Arquivo do mês: outubro 2011

Wagner Marques Lopes (Trova Ecológica 39)

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31 de outubro de 2011 · 23:21

Ialmar Pio Schneider (Soneto a Carlos Drummond de Andrade)

Nascimento do poeta Carlos Drummond de Andrade em 31.10.1902
– In Memoriam –

Carlos Drummond de Andrade e a ´´pedra do caminho´´…
por isso compreendi que tudo dá poesia,
quando se tem amor, quando se tem carinho,
e as ideias triviais surjam da fantasia…

Porém, ´´e agora José´´, seguindo sozinho
no escuro, amedrontado e sem a luz do dia,
procurando encontrar um mero cantinho
para viver feliz e ´´não veio a utopia´´…

Eu também encontrei muitas pedras na estrada
e me achei qual José, caminhando no escuro,
mas não tinha ninguém, pois a mulher amada

não havia surgido em minha triste vida…
No entanto, acreditei nos sonhos do futuro
e nos versos que fiz buscava uma saída…

Fonte:
Soneto enviado pelo autor

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Arquivado em homenagem, Soneto.

Carlos Drummond de Andrade (O Poeta Singrando Horizontes)


A CÂMARA VIAJANTE

Que pode a câmara fotográfica?
Não pode nada.
Conta só o que viu.
Não pode mudar o que viu.
Não tem responsabilidade no que viu.
A câmara, entretanto,
Ajuda a ver e rever, a multi-ver
O real nu, cru, triste, sujo.
Desvenda, espalha, universaliza.
A imagem que ela captou e distribui.
Obriga a sentir,
A, driticamente, julgar,
A querer bem ou a protestar,
A desejar mudança.
A câmara hoje passeia contigo pela Mata Atlântica.
No que resta – ainda esplendor – da mata Atlântica
Apesar do declínio histórico, do massacre
De formas latejantes de viço e beleza.
Mostra o que ficou e amanhã – quem sabe? acabará
Na infinita desolação da terra assassinada.
E pergunta: “Podemos deixar
Que uma faixa imensa do Brasil se esterilize,
Vire deserto, ossuário, tumba da natureza?”
Este livro-câmara é anseio de salvar
O que ainda pode ser salvo,
O que precisa ser salvo
Sem esperar pelo ano 2 mil.

SESTA
A Martins de Almeida

A família mineira
está quentando sol
sentada no chão
calada e feliz.
O filho mais moço
olha para o céu,
para o sol não,
para o cacho de bananas.
Corta ele, pai.
O pai corta o cacho
e distribui pra todos.
A família mineira
está comendo banana.
A filha mais velha
coça uma pereba
bem acima do joelho.
A saia não esconde
a coxa morena
sólida construída.
mas ninguém repara.

Os olhos se perdem
na linha ondulada
do horizonte próximo
(a cerca da horta).
A família mineira
olha para dentro.
O filho mais velho
canta uma cantiga
nem triste nem alegre,
uma cantiga apenas
mole que adormece.
Só um mosquito rápido
mostra inquietação.
O filho mais moço
ergue o braço rude
enxota o importuno.
A família mineira
está dormindo ao sol.

REJEIÇÃO

Não sei o que tem meu primo
que não me olha de frente.
Se passo por sua porta,
é como se não me visse:
parece que está na Espanha
e eu, velhamente, em Minas.
Até me virando a cara,
a cara é de zombaria.
Se ele pensa que é mais forte
e que pode me bater,
diga logo, vamos ver
o que a tapa se resolve.
A gente briga no beco,
longe dos pais e dos tios,
mas briga de decidir
essa implicância calada.
Qual dos dois, mais importante:
o ramo dele, o meu ramo?
O pai mais rico, quem tem?
Qual o mais inteligente,
eu ou ele, lá na escola?
Namorada mais jeitosa,
é a minha ou é a dele?
Tudo isso liquidaremos
a pescoção, calçapé,
um dia desses, na certa.
Sem motivo, sem aviso,
meu primo declara guerra,
essa guerrinha escondida,
de mim, mais ninguém, sabida.
Pode pois uma família
ser assim tão complicada
que nós dois nos detestamos
por sermos do mesmo sangue?
Nossas paredes internas
são forradas de aversão?
Será que o que eu penso dele
ele é que pensa de mim
e me olha atravessado
porque vê na minha cara
o vinco de zombaria
e um sentimento de força,
vontade de bater nele?
Meu Deus, serei o meu primo,
e a mesma coisa sentimos
como se a sentisse o outro?

A EXCITANTE FILA DO FEIJÃO

Larga, poeta, a mesa de escritório,
esquece a poesia burocrática
e vai cedinho à fila do feijão.

Cedinho, eu disse? Vai, mas é de véspera,
seja noite de estrela ou chuva grossa,
e sem certeza de trazer dois quilos.

Certeza não terás, mas esperança
(que substitui, em qualquer caso, tudo),
uma espera-esperança de dez horas.

Dez, doze ou mais: o tempo não importa
quando aperta o desejo brasileiro
de ter no prato a preta, amiga vagem.

Camburões, patrulhinhas te protegem
e gás lacrimogêneo facilita
o ato de comprar a tua cota.

Se levas cassetete na cabeça
ou no braço, nas costas, na virilha,
não o leves a mal: é por teu bem.

O feijão é de todos, em princípio,
tal como a liberdade, o amor, o ar.
Mas há que conquistá-lo a teus irmãos.

Bocas oitenta mil vão disputando
cada manhã o que somente chega
para de vinte mil matar a gula.

Insiste, não desistas: amanhã
outros vinte mil quilos em pacotes
serão distribuídos dessa forma.

A conta-gotas vai-se escoando o estoque
armazenado nos porões do Estado.
Assim não falta nunca feijão-preto

(embora falte sempre nas panelas).
Método esconde-pinga: não percebes
que ele torna excitante a tua busca?

Supermercados erguem barricadas
contra esse teu projeto de comer.
Há gritos, há desmaios, há prisões.

Suspense à la Hitchcock ante as cerradas
portas de bronze, guardas do escondido
papilionáceo grão que ambicionas.

É a grande aventura oferecida
ao morno cotidiano em que vegetas.
Instante de vibrar, curtir a vida

na dimensão dramática da luta
por um ideal pedestre mas autêntico:
Feijão! Feijão, ao menos um tiquinho!

Caldinho de feijão para as crianças…
Feijoada, essa não: é sonho puro,
mas um feijão modesto e camarada

que lembre os tempos tão desmoronados
em que ele florescia atrás da casa
sem o olho normativo da Cobal.

Se nada conseguires… tudo bem.
Esperar é que vale – o povo sabe
enquanto leva as suas bordoadas.

Larga, poeta, o verso comedido,
a paz do teu jardim vocabular,
e vai sofrer na fila do feijão.

A ILUSÃO DO MIGRANTE

Quando vim da minha terra,
se é que vim da minha terra
(não estou morto por lá?),
a correnteza do rio
me sussurrou vagamente
que eu havia de quedar
lá donde me despedia.
Os morros, empalidecidos
no entrecerrar-se da tarde,
pareciam me dizer
que não se pode voltar,
porque tudo é conseqüência
de um certo nascer ali.
Quando vim, se é que vim
de algum para outro lugar,
o mundo girava, alheio
à minha baça pessoa,
e no seu giro entrevi
que não se vai nem se volta

ACORDAR, VIVER

Como acordar sem sofrimento?
Recomeçar sem horror?
O sono transportou-me
àquele reino onde não existe vida
e eu quedo inerte sem paixão.

Como repetir, dia seguinte após dia seguinte,
a fábula inconclusa,
suportar a semelhança das coisas ásperas
de amanhã com as coisas ásperas de hoje?

Como proteger-me das feridas
que rasga em mim o acontecimento,
qualquer acontecimento
que lembra a Terra e sua púrpura
demente?
E mais aquela ferida que me inflijo
a cada hora, algoz
do inocente que não sou?

Ninguém responde, a vida é pétrea.

IMORTALIDADE

Morre-se de mil motivos
e sem motivo se morre
de saudade,
morreu o poeta
sem morrer à eternidade
ele que fez de uma pedra
louvor para sua cidade
gauche, grande destro
sem querer celebridade
pelos mil que era
num só se fez único
ficando no seu primeiro
carácter de bom mineiro
jamais morrerá
e sempre será.

Fonte:
ANDRADE, Carlos Drummond. Nova Reunião: 23 livros de poesia. Rio de Janeiro: Bestbolso, 2009.

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Júlia Lopes de Almeida (Flores)


Escrevo estas linhas pensando em minhas filhas. Elas me compreenderão quando forem mulheres e plantarem rosas para dar mel às abelhas e perfume a sua casa.

Em maio de 1901 resolvi organizar para setembro desse mesmo ano uma exposição de flores no Rio de Janeiro, a primeira que se faria nesta cidade. Se faltava originalidade à lembrança, visto que exposições de flores fazem-se todos os anos em terras civilizadas, sobrava-lhe o interesse; a curiosidade amiga que sempre tive pelas flores e o desejo de as ver muito amadas na minha terra. Referir-me a essa exposição é para mim um sacrifício; mas não quero omitir tal capítulo neste livro de mulheres, presidido pelo olhar das minhas filhinhas, a quem pretendo insinuar o amor das plantas, como um dos mais suaves e melhores da vida.

Dizem que as palavras voam e que as obras ficam; mas há obras que o vento leva e que só na palavra fugitiva deixam a sua lembrança… Não falarei da exposição malograda, por ela nem por mim, mas pelos seus intuitos, que eram múltiplos e que continuo a achar excelentes. O que foi acabou. Deite-se-lhe em cima a terra do esquecimento; agora o que ela seria poderá ainda ser, e é nessa hipótese que tem cabimento esta insistência. O que eu esperava dessa exposição era isto só:

Que fosse o início de outras mais belas, que iriam aperfeiçoando as espécies estimadas dos nossos jardins e descobrindo os tesouros dos nossos campos e das nossas florestas. Quantas flores vicejam por esses sertões, dignas de figurarem nos salões mais exigentes! Eu mesma, que nada posso, guiada por uma rápida visão da meninice, não mandara vir do interior de S. Paulo uma flor que, se tivesse a desgraça de pensar, não imaginaria nunca ver o seu nome em um catálogo? Com o prestígio da exposição, quantas pessoas trariam a concurso lindas flores ignoradas, e ignoradas porque são brasileiras?

Não sou dos que pensam que não devemos aceitar nem pedir árvores estrangeiras, desde que temos flores e árvores com tamanha abundância em nosso país.

As coisas boas e belas nunca são de mais, e há ainda a acrescentar a essas duas qualidades a utilidade especial de cada planta.

Todavia, devemos indagar bem do que temos em casa, antes de pedir o que só julgamos haver na alheia.

Uma das principais preocupações da exposição seriam as orquídeas, de tão melindroso cultivo e demorada floração. O catálogo mencionaria com o maior cuidado todas as variedades apresentadas no certame, raras ou não. Ah, no artigo das orquídeas havia parágrafos que valiam capítulos pelas suas intenções.

Imagine que se aventava a idéia de fundarmos no Rio um pavilhão para exposições permanentes, em que a orquídea seria protegida e defendida como um tesouro.

Faz rir a idéia, não é verdade? Nesse pavilhão, organizado por competentes, todas as orquídeas vindas dos Estados próximos, para exportação, seriam sujeitas a um exame para o competente passaporte… Esta prática, que a maioria parecerá absurda, seria considerada naturalíssima, se o respeito pelas orquídeas, que são as jóias das nossas florestas, já tivesse sido implantado no povo. Há orquídeas e parasitas que tendem a desaparecer, pela devastação arrebatadora com que naturais inconscientes e estrangeiros especuladores as arrancam das árvores para as meterem nos caixotes em que as mandam para os portos europeus. Pode dizer-se que e nas estufas da Inglaterra, da França, da Holanda e da Alemanha e até da República Argentina, que se vêem as mais belas flores do Brasil! Não seria justo que, exportando as variedades mais raras das nossas orquídeas, guardássemos delas, na capital, exemplares que garantissem a sua reprodução no país e abrilhantassem a exposição permanente, visitada ao menos por todos os estrangeiros em trânsito?

Mas a nossa atenção não estava voltada só para as orquídeas.

Cada dia da exposição de flores seria dedicado a uma das espécies mais estimadas entre nós.

Teríamos um dia só para rosas. Em roseiras ou cortadas, nessas flores se concentraria a atenção do júri, constituído pelos nossos mestres de botânica e pelos donos dos principais estabelecimentos de floricultura do Rio de Janeiro. Nesse dia apurar-se-ia, aproximadamente, a quantidade de variedades que temos dessa flor, para estabelecer depois a comparação com as que se apresentassem em exposições consecutivas. Tudo isso ficaria consignado em um livro, documentado por nomes conhecidos e insuspeitos.

Assim como as rosas, os cravos não teriam razão de queixa.

Tem reparado como a cultura de cravos se tem desenvolvido e embelezado no Rio de Janeiro? Acreditava-se antigamente que essa flor, uma das mais originais, senão a mais original, só desabrochava bem em Petrópolis, em São Paulo e não sei em que outras terras. Pois estávamos enganados. Nem mesmo do alto da Tijuca são esses formosos cravos que aí estão de tantas cores variadas e tão opulentos de forma; são do vale do Andaraí; são do Engenho Velho; são dos subúrbios; são de Santa Teresa, etc. Quem tiver um canto de jardim, um peitoril largo para vasos de barro, um pouco de terra, pode com segurança semear os seus craveiros; as flores virão.

Como incentivo, a exposição distribuiria mudas de crisântemos a um certo numero de moças, emprazando-as a apresentarem na estação dessa flor a planta florida para uma exposição, em que seriam distribuídos os prêmios do primeiro certame.

Inoculando o gosto pela jardinagem, ela desenvolveria a cultura de uma flor brilhante e a que o nosso clima é favorável.

Nessa primeira exposição, teríamos, além de conferencias estimulando o amor das plantas, mostrando-as em todos os seus múltiplos aspectos sedutores, lições de jardinagem prática.

Essas lições, dadas com a maior simplicidade, sem termos enfáticos, por um homem ilustrado e amigo das flores, nos ensinariam como deve ser preparada a terra para o jardim, como se devem fazer as sementeiras e as podas e os enxertos e matar os pulgões, e criar rosas novas e transformar as variedades mais conhecidas, e pulverizar de água fresca os altos troncos das orquídeas, etc.

Com essas coisas pensava eu prestar simultaneamente dois serviços, à cidade, demonstrando a possibilidade de se fundar aqui uma escola para jardineiros, e às moças a quem o tempo sobre para essas brilhantes fantasias. A jardinagem fornece ensejo para distrações e estudos próprios para mulheres.

E, depois, que encanto o de ver-se o nome de uma senhora ligado ao de uma rosa!

Em todas as capitais do mundo civilizado há o culto da flor. Elas simbolizam as nossas grandes alegrias, como as nossas grandes tristezas, imagens materializadas das maiores comoções da vida. Nas alegres visitas de boas festas e de aniversários, ou nas romarias para os cemitérios, as flores exprimem o júbilo ou a saudade, tão bem como a lágrima ou como o sorriso.

Na Alemanha, disse-me uma amiga que por lá andou viajando, há nas portas dos hospitais, em dias de visita, floristas com ramos para todos os preços; abundam os baratinhos, de flores agrestes ou mais vulgares. Naturalmente, quem vai ver um doente de quarto particular, escolhe as camélias mais puras ou os narcisos mais raros; para os pobres e os indigentes das enfermarias publicas vão bouquets modestos e pequeninos, conquanto vistosos e alegres

Que é aquilo? Um pouco de poesia e de primavera, que vão errar com o seu aroma e as suas cores vistosas e alegres naquele ambiente triste e aborrecido. O olhar desconsolado do doente encontra naquilo um pouco de distração e de consolo.

E assim que nós precisamos gostar de flores. Gostar tanto, que elas sejam para nós uma necessidade; tanto, que até o povo das enfermarias gratuitas não ache mal empregado o tostãozinho com que as adquira! E aqui é tão fácil cultivá-las, Senhor!

A arte do ramilhete, tão adorada no Japão, segundo afirmam as cronistas de lá, e que é com certeza uma das mais delicadas que uma mulher pode exercer, era chamada a concurso em um dos dias da exposição. A moça que fizesse o ramo com mais harmônica combinação no colorido e de forma mais elegante, seria premiada.

Uma das mais curiosas veleidades dessa exposição era o interessar-se pelo tipo das floristas da rua, procurando induzir a transformação das do Rio de Janeiro, que não é positivamente encantador. Para isso obteria também um concurso, em que os nossos pintores e desenhistas apresentassem figurinos de acordo com o nosso clima para floristas ambulantes. Isso naturalmente constituiria uma galeria de problemático aproveitamento; em todo caso, muito interessante. Lembrava mesmo o alvitre de oferecer a exposição os primeiros trajes aos que se sujeitassem à experiência. A exposição seria gratuita para as crianças, tendo mesmo um dia destinado às escolas.

Nunca imaginei que fosse preciso ensinar a amar as flores, que as crianças saúdam desde o berço, articulando, ao vê-las, sílabas incompreensíveis, e agitando para elas com entusiasmo as mãozinhas! No entanto parece-me que o culto da planta deve entrar na educação do povo. As exposições de belas-artes ensinam a amar os quadros e as estátuas; é bem possível que o amor dos europeus pelas flores tenha sido despertado e aperfeiçoado pelas exposições de flores, que se fazem na Europa duas vezes no ano, uma no outono, outra na primavera.

Deixei de reproduzir muitos pontos do programa da primeira exposição, tais como a batalha de flores, com que ela se encerraria, a indicação das flores mais aproveitáveis para a destilaria, etc. Bastam estes que aí ficam para demonstrar que a beleza e a utilidade andam às vezes de mãos dadas!

Se eu fui infeliz, outras serão felizes na mesma batalha e pelo mesmo ideal. Das minhas esperanças decepadas brotem novas esperanças em almas mais novas e capazes de empreendimentos de mais forte envergadura. E para atiçar essa chama que escrevo estas linhas trêmulas, porque agindo adquiri a certeza de que nesta terra bastam para executar grandes obras só duas coisas: energia e vontade.

Fonte:
Júlia Lopes de Almeida. Livro das Donas e Donzelas. Belém/PA: Núcleo de Educação a Distancia da Universidade da Amazonia (UNAMA).

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 381)

Uma Trova Nacional

Quem fez assim tão perfeito,
tão caprichado, esse ninho?
– Foi Deus, pegando de jeito
no bico do passarinho.
–RAYMUNDO SALLES/BA–

Uma Trova Potiguar

Pra garantir matrimônio
a confiante Teresa,
mantém sempre, o Santo Antônio,
com a velinha “bem acesa”…
–UBIRATAN QUEIROZ/RN–

Uma Trova Premiada

2008 – ATRN- Natal/RN
Tema: IDADE – 3º Lugar

Na velhice, idade mestra
já sem forças para o embate,
vem a morte e nos sequestra
sem sequer pedir resgate.
–FRANCISCO JOSÉ PESSOA/CE–

Uma Trova de Ademar

O vício sempre nos joga
numa dor que nos revolta:
– ver um filho usando droga,
numa viagem sem volta!
–ADEMAR MACEDO/RN–

…E Suas Trovas Ficaram

Minha querência, meus pagos,
na minha imaginação,
o céu nasceu nos teus lagos,
e a paz floriu no teu chão…
–MANITA/RJ–

Simplesmente Poesia

O Poeta é Porreta
–CELITO MEDEIROS/PR–

Poesia com liberdade
O pensamento traduz
Muito desta realidade
Que a escrita conduz.

Todo poema é uma luz
De um lado um escritor
Na apreciação superior
Pela beleza que seduz.

Versos para provocar
Acima de tudo o amor
Sempre é bom poetar.

Poeta é um sonhador
Consegue até agradar
Ao mais refinado leitor.

Estrofe do Dia

Nos lindos carnaubais,
nas manhãzinhas brumosas,
no desabrochar das rosas,
nos bonitos parreirais,
nas frondes dos coqueirais
que tremulam noite e dia,
por dentro da serrania,
por toda gruta e recanto;
se vê o suave encanto
das telas da poesia.
–ZÉ DE CAZUZA/PB–

Soneto do Dia

Carnê de Baile
–ALMIRA GUARACY REBÊLO/MG–

Ao abrir a gaveta, na cômoda antiga,
vem a mim, acendrado, um perfume de flor…
A surpresa fascina e de pronto me instiga
a buscar, curiosa, o motivo do olor.

Em procura apressada, um achado me intriga:
bem no fundo, amassado, desfeito o primor,
oloroso carnê de algum baile, que abriga
velha rosa estiolada – Uma prenda de amor?

Fantasio essa rosa em decote atrevido
a cair, em veloz e arrojado volteio…
Ardilosa armação de atrevido cupido!

Pouco a pouco a visão se desprende e esfumaça
como nuvem ligeira… Um mero devaneio…
E entre meus dedos, presa, a flor se despedaça!

Fonte:
Textos enviados pelo Autor

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Monteiro Lobato (Reinações de Narizinho) Cap. VI

VI
A festa e o Major

Chegou a hora da festa. Dando a mão a Narizinho, o príncipe dirigiu-se à sala de baile.

— Como é linda! — exclamaram os fidalgos lá reunidos ao verem-na entrar. — Com certeza é a filha única da fada dos Sete Mares…

O salão parecia um céu bem aberto. Em vez de lâmpadas, viam-se pendurados do teto buquês de raios de sol colhidos pela manhã.

Flores em quantidade, trazidas e arrumadas por beija-flores. Tantas pérolas soltas no chão que até se tornava difícil o andar. Não houve ostra que não trouxesse a sua pérola, para pendurá-la num galhinho de coral ou jogá-la por ali como se fosse cisco. E o que não era pérola era flor, e o que não era flor era nácar, e o que não era nácar era rubi e esmeralda e ouro e diamante. Uma verdadeira tontura de beleza!

O príncipe havia convidado só os seres pequeninos, visto ser também pequenino e muito delicado de corpo. Se um hipopótamo ou baleia aparecesse por lá seria o maior dos desastres.

Narizinho correu os olhos pela assistência. Não podia haver nada mais curioso. Besourinhos de fraque e flores na lapela conversavam com baratinhas de mantilha e miosótis nos cabelos.

Abelhas douradas, verdes e azuis, falavam mal das vespas de cintura fina — achando que era exagero usarem coletes tão apertados. Sardinhas aos centos criticavam os cuidados excessivos que as borboletas de toucados de gaze tinham com o pó das suas asas. Mamangavas de ferrões amarrados para não morderem. E canários cantando, e beija-flores beijando flores, e camarões camaronando, e caranguejos caranguejando, tudo que é pequenino e não morde, pequeninando e não mordendo.

Narizinho e o príncipe dançaram a primeira contradança sob os olhares de admiração da assistência. Pelas regras da corte, quando o príncipe dançava todos tinham de manter-se de boca aberta e olhos bem arregalados. Depois começou a grande quadrilha.

Foi a parte de que Narizinho gostou mais. Quantas cenas engraçadas! Quantas tragédias! Um velho caranguejo que tirara uma gorda taturana para valsar, apertou-a tanto nos braços que a furou com o ferrão. A pobre dama deu um berro ao ver espirrar aquele líquido verde que as taturanas têm dentro de si. Ao mesmo tempo que isso se dava, outro desastre acontecia com um besouro do Instituto Histórico, que tropeçou numa pérola, caiu e desconjuntou-se todo.

O doutor Caramujo foi chamado às pressas para consertar a taturana e o besouro.

— Que bom cirurgião! — exclamou Narizinho, vendo a perícia com que ele arrolhou a taturana e consertou o besouro. E trabalha cientificamente, refletiu a menina, notando que antes de tratar do doente o doutor nunca deixava de fazer o “diagnóstico”. – Amanhã sem falta vou levar Emília ao consultório dele — disse ela ao príncipe.

— E, por falar, onde anda a senhora Emília? — indagou este. — Desde a briga com a dona Carochinha que não a vi mais.

— Nem eu. Acho bom que o senhor príncipe mande procurá-la.

O peixinho gritou para o mordomo que achasse a boneca sem demora.

Enquanto isso o baile prosseguia. Vieram as libélulas, que gozam a fama de ser as mais leves dançarinas do mundo. De fato! Dançam sem tocar os pezinhos no chão — voando o tempo inteiro. A linda valsa das libélulas estava na metade quando o mordomo reapareceu, muito afobado.

— Dona Emília foi assaltada por algum bandido! — gritou ele.

Está lá na gruta dos tesouros, estendida no chão, como morta.

Imediatamente Narizinho pulou do trono e correu em salvação da sua querida bruxa. Encontrou-a caída por terra, com o rosto arranhado, sem dar o menor acordo de si. O doutor Caramujo, chamado com urgência, despertou-a logo com um bom beliscão, depois de fazer o indispensável “diagnóstico”.

— Quem será o monstro que fez isto para a coitada? – exclamou a menina, examinando-lhe a cara e vendo-a com um dos olhos de retrós arrancado. — Não bastava ser um da, vai ficar cega também. Coitadinha da minha Emília!…

— Impossível descobrir o criminoso — declarou o príncipe.

— Não há indícios. Só depois que o doutor Caramujo curá-la da mudez é que poderemos descobrir alguma coisa.

— Havemos de tratar disso amanhã bem cedo – concluiu Narizinho. — Agora é muito tarde. Estou pendendo de sono…

E dando boas noites ao príncipe, retirou-se com Emília para os seus aposentos.

Mas Narizinho não pôde dormir. Mal se deitou, ouviu gemidos no jardim que havia ao lado. Levantou-se. Espiou da janela. Era o sapo que fora vestido de velha coroca.

— Boa noite, Major Agarra! Que gemidos tão tristes são esses? Não está contente com a sua sainha nova?

— Não caçoe, menina, que o caso não é para caçoada — respondeu o pobre sapo com voz chorosa. — O príncipe condenou-me a engolir cem pedrinhas redondas. Já engoli noventa e nove. Não posso mais! Tenha dó de mim, gentil menina, e peça ao príncipe que me perdoe.

Tanta pena do sapo sentiu Narizinho que mesmo em camisola como estava foi correndo ao quarto do príncipe, em cuja porta bateu precipitadamente — toc, toc, toc!…

— Quem é? — indagou de dentro o peixinho, que estava a despir-se de suas escamas para dormir.

— É Narizinho. Quero que perdoe ao pobre do Major Agarra.

— Perdoar de quê? — exclamou o príncipe, que tinha a memória muito fraca.

— Pois não o condenou a engolir cem pedrinhas redondas? Já engoliu noventa e nove e está engasgado com a última. Não entra. Não cabe! Está lá no jardim, de barriga estufada, gemendo e chorando que não me deixa dormir.

O príncipe danou.

— É muito estúpido o Major! Eu falei aquilo de brincadeira. Diga-lhe que desengula as pedrinhas e não me incomode.

Narizinho foi, pulando de contente, dar a boa notícia ao sapo.

— Está perdoado, Major! O príncipe manda ordem para desengolir as pedrinhas e voltar ao serviço.

Por mais esforço que fizesse, o sapo não conseguiu aliviar-se das pedras. Estava empachado.

— Impossível! — gemeu ele. — O único jeito é o doutor Caramujo abrir-me a barriga com a sua faquinha e tirar as pedras uma por uma com o ferrão de caranguejo que lhe serve de pinça.

— Nesse caso, muito boa noite, senhor sapo. Só amanhã poderemos tratar disso. Tenha paciência e cuide de não morrer até lá.

O sapo agradeceu a boa ação da menina, prometendo que se pudesse fugir das garras do príncipe iria morar no sítio de dona Benta para manter a horta limpa de lesmas e lagartas.

Narizinho recolheu-se de novo, e já ia pulando para a cama quando se lembrou do Pequeno Polegar, que deixara escondido na concha.

— Ah, meu Deus! Que cabeça a minha! O coitadinho deve estar cansado de esperar por mim…

E foi correndo à gruta dos tesouros. Mas perdeu a viagem. Polegar havia desaparecido com a concha e tudo…
–––––––
continua…

Fonte:
LOBATO, Monteiro. Reinações de Narizinho. Col. O Sítio do Picapau Amarelo vol. I. Digitalização e Revisão: Arlindo_Sa

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Cruz e Souza (O Livro Derradeiro) Parte VIII


FRUTAS E FLORES

Laranjas e morangos — quanto às frutas,
Quanto às flores, porém, ah! quanto às flores,
Trago-te dálias rubras, d’essas cores
Das brilhantes auroras impolutas.

Venho de ouvir as misteriosas lutas
Do mar chorando lágrimas de amores;
Isto é, venho de estar entre os verdores
De um sítio cheio de asperezas brutas,

Mas onde as almas — pássaros que voam —
Vivem sorrindo às músicas que ecoam
Dos campos livres na rural pobreza.

Trago-te frutas, flores, só apenas,
Porque não pude, irmã das açucenas,
Trazer-te o mar e toda a natureza!

VISÃO MEDIEVA

Quando em outras remotas primaveras,
Na idade-média, sob fuscos tetos,
Dois amantes passavam, mil aspectos
Tinham aquelas medievais quimeras.

RECORDAÇÃO

Foi por aqui, sob estes árvoredos,
Sob este doce e plácido horizonte,
Perto da clara e pequenina fonte
Que murmura lá baixo os seus segredos…

Recordo bem todos os cantos ledos
Da passarada — e lembro-me da ponte
Por sobre a qual via-se além, de fronte,
O mar azul batendo nos penedos.

Sinto a impressão ainda da paisagem,
Do trêmolo (…)* da folhagem,
Das culturas rurais, do sítio agreste.

A luz do dia vinha então morrendo…
Foi por aqui que eu pude ficar crendo
O quanto pode o teu olhar celeste.

* Rasurado

ROMA PAGÃ

Na antiga Roma, quando a saturnal fremente
Exerceu sobre tudo o báquico domínio,
Não era raro ver nos gozos do triclínio
A nudez feminina imperiosa e quente.

O corpo de alabastro, olímpico e fulgente,
Lascivamente nu, correto e retilínio,
Num doce tom de cor, esplêndido e sangüíneo,
Tinha o assombro da came e a forma da serpente.

A luz atravessava em frocos d’oiro e rosa
Pela fresca epiderme, ebúrnea e setinosa,
Macia, da maciez dulcíssima de arminhos.

Menos raro, porém, do que a nudez romana
Era ver borbulhar, em férvida espadana
A púrpura do sangue e a púrpura dos vinhos.

ESPIRITUALISMO

Ontem, à tarde, alguns trabalhadores,
Habitantes de além, de sobre a serra,
Cavavam, revolviam toda a terra,
Do sol entre os metálicos fulgores.

Cada um deles ali tinha os ardores
De febre de lutar, a luz que encerra
Toda a nobreza do trabalho e — que erra
Só na cabeça dos conspiradores,

Desses obscuros revolucionários
Do bem fecundo e cultural das leivas
Que são da Vida os maternais sacrários.

E pareceu-me que do chão estuante
Vi porejar um bálsamo de seivas
Geradoras de um mundo mais pensante.

PLANGÊNCIA DA TARDE

Quando do campo as prófugas ovelhas
Voltam a tarde, lépidas, balando
Com elas o pastor volta cantando
E fulge o ocaso em convulsões vermelhas.

Nos beirados das casas, sobre as telhas
Das andorinhas esvoaça o bando…
E o mar, tranqüilo, fica cintilando
Do sol que morre as últimas centelhas.

O azul dos montes vago na distância…
No bosque, no ar, a cândida fragrância
Dos aromas vitais que a tarde exala.

Às vezes, longe, solta, na esplanada,
A ovelha errante, tonta e desgarrada,
Perdida e triste pelos ermos bala …

ALMA ANTIGA

Põe a tua alma francamente aberta
Ao sol que pelos páramos faísca,
Que o sol para a tua alma velha e prisca
Deve de ser como um clarim de alerta.

Desperta, pois, por entre o sol, desperta
Como de um ninho a pomba quente e arisca
À luz da aurora que dos altos risca
De listrões d’ouro a vastidão deserta.

Vai por abril em flores gorgeando
Como pássaro exul as canções leves
Que os ventos vão nas árvores deixando.

E tira da tua alma, ó doce amiga,
Almas serenas, puras como a neve,
Almas mais novas que a tua alma antiga!

VANDA

Vanda! Vanda do amor, formosa Vanda,
Makuâma gentil, de aspecto triste,
Deixe que o coração que tu poluíste
Um dia, se abra e revivesça e expanda.

Nesse teu lábio sem calor onde anda
A sombra vã de amores que sentiste
Outrora, acende risos que não viste
Nunca e as tristezas para longe manda.

Esquece a dor, a lúbrica serpente
Que, embora esmaguem-lhe a cabeça ardente,
Agita sempre a cauda venenosa.

Deixa pousar na seara dos teus dias
A caravana irial das alegrias
Como as abelhas pousam numa rosa.

ÊXTASE

Quando vens para mim, abrindo os braços
Numa carícia lânguida e quebrada,
Sinto o esplendor de cantos de alvorada
Na amorosa fremência dos teus passos.

Partindo os duros e terrestres laços,
A alma tonta, em delírio, alvoroçada,
Sobe dos astros a radiosa escada
Atravessando a curva dos espaços.

Vens, enquanto que eu, perplexo d’espanto,
Mal te posso abraçar, gozar-te o encanto
Dos seios, dentre esses rendados folhos.

Nem um beijo te dou! abstrato e mudo
Diante de ti, sinto-te, absorto em tudo,
Uns rumores de pássaros nos olhos.

LUAR

Ao longo das louríssimas searas
Caiu a noite taciturna e fria…
Cessou no espaço a límpida harmonia
Das infinitas perspectivas claras.

As estrelas no céu, puras e raras,
Como um cristal que nítido radia,
Abrem da noite na mudez sombria
O cofre ideal de pedrarias caras.

Mas uma luz aos poucos vai subindo
Como do largo mar ao firmamento — abrindo
Largo clarão em flocos d’escomilha.

Vai subindo, subindo o firmamento!
E branca e doce e nívea, lento e lento,
A lua cheia pelos campos brilha…

CELESTE

Vi-te crescer! tu eras a criança
Mais linda, mais gentil, mais delicada:
Tinhas no rosto as cores da alvorada
E o sol disperso pela loira trança.

Asas tinhas também, as da esperança…
E de tal sorte eras sutil e alada
Que parecias ave arrebatada
Na luz do Espaço onde a razão descansa!

Depois, então, fizeste-te menina,
Visão de amor, puríssima, divina,
Perante a qual ainda hoje me ajoelho.

Cresceste mais! És bela e moça agora…
Mas eu, que acompanhei toda essa aurora,
Sinto bem quanto estou ficando velho.

A PARTIDA

Partimos muito cedo — A madrugada
Clara, serena, vaporosa e fresca,
Tinha as nuances de mulher tudesca
De fina carne esplêndida e rosada.

Seguimos sempre afora pela estrada
Franca, poeirenta, alegre e pitoresca,
Dentre o frescor e a luz madrigalesca
Da natureza aos poucos acordada.

Depois, no fim, lá de algum tempo — quando
Chegamos nós ao termo da viagem,
Ambos joviais, a rir, cantarolando,

Da mesma parte do levante, de onde
Saímos, pois, faiscava na paisagem
O sol, radioso e altivo como um conde.

CANÇÃO DE ABRIL

Vejo-te, enfim, alegre e satisfeita.
Ora bem, ora bem! — Vamos embora
Por estes campos e rosais afora
De onde a tribo das aves nos espreita.

Deixa que eu faça a matinal colheita
Dos teus sonhos azuis em cada aurora,
Agora que este abril nos canta, agora,
A florida canção que nos deleita.

Solta essa fulva cabeleira de ouro
E vem, subjuga com teu busto louro
O sol que os mundos vai radiando e abrindo.

E verás, ao raiar dessa beleza,
Nesse esplendor da virgem natureza,
Astros e flores palpitando e rindo.

O MAR

Que nostalgia vem das tuas vagas,
Ó velho mar, ó lutador Oceano!
Tu de saudades íntimas alagas
O mais profundo coração humano.

Sim! Do teu choro enorme e soberano,
Do teu gemer nas desoladas plagas
Sai o quer que é, rude sultão ufano,
Que abre nos peitos verdadeiras chagas.

Ó mar! ó mar! embora esse eletrismo,
Tu tens em ti o gérmen do lirismo,
És um poeta lírico demais.

E eu para rir com humor das tuas
Nevroses colossais, bastam-me as luas
Quando fazem luzir os seus metais…

Fonte:
Cruz e Sousa, Poesia Completa, org. de Zahidé Muzart, Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura / Fundação Banco do Brasil, 1993.

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