Arquivo do mês: dezembro 2011

AGRADECIMENTO

Valho-me desta última postagem do ano para agradecer aos leitores, assinantes, seguidores e colaboradores que mantém viva a chama deste blog.
4 anos, desde dezembro de 2007, são 7.310 postagens. No ano de 2011 foram 2295 postagens, com centenas de biografias, trovas, haicais, contos, cronicas, teoria literária, dicas, folclore, etc.
O ano se encerra, e gostaria de agradecer a escritores em especial que coloco aqui. São muitos nomes e mesmo assim alguns nomes não me veem a mente agora, mas obrigado a todos por mais este ano vitorioso.
A. A. de Assis (PR)
Ademar Macedo (RN)
Amosse Mucavelle (Moçambique)
Andrey do Amaral (DF)
Antonio Brás Constante (SC)
Antonio Manoel Abreu Sardenberg (RJ)
Aparecido Raimundo de Souza (ES)
Carlos Leite (Portugal)
Cecy Barbosa Campos (MG)
Celito Medeiros (PR)
Dinair Leite (PR)
Eunice Arruda (SP)
Hermoclydes S. Franco (RJ)
Héron Patrício (SP)
Ialmar Pio Schneider (RS)
Izabel Furini (PR)
J. B. Xavier (SP)
José Faria Nunes (GO)
Lino Mendes (Portugal)
Lúcia Constantino (PR)
Nei Garcez (PR)
Nemésio Prata Crisóstomo (CE)
Nilto Maciel (CE)
Pedro Du Bois (RS)
Selma Patti Spinelli (SP)
Sílvia de Araújo Motta (MG)
Silviah Carvalho (PR)
Therezinha Dieguez Brisolla (SP)
Valter Martins de Toledo (PR)
Vânia Maria Souza Ennes (PR)
Vicência Jaguaribe (CE)
Wagner Marques Lopes (MG)
e muitos outros.
Em especial destaco o sempre apoio
Eternos mestres e amigos.
Carolina Ramos (Santos/SP)
Izo Goldman (São Paulo/SP)

um irmão, amigo e peregrino como eu
Átila José Borges (Curitiba/PR)
minha mãe pelo seu incentivo e orgulho, envaidecido pela mãe maravilhosa que é
Mina  (hoje com 87 anos de idade)
meu irmão de sangue, apesar de distante, sempre presente e base de minha caminhada
Chaie (São Paulo/SP)
Boa passagem de ano a todos, que o amanhã seja vitorioso com a construção de seus sonhos com os alicerces da esperança.
Encerro com a trova de uma amiga daqui de Maringá.
Obrigado a todos, e até 2012.
José Feldman

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Paraná em Trovas Collection – 33 – Maria Eliana Palma (Maringá/PR)

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30 de dezembro de 2011 · 23:23

Ademar Macedo (Mensagens Poéticas de Fim de Ano n. 439)

Uma Trova Nacional

Vai ano velho, de vez,
leve o mal e o duvidoso,
que o Ano Novo em rapidez,
há de ser mais generoso!
–VANIA ENNES/PR–

Uma Trova Potiguar
Este ano, já moribundo,
chora por não ser capaz
de ao menos puxar o mundo
para mais perto da paz!
–JOSÉ LUCAS DE BARROS/RN–

Uma Trova de Ademar

Eu desejo aos Trovadores
com pompa e com muita pose
o pódio dos vencedores
agora em 2012!!!
–ADEMAR MACEDO/RN–

…E Suas Trovas Ficaram

O Ano Novo sempre faz
renovar nossa vontade,
de ver a bendita Paz
reinando na humanidade.
–REINALDO AGUIAR/RN–

Simplesmente Poesia

Ano Novo
 –CAROLINA RAMOS/SP–
 

Os sinos sacodem a noite silente!
Apitos, sirenes, febris, a anunciar
que parte o Ano Velho, tristonho e doente,
e  nova esperança começa a brilhar!

Em meio à alegria, que explode em espuma,
transborda de taças e rola no chão,
rasteja a tristeza, fiapos de bruma,
estranha entre risos confete e rojão!

É a mesma tristeza que rima com prece
e aquele que a sente é  incapaz de a entender!
Tristeza que às vezes, receio parece,
receio de tudo que é inútil prever…

Mas, pulsam ao peito, no fundo… bem fundo,
reservas de Amor, e de Fé e Confiança
– um eco escapado aos gemidos do mundo –
e mesmo sofrida… renasce a Esperança!!!

Estrofe do Dia

O Ano Novo vem vindo
no grande trem das mudanças,
vem trazendo os seus vagões
lotados de esperanças,
mas eu só creio em conquista,
se Deus for o Maquinista
desta bem-aventurança!
–FRANCISCO MACEDO/RN–

Soneto do Dia

Transitório.
 –VANDA FAGUNDES QUEIROZ/PR–

Trezentos e sessenta e cinco dias,
meu calendário, foi seu tempo exato.
Agora é estranho, quando então constato:
– É um bloco velho, já sem serventias.

Mas eu o estimo. As datas foram guias…
Cada lembrete compôs um retrato
do cotidiano que se fez, de fato,
de altos e baixos, sombras e alegrias.

Releio as notas… Dói-me concordar:
– Dever cumprido! Ceda o seu lugar
para o que chega e estreia no cenário.

Tão companheiro, em toda a minha lida
de um ano inteiro… Para mim, tem vida!
– Adeus, meu velho amigo Calendário…

Fonte:
Textos e imagem enviados pelo Autor

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Delores Pires (Livro de Haicais)

Ao amanhecer
 o coro de quero-queros
 anuncia o dia.

Ao amanhecer
 o sol desponta no morro
 colorindo o dia.

Ao sol causticante
 moça e abelha dividem
 o caldo de cana.

Bagas de suor
 nas alegrias da escola.
 Hora do recreio.

Céu varrido há pouco.
 Nenhum resquício de nuvem.
 Apenas o azul.

Com a chuva branda
 a goteira tamborila
 nas pautas do dia.

Com o sol a pino
 ando só, sem minha sombra,
 no quente verão.

Como atrás da bola
 o menino, pela vida,
 corre atrás do sonho.

Em cima da cesta
 cheiro do pêssego, à mesa,
 enche a boca d’água.

Em cima do morro
 araucária solitária
 pedindo socorro.

Em noite de breu
 grávida a lua no céu
 rebentos de prata.

Entre a paz do branco
 o riso da margarida.
 Ouro reluzindo.

Entre o bambual
 tímido raio de lua
 insiste em surgir.

Entre vagens secas
 os cachos de chuvas-de-ouro.
 Voa a mamangaba.

Espetada no ar
 borboleta colorida
 integra a paisagem.

Gotas de cristal
 despencando na calçada:
 a chuva com sol.

Iludindo o tempo
 só ao relógio se engana
 mas não a si mesmo.

Junto do jardim
 acena em gesto de paz
 o pé de jasmim.

Na grama cortada
 os sabiás, perfilados,
 procuram minhocas.

No escuro da noite
O vaga-lume orienta
O andante perdido!

Nos dias de sol
 preguiçosa borboleta
 à sombra descansa.

No verde do morro,
 pontilhada pelos bois
 a paisagem pasta.

Os cachos dourados
 reluzem à luz do sol.
 Trigal na colheita.

Os raios de sol
 por detrás dos edifícios
 dão adeus ao dia.

Paisagem fugaz.
 Pela janela do trem
 mundo viajante.

Pelos ramos verdes
 do abacateiro espreguiçam
 os raios de sol.

Pérolas brilhantes
 escorrendo pela face.
 Choro de criança.

Sob a luz da lua
 o sapo contando estrelas
 no escuro da rua.

Tardes de verão.
 A cigarra na fanfarra
 com ar brincalhão.

Terminam laranjas.
 No pomar, avermelhados,
 os limões se exibem.

Um clarão no céu
Brilham os olhos do menino
Fogos de artifício.

Um raio de sol
 pendurado no horizonte
 ao cair da tarde.

Vento que balouça
 leque verde da palmeira
 varrendo saudade…
––––
(ACENTUAÇÃO)
Em torno de si
o guarda-chuva coloca
o pingo nos ii.

(DISTRAÇÃO)
Distraída a lua
abraça o casal que passa
no canto da rua.

(CONDORISMO)
Ah, quem me dera
voar como a nuvem no ar,
ar de primavera!

(CREPÚSCULO)
Luz de fim do dia.
E a tua imagem flutua…
Vaga nostalgia!

(CURIOSIDADE)
O que vais buscar
barquinho, lento e sozinho
tão longe do mar?

(ESCOLTA)
Ao cair da noite
escoltando pirilampos
passeiam estrelas…

(FRAGMENTOS)
Fragmentos de estrelas…
Dançam os jogos de luz
no escuro da noite.

(ITINERÁRIO)
Baila a folha no ar.
Descreve um círculo leve
no chão vai pousar

(MARESIA)
O dia fugindo.
No ar um cheiro de mar.
A noite vem vindo!

(MEMÓRIA)
Na longíqua tarde
ledas conversas de seda
saudades saudades…

(MUDANÇA)
Cheia de neblina
a cidade, em verdade,
foge da rotina.

(SOLITUDE)
Silente, à tardinha,
desliza ao sabor da brisa
gaivota sozinha.

(SIMPLICIDADE)
Singela e formosa
Num torvelinho de espinho
Desabrocha a rosa.

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Delores Pires (1947)

Delores Pires nasceu na cidade de Criciúma, Estado de Santa Catarina, em 1947, radicando-se desde menino no interior do Paraná.

 O contato com a natureza no ambiente rural, na adolescência, propiciou-lhe os subsídios e a influência na adoção da forma haicai que viria a praticar mais tarde.

 Adotou Curitiba como sua cidade, onde se formou em Letras pela Universidade Católica do Paraná. Como tal, é professor de língua portuguesa e de literaturas afins.

 Realizou o curso de Mestrado em Letras, com área de concentração em Teoria da Literatura, também pela Universidade Católica do Paraná, apresentando a dissertação O Universo do Haicai

 Cursou Ética e Educação, com ênfase em Teologia Moral, obtendo o título de especialista, com o trabalho de conclusão de curso Francisco de Assis: um Olhar Poético sobre a Natureza.

 Recebeu os prêmios Torneira de Prata, da Academia de Letras José de Alencar e Saci de Ouro, da União Brasileira de Trovadores — Seção de Curitiba, respectivamente nas áreas de poesia moderna e haicai.

 Na condição de professor universitário tem ministrado aulas de teoria da literatura e de língua portuguesa em universidades da capital paranaense e interior.

 Como escritor, tem militado na área da poesia, da crônica, da teoria literária, do romance e da tradução..

Iniciando-se no haicai quando ainda cursava o segundo grau, quis o acaso que o livro Cecília Meireles Escolha seu Sonho lhe caísse em mão propiciando uma amizade com essa modalidade poética que perdura até hoje.

 Por meio de palestras, conferências e aulas tem difundido sistematicamente o haicai em todo o país.

 Paralelamente desempenhou suas atividades profissionais junto ao Ministério da Educação e do Desporto no Estado do Paraná.

Entidades a que pertence
Centro de Letras do Paraná (Curitiba),
Academia de Letras José de Alencar (Curitiba),
Academia Brasileira de Poesia — Casa Raul de Leoni (Petrópolis – Membro Correspondente),
Associação Japonesa de Estudos Luso-Brasileiros (Tóquio) e
Association L’Arc & La Lyre (Paris).

Reestruturou o Grêmio de Haicai Bashô, entidade do gênero que criou em 15 de novembro de 1989, na cidade Curitiba, com o objetivo específico de estudar, divulgar e propiciar os princípios teóricos e práticos da poesia haicai.

Publicou A Estrela e a Busca (1977), Conversa de Casal (1997), Los Plátanos de mi Ciudad (1997), O Homem do Guarda-chuva e Outras Histórias (1998).

 Na área de haicais editou os livros Crepúsculo (1984), O Universo do Haicai (1984), Voo (1988), Criação (1989), Kasato Maru: Porta do Haicai no Brasil (1990), Outono (1992), Antologia de Haicaístas Brasilienses (1992), Clair de Lune (1993), Caderno de Viagem (1995), Luar (1997) Curso Prático de Haicai – Curso de Extensão Universitária (1999), Presença do Haicai na Poesia (1999 – Tradução).

 Participou das antologias 100 Haicaístas Brasileiros (1990), As Quatro Estações (1991), Antologia do Haicai Latino-americano (1993) e Lua na Janela (1999).

 Por iniciativa da Imprensa Oficial do Estado do Paraná, publicou O Livro dos Haicais. A obra engloba sua produção haicaística, além de apresentar uma tradução francesa de 89 haicais – Flores de Cerejeira – englobando 30 haicaístas do Período Tokugawa (1603-1867), época que apresenta maior número de poetas que escrevem haicai no Japão.

 Após essa publicação vêm a lume os livros Pétalas de Ipê (2002), Passeio ao Luar (2002), Piscadas de Sol (2002), Tapete de Folhas (2003) e Flor de Café (2005), Garoa de Outono (2007).

LIVROS

A Estrela e a Busca. Rio de Janeiro: Gráfica Olímpica Editora, 1977.
 Crepúsculo. Curitiba: Fundação Cultural de Curitiba, 1984.
 O Universo do Haicai. Curitiba: Editora da PUC, 1984.
 Voo. Curitiba: Feira do Poeta, 1988.
 Criação. Curitiba: Editora do Autor, 1989.
 Kasato Maru: Porta do Haicai no Brasil. Tóquio: Associação Japonesa de Estudos Luso-Brasileiros, 1990.
 Outono. São Paulo: Massao Ohno, 1992.
 Antologia de Haicaístas Brasilienses. São Paulo: Massao Ohno, 1992.
 Caderno de Viagem. Curitiba: Ócios do Ofício Editora, 1995.
 O homem do Guarda-chuva. Curitiba: Editora do Escritor, 1996.
 Estações. Curitiba: Ócios do Ofício Editora, 1997.
 Conversa de casal. Curitiba, Editora do Escritor, 1997.
 Le Voyage de mes Rêves. Curitiba: Editora do Escritor, 1997.
 Haicais Natalinos. Curitiba: Editora do Escritor, 2000.
 O Livro dos Haicais. Curitiba: Imprensa Oficial do Paraná, 2001.
 Baú de Fragmentos. Curitiba: Editora do Escritor, 2001.
 Pétalas de Ipê. Curitiba: Oficina do Livro, 2002.
 Passeio ao Luar. Curitiba: Oficina do Livro, 2002.
 Piscadas de Sol. Curitiba: Oficina do Livro, 2003.
 Tapete de Folhas. Curitiba: Oficina do Livro 2004.
 Flor de Café. Curitiba: Oficina da Palavra, 2005.
 Garoa de Outono, Curitiba: Oficina da Palavra, 2007.
 Francisco de Assis: um Olhar Poético sobre a Natureza. Curitiba, Oficina da Palavra, 2009

Trabalhos em Colaboração Publicados

100 Haicaístas Brasileiros. São Paulo: Massao Ohno, 1990.
 As Quatro Estações. São Paulo: Massao Ohno, 1991.
 Antologia do Haicai Latino-americano. São Paulo: Massao Ohno, 1993.
 Lua na Janela. São Paulo: Edições Caqui, 1997.

Fonte:
Academia Brasileira de Poesia Casa de Raul De Leoni

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Thaty Marcondes (Lembranças de Infância)

Sou de um tempo em que as mulheres não conversavam sobre política: isto era assunto exclusivamente de homens.

 Sou de um tempo em que as crianças iam pra cama quando começava o horário dos noticiários, que não eram considerados apropriados para crianças, devido aos temas “fortes” que abordavam.

 Lembro-me de minha avó – espanhola de traços mouros – cuidando para que tudo isso acontecesse de forma correta, pois não podia perder o controle da casa e da família, para que meu avô – espanhol de traços ibéricos – não perdesse a calma ou alguma palavra do apresentador do Repórter Esso.

 “Lugar de mulher é na cozinha, falando sobre amenidades e trocando receitas” – chavão da época da minha infância.

 Outro chavão: “Lugar de criança, depois das 9 h da noite, é na cama: criança limpa, de dentes escovados, após tomar um leite morno (leite de verdade, não esse leitágua de vaca quadrada de caixinha) e comer uns biscoitos (bolacha Maria ou de Maisena)”.

 E os homens na sala trocando idéias sobre as notícias anunciadas com estardalhaço, bebericavam uma “purinha” de reserva especial que era pra facilitar a digestão. Ficavam até tarde nos bebericos e falações, às vezes se exaltavam quando o assunto era política ou futebol. A avó na cozinha, se alguém precisasse de um café forte pra cortar o efeito do exagero nas doses.

 Se eu ainda fosse criança, naquele tempo novamente, eu não teria visto a CNN espanhola. Eu não teria marejado meus olhos ao ver o povo de meus avós sofrendo de forma parecida ao que seus antepassados um dia fizeram sofrer os antepassados dos assassinos. Afinal, quem matou quem? Caim matou Abel? David matou Golias? A inquisição matou os ímpios? As fogueiras queimaram bruxos? Resumo: gente matando gente, por que o nome de seu Deus é diferente!

 – Mãe, tem uma bolachinha Maria e um leitinho morno? Acho que tá na hora de eu dormir. Não entendo gente grande!

 “Tá na hora de dormir, não espere mamãe mandar;
 um bom sono pra você e um alegre despertar”.

Fontes:
Garganta da Serpente. Contos do Coral.
Imagem = Cultura Livre

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Quadrinhas para Crianças

Vamos lembrar neste dia
Mais um grande amor da vida,
Que é mãe duas vezes,
A vovozinha querida!

Filhos, meus lindos tesouros,
Pedacinhos do meu ser,
É em vocês que eu encontro
A alegria de viver!

Das coisas mais sublimes desta vida,
A mais sublime que se me afigura,
É minha mãe, a minha mãe querida
Que, das coisas mais puras,
É a mais pura!

Há cirandas de esperanças
Mesmo nas tristes favelas
Onde brincam as crianças,
Brincam os anjos com elas!
Trazendo a força divina
Do amor à luz da esperança,
Mesmo sendo pequenina,
Como é grande uma criança!

Não esbanje tanta água,
Já chega de brincadeira.
Use sempre o necessário
E depois feche a torneira!

Empine o seu papagaio,
Mas tenha muito cuidado.
Não solte perto dos fios,
Solte em lugar descampado!

Da frase “vá tomar banho!”
Tem quem goste ou se zangue.
No entanto o banho é tão bom
Pra circulação do sangue!

Oi, não sinta tanta inveja
Das coisas que os outros têm,
Com trabalho e com vontade
Você poderá ter também!

Higiene, água fervida,
Roupas leves no verão!
Você está se prevenindo
Contra a desidratação!

Comer com a boca fechada,
Faz parte da educação.
Cuidado para não deixar
Cair comida no chão!

Coma legumes verduras,
E muitas frutas também
Mas primeiro não se esqueça,
Lave tudo muito bem!

Ei, cuidado com a porta!
Abra e feche sem bater.
Se ela é tão importante
Pra que fazê-la sofrer?

Êta friozinho danado!
Mas não vou me preocupar,
As festas do mês de junho
Fazem a gente esquentar!

Não coma assim tão depressa,
Mastigue bem devagar,
Não se afobe, pois o prato
Não vai sair do lugar!

Se alguém confia em você,
Dê valor a esse gesto.
Faça tudo direitinho,
Não abuse, seja honesto!

Não faça mal a ninguém,
Reflita muito primeiro.
Não se esqueça que o feitiço
Vira contra o feiticeiro!

Não se esqueça, apague a luz
Quando sair de onde está.
Aprenda a ser responsável,
Começando já!

Coma um pouco de legumes,
Não precisa ser demais,
Se você não come agora,
Depois então, nunca mais!

Não importa se o seu banho
É de chuveiro ou de bacia,
O importante é que você
Tome banho todo dia!

Não entre em conversa alheia,
Porque isso é muito feio,
Deixe a conversa dos outros,
Não ponha a colher no meio!

Marchando bem direitinho,
Seguindo sempre pra frente,
Você fica em boa forma,
Saudável, forte e valente!

Não fique triste se a chuva
Não deixou você sair,
Lembre das flores, das frutas,
E deixe a chuva cair!

Ei, cuidado com o gato,
Não maltrate tanto assim,
Pode ser que os sete fôlegos
Já estejam chegando ao fim!

Não se aborreça se hoje
Você não teve alegria,
Lembre-se que tudo passa,
E amanhã é outro dia!

Você aí, que nas férias
Passeou, brincou demais.
Agora estude bastante,
No fim do ano tem mais!

Pessoa bem educada
Nunca fala palavrão,
Nem que leve martelada
Na pontinha do dedão!

Natal, sensação de paz
Que tão bem envolve a gente!
Oh deus, como eu gostaria
Que a paz fosse permanente!

Aproveite bem as festas,
Coma pipoca, pinhão,
Batata doce, canjica,
Mas nunca solte balão!

O verão já foi embora,
Com chuva raio e trovão.
E o outono já chegou,
A mais suave estação!

Carnaval, festa em que o povo
Não olha raça nem cor.
Todos cantam, pulam, dançam
Sentindo o mesmo calor!

Não deixe que eles perguntem
Se tem baile no salão.
Tire o dedo do nariz
E lave bem a sua mão!

Batatinha quando nasce,
Esparrama pelo chão
Mamãezinha quando deita,
Põe a mão no coração!

Fonte:
Caderno de Leitura.

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Visconde de Taunay (Pobre Menino!)

I

Em dia fresco e de chuva miúda, viajava eu na estrada de ferro Central.

Vinha de S. Paulo para o Rio de Janeiro em trem que parecia, contra inveterados hábitos, dever chegar á hora regulamentar.

A locomotiva como que se aprazia a devorar o espaço – na frase consagrada – por tempo tão grato que dispensava calor, poeira e grandes atrasos, e o jornadear, calculado por tabela oficial de paradas certas, inflexíveis, sempre as mesmas, era relativamente agradável.

Na estação do Cruzeiro, onde desde largos anos -ia dizendo séculos – imperam o porte dominados, a alentada bengala, a enérgica gesticulação e as barbas medievais e enchumaçadas do major Novaes, entrou uma família, regressando de Caxambú. Pai, mãe, bastante moços, esta ainda vistosa, bonita, um filho de 12 para 13 anos, visivelmente doente, duas criadas, uma branca, outra preta, e um molecote, vestido de pagem, muitas malinhas de mão, chales, cobertores, travesseiros, garrafas de leite e aguas minerais, embrulhos com restos, sem duvida, da matolotagem, comida á descida da serra. Tudo aquilo ás carreiras se arrumou nos bancos vazios ao lado e ao redor de mim.

Afinal, apitou a máquina e partiu o barulhento comboio.

Cansado de ler, esgotados os jornais de S. Paulo, parcos de novidades, e um tanto aborrecido com um romance de Charles Merouvel comprado no Garraux, que não me interessava, nem merecia interesse, pus-me a observar os recem-chegados.

No rosto de todos, a inquietação, concentrada no menino que, apenas sentado, pedira para se deitar.

_ Sinto-me tão fraco! Exclamou dolente. Não tenho mais forças!…

E com muita solicitude, criadas e molecote, auxiliando apressados os amos e obedecendo-lhes ás indicações, arranjaram os meios de dar melhor cômodo ao doentinho, cujos pés iam além do banco e se contraiam de cada vez que passavam os empregados do trem.

Sim, doente, muito doente até. E tão simpático, tão meigo, uma expressão de tanta doçura na fisionomia, nos olhos bem rasgados, pestanudos, negros, cintilantes, mais do que há vida normal, uns olhos de sofrimento e febre!…. Os lábios como que reviam sangue, de tão rubros; em compensação, as orelhas, muito grandes, desgraciosamente apartadas, da cabeça, umas orelhas desmarcadas, como as do malogrado Napoleão IV, mostravam-se brancas, diáfanas, num grão de deplorável e significativo descoramento.

Impressionaram-me logo de princípio os modos e as observações do menino.

A cada momento, sorria para os pais com imensa ternura, repassada de melancolia, ainda que nessa continua e comovedora carícia transparecesse a vontade de lhes incutir coragem e esperanças.

_ Apesar de tudo, disse todo superexcitado, estou mais valente do que homem. Assim mesmo não posso ainda estar olhando pela janela. Que pena! Tinha tanto que ver! Apenas ficar bom havemos de viajar a valer, não é? Levarei os meus cadernos de estudos e lucrarei muito. Não deve haver melhor modo de aprender do que viajar. O livro vai sempre aberto diante dos olhos… E eu, que fazia outra idéia da Mantiqueira… mais sombria, mais cheia de buracões e pedras. Tão pequenina, que ela é!…

E buscando outra posição, gemeu surdamente.

_ Sentes muita febre, boy? Perguntou a mãe com angustia.

_ Muita, não… já disse á mamãe, menos do que ontem; assim mesmo tenho cá dentro em fogo!… Mas que bonita a serra desde o túnel até ao Perequê!…

_ Talvez a frialdade da agua te tivesse feito mal, observou o pai; dois copos cheios…

_ Que mal, papai? Nunca bebi com tanto gosto, nunca! Eram uns copinhos… parecia que aquela agua devia curar-me afinal…

E como que em subdelirio:

_ Que bonita a descida! Como o céu estava puro! Eu quisera poder, como um passarinho, atirar-me de cabeça para baixo, voando, voando, por cima de todas aquelas montanhas e dobras e matarias! E o sol como brilhava, com um calor tão bom, de saude; não como calor de febre!

Lorena, não é, papai? Já em baixo, na várzea, uns pontinhos brancos. Quanto é boa a vida, a vida… a gente sentir-se valente, robusto… sem necessidade de tanto remédio amargo!

_ Vamos pôr-lhe o termômetro? Propôs a mãe para o marido com uma lágrima a cair-lhe da pálpebra.

Recalcitrou um pouco o pobrezinho.

_ Não, mamãe; sempre esta maçada! Ficar parado um tempão… e para que, afinal? Esta febre não quer me deixar… bem feliz se puder ir vivendo com ela… me acostumando aos poucos.

Resignou-se, porém, com gracioso amuo e quedou-se imovel e silencioso, com o bracinho esquerdo bem encostado ao peito.

E os olhos negros, pestanudos, cintilantes, giravam de um lado para outro, enquanto a ponta da lingua em continua vaivém, molhava os lábios ressequidos e gretados pelo ardor da terrível consumação.

Cruzaram-se os seus olhares com os meus e tiveram como que um sorriso de simpatia e cordialidade, com uma pontinha de vexame por estar assim doente, aniquilado, n’aquella inferioridade da moléstia triunfadora, invicta.

Embora um tanto casmurro na viagem e nada propenso a entabolar relações com adventícios companheiros de caminho, não me contive e, inclinando-me para o lado em que estava a mãe, perguntei-lhe, abaixando a voz:

_ Desde muito enfermo este interessante menino?

Respondeu-me e senhora com verdadeiro açodamento de quem acha uma válvula de expansão a constante e incompreensível sobressalto.

_Muito não… uns quarenta dias. Nem o senhor imagina como boy era forte e são… dormia como um chumbinho… bom apetite sempre, ávido de movimento… Boy não parava…, travesso como um cabritinho, muito bonzinho porém, sempre…

E boy isto e boy aquilo. Chamava-o assim desde criancinha. A madrinha, muito dada a leituras inglesas, lhe pusera essa apelido familiar…

_ De que não gosto nada, interrompeu o menino com engraçada seriedade. Eu me chamo Alberto.

Mas a mãe continuava:

_ Haviam feito, no mes anterior, um passeio fatal á chácara de uns amigos para os lados do Jardim Botânico, ele se agitara de mais com os camaradas numas correrias sem fim, se resfriara…

_Brincaram perto de uma vala aberta de pouco, explicou o pai…

_ A’ noite, perturbação de digestão, e desde ai uma febre tenaz, rebelde, que nada pudera atalhar. Tomara já quinino… um despropósito!… um horror!… Depois continuas mudança, Gávea, Engenho Novo, Cascadura, Barbacena, Caxambu, tudo sem resultado…

_ Não há tal, contradisse o pequeno, já estive pior… E não  desanimemos. Olhem, façam tudo para não me deixarem morrer… Tenho tanto que aprender e estudar!… Que atraso este tempo todo em pura perda! Como o Cardoso e o Souza devem ter-se adiantado nas aulas!… Quando é que hei de pega-los agora?…

Não pensava noutra coisa, ia-me dizendo a mãe, enquanto as lágrimas, como que já por hábito, lhe corriam a fio. Tão boa criança, tão estimada de todos, estudioso… tanto estimulo! Uma ambição insaciável de saber… Muitas vezes se levantara ela da cama para apagar-lhe a vela e faze-lo deitar-se… Ardendo em febre, pedia os livros, queria seguir as lições, ouvir os professores… Nunca se vira coisa igual… Tirara já bonitos prêmios… livros muito dourados, com gravuras…

_ Já mamãe está falando de mim, interrompeu Alberto com ligeiro tom de repreensão. Este senhor há de desculpar… é de toda a mãe. Não sou melhor do que tantos outros…

E o seu rosto ensombreceu-se.

_ Pelo contrario, valem mais do que eu, muito mais…

_ Porque, meu amiguinho? Perguntei comovido.

_Oh! Eles têm saude; eu nunca mais hei de tê-la, ainda que escape desta… Tambem, de agora em diante saberei arredar-me sempre de valas abertas… Verdade é que me diverti tanto!

E recomeçava o subdelirio:

Cada qual nascera com a sua sorte. O Carlinhos, que caíra dentro do fosso e se molhara dos pés á cabeça não tivera nada… e ele!… Quanto se rira, que boas gargalhadas dera, vendo o companheiro atolado… Saíra sujo de lama, que era uma miséria… E a borboleta azul que estavam perseguindo fugira, fugira; subindo muito alto… E as asas tinham-se aberto largas, imensas, como um manto… tomando de ali o pouco o céu todo, de ponta a ponta… Tambem, que lembrança, querermos pegar o céu… o céu!

Ai, fazendo um esforço sobre si, perguntou impaciente:

_ Papai, não é tempo de tirar o termômetro? Está me incomodando. Além da febre e sêde… esta caceteação!…

Era tempo.

_Quantos graus? Indagou a mãe com dolorosa sofreguidão.

_ 38º e 8, respondeu o pai. Hoje, bem melhor d o que ontem, pois a esta hora Alberto tinha 39 e 2.

Via-se porém, que encobrira a verdade, pois destoavam as aquietadoras palavras com o ar de desalento que simultaneamente se lhe estampava no rosto. Ao guardar o termômetro no estojo de metal, fez-me imperceptível sinal.

Levantei-me e fingi que ia refrescar o rosto no cubículo ao lado, poeirento e sujo toilette do vagão.

Daí a pouco, chegava o homem.

_ 39 e 8, foram as suas primeiras palavras, pontuadas de terror.

E, acabrunhado, pôs-me a contar o caso, banal, diário, tão comum, mas sempre pungitivo da sua imensa desgraça. Esse menino, a alegria da sua vida, a vida da sua mulher, ricos eles, sem mais objetivo algum na existência. Agora, aquela febre invencivel, que zombara de tudo e lhes estava matando a adorada criança, debaixo dos olhos, dia por dia. Mudem de ares, era o incessante conselho dos médicos; o recurso único que lhes restava. E não faziam outra coisa; de um lado para outro, semanas inteiras. Para onde mais ir? E os terrores em lugares distantes, ermos, sem recursos, sem para quem apelar, quando vinham acessos de estupenda violência!…

Ao tomar então nos braços o filho, parecia que o tirava de um braseiro… queimava… Como poderia por mais tempo resistir organismo tão delicado?… Que cruel expiação era essa? E expiação porque? Afinal, nem ele, nem a mulher tinham culpas ou crimes a pagar? Porque os esmagava, tão dura, a mão de Deus? De que o acusava a justiça eterna? Confessava Ter sido sempre bastante orgulhoso dos haveres herdados e sobretudo daquele filho tão perfeito… Mas quem o fizera assim? Não fora a própria natureza? Casara-se por amor com uma moça pobre, rejeitando propostas de enlaces ricos. Nunca se arrependera, porém… haviam, até pouco, sido tão venturosos! Parecia que a felicidade era um crime. A vida devia ser triste, agoniada, passada em lágrimas e travada de amargos desgostos…

E ao dizer tudo isso, apesar de violento esforço, tinha as pálpebras molhadas. Via-se que aquele homem sofria cruelmente, sobretudo na altivez inata, ao ter que abrir o peito, por irresistível impulso, a um desconhecido que arvorava, na conturbação da sua dor, em amigo e amigo intimo.

Pouco se importara, a principio, com a tal febre, não pelas afirmações, sempre tranquilizadoras, dos muitos médicos consultados, a mestrança, portanto, graças a Deus, podia paga-los generosamente; mas afigurava-se-lhe impossível, fora de toda a ordem, lei e justiça, que a vida do seu Alberto pudesse perigar. Nem de leve lhe passara isso pela mente… nunca!…

Um menino destinado a tanta coisa! Havia de ser, por força, homem excepcional, conquistar as mais altas posições no Brasil, dando prestigio á enorme fortuna que lhe era destinada… Herdeiro universal do avô riquíssimo, com duas tias solteironas, de que era o ai-Jesus, ambas com muitas posses, quem podia contar com futuro mais brilhante?… Eles, os pais, tinham de renda mensal nada menos de cinco contos e gastavam-na com regra e prudência, fazendo ás vezes apertadas economias, para que o Alberto na sua carreira política jamais se preocupasse com o dinheiro, encontrando-o sempre á mão… Tudo isso, tudo seria debalde? Arredava do espirito á possibilidade de irremediável desastre…mas…

E a custo lhe saiam as palavras… mas a morte a nada atende… a nada! É inexorável!

Prorrompendo então em soluçoso pranto, agarrou-se a mim, convulsivamente.

_ Ah! meu filho, Alberto! Quanto é castigada a minha soberba! Está perdido… perdido!… E por quanto tempo, por quantos dias ainda o hei de possuir?

Sacudi-o com certa energia:

_ Silencio! Sua senhora pôde ouvi-lo! Olhe, lave o rosto; esconda os sinais da sua comoção.

Naturalmente exagerava o perigo…

O desconsolado pai abanou a cabeça; mas obedeceu-me opresso e alquebrado.

II

Quando voltamos aos nossos bancos, parecia Alberto presa de agitado sono. Pelo menos, tinha as pálpebras caídas, como que prostradas por vontade alheia ao organismo.

Via-se que febre intensa lhe trabalhava nas veias – faces escarlates, beiços rubros, estremecimentos repetidos por todo o corpo, fulgurantes. Relâmpagos de frio – assim nos dissera – lhe ziguezagueavam pela espinha dorsal, contraindo-lhe, de cada vez, os bracinhos magros, descarnados.

_ Agua, agua, murmurou a custo, depois de algum tempo e abrindo com sofreguidão os lábios secos, ávidos.

O molecote, Apresentou-lhe rápido um copinho de leite, cortado com agua mineral.

_ Mió , nhonhô? Perguntou baixinho com expressão de tocante e inquieto interesse , miósinho .

Com um gesto de dedo, respondeu não o pobre do menino.

Em estática e inexcedivel desolação, o contemplava a mãi, aconchegando os cobertores, quando um movimento mais impaciente e vivo do doente os atirava ao chão, naquelas cruelíssimas alternativas de algidez e de inaturavel calor.

_ Apenas chegarmos ao Rio- disse ela para o marido, que, sorumbatico, olhava pela janela a fugitiva paisagem – devemos logo embarcar, fazer uma longa viagem de mar, talvez até á Europa…

Entreabriu Alberto os olhos e, em tom de ligeira malícia, objetou:

_ Ora, a malvada embarcará conosco… Está dentro de mim; não me largará mais…

E o trem corria, corria! Entre Mendes e Rodeio, engolfou-se no túnel grande, acordando barulhos ensurdecedores, de fantásticos ferros a se chocarem, sopros gigantescos, estalos enormes e sufocadora fumaça.

_ Mamãe… mamãe! Chamou o menino com indivisível angustia.

E ela, inclinando-se toda sobre o malsinado, como que a defende-lo de misterioso inimigo, a chorar, o acalentava, qual criancinha de berço.

Ia então desembocando em ofuscadora claridade a locomotiva, triunfante e a apitar estridente e galhofeira.

_ Como é boa a luz, como é boa! Exclamou Alberto erguendo nervosamente a cabeça e com ar de verdadeira exultação. Pensei que ia morrer. A morte deve ser assim; um túnel, do qual a gente não sai mais nunca, comprido, comprido e tão escuro, Santo Deus!… E onde a boa mamãe para animar o filhinho… só, abandonado!…

Não sei por que, julguei dever intervir, como que desvendar consoladora clareira ás negras idéias daquele menino tão combalido e ameaçado.

_Não, Alberto, repliquei com involuntária gravidade e imposição, na morte há tambem muita luz, muita esperança, muito céu, o verdadeiro céu, sempre azul e grandioso… Na morte, mil alegrias e gozos esperam a alma, como a vida não as pôde dar…O túnel acaba logo… começa depois sem demora a realidade, eterna, cheia de encantos e esplendores… Ilimitada é a bondade do imenso Criador!

E estaquei, vexado do que acabara de expender na vivacidade espontânea daquela espécie de preleção tão descabida. Mostrara Alberto certa surpresa ao ouvir essas palavras, e, encarando-me muito sério, respondeu com resignado desalento.

_ Pode ser, pôde bem ser… mas eu não quero ainda morrer!…

E retraiu-se ao silencio. De vez em quando tiritava, encolhendo-se todo e a bater os queixos.

Buscava, porém, cauteloso, dominar manifestações que impressionassem mais os pais, atentos ao menor sintoma de agravamento, tão atentos quanto impotentes e vencidos; pobres, pobres pais!

Passada a estação de Belém, já noite escura, observou a mãi, para dizer qualquer coisa, que o trem não parava mais senão no Rio, no campo da Aclamação.

Contrariou-a Alberto com inesperada alacridade e, nos olhos subitamente acesos, pareceu Ter singular prazer em assentar incontestável verdade:

_ Não, senhora; pára ainda em Cascadura.

E como suscitasse duvida o que afirmava, eu mesmo opinando contra ele, mostrou bastante resolução e jovialidade em sustentar a sua asseveração.

_ Você não se lembra, José, que o trem de São Paulo costuma parar em Cascadura?
Perguntou para o molecote, levantando-se a meio.

_ Iô , nhonhô? Respondeu o pajenzinho todo assarapantado , iô , não… ué!

E tal a figura atrapalhada do negrinho pela obrigação de interpôr juízo no debate, que não pudemos, todos nós, deixar de sorrir.

_ Que tolinho! Exclamou Alberto.

E deu uma risadinha gostosa. Depois caiu novamente em comatoso abatimento. E, á luz vacilante, cheia de vaivéns, quasi sinistra das fumosas lâmpadas, o íamos observando, cada qual entregue a penosas meditações que se concentravam, em doloroso acordo, num ponto único.

Identificado, como se fosse velho amigo, ou, mais ainda, parente chegado dessa gente, que eu nem de longe conhecia, cujo nome ignorava e nem sequer procurava saber, sofria com eles numa contenção dura, cruciante, numa afinidade afetiva de maior intensidade e violência.

Que viagem interminável! Que hora aquela! Tudo tão sombrio em torno de nós! Cessara a chuva; mas as trevas úmidas, gotejantes, se condensavam carrancudas, caliginosas, como que palpáveis. E a cada estação eram apitos e assobios de perfurarem os ouvidos, ou então clamores angustiosos e um bater de sino melancólico, lúgubre, a dobrar finados.

_ Ainda por cima este agouro, murmurou uma das criadas num como muchôcho.

Em Cascadura parou, com efeito, o expresso , e um trem de subúrbios com ele cruzou num estrondear ensurdecedor de fragorosos gritos, uivos e sibilos, como que a anunciarem pavoroso e irremediável desastre, choques horríveis, encontro medonho.

_ Boy, boy , clamou a mãi simulando certo jubilo, você é que tinha razão! Olha…

_ Nhonhô, nhonhô, avisou por seu turno o molecote achegando-se e puxando de leve o doentinho por um braço, tá hi Cascadura.

Conservou-se Alberto inerte, indiferente, suspirou apenas com mais força.

_ O túnel… o túnel… Depois vem luz e céu… Bem me disse o homem…

_ Não será bom ver o termômetro? Propôs a mãi com respiração cortada, ofegante.

_ Não, mamãe, pelo amor de Deus, pôde ainda implorar o pequeno.

Já ai entráramos na zona dos subúrbios e os lampiões de gás, cada vez mais chegados, indicavam a proximidade da capital. As estações todas iluminadas, cheias de burburinho e animação populares. Numa delas tocava uma banda de música saltitante peça e o contraste desses alegres compassos mais me apertou o coração.

Revoltava-se, contudo, o meu egoísmo. Que necessidade essa de me associar a todo aquele drama intimo, que me trazia tão consternado enquanto me abalava o systema nervoso? Por que não mudava de lugar, não procurava outro qualquer vagão? Afinal, não era aquilo tão comesinho? Não assistira a tantos episódios de agonia e morte? Mais uma criança que desaparecia no  insondável… para dar razão ás estatísticas. Que importancia no desenrolar geral da existência? Gota d’agua pura e cristalina a cair no abismo… Não era, mesmo por isto, um afortunado da sorte? Saía da vida sem as misérias e desilusões que a vão assaltando… limpo de toda a poeira e lama…

Procurava distrair o espirito; mas ai se me prenderam as vistas insistentes, teimosas, hipnotizadas aos olhos então largamente abertos de Alberto, não mais desassossegados e em tresvario, mas num movimento lento de oscilação, como que destacados das órbitas a se mexerem um tanto ao acaso. De quando em quando parecia que se sumiam, caídos, sem mais apoio, dentro do crânio vazio, oco. E me diziam, assim mesmo, tanta coisa, me falavam de tantos mistérios, me interpelavam com tamanha ansiedade!…

Interrogavam súplices, meigos, quem, em boa hora, lhe dera do mundo de além idéia outra, que não de simples terror e aniquilamento para sempre, n’aquelle instante tão proximo da suprema partida.

Sim, deveras, lá, fora daqui, tambem sóis, tambem flores, esperanças, carinhos? Tambem o aconchego doce, protetor de entes bons, superiores, compassivos? Palavra?! Podia confiar?

Não o quisera enganar… A leva-lo d’alli a pouco, longe, longe, pela imensidade na desconhecida viagem, o regaço de algum anjo, faria vezes da estremecida mãi? Para que, porém, deixa-a? Para que despedaçar o coração daqueles fulminados pais? Amavam-no tanto, tanto!

Quem incutira, porém, a esse homem desconhecido o poder de saber quanto se passava da outra banda da vida? Talvez fosse um desses anjos destinados a carrega-lo, não era?… Ah! o disfarce mostrava-se bem claro! Por que, porém, não se deixava enternecer? Não via a pungente dor dos que o cercavam? Pedisse a Deus misericórdia… consentisse-lhe o viver… A ninguém, nunca fizera mal algum… Prometia tudo… não por ele, mas pelos pais… Passaria os anos a estudar, a dispensar o bem, o amor, a pagar a divida solene de interminável gratidão! Senta quieto, refletido, honesto, caridoso, a sacrificar-se pelos outros, por todos…amigo dos humildes, dos mendigos e desgraçados!… Mas tivesse pressa… do contrario não o acharia mais na terra… Bem sentia a morte…sim, a morte…

Passou mais um trem de subúrbios com assustador estampido:

Ouvisse, ouvisse!… Ai vinha ela… Que medo!… E já estava como que sozinho… via-se na cova estreita com um mundo de terra por cima do seu corpinho tão batido pela moléstia!

_ Não, não! Havia de Ter coragem… dominava o seu terror, embora bem justo, bem natural!…

Criança, saberia morrer como homem… Poderia estar chorando nos braços de pai e mãe, mas para que? Para tortura-los mais? Quem sabe se não haviam de morrer tambem ali! Viessem, viessem para cobrirem de flores o cantinho que eternamente o acolheria no cemitério, alvo, consolador com tantos cruzes e anjinho de mármore a rezarem.

Debalde buscava eu fugir à obsessão. Duas vezes me levantei; mas irresistivelmente voltava a conversar com aqueles olhos, cada vez mais resignados, penetrantes e de dolorosa eloquencia, cheios de surpresas, desconsolos e revoltas, com energia sopitados…

É preciso, é preciso; que fazer?

Bem quisera estar pensando, como menino, em coisas fúteis e risonhas e da sua idade, mas tinha por força que cuidar no que há de mais sério e triste, na morte… morte!

E já as pupilas negras, virando de vez em quando, se escondiam sob as arcadas orbiculares, buscando ver além, para dentro do pobre organismo combalido… E já se fixava, no bater lento das pálpebras pesadas, plúmbeas, impenetrável, o branco das escleróticas, como alvacento pano caído de cena finda, acabada…

E os bicos de gás iluminavam de fora, intermitentemente, o vagão, como que em fantasmagórica visita, dando repentina luz a todos os recantos ou deixando-o de súbito em completa escuridão…

Íamos chegando, e no rostinho de Alberto se desdobrava o palor dos ultimos instantes. Desbotava-se a rubidez das faces incendiadas e afilava-se, a mais e mais, o nariz correto, aquilino.

Já a luz elétrica chegava até nós.

E o trem estacou com o baque de definitiva parada, salteado pelos carregadores em grita:

“Malas, malas! Bagagens! N. 20, n. 53!”

_ Leve ao ombro o seu filho, disse eu para o pai, ele está…

E a palavra “expirando” ficou-me atravessada na garganta.

Parado, imovel, os vi partir, a todos. O pai, na frente, com o sagrado fardo, a mãe, trôpega, fora de si, no braço das criadas em soluços, atrás o molecote com cobertores e chales…

E no vagão vazio, como que continuei a fitar aqueles olhos ardentes, indagadores, tão suaves no ingente desespero, na duvida do problema eterno…

Poor boy, alas!

Fonte:
Visconde de Taunay. Ao Entardecer (contos). SP: Cia. Melhoramentos de São Paulo.

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J. G. de Araújo Jorge (Trevos de Quatro Versos) Parte 2, final

“REALEJO…”

Coração – pobre realejo –
com canções velhas e novas…
Tudo o que sinto, e o que vejo,
vais tocando.. . em minhas trovas…

“QUEM CALCULA ?”

Ao ler uma bela trova
depois que pronta ficou,
– quem calcula a dura prova
por que o poeta passou ?

“O ETERNO TRIÂNGULO… “

Aos meus ciúmes doentios
Tu me disseste ainda nua:
– De olhos abertos sou dele!
De olhos fechados, sou tua!

Ciúme tolo, policial,
Tão pretensioso, irritante,
Se eras casada… e afinal
Eu era apenas… amante…

E eis a suprema ironia
Ao meu coração ferido:
– tu foste trair-me um dia,
Mas, com quem? – com teu marido…

(Ó Amor, como desandas!)
Ontem, ciúmes… mil espreitas…
Hoje, nem sei onde andas,
Nem em que cama te deitas…

“SER MÃE…”

Quando todos te condenem
quando ninguém te escutar,
ela te escuta e perdoa,
pois ser mãe – é perdoar!

Quando todos te abandonem
e ninguém te queira ver,
ela te segue e procura
pois ser mãe – é compreender!

Quando todos te negarem
um pão, um beijo, um olhar,
ela te ampara e acarinha
pois ser mãe – sempre é se dar!

“DIÁLOGO IMPOSSÍVEL”

Chama-me tu, por favor,
Se estamos juntos, e a sós…
– não ponhas este Senhor
tão importuno… entre nós…

Tu tão moça, eu tão vivido…
Tantos anos de permeio.
– Bem poderias ter sido
o grande amor que não veio…

Tu, moça, bela, tão calma…
Eu, inquieto, a alma ferida…
– O diabo leve a minha alma!
– Quero o amor de Margarida!

“PORTUGAL”

Portugal, que, num segundo
da História, – do “era uma vez”
fizeste do mar – um mundo!
E o mundo – um mar português !

Portugal de D. Diniz
que em seus pinhais, em Leiria,
plantava naus que, feliz
o Infante Henrique, colhia!

Araste o Mar – tuas velas
abriram caminhos novos…
Teus grãos – eram caravelas!
E as colheitas – eram povos!

“VOCÊ… E O NATAL…”

Festa na terra e no céu…
Só eu só… tão triste assim…
– Quem dera Papai Noel
trouxesse Você pra mim!

Quem dera Papai Noel
descendo pelos espaços
me desse um pouco de céu
pondo Você em meus braços…

Neste dia belo e doce
de festa, – sentimental,
– quem dera que Você fosse
meu presente de Natal !

“FILOSOFIA…”

Você quer mesmo saber
como a vida se levar ?
Pois é… primeiro viver…
e depois… filosofar…

Vou pisando folhas mortas
sem amanhã… Sigo a esmo…
Fecham-se todas as portas…
Sou o fantasma de mim mesmo…

Disse Jesus certo dia
com bondade e com saber
– há mais alegria em dar,
muito mais – que em receber !

Não tinha paz nem descanso…
O amor… a vida…. – Voragem !
Hoje, a saudade é um remanso
a refletir a folhagem…

Diz que é rico… Pode ser…
Mas pode ser que não seja…
Ser rico é apenas poder
fazer o que se deseja…

Nessa eterna e dura lida
renasço a cada momento
lavando as dores da vida
no rio do esquecimento…

Onde o sonhar de outra idade?
A fé que tive, e perdi?
Hoje chego a ter saudade
daquele… que já morri…

Tu queres mais, sempre mais…
Sê comedido, prudente…
Até o bem quando é demais
acaba enjoando a gente…

Livre da dor, do desgosto,
mais feliz o homem seria
se assim como lava o rosto
lavasse a alma todo o dia.

Paro, as vezes, num momento
feliz, que se vai embora,
e enquanto o vivo, a perde-lo,
sinto saudades… de agora.

– “Crê na Vida”- eis o conselho
da esperança ante a desgraça,
se a face do fria do espelho
de calor ainda se embaça…

Pobre alma triste a cativa !
E há quanta gente como eu
a pensar que ainda está viva
sem saber que já morreu

“UVAS…”

Teus seios – frutos maduros.
cachos de uva, de um pomar
guardado por altos muros,
que apenas vejo ao passar…

Alcançá-los, ninguém ousa,
penso, em angústia perene,
– a me sentir a raposa
da estória de La Fontaine…

“SORRIA…”

Esperava tanta luta
e tão pouco foi preciso:
ao invés da força bruta
ele empregou… um sorriso…

Eis a arte de viver
num conselho dos mais sábios:
às vezes, para vencer
basta um sorriso nos lábios…

Nem tanta coisa é preciso
para evitar-se um revés…
– Tão pouco… basta um sorriso
e eis todo mundo a teus pés…

“MÃOS…”

 Como aves desarvoradas
Depois de roteiros vãos
Tuas mãos vieram, cansadas,
Se aninhar em minhas mãos…

Há momentos… Acontece…
Puro, o amor pode ficar,
Como duas mãos em prece,
Esquecidas, a rezar…

Quando maior é o carinho
Às vezes, tenho a impressão
De que conversam baixinho…
Tua mão… em minha mão…

Fonte:
J.G. de Araujo Jorge . Trevo de Quatro Versos”. 1. ed. Livraria São José, 1964.

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António Botto (A Nuvem)

Certa noite, muitas nuvens pequeninas, dispersas no espaço, juntaram-se e formaram uma grande nuvem. Na manhã seguinte, os campónios exclamara, contentes:

– Até que enfim, vamos ter chuva!

Passaram dois dias; outros dois dias passaram, e a nuvem, agora maior, nem uma gota deitava.

– Que nuvem será esta?, diziam eles, que parece prometernos a bênção da chuva e não nos dá essa alegria? O dever de uma nuvem é desfazer-se em água, diziam os mais impacientes, a caminho da casa de um sábio.

Chegaram, bateram à porta e o sábio veio atendê-los.

– Tu que sabes tanto e que lês tantos livros, diz-nos o que devemos fazer para que o céu nos dê água.

– Não posso atendê-los, respondeu o sábio. Estou a ver se encontro a dedução de um alto pensamento e não posso, por agora, distrair-me com insignificâncias…

Fechou a porta, pôs os óculos e voltou a debruçar-se sobre os velhos alfarrábios.

Os campónios, desiludidos, diziam uns para os outros:

– Este sábio é como a nuvem; é como a nuvem, o maroto! Porque ter muito é o mesmo que não ter nada, se esse muito não servir para alguma coisa na vida.

Fonte:
Os Contos de Antonio Botto. RJ: Livraria Bertrand.

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Monteiro Lobato (Reinações de Narizinho) O Irmão de Pinóquio – I – O Irmão De Pinóquio

— Coitada de vovó! — disse um dia Narizinho. — De tanto contar histórias ficou que nem bagaço de caju; a gente espreme, espreme e não sai mais nem um pingo.

Era a pura verdade aquilo — tão verdade que a boa senhora teve de escrever a um livreiro de São Paulo, pedindo que lhe mandasse quanto livro fosse aparecendo. O livreiro assim fez. Mandou um e depois outro e depois outro e por fim mandou o Pinóquio.

— Viva! — exclamou Pedrinho quando o correio entregou o pacote.

— Vou lê-lo para mim só, debaixo da jabuticabeira.

— Alto lá! — interveio dona Benta. — Quem vai ler o Pinóquio para que todos ouçam, sou eu, e só lerei três capítulos por dia, de modo que o livro dure e nosso prazer se prolongue. A sabedoria da vida é essa.

— Que pena! — murmurou o menino fazendo bico. — Não fosse a tal sabedoria da vida, que nunca vi mais gorda, e hoje mesmo eu dava conta do livro e ficava sabendo toda a história do Pinóquio. Mas não! Temos de ir na toada de carro de boi em dia de sol quente — nhen, nhen, nhen…

Sua zanga, porém, não durou muito, e assim que chegou a noite e tia Nastácia acendeu o lampião e gritou o “É hora!”, ninguém se mostrava mais assanhado que ele.

— Leia da sua moda, vovó! — pediu Narizinho. — A moda de dona Benta ler era boa. Lia “diferente” dos livros. Como quase todos os livros para crianças que há no Brasil são muito sem graça, cheios de termos do tempo do onça ou só usados em Portugal, a boa velha lia traduzindo aquele português de defunto em língua do Brasil de hoje. Onde estava, por exemplo, “lume”, lia “fogo”; onde estava “lareira” lia “varanda”. E sempre que dava com um “botou-o” ou “comeu-o”, lia “botou ele”, “comeu ele” — e ficava o dobro mais interessante. Como naquele dia os personagens eram da Itália, dona Benta começou a arremedar a voz de um italiano galinheiro que às vezes aparecia pelo sítio em procura de frangos; e para o Pinóquio inventou uma vozinha de taquara rachada que era direitinho como o boneco devia falar. Os primeiros capítulos lidos não deram para fazer uma idéia da história. Mesmo assim Pedrinho declarou que se simpatizava com o herói.

— Pois eu não! — contraveio Narizinho. — Esse freguês não me está com cara de ser boa bisca. E você, Emília, que acha?

A boneca estava pensativa, de mãozinha no queixo.

— Eu acho — respondeu ela — que achei uma grande coisa.

— Diga!

— Não posso. Não é coisa de ir dizendo assim sem mais nem menos. Só direi se Pedrinho me der aquele cavalinho de pau sem rabo que está na gaveta dele.

Emília sempre fora interesseira, mas depois que encasquetou a idéia de tornar-se a boneca mais rica do mundo (rica de brinquedos), virou uma perfeita cigana, dessas que não fazem nada de graça.

— Pode ser que dê — disse o menino. — Se a idéia for aproveitável…

— Jura que dá?

— Não duvide de mim. Você bem sabe que sou menino de palavra.

— Pois minha idéia é esta: Se Pinóquio foi feito de um pedaço de pau vivente, bem pode ser que ainda haja mais pau dessa qualidade no mundo.

— E que tenho eu com isso?

— Tem que, se houver mais pau dessa qualidade, você poderá arranjar um pedaço e fazer um irmão do Pinóquio!

Todos se entreolharam, admirados da esperteza da boneca. Pedrinho chegou a entusiasmar-se com a idéia.

— É mesmo! — exclamou arregalando os olhos. — A idéia é tão boa que só admiro de ninguém ter pensado nisso antes. Pode ir lá ao meu quarto, Emília, e tirar o cavalinho da gaveta.
–––––––
Continua… O Irmão de Pinóquio – II – O pau vivente

Fonte:
LOBATO, Monteiro. Reinações de Narizinho. Col. O Sítio do Picapau Amarelo vol. I. Digitalização e Revisão: Arlindo_Sa

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Trova 216 – Francisco Pessoa (CE)

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29 de dezembro de 2011 · 23:16

Caderno de Leitura (Poesias para Crianças 1)

OU ISTO OU AQUILO
CECÍLIA MEIRELES

Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

AS BORBOLETAS
VINÍCIUS DE MORAES

Brancas
azuis
amarelas
e pretas
brincam
na luz
as belas borboletas.

Borboletas brancas
são alegres e francas.

Borboletas azuis
gostam muito de luz.

As amarelinhas
são tão bonitinhas!

E as pretas, então…
oh, que escuridão!

LEILÃO DE JARDIM
CECÍLIA MEIRELES

Quem me compra um jardim com flores?
Borboletas de muitas cores,
lavadeiras e passarinhos,
ovos verdes e azuis nos ninhos?
Quem me compra este caracol?
Quem me compra um raio de sol?
Um lagarto entre o muro e a era,
uma estátua da primavera?
Quem me compra este formigueiro?
E este sapo, que é jardineiro?
E a cigarra e a sua canção?
E o grilinho dentro do chão?
(este é o meu leilão!)

A MINHOCA
ELIAS JOSÉ

A minhoca sai da toca
e se estica e se enrosca.

O pescador quer pegar
a pobre da minhoca.

A galinha quer comer
a saborosa minhoca.

O moleque quer espremer
pra separar terra e minhoca.

A minhoca, que não é tonta,
logo se estica e se enrosca.

A terra enterra a minhoca
e ninguém viu a sua toca.

Lá de sua toca, toda torta,
torce de rir a levada minhoca.

TOLAS PERGUNTAS
ELIAS JOSÉ

Onde estará o rato
que se escondeu no meu sapato?

Onde estará o meu sapato
que escondi perto do gato?

Onde estará o gato
que miava chamando o pato?

Onde estará o pato
que nadava feito um peixe?

Onde estará o peixe
que nadou no fundo do rio?

Onde estará o rio
que caminhava para o mar?

O rio virou mar
que deixou encantados
o rato, o gato, o pato e o peixe.

CRIANÇAS LINDAS
RUTH ROCHA

São duas crianças lindas
mas são muito diferentes!
Uma é toda desdentada,
a outra é cheia de dentes…
Uma anda descabelada,
a outra é cheia de pentes!
Uma delas usa óculos,
e a outra só usa lentes.
Uma gosta de gelados,
a outra gosta de quentes.
Uma tem cabelos longos,
a outra só corta rentes.
Não queiras que sejam iguais,
aliás, nem mesmo tentes!
São duas crianças lindas,
mas são muito diferentes!

VALSA DAS PULGAS
RUTH ROCHA

As pulgas dançando
no meio da rua
dão pulos e pulos
sob a luz da lua.

No baile das pulgas
o passo é assim:
Três passos pra um lado
e entra o cupim.

Cupim dá três passos
pra lá e pra cá
e a pulga contente
toma guaraná.

Quem toca a valsinha
é o sabiá
e as pulgas pulando
pra lá e pra cá.

O GATO
MARINA COLASANTI

No alto do muro
Pulando no escuro
Miando no mato
Entrando em apuro
É o gato, seguro.

De antigo passado
E jeito futuro
Movimento puro
Ar sofisticado
É o gato, de fato.

Só pode ser gato
Esse bicho exato
Acrobata nato
Que só cai de quatro.

GALINHA D’ANGOLA
ROSEANA MURRAY

A galinha d’angola acaricia
o dia com a sua cantoria:
Tô fraco’ tô fraco’ tô fraco’
O menino tira o milho da sacola
e dá de comer à galinha d’angola
Come tudo a angolinha,
mas continua a ladainha:
Tô fraco’ tô fraco’ tô fraco’
Na beira do lago suspiro o sapo:
Que galinha mais fominha!

BEIJA-FLOR
ROSEANA MURRAY

Beija-flor pequenininho
que beija a flor com carinho
me dá um pouco de amor,
que hoje estou tão sozinho…

Beija-flor pequenininho,
é certo que não sou flor,
mas eu quero um beijinho
que hoje estou tão sozinho…

BARCA BELA
ALMEIDA GARRET

Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela,
Que é tão bela,
Ó pescador?

Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Ó pescador!

Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela…
Mas cautela,
Ó pescador!

Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela
Só de vê-la,
Ó pescador!

Pescador da barca bela,
Ainda é tempo, foge dela,
Foge dela,
Ó pescador!

A BAILARINA
CECÍLIA MEIRELES

Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.
Não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé
não conhece nem mi nem fá
mas inclina o corpo para cá e para lá.
Não conhece nem lá nem si,
mas fecha os olhos e sorri.
Roda, roda, roda com os bracinhos no ar,
e não fica tonta nem sai do lugar.
Põe no cabelo uma estrela e um véu
e diz que caiu do céu.
Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.
Mas depois esquece todas as danças
e também quer dormir
como as outras crianças.

TANTA TINTA
CECÍLIA MEIRELES

Ah! Menina tonta,
toda suja de tinta
mal o sol desponta!

(Sentou-se na ponte,
muito desatenta…
E agora se espanta:
Quem é que a ponte pinta
com tanta tinta?…)

A ponte aponta
e se desaponta.
A tontinha tenta
limpar a tinta,
ponto por ponto
e pinta por pinta.

Ah! Menina tonta!
Não viu a tinta da ponte!

A FOCA
VINÍCIUS DE MORAES

Quer ver a foca
ficar feliz
é por uma bola
no seu nariz.

Quer ver a foca
bater palminha
é dar a ela
uma sardinha.

Quer ver a foca
fazer uma briga
é espetar ela
bem na barriga.

Fonte:
Caderno de Leitura: textos e poesias.

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Hiroko Hatada Nishiyama (As Borboletas)

Nesta sala vazia, relembro os momentos alegres e descontraídos das nossas risadas e piadas, nem parece que faz um ano que estou sozinha.

Aproxima-se um novo ano, e é impossível não fazer uma retrospectiva para avaliar nossos sonhos e realizações.

Quando soube que você estava esperando nenê, depois de cinco anos de tentativas, chorei de alegria! Você voltaria dia 30, e não voltou…

No mesmo dia, soube que o nosso amigo Alemão, tinha quebrado a perna, jogando futebol! Ele sempre foi fraquinho…

Não sei explicar como me senti, duas surpresas no mesmo dia, não é brincadeira.
Agora estou aqui sozinha. Parece que o desejo seu e do Alemão foram atendidos, pois não é que ele ganhou na loteria? vai passear com a esposa na Alemanha.

Neste ano, choveu demais, fez calor demais.

E as borboletas acabaram de invadir minha sala novamente. Algumas pequenas, outras maiores mas todas azuis com asas transparentes, iridescentes!

Mas este ano, as campanhas anti-fumo e anti-álcool continuaram, sem muito impacto, tudo muito devagar.

Uma borboleta pousou agora na minha cadeira, linda.

No dia da Padroeira Nossa Senhora da Aparecida, em outubro, aconteceu a maior demonstração de fé, está todo mundo precisando do auxílio lá do Alto. As orações diárias não estão atendidas. Assim como meu pedido!

Mas a Semana da Criança, foi um sucesso. Até na mais longínqua cidadezinha, houve uma grande distribuição de doces e brinquedos e muito, muito carinho!
Uma borboleta acabou de pousar no meu ombro, maravilhosa. Daqui a pouco irá embora, como meu sonho!

Pois então, o meu pedido não foi atendido: não encontrei ninguém para morar no meu coração. Continua vazio à espera de um príncipe que me leve num cavalo branco para um castelo encantado, como nos contos de fada!

Mas numa análise mundial, este ano foi definitivamente positivo: os nascimentos superaram os óbitos. Isso é muito bom: quem sabe já está entre nós o gênio que salvará o mundo do caos ecológico, a cada dia mais e mais evidente.
As borboletas estão cada vez mais pousando na minha mesa, na cadeira e até no meu lápis. Daqui a pouco desaparecerão na fresta do papel de parede que adorna minha sala!

Estou ouvindo passos de alguém aproximando-se, a fim de me levar a um passeio pelo jardim maravilhoso que circunda esta casa!

Mas, no Ano que se aproxima, tenho certeza que será um Ano de Renovação Espiritual, trazendo o Princípio da Paz, da Amizade e do Amor Universal.

Estes não são apenas votos e desejos, mas uma Oração para que o Ano Entrante seja pleno de Luz nos corações de todos os viventes!

Adeus Ano Velho!

Feliz Ano Novo!

Fonte:
Texto enviado por Carlos Leite Ribeiro

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas de Ano Novo n. 438)

Uma Trova Nacional

Que se alegre este meu povo
sempre lutador e audaz;
que o meu BRASIL no ano novo
alcance o progresso, em paz!
–LARISSA LORETTI/RJ–

Uma Trova Potiguar
Mensageiro do evangelho
o Ano Novo, eu suponho
seja o próprio ano velho
vestido de um novo sonho!
–HELIODORO MORAIS/RN–

Uma Trova de Ademar

Ao Trovador meu irmão,
mando um abraço apertado;
pra vocês, de coração…
Um Ano Novo “Arretado!”
–ADEMAR MACEDO/RN–

…E Suas Trovas Ficaram

Que o Ano Novo nos dê,
à maneira que puder,
o Bem que eu quero a você
e o Bem que você me quer!
–ALCY RIBEIRO S. MAIOR/MG–

Simplesmente Poesia

Mais um Ano…
–DELCY CANALLES/RS–

Mais um ano que se vai,
carregando os sonhos meus,
e eu fico, só esperança,
buscando o sonho sonhado,
nessa busca que me cansa,
querendo encontrar-te, enfim,
pra vivermos , lado a lado,
eu e tu, tu junto a mim!
Mas ano, após ano, passa,
e este sonho, qual fumaça,
se desfaz na amplidão…
E eu continuo sozinha,
a teimar com a sorte minha,
a  viver  em  solidão!

Estrofe do Dia

Quero desejar ao povo
de todas as regiões,
que tenham nesse Ano Novo
muitas realizações;
e que os nossos corações
se superlotem de paz,
pra não ter guerra jamais
peça a Deus que nos ajude,
com paz, amor e saúde
que o resto… Vamos atrás.
–ADEMAR MACEDO/RN–

Soneto do Dia

Crença
 –DIVENEI BOSELI/SP–

No mar revolto a lua jorra o brilho
e a luz que tremeluz em cada barco
ajuda clarear o estreito trilho
que leva a multidão no espaço parco.

Vindos da praia, onde se fez rastilho,
fumaça e estrondos; descrevendo um arco,
uma após outra, em confuso estribilho,
profusas cores festejando o marco.

Eu levo antúrios, vou descalça e crente,
só com amigos, sem nenhum parente,
pular as bravas ondas dessas águas.

O mar se agita mais, a lua espreita,
e a voz da Janaína, desta feita,
promete um ano só de amor. Sem mágoas!

Fonte:
Textos enviados pelo Autor

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Lima Barreto (Os Enterros de Inhaúma)

Certamente há de ser impressão particular minha não encontrar no cemitério municipal de Inhaúma aquele ar de recolhimento, de resignada tristeza, de imponderável poesia do Além, que encontro nos outros. Acho-o feio, sem compunção com um ar momo de repartição pública; mas se o cemitério me parece assim, e não me interessa, os enterros que lá vão ter, todos eles, aguçam sempre a minha atenção quando os vejo passar, pobres ou não, a pé ou em coche-automóvel.

A pobreza da maioria dos habitantes dos subúrbios ainda mantém neles esse costume rural de levar a pé, carregados a braços, os mortos queridos.

É um sacrifício que redunda num penhor de amizade em uma homenagem das mais sinceras e piedosas que um vivo pode prestar a um morto.

Vejo-os passar e calculo que os condutores daquele viajante para tão longínquas paragens, já andaram alguns quilômetros e vão carregar o amigo morto, ainda durante cerca de uma légua. Em geral assisto a passagem desses cortejos fúnebres na rua José Bonifácio canto da Estrada Real. Pela manhã gosto de ler os jornais num botequim que há por lá. Vejo os órgãos, quando as manhãs estão límpidas, tintos com a sua tinta especial de um profundo azul-ferrete e vejo uma velha casa de fazenda que se ergue bem próximo, no alto de uma meia laranja, passam carros de bois, tropas de mulas com sacas de carvão- nas cangalhas, carros de bananas, pequenas manadas de bois, cujo campeiro cavalga atrás sempre com o pé direito embaralhado em panos.

Em certos instantes, suspendo mais demoradamente a leitura do jornal, e espreguiço o olhar por sobre o macio tapete verde do capinzal intérmino que se estende na minha frente.

Sonhos de vida roceira me vêm; suposições do que aquilo havia sido, ponho-me a fazer. Índios, canaviais, escravos, troncos, reis, rainhas, imperadores – tudo isso me acode à vista daquelas coisas mudas que em nada falam do passado.

De repente, tilinta um elétrico, buzina um- automóvel chega um caminhão carregado de caixas de garrafas de cerveja; então, todo o bucolismo do local se desfaz, a emoção das priscas eras em que os coches de Dom João VI transitavam por ali, esvai-se e ponho-me a ouvir o retinir de ferro malhado, uma fábrica que se constrói bem perto.

Vem porém o enterro de uma criança; e volto a sonhar.

São moças que carregam o caixão minúsculo; mas assim mesmo, pesa. Percebo-o bem, no esforço que fazem.

Vestem-se de branco e calçam sapatos de salto alto. Sopesando o esquife, pisando o mau calçamento da rua, é com dificuldade que cumprem a sua piedosa missão. E eu me lembro que ainda têm de andar tanto! Contudo, elas vão ficar livres de um suplício; é o do calçamento da rua do Senador José Bonifácio. É que vão entrar na Estrada Real; e, naquele trecho, a prefeitura só tem feito amontoar pedregulhos, mas tem deixado a vetusta via pública no estado de nudez virginal em que nasceu. Isto há anos que se verifica.

Logo que as portadoras do defunto pisam o barro unido do velho trilho, adivinho que elas sentem um grande alívio dos pés à cabeça. As fisionomias denunciam. Atrás, seguem outras moças que as auxiliarão bem depressa, na sua tocante missão de levar um mortal à sua última morada neste mundo; e, logo após, graves cavalheiros de preto, com o chapéu na mão, carregando palmas de flores naturais, algumas com aspecto silvestre, e baratas e humildes coroas artificiais fecham o cortejo.

Este calçamento da rua Senador José Bonifácio, que deve datar de uns cinqüenta anos é feito de pedacinhos de seixos mal ajustados e está cheio de depressões e elevações imprevistas. É mau para os defuntos; e até já fez um ressuscitar.

Conto-lhes. O enterro era feito em coche puxado por muares. Vinha das bandas do Engenho Novo, e tudo corria bem. O carro mortuário ia na frente, ao trote igual das bestas. Acompanhavam-no seis ou oito caleças, ou meias caleças, com os amigos do defunto. Na altura da estação de Todos os Santos, o cortejo deixa a rua Arquias Cordeiro e toma perpendicularmente, à direita, a de José Bonifácio. Coche e caleças põem-se logo a jogar como navios em alto-mar tempestuoso. Tudo dança dentro deles. O cocheiro do carro fúnebre mal se equilibra na boléia alta. Oscila da esquerda para a direita e da direita para a esquerda, que nem um mastro de galera debaixo de tempestade braba. Subitamente, antes de chegar aos “Dois Irmãos”, o coche cai num caldeirão, pende violentamente para um lado; o cocheiro é cuspido ao solo, as correias que prendem o caixão ao carro, partem-se, escorregando a jeito e vindo espatifar-se de encontro às pedras; e – oh! terrível surpresa! do interior do esquife, surge de pé – lépido, vivo, vivinho, o defunto que ia sendo levado ao cemitério a enterrar. Quando ele atinou e coordenou os fatos não pôde conter a sua indignação e soltou uma maldição: “Desgraçada municipalidade de minha terra que deixas este calçamento em tão mal estado! Eu que ia afinal descansar, devido ao teu relaxamento volto ao mundo, para ouvir as queixas da minha mulher por causa da carestia da vida, de que não tenho culpa alguma; e sofrer as impertinências do meu chefe Selrão, por causa das suas hemorróidas, pelas quais não me cabe responsabilidade qualquer! Ah! Prefeitura de uma figa, se tivesses uma só cabeça havias de ver as forças das minhas munhecas! Eu te esganava, maldita, que me trazes de novo à vida!”

A este fato, eu não assisti, nem ao menos morava naquelas paragens, quando aconteceu; mas pessoas dignas de toda a confiança me garantem a autenticidade dele. Porém, um outro muito interessante aconteceu com um enterro quando eu já morava por elas, e dele tive notícias frescas, logo após o sucedido, por pessoas que nele tomaram parte.

Tinha morrido o Felisberto Catarino, operário, lustrador e empalhador numa oficina de móveis de Cascadura. Ele morava no Engenho de Dentro, em casa própria, com razoável quintal, onde havia, além de alguns pés de laranjeiras, uma umbrosa mangueira, debaixo da qual, aos domingos, reunia colegas e amigos para bebericar e jogar a bisca.

Catarino gozava de muita estima, tanto na oficina como na vizinhança.

Como era de esperar, o seu enterro foi muito concorrido e feito a pé, com um denso acompanhamento. De onde ele morava, até ao cemitério de Inhaúma, era um bom pedaço; mas os seus amigos a nada quiseram atender: Resolveram levá-lo mesmo a pé. Lá fora, e no trajeto, por tudo que era botequim e taverna por que passavam, bebiam o seu trago. Quando o caminho se tornou mais deserto até os condutores do esquife deixavam-no na borda da estrada e iam à taverna “desalterar”. Numa das últimas etapas do itinerário, os que carregavam, resolveram de mútuo acordo deixar o pesado fardo para os outros e encaminharam-se sub-repticiamente para a porta do cemitério. Tanto estes como os demais – é de toda a conveniência dizer – já estavam bem transtornados pelo álcool. Outro grupo concordou fazer o mesmo que tinham feito os carregadores dos despojos mortais de Catarino; um outro, idem; e, assim, todo o acompanhamento dividido em grupos, tomou o rumo do portão do campo-santo, deixando o caixão fúnebre com o cadáver de Catarino dentro abandonado à margem da estrada.

Na porta do cemitério, cada um esperava ver chegar o esquife pelas mãos de outros que não as deles; mas nada de chegar. Um, mais audaz, após algum tempo de espera, dirigindo-se a todos os companheiros, disse bem alto:

– Querem ver que perdemos o defunto?

– Como? perguntaram os outros, a uma voz.

– Ele não aprece e estamos todos aqui, refletiu o da iniciativa.

– É verdade, fez outro.

Alguém então aventou:

– Vamos procurá-lo. Não seria melhor?

E todos voltaram sobre os seus passos, para procurar aquela agulha em palheiro…

Tristes enterros de Inhaúma! Não fossem essas tintas pinturescas e pitorescas de que vos revestis de quando em quando de quanta reflexão acabrunhadora não havíeis de sugerir aos que vos vêem passar; e como não convenceríeis também a eles que a maior dor desta vida não é morrer…

Fonte:
Lima Barreto. Contos completos. Companhia das Letras.

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António Botto (Egoísmo)

Chove. A velha está no seu esconderijo. Mas não está só; rodeiam-na suas três filhas que querem sair mesmo a chover. E a velha raposa, de um lado para o outro, trabalhadora, inquieta, vigiando as maldades das filhas, acabou por se cansar e sentou-se molengona a abrir a boca e a fechar os olhos.

     – Mãe, conta-nos uma história; mas não uma história moral; está a chover, e quando há chuva a moral não sai muito limpa…

     – Disparates, respondeu a mãe. Uma história sem moral é como uma capoeira sem galinhas. Vou, pois, contar uma história, mas é preciso que as meninas estejam com atenção:
Era uma vez uma nossa parenta que possuia a mania de colecionar só objetos brilhantes: pedaços de cristal, metais, botões, jóias, esmaltes, e em poucos meses a casa dela era um verdadeiro museu variado e valioso. E quando alguém lhe passava ao pé da porta, só de pálpebras cerradas poderia resistir a tanto brilho ali concentrado. A colecionadora mal comia. Alimentava-se a olhar para os diamantes brancos e azuis que eram os que mais distinguia na sua paixão pelos brilhos. Mas uma noite de Inverno choveu tanto, tanto, tanto que o mundo quase se desfazia alagado em tanta chuva. Uma noite, não enganei-me: foram três dias e três noites – fechada, sozinha, sem alimentos, e sem poder consegui-los…

     – Morreu de fome, já se vê, disse a filha mais novinha.

     – Não, respondeu a raposa. Pôs-se a gritar e ouviram-na.

Ao cabo de algum trabalho, lá conseguiram chegar ao famoso esconderijo e socorreram-na como foi possível: dois frangos por sete lascas de brilhantes, e outras trocas assim. Mas salvou-se, e era o importante.

     – É perto daqui, minha mãe?, perguntou a do meio.

     – Ainda que esteja perto, ainda que lhe toquemos com o dedo, tudo quanto não é nosso está na lua, entendeste?

Fonte:
Os Contos de Antonio Botto. RJ: Livraria Bertrand.

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J. G. de Araújo Jorge (Trevos de Quatro Versos) 1

SOBRE A TROVA

Tudo é trova: a flor, a onda,
A nuvem que passa ao léu
E a lua, trova redonda
Que a noite canta no céu!

Ah, trova com quem me enleio…
– Tens um gingado qualquer
Que lembra esse bamboleio
Do corpo de uma mulher…

A todos prende e cativa,
E não se rende a qualquer…
– É pequena, mas esquiva…
… Não fosse a trova, mulher…

TROVAS

Sejam felizes ou não
Cantando instantes diversos,
As trovas do coração,
são trevos de quatro versos.

Rico eu sou, mesmo sem ouro
E da riqueza, dou provas,
– eis aqui o meu tesouro:
Minha sacola de trovas.

Tão simples, as trovas são
Cantigas com que a alma expande
Tudo o que há no coração
Do poeta – um menino Grande.

Meu terço feito de trovas
Que em versos fico a compor,
Com ele rezo, e dou provas
Do meu culto ao teu amor!

EU FAÇO VERSOS

 Eu faço versos assim
Como quem respira ou canta,
A poesia nasce em mim
Como do chão nasce a planta…

E como que por encanto
Minha dor se vai embora
Pois estas trovas que eu canto
São feitas… como quem chora…

De mãos dadas com as lembranças
Com o mar, com a noite, com a lua
Faço versos, como as crianças
Fazem ciranda na rua…

TUAS MÃOS…

Ternura de cinco pontas
Viva, estranha, inquieta flor…
Tuas mãos são duas contas
Do meu rosário de amor.

Delicados diademas
Trabalhadas obras-primas…
…Tuas mão sãos dois poemas
Rimando, em vermelhas rimas…

Ah, mãos tão frágeis, parecem
Pedir arrimo e guarida…
E entretanto, se quisessem
Guiariam minha vida…

GLÓRIA ?

Minha maior alegria
minha glória humilde e nua
é ver a minha poesia
fazer ciranda na rua…

 Por certo que me comovo,
nem glória existe maior :
ouvir um poeta o seu povo
dizer seus versos de cor !

A POESIA

Poesia, flor de mistério
que brota do coração
e abre as pétalas de etéreo
no céu da imaginação.

Vivo a vida cada dia,
vida comum, sem engodos,
por isto a minha poesia
reflete a vida de todos

A poesia que desejo
tiro de mim como aquela
cantiga do realejo
se alguém roda a manivela…

SOLIDÃO

Por certo a pior solidão
É aquela que a gente sente
Sem ninguém no coração…
No meio de muita gente…

Praias longe, em solidão
Fora de todas as rotas,
Tal como o meu coração
Só como o sonho… das gaivotas…

A VIDA

Gota d’água transparente
que brilha, cresce…e que cai!
Assim a vida da gente
que num instante se vai!

A Vida, – mistério vão
sombra agora, depois luz,
– estranho traço de união
ligando um berço… a uma cuz!

A Vida – uma onda que avança
e volta, vai-vem do mar…
Quando vai, quanta esperança!
Quanta amargura, ao voltar!

A Vida – visão fugaz,
praia chã, mar que alteia,
onda que faz e desfaz
os seus cabelos de areia…

A Vida – ansiosa escalada
sobre a paisagem do mundo
Tanto esforço para nada
se há sempre abismo no fundo!

Às vezes penso que a vida
que há tanta gente a querer
só existe, – indefinida –
pra gente poder morrer…

Ó pobre vida suicida!
Teu destino é uma ironia
se o que chamamos de vida
é um morrer de cada dia!

Numa amizade perdida,
num amor que se desgraça,
a morte desconta a vida
a cada dia que passa!

Há uma ironia, contida
nas contigências da sorte:
– quanto mais se vive a vida
mais se avança para a morte.

Vive a vida bem vivida
e ao mais, esquece e revela,
que a gente leva da vida
a vida que a gente leva…

Fonte:
J.G. de Araujo Jorge . Trevos de Quatro Versos”. 1. ed. Livraria São José, 1964

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Carlos de Oliveira (Uma Abelha na Chuva)

Análise da obra

 Obra de imaginação eficaz e rigorosa, o romance Uma abelha na chuva, de Carlos de Oliveira observa o mundo real através de tenso trabalho verbal iluminador do grande símbolo de tragédia e das referências simbólicas defluentes que alguma crítica encontra nas palavras tão autorais como são “paisagem” e “povoamento”.

 Da sintaxe simbólica da tragédia com a luta gandarense (paisagem e povoamento, afinal), segue o livro o seu trajeto tenso de símbolos, como o afirmam os pares opositivos fogo / água, mel / cinzas, mel / tabaco, abelha / água, mel / chuva, fonte / rio ou mar / poço, com variações de significação de acordo com as representações e os momentos textuais.

 O signo trágico assenta na utilização articulada de palavras-símbolo, assumindo cada uma as metamorfoses decorrentes da narrativa. A tragédia resulta da interação dos elementos que transformam o mel em fel, tudo arrastando para a corrosão e para as cinzas. Em paisagem cinérea, armadilhado o povoamento pelo destino trágico, a morte de Clara é decidida pela paixão e pela impossibilidade de ser fecunda num espaço dominado pela secura e pelo incontato. O mel cede ao fel e à “moeda de ouro”, com a perfeição do círculo e o valor da perenidade, é também Jacinto, assim designado por onomástica significativa que convoca a perfeição, a beleza e a preciosidade. A morte anunciava-se desde há muito: o pisar das folhas caídas e a devoração desse “oiro” pelos vermes diziam já a morte de Jacinto, corpo jovem que foi bode expiatório de uma comunidade improdutiva e viciosa.

 Afinal, o tempo dos senhores, numa narratividade cíclica feita da vacuidade dos serões e das crises conjugais de Álvaro e Maria dos Prazeres, esmaga o tempo dos dominados que progride para o aniquilamento. E nem assim cessa a esperança, a luta.

 O código temporal do romance caracteriza-se pela linearidade da história e pelo ordenamento. A par, a conflitualidade e a frustração relacional propiciam o recurso à analepse (volta ao passado), que afirma através da imagem da água o primado da ancestralidade face a um tempo doloroso do presente de que conhecemos cerca de quatro dias. A constância dos fluxos aquáticos ao longo da obra, afinal, símbolo claro do fluir do tempo, traz consigo a imagem da irreversibilidade.

 Portanto, o código temporal e o repertório simbólico de Uma abelha na chuva contribuem decisivamente para a unidade de uma das mais importantes obras da literatura portuguesa do século XX.

 Este romance representa a assimilação sincrética da maioria dos temas versados antes, sem se desviar do humanitarismo socialista orientador de todas as obras de ficção do autor e do neo-realismo português em geral.

 Como nos três romances anteriores, Uma abelha na chuva localiza-se na região da Gândara, nos arredores de Coimbra.

 O romance tem como foco as trágicas conseqüências psico-sociais resultantes da união forçada entre a doente aristocracia da província e a burguesia rural.

 Temos uma obra depurada de excessivo localismo, o que Carlos de Oliveira não conseguiu em nenhum outro romance.

 A união de Maria e Silvestre representa o choque de duas classes integradas no contexto sócio-econômico da Gândara. Porém, a problemática interna destas personagens e as repercursões dessa problemática nas outras personagens da obra transcendem o pequeno mundo gandarês, sem por isso deixar de refleti-lo.

 A opressão do pobre pelo rico, uma constante do neo-realismo português, ainda está presente neste livro. No entanto, agora é tratada com incomum maestria mediante o recurso a um apto simbolismo que se patenteia no título e percorre toda a obra, não só lhe conferindo um caráter transcendente, mas, como no caso do símbolo da chuva, contribuindo para a sua estrutura orgânica.

 O romance quer demonstrar que não existe significativa mudança social que não produza sofrimento; e o pobre, devido à sua condição de subserviente e a certa ironia do destino, acaba sempre por ser a verdadeira vítima dos ódios e tragédias dos poderosos: um bode expiatório no verdadeiro sentido da frase. Nota-se que o motivo do sacrifício de vítimas inocentes percorre todo o romance. Mas até mesmo os próprios opressores são vitimados por desígnios de outrem ou por circunstâncias para além do seu próprio controle, embora a simpatia do narrador poucas vezes esteja com eles. É o caso de Maria dos Prazeres e até certo ponto de Álvaro. No fundo, e aqui se começa antever o caráter universalista do romance, não se trata de “uma”, mas sim de um microcosmo de “abelhas” humanas na chuva.

 Apesar de seus momentos de tragédia, Uma abelha na chuva deixa transparecer um tom de zombaria, principalmente na crítica à sociedade provinciana retratada no romance: o burguês abastado, proprietário de uma casa em que não tem onde dormir porque a mulher trancou a porta do quarto; dois assassinos trapalhões que têm medo de trovoadas e carregam para longe o corpo da vítima no meio de uma tempestade, quando poderiam tê-lo escondido em qualquer lugar; o aprendiz que, no momento de maior tensão, abandona o mestre para correr atrás de um burro; uma beata encarregada de vestir os anjos e a outra que lhe fornece asas, túnicas, sandálias e resplendores.

Simbologia

A abelha – o casal Álvaro / D. Maria dos Prazeres são identificados como “abelhas cegas obcecadas”, tal como o são os seus amigos íntimos. Deste modo, encontra-se explicitamente posto em causa, pela via da simbolização, o equilíbrio de um estrato da sociedade (o dominante no microcosmos social deste romance) corrompido por força de uma aliança de interesses inconciliáveis, o que explica a amarga conclusão do Dr. Neto, de que, tendo ajudado, “anos e anos aquela obra de pintar e repintar, a colméia dos Silvestres” não atendera “a que lá dentro o enxame apodrecia”. Portanto o símbolo da abelha serve, numa primeira utilização, para salientar, pela negativa, o que, de degradado e imperfeito existe num determinado nível social.

O mel – evoca a idéia de perfeição e de doçura e também o da transformação. Ao nível de Álvaro e D. Maria dos Prazeres “todos eles fabricam fel”, é junto do par Jacinto / Clara que o mel (isto é, a doçura, a perfeição apoiada no tempo) é suscetível de ser encontrado: tanto a gravidez de Clara como os projetos de ambos e até o envolvimento espacial em que estes últimos são considerados apontam para um futuro de otimismo (ou seja, de doçura idêntica a do mel) que o decorrer do tempo social e histórico propiciará.

A água e a chuva – esta evoca globalmente o sentido da agressividade (relacionada com o tema da opressão). Agressividade, porque com a sua presença gera o desconforto das personagens e acentua os seus conflitos. A água é também fonte e rio. A fonte, enquanto imagem da água que jorra e corre da terra, evoca o passado recôndito que flui da memória de certas personagens. A fonte é imagem próxima da infância e quando se transforma em rio passa a evocar, com toda a nitidez, o escoar de um tempo que quanto mais afastado da infância mais conspurcado se apresenta. Mas quando está em causa o desfecho das relações Jacinto / Clara, a água é também mar e poço, cenários particulares, de morte que a ambos atinge. Quando Jacinto é lançado às águas do mar, a personagem acaba por penetrar no elemento que ao seu comportamento habitual convém: no mar, símbolo da dinâmica da vida, do seu movimento e constantes mutações, exatamente na linha do pensamento de Jacinto, enquanto personagem norteada pelo desejo de transformar o mundo pela medida dos seus projetos. E, para além de Clara, Jacinto fecunda sobretudo o movimento de revolta popular que estilhaça os vidros do casal marcado pelo estigma da infertilidade. A morte de Jacinto, encerrando um ciclo de vida individual abre (fecunda) um ciclo de vida coletivamente assumida.

Álvaro Silvestre / D. Maria dos Prazeres – passado; presente perdido; classe social ameaçada; morte do grupo improdutivo; destruição; opressão; vingança; solidão.

Jacinto / Clara – presente destruído; futuro alcançado; vitória do grupo produtivo; comunhão; semente promissora.

 Aparentemente, o romance encerra com uma mensagem de pessimismo traduzida na eliminação daquela (Clara) que com o símbolo da abelha mais explicitamente se identifica; porque, com efeito, é ela que integra os sentidos da produtividade laboriosa e da fertilidade.

 Os episódios finais do romance e a sua leitura simbólica clarificam o sentido do pessimismo. Abre-se a possibilidade de uma inversão de juízos, quando se conclui que entre a aparência (a colmeia repintada, isto é, a organização e compromissos sociais que sustentam, os Silvestres) e a realidade (o enxame apodrecido, ou seja, a existência social e psicológica degradada) a relação é de oposição. Por outro lado, aquilo que à primeira vista inculca destruição e morte pode finalmente não o significar:

 “A abelha foi apanhada pela chuva…” A destruição da abelha não implica necessariamente a do enxame. Existe uma relação simbólica evidente entre abelha / Clara, atingida pela força destruidora da água, mas a morte de uma abelha isoladamente não só não compromete a sobrevivência e coesão social do enxame que a perdeu, como sobretudo faz dessa abelha semente de um processo de transformação da vida que evitará a existência de futuras abelhas na chuva.

 Clara = abelha.

 Uma abelha morre = ficam as outras.

 Clara morre = ficam as outras pessoas.

 A chuva = a classe opressora, a força da opressão.

 Colmeia apodrecida = colmeia morta = classe social a desaparecer.

 Colmeia verde = cidade verde = esperança na vitória = a consciência do povo desperta preparada para a luta.

As Abelhas – simbolizam as “trabalhadoras disciplinadas e incansáveis”. Asseguram a continuidade da espécie ao trabalharem para a colmeia fazendo o mel. A colméia remete para o lar, para a casa que simboliza a concha, o bem-estar a proteção.

 Em oposição às abelhas temos o casal Álvaro Silvestre e Maria dos Prazeres (esta referência é feita por Dr. Neto), que diz “todos eles fabricam fel; abelhas cegas, obcecadas”. As abelhas cegas remetem para o único objetivo deste casal que são os interesses econômicos que os levam “a roubar ao balcão, nas feiras, nas soldadas dos trabalhadores e na legítima de meu irmão”, confissão. A abelha obcecada serve para vincar o que de negativo e imperfeito existe porque uma abelha cega não é útil para a colméia. Este casal também não é útil à sociedade porque para além de todos estes defeitos não asseguram a perenidade, a continuidade do nome e da riqueza pois é um casal infértil. Ainda, através de Dr. Neto, este diz que ajudou “anos e anos, aquela obra de pintar e repintar, a colméia dos Silvestres, sem atender a que lá dentro o enxame apodrecia”.

 A colméia remete para o lar, para a casa que simboliza a concha, o bem-estar a proteção que são sensações que não existem na casa dos Silvestres porque se vive num ambiente degradado, corrompido perverso, sendo que este último se afigura na personagem de Álvaro quando veio avisar o mestre Antônio. O ambiente da casa dos Silvestres é tão viciado que não pode produzir nada de bom. Por tudo isto são o oposto das abelhas pois não há equilíbrio na sua casa e só produzem fel.

Comparação as abelhas – Clara que juntamente com Jacinto forma um casal equilibrado onde reina a harmonia, tal como na colméia. Jacinto tem o nome da flor da qual Clara se alimenta para produzir mel, o filho. O zangão é Jacinto que após a cópula com a abelha, morre. No último capítulo, a referência é a de que a abelha foi apanhada por uma chuva forte, da qual não consegue sair ou abrigar-se pelo que tentou debater-se, mas acabou por morrer. Tudo estava contra ela, por isso não conseguiu defender, era uma luta injusta.

 Dr. Neto também tem todas as qualidades da abelha, além de ser ele próprio apicultor.

A água – A chuva é o sinônimo de agressividade no ambiente social e está presente nos conflitos pessoais e nos momentos mais importantes da ação. Nos momentos de grande desconforto, de grande tensão, a chuva está patente, aumenta a sua densidade consoante o conflito está acentuado.

 A fonte quando a água jorra e corre da terra simboliza a evocação de memórias do passado: quando Álvaro Silvestre recorda a sua infância como refúgio; um tempo de bem-estar por oposição ao desconforto do presente. Para Maria dos Prazeres a fonte é também a imagem do passado, mas depois torna-se num rio.

 O mar é o espaço para onde o corpo de jacinto é atirado. Simboliza a dinâmica da vida, pelos seus movimentos de ondas, e Jacinto acaba por ter um fim que se enquadra na dinâmica que era a sua vida, repleta de projetos por concretizar.

 Do poço se recolhe a água que é vida, sendo por isso um espaço de origem da vida. No entanto, Clara atira-se ao poço, acabando por provocar-lhe a morte, como se fosse castigada pela ousadia de projetar uma outra vida sem o apoio do seu pai.

Os Nomes

Álvaro Silvestre: pelo fato de ser curto revela que não tem linhagem. Álvaro vem de “alvo” que significa branco, puro, honesto e virtuoso. Silvestre significa que é próprio da selva, que é selvagem, bravio, agreste e inculto.

Maria dos Prazeres Pessoa de Alva Sancho… Silvestre: o seu nome extenso representa a sua linhagem. Prazeres só mentais.

Tempo

 A cronologia da ação concentra-se em cerca de três dias. Este fato, porém, não deve induzir-nos ao erro, já que, se materialmente o tempo da ação é reduzido, em dois outros aspectos ele apresenta-se mais dilatado. Em termos históricos, na medida em que a analepse projeta muitas vezes as ações do passado sobre as do presente. Em termos psicológicos, porque a focalização interna sujeita os eventos às vivências das personagens cuja óptica comanda a representação narrativa. Este tempo revela-se, pois, muito mais extenso devido às inúmeras evocações do passado.

1º Período: entre as cinco horas de uma quinta-feira do mês de Outubro (cap. I) e a manhã do dia seguinte (cap. XVI).

2° Período: duração de 24 horas do dia de sexta-feira (cap. XVI – XXVI)

3° Período: o dia de sábado até o amanhecer de domingo (cap. XXVII – XXXV)

 A cena dialogada instaura um tempo discursivo isocrônico e surge quando se apresentam ações ligadas aos momentos de confronto entre as personagens, às reflexões que originam monólogos, aos serões e à preparação e consumação do assassínio de Jacinto. A cena dialogada põe a nu, muitas vezes, a incomunicabilidade entre as personagens.

 O tempo psicológico diz respeito ao modo como as personagens do romance vivem o passar do tempo. As analepses traduzem uma vivência interior por parte das personagens que refugiando-se no passado, fogem a um presente insuportável.

Espaço

 Geograficamente, a ação é localizada com alguma precisão. As localidades referidas no romance, como Montouro, S. Caetano e Fonterrada localiza-se na região de Cantanhede, na zona litoral do distrito de Coimbra.

 O espaço interior é o quarto do casal Álvaro Silvestre / D. Maria dos Prazeres e o palheiro onde se passam os amores de Jacinto e Clara.

 A tese do romance pode sintetizar-se assim: não existe uma significativa mudança social que não produza sofrimento; e o pobre, devido à sua condição de subserviente, acaba por ser a verdadeira vítima dos ódios e tragédias dos poderosos.

 O espaço psicológico manifesta-se através do monólogo interior de algumas personagens, revelando-se, assim, os conflitos vividos pelos protagonistas na sua consciência.

Narração

 A representação da história é conduzida por um narrador onisciente, capaz de penetrar no universo psicológico, social e cultural que determina o comportamento das personagens, e principalmente pela utilização da focalização interna, isto é, concedendo um papel dominante à perspectiva subjetiva e parcial que as personagens têm da própria história.

 A focalização interna (ou seja, a representação da história através do ponto de vista de uma ou mais personagens), aquela que o narrador utiliza de modo mais insistente; a focalização onisciente, como processo de vigência de uma visão (a do narrador) transcendente à história, é concedida uma função meramente acessória; a focalização externa, na condição de modo de apresentação do exterior de personagens e eventos, apenas esporadicamente surge atualizada como signo da representação.

 Quando abre a narrativa, é em focalização externa que é apresentada a personagem em ação: “Pelas cinco horas duma tarde invernosa de outubro, certo viajante entrou em Corgos, a pé, depois de árdua jornada…”. Para além desta referência outra surge no capítulo XIII que serve para apresentar uma outra personagem: “…saltou da boleia para receber as ordens da dona da charrete, uma senhora pálida, de meia idade, agasalhada num xaile de lã e com manta de viagem enrolada nas pernas: — Perguntem no café se o viram.”

 Além destas duas ocorrências, pode dizer-se que não mais se repete o recurso à focalização externa, como processo representativo autônomo.

Ação

 A ação principal está intimamente ligada à ação secundária, sendo esta emocional e evidentemente trágica, ao passo que aquela é física, surdamente dramática.

 A ação principal apresenta as relações impossíveis e altamente conflituosas de D. Maria dos Prazeres e Álvaro Silvestre; a ação secundária é constituída pelo amor de Jacinto e Clara, violentamente truncado. Por esta razão, é na ação secundária que surpreendemos uma intriga com uma série de acontecimentos encadeados de forma casual e com um desfecho sem retorno: diremos, então, que estamos perante uma ação fechada.

 Quanto à ação principal, é aberta, porquanto, retratando retalhos de vida, não nos aponta solução nenhuma para as personagens.

 Neste aspecto, Uma abelha na chuva integra-se perfeitamente na tradição geral do romance neo-realista português, refletindo cenários sociais e históricos que não apresentam uma ação completa, mas «fatias» de vidas acidentadas.

 Na ação principal marcada por momentos arrastados, se encontra de forma bem evidente uma caracterização social e psicológica; com efeito, se nos detivermos nos capítulos VII – X e XXXII – XXXIV, verificaremos que estes dois serões se seguem, respectivamente, ao denso episódio na redação do jornal e subseqüente viagem e à morte do Jacinto e subseqüente manifestação popular. E verificaremos que é durante esses serões que há um esboço de convívio social onde se discutem acontecimentos e aspectos “lá de fora”, assim como se revelam características das personagens secundárias. Mesmo assim, essa espécie de conforto momentâneo “a quebreira do lume, o rumor insistente da chuva pela noite, a comodidade das cadeiras de braços bem almofadas” não são suficientes para amenizar sequer as tensões que dominam os donos da casa. Mesmo no desenrolar desses serões saltam fagulhas de revolta ou de fúria, reflexo do sofrimento contido no peito dos protagonistas, como quando Álvaro Silvestre reflete sobre a morte:

…os outros regressam a casa e eu para ali fico, sufocado, sozinho, a morrer outra vez, porque via tudo isso como se as coisas se passassem e ele com consciência, como se ouvisse o rumor da noite em que o velavam o latim do padre Abel no cemitério, as pazadas de terra a cair no caixão, o fervilhar irreparável dos vermes.
 Atirou-se ao brandy para não gritar.

 Ou quando se dá de conta, finalmente, que na sua vida chegou a um beco sem saída:

Caminhou para a porta, oscilando tanto que parecia aluir a cada passo, e desatou aos gritos, sem ninguém saber se pedia ou protestava: Onde é que há brandy nesta casa? Onde é que há brandy nesta casa?

 É a estes momentos de prolongamento da ação, em que tudo parece parado no tempo, que chamamos catálises, onde há ao mesmo tempo uma caracterização social e psicológica.

 Pelo contrário, há todo um conjunto de seqüências onde impera o movimento, isto é, a dinâmica dos acontecimentos. Observando atentamente esta extensa parte de Uma abelha na Chuva, podemos verificar que elas constituem unidades estruturais bem equilibradas, uma vez que a sua extensão é relativamente idêntica; vejamos então que as três etapas que determinam a constituição da ação secundária se encontram distribuídas de forma harmoniosa, como se pode ver nos capítulos XVII – XX (correspondem aos indícios), nos capítulos XXI – XVI (correspondem as conseqüências).

 Na ação desta obra podemos também analisar o sentido genérico que as seqüências manifestam, sendo este sentido o da violência, revelado, contudo, de forma variadas. É assim que, em várias seqüências, essa violência se revela eminentemente física: a “agressão” de que são objeto os quadros da família Alva por parte de Álvaro Silvestre (Cap. XIII), tendo uma dimensão simbólica, não deixa de pertencer a mesma linha que o assassinato de Jacinto ou o suicídio de Clara, assumindo sempre essa violência o sinal do deflagrar de irreprimíveis conflitos de raiz psicológica e social. Por outro lado, há outras sequências que se integram também, embora de forma indireta, em situações violentas, como é o caso da seqüência inicial em que a aversão contida nos sentimentos dos protagonistas “estala” no estranho diálogo entre ambos e o diretor do jornal.

O jornalista aproveitou para mudar de conversa:
 — Forte aguaceiro. Estala.
 Álvaro Silvestre anuiu logo:
 — Boa bátega, sim senhor.
 Só ela preferiu continuar a bater no mesmo prego:
 — A boa bátega que te podia ter apanhado no caminho. Já pensaste nisso?
 Fechou os olhos de puro desalento: cala-te, Maria, cala-te.

 Podemos compreender finalmente que a violência de sentimentos entre o casal é transferida para a chuvarada que se abate sobre Corgos, do mesmo modo que, no capítulo VI, quando D. Maria dos Prazeres chicoteia a égua, esta não é o seu verdadeiro destinatário, mas o marido, que cochila a seu lado. Essa mesma violência revolve-se no interior dos protagonistas, sem se revelar exteriormente, quando Silvestre surpreende o diálogo entre Jacinto e Clara ou quando é atormentado pelo sentimento de culpa que resulta da denúncia feita ao pai da rapariga.

Personagens

 Certas personagens de Uma abelha na chuva parecem ter sido inspiradas por pequenos fidalgos, padres, sacristães, beatas, lavradores, barbeiros, camponeses, criados, cegos, em que não é difícil reconhecer traços de Maria dos Prazeres, Padre Abel, do sacristão Antunes, do lavrador Álvaro Silvestre, do cocheiro Jacinto e de mestre António, o santeiro cego, entre outros.

 Na tensa atmosfera do romance, predominam as relações de opressão que muitas vezes se manifestam através dos “expedientes, espertezas, graças, truculências” de que o ser humano lança mão a fim de garantir seu domínio sobre os demais: “A alma humana posta a nu e meio mundo a enganar o outro meio”, como observou o autor, Carlos de Oliveira.

Personagens da ação principal

D. Maria dos Prazeres

 Álvaro Silvestre

 Dr. Neto

 D. Violante

 Nesta ação destaca-se as relações de antagonismos entre D. Maria dos Prazeres e Álvaro Silvestre, enquadradas pelos dois pares de personagens que com estas coexistem: Dr. Neto e D. Violante.

 O Dr. Neto é apresentado pelo narrador, caracterizando-o de modo direto, isto é, dando sobre ele informações mesmo antes de ele aparecer (cap. IX). Ficamos sabendo então que o Dr. Neto “amava a realidade e só daí é que partia para as abstrações”; era um observador materialista, até para explicar a sua atitude virtualmente amorosa em relação à D. Cláudia, de que afirmava: “Sou um heredo-sifilítico; a D. Cláudia, uma constituição linfática, fragilíssima; pois bem, casamo-nos, e depois que filhos deitaremos ao mundo?”.

 Mas o Dr. Neto não se fixava apenas no concreto. De acordo com a tradicional e universal leitura simbólica dos povos, o médico via no mel o simbolismo da perfeição suprema, o símbolo daquilo que a vida pode produzir de belo e saboroso. Mas ele não é só o apaixonado pelas abelhas e o seu trabalho, é também médico “atascado até ao pescoço na vida de Montouro”, o agricultor que “sabia bem o que custava uma espiga de milho, aos homens e à terra”. Esta é, incontestavelmente, uma descrição de personagem na linha neo-realista: o narrador que tudo sabe informa sobre a dureza do trabalho da terra, do trabalho da própria terra no seu processo de germinação e o trabalho intenso das abelhas na fabricação do mel. Embora no romance não se fale das relações de trabalho numa análise um pouco mais profunda, essas relações são nítidas quando colocamos a obra no tempo da sua produção (1953), fazendo-a assim desempenhar uma função social que não deixou, na época, de despertar a censura política.

 Quanto a D. Claudia, pouco há a dizer que o narrador não tenha dito já:

Pálida e medrosa… a D. Cláudia temia a natureza, a chuva, o sol, o mar, o vento, ignorava as flores… E a própria vida humana, as relações sociais, os pequenos equívocos da convivência, as conversas mais acaloradas assustavam-na.

 Pode-se dizer que ela pedia desculpa à vida por estar viva e tudo nela era fantasia e irrealidade. Por isso, “ia protelando o casamento e o Dr. Neto concordava”. Também as relações entre o padre Abel e D. Violante se traduziam em termos de incompatibilidade não evidente. No aspecto físico, como se fosse um indício de algo que não pretende ser conhecido, estes “dois irmãos” não têm qualquer semelhança, como nos diz o narrador no capítulo VII.

A criada abriu a porta que dava para o pátio por uma escadaria lateral de pedra e a D. Violante e o padre Abel entraram. Parecidos como um ovo com um aspecto. Sempre os via juntos, ela maciça e baixa, o padre esgrouviado, D. Maria dos Prazeres tinha um sorriso de dúvida: realmente… ninguém dirá que são irmãos.

 Para além da diferença física, também temos que levar em conta o murmurar da sociedade em que estas personagens se inserem e que sobre elas exerce a suspeita de que vivem em como amantes:

As beatas de Montouro garantiam… e embora lhe tivessem perdoado a ele há muito, reservavam ainda a D. Violante um ódio velho… chamavam-lhe a irmã do padre, num sublinhar irônico do parentesco que deixava em aberto as suposições mais escabrosas.

 Vemos então que é real o antagonismo interpretado pelos dois pares que envolvem Álvaro Silvestre e D. Maria dos Prazeres, embora ele se expresse apenas em termos estáticos, uma vez que surge formulado quase sempre de modo descritivo, revelado apenas como enquadramento dos conflitos vividos pelos protagonistas, a estas personagens não pode caber obviamente uma função tão atuante como a que é própria do casal Álvaro Silvestre e D. Maria dos Prazeres:

…hei-de aturar-te até ao fim da vida, até que Deus me leve deste inferno que é a tua casa. Tenho nojo de ti, nojo, entendeste bem?

 “Até ao fim da vida” é uma eternidade, a eternidade do tempo quando a vida transporta essa marca indelével de inferno que é o casamento para uma católica como Maria dos Prazeres, efetivamente, a casa de Álvaro é o inferno, ao contrário de uma verdadeira casa, tranqüilizadora, protetora, local de refúgio, reconfortante, nada que se assemelhe à descrição do inferno.

 O espaço onde vivem estes dois seres não tem qualquer semelhança com uma casa. Sabemos bem por meio da analepse que surge logo no início, numa gradação sugestiva, o processo interior em que ela recorda a entrada no inferno da casa de Álvaro Silvestre:

Primeiro. A fonte brotou ténuamente, muito ao longe, na infância, depois, a agua mansa turvou-se ao longo do caminho, do tempo, com o lixo que lhe forma atirando das margens, agora é cachoante, escura, desesperada.

 Nesse recordar, os bens da família Alva foram “levados pela voragem”. Para a personagem contam somente os fatos que a afetam; o que subjaz ou simplesmente ultrapassa os fatos não lhe interessa. É aí que o narrador assume um papel atuante, tentando veicular idéias, à maneira neo-realista. Por isso, ao longo do tempo, a transformação realizou-se: uma classe deu lugar a outra e a sua compatibilização é impossível. A luta, no casal Silvestre, mantém-se, a nível pessoal e social: é a luta entre a aristocracia e a burguesia.

 Para Maria dos Prazeres, o próprio calor físico é importante; mas também não tem mais esse calor físico e afetivo. Tem agora o quarto frio, o do inferno, da casa de Álvaro, pois que:

A casa, toda ela, gelava… No escritório do marido, na sala de jantar, fora possível conseguir um mínimo de aconchego.. No quarto não…

 Dr. Neto, o médico “conhecia bem o inferno que era a vida dos Silvestres. É visível esse inferno logo no primeiro serão, em que Álvaro Silvestre afundou-se nos almofadões da cadeira de verga, ao pé do lume. Tinha o brandy à mão” (cap. VIII).

 À medida que o tempo do serão vai passando, Álvaro bebe cada vez mais sob o olhar de desprezo da mulher “até ao brusco despejar do brandy na garganta”. Com a chegada o Dr. Neto (cap. X), revela-se outro aspecto do caráter de Álvaro, pela pena onisciente do narrador: “a morte é perder as terras, a loja, o dinheiro, para sempre; e apodrecer, devorado pelos vermes… atirou-se ao brandy para não gritar.” E até ao fim do romance a aguardente está presente como o próprio Silvestre, tornando-o cada vez mais alheio ao que o rodeia, mas, ao mesmo tempo, mortificado por todos os fantasmas que o habitam e o destroem. Por isso, é “uma concha de silêncio” (cap. III) perante a mulher, quando ela o apanha no escritório do jornal, prestes a acusá-la do roubo dos pinhais de Leopoldino; mas é também um obcecado quando (cap. XI), terminado o serão, “poisou o castiçal na secretária e… preparava-se para os dois problemas que tinha a resolver”: a construção de um jazigo que o impedisse de ficar solitário na terra e a desculpa que teria que dar ao irmão pela venda fraudulenta dos pinhais.

 No capítulo XXX, esse silêncio faz-se voz quando Maria dos Prazeres chega perto dele com um frasco de amoníaco ao nariz para o tirar do torpor em que o álcool o deixou. Irritaram-se, insultaram-se, tentando Álvaro subestimar a origem aristocrática da mulher. “Quem é que está bêbado, sua fidalga de trampa?… Muito Conde, muita léria, mas há vinte anos que me comes as sopas”, enquanto esta o reduz à categoria de cocheiro merecedor de levar chicotadas: “Os cocheiros conhecem-se bem pelas palavras.”

 Há momentos em que um relâmpago de luz desperta em Álvaro, quando perante o insulto da mulher, ele pensa: “Como é possível… Ela está a insultar-me, mas eu amo-a, apesar de tudo, amo-a tanto… que…” E, quanto a Maria, há momentos em que uns laivos de remorso parecem lamentar que tudo seja desta forma: “Nunca lhe estendi a mão para um pouco de compreensão recíproca” (cap. VIII).

 Afinal, que ódio terrível os une que não deixou vir á superfície um sentimento que poderia nunca os ter separado?

No consultório quando o último doente saiu, o Dr. Neto encostou-se á janela e enrolou o cigarro. Também ele tinha ajudado, anos e anos, aquela obra de pintar, repintar, a colmeia dos Silvestres, sem atender a que lá dentro o enxame apodrecia.

Personagens da ação secundária

Clara

 Jacinto

 Clara, filha de mestre Antônio, é uma jovem saudável, bonita, apaixonada por Jacinto, o cocheiro dos Silvestre, aquele que D. Maria dos Prazeres vê como “uma moeda de oiro, rebrilhando à luz do sol”.

 É num dos encontros entre ambos que se ficamos sabendo que a jovem espera um filho do namorado, que, no entanto, parece sinceramente apaixonado e quer casar com ela. Esse casamento também não é fácil realizar-se uma vez que o pai da moça vê na filha a sua única possibilidade de sair da miséria em que tem vivido, casando-a, (vendendo-a), a um lavrador abastado que a “compre” pela sua beleza.

 No cap. XV ficamos sabendo que Álvaro Silvestre ouve o diálogo entre os dois jovens e que, subitamente, um raio fere de morte os seus ouvidos: o nome de sua mulher é pronunciado com ironia e resquícios de ciúme, respectivamente por Jacinto, que refere o olhar cobiçoso com que a patroa o olha, e por Clara, que vê na “outra” uma potencial inimiga…

 Mas o jovem par, desconhecedor do que se passa fora do palheiro, continua suas promessas de amor, aprontando uma fuga que impeça as ameaças do velho pai e que, ao mesmo tempo, revela a força que o amor e otimismo pode imprimir em quem o sente.

 Os dois jovens representam, pois, a coragem de lutar por aquilo em que acreditam e a confiança total na sua capacidade de realização.

António

 Marcelo

 O capítulo XVIII é uma espécie de separação entre as personagens. É neste capítulo que Álvaro Silvestre, envolto no nevoeiro dos seus remorsos, dos seus fantasmas, das suas fraquezas, parece recobrar ainda forças para tentar libertar-se delas através de um sentimento finamente centralizado em alguém que está à sua mercê: a vingança.

 Não é a primeira vez que o assalta tal sentimento, que, contudo nunca é posto em prática pelo medo, medo quase irracional que sente de D. Maria dos Prazeres, contra quem não ousa frontalmente levantar-se, a não ser pontualmente, pela injúria do álcool.

 É possível ferir de morte a mulher, destruindo-lhe o encanto dos seus olhos: destruir Jacinto é um meio de dar algum sossego à sua alma, libertando de vez os demônios que o enlouquecem. O retrato do pai parece até acicatá-lo com o seu sorriso, meio irônico, meio repreensivo, e voltam à memória saturada do lavrador farrapos de conversas, sobras de bofetadas que o pai lhe dava para o fazer agir, lutar pela vida. Pois está decidido: “Concentrou no ruivo toda a força do seu pensamento… Nem mais, Álvaro Silvestre”.

 A partir do capítulo XVIII toda a tragédia se precipita rapidamente: pôs em prática o seu plano, pela primeira vez na vida com decisão, chamou o cego António, contou-lhe da “sangria desatada” pôs-lhe a “pulga atrás da orelha”, e a sua filha e o meu cocheiro estavam deitados na palha do curral onde vossemecê recolhe o gado.

 Agitando agora o velho Antônio, ensimesmado nos seus pensamentos, durante o dia, propondo sem quê nem porquê a filha ao seu ajudante Marcelo, a troca de ajuda num plano que o rapaz não entende, ainda… mas que, só de sonhar a recompensa, lhe parece milagre, sabendo como sabe quais os desejos do mestre em casar a filha com um lavrador abastado, Marcelo porém saberá o preço que terá de pagar para ter Clara e mesmo quando, num momento bem curto, pensa que “é uma sobra quase indistinta”, logo se decide porque “custa menos a ferir que um homem verdadeira à luz do dia”. Em última análise, o que toma verdadeiros significado no fim do capítulo XXIV é o diálogo:

E a rapariga? Ainda é minha?
 Arreia-lhe e veremos.
 […]
 Acertaste-lhe?
 Agora tem de ma dar.
 Acertaste-lhe ou não?
 Tem de ma dar, mestre António…

 Aqui pode notar-se a insistência, preocupada de Marcelo que revela um objetivo bem definido dos dois homens, levando-os no entanto a caminhos diferentes. O capítulo XXV é terrível, pela sua condensação: terminado o crime, quando Marcelo julga alcançar a mulher amada, mestre Antônio, embora sem mais explicações, diz uma frase lapidar: “Julgo que a perdeste.” (será que o velho tem a percepção do destino imediato da filha, face à tragédia que acaba de cair sobre ela?…)

O povo de Montouro

 Este povo, com o regedor à frente “como demônios irritados”, revela a exaltação, “vozes desmedidas embatiam nas paredes”. Perante esta nova situação, a fragilidade de Álvaro Silvestre revela-se em toda a sua natureza: apavorado, descontrolado, vê-se confrontado com a cólera popular em quem ele vê o carrasco do seu crime: a denúncia a mestre Antônio. E, uma vez mais, Maria dos Prazeres se agiganta na sua inquebrantável altivez, falando tão duramente à população que esta se acovarda e vai saindo, aos poucos, “às golfadas” (cap. XXX). Os capítulos finais dão-nos conta da ação secundária no seu fechamento (assassínio de Jacinto e suicídio de Clara) e da ação principal na sua continuidade: tudo vai servir para perseguir alguns dos populares como o regedor “uma autoridade que permite tais desmandos não é autoridade não é nada” e Antunes “…e o sangue do Antunes é ruim” e considerar o povo como um atentado permanente ao bem-estar da “gente de bem”, à moral, à família… consignado na frase “Mancebia, arruaças, assassínio” proferida por uma das personagens das relações de Maria dos Prazeres. A conversa retoma os aspectos habituais, como se tudo se cumprisse num círculo, e a apatia de Álvaro Silvestre é, de súbito, perturbada pela revolta que se vaza no desejo louco de beber; “onde é que há brandy nesta casa? Onde é que há brandy nesta casa?” (cap. XXXIV).

 Só o Dr. Neto se sensibiliza perante a sorte de Clara, que salvara em pequena e que agora nada pode impedir da desdita total. E quando, perante a afogada, reconhece a sua impotência perante a injustiça dos homens e de Deus, não é capaz de desistir, “mas continuou até o suor lhe correr pela cara. E as lágrimas também, apesar da sua velha convivência com a morte”.

Fonte:

Texto parcial proveniente de apontamentos do Prof. António Melo
http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/analises_completas/u/uma_abelha_na_chuva

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Monteiro Lobato (Reinações de Narizinho) Cara De Coruja – IX – A partida

O relógio bateu seis horas.

— Como é tarde! — exclamou Branca de Neve. — Tenho de estar no castelo às sete para receber dois príncipes que vêm jantar conosco.

— E nós também — disseram Rosa Vermelha e Rosa Branca. — Temos à noite a visita do Pássaro Azul.

Cinderela também tinha de retirar-se, de modo que foi um rodopio de abraços e beijos e palavras de despedidas — tudo num grande atropelo.

— Adeus! adeus! — dizia Narizinho, passando dos braços de uma princesa para os de outra. — Voltem outra vez, agora que sabem o caminho…

Pedrinho, que havia cochichado muita coisa para Peter Pan, despediu-se dele dizendo:

— Quando voltar, veja se traz o crocodilo que comeu o capitão Gancho. Tenho muita vontade de ver um crocodilo dessa espécie.

A Aladim lembrou o desafio:

— Venha com a sua lâmpada. e areie bem ela, ouviu?

Emília andava de mãos em mãos. Nunca foi tão beijada e mimada. Quando chegou o momento de despedir-se do Pequeno Polegar, cochichou-lhe ao ouvido uma porção de coisas sobre dona Carocha e aconselhou-o a fugir novamente e vir morar com eles ali no sítio.

Depois que todos partiram, a casa ficou mais vazia do que nunca. Na sala, só os dois meninos e a boneca. No terreiro, só a mocha mascando as suas palhas e Rabicó acabando de comer a sua raiz de mandioca.

Os dois meninos trocavam impressões.

— De quem mais gostei foi de Branca de Neve – disse Narizinho. — Como é boa e linda! Contei-lhe que estive com a aranha que lhe fez o vestido de casamento Branca ficou muito admirada. Pensou que dona Aranha tivesse morrido daquele desastre na perna. Como Branca é branca! Nunca imaginei que pudesse haver uma criatura alva assim. Parece feita de coco ralado…

— E eu gostei muito do Gato de Botas — disse Pedrinho. – Já Aladim me pareceu um tanto prosa. Pensa que aquela lâmpada é a maior coisa do mundo.

Nisto Emília, que havia rolado para debaixo da mesa deu um grito de espanto.

— Olhem o que está aqui! A lâmpada de Aladim! Com a pressa, ele esqueceu-se de levá-la.. .

— É verdade! — exclamou Pedrinho no auge da alegria.

— Esqueceu-se e agora a lâmpada é minha!…

— E está aqui também a varinha de condão de Cinderela! — berrou de novo Emília mostrando o precioso talismã. Com a pressa, ela esqueceu-se da vara e a vara é minha. Vou brincar de virar o dia inteiro.

— E olhem o que está aqui atrás do armário! — gritou por sua vez Narizinho. — As botas de sete léguas do Gato de Botas. São minhas — e quero ver quem me pega!…

Ficaram todos três no maior contentamento, a mirar e remirar aquelas maravilhas e a fazer projetos de aventuras ainda mais extraordinárias que as que os livros contam. No melhor do enlevo, porém, ouviram uma batidinha trêmula na porta, tuc, tuc, tuc…

Emília foi abrir. Era uma baratinha de mantilha — a célebre dona Carocha…

— Que é que a senhora deseja? — indagou Emília.

— Boa tarde! — disse a velha, fingindo não reconhecer a boneca e sentando-se para descansar. — Sou dona Carocha, a que toma conta de todos esses personagens do mundo maravilhoso.

— Já sei — observou a menina, de mãos na cintura e prevendo complicações. — Mas que é que a senhora quer?

— Vim buscar a lâmpada de Aladim, a vara de condão de Cinderela e as botas do Gato de Botas. Esses maluquinhos, com a pressa de voltar, esqueceram-se desses objetos.

Foi um desapontamento geral. Emília quis mentir, dizendo que não havia ali nem bota, nem vara, nem lâmpada nenhuma. Narizinho teve ímpetos de morder a velha. Pedrinho chegou a olhar para o bodoque. Mas dona Benta estava na salinha próxima; e dona Benta fazia muita questão de que seus netos respeitassem os mais velhos.Por isso resignaram-se a entregar aquelas preciosidades.

— Pois leve — disse Narizinho, contendo-se a custo. — Mas fique sabendo que o que lhe vale é vovó estar ali na salinha. Ah, se não fosse isso…

Dona Carochinha nada disse. Foi tratando de pegar a vara, a lâmpada, as botas e até o espelho mágico que Branca de Neve dera à boneca. Em seguida raspou-se, ressabiadamente.

Mas antes que ela chegasse à porteira Emília explodiu:

— Cara de coruja seca! Cara de jacarepaguá cozinhada com morcego e misturada com farinha de bicho cabeludo, ahn!… e botou lhe uma língua tão comprida que dona Carochinha foi arregaçando a saia e apressando o passo…
–––––––
Continua… I – O Irmão de Pinóquio

Fonte:
LOBATO, Monteiro. Reinações de Narizinho. Col. O Sítio do Picapau Amarelo vol. I. Digitalização e Revisão: Arlindo_Sa

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas de Ano Novo n. 437)

 – Uma Trova Nacional  –

Vem chegando mais um ano
e com ele uma esperança:
Planeta sem nenhum dano,
nem maus-tratos co’a criança!
–ESTER FIGUEIREDO/RJ–

 – Uma Trova Potiguar  –

Ano Novo, vida nova
eis o que mais eu queria:
a cada dia uma trova
e um soneto todo dia!
–FRANCISCO MACEDO/RN–

 – Uma Trova de Ademar  –

Eu vou pedir para o povo
em preces e em orações;
muita paz neste Ano Novo…
Muito amor nos corações!
–ADEMAR MACEDO–

 – …E Suas Trovas Ficaram  –

Ano Novo, nova vida
e muita poesia nova,
desejo a elite que lida
na lapidação da Trova!
–CLARINDO BATISTA/RN–

 – Simplesmente Poesia  –

Agora
–ELIANA JIMENEZ/SC–

Agora posso respirar
e sorrir
e jantar.
Agora posso ir
pra um lugar
divagar.
Agora posso ver
o meu eu
renascer.
Agora posso parar
de sonhar
e lutar.
Agora estou livre
para ser
e vencer.
Agora estou bem
para o ano
que vem.

 – Estrofe do Dia  –

A vocês caros poetas
desejo nesta poesia,
muito dinheiro no bolso
saúde, paz e harmonia;
pra você e pro seu povo
eu desejo um ano novo
cheio de paz e alegria…
–JOSÉ ACACI/RN–

 – Soneto do Dia  –

Balanço
 –DARLY O. BARROS/SP–

Outro ano finda! É tempo de balanço,
de contabilizar o acumulado
de erros e acertos – para tanto, os lanço,
dispondo-os em colunas, lado a lado.

Sobre o montante, então, o olhar relanço,
para exultar , ao ver  que o resultado
atesta um expressivo e claro avanço,
em relação a acertos do passado.

“Não há estratégia alguma!”, diz meu peito,
é a resultante do que eu tenho feito
de tempos para cá: reaplicar

os dividendos de um investimento
que me garante mais que cem por cento
sobre o meu patrimônio: o verbo amar…

Fonte:
Textos enviados pelo Autor

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Evelyn Heine (Poesias Divertidas para Crianças )

DOENCITE

Às vezes a gente acorda
Achando tudo errado:
Nariz tapado,
Olho embaçado,
Braço cruzado.

Tontura, enxaqueca…
Tem nhaca de todo lado.
Quem será que me botou
Todo esse mau-olhado?
Dorzinha esquisita,
Será que é sério?
Ai, corpo humano…
Quanto mistério!
Depois, tudo passa!
Vai como veio!
E até acho graça
De tanto receio!

ÁGUA DOCE, DOCE ÁGUA

De mar é feita a terra,
De água é feita a gente.
Abaixo o desperdício!
Poupar água: coisa urgente!

Clara, doce ou gelada,
Verde, azul ou transparente,
Sem a água não há nada.
Nem floresta, nem semente.

Água doce mata a sede,
Água doce é a que lava.
Cachoeira, rio ou fonte…
Só não pode ser salgada.

Tanto bate até que fura,
Diz ditado popular…
Cuida dela! Você jura?
Vamos economizar!

BI, BI, FON, FON!

Carro cachorro louco
Late, buzina, avança!
Um rosnando para o outro
Feito briga de criança.
Pra que isso, minha gente?
Paz é mais inteligente!

Na estrada ou na rua 
O caminho vai e volta. 
Passa a vida das pessoas, 
Passa o sol, passa a paisagem. 
Passam carros coloridos, 
O destino na bagagem. 
“Quem fica parado é poste”, 
Como diz José Simão. 
Para o trânsito dar certo, 
Tem a sinalização. 

Eu vou, tu vais, ele vai.
Nós vamos, vós ides, eles vão.
Cada um tem seu caminho,
Mas não vale contramão!

Se eu pego a contramão,
Passo no sinal fechado,
Está feita a confusão.
É encrenca pro meu lado.

Vai falar no celular, 
Ou mudar de estação? 
Então é melhor parar! 
Dirigir pede atenção. 

Pra que serve tanta placa?
Tem até uma com vaca.
Menino, montanha, “E” com “X”…
Tem flechinha pra cá e pra lá…
Eu pergunto e meu pai diz:
“Serve para organizar”.

MÃE… A MINHA É DIFERENTE!

Dizem que mãe é tudo igual.
Só muda o endereço.
Mas a minha é mais legal,
A melhor que eu conheço.

Minha mãe é diferente,
Com sotaque engraçado.
Ela faz tudo ao mesmo tempo,
Deixa o tempo até cansado.

Conversa com todo mundo de uma vez,
Faz pergunta e nem ouve a resposta.
Você fala, ela já está longe,
Mas é assim que a gente gosta.

Do seu jeitinho, nos conquistou
A todos os filhos, genros e netos.
Um favor nunca negou.
Dá conselhos sempre espertos.

Sua mãe também deve ser única, sem igual.
Aposto que é especial!
Porque mãe é feita de encomenda pra gente,
Só o amor é que é igual.

OLHA A CARETA!

Amanda era uma menina bonitinha.
Cheia de sardinha. Cabelo de trancinha.
Tão engraçadinha!
Mas foto dela, não tinha.
Na hora de tirar fotografia, só fazia estripulia.
Não ria.
Nem sorria.
Sabe o que é que aparecia?
Só careta! De todo jeito… Nariz torto, boca torta, só folia.
A cara mesmo, ninguém via.
O pai pedia:
– Risadinha, minha filha!
Aí ela estufava as bochechas o mais que podia. Ficava com cara de melancia.
A mãe dizia:
– Faz “X”, filhinha!
Mas não fazia. Nem pra vovó, nem pra titia.
“Ninguém me manda”, sacudia Amanda.
Mas um dia, um belo dia, a danadinha arranjou um namorado. E ele pediu uma foto. Pra guardar na carteira, com os adesivos de estimação, um chiclete e duas moedas.
– Xi… não tenho. – disse Amanda, desenxabida.
– Ora, então tira. – pediu o namorado.
– Não posso. – tristinha, disse ela…
– …Agora estou banguela!

QUER BRINCAR?

Alegria de criança
É tão fácil, tão gostosa!
Qualquer sonho se alcança.
E a vida é cor-de-rosa.

O brinquedo ou a caixa,
Tudo serve pra brincar.
Tudo sempre se encaixa
Nesta fase de inventar.

Pega-pega, esconde-esconde, mau-mau…
Gato mia, polícia e ladrão…
Brincadeira mais legal
Vem da imaginação.

Você brinca o dia todo
E com tudo que aparece.
Se adulto é quem brinca,
Dizem dele: “Este não cresce!”

Mas criança se diverte
De um jeito diferente.
Ela leva mais a sério
A missão de ser contente.

Qualquer coisa nessa vida
Pode virar brincadeira.
Chuva, rio, nuvem surgida…
Qualquer coisa que se queira.

Quando você for grande
Continue a diversão.
Com bola, pintura ou casinha…
Existe uma profissão!

Até mesmo com palavras
A gente pode brincar.
Está vendo esta poesia?
                     Eu brinco é de rimar!

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António Botto (Política)

     Dizem que as lebres dormem com os olhos abertos. Não sei se é verdade, nem para o caso isso tem importância de maior. O que é certo é que esta lebre de que vou falar, dormia uma tarde, à beira de um rio, quando as águas a atingiram rodeando-a lentamente… Espavorida, debateu-se entre o lodo e a água, mas, por mais esforços que fizesse, não pôde libertar– se daquela inesperada ameaça mortal. E ficou-se quase morta estendida, inerente, mal podendo respirar. Valeu-lhe o vento ter mudado e as águas tomarem novo curso…

     Nisto, uma rã muito verdinha, vai ter com ela, sorrateira, e faz este comentário:

     – Que parva!, que grande parva! Nadava, e era tão simples!

     A lebre não estava morta. Com o sol, com o ar, tomou alento e ergueu-se até que chegou à sua toca. E desde então tomou tamanho susto pela água, que quando via uma gota de orvalho a faiscar nas relvas ou no arvoredo, ficava nervosa, perturbada, e já não sabia o que havia de fazer. Às vezes, recordava o palavreado da rã ouvido como um sonho e desejava encontrá-la para lhe contar duas tesas.

     E, se bem o desejou, melhor o conseguiu. A pobre rã apareceu-lhe na curva de um caminho a coxear e a gemer.

     – O que foi isso?, perguntou a lebre.

     – Ai, menina, deixe-me cá. Um cão, um maldito cão que encontrei à pouco, atirou-se a esta minha perna que por um triz não se partiu… Mas, repare: não posso andar… Ai, a minha rica perninha; ai que dor, não posso andar! E se o dono do cão não se opõe, era uma vez uma rã…

     – Idiota, grandessíssima idiota!, responde a lebre, desdenhosa: Se o remédio era tão simples, tão simples, tão natural: Correr, deitar a correr! Sim, correr e nada mais!

     Assim disse a lebre que não sabia nadar à rã que não sabia correr. Uma e outra se julgaram como, em geral, na vida, sempre sucede: cada qual pensando em si só por si avalia o que aos outros acontece.

Fonte:
Os Contos de Antonio Botto. RJ: Livraria Bertrand.

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A. A. de Assis (Lançamento da Revista Virtual de Trovas, n. 145, janeiro de 2012)

INESQUECÍVEIS

Eu vi o rio chorando
quando te foste banhar,
por não poder, te banhando,
dar-te um abraço e ficar…
ADELMAR TAVARES

A vida o tempo devora;
o próprio tempo não dura.
Colhe a alegria de agora,
para a saudade futura!
HELENA KOLODY

Eu… você… as confidências…
o amor que intenso cresceu…
e o resto são reticências
que a própria vida escreveu…
LUIZ OTÁVIO

Meu coração, vacilante,
ressoa em cada batida.
– Igual a um tambor distante
marcando o passo da vida.
NEWTON MEYER

Não tenho calma!… Não posso
esquecer tão de repente,
o grande amor que foi nosso
e hoje em dia é meu somente…
NYDIA IAGGI MARTINS

Meu amor, que mau pedaço
eu passo quando demoras…
Meu coração perde o passo,
atrás do passo das horas!…
WALDIR NEVES

Tornar-se um trovador conhecido não é difícil. Mas você
precisa ajudar, pelo menos divulgando as suas trovas.

BRINCANTES

Qualquer vivente se esbarra
nesta evidência que aterra:
– é no balanço da farra
que o bom farrista se ferra!
ANTÔNIO JURACI SIQUEIRA – PA

Por ironia, um defeito
a manicure consome:
não consegue dar um jeito
no marido “unha-de-fome”!
ARLINDO TADEU HAGEN – MG

Pergunta a mestra ao menino,
aluno meio confuso:
– A porca… tem masculino?
– Tem, fessora… o parafuso!
EDMAR JAPIASSÚ MAIA – RJ

– Perdão! Perdi a cabeça…
E a esposa assim retrucou:
– Tudo bem, não se aborreça…
Azar é de quem a achou!
JOSÉ FABIANO – MG

– Carro velho, meu amor,
dá trabalho: além de feio,
no morro, falta motor;
na ladeira… falta freio!
JOSÉ OUVERNEY – SP

Quando a mulher não sacia
sua “fome de leão”,
come na sogra  ou na tia…
boas de forno e fogão!
Mª MADALENA FERREIRA – RJ

Foi à loucura a torcida
porque a mulher do goleiro,
em gandula convertida,
dava bola ao time inteiro…
NEWTON VIEIRA – MG

Com a internet, hoje em dia,
até o maestro desanda.
A banda-larga o inebria,
vicia, e ele larga a banda…
OSVALDO REIS – PR

LÍRICAS E FILOSÓFICAS

Quanto mais rápido passa
o tempo a mim concedido,
mais grato eu sou pela graça
de cada instante vivido!
A. A. DE ASSIS – PR

Deus, demonstrando poder,
quando a mulher engravida,
transforma a dor em prazer,
na celebração da vida!
ADEMAR MACEDO – RN

Cada momento vivido
na vida que se renova,
às vezes é definido
apenas em uma trova!
ALBERTO PACO – PR

Enquanto a vida se enfeita
com sorrisos e saudades,
vou preparando a colheita
das lembranças e saudades.
ALICE BRANDÃO – RS

Quando vejo uma casinha
sem nenhum luxo e de chão,
lembro a criança que eu tinha
dentro do meu coração…
AMILTON MACIEL – SP

Delírio é lira do poeta,
a rima do trovador.
É liturgia completa,
quer na alegria ou na dor.
ANDRÉA MOTTA – PR

As promessas que fizeste
nem a lua abençoou.
Tudo não passou de um teste,
pois você nunca me amou.
ÂNGELA STEFANELLI – RJ

As saudades não têm fim,
a luz do sol se apagou…
Secou a flor do jardim,
o trem da vida passou.
ARI SANTOS DE CAMPOS – SC

Do PhD ao leitor mais simples, todos
entendem a trova. E gostam dela… muito.

No trem da felicidade
vamos todos embarcar.
Aceita qualquer idade…
Nunca pare de sonhar!
ARLENE LIMA – PR

Estar perto, mas distante;
amar sem poder “amar”…
Em que trama torturante
fomos nós nos enfiar!
BRUNO PEDINA TORRES – RJ

Ante o talento me ajoelho…
E o teu talento invulgar,
tanto me serve de espelho
como me serve de altar.
CLÁUDIO DE CÁPUA – SP

Penso que assim como os trilhos
levam e trazem o trem,
o pai conduz os seus filhos
pelo caminho do bem.
CLÊNIO BORGES – RS

No dejes pasar la vida
sin flores en tu enramada,
ni lo que Dios te convida
de una bella madrugada.
CRISTINA CHÁVEZ – MÉXICO

Um coração que se isola
cava a própria solidão
e não há melhor escola
que o convívio com o irmão.
DÁGUIMA DE OLIVEIRA – MG

Espero que sempre a lua,
apesar da timidez,
se nos mostre toda nua,
toda nua, a cada vez.
DIAMANTINO FERREIRA – RJ

Foi capricho ou devaneio,
quando eu lhe disse: “Não sei”!
Orgulhoso – ele não veio;
caprichosa – eu não voltei!
DILVA DE MORAES – RJ

Dizemos que o tempo voa,
e enquanto filosofamos,
ele vive aí… à toa,
e somos nós que voamos!
DOROTHY J. MORETTI – SP

Não te rendas nunca à dor,
se o teu bem tem rumo incerto,
pois, muitas vezes, no amor,
esse longe é muito perto!
EDUARDO A. O. TOLEDO – MG

Vivo sempre a divagar,
no silêncio em que me abrigo:
– Ah que bom poder voltar,
e estar outra vez contigo!
ELIANA JIMENEZ – SC

Somos, sim, irmãos de fé,
e a música tem provado:
no riso, samba no pé;
no choro, a emoção do fado!
ELIANA PALMA – PR

A noite passa e o luar
permanece em mim, refém,
quando a Lua vem brilhar
no doce olhar do meu bem
ELISABETH SOUZA CRUZ – RJ

Moisés caminhou, por certo,
da forma que Deus queria.
É fácil andar  no deserto
tendo-se Deus como guia.
EVANDO MARINHO SALIM – RJ

Mar e terra acasalados,
na sacrossanta medida,
fazem sal, sêmen sagrado,
para dar sabor à vida.
FRANCISCO MACEDO – RN

Meu verso é meu companheiro
no cenário da ilusão
e o universo, imenso, inteiro,
se torna pequeno então!
GISLAINE CANALES – SC

Milhares de pessoas ouvem e leem as nossas
trovas: que bem enorme lhes fazemos nós!

Batem-me à porta, são muitas,
e fico a me questionar:
por que visitas fortuitas
se já nem sei mais amar?
HUMBERTO DEL MAESTRO – ES

Se o amor não pode conter-se,
entre nós, não há receios.
Gosto de vê-lo perder-se
na doçura dos meus seios.
IEDA LIMA – RN

Pior que não ver estrelas
sobre os caminhos que eu trilho
é olhar para o céu e vê-las,
mas não enxergar seu brilho…
IZO GOLDMAN – SP

Diz-me esta ruga esculpida,
entalhe que o tempo fez,
que a primavera da vida
só nos floresce uma vez.
JAIME PINA DA SILVEIRA – SP

Voltei. Cabisbaixa eu vinha,
com o orgulho lá no chão…
Melhor do que estar sozinha
e coberta de razão!
JEANETTE DE CNOP – PR

Na clausura da existência,
das prisões que nos impomos,
um devaneio é a essência
do que pensamos que somos!
J. B. XAVIER – SP

Para iludir solidão,
cantando falsos enredos,
abraço o meu violão
passando as dores aos dedos.
JOÃO B. X. OLIVEIRA – SP

Vivo em busca de carinho,
em castelos de ilusão…
Tanto tempo estou sozinho,
quem me aquece é a solidão.
JOSÉ FELDMAN – PR

Dos tempos imemoriais
ficou-nos uma certeza:
lágrimas limpam os ais,
o riso toda a tristeza.
JOSÉ MARINS – PR

Não culpe, nunca, o destino
pelas quedas e fracassos.
Não se censura um menino
que cai nos primeiros passos!
LISETE JOHNSON – RS

Quando o ocaso traz tristeza,
meu refúgio mais frequente
é espalhar fotos na mesa:
ver o passado… presente!
LUCÍLIA DECARLI – PR

Passa o tempo num instante
e dele jamais se esquece,
pois fica sempre o importante:
o velho amor permanece.
LUIZ CARLOS ABRITTA – MG

Se eu me for antes de ti…
levarei, dos nossos traços,
cada noite que vivi
na cortina… dos teus braços.
MARA MELINNI GARCIA – RN

Quando a noite vai embora,
a aurora vem, de mansinho,
despertando fauna e flora
na mata e no ribeirinho.
MARCOS MEDEIROS – RN

Ruínas… sonhos contidos
no penoso caminhar…
Passos trôpegos, sofridos,
à noite esperam sonhar.
Mª DA CONCEIÇÃO FAGUNDES – PR

O teu carinho constante
é  musica a me embalar
encantando o meu instante
e me fazendo te amar.
Mª LUIZA WALENDOWSKY – SC

Na tribo dos trovadores, entre irmãos te sentirás.
Quanto mais fraterno fores, melhor trovador serás! (aaa)

Se de novo o amor palpita,
o velho se faz criança…
E como a vida é bonita
no retorno da esperança!
Mª THEREZA CAVALHEIRO – SP

Contemplar o mar infindo,
entender sua poesia,
ver o sol se despedindo,
é sentir paz e alegria.
MARINA VALENTE – SP

Meu amor da mocidade
foi efêmera ilusão;
dele só resta a saudade,
nas cinzas de uma paixão.
MAURÍCIO FRIEDRICH – PR

A fé que você procura,
às vezes sem solução,
encontrará na ternura
que existe no coração.
NEIVA FERNANDES – RJ

Os teus olhos patrocinam
pensamentos variados;
todos aqueles que animam
os sonhos dos namorados.
NÍLTON MANOEL – SP

Quanto sonho não vivido
do jeito que foi sonhado!
Mas tudo tem mais sentido
quando, enfim, é conquistado.
OLGA AGULHON – PR

Nada recebe quem nega
dar amor ou coisa assim;
só colhe flores quem rega
dia e noite o seu jardim.
OLYMPIO COUTINHO – MG

Ao te encontrar, velha agenda,
lá no fundo da gaveta,
meu passado se desvenda:
és a minha “caixa preta”.
RENATO ALVES – RJ

Sou rio, minha querida,
correndo para o seu mar,
para adoçar sua vida
com pena de me salgar.
ROBERTO ACRUCHE – RJ

Minha infância – que linguagem!
Se no céu relampejava,
eu sentia, nessa imagem,
que Deus me fotografava!
ROZA DE OLIVEIRA – PR

“Os lírios do Campo olhai”,
diz a Sagrada Escritura.
Feliz aquele que cai,
mas mantém a mente pura.
ROSE MARY ASSUMPÇÃO – PR

No refúgio desmanchamos,
quando ficamos a sós,
esses nós que carregamos
no fundo de todos nós!
SELMA PATTI SPINELLI – SP

Brincando, na meninice,
uma árvore plantei…
Na solidão da velhice,
à sua sombra eu chorei…
THEREZINHA BRISOLLA – SP

Na vida eu prefiro o jogo,
não de azar, de sedução…
e, em vez de cartas, o fogo
que incendeia uma paixão.
VANDA ALVES DA SILVA – PR

Numa riqueza sem fim,
nasce a força da bondade,
como as flores do jardim
na sua simplicidade!
VIDAL IDONY STOCKLER – PR

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João Paulo Parisio (A Lua)

A Lua é uma lâmina fina, um pêndulo oblíquo imobilizado no céu, flutuando sem algum cordão que a sustente. Imagina como seria se a Lua começasse a balançar no céu, para lá e para cá, e gerasse uma brisa que lentamente empurrasse as estrelas para as bordas do firmamento. E se a Lua, como uma lâmina mesmo, balançando para lá e para cá no Abismo, começasse a descer na direção da Terra, mais e mais próxima a cada movimento inexorável, até que devastasse cidades e searas, derrubasse palácios e montanhas, abrisse na face do planeta um talho comprido que fosse aprofundando a cada nova passagem até que através dele se pudesse ver o espaço, através do qual a Terra sangraria todo o seu ar e por onde entraria o Vazio como bolhas de ar na corrente sangüínea. A Terra ficaria murcha, morreria exangue. Certamente o cadáver da Terra se soltaria da velha rota e partiria numa viagem desgovernada, como uma folha seca que cai no rio e é levada pela correnteza. No percurso a Terra poderia cair na direção de alguma Estrela e se consumir em seu calor, ou desaparecer para sempre no mistério de um Buraco Negro, ou escapar cegamente de todos os obstáculos, todas as pedras e redemoinhos, e chegar ao fim do rio, desembocar no mar.

 Tudo isso se a Lua, disfarçada por milênios como lamparina de nossas noites, inspiração dos poetas e dos amantes, anelo dos loucos e dos mares, fosse um carrasco e ao mesmo tempo seu instrumento, se a Lua Cheia fosse um olho que observa e informa o que viu aos Senhores do Universo para que eles julguem o que ouviram. E no dia em que os Senhores do Universo condenassem a Terra à morte, a Lua seria uma lâmina fatal, cimitarra impiedosa.

 Pensou nisso tudo, apesar de que jamais seria capaz de traduzir em palavras seus pensamentos, nem sequer em sua própria mente, pois aqueles pensamentos haviam brotado do nada, eram imagens, símbolos, não eram palavras organizadas em constelações, gravitando nas suas órbitas. Não imaginava como sua fantasia pareceria estranha a alguém que a escutasse e, portanto, a esqueceria. Poderia esquecê-la para sempre ou talvez num dia qualquer uma visão real ou uma outra fantasia a evocasse novamente, e ele a continuaria, como um conto, ou talvez a misturasse com outras, e deturpasse, e se confundisse, e a abandonasse novamente nas obscuridades de sua memória. Mas para imaginar aquelas fantasias precisava saber muitas coisas que as pessoas nem suspeitavam que sabia. Mas ele sabia, sabia da Terra, da Lua, do Espaço, que os Buracos Negros têm o formato de um redemoinho, que o Universo era infinito e cismava com a idéia de infinito. Sabia de tudo isso, mas não podia falar.

 O velho apareceu no umbral da porta. Ele se voltou, sorriu, e disse com dificuldade, a voz anasalada, os olhos arregalados e brilhantes:

 – A Lua é estraaanha…

 O velho sorriu sem sorrir, apenas expirou com um pouco mais de força e fez um ligeiro movimento com a cabeça para cima, nem sequer mostrando os dentes. Resmungou que entrasse, e não deu atenção às suas palavras nem à Lua, pois sabia como era simples e limitada a mente de um debilóide. Entrou, pensando nas dívidas, na carga que chegaria à mercearia na manhã seguinte, pensou utilizando-se de palavras e números, mas ao fundo piscava o velho medo da morte, de não amanhecer. Viu-o entrar, obediente como quase sempre era, aprisionado em sua mente mal desenvolvida. Havia muito o velho não lembrava da Lua, da Terra, do Infinito. Tinha pena do menino aluado.

Fonte:
Garganta da Serpente

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Lino Mendes (Tempo de Natal)

Estamos em MONTARGIL e o ano de 1920 está quase a chegar ao fim. Continua a apanha da azeitona, e com a ajuda de vacas e de bois tenta-se acabar a sementeira. Embelga-se e semeia-se aproveitando bem o tempo— já que é neste mês que existe o dia mais pequeno(em que acontecem os dias mais pequenos).

Ou porque chove ou porque está frio, a azeitona está difícil de apanhar, tempo que aliás já se esperava, pois que andasse lá por onde andasse o mês de Natal (do frio) cá havia de chegar.

Antes da Missa do Galo, no Largo da Igreja começa a arder um enorme madeiro. Enquanto do campo (dos arredores da vila) vem muita gente, os homens trazendo archotes de gamão para alumiar o caminho.

As pessoas de mais idade vestem o fato domingueiro e de festa para ir à missa do Galo, em especial as mulheres que põem o xale preto e o lenço na cabeça, com as de mais idade, já avós, usando capa preta que chega por vezes aos pés e ainda touca de veludo igualmente preta.
 
A ementa tradicional na quadra natalícia integrava um prato hoje ainda muito apetecido— miolos de porco. Dizia-se até, que quem nessa quadra não comesse miolos de porco não festejava o Natal. Isto, ao almoço, porque ao jantar havia chibo e/ou galinha corada.

Ainda quanto aos miolos de porco, essa ementa só era possível se a matança do porco tivesse sido feita duas ou três semanas antes. Que quase não havia “casa” que não engordasse o seu porquito para durante o ano ter na salgadeira carne que durasse. Enquanto outro engordava no “rodeio”

Entretanto, e com os tempos sempre se mudam alguns hábitos,e a cozinheira Fernanda Inês diz-me que no Natal sempre se fizeram os pasteis, as filhoses e o arroz doce. E depois cada um fazia aquilo que tinha. Se tinha uns coelhitos fazia um coelho, se tinha um borreguinho matava-o e se não tinha podia comprar um bocadinho, fazia aquilo que tinha na capoeira. Mas a ceia de Natal era sempre uma couve de azeite e vinagre.
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Lino Mendes é de Montargil, em Portugal

Fontes:
Texto enviado pelo autor

Imagem = Montargil – http://www.montargil.com

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Ialmar Pio Schneider (Livro de Sonetos II)

SONETO 4243
POETA

 Ressurge a primavera fulgurando,
 e os pássaros soluçam pelos ares.
 São novos sonhos, cálidos cantares,
 são novas ilusões, um novo bando…

 Poeta, se teus cânticos calares,
 oh! com tristeza ficarás cantando
 nos gorjeios das aves, pelo brando
 vento que passa pelos verdes mares !…

 Tua ausência será na primavera,
 quando disseste um dia: – Ah! quem me dera,
 morrer numa tardinha rubra e calma

 e entrar cantando lá no paraíso,
 meus cantos, pobres cantos sem sorriso,
 que acalentam na terra as mágoas d alma !…

SONETO 15362
SONETO HENDECASSÍLABO

Não me importa que velha sejas agora,
 nem que tenhas perdido todo teu viço,
 meu coração, ainda, meu bem, te adora,
 pois foste em meu triste viver, um feitiço !…

 Mal nos conhecemos ontem, e por isso,
 faltou aquele lampejo que vigora,
 para que um amor assuma o compromisso,
 de ver se concretizar a qualquer hora…

 Um dia nos encontramos e fizemos
 de conta que nunca nos tínhamos visto,
 mas eu sei que nós dois, no entanto, sofremos

 a fim de conter o que nos ia n´alma…
 Tudo é passado… Perdoa-me se insisto
 em não te olvidar… e de perder a calma !

SONETO 16061:
SONETO HEXASSÍLABO

 Por quanto tempo ainda
 há de permanecer,
 aquela luz infinda
 que me fez renascer?

 Eu sei que vou viver,
 lembrando a jovem linda
 do meu alvorecer,
 enquanto o amor não finda…

 É por esse motivo
 que poetizando vivo,
 quer seja noite ou dia;

 e se enfrento a tristeza,
 poderei, com certeza,
 encontrar alegria…

SONETO 15637:
SONETO ENEASSILÁBICO

Apesar de só, eu me contenho
 para não turvar o dia claro;
 pois, há muito tempo meu empenho,
 é conseguir na luz, amparo.

 Sei o quanto ser feliz é raro
 e por isto humildemente venho
 pedir a Deus o clarão de um faro
 que me conduza a um bom desempenho…

 Amei e fui amado e por isso
 acredito no amor, no feitiço
 que representa esta Divindade…

 Vou morrer, um dia, não sei quando,
 mas minh´alma vai viver sonhando,
 que só no sonho há felicidade !

SONETO 15982:
SONETO EM REDONDILHA MENOR (5 sílabas poéticas)

 Se tens esperança,
 procures alguém
 que a tenha também
 pra tua confiança;

 porque não convém
 entrar numa dança
 na qual não se alcança
 algum querer bem.

 Assim a existência
 com tua paciência,
 irás desfrutar

 e por muitos anos,
 sem ter desenganos,
 poderás amar…

SONETO 15626
SONETO TRISSILÁBICO

Porventura
 conseguiste
 vida dura,
 sem ser triste?

 Se perdura
 e persiste,
 a ventura
 já existe…

 Vai em frente
 bem consciente
 do sucesso,

 pois, terás
 muita paz
 e progresso…

SONETO 15614
SONETO DISSILÁBICO

Quisera
 te amar;
 na espera
 sonhar…

 Um lar,
 quem dera,
 te dar,
 pantera !

 Depois
 viver
 feliz

 os dois
 e ter
 que eu quis !

SONETO 7993
SONETO À FILHA

 Eu canto o amor à filha que é inocente
 e floresce no lar junto dos pais;
 estudiosa, querida, inteligente,
 guardo-a no coração cada vez mais…

 Quantas vezes perdida a fé, descrente,
 passei por horas duras, infernais,
 mas um carinho dela e já contente
 esquecia os tormentos tão cruciais…

 Em nossa casa simples e modesta
 representas um rútilo tesouro
 que nos alegra e que tanto brilha;

 e agradecendo a Deus só me resta
 dizer que tens um coração de ouro
 e que és o alicerce da família…

SONETO 7861
SONETO A UMA FADA

 Fazes de conta que jamais me viste
 e eu também finjo que não te conheço;
 nossa união terminou sem ter começo
 e eu continuo, como sempre, triste.

 O que tu prometias não cumpriste;
 mas esquece-me, então, pois eu te esqueço;
 isto conosco foi mais um tropeço;
 vamos saber qual de nós dois desiste.

 Quero descrer de ti, não mais te amar;
 porém, tudo me leva à tua presença
 e por nada te posso condenar.

 Foste uma Fada que surgiu voando
 e não trouxeste, enfim, a recompensa
 ao poeta que vive te adorando…

SONETO 7441
À SOMBRA DO COQUEIRO

 À sombra de um coqueiro eu fico a meditar,
 sentindo um doce aroma espalhado no ar,
 e as águas a cantar de uma sonora fonte,
 e o sol a se esconder ao longe no horizonte,

 e os sinos a planger em dobres doloridos,
 e as aves a soltar seus últimos gemidos,
 e a brisa a balançar os galhos do arvoredo,
 e o drama desta vida ao fim quase no enredo,

 e as horas a fugir bem como as luzes frouxas
 que já vão se apagando atrás daquelas rochas,
 produzem dentro em mim uma poesia solene

 e eu sinto em toda parte um sentimento infrene
 de amar-te para sempre enquanto persistir
 o sonho mais ardente anunciando o porvir…

SONETO 6708
PASSEIO MATINAL

 Quando o sol faz menção de aparecer
 ao longe no horizonte cor de brasa,
 eu saio do meu rancho, minha casa
 e me ponho no pingo pra correr.

 Nem que a geada estiver a embranquecer
 toda a campina branca como a asa
 da garça solitária, nada atrasa
 meu madrugar que é pra mim um dever.

 Levanto nem que chova canivete
 e parto pelo campo no meu flete,
 fazendo meu passeio matinal;

 que o prazer do gaúcho é respirar,
 profundamente, de manhã, o ar
 deste forte minuano hibernal.

SONETO 16049

Certa vez quis compor os versos nobres
 que me trouxessem, afinal, a glória
 numa epopeia que transforma a história,
 mas simples como sou fiz cantos pobres…

 À tardinha, escutando os tristes dobres
 dos sinos que lembrando a trajetória
 de quem lutou e sem obter vitória,
 serei apenas eu e meus desdobres.

 Vejo a paisagem, ora ensolarada,
 as árvores floridas da estação
 primaveril em pleno curso ainda…

 e permaneço como se mais nada
 ne interessasse neste instante vão,
 mas tão brilhante de uma luz infinda…

SONETO 16032

Dediquei-me à poesia e fiz meus versos
 p´ra amenizar tristezas e tormentos,
 pois, hoje, ao vê-los por aí dispersos,
 me recordam amores ciumentos…

 Mas, se não foram, ao meu ver, perversos,
 representam os nobres sentimentos,
 não impossíveis nem também adversos,
 apesar de sofridos e violentos.

 Outrossim, me fizeram bem e mal,
 porquanto, no contexto da existência,
 vamos formando nosso cabedal…

 E tudo que tivermos computado,
 permanece no livro da existência,
 como um fiel registro do passado…

SONETO 15992

Procurei um soneto que tivesse
 algo de amor ao coração que sofre,
 e deparei-me na primeira estrofe
 com a rima perfeita que merece.

 Mas não faz mal, o texto é como a prece
 que já rezei outrora a Santo Onofre,
 cujo segredo guardo no meu cofre
 e divulgá-lo agora não carece.

 A vida é feita de altos e de baixos
 e o sofrimento dos criados guaxos
 permanece gravado em suas almas.

 Mas Deus que tudo vê lá das Alturas,
 estende Sua bênção às criaturas
 pra que vivam na paz e sejam calmas.

SONETO 15956

Sonetos, trovas, versos e canções,
 Que admiro ler de tardezinha, quando
 O sol vai no horizonte declinando
 E as horas nos envolvem de emoções…

 Se permaneço em sonhos meditando,
 Tudo vem me lembrar desilusões,
 Que ficaram das cálidas paixões
 De um passado sentido e quase brando.

 Se naveguei por mares de loucura,
 amei demais alguém que me feriu
 com a lança desleal da falsidade…

 Desejo sepultar essa amargura
 e seguir meu caminho como o rio
 que corre livremente… Ah! que saudade !

SONETO 15938

Os versos que escrevi me trazem, hoje,
 à lembrança, aventuras que sonhei,
 mas vivo a presenciar que o tempo foge
 e aquelas metas nunca realizei…

 Posso dizer que alguém eu muito amei,
 e sem usar a culta metagoge,
 deva esquecê-la… como poderei?
 para que deste carma me despoje?!

 Mas as minhas poesias ´stão aí
 e formam os momentos que vivi,
 sempre cantando tristes madrigais…

 Se algumas penas sofro nesta vida,
 são o produto da missão cumprida,
 procurando no amor meus ideais !

SONETO 15712

Por que teria que surgir agora
 este amor impossível, malsinado,
 se meu coração hoje já nem chora,
 de tanto que ficou assaz magoado?!

 Um dia alguém partiu, foi embora;
 era donzela e muito a havia amado,
 culpa minha talvez, pela demora
 de ter àquele amor me declarado…

 Devia ser ridículo e enfrentar
 a todos na maior serenidade
 de alguém que não tem medo de sonhar…

 E penso que fui tímido demais,
 próprio do pensamento nessa idade,
 que infelizmente não retorna mais !

Fonte:
Sonetos enviados pelo autor
http://www.sonetos.com.br/meulivro.php?a=44

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Jorge Luis Borges (Funes, o Memorioso)

Recordo-o (não tenho o direito de pronunciar esse verbo sagrado, apenas um homem na terra teve o direito e tal homem está morto) com uma obscura passiflórea na mão, vendo-a como ninguém jamais a vira, ainda que a contemplasse do crepúsculo do dia até o da noite, uma vida inteira. Recordo-o, o rosto taciturno e indianizado e singularmente remoto, por trás do cigarro. Recordo (creio) suas mãos delicadas de trançador. Recordo próximo dessas mãos um mate, com as armas da Banda Oriental, recordo na janela da casa uma esteira amarela, com uma vaga paisagem lacustre. Recordo claramente a sua voz; a voz pausada, ressentida e nasal de orillero antigo, sem os assobios italianos de agora. Mais de três vezes não o vi; a última, em 1887… Parece-me muito feliz o projeto de que todos aqueles que o conheceram escrevam sobre ele; meu testemunho será por certo o mais breve e sem dúvida o mais pobre, porém não o menos imparcial do volume que vós editareis. A minha deplorável condição de argentino impedir-me-á de incorrer no ditirambo – gênero obrigatório no Uruguai; quando o tema é um uruguaio. Literato, cajetilla, porteño. Funes não disse essas palavras injuriosas, mas de um modo suficiente me consta que eu representava para ele tais desventuras. Pedro Leandro Ipuche escreveu que Funes era um precursor dos super-homens; “Um Zaratustra cimarrón e vernáculo”; não o discuto, mas não se deve esquecer que era também natural de Fray Bentos, com certas limitações incuráveis.

A minha primeira lembrança de Funes é muito clara. Vejo-o em um entardecer de Março ou Fevereiro do ano de 1884. Meu pai, nesse ano, levara-me a veranear em Fray Bentos. Voltava com meu primo Bernardo Haedo da estância de San Francisco. Voltávamos cantando, a cavalo, e essa não era a única circunstância da minha felicidade. Após um dia abafado, uma enorme tempestade cor cinza escura havia escondido o céu. Alentava-me o vento Sul, já enlouqueciam-se as árvores; eu tinha o temor (a esperança) de que nos surpreenderia em um descampado a água elemental. Apostamos uma espécie de corrida com a tempestade. Entramos em um desfiladeiro que se aprofundava entre duas veredas altíssimas de tijolo. Escurecera repentinamente; ouvi passos rápidos e quase secretos no alto; levantei os olhos e vi um rapaz que corria pela vereda estreita e esburacada como que por uma parede estreita e esburacada. Recordo a bombacha, as alpargatas, recordo o cigarro no rosto duro, contra a densa nuvem já sem limites. Bernardo gritou-lhe imprevisivelmente: Que horas são, Ireneo? Sem consultar o céu, sem deter-se, o outro respondeu: Faltam quatro minutos para as oito, jovem Bernardo Juan Francisco. A voz era aguda, zombeteira.

Sou tão distraído que o diálogo a que acabo de me referir não teria chamado a minha atenção se não o tivesse enfatizado o meu primo, a quem estimulavam (creio) certo orgulho local, e o desejo de mostrar-se indiferente à réplica tripartite do outro.

Disse-me que o rapaz do desfiladeiro era um tal Ireneo Funes, conhecido por algumas peculiaridades como a de não se dar com ninguém e a de saber sempre a hora, como um relógio. Complementou dizendo que era filho de uma passadeira do povo, Maria Clementina Funes, e que alguns diziam que seu pai era um médico de saladeiro, um inglês O’Connor, e outros um domador ou rastreador do departamento de Salto. Vivia com a sua mãe, na curva da quinta dos Laureles.

Nos anos de 1885 e 1886 veraneamos na cidade de Montevideo. Em 1887 voltei a Fray Bentos. Perguntei, como é natural, por todos os conhecidos e, finalmente, pelo “cronométrico Funes”. Responderam-me que um redomão o havia derrubado na estância de San Francisco, e que havia se tornado paralítico, sem esperança. Recordo a sensação de incômoda magia que a notícia despertou-me: a única vez que eu o vi, vínhamos a cavalo de São Francisco e ele andava em um lugar alto; o fato, na boca do meu primo Bernardo, tinha muito de sonho elaborado com elementos anteriores. Disseram-me que não se movia da cama, os olhos repousados na figueira do fundo ou em uma teia de aranha. Ao entardecer, permitia que o levassem para perto da janela. Levava a arrogância ao ponto de simular que era benéfico o golpe que o havia fulminado… Duas vezes o vi atrás da relha, que toscamente enfatizava a sua condição de eterno prisioneiro; uma, imóvel, com os olhos cerrados; outra, imóvel também, absorto na contemplação de um aromático galho de santonina.

Não sem um certo orgulho havia iniciado naquele tempo o estudo metódico do latim. A minha mala incluía o De viris illustribus de Lhamond, o Thesaurus de Quicherat, os comentários de Júlio César e um volume ímpar da Naturalis historia de Plínio, que excedia (e continua excedendo) as minhas modestas virtudes de latinista. Tudo se propaga em um povoado; Ireneo, em seu rancho das orillas, não tardou em enteirar-se da chegada desses livros anômalos. Dirigiu-me uma carta florida e cerimoniosa, na qual recordava no encontro, desditosamente fugaz, “do dia 7 de Fevereiro de 1884”, ponderava os gloriosos serviços que Don Gregorio Haedo, meu tio, falecido nesse mesmo ano, “havia prestado às duas pátrias na valorosa jornada de Ituzaingó”, e me solicitava o empréstimo de qualquer dos volumes, acompanhado de um dicionário “para a boa intelecção do texto original, pois todavia ignoro o latim”. Prometia devolvê-los em bom estado, quase imediatamente. A letra era perfeita, muito perfilada; a ortografia, do tipo que Andrés Bello preconizou: i por y, j por g. A princípio, suspeitei naturalmente tratar-se de uma zombaria. Meus primos asseguraram que não, que eram coisas de Ireneo. Não sabia se atribuía ao atrevimento, à ignorância ou à estupidez a idéia de que o árduo latim não requeresse mais instrumento do que um dicionário; para desencorajá-lo completamente enviei-lhe o Gradus ad parnassum de Quicherat e a obra de Plínio.

No dia 14 de Fevereiro telegrafaram-me de Buenos Aires que voltasse imediatamente, pois meu pai não estava “nada bem”. Deus me perdôe; o prestígio de ser o destinatário de um telegrama urgente, o desejo de comunicar a toda Fray Bentos a contradição entre a forma negativa da notícia e o peremptório advérbio, a tentação de dramatizar a minha dor, fingindo um estoicismo viril, talvez distraíram-me de toda a possibilidade de dor. Ao fazer a mala, notei que me faltavam o Gradus e o primeiro tomo da Naturalis historia. O “Saturno” sarpava no dia seguinte, pela manhã; essa noite, depois da janta, dirigi-me à casa de Funes. Assombrou-me que a noite fora não menos pesada que o dia.

No humilde rancho, a mãe de Funes recebeu-me.

Disse-me que Ireneo estava no quarto dos fundos e que não me estranhasse encontrá-lo às escuras, pois Ireneo preferia passar as horas mortas sem acender a vela. Atrevessei o pátio de lajota, o pequeno corredor; cheguei ao segundo pátio. Havia uma parreira; a escuridão pareceu-me total. Ouvi prontamente a voz alta e zombeteira de Ireneo. Essa voz falava em latim; essa voz (que vinha das trevas) articulava com moroso deleite um discurso, ou prece, ou encantamento. Ressoavam as sílabas romanas no pátio de terra; o meu temor as tomava por indecifráveis, intermináveis; depois, no enorme diálogo dessa noite, soube que formavam o primeiro parágrafo do 24º capítulo do 7º livro da Naturalis historia. O tema desse capítulo é a memória: as últimas palavras foram ut nihil non iisdem verbis redderetur auditum.

Sem a menor mudança de voz, Ireneo disse-me o que se passara. Estava na cama, funmando. Parece-me que não vi o seu rosto até a aurora; creio lembrar-me da brasa momentânea do cigarro. O quarto exalava um vago odor de umidade. Sentei-me, repeti a história do telegrama e da enfermidade de meu pai.

Chego, agora, ao ponto mais difícil do meu relato. Este (é bem verdade que já o sabe o leitor) não tem outro argumento senão esse diálogo de há já meio século. Não tratarei de reproduzir as suas palavras, irrecuperáveis agora. Prefiro resumir com veracidade as muitas coisas que me disse Ireneo. O estilo indireto é remoto e débil; eu sei que sacrifico a eficácia do meu relato; que os meus leitores imaginem os períodos entrecortados que me abrumaram essa noite.

Ireneo começou por enumerar, em latim e espanhol, os casos de memória prodigiosa registrados pela Naturalis historia: Ciro, rei dos persas, que sabia chamar pelo nome todos os soldados de seus exércitos; Metríadates e Eupator, que administrava a justiça dos 22 idiomas de seu império; Simónides, inventor da mnemotecnia; Metrodoro, que professava a arte de repetir com fidelidade o escutado de uma só vez. Com evidente boa fé maravilhou-se de que tais casos maravilharam. Disse-me que antes daquela tarde chuvosa em que o azulego o derrubou, ele havia sido o que são todos os cristãos; um cego, um surdo, um tolo, um desmemoriado. (Tratei de recordar-lhe a percepção exata do tempo, a sua memória de nomes próprios; não me fez caso.) Dezenove anos havia vivido como quem sonha: olhava sem ver, ouvia sem ouvir, esquecia-se de tudo, de quase tudo. Ao cair, perdeu o conhecimento; quando o recobrou, o presente era quase intolerável de tão rico e tão nítido, e também as memórias mais antigas e mais triviais. Pouco depois averiguou que estava paralítico. Fato pouco o interessou. Pensou (sentiu) que a imobilidade era um preço mínimo. Agora a sua percepção e sua memória eram infalíveis.

Num rápido olhar, nós percebemos três taças em uma mesa; Funes, todos os brotos e cachos e frutas que se encontravam em uma parreira. Sabia as formas das nuvens austrais do amanhecer de trinta de abril de 1882 e podia compará-los na lembrança às dobras de um livro em pasta espanhola que só havia olhado uma vez e às linhas da espuma que um remo levantou no Rio Negro na véspera da ação de Quebrado. Essas lembranças não eram simples; cada imagem visual estava ligada a sensações musculares, térmicas, etc. Podia reconstruir todos os sonhos, todos os entresonhos. Duas ou três vezes havia reconstruído um dia inteiro, não havia jamais duvidado, mas cada reconstrução havia requerido um dia inteiro. Disse-me: Mais lembranças tenho eu do que todos os homens tiveram desde que o mundo é mundo. E também: Meus sonhos são como a vossa vigília. E também, até a aurora; Minha memória, senhor, é como depósito de lixo. Uma circunferência em um quadro-negro, um triângulo retângulo; um losango, são formas que podemos intuir plenamente; o mesmo se passava a Ireneo com as tempestuosas crinas de um potro, com uma ponta de gado em um coxilha, com o fogo mutante e com a cinza inumerável, com as muitas faces de um morto em um grande velório. Não sei quantas estrelas via no céu.

Essas coisas me disse; nem então nem depois coloquei-as em dúvida. Naquele tempo não havia cinematógrafos nem fonógrafos; é, no entanto, verossímil e até incrível que ninguém fizera um experimento com Funes. O cérto é que vivemos postergando todo o postergável; talvez todos saibamos pronfundamente que somos imortais e que mais cedo ou mais tarde, todo homem fará todas as coisas e saberá tudo.

A voz de Funes, vinda da escuridão, seguia falando.

Disse-me que em 1886 havia elaborado um sistema original de numeração e que em muito poucos dias havia ultrapassado vinte e quatro mil. Não o havia escrito, porque o pensado uma só vez já não podia desvanecer-lhe. Seu primeiro estímulo, creio, foi o descontentamento de que os trinta e três uruguaios requeressem dois signos e três palavras, em lugar de uma só palavra e um só signo. Aplicou logo esse desparatado princípio aos outros números. Em lugar de sete mil e treze, dizia (por exemplo) Máximo Pérez; em lugar de sete mil e catorze, A Ferrovia; outros números eram Luis Melián Lafinur, Olivar, enxofre, os rústicos, a baleia, o gás, a caldeira, Napoleão, Agustín de Vedia. Em lugar de quinhentos, dizia nove. Cada palavra tinha um signo particular, uma espécie de marca; as últimas eram muito complicadas… Eu tratei de explicar-lhe que essa rapsódia de vozes desconexas era precisamente o contrário de um sistema de numeração. Eu lhe observei que dizer 365 era dizer três centenas, seis dezenas, cinco unidades; análise que não existe nos “números”. O Negro Timoteo a manta de carne. Funes não me entendeu ou não quis me entender.

Locke, no século XVII, postulou (ou reprovou) um idioma impossível no qual cada coisa individual, cada pedra, cada pássaro e cada ramo tivesse um nome próprio; Funes projetou alguma vez um idioma análogo, mas o desejou por parecer-lhe demasiado geral, demasiado ambígüo. De fato, Funes não apenas recordava cada folha de cada árvore de cada monte, mas também cada uma das vezes que a havia percebido ou imaginado. Resolveu reduzir cada uma de suas jornadas pretéritas a umas setenta mil lembranças, que definiria logo por cifras. Dissuadiram-no duas considerações: a consciência de que a tarefa era interminável, a consciência de que era inútil. Pensou que na hora da morte não havia acabo ainda de classificar todas as lembranças da infância.

Os dois projetos que foi indicado (um vocabulário infinito para a série natural dos números, um inútil catálogo mental de todas as imagens da lembrança) são insensatos, mas revelam certa balbuciante grandeza. Nos deixam vislumbrar ou inferir o vertiginoso mundo de Funes. Este, não o esqueçamos, era quase incapaz de idéias gerais, platônicas. Não apenas lhe custava compreender que o símbolo genérico cão abarcava tantos indivíduos díspares de diversos tamanhos e diversa forma; perturbava-lhe que o cão das três e catorze (visto de perfil) tivesse o mesmo nome que o cão das três e quatro (visto de frente). Sua própria face no espelho, suas próprias mãos, surpreendiam-no cada vez. Comenta Swift que o imperador de Lilliput discernia o movimento do ponteiro dos minutos; Funes discernia continuamente os avanços tranqüilos da corrupção, das cáries, da fatiga. Notava os progressos da morte, da umidade. Era o solitário e lúcido espectador de um mundo multiforme, instantâneo e quase intolerantemente preciso. Babilônia, Londres e Nova York têm preenchido com feroz esplendor a imaginação dos homens; ninguém, em suas torres populosas ou em suas avenidas urgentes, sentira o calor e a pressão de uma realidade tão infatigável como a que dia e noite convergia sobre o infeliz Ireneo, em seu pobre subúrbio sulamericano. Era-llhe muito difícil dormir. Dormir é distrair-se do mundo; Funes, de costas na cama, na sombra, figurava a si mesmo cada rachadura e cada moldura das casas distintas que o redoavam. (Repito que o menos importante das suas lembranças era mais minucioso e mais vivo que nossa percepção de um gozo físico ou de um tormento físico). Em direção ao leste, em um trecho não pavimentado, havia casas novas, desconhecidas. Funes as imaginava negras, compactas, feitas de treva homogênea; nessa direção virava o rosto para dormir. Também era seu costume imaginar-se no fundo do rio, mexido e anulado pela corrente.

Havia aprendido sem esforço o inglês, o francês, o português, o latim. Suspeito, contudo, que não era muito capaz de pensar. Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair. No mundo abarrotado de Funes não havia senão detalhes, quase imediatos.

A receosa claridade da madrugada entrou pelo pátio de terra.

Então vi a face da voz que toda a noite havia falado. Ireneo tinha dezenove anos; havia nascido em 1868; pareceu-me tão monumental como o bronze, mais antigo que o Egito, anterior às profecias e às pirâmides. Pensei que cada uma das minhas palavras (que cada um dos meus gestos) perduraria em sua implacável memória; entorpeceu-me o temor de multiplicar trejeitos inúteis.

Ireneo Funes morreu em 1889, de uma congestão pulmonar.

Fonte:
Pequena Antologia para se Ler Jorge Luis Borges. Digital Source.

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Murilo Rubiao (Por que Escrevo? Como Escrevo?)

Por que escrevo?
“Em O pirotécnico eu digo que escrevo por maldições, porque não há outra maneira. Passei quatro anos na Espanha e disse que não ia escrever mais, porque já tinha escrito dois livros e decidi que ia ler, que era melhor. Mas resisti só três anos; no quarto comecei a escrever novamente. Não está em mim. Talvez no início eu procurasse a literatura, hoje eu verifico que fui mesmo levado e não havia outra maneira. Se nascesse novamente, não escaparia da maldição. Às vezes, fico bastante tempo sem escrever, mas continuo sempre com o pensamento voltado para a literatura, estou sempre pensando em novos contos ou voltando aos antigos e, mesmo que não esteja escrevendo, estou permanentemente ligado à criação. Da criação não consigo escapar”.
Como escrevo?
“O conto nasce sem um acontecimento. Nos primeiros tempos, veio principalmente de leituras. Às vezes, a leitura de um escritor que me entusiasmou, certamente, daria material para outro trabalho meu. Às vezes, de maneira aparentemente espontânea, surgia um tema. Meu processo, depois do amadurecimento (quando eu era jovem, escrevia imediatamente um conto), foi um trabalho de reelaboração. Mais tarde, vinha a idéia, fazia as anotações, trabalhava um pouco, fazia um primeiro rascunho e deixava na gaveta. O meu livro O convidado foi escrito 26 anos antes de ser publicado. Se o tema resistia a uma segunda investida, eu continuava a trabalhar; se mesmo com uma segunda investida, o resultado não era bom, eu deixava dormir uns tempos e, depois, às vezes, eu ainda jogava fora. Não gosto de escrever a frio; as emoções do momento, geralmente, não são boas”.
Fonte:
RICCIARDI, Giovanni. Auto-retratos. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

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Adélia Prado (Rodando)

Depois de muita e boa chuva, Célia voltava de Belo Horizonte para sua casa no interior do Estado. Era bom viajar de ônibus, vendo, parecia-lhe que pela primeira vez, o verde rebrotando com força. Ouviu um passageiro falando pra ninguém: que cheiro de mato!

Sol farto e os moradores desses conjuntos habitacionais de caixa de papelão e zinco, que brotam como grama à margem das rodovias, aproveitavam pra esquentar o couro rodeados de criança e cachorro.

Os deserdados desfilavam, a moça e seu namorado com bota de imitação de peão boiadeiro iam de mãos dadas, com certeza à casa de uma tia da moça, comunicar que pretendiam se casar. Uma avó gorda com seu neto também passou, ela de sombrinha, ele de calcinha comprida de tergal. Iam aonde? Célia fantasiou, ah, com certeza na casa de uma comadre da avó, uma amiga dela de juventude. O menino ia sentir demais a morte daquela avó que lhe pegava na mão de um jeito que nem sua mãe fazia.

Desceram três moços de bermuda e camisa do Clube Atlético Mineiro, e um quarto com grande inscrição na camiseta: SÓ CRISTO SALVA! Camiseta e bermuda não favorecem a ninguém, ela pensou desgostosa com a feiúra das roupas. Bermudas principalmente, teria que se ter menos de dez anos pra se usar aquela invenção horrorosa. Teve dó dos moços que só conheciam futebol e dupla sertaneja. Foi um pensamento soberbo, se arrependeu na hora. Tinha preconceitos, lembrou-se de que gostara muito de um jogo de futebol em Londrina, rodeada de palavrões e chup-chup com água de torneira e famílias inteiras se esturricando gozosamente entre pão com molho e adjetivos brutais, prodigiosamente colocados, lindos e surpreendentes como as melhores invenções da poesia.

Concluiu sonolenta, o mundo está certo.

Uma criança começou a chorar muito alto: quero ficar aqui não, quero sentar com meu pai, quero o meu pai. A mãe parecia muito agoniada e pelo tom do choro Célia achou que ela abafava a boca da criança com uma fralda ou a apertava raivosa contra o peito, envergonhada de ter filha chorona. Suposições.

Tudo estava muito bom naquele dia, não sofria com nada, nem ao menos quis ajudar a mãe, botar a menina no colo, estas coisas em que era presta e mestra. Assistia ao mundo, rodava macio tudo, o ônibus, a vida, nem protagonista nem autora, era figurante, nem ao menos fazia o ponto naquele teatro perfeito, era só platéia. Aplaudia, gostando sinceramente de tudo. Contra céu azul e cheiro de mato verde Deus regia o planeta.

Estava muito surpresa com a perfeita mecânica do mundo e muitíssimo agradecida por estar vivendo. Foi quando teve o pensamento de que tudo que nasce deve mesmo nascer sem empecilho, mesmo que os nascituros formem hordas e hordas de miseráveis e os governos não saibam mais o que fazer com os sem-teto, os sem-terra, os sem-dentes e as igrejas todas reunidas em concílio esgotem suas teologias sobre caridade discernida e não tenhamos mais tempo de atender à porta a multidão de pedintes. Ainda assim, a vida é maior, o direito de nascer e morar num caixote à beira da estrada.

Porque um dia, e pode ser um único dia em sua vida, um deserdado daqueles sai de seu buraco à noite e se maravilha. Chama seu compadre de infortúnio: vem cá, homem, repara se já viu o céu mais estrelado e mais bonito que este! Para isto vale nascer.

 Fonte:
Adélia Prado. Filandras. RJ: Record, 2001

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Baú de Trovas (Esperança)

Na vida tudo se alcança,
quando a Esperança se tem!…
Porém se morre a Esperança,
a vida morre também.
A..B. LOPES RIBEIRO – MG

Esperança – voam aves…
Galhos, cascas flutuando…
Colombo comanda as naves
cheias de nautas cantando.
ADALBERTO DUTRA DE RESENDE – PR

Quanta vez em tristes rotas
tombei sem me ter queixado
porque nas minhas derrotas
tive a Esperança ao meu lado.
AGMAR MURGEL DUTRA – RJ

No verdor da mocidade,
 quanta esperança entretive!
 Agora tenho saudade
 das esperanças que tive!
 ALFREDO DE CASTRO –  MG

A esperança é voz do Além
  que nesta vida nos guia.
Sem este amparo ninguém
às mágoas sobrevivia.
ANA ROLÃO PRETO M. ABANO – ANGOLA

Mãe que traz uma criança
nas entranhas do seu ser,
carrega a própria esperança
no filho que vai nascer.
ANIS MURAD – RJ

Há muita gente na vida
que a felicidade alcança,
não por ter sorte florida,
mas por viver de Esperança!
ANTONIETA BORGES ALVES – SP

Pensando, na tarde calma,
 logo me ocorre à lembrança
 que a própria vida tem alma,
 e a alma da vida é a esperança!
 APARÍCIO FERNANDES – RJ

A Esperança se revela
 em cousa bem natural:
 um sapato na janela
 numa noite de Natal!
 ARCHIMINO LAPAGESSE – RJ

Desde o tempo de criança
– de ingênua colegial –
fiz de ti minha esperança
e só tenho esse fanal.
ARIETE REGINA DE PAULA FERNANDES – RJ

Por que é verdade a esperança?…   
Se todo o mundo soubesse…
– É que, por mais que se espere,
ela nunca amadurece…       
PE. BELCHIOR D’ATHAYDE – BA

Que não seja a tua esmola,
vazia de coração;
a esperança mais consola
do que um pedaço de pão.
CÉLIA CAVALCANTE – RJ

Há muito mais esperança,
 segundo o meu evangelho,
 numa lágrima de criança
 que num sorriso de velho.
 COLBERT RANGEL COELHO –  RJ

Entre o meu pai – já velhinho,
 e o meu filho – uma criança,
 vejo estender-se o caminho
 por onde passa a esperança.
 DENANCY MELLO ANOMAL – RJ

Esperança – chama acesa
no coração a brilhar.
quando ela morrer, a tristeza
vem tomar o seu lugar.
DINARTE BARBOSA ARMOND – MG

A esperança é como um sopro
 de vida, dado por Deus.
 É o dia, depois da noite,
 é a volta, depois do adeus.
 EDGAR BARCELOS CERQUEIRA – RJ

Todos nós temos na vida,
quer seja agitada ou mansa,
a doce, a terna guarida,
onde se abriga a esperança!
EDNA DE CASTRO – MG

A dor de tua partida,
que não sai da lembrança,
já me levou mais que a vida:
levou-me toda esperança!
FRAZÃO TEIXEIRA – RJ

Esperança – bem que enleva
nossa vida, no presente;
– um raio de luz na treva
  do incerto amanhã da gente.
GERALDO PIMENTA DE MORAES – MG

Ante a inclemência dos fados
da vida em cada revés…
Consolo dos desgraçados!
– Esperança é o que tu és!…
HONÓRIO SANTANA – BA

Com mágoa de toda a sorte,
se a velhice nos alcança,
crendo que há vida na morte,
temos na morte, Esperança.
JOÃO BATISTA DE AZEVEDO – MG

Esperança – céu nublado
 no Nordeste, os bois ao léu;
 o sertanejo ajoelhado,
 de mãos postas para o céu…
 JORGE MURAD  – RJ

Neste mundo que nos cansa
 tanta maldade se vê,
 que a gente tem esperança
 mas já nem sabe de quê…
 JOSÉ MARIA MACHADO DE ARAÚJO – RJ

Esperança e, simplesmente
um sentimento perjuro:
são mentiras no presente…       
desenganos no futuro…
LECTÍCIA PIRES RANGEL COELHO – RJ

Quando a ventura está morta,
deixando a dor como herança,
nossa alma se reconforta,
buscando a luz da esperança!
LEONARDO HENKE – PR

Mesmo sendo uma quimera
 a Esperança anima e acalma,
 pois ela, enquanto se espera,
 enche de rosas nossa alma!…
 LINCOLN DE SOUZA – RJ

Esperança é aquela estrela
de verde luz envolvida,
a cintilar, pura e bela,
no céu escuro da vida.
LÚCIA LOBO FADIGAS – RJ

Numa era de baixeza,
num mundo de podridão,        
a esperança  é a tocha acesa
que trago no coração.
 LUIZ EVANDRO INOCÊNCIO – RJ

A Esperança corre, voa,
mas deixa por onde passa,
uma impressão suave e boa:
de paz, de amor e de graça.
MANOELITA AMORIM MEYER – MG

Quando um bem está perdido
outro nos vem consolar –
Esta esperança, querido,
Deus não me pode negar.
MARIA CARMEM SAUER BATISTA – RJ

Culpada de minha dor,
 foi a esperança, Maria.
 Leu nos teus olhos – amor
 em vez de ler simpatia.
 MARIA JOSÉ BARCELLOS CERQUEIRA – RJ

De flores tão enfeitada,
loiros cabelos em trança
Neste esquife azul , deitada,
vai toda a minha Esperança.
(MARIA JOSÉ FORTES BRAGA – MG

Esperança, isto se chama
e a todo instante acontece:
uma carta… um telegrama…
um meigo olhar… uma prece…
MAURO BARBOSA ARMOND – MG

Com o verde da natureza
e o sorriso da criança
Deus coloriu a tristeza
pondo no mundo a esperança.
NATAL MACHADO – DF

Podes perder mocidade,
amor, ventura, abastança,
nada perdes, em verdade,
se te ficar a esperança.
OCTACÍLIO AZEVEDO – CE

Esperança – nordestino                
numa cerca debruçado,
contemplando, sol a pino,
o verdejante roçado.
OLDEMAR ANDRADE – RJ

No porto dos meus anseios
 esperanças são navios,
 que de manhã partem cheios
 e à tarde voltam vazios…
 ORLANDO BRITO – SP

Quando minha alma sentida
nesta vida nada alcança,
inda me resta na vida
– graças a Deus ! – a esperança!
RODOLFO COELHO CAVALCANTI – BA

Quem quiser ver a Esperança
olha uma noiva no altar,
fite um rosto de criança,
repare uma mãe rezar!
SEVERINO UCHOA – SE

No tédio de minha vida
de emoções vazia e nua,
só me torna comovida
a Esperança de ser tua…
VERA MILWARD DE CARVALHO – SP

Ai, do pobre, sem carinhos,
cuja dor se vê na face,           
se no meio dos espinhos,    
a esperança não brilhasse…
VIRGILIO GUERREIRO – SP

N’alma, a esperança reflete
 uma risonha mentira,
 pois é o que a vida promete
 em troca do que nos tira…
 WALTER WAENY JUNIOR – SP

A fonte da minha vida
– o meu  sonhar de criança –
não ficou toda perdida…
– Vive um pouco na Esperança…
 ZALKIND PIATIGORSKY – RJ

Fonte:
Organização em ordem alfabética dos trovadores por José Feldman. Trovas selecionadas de 100 Trovas  sobre a  “Esperança”, dos I Jogos Florais de Pouso Alegre. Disponível no site de J. G. de Araújo Jorge. http://www.jgaraujo.com.br/trovadores/11_trovas_sobre_esperanca.htm

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Monteiro Lobato (Reinações de Narizinho) Cara De Coruja –VIII – A Varinha de Condão

Durante todo aquele tempo Pedrinho, Aladim e o Gato de Botas ficaram de parte, conversando sobre valentias. Aladim contava as mil façanhas de sua lâmpada maravilhosa. Não querendo ficar atrás, Pedrinho contou as proezas do seu famoso bodoque. Por fim chegaram a brigar.

— Pois apareça aqui um dia — disse Pedrinho — para vermos quem pode mais, você com sua lâmpada ou eu com o meu bodoque.

— Aposto na minha lâmpada! — disse Aladim.

— E eu aposto no meu bodoque! — disse Pedrinho.

O Gato de Botas interveio.

— Eu serei o juiz e em seguida desafiarei a ambos. Quero ver o que vale mais, se esse bodoque e essa lâmpada ou as minhas botas de sete léguas!…

Enquanto discutiam e marcavam a data do pega, um acidente muito grave aconteceu na sala. O pobre Visconde dormia em cima do binóculo, tão bem dormido que, de repente, plaft!… caiu lá do alto um grande tombo no chão. Caiu e ficou desacordado. As princesas correram a acudi-lo com água e esfregações pelo corpo. Mas como o pobre sábio não voltasse a si, foi uma consternação geral.

— O melhor é virar o Visconde nalguma coisa – sugeriu Emília dirigindo-se a Cinderela. — Dê-lhe uma varada com a varinha de condão, princesa!

Cinderela, achando boa a idéia, assim fez. Mas antes quis saber no que havia de virar o Visconde. Narizinho achava que deviam virá-lo num grande mágico de chapéu de cartucho. Rosa Vermelha preferiu que o virassem em lobo. Venceu afinal a opinião da Emília, que era a mais prática.

— Tia Nastácia anda precisando dum pilãozinho de socar sal. Boa ocasião para virar o Visconde em pilão! Ao menos fica servindo para alguma coisa.

Aprovada a idéia, a princesa da varinha bateu nele, dizendo:

— Vira que vira, vira virando, vira pilão!

Imediatamente o Visconde virou num pilãozinho novo, exatamente como tia Nastácia queria. A princípio a negra ficou assombrada. Depois disse:

— Mas eu não tenho coragem de socar sal nesse pilãozinho!

Pego a imaginar que já foi o Visconde e morro de dó. Em todo caso, fico muito agradecida a dona Cinderela pelo lindo presente.

E guardou o pilãozinho numa prateleira, resmungando:

— O mundo está perdido!… Quando eu havia de pensar que o Visconde ia ter este fim? Não valemos nada nesta vida. Quando chega a hora de virar, pode ser rei, pode ser Visconde, a gente vira mesmo — e ainda é bom quando vira pilão…

Na sala de baile estavam todos brincando de virar. Cinderela batia com a varinha e virava tudo que lhe pediam. Emília trouxe todos os seus brinquedos para os fazer virar em outros brinquedos ainda mais bonitos. Depois sentiu saudades dos brinquedos velhos e os fez desvirar novamente. E estavam ainda nessa brincadeira, quando ouviram na porta uma batida esquisita, muito diferente das demais. As princesas assustaram-se.

— Parece batida de lobo! — disse Capinha Vermelha que fora espiar pelo buraco da fechadura. — É lobo mesmo! — exclamou de lá, arregalando os olhos de pavor. — Justamente o malvado que comeu vovó…

Foi uma correria. Narizinho procurou acalmar as princesas.

— Não pode ser — disse ela. — O lobo que comeu a avó de Capinha foi morto a machadadas por aquele homem que entrou, É o que dizem os livros.

— Deve de ser erro tipográfico — sugeriu asnaticamente Emília, que também fora espiar o lobo. É lobo, sim – e magríssimo! Bem se vê que só se alimenta de velhas bem velhas. Com certeza soube que dona Benta morava aqui e…

Não pôde concluir. Narizinho estava em prantos.

— Pobre vovó! — gemia ela torcendo as mãos. — Que desgraça se o lobo a devora! Chamem Pedrinho e os príncipes! Corra Emília!…

Mas justamente minutos antes Pedrinho e os príncipes haviam saído para o terreiro a fim de fazerem uma experiência com a lâmpada de Aladim. Estavam as meninas ali sem um homem que as pudesse socorrer.

— Bata com a vara nele e vire-o numa pulga – lembrou Emília já preparando a unhinha para matar a pulga.

— Impossível! — exclamou Cinderela aflita. — Seria preciso abrir a porta e o lobo poderia me agarrar de um bote.

Enquanto isso o lobo continuava a bater, toc, toc, toc, cada vez mais furioso. Depois começou a arranhar a porta, tirando lascas.

Rabicó tremia como geléia; em vez de ajudar as princesas a se salvarem dos apuros, mais atrapalhava. Agarrou-se à saia de Branca de Neve, que teve de afastá-lo com um bom pontapé.

— Só o Visconde poderá nos salvar! — exclamou Emília. – Os sábios sabem meios para tudo.

Disse e foi correndo buscar o pilãozinho para que Cinderela o virasse em Visconde. Cinderela, muito trêmula, bateu com a varinha e o Visconde surgiu de novo, tonto e assustado. Narizinho explicou-lhe do que se tratava e apontou para a porta.

— O lobo está arrebentando as tábuas. Mais um minuto e penetra aqui. Veja se acha um jeito de nos salvar, Visconde!…

Mal a menina acabara de pronunciar essas palavras, o lobo arrancou uma tábua e enfiou o focinho pelo buraco, farejando o ar.

— Hum… Hum!… Estou sentindo cheiro de avó de gente… — rosnou ele.

Era demais. Narizinho desmaiou. Vendo aquilo, as princesas desmaiaram também. Emília ficou na sala sozinha com o Visconde.

— Vamos, Visconde! Faça alguma coisa! Mexa-se!…

Mas o Visconde não saía do lugar, e só então Emília percebeu que ele tinha virado Visconde só da cintura para cima, continuando pilão da cintura para baixo. Com a pressa e o nervoso, Cinderela só lhe havia dado meia varada…

— E agora! — exclamou Emília coçando a cabeça e pensando lá consigo se valeria a pena desmaiar também.

E talvez fizesse isso, se o lobo naquele instante não arrancasse mais uma tábua e não enfiasse dentro da sala quase meio corpo. Vendo que o monstro entrava mesmo, Emília berrou com todas as forças dos seus pulmões:

— Acuda, tia Nastácia! O lobo está entrando de verdade e vai comer dona Benta…

Ouvindo o berro, a negra veio lá da cozinha com a vassoura e num instante espantou dali a fera com três boas vassouradas no focinho.

— Lobo sem-vergonha! Vá prear no mato que é o melhor. Dona Benta nunca foi quitute pra teu bico, seu cão sarnento!…

— Bravos! — exclamou Emília batendo palmas. — A senhora é tão valente que até merece casar com o pássaro Roca.

A preta só disse:

— Em vez de dizer bobagens, antes me ajude a acordar estas princesas. Traga depressa uma caneca de água fria, ande…

A primeira a ser despertada foi Narizinho.

— Que é do lobo? — perguntou ao voltar a si, ainda tonta e com a vista atrapalhada. — Já comeu vovó? A negra deu uma risada com a beiçaria inteira.

— Credo! Que idéia! O lobo a estas horas já deve estar chegando na Europa!… e contou o que havia acontecido.

Em seguida despertou as outras. Capinha Vermelha, louca de alegria, abraçou tia Nastácia, prometendo mandar-lhe uma cesta de bolinhos. As princesas também a abraçaram, prometendo mandar pilõezinhos de verdade e mais coisas bonitas.

Nisto entrou o menino com os príncipes.

— Bonito! — exclamou Narizinho. — Os senhores vão para a troça e nos deixam aqui sozinhas à mercê das feras… e contou tudo.

Aladim ficou aborrecidíssimo de haver perdido aquela oportunidade de mostrar o poder da sua lâmpada e Pedrinho ainda mais, pois com duas bodocadas tinha a certeza de que o lobo sairia ventando. Nesse momento um vulto entrou pela janela como um grande pássaro Peter Pan! Assim que Pedrinho e os demais o reconheceram, reboou uma grande salva de palmas, seguida do hino dos índios guerreiros, composto pela boneca. Dona Benta, que havia acabado de escrever a sua carta, ouviu o rumor e lembrou-se da promessa feita a Narizinho. Veio espiar a festa.

Entrou na sala.

— Boa tarde, senhor Peter Pan! Fico satisfeita de saber que o senhor também é amigo dos meus netos — mas quero que não faça com eles o que fez com Wendy e seus irmãozinhos. Não lhes ensine a voar, senão estou perdida. Se não sabendo voar já são assim, imagine sabendo…

— A senhora pensa que voar é perigoso? — perguntou Emília.

— Levando o seu guarda-chuva como pára-quedas, não há perigo nenhum!…

— Sei que não há perigo — disse a velha. — Mas sei também que se voarem começarão a ir para muito longe e poderão um dia esquecer-se de voltar.

Peter Pan sossegou-a. Disse que nada receasse, pois só lhes ensinaria a voar se obtivesse o consentimento dela.
–––––––
Continua… Cara de Coruja– IX – A Partida

Fonte:
LOBATO, Monteiro. Reinações de Narizinho. Col. O Sítio do Picapau Amarelo vol. I. Digitalização e Revisão: Arlindo_Sa

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Carolina Ramos (Parceria)

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27 de dezembro de 2011 · 22:56

Isabel Furini (A Disputa)


Apoiou as unhas longas e grossas sobre as grades e arranhou-as violentamente. Um chirriado agudo reverberou no lugar. A fila enorme que acompanhava as curvas das nuvens, tremeu. Alimentou-se das emoções de medo e incerteza. O arroto com odor de enxofre e a estrondosa gargalhada aumentaram o temor das almas. Depois observou esse homem magro que caminhava lentamente. Olhava-o com a voracidade de um vampiro. Uma mente brilhante, murmurou.

São Pedro, o bondoso, organizava a fila. Algumas almas estavam ansiosas e moviam suas formas feitas de matéria etérica, formas luminosas e muito semelhantes aos corpos físicos, mas sem o peso e as limitações dos verdadeiros corpos. Outras, acostumadas a esperar em filas de mercados e bancos, permaneciam quietas e resignadas. As mais impetuosas agitavam no ar as mãos quase transparentes, elas queriam entrar.

Na recepção, antes do segundo portal, o chamado Portal Definitivo, Deus, rodeado pelos seus anjos de belas asas brancas, ia julgando as almas com infinita sabedoria. Algumas podiam entrar no céu, outras caíam vítimas de suas más ações.

No momento em que esse homem idoso, calmo, aproximou-se, o próprio guardião dos portões, São Pedro disse:

– Peço perdão para ele, Senhor, ele foi um escritor brilhante.

O diabo, que permanecia em silêncio, no lado esquerdo do portão, encostado nas grades, reclamou:

– Ele é meu, Altíssimo. Brilhantes foram muitos militares e arrasaram cidades. Brilhantes foram muitos reis e massacraram o povo. Até alguns papas como Bórgia…

– Esse escritor defendeu os oprimidos! Merece seu perdão, Senhor.

– Ele é meu! Há tempos que não recebo alguém com uma mente, digamos, tão criativa, tão suculenta… Falou o diabo arrumando sua capa vermelha.

– Ele foi um bom homem.

– Não é essa a questão, Pedro – gritou enfurecido o diabo e bateu o tridente na ponta de um asteróide – A questão é que ele foi ateu, negou sua existência, Senhor.

– O lugar dele é no Céu!

– Não, Pedro. O lugar dele é no inferno.

– Céu!

– Inferno! Ateus vão ao inferno!

– Não seja preconceituoso, Satã – disse Deus. E Pedro, ao ouvir a voz de Deus, ajoelhou-se em sinal de humildade.

– Você sabe, anjo do mal, que eu amo todos os meus filhos e não tenho preconceitos contra ateus. Alguns me adoram só com os lábios, por isso eu não julgo os homens segundo suas palavras. Eu meço corações. Se julgasse os homens segundo suas palavras, o céu estaria cheio de retóricos e de políticos…

– Aproxime-se, filho.

O escritor se aproximou lentamente. Estaria sonhando?

Pedro pegou uma faca feita de luz violeta e abriu o peito do escritor. Mas ele não sentiu dor. Pedro retirou o coração e colocou-o em uma balança. Se o prato da balança desce, a alma do morto cai no abismo da culpa e da desolação. Pedro fechou os olhos e escutou um Ahhh!!! Era o diabo.

O peso do coração apontava: bondade, compaixão e fraternidade. E Pedro, triunfante, abriu os Portões para essa nobre alma. O escritor estava entrando no Céu quando Satã gritou:

– Antes de entrar, por favor, autografe este exemplar de seu último livro. Quero mostrar aos outros anjos caídos que quase, quase consegui sua alma.

Fonte:
Isabel Furini (organizadora). Passageiros do Espelho: antologia de contos. Curitiba: Íthala, 2011.

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Antonio Brás Constante (Um Toque Sobre a Essência das Mãos)


As mãos estão conosco desde que nascemos. São cuidadosas mãos as primeiras coisas que encontramos ao chegarmos neste mundo pós-uterino, nos segurando e protegendo. Mãos de pulso firme batem com bondade em nossa corpórea fragilidade nos fazendo chorar, respirar, viver, e em outras vezes, mãos covardes espancam com maldade o nosso corpo, nos fazendo gritar, engasgar, morrer.

As mãos falam através de sinais mudos. É a mão que encontrando outras mãos, expressa sua amizade e confiança através da força e firmeza que imprime neste encontro. Os amantes pedem a mão desejada em casamento. As mãos benevolentes estão sempre abertas para auxiliar a quem precisa, mas existem mãos rancorosas que se fecham pelo ódio e cólera que a tantos intimidam.

A mão que acolhe com bondade é a mesma que empurra com brutalidade. A mão que puxa para aproximar é a mesma que solta sem demonstrar se importar. São as mãos que nos socorrem nos momentos em que a escuridão nos envolve e, sem qualquer aviso, cega o nosso olhar. Mãos que nos fazem ver, muitas vezes, aquilo que não queremos enxergar.

A mesma mão que aponta acusando é aquela que se une com outras em prece pedindo perdão. Uma mão caridosa lava a outra, lhe ajuda, protege e ampara, fazendo o que estiver ao seu alcance na hora de prestar auxilio. Mas a mão impregnada de egoísmo também lava a própria culpa de si mesma, quando quer se omitir de ajudar quem precisa.

A mão suja representa o trabalho, mas a sujeira nas mãos também é o símbolo da corrupção. As mãos vazias de riquezas, sem nada, representam a pobreza, bem como as frágeis mãos ainda tão pequenas, desamparadas e pedintes. Cruel realidade das crianças mendicantes nas sinaleiras.

São as mãos que batem continência em sinal de respeito e disciplina militar em nome de uma pátria nem sempre amada. Mas também foram elas que ficaram erguidas, o braço direito estendido para frente, simbolizando a loucura nazista que marcou uma era malograda.

São mãos amigas que amparam quando as palavras falham, nos envolvendo na comunhão de um abraço. É uma mão cheia de ternura que dá adeus quando alguém parte, e enxuga a vertente de lágrimas que escorre pela face de nosso semblante sofrido.

São as mãos que batem na porta para anunciar a chegada. Mãos cheias de energia aplaudem aqueles que admiram, e se juntam ampliando o som das vozes quando querem vaiar. As mãos unidas podem até derrubar governos…

São as mãos que acariciam vários instrumentos de corda fazendo-os tocar, espalhando os sons dos anjos pelo ar. A mão que nos alimenta é também aquela que nos auxilia a aprender a contar, brincar, trabalhar, amar.

São as mãos que abrem a carta com as notícias tão desesperadamente esperadas. E através de um simples toque de seus dedos, um clique é dado sobre o mouse, abrindo o e-mail desejado.

É a mão que aperta o gatilho da arma. É a mão que tapa a boca da vítima impedindo-a de gritar. São mãos frias que puxam a alavanca do cadafalso cumprindo a ordem de matar.

A mesma mão que escreve as verdades também rasga os direitos em sinal de intolerância, jogando pedras em corpos vivos e livros ao fogo, que ardem em nome do preconceito.

São elas que fecham nossas têmporas quando enfim rumamos para imensidão.

Foi por causa dessas mãos, dessas tantas mãos: fortes e frágeis, grandes e pequenas, jovens e velhas, negras, brancas, orientais, universais, que me pus pacientemente a dedilhar o teclado, dando vida a este pretenso texto com ares de poesia. Enfim, as mãos unidas pelo amor são a essência de nossa humanidade. Agora peço que você releia todo texto novamente, trocando as expressões que representam as “mãos” por “pessoas”… Feliz 2012.

Fonte:
Texto enviado pelo autor

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas de Ano Novo n. 436)


Uma Trova Nacional

Rogo ao ano que inicia,
Paz, Luz, Amor, como embalo,
ao raiar do novo dia
ao som do cantar do galo.
–VANDA ALVES/PR–

Uma Trova Potiguar

Ano Novo, nova vida
e muita poesia nova,
desejo a elite que lida
na lapidação da Trova!
–CLARINDO BATISTA/RN–

Uma Trova de Ademar


Neste Ano Novo, eu queria
entre nós, mais união;
e que o amor pela poesia
cresça em nosso coração!
–ADEMAR MACEDO/RN–

…E Suas Trovas Ficaram

Que o Ano Novo nos dê,
à maneira que puder,
o Bem que eu quero a você
e o Bem que você me quer!
–ALCY RIBEIRO S. MAIOR/MG–

Simplesmente Poesia

A Vida Continua
–GILSON F. MAIA/RJ–

Não é o fim, meu amigo,
a jornada continua!
Terá sequência domingo
o passeio em outra rua.
Que seja alegre a viagem!
Que seja linda a paisagem!
Ame o sol, namore a lua!

Estrofe do Dia

Que o ano que se despede
Leve com ele as tristezas,
As dúvidas e incertezas
E que todo mal se arrede,
Tudo quanto nos impede
Tome outras diretrizes,
Corte os males nas raízes
Trazendo um total renovo
Para que nesse ano novo
Possamos ser mais felizes!
–CARLOS AIRES/PE–

Soneto do Dia

No Ano Novo
–THALMA TAVARES/SP–

Ano que vem quero esquecer as dores,
quero vestir a roupa colorida,
a que me faz sorrir dos dissabores,
para enfrentar com mais humor a vida.

Eu quero repensar os meus valores,
se os tenho respeitado na medida
em que suporto a dor dos sofredores
pungindo mais minha alma dolorida.

Eu quero abrir meu peito à humanidade,
mudar meu egoísmo em caridade
e transformar-me assim no Homem Novo.

E espero que o bom Deus, nosso Senhor,
transforme este meu sonho em Paz e Amor,
em trabalho e mais pão para o meu povo.

Fonte:
Textos e imagem enviados pelo Autor

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Adélia Prado (Os Componentes da Banda)


O menino da vizinha dos fundos, trepado no muro como ele vive, deve ter investigado bem o meu quintal, porque hoje me gritou: “do-o-na, do-o-na, a mãe falou se a senhora quer vender umas panelas pra ela.”

Me desgostou muito a forma de pedir, o pedido em si. Com tanto vizinho, porque Dona Alvina foi enxergar logo as minhas panelas? A distância entre a casa dela e a minha é a mesma entre a casa dela e a do Osmar Rico. É claro que percebeu minha fraqueza. Não posso esconder, está na minha cara a atração que exercem sobre mim. São como diamantes no cascalho. Pobres, eu os farejo, pressinto, me ofereço a eles como manjar. As panelas, se estavam no barracão é porque estavam mesmo sobrando. O que não me falta é panela. Por que então não fui capaz de pegar a melhor delas e dar para Dona Alvina com o coração exultante de poder ajudar? De jeito nenhum. Primeiro disse ao menino, contrariada: as panelas não são de vender não. Fiquei com raiva dela falar em comprar, já sabendo que eu não ia vender.

Logo me arrependi, chamei o menino de volta e peguei a melhor panela, mas não pense que mandei a tampa junto. Achei-a boa demais, servia pra tampar o caldeirão onde gosto de cozinhar batatas. Dei a panela pura. Foi uma bondade boba, pela metade, sem nenhum valor. Não descansei enquanto não inventei um meio de visitar Dona Alvina. Com um mês só na casa velha, toda escorada, que o
dono do curtume deu para ela morar, já fez horta, jardim, os cacarecos são limpíssimos. A menina pequetita, paninho na cabeça, brinquinho de ouro na orelha desensebada. Fui com desculpa de comprar cebolinha e fiquei sabendo: ela faz faxina nas casas, o marido trabalha fora e só vem fim de semana, eles não são daqui não.

Muito bem, pois saí sem ter coragem de dizer a ela a única coisa que meu coração pedia que dissesse: olha, Dona Alvina, somos vizinhas e a senhora pode contar comigo no que precisar, estou à sua disposição. Isto falei toda emproada pra Dona Leonor, pra Dona Ester, porque no fundo sabia, são destas vizinhas que pedindo um dente de alho pagam logo com uma réstia de cebolas, enfim, me serviriam quando eu precisasse sem me dar amolação. Dona Alvina é diferente, porque é precisada mesmo. Se me pedir cinquenta cruzeiros vai demorar um ano pra pagar. Qual é o dinheiro que entra lá que seus quatro crioulinhos não consomem num átimo? E ela deve pensar assim: “Dona Violeta é rica, pode muito bem esperar.” Posso mesmo. Por que então, meu Deus, não sei ajudar a Alvina? Empresto o dinheiro, passam nem duas semanas fico dizendo: ao menos satisfação eu merecia; não é por causa do dinheiro. E outras bobagens mais que todo mundo fala nestas situações. O fato é que estou chateada com a mudança deles pra cá. Antes era Dona Terezinha que, bem ou mal, eu vivia acudindo. Passou mais de ano sem morador na casa, um verdadeiro descanso. Agora envém Dona Alvina que, sem saber, é um ferrão na mão de Deus. Não chupo mais uma bala sem pagar um dízimo de tristeza. Claro que está tudo errado, qualquer sacristão bobo sabe disso, menos eu que não atino com a forma de gozar dos frutos da terra, criados por Deus para todos comerem em perfeita alegria, eu inclusive.

Demoraram um dia só para descobrir minha mangueira de cinqüenta metros: “do-o-na, a mãe falou se pode emprestar a mangueira pra nós aguar a horta?” Este batido durou um mês. Pedro até botou um trapo no muro pra não esfolar a borracha. Depois foi ficando chato. Queria lavar o carro, aguar nossa horta mais cedo, a mangueira com Dona Alvina. Bibia falava: “mãe, que povo folgado, vai ser descansado assim! Acho a senhora e o pai muito bobos.” Não podia aplaudir a menina, mas por seguro matutamos: a voz das crianças é a voz de Deus.

De noite Pedro bateu na casa da Alvina para bispar a situação. Se pudesse, falou o marido, mandava ligar a água, mas onde vou arranjar dinheiro? Pedro foi na Companhia, pagou a taxa, acabou a questão da mangueira. Nem assim sosseguei: será que foi correto? Não teria sido mais edificante emprestar a mangueira com paciência até eles arranjarem modo de pagar a taxa? Vejo o marido da Alvina passar aos sábados com umas mexericas que ele arranjou pra vender e penso: nem pra dar uma satisfação, um sinal. Pedro nem se lembra mais. É diferente de mim, nunca dá meia panela. Por isso a alegria dele é inteira.

Fonte:
Adélia Prado. Os componentes da banda. Editora Rocco, 1988

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Maria Zilda da Cruz (Gemido Verde)


Frondosa, a majestosa árvore oferecia mais um verde à natureza. Sua cor pertencia ao matizado de tantos outros verdes, existentes nas grandes árvores, nos pequenos arbustos nas humildes hortaliças e nas plantas quase rasteiras. Não importa o tamanho. A diversidade do verde se espalha ao infinito!

As árvores, juntas, formam o bosque quando muitas engrandecem a terra com uma floresta. A Amazônia enriquece o território brasileiro.

Mas eis que o homem, empobrecido de pensamento, sem coração, mata o verde, tira a nobre mata e deixa pobre o solo. Forma-se um vazio na terra, despida de sua maternidade de tantas dadivosas árvores.

Em cidades hospitaleiras do verde, elas crescem orgulhosas de suas sombras. Ofertam a beleza de flores, às vezes de frutos e sempre acolhem os pássaros e outros bichinhos.

Assim era aquela gigantesca árvore; um dia fora pequenina, plantada por mãos carinhosas. Hoje, ostentava a imponência herdada de séculos de ascendência. Crescia cada vez mais: na altura, desafiando chegar próxima ao céu; na largura, ara aumentar a sombra, em proteção ao sol quente, de algum verão exagerado. Até ajudava a agasalhar a desprevenida pessoa, sem guarda-chuva, de alguma chuva passageira. Em seus galhos fortes, sustentava meninos travessos, brincalhões, sentindo-se heróis em imaginárias cavalgadas, corridas velozes sem sair do lugar, confundidos na exuberante ramagem.

Aquela árvore era a presença duradoura para mais de uma geração. Enfeitava a avenida que, com muitos alargamentos, acabara por deixá-la isolada num canteiro central. Só, ela se destacava ainda mais. Os pássaros sentiam um refúgio seguro para construir seus ninhos. Até faziam o par do amor para depois, surgirem redondos ovinhos. Então, passado o tempo da natureza, novas gerações de aves cantavam a sonoridade da vida.

Olhando ao redor, a árvore se preocupava com tantas mudanças urbanas. Não entendia muito os planos de modificações do lugar. Nem sempre deixavam o local mais bonito: o cimento, o asfalto comia a terra dos canteiros e muito verde desaparecia. Então, ela escutava um nome esquisito, progresso, que lhe causava arrepios.

Um dia, o temor se transformou em medo. Homens com grossas luvas seguravam uma serra bem forte. Com decisão e audácia contra a vida, a mortífera máquina começou a trabalhar. No vai e vem dos dentes impiedosos, a serra logo sentiu o crime de seu ato. A árvore estremecia. Os pássaros voavam pedindo socorro pelos seus ninhos, pelos ovinhos, pelos filhotes indefesos. Os galhos aos poucos caiam! Dezenas de anos, lentamente florescidos, sentiam a morte decretada. Uma imensidão de verde cobria o negro asfalto da nova avenida.

Molhada pela seiva da vida perdida, que escorria em abundância, a serra tremia um pedido de desculpas pelo que fazia. Já pressentia a avalanche de futuros remorsos, fantasmas de um crime sem culpa. Somente uma criança, parada na calçada, sentia a agonia da frondosa árvore e ouvia o gemido de dor de um verde vencido.
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Maria Zilda da Cruz é Mestra e Doutora em Psicologia pela USP. Presidente da Academia Feminina de Ciências, Letras e Artes de Santos e Membro da Diretoria da Academia Santista de Letras.

Fonte:
Texto e imagem obtidas em:
Cláudio de Cápua (editor). Revista Santos: arte e cultura. Ano V, vol. 27. Maio de 2011.

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Concurso de Poesia Popular da UBT-Maranguape (Inscrições encerram 31 de dezembro de 2011)


Ainda há tempo de você enviar o seu trabalho pelo e-mail: ubt.mpe@gmail.com

III CONCURSO DE POESIA POPULAR DA UBT-MARANGUAPE/2011

Promoção:

UNIÃO BRASILEIRA DE TROVADORES – UBT-MARANGUAPE

REGULAMENTO

1) REQUISITOS:

Cordel, sextilha, septilha, décima, glosa, poesia em trovas, poesia em quadras, acróstico, trova, haicai, poesia livre ou outro estilo de poesia, inéditos(as), que versem sobre um dos temas a seguir:

a) Fatos pitorescos, interessantes ou hilariantes ocorridos no Município de Maranguape, sobre a fundação do município ou a história de Maranguape;

b) Pessoas importantes, de destaque, populares, curiosas do município de Maranguape ou homenagem a maranguapense ou a família(s) de maranguapense(s), artistas, políticos, empresários, professores, médicos, religiosos, poetas etc;

c) Histórias ocorridas nos bairros, distritos, comunidades ou na cidade de Maranguape, inclusive de eventos no município, histórias ou poesias sobre bairros, distritos, localidades, entidades, órgãos, academias (ACLA-Academia de Ciências, Letras e Artes de Columinjuba), UBT-Maranguape (União Brasileira de Trovadores), festival do humor, empresas, associações, universidades/faculdades ou escolas do município de Maranguape;

d) Histórias interessantes, hilariantes, de ficção, sobrenaturais, científicas, folclóricas, esportivas, futebolísticas, de rádio, ambiental, política, religiosa, desfile estudantil, teatro, trilhas na serra, causos em forma de poesia, poesia livre, que tenham menção/relação com o município de Maranguape;

e) Cordel de tema livre ou outro estilo de poesia com tema livre (que não tenha relação/menção ao município de Maranguape) será aceito como participação especial.

2) LIMITES:

No máximo um trabalho por concorrente, de livre escolha do estilo e tema, de qualquer local do país/exterior. O concurso é aberto aos simpatizantes de poesias, poetas/cordelistas e estudantes.

3) ENDEREÇO PARA REMESSA DOS TRABALHOS:

a) Por e-mail para o endereço eletrônico: ubt.mpe@gmail.com

Quando da remessa deverá ser indicado nome do autor, endereço completo e telefone.

4) PRAZO PARA REMESSA:

Até 31 de dezembro de 2011.

5) CLASSIFICAÇÕES:

5 trabalhos vencedores [1º. a 5º.] / 5 Menções honrosas [6º. a 10º.] / 5 Menções especiais [11º a 15º.].

6) PRÊMIOS:

Troféu para o 1º. colocado geral e diploma para cada um dos classificados.
A prem
iação está prevista para o dia 11.03.2012, em local a ser confirmado, durante a comemoração do 8º aniversário da UBT-MARANGUAPE.

7) JULGAMENTO:

A UBT-Maranguape formará a comissão julgadora do concurso.

Obs: Serão desclassificados os trabalhos postados após 31.12.2011. Pelas simples remessa do trabalho o(a) concorrente aceita as normas do presente regulamento e autoriza a publicação e divulgação do trabalho selecionado pela UBT-MARANGUAPE através de livros, informativos, na internet e no programa Brasil Trovador pela rádio FM Maranguape 106,3. Os trabalhos não serão devolvidos.

Maranguape, CE, em 18 de julho/2011.
Moreira Lopes / Presidente da UBT-MARANGUAPE e Coordenador do Concurso.

Participe pelo e-mail: ubt.mpe@gmail.com

Fonte:
UBT Maranguape

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Concurso Literário (Conto, Crônica e Poema) da UBE– Canoas/RS (Inscrição prorrogada até 31 de Dezembro)


CONCURSO LITERÁRIO (Conto, Crônica e Poema) – Edição 2011

Homenageada: MARIA SANTOS RIGO – Presidente da Casa do Poeta de Canoas

A Coordenação da União Brasileira de Escritores (UBE) – Núcleo Canoas/RS lança nesta data o CONCURSO LITERÁRIO (Conto, Crônica e Poema) Edição 2011, que selecionará os melhores textos, observadas as especificações constantes deste Edital.

O prazo de inscrição para a participação no CONCURSO é até 31 de Dezembro de 2011, mediante o encaminhamento das obras literárias à Coordenação Geral do Concurso, conforme disposto no item 2 deste Edital.

1 DO OBJETO

O presente Edital tem como objeto a seleção de obras literárias, na modalidade Conto, Crônica e Poema, observadas as especificações abaixo, objetivando selecionar e destacar os trabalhos com maiores qualidades literárias.
A taxa de inscrição é de R$10,00 (dez reais) POR TRABALHO ENVIADO.
Os trabalhos terão TEMA LIVRE.
Os trabalhos devem ser inéditos.

2 DAS INSCRIÇÕES

2.1 A inscrição no Concurso dar-se-á mediante encaminhamento das obras literárias ao endereço:
Coordenação Geral
CONCURSO LITERÁRIO (Conto, Crônica e Poema) – Edição 2011
Rua Almirante Barroso, 51
92110-370 – Canoas/RS

2.2 As inscrições só serão recebidas pelo correio até o prazo estabelecido, considerando, para tanto, a data de postagem dos correios.

2.3 Cada participante poderá inscrever até 3 (três) trabalhos em cada categoria.

2.4 Não será admitida a participação em coautoria.


2.5 No ato da inscrição, o candidato deverá apresentar, além do comprovante da inscrição (depósito no Banco do Brasil – ag. 2663-8 conta 196.749-5, em nome de Neida Rocha Wobeto), o trabalho em 3 (três) cópias impressas, na seguinte formatação: papel A4, fonte 12 (arial ou times new roman) com no máximo 30 versos (linhas) para POEMAS e duas laudas (páginas com 35 linhas) para PROSA (Conto ou Crônica), com o título da obra, pseudônimo e especificando a categoria: Conto, Crônica ou Poema.

2.6 Os trabalhos deverão ser enviados em envelope grande que deverá conter também um envelope pequeno lacrado e em seu interior a ficha de inscrição e identificado em seu exterior com:
Títulos do(s) trabalho(s)
Categoria (Conto, Crônica e Poema)
Pseudônimo do autor

2.7 As obras literárias inscritas não serão devolvidas, sendo incineradas após o encerramento do concurso.

2.8 É responsabilidade exclusiva do autor inscrito a observância e regularização de toda e qualquer questão relativa a direitos autorais.


3 DA PARTICIPAÇÃO

3.1 O CONCURSO LITERÁRIO (Conto, Crônica e Poema) da União Brasileira de Escritores (UBE) – Núcleo Canoas/RS – Edição 2011 é de abrangência internacional e aberto a todo escritor que produza em língua portuguesa.

3.2. É vedada a participação dos membros da comissão organizadora e/ou da comissão julgadora e seus parentes em até terceiro grau no presente Concurso.

3.3 Os autores deverão ser maiores de 18 anos de idade.

4 DO JULGAMENTO

4.1 Os trabalhos apresentados serão submetidos, para análise e julgamento, à Comissão Julgadora constituída por pessoas com reconhecida capacidade intelectual, cuja decisão será soberana, não cabendo qualquer recurso quanto aos resultados por ela apontados.

4.2 Os nomes dos integrantes da Comissão Julgadora serão revelados somente na data da divulgação dos resultados.

4.3 Os textos serão julgados com base nos critérios de criatividade, qualidade técnica do texto e domínio da língua portuguesa.

4.4 A Comissão Julgadora poderá, a seu critério, conceder Menção Honrosa.

4.5 O resultado do Concurso será divulgado no endereço eletrônico http://ubecanoas.blogspot.com.

4.6 Os autores classificados serão contatados através de correspondência pessoal.

4.7 Os participantes do CONCURSO LITERÁRIO (Conto, Crônica e Poema) da União Brasileira de Escritores (UBE) – Núcleo Canoas/RS – Edição 2011 serão convidados a participar da publicação de Coletânea Cooperativada, com publicação prevista pela Editora Alternativa e lançamentos em Feiras de Livros nas quais a UBE e a Editora têm acesso.

5 DA PREMIAÇÃO

5.1 A premiação será de:

1º prêmio: R$ 300,00 (trezentos reais) + participação grátis na Coletâneas da União Brasileira de Escritores (UBE) – Núcleo Canoas/RS (com o texto premiado) + Certificado + 1 Coletânea da UBE Canoas/RS: Joaquim Moncks & Amigos;

2º prêmio: Certificado + 1 Coletânea da UBE Canoas/RS: Joaquim Moncks & Amigos;

3º prêmio: Certificado + 1 Coletânea da UBE Canoas/RS: Joaquim Moncks & Amigos.

5.2 Menções Honrosas: Certificado

6 DOS DIREITOS E OBRIGAÇÕES

6.1 Aos Autores será assegurado o reconhecimento dos direitos autorais dos trabalhos premiados, atendendo às especificações contidas no item 6.2 deste Edital, permanecendo proprietário(a) de seus direitos para quaisquer outros usos que não os aqui especificados;

6.2 Os autores, ao se inscreverem no presente concurso, concordam com a cedência de nome e imagem à União Brasileira de Escritores (UBE) – Núcleo Canoas/RS para fins promocionais deste certame e os premiados comprometem-se a atender, sempre que possível, a convites decorrentes da divulgação da obra em projetos e/ou programas desenvolvidos em parceria com a União Brasileira de Escritores (UBE) – Núcleo Canoas/RS.

6.3 À Comissão Organizadora compete promover a divulgação deste Edital nos meios de comunicação e no endereço eletrônico http://ubecanoas.blogspot.com e publicar os resultados dos textos selecionados pela Comissão Julgadora, de acordo com as especificações constantes neste Edital.

7 DAS DISPOSIÇÕES FINAIS


7.1 O ato de inscrição implica no conhecimento e concordância com os termos do Concurso estabelecidos no presente Edital, sendo que os casos omissos serão decididos pela Comissão Organizadora.

7.2 Eventuais pedidos de esclarecimento deverão ser encaminhados ao endereço eletrônico neidarocha@ube.org.br.

7.3 O descumprimento das obrigações e regras constantes do presente Edital, pelo participantes, implicará na eliminação imediata desses do certame.
Canoas/RS, 13 de Setembro de 2011.
Neida Rocha
Coordenadora do Núcleo Canoas/RS
União Brasileira de Escritores
(51) 9942-3898

FICHA DE INSCRIÇÃO


CONCURSO LITERÁRIO (Conto, Crônica e Poema) – Edição 2011
NOME DO AUTOR: _______________________
PSEUDÔNIMO : __________________________
ENDEREÇO: __________________________
CEP: _____________
CIDADE______________________ ESTADO: ________
TELEFONES:
RESIDENCIAL:
( ) _______________
COMERCIAL: ( ) ________________
CELULAR: ( ) _________________
E-MAIL: _______________________________________
SITE: _____________________________________
RG: __________________________
CPF: _________________________
LOCAL e DATA DE NASCIMENTO:
____________________ (___) ____/____/______
TÍTULO(S) DO(S) TRABALHO(S):
CATEGORIA: ( ) CONTO ( ) CRÔNICA ( ) POEMA
CURRÍCULO (máximo 8 linhas)
DECLARO ESTAR CIENTE E DE ACORDO COM O REGULAMENTO DESTE CONCURSO.
Local e data: ____________ , ______ de ______________________ de 2011.
______________________________________
Assinatura

Fonte:
Neida Rocha

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Flávio Paiva (Os Guerreiros de Nilto Maciel)

Quem passa desavisado por Baturité nem imagina que aquela cidade do maciço poderia nem existir, caso no tempo em que, na ficção do escritor Nilto Maciel, 66, ela ainda era vila, tivesse sido destruída pela revolução nativista sonhada pelo anti-herói protagonista do livro “Os guerreiros de Monte-mor” (Armazém da Cultura, 2011), que será lançado hoje, às 19 horas, na Livraria Cultura, em Fortaleza. A primeira edição dessa novela alegórica cearense foi publicada em 1988, pela editora Contexto, de São Paulo.
Enlouquecido pelos efeitos da matança colonial ocorrida por estas bandas, o personagem João Cardoso decide libertar os povos nativos do Ceará, derrubando o poder da província e o império português instalado no Brasil. Com um bode de apoio e combate, que carrega nas costas uma infantaria de morcegos engaiolados e presos a caçuás, ele parte para o enfrentamento irreversível de uma derrota histórica.
O remanescente dos Jenipapo carrega em sua caricatura um coração tapuio, a pulular por Baturité, Canindé e Barbalha até encontrar-se no desvario dos sem-memória que, indignados com o destino, passam a zanzar pela geografia, pelo linguajar e pela etno-história cearense. Neste sentido, o livro de Nilto Maciel renova uma tradição iniciada por José de Alencar (1829 – 1887), em sua característica da novela psicológica, indianista, regional e histórica.
Fico contente quando encontro a nossa literatura explorando com inteligência as identificações da cearensidade. “Os guerreiros do Monte-Mor” é alegoria quixotesca saída da gema de ovo de galinha pé duro. João e seus poucos companheiros de destemida louquidão oferecem ao leitor percursos políticos e estéticos comparáveis à exaltação utópica de Antonio Conselheiro (1893 – 1897) e de seus muitos seguidores na trágica experiência de Canudos.
Em suas desesperadas tentativas para reversão do domínio colonial, os personagens transitam pelas veredas do tempo e se relacionam com figuras da nossa historiografia, como o Naturalista Feijó (1760 – 1824) e Tristão Gonçalves (1789 – 1824). Os guerreiros de Nilto Maciel fazem o papel de si mesmos em uma narrativa que floresce na sequidão do passado esquecido de um Ceará enfatizado pela sátira romanesca da sua formação, enquanto entidade política, etnológica e literária.
As batalhas dos defensores da Revolução Nativista se dão contra o abandono, contra a falsa identificação e em favor de uma rejeição que quer participar. O autor parece fazer questão de firmar, afirmar e confirmar a marginalidade histórica e cultural do Ceará profundo. Sente-se em seu texto uma preocupação quase metodológica para que isso aconteça. Embora denso nessa suposta deliberação, o livro não perde a naturalidade, nem se inclina para simplificações ou linearidade imitativa.
O intransponível está sempre presente página por página porque a saga é inglória em sua gênese e impraticável como fator de conversão. Não há como escapar daquela sina, traçada em determinismos do passado dos exterminados, com todas as vertentes históricas e culturais e seus diversos enredos seculares. Os esforços dos guerreiros do Monte-Mor, no impetuoso enfrentamento das falsas consciências impostas pelas circunstâncias, recaem em justiça estética da maioria que se tornou minoria e que desapareceu na história oficial, ressurgindo na recriação literária como uma ideia de sociedade.
Da geografia humana cearense Nilto Maciel extrai especificidades em lembranças que até achamos que temos, mesmo que seja simplesmente convergência de ilusões. O livro se desenrola nesse vácuo, evidenciando passos e compassos perdidos de um Ceará que conhece pouco o Siará e por isso acha que do seu litoral para dentro tudo é desolação e do seu interior para fora sobeja insolação.
A novela, aparentemente sem eira nem beira de Nilto Maciel, presencia o que não existe e acaba pintando cenários de um tempo em perspectiva curva, como em um cinema 180 graus, fazendo circular inquietações esquecidas. A luta febril dos guerreiros ingênuos por uma liberdade qualquer, reescreve o que não foi sequer escrito e dá contornos abstratos ao que foi desfigurado por toda sorte de ignorância.
Em face da compreensão alterada e tosca da realidade, por parte de seu protagonista, o livro se desenrola onde tudo acontece e nada se passa; onde quase ninguém lembra e todos são profusamente convidados a ficar para trás. Essa diversão alienante é uma das curiosidades do livro “Os guerreiros do Monte-Mor”. São trabalhos literários assim que contribuem para um lugar voltar a si mesmo, desatando aspectos inconscientes de uma guerra silenciosa contra algo que nem sabemos que somos.
Rubem Alves me contou por e-mail, no sábado passado que o escritor franco-marroquino Daniel Pennac diz que a literatura nos “aliena” para, em seguida, nos trazer de volta. Ao ler “Os guerreiros de Monte-Mor” fiquei com essa sensação. Óbvio que por conta disso não quero cobrar de uma ficção o preenchimento de lacunas historiográficas, mas bem que a leitura do livro de Nilto Maciel me levou a recordar de algumas expressões e cacoetes culturais da cearensidade que gostei de reencontrar: no lugar de “triste” ele coloca “capiongo”; onde seria “desajeitado”, ele escreve “marmotoso”; e se alguém está montado a cavalo, ele diz que vai “escanchado”.
A despeito de o livro ter um glossário, o ritmo de leitura pode ser lento para quem não conhece os códigos do palavreado e do jeito atoleimado de se expressar dos guerreiros e do autor. Sabe-se que as histórias que ouvimos quando criança praticamente determinam a imagem que fazemos de nós e do mundo. Isso, de certo modo, torna-se um desafio aos que chegam ao Monte-Mor sem saber muito bem como aproveitar o papel não historiográfico das metáforas.
Quem guarda consigo conteúdos da cearensidade pode beber sorvendo essa narrativa bem humorada, mas quem não estiver familiarizado com isso precisa estar com sede para ingeri-la. Ler trabalhos como o dos guerreiros de Nilto Maciel requer o esforço de quem cava cacimba em leito de rio seco, com a paciência de esperar a revência pingar a água infiltrada nas raízes, pela paisagem subterrânea dessa literatura com cheiro de Lunário Perpétuo. O bom é que nela, não há subentendidos, tudo pode ser desperdiçado, que a prosa não vai embora, fica com o leitor pela força monogênica do texto.
Os revolucionários João, José e Xocó estão mais vivos do que nunca. Na tentativa de fazer uma primavera tapuia, eles podem ser associados às transformações que estão sendo processadas na atualidade pelo conflito entre as crenças no darwinianismo cultural e o realce das diferenças. Na condição de agitadores marginais, poderão até sair vitoriosos fora do livro, se a inclinação dos desfechos das lutas cidadãs tenderem para a perda da hegemonia das narrativas colocadas a serviço da replicação das estruturas sociais, ideologias e doutrinações dominantes.
A literatura tem a liberdade de dizer que nem tudo o que está posto sempre foi ou será desse ou daquele jeito. Em “Os guerreiros de Monte-Mor”, Nilto Maciel captura do passado um espírito impetuoso plural e aberto ao discurso crítico, reflexivo, cômico e divertido. É uma guerra que se dá no âmbito da inquietação delirante, mas seus guerreiros, mesmo não conseguindo o que talvez quisessem, conquistaram o direito de procurar por um poder, qualquer que seja, desde que melhor do que o desencanto e o abandono.

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Nilto Maciel (Os Guerreiros de Monte-Mor: Construtor de Igrejas)

João levava muito a sério a questão da raça, apesar de em suas veias correr sangue português. Sua mãe havia nascido de uma relação entre o sesmeiro Domingos Carneiro e uma índia jenipapo. Compreendia, no entanto, a impossibilidade de uma nova guerra, como desde menino ouvia seu pai pregar, e cedo se apaixonou pelos ideais dos inconfidentes mineiros, sentimento que lhe valeu bordoadas da guarda imperial.

Mal curou‑se dos ferimentos, desceu a serra e, sem dar um pio, foi direto à matriz, onde orou, ajoelhado diante da imagem de Nossa Senhora da Palma, durante um dia inteiro. Ao retirar‑se, o povo, doido para ver de perto o filho de Antônio Cardoso, enchia a praça, tal como no dia da inauguração da vila.

Antes mesmo da viração da tarde, já uma pequena multidão se postava à frente da igreja, curiosa, bisbilhoteira, zombadora.

– É o inconfidente.

Pelo pender do sol, havia subido a serra o primeiro pregoeiro a anunciar novidades em Monte‑Mor: João da Silva Cardoso, o contador de lorotas, preparava‑se para subir aos céus. Com pouco, a praça virava feira: o cruzeiro enchia‑se de pencas de banana; no obelisco, penduradas em paus, cacarejavam dezenas de galinhas.

Finda a prolongada reza, João escapuliu pela sacristia e, tomando o rumo do mato, apressado e tonto, deixou a multidão apalermada.

– Ele voou para o céu.

Os mais incrédulos acreditavam ter ele se escondido dentro do sacrário. Mas, antes de o sol se pôr, dava João boas‑noites ao pai de Maria do Amparo. Mal recebido de início, pouco a pouco aman­sou o velho. Ia se dedicar a trabalho rendoso – o de construtor. Quis blasonar, mordeu a língua, cutucado pela voz do pai dentro das oiças.

Conversa vai, conversa vem, entraram no assunto principal – a mão da donzela. O dono da casa fez promessas, João dizia sim senhor. Não tocaram no caso da surra, nem em negócios de metal. Só no finzinho do entendimento, o rapaz fez resumo de um romance que falava da conversão de um príncipe à Santa Madre Igreja. E se despediram como velhos compadres.

Daí em diante, João virou frequentador de igrejas e da casa do futuro sogro. Não dizia para ninguém, mas conduzia sempre um terço pendurado ao pescoço e, quando não conversava lorotas, rezava feito um penitente. Jurava a si mesmo que ia ser santo e ter altar só seu na matriz.

Virou e mexeu, noivou. Deixou os romances de lado e vivia ora na casa do sogro, ora aos pés dos santos.

Na primeira conversa mantida com o padre, falou da necessidade de mais igrejas e capelas na vila. O apóstolo concordou com suas opiniões e aproveitou‑se delas para relatar o estado de pobreza da freguesia. A matriz precisava de reformas, vinho e hóstia. Aparecessem pedreiros e pintores, bem que Deus agradecia.

Ao beijar a mão do padre, João reafirmou sua fé e boa vontade. Podia o outro arranjar os trabalhadores e o material, e deixasse o resto com ele.

– Vou mostrar como se remodela uma igreja pai‑d’égua como essa.

O reverendo levou o crucifixo aos lábios e olhou para o céu, sem palavras.

Fonte:
Nilto Maciel. Os Guerreiros de Monte-Mor. 2.ed. Fortaleza: Armazém da Cultura, 2011.

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Ademar Macedo (Mensagens Poéticas de Ano Novo n. 435)

 Uma Trova Nacional
Que 2012 seja
tempo de amor e harmonia…
e que você, onde esteja,
viva com Deus, todo dia!
VANDA FAGUNDES QUEIROZ/PR
 Uma Trova Potiguar
Na minha “sonhocultura”,
vou cultivar para o povo,
leirões de literatura
para enfeitar o Ano Novo.
FRANCISCO MACEDO/RN
 Uma Trova Premiada
2000 – Petrópolis/RJ
Tema: Ano 2000 – 13º Lugar
Que os anos 2000 nos falem
de novos feitos de luz,
mas que seus ecos não calem
a voz que bradou na cruz!
DOROTHY JANSSON MORETTI/SP
 Uma Trova de Ademar
Eu desejo aos Trovadores,
Convicto e cheio de pose:
Muita Paz…Muitos amores
e um feliz “2012” !!!
ADEMAR MACEDO/RN
 …E Suas Trovas Ficaram
Deus com seu saber profundo,
para nos trazer a paz,
mandou o seu filho ao mundo
há dois mil anos atrás
MIGUEL RUSSOWSKY/SC
 Simplesmente Poesia
Um Mundo Menos Aflito
 HÉLIO ALEXANDRE/RN
Que o novo ano sorria,
que o amor não se desgaste,
toda tristeza se afaste
e se aproxime alegria;
espero que a fantasia
se torne realidade
para que a fraternidade
substitua o conflito,
e um mundo menos aflito
encontre a felicidade.
 Estrofe do Dia
Ano novo, vida nova,
assim diz velho refrão,
mas a vida ensina e prova
que em qualquer situação,
só o amor constrói o bem,
tornando feliz quem tem
afeto no coração.
VITOR RONALDO COSTA/DF
 Soneto do Dia
Dois Mil e Doze
RAYMUNDO DE SALLES BRASIL/BA
Dois mil e doze vai se aproximando,
receoso, talvez, do que lhe espera,
dar fim a tanta droga! Ah, quem lhe dera!
E prender de uma vez quem está roubando.
Tarefa ingente sob o seu comando,
tempo tão curto para tanta espera,
enorme corrupção que prepondera,
e essa pobreza ínfima grassando.
Reveste-te, ANO NOVO, de poder!
De onde quer que tu venhas, venhas rei,
trazendo um velho lema contundente
que clama: ser, é bem melhor que ter,
e todos são iguais perante a lei,
e merecem viver honradamente!
Fonte:
Textos enviados pelo autor

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Monteiro Lobato (Reinações de Narizinho) Cara De Coruja –VII – A coroinha

Depois que Narizinho e as princesas se enjoaram de ver aquela maravilha, resolveram dançar. A boneca imediatamente saiu para arranjar pares. Foi ao terreiro e trouxe de lá o príncipe Ahmed, o príncipe Codadad e outros. Narizinho agarrou Codadad antes que alguma princesa o fizesse, e saiu dançando com ele como se fosse uma princesa oriental. Branca de Neve dançou com o príncipe Ahmed. Rosa Vermelha foi tirada por Ali Babá, e Rosa Branca, pelo Gato de Botas. Só Cinderela não dançou para não estragar os seus sapatinhos de camurça. Nisto o Visconde, que ainda estava à janela, gritou:
— Estou vendo uma poeirinha lá longe… Todos pararam de dançar, murmurando: “Quem poderá ser?” Logo depois duma batidinha na porta, Rabicó introduziu a menina da Capinha Vermelha.
— Capinha! — exclamaram todas alegríssimas, porque todas queriam muito bem a essa gentil criança. Viva Capinha!…
A menina entrou, muito corada por ter vindo a pé, e disse:
— Boa tarde para todos os presentes, ausentes e parentes !
Em seguida deu um beijo em Narizinho e outro na boneca.
— Antes de mais nada — foi dizendo Emília — quero saber o seu verdadeiro nome, porque uns dizem Capinha Vermelha e outros, Capuzinho Vermelho. Qual é o certo?
— Meu verdadeiro nome é Capinha Vermelha, porque depois que vovó me fez esta capinha todos que me viam ir para a casa dela diziam: “Lá vai indo a menina da capinha vermelha!” Mas, como vocês podem ver, esta capinha tem um capuz, que eu às vezes uso. De modo que tanto podem chamar-me Capinha, como Capuzinho, ou mesmo Chapeuzinho Vermelho.
— Coitada de sua avó! — exclamou Emília. — Você não imagina como ficamos tristes com o que lhe aconteceu! Diga-me: sua avó era muito magra?
Capinha estranhou a pergunta — mas respondeu que sim.
— Muito magra ou meio magra?
— Bem magra.
— Então não entendo aquele lobo — disse Emília – porque uma velha muito magra não é alimento. Só osso…
Todos riram-se da boneca, e Narizinho explicou que Emília, coitada, era asnática de nascença. Nisto o relógio bateu cinco horas.
— As senhoras princesas e os senhores príncipes – disse Narizinho — estão convidados para um café. E voltando-se para a cozinha:
— Tia Nastácia! Traga um café bem gostoso para estes ilustres amigos.
Quando tia Nastácia entrou na sala com a bandeja de café, seus olhos se arregalaram de espanto.
— Credo! — exclamou. — Não sei onde Narizinho descobre tanta gente importante e tanta princesa tão linda! A sala está que até parece um céu aberto…
— Quem é ela? — perguntou Branca de Neve ao ouvido da boneca enquanto a negra servia o café.
— Pois não sabe? — respondeu Emília com carinha malandra.
— Nastácia é uma princesa núbia que certa fada virou em cozinheira. Quando aparecer um certo anel, que está na barriga dum certo peixe, virara princesa outra vez. Quem vai danar com isso é dona Benta, que nunca achará melhor cozinheira.
Quando tia Nastácia veio servir Narizinho, a menina notou qualquer coisa enganchada em sua saia.
— Que é isso, Nastácia? Tem jeito de uma coroinha.
A negra abaixou-se.
— Credo! — exclamou. — Até parece feitiço. Uma coroinha de rei, sim… É que fui ao quintal buscar um pau de lenha e quase nem pude andar de tanto rei e fada e princesa que vi por lá. Com certeza esbarrei nalgum reizinho e a coroa enganchou na minha saia. Mas não foi por querer, não. Credo!…
— Estou conhecendo essa coroa! — exclamou Rosa Vermelha.
— É do meu sogro, o poderoso rei que mora atrás do meu castelo. Com certeza viu passar o bando da Xerazade e correu atrás e na carreira deixou cair a coroa.
E guardou-a no bolso para restituí-la ao seu dono. Todos tomaram café, menos Cinderela.
— Só tomo leite — explicou a linda princesa. — Tenho medo de que o café me deixe morena.
— Faz muito bem — disse Emília. — Foi de tanto tomar café que tia Nastácia ficou preta assim…
–––––––
Continua… Cara de Coruja– VIII – A Varinha de condão
Fonte:
LOBATO, Monteiro. Reinações de Narizinho. Col. O Sítio do Picapau Amarelo vol. I. Digitalização e Revisão: Arlindo_Sa

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Blog com Nova Roupagem

O Blog está com nova cara.

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Carolina Ramos (Árvore)

Verde bandeira desfraldada ao vento,
árvore amiga, o olhar que te procura
busca repouso e vai achar alento
na sombra que lhe estendes, lá da altura!
A sede abrasa! E o fruto sumarento
entregas, com requintes de ternura,
a quem poda a raiz que é teu sustento
ao extrair do solo a seiva pura!
Ramos erguidos, abraçando o espaço,
tua ânsia de dar não tem cansaço!
Tua benção de amor não tem medida!
E embora tanto dês e nada colhas,
com o verde pincel de tuas folhas
vais colorindo de esperança a vida!

Fonte:
Carolina Ramos. Destino: poesias. SP: EditorAção, 2011.

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António Botto (A Rolinha Nervosa)

     Certa manhã, Nica zangou-se com Mica e Tica. Estas três rolas bravias não se davam muito bem.

     Nica afastou-se para um canto e ali ficou de olhos cerrados. Zangada, nem queria fixar as irmãs. E detestava a natureza inteira: os arvoredos, a lua, o sol, as estrelas, as nuvens, os caminhos, as fontes, – tudo, tudo a aborrecia ou enervava, dizia.

     Nisto, um passarinho amarelo pôs-se a cantar empoleirado num galho de marmeleiro…

     – Tu não vês aquele pássaro, Mica, a fazer troça de ti?

     – Não pode ser, disse a Mica; a esta hora, os passarinhos têm mais em que pensar.

     Nica, então, distraiu-se, passeou, compôs o ninho, e quando nas águas de um charco molhou o bico e lavou as penas do peito, o mesmo passarinho amarelo ainda gorjeava alegremente.

     – Que passarinho tão amável!, exclamou ela. A cantar e a chamar-me linda! Não é o mesmo que à pouco se pôs a troçar de mim, certamente.

     – É o mesmo, responde Tica; e diz o que à pouco dizia. Tu é que não és a mesma.

Fonte:
Os Contos de Antonio Botto. RJ: Livraria Bertrand.

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Marly de Oliveira (Antologia Poética)

CERCO DA PRIMAVERA

5.

Molhava os cabelos negros
nas águas da noite, quando
cheio de sombra acendeste
uns olhos cor de limão,
iluminando o silêncio
com o simples tocar de mão.

Um rumor de vinho claro,
de bocas e mãos unidas
e um cheiro de mel e flor,
rasparam, ai, como espada,
meu corpo cheio de noite
e o teu, perdido de amor.

Por certo que não queria,
mas tinha a cintura e jeito
ao teu abraço achegados,
e na sombra relumbrava
a água verde dos teus olhos
nos meus cabelos molhados.

Tremores de vento e lua
encabritavam-me o sangue,
e penas de sal e fogo
talavam o silêncio escuro,
ferindo nossas cadeiras
e amarfanhando o chão duro.

Em frio e fogo de amor
apenas luz se alongaram
curvados talhes desnudos.
E nas sombras o silêncio
agitava como franjas
seus longos braços agudos.

RETRATO

Deixei em vagos espelhos
a face múltipla e vária,
mas a que ninguém conhece
essa é a face necessária.

Escuto quando me falam,
de alma longe e rosto liso,
e os lábios vão sustentando
indiferente sorriso.

A força heróica do sonho
me empurra a distantes mares,
e estou sempre navegando
por caminhos singulares.

Inquiri o mundo, as nuvens
o que existe e não existe,
mas, por detrás das mudanças,
permaneço a mesma, e triste.

               De Cerco da Primavera (1958)

EXPLICAÇÃO DE NARCISO

1.
A carne é boa, é preciso louvá-la.
A carne é boa, não é triste ou fraca.
O que a atinge é a fraqueza que há num homem,
a tristeza, maior que um homem, mata-a.
A carne nada tem, salvo o seu sono,
barro tranqüilo de harmoniosa forma,
corpo que distraídos animamos,
fonte real de toda a nossa glória.
A carne é o instrumento do princípio,
é por ela que eu vivo, que vivemos,
e se revela o amor como é preciso;
o que está fora se une ao que está dentro,
alma e corpo no corpo confundidos,
e a sensação completa de estar vendo.

18.

Num tempo alheio ao tempo, a sós comigo
mais uma vez diante de mim, me escuto:
o meu rebanho ficou longe, longe,
e sou pastor apenas do meu luto.
Mana de mim como um silêncio o amor,
e uma angústia, uma estrela em que me escudo
extremamente para não morrer,
de meus próprios recursos inseguro.
Que saudade de mim me vem agora
quando revejo a fonte com seu brilho
onde meu rosto urgia um tempo-outrora!
Permanência do amor ou desafio
ao tempo, no âmago de mim se vota
um sol eterno e cada vez mais frio.

               De Explicação de Narciso (1960)

A SUAVE PANTERA

1.
Como qualquer animal,
olha as grades flutuantes.
Eis que as grades são fixas:
Ela, sim, é andante.
Sob a pele, contida
— em silêncio e lisura —
a força do seu mal,
e a doçura, a doçura,
que escorre pelas pernas
e as pernas habitua
a esse modo de andar,
de ser sua, ser sua,
no perfeito equilíbrio
de sua vida aberta:
una e atenta a si mesma,
suavíssima pantera.

11.

Como no fundo da ostra a pérola
ela se deita veludosa,
mas anda com patas rebeldes
seu coração com uma glória.
Tem um ritmo de silêncio
a força com que ele desprega
as patas a cada momento,
numa espécie de ânsia secreta.
Violento é o sono do seu corpo,
mas sem aspereza nenhuma,
igual à queda de uma coifa
brusca e silente na verdura,
sem direção, igual à paina
mas uma paina concentrada,
mas uma paina vigorosa,
seu sono cego, cheio de asas.

               De A Suave Pantera (1962)

O SANGUE NA VEIA
25.

Escrevo; logo, sinto, logo, vivo,
e tiro-lhe ao viver a indisciplina
que o espraiaria, que o dispersaria,
e dou-lhe a minha forma comedida,
a que tem o tamanho de um amor
que eu guardo, que não gasto, não disperso;
amor que se concentra em dura pérola,
não pétala, não isto que é um excesso,
pois que pode voar; o que me fica
de tudo o que acontece e não se altera,
de tudo o que acontece e me escraviza,
e do que escravizando me liberta.
Escrevo; logo, sou quem se domina,
e quem avança numa descoberta.

               De O Sangue na Veia (1967)

XVI

                              À Mônica (aos três anos)

Um súbito silêncio enfreia a mágica
aventura de estar entre os objetos
que apenas reconhece. Ela adormece
a meus pés como um gato, um bicho quieto,
com doçura felina, suave e intensa,
recolhida em si mesma contra o frio
da noite. Ela me é, me dorme no seu sono,
desdobrada de mim, além de mim,
que a recebi sem entender, atenta
ao milagre de vida de que fui
receptáculo apenas, serva mansa,
e em tudo obediente à natureza.
Dorme a meus pés, e meu amor reinventa-se
vendo-a tão calma assim, tão sem defesa.

               De Contato (1975)

Clarice

XVIII.

Revejo seu rosto nos vários retratos:
cada um capta algo, nenhum a totalidade
do que ela foi, do que é ainda,
a cada instante outra/renovada.
Eu sei que ela tocou no escuro o Proibido
e conheceu a Paixão
com todas as suas quedas.
Quem esteve a seu lado sabe
o que é fulguração de abismo
e piscar de estrela na treva.

               De Aliança (1979)

Alguns poemas

11. 

Um dia vou ser apenas uma biografia.
Nem isso, talvez, uma inscrição
numa pedra qualquer,
no pó que o vento leva,
na memória inconstante dos que amei
de forma certa.

29. Ser poeta não é ambição minha,
diz Pessoa,
é a minha maneira de estar sozinho.
É também a maneira de esquivar-me
à ação, eu acrescento,
subjugada por forças poderosas,
enquanto o pensamento
cava fundo
no abismo.

30. A função do poema: conhecer,
A função do teorema: desafio
que leva à abstração, à conjetura.
A função da esperança: convencer
que o poema, o teorema, a ciência, a invenção,
o semáforo, a história, a explosão
de Hiroshima; Picasso e sua glória;
o decalque, a estrutura, a rachadura,
a ruptura, a eternidade, a desmemoria;
a ignorância, a pobreza, a riqueza,
a insuficiência, a morte têm sentido.

INSCRIÇÃO

Eu. E diante da vida,
com meu azul intacto,
Um esbatido de pássaros.
Alto no vento. Grato.

A sensação de ser
só, uno, um, completo.
No redondo das horas,
pleno, lúcido, cego.

O que de mim salvando
se vai a cada instante,
nesse morrer diário
e sucessivo: um canto.

TRÊS POEMAS DE OUTUBRO

1. 

Lume, teu rosto,
agudo e novo
como um descobrimento,
E tuas mãos silêncio,
como noturno fruto
pendido sobre mim.
Eu em ti,
com meus arroubos de ave,
mas sem querer partir.

2. 

Quando às vezes te assalto
com meu querer noturno,
ébrio de mãos e beijos,
não é alguém que busca
o limiar de um lábio
ou vinho, para a mesa.
Alguém de copo em mão,
no umbral da tua porta,
o infinito suposto
quer, para além do umbral
e para além da porta.

3. 

No céu inteiro penso,
amplo de vôos límpidos
e bicos musicais,
torso desnudo e azul
como o de um pombo triste,
nuvens como asas doces,
de um corpo altivo e elástico.
No espaço em que naufrago,
onde as horas não querem
portais ou tetos, penso,
quando te chamo pássaro.

MORTE

E lutarás comigo,
fresca ainda de vento,
presa às luzes do dia
pelos cabelos últimos.
Quebrantarás meus olhos,
sei.
Apagarás as mãos
para a ternura,
para o amor,
também sei.
E alçarás a distância
entre mim e quem amo,
imperdoável.
E me terás por fim.
Mas se entrega, dura.
Mais que difícil,
fria.

ELEGIA
 

Teu rosto é o íntimo da hora
mais solitária e perdida,
que surge como o afastar-se
de ramos, brando, na noite.
Não choro tua partida.

Não choro tua viagem
imprevista e sem aviso.
Mas o ter chegado tarde
para o fechar-se da flor
noturna do teu sorriso.

O não saber que paisagens
enchem teus olhos de agora,
e este intervalo na vida,
esta tua larga, triste,
definitiva demora.

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Marly de Oliveira ( 1935-2007)

Professora e ensaísta capixaba Marly de Oliveira nasceu em Cachoeiro do Itapemirim (ES), onde viveu a infância e a adolescência na cidade fluminense de Campos dos Goytacazes.

Marly de Oliveira, poeta, professora e ensaísta, era capixaba de Cachoeiro do Itapemirim, embora tenha vivido a infância e adolescência na cidade fluminense de Campos, onde muito cedo se iniciou na literatura, publicando poemas em jornais e revistas. Mudou-se depois para o Rio de Janeiro, onde diplomou-se em Letras Neo-Latinas pela Pontifica Universidade Católica. Recebeu bolsa de estudos para cursar História da Língua Italiana e Filologia Românica na Universidade de Roma. Ali conheceu o grande poeta Giuseppe Ungaretti, que havia lecionado por algum tempo na Universidade de São Paulo e que, ao ler uma breve coletânea de poemas escritos em italiano pela jovem estudante brasileira, decidiu entusiasmado apresentá-la pessoalmente em um programa literário da rádio-televisão local, referindo-se textualmente ao milagre de criação daqueles versos escritos por uma estrangeira em um italiano luminoso. Seus poemas escritos em italiano impressionaram vivamente o poeta Giuseppe Ungaretti, que declarou sobre ela em 1960: “Como terá feito esta jovem para apoderar-se de nossa língua, de sua secreta musicalidade (…)? É um milagre, simplesmente poesia em um italiano luminoso.”

Do mesmo modo, em seus escritos em português, Marly de Oliveira conquistou aplausos de gente como Clarice Lispector, Leo Gilson Ribeiro e Antonio Houaiss.

De volta ao Brasil, Marly de Oliveira passa a lecionar Literatura Hispano-Americana na Universidade Católica do Rio e de Petrópolis, e Língua e Literatura Italiana na Faculdade de Filosofia de Nova Friburgo.

Casa-se com diplomata brasileiro e vive alguns anos em Buenos Aires, Genebra e Brasília.

Na década de oitenta casa-se, pela segunda vez, com João Cabral de Melo Neto, com quem reside em Portugal e depois no Rio, até a morte deste, em outubro de 99.

Em 1º de junho de 2007, Marly de Oliveira falece em um hospital do Rio de Janeiro, após quase quatro meses de internação.

Foi casada em segundas núpcias com o poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999).

Voltada desde cedo para a poesia, Marly publicou cerca de 15 livros do gênero, sem contar antologias e a Obra Poética Reunida, que veio a público em 1989.

Cerco da Primavera (1957)
Explicação de Narciso (1960)
A Suave Pantera (1962)
A Vida Natural (1967)
O Sangue na Veia (1967)
Contato (1975)
Invocação de Orpheu (1978)
Aliança (1979)
A Força da Paixão e A Incerteza das Coisas(1982)
Retrato / Vertigem / Viagem a Portugal(1986)
O Banquete (1988)
Obra Poética Reunida (1989)
O Deserto Jardim (1990)
O Mar de Permeio (1998)
Antologia Poética (1998)
Uma vez, sempre (2000).

Venceu, em 1998, o Prêmio Jabuti com “O Mar de Permeio”.

Fontes:
Carlos Machado. Poesia.net – numero 272 – ano 10.
http://www.algumapoesia.cdm.br 
http://pt.wikipedia.org/wiki/Marly_de_Oliveira
http://marlydeoliveira.blogspot.com/

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Lima Barreto (Anúncios…anúncios)

Quando bati à porta do gabinete de trabalho do meu amigo, ele estava estirado num divã improvisado com tábuas, caixões e um delgado colchão, lendo um jornal. Não levantou os olhos do quotidiano, e disse-me, naturalmente:

– Entra.

Entrei e sentei-me a uma cadeira de balanço, à espera de que ele acabasse a leitura, para darmos começo a um dedo de palestra. Ele, porém, não tirava os olhos do jornal que lia, com a atenção de quem está estudando coisas transcendentes. Impaciente, tirei um cigarro da algibeira, acendi-o e pus-me a fumá-lo sofregamente. Afinal, perdendo a paciência, fiz abruptamente:

– Que diabo tu lês aí, que não me dás nenhuma atenção?

– Anúncios, meu caro; anúncios…

– É o recurso dos humoristas à cata de assuntos, ler anúncios.

– Não sou humorista e, se leio os anúncios, é para estudar a vida e a sociedade. Os anúncios são uma manifestação delas: e às vezes, tão brutalmente as manifestam que a gente fica pasmo com a brutalidade deles. Vê tu os termos deste: “Aluga-se a gente branca, casal sem filhos, ou moço do comércio, um bom quarto de frente por 60$ mensais, adiantados, na Rua D., etc., etc.” Penso que nenhum miliardário falaria tão rudemente aos pretendentes a uma qualquer de suas inúmeras casas; entretanto, o modesto proprietário de um cômodo de sessenta mil-réis não tem circunlóquios.

– Que concluis daí?

– O que todos concluem. Mais vale depender dos grandes e dos poderosos do que dos pequenos que tenham, porventura, uma acidental distinção pessoal. O doutor burro é mais pedante que o doutor inteligente e ilustrado.

– Estás a fazer uma filosofia de anúncios?

– Não. Verifico nos anúncios velhos conceitos e preconceitos. Queres um outro? Ouve: “Senhora distinta, residindo em casa confortável, aceita uma menina para criar e educar com carinhos de mãe. Preço razoável.Cartas para este escritório, a Mme., etc., etc.”

Que te parece este anúncio, meu caro Jarbas?

– Não lhe enxergo nada de notável.

– Pois possui.

– Não vejo em quê.

– Nisto: essa senhora distinta quer criar e educar com carinhos de mãe, uma menina; mas pede paga, preço razoável – lá está. É como se ela cobrasse os carinhos que distribuísse aos filhos e filhas. Percebeste?

– Percebo.

– Outra coisa que me surpreende, na leitura da seção de anúncios dos jornais, é a quantidade de cartomantes, feiticeiros, adivinhos, charlatães de toda a sorte que proclamam, sem nenhuma cerimônia, sem incômodos com a polícia, as suas virtudes sobre-humanas, os seus poderes ocultos, a sua capacidade milagrosa. Neste jornal, hoje, há mais de dez neste sentido. Vou ler este, que é o maior e o mais pitoresco. Escuta: “Cartomante – Dona Maria Sabida, consagrada pelo povo como a mais perita e a última palavra da cartomancia, e a última palavra em ciências ocultas; às excelentíssimas famílias do interior e fora da cidade, consultas por carta, sem a presença das pessoas, única neste gênero – máxima seriedade e rigoroso sigilo: residência à rua Visconde de xxx, perto das barcas, em Niterói, e caixa postal número x, Rio de Janeiro. Nota: – Maria Sabida é a cartomante mais popular em todo o Brasil”. Não há dúvida alguma que essa gente tem clientela; mas o que julgo inadmissível é que se permita que “cavadoras” e “cavadores” venham a público, pela imprensa, aumentar o número de papalvos que acreditam neles. É tolerância demais.

– Mas, Raimundo, donde te veio essa mania de ler anúncios e fazer considerações sobre eles?

– Eu te conto, com algum vagar.

– Pois conta lá!

Eu me dava, há mais de um decênio, com um rapaz, cuja família paterna conheci. – Um belo dia, ele me apareceu casado. Não julguei a coisa acertada, porque, ainda muito moço, estouvado de natureza e desregrado de temperamento, um casamento prematuro desses seria fatalmente um desastre. Não me enganei. Ele era gastador e ela não lhe ficava atrás. Os vencimentos do seu pequeno emprego não davam para os caprichos de ambos, de forma que a desarmonia surgiu logo entre eles. Vieram filhos, moléstias, e as condições pecuniárias do ménage foram ficando atrozes e mais atrozes as relações entre os cônjuges. O marido, muito orgulhoso, não queria aceitar os socorros dos sogros. Não por estes, que eram bons e suasórios; mas pela fatuidade dos outros parentes da mulher, que não cessavam de lançar na cara desta os favores que recebia dos pais e decuplicar os defeitos do seu marido. Freqüentemente brigavam, e todos nós, amigos do marido, que éramos também envolvidos no desprezo liliputiano dos parentes da mulher, intervínhamos e conseguíamos apaziguar as coisas por algum tempo. Mas a tempestade voltava, e era um eterno recomeçar. Por vezes, desanimávamos; mas não nos era possível deixá-los entregues a eles mesmos, pois ambos pareciam ter pouco juízo e não saber afrontar dificuldades materiais com resignação.

Um belo dia, isto foi há bem quatro anos, depois de uma disputa infernal, a mulher deixa o lar conjugal e procura hospedagem na casa de uma pessoa amiga, nos subúrbios. Todos nós, os amigos do marido, sabíamos disso; mas fazíamos constar que ela estava fora com os filhos. Em determinada manhã, aqui mesmo, recebo uma carta com letra de mulher. Não estava habituado a semelhantes visitas e abri a carta com medo. Que seria? Fiz uma porção de conjecturas; e, embora com os olhos turvos, consegui ler o bilhete. Nele, a mulher do meu amigo pedia-me que a fosse ver, à rua tal, número tanto, estação xxx, para se aconselhar comigo. Fui de coração leve, porque a minha intenção era perfeitamente honesta. Em lá chegando, ela me contou toda a sua desdita, passou dez descomposturas no marido e disse-me que não queria saber mais dele, sendo a sua tenção ir para o interior trabalhar. Perguntei-lhe com o que contava. Na sua ingenuidade de menina pobre, criada com fumaças de riqueza, ela me mostrou um anúncio.

– Então, é daí?

– É daí, sim.

– Que dizia o anúncio?

– Que, em Rio Claro ou São Carlos, não sei, numa localidade do interior de São Paulo, precisavam-se moças para trabalhar em costuras, pagando-se bem. Ela me perguntou se devia responder, oferecendo-se. Disse-lhe que não e expliquei-lhe a razão. Tão ingênua era ela, que ainda não tinha atinado com a malandragem do anunciante… Despedi-me convencido de que seguiria o meu conselho leal; mas, estava tão fascinada e amargurada, que não me atendeu. Respondeu.

– Como soubeste?

– Por ela mesma. Ela me mandou chamar novamente e mostrou-me a resposta do meliante. Era uma cartinha melosa, com pretensões de amorosa, em que ele, o desconhecido correspondente, insinuava que coisa melhor do que costuras ela iria encontrar em Rio Claro ou São Carlos, junto dele. Pedia-lhe o retrato e, logo que fosse recebido, se agradasse, viria buscá-la. Era rico, podia fazer.

– Que disseste?

– O que devia dizer e já tinha dito, pois já previa que o tal anúncio fosse uma cilada, e cilada das mais completas. Que dizes agora do meu pendor pelas leituras de anúncios?

– Tem o que se aprender.

– É isto, meu caro: há anúncios e… anúncios…

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