Deus da cândida Maria,
Da flor de Jericó, na cruz sombria
Os seus dias amáveis terminou.

Pedro traiu a fé dos companheiros.
Madalena chorou sob os olmeiros
Jesus Cristo sofreu e… perdoou.

EXILADA

Bela viajante dos países frios
Não te seduzam nunca estes aspectos
Destas paisagens tropicais — secretos,
— Os teus receios devem ser sombrios.

És branca e és loura e tens os amavios
Os incógnitos filtros prediletos
Que podem produzir ondas de afetos
Nos mais sensíveis corações doentios.

Loura Visão, Ofélia desmaiada,
Deixa esta febre de ouro, a febre ansiada
Que nos venenos deste sol consiste.

Emigra destes cálidos países,
Foge de amargas, fundas cicatrizes,
Das alucinações de um vinho triste…

SONETOS

Do som, da luz entre os joviais duetos,
Como uma chusma alada de gaivotas,
Vindos das largas amplidões remotas,
Batem as asas todos os sonetos.

Vão — por estradas, por difíceis rotas,
Quatorze versos — entre dois quartetos
E duas belas e luzidas frotas
Rijas, seguras, de mais dois tercetos.

Com a brunida lâmina da lima,
Vão céus radiosos, horizontes acima,
Pelas paragens límpidas, gentis,

Atravessando o campo das quimeras,
Aberto ao sol das flóreas primaveras,
Todo estrelado de áureos colibris.

DECADENTES

Richepin, Rollinat! gritos sangrentos
Da carne alvoroçada de desejos,
Mosto de risos, lágrimas e beijos,
Estertores de abutres famulentos.

Desesperado frêmito dos ventos,
De harpas, sutis, fantásticos harpejos,
Clarins de guerra, e cânticos e adejos
De aves — todos os vivos elementos.

Tudo flameja e nas estrofes canta,
Estruge, zune, em borbotões levanta
Noites, luares, fulgurantes dias.

Mas nessa ideal temperatura forte
Tudo isso é triste como a flor da morte
Que brota dentro das caveiras frias…

OLAVO BILAC

Vim afinal para o solar dos astros,
De irradiações puríssimas e belas,
Numa viagem de alterosos mastros,
Numa viagem de saudosas velas…

Das alegrias nos febris enastros
Que as almas prendem para percebê-las,
Vim cantando e feliz, fugindo aos rastros
Da terra de onde vi e ouvi estrelas.

E por aqui, nas lúcidas paisagens,
Vestido das mais fluídicas roupagens
Tecido de ouro, nos clarões imersos…

Ando a gozar, entre lauréis e palmas,
O que cantei na terra, junto às almas,
Na eterna florescência dos meus versos.

DOENTE

As unhas perigosas da bronquite
Nas tuas carnes sensuais e moles
Não deixarão que o teu amor palpite
Nem que os olhares pelos astros roles.

É fatal a moléstia. Só permite
Que te acabes por fim e que te estioles.
Sem que em teu peito o coração se agite,
Sem que te animes, sem que te consoles.

Vai se extinguindo a polpa dessas faces…
Mas se ainda hoje em mim acreditasses,
Como no tempo virginal de outrora,

Tu curar-te-ias com pequeno esforço
Das serranias através do dorso,
Pela saúde dos vergéis afora.

DOENTE [VARIAÇÃO]

As unhas perigosas da bronquite
Nas tuas carnes flácidas e moles,
Não deixarão que o teu amor palpite,
Nem que os olhares pela esfera roles…

É fatal a moléstia — só permite
Que te acabes por fim, e que te estioles,
Sem que em teu peito um coração se agite,
Sem que te animes, sem que te consoles.

Vai-se extinguindo a polpa dessas faces!
Mas se ainda hoje em mim acreditasses,
Como no tempo musical de outrora,

Me seguirias com pequeno esforço,
Das serranias através do dorso,
Pela saúde dos vergéis afora!

LIRIAL

Vens com uns tons de searas,
De prados enflorescidos
E trazes os coloridos
Das frescas auroras claras.

E tens as nuances raras
Dos bons prazeres servidos
Nos rostos enlourecidos
Das parisienses preclaras.

Chapéu das finas elites,
De roses e clematites,
Chapéu Pierrette — entre o sol

Passando, esbelta e rosada,
Pareces uma encantada
Canção azul do Tirol.

TO SLEEP, TO DREAM

Dormir, sonhar — o poeta inglês o disse…
Ah! Mas se a gente nunca mais sonhasse
Ah! Mas se a gente nunca mais dormisse
E a ilusões não mais acalentasse?

E o que importava que o futuro risse
De um visionário que tal cousa ideasse;
Se não seria o único que abrisse
Uma exceção da vida humana à face?…

Se os imortais filósofos modernos
Que derrubaram todos os infernos,
Que destruíram toda a teogonia.

Orientando a triste humanidade,
Deixaram, mais e mais, a piedade
Inteiramente desolada e fria?

NO CAMPO

Acordo de manhã cedo
Da luz aos doces carinhos:
Que rosas pelos caminhos!
Que rumor pelo árvoredo!

Para o azul radioso e ledo
Sobe, de dentro dos ninhos,
O canto dos passarinhos
Cheio de amor e segredo.

Dentre moitas de verdura
Voam as pombas nevadas,
Imaculadas de alvura.

Pelas margens das estradas
Que penetrante frescura
Que femininas risadas!

Fonte:
Cruz e Sousa, Poesia Completa, org. de Zahidé Muzart, Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura / Fundação Banco do Brasil, 1993.

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Monteiro Lobato (Reinações de Narizinho) Cap. V


V
A costureira das fadas

Depois do jantar o príncipe levou Narizinho à casa da melhor costureira do reino. Era uma aranha de Paris, que sabia fazer vestidos lindos, lindos até não poder mais! Ela mesma tecia a fazenda, ela mesma inventava as modas.

— Dona Aranha — disse o príncipe — quero que faça para esta ilustre dama o vestido mais bonito do mundo. Vou dar uma grande festa em sua honra e quero vê-la deslumbrar a corte.

Disse e retirou-se. Dona Aranha tomou da fita métrica e, ajudada por seis aranhinhas muito espertas, principiou a tomar as medidas. Depois teceu, depressa, depressa, uma fazenda cor-de-rosa com estrelinhas douradas, a coisa mais linda que se possa imaginar.

Teceu também peças de fitas e peças de renda e peças de entremeio — até carretéis de linha de seda fabricou.

— Que beleza! — ia exclamando a menina, cada vez mais admirada dos prodígios da costureira. — Conheço muitas aranhas em casa de vovó, mas todas só sabem fazer teias de pegar moscas. Nenhuma é capaz de fazer nem um paninho de avental…

— É que tenho mil anos de idade — explicou dona Aranha, — e sou a costureira mais velha do mundo. Aprendi a fazer todas as coisas. Já trabalhei durante muito tempo no reino das fadas; fui quem fez o vestido de baile de Cinderela e quase todos os vestidos de casamento de quase todas as meninas que se casaram com príncipes encantados.

— E para Branca de Neve também costurou?

— Como não? Pois foi justamente quando eu estava tecendo o véu de noiva de Branca que fiquei aleijada. A tesoura caiu-me sobre o pé esquerdo, rachando o osso aqui neste lugar. Fui tratada pelo doutor Caramujo, que é um médico muito bom. Sarei, embora ficasse manca pelo resto da vida.

— Acha que esse tal doutor Caramujo é capaz de curar uma boneca que nasceu muda? — perguntou a menina.

— Cura, sim. Ele tem umas pílulas que curam todas as doenças, exceto quando o doente morre.

Enquanto conversavam, dona Aranha ia trabalhando no vestido.

— Está pronto — disse ela por fim. Vamos prová-lo.

Narizinho vestiu-se, indo ver-se ao espelho.

— Que beleza! — exclamou, batendo palmas. — Estou que nem um céu aberto!…

E estava mesmo linda. Linda, tão linda no seu vestido de teia cor-de-rosa com estrelinhas de ouro, que até o espelho arregalou os olhos, de espanto.

Trazendo em seguida o seu cofre de jóias, dona Aranha pôs na cabeça da menina um diadema de orvalho, e braceletes de rubis do mar nos braços, e anéis de brilhantes do mar nos dedos, e fivelas de esmeraldas do mar nos sapatos, e uma grande rosa do mar no peito.

Mais linda ainda ficou Narizinho, tão mais linda que o espelho arregalou um pouco mais os olhos, começando a abrir a boca.

— Pronto? — perguntou a menina, deslumbrada.

— Espere — respondeu dona Aranha Costureira. — Faltam os pós de borboleta.

E ordenou às suas seis filhinhas que trouxessem as caixas de pó de borboleta. Escolheu o mais conveniente, que era o famoso pó Furta-todas-as-Cores, de tanto brilho que parecia pó de céu sem nuvens misturado com pó de sol-que-acaba-de-nascer. Polvilhada com ele a menina ficou tal qual um sonho dourado! Linda, tão linda, tão mais, mais, mais linda, que o espelho foi arregalando ainda mais os olhos, mais, mais, mais, até que — craque!… rachou de alto a baixo em seis fragmentos!

Em vez de ficar danada com aquilo, como Narizinho esperava, dona Aranha pôs-se a dançar de alegria.

— Ora graças! — exclamou num suspiro de alívio. – Chegou afinal o dia da minha libertação. Quando nasci, uma fada rabugenta, que detestava minha pobre mãe, virou-me em aranha, condenando-me a viver de costuras a vida inteira. No mesmo instante, porém, uma fada boa surgiu, e me deu esse espelho com estas palavras: “No dia em que fizeres o vestido mais lindo do mundo, deixarás de ser aranha e serás o que quiseres.”

— Que bom! — aplaudiu Narizinho. — E no que vai a senhora virar?

— Não sei ainda — respondeu a aranha. — Tenho de consultar o príncipe.

— Sim, mas não vire em nada antes de fazer destes retalhos um vestido para a Emília. A pobrezinha não pode comparecer ao baile assim em fraldas de camisa como está.

— Agora é tarde, menina. O encantamento está quebrado; já não sou costureira. Mas minhas filhas poderão fazer o vestido da boneca.

Não sairá grande coisa, porque não têm a minha prática, mas há de servir. Onde está a senhora Emília?

Narizinho não sabia. Depois que furtou os óculos da velha e saiu correndo, ninguém mais vira a boneca. Dona Aranha voltou-se para as seis aranhinhas.

— Minhas filhas — disse ela — o encanto está quebrado e logo estarei virada no que quiser. Vou portanto abandonar esta vida de costureira, deixando a vocês o meu lugar. O encantamento continua em vocês. Cada uma tem de conservar um pedaço do espelho e passar a vida costurando até que consiga um vestido que o faça rachar de admiração, como sucedeu ao espelho grande.

Nisto o príncipe apareceu. Narizinho contou-lhe toda a história, inclusive a atrapalhação da aranha quanto à escolha do que havia de ser.

O príncipe observou que seu reino estava com falta de sereias, sendo muito do seu agrado que ela virasse sereia.

— Nunca! — protestou Narizinho, que era de muito bons sentimentos. — Sereias são criaturas malvadas, cujo maior prazer é afundar navios. Antes vire princesa.

Houve grande discussão, sem que nada fosse decidido. Por fim a aranha resolveu não virar em coisa nenhuma.

— Acho melhor ficar no que sou. Assim, manca duma perna, se viro princesa ficarei sendo a Princesa Manca; se viro sereia, ficarei sendo a Sereia Manca — e todos caçoarão de mim. Além do mais, como já sou aranha há mil anos, estou acostumadíssima.

E continuou aranha.
–––––––
continua…

Fonte:
LOBATO, Monteiro. Reinações de Narizinho. Col. O Sítio do Picapau Amarelo vol. I. Digitalização e Revisão: Arlindo_Sa

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47a. Feira do Livro de Porto Alegre (Programação de 31 de outubro, segunda-feira)


Formação para os professores da Rede Municipal de Ensino de Porto Alegre
31/10/2011 – 09:00

Mostra do Programa Clube de Jovens da Secretaria de Inclusão Escolar de Buenos Aires
31/10/2011 – 09:00

Encontro com autor
31/10/2011 – 10:30

O Autor no Palco
31/10/2011 – 10:30
Encontro de escritores e ilustradores com alunos do ensino fundamental

Oficina de Trovas
31/10/2011 – 13:30
Aprenda a fazer trovas e suba os degraus da poesia. Oficina em módulo único

O gênero literário soneto está superado?
31/10/2011 – 14:00
Debate sobre a história do soneto e a leitura dos mesmos

Encontro com autor
31/10/2011 – 14:00

O Autor no Palco
31/10/2011 – 14:00
Encontro de escritores e ilustradores com alunos do ensino fundamental

A Arte Levada a Sério
31/10/2011 – 14:00
Apresentação do grupo teatral do Colegio Dom Diogo

Tenda.doc: Sessão Fantaspoa – Lovecraft: Medo do Desconhecido
31/10/2011 – 14:30
Documentário, repleto de grandes presenças, faz uma crônica sobre a vida, a obra e as ideias por trás dos contos bizarros de Lovecraft. Direção de Frank H. Woodward

Juca o cavalo marinho
31/10/2011 – 15:00

O horror na biblioteca
31/10/2011 – 15:30
Um breve passeio pelos clássicos da literatura de horror, desde o nascimento do gênero no séc.XVIII até a primeira metade do séc.XX, quando o gênero foi fundido à ficção científica

Lobisomens: Sangue e Luar
31/10/2011 – 15:30

Bate-papo sobre terror
Dom Quixote e Dulcinéia contando Histórias
31/10/2011 – 15:30

A história do Saci, Lenda Popular e A bruxinha que era Boa, de Maria Clara
Cine SESC
31/10/2011 – 15:30

Exibição do filme O pequeno Nicolau
O Autor no Palco
31/10/2011 – 15:30

Encontro de escritores e ilustradores com alunos do ensino fundamental
Oficina: Poesia e ilustração
31/10/2011 – 16:00
A partir da escolha de um texto poético, pensar o papel da ilustração como um veículo de reconstrução do texto. Oficina em módulo único

Histórias mal-assombradas
31/10/2011 – 16:00
Contos populares aterrorizantes

Tudo é Passageiro
31/10/2011 – 16:00

II Seminário Nacional de Crítica e Literatura – Faces do horror na literatura
31/10/2011 – 16:30
Uma viagem pelo gênero consagrado por Poe: o fascínio e a imortalidade da literatura de horror

Oficina: Fumproarte
31/10/2011 – 16:30

Normas legais, critérios de habilitação e seleção. Módulo 1/3

O Cavaleiro do Templo – Cruzadas e Templários
31/10/2011 – 17:00
Como um cavaleiro percebeu o renascer do ocidente no tempo das cruzadas

Gre-Nalzinho é sempre Gre-Nalzinho
31/10/2011 – 17:00

Biblioteca pública e escola
31/10/2011 – 17:30
O trabalho em conjunto da biblioteca pública de Biberach – Biblioteca do ano na Alemanha em 2009

Oficina aberta: sobre a necessidade de sentir medo
31/10/2011 – 18:00
O medo é a mais temida das sensações, mas, paradoxalmente, é uma das mais buscadas ao longo da vida

Fantasia Heroica: das revistas pulp ao panorama da literatura nacional
31/10/2011 – 18:30
As origens do gênero conhecido como Fantasia Heroica, ou Espada e Magia, nas revistas pulp e sua evolução até os dias atuais, com destaque para o novo cenário brasileiro na Literatura Fantástica

Oficina: Contos – a literatura e as sensações
31/10/2011 – 18:30
Oficina de escrita criativa com ênfase no conto e em técnicas narrativas variadas. Visa ao desbloqueio criativo e ao incremento de memória sensorial. Módulo 1/3

Arte às 18:30

Apresentação do Grupo Vocal e Instrumental de Vez em Canto
De Pai Para Filha – As 100 melhores receitas
31/10/2011 – 18:30

Doutrina e Prática dos Alimentos – 4ªEd.//Coisa Julgada Civil
31/10/2011 – 18:30

Colaboração no Processo civil – Vol.14 2ªEd.//Código de Processo Civil – 3ªEd.
31/10/2011 – 18:30

O caso Laura
31/10/2011 – 18:30

Cavaleiro do Templo IV
31/10/2011 – 18:30

Rumos da literatura de entretenimento e fantasia no Brasil
31/10/2011 – 19:00
Discussão com os autores sobre os rumos da literatura de entretenimento no Brasil e os caminhos dos romances de fantasia

Oficina: Design Editorial
31/10/2011 – 19:00

A ilustração na publicação gráfica. Módulo 3/3

2º Seminário Reinações – O fantástico e a literatura infantojuvenil
31/10/2011 – 19:00

O terror e o sobrenatural em Edgar Allan Poe
Cine Santander Cultural
31/10/2011 – 19:00
Sessão Comentada

Observação da lua através de telescópios – Laboratório de Astronomia – Faculdade de Física/PUCRS
31/10/2011 – 19:30
A atividade será cancelada caso não haja condições meteorológicas

Cordão da Saideira: Imaginário cantado
31/10/2011 – 20:00
Espetáculo musical insipirado no livro “Monstruário” de Mário Corso. Músicas e textos que fazem referência aos seres mitológicos que habitam o imaginário popular

Gordura Trans
31/10/2011 – 20:00
Espetáculo teatral

A Fada
31/10/2011 – 20:30

Filhos do Eden (autor autografa junto Deus Máquina)
31/10/2011 – 20:30

Deus máquina
31/10/2011 – 20:30

Dragões de Éter (volumes 1, 2 e 3)
31/10/2011 – 20:30

Sagas vol.3 – Martelo das Bruxas
31/10/2011 – 20:30

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Wagner Marques Lopes (Trova Ecológica 38)

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29 de outubro de 2011 · 21:43

Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 379)


Uma Trova Nacional

Vendo a mãe de cara inchada,
a menininha inocente
exclamou, alvoroçada:
“Mamãe espera outro dente!”
–MARINA BRUNA/SP–

Uma Trova Potiguar

De pileque, o Zé Libório,
procedeu de modo errado…
Chupando o supositório:
– ah confeito ruim danado!
–DJALMA MOTA/RN–

Uma Trova Premiada

2008 – Bandeirantes/PR
Tema: TRABALHO – M/H

O trabalho do banqueiro
está no seu jogo impuro:
tem lucro com meu dinheiro
e ainda me cobra juro.
–OLYMPIO COUTINHO/MG–

Uma Trova de Ademar

Sou dançador de primeira
e, se acaso for forró,
eu passo uma noite inteira
dançando com um pé só!
–ADEMAR MACEDO/RN–

…E Suas Trovas Ficaram

Sendo traída, de graça,
pelo esposo, capitão,
a Maria, por pirraça,
o traiu com o “batalhão”.
–CÉLIO GRUNEWALD/MG–

Simplesmente Poesia

MOTE.
Cabra safado não morre;
Só se matar de cacete.

GLOSA:
Não há veneno nem porre
pra levar o traste ruim.
Quem é bom logo tem fim,
cabra safado não morre;
o diabo sempre o socorre
por debaixo do colete;
toma coice de ginete,
de cobra leva mordida,
mas não desgruda da vida,
só se matar de cacete.
–JOSÉ LUCAS DE BARROS/RN–

Estrofe do Dia

O meu pai foi um grande pobretão
tinha apenas dez mil agricultores
setecentas opalas, mil tratores
e uma fábrica bem grande de avião
oficinas de rádios no Japão
foi o dono do vinho italiano
seis mil casas pai compra todo ano
possui minas de prata, ouro e cobre
e da família, meu pai é o mais pobre
nos dez pés de martelo alagoano.
–JOÃO FURIBA/PE–

Soneto do Dia

Quanto Custa o Amor?
–JOSÉ OUVERNEY/SP–

“O amor não tem idade!” – Acho isto lindo!
Esse chavão é dos que mais comovem;
entendo que as ideias se renovem,
ao fluxo de emoções interagindo.

Assim como a mulher quer tampa jovem
para a velha panela, ainda ebulindo,
o ancião a um tenro colo ser bem vindo,
talvez os radicais jamais aprovem.

Não quero ser juiz, não tenho o siso,
mas, no desfecho, o que me afrouxa o riso
é constatar, de forma habitual,

que nesse amor moderno e avesso ao crivo,
o dono do aparato aquisitivo
é sempre a parte idosa do casal!…

Fonte:
Textos enviados pelo Autor

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Antonio Brás Constante (E se o seu Aniversário Caísse em um Dia Desses…?)


Muitos acham que coincidir a data de seu aniversário com um feriado é uma boa, já que neste dia não precisarão ir trabalhar ou estudar, e poderão curtir em casa numa melhor ainda. Minha cunhada, por exemplo, faz aniversário no dia 20 de setembro, que aqui no sul é feriado farroupilha. Mas, dependendo da data, a comemoração pode não ser tão boa assim.

Vamos imaginar como seria o aniversário para pessoas nascidas no dia 2 de novembro – FINADOS – Todo mundo parecendo triste, ninguém muito interessado em fazer festas, preferindo os cemitérios aos salões de baile. Um dia em que só quem recebe flores é quem já morreu, e as velas acessas não são para se soprar e sim para orar.

Aniversariantes do dia 12 de outubro – DIA DAS CRIANÇAS – Você é uma criança e o aniversário é seu, mas todos os seus amiguinhos também ganham presentes. O lado bom para quem ainda é criança (dentre aquelas que conseguem viver e curtir esta fase de criança) é que o dia fica sendo uma festa, a parte ruim é que para os pais o gasto é enorme (os presentes infantis inflacionam nesta época do ano). Por outro lado tem o lado ruim também para a criança, já que ela acaba ganhando apenas um presente dos pais, que ganharia de qualquer jeito, visto que seu aniversário está misturado e mesclado com a referida data.

Aniversariantes do dia 29 de fevereiro – ANO BISSEXTO – Um aniversário a cada quatro anos. Se fosse tomado ao pé da letra, a pessoa também envelheceria de quatro em quatro anos e acabaria tendo filhos e talvez até netos mais velhos que ela ao longo da vida.

Aniversariantes do dia 25 de Dezembro – NATAL – É parecido com o dia das crianças, mas o agravante neste caso é que apesar de ser o seu aniversário, todo mundo só fala do outro aniversariante que também nasceu neste dia e que acaba monopolizando todas as atenções para ele (curiosamente o mesmo dia em que nasceram os deuses: Osiris, Adônis, Mitra, entre outros, com histórias de vida e morte parecidas, mas muito parecidas, com a do tal aniversariante famoso, e que poderiam ser consideradas como plágio se não tivessem acontecido muito antes do nascimento dele).

Aniversariantes do dia 1 de abril – DIAS DOS BOBOS – quanta sacanagem sofreria o pobre aniversariante, recebendo caixas de presentes vazias ou com tijolos dentro, e ao abrir a massa humana de amigos gritaria: “PRIMEIRO DE ABRIL!”. Todo mundo querendo pregar uma peça no aniversariante, que correria o risco de passar boa parte de seus aniversários sendo alvo das brincadeiras alheias, muito mais do que qualquer outra pessoa. Em nosso mundo moderno com seus clichês mais modernos ainda, o aniversariante poderia ser considerado como uma vítima de bulling com data marcada.

Aniversariantes em que a data cai na SEXTA-FEIRA SANTA. Não é sempre que acontece, mas se tiver o infortúnio de que seu aniversário aconteça nesta data, saiba que terá problemas, por exemplo: fazer um churrasquinho com cerveja gelada para comemorar a data querida? Nem pensar! O cardápio é peixe com vinho, e nada de bolos já que as pessoas geralmente jejuam neste dia. Músicas e danças também são desaconselhadas e muitas vezes repreendidas. Já para quem teve o aniversário acontecendo bem na quarta-feira de cinzas, vai encontrar a patota toda de ressaca, sem ânimo ou grana para comemorar após quatro dias de festas.

Também têm as datas de aniversário que fazem das pessoas pretensos ícones, vinculando-as de alguma forma a tais acontecimentos, como no caso do dia 8 de março, DIA INTERNACIONAL DA MULHER (já que o dia nacional é em 30/04, praticamente desconhecido das multidões). A mulher que nasce nesse dia parece carregar nos ombros uma responsabilidade maior, por fazer aniversário em um dia tão emblemático, mesmo que ela esteja alheia a tudo isso, sempre existirão aqueles que vão dizer: “ela nasceu em tal dia, é um sinal”, e esperam que ela seja uma líder, ou que faça a diferença de algum modo. Por outro lado, se for homem, o vivente está tranqüilo, mesmo que tenha nascido no dia do homem (esse dia existe???) já que ninguém vai dar qualquer importância a isso mesmo.

Aniversariantes do dia 13 (somente quando cair em uma sexta-feira) – DIA DO AZAR – Azar o seu que neste dia vai pagar a festa da parentada e amigos, que por ser sexta-feira vão vir em peso lhe dar os parabéns, ficando para comer e beber as suas custas.

E, claro, nós não podemos nunca se esquecer das pessoas que aniversariam no DIA DAS PRAGAS. A data começou a ser comemorada após eventos com pragas de gafanhotos, etc. E apesar de eu não ter encontrado um dia específico para celebrar esta data, posso presumir que deve ser no final do ano, algo entre 25 de novembro a 15 de dezembro. Vai se saber quantas pragas chegaram e amaldiçoaram nosso mundo durante este período…

Enfim, em meio a tantas datas de aniversários misturadas a datas importantes (ou, em alguns casos, pretensamente importantes) o essencial é entender que o aniversário é algo que se comemora de dentro para fora e não de fora para dentro como muitos imaginam. Muito mais do que festas ou presentes, o aniversário é um marco de passagem aonde chegamos todo ano e dizemos para nós mesmos: “Bom, até aqui tudo bem (ou não). E agora? Continuo como estou ou mudo o curso da minha vida..”. Dedico este texto a minha simpática fisioterapeuta, que anda tendo um trabalhão danado para curar a tendinite do meu ombro, e que faz aniversário no dia dois de novembro. Foi através de uma conversa exatamente sobre o fato de se fazer aniversário no dia de finados que acabou dando inicio a ideia deste texto. Feliz aniversário minha jovem!

Fonte:
Texto enviado pelo autor

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Pedro Ornellas (A Rosa em Trovas)


Mesmo soltas e espalhadas
as pétalas são formosas;
porém somente abraçadas
é que elas se tornam rosas!
A. A. DE ASSIS

Pobre horizonte pequeno
de quem crê, sem ver mais nada,
que uma rosa com sereno,
é só uma rosa molhada!
ARLINDO TADEU HAGEN

Eu disse ao ver-te formosa,
em teu traje rosicler:
– Mudou-se a mulher em rosa,
ou fez-se a rosa mulher?
ARI SIMÕES COELHO

Nesta existência de dores
andam caprichos mesquinhos:
junto ao charco nascem flores,
e brota a rosa entre espinhos.
CARLYLE MARTINS

Tal qual o meu pé de rosa
que ao ser podado floresce,
esta saudade teimosa
quanto mais podo mais cresce!
CAROLINA RAMOS

Rosas tolas, tão vaidosas,
que em belas hastes vicejam…
Vem, amor, olha estas rosas
– quero que as rosas te vejam!
J.G. DE ARAÚJO JORGE

São as mulheres formosas
como os rosais nos caminhos:
de longe, mostram as rosas;
mostram, de perto, os espinhos.
LEONARDO HENKE

Às vezes o mar bravio
dá-nos lição engenhosa:
afunda um grande navio,
deixa boiar uma rosa!
LUIZ OTÁVIO

Com pena, por vê-lo morto,
a borboleta, piedosa,
simulou, no galho torto,
duas pétalas de rosa…
ORLANDO BRITO

Pude notar, nos caminhos,
mesmo em horas desditosas,
que rosas não têm espinhos;
espinhos é que têm rosas!
PEDRO ORNELLAS

Passa a noite num aceno,
e uma rosa perfumada
mostra os brincos de sereno
que ganhou da madrugada!
PEDRO ORNELLAS

Ironia caprichosa
do tempo ao traçar caminhos:
Transforma o botão em rosa
e enche a roseira de espinhos!
PEDRO ORNELLAS

Deus de formas engenhosas
manda recados do além;
o orvalho, molhando as rosas,
molha os espinhos também!
PEDRO ORNELLAS

Disfarça as falhas teimosas
fazendo o bem nos caminhos;
quando a roseira tem rosas
ninguém percebe os espinhos!
PEDRO ORNELLAS

Tem gente que se revela
só quando de perto olhamos…
Mesmo a roseira mais bela
tem espinhos entre os ramos!
PEDRO ORNELLAS

Morreu o sol lentamente,
incendiou-se o céu profundo…
Levaram para o poente
todas as rosas do mundo!
VASCO DE CASTRO LIMA

Fonte:
Trovas enviadas por Pedro Ornellas

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Ialmar Pio Schneider (Dia Nacional do Livro)


Por ter ocorrido em 29 de outubro de 1810 a fundação da Biblioteca Nacional, esta data é comemorada como o Dia Nacional do Livro.

Ocorreu-me escrever algo a respeito do livro, este amigo mudo mas sábio que me acompanha desde que me conheço por gente. O pouco que sei nesta vida pacata que levo, além dos mestres que me ensinaram, estão os livros como fonte de conhecimentos onde procurei sempre a aprendizagem e o lazer, apesar da mortificante televisão cuja tentação não tenho resistido.

Também não posso deixar de referir-me ao leitor para o qual compus um soneto:

AO LEITOR

Quando escrevo me assalta um pensamento
indeciso de não saber a quem
possa atingir meu louco sentimento
e duvidar assim não me faz bem…

Espero apenas que o meu sofrimento
não vá prejudicar… ferir ninguém…
Ponho aqui realidade e fingimento
para a escolha daqueles que me lêem.

Segue junto comigo se te apraz
conhecer solidão e fantasia,
às vezes desespero, às vezes paz:

meus “Sonetos e Cânticos Dispersos”,
dizendo que no mundo da poesia
cada qual é o poeta dos seus versos…

Pode parecer estranho que quase sempre me socorro da poesia para escrever o meu texto aqui, buscando divulgar os autores, os mais diversos. É uma maneira de despertar o interesse para a arte poética pois sempre vejo nela uma tábua de salvação à realidade cruel que presenciamos no dia-a-dia.

Nunca é demais lembrar: “Um país se faz com homens e livros”. Monteiro Lobato (1882-1948). Então, façamos deles os nossos fiéis e constantes companheiros para enfrentar a vida.

Fonte:
Texto e soneto enviado pelo autor

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Arquivado em dia nacional do livro, Soneto.

Júlia Lopes de Almeida (Os Beijos)


Falam os senhores médicos contra os beijos condenando-os como transmissores de micróbios assassinos. Misérias do sangue ou feias doenças incubadas passam invisível e perfidamente de uma para outra criatura, no mais rápido ou sutil dos ósculos.

— Não se beijem! é uma das fórmulas modernas dos higienistas; resta-nos duvidar que eles, para exemplo, se submetam a essas leis de esquivança que apregoam… Porque, em verdade, quem haverá por todo este mundo vasto, por mais emurchecidos que tenha os lábios ou por mais seca que tenha a alma, que não sinta florir no peito, com maior ou menor viço, o desejo imperioso de unir a sua boca a outra boca amada ou de refrescá-la nas faces acetinadas de uma criança?

Fagulhas das labaredas em que nos consumimos, os beijos crepitarão por toda a larga face da terra, embora a ciência contra eles asseste a ducha gelada dos seus decretos proibitivos.

Não há em língua humana palavra que, como o beijo, exprima, por mais silencioso que ele seja, a ternura e o amor.

A boca de um mudo diz tudo quanto há de mais elevado e de mais veemente, quando beija; no beijo está o único triunfo da sua alma encarcerada!

Bem prega Frei Thomaz… Não se beijem! Dentro do beijo, como dentro do cálice de uma flor de aroma capitoso, está muitas vezes escondido o veneno que nos leva ao último sono. Cuidado… Quando tais palavras escrevem, esses senhores que só olham para a vida através das lentes dos microscópios, deverão sentir em si próprios o rugido da natureza ofendida a clamar contra essa impiedosa verdade da ciência.

A vida sem beijos! a vida sem beijos é como um jardim sem flores, um pomar sem frutos, ou (que escorregue ainda mais esta velha comparação) um deserto sem oásis. Não valeria a pena prolongar a existência à custa de tamanho sacrifício. Por assim entender é que a humanidade faz e fará sempre ouvidos surdos à teoria da supressão do beijo. Para ela, ele não é tal o veículo da peçonha, a ameaça constante dos fantasmas terríficos de doenças asquerosas e tristes, coisa desvirtuada e maléfica, mas sim, e por todos os séculos dos séculos, o que dele disse um poeta meu amigo:

“… O selo da amizade

E do amor! Ele só nos dá felicidade.
Dois corações que o tédio ou o cansaço importune,
Só um beijo de amor os levanta e reúne.
O beijo é vida, o beijo é luz, o beijo é glória!
Observai bem: vereis que o beijo é toda a história
Da humanidade. Foi o beijo primitivo
Que na terra o primeiro homem tornou cativo
Da primeira mulher; depois, ardente ou brando,
Veio o beijo de amor as raças perpetuando,
Unindo gerações a gerações, e unindo
O passado ao futuro insondável e infindo.
O beijo é a transfusão das almas; ele encerra
Tudo que possa haver de divino na terra.”

Não é só o beijo perpetuador das raças que derrama na alma o clarão mirífico da felicidade. Quando uma mãe beija um filho, como que sente o seu coração maior que o mundo e mais vitorioso que todos os hinos do universo! Saberá alguém de coisa mais doce nem mais pura, que o beijo da amizade?

Infelizmente, nem todos os beijos são:

“Tudo que possa haver de divino na terra!”

Como diz o poeta.

É que Filinto de Almeida desconhece o horror dos beijos convencionais, que só os lábios femininos trocam entre si.

Para esses o rigor das leis científicas deveria ser bem aceito… Que se beijem duas amigas que se estimam, sim! Que por um enlevo de simpatia, uma mulher beije a outra em um primeiro dia de encontro, como um pacto de futura amizade, sim! Mas, que, sem espontaneidade de afeto ou sem velha estima, só por cortesia e obediência ao hábito, duas criaturas indiferentes, e que às vezes até se desestimam, troquem beijinhos cada vez que se encontram… Por Deus, nem é decente nem agradável!

Por mais que a gente queira esquivar-se, não pode, sem incorrer em falta grave, furtar-se ao impulso com que certas damas atraem as outras para o cumprimento da praxe. Que desastres, às vezes, nesse movimento! Abas de chapéus que se chocam, véus que se arrepanham, corpos que se contrafazem, e no fim: um chapéu torto, uma face babada, e no íntimo uns ressaibos de mel avinagrado.

A graça esquisita dessa insistência está muitas vezes em que a senhora que imprime à outra o puxão para o beijo, dá-lhe logo a face a beijar, face em que não raro desabotoam espinhas e quase sempre o cold cream se alastra.

E não há resistência capaz de livrar uma criatura de tais assaltos; quer queira quer não queira, ela há de beijar e há de ser beijada em plena rua, em plena luz, por pessoas a quem não a prende nenhum laço de afeto, ou mesmo de simpatia muito forte.

Sei que me atiro para dentro de uma casa de maribondos falando assim; pouco importa.

De resto, esta impressão não é só minha. Nenhuma mulher deixará de sentir revolver-se no seu coração um sentimento de desagrado, ao unir a sua boca a outra boca de que tenham saído por ventura epigramas que a firam ou indiretas que a molestem.

O beijo é uma coisa muito nobre para ser esbanjada assim, sem significação, em encontros de acaso, em qualquer canto de rua…

Para que ele seja suave e doce, deve ser dado com a consciência da amizade; do contrário, quando não é perverso, é ridículo.

Não se diga que foi a nossa índole meiga e expansiva que inventou tal costume; ele foi importado, mas creio que já caiu em desuso nas terras de que proveio. Pelo menos, as estrangeiras não se beijam entre si com tamanha efusão. Elas desconfiam, talvez, de que perdem o valor os beijos de uma criatura que os dispensa a toda a gente, e por isso só os gastam em família e pouco mais… Aqui, ao contrário, o furor do beijo a esmo tem aumentado; toda a gente se julga com direito a ele e o reclama num gesto imperioso que não admite recusa…

Em resumo, a minha opinião neste assunto melindroso e terrível é esta: não compreendo a vida sem o beijo, como não compreendo o beijo sem o afeto.

Como, enquanto houver mundo, há de haver o amor, o beijo triunfará de todas as perseguições que lhe fizerem os senhores bacteriologistas.

Eles mesmos, depois de horas e horas passadas no interior dos seus gabinetes e dos seus laboratórios, ao levantarem os olhos, cansados das páginas dos livros ou das lentes dos microscópios, sentirão, para refrigério das suas almas entontecidas pela vertigem de tantas misérias humanas, o desejo de as suavizarem num beijo, em que os seus lábios impuros de homens encontrem a fresca inocência da face de uma criança… E estou certa de que apressarão os passos, para irem beijar em casa os filhos pequeninos…

Fonte:
Júlia Lopes de Almeida. Livro das Donas e Donzelas. Belém/PA: Núcleo de Educação a Distancia da Universidade da Amazonia (UNAMA).

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Cruz e Souza (O Livro Derradeiro) Parte VI


25 DE MARÇO

(Recife, 1885)
Em Pernambuco para o Ceará

Bem como uma cabeça inteiramente nua
De sonhos e pensar, de arroubos e de luzes,
O sol de surpreso esconde-se, recua,
Na órbita traçada — de fogo dos obuses.

Da enérgica batalha estóica do Direito
Desaba a escravatura — a lei cujos fossos
Se ergue a consciência — e a onda em mil destroços
Resvala e tomba e cai o branco preconceito.

E o Novo Continente, ao largo e grande esforço
De gerações de heróis — presentes pelo dorso
À rubra luz da glória — enquanto voa e zumbe.

O inseto do terror, a treva que amortalha,
As lágrimas do Rei e os bravos da canalha,
O velho escravagismo estéril que sucumbe.

NINHO ABANDONADO

À distinta família Simas, pela morte de seu chefe,
o Ilmo. Sr. João da Silva Simas.

O vosso lar harmônico e tranqüilo
Era um ninho de luz e de esperanças
Que como abelhas iriadas, mansas,
Nos vossos corações tinham asilo.

Havia lá por dentro tanta crença
E tanto amor puríssimo, cantando,
Que parecia um largo sol faiscando
Por majestosa catedral imensa.

Agora o ninho está desamparado!
Sumiu-se dele o pássaro adorado,
O mais ideal dos pássaros do ninho.

Não se ouve mais a música sonora
Da sua voz — dentro do ninho, agora,
Paira a saudade como um bom carinho.

CRENÇA

Filha do céu, a pura crença é isto
Que eu vejo em ti, na vastidão das cousas,
Nessa mudez castíssima das lousas,
No belo rosto sonhador do Cristo.

A crença é tudo quanto tenho visto
Nos olhos teus, quando a cabeça pousas
Sobre o meu colo e que dizer não ousas
Todo esse amor que eu venço e que conquisto.

A crença é ter os peregrinos olhos
Abertos sempre aos ríspidos escolhos;
Tê-los à frente de qualquer farol

E conservá-los, simplesmente acesos
Como dois fachos — engastados, presos
Nas radiações prismáticas do sol!

CRISTO E A ADÚLTERA

(Grupo de Bernardelli)

Sente-se a extrema comoção do artista
No grupo ideal de plácida candura,
Nesse esplendor tão fino da escultura

Para onde a luz de todo o olhar enrista.
Que campo, ali, de rútila conquista
Deve rasgar, do mármore na alvura,
O estatuário — que amplidão segura

Tem — de alma e braço, de razão e vista!
Vê-se a mulher que implora, ajoelhada,
A mais serena compaixão sagrada
De um Cristo feito a largos tons gloriosos.

De um Nazareno compassivo e terno,
D’olhos que lembram, cheios de falerno,
Dois inefáveis corações piedosos!

ÊXTASE DE MÁRMORE

À grande atriz Apolônia.

O mármore profundo e cinzelado
De uma estátua viril, deliciosa;
Essa pedra que geme, anseia e goza
Num misticismo altíssimo e calado;

Essa pedra imortal — campo rasgado
A comoção mais íntima e nervosa
Da alma do artista, de um frescor de rosa,
Feita do azul de um céu muito azulado;

Se te visse o clarão que pelos ombros
Teus, rola, cai, nos múltiplos assombros
Da Arte sonora, plena de harmonia;

O mármore feliz que é muito artista
Também — como tu és — à tua vista
De humildade e ciúme, coraria!

INVERNO

Amanheceu — no topo da colina
Um céu de madrepérola se arqueia
Limpo, lavado, reluzindo — ondeia
O perfume da selva esmeraldina.

Uma luz virginal e cristalina,
Como de um rio a transbordante cheia,
Alaga as terras culturais e arreia
De pingos d’ouro os verdes da campina.

Um sol pagão, de um louro gema d’ovo,
Já tão antigo e quase sempre novo
Surge na frígida estação do inverno.

— Chilreiam muito em árvores frondosas
Pássaros — fulge o orvalho pelas rosas
Como o vigor no espírito moderno.

FALANDO AO CÉU

Falas ao Céu, Amor! Em vão tu falas!
Mas o céu, esse é velho, esse é velhinho,
Todo ele é branco, faz lembrar o linho
Dos leitos alvos onde tu te embalas.

A alma do céu é como velhas salas
Sem ar, sem luz, como lares sem vinho
Sem água e pão, sem fogo e sem carinho,
Sem as mais toscas, as mais simples galas.

Sempre surdo, hoje o céu é mudo, é cego…
Jamais o coração ao céu entrego,
Eu que tão cego vou por entre abrolhos.

Mas se queres tornar jovem e louro
Dá-lhe o bordão do teu amor um pouco
Fala e vista, com a vida dos teus olhos…

GLORIOSA

A Araújo Figueredo

Pomba! dos céus me dizes que vieste,
Toda c’roada de astros e de rosas,
Mas há regiões mais que essas luminosas.
Não, tu não vens da região celeste

Há um outro esplendor em tua veste,
Uma outra luz nas tranças primorosas,
Outra harmonia em teu olhar — maviosas
Cousas em ti que tu nunca tiveste.

Não, tu não vens das célicas planuras,
Do Éden que ri e canta nas alturas
Como essa voz que dos teus lábios tomba.

Vens de mais longe, vens doutras paragens,
Vens doutros céus de místicas celagens,
Sim, vens de sóis e das auroras, pomba.

O CHALÉ

É um chalé luzido e aristocrático,
De fulgurantes, ricos arabescos,
Janelas livres para os ares frescos,
Galante, raro, encantador, simpático.

O sol que vibra em rubro tom prismático,
No resplendor dos luxos principescos,
Dá-lhe uns alegres tiques romanescos,
Um colorido ideal silforimático.

Há um jardim de rosas singulares,
Lírios joviais e rosas não vulgares,
Brancas e azuis e roxas purpúreas.

E a luz do luar caindo em brilhos vagos,
Na placidez de adormecidos lagos
Abre esquisitas radiações sulfúreas.

DELÍRIO DO SOM

O Boabdil mais doce que um carinho,
O teu piano ebúrneo soluçava,
E cada nota, amor, que ele vibrava,
Era-me n’alma um sol desfeito em vinho.

Me parecia a música do arminho,
O perfume do lírio que cantava,
A estrela-d’alva que nos céus entoava
Uma canção dulcíssima baixinho.

Incomparável, teu piano — e eu cria
Ver-te no espaço, em fluidos de harmonia,
Bela, serena, vaporosa e nua;

Como as visões olímpicas do Reno,
Cantando ao ar um delicioso treno
Vago e dolente, com uns tons de lua.

ILUSÕES MORTAS

A Virgílio Várzea

Os meus amores vão-se mar em fora,
E vão-se mar em fora os meus amores,
A murchar, a murchar, como essas flores
Sem mais orvalho e a doce luz da aurora.

E os meus amores não virão agora,
Não baterão as asas multicores,
Como as aves mansas — dentre os esplendores
Do meu prazer, do meu prazer de outrora.

Tudo emigrou, rasgando a esfera branca
Das ilusões, — tudo em revoada franca
Partiu — deixando um bem-estar saudoso

No fundo ideal de toda a minha vida,
Qual numa taça a gota indefinida
De um bom licor antigo e saboroso.

O SONHO DO ASTRÓLOGO

As fulgurosas, rútilas estrelas
Como mundos de mundos seculares,
Formando uns arquipélagos, uns mares
De luz — como eu deslumbro o olhar ao vê-las.

Ah! se como eu sei compreendê-las,
Sentir-lhes os seus filtros salutares,
Pudesse, da amplidão fria dos ares
Arrancá-las, na mão sempre trazê-las;

Que vagalhões de assombros palpitantes
Não me viriam perpassar, faiscantes,
Dentro do ser, nuns doutros murúrios.

Eu saberia muito mais a causa
Da evolução que nunca teve pausa,
Que é uma audácia transbordando em rios.

CRISTO

Cristo morreu, ó tristes criaturas,
Era matéria como vós, morreu;
E quando a noite sepulcral desceu
Gelou com ele o oceano das ternuras.

Nunca outro sol de irradiações mais puras
Subiu tão alto e tanto resplendeu,
Nunca ninguém tão firme combateu
Da humanidade todas as torturas.

Morreu, que se ele, o Deus, ressuscitasse,
Limpa de sangue e lágrimas a face,
Os seus olhos tranqüilos, virginais,

Dons inefáveis, corações piedosos,
Tinham de abrir-se muito dolorosos,
Também chorando quando vós chorais!

FRUTAS DE MAIO

Maio chegou — alegre e transparente
Cheio de brilho e música nos ares,
De cristalinos risos salutares,
Frio, porém, ó gota alvinitente.

Corre um fluido suave e odorescente
Das laranjeiras, como dos altares
O incenso — e, como a gaze azul dos mares,
Leve — há por tudo um beijo, docemente.

Isto bem cedo, de manhã — adiante
Pela tarde um sol calmo, agonizante,
Põe no horizonte resplendentes franjas.

Há carinhos, da luz em cada raio,
Filha — e eu que adoro este frescor de maio
Muito, mas muito — trago-te laranjas.

ETERNO SONHO

Quelle est donc cette femme?
Je ne comprendrai pas.
Félix Arvers

Talvez alguém estes meus versos lendo
Não entenda que amor neles palpita,
Nem que saudade trágica, infinita
Por dentro dele sempre está vivendo.

Talvez que ela não fique percebendo
A paixão que me enleva e que me agita,
Como de uma alma dolorosa, aflita
Que um sentimento vai desfalecendo.

E talvez que ela ao ler-me, com piedade,
Diga, a sorrir, num pouco de amizade,
Boa, gentil e carinhosa e franca:

— Ah! bem conheço o teu afeto triste…
E se em minha alma o mesmo não existe,
É que tens essa cor e é que eu sou branca!

Fonte:
Cruz e Sousa, Poesia Completa, org. de Zahidé Muzart, Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura / Fundação Banco do Brasil, 1993.

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Monteiro Lobato (Reinações de Narizinho) Cap. IV

IV
O bobinho

O passeio que Narizinho deu com o príncipe foi o mais belo de toda a sua vida. O coche de gala corria por sobre a areia alvíssima do fundo do mar conduzido por mestre Camarão e tirado por seis parelhas de hipocampos, uns bichinhos com cabeça de cavalo e cauda de peixe. Em vez de pingalim, o cocheiro usava os fios de sua própria barba para chicoteá-los.

— lept! lept!…

Que lindos lugares ela viu! Florestas de coral, bosques de esponjas vivas, campos de algas das formas mais estranhas. Conchas de todos os jeitos e cores. Polvos, enguias, ouriços — milhares de criaturas marinhas tão estranhas que até pareciam mentiras do barão de Munchausen.

Em certo ponto Narizinho encontrou uma baleia dando de mamar a várias baleinhas novas. Teve a idéia de levar para o sítio uma garrafa de leite de baleia, só para ver a cara de espanto que dona Benta e tia Nastácia fariam. Mas logo desistiu, pensando: “Não vale a pena. Elas não acreditam mesmo…”

Nisto apareceu ao longe um formidável espadarte. Vinha com o seu comprido esporão de pontaria feita para o cetáceo, que é como os sábios chamam a baleia. O príncipe assustou-se.

— Lá vem o malvado! — disse ele. — Esses monstros divertem-se em espetar as pobres baleias como se elas fossem almofadinhas de alfinetes. Vamo-nos embora, que a luta vai ser medonha.

Recebendo ordem de voltar, o Camarão estalou as barbas e pôs os “cabecinhas de cavalo” no galope.

De volta ao palácio o príncipe deixou a menina e a boneca na gruta dos seus tesouros, indo cuidar dos preparativos da festa.

Narizinho pôs-se a mexer em tudo… Quantas maravilhas! Pérolas enormes aos montes. Muitas, ainda na concha, punham as cabecinhas de fora, espiavam a menina e escondiam-se outra vez. De medo da Emília. Caramujos, então, era um nunca se acabar. de todos os jeitos possíveis e imagináveis. E conchas! Quantas, Deus do céu!

Narizinho teria ficado ali a vida inteira, examinando uma por uma todas aquelas jóias, se um peixinho de rabo vermelho não viesse da parte do príncipe dizer que o jantar estava na mesa.

Foi correndo e achou a sala de jantar ainda mais bonita que a sala do trono. Sentou-se ao lado do príncipe e gabou muito a arrumação da mesa.

— Artes das senhoras sardinhas — disse ele. — São as melhores arrumadeiras do reino.

A menina pensou consigo: “Não é à toa que sabem arrumar-se tão direitinhas dentro das latas…”

Vieram os primeiros pratos — costeletas de camarão, filés de marisco, omeletes de ovos de beija-flor, lingüiça de minhoca – um petisco de que o príncipe gostava muito.

Enquanto comiam, uma excelente orquestra de cigarras e pernilongos tocava a música do fium, regida pelo maestro Tangará, de batuta no bico. Nos intervalos três vaga-lumes de circo fizeram mágicas lindas, entre as quais foi muito apreciada a de comer fogo.

Para lidar com fogo não há como eles.

Encantada com tudo aquilo, Narizinho batia palmas e dava gritos de alegria. Em certo momento o mordomo do palácio entrou e disse umas palavras ao ouvido do príncipe.

— Pois mande-o entrar — respondeu este.

— Quem é? — quis saber a menina.

— Um anãozinho que nos apareceu aqui ontem para contratar-se como bobo da corte. Estamos sem bobo desde que o nosso querido Carlito Pirulito foi devorado pelo peixe-espada.

O candidato ao cargo de bobo da corte entrou conduzido pelo mordomo, e logo saltou para cima da mesa, pondo-se a fazer graças.

Narizinho percebeu incontinenti que o bobinho não passava do Pequeno Polegar, vestido com o clássico saiote de guizos e uma carapuça também de guizos na cabeça. Percebeu mas fingiu não ter desconfiado de nada.

— Como é o seu nome? — perguntou-lhe o príncipe.

— Sou o gigante Fura-Bolos! — respondeu o bobinho sacudindo os guizos.

Polegar não tinha o menor jeito para aquilo. Não sabia fazer caretas engraçadas, nem dizer coisas que fizessem rir. Narizinho teve um grande dó dele e disse-lhe baixinho:

— Apareça lá no sítio de vovó, senhor Fura-Bolos. Tia Nastácia faz bolinhos muitos bons para serem furados. Vá morar comigo, em ar essa vida idiota de bobo da corte. Você não dá para isso.

Nesse momento reapareceu na sala a baratinha de mantilha, de nariz erguido para o ar como quem fareja alguma coisa.

— Achou o fugido? — perguntou-lhe o príncipe.

— Ainda não — respondeu ela — mas aposto que anda por aqui. Estou sentindo o cheirinho dele.

E farejou outra vez o ar com o seu nariz de papagaio seco.

Apesar de ser muito burrinho, o príncipe desconfiou que o tal Fura-Bolos fosse o mesmo Polegar.

— Talvez esteja — disse ele. — Talvez Polegar seja o bobinho que veio oferecer-se para substituir o Carlito Pirulito. Para onde foi? — indagou correndo os olhos em redor. — Estava aqui ainda agora, não faz meio minuto…

Procuraram o bobinho por toda a parte, inutilmente. É que a menina, mal viu entrar na sala a diaba da velha, disfarçadamente o tinha agarrado e enfiado na manga do vestido.

Dona Carochinha remexia por todos os cantos, até dentro das terrinas, sempre resmungona.

— Está aqui, sim. Estou sentindo o cheirinho dele cada vez mais perto. Desta feita não me escapa.

Vendo-a aproximar-se mais e mais, Narizinho perturbou-se. E para disfarçar gritou:

— Dona Carochinha está caducando. Polegar usa as botas de sete léguas e, se esteve aqui, já deve estar na Europa.

A velha deu uma risada gostosa.

— Não vê que não sou boba? Assim que desconfiei que ele andava querendo fugir, fui logo tratando de trancar suas botas na minha gaveta. Polegar fugiu descalço e não me escapa.

— Há de escapar, sim! — gritou Narizinho em tom de desafio.

— Não escapa, não! — retrucou a velha — e não me escapa porque já sei onde está. Está escondido aí na sua manga, ouviu? – e avançou para ela.

Foi um rebuliço na sala. A velha atracou-se com a menina, e certamente que a subjugaria, se a boneca, que estava na mesa ao lado de sua dona, não tivesse tido a bela idéia de arrancar-lhe os óculos e sair correndo com eles.

Dona Carochinha não enxergava nada sem óculos, de modo que ficou a pererecar no meio da sala como cega, enquanto a menina corria a esconder Polegar na gruta dos tesouros, bem lá no fundo de uma concha.

— Fique aqui bem quietinho até que eu volte, recomendou-lhe.

E regressou à sala, muito lampeira da sua façanha.
–––––––
continua…

Fonte:
LOBATO, Monteiro. Reinações de Narizinho. Col. O Sítio do Picapau Amarelo vol. I. Digitalização e Revisão: Arlindo_Sa

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57a. Feira do Livro de Porto Alegre (Programação de 30 de outubro, domingo)


Programa Clube de Jovens da Secretaria de Inclusão Escolar de Buenos Aires
– 09:00

Missa em trovas
– 10:00

As aventuras de Joãozinho
– 11:00

Teatro Infantil com a Cia Crakety
Cuidar quem cuida: arteterapia, espiritualidade e reabilitação
– 14:00
Evento voltado para os cuidadores

Premiação do 1º Concurso Literário de Contos Assombros Juvenis
– 14:00

Sessão de Autógrafos da Escola São Marcos – Alvorada
– 14:00

Projeto Conte Mais
– 14:00
Contação de histórias com as contadoras Gladis Pedersen e Rosiliane Goulart

CAOSótica
– 14:00

Décima Ilha Açoriana
– 14:00

O que é e o que não é a física quântica
– 14:30
Um esquema de perguntas e respostas, traçando um paralelo entre as descobertas da ciência, sua aplicação em nossa vida e em nossa evolução

Tenda.doc: Sessão Fantaspoa – True Nature
– 14:30
True Nature conta a história de uma família que se reúne quando sua filha mais jovem é encontrada um ano após o seu desaparecimento

Caminhos Interligados//As Divagações Continuam//Sissi e Sua Turma no Futuro
– 14:30

Crianças Cristal
– 15:00
As novas gerações Índigo, Y e Cristal e seu propósito de vida, suas características principais e a necessidade de um novo olhar na educação

Caravana da Fantasia conta o Patinho Feio
– 15:00

Teatro Infantil

Corre, Pedro, corre!
– 15:00

Memória e Literatura
– 15:30
A relação entre literatura e memória como meio de elaboração da identidade pessoal, cultural e social

“Vi um bicho genial lá no fundo do quintal”
– 15:30
Bate-papo seguido de sessão de autógrafos

Tchezito e as lendas Gaúchas
– 15:30

Contação de Histórias com Paulo Roberto Ferrari e Wilson Tubino

Planejando o Futuro
– 15:30

Vi um bicho genial lá no fundo do quintal
– 15:30

Imagens Faladas – Ponto de Cultura Quilombo do Sopapo
– 16:00
Uma reportagem fotográfica sobre a memória do Bairro Cristal

Contos de Jack London
– 16:00

Contos de Suspense

É Fogo//O nome da fera
– 16:00

Tchezito e as lendas gaúchas
– 16:00

Diário de um correspondente internacional
– 16:30
Rodrigo Lopes, repórter internacional, relata os bastidores de momentos que marcaram a história da primeira década do século 21

Tenente, onde fica o Alegrete?
– 16:30

Alaba Textory
– 16:30

ABC da Quântica
– 16:30

Crianças Cristal
– 16:30

O Seu Floresta
– 16:30

O que é web arte? Conhecendo arte on-line e sites de arte
– 17:00
Como estão sendo desenvolvidas as produções artísticas nos meios digitais e quais são suas repercussões no sistema da arte?

O Fantástico Mistério de Feiurinha, de Pedro Bandeira
– 17:00

Contação de história com Valquíria Cardoso

Os guardiões da árvore
– 17:00

Teatro Infantil

Museu desmiolado
– 17:00

Crime e mistério no século 21: novos caminhos para a literatura de gênero
– 17:30
A discussão dos caminhos da literatura policial de ontem e de hoje, a popularidade das histórias de crime e a influência de Sherlock Holmes para o gênero

Vozes do criador no mundo e nos caminhos de Santo Antônio: poema de três cenários
– 17:30

O Hino de Galeno – 1º volume – ensaios sobre ciência e religião
– 17:30

Alegria de Servir
– 17:30

Torres em Transe
– 17:30

Predarias
– 17:30

Solenidade de inalguração da Biblioteca Moacyr Scliar
– 18:00

Contos Cantados com Valquíria Cardoso
– 18:00

A Arte Levada a Sério
– 18:00

Saraú com café do município de Taquara
Biombo Negro
– 18:00

Oficina aberta com Felipe Ehrenberg
Arte às 18:30
– 18:30

Apresentação do Coral dos Correios
Mini contar-te
– 18:30

Sociedades Limitadas
– 18:30

Tempo de Escola – Memórias
– 18:30

Web Arte e Poéticas do Território
– 18:30

Guerras e Tormentas
– 18:30

Cultura Quilombola
– 18:30

Literatura policial
– 19:00

Os segredos da construção de novelas policiais

Baile Flamenco – Identidade Gaúcha
– 19:00

Gestos, sapateados e castanholas em harmonia com os floreios da guitarra flamenca. Ritmos em espetáculo e também em livro
Cine Santander Cultural
– 19:00

Sessão Comentada

2º Seminário Reinações – O fantástico e a literatura infantojuvenil
– 19:00
Clássicos do fantástico, suas adaptações e a atração para o público infantojuvenil

Terra: um novo mundo//A Berinjela e o Gerimum
– 19:30

Rei dos Bruxos
– 19:30

Vidas Desabitadas – A sociedade
– 19:30

O silêncio e a escuridão
– 19:30

Ficção de Polpa: Crime!
– 19:30

Baile Flamenco – Identidade Gaúcha
– 19:30

Cordão da Saideira: Sarau Literário Zona Sul – o suspense na poesia
– 20:00
Sarau espetáculo mostrando diversas abordagens do elemento suspense na poesia de autores nacionais e estrangeiros

Escrevendo no Escuro
– 20:30

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Nemésio Prata Crisóstomo (Trova Ecológica 37)

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29 de outubro de 2011 · 01:47

Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 378)


Uma Trova Nacional

A folha seca do galho
promove a sabedoria,
tece a colcha de retalho
no vagar do dia a dia.
–DÁGUIMA VERÔNICA/MG–

Uma Trova Potiguar

Este poeta deduz,
e a nossa fé corrobora:
disse Deus: “Faça-se a luz”!
e eis nossa primeira aurora.
–FRANCISCO MACÊDO/RN–

Uma Trova Premiada

2010 – CTS-Caicó/RN
Tema: OCASO – 9º Lugar

Desculpe, Amor, se me atraso
na volta ao lar… – Acontece
que eu me perco, olhando o ocaso,
enquanto o sol adormece!!!
–MARIA MADALENA FERREIRA/RJ–

Uma Trova de Ademar

Meu “currículo” é comum,
digo com toda alegria…
Não tenho curso nenhum
mas sou formado em poesia!
–ADEMAR MACEDO/RN–

…E Suas Trovas Ficaram

Estes teus olhos brejeiros!
– ah! se eu pudesse, meu Deus!
por noites, dias inteiros,
ver os meus olhos nos teus!
–ANIS MURAD/RJ–

Simplesmente Poesia

Casa
–LUIZ OTÁVIO OLIANI/RJ–

faço do silêncio
a morada do ser

não lhe digo
palavras duras
nem amorteço quedas

apenas guardo
a concha
em que abrigo
a solidão dos homens.

Estrofe do Dia

Assim como tem alguém
Que quando perde alguém chora,
Também tem alguém que age
Quando um amor vai embora
Com a mesma simplicidade
Que um pingo d‘água se tora.
–MANOEL FILÓ/PE–

Soneto do Dia

Serenidade
–ADELMAR TAVARES/PE–

Nunca de mim se ouviu um só protesto
de maldição, de cólera aturdida,
sequer uma palavra, ou mesmo um gesto
de malquerer a quem mais quis na vida.

Arrasto como a um fardo, a alma ferida,
e a dor que me crucia, manifesto,
sem jamais inculpar de fementida,
aquela que em meu sonho amo, e requesto.

Em perdendo-a, perdi toda a alegria
do coração que em mágoas apunhalo.
Perdi a luz!… Fechou-se o sol que eu via!…

Tudo abateu com a queda desse amor,
tão forte, que ainda sinto o seu abalo,
tão grande, que ainda escuto o seu fragor.

Fonte:
Textos enviados pelo Autor

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Júlia Lopes de Almeida (Amuletos)


Foi numa das sextas-feiras da Matilde Abranches, que o seu médico, rapaz aliás simpático, afirmou que os homens são maus por culpa das mulheres…

Os dedos de Cecília desfolhavam as notas levíssimas de Ma barque légère e a meu lado Lídia sorvia o aroma de um botão de rosa. Bem comparado, fez-me lembrar um quadro ideal de Diana Cid; Lídia também estava de azul, como a formosa do “Perfume”.

— Por culpa das mulheres?! Perguntou a voz empapada de uma mãe de família, que tem por hábito tomar a sério todas as conversas.

— Como desde o princípio do mundo. Agora então a influência da mulher é nefasta. A nossa sociedade cai rapidamente da sua modesta franqueza, que a fazia encantadora, para um esnobismo que a torna ridícula. A preocupação do chic estraga tudo. As portas já se não abrem como antigamente, e procuramos termos para as conversas mais simples!

Não há naturalidade nem há simplicidade. A virtude das mulheres, que era para as nossas culpas, como um tronco profundamente enraizado é para as lianas frágeis — um sustentáculo que as eleva e ampara, sente-se abalada e já não nos inspira a confiança de outrora.

Como para Bruto, para mim a Virtude não é mais que uma palavra. Bebemos todos do veneno. Agora só o dilúvio.

— Que mal lhe teriam feito as mulheres, sempre gostaria de saber…

— Estragam tudo com a sua imprudência, a sua coquetterie e o seu fanatismo. Basta olhar para uma mulherzinha moderna para a gente perceber que se preocupa com feitiços e é supersticiosa. A quantidade de figas e de amuletos que
traz ao pescoço, bem o prova. Em vez de nos ensinarem a sermos simples e cordatos, tornam a vida cada vez mais complexa e difícil.

— Exemplo?

— Nas mínimas coisas ele aparece. Vá o exemplo: convidam-nos para um jantar familiar e dão-nos um banquete em que vagueiam perfumes de flores caras e cheiros de molhos complicados. Aquilo não é o trivial: logo, aquele não é o jantar familiar. Quem ordenou e determinou o menu, não foi certamente o dono, mas a dona da casa. Portanto a atmosfera de falsidade que se respira naquela casa amiga, foi criada pela mulher.

— Ora aí está! São os nossos maridos que trazem dos hotéis e das festas a que assistem a exigência desses molhos complicados, dessas floreiras odoríferas do champagne ruinoso e dos cristais variegados das mesas ricas. São eles que nos sugerem novidades de serviço; e vêm os senhores depois pôr a ridículo a nossa pretensão! Geralmente não somos nós que compramos a prataria e as porcelanas.

Que sabemos nós, as mulheres?

— O que adivinham. Oh! E o que as mulheres adivinham! Conheço uma que, sem ter ouvido uma única confidência, sabe que uma certa pessoa evita encontrá-la, porque é vê-la e logo nessa noite perder ao jogo!

— Esse alguém é o senhor. Vê? São os homens que jogam, que ficam amáveis se ganham ou mal humorados se perdem, que tem estragado a nossa alegria. Mas sempre quero agora que me explique: o senhor, que se ri das quatro folhas de trevo e dos corcundinhas de coral que trazemos ao peito, porque foge de cumprimentar uma senhora amiga só pelo receio de que esse encontro fortuito e rápido lhe traga o azar da fortuna?

— Males de raça, minha senhora, coisas que ficam da infância. De algum modo precisamos mostrar que já fomos crianças. Creia que eu até adoro essa senhora!

— Adora-a e evita-a!

— Mas se ela tem jetattura!

— Use então de um expediente: Quando a vir, pegue em qualquer objeto de ferro. Uma chave, por exemplo. Não traz uma chave consigo?

— É bom?

— É magnífico!

— Não sabia!

A conversa embarafustava por um terreno amável.

D. Matilde confessou que deixara de se vestir de azul, porque essa cor lhe trazia infelicidade. D. Joana citou uma amiga que usava uma liga de cada cor, como portebonheur. Quase todos os presentes tinham a sua mania… Voltou-se então alguém para o velho e sério dr. Braga e perguntou com um rasinho de dúvida:

— O senhor também usa dessas coisas?

Ele tirou do bolso um caquinho de vidro azulado e disse com seriedade:

— Isto. Podem examinar.

O pedacinho de vidro andou de mão em mão; olharam todos por ele para a luz e concordaram em que não seria fácil encontrar outro tão ordinário!

Dr. Braga explicou:

— Pois, minhas senhoras e senhores, isto não é um simples amuleto, mas um talismã.

— Ainda há disso?!

— Há. Este chama-se o olho da tolerância. Infelizmente, para se ver bem por ele é preciso ter-se passado dos quarenta anos, ter-se gasto o bestunto em muitas observações e curvado a cabeça a duras exigências da sorte… O olho da tolerância, antes de censurar ou de punir a culpa, penetra-lhe a causa, mais disposto a absolve-la que a castigá-la… Tem a consciência da fragilidade da alma. Antigamente eu sentia como um romancista filósofo que disse: “plus j’aime l’humanité, plus je déteste l’individu.” Hoje não; o indivíduo delinqüente é para mim um irmão fraco que devo amar de preferência, porque todas as suas impurezas são conseqüentes de males, de cuja origem não é só ele o responsável. O olho da tolerância acalma o sistema nervoso e exercita o coração na prática do bem. Quando me sinto arrastar pela indignação ou a cólera contra alguém, respiro com força, saco deste caquinho, domino-me, e, para abater o ímpeto, olho através do vidro, reflito, e uma grande piedade vem substituir o meu primeiro movimento de fúria. Ah! Minhas senhoras, é que não há nada como a tolerância para dar repouso à inquietação das almas!

Fonte:
Júlia Lopes de Almeida. Livro das Donas e Donzelas. Belém/PA: Núcleo de Educação a Distancia da Universidade da Amazonia (UNAMA).

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Neiva Fernandes (Primavera Colorida)

Primavera vem chegando,
com ela novos amores;
as rosas desabrochando
no jardim cheio de flores.

Quando chega a primavera,
o jardim fica florido;
encanto de uma quimera
deixa tudo colorido.

Primavera é estação
de temperatura amena;
enriquece o coração
com inspiração serena.

Primavera dos amores,
das poesias e do canto;
recanto dos trovadores
que fazem da vida o encanto.

Primavera sempre amiga
antes do verão chegar;
com ternura e com cantiga,
nos convida a passear.

Fonte:
Antonio Manoel Abreu Sardenberg (Poesias em Quatro Estações III)
http://www.sardenbergpoesias.com.br/aniversario_2008/primavera/primavera.htm

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Jane Tutikian (Helena)

Eu queria querer-te e amar o amor, construirmos
dulcíssima prisão
E encontrar a mais justa adequação, tudo métrica
e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés, e vê só que cilada o
amor me armou
E te quero e não queres como sou, não te quero e
não queres como és
Ah, bruta flor do querer, ah, bruta flor, bruta flor.
Caetano Veloso

Acordei abstrata e acordar abstrata é sempre mau sinal. Um sentimento de nada e de tudo. De cores e de sombras. De formas e de insinuações. Acordei abstrata como um quadro atirado em qualquer canto de uma parede qualquer. E nova, tão nova como a reprodução vulgar de um velho quadro de Kandinski.

Acordei abstrata, esta é a questão. E, acordar abstrata é estar num meio do caminho e ficar deformando tudo, tornando muito mais grave e muito mais solene o que nem é tanto assim, mas. Também rindo meio boba de que, afinal, o que é nem é tanto assim.

É que depois do vinho barato de ontem e da náusea de hoje, percebi o que há muito sei: que não sei jogar e que não vou jogar este teu jogo maluco de quero não quero, porque simplesmente quero e não sei jogar.

Afasto as cobertas com os pés, sento na borda da cama e olho pela janela do quarto do hotel, lá embaixo, um pedaço de mar azul sob um céu azul e um sol quente. Vez que outra, passa um vulto, às vezes um vulto, uma sombra e um cachorro. Olho e não olho. Sinto e não sinto. É a recaída, penso.

O telefone te coloca ao meu alcance, mas o gosto do vinho barato de ontem e o mormaço do dia, e o quadro do Kandinski encostado na parede, e o jogo, sempre o jogo… Já disse que acordei abstrata e acordar abstrata é também um simples não. Um não querer um vazio assim: seco, indolor, um baço assim: meio cego, meio mórbido, cercado pela idéia modorrenta de um dia modorrento numa vida modorrenta.

Da janela do quarto de hotel, neste dia que seria outro, se não tivesse acordado abstrata, penso que acordar abstrata é.

Talvez aceitar.

Voilà! Penso com certo desprezo de mim que, de novo, Helena começa a ceder.

– Mas, se hei de ceder, que seja com elegância e, sobretudo, que seja com muito humor! – Digo com o resto de dignidade que resta em mim.

Sentada na cama, em frente à janela do quarto de hotel, neste dia em que acordei abstrata, desejo, profundamente, desejo, feito vingança mesquinha, desejo que estejas sofrendo a minha ausência, e quero que doa. Ah! Como quero que doa! E acendo um cigarro, na náusea do vinho barato de ontem e, vil, da vileza mais torpe e mais faceira, quero que minha ausência, em ti, doa.

Não! Não é por cobrar nada, não é por pagar nada, é apenas porque, querendo ou não, eu aprendi que com dor se aprende. Queria apenas te mostrar que o momento-agora é inadiável, porque ele é único e sagrado, e que o infinito é cercado de finitude por todos os lados, de pequenas finitudes de que somos feitos, tu, eu, nós, nossas expectativas, nossos sucessos e nossos fracassos.

Queria que pudesses sentir como eu, agora, a brevidade da fumaça do meu cigarro contra a janela do mundo modorrento do quarto de hotel. É assim, eu te diria, a brevidade da fumaça que somos.

Queria te mostrar, como nos vincos de um origami, os nossos ritos imperfeitos, quase imperceptíveis, de passagem, as nossas pequenas e quotidianas perdas, os nossos pequenos e quotidianos ganhos. Era outra quando acordei abstrata. Serei outra quando daqui-a-pouco-agora, abstrata, tomar consciência de que sou também passado.

Não vou mais aceitar quando me disseres que o teu amor é eterno e o meu é passageiro. É que a eternidade é em si. E eu queria que tu pensasses que a eternidade é em si. Que eterno é o momento do vulto que passou ainda há pouco na beira da praia e, depois, eternos o vulto, a sombra e o cachorro. Eterno é eu olhar pela janela, é esta tragada de cigarro, é esta fumaça jogada no nada. Isso é eterno!, porque a eternidade habita cada isso, cada tudo, cada alguém.

Meu amor é eterno e urgente.

O teu?

O teu é coisa escondida atrás da eternidade. Não! O teu é coisa que te esconde atrás da eternidade.

Pois então, eu me digo despeitada e impotente:

– Que a minha ausência te doa! Que a eternidade te queime! Mas. Que o teu amor me procure. – E fecho os olhos e cruzo os dedos e tivesse mesa neste quarto tão pequeno de hotel e eu me meteria embaixo dela, feito criança teimosa, e feito criança teimosa bateria com a cabeça três vezes e pediria e imploraria e choraria que o teu amor me procure que o teu amor me procure que o teu amor me procure e.

Pensas que vais me encontrar largada num quarto qualquer de um hotel qualquer, dormindo de meias verdes quaisquer e de abrigo cinza qualquer?

Não!

Vou estar l-i-n-d-a quando chegares. vou ficar em dúvida sobre a cor da camisola, talvez vermelha, talvez preta, e vou deixar os cabelos presos à nuca, repartidos do lado para dar um ar de mocinha, ainda que depassée, e, vagabunda fina, vou perfumar o pescoço, os seios, os pulsos, as coxas e o sexo com Paloma Picasso. E vou usar um batom bordô bordel. E vou estar vampiresca, carnavalesca, rocambolesca e rindo muito e rindo alto, bêbada de um vinho barato e cheirando a cigarro barato, só para te assustar.

Tens medo de mi-iiiiiiiiiiiiiiiiimmmmmmmmmmmmm!!! Ah! Mas que maior medo terias se me visses assim: tão abstrata. Beeeeeeeeeemmmmmmmmmmm feito que tens medo de mim! Bem feito! Bem feito que tens medo de mim e me recusas.

Olha, mas olha me vendo: é que sou ar e não és mais do que raiz. É que sou fogo e não és mais do que chão pisado. É que sou penhasco e és apenas fenda. É que sou fronteira e tu, continuação. Ad infinitum: empobrecedora e repetitiva continuação empobrecedora e repetitiva continuação empobrecedora e.

Tens medo de mim?

Eu tenho pena de ti, que olhas e não vês. Que vives e não sentes. Que mentes e acreditas. Que amas e não sabes.

Tens pena de mim?

Eu tenho medo de ti, feito Carolina na janela, a deixar que a minha vida e que a tua vida passem e caiam no vácuo do nada.

Está bem…

É que acordei abstrata e, quando acordo abstrata, num quarto de hotel, com uma reprodução vulgar de um quadro de Kandinski atirada ao chão, quando acordo abstrata num quarto barato de um hotel barato, gosto amargo na boca, quero minha cabeça no teu colo, tua boca nos meus cabelos, teu abraço me fazendo berço, teu silêncio me dizendo que estás aqui, que sempre estiveste, que sempre estarás, quero tua maior mentira: a que sou eu.

– Voilà! Helena em processo de sujeição – me digo irônica e dolorida. De puro medo de te magoar, fico sempre tão delicadamente imóvel e leve que penso ser capaz de pousar no peito de uma borboleta branca. – Voilà, apenas voilà! – quando não há mais palavras possíveis: – Voilà!

Abstrata, neste dia modorrento, numa janela de mar, de sol e de vultos, descubro que, a despeito de tudo, quero a paz suave e generosa de um pouso feito acolhida numa borboleta branca. Fecho os olhos, vejo, cheiro, toco, ouço, quero ficar assim:

apenas sentindo:
eupousadaemti,tupousadoemmim.

E porque quero, pego o telefone que te coloca ao meu alcance, e ligo. Ouço o sinal de ocupado. Tento de novo, de novo, de novo.

Fonte:
http://www.janetutikian.com/?pg=4108

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Jane Tutikian (1952)


Pós-doutora em Literatura, professora de Literatura e Diretora do Instituto de Letras da UFRGS. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras e tem participação em dezenas de antologias e livros organizados e traduzidos para o inglês e o espanhol.

1952
• Maio, 05, nasce Jane Tutikian, filha de José Trindade Fraga e Doralice da Silva Fraga, em Porto Alegre.

1959
• Frequenta o Instituto de Educação General Flores da Cunha, onde cursa o primário e o ginásio.

1962
• Escreve seus primeiros textos: poesias.

1968
• Matricula-se no clássico, no Colégio Júlio de Castilhos.

1970
• Eleita Miss Porto Alegre e Primeira Princesa do Rio Grande do Sul.
• Ingressa no Curso de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
• Participa do “I Laboratório de Criatividade Literária da UFRGS”, coordenado por Lígia Averbuck.
• Recebe a cidadania do Estado de Indiana-USA.
• Recebe a cidadania da cidade Brazil- USA

1974
• Janeiro,05.Casa-se com o advogado Edemar Morel Tutikian.
• Março,24. Publica seu primeiro texto, “Batalha naval”, no “Caderno de Sábado” do Correio do Povo, passando a colaboradora.
• Dezembro,22. Conclui o curso de Graduação em Letras, na UFRGS.
• Ingressa no Mestrado em Literatura, na UFRGS.
• Novembro,11.Nasce seu primeiro filho: Cristiano.

1976
• Passa a colaboradora do suplemento “Mulher”, da Folha da Tarde.

1977
• Obtém o título de Mestre em Literaturas de Língua Portuguesa, pela UFRGS.
• Novembro,27. Nasce sua filha: Fernanda.

1978
• Recebe o “Destaque- Prêmio Apesul Revelação Literária.

1980
• Ingressa na Rede Pública Estadual como professora.

1981
• Publica Batalha Naval.
• Recebe Menção Especial no I Concurso de Contos de São Bernardo do Campo.

1984
• Publica A cor do azul
• Recebe Menção Honrosa da Fundação Nacional do Livro Infantil e juvenil.
• Recebe o Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro.

1985
• Eleita Diretora da E.E. Roque Gonzáles.
• Participa da antologia Rodízio de Contos.

1987
• Publica Pessoas.
• Recebe o Prêmio Érico Veríssimo da Câmara Municipal de Porto Alegre

1988
• Reeleita Diretora da E.E. Roque Gonzáles.

1989
• Coordena a Comunicação Social da 1ª Delegacia de Educação.

1990
• Publica Geração Traída.
• Recebe o Prêmio Gralha Azul de Literatura Brasileira da Assembléia Legislativa do Estado do Paraná.

1991
• Passa a lecionar literatura no Instituto de Letras da UFRGS.

1994
• Publica Um time muito especial.
• Recebe o Prêmio Tibicuera de Literatura Infanto-Juvenil da Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre.
• Recebe o Prêmio Tibicuera Livro do Ano de Literatura Infanto-Juvenil da Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre.

1995
• Ingressa no Curso de Doutorado em Literatura Comparada na UFRGS.

1997
• Participa das antologias Contos e cidade e O autor presente- Literatura Gaúcha.

1998
• Participa da Antologia Crítica do Conto Gaúcho.
Obtém o título de Doutora em Literatura Comparada pela UFRGS.

1999
• Publica O sentido das Estações.
• Publica Inquietos Olhares.
• É objeto do fascículo Autores Gaúchos, nº3, do Instituto Estadual do Livro.

2000
• Publica Alê, Marcelo, Ju & eu.
• Participa da antologia bilíngüe -português e espanhol – Contos sem fronteiras

2001
• Participa da antologia Brasil: receitas de criar e cozinhar.
• Assume a cadeira nº 39 na Academia Literária Feminina do RS.
• Recebe o Prêmio Açorianos, categoria infanto-juvenil, da Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre.

2002
• Publica A rua dos secretos amores.
• Publica Aconteceu também comigo.
• Participa da antologia Presença literária 2002.
• Participa da antologia Autor presente: 30 anos.
• Assume a Vice-presidência da Associação Gaúcha de Escritores.
• É patrona da Feira do Livro de Gramado.
• Dá nome à Biblioteca da Escola Edvino Bervian, de Morro Reuter.

2003
• Publica JF e a conquista de “Niu Ei”.
• É um dos dez nomes indicados para Patrono da 49ª Feira do Livro de Porto Alegre.
• Participa da antologia Presença Literária 2003.
• Participa da antologia 35 melhores contos do Rio Grande do Sul.

2004
• Prêmio Livro do Ano AGES – categoria infanto-juvenil
• Prêmio O Sul – Nacional e os Livros
• Participa da antologia Paz um vôo possível
Figura entre os 10 “patronáveis” da Feira do Livro de Porto Alegre

2005
• Publica Entre Mulheres (contos de amor aprendiz) , pela WS
• Participa da antologia Contos de bolso, uma antologia de mini-contos, da Casa Verde
• Figura entre os 10 “patronáveis” da Feira do Livro de Porto Alegre

2006
• Lança Olhos azuis coração vermelho (novela infanto-juvenil) pela Artes & Ofícios.
• Participa da antologia Contos de bolsa, da Casa Verde.
• Participa da antologia Este seu olhar, publicada pela Editora Moderna.
• Publica Velhas identidades novas (ensaios)., pela Sagra Luzzatto, resultado de seu Pós- Doutorado em Literatura, realizado na PUCRS.
• Inicia a organização das obras completas de Fernando Pessoa pela L&PM, tendo editado, neste ano: Mensagem, a obra de Caeiro, Campos e Ricardo Reis.
• Organiza para a Leitura XXI a antologia poética de Fernando Pessoa.
• É Patrona XVII Feira do Livro de Dois Irmãos.

2007
• Publica Fica Ficando (novela infanto-juvenil) pela Edelbra.
• Finalista do Açorianos com Fica Ficando
• Organiza para a L&PM o Cancioneiro de Fernando Pessoa.
• Organiza, com Assis Brasil, o livro de ensaios Mar Horizonte, publicado pela PUCRS
• Luciana Éboli adapta,dirige e atua com Maninha Pedroso peça baseada em Fica Ficando.
• Recebe o prêmio Nacional O Sul por incentivo à literatura.
• É homenageada pela Feira do Livro de Caçapava do Sul.
• É Patrona da Feira do Livro de Triunfo.
• Figura entre os 10 “patronáveis” da Feira do Livro de Porto Alegre

2008
• Patrona da Feira do Livro de Camaquã
• Organiza para a L&PM a leitura comentada de Os Lusíadas.

2009
• Assume a Direção do Instituto de Letras da Univeraidade Federal do Rio Grande do Sul
• Assume a cadeira n. 35 da Academia Rio-grandense de letras
• Nasce a sua neta Maria Eduarda, filha da Fernanda e do Jeferson
• Participa da antologia Um rio de contos, publicada em Portugal pela Editorial Tágide
• Participa da antologia The Brazilian Short Story in The Late Twentieth Century, publicada nos EUA pela The Edwin Mellen Press
• Lança Por que não agora? , novela Infanto-juvenil, pela Edelbra

2010
• Ganha o Prêmio Ages Livro do Ano – categoria Infanto-juvenil pelo livro Por que não agora?
• É eleita Vice-Presidente da Associação Internacional de Professores de Literaturas Africanas
• Convidada pelo Governo Português para as comemorações dos cem anos de República de Portugal.
• Nasce o seu neto Eduardo, filho do Cristiano e da Priscila.
• Figura entre os 5 patronáveis da Feira do Livro de Porto Alegre.
• Patrona da Feira do Livro de Guaíba

2011
• Tem conto publicado na antologia Literatura Brasileira em. Tradução, publicada pela Ellipse & creators/ artistes, no Canadá.
• Primeira mulher do séc. XXI e quarta dos 57 anos de história a ser escolhida Patrona da Feira do Livro de Porto Alegre
• Lança antologia de contos comemorativa aos 30 anos de carreira: Coisa Viva, pela Território das Letras

Obras publicadas

Batalha Naval (contos). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1981. Porto Alegre: Movimento, 2003. 2ª ed.
A Cor do Azul (novela infanto-juvenil). São Paulo: Atual, 1984. 24ª ed.
Pessoas (contos). Porto Alegre: Movimento, 1987. 2ª ed.
Geração Traída (novela). Porto Alegre: Mercado Aberto, 1990.
Um Time Muito Especial (novela infanto-juvenil). São Paulo: Atual, 1993.14ª ed.
Inquietos Olhares (ensaio). São Paulo: Arte & Ciência, 1999.
O Sentido das Estações (contos). Porto Alegre: Movimento, 1999.
Alê, Marcelo, Ju & eu (novela infanto-juvenil). Porto Alegre: WS, 2000. 4ª ed.
A rua dos secretos amores (contos). Porto Alegre: WS, 2002. 2ª ed.
Aconteceu também comigo (novela infanto-juvenil). São Paulo: Arte & Ciência, 2002.
J.F. e a conquista de Niu Ei (novela infanto-juvenil). Porto Alegre: WS, 2003. 2ª ed.
Entre Mulheres (contos de amor aprendiz). Porto Alegre: WS, 2005.
Olhos azuis coração vermelho (novela infanto-juvenil). Porto Alegre: Artes & Ofícios, 2005.
Velhas identidades novas (ensaios). Porto Alegre, Sagra Luzzatto, 2006.
Fica Ficando (novela infanto-juvenil). Erechim: Edelbra, 2007.
Por que não agora? (novela infanto-juvenil). Erechim: Edelbra, 2009.

Fontes:
http://www.feiradolivro-poa.com.br/
http://www.janetutikian.com/?pg=4102

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Cruz e Souza (O Livro Derradeiro) Parte V


[ESTAS RISADAS]

Estas risadas límpidas e frescas
Que Pan trauteia em cálamos maviosos
Nesta amplidão dos campos verdurosos,
Nestas paisagens flóreas, pitorescas;

Toda esta pompa e gala principescas
Destas searas, destes altanosos
Montes e várzeas, prados vigorosos,
Louros — talvez como as visões tudescas;

Este luxuoso e rico paramento,
Feito de luz e de deslumbramento
— Do grande altar da natureza imensa.

Aguarda o poeta sacerdote augusto,
Para cantar no seu missal robusto,
A nova Missa da razão que pensa…

AOS MORTOS

Oh! não é bom rir-se de um morto — brusca
Pois deve ser a sensação que aumenta
Desoladora, vagarosa, lenta
Da negra morte tétrica velhusca…

Tudo que em vida, como um sol, corusca,
Que nos aquece, que nos acalenta,
Tudo que a dor e a lágrima afugenta,
O olhar da morte nos apaga e ofusca…

Nunca se deve desprezar os mortos…
Nos regelados e sombrios portos,
Onde a matéria se transforma e urge

Exuberar na planturosa leiva,
Vivem os mortos no vigor da seiva,
Porque dão vida ao que da vida surge!…

LUAR

Pelas esferas, nuvens peregrinas,
Brandas de toques, encaracoladas,
Passam de longe, tímidas, nevadas,
Cruzando o azul sereno das colinas.

Sombras da tarde, sombras vespertinas
Como escumilhas leves, delicadas,
Caem da serra oblonga nas quebradas,
Vão penumbrando as coisas cristalinas.

Rasga o silêncio a nota chã, plangente,
Da Ave-Maria, — e então, nervosamente,
Nuns inefáveis, espontâneos jorros

Esbate o luar, de forma admirável,
Claro, bondoso, elétrico, saudável,
Na curvilínea compridão dos mortos.

MOCIDADE

Ah! esta mocidade! — Quem é moço
Sente vibrar a febre enlouquecida
Das ilusões, da crença mais florida
Na muscular artéria de Colosso…

Das incertezas nunca mede o poço…
Asas abertas — na amplidão da vida,
Páramo a dentro — de cabeça erguida,
Vê do futuro o mais alegre esboço…

Chega a velhice, a neve das idades
E quem foi moço, volve, com saudades,
Do azul passado, o fulgido compêndio…

Ai! esta mocidade palpitante,
Lembra um inseto de ouro, rutilante,
Em derredor das chamas de um incêndio!

SONETO

Vão-se de todo os pardacentos nimbos…
Chovem da luz as nítidas faíscas
E no esplendor de irradiações mouriscas,
Abrem-se as flores em gentis corimbos.

Muito mais lestas do que amigos fimbos,
Do Azul cortando as bordaduras priscas,
Pombas do mato esvoaçando, ariscas,
Do céu se perdem nos profundos limbos.

A natureza pulsa como a forja…
Pássaros vibram no clarim da gorja,
As retumbantes, fortes clarinadas.

A grande artéria dos assombros pula…
E do oxigênio, a força que regula
Enche os pulmões a largas baforadas.

NA FONTE

Bem ao lado da gruta a fonte corre
Trepidamente, as águas encrespando,
Em murmúrios crebos, levantando
Uns chamalotes prateados — morre

No monte o sol que a luz no oceano escorre
E ainda eu vejo, as sombras afrontando,
Uma mulher que lava, mesmo quando
O sol mais rubro, mais vermelho jorre.

— É num sítio afastado, um sítio ermo…
Pássaros cortam vastidões sem termo,
Borboletas azuis roçam nas águas.

— E a mulher lava, enrubescida a face;
Lava, cantando, como se lavasse
As suas tristes e profundas mágoas.

[SONETO]

A fonte de águas cristalinas corre
Chamalotes de prata levantando,
E através de arvoredos murmurando,
Entre arvoredos murmurando morre…

No ocaso, o sol, a luz no oceano escorre
E sempre vejo, as sombras afrontando,
Uma mulher que canta e ri, lavando,
Mesmo que o sol muito abrasado jorre.

É verde o campo, deleitável e ermo.
Pássaros cortam vastidões sem termo,
Borboletas azuis roçam nas águas.

E cantando, a mulher, a rir a face,
Lava cantando como se lavasse
As suas grandes e profundas mágoas.

CEGA

Parece-me que a luz imaculada
Que vem do teu olhar, todo doçuras,
Não verte no meu ser aquelas puras
Delícias de outra era já passada.

Eu creio que essa pálpebra adorada
Não mais um flóreo empíreo de venturas
Descobre-me — na noite de amarguras,
De dúvidas intérminas cortada.

Não olhas como olhavas, rindo, outrora,
Não abres a pupila, como a aurora
Nascendo, abre, feliz, radiosa e calma.

A sombra, nos teus olhos, funda, existe!…
Tu’alma deve ser bem negra e triste
Se os olhos são, decerto, o espelho d’alma.

ERMIDA

Lá onde a calma e a placidez existe,
Sobre as colinas que o vergel encobre,
Aquela ermida como está tão pobre,
Aquela ermida como está tão triste.

A minha musa, sem falar, assiste,
Do meio-dia ante o aspecto nobre,
O vago, estranho e murmurante dobre
Daquela ermida que aos trovões resiste

E as gargalhadas funéreas, sombrias,
Dos crus invernos e das ventanias,
Do temporal desolador e forte.

Daquela triste esbranquiçada ermida,
Que me recorda, me parece a vida
Jogada às magoas e ilusões da sorte.

ÁGUA-FORTE

Do firmamento azul e curvilíneo
Cai, fecundando as trêmulas raízes
Dos laranjais, dos pâmpanos, das lizes,
A luz do sol procriador, sanguíneo.

Pelo caminho agreste e retilíneo,
Da tarde aos brandos, triunfais matizes,
A criançada, a chusma dos felizes,
Esse de auroras perfumado escrínio,

Volta da escola, rindo muito, aos saltos,
Trepando, em bulha, aos árvoredos altos
Enquanto o sol desce os outeiros longos…

Vai dentre alados madrigais risonhos,
Do abecedário juvenil dos sonhos,
A soletrar os principais ditongos.

ALMA QUE CHORA

A João Saldanha

Em vão do Cristo aos olhos dulçurosos
Onde há o sol do bem e da verdade,
Cheios da luz eterna de saudade,
Como dois mansos corações piedosos,

Em vão do Cristo os olhos lacrimosos
E aquela doce e pura suavidade
Do seu semblante, casto, de bondade,
Cor do luar dos sonhos venturosos,

Servem de exemplo a dor escruciante
Que te apunhala e fere a cada instante,
A punhaladas ríspidas, austeras!

Viste partir a tua irmã, se, viste,
Como num céu enévoado e triste
O bando azul das fúlgidas quimeras…

CHUVA DE OURO

A Rainha desceu do Capitólio
Agora mesmo — vede-lhe o regaço…
Como tem flores, como traz o braço
Farto de jóias, como pisa o sólio

Triunfantemente, numa unção, num óleo
Mais santo e doce que essa luz do espaço…
E como desce com bravura de aço…
Pois se a Rainha, como um rico espólio,

O seu brioso coração foi dando
Aos pobrezinhos, que inda estão gozando
Bênçãos mais puras qu’os clarões diurnos,

Por certo que há de vir descendo a escada
Do Capitólio da virtude — olhada
Pelos Albergues infantis, noturnos!

PRIMAVERA A FORA

Escute, excelentíssima: — Que aragens
Traz do árvoredo a fresca romaria;
Como este sol é rubro de alegria,
Que tons de luz nas límpidas paisagens.

Pois beba este ar e goze estas viagens
Das brancas aves, sinta esta harmonia
Da natureza e deste alegre dia
Que resplandece e ri-se nas ervagens.

Deixe lá fora estrangular-se o mundo…
Encare o céu e veja este fecundo
Chão que produz e que germina as flores.

Vamos, senhora, o braço à primavera,
E numa doce música sincera,
Cante a balada eterna dos amores…

Fonte:
Cruz e Sousa, Poesia Completa, org. de Zahidé Muzart, Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura / Fundação Banco do Brasil, 1993.

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Monteiro Lobato (Reinações de Narizinho) Cap. III


III
No palácio

O príncipe consultou o relógio.

— Estou na hora da audiência — murmurou. — Vamos depressa, que tenho muitos casos a atender.

Lá se foram. Entraram diretamente para a sala do trono, no qual a menina se sentou a seu lado, como se fosse uma princesa. Linda sala! Toda dum coral cor de leite, franjadinho como musgo e penduradinho de pingentes de pérola, que tremiam ao menor sopro.

O chão, de nácar furta-cor, era tão liso que Emília escorregou três vezes.

O príncipe deu o sinal de audiência batendo com uma grande pérola negra numa concha sonora. O mordomo introduziu os primeiros queixosos. Um bando de moluscos nus que tiritavam de frio. Vinham queixar-se dos Bernardos Eremitas.

— Quem são esses Bernardos? — indagou a menina.

— São uns caranguejos que têm o mau costume de se apropriarem das conchas destes pobres moluscos, deixando-os em carne viva no mar. Os piores ladrões que temos aqui.

O príncipe resolveu o caso mandando dar uma concha nova a cada molusco.

Depois apareceu uma ostra a se queixar dum caranguejo que lhe havia furtado a pérola.

— Era uma pérola ainda novinha e tão galante! — disse a ostra, enxugando as lágrimas. — Ele raptou-a só de mau, porque os caranguejos não se alimentam de pérolas, nem as usam como jóias. Com certeza já a largou por aí nas areias…

O príncipe resolveu o caso mandando dar à ostra uma pérola nova do mesmo tamanho.

Nisto surgiu na sala, muito apressada e aflita, uma baratinha de mantilha, que foi abrindo caminho por entre os bichos até alcançar o príncipe.

— A senhora por aqui? — exclamou este, admirado. – Que deseja?

— Ando atrás do Pequeno Polegar — respondeu a velha. – Há duas semanas que fugiu do livro onde mora e não o encontro em parte nenhuma. Já percorri todos os reinos encantados sem descobrir o menor sinal dele.

— Quem é esta velha? — perguntou a menina ao ouvido do príncipe. — Parece que a conheço…

— Com certeza, pois não há menina que não conheça a célebre Dona Carochinha das histórias, a baratinha mais famosa do mundo.

E voltando-se para a velha:

— Ignoro se o Pequeno Polegar anda aqui pelo meu reino. Não o vi, nem tive notícias dele, mas a senhora pode procurá-lo. Não faça cerimônia…

— Por que ele fugiu? — indagou a menina.

— Não sei — respondeu dona Carochinha — mas tenho notado que muitos dos personagens das minhas histórias já andam aborrecidos de viverem toda a vida presos dentro delas. Querem novidade. Falam em correr mundo a fim de se meterem em novas aventuras. Aladino queixa-se de que sua lâmpada maravilhosa está enferrujando. A Bela Adormecida tem vontade de espetar o dedo noutra roca para dormir outros cem anos. O Gato de Botas brigou com o marquês de Carabás e quer ir para os Estados Unidos visitar o Gato Félix. Branca de Neve vive falando em tingir os cabelos de preto e botar ruge na cara. Andam todos revoltados, dando-me um trabalhão para contê-los. Mas o pior é que ameaçam fugir, e o Pequeno Polegar já deu o exemplo.

Narizinho gostou tanto daquela revolta que chegou a bater palmas de alegria, na esperança de ainda encontrar pelo seu caminho algum daqueles queridos personagens.

— Tudo isso — continuou dona Carochinha — por causa do Pinóquio, do Gato Félix e sobretudo de uma tal menina do narizinho arrebitado que todos desejam muito conhecer. Ando até desconfiada que foi essa diabinha quem desencaminhou Polegar, aconselhando-o a fugir.

O coração de Narizinho bateu apressado.

— Mas a senhora conhece essa tal menina? — perguntou, tapando o nariz com medo de ser reconhecida.

— Não a conheço — respondeu a velha — mas sei que mora numa casinha branca, em companhia de duas velhas corocas.

Ah, por que foi dizer aquilo? Ouvindo chamar dona Benta de velha coroca, Narizinho perdeu as estribeiras.

— Dobre a língua! — gritou vermelha de cólera. — Velha coroca é vosmecê, e tão implicante que ninguém mais quer saber das suas histórias emboloradas. A menina do narizinho arrebitado sou eu, mas fique sabendo que é mentira que eu haja desencaminhado o Pequeno Polegar, aconselhando-o a fugir. Nunca tive essa “bela idéia”, mas agora vou aconselhá-lo, a ele e a todos os mais, a fugirem dos seus livros bolorentos, sabe?

A velha, furiosa, ameaçou-a de lhe desarrebitar o nariz da primeira vez em que a encontrasse sozinha.

— E eu arrebitarei o seu, está ouvindo? Chamar vovó de coroca! Que desaforo!…

Dona Carochinha botou-lhe a língua. uma língua muito magra e seca. e retirou-se furiosa da vida, a resmungar que nem uma negra beiçuda.

O príncipe respirou de alívio ao ver o incidente terminado.

Depois encerrou a audiência e disse ao primeiro-ministro:

— Mande convite a todos os nobres da corte para a grande festa que vou dar amanhã em honra à nossa distinta visitante. E diga a mestre Camarão que ponha o coche de gala para um passeio pelo fundo do mar. Já.
–––––––
continua…

Fonte:
LOBATO, Monteiro. Reinações de Narizinho. Col. O Sítio do Picapau Amarelo vol. I. Digitalização e Revisão: Arlindo_Sa

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57a. Feira do Livro de Porto Alegre


A Feira do Livro de Porto Alegre, promovida pela Câmara Rio-Grandense do Livro, e que já tem espaço reservado na agenda dos gaúchos a cada primavera, chega a sua 57ª edição com a expectativa de receber mais de 1.7 milhão de visitantes. Ocupará, mais uma vez, a já tradicional área da Praça da Alfândega,estendendo-se até o Cais do Porto, entre os dias 28 de outubro e 15 de novembro. Maior evento do mercado livreiro das Américas a céu aberto e com entrada franca, recebe autores e convidados de vários outros estados e países.

Serão cerca de 700 sessões de autógrafos, aproximadamente 200 palestras e debates, 400 encontros com autores, saraus, contações de histórias e outras atividades específicas para os públicos infantil e juvenil, principalmente alunos de escolas do ensino fundamental e da educação infantil, além da EJA. A intensa e diversificada programação também contará com seminários, oficinas, apresentações artísticas, exibições de filmes e a inauguração da biblioteca infantil Moacyr Scliar, em homenagem ao escrito gaúcho falecido este ano.

A principal novidade desta edição é a inclusão dos Dias Temáticos na programação. Diariamente, um tema diferente será abordado em, pelo menos, uma atividade na programação para adultos e em outra na Àrea Infantil e Juvenil. Os temas escolhidos são: Biblioteca; Livro e Leitura; Suspense; Literatura de Terror; Viagens; Cinema; Humor; Cultura Popular; Conto; Gastronomia; Afrodescendência; História; Antropologia; Corpo/Saúde/Erotismo; América Latina; Direitos Humanos e Acessibilidade; Dia Mundial da Gentileza; Ecologia e Comunicação.

Em 2010, a Feira do Livro foi reconhecida como patrimônio imaterial da cidade pela Secretaria Municipal da Cultura. Em 2006, já havia recebido a medalha da Ordem do Mérito Cultural, concedida pela Presidência da República, que reconheceu o evento como um dos mais importantes do Brasil.

HISTÓRICO

Realizada de forma ininterrupta há 57 anos, a Feira do Livro de Porto Alegre nasceu quando um grupo de livreiros, intelectuais e jornalistas organizou a primeira edição com o lema “Se o povo não vem à livraria, vamos levar a livraria ao povo”.

Considerada a maior feira de livros realizada a céu aberto nas Américas e uma das mais antigas do país, a Feira do Livro de Porto Alegre foi idealizada pelo jornalista Say Marques, diretor-secretário do Diário de Notícias. Inspirado por uma feira que visitara na Cinelândia no Rio de Janeiro, Marques convenceu livreiros e editores da cidade a participarem do evento. O objetivo era popularizar o livro, movimentando o mercado e oferecendo descontos atrativos. Na época, as livrarias eram consideradas elitistas, fato que motivou o lema dos fundadores e organizadores da primeira edição.

A Praça da Alfândega era um local muito movimentado nos anos 50, quando Porto Alegre tinha cerca de 400 mil habitantes. Assim, no dia 16 de novembro de 1955, era inaugurada a 1ª Feira do Livro, com 14 barracas de madeira instaladas em torno do monumento ao General Osório.

Na segunda edição do evento, foram iniciadas as sessões de autógrafos. Na terceira, passaram a ser vendidas coleções pelo sistema de crediário. Nos anos 70, a Feira assumiu o status de evento popular, com o início da programação cultural. A partir de 1980, foi admitida a venda de livros usados.

Foi nos anos 90 que a Feira ampliou-se, obrigando os seus visitantes a algumas voltas a mais, com um número maior de barracas e o uso de novos espaços, incorporando a suas atividades encontros com autores, além dos tradicionais autógrafos. Em 94, algumas alamedas ganharam cobertura pois é histórica a relação da Feira com a chuva. No ano seguinte, 1996, a Feira passou por um processo de profissionalização graças à possibilidade de se captar patrocínios através da Lei Nacional de Apoio à Cultura (Lei Rouanet), e foi criado um espaço para as crianças.

A Feira tem acompanhado a transformação e internacionalização da cidade de Porto Alegre, que passou a receber grandes festivais e exposições (como o Porto Alegre em Cena e a Bienal do Mercosul).

No inicio dos anos 2000, a partir de conquistas na área do patrimônio e criação de novos centros culturais no entorno da Praça da Alfândega (como o Santander Cultural e o Centro Cultural CEEE Erico Verissimo, além dos já existentes Museu de Arte do RS Ado Malagoli – Margs e Memorial do RS), a programação cultural da Feira do Livro cresceu em número de autores participantes e público visitante.

Em 2006, a Feira foi reconhecida pela Presidência da República como um dos eventos mais importantes do país e, em 2010, como patrimônio imaterial da Cidade de Porto Alegre pela Secretaria Municipal da Cultura.

PATRONO

Jane Tutikian

A revelação do nome da quarta mulher na história da Feira a ocupar este posto ocorreu em café da manhã nesta terça-feira (27) no Moeda Bar e Restaurante, do Santander Cultural

“Mulheres, cheguei!” Com esta frase vitoriosa e bem humorada a escritora Jane Tutikian recebeu o anúncio de seu nome como Patrona da 57ª Feira do Livro de Porto Alegre. O patrono da 56ª Feira do Livro de Porto Alegre, Paixão Côrtes, e os antecessores Alcy Cheiuche (52ª) e Walter Galvani (49ª) participaram do momento solene da revelação. O presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro (CRL), João Carneiro, retirou o envelope e avisou: “A Feira do Livro deste ano não tem Patrono”. A plateia, composta por representantes da CRL, autoridades, imprensa e convidados, fixou os olhos na única mulher posicionada entre os outros três patronáveis, Luiz Coronel, Airton Ortiz e Celso Gutfreind.

Emocionada, a professora de Literatura que há três décadas se dedica aos livros, declarou: “Escrever é uma boa forma de estar entre as pessoas. E não tem forma melhor ainda de estar entre as pessoas do que na Feira do Livro, na ‘feira do povo’.”

E, de fato, a Câmara trabalha para envolver cada vez mais a população nesta que é a maior feira de livros a céu aberto das Américas. Para esta edição, a entidade proporcionou o voto dos leitores sugerindo a livreiros que abrissem seu voto em favor da participação de seus clientes. Além da comunidade, votaram ex-presidentes, associados da Câmara, patronos anteriores, representantes do Conselho Estadual de Cultura e do Conselho Estadual de Educação, titulares de entidades vinculadas ao livro, autoridades, reitores de universidades, representantes dos patrocinadores e apoiadores.

Jane Tutikian vence a eleição na sexta vez em que concorre ao posto, 13 anos depois de uma escritora gaúcha receber a mesma homenagem e pouco menos de um ano depois de os brasileiros terem escolhido a sua primeira presidenta. Na história da Feira do Livro, outras três mulheres já figuram na lista de Patronos: Maria Dinorah do Prado (1989), Lya Luft (1996) e Patrícia Bins (1998).

Fonte:
http://www.feiradolivro-poa.com.br/

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57a. Feira do Livro de Porto Alegre (Programação de 29 de Outubro, Sábado)


3º Seminário Nacional Redes de Leitura – Leitura, Vida e a Formação do Leitor
29/10/2011 – 09:00

Leitura de trechos de obras de Bartolomeu Campos de Queirós
Grupo escoteiro Guia Lopes do Grêmio Náutico União
29/10/2011 – 09:00

3º Seminário Nacional Redes de Leitura – Leitura, Vida e a Formação do Leitor
29/10/2011 – 09:30

Mesa de Abertura Leitura e Vida
O Monstro Monstruoso e a caverna cavernosa, de Rosana Rios
29/10/2011 – 10:30

Contação de história com Valquíria Cardoso
A Arte Levada a Sério
29/10/2011 – 11:00

A vida de Leon Tolstoi
29/10/2011 – 14:00
O grande escritor russo prossegue sua obra no além

Oficina: Contando histórias para crianças hospitalizadas
29/10/2011 – 14:00
Oficina de contação de histórias em hospitais para crianças e adolescentes. Módulo 1/3

3º Seminário Nacional Redes de Leitura – Leitura, Vida e a Formação do Leitor
29/10/2011 – 14:00
Formando leitores nas comunidades – Compartilhamento experiências de formação do leitor realizadas nas bibliotecas comunitárias

Projeto Conte Mais
29/10/2011 – 14:00

Contação de histórias com as contadoras Gladis Pedersen e Rosiliane Goulart
3º Seminário Nacional Redes de Leitura – Leitura, Vida e a Formação do Leitor
29/10/2011 – 14:00
Formando leitores nas comunidades – Compartilhamento experiências de formação do leitor realizadas nas bibliotecas comunitárias

Show de Trovas e Trovadores
29/10/2011 – 14:00
União Brasileira de Trovadores

Garibaldi, História e Literatura: Perspectivas Internacionais
29/10/2011 – 14:00

A literatura infantil como ferramenta para o desenvolvimento humano
29/10/2011 – 14:30

O hábito da leitura na formação da criança
Tenda.doc: Moacyr Scliar – Palavra de escritor
29/10/2011 – 14:30
Autores contam tudo e mais um pouco

A Saga de Júlio no Parque dos Delírios
29/10/2011 – 14:30

Onde a religião termina?
29/10/2011 – 15:00
Escrito por um ex-padre católico, o livro apresenta uma esclarecedora desconstrução dos fundamentos da crença religiosa

Show de trovas
29/10/2011 – 15:00
Com a União Brasileira de Trovadores

Caravana da Fantasia conta o Patinho Feio
29/10/2011 – 15:00

Teatro Infantil
O Aniversário
29/10/2011 – 15:00

A resolução da palavra
29/10/2011 – 15:30

Reflexão acerca das transformações que as mídias digitais trazem para o universo da leitura e da escrita
Paixão de Primavera
29/10/2011 – 15:30

A vida é breve e passa ao lado
29/10/2011 – 15:30

Três Marias, Três Destinos
29/10/2011 – 15:30

Miramar a Vida e suas sentimentalidades
29/10/2011 – 15:30

Políticas do livro e leitura
29/10/2011 – 16:00

Oficina: Referências Bibliográficas
29/10/2011 – 16:00
Referências bibliográficas: tire suas dúvidas. Módulo 1/2

Memórias de um aprendiz de escritor
29/10/2011 – 16:00
Encenação da crônica “Memórias de um aprendiz de escritor” em uma homenagem a Moacyr Scliar

3º Seminário Nacional Redes de Leitura – Leitura, Vida e a Formação do Leitor
29/10/2011 – 16:00

Painel – Formação do Eu Leitor Bate-papo com personalidades da cidade que se destacam como leitores

Perspectivas Freireanas no Processo de (Trans) Formação de Pedagogos – Tecitura de Olhares acercada Educação a Distância
29/10/2011 – 16:00

Paragens
29/10/2011 – 16:00

Despalavras
29/10/2011 – 16:00

Agenda virArte 2012
29/10/2011 – 16:00

A rua barulhenta
29/10/2011 – 16:00

Mãe de dois
29/10/2011 – 16:30

Desafios e emoções de uma mulher com o dom de gerar outra vida
Veredas da Paz
29/10/2011 – 16:30

Quando o céu madruga estrelas
29/10/2011 – 16:30

Feito pra você
29/10/2011 – 16:30

O livro negro da psicopatologia contemporânea
29/10/2011 – 16:30

Ecos do Planeta
29/10/2011 – 16:30

Onde a Religião Termina?
29/10/2011 – 16:30

Cartas à Família
29/10/2011 – 16:30

Apresentação da biblioteca do clube
29/10/2011 – 17:00

Reunião do Clube dos Editores
Oficina: Design Editorial
29/10/2011 – 17:00
O design do texto, do livro e a tipografia. Módulo 1/3

Enamorados – como Papai e mamãe se apaixonaram
29/10/2011 – 17:00

Teatro Infantil
A Arte Levada a Sério
29/10/2011 – 17:00

Dever de casa
29/10/2011 – 17:00

3º Seminário Nacional Redes de Leitura – Leitura, Vida e a Formação do Leitor
29/10/2011 – 17:30

Sarau de poemas de Bartolomeu Campos de Queirós
Receitas para meus filhos
29/10/2011 – 17:30

A revolução dos nichos: Do big bang à personalização em Massa
29/10/2011 – 17:30

Ao Vento, Sobranceiro
29/10/2011 – 17:30

Mãe de Dois
29/10/2011 – 17:30

O Poeta mais velho do mundo
29/10/2011 – 17:30

A Árvore
29/10/2011 – 17:30

Biblioteca pública – 140 anos
29/10/2011 – 18:00
Painel sobre a história da biblioteca e mostra da obra de restauro do prédio, em comemoração aos 140 anos da Biblioteca Pública do Estado do RS

Bate-papo com a Patrona Jane Tutikian
29/10/2011 – 18:00
Escritora fala sobre sua obra. Convidados fazem leitura de textos

Contos Cantados com Valquíria Cardoso
29/10/2011 – 18:00

Poemas à Flor da Pele Vol 4
29/10/2011 – 18:00

Autores Gaúchos 2011
29/10/2011 – 18:00

Livros e bibliotecas – políticas públicas para o desenvolvimento das bibliotecas
29/10/2011 – 18:30

A importância para o fortalecimento das práticas sociais da leitura no país
Ofícios Antigos de Porto Alegre
29/10/2011 – 18:30

A Fronteira onde Borges Encontra o Brasil
29/10/2011 – 18:30

Elegia à Lesma
29/10/2011 – 18:30

Oficina: Design Editorial
29/10/2011 – 19:00

O livro e a página impressa. Módulo 2/3

Cine Santander Cultural
29/10/2011 – 19:00
Sessão Comentada

2º Seminário Reinações – O fantástico e a literatura infantojuvenil
29/10/2011 – 19:00

Palestra
Médice – A verdadeira história
29/10/2011 – 19:30

Runa, a bruxa, o cientista e o orfanato
29/10/2011 – 19:30

Marcas, passagens e condensações: investigações de um processo em gravura contemporânea
29/10/2011 – 19:30

Contos e Crônicas Vol 1 Poemas à Flor da Pele
29/10/2011 – 20:00

Nova ortografia integrada
29/10/2011 – 20:30

Os viajantes medievais da rota da seda (séculos V-XV)
29/10/2011 – 20:30

Impresso no Brasil
29/10/2011 – 20:30
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continua … Programação de 30 de Outubro, domingo

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Wagner Marques Lopes (Trova Ecológica 36)

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28 de outubro de 2011 · 00:56

Ialmar Pio Schneider (Ausência de Amor)


Nascimento de Graciliano Ramos em 27.10.1892

Tenho procurado retirar subsídios nos livros que leio com alguma assiduidade, para escrever as páginas dos meus relatos e observações pessoais, como o faço aqui e agora. Creio na literatura em geral, pois representando o pensamento de seus autores, vem suprir meu ideal de compreensão nos destinos da existência. Nada foi escrito em vão, desde os primórdios da humanidade até os nossos dias e continuará sendo, certamente, no futuro. A lógica confirma isto, uma vez que a comunicação entre os seres humanos se faz por meio da escrita, embora o grande avanço da tecnologia neste setor. O assunto a ser abordado, a meu ver e de muitos outros, é universal e palpitante. Quantos dramas não acontecem em conseqüência deste motivo que não é banal ?! Serve de reflexão para uma vida menos árdua e mais amena, senão satisfatória e feliz. Dir-se-ia que o amor deverá ser o leitmotiv presente no coração de todos os mortais, para atingir a plenitude do espírito inquieto.

No romance São Bernardo, de Graciliano Ramos, vamos encontrar uma significativa falta de amor, notadamente por parte do principal personagem e narrador da história: Paulo Honório. Podemos entender este seu comportamento devido às agruras da vida, que já desde a infância miserável, teve que passar. Quando jovem matou uma pessoa, tendo ficado alguns anos na cadeia. Depois, trabalhou no eito e foi se recalcando. Assim transcorrem as primeiras páginas do livro.

Passados alguns anos, Paulo Honório resolve se apossar da fazenda “São Bernardo” onde trabalhara tempos atrás. Para fazê-lo trama uma armadilha ao herdeiro da propriedade, o Padilha Filho, que é bêbado e jogador inveterado de bilhar. Empresta-lhe dinheiro para o jogo, que o Padilha vai queimando, até chegar à hipoteca do imóvel. Daí até chegar à posse foi um tapa; e a escritura foi assinada sem mais delongas.

Paulo Honório, agora já proprietário da fazenda, começa a desenvolver uma administração satisfatória, conseguindo bons resultados em seus empreendimentos. Vai de vento em popa. Adquire prestígio e dinheiro lhe sobra.

Dada à situação em que se encontra, resolve casar, não tanto por amor, mas para deixar um herdeiro. Encontra Madalena, jovem professora, loira e bonita e em breve está casado. Sua consorte, que é humanitária e meiga, dedica muita afeição às pessoas humildes da fazenda, o que causa em Paulo Honório, um terrível ciúme doentio. Começam as desavenças do casal e Madalena suicida-se, deixando-lhe um filho.

Já então quase no final do romance, Paulo Honório está sozinho e resolve escrever sua história. Seu desabafo não poderia ser mais dramático:

“- Estraguei a minha vida, estraguei-a estupidamente”.
____________________________________
31 de março de 2000 – Canoas/RS

Fonte:
Texto enviado pelo autor

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Graciliano Ramos (Um Cinturão)


As minhas primeiras relações com a justiça foram dolorosas e deixaram-me funda impressão. Eu devia ter quatro ou cinco anos, por aí, e figurei na qualidade de réu (1). Certamente já me haviam feito representar esse papel, mas ninguém me dera a entender que se tratava de julgamento. Batiam-me porque podiam bater-me, e isto era natural.

Os golpes que recebi antes do caso do cinturão, puramente físicos, desapareciam quando findava a dor. Certa vez minha mãe surrou-me com uma corda nodosa que me pintou as costas de manchas sangrentas. Moído, girando a cabeça com dificuldade, eu distinguia nas costelas grandes lanhos vermelhos. Deitaram-me, enrolaram-me em panos molhados com água de sal — e houve uma discussão na família. Minha avó, que nos visitava, condenou o procedimento da filha e esta afligiu-se. Irritada, ferira-me à toa, em querer. Não guardei ódio a minha mãe: o culpado era o nó. Se não fosse ele, a flagelação me haveria causado menor estrago. E estaria esquecida. A história do cinturão, que veio pouco depois, avivou-a.

Meu pai dormia na rede, armada na sala enorme. Tudo é nebuloso. Paredes extraordinariamente afastadas, rede infinita, os armadores longe, e meu pai acordando, levantando-se de mau humor, batendo com os chinelos no chão, a cara enferrujada. Naturalmente não me lembro da ferrugem, das rugas, da voz áspera, do tempo que ele consumiu rosnando uma exigência. Sei que estava bastante zangado, e isto me trouxe a covardia habitual. Desejei vê-lo dirigir-se a minha mãe e a José Baía, pessoas grandes, que não levavam pancada. Tentei ansiosamente fixar-me nessa esperança frágil. A força de meu pai encontraria resistência e gastar-se-ia em palavras.

Débil e ignorante, incapaz de conversa ou defesa, fui encolher-me num canto, para lá dos caixões verdes. Se o pavor não me segurasse, tentaria escapulir-me: pela porta da frente chegaria ao açude, pela do corredor acharia o pé de turco. Devo ter pensado nisso, imóvel, atrás dos caixões. Só queria que minha mãe, sinhá Leopoldina, Amaro e José Baía surgissem de repente, me livrassem daquele perigo.

Ninguém veio, meu pai me descobriu acocorado e sem fôlego, colado ao muro, e arrancou-me dali violentamente, reclamando um cinturão. Onde estava o cinturão? Eu não sabia, mas era difícil explicar-me: atrapalhava-me, gaguejava, embrutecido, sem atinar com o motivo da raiva. Os modos brutais, coléricos, atavam-me; os sons duros morriam, desprovidos de significação.

Não consigo reproduzir toda a cena. Juntando vagas lembranças dela a fatos que se deram depois, imagino os berros de meu pai, a zanga terrível, a minha tremura infeliz. Provavelmente fui sacudido. O assombro gelava-me o sangue, escancarava-me os olhos.

Onde estava o cinturão? Impossível responder. Ainda que tivesse escondido o infame objeto, emudeceria, tão apavorado me achava. Situações deste gênero constituíram as maiores torturas da minha infância, e as conseqüências delas me acompanharam.

O homem não me perguntava se eu tinha guardado a miserável correia: ordenava que a entregasse imediatamente. Os seus gritos me entravam na cabeça, nunca ninguém se esgoelou de semelhante maneira.

Onde estava o cinturão? Hoje não posso ouvir uma pessoa falar alto. O coração bate-me forte, desanima, como se fosse parar, a voz emperra, a vista escurece, uma cólera doida agita coisas adormecidas cá dentro. A horrível sensação de que me furam os tímpanos com pontas de ferro (2).

Onde estava o cinturão? (3) A pergunta repisada ficou-me na lembrança: parece que foi pregada a martelo.

A fúria louca ia aumentar, causar-me sério desgosto. Conservar-me-ia ali desmaiado, encolhido, movendo os dedos frios, os beiços trêmulos e silenciosos. Se o moleque José ou um cachorro entrasse na sala, talvez as pancadas se transferissem. O moleque e os cachorros eram inocentes, mas não se tratava disto. Responsabilizando qualquer deles, meu pai me esqueceria, deixar-me-ia fugir, esconder-me na beira do açude ou no quintal.

Minha mãe, José Baía, Amaro, sinhá Leopoldina, o moleque e os cachorros da fazenda abandonaram-me. Aperto na garganta, a casa a girar, o meu corpo a cair lento, voando, abelhas de todos os cortiços enchendo-me os ouvidos — e, nesse zunzum, a pergunta medonha. Náusea, sono. Onde estava o cinturão? Dormir muito, atrás dos caixões, livre do martírio.

Havia uma neblina, e não percebi direito os movimentos de meu pai. Não o vi aproximar-se do torno e pegar o chicote. A mão cabeluda prendeu-me, arrastou-me para o meio da sala, a folha de couro fustigou-me as costas. Uivos, alarido inútil, estertor. Já então eu devia saber que rogos e adulações exasperavam o algoz. Nenhum socorro. José Baía, meu amigo, era um pobre-diabo.

Achava-me num deserto. A casa escura, triste; as pessoas tristes. Penso com horror nesse ermo, recordo-me de cemitérios e de ruínas mal-assombradas. Cerravam-se as portas e as janelas, do teto negro pendiam teias de aranha. Nos quartos lúgubres minha irmãzinha engatinhava, começava a aprendizagem dolorosa (4).

Junto de mim, um homem furioso, segurando-me um braço, açoitando-me. Talvez as vergastadas não fossem muito fortes: comparadas ao que senti depois, quando me ensinaram a carta de A B C, valiam pouco. Certamente o meu choro, os saltos, as tentativas para rodopiar na sala como carrapeta, eram menos um sinal de dor que a explosão do medo reprimido. Estivera sem bulir, quase sem respirar. Agora esvaziava os pulmões, movia-me, num desespero.

O suplício durou bastante, mas, por muito prolongado que tenha sido, não igualava a mortificação da fase preparatória: o olho duro a magnetizar-me, os gestos ameaçadores, a voz rouca a mastigar uma interrogação incompreensível.

Solto, fui enroscar-me perto dos caixões, coçar as pisaduras, engolir soluços, gemer baixinho e embalar-me com os gemidos. Antes de adormecer, cansado, vi meu pai dirigir-se à rede, afastar as varandas, sentar-se e logo se levantar, agarrando uma tira de sola, o maldito cinturão, a que desprendera a fivela quando se deitara. Resmungou e entrou a passear agitado. Tive a impressão de que ia falar-me: baixou a cabeça, a cara enrugada serenou, os olhos esmoreceram, procuraram o refúgio onde me abatia, aniquilado.

Pareceu-me que a figura imponente minguava — e a minha desgraça diminuiu. Se meu pai se tivesse chegado a mim, eu o teria recebido sem o arrepio que a presença dele sempre me deu. Não se aproximou: conservou-se longe, rondando, inquieto. Depois se afastou.

Sozinho, vi-o de novo cruel e forte, soprando, espumando. E ali permaneci, miúdo, insignificante, tão insignificante e miúdo como as aranhas que trabalhavam na telha negra.

Foi esse o primeiro contato que tive com a justiça.

“Um Cinturão” – 1945 – de Graciliano Ramos

Sinopse: O primeiro contato de um menino com o conceito de justiça por intermédio do pai.

Comentários:
A narrativa é feita na primeira pessoa num tom confessional
(1). Graciliano deixa vir à tona reminiscências de sua infância, externa seus traumas e faz da literatura um caminho para uma auto-psicanálise espontânea. Reflete sobre as conseqüências do fato narrado

(2) e exorciza suas aflições. Provoca no leitor as mesmas reflexões à medida que este se identifica de alguma forma com texto. As cenas são desvendas num universo enevoado como são as próprias lembranças, encobertas pelas brumas do passado, esparsas como as próprias reminiscências infantis

(4). Através da riqueza da narrativa o leitor é induzido a partilhar o pavor que o menino sente, a dor e a revolta, é tocado fundo em seu coração com uma descrição crua, direta, arrasadora. Além do fato, o autor descreve as sensações com criativas figuras de linguagem. O tempo do conto é um momento, uma passagem breve que durará para sempre na memória do menino. Para marcar o clima de tensão e suspense, Graciliano usa um refrão (3), como se sua prosa fosse poesia, música. E é.

Fonte:
MORRICONI, Ítalo (seleção). “Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século” – Diversos Autores. editora Objetiva , 2000.

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Júlia Lopes de Almeida (Arte Culinária)


Para saber comer, é preciso não ter fome. Quem tem fome não saboreia, engole. Ora, desde que o enfarruscador ofício de temperar panelas se enfeitou com o nome de arte culinária, temos uma certa obrigação de cortesia para com ele. E concordemos que é uma arte pródiga e fértil. Cada dia surge um pratinho novo com mil composições extravagantes, que espantam as menagères pobres e deleitam os cozinheiros da raça! Dão-se nomes literários, designações delicadas, procuradas com esforço, para condizer com a raridade do acepipe. Os temperos banais, das velhas cozinhas burguesas, vão-se perdendo na sombra dos tempos. Falar em alhos, salsa, vinagre, cebola verde, hortelã ou coentro, arrepia a cabeluda epiderme dos mestres dos fogões atuais. Agora em todas as despensas devem brilhar rótulos estrangeiros de conservas assassinas, e alcaparras, trutas, manteiga dinamarquesa (o toucinho passou a ser ignominioso), vinho Madeira para adubo do filet, enfim tudo o que houver de mais apurado, cheiroso e… Caro!

As exigências crescem, ameaçam-nos e, sem paradoxo, somos comidos pelo que comemos. Isto vem à propósito de uma exposição de arte culinária que se fez, há pouco tempo, em Paris. Imaginem como aquilo deve ser encantador e apetitoso!

Quem já viu as vitrines das charcuteries, das crémeries, das confeitarias, etc., e que sabe com quanto mimo e elegância são expostos os queijos, os paios e os pastéis, entre bouquets de lilases e fofos caixões de papéis de seda bem combinados, crespos e leves como plumas, imagina que de novidades graciosas se juntarão no Palácio da Indústria.

Naturalmente, cada expositor é um arquiteto e um artista na combinação das cores. Fazem-se castelos de biscoitos, torres engenhosas de chocolate, de creme, de morangos, onde tremulem, em cristalizações policromas, as gelatinas de frutas ou de aves, refletindo luzes entre lacinhos de fita e flores frescas, porque o francês tem a preocupação gentilíssima de deleitar sempre os olhos alheios.

Abençoada mania!

O que eu invejo não são as trutas, nem os champignons, nem o seu foiegras, porque tudo isso temos nós aqui e mais muitas coisas que eles lá desconhecem. O que eu invejo é aquela facilidade, aquela graça das exposições que se sucedem e se multiplicam e que não podem deixar de ser úteis, porque abrem a curiosidade e ensinam muito.

A cozinha francesa tem-se intrometido em toda a parte.

A Inglaterra opõe-lhe forte resistência com as suas batatas cozidas e presunto cru; mas a nossa, por exemplo, está muito modificada por ela. Entretanto, temos pratos característicos, só nossos e que eu teimo em achar gostosos. Infelizmente falta-lhes o chic, o lado onde se possa atar a tal fitinha ou colocar o bouquet de violetas do inverno ou do muquet da primavera. O feijão preto com o respectivo e lutuoso acompanhamento não se presta por certo para a coquetterie de um adorno mimoso, mas nem por isso deixa de ser da primeira linha. Depois temos os pratos baianos, o afamado vatapá e outros, quentes e lúbricos, e o churrasco do Rio Grande, e o cuscuz de S. Paulo, e tantos que eu ignoro e que descobrem, demonstram, por assim dizer, as tendências, o temperamento do povo.

Um país como o Brasil tão vasto e variado não teria proporções mais curiosas para realizar uma exposição neste gênero?

Só de frutas, que, tratando-se da mesa, tem todo o lugar, e de doces… Imaginem: faríamos um figurão! Geralmente caluniam-se as frutas brasileiras e parece-me tempo de lhes irmos dando a merecida importância. Não há nenhum brasileiro que conheça todas as frutas do seu país. O europeu desdenha-nos nesse sentido; esquece-se de que em muitos lugares do Paraná, Minas e Rio Grande, desenvolvem-se pêras magníficas, damascos, cerejas, nozes, etc. E as frutas e as hortaliças indígenas? Inumeráveis! O que falta à nossa gourmandise é poder agrupá-las, poder escolher, na mesma terra, estas ou aquelas, e isso só se poderá fazer se houver aqui, algum dia, como agora em Paris, quem dê importância à mesa, e procure, por meio de exposições, facilitar esse ramo de comércio, educar o povo, e dar-lhe um elemento novo de prazer e de saúde.

A exposição parisiense tem ainda um fito, e é a sua principal recomendação e a mais elevada, — é o de ensinar, por meio do exemplo, a cozinhar bem. Um dos seus cantos é ocupado por M. Charles Driessens, que segundo leio, luta há dez anos com desesperada energia para fazer entrar o ensino da cozinha no programa do Estado. Este tal M. Driessens tem várias escolas de cozinha, e ali trabalham umas cinquenta discípulas, mostrando a toda a gente como se deve fazer um creme, estender uma massa, temperar uma salada, grelhar um bife ou enfeitar uns pezinhos de carneiro com papelotes e rosetas.

As senhoras não nasceram para falar em camarões, carne ou palmito, em público; mas, senhores românticos, lembrai-vos de que nem sempre nos bastam o brilho das estrelas nem o murmulho das ondas para conversar com as amigas!

Fonte:
Júlia Lopes de Almeida. Livro das Donas e Donzelas. Belém/PA: Núcleo de Educação a Distancia da Universidade da Amazonia (UNAMA).

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 377)

Uma Trova Nacional

Os desertos mais incríveis
que, na vida, ultrapassei
foram sonhos impossíveis
que eu quase concretizei!…
–MARIA NASCIMENTO/RJ–

Uma Trova Potiguar

A negritude das tranças,
dos teus cabelos, querida,
hoje é parte das lembranças
da aurora de nossa vida.
–MARCOS MEDEIROS/RN–

Uma Trova Premiada

2010 – CTS-Caicó/RN
Tema: OCASO – 7º Lugar

Vivo, no ocaso, otimista
pois, quando o sol vai-se embora,
vejo o pincel de um Artista
pondo, em meu céu… tons de aurora…
–MARINA BRUNA/RJ–

Uma Trova de Ademar

Quem se entrega a solidão
e dela se faz refém,
anda em meio à multidão
mas não enxerga ninguém!
–ADEMAR MACEDO/RN–

…E Suas Trovas Ficaram

Partiste, chorando tanto,
no teu rumo, oposto ao meu,
que, solidário ao teu pranto,
o céu fechou-se… choveu…
–ALOÍSIO ALVES DA COSTA/CE–

Simplesmente Poesia


–ANTONIO M. A. SARDENBERG/RJ–

A ferro e fogo fez minha ferida.
Fingi ser forte, embora sendo fraco,
perdi a rota, o rumo da vida…
cristal partido, agora sou um caco!

Lancei o laço em busca da presa,
fera indefesa, que se fez tão forte,
fugiu de mim com tanta sutileza!
Fiquei perdido como nau sem norte…

Senti na carne o tanger da lança,
ouvi calado o ranger dos dentes,
e foi-se assim toda a esperança:
fazer–te minha – minha tão somente!

Estrofe do Dia

Meu irmão pode entrar que a casa é sua
pois aqui todos nós somos irmãos
nos abrace e aperte as nossas mãos
que assim nossa fé se perpetua;
o rebanho de cristo continua
nesse aprisco que agora é todo meu,
faça aqui entre nós seu apogeu
tome conta das chaves da matriz;
o rebanho de Cristo está feliz
com o novo pastor que recebeu.
–SEBASTIÃO DA SILVA/PB–

Soneto do Dia

AMIZADE.
–HAROLDO LYRA/CE–

Depois de salpicada uma amizade,
Por leve farpa num fugaz momento,
Traz o fato, humana realidade,
Carência de afeto e entendimento.

Se à prosa que se faz se põe maldade,
Perde, a amizade, o doce encantamento.
Há de perder também sinceridade
E lesto se avizinha o rompimento.

Mas, valham as que têm, irrelevante,
O dardo que feriu por um instante
Involuntariamente a fidalguia.

Nisso, aquela que impõe severa norma,
Inexoravelmente se transforma
Em triste olá de falsa cortesia.

Fonte:
Textos enviados pelo Autor

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Monteiro Lobato (Reinações de Narizinho) Cap. I e II


I
NARIZINHO ARREBITADO

Numa casinha branca, lá no sítio do Pica-pau Amarelo, mora uma velha de mais de sessenta anos. Chama-se dona Benta. Quem passa pela estrada e a vê na varanda, de cestinha de costura ao colo e óculos de ouro na ponta do nariz, segue seu caminho pensando:

— Que tristeza viver assim tão sozinha neste deserto…

Mas engana-se. Dona Benta é a mais feliz das vovós, porque vive em companhia da mais encantadora das netas — Lúcia, a menina do narizinho arrebitado, ou Narizinho como todos dizem.

Narizinho tem sete anos, é morena como jambo, gosta muito de pipoca e já sabe fazer uns bolinhos de polvilho bem gostosos.

Na casa ainda existem duas pessoas — tia Nastácia, negra de estimação que carregou Lúcia em pequena, e Emília, uma boneca de pano bastante desajeitada de corpo. Emília foi feita por tia Nastácia, com olhos de retrós preto e sobrancelhas tão lá em cima que é ver uma bruxa. Apesar disso Narizinho gosta muito dela; não almoça nem janta sem a ter ao lado, nem se deita sem primeiro acomodá-la numa redinha entre dois pés de cadeira.

Além da boneca, o outro encanto da menina é o ribeirão que passa pelos fundos do pomar. Suas águas, muito apressadinhas e mexeriqueiras, correm por entre pedras negras de limo, que Lúcia chama as “tias Nastácias do rio”.

Todas as tardes Lúcia toma a boneca e vai passear à beira d’água, onde se senta na raiz dum velho ingazeiro para dar farelo de pão aos lambaris.

Não há peixe do rio que a não conheça; assim que ela aparece, todos acodem numa grande faminteza. Os mais miúdos chegam pertinho; os graúdos parece que desconfiam da boneca, pois ficam ressabiados, a espiar de longe. E nesse divertimento leva a menina horas, até que tia Nastácia apareça no portão do pomar e grite na sua voz sossegada:

— Narizinho, vovó está chamando!…

II
UMA VEZ…

Uma vez, depois de dar comida aos peixinhos, Lúcia sentiu os olhos pesados de sono. Deitou-se na grama com a boneca no braço e ficou seguindo as nuvens que passeavam pelo céu, formando ora castelos, ora camelos. E já ia dormindo, embalada pelo mexerico das águas, quando sentiu cócegas no rosto. Arregalou os olhos: um peixinho vestido de gente estava de pé na ponta do seu nariz.

Vestido de gente, sim! Trazia casaco vermelho, cartolinha na cabeça e guarda-chuva na mão — a maior das galantezas! O peixinho olhava para o nariz de Narizinho com rugas na testa, como quem não está entendendo nada do que vê.

A menina reteve o fôlego de medo de o assustar, assim ficando até que sentiu cócegas na testa. Espiou com o rabo dos olhos. Era um besouro que pousara ali. Mas um besouro também vestido de gente, trajando sobrecasaca preta, óculos e bengala.

Lúcia imobilizou-se ainda mais, tão interessada estava achando aquilo.

Ao ver o peixinho, o besouro tirou o chapéu, respeitosamente.

— Muito boas tardes, senhor príncipe! — disse ele.

— Viva, mestre Cascudo! — foi a resposta.

— Que novidade traz Vossa Alteza por aqui, príncipe?

— É que lasquei duas escamas do filé e o doutor Caramujo me receitou ares do campo. Vim tomar o remédio neste prado que é muito meu conhecido, mas encontrei cá este morro que me parece estranho — e o príncipe bateu com a biqueira do guarda-chuva na ponta do nariz de Narizinho e disse:

— Creio que é de mármore — observou.

Os besouros são muito entendidos em questões de terra, pois vivem a cavar buracos. Mesmo assim aquele besourinho de sobrecasaca não foi capaz de adivinhar que qualidade de “terra” era aquela. Abaixou-se, ajeitou os óculos no bico, examinou o nariz de Narizinho e disse:

— Muito mole para ser mármore. Parece antes requeijão.

— Muito moreno para ser requeijão. Parece antes rapadura — volveu o príncipe.

O besouro provou a tal terra com a ponta da língua.

— Muito salgada para ser rapadura. Parece antes…

Mas não concluiu, porque o príncipe o havia largado para ir examinar as sobrancelhas.

— Serão barbatanas, mestre Cascudo? Venha ver. Por que não leva algumas para os seus meninos brincarem de chicote?

O besouro gostou da idéia e veio colher as barbatanas. Cada fio que arrancava era uma dorzinha aguda que a menina sentia — e bem vontade teve ela de o espantar dali com uma careta! Mas tudo suportou, curiosa de ver em que daria aquilo.

Deixando o besouro às voltas com as barbatanas, o peixinho foi examinar as ventas.

— Que belas tocas para uma família de besouros! — exclamou.

— Por que não se muda para aqui, mestre Cascudo? Sua esposa havia de gostar desta repartição de cômodos.

O besouro, com o feixe de barbatanas debaixo do braço, lá foi examinar as tocas. Mediu a altura com a bengala.

— Realmente, são ótimas — disse ele. — Só receio que more aqui dentro alguma fera peluda.

E para certificar-se cutucou bem lá no fundo.

— Hu! Hu! Sai fora, bicho imundo!…

Não saiu fera nenhuma, mas como a bengala fizesse cócegas no nariz de Lúcia, o que saiu foi um formidável espirro — Atchim!… e os dois bichinhos, pegados de surpresa, reviraram de pernas para o ar, caindo um grande tombo no chão.

— Eu não disse? — exclamou o besouro, levantando-se e escovando com a manga a cartolinha suja de terra. — É, sim, ninho de fera, e de fera espirradeira! Vou-me embora. Não quero negócios com essa gente. Até logo, príncipe! Faço votos para que sare e seja muito feliz.

E lá se foi, zumbindo que nem um avião. O peixinho, porém, que era muito valente, permaneceu firme, cada vez mais intrigado com a tal montanha que espirrava. Por fim a menina teve dó dele e resolveu esclarecer todo o mistério. Sentou-se de súbito e disse:

— Não sou montanha nenhuma, peixinho. Sou Lúcia, a menina que todos os dias vem dar comida a vocês. Não me reconhece?

— Era impossível reconhecê-la, menina. Vista de dentro d’água parece muito diferente…

— Posso parecer, mas garanto que sou a mesma. Esta senhora aqui é a minha amiga Emília.

O peixinho saudou respeitosamente a boneca, e em seguida apresentou-se como o príncipe Escamado, rei do reino das Águas Claras.

— Príncipe e rei ao mesmo tempo! — exclamou a menina batendo palmas. — Que bom, que bom, que bom! Sempre tive vontade de conhecer um príncipe-rei.

Conversaram longo tempo, e por fim o príncipe convidou-a para uma visita ao seu reino. Narizinho ficou no maior dos assanhamentos.

— Pois vamos e já — gritou — antes que tia Nastácia me chame.

E lá se foram os dois de braços dados, como velhos amigos. A boneca seguia atrás sem dizer palavra.

— Parece que dona Emília está emburrada — observou o príncipe.

— Não é burro, não, príncipe. A pobre é muda de nascença. Ando à procura de um bom doutor que a cure.

— Há um excelente na corte, o célebre doutor Caramujo. Emprega umas pílulas que curam todas as doenças, menos a gosma dele. Tenho a certeza de que o doutor Caramujo põe a senhora Emília a falar pelos cotovelos.

E ainda estavam discutindo os milagres das famosas pílulas quando chegaram a certa gruta que Narizinho jamais havia visto naquele ponto. Que coisa estranha! A paisagem estava outra.

— É aqui a entrada do meu reino — disse o príncipe. Narizinho espiou, com medo de entrar.

— Muito escura, príncipe. Emília é uma grande medrosa.

A resposta do peixinho foi tirar do bolso um vaga-lume de cabo de arame, que lhe servia de lanterna viva. A gruta clareou até longe e a “boneca” perdeu o medo. Entraram.

Pelo caminho foram saudados com grandes marcas de respeito, por várias corujas e numerosíssimos morcegos. Minutos depois chegavam ao portão do reino. A menina abriu a boca, admirada.

— Quem construiu este maravilhoso portão de coral, príncipe?

É tão bonito que até parece um sonho.

— Foram os Pólipos, os pedreiros mais trabalhadores e incansáveis do mar. Também meu palácio foi construído por eles, todo de coral rosa e branco.

Narizinho ainda estava de boca aberta quando o príncipe notou que o portão não fora fechado naquele dia.

— É a segunda vez que isto acontece — observou ele com cara feia. — Aposto que o guarda está dormindo.

Entrando, verificou que era assim. O guarda dormia um sono roncado. Esse guarda não passava dum sapão muito feio, que tinha o posto de major no exército marinho. Major Agarra-e-não-larga-mais.

Recebia como ordenado cem moscas por dia para que ali ficasse, de lança em punho, capacete na cabeça e a espada à cinta, sapeando a entrada do palácio. O Major, porém, tinha o vício de dormir fora de horas, e pela segunda vez fora apanhado em falta.

O príncipe ajeitou-se para acordá-lo com um pontapé na barriga, mas a menina interveio.

— Espere príncipe! Eu tenho uma idéia muito boa. Vamos vestir este sapo de mulher, para ver a cara dele quando acordar.

E sem esperar resposta, foi tirando a saia da Emília e vestindo-a, muito devagarinho, no dorminhoco. Pôs-lhe também a touca da boneca em lugar do capacete, e o guarda-chuva do príncipe em lugar de lança. Depois o deixou assim transformado numa perfeita velha coroca, disse ao príncipe:

— Pode chutar agora.

O príncipe, zás!… pregou-lhe um valente pontapé na barriga.

— Hum!…— gemeu o sapo, abrindo os olhos, ainda cego de sono.

O príncipe engrossou a voz e ralhou:

— Bela coisa. Major! Dormindo como um porco e ainda por cima vestido de velha coroca… Que significa isto?

O sapo, sem compreender coisa nenhuma, mirou-se apatetadamente num espelho que havia por ali. E botou a culpa no pobre espelho.

— É mentira dele, príncipe! Não acredite. Nunca fui assim…

— Você de fato nunca foi assim — explicou Narizinho. — Mas, como dormiu escandalosamente durante o serviço, a fada do sono o virou em velha coroca. Bem feito…

— E por castigo — ajuntou o príncipe — está condenado a engolir cem pedrinhas redondas, em vez das cem moscas do nosso trato.

O triste sapo derrubou um grande beiço, indo, muito jururu, encorujar-se a um canto.
–––––––
continua…

Fonte:
LOBATO, Monteiro. Reinações de Narizinho. Col. O Sítio do Picapau Amarelo vol. I. Digitalização e Revisão: Arlindo_Sa

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Cruz e Souza (O Livro Derradeiro) Parte IV


SEMPRE E … SEMPRE

A M. B. Augusto Varela

Sempre se amando, sempre se querendo.
(Oliveira Paiva)

De longe ou perto, juntas, separadas,
Olhando sempre os mesmos horizontes,
Presas, unidas nossas duas fontes
Gêmeas, ardentes, novas, inspiradas;

Vendo cair as lágrimas prateadas,
Sentindo o coro harmônico das fontes,
Sempre fitando a cúspide dos montes
E o rosicler das frescas alvoradas;

Sempre embebendo os límpidos olhares
Na claridão dos humildes luares,
No loiro sol das crenças se embebendo,

Vão nossas almas brancas e floridas
Pelo futuro azul das nossas vidas,
Sempre se amando, sempre se querendo.

NOIVA E TRISTE

Rola da luz do céu, solta e desfralda
Sobre ti mesma o pavilhão das crenças,
Constele o teu olhar essas imensas
Vagas do amor que no teu peito escalda.

A primorosa e límpida grinalda
Há de enflorar-te as amplidões extensas
Do teu pesar — há de rasgar-te as densas
Sombras — o véu sobre a luzente espalda…

Inda não ri esse teu lábio rubro
Hoje — inda n’alma, nesse azul delubro
Não fulge o brilho que as paixões enastra;

Mas, amanhã, no sorridor noivado,
A vida triste por que tens passado,
De madressilvas e jasmins se alastra.

MÃE E FILHO

Às mães desamparadas

Jesus, meu filho, o encanto das crianças,
Quando na cruz, de angustia espedaçado,
Em sangue casto e límpido banhado,
Manso, tão manso como as pombas mansas;

Embora as duras e afiadas lanças
Com que os judeus, tinham, de lado a lado,
Seu coração puríssimo varado,
Inda no olhar raiavam-lhe esperanças.

Por isso, ó filho, ó meu amor — se a esmola
De algum conforto essencial não rola
Por nós — é forca conduzir a cruz!…

Mas, volta ó filho, pesaroso e triste.
Se a nossa vida só na dor consiste,
Ah! minha mãe, por que morreu Jesus?…

NATUREZA

Aos Poetas

Tudo por ti resplende e se constela,
Tudo por ti, suavíssimo, flameja;
És o pulmão da racional peleja,
Sempre viril, consoladora e bela.

Teu coração de pérolas se estrela,
E o bom falerno dás a quem deseja
Vigor, saúde a crença que floreja,
Que as expansões do cérebro revela.

Toda essa luz que bebe-se de um hausto
Nos livros sãos, todo esse enorme fausto
Vem das verduras brandas que reluzem!

Esse da idéia esplêndido eletrismo,
O forte, o grande, audaz psicologismo,
Os organismos naturais produzem…

SURDINAS

Às raparigas tristes

Vais partir, vais partir que eu bem te vejo
Na branca face os gélidos suores,
Vais procurar as musicas melhores
Do sol, da glória e do celeste beijo.

Dentro de ti harpas do desejo
Não vibram mais — embora que tu chores —
Nem pelas tuas aflições maiores
Se escuta um vago e enfraquecido arpejo…

Bem! vais partir, vais demandar esferas
Amplas de luz, feitas de primaveras,
Paisagens novas e amplidão florida…

Mas ao chegar-te a lágrima infinita,
Lembra-te ainda, ó pálida bonita
De que houve alguém que te adorou na vida.

IRRADIAÇÕES

Às crianças

Qual da amplidão fantástica e serena
À luz vermelha e rútila da aurora
Cai, gota a gota, o orvalho que avigora
A imaculada e cândida açucena.

Como na cruz, da triste Madalena
Aos pés de Cristo, a lágrima sonora
Caia, rolou, qual bálsamo que irrora
A negra mágoa, a indefinida pena…

Caia por vós, esplêndidas crianças
Bando feliz de castas esperanças,
Sonhos da estrela no infinito imersas;

Caia por vós, as músicas formosas,
Como um dilúvio matinal de rosas,
Todo o luar benéfico dos versos!

AMBOS

Vão pela estrada, à margem dos caminhos
Arenosos, compridos, salutares,
Por onde, a noite, os límpidos luares
Dão às verduras leves tons de arminhos.

Nuvens alegres como os alvos linhos
Cortam a doce compridão dos ares,
Dentre as canções e os tropos singulares
Dos inefáveis, meigos passarinhos.

Do céu feliz na branda curvidade,
A luz expande a inteira alacridade,
O mais supremo e encantador afago.

E com o olhar vibrante de desejos
Vão decifrando os trêmulos arpejos,
E as reticências que produz o vago.

PLENILÚNIO

Vês este céu tão límpido e constelado
E este luar que em fúlgida cascata,
Cai, rola, cai, nuns borbotões de prata…
Vês este céu de mármore azulado…

Vês este campo intérmino, encharcado
Da luz que a lua aos páramos desata…
Vês este véu que branco se dilata
Pelo verdor do campo iluminado…

Vês estes rios, tão fosforescentes,
Cheios duns tons, duns prismas reluzentes,
Vês estes rios cheios de ardentias…

Vês esta mole e transparente gaze…
Pois é, como isso me parecem quase
Iguais, assim, às nossas alegrias!

OS DOIS

Aos pobres

— Minha mãe, minha mãe, quanta grandeza
Nesses plácidos, quanta majestade;
Como essa gente há de viver, como há de
Ser grande sempre na feliz riqueza.

Nem uma lágrima sequer — e à mesa
D’entre as baixelas, d’entre a imensidade
Da prata e do ouro — a azul felicidade
Dos bons manjares de ótima surpresa.

Nem um instante os olhos rasos d’água,
Nem a ligeira oscilação da mágoa
Na vida farta de prazer, sonora.

— Como o teu louco pensamento expandes
Filho — a ventura não é só dos grandes
Porque, olha, o mar tambem é grande e… chore!

TRISTE

Vai-se extinguindo a viva labareda
Que te abrasava o coração ridente…
Passas magoada pela rua e a gente
Umas converses funerais segreda.

Não tens no olhar o sangue q’embebeda,
Foram-se as rosas do viver contente…
Segues, agora, pobre flor — somente
Da sepultura a essencial vereda.

E vem chegando o tenebroso inverno…
Mas nesse mal devorador e eterno,
Teu organismo já não mais resiste

Às punhaladas da estação de gelo…
E acabará como eu nem sei dizê-lo,
Triste, bem triste, pesarosa, triste!

CELESTE

Aos corações ideais

Lembra-me ainda — ao lado de um repuxo,
Pela brancura de um luar de agosto,
O teu maninho, um loiro pequerrucho
Brincava, rindo, te afagando o rosto…

Lembra-me ainda — as sombras do sol posto,
Numa saleta sem brasões de luxo,
De alguns bordados de fineza e gosto
Delineavas o gentil debuxo…

E o gás que forte e cintilante ardia,
Te iluminava, te alagava… ria…
Da luz ficavas no imponente abrigo.

E agora… deixa que ao cair da noite,
Esta lembrança dentro de mim se acoite,
Como a andorinha no telhado amigo!

Fonte:
Cruz e Sousa, Poesia Completa, org. de Zahidé Muzart, Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura / Fundação Banco do Brasil, 1993.

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Nemésio Prata Crisóstomo (Trova Ecológica 35)

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26 de outubro de 2011 · 23:21

Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 376)


Uma Trova Nacional

Quando do meu lar amado
transpus o velho portão,
pedaços do meu passado
espalharam-se no chão!
–RENATO ALVES/RJ–

Uma Trova Potiguar

As queimadas florestais
são exemplo da desgraça
que transforma ares vitais
em cortinas de fumaça.
–IEDA LIMA/RN–

Uma Trova Premiada

2011 – ATRN-Natal/RN
Tema: VERTENTE – 6º Lugar

O pranto do amor desfeito,
revelando seu desgosto,
vem lá do fundo do peito,
vertendo triste em meu rosto.
–CAMPOS SALES/SP–

Uma Trova de Ademar

O meu rio além das águas
viaja tal qual um monge
carregando minhas mágoas
para desaguar bem longe!
–ADEMAR MACEDO/RN–

…E Suas Trovas Ficaram

Nós cremos no Deus da vida
e vemos com nitidez
que onde Ele tem acolhida,
sortilégio não tem vez!
–CLARINDO BATISTA/RN–

Simplesmente Poesia

MOTE:
Tudo quanto produz o cantador
Deveria ser lido e divulgado.

GLOSA:
Perspicaz e um eterno sonhador
sempre atento ao brotar a inspiração.
Vem de dentro, do nobre coração
tudo quanto produz o cantador.
Jardineiro de um reino, puro amor,
seu poema é, no peito, cultivado
e transmite ao leitor o seu recado.
Seja alegre a mensagem ou tristonha,
tudo aquilo que pensa, escreve e sonha,
deveria ser lido e divulgado.
–GILSON FAUSTINO MAIA/RJ–

Estrofe do Dia

O ladrão levava sola
mas hoje não é assim,
bater num ladrão mirim
quem fizer isto se enrola;
por isso é que o cheira cola
se tornou mais atrevido,
por saber que o pé d’ouvido
está livre de pancada;
toda lei ultrapassada
só favorece o bandido.
–GERALDO AMÂNCIO/CE–

Soneto do Dia

Melancolia
–DARLY BARROS/SP–

O sol boceja! A Noite Santa avança
e, em meio ao lusco-fusco do poente,
volto a sentir saudades da criança
que a vida fez crescer e, de repente…

Nada, contudo, guarda semelhança
com os Natais do meu antigamente:
o mundo é outro – a bem-aventurança
da data, um breve hiato, num presente

de tanta violência entre os mortais,
que é fácil compreender não volte mais
essa criança que se foi tão cedo;

prefiro vê-la agora recolhida,
neste meu peito que, de volta à vida
mas, infeliz e trêmula de medo.

Fonte:
Textos enviados pelo Autor

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Pedro Ornellas (Minhas Trovas de Infância)

1
Infância, um eterno impasse
que ninguém pode explicar:
A gente anseia que passe,
quando passa, quer voltar!

2
Porteira da minha infância,
ao recordar-te enlevado,
meu sonho encurta a distância
entre o presente e o passado!

3
Na infância, tempo risonho,
de mágoas nada entendia,
e armei balanços de sonho
nos galhos da fantasia!

4
Ao definir a distância,
o tempo errou na medida;
Fez tão curta a minha infância,
e a velhice tão comprida!

5
O meu cabelo grisalho
mostrou-me sem que eu pedisse,
que a juventude é um atalho
que vai da infância à velhice!

6
Na infância, festa de cores,
tudo era encanto e magia…
e eu via muito mais flores,
além das tantas que havia!

7
Na mente novos enredos
roubam do sonho a importância…
e o tempo estalando os dedos
quebra a magia da infância!

8
O mundo bom que eu previa,
na infância – doce quimera…
Hoje eu sei que era utopia…
mas nos meus sonhos não era!

9
Faz tempo… na velha estância,
por desvarios levado,
pulei a cerca da infância
– e me perdi do outro lado!

10
Culpo da vida a inconstância
pelos problemas que arruma;
faz mil promessas à infância,
depois não cumpre nenhuma!

11
Na infância que se perdeu
deixando lembrança doce,
o mundo não era meu
– mas era como se fosse!

12
Cenas da infância bendita
em minha mente gravei…
Hoje, o sonho põe a fita
e a saudade aperta o “Play”!

13
Volta a lembrança fagueira
cruzando tempo e distância:
mamãe regando a roseira
que perfumou minha infância!

14
Na minha volta sem graça
sinto tristeza e revolta…
por que eu volto à velha praça,
mas minha infância não volta!

15
Sonhando sonhos distantes,
envolta num doce enleio,
minha infância foi o ‘antes’
de um ‘depois’ que nunca veio!

16
De mamãe tinha os abraços,
e assim não tinha importância
que fossem pobres e escassos
os meus brinquedos da infância!

17
Teve em toda a minha história
papel de grande importância
o sítio que na memória
eternizou minha infância!

18
“Não saia” a infância dizia
“para evitar que se perca…”
e o sonho peralta, um dia,
debandou, pulando a cerca!

19
Na infância, tempo fagueiro,
aos meus olhos parecia
primavera o ano inteiro,
feriado todo dia!

20
Ouço um tropel de boiada,
olho a estrada, olho a distância…
Mas o som não vem da estrada…
É tropel que vem da infância!

LinkFontes:
Trovas enviadas pelo autor
Imagem = Castock Photo

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Antonio Brás Constante (Diálogos (des)Complicadinhos)

Existem no mundo várias formas de conversação. Algumas simples, outras bem mais complicadas e ainda algumas que parecem simples, mas são muito complexas.

Um exemplo deste tipo de diálogo é a linguagem tropeira. Notem em um primeiro momento a troca de cumprimentos entre dois tropeiros que se cruzam por alguma das trilhas deste Brasil.

– Ooooooeeiaaahh (diz o primeiro tropeiro segurando a lapela do chapéu e curvando levemente a cabeça).

– Oooooaahh (responde o segundo tropeiro, devolvendo o cumprimento e cuspindo no chão, sem mexer no chapéu).

O primeiro tropeiro sem dizer mais nada apenas sacode a cabeça, coça o ombro e continua o caminho.

A grande maioria acredita que ocorreu apenas uma troca de murmúrios entre dois homens, sem sentido algum. Mas o pesquisador Dr. Loerd Stofeller da Universidade de Mortelles, no grande Arizona, conseguiu traduzir estes cumprimentos os quais transcreve a seguir:

Primeiro tropeiro: Bom dia compadre, tudo bem contigo e com tua família, noto que o amigo está com saúde e mando lembranças a sua patroa. Domingo apareço no seu rancho para fazermos um churrasco de engraxar os beiços e tomar uma purinha.

Segundo tropeiro: Bom dia compadre, as coisas não andam boas lá no rancho não, a minha esposa andou meio doente, mas graças a Deus melhorou, espero o compadre lá então para jogarmos mais conversa fora e tomarmos umas pingas destas de derrubar potro novo.

Para o Dr. Loerd, nestas conversas típicas do interior, tem-se que notar cada simbolismo utilizado, a entonação de voz, o olhar, as coçadas. Por exemplo: duas mexidas no chapéu significam que o tropeiro fez um excelente negócio. Se forem seguidas de um “Iiiiiuuuhrraaaaa”, demonstra que além de um excelente negócio ele ainda esteve fazendo festa na zona. Se mexer o braço para cima em rodopio então, nem queiram saber o que ele fez.

No caso dos dois Tropeiros acima, um cuspe no chão indicou que as coisas com a família não andavam boas e o fato de não mexer no chapéu quis dizer que o problema era com a esposa e por aí vai…

Fontes:
O Autor
Imagem = http://pt-br.encbracol.wikia.com

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Antonio Manoel Abreu Sardenberg (Poesias em Quatro Estações II)

Eliane Gonçalves
TEMPO DE UMA VIDA

Pelo jardim de minha vida
caminhei e encontrei…
Flores amarelas como o sol
Irradiando luz e alegria
Nessa menina cheia de vida

Com a ilusão de uma jovem
Parei e observei…
Flores vermelhas como o fogo
Num brilho forte e intenso
Pela a chama da paixão

Como mulher mais experiente
Olhei e analisei
Nesse simbólico cenário
Flores brancas como a paz
Que meus olhos encantavam

Nesse momento de caminhada
Vi que esse belo jardim
Era reflexo de uma vida
E como num toque mágico
Uma mulher madura aparecia

Ia saindo bem de fininho
Quando notei que as flores secas
Caídas no chão do meu jardim
Uma nova flor apareceu
Marcando a idade de uma vida

Leda Terezinha Rubin
Soledade – RS
AS QUATRO ESTAÇÕES DA VIDA

Já vivi quatro estações,
Em meio século de vida,
Posso muito bem nomeá-las,
Pois elas são bem sentidas.

A primavera, tão linda,
De todas a mais garrida,
É a que deixa mais saudades,
É nossa infância querida!

O verão é a juventude,
Em tudo se vê alegria!
É festa, férias, calor,
Tempo de pura magia!

E no outono refletimos,
Por tudo que se passou,
Tempo de amadurecermos,
Pois o inverno se iniciou…

A estação mais preocupante,
É o frio e a névoa sentida…
Se ultrapassarmos o inverno,
Estamos lucrando a vida!

Das quatro estações da vida,
Vamos curtir a harmonia,
Buscando a felicidade
Com fé, esperança e alegria!

Gilberto Vaz de Melo
Juiz de Fora – MG
VOCÊ É…

Você é…
Primavera,
Outono,
Inverno e meu verão!!!
Quatro estações em um só dia
Porém,
Sem clima para o meu perdão.

José Antonio Jacob
Juiz de Fora – MG
ALMAS PRIMAVERAIS

A tarde brinca em meu quintal sem cores,
E sem saber da dor que existe em mim,
Pendura um sol no céu, colore flores,
E o meu quintal então vira um jardim.

Tardes primaverais chegam assim…
Alegram nossas desbotadas dores,
E nos dão esperanças e favores,
A nos sorrir e a nos dizer que sim…

Como essas tardes claras de esplendor,
Que às vezes esquecemos de notar,
Existem almas que só dão amor.

São essas almas as criaturas boas,
Que só vieram ao mundo para amar
A vida sem amor de outras pessoas.

Maria Inez Fontes Rico (Mifori)
Paraibuna/SP
QUATRO ESTAÇÕES

Maldizendo a chuva fina
que caia na tarde escura
entristecendo seu dia
sentiu-se insegura.

De um inverno turbulento
a primavera nasceu.
Seu perfume pelo vento
no mundo permaneceu.

Veio o verão radiante…
Surgiu a lua prateada.
Como um Sol extasiante
caminhou enamorada.

Mas, foi no outono que viu
o seu amor desabrochar,
bela a vida lhe sorriu
na formação de seu lar.

Zena Maciel
Recife/PE
ESTAÇÕES EMBRIAGADAS

Chora o frio inverno
lágrimas mofadas de ingratidão
Pede fogo ao inferno
para acender a luz da ilusão.

Grita a verde primavera
com as secas folhas machucadas
a pobre alma seca e enrugada
entrega-se no colo da desilusão.

Dorme o quente verão
No sorriso escondido no rosto
traz chagas cravadas de desgosto
escondidas na alcova do coração.

Geme o seco outono
nos frios braços do desencanto
Na triste cama das flores
cobre-se com o perfume da saudade

Oh! Pobres estações embriagadas
Se despedem da estúpida vida
e suplicam aos céus para não
morrerem no oceano da solidão.

Dilmar Antonio Thadei
Ubirajara/SP
DIZEM…DEDICADO AS QUATRO ESTAÇÕES

Dizem que sou feliz.
Dizem…
Também pudera
É primavera
– primaverar –
Tudo florido
Belo e colorido
Desabrochando a vida
E cantando alegre
Até a partida.

Dizem que sou inconsequente.
Dizem…
Afinal é verão.
– veranear –
Muito calor
Calor humano.
Aquecedor
Alegria, bom humor.
Liberdade
A seu dispor.

Dizem que sou explosivo.
Dizem…
É outono
– outonar –
Vida prosseguindo
Amor renascendo
Frutos
Rebentos
Nada como um semente.
Uma após a outra.

Dizem que sou triste.
Dizem…
Só porque é inverno?
Sempre hiberno
– invernar –
Tempo limpo
Não é triste
Sou brilhante
Aconchego
Aquentante.

Fonte:
Alma de Poeta.
http://www.sardenbergpoesias.com.br/aniversario_2008/primavera/primavera.htm

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Júlia Lopes de Almeida (Folhas de uma Velha Carteira)

Disse-me um dia um velho amigo:

— Há certos livros de educação e de higiene que acho indispensáveis numa biblioteca de senhoras. As mulheres salvarão pelo amor o que os homens estragam por desídia.

Ponho nelas toda a minha esperança. Aos espíritos banais essas leituras parecerão fastidiosas; mas de vemos crer que as mães, empenhadas pela saúde e bem estar dos filhos, achem grande interesse em folhear páginas sérias deeducadores modernos. É um erro pensar que, hoje, o ensino deve ser ministrado como há cinqüenta anos e entregar os nossos rapazes aos nossos colégios atrofiadores. Há tempos enviei um livro a minha filha : L’Education nouvelle, de Edmond Demoulins. Pois os meus netos já lucraram alguma coisa com a leitura da mãe. O livro é uma exposição claríssima da Escola moderna, prática, que trata de aperfeiçoar ao mesmo tempo o corpo e o espírito dos rapazes. “L’École doit developper à la fois chez l’enfant la largeur de l’intelligence et la largeur de la poitrine.”

Minha filha leu esse livro com muito carinho, e, na impossibilidade de executar em casa todo o programa do colégio, iniciou alguns dos seus exercícios com proveito, graças à instrução que recebeu… Os meus netos vivem no campo, onde têm bom teatro para os seus estudos de história natural. Um deles frequenta uma oficina de carpintaria, o outro uma de ferreiro… A mãe preside às suas leituras, livros escolhidos, na boa língua portuguesa, e ensina-lhes desenho e música. O pai dá-lhes uma hora de matemáticas e geografia e contrataram um professor francês para a língua francesa e um inglês para a língua inglesa, obedecendo à ordem da Escola moderna de que nunca uma língua deve ser ensinada senão pelos da sua nacionalidade. Os pequenos nadam como peixes e correm como gamos. Não têm as mãos acetinadas, está claro… Imagine um ferreiro! Um marceneiro! Por enquanto não barafustaram pelos labirintos da gramática, mas escrevem cartas muito limpas e já movem a lima e o malho com algum desembaraço…

Intercalando os estudos clássicos com trabalhos materiais e ocupações artísticas, eles vão-se tornando homens completos, tanto à vontade num salão como em uma oficina… Em uma das suas cartas diz-me a mãe:

“João e Luiz têm o andar firme e olham para toda a gente de rosto, com a cabeça alta, já demonstrando consciência de homens!”

E em outra carta:

“João está hoje trabalhando no jardim e Luiz na horta, a meu mandado. As quintas e sábados vem um homem guiá-los nesse serviço, depois da hora das oficinas. Cada qual me faz mais lindas promessas; se dias se realizarem, ninguém terá nem tão lindas rosas nem tão magníficos repolhos.”

Ainda noutra carta:

“João tocou hoje a sua primeira sonatina para alguns amigos ouvirem, e Luiz ofereceu ao mestre de inglês um desenho razoável. Embora eu disfarce o meu entusiasmo, eles percebem que estou contente.”

Esta mãe que assim cultiva nos filhos todas as boas qualidades de corpo e de inteligência, a que deve essa satisfação? Ao seu amor? Não só ao seu amor, pelo qual os filhos nada lhe devem, porque todos os animais amam os filhos; mas a ter estudado como um homem ciências naturais e línguas vivas. Ela sabe logo dia pode transmitir, e os seus filhos são assim duplamente — suas criaturas.

Os russos, quando querem ser bons e simples, dizem coisas enternecedoras. Aqui estão palavras de um romance russo:

“Repara no cavalo, esse grande animal, e no boi, o robusto trabalhador que te alimenta: vê que fisionomias sonhadoras! Que submissão, que fina timidez! que devotamento por quem tantas vezes os castiga sem dó! É enternecedor o pensarmos que tais entes são sem pecado, porque tudo é perfeito, tudo é sem pecado, menos o homem.”

Menos o homem; e para que este seja também puro quantas lágrimas de arrependimento e de contrição terá que verter! Mas para se ser perfeito não basta amar a humanidade; é preciso que o nosso olhar abranja toda a natureza e confunda na sua harmonia, com igual carinho, todos os seres que sofrem e que se submetem.

No meu bairro, às vezes tenho de encostar-me a um paredão da estrada para deixar passar uma carroçada de pedras puxada por uma ou duas juntas de bois. Eles vão cobertos de suor sob o peso da canga num esforço valente e com ar humilde, e ainda o bruto do carroceiro os espicaça com o seu pampilho! Na cara do homem não se lê senão a fúria bestial da impaciência, enquanto que os robustos trabalhadores, vergados e submissos, olham para a estrada adiante, com uma expressão de bondade sonhadora…

Caminho então para casa, pensando que realmente nós tratamos muito mal os animais. Só os vemos embaixo do trabalho pesado.

Nessas lindas tardes de setembro, em que vagavam no ar pipilos de aves e penugens brancas de paineiras, porque não passaria pelas lindas estradas de Santa Tereza uma ou outra amazona em cavalo bem tratado?

Passado o instante do elétrico os folhudos galhos das árvores que se debruçam sobre as estradas nuas, só vem passar cavalos magros, lanhados de chicote, ou os fortes bois submissos e sonhadores…

Há na comédia Blanchette, de Brieux, uma frase que sintetiza, com delicadeza e exatidão, o amor ufano com que as mulheres servem a sua casa. São palavras simples, sem literatura, sempre as mais sinceras, que nascem da alma e definem com clareza uma idéia ou um sentimento.

Lembram-se? Blanchette, deslocada em casa pela educação recebida no colégio, abandonara o lar em uma rebentina, ouvindo as maldições do pai a apontar-lhe a porta da rua com a mão nodosa de vendeiro avaro. Blanchette, que se recusara a atar à cintura os atilhos do avental, para servir os fregueses do pai, volta pela segunda vez ao ninho paterno, mas agora como um cão batido, magro, morta de fome, coberta de humilhações.

Tivera de servir de criada para viver. O mundo ensinara-a.

Vendo-a, a mãe acolhe-a, aquecendo-a de encontro à sua carne martirizada e submissa… O pai, teimoso, lá chega ao seu momento de ceder e ela, enfim restituída à sua casa e à sua família, exclama radiante:

— “Como é bom pôr a gente um avental em sua casa!”

E com que alegria os seus dedos ágeis amarram então na cintura os atilhos do avental! É que os aventais que as patroas lá fora lhe haviam atirado à cara tinham bem diversa significação. A independência do nosso canto, a felicidade do sacrifício feito pelo nosso lar e por os que amamos, estão bem dentro dessas palavras que direis escritas por uma mulher, tão impregnadas estão de sentimento feminino!

E aí está como um pedaço de pano incolor pode ter tão alta significação moral…

O lenço desempenha na vida um papel bem variado!

Mesmo os lenços de luxo que com renda e tudo não medem mais que uns vinte e cinco centímetros, mera futilidade incapaz de descer às necessidades prosaicas, até esses têm o destino clemente de enxugar lágrimas e disfarçar ironias.

Quando pertença a uma senhora, — que o do homem é obrigado a um exercício ativo — o lenço branco, de meio metro quadrado, paternalmente carinhoso nos defluxos e nas bronquites, não sai do recato da gaveta, bem guardadinho para as urgências de ocasião, dobrado em quatro entre sachets ou raízes de capim cheiroso.

No fundo da sua consciência (suponhamos que os lenços também têm disso), eles sentirão a satisfação do dever cumprido, tão apregoado pelos que o não cumprem, e esperarão que os chamem ao serviço interino de um nariz precisado do seu socorro e da sua abnegação.

Mesmo os lenços de chita, tão caricatos e nojosos, salvam-se quando, bem lavadinhos, são postos em cruz sobre o peito farto de uma camponesa bonita. Então não cheiram a tabaco; cheiram a trevo e alecrim; não têm nódoas de rapé, têm a sombra da cruz redentora ou dos bentinhos que a dona traz pendurados no pescoço; não representam a torpeza de um vício que desmoraliza o nariz, mas sim o recato que poetisa o seio.

De mais, são alegres com as suas cores turbulentas e ramagens vistosas, que despertam a idéia de campos de papoulas, onde bata o sol.

Não sei precisar se são só de minha cabeça, ou sugestão de alguma leitura fugitiva, estes reparos que por escrúpulo vão entre aspas:

“É no lenço que nós impregnamos com mais intensidade o nosso perfume favorito, a essência que faz parte da nossa individualidade e nos denuncia ao olfatodos amigos. É o lenço que seca as nossas lágrimas, que se mistura aos nossos sorrisos, que ajuda a mímica, abafa os gemidos, dissimula a careta e guarda amarguras do coração: triste pranto secreto e que ninguém adivinha. Recurso de aflições, ele, impassível e mudo, deixa que o crispemos, que o mordamos, que o estraçalhemos, nos movimentos de ódio e de despeito, quando não possamos com a palavra repelir a má intenção de um olhar ou de um gesto que ofenda! Vítima das nossas agonias, ele é então o salvador da nossa dignidade.

É ainda o lenço que, comparticipando da expressão do nosso sentimento, se agita no ar numa saudação de aplauso ou na saudade de uma despedida.

Quem não viu, ao menos uma vez na vida, esse aceno branco, repetindo em silêncio a palavra que já não pode ser ouvida? Onde a voz já não chega, chega ainda o adeus do lenço, batendo-se no ar como uma asa na agonia.

Imagine se a amada do poeta teria lido nunca estes versos:

Este teu lenço que eu possuo e aperto
De encontro ao peito quando durmo, creio
Que hei de um dia mandar-to, pois roubei-o
E foi meu crime em breve descoberto”
(Versos de um simples — Guimarães Passos)

Se ela o não usasse e o não tivesse deixado roubar, já naturalmente com o propósito, muito humano, de o reaver, quando “Pando, enfunado, côncavo de beijos!”

Esse trapinho, que se embebe de lágrimas que secam, de beijos que se não vêm, que fala nos apartamentos e nas aclamações, que designa para o amor de um rei a mulher preferida, que abafa os soluços, guia as pesquisas das cartomantes e das feiticeiras, dá sinais aos namorados, protege os espirros e recende aos aromas mais capitosos: que é muitas vezes cúmplice em intrigas, fingindo secar olhos enxutos e escondendo caretas que desejem parecer sorrisos, tem ainda uma missão misericordiosa: a de encobrir a face feia e fria dos cadáveres. E na hora extrema do cadafalso, vendam-se com o lenço os olhos dos supliciados, para não verem a morte!

Have you not sometimes seen a handkerchief
Spoted with strawberries in your wife’s hand?

Quantas vezes o notara Otelo; se era dádiva sua!

Pois foi com esse lencinho salpicado de morangos que o honesto Iago assanhou no seu senhor o monstro de olhos verdes, o negrejado ciúme, que fez morrer a pálida Desdemona.

Na ação como na intriga os lenços representam muitas vezes no teatro extraordinárias ficções!

São almas que se dilaceram entre os dedos apaixonados de Margarida, ou os dentinhos terríveis de Frou-frou; são como pedacinhos de pele amada de encontro aos lábios de Romeu e quando não exaltem paixões nem enxuguem o suor da agonia, é ainda um magnífico pretexto para que a mão desocupada vá e venha, cortando a monotonia da inércia.

Quem inventou o lenço bordado e circundado de rendas foi a imperatriz Josefina, que por ter maus dentes escondia com ele continuamente a boca. Graças o essa cárie irreverente o lencinho fino tornou-se objeto de luxo e entrou na atividade dos passeios, das procissões, dos minuetos, onde ele era o sucedâneo do leque, dobrado em ponta entre os dedos carregadinhos de anéis, de benjoim e de verbena. Era talvez a parte mais expressiva da toilette, o seu complemento precioso, com o nome da dona sublinhado a rendas caras. Rendas…

Há no Brasil, em terras do norte, umas rendeiras cujos dedos conhecem segredos de fadas. Rendas de lenços, fazem-nas tão bonitas e tão finas que se nos afigura impossíveis terem sido tecidas por gente inculta, sem noção de desenho.

Quando se lê o apreço que em certos países dão, e agora mais que nunca, às rendas feitas à mão, e como neles cultivam essa prenda delicada, agremiando camponesas, dando-lhes mestres, fomentando uma indústria que é ao mesmo tempo uma arte, receia a gente que as rendeiras do Norte, já velhinhas, deixem cair os bilros dos dedos engelhados, sem que outras mãos, mais lépidas, os apanhem para continuar a tarefa interrompida…

Íamos pela rua do Senador Furtado. O dia estava lindo, cheirava a murta. Subitamente começamos a ouvir gemidos, arrancados de uma grande aflição. Mais alguns metros, e vimos agachada numa soleira de portão, com o busto caído sobre os joelhos pontudos, uma negra cadavérica, que a tosse sacudia como o vento sacode um trapo. Sentindo gente, ela levantou a cabeça, revirando os olhos pálidos para o céu iluminado. A aragem brincava-lhe com um farrapo de xale, que dia franzia no peito com as mãos magríssimas e amareladas. Paramos, e a voz dela explicou entre uivos: — Foi o cock… foi carvão de cock que me matou!

As palavras, interrompidas pelas guinadas da tosse, repetiram a queixa no mesmo estribilho recriminativo: — Foi o carvão de cock que me matou!

Veio gente de dentro. Levaram-na em braços.

Ouviram bem? O cock é um assassino de mulheres. Mata pelo excesso de calor que desprende. Nunca me esquecerei daquela triste queixa irremediável…

Não é raro esbarrarmos na rua com uma menina, nessa idade indecisa, como diz o mestre:

Que não é dia claro e é já alvorecer
Entre-aberto botão, entre-fechada rosa,
Um pouco de menina e um pouco de mulher .
(Falenas — Machado de Assis)

E a impressão que se sente é sempre agradável, se essa criatura tem a condizer com o resto de meninice, que vai desaparecendo, e o começo da mocidade, que vem apontando, uma graça ingênua e um modo desartificioso de andar e de vestir-se.

Ah, mas quando, ela passa empapada de essências raras, de passo estudado e muito espartilhada, com meneios grosseiros e rosto empoado, vem a quem a olha um desejo absurdo de sacudir pelos ombros a mamãe inconsciente; e de lhe gritar aos ouvidos que a doce criatura que o céu lhe confiou, e cujos passos ela segue como má pastora, vai carregadinha de ridículo…

O artifício do pó de arroz é o véu benévolo para os postos de quarenta anos. A pele moça não precisa disso. A beleza das donzelas está na sua candura, na sua alegria natural, e sobretudo na sua simplicidade…

Vi em uma revista francesa o retrato de uma velhinha que aprendeu a ler depois dos setenta anos. Olhando-lhe para a cabecinha e para o rostinho todo sulcado de rugas, tive vontade de beijá-la.

A história dela: Todas as manhãs costurava a septuagenária junto à janela da sua choupana, à sombra de um castanheiro que lhe dava perfumes na primavera, sombras no verão, frutos no outono e ouriços para o foguinho do inverno.

Que mais seria preciso para a vida? O alfabeto não foi feito por Deus; e para amá-lo e servi-lo bastaria adorar a natureza. Entretanto eis que depois de longos anos lhe cortam a frente da casa por um caminho novo, atalho para a vila, por onde o rapazio de uma aldeia próxima passava para a escola. A doce velhinha, ouvindo todos os dias a tagarelice das crianças levantou os olhos da costura e voltou-os para o horizonte infinito. Saber ler seria tão útil, que os pobres pais, cavadores sem vintém, se abalançassem a mandar os filhos todos os dias à escola, com prejuízo do seu trabalho? Alguns desses pequenos já sabiam lidar nos campos, e tinham força para mover a enxada ou guiar os bois… Com que duros sacrifícios a mãe lhes compraria os sapatos e as roupas de ir ao mestre!

Esse exemplo fê-la pensar que vivera toda a sua longa vida de setenta anos, como um animal inferior, em que o pensamento mal animava a matéria. A vida teria outros intuitos mais elevados que os de servir a carne com o alimento e o agasalho?

Dos seus dedos encarquilhados e trêmulos a costura caiu, e no dia seguinte ela se incorporou ao bando das crianças, a caminho da escola.

Foi uma alegria. Os pequenos não riram. Emprestou-lhe, um, uma cartilha; outro ofereceu-lhe uma tabuada; e todos se sentiram muito honrados com aquela condiscípula de rosto franzido e cabelo nevado.

No fim de três meses de uma aplicação teimosa, a velha aldeã, escrevia asua primeira carta à neta mais velha, que vivia numa colônia francesa da África. Nas suas garatujas aconselhava ela a moça a ir à escola, para aprender a mandar-lhe notícias com a sua própria letra.

As cartas escritas pelos outros não são inteiramente nossas; nas letras como nas palavras vai alguma coisa do ente amado e ausente…

De vez em quando noticiam os jornais: “… Perdeu-se uma criança… Achou-se uma criança…”

E são sustos, lágrimas, aflições!Para prevenir essas confusões bastaria atar ao pescoço dos anjinhos na medalha com seus nomes e moradas. Tal e qual como aos cãezinhos. Sim, porque as pobres crianças com as suas línguas de trapos, tão musicais e incompreensíveis, esforça-se em vão, muitas vezes por explicar a um desconhecido, que as encontra chorosas na calçada, de onde vêm ou para onde vão. Há só uma palavra nítida no meio daquele embaralhado fuso de sílabas entrecortadas de soluços: — mamãe! Querem a mamãe, cuja mão deixaram sem saber como, nem onde, nem quando, olhando tontas para a direita ou para a esquerda, sem noção do sítio, aflitas, trêmulas, sondando com olhar ávido todas as portas, erguendo os queixinhos rosados para todas as janelas.

Estas cenas, aliás freqüentes, sempre enternecem, e a cada pergunta que um transeunte comovido faz, no sentido de auxiliar e bem conduzir a pobre criaturinha, ouve sempre a mesma resposta — mamãe!…

— Em que rua mora? — Mamãe!
— Para onde ia? — Mamãe!…
— Como se chama ela, a sua mãe? Mamãe, mamãe, mamãe!

Por seu lado, a mãe volve à loja de onde saiu, julgando encontrar o filhinho embasbacado diante da mesma boneca; já não o encontra, sai trêmula, — que o não pise um carro! — e, enquanto alucinada sobe para a direita, interrogando toda a gente, olhando como louca para todas as lojas e todas as esquinas, ele desce para a esquerda, engrolando termos, segurando-se a todas as saias, contemplando com avidez e susto todas as mulheres.

E nós, que nada vimos, comovemo-nos no dia seguinte ao ler nas gazetas:
“… Perdeu-se uma criança…”

Um dia encontrei em uma esquina o velho Dr. Serra, que, apesar dos seus setenta anos, gosta de observar as moças que passam. Disse-me ele:

Estou convencido de que o simples movimento de levantar o vestido exige uma graça muito particular. Há senhoras que erguem a saia de um lado e vão com ela a rastos do outro, descrevendo uma linha diagonal, como se caminhassem de esguelha. Outras, não levantam coisa nenhuma, varrem as ruas com desassombro; outras, levantam demais o vestido, mostrando as saias de baixo, que só devem ter o mérito de se deixar adivinhar: outras, arrepanham as duas saias ao mesmo tempo, para mostrarem a toda gente os tacões das botinas; e é raro ver-se uma que, reunindo as pregas da saia à mesma distância da cintura, colha a fazenda sem distrações nem indiscrições, deixando apenas entrever o que se deve não mostrar. Eu já atinei com a arte. A mão que segura o vestido não deve estar nem muito alta, nem muito baixa, nem muito para diante, nem muito para trás; de maneira que o braço caia naturalmente e não desenhe esses feios ângulos agudos, que nos obrigam também a andar fazendo curvas. Realmente, as senhoras do meu tempo…

Pedi ao meu amigo que olhasse para outro lado e aproveitei a ocasião para fugir-lhe, não sem a preocupação de que ele se voltasse e me visse os tacões, ou a saia de esguelha…

Os homens são terríveis!

Fonte:
Júlia Lopes de Almeida. Livro das Donas e Donzelas. Belém/PA: Núcleo de Educação a Distancia da Universidade da Amazonia (UNAMA).

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Cruz e Souza (O Livro Derradeiro) Parte III


IDÉIA-MÃE

Laborare
Dignus est operarius mercede sua.
(Af. Lat.)

Ergueis ousadamente o templo das idéias
Assim como uns heróis, por sobre os vossos ombros
E ides através de um negro mar d’escombros,
Traçando pelo ar as loiras epopéias.

A luz tem para vós os filtros magnéticos
Que andam pela flor e brincam pela estrela.
E vós amais a luz, gostais sempre de vê-la
Em amplo cintilar — nuns êxtases patéticos.

É esse o aspirar do séc’lo que deslumbra,
Que rasga da ciência a tétrica penumbra
E gera Vítor Hugo, Haeckel e Littré.

É esse o grande — Fiat — que rola no infinito!…
É esse o palpitar, homérico e bendito,
De todo o ser que vive, estuda, pensa e lê!!…

O SEU BONÉ

À atriz Adelina Castro

É um boné ideal, de feltros e de plumas,
Que ela usa agora, assim como um turbante
Turco, aveludado, doce como algumas
Nuvens matinais que rolam no levante.

Lembro quando ao vê-lo a rubra marselhesa,
Lembro sensações e cousas de prodígio
E penso que ele tem a máscula grandeza
Desse sedutor, vital barrete frígio!…

Às vezes meu olhar medindo-lhe o contorno
E a flácida plumagem que serve-lhe d’adorno,
— satânico, voraz, esplêndido de fé!

Exclama num idílio cândido e singelo,
Por entre as convulsões artísticas do Belo; —
Oh! tem coração e alma, esse boné!…
(Corte, out. 1883)

SONETO

A Moreira de Vasconcelos

Na luta dos impossíveis,
do espirito e da matéria,
tu és a águia sidérea
dos pensamentos terríveis!
(Do Autor)

É um pensar flamejador, dardânico
Uma explosão de rápidas idéias,
Que como um mar de estranhas odisséias
Saem-lhe do crânio escultural, titânico!…

Parece haver um cataclismo enorme
Lá dentro, em ânsia, a rebentar, fremente!…
Parece haver a convulsão potente,
Dos rubros astros num fragor disforme!…

Hão de ruir na transfusão dos mundos
Os monumentos colossais profundos,
As cousas vãs da brasileira história!

Mas o seu vulto, sobre a luz alçado,
Oh! há de erguer-se de arrebóis c’roado,
Como Atalaia nos umbrais da glória!!…
(Desterro, 13 jan. 1883)

OISEAUX DE PASSAGE

Les rêves, les grands rêves que moi toujours adore,
Les rêves couleur rose, les rêves éclatants;
Ainsi que les colombes un autre ciel cherchants
J’ai vu les ailes ouvertes, si belles que l’aurore.

Autour de la nature, autour de la profonde
Et merveilleuse mère des fleurs, des harmonies,
Les rêves éblouissants, remplis d’amour et vie,
Trouvaient de l’espoir le plus doré des mondes.

Hélas!… — mais maintenant, par des chagrins, secrets,
L’amour, les étoiles et tout ce qu’il nous est
Chéri — le beau soleil, la lune et les nuages;

Tout fut plongé d’abord’ plongé dans le mystère,
Avec de mon coeur la douce lumière,
Les rêves de mon âme — uns* oiseaux de passage!…
* sic.

COLAR DE PÉROLAS

Ao feliz consórcio dos estimáveis colegas, D. Jesuína Leal e Francisco de Castro.

A F’licidade é um colar de pérolas,
Pérolas caras, de valor pujante,
Belas estrofes de Petrarca e Dante
Mais cintilantes que as manhãs mais cérulas.

Para que enfim esse colar bendito,
Perdure sempre, inteiramente egrégio,
Como uma tela do pintor Correggio,
Sem resvalar no lodaçal maldito:

Faz-se preciso umas paixões bem retas,
Cheias de uns tons de muito sol — completas…
Faz-se preciso que do amor na febre,

Nos grandes lances de vigor preclaro,
Desse colar esplendoroso e raro,
Nem uma pérola, uma só se quebre!…

SATANISMO

Não me olhes assim, branca Arethusa,
Peregrina inspiração dos meus cantares;
Não me deixes a razão vagar confusa
Ao relâmpago ideal de teus olhares.

Não me olhes, oh! não, porquanto eu penso
Envolvido no luar das minhas cismas,
Que o olhar que me dardejas — doido, imenso
Tem a rápida explosão dos aneurismas.

Não me olhes. Oh! não, que o próprio inferno
Problemático, fatal, cálido, eterno,
Nos teus olhos, mulher, se foi cravar!…

Não me olhes, oh! não, que m’entolece
Tanta luz, tanto sol — e até parece
Que tens músicas cruéis dentro do olhar!…

METAMORFOSE

A Carlos Ferreira

O sol em fogo pelo ocaso explode
Nesse estertor, que os crânios assoberba.
Vivo, o clarão, nuns frocos exacerba
Dos ideais a original nevrose.

Da natureza os anafis mouriscos
Ante o cariz da atmosfera muda,
Soam queixosos, numa nota aguda,
Da luz que esvai-se aos derradeiros discos.

O pensamento que flameja e luta
Nos ares rasga aprofundado sulco…
A sombra desce nos lisins da gruta;

E a lua nova — a peregrina Onfale,
Como em um plaustro luminoso, hiulco,
Surge através dos pinheirais do vale.

AURÉOLA EQUATORIAL

A Teodoreto Souto

Fundi em bronze a estrofe augusta dos prodígios,
Poetas do Equador, artísticos Barnaves;
Que o facho — Abolição — rasgando as nuvens graves
De raios e bulcões — triunfa nos litígios!

— O rei Mamoud, o Sol, vibrou p’raquelas bandas
do Norte — a grande luz — elétrico, explodindo,
Assim como quem vai, intrépido, subindo
À luz da idade nova — em claras propagandas.

— Os pássaros titãs nos seus conciliábulos,
— Chilreiam, vão cantando em místicos vocábulos,
Alargam-se os pulmões nevrálgicos das zonas;

Abri alas, abri! — Que em túnica de assombros,
Irá passar por vós, com a Liberdade aos ombros,
Como um colosso enorme o impávido Amazonas!

[ANDA-ME A ALMA]

Anda-me a alma inteira de tal sorte,
Meus gozos, meu pesar, nos dela unidos
Que os dela são também os meus sentidos,
Que o meu é também dela o mesmo norte.

Unidos corpo a corpo — um elo forte
Nos prende eternamente — e nos ouvidos
Sentimos sons iguais. Vemos floridos
Os sons do porvir, em azul coorte…

O mesmo diapasão musicaliza
Os seres de nos dois — um sol irisa
Os nossos corações — dá luz, constela…

Anda esta vida, espiritualizada
Por este amor — anda-me assim — ligada
A minha sombra com a sombra dela.

[QUANDO EU PARTIR]

Quando eu partir, que eterna e que infinita
Há de crescer-me a dor de tu ficares;
Quanto pesar e mesmo que pesares,
Que comoção dentro desta alma aflita.

Por nossa vida toda sol, bonita,
Que sentimento, grande como os mares,
Que sombra e luto pelos teus olhares
Onde o carinho mais feliz palpita…

Nesse teu rosto da maior bondade
Quanta saudade mais, que atroz saudade…
Quanta tristeza por nós ambos, quanta,

Quando eu tiver já de uma vez partido,
Ó meu amor, ó meu muito querido
Amor, meu bem, meu tudo, ó minha santa!

Fonte:
Cruz e Sousa, Poesia Completa, org. de Zahidé Muzart, Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura / Fundação Banco do Brasil, 1993.

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Monteiro Lobato (O Presidente Negro) XXV, final– O Beijo de Barrymore


CAPITULO XXV
O Beijo de Barrymore

O desfecho do drama racial da América comoveu-me profundamente.

Não ter futuro, acabar… Que torturante a sensação dessa massa de cem milhões de criaturas assim amputadas do seu porvir!

Por outro lado, que maravilhoso surto não ia ter na América o homem branco, a expandir-se libérrimo na sua Canaã prodigiosa!

Se somos, se existimos, se apesar de todos os males da vida tanto a ela nos apegamos, é que no intimo do nosso ser a voz da persistência da espécie nos ampara. A meio da vida de cada criatura já é a prole o que lhe dá coragem de a viver até o fim. O celibatário, ser que vale por triste ponto final, sente-se um corpo estranho no tumulto biológico — quasi um amaldiçoado. Que dizer de um povo inteiro assim amputado da sua descendência? A ver-se envelhecer sem um choro de criança que o faça pensar no amanhã? Dia final. Dia já em crepúsculo rápido para uma noite eterna…

Fosse eu um filosofo e teria ali matéria para esmoer o cérebro no imaginar e re-imaginar a infinita maravilha do formidável quadro. Mas não era filosofo. Quem ama não filosofa, apenas suspira — e eu suspirava de comover penedos.

— Jane, Jane, Jane!… como se repetia em minha boca febrenta essa palavra e com que êxtase meus ouvidos a ouviam!

Lembrei-me do romance. Senti que era talvez o caminho mais curto para alcançar o coração da filha do professor Benson. Lancei-me a ele. Comprei uma resma de papel e com furiosa sofreguidão fiz e refiz o primeiro capitulo, entusiasmado com os períodos redondos e cantantes que me saiam da pena. Burilei-o qual um soneto, aprimorei-o de todos os arrebiques da forma, orientado por modelos que me pareceram os melhores. E nunca me hei de esquecer da ânsia com que corri ao castelo com a minha obra em punho! Ia pelo caminho prevendo a surpresa de miss Jane ante aquela forte revelação dum gênio literário que morreria latente se esse meu anjo bom lhe não provocasse o surto.

Encontrei-a na varanda, radiosa na formosura avivada pelo ar fino da manhã. Sem sauda-la, fui logo gritando de longe, com infantil alegria:

— Já fiz o primeiro, miss Jane! O primeiro capitulo! E estou ansioso por ouvir a sua opinião…

– Bravos! exclamou ela. Não esperei que tão rapidamente pusesse mãos á obra.

Abri o meu pacote de tiras em belo cursivo e entreguei-lhas com quem á sua dama entrega a mais preciosa das gemas. Impossível que após sua leitura miss Jane não me desse o seu amor.

Vendo a minha sofreguidão, ali mesmo a jovem as leu, enquanto meus olhos ávidos acompanhavam em seu rosto o efeito da narrativa.

Mas, ai de mim, tudo saiu bem ao contrario do esperado… Miss Jane atenuou quanto pôde a sua critica, delicada e gentil que era; mas não logrou impedir que de volta á cidade eu rasgasse em mil pedaços a minha obra prima e pela janelinha do vagão, melancolicamente, os lançasse ao vento. Azedei a semana inteira e no proximo domingo reapareci no castelo de mãos vazias.

– Não refez então o capitulo? indagou ela logo que entrei.

– Oh, não, miss Jane. Suas palavras abriram-me os olhos. Convenci-me de que não possuo qualidades literárias e não quero insistir, retruquei com ar ressentido.

– Pois tem que insistir, foi a sua resposta. Em nome da nossa amizade o exijo, e pelas qualidades que vi em germe no seu primeiro escrito tenho a certeza de que fará a obra como é mister.

– Confesso, miss Jane, que a sua apreciação do ultimo domingo me desalentou, e ainda permaneço sob essa impressão…

– Que vaidosos os moços! Lembre-se de meu pai. Quantas vezes fazia e refazia a mesma experiência, com uma paciência de beneditino! Por isso venceu. Lembre-se do esforço incessante de Flaubert para atingir a luminosa clareza que só a sábia simplicidade dá. A ênfase, o empolado, o enfeite, o contorcido, o rebuscamento de expressões, tudo isso nada tem com a arte de escrever, porque é artifício e o artifício é a escuta da arte. Puros maneirismos que em nada contribuem para o fim supremo: a clara e facil expressão da ideia.

– Sim, miss Jane, mas sem isso fico sem estilo…

Que finura de sorriso temperado de meiguice aflorou nos lábios da minha amiga!

– Estilo o senhor Ayrton só o terá quando perder em absoluto a preocupação de ter estilo. Que é estilo, afinal?

– Estilo é… ia eu responder de pronto, mas logo engasguei, e assim ficaria se ela muito naturalmente não mo definisse de gentil maneira.

— … é o modo de ser de cada um. Estilo é como o rosto: cada qual possui o que Deus lhe deu. Procurar ter um certo estilo vale tanto como procurar ter uma certa cara. Sai mascara fatalmente — essa horrível coisa que é a mascara…

— Mas o meu modo natural de ser não tem encantos, miss Jane, é bruto, grosseiro, inábil, ingênuo. Quer então que escreva desta maneira?

— Pois certamente! Seja como é, e tudo quanto lhe parece defeito surgirá como qualidades, visto que será reflexo da coisa única que tem valor num artista — a personalidade.

Refleti comigo uns instantes e disse por fim:

— Está bem, miss Jane. Vou tentar mais uma vez. Vou escrever como sair, sem preocupação de espécie nenhuma — nem de gramática, e verá que horror…

— Isso! exclamou ela encantada. Acertou. Isso é que é escrever bem. Refaça o primeiro capitulo com esse critério e traga-mo no proximo domingo. Serei franca como o fui na tentativa anterior, e se me parecer que de fato não tem as qualidades precisas, di-lo-ei francamente e não pensaremos mais nisso.

De regresso ao meu quartinho humilde, nessa mesma noite dei começo á obra. O meu amuo, consequente á vaidade literária ofendida, ainda não passara de todo, e resolvi escrever mal, de um jato, com a intenção deliberada de desapontar miss Jane. Ela me condenaria a segunda tentativa, punhamos um ponto final na literatura e passaríamos a cuidar de outra coisa. Escrevi até madrugada, sem rasuras, sem escolha de palavras, como se estivesse a correr no meu saudoso Ford ao acaso das estradas sem fim. Ao soarem três horas atirei com a caneta e fui dormir o sono mais pesado da minha vida. No dia seguinte fui ve-la.

— Aqui está, miss Jane, o horror que me saiu da pena. Escrevi de acordo com a sua receita e nem coragem tive de reler. Condene-me de uma vez e passemos a cuidar de outra coisa.

Miss Jane tomou as tiras e logo ao fim da primeira abriu a expressão que na tentativa anterior eu tanto ansiava por ver. E nesse estado de êxtase sôfrego permaneceu até o fim.

— Ótimo! exclamou. O senhor Ayrton acaba de revelar-se um verdadeiro escritor — impetuoso, irregular, incorreto, ingênuo, mas expressivo, original e forte. Há aqui verdadeiros achados de expressão. Faça o livro inteiro neste tom que eu lhe garanto a vitoria.

Olhei para a minha amiga quasi com rancor, tão certo estava eu da ironia de suas palavras.

— Tem coragem de ser assim impiedosa com o pobre Ayrton? murmurei em tom magoado.

Ela olhou-me nos olhos fixamente, sem dizer palavra, e nos seus lindos olhos azuis vi refletida com tamanha nitidez a pureza de sua alma que logo me envergonhei do meu ímpeto, filho exclusivo da ignorância.

— Não, meu amigo! disse-me por fim. Sou incapaz de ironia. O que acabo de dizer é a fiel expressão do meu pensamento. Estas páginas estão cheias de defeitos, mas dos defeitos naturais ao primeiro jato de toda obra sincera e espontânea. São as rebarbas que com a lima o fundidor suprime. Mas se noto defeitos que a lima tira, não noto nenhum vicio literário, e por isso considero ótimo o começo do seu romance. Faça-o todo nesse tom e fará a obra que imagino. O trabalho de rebarba deixe-o comigo. Sou mulher e paciente. Deixe-me o menos e faça o mais. Seja o fundidor apenas, o obreiro que cria o grande bloco e não perde tempo com detalhes subalternos.

Calaram fundo no meu coração aquelas palavras. Vi nelas um interesse mais de amorosa do que de simples amiga — de amorosa que o é sem o saber. Imergida que sempre vivera em suas visões do futuro, e sempre presa da mais intensa atividade cerebral, miss Jane ignorava-se.

Olhei-a com o coração nos olhos. O “puro espírito” viu em mim a taça cheia em excesso, cuja espuma se derrama — e perturbou-se. Seus olhos baixaram-se. Seu peito ofegou.

Era o céu. Atirei-me como quem se atira á vida, e esmaguei-lhe nos lábios o beijo sem fim de John Barrymore. E qual o raio que acende em chamas o tronco impassível, meu beijo arrancou da gelada filha do professor Benson a ardente mulher que eu sonhara.

— Minha, afinal!…
FIM

Fonte:
Monteiro Lobato. O Presidente Negro. Editora Brasiliense, 1979.

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Câmara Brasileira do Livro (Curso “A Lei Rouanet e a busca de patrocínios para livros”)


O curso “A Lei Rouanet e a busca de patrocínios para livros”, oferecido pela Escola do Livro, da CBL, acontece no dia 27 de outubro, das 9h às 18h.

O curso tem como propósito mostrar como os editores podem se utilizar da Lei Rouanet para publicação de livros.

O programa vai discorrer sobre o melhor uso das leis, dicas práticas para aprovação dos projetos, além de panorama de captação de recursos no Brasil, sustentabilidade de projetos culturais, incentivos fiscais – patrocínios e doações, quem pode se beneficiar. Técnicas de negociação com empresas também serão abordados.

As aulas serão ministradas por Michel Freller e Marcelo Estraviz.

Michel Freller é empreendedor social, administrador público formado pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, mestrando em Administração pela PUC-SP, com aperfeiçoamento em gestão, formatação de projetos e captação de recursos, tanto no Brasil, quanto no exterior.

Marcelo Estraviz é Empreendedor social, palestrante e escritor. É presidente da Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR) e da associação de ex-alunos do Colégio Miguel de Cervantes, Conselheiro do Greenpeace, Embaixador da iniciativa The Hub, Co-autor do livro “Captação de diferentes recursos para organizações da sociedade civil”. Recentemente lançou mais um livro sobre mobilização de recursos: “Um dia de captador”.

Mais informações do curso podem ser obtidas pelo e-mail: escoladolivro@cbl.org.br ou pelo telefone (11) 3069-1300.

Fonte:
Câmara Brasileira do Livro

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V Bienal do Livro de Alagoas (encerra-se dia 30 de outubro, domingo)


A V Bienal do Livro de Alagoas começou na última sexta – feira (21/10) e acontece até 30 de outubro. A Bienal é uma realização da Universidade Federal de Alagoas, através da EDUFAL – Editora da Universidade Federal de Alagoas, com o apoio da ABEU (Associação Brasileira dos Editores Universitários), da CBL (Câmara Brasileira do Livro), da Prefeitura de Maceió, do Governo do Estado de Alagoas e demais parceiros de instituições públicas e privadas.

O patrono dessa edição é o jornalista alagoano Audálio Dantas. Na abertura, o evento também contou com a presença do Sr. Vitor Tavares, Vice-Presidente da CBL. O país homenageado é a Itália, fazendo parte das comemorações oficiais do Momento Itália – Brasil (MIB) 2011/2012, contando com grandes nomes da literatura italiana.

O evento é bem localizado, no Centro Cultural e de Exposições Ruth Cardoso, em Jaraguá, com facilidade de acesso de estacionamento, dotado de segurança pública e particular, em uma área total de 6.137m², divididos em 4.727m² de área de Exposição, com 147 estandes, 405m² de foyer e recepção. Possui 1600 m² de mezanino, 5 salas para oficinas literárias e de criação, auditório com 500 lugares, sala para palestras, debates com autores regionais, locais e internacionais para 120 lugares e um café literário para lançamentos e bate-papo com os autores, além da praça de autógrafos, que possibilitará a interação entre autores independentes e o público visitante.

Com a proposta de continuidade da IV Bienal, a V edição da Bienal do Livro tem o propósito de marcar a presença das editoras de várias partes do país e do exterior junto ao público alagoano, através de seus últimos lançamentos, proporcionando aos estudantes de vários níveis, aos acadêmicos, professores, comunidade em geral a possibilidade de contato com material literário de várias áreas do conhecimento.

A Bienal deve reunir representação de mais de 500 editoras universitárias e comerciais de todo o país, com aproximadamente 22 mil títulos, e receber a visita estimada de 180 a 200 mil pessoas. Para esta edição, estão programadas 102 palestras, 57 oficinas, 315 lançamentos, 04 seminários, 01 simpósio, 22 mesas-redondas, 01 fórum, além de performances, espetáculos e contações de histórias.

A rede de ensino pública e particular será mobilizada e as visitas pré-agendadas e monitoradas devem atender mais de 70 mil alunos. A visitação escolar dá a dimensão do papel do evento no contexto educacional. Significa para os estudantes um aprendizado especial e diferente da rotina das aulas. Para as escolas, é um momento único de estimular e conscientizar suas turmas sobre a importância do livro e da leitura e a amplitude do universo literário.

Seguindo os princípios de Leitura para Todos, a V Bienal terá em sua agenda cultural 14 oficinas de literatura inclusiva nas mais diversas modalidades: Braille, libras e oficinas voltadas para portadores de deficiências intelectuais e múltiplas.

Pela segunda vez, acontecerá em uma Bienal o Encontro do PROLER – Programa Nacional de Incentivo à Leitura –, vinculado à Fundação Biblioteca Nacional, órgão do Ministério da Cultura, e à Secretaria de Estado da Cultura. Além de fortalecer ações de estímulo à leitura, possibilitará aos gestores de bibliotecas públicas, comunitárias e rurais conhecer e visitar a Bienal.

A V Bienal Internacional do Livro de Alagoas conta com a participação dos países já confirmados: Itália, México, Peru, Portugal, França e Colômbia, além de uma Exposição das Editoras Universitárias da América Latina e Caribe. O país homenageado é a Itália, fazendo parte das comemorações oficiais do Momento Itália – Brasil (MIB) 2011/2012 contando com grandes nomes da literatura italiana.

Em parceria com o SESC e o Instituto Pró-Livro, acontecerá uma Bienal de crianças no mezanino, onde será montada uma estrutura para o túnel de livros, com atores contando os capítulos da história, uma “oficina do escritor” com visita orientada aos processos de funcionamento de uma biblioteca até a descoberta da escrita. Haverá ainda o palco “Livro Aberto” com mostrinhas de contações de histórias e atrações durante todo o período da Bienal.

Contando também com uma parceria entre o SENAC, SEBRAE e ABRASEL, haverá um Espaço Gourmet, apresentando chefes de cozinha, fazendo ligação com a literatura grastronômica.

Todas as oficinas têm um número limitado de vagas e fornecem certificado (nas oficinas com dois módulos, será obrigatória a presença em ambos para obter o certificado);

PROGRAMAÇÃO DO DIA 27 AO DIA 30

DIA 27 DE OUTUBRO (QUINTA-FEIRA)

AUDITÓRIO

10h às 13h – PROLER Encerramento – Painel: “Lei nº 12.244 – Universalização das bibliotecas escolares no Brasil” – Francisca Rosaline L. Mota e Cícero Péricles

14h às 17h – Palestra “Nossa Língua Portuguesa – Uma Conversa Com o Prof. Pasquale” – Prof. Pasquale Cipro Neto
Auditório A:

19h às 21h – Palestra: “Ações culturais com jovens em comunidade de risco” – Licurgo Spinola
Auditório B:

19h às 22h – Painel Literário SESC- A nova literatura é uma literatura nova? – Marcelino Freire, autores do Prêmio SESC de Literatura e convidados Mediação de Joelma Rodrigues e Maria José Duarte

SALA AUDÁLIO DANTAS

10h – Palestra: “O Pré-Sal e seus desafios” – Marcos Gonçalves (Petrobras – AL)

14h às 15h30 – Palestra: “A Utilização das Mídias Sociais no Ambiente Educacional” – Dalgoberto Miquilino Pinho Jr.

16h – Palestra: “O Pré-Sal e seus desafios” – Marcos Gonçalves (Petrobras – AL)

19h – Mesa Redonda: “Literatura, memória e globalização” – Presenças Internacionais: Simonetta Agnello, Giancarlo De Cataldo, Giorgio De Marchis

SALA LUITGARDE BARROS

10h às 13h – Oficina: “Conte uma História: O Lúdico na Literatura Infantil” – Marize Sarmento e Maria Isabel Barbosa Fernandes (35 vagas)

16h às 18h – Mesa Redonda: “Sertão, República e Nação: Uma Chave de Leitura para a Ação ‘Civilizadora’ de Delmiro Gouveia na Vila da Pedra” – Elcio Verçosa, Elcio Verçosa Filho e Edivaldo F. do Nascimento (50 pessoas)

SALA JOSÉ MARQUES DE MELO

Oficina de Inclusão: (para pessoas com deficiência mental e múltiplas)

9h30 às 10h30 – “A baratinha” (60 vagas)

11h às 12h30 – “A cigarra e a formiguinha” (60 vagas) Oficina de Inclusão (para pessoas com deficiência mental e múltiplas)

14h às 15h30 – “A baratinha” (60 vagas)

16h às 18h – “A cigarra e a formiguinha” (60 vagas)

SALA MANOEL CORREIA DE ANDRADE

Oficina: “Música e Dança na Educação Infantil” – Cleriston Izidro dos Anjos e Gicelma de Oliveira Cavalcante

10h às 12h – Módulo I

14h às 18h – Módulo II (40 vagas)

SALA LÊDO IVO

10h às 13h – Oficina: “Entre a Lei e a Prática: subsídios para trabalhar a questão racial no espaço da escola” – Nanci Helena Rebouças Franco (30 vagas)

16h às 17h – Palestra: “A ironia na ficção de Graciliano Ramos.” – Neide Medeiros Santos

17h às 18h – Palestra: “A história literária e cultural de Palmeira dos Índios” – Isvânia Marques

SALA NISE DA SILVEIRA

10h às 12h30 – Bate-papo com autores

14h às 18h30 – Bate-papo com autores

PALCO “LIVRO ABERTO”

10h às 11h, das 14h às 15h e das 15h30 às 16h30 – Leitura com Letras Sonoras

17h às 18h30 – Lançamentos de livros

OFICINA DO ESCRITOR

10 às 22h – De pesquisa em pesquisa descubro o mundo – Visita orientada aos processos de funcionamento de uma biblioteca até a descoberta da escrita

CAFÉ LITERÁRIO

19h – Lançamento coletivo de autores da Edufal

DIA 28 DE OUTUBRO (SEXTA-FEIRA)

AUDITÓRIO

Ìgbà Ábídí – VI Seminário Afro-Internacional – Ìkàwe ! Ìmó (Leitura e saber) – Países Presentes: Cabo Verde, Moçambique, Angola e Guiné Bissau
10h às 12h ; 14h às 17h

Auditório A:

19h às 22h – Painel Literário SESC – A nova literatura é uma literatura nova? – Lorival Holanda, autores do Prêmio SESC Mediação de Joelma Rodrigues e Maria José Duarte

Auditório B:

19h – Palestra: “Educando com as Ferramentas da Simplicidade” – Hamilton Werneck
SALA AUDÁLIO DANTAS

10h às 12h – Mesa redonda : Poesia em movimento – José Inácio Vieira de Melo, Lêdo Ivo, Ricardo Cabús e Gal Monteiro

16h às 18h – Mesa Redonda: “João Craveiro Costa – revisitando o pensador da História, da Pedagogia e da didática em Alagoas” – Elcio de Gusmão Verçosa, Elione Maria Nogueira Diógenes e Ivanildo Gomes dos Santos

19h – Palestra: “Jornalismo Literário” – Fernando Morais e Teresa Ribeiro

SALA LUITGARDE BARROS

10h às 13h – Oficina: “Novas Tecnologias para Preservação do Acervo” – Gláucia Gomes (40 vagas)

16h às 18h – Lançamento: “VII Tópica – Revista de Psicanálise “ e do site do Grupo Psicanalítico de Alagoas – GPAL- (80 vagas)

SALA JOSÉ MARQUES DE MELO

10h às 13h – Palestra: “Comunicação Visual” – Paulo Araújo (70 vagas)
Apresentação: “Leitura e Cultura na 3ª Idade”- Grupo Novo Despertar

14h às 16h (60 vagas) ; 16h às 18h (60 vagas)

SALA MANOEL CORREIA DE ANDRADE

Oficina: “Publicações Periódicas Científicas Impressas” – Anamaria da Costa Cruz

10h às 13h – Módulo I

14h às 18h – Módulo II (30 vagas)

SALA LÊDO IVO

10h às 12h – Palestra: “Biblioteca como espaço de memória” – Adriana Guimarães e Ana Cláudia Magalhães (70 vagas)

16h às 17h – Palestra: “A importância da leitura para crianças e jovens alagoanos” – Carlindo de Lira Pereira

17h às 18h – Palestra: “Pontos de lazer e difusão da cultura de Arapiraca” – Franciane Santos Azevedo

SALA NISE DA SILVEIRA

10h às 12h30 – Bate-papo com autores

14h às 18h30 – Bate-papo com autores

PALCO “LIVRO ABERTO”

10h às 11h, das 14h às 15h e das 15h30 às 16h30 – Leitura com Letras Sonoras

17h às 18h30 – Lançamentos de livros

OFICINA DO ESCRITOR

10 às 22h – De pesquisa em pesquisa descubro o mundo – Visita orientada aos processos de funcionamento de uma biblioteca até a descoberta da escrita

CAFÉ LITERÁRIO

19h – Lançamento coletivo de autores da Edufal

DIA 29 DE OUTUBRO (SÁBADO)

AUDITÓRIO

10h às 12h – Projeto: “Mães Leitoras e Arapiraquinhas” – Prefeitura de Arapiraca

15h às 19h – SESC Mostra Gogó da Ema de Contadores de História

19h às 22h – SESC Mostra Gogó da Ema de Contadores de História

SALA AUDÁLIO DANTAS

15h – Mesa Redonda: “Jornalismo Literário” – Ricardo Kotscho, Audálio Dantas e Fernando Morais

18h – Conferência: “Relação cultural Itália e Brasil em especial MIB 2011/2012” – Francesco Piccione (Consul da Itália)

20h – Palestra: “Metrópole Comunicacional e Fetichismos Visuais” – Massimo Canevacci (Itália)
SALA LUITGARDE BARROS

Oficina SESC: “Estudos e formação para Contadores de Histórias”

10h às 12h – Módulo I

13h às 15h – Módulo II (30 vagas)

SALA JOSÉ MARQUES DE MELO

Oficina: “Oficina de Criatividade” – Luciana Bezerra

10h às 13h – Módulo I

14h às 18h – Módulo II (40 vagas)

SALA MANOEL CORREIA DE ANDRADE

10h às 12h – Mesa Redonda: “Índios de Alagoas – Economia e Cotidiano” – Luiz Sávio de Almeida e Amaro Leite da Silva (70 vagas)

14h às 15h – Palestra: “Bullying, to fora! Como identificar seus personagens” – Nara Virgínia Rocha Simões Anadão (90 vagas)

16h às 18h – Mesa-Redonda: “As esquerdas e a Democracia”, seguido de lançamento dos autores Michel Zaidan, Marco Mondaini

SALA LÊDO IVO

Oficina SESC: “Estudos e formação para Contadores de Histórias” – (30 vagas)

16h às 18h – Palestra: “Uma breve viagem pela tradição literária de Penedo” – Francisco Araujo Filho (70 vagas)

SALA NISE DA SILVEIRA

10h às 12h30 – Bate-papo com autores

14h às 18h30 – Bate-papo com autores

PALCO “LIVRO ABERTO”

10h às 11h , das 14h às 15h e das 15h30 às 16h30 – Mostrinha Gogó da Ema de Contadores de Histórias

17h às 18h30 – Lançamentos de livros

OFICINA DO ESCRITOR

10 às 22h – De pesquisa em pesquisa descubro o mundo – Visita orientada aos processos de funcionamento de uma biblioteca até a descoberta da escrita

CAFÉ LITERÁRIO

19h – Lançamento coletivo de autores da Edufal

DIA 30 DE OUTUBRO (DOMINGO)

AUDITÓRIO

10h às 12h – Palestra Show –“Colcha de leituras”- ensaios para unir amores e alinhavar leitores – Jonas Ribeiro

13h às 19h – SESC Mostra Gogó da Ema de Contadores de História

20h – SESC Palestra: “A contação de estórias no processo leitor” – Rubem Alves

SALA AUDÁLIO DANTAS

10h às 12h – Mesa Redonda: “A importância da sociedade civil para a construção de políticas públicas do livro, da literatura e da leitura” – Maria das Dores Andrade de Barros, Vereador Proponente da Lei do livro de Olinda, Leocádia da Hora e Amanda Lima

15h às 16h30 – Lançamento: “Revista Política Democrática”

16h30 às 18h – Lançamento do Livro: “Grande Sertão”, do Dirceu Lindoso

18 às 19h30 – Palestra: “Astrojildo Pereira: a crença num Brasil gigante.” – J. R. Guedes de Oliveira

20:00h – Palestra: “Dario Fo: a dramaturgia a partir da cena” – Neyde Veneziano

SALA LUITGARDE BARROS

Oficina SESC: “Formação para Contadores de Histórias”

10h às 12h – Módulo I

13h às 15h – Módulo II (30 vagas)

SALA JOSÉ MARQUES DE MELO

Oficina de Braille: Noções Básicas

10h às 12h – Módulo I

14h às 18h – Módulo II (20 vagas)

SALA MANOEL CORREIA DE ANDRADE

Oficina de Libras: Noções Básicas – Suely Sampaio R. Jimenez, Jerlan Pereira Batista e Jaqueline Soares dos Santos

10h às 13h – Módulo I

15h às 18h – Módulo II (35 vagas)

SALA LÊDO IVO

10h às 12h – Oficina: “Felicidade Clandestina: Uma Experiência de Leitura Literária na Educação Básica” – Jairo José Campos da Costa (50 vagas)

16h às 18h – Palestra: “Justiça à poesia” Pedro Onofre de Araújo

SALA NISE DA SILVEIRA

10h às 12h30 – Bate-papo com autores

14h às 18h30 – Bate-papo com autores

PALCO “LIVRO ABERTO”

10h às 11h, das 14h às 15h e das 15h30 às 16h30 – Mostrinha Gogó da Ema de Contadores de Histórias

17h às 18h30 – Lançamentos de livros

OFICINA DO ESCRITOR

10 às 22h – De pesquisa em pesquisa descubro o mundo – Visita orientada aos processos de funcionamento de uma biblioteca até a descoberta da escrita
CAFÉ LITERÁRIO

19h – Lançamento coletivo de autores da Edufal

Fontes:
– Câmara Brasileira do Livro
http://www.edufal.com.br/bienal2011/index.php/

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