Franz Kreüther Pereira (Painel de Lendas & Mitos da Amazônia) Parte 6


Trabalho premiado (1º lugar) no Concurso “Folclore Amazônico 1993” da Academia Paraense de Letras

CLASSIFICAÇÃO

Antes de passarmos à segunda parte deste trabalho onde abordaremos diversos mitos, os mais significativos, convém darmos uma parada na classificação e tipologia que alguns autores nos oferecem. Não nos será difícil depois reconhecer em quais das categorias abaixo se enquadram as lendas que se seguem..

Coutinho de Oliveira apresenta-nos a seguinte classificação, logo na Introdução do seu “Folclore Amazônico”:

I – Lendas Cosmogônicas

II – Lendas Heróicas

III – Lendas Etiológicas

IV – Lendas de Encantados

V – Lendas Ornitológicas

VI – Lendas Mitológicas (ciclo da lara, da Boiuna, do Boto, do Curupira e da Matin-Taperê). Estas também são chamadas de Mitos Primários ou Domésticos.

Já Couto de Magalhães[39] dá-nos o esquema abaixo para a classificação dos deuses superiores e dos entes sobrenaturais:

* GUARA-I: Guará = vivente e Ci = mãe.
**JAÇI: Já = vegetal e Ci = mãe.
Por sua vez, Victor Jabouille[40] apresenta a seguinte tipologia:

1. Mito teológico – relata o nascimento dos deuses, os seus matrimônios e genealogias;

2. Mitos cosmológicos – debruça-se sobre a criação e o ordenamento do mundo e seus elementos construtivos;

3. Mito antropogônico – apresenta a criação do homem;

4. Mito antropológico – prolonga o anterior, descrevendo as características e desenvolvimento do gênero humano;

5. Mito soteriológico – apresenta o universo de iniciação e dos mistérios, das catábases e percursos purificatórios;

6. Mito Cultural – narra as atividades de heróis que, tal como Prometeu, melhoram as condições do homem;

7. Mito etiológico – explica a origem de pessoas e coisas; pesquisa as causas por que se formou uma tradição, procurando em especial encontrar episódios
que justifiquem normas;

8. Mito naturalista – justifica, miticamente, os fenômenos naturais, telúricos, astrais, atmosféricos;

9. Mito moral – relata as lutas entre o Bem e o Mal, entre anjos e demônios, entre forças e elementos contrários;

10. Mito escatológico – descreve o futuro, o homem após a morte, o fim do mundo.

39 Apud ORIÇO, Osvaldo. Op. cit. p. 44-47.
40 JABOUILLE, Victor. Op. Cit. P. 47-48

SEGUNDA PARTE

AS AMAZONAS

Tidas no princípio como fruto de uma observação mal feita pelos primeiros navegantes do Grande Rio; ou produto do delírio de um capitão espanhol; ou ainda, da ingenuidade clerical – sempre dispostos a aceitar o “absurdo” desde que viesse dos selvagens pagãos – de um frei Gaspar de Carvajal ou Cristobal de Acunã; as Amazonas permanecem, ainda, quase meio milênio depois, envoltas no mesmo véu de mistério, magia e sedução. Esse véu foi, em parte, descerrado pelo pesquisador Jacques de Mahieu, em seu livro “Os Vikings no Brasil”[1] e pelo arqueólogo Fernando Sampaio, autor de “As Amazonas”.

Etimologicamente, Amazonas significa “sem seios”; de A-Mazós, pois acreditavam os antigos que as famosas guerreiras da Cítia oblavam o seio direito para melhor manejarem o arco e flecha. Contudo para o Barão de Santa-Anna Nery[2] o vocábulo tem raízes gregas, compostas por ama, que quer dizer “união” e zona, significando “cinto”; assim, amazonas pode ser traduzido por “unidas por um cinto”. Já o paraense Alfredo Ladislau dá-nos, numa terminologia nativa, um significado que é exatamente igual ao que a lenda de Heródoto difundiu: “Aquelas que não têm seios” ou no dizer dos índios Ikam-ny-abas. Já o Padre de Acunã [3] informa que “Yacamiaba” é o nome dado ao pico que se destaca mais entre todos os outros”, nas altas montanhas -provavelmente do Tumucumaque – onde vivem “essas mulheres masculinizadas”; entretanto os Tapajós as conheciam por “cunhantensequina” ou “mulheres sem marido”, que ao meu ver é a expressão mais adequada Há, também, o vocábulo indígena “amassunu”, que significa “águas que retumba” ou “ruído de águas”, como um pouco provável gerador da palavra amazonas.

Busquei aqui oferecer um apanhado das prováveis origens do vocábulo “Amazonas” e seus possíveis significados, mas sejam quais forem, o fato é que devemos às lendárias guerreiras brancas da mitologia clássica, ao espanhol Francisco Orellana e ao Frei Gaspar de Carvajal o batismo que sofreu o “Mar Dulce” de Pinzon e o “Paranauaçu” ou “Paraguaçu” dos Tupis, como Rio das Amazonas e que por extensão denominaria toda a região. A lenda das Amazonas não se popularizou no Brasil, mas, a Amazônia e o rio Amazonas se transformaram em lenda mundial, pela imensa riqueza e potencial natural que guardam. Esperamos que a Amazônia não acabe como na canção de Vital Farias, “Saga da Amazônia”:

“Era uma vez uma floresta na linha do Equador…”

1 MAHIEU, Jacques. Os viklngs no Brasil. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976.
2 NÉRI, Frederico José de Santana. O país das amazonas. Belo Horizonte: Itatiaia, 1979.
(O autor é amazonense e publicou na França com o nome de Santa-Anna Nery).
3 Apud MAHIEU, Jacques de. Op. cit. p. 17.

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