Zenilton de Jesus Gayoso Miranda (Poesias Avulsas)

LÍRIOS

Doem os teus lírios solitários
Em casa
Na mesa escura
Nos jarros entretecidos
Onde sufocam o colorido
E o aroma é incerto
As gotas sombrias, todas,
Voltam-se perplexas
A refletir o ar parado
De vereda invernal
De bosque úmido
Nos olhos de antes
Fuga e cristais

Mas não somente os lírios e as varandas
O ar
A mesa e a casa plena de ócio
Mais o duplo aquém, estático,
Suspenso,
Na plácida impressão
Do ausente alarido dos lírios
Das vozes dos lírios
Que denunciam saudades geminais.

VAZIO

O vazio
que não o só
É construto de partes
Irreconciliáveis voltas
No vasto escuro exposto
Da que tensa
Em mim debela:
A parte que me cabe
Do vazio renitente
De outros vazios pares

AVES FORA …

Ave estreita
Furtiva figura
Em um dia cego
Nesse ante vôo razoado
Alinho, calado
De pé ante pé descalço,
E com uma réstia fria
Pelo teu bico calvo
Inconteste te laço.

Sob castas de moscas vítreas
Em festivo alvoroço
Dou-te um véu sisudo
E espumas largas
Ao teu pescoço
Para repousares salva desse tremendo escorço
Das vagas e ventos funéreos
Donde despencas vertida em tédio.

Ave implume
Moléstia do dia
Veste teu manto
Desce teu séqüito
Trina no corte
Dessa faca pífia
Serena na noite em que vagando faltas
Emplastro votivo
Aves fora vasta.

CHUVA GRANULAR

Na granularidade da chuva
Vejo dardos hirsutos
Arremeterem farpas
Sobre meus músculos expostos.
À parte de mim
Adentram cartilagens flácidas
Que empedernidas crescem
Enquanto atônito durmo.

Ferem essas agulhas comensais
As delicadas pústulas
Os passos e as sombras
Do caminho destro que sigo.
Bravias, abstraídas de nexos e subcutâneos medos
Avançam convexas
Sobre minha carne puramente nervos.

Absorto,
A parte de mim,
Esse corpo nu, corpo retrorso,
Não é mais estípulas ou véus,
Vive minimamente,
Mas absorve, laivos de gotas.

TEUS OLHOS

“Pois morro da vida que vivo
E vivo da vida que morro”.
Edgar Morin

Sempre haverá beleza
Enquanto puder tocar
A face mais simples da vida
E não duvidar
Que mais suave que a brisa
Tua face sempre há de estar
No tempo
Desperta e risonha
Na íris desses olhos vazados
Qual flor que às estações ignora.

Enquanto houver primaveras
Sempre viverão
Floras de amores cingidas
E flores no amor impressas
Que teus olhos colherão,
E mais que em sonhos
Verdades
Aos meus apascentarão.

Mais dias, mais dores, mais vastos
Eu sei, repousarão
Nos braços dos teus socorros
Os calos dos dias que levo
Pois quanto mais vivo
Mais calo
“Pois morro da vida que vivo
E vivo da vida que morro”.

Em dias de brisas caladas
E brumas no tempo caídas
Meus pés caminharão
A via da imagem impressa
No verbo solidão.

Estou fatigado, mas corro
Com os pés descalços
plantados nesse vasto
Deserto de cardos
Que jorra,
Em amenidades assíncronas,
Um coração em cortes.

Fonte:
Antonio Miranda

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