Franz Kreüther Pereira (Painel de Lendas & Mitos da Amazônia) Parte 5


Trabalho premiado (1º lugar) no Concurso “Folclore Amazônico 1993” da Academia Paraense de Letras

A PRESENÇA DO ANIMAL E DO SEXO NO MITO

Os elementos de narrativa mitológica, maximé na região amazônica, são quase todos zoomorfos, e aí reside também um conteúdo simbólico cujas raízes perderam-se nos eões da história humana. Aparentemente o animal personifica algumas qualidades humanas, como por exemplo, a astúcia, que nas lendas tapuias encontra-se caracterizada no inofensivo jabuti, enquanto que nos mitos de origem européia, a mesma qualidade é atribuída à raposa; e na mítica africana, ao macaco. Como a nossa cultura recebeu legado das três raças – aborígene, negra e européia – encontramos com facilidade traços dessa miscigenação nalgumas lendas e contos por todo território nacional. É de se observar, porém, que a região Norte guarda ainda muito do acervo ancestral, ao passo que para a região Sul e Centro-Oeste, principalmente, as freqüentes correntes migratórias acrescentaram novos adornos, enfeites, adereços, de sorte que resta pouco do espírito fundamental que vive nas tradições populares.

Vejamos a opinião do já citado autor de “O Mundo Mágico dos Sonhos”:

“O animal é sobretudo o instinto no que pode ser mais agudo: o Ver ou o Sentir, e também a Audição. Pelos seus órgãos sensoriais muito desenvolvidos, ele percebe e capta toda espécie de informações, de influências, de indícios, de sinais, que o homem não poderá jamais perceber. Para as sociedades primitivas, o animal estava presente na terra bem antes do homem; chamam-no o Ancestral, e nós carregamos, segundo a entidade totêmica à qual somos ligados, a marca, a característica astral de um ou outro animal, se não de vários….”[34]

Buscar nos animais características ou atributos necessários a um guerreiro, é costume em todos os povos primitivos. Indígenas de diversas culturas identificam-se cerimonialmente com alguns animais ou batizam sua tribo e sua própria descendência com nome de bichos. E, além disso, nalguns povos antigos, celebrava-se, com periodicidade, rituais cuja finalidade consistia em promover o casamento entre o homem e a natureza, formalizando pactos e reforçando os liames invisíveis que garantiriam um período de fertilidade, de boas colheitas e de fecundidade, tanto para o solo cultivado quanto para as criações domésticas, para o rebanho e para a própria prole.

A análise detalhada e percuciente que fez Osvaldo Orico, subsidiária desse e de tantos outros trabalhos, observou que “mesmo certas festas e crenças que adquiriram sabor regional […] São transplantações de cerimônias remotas, que os gauleses, germanos e escandinavos celebravam por ocasião dos solistícios de verão” [35]. Obviamente se conclui que alguns mitos que ainda hoje ouvimos, são fragmentos desses antigos rituais pagãos, que o cristianismo perseguiu e fez desaparecer. Um típico ritual celta da fertilidade é apresentado e descrito com vigor e beleza de cores e poesia, pela escritora Marion Z. Bradley, na sua saga mágica “As Brumas de Avalon”. Nele, um homem vestido como o animal sagrado e encarnado pela energia totêmica, simbolizando o poder fecundante, era posto em conúbio com mulheres – ou com uma virgem – que representavam o “espírito da terra”, o receptáculo universal da energia criadora que era representada pelo homem.

No folclore de nossos indígenas e caboclos é frequente encontrarmos histórias onde figuram relações sexuais entre seres humanos e não-humanos, animais ou encantados. Na Amazônia temos esse delfim, o Boto, e temos, também, algumas versões do Curupira, em que o sexo é negociado como escambo. Temos ainda, o Xibui (Chíbui) e outros numes, mas, ao contrário das lendas medievais onde o sexo é carregado de uma conotação cerimonial, nas nossas histórias ele não parece conter nenhum significado mágico e nem sentido moral. Há uma lenda sobre a origem do Sol e da Lua[36], onde são registradas diversas relações sexuais entre algumas mulheres e bichos.

A respeito dessas histórias eróticas com seres míticos, a opinião de Jung é a seguinte:

“El critico moralista dirá que esas figuras son projeciones de estados sentimentales de ansiedad e de fantasias de caráter repudíable.”

Entre as possibilidades levantadas por Mercier e as afirmativas da psicanálise, segundo a qual essas histórias constituem a expressão de desejos sufocados, inclino-me à primeira. Não acredito que a origem dos mitos e das relações entre seus elementos e os seres humanos sejam meras projeções inconscientes de alguns desejos represados, ou fantasias de almas sonhadoras, ou ainda, visualizações de pessoas mentalmente sugestionáveis. Defendo para o mito uma origem basal única, fundamentada na clarividência que os primitivos deviam possuir e que foram perdendo na medida que evoluíam até resultar no homem moderno. Quanto ao caráter sexual contido no mito e as relações entre um humano e um animal, parece que surgiram junto com a Criação, quando a primeira mulher de Adão, Lilith, era uma serpente!

As relações sexuais também constam de outro mito mais moderno, consoante com a Era Espacial em que vivemos: o mito dos Discos Voadores. Há relatos na casuística ufológica* onde atestou-se o contato carnal, a relação sexual, entre criaturas humanas e extraterrestres; e no curso da história humana há indícios inquietantes da presença de inteligências exobiológicas e seu concurso com os habitantes da Terra. E há ainda a crença, entre os nativos da região do Rio Negro, que através de “puçangas”, que são umas beberragens preparadas com certas plantas, a pessoa – pajé ou feiticeiro – pode transformar-se em diversos animais, como boto, morcego, pássaro, etc., e sob essa forma ir ter com alguém. Essa transformação, por certo, não se dá no plano físico, ou seja, na metamorfose, na transfiguração de gente em bicho. É mais crível que se processe num plano astral, ao qual o praticante alcança pela ingestão de certas substâncias alucinógenas, que possibilitam ao seu duplo etérico ou corpo astral, abandonar o corpo físico e se identificar com o duplo do animal.

A idéia de que um “duplo” pode ser o elemento originador, o gérmen, de um mito – tal como o grão que ao penetrar na ostra se transforma em uma pérola – também é aceita pelo eminente Câmara Cascudo. Percebemos isto quando, em sua Geografia dos Mitos Brasileiros, afirma que maragingoana é um “duplo”. Maragingoana é, para uns, a alma que, separada do corpo físico, aparece para alguém lhe anunciando a morte próxima; para outros, é tido como uma espécie de “espírito desordeiro”. Porém, esse ser astral nada tem de luxúria e libertinagem, essas características ou predicativos são de outra categoria, denominados íncubos (os masculinos) e súcubos (os femininos). Segundo os místicos e ocultistas, os íncubos e os súcubos são formas astrais originárias dos pensamentos obsedantes de natureza lasciva que conduzem a imaginação do indivíduo, durante o sonho, para uma real sensação de cópula, produzindo muitas vezes o orgasmo. Não há nada de anormal nesses sonhos eróticos, sua finalidade é libertar a pessoa da carga sexual reprimida, que se desbloqueia no mundo onírico, onde á a imaginação do sonhador que dita as normas, cria as regras e dirige o espetáculo.

Ter sonhos libidinosos está na natureza de todo ser humano, mas foram os religiosos catequistas que incutiram nos selvagens, naturalmente supersticiosos, a crença de que estes sonhos, bem como os pesadelos e as perturbações que tinham durante o sono, eram artes de um demônio que os atormentava por estarem com culpas inconfessas; por estarem incorrendo em pecado, etc. Dessa forma, os missionários disseminaram a crença num ente maléfico, um espírito do mal, responsável pelos tormentos noturnos e sonhos maus a que estavam sujeitos os íncolas. E o responsável por tudo isso era o Jurupari, “que aparece em sonhos, causando pesadelos às pessoas”.[37] Para. Orico “o sexo é a tônica da atividade mental do índio como agente criador de uma literatura oral subordina da ao instinto, pelo uso de sucos e raízes excitantes”[38], mas isso não explica porque apenas a Iara, efetivamente, é a sedutora dos homens enquanto que as mulheres podem ser seduzidas por animais que se metamorfoseam em homens. Eu creio que a questão do sexo nas lendas e mitos merece um estudo mais atencioso, pelo menos um ensaio.
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Notas
34 MERCIER, Mario. Op. cit. p. 54.
35 ORICO, Osvaldo. Op. Cit. p. 54
36 VILAS BOAS, Orlando & Cláudio. Xingu: os índios. seus mitos. Porto Alegre: Kuarup, 1986.
37 ORICO, Osvaldo. Op. cit. p. 62.
38 Id. ibid.p.25.
* A Ufologla é uma ciência emergente que se dedica ao estudo dos fenômenos que envolvem as aparições dos UFOs (Unidentified FIying Object – Objetos Voadores Não ldentificados ou OVNI) e de seres extraterrestres (ETs), e da consequente influência desses contatos sobre o planeta, sobre as plantas, animais e pessoas.

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